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Ética, Direito e Política

Liberdade e Justiça Social; Igualdade e Diferenças; Justiça e equidade

- A articulação entre a ética e direito.


- O problema da relação entre liberdade política e justiça social social.
- A teoria da justiça de John Rawls e as críticas a que está sujeita.

Articulação entre ética e direito

As normas éticas e morais instituídas na sociedade não permitem resolver todos os conflitos e
problemas que surgem nas relações dos indivíduos entre si.
Torna-se, por isso, necessário criar um conjunto de regras que regulamente o
comportamento dos indivíduos no espaço público de forma clara e eficaz. Estas regras
encontram-se formalizadas em leis (escritas) que vinculam os indivíduos ao seu cumprimento
e preveem sanções, através de penas igualmente definidas.
O direito corresponde a este conjunto de normas (jurídicas) que regulam o comportamento
dos indivíduos de uma dada comunidade através do poder (coercitivo) organizado e
institucionalizado pelo Estado.
O Estado é a comunidade politicamente organizada que nasce, portanto, das necessidades de
compatibilização, da regulação dos conflitos e da organização da vida social. Esta organização e
gestão da vida social realiza-se a partir da política – enquanto atividade de um conjunto de
agentes políticos -, que governa essa mesma vida coletiva no sentido de tornar o Estado o mais
justo possível. Para tal, são criadas as normas jurídicas, que definem a legalidade, o que é
legítimo ou ilegítimo, justo ou injusto – trata-se de um Estado de direito.

A relação entre liberdade política e justiça social

A liberdade política é a liberdade construída na sociedade politicamente organizada. Supõe a


participação do cidadão na vida política, o seu direito a participar nos assuntos que dizem
respeito à comunidade. Contudo, a liberdade política restringe o direito de liberdade de ação
do indivíduo àquilo que é permitido por lei.
As leis, por princípio, devem ser justas e garantir os direitos dos indivíduos na sociedade. Mas
nem sempre assim acontece.
Quando pensamos em Estados em que impera a injustiça social, capazes de atentar contra os
direitos fundamentais do ser humano ou de discriminar os seus cidadãos por motivos
religiosos ou ideológicos, não temos dificuldade em aceitar a desobediência civil.
A desobediência civil consiste na violação pacífica e pública da lei, com o objetivo de chamar
a atenção para leis ou políticas injustas. Embora não seja reconhecida legalmente ela poderá,
moralmente, justificar-se.
Uma sociedade que discrimina os indivíduos, que não os considera igualmente, não poderá ser
uma sociedade justa. Sem igualdade não há justiça. Mas o que é a igualdade?
Em sentido ético, a igualdade é o direito de todo e qualquer indivíduo a realizar-se enquanto
pessoa, enquanto ser livre e autónomo. Em sentido político e jurídico, a igualdade será, antes
de mais, o reconhecimento de que todos os cidadãos são iguais perante a lei.
Mas, sendo os indivíduos diferentes, como pode garantir-se a igualdade? Como devem ser
repartidos ou distribuídos os bens sociais, a riqueza, os encargos, as oportunidades e os
cargos políticos na sociedade? Estas questões dizem respeito ao chamado problema da justiça
distributiva.
O igualitarismo defende que todos os indivíduos deverão ser considerados como iguais e,
portanto, devem receber uma igual parte dos benefícios e dos encargos da sociedade.
Também o acesso a cargos políticos e às oportunidades económicas devem ser distribuídos de
forma o mais igualitária possível.
O liberalismo igualitário encara a justiça como equidade, baseada na cooperação social como
forma de se garantir aos indivíduos os meios mínimos que permitam a realização dos seus
projetos de vida. Com base neste princípio, John Rawls formulou uma teoria da Justiça.

A teoria da Justiça de John Rawls

É no contexto das sociedades democráticas ocidentais, marcadamente pluriculturais e


dominadas por mecanismos económicos particulares, que a Teoria da Justiça de John Rawls se
apresenta. O tipo de sociedade que serve de modelo à sua reflexão é a sociedade norte-
americana.

Eis algumas questões com que Rawls se depara:

- Como se pode, no contexto económico, social, cultural e político em que vivemos, alcançar a
justiça?

- Será possível conciliar direitos iguais numa sociedade desigual?

- Como aliar os objetivos dos mais talentosos e bem-sucedidos com as dificuldades dos menos
favorecidos em concretizar os seus desejos de melhorar a sua condição?

Rawls considera necessário repensar a estrutura e o funcionamento básico da sociedade, isto


é, refletir sobre a forma como são distribuídos os direitos e os deveres e sobre as implicações
que essa distribuição acarreta em termos de vantagens e desvantagens para os cidadãos.
Na obra “Uma Teoria da Justiça”, Rawls define a justiça como virtude das instituições. Tem
valor ou é justa a sociedade que reconhece em todos (os cidadãos) a igualdade de liberdades e
direitos.

Este é o ponto de partida da teoria da justiça de John Rawls: uma sociedade só será justa na
medida em que confirma a inviolabilidade dos direitos do indivíduo enquanto pessoa e
proporcione, através da cooperação de todos, o máximo de vantagens mútuas possível. Isto
não significa que Rawls defenda um princípio utilitarista. Pelo contrário, uma sociedade justa
não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos sejam compensados pelo aumento de
vantagens usufruídas por um maior número.

Rawls propõe-se apresentar um conjunto de argumentos a partir da ideia de um contrato ou


escolha consensual e comprometida entre todos os indivíduos que pretendam formar uma
sociedade justa. Mas este contrato original não é um contrato efetivo, antes um recurso
meramente fictício, um cenário hipotético sem uma localização espacial e temporal concreta.
Para chegar a um acordo quanto às regras, leis e modo de funcionamento das instituições de
uma sociedade justa, é necessário que todas as partes contratantes se encontrem em
condições de o poderem fazer com sucesso. Ora, Rawls admite que, na situação de escolha, os
indivíduos demonstrariam a sua diversidade de interesses e ideologias e, provavelmente,
conceções distintas sobre o que são o bem e a justiça. A sua posição não é simétrica, mas
desigual. É por isso que é necessário definir as condições em que a eleição dos princípios que
irão reger a sociedade justa seja garantida. Essas condições são dadas na posição original:

«(A posição original) deve ser vista como uma situação puramente hipotética, caracterizada
de forma a conduzir a uma certa conceção de justiça. Entre essas características essenciais
está o facto de que ninguém conhece a sua posição na sociedade, a sua situação de classe ou
estatuto social, bem como a parte que lhe cabe na distribuição dos atributos e talentos
naturais, como a sua inteligência, a sua força e mais qualidades semelhantes. Parto
inclusivamente do princípio de que as partes desconhecem as suas conceções do bem ou as
suas tendências psicológicas particulares.»
John Rawls (2001), “Uma Teoria da Justiça”

A negociação ou contrato entre os indivíduos implica que a escolha dos princípios de justiça
seja feita com total imparcialidade. Para que isto aconteça é necessário que, na posição
original, todos se encontrem hipoteticamente cobertos por um véu de ignorância que os
impossibilita de ver as suas características particulares e, consequentemente, de escolher em
função dos seus interesses pessoais.

Deste modo, cada indivíduo colocaria a hipótese de vir a ocupar a pior posição na sociedade.
Nesta situação, e com toda a probabilidade, qualquer um de nós seria racionalmente levado a
empenhar-se na escolha de princípios que favorecessem sempre aqueles que pudessem vir a
ocupar a pior situação social.

Assim, as partes envolvidas no contrato original, para não correrem riscos, procurarão
maximizar o mínimo de bens sociais primários (as liberdades, as oportunidades, a riqueza) a
cada membro da sociedade a partir de alguns princípios fundamentais. Deste modo,
aprovarão:

- um princípio que assegure e proteja os direitos fundamentais dos indivíduos – principio da


igual liberdade;
- um princípio que garanta vantagens para todos e cada um, seja qual for a sua posição na
sociedade – princípio da diferença.

A ordem com que surgem os dois princípios da justiça não é arbitrária.

O princípio da igual liberdade tem prioridade em relação ao da diferença. Isto significa que,
em primeiro lugar, se reconhece que deve ser respeitado incondicionalmente um conjunto de
liberdades básicas: liberdade de pensamento e de consciência; liberdade de expressão e de
reunião; direito à propriedade privada e à proteção e ao voto., etc.
O princípio da diferença requer que sejam respeitados dois aspetos:
- todos os indivíduos são diferentes, têm características naturais que os colocam em situação
de desigualdade;
- todos devem ter a oportunidade de aceder a funções/cargos sociais, em pé de igualdade.
Seguindo uma ordem de prioridade admitida por Rawls, o segundo princípio da justiça
estabelece, em primeiro lugar, que é prioritário garantir uma verdadeira igualdade de
oportunidades no acesso a cargos e posições sociais de modo que todos possam contribuir,
em pé de igualdade, para o bem da coletividade. Em segundo lugar, e sendo cumprido o ponto
anterior, só serão admissíveis desigualdades quando estas corresponderem a uma melhoria
da situação dos menos afortunados.

Na prática, o princípio da diferença poderá exigir que os mais ricos contribuam (pagando mais
impostos, por exemplo) para que os mais pobres vejam a sua condição melhorada.

Admitindo que os indivíduos se empenham em dar o melhor de si em favor da sociedade,


porque têm sentido de justiça, e o reconhecem racionalmente, é razoável criar as condições
que diminuam as desvantagens. No final não são só os desfavorecidos que ganham com isso,
mas toda a sociedade.

Críticas à Teoria da Justiça de John Rawls

A conceção de Justiça proposta por John Rawls foi também objeto de críticas.

Para Robert Nozick, o princípio da diferença viola a liberdade porque interfere na


vida das pessoas. O facto de os mais ricos pagarem mais impostos é considerado por Nozick o
roubo do nosso tempo: o governo força-nos a trabalhar para os outros, se queremos trabalhar,
e força-nos a ajudar, quer queiramos quer não. E, assim, os impostos minam a nossa liberdade.
Nota: sendo um libertário, Nozick estaria de acordo com o Princípio da liberdade de Rawls.
Rejeição do princípio da igualdade de oportunidades
Nada existe de errado com a desigualdade social e económica.
Qualquer intervenção do Estado consiste numa violação dos direitos absolutos das pessoas.
Tirar a uns para dar a outros sem o consentimento dos primeiros é tratar as pessoas como se
não fossem pertença de si próprias, isto é, como meros meios e não fins em si mesmos,
violando os seus direitos mais básicos.
Rejeição da redistribuição de riqueza
Redistribuir implica violar a liberdade dos cidadãos.
Os indivíduos têm direito ao que adquirem e que inicialmente não pertence a ninguém (jazidas
de petróleo, patente farmacêutica por eles descoberta, etc.). Também têm direito à totalidade
das heranças ou doações que recebam ou de quaisquer negócios e contratos que venham a
realizar. Assim, se os indivíduos enriquecem de forma justa, o Estado não deve interferir para
criar quaisquer padrões de distribuição de riqueza.

Consequentemente, o Estado não deve cobrar impostos para proceder a qualquer distribuição
de riqueza, ainda que os impostos sejam necessários para assegurar as suas funções mínimas
(defesa, segurança e cumprimento das leis).

Libertarismo (liberalismo radical) de Nozick


O Estado não tem o direito de interferir na vida de alguém sem o seu consentimento. Os
impostos constituem uma forma de coerção.
Defende um liberalismo em que as desigualdades podem ser muito profundas: a existência de
pessoas muito ricas na mesma sociedade em que vivem pessoas muito pobres nada tem de
injusto, desde que a riqueza seja adquirida de forma lícita.
Portanto, as funções do Estado devem restringir-se ao mínimo indispensável, o que não deixa
de implicar a cobrança de impostos: defesa perante ameaças externas (exército), segurança
dos cidadãos e dos seus bens (polícia) e cumprimento dos contratos e das leis (tribunais). Esta
é a defesa de um Estado Mínimo.

Teoria da titularidade (Nozick)


A autonomia das pessoas é fundamental. Ao contrário de Rawls, não aceita uma distribuição
padronizada da riqueza, pois isso implica uma intervenção constante do Estado na liberdade
individual de enriquecer de forma lícita. O indivíduo é o titular legítimo dos bens que adquire
legalmente.
O indivíduo é dono de si mesmo: do seu corpo, da sua vida, mas também dos bens materiais
que a sua liberdade individual lhe permite acumular, pelo que o Estado não deve interferir
nessa liberdade individual.

Para Michael Sandel, faz a rejeição da Posição Original, para ele o Bem Comum não
é o resultado da combinação das preferências individuais; pelo contrário, o Bem Comum é algo
que tem prioridade sobre as preferências individuais. O modo de vida que define uma vida
boa (Bem Comum) é definido pelo conjunto da sociedade.
A forma de encontrar os princípios de justiça está errada (Posição Original e Véu de
Ignorância), pois não basta as nossas escolhas serem imparciais para serem boas.
Critica ao Véu de Ignorância: o véu de ignorância transforma-nos em seres fictícios,
desprendidos de laços sociais. Escolhas feitas por seres hipotéticos não são credíveis, pois
todas as nossas escolhas decorrem do enraizamento numa comunidade específica. O nosso
próprio “Eu” é construído em sociedade, pelo que o Véu de Ignorância nos obrigaria a
esquecermo-nos não apenas da nossa condição, mas do nosso próprio Eu.
O Véu de Ignorância coloca os indivíduos numa situação anterior a qualquer moral, isto é,
obrigando sujeitos individuais a tomar decisões tendo em conta apenas os interesses
individuais (e não os da comunidade onde se inserem).
Refutação da Regra Maximin: esta estratégia maximin defendida por Rawls implica que os
sujeitos apenas têm em consideração os seus interesses egoístas e tem em conta conceitos
morais. Por exemplo, é relevante saber como a riqueza é produzida, pois pode acontecer que a
riqueza seja produzida de forma imoral.
Sandel contesta que o Princípio da Liberdade tenha prioridade sobre a Igualdade.
Para Sandel o erro de Rawls consiste em ter uma noção metafísica do Homem – ou seja, tem
uma conceção do ser humano que não é real, no sentido em que se encontra desenraizada de
tudo aquilo que lhe é anterior, designadamente a sociedade, a comunidade da qual faz parte.
Aceitação do Princípio da Diferença

Sandel aceita o Princípio da Diferença pois obedece obedece a uma lógica comunitarista, pois
preconiza a correção das desigualdades introduzidas pela lotaria social e natural. Sandel não
critica este princípio, mas sim a prioridade dada ao 1.º princípio, isto é, à prioridade da
Liberdade sobre a Igualdade.
Cabe ao Estado promover algumas conceções de Bem em relação a outras, se essas conceções
contribuem para o Bem Comum de uma determinada sociedade.
Comunitarismo (Michael Sandel)
Os comunitaristas consideram que o indivíduo se define sobretudo pela sua pertença a uma
comunidade (em termos psicológicos e sociológicos). Isto é, existe um primado da comunidade
sobre o indivíduo – o indivíduo só é o que é em função da comunidade onde se insere.
Para os comunitaristas, as desigualdades sociais colocam em causa o Bem Comum e
constituem fonte de injustiças, pelo que o Estado deve intervir para as combater,
redistribuindo bens essenciais de forma igualitária pelos cidadãos: dinheiro, emprego, saúde,
educação, poder político.
Sandel não é um comunista, mas sim um comunitarista: pertencemos não apenas a nós
próprios, mas também à comunidade onde nos inserimos.

Nota: Sandel não desenvolveu uma teoria completa da justiça alternativa a Rawls. Esse mérito
coube a Michael Walzer, que defende a “Igualdade Complexa”, uma teoria que dá ênfase à
ideia de comunidade, aceita as desigualdades mas defende que se evitem situações de bens e
classes sociais predominantes.

FIM

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