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ESTIMULANDO O RACIOCÍNIO1

Iracy Lea Pecora2


Maria Paula Liberato Costa de Andrade3
Roberta Peixoto Arêas da Silva4
Lívia Christina Andreucci5

Resumo: Os vários programas aplicados pelo Governo Federal nas Escolas de Ensino
Fundamental, associados à permanência das crianças em frente da televisão,
contribuíram para a atual situação de significativa incapacidade de raciocínio, observada
no brasileiro. Como o aprendizado exige a habilidade de realizar relações com
conhecimentos adquiridos anteriormente, as crianças, e posteriormente os adultos,
acabam assimilando conhecimentos que não passaram pelo processo dedutivo e, por
isso, a informação registrada não tem embasamento e é mais facilmente esquecida. Por
isso, este projeto pretende intervir na realidade escolar, estimulando o raciocínio lógico e
o processo dedutivo em crianças da quinta à sétima séries, a fim de não só favorecer o
aprendizado das disciplinas regularmente oferecidas nas escolas mas, também, preparar
melhor a criança para o mundo que a cerca. Os resultados parciais estão aqui
apresentados, pois o aprendizado é um processo cumulativo, e os benefícios desta
abordagem serão mais bem percebidos a longo prazo.

Palavras-chave: raciocínio lógico, capacidade, inter-relações, educação, intervenção.

1. HISTÓRICO

A necessidade de formar indivíduos o mais rápido possível para estarem “prontos” para
o mercado de trabalho e para a vida fez com que o governo brasileiro determinasse uma atitude mais
acomodada por parte da Escola e de seus professores, principalmente em relação ao ensino
fundamental.

A alfabetização não se refere apenas a saber ler, escrever e a realizar operações


básicas de matemática. Ela também se refere ao desenvolvimento das vontades de ler, saber,
pesquisar, do interesse pelo seu “em torno” e à curiosidade em acompanhar o que ocorre pelo
mundo.

1
Pesquisa vinculada ao Núcleo de Ensino/PROGRAD, com subsídios da FUNDUNESP.
2
Coordenadora do projeto e professora adjunta do Departamento de Física e Biofísica, docente da disciplina de Biofísica
para os diferentes cursos ministrados no Instituto de Biociências de Botucatu.
3
Aluna bolsista do quarto ano do Curso de Ciências Biológicas.
4
Aluna bolsista do quarto ano do Curso de Ciências Biológicas.
5
Diretora do Educandário “Prof. Eurípedes Barsanulfo”.

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Essa acomodação do “receber” a informação tornou o indivíduo preguiçoso para
pensar e raciocinar, fatores que conduzem ao questionamento de uma informação transmitida na
Escola, transformando-a, após análise, na sua própria verdade.

Na atualidade, o jovem absorve todo um conjunto de falsos valores e verdades


transmitidos diretamente pela mídia, principalmente pela televisão. Ele passa a viver uma realidade
distorcida, que não vale nem para ele, nem para ninguém, esquecendo que as novelas são para
entreter e não para designar um caminho a seguir.

Para tornar ainda pior a situação, é a juventude atual aquela que participou da
revelação dos mistérios da informática, popularizando-a e deixando-a mais próxima das pessoas.
Para as crianças, o acesso à Internet é interessante e oferece inúmeras oportunidades de
aprendizado, mas elas preferem jogar, desenvolvendo, de fato, algumas habilidades e não o
raciocínio lógico.

Nos últimos anos, ingressaram na universidade muitos estudantes que viveram tal
problemática e que, por isso, carecem de curiosidade, imaginação, interesse, etc., os quais são
atributos essenciais à formação de profissionais, pesquisadores e professores atuantes.

Assim, este projeto nasceu da preocupação de reverter o processo, oferecendo aos


jovens novas perspectivas para que se estabeleçam relações de aprendizado e estimulando o
raciocínio lógico.

Desde 2001, essa proposta está sendo desenvolvida no Educandário “Prof. Eurípedes
Barsanulfo”, localizado no Jardim Brasil, periferia de Botucatu, realizada inicialmente sem verba de
apoio e, agora, com auxílio da FUNDUNESP.

Denomina-se Educandário porque as crianças estudam em regime de semi-internato,


com atividades das 7 às 17 horas. Há professores assalariados mantidos pelo Núcleo Assistencial
Joanna de Ângelis, com doações feitas pela comunidade e outros voluntários que preenchem a carga
horária com atividades complementares como xadrez, pintura, culinária, escotismo, música, reforço
escolar, etc. Nesse contexto, surgiu a idéia de se estimular o raciocínio lógico, atividade que tem sido
muito bem recebida pelas crianças matriculadas.

2. INTRODUÇÃO
Qualquer processo de onde se tire uma conclusão a partir de um conjunto de
premissas, válidas ou não, pode ser chamado raciocínio (BLACKBUM, 1997).

Não há consenso quanto à definição da lógica. Alguns autores definem-na como o


estudo dos processos válidos e gerais pelos quais atingimos a verdade, outros como a ciência das
leis do pensamento ou somente como o estudo dos princípios da inferência válida. Essa pluralidade

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de definições dá-nos conta da diversidade de estudos que são abrangidos pela Lógica (BLACKBUM,
1997).

Na sua origem, por Aristóteles, no século IV a.C., surgiu como uma ciência autônoma
que se dedica ao estudo dos atos do pensamento: Conceito, Juízo, Raciocínio, Demonstração. É por
essa razão que a lógica aristotélica se designa também por lógica formal. Em contraposição a tal
conceito de lógica formal, surgiu um outro – a lógica material - para designar o estudo do raciocínio
no que ele depende quanto ao seu conteúdo ou matéria (BLACKBUM, 1997).

A lógica formal estuda os casos em que se tiram conclusões a partir de premissas


(BLACKBUM, 1997). O ser humano, entretanto, no cotidiano, acaba concluindo a partir de bases
com premissas falsas e muito influenciadas pela emotividade vivenciada no momento. Por isso,
atualmente, entre outras razões, é mais interessante avaliar-se a Inteligência Emocional (IE) no lugar
do Quociente de Inteligência (QI). Segundo Piaget, a afetividade é a energética da ação: a
afetividade é o motor (a força) que impulsiona a ação (o comportamento) e a inteligência é a
estratégia (o modelo) dessa ação (desse comportamento).

O raciocínio é um processo dinâmico que está constantemente sujeito a alterações


renovadoras, baseadas em novos fatos/premissas que foram reveladas ao pensamento do indivíduo.
A ação de raciocinar se fundamenta em inter-relações que acontecem no cérebro e o exercício
mental favorece a comunicação entre os neurônios (BERNE & LEVY, 1988). Assim, há grande
possibilidade de se exacerbar a capacidade intelectiva ao se estimular o raciocínio.

Tanto a inteligência como a memória se fundamentam no cérebro. Logo, quanto mais


se relacionam, mais favorecem as respostas dos indivíduos ao meio que os cerca. A constituição
cerebral é o resultado da ação dos genes herdados e moldados pelo ambiente (AL MANSA). A
Escola tem um papel primordial nesse processo, pois fornece informações que, associadas àquelas
obtidas no âmbito familiar, acabam por formar o indivíduo. Este processo, que é estabelecido ao
longo dos anos pelas experiências vividas e pelos estímulos recebidos, pode ser orientado pela
Escola ou pela família. Uma vez diagnosticado o problema, cabe aos Formadores de Educadores a
tentativa de romper esse processo.

O caminho de uma maior inteligência é o aprendizado, visto como a incorporação de


novas estratégias e conhecimentos para definir e atingir objetivos (VILELA, 2000).

Desenvolver o Raciocínio Lógico é essencial para resolver problemas, tomar decisões,


ter raciocínio construtivo e crítico, entre outros, os quais são importantes não só para as atividades
escolares, mas também para a vivência do cotidiano e para a obtenção de sucesso nos dias atuais.
Essa experiência, contudo, não é inédita. Em Malta, no Mediterrâneo, Edward Bono
(www.edwdebono.com) fez um experimento envolvendo várias escolas, com seus professores e

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alunos. Distribuiu-os de forma a receber, ou não, a estimulação do Raciocínio Lógico e obteve
resultado bastante positivo naqueles estudantes que foram estimulados. Em uma realidade como a
do Brasil, onde nossos alunos não conseguem interpretar adequadamente um texto, parece-nos
bastante oportuno tal tipo de abordagem.

Assim surgiu a idéia deste trabalho: estimular o Raciocínio Lógico, oferecendo novas
oportunidades para crianças da quinta à sétima séries do Ensino Fundamental que estão, segundo
PIAGET (1985), no estágio das operações intelectuais completas (começo da lógica).

“Quando eu examino a mim mesmo e os meus métodos de pensamento, chego à conclusão de que o
dom da fantasia significou mais para mim do que meu talento para absorver conhecimentos”

(Albert Einstein)

3. METODOLOGIA
Foram oferecidos exercícios em que os alunos deveriam utilizar o raciocínio para
respondê-los, deduzindo a resposta mais conveniente para o problema proposto. Por vezes, a
possibilidade de mais de uma solução era explorada, favorecendo a criatividade e o raciocínio do
aluno. Todas as respostas propostas foram valorizadas e desenvolvidas em conjunto, sendo que a
classe foi orientada pela explanação do proponente da solução.

A avaliação foi realizada a cada dois meses, com 50 % dos exercícios baseados
naqueles que foram oferecidos em sala de aula e a outra parte com exercícios novos, nunca vistos
anteriormente, para acompanhar o desenvolvimento do raciocínio lógico.

Foi aplicado um pré-teste no início e um pós-teste no final do período, individual e


confidencial. Não houve divulgação dos resultados para os educandos.

Os exercícios não foram necessariamente vinculados a conhecimentos acadêmicos já


adquiridos. Foram privilegiadas atividades que dependessem do raciocínio lógico/dedutivo para sua
resolução, mas também foram desenvolvidas aquelas que envolvessem raciocínio indutivo. Além
disso, para completar a abordagem, foram oferecidos jogos educativos ou que exigissem raciocínio
ou, ainda, que dependiam de boa concentração.

Todo o material utilizado foi preparado pelos bolsistas e adequado à série em que foi
aplicado, sob supervisão da Coordenadora.

Cada classe recebeu uma intervenção semanal de 90 minutos, contando com a


participação da docente e das bolsistas.

As atividades desenvolvidas foram de estimulação à percepção espacial, à percepção


intelectiva, ao raciocínio lógico-matemático e à capacidade de trabalhar conhecimentos e fatos do dia

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a dia, principalmente envolvendo atividades com problemas matemáticos de velocidade média,
problemas matemáticos de idade, problemas matemáticos que envolviam dados, desafios que
utilizavam desenhos que exigiam perspectiva, problemas com formas geométricas, etc.

Durante as atividades, foram feitas anotações sobre as diferentes reações dos alunos
frente às atividades propostas, tais como: tempo que cada aluno levou para realizar cada atividade,
grau de dificuldade encontrado, satisfação ao realizá-las, diferentes caminhos encontrados para a
solução das atividades e opinião dos mesmos. A cada semana, na reunião semanal da
Coordenação, foi feita uma avaliação das atividades desenvolvidas e, se necessário, havia uma
adequação de nível, ou objetivo a ser atingido.

Todos os alunos foram estimulados a responder as questões, mesmo que lhes


parecessem incorretas, para valorizar e propiciar debates entre os educandos. O material aplicado
consistiu em exemplares doados de Revistas da Editora Ediouro, Revista Enigmística e Revista
Recreativa. Algumas atividades foram inspiradas na Revista Superinteressante e em vários sites da
Internet, tais como:

<http://www.mundobrasil.hpg.ig.com.br/testedeqi.htm>

<http://www2.uol.com.br/super/>

<http://www.politestes.hpg.com.br/bas.htm>

<http://www.iqtest.com/practicetest.html>

<http://planeta.clix.pt>

<http://www.mundobrasil.hpg.ig.com.br/testedeqi.htm http://www.iqtest.com/practicetest.html>

<http://imodelo.globo.com/divertudo/>

<http://www.politestes.hpg.com.br/logic.htm>

<http://www.juegosmensa.com/>

<http://www.politestes.hpg.com.br/testintel1.htm>

<http://www.plastelina.net>

<http://sitededicas.uol.com.br/promocao_enigma.htm>

<www.mensa.es>

<http://alfy.sapo.pt/Create/mosaic/index.asp>

<http://www.mentat.com.ar/ejercitacion.htm>

<http://www.desargues.univ-lyon1.fr/home/lygeros/Mensa/eurekaspan.html>

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4. EXEMPLOS DAS ATIVIDADES PROPOSTAS

JOGOS
a) Tangram – distribuído individualmente, com uma cópia do desenho a ser conseguido. Foi
também aplicado de forma diferente, conforme a idade dos educandos.
b) Batalha Naval – a partir de uma matriz 14 x 14, tendo as colunas identificadas por letras (A – M)
e as linhas por números (1 – 14). Esse jogo foi apresentado com elementos diferentes a serem
organizados na matriz, conforme o nível de dificuldade pretendido. Os alunos jogavam em
duplas, na própria classe.
c) Pontinhos – foram distribuídas matrizes 14 x 14 cm que foram disputadas em duplas ou em
grupos de 4 alunos.
d) Resta um – cada aluno recebeu um jogo e foram aplicadas distribuições diferentes conforme a
dificuldade pretendida.
e) Damas – aplicado de forma usual, conforme regras próprias.
f) Palavras Cruzadas – desenvolvidas pelos próprios alunos, depois de se exercitarem nas revistas
doadas.

EXERCÍCIOS
Quinta Série
a) Escolha a opção que completa a seqüência:
① ③ ⑤
?
✪ ✫ ✪

1) ⑩ 2) ⑦ 3) ⑦ 4) ⑤

✫ ✪ ✫ ✪

b) Complete a linha pontilhada, conforme o segredo da coluna da esquerda:

10 .....................

8 1 10 3

2 5

c) Dois patos e dois cães têm um total de quatorze patas. Falso ou verdadeiro?
d) Em Portugal existe 7 de setembro?
e) Alguns meses têm 30 dias, outros 31 dias. Quantos meses têm 28 dias?

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f) Você encontrou uma caixa de fósforos, com apenas um palito num quarto escuro e frio. No
quarto há uma lamparina à querosene e lenha seca. O que você acenderia primeiro?
g) Quem é o filho do meu pai que não é meu irmão?
h) Quantos noves (9) existem entre 0 e 100?
i) Complete as séries numéricas:
1, 3, 9, 27, 81 ______
1, 3, 1, 5, 1, 7, 1 _____
2, 1, 4, 1, 6, 1 ______
10, 1, 9, 1, 8, 1 _____

Sexta Série
a) Descubra o segredo do Quadrado Mágico
de Albrecht Dürer.

b) Nove executivos se encontram numa reunião e se cumprimentam. Ou seja, cada um


cumprimenta os outros 8. Sendo que não se pode contar os apertos de mãos repetidos,
quantos cumprimentos ocorreram?
c) Temos 4 correntes de 3 elos cada uma. Queremos unir as 4 para formar uma corrente
fechada. Abrir um elo custa R$ 20,00 e fechar custa R$ 30,00. Quanto devemos gastar?
d) Se um médico lhe receitasse agora 3 comprimidos para serem tomados um a cada 30
minutos, em quantas horas os comprimidos terminariam se você seguir corretamente a
receita???
e) Uma lesma deve subir um poste de 10 metros de altura. De dia sobe 2 m e à noite desce 1 m.
Em quantos dias atingirá o topo do poste?
f) Três gatos comem três ratos em três minutos. Cem gatos comem cem ratos em quantos
minutos?
g) Quando João estava passeando com seu cachorro, encontrou o filho do marido da filha única
de sua sogra. Qual é o parentesco dele com João?
h) Que número falta nesta seqüência? 1 3 9 ___ 81 243

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i) Qual cor que é maior que a outra (ex: se rosa>cinza e preto>rosa, então a maior cor é a
preta):
Laranja>vermelho Verde<azul Laranja<amarelo
Azul<anil Vermelho<violeta
Verde>amarelo Violeta>anil

Sétima Série
a) Colocar os números ímpares de 1 a 31, ambos inclusive, e os números 20, 32, 34, 38 e 40
nos vinte vértices do quatro pentágonos e no centro da teia de aranha, de maneira que a
soma dos cinco números dos vértices de qualquer pentágono seja igual à soma dos cinco
números de qualquer raio e igual a 100.

b) Você participa de uma competição. Você ultrapassa o segundo colocado. Em que posição
você está agora?
c) Se um bezerro pesa 75 kg mais meio bezerro, quanto pesa um bezerro inteiro?
d) Se fossem duas horas mais tarde, faltaria para meia-noite a metade do que faltaria se fosse
uma hora mais tarde. Que horas são?
e) Um frasco contém um casal de um tipo de insetos. Esses insetos reproduzem-se e o seu
número dobra todos os dias. Em 50 dias o frasco está cheio. Em que dia o frasco esteve pela
metade?
f) Num curral há 74 cabeças e 245 patas e pés. Quantos perus e coelhos existem, sabendo-se
que um coelho não tem uma perna?
g) Se, num mesmo mês, três domingos caíram em dias pares, que dia da semana foi o dia 20?
h) Você é prisioneiro de uma tribo indígena que conhece todos os segredos do Universo e,
portanto, sabem de tudo. Você está para receber sua sentença de morte. O cacique o desafia:
"Faça uma afirmação qualquer. Se o que você falar for mentira, você morrerá na fogueira. Se
falar uma verdade, você será afogado. Se não pudermos definir sua afirmação como verdade
ou mentira, nós te libertaremos. O que você diria?
i) Sem tirar o lápis do papel, copie o desenho abaixo, sem unir os números:

100

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5. RESULTADOS PRELIMINARES
Os resultados preliminares indicam um efeito positivo no aprendizado escolar da
maioria dos alunos das classes envolvidas, do Educandário Prof. “Eurípedes Barsanulfo”.
A permanência das crianças atendidas no Educandário, por dez horas seguidas,
favoreceu o desenvolvimento das atividades. Inicialmente, propuseram-se atividades de 120
minutos/classe, mas, as crianças perderam o rendimento, a atenção e o interesse por atividades de
raciocínio por mais de 90 minutos, devido, provavelmente, ao cansaço mental.
As atividades foram desenvolvidas nas classes de 5.ª, 6.ª e 7.ª séries do Ensino
Fundamental, abrangendo 50 alunos nas faixas etárias de 11 a 15 anos, totalizando cerca de 60
horas/ano de atividade por classe.
Houve uma significativa participação dos alunos nas atividades propostas, sendo uma
experiência gratificante, além de desafiadora, também para a Coordenação.

A dinâmica dos trabalhos teve que ser exaustivamente explicada aos alunos; isto
porque eles demoraram a entender que, nas atividades propostas em classe, não necessariamente
deveria haver apenas a resposta do Professor – ou seja – uma verdade única. Por isso, a liberdade
de argumentação para a defesa da idéia favoreceu o crescimento intelectual dos alunos.

Além disso, as respostas, mesmo incorretas, ao serem valorizadas, estimularam a


criatividade, auto-confiança e valorização de todos, indistintamente. Houve uma tendência inicial de
se qualificar o colega que se manifestava como “burro” se a resposta lhes parecia errada. Tal atitude
foi sistematicamente condenada e, aos poucos, foi abandonada.

Os efeitos não foram obtidos de imediato, mas sim paulatinamente; foi preciso um
certo tempo para que os alunos se acostumassem com o novo tipo de abordagem, o qual diferia das
matérias normais a que estavam habituados, tendo em vista que algumas atividades não possuíam
apenas uma solução, e que, na maior parte das vezes, necessitavam de bastante reflexão. A grande
maioria sentiu-se gratificada por não ter que copiar a matéria da lousa.

Alguns alunos, que no começo eram tímidos, desinibiram-se frente a certas atividades,
demonstrando bastante entusiasmo ao conseguirem realizá-las, muitas vezes, de forma bem rápida.
Ao mesmo tempo, outros tentavam arduamente encontrar a solução, chegando a pensar em desistir.
A posição da Coordenação sempre foi a de estimular, obtendo respostas às vezes surpreendentes
com as soluções encontradas pelos alunos.

A resolução que mais se destacou, considerada “certa” pela Coordenação, mas


diferente da esperada, foi a resolução da questão i) da sétima série, que se encontra no item anterior.
A solução esperada era a seguinte: pegar uma folha de papel, dobrá-la, deixando visível a parte de
baixo; desenhar o número 100, passando o lápis de forma que os números saíssem na parte de baixo
e as ligações entre um número e outro ficassem na parte de cima do papel. A seguir, sem tirar o lápis

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do papel, apoiado na parte de baixo, desdobrar o papel e completar a circunferência. Esta solução
sempre é acompanhada com surpresa pelos alunos, pois eles dificilmente imaginam a possibilidade
de se dobrar o papel (observação pessoal realizada em turmas anteriores). Houve, entretanto, um
aluno que deu a seguinte solução: não dobrou o papel, mas manteve um lápis apoiado no canto da
folha, segurando-o com a mão esquerda, e, com a mão direita, fez o desenho solicitado. Ele cumpriu
o determinado no exercício e, por isso, foi considerado como resposta certa.

Todas as respostas obrigatoriamente deveriam ser explicadas e justificadas e, por isso,


obteve-se uma grande participação dos alunos: eles liam os exercícios em voz alta, satisfeitos,
mostrando para os colegas a sua solução e o caminho percorrido para nela chegar.

Algumas atividades foram explicadas na forma de um pequeno teatro; ou melhor, uma


encenação sobre o enunciado da atividade, como a do item “h”, da sétima série.

Observou-se também que uma linha de raciocínio não está definitivamente ligada à
idade, tendo em vista que, em algumas atividades, os alunos da 5a série obtinham melhores
resultados que os alunos da 7a série, quando se aplicava exercício semelhante ou, até mesmo, igual.

Os alunos da 5ª. Série, ainda que mais novos, apresentaram, de uma forma geral,
maior desenvoltura nos trabalhos realizados. Tal resultado não pode ser considerado definitivo, pois
a metodologia de ensino do Educandário mudou e a diferença na agilidade do raciocínio pode ser
decorrente desse fato e não da série ou da idade. A observação é reforçada pela dificuldade que a
7a série apresentava, última classe a se formar antes da nova metodologia ser aplicada.

Na maioria das vezes, eles nos surpreenderam com diferentes respostas para a
mesma atividade ou traçando diferentes linhas de raciocínio e chegando a uma solução satisfatória,
mostrando que se havia alcançado o intuito do projeto: a estimulação do raciocínio lógico.

5.1. PRÉ-TESTE E PÓS-TESTE


Foram aplicados testes de avaliação mental que não tiveram objetivo classificatório, e
sim foram discutidos e explorados por todos os envolvidos. As respostas obtidas nos testes de
avaliação foram utilizadas como indicadoras do nível de raciocínio individual e como norteadoras para
novas atividades. Houve significativa melhora no desempenho da 5ª. Série (31 % a mais de acertos,
em média), um aumento menor para a 6ª série (23 %) e apenas 10,6 % de aumento para a 7ª. Série.

6. CONCLUSÕES

Apesar de preliminares, os resultados obtidos mostraram-se muito promissores.

Houve ganho na agilidade mental, na lógica do raciocínio, na criatividade, na


espontaneidade, na desenvoltura, na desinibição e na clareza da expressão da fala.

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O trabalho desenvolvido deve ser continuado, uma vez que os efeitos buscados e
observados são cumulativos. Com ele, elevam-se as possibilidades de serem incorporados novos
mecanismos de raciocínio, pois, quanto maior a estimulação, melhores serão os resultados.

Além disso, pretende-se estender o trabalho a outras séries, envolvendo as demais


professoras, a fim de alcançar o melhor resultado possível.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AL MANSA, J. M. M. Aspectos cognitivos del cerebro. Edición digital
<http://www.versee.com/ebooks/librosvirtuales.html>.
BERNE, R. M. ; LEVY, M. N. Fisiologia. 2. ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988, p. 829.
BLACKBUM, S. Dicionário Oxford de Filosofia. Tradução de Desiderio Murcho et al. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editora, 1997, 435 p.
PERKINS, D. A banheira de Arquimedes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, 337 p.
PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. 13ª impressão, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1985,
146 p.
PIAGET, J. Language and thought of the child – judgment and reasoning in the child – comment.
New Ideas in Psychology. v. 13, p. 325-40, 1995.
VILELA, V. V. Como expandir sua inteligência. Uma abordagem prática de como integrar ação,
pensamento e emoção para produzir resultados. Edição digital, Brasília, 2000
<www.possibilidades.cjb.net>.

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