Você está na página 1de 74

Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson

Série Fascinação no. 101

Mentira Fatal
“Desire”

Anne Hampson

Copyright: © 1981 by Silhouette Books


Título original: "Desire"
Tradução: Suzana França Pinto
Copyright para a língua portuguesa: 1984
Abril S.A. Cultural — São Paulo

"Então era tudo mentira, Kim! Você não dormiu com meu irmão... nem
com nenhum outro homem!", disse Markus Christou no dia em que descobriu
que sua esposa era virgem.
E Kim achou que ele a odiaria ainda mais por ter mentido tanto,
levando-o a um casamento sem amor, apenas para salvar a honra da família.
Mas agora estava feito! Não importava que ele a acusasse de mentirosa, nem
que a desprezasse! Ela já havia se apaixonado perdidamente e faria de tudo
para conquistar aquele grego frio e insensível, nem que para isso tivesse que
aceitar a vida cruel que ele lhe oferecia, nem que tivesse que morrer de amor
nos braços dele...

Digitalização: Andreza.
Revisão: Valéria Fratini.

-1-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

CAPÍTULO I

Kim RuSsell ajeitou a fivela que lhe prendia os cabelos longos e


dourados. Estava pronta para sair com seu namorado grego, mas havia uma
mecha de cabelo que teimava em soltar-se da fivela e cair-lhe pelo rosto. Ela
suspirou. Demetrius se envolvera demais com ela, e isso não era nada bom.
Não o levara a sério até então, mas suspeitava que, naquela noite, ele a
pediria em casamento. Suspirou novamente. Não queria magoá-lo!
Os dois se conheceram sob circunstâncias curiosas: seus carros
ficaram presos no estacionamento de um banco. Kim não pôde deixar de
sorrir ao ver o ar desolado daquele rapaz lendo a placa: "Este
estacionamento funciona até as três e meia".
— O que vamos fazer? — indagou ele, a testa franzida de preocupação.
— Precisei fazer uma pesquisa na cidade e não encontrei outro lugar para
estacionar.
— Pois é, nós fomos punidos — brincou Kim. — Este estacionamento é
de uso exclusivo dos clientes do banco, nâo é? Quisemos bancar os espertos
e nos demos mal!
— Tenho que estar na Universidade às cinco e meia! — lamentou ele.
— Só vai conseguir tirar o carro daqui amanhã de manhã, depois das
dez. — Kim já se resignara. Morava perto dali e poderia pegar um ônibus
com facilidade. — Você terá de ir de táxi para a Universidade.
No dia seguinte eles se encontraram novamente, ambos com ar furtivo,
temendo ser surpreendidos pelo uso indevido do estacionamento. Por sorte,
nada aconteceu, e eles se despediram com um aceno de mão.
Uma hora mais tarde, por uma coincidência incrível, encontraram-se
num café. Um sorriu para o outro, e o rapaz se aproximou.
— Acho que é o destino! Meu nome é Demetrius. Que tal almoçarmos
juntos?
Kim hesitou, mas acabou aceitando o convite. Gostou daquele rosto
bronzeado, franco, dos olhos castanhos e simpáticos. Além do mais, estava
de férias por uma semana, e não tinha outros compromissos.
Demetrius, apesar de estar realizando uma pesquisa sobre, a
arquitetura da cidade, também dispunha de tempo para conversar um
pouco. O almoço foi muito agradável. Falaram sobre a arquitetura medieval
de Chester e sobre os vários monumentos da cidade que mereciam estudo.
— Há quanto tempo está em Liverpool? — perguntou ela.
— É meu último ano na Universidade.
— E por que não estudou arquitetura em seu país? A Grécia deve ser
maravilhosa, eu não sairia de lá por nada nesse mundo!
— Bem, eu moro numa ilha, e nela não há escolas. Poderia ter ido
estudar em Atenas, mas todos os meus amigos vieram para Liverpool, e eu
preferi segui-los, naturalmente. Por sorte, meu irmão, que também é o meu
tutor, não se opôs à ideia.
Depois de uma hora de animada conversa, Kim já sabia de muitas
coisas sobre Demetrius Christou e seu irmão mais velho, Markus, o qual
parecia ser um homem arrogante, decidido, convencido de sua importância.
Era proprietário de uma imensa fazenda de laranjas e azeitonas na Grécia,
além de possuir o enorme Castelo Astura, situado na ilha de Malindos, no

-2-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

mar Egeu.
— O castelo e a fazenda pertencem exclusivamente ao seu irmão? —
perguntou Kim, intrigada. — Você não tem direito a uma parte disso?
— Papai deu tudo para ele porque é o mais velho. Markus e eu somos
meio irmãos.
— Ele é casado?
— Tem trinta e cinco anos e até agora não mostrou interesse nenhum
pelo casamento.
Kim sorriu consigo mesma ao ver Demetrius corar. Pelo jeito, Markus
Christou possuía muitas namoradas, mas não se decidia por nenhuma. Os
homens gregos sempre tiveram a fama de ser os mais ardentes e
apaixonados amantes do mundo, e ele não devia fugir à regra.
Depois daquele dia, Demetrius a convidara-para jantar no sábado e,
nos três meses seguintes, saíram várias vezes, sempre num clima de
amizade e simpatia.
Agora Kim se preparava para encontrá-lo mais uma vez. Seu coração
estava pesado. Demetrius se iludira, se envolvera demais, e ela precisava
colocar um ponto final naqueles encontros antes que ele se apaixonasse.
"Quanto antes eu conversar com ele, melhor", pensou, enquanto
pegava a bolsa de cetim branco que combinava com o longo que estava
usando. Era um vestido rodado, de corte simples, que caía em pregas soltas
até o chão. O pano leve e vaporoso revelava as suas formas esguias e bem-
feitas, dando-lhe uma aparência delicada e misteriosa.
Os cabelos loiros e volumosos caíam-lhe sobre as costas, combinando
com o branco do vestido c contrastando com os olhos azuis, que às vezes
pareciam mudar para o verde. Possuía uma boca generosa, muito bem-feita.
Demetrius dirigiu-lhe um olhar de pura admiração, quando se
encontraram no saguão do hotel Grosvenor, de Chèster.
— Você está maravilhosa! — Estendeu os braços e segurou-a pelas
mãos, com fervor. — Linda!
Kim corou. Muitos hóspedes presenciaram a cena. Demetrius estava
tão extasiado que era capaz de se declarar ali mesmo!
— Kim, eu...
— Vamos pedir um drinque? — interrompeu ela, conduzindo-o
gentilmente até um sofá do saguão.
— Eu pretendia ir buscá-la. — Demetrius sacudiu a cabeça, desolado.
— Por que não me deixa ir até a sua casa?
— Meus pais não gostariam de me ver saindo com alguém tão jovem —
respondeu ela, com cuidado.
— Já tenho quase vinte e um anos, apenas dois a menos que você.
Isso não significa nada.
— É uma boa diferença — retrucou Kim, gentilmente. — O homem
deve ser mais velho que a mulher. Isso quando o assunto é sério, claro! Mas
nós não temos que nos preocupar com isso, não é mesmo?
Ele arregalou os olhos, chocado.
— Então, você acha que o nosso relacionamento não é sério?
— Não, Demetrius. Somos apenas bons amigos e...
— Mas eu ia pedir você em casamento! — interveio ele, desesperado. —
Oh, Kim, você sabe que eu te amo!

-3-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Kim engoliu em seco, lamentando-se intimamente por não ter


terminado antes com aquele namoro.
— Não, Demetrius, você pensa que me ama, mas não é verdade. Está
iludido.
O rapaz sacudia a cabeça com veemência.
— Eu te amo. Não estou enganado. Já tenho idade suficiente para
isso, Kim.
— Já parou para pensar no que o seu irmão acharia disso tudo?
Demetrius fez uma pausa antes de responder.
— Eu... eu lhe pedi consentimento para...
— O quê? — exclamou Kim, arregalando os olhos. — Você lhe pediu
consentimento para casar-se? — Kim sacudiu a cabeça. A situação era pior
do que ela imaginara. — Mas Demetrius, como pôde?
— Há semanas que ligo para Markus todos os dias, pedindo seu
consentimento, mas ele parecia inflexível... isso até quinta-feira, quando
finalmente resolveu ceder, dizendo que eu podia me casar com você.
Kim notou quando Demetrius engoliu em seco e desviou o olhar.
Estranhou aquela atitude. Por que ele havia corado, e por que desviara o
olhar com aquele ar culpado?
— O que fez seu irmão mudar de ideia?
— Eu... ele... acho que ele percebeu que eu estava disposto a tudo
para me casar.
— Será? — Kim o observou, atentamente. — Seus argumentos devem
ter sido muito convincentes para ele ceder de repente.
— Claro! Se não, Markus jamais consentiria com o nosso casamento!
— Mas o que foi que você disse de tão importante assim para ele
mudar de ideia de um dia para o outro?
Demetrius não respondeu. Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira,
abriu e fechou a boca.
— Não vai me responder, Demetrius?
Ele sacudiu a cabeça, exasperado.
— Não disse nada demais.
— Demetrius. — Kim buscou seus olhos esquivos. — Você disse
alguma coisa que eu gostaria de saber.
— Acho que ele ficou saturado de tanto eu insistir e acabou cedendo.
Markus não é muito paciente, e minha perseverança terminou por convencê-
lo.
Kim tinha certeza de que Demetrius estava mentindo, e tentou mais
uma vez:
— Você está se portando de maneira muito estranha, Demetrius.
— Estranha? Por quê?
— Bem, pelo que me disse sobre o seu irmão, ele não mudaria de ideia
com tanta facilidade, depois de ter tomado uma decisão.
"A menos que Demetrius tenha alegado alguma coisa que mudasse
completamente a situação", pensou ela, franzindo a testa.
— Mas eu já lhe falei que Markus é um sujeito impaciente! —
exclamou Demetrius, claramente ofendido. — Não entendo sua atitude, Kim.
Kim deu um suspiro e resolveu deixar o assunto de lado. Além do
mais, o garçom já se aproximara para entregar-lhes o menu.

-4-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Por alguns instantes os dois permaneceram em silêncio, escolhendo os


pratos. De repente Demetrius olhou para ela, visivelmente emocionado.
— Estou falando sério, Kim. Quero me casar com você. Pense nisso,
por favor, antes de dar uma resposta definitiva.
Kim sacudiu a cabeça, lentamente.
— Não estou apaixonada por você, Demetrius. Logo, não faz sentido eu
pensar sobre o assunto.
O rosto dele ficou tenso, sombrio. Kim sentiu seu coração partir-se em
pedaços, mas não havia nada que pudesse fazer. Desejou que nunca
tivessem se encontrado. Fora o destino, dissera Demetrius! O destino podia
ser muito cruel com as pessoas...
— Estou completamente perdido — disse ele, com voz embargada. —
Pensei que... pensei que você gostasse de mim.
— Gostar não significa amar. Claro que gosto muito de você, mas não
há nada de sério entre nós.
— Está sendo muito rude — acusou ele, com os olhos marejados de
lágrimas. — Não me diga que... que é o fim de nosso relacionamento.
Ela fez que sim com um gesto de cabeça, largou o cardápio e o
observou.
— Talvez seja melhor esquecermos o jantar e nos despedirmos agora.
— Não! Preciso vê-la outra vez. Preciso! — Demetrius mordeu os
lábios, desesperado. — Jante comigo — implorou finalmente.
Kim sacudiu a cabeça, mais por impaciência do que por recusa. Isso
fez com que ele se aprumasse. Ereto, Demetrius disse:
— Não falaremos mais sobre este assunto, Kim, prometo. Vamos nos
divertir como sempre, combinado?
— Combinado.
Kim ficou aliviada por vê-lo sorrir. Demetrius parecia mesmo decidido
a esquecer o assunto. Assim puderam conversar amigavelmente durante
todo o jantar. Ela já conhecia muita coisa sobre a vida de Demetrius e seu
castelo maravilhoso de Malindos, recentemente remodelado e restaurado,
debruçado sobre o mar Egeu. Sabia que ele era bem decorado, elegante,
forrado com tapetes antigos e mobília do século passado.
Kim fechou os olhos, deliciada pela descrição de Demetrius. Quase
podia ver o sol da manhã penetrando através dos imponentes ciprestes que
ladeavam a entrada da casa e atingindo os pátios internos, as fontes de água
cristalina e as estátuas de mármore.
— Antes de morrer, papai ordenou que minha mãe cuidasse do castelo
até que Markus se casasse.
Pelo tom de voz, Kim percebeu que Markus não devia gostar muito da
madrasta. Estava para fazer outras perguntas quando Demetrius mudou de
assunto, dizendo que Malindos, apesar de pequena, era uma das ilhas mais
belas da região e possuía uma vegetação variada e colorida. Ela suspirou.
— Deve ser um sonho! Nunca tive oportunidade de conhecer a Grécia.
— Quem sabe...
— Quem sabe, um dia — emendou Kim, depressa. — É um país que
sempre me intrigou, desde os tempos de menina, quando aprendi história
clássica... Para mim, é uma terra de muita magia e fascinação, povoada por
deuses pagãos e heróis destemidos, lendas fantásticas... Um dia ainda

-5-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

visitarei esse lugar.


— Irá também a Malindos, claro! — acrescentou Demetrius. — Do lado
sul da ilha, existem pequenas baías totalmente desertas, pois elas ainda não
foram exploradas pelo turismo. Lá ainda há o Haltheá Valley, onde são
plantadas as oliveiras e laranjeiras, e ruínas de outros castelos antigos, que
um dia quem sabe serão restaurados como o nosso.. Bem na entrada do
vale, numa colina, pode-se avistar um magnífico castelo que pertence a um
grego casado com uma irlandesa.
— Uma irlandesa, morando numa ilha grega?
E ela se adaptou ao lugar? Como conseguiu?
— Está apaixonada — explicou Demetrius, com simplicidade.
Kim deu um suspiro involuntário. O amor também chegaria até ela
algum dia? Sempre sonhara com ele, como todas as garotas, mas até agora
não conhecera nenhum homem que despertasse sua paixão.
— E há alguma indústria na ilha? — prosseguiu ela, rompendo o
silêncio.
— Não. Alguns hotéis foram construídos, mas muito poucos. Quase
que toda ela é forrada de plantações de frutas e olivas. — Demetrius sorriu.
— Por acaso já lhe contei sobre um estranho costume de nossa família?
— Não — respondeu Kim, interessada.
— Bem, há uma "lei" em minha família que diz: se algum homem
engravidar uma moça, ela jamais será rejeitada, mesmo que ele morra. Neste
caso, outro deve se casar com ela, seja ele o próprio irmão ou o primo.
Kim arregalou os olhos, incrédula.
— Mas que costume mais fantástico, mais... maluco! E o que acontece
quando não há nenhum outro homem disponível? Isto é, se já forem todos
casados?
—— Bem, para falar a verdade, nunca soube que esse costume tivesse
sido colocado em prática algum dia. — Demetrius riu. — Pelo jeito, todos
chegaram naturalmente a se casar. Até hoje, não houve uma moça que
ficasse em situação difícil...
Por algum motivo, Demetrius baixou os olhos e corou. Kim franziu a
testa, intrigada.
— Demetrius, você parece estranho. Está falando sério sobre esse
costume de família?
— Claro que estou! É verdade. Talvez pareça bobagem para você, mas,
afinal, é questão de honra para nós, não acha?
— Não sei. Só sei que você está agindo de modo estranho.
Demetrius sacudiu a cabeça, sem encará-la.
— Esqueça. — Pegou um pão da cestinha e sorriu. — Markus sempre
diz que quebrará essa tradição; caso alguma coisa aconteça.
Kim olhou para ele.
— Quer dizer que, se você... — Foi a vez dela corar. — Se você...
— É, se por acaso eu deixar alguma garota grávida e depois morrer, ele
terá de se casar com ela a fim de dar seu nome à criança.
— Deus, que costume mais idiotaí É incrível!
— Não é tão incrível assim. Esse mesmo costume existiu na França
por muitos anos. E ainda deve persistir em algumas famílias.
Kim encolheu os ombros, decidida a mudar de assunto.

-6-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Seu irmão é muito mais velho que você?


— Quinze anos. Ele vive em função do trabalho. Tem um escritório na
parte mais isolada do castelo e passa a maior parte do dia lá. Claro que ele
namora de vez em quando...
-— Os gregos sempre namoram, casados ou não, não é assim? Pelo
menos, é o que dizem por aí.
— As esposas também têm seus amantes — informou Demetrius. —
Não há muito moralismo nesta parte da Grécia.
— Não acredito nisso, mas enfim.. ; Então, seu irmão tem muitas
namoradas, é quinze anos "mais velho que você, e só gosta de trabalhar. Que
mais?
— Bem, papai o nomeou meu tutor, até eu completar vinte e um anos.
Markus possui o castelo e as terras, mas eu tenho uma grande fortuna.
Markus a administra para mim. Papai morreu quando eu tinha dezesseis
anos.
— Se seu irmão já está com trinta e cinco anos, é estranho que ainda
não tenha se casado. É claro que ele deseja um herdeiro, não?
— Um dia Markus acabará encontrando alguém, mas, quanto ao
herdeiro, está tranquilo. Tem certeza de que eu o colocarei no mundo. Mas
se isso não acontecer é bem provável que ele nunca se case. Parece muito
satisfeito com sua condição de homem solteiro.
— Agora me fale um pouco sobre sua mãe.
Não me disse nada sobre ela!
— E não foi à toa. — A voz de Demetrius ficou tensa, magoada. — Ela
e Markus são muito parecidos: duros e insensíveis.
— Sinto muito — murmurou Kim, recriminando-se por sua
curiosidade. — Desculpe-me.
— Tudo bem. Você não podia adivinhar.
"Se Markus e a madrasta têm um génio difícil, mal devem se suportar",
pensou Kim. "Mas, por outro lado, Markus poderia se livrar dela se se
casasse."
Como se estivesse lendo seus pensamentos, Demetrius falou:
— Markus não se dá bem com ela. Mamãe é extremamente autoritária
e determinada. Mas ele não tem outra alternativa a não ser conviver com ela.
— Mas se ele se casasse, ela teria de sair do castelo, não?
Demetrius encolheu os ombros e mudou de assunto. Mais tarde, ao se
despedirem no estacionamento do hotel, ele implorou para vê-la novamente.
— Não podemos deixar as coisas desta forma, Kim. Por favor, diga que
aceita sair para jantar no próximo sábado, como sempre!
— Acho melhor não — respondeu ela. Mas ficou consternada ao vê-lo
triste. — Está bem, nós nos encontraremos no sábado.
— Aqui mesmo, no Grosvenor, ou gostaria de ir a outro lugar?
— Que tal o Adelphi, em Liverpool? É um excelente restaurante.
— Deixe-me ir buscá-la em casa. Liverpool fica muito longe. Não gosto
que dirija o carro sozinha.
— Não, Demetrius. Sei guiar muito bem. Não há com que se
preocupar.
No sábado seguinte, Kim entrou no saguão do Adelphi. Desta vez
escolhera um vestido turquesa, justo e sedoso, colante ao corpo. Não gostava

-7-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

de usá-lo, mas o vestira num impulso. Sabia que com ele parecia mais velha
e sensual, e agora se arrependia por tê-lo colocado.
Para sua surpresa, Demetrius ainda não havia chegado. Preparava-se
para sentar-se quando ele apareceu. Não estava sozinho.
Um homem moreno e alto o acompanhava. Seus traços eram firmes,
pareciam talhados em pedra, e ele transbordava arrogância a cada passada
que dava. As pessoas voltaram-se para vê-lo, e Kim compreendeu quem ele
era, comparou-o instintivamente a um deus grego.
— Kim, este é Markus — apresentou Demetrius, com embaraço.
Markus Christou era o homem mais impressionante que ela jamais
vira. Muito alto, tinha os ombros largos e fortes de um atleta, e as feições
másculas. Kim ficou fascinada por aqueles olhos: escuros, misteriosos,
pareciam não perder nada do que acontecia à sua volta. Possuía a pele
morena e o rosto anguloso. A boca era sensual, o nariz afilado.
Ele lhe estendeu a mão morena, com os olhos carregados de desprezo.
É claro que não simpatizara com ela à primeira vista.
Markus aparentava ter mais do que trinta e cinco anos de idade. "Deve
ser por causa de suas aventuras amorosas", pensou Kim, com aversão.
— Como vai? — A voz de Markus soou profunda e grave. — Então é
você que tem feito companhia ao meu irmão?
Os olhos escuros percorreram insolentemente o corpo de Kim até a
abertura lateral do vestido, que deixava à mostra sua bela perna, da coxa ao
tornozelo. Ela enrubesceu.
Demetrius sentia-se pouco à vontade.
— Markus chegou inesperadamente esta manhã, então eu... o convidei
para jantar conosco. Reservei uma mesa para três.
— Claro! — concordou ela.
Kim julgou-se culpada sem saber por quê; nunca em sua vida sentira-
se tão vulgar e insegura. Aquele homem, com ar austero e recriminador, a
estava desconcertando, deliberadamente.
— Pensei que fosse me deparar com alguém bem mais jovem —
observou Markus. — Importa-se em me dizer sua idade?
Kim ficou furiosa.
— Prefiro não dizer.
— Suponho que seja pelo menos nove anos mais velha que meu irmão.
Sua fúria transformou-se em ódio. Podia estar parecendo ter mais
idade naquele vestido ousado, mas, daí a aparentar trinta anos, havia uma
grande diferença!
— Pense o que quiser — respondeu ela, entre dentes.
— Markus não pretendia insultá-la — interveio Demetrius, desolado.
— Vamos tomar um aperitivo? — implorou ao irmão. — Não vejo graça
nenhuma em ficarmos aqui de pé, não acham?
De depente, Markus sorriu.
— Tem razão. Vamos para o restaurante.
O jantar foi um fracasso, pois nem Kim, nem Demetrius estavam à
vontade. Foi Markus quem falou o tempo todo, fazendo várias perguntas
sobre Kim e sua família. Ela respondeu a tudo da melhor maneira possível.
Claro que Markus achava que ela queria se casar com o inexperiente
Demetrius para herdar sua fortuna, o que era um absurdo. Mas, ao mesmo

-8-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

tempo, não teve vontade de desfazer o mal-entendido. Ele que pensasse o


que quisesse! Ele que morresse de preocupação pelo irmãozinho!
— Por que Markus veio a Liverpool? — perguntou ela a Demetrius
num instante em que o irmão mais velho se ausentou.
— Ele tinha alguns negócios para resolver em Londres e decidiu dar
uma passada por aqui. Pelo menos foi isso que alegou.
— E por que deixou que ele acreditasse que nosso relacionamento é
sério?
-— Fiquei desconcertado quando o vi na Universidade esta manhã —
explicou Demetrius, sem graça. — Não tive coragem de lhe contar que a
garota com quem eu pretendia me casar recusou o meu pedido.
— Mas, e agora?
— Não sei. Depois eu conto tudo a ele. Naquele instante, Markus
apareceu, interrompendo a conversa dos dois.
Foi com alívio que Kim saiu do hotel direto para o estacionamento.
Markus a perturbara demais com aquele olhar inquisidor. Que homem
estranho!
— Quando nos veremos novamente? — perguntou Demetrius, sem
jeito.
— Eu telefono para você — prometeu Kim antes de entrar no carro.
Um suspiro escapou de seus lábios quando viu-se a salvo, na estrada.

CAPÍTULO II

Os pais de Kim ainda estavam acordados quando ela chegou em casa.


Era um mau sinal. Desde que seu pai tivera um enfarte, os dois costumavam
ir se deitar cedo, pois o ataque havia sido muito sério. O pai fora forçado a
deixar o emprego, e o orçamento da casa diminuíra bastante por causa
disso. Até então, eles viviam com todo o conforto, seus pais, ela e Stephen,
um primo que tinha sido adotado pela família desde que ficara órfão.
Um ano mais jovem que Kim, Stephen era um moço muito rebelde. Já
há algum tempo que vinha andando com uma turma de mal-encarados, e
havia noites em que não voltava para casa.
Assim que entrou na sala, Kim confirmou suas suspeitas. Os olhos de
sua mãe estavam inchados de tanto chorar, e seu pai encontrava-se deitado
no sofá, muito pálido, com as veias das mãos e das têmporas azuladas.
— O que aconteceu? — Kim sentiu um frio terrível no estômago. —
Papai teve... teve... outra crise?
A mãe confirmou com um gesto de cabeça. Nessas horas, ela parecia
ter dez anos a mais.
— O médico disse que se ele tiver outro ataque será fatal. Seu pai
insistiu para que o doutor contasse a verdade. — A mãe enxugou os olhos.
— Foi Stephen o responsável por tudo isso.... Oh, Kim, ele andou fazendo
coisas terríveis! E parece que a polícia virá buscá-lo. Ele está escondido por
aqui...
— Escondido? — O coração de Kim disparou. — Como assim, mamãe?
O que foi que ele fez?
— Foi um assalto a mão armada. Houve violência, e...

-9-
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

A sra. Russel desatou num pranto desconsolado. Kim abraçou-a


imediatamente, sentindo o corpo frágil da mãe estremecer de desespero.
Começou a chorar também, e olhou para a figura inerte de seu pai, deitado
no sofá. Teve muita raiva de Stephen, ao pensar que seus pais o tinham
adotado com a melhor das intenções! Ficaria contente se ele fosse preso e
punido... mas isso lhes causaria um grande desgosto. Os dois velhos sempre
foram muito amorosos e devotados um ao outro; eram o exemplo ideal de um
casal perfeito. Casaram-se por amor, por amor viviam, e só deixariam de se
amar quando a morte os separasse.
A morte... Kim olhou para o pai e ficou desesperada.
— E não há nada que possamos fazer, meu Deus? — perguntou,
olhando para o teto, falando mais consigo mesma.
A voz de sua mãe soou abafada contra seu peito.
— Seu pai acha que se nós formos embora antes que a polícia prenda
Stephen, para não sofrermos a vergonha e a humilhação de um filho na
cadeia, daí quem sabe... quem sabe poderemos reconstruir nossas vidas.
Então ele terá mais alguns anos de tranquilidade para desfrutar. Você
entende, querida, somos respeitados e queridos por aqui, seu pai sempre foi
reconhecido por sua firmeza de caráter e honestidade, o escândalo o deixaria
arrasado.
— Mudar?
Kim afastou a mãe gentilmente, de modo a observá-la. A sra. Russell,
com o rosto banhado de lágrimas, perguntou ansiosamente:
— Podemos ir embora, querida? — Havia um fio de esperança em sua
voz. — Isto é, agora que seu pai não está mais trabalhando, não poderemos
terminar de pagar a casa... Não conseguiremos muito dinheiro por ela, não é
mesmo?
Kim não respondeu. Seria praticamente impossível que se mudassem
agora. Afinal, ela tinha o seu emprego e não podia jogá-lo para o alto, já que
era a única fonte de renda de que eles dispunham!
— Não, não podemos nos mudar — deduziu a sra. Russell,
desesperada. — Teremos de ficar e enfrentar o escândalo...
A mãe escondeu o rosto no peito da filha novamente e voltou a soluçar.
Kim a acariciou de leve.
— Vamos, mamãe, é melhor irmos dormir agora. Amanhã nos
sentiremos bem melhor, com a cabeça mais descansada para tomar
decisões. Não se preocupe, encontraremos uma saída.
Mas Kim não conseguiu dormir naquela noite. Rolava de um lado para
o outro, preocupada. Não podia encontrar nenhuma solução, pois não havia
dinheiro para a mudança. Seria impossível fazer o que sua mãe tinha
sugerido!
Ainda de madrugada, se levantou. Preparou um chá e limpou a casa,
silenciosamente. Estava tão absorta que até se esqueceu de pentear os
cabelos.
Mas, depois, lá pelas oito, ao ver sua imagem refletida no espelho,
suspirou fundo. Além dos cabelos em desalinho, sombras escuras
circundavam seus olhos; até seus lábios estavam sem cor.
"Pareço dez anos mais velha!", pensou, desconsolada.
Naquele instante, escutou o ruído do motor de um carro na pequena

- 10 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

entrada da casa. Sentiu o sangue gelar. A polícia! Quem sabe já tinham


encontrado Stephen...
Correu para abrir a porta antes que a campainha soasse, e levou um
susto ao se deparar com Markus Christou.
— Você! — exclamou, atónita. — O que deseja? — Sacudiu a cabeça,
totalmente perplexa. — É tão cedo...
— Sei que horas são. Mas tenho de pegar o avião em duas horas, e
preciso lhe dizer algumas coisas.
Os olhos escuros e arrogantes de Markus Christrou a analisaram com
desprezo. Kim ficou vermelha ao se lembrar de que o penhoar estava aberto
na frente, exibindo a camisolinha rendada e transparente. Apertou o cordão
com força.
Markus curvou os lábios, sarcasticamente.
— Posso entrar? Como disse, gostaria de lhe dizer algumas coisas.
Kim abriu a porta automaticamente, rezando para que seus pais não
acordassem.
Markus foi direto ao assunto, assim que entraram na sala de estar.
— Precisa desistir do meu irmão — avisou com rudeza. — Estou
familiarizado com gente do seu tipo. É mais uma caçadora de dotes que
pensa que pode nos enganar como a idiotas. Como tutor e protetor da
fortuna de Demetrius, não tenho a menor intenção de permitir que ele se
case com você. Por isso, desista desta ideia. — A postura dele era
ameaçadora e arrogante. — Sei que dei o consentimento, mas isso foi por
causa da informação que tive por parte dele. Agora que a conheci melhor,
mudei de ideia.
Lutando para manter o controle, e ao mesmo tempo curiosa, Kim o
encarou sem temer.
— Essa informação... o que Demetrius lhe disse exatamente?
— Você sabe muito bem! — retrucou Markus com desprezo. — Mas,
assim mesmo, não darei meu consentimento. Não haverá casamento entre
vocês.
Kim deu um suspiro exasperado. Estava furiosa, mas conseguiu
aparentar calma.
— Você está tão certo de que o meu propósito é me casar com
Demetrius que...
— Tenho pouco tempo a perder — interveio ele, olhando para o relógio
de pulso. — Tudo que quero lhe dizer é isso: desista de se casar com meu
irmão!
Kim mordeu os lábios com força, possessa. Estivera a ponto de lhe
contar que não tinha a menor intenção de se casar com Demetrius, mas a
arrogância, o convencimento e o ar de superioridade dele a deixaram fora de
si. Respirou fundo e disse:
— Daqui a alguns meses Demetrius fará vinte e um anos, e será dono
de seus próprios atos.
— Você é muito mais velha do que ele, Kim.
Quero sua promessa de que o deixará em paz. Ele precisa terminar os
estudos, cuidar de sua vida e...
— Por acaso devo deduzir que existiram outras... "caçadoras de dotes"
querendo se casar com Demetrius?

- 11 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Muitas! E ele sempre acha que está perdidamente apaixonado! —


Markus a contemplou por alguns instantes. — Mas devo admitir, com toda
honestidade, que você parece ser um pouco diferente das outras. Tem algo a
dizer em sua defesa?
Aquele seria o momento de confessar que ela nunca pensara em se
casar com Demetrius. Mas isso se Markus não tivesse dito aquele "em sua
defesa". Quem ele pensava que era? Empinou o nariz, com teimosia.
— Não, sr. Christou, não tenho nada a dizer em minha defesa. Vivo
minha própria vida e sou dona do meu nariz. Não recebo ordens nem
ameaças de ninguém. Lamento desapontá-lo, mas...
— Está mesmo decidida a se casar com ele? Pois fique sabendo que vai
se lamentar por desafiar minha autoridade!
Embora estivesse tremendo dos pés à cabeça, Kim manteve as
aparências. Olhou para seu relógio de pulso com naturalidade.
— Tenho de pedir que se retire agora, sr. Christou. Deve saber que
este horário é muito inoportuno para visitas.
Os olhos de Markus se incendiaram, suas narinas se dilataram, e Kim
temeu que ele a agarrasse pelo pescoço e a estrangulasse. Sem dizer uma
palavra, ele se virou e saiu, deixando a porta aberta atrás de si.
Kim ficou parada ali um longo tempo, imóvel, procurando analisar
seus sentimentos. Embora desprezasse Markus Christou profundamente, a
ideia de que ele a considerava uma oportunista não lhe agradava.
"Para que me preocupar com isso agora, com tanta coisa em que
pensar!", recriminou-se intimamente, fechando a porta e voltando para a
cozinha.
A manha parecia interminável. Kim e seus pais ficaram conversando
sobre a possibilidade de mudança. Eles queriam sair da Inglaterra.
— Seu pai e eu teríamos ido para o outro lado do mundo há muito
tempo, se não fosse por você e Stephen — admitiu a sra. Russell. —
Pensamos que vocês não se adaptariam. Isto é, Stephen poderia se cuidar
sozinho, mas você, Kim... Agora é tarde. O dinheiro não é suficiente para a
mudança.
— Eu teria me ajeitado sozinha — protestou Kim, com veemência. —
Oh, mamãe, por que vocês não me disseram nada na época?
— Não importa mais, querida — interrompeu o sr. Russell. — Acredito
no destino, e se está escrito que sua mãe e eu teremos um pouco de paz na
velhice isso acontecerá em qualquer lugar do mundo.
Kim sorriu para o pai. Ele melhorara bastante desde a noite anterior,
ou pelo menos estava se esforçando para parecer melhor.
Até a hora do almoço, ainda não tinham chegado a nenhuma
conclusão.
— Não há como conseguirmos o dinheiro necessário para a mudança
— falou a sra. Russell, desconsolada. — A Espanha fica muito longe!
Kim levantou-se para preparar o almoço.
— Por que vocês escolheram justamente a Espanha? — quis saber ela.
— Muitos amigos nossos que se aposentaram foram para lá —
respondeu o pai. — Há uma grande comunidade inglesa no país, tenho
certeza de que nos adaptaríamos facilmente.
— Mas os apartamentos que eles compraram triplicaram de preço

- 12 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

nesses últimos anos — lamentou a sra. Russell.


O sr. Russell suspirou.
— Sendo assim, há poucas chances de evitarmos o escândalo, pois só
a longo prazo conseguiremos juntar algum dinheiro.
Kim foi para a cozinha com o coração apertado. Seu pai estava certo:
para conseguirem se livrar da humilhação, eles tinham de partir o mais
rápido possível. E isso era impraticável!
— Demetrius morto! Oh, não!
Chocada e trémula, Kim olhou para o homem alto que lhe dera a
notícia. O mesmo que, há uma semana atrás, lhe ordenara que ela se
esquecesse do seu irmão.
— Não é possível! — sacudiu a cabeça, incrédula. — Foi atropelado na
calçada? O caminhão matou-o?
Kim mal sabia o que estava dizendo. Seu coração ficara pesado, a
mente atrapalhada pelo infortúnio. Dizem que as desgraças nunca vêm
sozinhas, e como isso se confirmava agora! Na noite anterior a polícia tinha
ido até lá para conversar com seus pais.
Markus mordeu os lábios. Seu rosto estava convulsionado pela dor.
— Tão jovem! — murmurou ela.
Era domingo, Kim tinha lavado e escovado os cabelos com o secador.
Estava determinada a erguer os ânimos da casa, e por isso escolhera um
vestido leve, de cores claras, na esperança de encorajar sua mãe. Deu certo,
pois a sra. Russell vestira um terninho de linho azul-claro e levara o marido
para dar uma volta no parque.
Markus encarou-a.
— Achei melhor vir lhe dizer pessoalmente. O telefone é muito frio
nestas horas.
— Foi muito gentil de sua parte — murmurou ela.
Desejou contar a Markus que nunca pretendera se casar com
Demetrius, mas sentiu que aquele não era o momento. E o que importava,
afinal? Nunca mais veria aquele homem.
— Suponho que queira ir ao enterro.
— Eu... — Kim mordeu os lábios. — Sim, claro.
— Será na terça-feira, às dez horas da manhã.
Markus lhe deu alguns detalhes e foi-se embora. Mais uma vez ela
ficou imóvel, olhando para o infinito. Estranhas è confusas emoções
tomavam conta de seus pensamentos.
Kim preferiu não contar aos pais que estava indo a um enterro.
Simplesmente, tirou o dia de folga no emprego e foi. Não queria deixá-los
mais consternados ainda: Stephen tinha sido preso logo depois da visita de
Markus, no domingo, e a polícia permanecera na porta da casa deles, horas
a fio, desconfiada de que seus pais estivessem escondendo o dinheiro do
assalto. Aquele era, sem dúvida, um dos períodos mais negros de sua vida, e
Kim constatou, com melancolia, que a situação não melhoraria muito nos
próximos meses.
Markus a esperava na porta da igreja. Estava sério e distante como
sempre, mas havia algo em seu comportamento que a deixou não só
intrigada como curiosa para saber sobre o mistério: o que Demetrius teria
dito a ele para conseguir permissão para casar-se? Seria melhor esquecer o

- 13 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

assunto. Agora, o casamento jamais se realizaria, com ou sem a permissão


de Markus.
Depois da cerimonia, Markus a convidou para almoçar, e ela aceitou,
percebendo, instintivamente, que ele queria discutir algum assunto com ela.
Devia ser alguma coisa de vital importância.
Mal tinham se sentado à mesa, quando ele falou:
— Como você sabe, estou ciente de que está esperando um filho do
meu irmão.
Kim apertou o guardanapo com força. O sangue subiu-lhe às faces.
— Ele... Demetrius lhe disse que eu...
— Sim — interveio Markus, com frieza. — Ele foi obrigado a me contar
a verdade para obter meu consentimento. Mas não vamos perder mais tempo
com isso, já que se trata de um fato consumado. No outro domingo, quando
fui até sua casa, tinha a intenção de lhe oferecer uma quantia em dinheiro
para você desistir de se casar com Demetrius e desaparecer, mas fiquei tão
zangado com sua atitude que acabei saindo sem lhe fazer a proposta.
Uma luz surgiu nos olhos de Kim. Uma ideia nascera dentro do seu
íntimo, bem lá no fundo...
— Suponho que agora você esteja reconsiderando a questão, e queira
me oferecer dinheiro para... para a criança...
A garganta de Kim secou. Deus, que loucura estava fazendo? Como
podia, mesmo por um segundo, pensar em se aproveitar daquele homem?
Profundamente desgostosa consigo mesma, tentou rejeitar a ideia, mas ela
persistia em sua mente, como num sonho, até se tornar uma obsessão. Seus
pais se encontravam arrasados, na mais profunda miséria moral. Era bem
provável que seu pai falecesse em breve de tanto desgosto... E Kim sabia que
sua mãe não sobreviveria por muito tempo sem ele.
Ergueu os olhos para o homem à sua frente, desesperada. Ele era rico,
milionário, e jamais sentiria falta daquele dinheiro de que ela tanto
necessitava para a felicidade de seus pais. Mas a ideia lhe parecia muito
desonesta e inescrupulosa. Não conseguiria viver com aquele peso na
consciência!
No entanto... conseguiria viver sabendo que tivera nas mãos a
oportunidade de livrar seus pais de todo o sofrimento, e que desperdiçara
aquela última e milagrosa oportunidade que o destino lhe oferecia? O
destino... Mais uma vez ele surgia, inevitável, para mudar o rumo da vida
das pessoas...
Completamente transtornada, Kim levou a mão ao estômago. Sentia-se
enjoada, tonta, a visão escurecida...
Markus notou sua palidez. Kim teve a sensação de ver pena e
compaixão por trás daqueles olhos misteriosos e escuros.
— O acordo... — murmurou ela, baixinho. — Quanto está pretendendo
me dar?
— Não estou pensando em dinheiro — respondeu Markus, pegando o
cardápio das mãos do garçom. — Em minha família há uma tradição que
determina que, num caso como o seu, outro membro da família lhe oferecerá
casamento. Assim, a criança terá um nome e um lar, e sua herança será
assegurada.
— Num caso como o meu?

- 14 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Acontece que eu sou o único homem disponível.


Kim observou-o abrir o cardápio com toda calma. Que homem
insensível, bruto! Mas aquela situação é que era absurda! Seria melhor
esclarecer que tudo não passara de um mal-entendido, que...
Mas, alguma coisa mais forte que sua vontade fez com que ela
prosseguisse.
— Você é o único homem disponível da família? E o que quer dizer com
isso?
— Estou lhe oferecendo casamento — informou ele, levantando os
olhos do cardápio por um instante. — É o nosso costume. Além, disso, seria
conveniente para mim também se eu me casasse com você.
— Conveniente? — Kim lembrou-se do que Demetrius lhe contara
semanas antes. — Por quê?
— Isso não tem nada a ver com você. Já escolheu o que vai comer?
— Não estou com fome.
— Precisa se alimentar — observou o grego com severidade. — Afinal,
desejamos uma criança robusta e saudável.
"E eu desejo rir", pensou Kim. Rir bem alto para aliviar aquele
sentimento de histeria.
— Não pretendo me casar com você, sr. Christou, mas o dinheiro seria
muito útil... Logo terei que largar o emprego.
Oh Deus, o que estava fazendo! Nunca se comportara assim antes! Por
que ainda não contara a verdade para aquele homem?
O destino... essa palavra martelava em seu cérebro. Possuía nas mãos
a chave da felicidade para seus pais. Por que não usá-la?
— Será o casamento ou nada — disse Markus Christou, com voz
implacável.
— Se eu concordar em me casar com você, quero um acordo.
— Não! Estou lhe oferecendo casamento, com todos os benefícios de
um lar e o status de esposa. Isso é tudo. Não lhe darei dinheiro, nem um
relacionamento normal. Será apenas para manter as aparências.
— Mas preciso de dinheiro!
— Não. Pensa que sou algum idiota? Kim mordeu os lábios.
— Não confia em mim?
— Correto. Será o casamento ou nada.
Apesar da firmeza de suas palavras, Kim teve a impressão de que ele
estava desapontado com o rumo da conversa. Se Markus a julgava uma
caçadora de dotes, deve ter ficado decepcionado por ela não ter aceitado o
casamento de imediato. Além do mais, ele finalmente pensara ter encontrado
um meio de se livrar da madrasta, coisa que não aconteceria se ela
recusasse o pedido.
— Então, minha resposta é não.
— Esta é sua última palavra?
— Sim, sr. Cnristou, é minha última palavra. Se ele estava
desapontado, ela também. Por um breve interlúdio julgara ter o passaporte
da felicidade de seus pais nas mãos, mas agora voltava à realidade. E a
realidade era dura e desesperadora.

- 15 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

CAPÍTULO III

Nos dias que se seguiram, Kim pôde sentir de perto o drama de seus
pais. Seu pai ficava mais nervoso e abatido a cada dia que passava, e sua
mãe envelhecia aos poucos, preocupada e tristonha. Diante daquela
frustração, era natural que Kim pensasse muito em Markus Christou e em
sua proposta de casamento...
Tinha de haver um jeito de persuadi-lo a dar-lhe uma quantia em
dinheiro! Era lógico que ele gostaria que ela tivesse aceitado sua proposta de
casamento! Afinal, essa seria a maneira mais fácil dele se livrar da madrasta
e, ao mesmo tempo, assegurar a linhagem dos Christou. Quem sabe ainda
conseguiria tocar o coração daquele grego insensível. Quanto mais pensava,
mais criava coragem para escrever uma carta a Markus e lhe explicar as
razões de sua necessidade de dinheiro.
Finalmente tomou uma decisão: foi até o seu quarto e tirou de uma
gaveta o cartão que Demetrius lhe dera. O endereço era: Castelo Astura,
Malindos, Grécia.
Enquanto escrevia a carta, Kim tentava imaginar o que aconteceria
depois, quando lhe contasse que a gravidez fora um rebate falso. Com
certeza, Markus pediria a anulação do casamento. Sim, mas o mais provável
é que ele não tomaria atitude nenhuma até que a sra. Christou saísse do
castelo. Era uma saída vantajosa para Kim também.
A resposta veio mais cedo do que ela esperava; sua mãe notou o selo e
perguntou:
— De quem é?
— Daquele amigo grego de que lhe falei, lem bra-se?
— Oh, sim. Se não me engano você saiu com ele algumas vezes.
— Isso mesmo.
Kim foi para o quarto com o coração aos pulos. A carta queimava em
suas mãos. A mensagem era curta e precisa, escrita com letra firme e
imperiosa: Markus anunciava que chegaria em dois dias.
E foi o que aconteceu. Kim mal acreditou quando viu-se, mais uma
vez, frente a frente com aquele estranho e discutiram sobre o casamento
como se fosse um contrato de trabalho.
— Tem certeza de que esse filho que você está esperando é de
Demetrius? — perguntou ele a certa altura.
Kim sentiu-se insultada, de verdade. Mas sua reação foi veemente,
como se realmente estivesse grávida.
— Claro que é dele! Como ousa questionar uma coisa dessas!
— Quantos anos você tem? — Markus a contemplou, pensativo,
deixando-a ainda mais nervosa. — Aparenta menos idade do que naquele dia
em que a conheci.
Kim ficou vermelha.
— Tenho quase vinte e três.
— Durante quanto tempo você... esteve saindo com meu irmão?
Ela umedeceu os lábios. Seria melhor falar a verdade.
— Três meses.
— Três meses, e já engravidou?
Kim desviou o olhar, envergonhada. Não devia licar tão perturbada

- 16 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

com o desprezo daquele homem, mas sentia uma dor indefinida no peito
cada vez que ele a recriminava. Quando o encarou novamente, seus olhos
estavam tristes e úmidos de lágrimas.
Markus parecia surpreso diante do que via. Os dois se encararam por
intermináveis segundos. Kim sentiu uma pontada no peito, como se
estivesse recebendo uma descarga elétrica. Suas pernas ficaram frouxas, e
ela se inclinou na direção dele.
Markus amparou-a com os braços fortes. Aquelas mãos quentes
emitiam sensações estranhas pelo seu corpo, vibrações até então
desconhecidas e excitantes. Kim fechou os olhos, nauseada, e percebeu que
a tensão dos últimos dias fora demasiada para seu corpo frágil.
— Preciso me sentar — murmurou ela baixinho, com o rosto muito
pálido.
— Está se sentindo mal? — Apesar da rudeza de suas palavras,
Markus parecia sinceramente preocupado. — Posso lhe trazer alguma coisa?
— Um copo d'água, por favor.
Markus conduziu-a até o sofá, ajudando-a a se sentar. Kim recostou a
cabeça nas almofadas, aliviada.
— A cozinha é ali?
— É.
Kim perguntou a si mesma se alguma vez na vida Markus Christou
teria entrado numa cozinha; com certeza, nunca numa tão pequenina
quanto aquela.
Minutos depois, ele retornava com o copo d'água na mão. Seus dedos
se roçaram levemente; Kim baixou os olhos e sorriu.
— Obrigada. — Devolveu o copo vazio. — Não sei o que me aconteceu.
Não costumo ter vertigens.
— Deve ser por causa da gravidez.
Ela tinha se esquecido da farsa! Gaguejou:
— É bem provável.
— Agora vamos conversar direito. Quero que me explique
detalhadamente por que precisa de dinheiro.
— Então você concorda com minha proposta, afinal?
— Não gosto da palavra "proposta".
— Sinto muito. O que quero saber é. :. poderá me dar o dinheiro de
que preciso?
— Depende de quanto for. Havia motivo suficiente em sua carta para
eu pensar sobre o assunto, mas não o bastante para me convencer. Tenho
de ter certeza de que será para uma causa justa.
— Como mencionei na carta, meus pais estão passando por um
período difícil. — Kim lhe relatou brevemente os últimos acontecimentos. —
Eles precisam partir daqui antes que o julgamento de Stephen comece. Só
assim terão uma chance de refazer suas vidas e de reencontrar a felicidade.
Eu já lhe disse que papai sofre do coração, não? Ele não pode ter outro
ataque. O médico avisou que seria fatal... — Kim deteve-se por um instante.
Duas lágrimas grossas rolaram por seu rosto. — Eu amo meus pais. E
mamãe é tão apaixonada por papai que não sobreviveria sem ele... acabaria
morrendo também.
Markus, que a observara o tempo todo, atentamente, parecia

- 17 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

impressionado,
— Então eles precisam de dinheiro para sair daqui?
— É. Esta casa ainda não está totalmente paga. Se a venderem,
conseguirão muito pouco por ela.
— Entendo. E para onde eles pretendem ir?
Kim sentiu as batidas do seu coração acelerarem. Apesar do rosto
impassível de Markus, podia perceber alguma emoção dentro dele. Suas
esperanças redobraram.
— Mamãe me falou sobre a Espanha. Parece que alguns amigos deles
se mudaram para lá e se adaptaram muito bem.
— Estão pensando em comprar uma casa por lá?
— Não, um pequeno apartamento. Markus caminhou até a lareira
apagada, com as mãos nos bolsos, de costas para ela.
— Se você aceitar se casar comigo, estarei disposto a dar-lhe o
dinheiro para a compra do apartamento.
— Oh... — O alívio foi tanto que ela não sabia o que dizer. —— Muito
obrigada.
— Por acaso já mencionei que o nosso casamento será apenas no
papel?
— Claro! — exclamou Kim depressa, corando. Markus virou-se para
ela, com um sorriso irónico nos lábios.
— Não quero me envolver emocionalmente com você nem com outra
mulher,
— Serei livre, então, para viver minha própria vida?
— Terá uma vida reclusa! — esbravejou Markus, assustando-a. — A
mudança será muito brusca para você, concordo, mas se causar a menor
mancha em meu nome lamentará isso para o resto de seus dias!
— Não o decepcionarei!
— Tanto melhor. Mas, lembre-se: em casa, minha palavra é lei.
Kim preferiu aceitar, para que seus planos não fossem por água
abaixo.
— Então, está feito o acordo? — perguntou.
— Da minha parte, sim.
— Ótimo, da minha também.
"Será um grande sacrifício, mas valerá a pena", pensou Kim. Não
poderia se arrepender mais tarde e não importava o tipo de vida que levasse
ao lado de Markus Christou. A felicidade de seus pais já estava assegurada.
Agora, precisava encarar com serenidade o futuro próximo. Depois, quando
contasse a verdade sobre o bebe, o casamento seria anulado, e ela ficaria
livre. E, se por um acaso Markus se considerasse ludibriado, ela trabalharia
para lhe pagar até o último centavo.
— E você, confia em mim agora? — perguntou ela. — Antes não
confiava.
— Isso porque eu não sabia que o dinheiro que você queria era para
uma causa justa.
— Mas eu poderia estar mentindo para você.
— Bem, pretendo conhecer seus pais, naturalmente. Eles já sabem de
sua condição?
— Não disse nada a eles. Não queria perturbá-los com mais um

- 18 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

problema.
— Certo. Então, quando posso conhecê-los?
— Esta noite, se quiser. Eles saíram para um passeio no parque. O ar
puro faz bem a papai.
— Hoje à noite está perfeito para mim. Markus sorriu e Kim o fitou,
fascinada. Seu coração pulsava mais forte quando o olhava. Por quê?
— Seus pais não vão estranhar quando você lhes contar as novidades?
— Já pensei nisso também. Eles não vão se surpreender tanto assim.
Sabiam que eu tinha saído com um grego, e como nunca mencionei o nome
nem a idade de Demetrius acreditarão que ele é você.
— Não disse a eles que seu amigo faleceu?
— Meus pais têm problemas demais para se preocuparem
desnecessariamente comigo.
— Você me intriga — admitiu Markus, sacudindo a cabeça. — É tão
má quanto parece?
— Posso amar meus pais e ainda ser a... caçadora de dotes que você
imaginou.
Um brilho ameaçador e maligno brotou nos olhos escuros de Markus.
— Deixe-me avisá-la de que até hoje nenhuma mulher riu de mim,
Kim. Se você está tramando alguma coisa, vai se lamentar amargamente
depois.
Tenha cuidado. Meu temperamento é bastante imprevisível.
Kim sentiu o sangue gelar em suas veias, mas o encarou com firmeza.
Markus mudou de assunto.
— Nosso casamento será realizado em Malindos. Não posso
permanecer na Inglaterra mais do que alguns dias.
— Mamãe ficará desapontada — informou ela, lutando contra as
lágrimas com valentia. — Mas, tudo bem.
— Outra coisa.
— Sim?
— Quero que todos pensem que o filho que carrega é meu.
— Todos? — repetiu ela, sem entender. — Sua família é muito grande?
Demetrius disse...
— Só tenho parentes muito distantes. Estou me referindo às pessoas
em geral e especialmente à minha madrasta. Ela não deve saber, de maneira
alguma, que este filho não é meu. Compreende?
— Compreendo. — Kim teve uma vontade ridícula de gargalhar, mas
manteve o controle. — Bem, devo agradecer-lhe mais uma vez. Foi muito
generoso... — Começou a chorar. — Sinto muito, Markus, estou me
comportando feito criança. Deve ser a tensão das últimas semanas.
— Pode ser tensão, mas acho que esse desequilíbrio emocional é
decorrente de sua condição. As mulheres ficam bastante sensíveis quando
estão grávidas.
Kim desviou o olhar. Deus do céu, o que tinha feito? Sentiu um peso
imenso sobre os ombros. Como terminaria com aquela farsa? O que a
madrasta de Markus pensaria? Teria coragem de contar para ele que não
existia criança nenhuma? Bem, fora esse o caminho que escolhera. Ainda
haveria muitas barreiras para enfrentar.
Apesar da confiança que demonstrara a Markus, ela estava

- 19 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

preocupada com a reação de sua mãe, quando lhe contasse sobre o


casamento. Mas, para sua surpresa e alívio, a sra. Russell reagiu com
naturalidade.
— Que bom, querida! Você deve ter encontrado o homem certo. Sabe,
comigo e com seu pai foi a mesma coisa: em dois meses nos conhecemos e
casamos. Quando a gente se apaixona, não há o que nos impeça! — Sorriu
com afeto para a filha. — Engraçado, quando você me falou desse grego, não
pensei que fosse um caso sério. Não acha estranho se casar com um
estrangeiro? E morar numa ilha? Será uma mudança muito brusca, querida.
— Sei disso, más creio que será maravilhoso, mamãe — mentiu Kim,
com um sorriso alegre estampado nos lábios.
— Então, está bem. Você já tem maturidade suficiente para isso; e
muita sorte também. Estará longe quando o escândalo estourar...
— E vocês também — interveio Kim, explicando-lhe tudo. — Markus
quis ajudar. Eu disse que vocês gostariam de se mudar para a Espanha, e
ele se ofereceu para comprar o apartamento.
A sra. Russell arregalou os olhos, aturdida.
— Não... não pode ser! É um milagre... Mas um apartamento custa
muito dinheiro, filha, como é que... — A mãe sacudiu a cabeça, com medo da
Verdade. — Não posso acreditar!
— Markus é muito rico, mamãe. Esse dinheiro não lhe fará falta. E ele
está fazendo isso porque... porque deseja me ver feliz.
— Mesmo assim é inacreditável! — declarou a sra. Russell, excitada
demais para perceber o desconforto da filha. — Será que devo telefonar para
minha amiga na Espanha e perguntar se seu pai e eu podemos ficar com ela
alguns dias, até encontrarmos um apartamento?
— Claro! Markus prometeu, e cumprirá sua palavra. Ele virá visitá-los
esta noite.
— Meu Deus, que maravilha! É um milagre! — Abraçou a filha, louca
de felicidade. — Vou ligar agora mesmo!
Minutos depois ela voltou, com um sorriso triunfante nos lábios.
— Filha, parece que a nossa estrela voltou a brilhar. Marianne, minha
amiga, disse que tem um apartamento lindo em seu edifício, que ficará vago
esses dias. Ficará à venda, e ela prometeu que irá até a imobiliária a fim de
reservá-lo para mim. Falou também que podemos aparecer em sua casa hoje
até, se quisermos! — As lágrimas corriam-lhe pelas faces, tal a felicidade que
sentia. Abraçou Kím, com força. — Oh, querida, que coisa maravilhosa! E
tudo porque você se apaixonou. Desejo que você c Markus sejam tão felizes
no casamento quanto seu pai e eu!
Kim desviou o olhar sem dizer uma palavra. Empalideceu, mas sua
mãe estava tão excitada com as novidades que nem notou.

— Sabe, querida? Assim que vendermos esta rasa, comprarei mobília


nova. Estou disposta a me desfazer de quase tudo o que temos para começar
vida nova na Espanha!
— Ótima ideia — concordou Kim, sentindo que seu sacrifício valera a
pena. — Deixe tudo por conta do corretor, mamãe, não há razão para vocês
continuarem aqui na Inglaterra. Quanto mais cedo partirem, melhor!
E, exatamente, quatro dias mais tarde, Markus e Kim foram se

- 20 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

despedir deles no aeroporto.


— Só lamento não poder assistir ao casamento de vocês — disse a sra.
Russell. — Mas o mais importante é ver seu pai com saúde. — Virou-se para
Markus, emocionada e muito grata. — Graças a você, voltaremos a viver em
paz. Obrigada.
O sr. Russell também despediu-se afetuosamente do futuro genro, Kim
observou-os atentamente. Markus se dera muito bem com eles, isso era
evidente; mas ele devia estar se perguntando como ó que um casal tão
simpático podia ter uma filha imoral como ela. Markus que pensasse o que
quisesse, ela não iria desistir!
Uma hora depois, Kim e Markus voltavam para casa a fim de trancar a
porta e pegar as malas. Ela deu uma última olhada ao redor, fechou todas as
cortinas e saiu, pronta para uma nova vida.
Kim olhou para a própria imagem refletida no ospelho da penteadeira.
Seu rosto estava pálido. Como se safaria daquela teia de mentiras que tecera
à sua volta? Preocupara-se tanto em assegurar a felicidade de seus pais que
até se esquecera da situação perigosa em que se encontrava...
Naquele mesmo dia seu marido lhe dissera:
— Já é hora de você consultar o nosso médico. Faz duas semanas que
está aqui e, apesar de aparentar boa saúde, é melhor ser devidamente
examinada.
O coração de Kim disparou.
— Ainda não, Markus, para quê? Estou me sentindo bem, e tenho
certeza de que não haverá maiores complicações.
— Não, Kim — retrucou Markus, com autoridade. — Quero que você
seja bem tratada. Entendeu?
— Sim, entendi.
Saiu rapidamente da sala, quase chocando-se com Alexandra, a mãe
de Demetrius.
— Correndo? — perguntou a mulher com arrogância. — Tome cuidado!
Lembre-se de que você carrega no ventre o filho do meu enteado!
Que mulher! Kim a detestara desde o primeiro instante. Morena, de
olhos pretos, fria e distante, era a pessoa mais horrível que ela jamais
conhecera. Não demonstrara o menor sinal de emoção pela sorte do filho.
Parecia ser extremamente calculista e atemorizante e sua língua ferina
impedia que Kim tentasse qualquer tipo de aproximação.
Markus já era um pouco mais atencioso, embora ele também soubesse
como cortar uma conversa pela raiz. Ela logo percebeu que não seria
considerada um membro da família. Era tratada com frieza e suportada
apenas porque daria à luz um descendente da fortuna Christou.
Em que enrascada se metera! Afastou-se da penteadeira e foi escolher
um vestido para o jantar. Markus trouxera um costureiro até o castelo para
lazer um guarda-roupa novo. Nenhuma calça comprida: ele deixara claro que
ela não deveria usá-las.
Escolheu um vestido e colocou-o sobre a cama. Fixou os olhos na
enorme e trabalhada porta que ligava seu quarto à suíte de seu marido. Já
entrara lá uma vez, sozinha, para dar unia espiada: era um conjunto grande,
com sala, quarto de dormir, quarto de vestir e banheiro. Tudo muito bonito e
elegante, decorado com tapeçarias e peças antigas. Alexandra também devia

- 21 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

ocupar uma suíte assim. Ela morava na face norte do castelo,


completamente isolada do resto da casa.
Kim suspirou. Ainda era cedo para tomar um banho e se preparar
para o jantar. Resolveu dar um passeio até a praia. Descobrira uma pequena
baía repleta de palmeiras e coqueiros que se tornara seu recanto preferido.
Ali podia relaxar, longe do castelo e das pessoas; e ficar só com seus
pensamentos.

CAPÍTULO IV

Kim observava o azul brilhante do mar, beijado pelo sol, que se


quebrava contra a areia macia. Ao longe, um iate navegava mansamente pela
costa. Os coqueiros e as palmeiras do jardim sacudiam suas folhas ao vento,
e o canto insistente das cigarras quebrava o silêncio. Um pouco mais
adiante, os campos de vegetação forrados de flores amarelas e vermelhas
coloriam o horizonte.
Kim prendeu a respiração, maravilhada. Por alguns instantes
esquecera todos os problemas. Voltou os olhos para o céu, onde as nuvens
contrastavam com o azul intenso, formando desenhos fascinantes. Deixou-se
ficar ali, ao sabor daquele momento, absorvendo toda a beleza da ilha.
Mais tarde despertou de seus devaneios, e ficou aflita diante das
perspectivas. Não conseguira encontrar uma solução para seus problemas.
Como diria a Maritais que não existia criança nenhuma? Dias atrás
acreditara que a melhor desculpa era inventar um aborto natural, mas isso
seria impossível agora, com a visita do médico. Não! Só podia alegar que se
tratara de um rebate falso, mas como?
Ao atravessar os jardins do castelo, Kim avistou seu marido e foi
tomada pelo pânico. Só pôde pensar numa coisa: escrever-lhe uma confissão
e fugir! Mas não... isso não adiantaria. Markus certamente entraria em
contato com seus pais.
"Deus meu", murmurou baixinho, "o que eu faço?"
Markus não a tinha visto. Kim escondeu-se sob algumas árvores e
ficou observando. Seu marido possuía um porte atlético e era muito bonito
— um belo espécime masculino! Caminhava devagar, com as mãos
entrelaçadas atrás das costas morenas, inclinadas para a frente, como se
estivesse absorto em seus pensamentos.
Kim pensou na enorme distância que os separava. Markus tinha uma
personalidade muito difícil, era frio, arrogante e inatingível. Nestes aspectos,
parecia-se bastante com a madrasta: os dois eram demasiadamente
orgulhosos.
Até o momento, Alexandra não manifestara vontade de se mudar do
castelo. Entretanto, muitas outras coisas já tinham sido modificadas na
residência dos Christou, conforme as exigências de Markus. Alexandra tivera
que ceder seu lugar à mesa, pois agora era a esposa quem devia se sentar de
frente para ele. Markus também insistiu para que Kim assumisse
gradualmente a direção da casa, e se fizesse respeitada pelos empregados.
Claro que Alexandra ressentia-se amargamente por tudo isso, mas nada
podia fazer. Kim cumpria as ordens de Markus, embora não gostasse de

- 22 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

usurpar a posição da velha senhora. Pelo contrário, preferiria mil vezes ter
deixado tudo como antes.
Escondida na sombra de uma árvore, ela estudou aquele perfil nobre,
a testa alta, os cabelos escuros e ondulados e os fios prateados que
enfeitavam suas têmporas. Markus era um homem e tanto, impressionante,
inatingível! Mas seria mesmo tão frio e distante?
Naqueles quinze dias ela descobrira várias características de sua
personalidade. Markus jamais deixava transparecer seus sentimentos, mas
havia carinho e desejo em seu olhar quando a fitava.
Kim percebeu que começava a despertar interesse nele. Não
intelectualmente, mas sexualmente. Markus era grego, e, como tal, possuía
uma grande dose de sensualidade. Nada mais natural que ele a desejasse.
Mas, só de pensar que ele podia exigir seus direitos e consumar o
casamento, um frio percorreu-lhe a espinha.
De repente, Markus virou-se de lado e Kim deu um passo atrás,
camuflando-se ainda mais nas sombras. Queria continuar a observá-lo, e
isso lhe dava um prazer imenso, uma grande emoção! Prazer? Por quê?
Franziu a testa, intrigada. A resposta veio-lhe à mente, clara como os
primeiros raios de sol da manhã.
"Porque ele é meu marido e me pertence da mesma forma que eu lhe
pertenço!"
Casaram-se na capelinha de Malindos, instalada no alto da ilha, assim
que chegaram. Voaram até Atenas e depois fizeram o resto do percurso de
barco. Passaram por várias ilhas, algumas minúsculas, outras maiores,
todas banhadas pelo magnífico mar Egeu. Fora uma experiência
atemorizante para Kim, mas, ao mesmo tempo, muito excitante.
Apesar da falta de música, flores e convidados — tudo o que Kim
sempre sonhara para o dia de seu casamento — a cerimónia foi linda. Ao
lado de Markus, impecavelmente trajado, ela escutara com enlevo e
admiração tudo o que o padre de barbas longas da Igreja Ortodoxa Grega
dissera. Ficara muito comovida com a simplicidade do casamento, apesar de
tê-lo aceitado única e exclusivamente para livrar seus pais da desgraça.
Usara Markus apenas como um meio de obter o que pretendia: a felicidade
dos pais. Assim como ele, que se casara com ela apenas para preservar o
nome da família Christou o sua fortuna.
Mas agora enxergava o marido sob um novo prisma. Afinal, Markus
mantivera sua palavra: seus pais estavam se preparando para mudar para o
apartamento novo, e seu pai se encontrava bem de saúde.
Markus virou-se de repente, pressentindo que alguém o observava, e
seus olhos encontraram os de Kim. Ela corou e deixou a sombra com
relutância, caminhando na direção dele com um sorriso incerto nos lábios.
Markus a fitou longamente, antes de quebrar o silêncio.
— Onde esteve? Sua mãe acabou de ligar!
— Mamãe! — O coração de Kim disparou. — Por acaso papai...
— Não, está tudo bem. Fique tranquila. Eles estão adorando a
Espanha e o novo apartamento também.
A cor voltou novamente ao rosto de Kim, que suspirou aliviada.
Markus franziu a testa, parecendo, intrigado. Ele sempre se surpreendia
com o comportamento dela, e uma vez lhe confessara isso. Talvez estivesse

- 23 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

mudando de opinião a seu respeito...


Kim sentiu-se mais calma com a ideia. Desejava, desesperadamente,
que se tornassem amigos, que ele a tratasse de igual para igual. Procurou
sorrir.
— Eles já mudaram para o apartamento novo?
— Sim, ontem. E com a colaboração dos amigos. Parece que a sorte
sorriu para seus pais, finalmente.
— Graças a você, Markus. Foi muito bondoso com eles.
— É meu dever ajudar a família de minha esposa.
— Eu ainda não era sua esposa.
— Mas seria dentro de pouco tempo. — Os olhos escuros a fitaram por
alguns instantes. — Telefonei para o médico. Ele estará aqui depois de
amanhã, às onze horas. Não se esqueça de que ele pensa que o filho é meu.
— Ele não sabe que nos casamos há apenas duas semanas?
— Claro que sabe! Mas fique tranquila, ele não fará nenhum
comentário.
E agora, como lhe explicar sobre a criança? Naquele instante Kim
decidiu que, quanto mais cedo contasse a verdade para Markus, melhor. Não
havia nada a ganhar se adiasse esse momento por muito tempo: acabaria
tendo uma crise nervosa!
Deus, se ao menos soubesse como Markus reagiria! Às vezes tinha a
impressão de que ele aceitaria a situação, mas de repente sentia-se insegura
e aterrorizada com a ideia de estar mentindo para o marido. Se ele
suspeitasse de alguma coisa, a acusaria de fraude, e ela não teria forças
para negar a verdade.
— Você deve telefonar para seus pais sempre que desejar — disse
Markus, enquanto caminhavam em direção à entrada do castelo. — Sua mãe
me deu o número dos vizinhos. Eles estão dispostos a chamá-los toda vez
que você precisar.
— Pelo que parece, mamãe arrumou bons amigos.
Kim sentia-se comovida, e, para sua surpresa, Markus que caminhava
à sua frente afrouxou o passo. Agora os dois andavam lado a lado, bem
devagar. Kim voltou a meditar. Conversaria com ele o mais breve possível, e
depois tudo estaria resolvido. O casamento seria anulado, e...
"Não!" A palavra surgiu como um relâmpago em sua mente, e ela
descobriu, assustada, que não desejava que o casamento terminasse.
Perguntou-se por quê. Por que razão sentia-se tão desolada com a ideia de
deixar a ilha e voltar para o seu país? Afinal, não era isso que pretendia? A
anulação e a liberdade, novamente? Sem dúvida, seus pais ficariam
preocupados, mas, por carta, ela explicaria a situação, dizendo que não
tinha se adaptado à nova vida e que preferira voltar para a Inglaterra.
Tudo parecia muito simples, então por que aquela estranha sensação
de perda? A separação era a última coisa que queria naquele momento. Por
quê? Continuava a caminhar ao lado de Markus, com a cabeça baixa,
perturbada com tantas dúvidas e questões. A resposta veio rápida, mas Kim
recusou-se a aceitá-la.
Não, não podia ser! Não podia ter se apaixonado pelo marido! Ele
nunca a encorajara, jamais se dirigira a ela de forma diferente, com amor.
Pelo contrário, sempre a tratara com certo desprezo. Talvez sua opinião

- 24 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

sobre ela tivesse melhorado um pouco. Ainda a considerava a "companheira"


de Demetrius! E, mesmo que lhe contasse a verdade, Markus jamais
acreditaria nela.
Soltou um suspiro involuntário e ergueu os olhos para ele. O grego
caminhava ereto, rígido. Kim prendeu a respiração. Não devia se apaixonar
por um homem assim! Era loucura!
— Algo errado? — Markus perguntou, intrigado.
— Não, nada... — Kim notou um movimento nas cortinas do castelo,
na ala onde Alexandra morava. — Sua madrasta não gosta de mim — disse,
quase sem querer. — Demetrius não se dava muito bem com ela também,
pelo que me contou.
— Alexandra está velha. Sempre foi impaciente com os jovens. E
Demetrius não foi o filho que ela desejava ter. — Markus fez uma pequena
pausa, olhou para a esposa e continuou: — Ela depositou todas as suas
esperanças em Demetrius, para que ele lhe desse um herdeiro.
— O que ela pretendia era que Demetrius herdasse tudo sozinho.
— Naturalmente! Através da história encontramos muitos casos
semelhantes. Quando um homem tem filhos de duas esposas diferentes, a
segunda invariavelmente sente que o seu foi passado para trás. — Markus
olhou para a janela da madrasta e também notou que estavam sendo
observados. — Agora você sabe por que não quero que Alexandra descubra
que o filho não é meu.
— Rancor?
— Chame do que quiser. Mas não darei a Alexandra a satisfação de
saber que será o neto dela quem herdará tudo isso um dia.
— Mas você, Markus, devia ter providenciado um herdeiro há muito
tempo! Isto é, podia ter se casado.
— Podia, mas não o fiz.
— É estranho que um homem da sua posição não tenha pensado
nisso...
Kim corou ao notar a expressão intrigada do marido.
— Está muito preocupada com um assunto que não lhe diz respeito,
Kim. Que tipo de mulher você é, afinal? Uma vez tive a impressão de que
zombava de mim, e isso me deixou intrigado. Você sabe de alguma coisa que
eu não sei? Não pense que poderá me enganar por muito tempo, menina!
Markus se afastou, deixando-a pensativa. Se algum dia ele descobrisse
a verdade — que ela jamais se entregara a Demetrius e a nenhum outro
homem —, as consequências seriam horríveis. Markus a odiaria para o resto
de sua vida!
A atração que sentia por ele seria puramente física ou seria amor?
Amor! Que situação mais terrível! Markus jamais corresponderia a seus
sentimentos! Não devia mais pensar nisso, do contrário se sentiria perdida,
sem perspectivas. Mas já não estava se sentindo assim?
Naquela noite o jantar foi diferente, pois Alexandra resolveu ficar em
seus aposentos, deixando Kim a sós com Markus. Na grande sala de jantar,
o ambiente estava menos tenso e os dois conversavam amigavelmente. Se
não tivesse que confessar tudo a ele, Kim passaria uma de suas noites mais
agradáveis no castelo, sozinha com o marido, jantando à luz de velas...
Foi quando os dois se dirigiram para a sala de estar que ela tomou a

- 25 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

decisão de resolver tudo de uma vez por todas. Ele lhe serviu conhaque,
entretanto ela mal sentiu o sabor da bebida forte. Seu coração acelerou, e as
palmas das mãos umedeceram quando ele sentou-se na poltrona ao seu
lado. Tentou falar, mas sua boca estava seca. Por fim disse:
— Markus, sinto... sinto tanto desapontá-lo... — Engoliu em seco,
desesperada. — Foi tudo um engano, Markus... um alarme falso.
Silêncio, um silêncio longo e opressivo. Kim estava branca como papel.
— O que foi alarme falso? — perguntou Markus, com a voz
perigosamente macia. — Então?
— Eu... não estou esperando um filho... Pronto, estava dito! Agora
tinha que enfrentar as consequências. Sua mão subiu até o pescoço, invo-
luntariamente, para sufocar a emoção.
— E quando foi que você descobriu isso, Kim?
— Só hoje... um pouco antes do jantar. — Ela desceu a mão até o
peito, onde seu coração parecia que ia saltar para fora. — Sinto muito,
Markus. Foi infantilidade da minha parte cometer um erro desses.
— Foi muito conveniente — comentou ele, com o rosto inexpressivo.
— O que está querendo insinuar, Markus.
— Esse "erro" proporcionou a seus pais um apartamento na Espanha.
Kim sentiu muito medo. Seus olhos escureceram de pavor. Teve
vontade de beber todo o conhaque num gole só, mas se controlou.
— Você não pensa que... quer dizer, é claro que acredita na minha
palavra... que foi um erro de minha parte, não?
— Já disse que há alguma coisa em você que eu não consigo decifrar.
— Markus, precisa acreditar em mim! — exclamou Kim, com o coração
apertado. — Por favor, acredite!
— E se eu preferir não acreditar? — perguntou ele, percebendo sua
aflição.
— Por favor — implorou Kim, com os olhos umedecidos de lágrimas.
Estava agindo de forma oposta à que tinha planejado, mas seu corpo não
parava de tremer. — Erros assim são cometidos todos os dias. Você fala
como se... como se meu caso fosse único.
— Mas é único, querida.
— Não compreendo onde você quer chegar Markus...
— Diga-me Kim, o que a deixou tão segura de que estava esperando
um filho de Demetrius?
— Eu achei que...
— Achou! Achou e aceitou, sem consultar um médico? Seu único
intuito foi pressionar Demetrius a se casar com você.
—, Não o pressionei! — exclamou ela, indignada, erguendo-se da
poltrona.
— Pressionou, sim. Você estava decidida a se casar com ele. Pelo
mesmo motivo que pediu dinheiro para mim.
— Eu... acreditava, sinceramente,.que estava esperando um filho.
— Ê, talvez estivesse mesmo convencida — concordou Markus,
finalmente, levantando-se e pondo-se a andar pela sala.
— Então acredita em mim?
— Bem, você me parece muito segura do que diz.
— Em vista do que me aconteceu, eu só podia achar que estava

- 26 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

grávida, Markus.
— Kim, por que você sé entregou a Demetrius? — perguntou ele, agora
bem próximo dela.
— Eu... eu...
Gotas de suor corriam-lhe pela testa. Kim passou a mão trémula pelo
rosto, ao mesmo tempo em que fixava o olhar em Markus, como se estivesse
hipnotizada. Encarou-o com toda a coragem que lhe restava, até que
finalmente ele baixou os olhos e se afastou.
— Então, não haverá herdeiro nenhum?
— Não. Sinto muito.
— Sente mesmo?
— Sim, por toda a confusão que causei. — Kim fez uma pausa. —
Creio que agora a anulação será necessária...
— Anulação? — surpreendeu-se Markus. — Não haverá anulação
nenhuma. Estamos casados e assim continuaremos. Pelo menos por algum
tempo.
Kim agora sentia-se melhor, mal acreditando que conseguira escapar à
ira do marido.
— Ainda quer que eu permaneça aqui no castelo?
— Não só quero, como exijo.
— Mas...
— O que a fez pensar que eu pudesse querer anular nosso casamento?
— Bem, eu imaginei que, diante das novas circunstâncias, você
desejaria ter sua liberdade de volta.
— Estou satisfeito com as coisas do jeito que estão.
— E sua madrasta? Ela devia deixar o castelo quando você se casasse,
não?
— E vai deixar. No testamento do meu pai está escrito que ela terá de
encontrar um outro lugar para morar, e depois sair. Dentro de um mês ela
partirá.
— Compreendo,
"O casamento será anulado depois disso", concluiu Kim, sem
confirmar a resposta.
— Demetrius falou sobre esse testamento. Eu também percebi que
você se casou comigo só para se livrar dela. O casamento foi conveniente
para nós dois, não foi, Markus?
— É verdade.
— Então, apesar de tudo, fui muito útil para você, não?
— Foi. Nosso casamento serviu para alguma coisa. Como lhe disse
antes, nunca pensei em me casar; sempre me arranjei muito bem sozinho,
sem o sentimentalismo idiota das mulheres. O tão falado "amor" nunca me
atingiu — prosseguiu ele, com cinismo. — Pelo que pude observar o amor é
um sentimento transitório que só deixa amargura nas pessoas. Nenhum
homem equilibrado se entregaria a um sentimento desse. Entretanto, apesar
de meu desprezo pelo casamento, vi que, para conseguir me livrar de uma
vez por todas da minha madrasta, teria de me casar, ou esperar por sua
morte. Daí o destino colocou você no meu caminho.
— Bem, tudo foi muito oportuno — comentou Kim.
— Sem dúvida! Tirei vantagem da situação. Mas pensei muito, antes

- 27 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

de tomar esta decisão. Os gregos não gostam de se casar com mulheres que
pertenceram a outro homem.
— Entretanto, eles têm amantes! Markus riu e aproximou-se dela
outra vez.
— Pode parecer estranho para você, Kim, mas é o nosso modo de viver,
totalmente diferente do Ocidente. Nós temos amantes, é verdade, mas a
castidade nas mulheres é fundamental quando vamos nos casar em
circunstâncias normais, claro.
— Glaro...
Kim teve ímpeto de dizer que ela ainda estava em condições de se
casar com um grego, já que nunca se entregara a ninguém. Mas se calou. De
qualquer maneira, já se acostumara com a ideia de ser considerada uma
"mulher vulgar" por Markus Christou.
— Mas as mulheres daqui são muito submissas, Markus.
— As mulheres gostam de ser dominadas.
— Há uma grande diferença entre ser dominada e submissa.
— Uma pequena diferença, Kim. Mas isso não importa nem para você
e nem para mim, já que o nosso casamento é e sempre será uma farsa.
"Sempre será"... essas palavras magoaram o coração de Kim. Será que
suportaria aquele convívio, sentindo seu amor por ele aumentar a cada
instante?
— Quanto tempo ainda pensa em continuar casado?
— Não sei.
— Seria... até que sua madrasta fosse embora?
— Talvez — retrucou ele, impaciente. — É bem provável que ela queira
voltar quando souber que nosso casamento foi desfeito. E este é um risco
que eu não pretendo correr. Quero sua palavra, Kim, de que ficará aqui até
eu mudar de ideia.
— E se eu recusar? Suponho que você ligaria para meus pais, não?
— Está insinuando que eu faria chantagem com você? — perguntou
ele, com os olhos duros como aço.
— Não, eu...
— Cuidado, muito cuidado, Kim. Você ainda não me viu nos piores
dias.
— Eu não pretendia... Sinto muito, Markus, eu lhe dei minha palavra,
e prometo cumpri-la.

CAPÍTULO V

Quinze dias se passaram, e Kim começou a tomar conta do castelo. A


princípio, ficou assustada com a tarefa, mas depois descobriu que Litsa, a
ex-governanta da casa, estava louca para retornar às suas antigas funções,
abandonadas desde que Alexandra a afastara delas. Assim, tudo ficou mais
fácil e agradável: Kim apenas escolhia os menus, supervisionava o serviço da
casa e não deixava que faltasse nenhum alimento na despensa.
Mais segura, ela começou também a modificar a decoração do castelo.
Desde o primeiro dia que chegara ali, se encantara com uma saleta do
primeiro andar, que dava vista tanto para o oceano e os jardins como para o

- 28 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

castelo do qual Demetrius falara, pertencente ao grego e à irlandesa. Era


uma sala pequena, quase em desuso, com aspecto triste.
Usando a imaginação, Kim acabou por transformá-la num cantinho
agradável e acolhedor. Trocou os tapetes, tirou os móveis pesados e colocou
outros mais leves no lugar. Quando Alexandra notou a mudança, não
escondeu seu desprezo:
— Imagine, mexer nessas preciosidades! Não podia ter tirado estas
poltronas francesas da sala de estar! Estão lá há décadas!
— E por que não? Se é aqui que moro, devo decorar o lugar de acordo
com minha vontade — respondeu Kim, com firmeza. — Estou fazendo o que
acho melhor.
— O castelo ficará irreconhecível se continuar fazendo isso!
Kim nem se importou com as palavras de Alexandra. Estava tão
contente que nada poderia afetar seu bom humor. No dia seguinte foi
chamar o marido para lhe mostrar o resultado.
Markus parou à porta, com uma expressão indecifrável nos olhos. Kim
ficou radiante, ao constatar que mais uma vez conseguira intrigar o marido.
Aos poucos, Markus ia percebendo que ela não era aquela mulher vulgar e
aventureira que ele julgara. Agora já a via como uma "boa garota".
Sorriu para o marido.
— Gostou?
— Está muito bonito, Kim. Aconchegante e convidativo.
— Foi feito para ser assim — observou ela, satisfeita.
Markus entrou e sentou-se num sofá.
— Então Kim, não vai me oferecer um drinque?
— Mas não tenho nada para lhe oferecer aqui!
— Não? Então vamos providenciar isso imediatamente. Há uma
pequena cristaleira nos aposentos de Alexandra. É uma peça antiga, mas
belíssima. Providenciarei para que seja transferida para cá.
— Oh não, por favor, Markus. Vamos esperar até que Alexandra se vá.
— Por quê? Se começarmos a tirar as coisas dela agora, Alexandra se
mudará mais cedo do castelo. O problema é que ela está muito bem
acomodada por aquii
— Não será muito gentil de nossa parte fazer isso.
Apesar da recusa de Kim, na manhã seguinte, a cristaleira estava na
saleta. Não só ela, como tambem uma pequena estante, uma mesinha de
centro inglesa e um vaso de porcelana.
Naquela noite, Kim conversou com Markus durante o jantar. :
— Não preciso de mais nada para a saleta, Markus. E não acho justo
tirarmos objetos dos aposentos de sua madrasta. Quer queira, quer não, ela,
mora aqui há muitos anos e está acostumada comi suas coisas.
— Mas você também não gosta de Alexandra? — retrucou o marido,
franzindo a testa. — Então por que se preocupar? Quanto mais
desconfortável ela se sentir, mais cedo partirá. Não é isso que desejamos?
Kim não respondeu, mas notou que a conversa; tinha surtido efeito.
Ninguém pegou mais nada dos aposentos da velha senhora, que a cada dia
se torna-va mais seca e amarga.
Dez dias depois, Alexandra deixou o castelo. Tinha alugado um chalé
em Hatla, um lugar próximo da capital da ilha.

- 29 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Markus nem se ofereceu para ajudá-la. A despedida foi rápida e seca.


Era como se eles nunca tivessem morado juntos.
Naquela noite, Kim andava de um lado para o outro do quarto, aflita,
sem conseguir dormir. Devia estar totalmente relaxada, agora que estava
livre dos insultos e do desprezo de Alexandra, mas sua sensação era bem
diferente. Por fim, percebeu que o que a preocupava eram seus sentimentos
em relação ao marido, e a triste constatação de que ele jamais
corresponderia ao seu amor. Ele próprio lhe dissera que o amor não passava
de um sentimento superficial, próprio das mulheres. E, mesmo que Markus
fosse capaz de amar um dia, ela seria a última pessoa que ele escolheria.
Kim suspirou profundamente. Decidiu tomar um banho bem quente
para relaxar os músculos.
A água gostosa e perfumada envolveu seu corpo como um véu. Depois
de se enxugar, prendeu os cabelos, vestiu uma camisola leve e transparente
e foi se deitar.
Rolou de um lado para o outro na cama, e nada de dormir! Estava tão
inquieta e nervosa quanto antes. Levantou-se. O que fazer? Precisava
descobrir um jeito de se livrar daquele homem, daquele amor sufocante.
Seria a melhor solução. Não adiantaria nada ficar ao lado dele, amando-o em
silêncio, sem receber nada em troca. Lembrou-se do que Markus lhe dissera
sobre Alexandra. Ela já saíra do castelo logo, Kim também podia ir embora,
sem que a velha soubesse da separação.
Uma anulação ou a separação amigável, que importava? Sim, mudar-
se seria a decisão mais sábia a tomar. Kim olhou para a porta de
comunicação entre seu quarto e o do marido e, quase que instintivamente,
sua mão se ergueu e deu duas batidinhas contra o carvalho. Um silêncio
opressivo se seguiu. Ia bater novamente quando a porta se abriu e ela viu-se
frente a frente com Markus.
— Sei que é tarde, Markus, mas gostaria de conversar com você.
— Conversar? — Ele ergueu uma das sobrancelhas, analisando-a de
alto a baixo com um olhar muito intenso. — Não podia ter esperado até
amanhã?
Kim arrependeu-se de tê-lo procurado Markus caminhava lentamente
em sua direção, com o cinto do roupão frouxo, e os olhos escuros e
indecifráveis. Entrou no quarto, fazendo-a perder toda a compostura.
— É melhor eu falar com você amanhã! — Markus estava a poucos
centímetros dela.
— Por que me chamou?
Kim ficou pálida. A situação parecia perigosa!
— Por que me chamou? — insistiu Markus, com voz rouca, carregada
de desejo.
— Para... para falar com você. Mas, como você mesmo disse, é melhor
deixar para amanhã.
O coração de Kim disparou. Que ingenuidade, bater na porta de
Markus vestindo aquela camisola transparente, cheia de rendas, que
revelava cada curva, cada linha do seu corpo! Cometera uma loucura, e
agora seria difícil arcar com as consequências...
— O que deseja me falar, Kim?
— N-nada.

- 30 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Não minta, querida. Para que essa encenação? Se quer que eu


durma com você, por que não fala de uma vez?
— Não, oh, não! Como você é odioso!
Mas, antes que Kim pudesse dar um passo atrás, foi agarrada pela
cintura. Não havia como escapar. Debateu-se de um lado para o outro, mas
os dedos de Markus pareciam de aço. Ele a segurou pelo queixo, forçando-a
a jogar a cabeça para trás, c colou os lábios contra os dela.
Kim sentiu o calor e a umidade da boca do marido, que a forçava a
abrir os lábios. Um estremecimento de prazer passou-lhe pela espinha
quando suas línguas se tocaram.
Mas ela continuava a se defender. Com os punhos cerrados, batia
contra aquele peito largo e musculoso. Markus agarrou-lhe as duas mãos e
as prendeu atrás das costas, tornando-a totalmente frágil e indefesa. Kim
viu-se à mercê de um amante fervoroso e experiente, que sabia como
despertar seus desejos. Agora ele lhe acariciava os seios, apertando-os com
delicadeza, deixando-os duros e intumescidos.
Ela estremeceu de prazer. Pequena e desamparada, agora se submetia
aos desejos de Markus. Enlaçou-o com sensualidade, acariciando-lhe a nuca
morena, com sofreguidão.
Entretanto, quando sentiu a mão dele por debaixo da camisola,
alisando suas coxas, uma luz de perigo se acendeu em seu cérebro. Soltou
um gemido e, com toda força, empurrou-o para longe.
— Vá embora! Saia imediatamente!
Um sorriso irónico surgiu nos lábios de Markus.
— Eu já esperava uma aproximação da sua parte, mas tenho de
admitir que não pensei que faria uma cena ridícula dessas. Bem... faz parte
do charme feminino fingir relutância. Embora, só Deus aiba o porquê, pois
as mulheres são mais sensíveis diante do sexo que o homem!
— Vá embora, por favor! Kim tentou sair do quarto, mas Markus
segurou-a pelo braço, puxando-a com violência contra si.
Ela começou a chorar, humilhada. Os olhos do marido a observavam
com desejo, enquanto seus dedos percorriam as curvas macias do corpo
frágil. Kim não ousava se mexer. As lágrimas continuavam a lhe rolar pelas
faces.
— Eu te odeio — sussurrou, derrotada. — Você não está cumprindo o
que combinamos.
— Nós combinamos? — Markus afastou-se um pouco para olhar o
corpo dela, fazendo-a corar. — Você queria se casar, e eu concordei...
— Eu fiz um acordo — interveio ela, sacudin-do a cabeça. -— Mas o
que importa? Por favor, vá embora e me deixe em paz. Foi você mesmo que
disse que este não seria um casamento consumado.
Markus fitou-a profundamente, enquanto soltava seus cabelos loiros.
— Está falando sério, mesmo? Quer que eu vá embora? Se não
pretendia ser amada, por que bateu à minha porta nesses trajes?
— Eu queria lhe dizer uma coisa — respondeu ela, sem jeito, tentando
se livrar dos braços dele.
— Bem — concluiu ele, depois de alguns instantes — qualquer que
tenha sido a razão para você me chamar durante a noite, cometeu um erro
minha cara.

- 31 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— O quê...
— Sim, querida, pretendo ficar. Fui provocado, e você já tem
experiência para saber quando um homem não pode mais voltar atrás. —
Ele enlaçou-a, apertando-a contra si.

Kim não ofereceu resistência quando ele a despiu; era verdade o que
Markus dissera. Mesmo inexperiente, sabia reconhecer a paixão naqueles
olhos escuros e repletos de desejo. Agora, seria difícil resistir afinal, ela era
sua esposa...
Os beijos apaixonados e ardentes de Markus queimavam como fogo; as
mãos experientes e exigentes despertavam cada fibra do seu corpo,
deixando-a totalmente entregue. Ele carregou-a sem dificuldade até a cama,
deitando-se ao seu lado. Kim tremia de prazer, louca de desejo, gemendo
suavemente ao toque daquelas mãos fortes.
Novamente, um aviso de perigo despertou sua consciência e ela saltou
da cama, com as pernas trémulas.
— Não posso! — gritou, histérica, pois lembrou-se que seria
desmascarada se o ato de amor se consumasse. — Não!
Desesperada, correu instintivamente para a porta.
— Que diabos aconteceu com você?! — exclamou Markus, segurando-a
antes que ela saísse. — Ficou louca? -Quer desfilar assim na frente dos
empregados?
Ele trancou a porta e guardou a chave, empurrando-a com violência
para a cama. Ingenuamente, Kim arregalou os olhos.
— Esqueci que estava nua...
-— Uma coisa estranha de se esquecer, não acha?
— Não vou permitir que me possua! Vá embora, por favor, deixe-me
em paz! — gritou ela.
Notou o rosto transtornado de Markus, e sentiu vontade de lhe contar
toda a verdade. Mas não teve coragem! Era lógico que ele não estava
compreendendo sua atitude, e que ela devia parecer uma louca!
Finalmente, Markus recobrou a razão e a autoconfiança.
— Ora, Kim, não faça drama!
— Não! Por favor, vá embora... Deixe-me em paz. Mudei de ideia...
— Mudou? — Os olhos dele adquiriram um brilho satânico. — Sinto
muito, querida, mas a essa altura você não pode mais mudar de ideia.
Kim lutou contra o marido como uma gata selvagem; soluçou,
debateu-se, mas em vão. Finalmente, sem forças, desistiu e entregou-se à
paixão.
— Então era mentira! Você não dormiu com meu irmão... nem com
nenhum outro homem! — disse ele na manhã seguinte.
Já vestida, à porta do banheiro, Kim estreme ceu. Aquela era a hora da
verdade. O que Markus faria?
— Então? Não tem nada a dizer? — insistiu ele, parado no meio do
quarto, com o robe amarrado à cintura.
Kim levantara-se cedinho, enquanto ele ainda dormia. Sabia que devia
ter lutado um pouco mais na noite anterior. Talvez Markus tivesse desistido
de fazer amor com ela... Mas sucumbira ao desejo, irremediavelmente.
Ele fez um gesto imperioso.

- 32 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Venha cá, Kim.


Ela recusou-se, sacudindo a cabeça, pressionando a mão contra o
peito, como se quisesse conter a emoção.
— V-você me assusta. Por favor, v-vá embora e me deixe em paz.
— Eu disse para você vir até aqui, perto de mim.
As pernas de Kim estavam bambas, seu rosto pálido como papel. Deu
um passo atrás, apavorada, e caminhou em direção à porta. Mas, de
repente, quando tocou a maçaneta, sentiu raiva e achou que devia enfrentá-
lo. Virou-se de frente para ele, de punhos fechados. Seus olhos pareciam
soltar faíscas.
— Não fique aí me dando ordens! O casamento beneficiou tanto a você
quanto a mim. Do que está reclamando?
Os olhos de Markus ficaram perigosamente ameaçadores e ele foi se
aproximando, devagar, mas Kim não se moveu.
— Você me enganou, sua viborazinha mentirosa!
Kim viu-se comprimida contra ele, quase sem fôlego, e teve medo de
sua fúria.
— Percebia que você escondia um segredo, sabia que estava rindo de
mim, mas nunca poderia adivinhar que era sua virgindade!
— Eu não estou rindo de você, Markus, acredite-me...
Ela não pôde continuar, pois os lábios de Markus tomaram cruelmente
os seus, machucando-a. Depois ele a largou com um safanão. Kim foi
sentar-se na cama, trémula e assustada. Colocou a mão sobre o peito
arfante, e ergueu os olhos para aquele homem duro e insensível como pedra.
— Vá embora. Por favor, vá embora... Para sua surpresa, Markus
virou-se de costas.
— Falaremos sobre isso mais tarde.
Ele saiu, batendo a pesada porta de carvalho com força.
Markus apareceu só na hora do jantar, na varanda, onde Kim estava
sentada, lendo um livro.
— Temos que manter as aparências na frente dos empregados — disse,
bruscamente.
— Claro.
— Tudo continuará como antes, entendido?
— Está bem, Markus.
Tudo como antes... como se nada tivesse acontecido! Com o coração
apertado, viu-o sair da varanda. Não sabia por quanto tempo mais
suportaria aquela tensão. Os dias se arrastariam, intermináveis, até que
chegasse a hora de sua redenção...

CAPÍTULO VI

Durante uma semana eles se falaram apenas na hora do jantar, para


manter as aparências. Kim não compreendia a atitude de Markus. Às vezes
ele parecia irritado, e outras reservado e distante. Provavelmente, devia estar
com o orgulho ferido, achando que Kim o fizera de idiota e o enganara, que

- 33 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

rira às suas custas.


Um dia, já impaciente pela maneira como as coisas estavam correndo,
Kim resolveu tocar no assunto. Quem sabe conseguiria pôr tudo em pratos
limpos? Prudentemente, escolheu a hora do jantar para a conversa. Ali,
Markus "não teria como perder a compostura, nem gritaria com ela.
Assim que se sentaram, Kim o encarou com firmeza e falou:
— Temos um assunto para conversar. A última vez que estivemos
juntos, você falou que discutiríamos sobre isso depois, mas até agora não
disse nada e já faz uma semana...
— Tem certeza de que temos o que conversar? — interveio ele,
friamente.
— Sim, muita coisa. — Kim estava pálida, mas determinada a
prosseguir. — Você está fazendo uma ideia errada de mim e me odiando por
causa disso.
Kim viu Markus franzir a testa e remexer-se na cadeira. A palavra
"ódio" teria sido um pouco forte? Desgosto, talvez... raiva.
— Prossiga, Kim.
— E me acusa de rir de você. Isso não é verdade.
— Eu sabia que você guardava um segredo, e que, por causa dele,
estava brincando comigo. Não tem medo do que eu possa fazer agora?
— Prefiro correr o risco. Nós não podemos continuar assim. Nosso
relacionamento está tenso demais.
Embora Markus não tivesse dado sua opinião, Kim teve a impressão
de que ele concordava plenamente com o que ela acabara de dizer. Isso a
animou a continuar:
— Você ficou furioso porque se sentiu enganado. Bem, não posso
negar isso. Mas nego até o fim que eu estivesse rindo de você. E, quanto ao
segredo... deve imaginar que também foi um peso enorme para mim.
Markus franziu a testa.
— Por que você não desmentiu a gravidez desde o começo?
— Devido à sua arrogância, e ao fato de ter-me acusado
imediatamente de "caçadora de dotes". Mas agora faço questão de esclarecer
que nunca tive intenção de me casar com seu irmão. Ele era apenas um
garoto, estava iludido, e eu lhe disse isso na penúltima vez em que saímos.
Mas Demetrius não quis aceitar minha recusa, quase brigamos. Já tínhamos
terminado tudo quando você me conheceu.
— Já tinham terminado? — repetiu Markus, intrigado. — Então, por
que marcou outro encontro com ele?
— Demetrius ficou tão magoado com a minha recusa que ameaçou
chorar, foi por isso que concordei em sair com ele no sábado. Depois,
aconteceu de você ir à Inglaterra. E... bem, o resto você já sabe.
— É essa toda a verdade?
— Markus, eu não teria nada a ganhar mentindo para você a essa
altura dos acontecimentos.
— Mas se você não pretendia se casar com Demetrius, por que não me
disse?
— Já lhe expliquei: por causa de sua atitude. Você não quis me ouvir,
nem demonstrou o menor respeito por mim. Quando lhe perguntei sobre a
informação que Demetrius lhe havia dado para obter a permissão para o

- 34 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

casamento, você não me respondeu!


— Más, Kim, você devia ter insistido!
— Markus... não pode me culpar! A verdade é que, acreditando que eu
estava grávida de Demetrius, você achou que eu soubesse sobre o que estava
falando. Mas eu não fazia a menor ideia do que ele lhe tinha dito. É evidente
que Demetrius pensava que podia convencer-me a casar com ele depois de
obter o seu consentimento.
— E que desculpa ele lhe daria depois? Kim suspirou, impaciente.
— O que importa? Demetrius está morto agora. E, mesmo que ainda
estivesse vivo, eu não me casaria com ele!
— Está bem, está bem — concordou Markus, contrariado. — Estou tão
confuso quanto você com essa história toda, mas o que sei é que você deixou
que eu acreditasse que tinha se entregado ao meu irmão!
Kim teve a impressão de que Markus havia ficado mais magoado com
esse fato, do que pela mentira da gravidez.
— Você me acusou de aventureira, lembra-se? Quando eu estava
prestes a lhe dizer que não pretendia me casar com Demetrius, você me
interrompeu e ordenou que eu esquecesse a ideia de casamento! É claro que
fiquei furiosa, muito sentida, e preferi me calar. Depois você ainda me
perguntou se eu tinha algo a dizer em minha defesa! Como se eu fosse
culpada de alguma coisa! Qual teria sido a sua reação, Markus, numa
situação idêntica?
— Acho que reagiria da mesma forma — admitiu ele, com relutância.
— Pois então. Eu simplesmente não podia lhe dar a satisfação de
saber que não pretendia me casar com seu irmão! Preferi ficar calada e
deixá-lo preocupado.
— Reação típica das mulheres. Principalmente as inglesas! —
comentou ele, irónico.
— Depois, quando veio me avisar da morte de Demetrius, pensei em
lhe contar toda a verdade, claro, mas o momento não era propício. Além do
mais, achava que nunca mais o veria.
Markus a fitou demoradamente, como se quizesse ler seus
pensamentos. Kim se manteve na defensiva. E agora, ele estaria mais calmo,
como parecia, ou estava apenas escondendo sua fúria? No entanto, a
pergunta que ele fez pegou-a completamente de surpresa.
— Por que você me procurou naquela noite em meu quarto? Não foi
pela razão que pensei, obviamente — emendou, vendo-a corar. — Agora sei
que a última coisa que queria era ser desmascarada.
— Eu fui até lá para falar sobre nossa possível separação — disse Kim.
— Podemos arranjar as coisas de modo que Alexandra não fique sabendo de
nada.
— Não haverá separação nenhuma, Kim. Você é minha esposa, e
assim continuará, pensei que já tinha deixado isso bem claro.
— Mas você disse que ficaríamos casados só por algum tempo.
— Também disse que minha madrasta poderia querer voltar, caso
soubesse da nossa separação.
— Mas ela não precisa ficar sabendo de nada. Posso viajar para a
Inglaterra, e ficar por lá.
— Tire essa ideia da cabeça — ordenou Markus, em tom ameaçador. —

- 35 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Se ousar me abandonar, ligarei imediatamente para seus pais na Espanha.


— Está me chantageando?
— Cuidado — recomendou ele novamente, com os olhos brilhantes de
raiva. — Muito cuidado comigo, Kim.
— Não acredito que você teria coragem de magoar meus pais —
retrucou Kim, lembrando-se de como Markus tinha gostado deles. — Você só
está me ameaçando.
— Não me provoque, Kim. Estou bastante sa tisfeito com o nosso
casamento e não pretendo acabai com ele agora.
— Então devo continuar aqui, com você... para sempre? — perguntou
ela, pensando que, ficar a vida toda ao lado de um homem que não a amava,
nem a respeitava, seria um inferno! — Trabalharei para pagar tudo o que
deu a meus pais, Markus, mas vivermos juntos, como marido e mulher, sem
amor... — sacudiu a cabeça com veemência. — Seria imoral.
Markus jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
— Os gregos não se importam com o amor, nem tão pouco com a
moralidade. Os desejos da carne falam mais alto.
Kim observou-o furtivamente. Markus parecia estar assumindo uma
atitude falsa! Por quê? Teve a impressão de que, pela primeira vez, ele não se
sentia à vontade. Alguma coisa o perturbava, lá no fundo do coração. Mas, o
quê? Por mais que tentasse, jamais conseguiria ler os pensamentos dele...
Dois dias depois, Kim telefonou para seus pais, num horário
previamente combinado. Assim que o telefone tocou, a sra. Russell atendeu.
— Olá minha filha! Você está bem? Oh, querida, não sabe que vida
maravilhosa desfrutamos aqui! O sol é bem quente, não temos preocupaçõe
e nossos amigos são muito bons. Não sei como agradecer-lhe, Kim! Nós a
amamos muito, viu? Teve sorte de encontrar um homem tão bom e bonito
como Markus!
Kim sorriu. A felicidade de sua mãe não tinha preço e ela faria
qualquer sacrifício para mantê-la,
— E papai, como está? Melhor?
— Sim, querida, cada dia melhor. Mas ele também vai falar com você,
está aqui ao meu lado, ansioso por ouvi-la!
— Alo, Kim! Tudo bem? Sim, sim, estou com uma saúde de ferro, foi o
médico quem disse. Hoje estivemos nadando na piscina do clube, e agora
vamos fazer algumas compras para o fim de semana.
— Hum, pelo jeito estão se divertindo bastante, papai!
— Se estamos! Parecemos dois jovens!
— Mas vocês ainda são jovens! A idade está na cabeça, por isso vocês
jamais envelhecerão.
O pai riu do outro lado da linha, e Kim mais uma vez sentiu-se
gratificada.
— Sabe, filha, decidimos nunca mais pensar nem falar em Stephen.
Pode parecer egoísmo da nossa parte, mas fizemos tudo o que podíamos por
ele, infelizmente nossos esforços foram inúteis. De nada adiantaria nos
preocuparmos com ele, agora.
— Só prejudicaria sua saúde, papai. Não estão sendo egoístas, não,
vocês nunca foram. Então, divirtam-se, aproveitem os dias ensolarados da
Espanha! E, quanto ao dinheiro, tudo bem? Não está faltando nada?

- 36 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Ótimo! Não vivemos luxuosamente, claro, mas estamos bem


alimentados. — O sr. Russell soltou mais uma risada gostosa. — E a mobília
que compramos, espere só para ver! Nosso apartamento está brilhando
novamente! Você e Markus têm de nos fazer uma visita qualquer dia destes.
Que tal?
— Conversarei com ele — prometeu Kim, sem se estender mais.
— Você parece feliz, minha filha. Como é viver numa ilha grega?
— Maravilhoso! Malindos é pequena, e tem poucos turistas. De vez em
quando, alguns navios atracam por aqui, e existem hotéis muito charmosos.
— E você mora num castelo, não é? Por falar nisso, querida, até hoje
não nos mandou fotos do lugar. Não temos ideia de como é a sua casa!
— Já tirei algumas fotos, e assim que terminar o filme mando tudo
para vocês.
— Lembre-se, tire muitas com você e Markus.
— Está certo.
Depois de se despedir dos pais, Kim desligou Só então percebeu que
Markus estava atrás dela.
— Você ouviu? — Soltou um suspiro. — Eles acham que estou muito
feliz.
— E não está?
Kim ergueu os olhos para o marido, intrigada com sua expressão.
Seria possível que Markus também estivesse desejando que eles tivessem se
conhecido em outras circunstâncias? Uma leve esperança brotou no coração
de Kim naquele instante, e ela sorriu.
— Talvez, um dia, quem sabe. Markus ficou carrancudo.
-— Quer dizer que seu pai deseja algumas fotos nossas?
— É, ele pediu não algumas, mas várias! Será que...
— Sim, claro! Andreas pode fazer isso para nós.
Andreas era o mordomo do castelo, um empregado calado, sisudo, mas
muito eficiente.
— Quando tiraremos as fotos, então? Gostaria que fosse o mais rápido
possível, Markus.
— Esta tarde, se você quiser.
— Oh, sim, seria ótimo. Obrigada.
— Por quê?
— Por concordar em posar comigo para as fotos.
— Precisamos manter as aparências.
Mais tarde, enquanto jantavam, Kim falou sobre a possibilidade de
eles irem até a Espanha.
— Não prometi nada a meus pais porque sabia que você não aprovaria
a ideia — emendou, apressada.
Markus encarou-a em silêncio por um instante, notou-lhe os olhos
brilhantes, e os lábios trémulos e ansiosos.
— O que a fez pensar que eu não gostaria de ir até lá?
— Bem, eu. — Kim sentiu o coração leve de novo, cheio de felicidade
—... não pensei que desejasse passar umas férias comigo.
— Vamos considerar a ideia — disse Markus, admirando os cabelos
loiros de Kim à luz das velas. — Por enquanto não, pois ainda temos muitos
negócios a resolver. Preciso ir à capital dentro de duas semanas, e devo

- 37 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

passar quatro ou cinco dias fora.


— A negócios? — perguntou ela, sentindo um peso no estômago. —
Eu... eu... não poderia ir com você? — Olhou-o, esperançosa e suplicante. —
Não vou atrapalhar, prometo.
Markus recusou sacudindo a cabeça, mas Kim teve a impressão de
que ele se esforçou para negar-se a satisfazer-lhe o desejo.
— Não posso levá-la comigo. Tenho muito o que fazer e você ficaria
sozinha a maior parte do tempo. — Fez uma pequena pausa, analisando o
rosto da esposa. — Parece que você se esqueceu que o nosso casamento não
é convencional, Kim.
— Não me esqueci, não. É que agora mesmo deu a entender que talvez
fosse para a Espanha comigo, então... então tive coragem de perguntar se
poderia acompanhá-lo até Atenas.
— Outro dia, talvez — respondeu ele, secamente.
"Que homem enigmático!", pensou Kim. Ele parecia estar arrependido
de ter sido gentil com ela e ter-lhe prometido a viagem até a Espanha.
E, mais uma vez, Kim pôde verificar isso, pois logo depois Markus a
convidou para dar um passeio.
— Estive trancado no meu escritório o dia inteiro. Preciso respirar um
pouco de ar puro.
Kim pulou da cadeira, ansiosa por acompanhá-lo.
— É melhor ir buscar um casaco, Kim.
— Ah, não.
— Vá buscar — interveio ele, autoritário. — Espero por você no hall.
— Mas está muito quente, Markus, não há necessidade...
— Faça o que mandei.
Reconhecendo o tom imperioso daquela voz, ela obedeceu, corando
levemente. Dali a pouco encontrou-se com o marido no hall, e os dois saíram
em direção ao jardim. O cantar incessante das cigarras pairava no ar, vindo
das oliveiras; o aroma suave das flores, carregado pela brisa, impregnava o
ar.
— É lindo! — murmurou ela, baixinho, respirando fundo.
A lua cheia iluminava todo o jardim, banhando-o num véu de prata. O
céu parecia de veludo, as estrelas refletiam-se nas águas profundas do mar.
A areia branca da praia, mais adiante, parecia mesclar-se com a espuma das
ondas.
Os dois caminharam pelas alamedas floridas, por entre os gramados,
sempre devagar, sentindo a magia da noite. No horizonte, as luzes de um
navio tremeluziam e, mais próximo da costa, as lamparinas de pequenas
embarcações denunciavam a presença de pescadores no mar.
Malindos era uma ilha pequena, pobre, mas seus habitantes pareciam
muito felizes.
— Quer dizer que você gostou da Grécia? — perguntou Markus.
— Pelo pouco que conheço, sim. Demetrius me falou que há mais de
cem ilhas por aqui, algumas ainda desabitadas.
— É verdade. Há ilhas lindas, pouco habitadas, e outras superlotadas,
principalmente no verão, quando os turistas europeus correm para cá em
busca de paz e tranquilidade.
Enquanto o marido falava, Kim mal ouvia suas palavras, fascinada

- 38 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

pelo seu perfil imponente. Estava louca para tocá-lo, para colocar os braços
em torno de sua nuca e acariciá-lo, beijá-lo...
Como se tivesse lido seus pensamentos, Markus parou de falar um
instante e pôs-se a observá-la com seus olhos escuros.
— Você é muito bonita, Kim — murmurou ele, baixinho, passando os
dedos de leve por seus cabelos remexidos pela brisa da noite. — Entretanto,
conheço-a tão pouco. Fale mais sobre sua vida na Inglaterra.
— Não era muito interessante — disse ela, sem querer prolongar muito
o assunto. — Depois que papai fitou doente, saíamos pouco para passear.
Também, já estávamos relativamente pobres... Oh, mas você não pode estar
interessado nisso!
— Não tem irmãos ou irmãs?
— Não, só Stephen, que foi adotado por meus pais.
— Não teve mais notícias dele? Kim sacudiu a cabeça.
— Não estamos mais interessados no que lhe possa acontecer. Ele nos
causou muito sofrimento.
— Compreendo. Cada um de nós tem sua própria vida; é nosso
tesouro mais precioso, e, se a desperdiçamos com gente que a desrespeita,
perdemos tudo o que ela pode nos proporcionar de bom. A vida é curta
demais para ser desperdiçada, Kim.
As palavras foram ditas em tom sério e sincero. Kim ergueu o rosto
para Markus, oferecendo-lhe os lábios trémulos e entreabertos. Percebeu a
vibração que emanava daquele corpo viril, sentiu o desejo que provocava em
Markus com intensidade.
— Você é tão diferente, Kim — sussurrou ele roucamente, tomando-a
nos braços e beijando-a com louca paixão.
Kim viu-se esmagada contra aquele corpo rijoforte, ardente de desejo.
As mãos másculas passeavam por seu corpo, cada vez mais exigentes, mais
exploradoras.
Ela enfiou a mão por debaixo da camisa de Markus, e pôde sentir a
excitação percorrendo-lhe a espinha enquanto tocava a pele morena.
— Venha — murmurou Markus. — Está ficando tarde... tarde demais
para ficarmos aqui fora!
CAPÍTULO VII

Kim estava ansiosa e indócil. Markus continuava em Atenas. Já fazia


quatro dias que ele telefonara, apenas para lhe dizer que teria de prolongar
sua estada por tempo indeterminado. A notícia a deixara insegura, a cada
dia que passava, parecia mais distante a ideia de que conseguiria conquistar
o coração de seu marido.
Antes de partir, Markus lembrara mais uma vez que o casamento deles
não era convencional, e não se referia ao lado físico da relação, que estava
cada vez mais completo. Nenhum casal loucamente apaixonado conseguiria
proporcionar mais prazer um ao outro do que eles se haviam dado naquelas
noites de paixão.
Para Kim, aquilo parecia um sonho; era como se flutuasse pelo castelo,
vivendo apenas de amor. Conhecera a magia do dar e receber em sua
plenitude. Assim, seu sentimento pelo marido florescera e criara sólidas
raízes. Cada vez que faziam amor, ela se entregava com mais intensidade. O

- 39 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

surpreendente era que Markus não percebera seu amor! Às vezes, ela queria
revelar-lhe tudo, para checar sua reação; outras, tinha medo de que ele se
tornasse distante e arredio ao saber.
Descobrindo que ela o amava, talvez Markus desejasse novamente sua
liberdade, ainda mais agora, que Alexandra não pensava mais em voltar para
o castelo. A velha senhora finalmente se instalara na ilha de Rhodes, e já
mandara uma lista das coisas que deveriam ser transferidas do castelo para
sua nova residência. Markus não fizera nenhuma objeção às exigências da
madrasta. Assim, durante vários dias, muitos objetos e móveis para lá foram
transportados pelos empregados.
Kim voltou a pensar no comportamento do marido. Não, ele não se
referira ao lado físico do relacionamento deles; apenas insinuara que não
havia amor entre eles.
E, no entanto, algumas vezes Markus demonstrara certa ternura por
ela, algo que ia além de um simples desejo carnal.
Não sabia definir que sentimento era esse.
Seria possível que, uma vez reconhecendo que a julgara mal, ele se
visse atraído por ela de outra maneira, completamente diferente? Mas,
então, por que não se declarava?
A única explicação era que, depois de tantos anos dizendo que não
queria se envolver com mulher alguma, ele agora estivesse se esforçando
para manter a palavra. Kim sorriu. Sim, era bem provável que Markus
estivesse vivendo um conflito interior muito grande, mas ela estava
determinada a fazer pender a balança para o lado do verdadeiro amor.
Certa manhã, Kim sentiu-se tão inquieta que resolveu dar um passeio
pelas montanhas. Logo viu-se frente a frente com o imponente portão do
castelo onde moravam o grego e a irlandesa.
Não esperava encontrar ninguém, mas, de repente, avistou uma garota
que cuidava de algumas rosas no jardim. Sem hesitar, falou:
— Olá! Lindo dia, não?
A moça ergueu a cabeça, levou a mão ao chapéu e sorriu. Kim logo
notou que ela era simpática: pele clara, olhos azuis e nariz arrebitado,
repleto de sardas.
— Olá! Então é você a esposa de Markus Christou! Que bom, estava
mesmo querendo conhecê-la. Entre, por favor, vamos tomar um lanche
juntas.
— Obrigada — concordou Kim, alegremente. — Eu também estava
louca para conhecê-la. É tão bom ouvir alguém que fala inglês sem sotaque!
— Mas eu tenho sotaque — riu a moça. — Faz tanto tempo que moro
aqui que até já me esqueci da minha língua pátria... Meu nome é Bridie.
— E o meu é Kim.
As duas caminharam pela alameda sombreada que conduzia ao
castelo.
— Meu marido se chama Giorgios, mas já mudei o nome dele para
George — informou Bridie, piscando um olho.
Kim sorriu para ela. Era uma pessoa bastante agitada, mas parecia
viver muito feliz com o marido. Suspirou com inveja. Algum dia ainda faria
com que Markus também a amasse.
— Aqui estamos. George não está em casa no momento, mas você o

- 40 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

conhecerá da próxima vez. Ou, quem sabe, nós possamos visitar vocês?
— Quando quiserem — respondeu Kim. — Têm bastante tempo livre?
— Oh, sim. Não temos filhos — Bridie riu.
— Mas não foi por falta de tentativa. Faz dois anos que queremos e
eles não vêm... mas ainda não perdemos a esperança.
O castelo parecia-se bastante com o Astura, pois tanto um quanto o
outro foram construídos por italianos; a decoração, entretanto, diferia
bastante: era mais moderna, clara.
Bridie bateu palmas para chamar a empregada. Kim sorriu.
— Puxa, você já pegou esse costume grego de chamar os empregados?
Eu ainda não consegui. Quando preciso chamar alguém, prefiro ir
pessoalmente!
— Ah, mas com o tempo você vai se acostumar
— disse Bridie, rindo. — A gente estranha no começo, mas depois pega
o jeito e perde a vergonha de bater palmas.
Naquele instante entrou a empregada, uma moça morena de olhos
vivos e simpáticos. Bridie pediu-lhe chá com pedaços de torta e convidou
Kim para ir até o pátio atrás do castelo, que, àquela hora, estava repleto de
sol.
Dali a pouco instalavam-se à sombra de um imenso guarda-sol
colorido. O mar rebrilhava e o céu parecia uma imensa safira, sem nenhuma
nuvem.
— A vista é magnífica daqui — comentou Kim, servindo-se de um
suculento pedaço de torta de morango.
— Sua vista também é espetacular, só que um pouco diferente.
— É. Já esteve no Castelo Astura, então?
— Quando Demetrius morava lá ele dava algumas festas e sempre nos
convidava. Fiquei muito chocada com a notícia de sua morte... Agora a mãe
dele também saiu de lá, não foi?
— É verdade.
— Diga-me, Kim, você se deu bem com ela ou a pergunta é muito
pessoal?
Kim sorriu diante da sinceridade da vizinha.
— Bem, não me entrosei muito bem com ela não — confessou. — Mas
parece que até o próprío filho tinha muitas divergências com Alexandra.
— Todo mundo tinha. E todos sabem que o marido simplesmente não
a suportava! Imagine que no testamento do sr. Christou estava escrito que
Alexandra ficaria no castelo até que Markus se casasse. E por isso, há um
ano, ele quase...
Bridie ficou vermelha e levou a mão à boca
— Quase o quê, Bridie?
A moça encolheu os ombros, visivelmente sem graça.
—Nada. — Pegou uma fatia de torta e levou-a à boca. — Esqueça, é
bobagem.
Mas Kim não podia aguentar a curiosidade. Inclinou-se para a amiga,
gentilmente.
— Há pouco satisfiz sua curiosidade. Agora espero que satisfaça a
minha.
— Oh, é muito pessoal,.. Aceita outra xícara de chá?

- 41 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Sim, obrigada.
— A família Christou vive naquele castelo há muitos anos, não, Kim?
— Sim, há muitas gerações.
— Oh, é um lugar maravilhoso — comentou Bridie. — O nosso
também fica num lugar privilegiado, mas acho que prefiro a localização do
Astura.
Kim não respondeu. Bridie fizera o comentário de olhos baixos, era
evidente que estava embaraçada. Bem, o remédio seria mudar de assunto
também. Quem sabe, mais tarde, conseguiria saber o que Markus "quase
fizera" há um ano atrás,
— De que parte da Irlanda você é, Bridie?
— Do oeste, Galway.
— É um lindo lugar, pelo que me disseram. — É, sim. Nunca pensei
que algum dia o deixaria.
— Como conheceu George? Bridie soltou uma risadinha.
— Num hotel onde eu trabalhava. Amor à primeira vista. É muito
frequente entre os gregos...
— Mas há muitos gregos que não se apaixonam.
— Está falando sobre a reputação deles de serem infiéis? São
amorosos, mas infelizmente têm essa fama, Kim. As mulheres gregas não se
importam muito, pois não esperam amor dos seus maridos. Quase sempre
só querem o status de esposa e mãe. E você e Markus, como se conheceram?
— Conheci Markus através de seu irmão.
— Demetrius? — perguntou ela, surpresa. —Como foi?
Kim preferiu evitar aquela conversa, e aproveitou a oportunidade para
dizer:
— Ah, você quer que eu satisfaça sua curiosidade, e a minha pouco
lhe importa!
Bridie riu.
— Não é a mesma coisa.
— É, sim.
— Oh, está bem — resignou-se Bridie, encolhendo os ombros. — Há
mais ou menos um ano, Markus andou cortejando uma prima distante de
George que nos visita muito. Todo mundo achava que ele a pediria em
casamento só para se ver livre da madrasta.
— E agora todos acreditam que ele se casou comigo pela mesma
razão?
— Não, claro que não, Kim!
— Não precisa ficar preocupada, Bridie. Acho natural que as pessoas
tirem essa mesma conclusão sobre o meu casamento.
Kim não se sentia ofendida, mas Bridie, ao contrário, estava muito
sem graça.
— Bem, Markus teria de se apaixonar um dia — comentou. — Eu, por
exemplo, não acho que ele tenha se casado com você só para se livrar
daquela megera. Você é tão bonita... É claro que ele está apaixonado!
Kim ficou vermelha, mas não fez comentários.
— Quer mais um pedaço de torta? — perguntou a vizinha.
— Meu Deus, assim vou estourar! Os gregos gostam de comer bem,
não?

- 42 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Se gostam! — exclamou Bridie, animada.


— Se você quiser, posso lhe ensinar alguns pratos típicos.
— Adoraria!
— Quando posso ir visitá-la?
— Quando quiser. Costumo passear um pouco pela manhã, mas à
tarde geralmente estou em casa.
— Então eu lhe telefono antes — prometeu Bridie. — Esta semana não
vai ser possível, mas na próxima estarei lá sem falta.
As duas se despediram como velhas amigas. Kim ficou contente por tê-
la conhecido; era uma companhia muito agradável, e tinha certeza de que,
com o tempo, se tornariam confidentes.
Voltou para casa bem devagar, pensativa. Então, há um ano, Markus
quase se casara! Mas, pelo jeito, mudara de ideia, achando que mais tarde
se arrependeria. Agora ele estava com ela por outro motivo: pensou que ela
carregasse um herdeiro no ventre!
Mas as coisas continuariam assim? Certamente que não! O casamento
deles já não era mais só contratual. Tinha se consumado, e Kim estava certa
de que ele se sentia feliz com isso. Quanto a ela, entrava em êxtase quando
os dois tinham seus momentos mais íntimos, pois amava-o de todo o
coração. Se Markus chegasse a amá-la também, seria o paraíso completo.
Sonhos? Talvez, mas Kim jurou a si mesma que faria de tudo para que
eles se tornassem realidade.

CAPÍTULO VIII

Kim estava no jardim quando Markus surgiu na alameda de entrada


do castelo. Quem o trazia era Avis, o chofer, que havia sido avisado sobre a
hora em que o Ferryboat Knossos chegaria.
Enquanto Markus saía do carro, ela sorriu, ansiosa, mas ele apenas
franziu a testa, analisando-a de alto a baixo. Foi um instante tenso, elétrico,
em que ela desejou ardentemente atirar-se nos braços de seu marido.
Deus, como entender o que ia por trás daqueles olhos escuros? Se ao
menos ele a abraçasse e dissesse que sentira saudades!
— Fez boa viagem, Markus?
— Sim, tudo bem. E você, como passou esses dias?
— Consegui me ocupar bastante — respondeu Kim, com relutância,
desejando dizer que sentira saudades. — Passeei pela praia e pelas
montanhas.
Os dois entraram no castelo, mas, para desapontamento de Kim, ele a
deixou no hall e subiu para o seu escritório.
Mais tarde, quando já tinham se arrumado para o jantar, a porta de
comunicação foi aberta, e ele entrou usando um terno de linho impecável, e
uma camisa branca que contrastava violentamente com a pele morena. Kim
prendeu a respiração, maravilhada. Markus parecia consciente da própria
superioridade e beleza máscula.
Markus também não ficou imune ao charme da esposa. Um sorriso
surgiu nos lábios morenos, deixando o coração de Kim aquecido. Markus
fez-lhe sinal para que se aproximasse e ela obedeceu, ansiosa.

- 43 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Você está linda! — disse ele, beijando-a com paixão.


Kim agarrou-se a ele, tomada por emoções selvagens. Estava trémula
de ansiedade, queria demonstrar todo seu amor e, ao mesmo tempo, tinha
medo... Suas mãos pequenas enlaçaram o pescoço moreno, com delicadeza.
Markus soltou uma risada enquanto acariciava o rosto dela.
— Você é muito jovem, minha querida.
— Uma vez você achou que eu tinha trinta anos.
— Nunca! Como poderia?
— Foi naquela primeira vez em que nos vimos.
— Oh, sim... Naquela época as coisas eram muito diferentes. E você
também se revelou muito diferente do que eu imaginei.
— Então não está arrependido por ter se casado comigo?
Ele examinou-lhe atentamente os olhos ansiosos e límpidos.
— O que está querendo saber, Kim?
— Nada, só fiz uma pergunta.
E se ele tivesse adivinhado que ela queria ouvi-lo dizer que a amava?
Kim corou ainda mais. Afundou o rosto no peito dele, embaraçada, sentindo
batidas fortes do seu coração. Markus afastou-a e disse:
— Vamos, está na hora de jantar,
Adela, a empregada, tinha caprichado no arranjo da mesa naquela
noite. Havia rosas vermelhas e pequenos arranjos florais ao lado dos pratos.
Os candelabros de prata brilhavam sob a luz das velas, criando uma
atmosfera aconchegante e feliz.
Markus puxou a cadeira para Kim, depois beijou seus cabelos de leve.
— Conte-me, o que andou fazendo esses dias em que estive fora?
— Passeei bastante, e fui até o outro castelo. Conheci Bridie, a
irlandesa casada com George. Convidei-a para aparecer aqui quando
quisesse. Você se importa?
— Não, de maneira alguma! Nunca fui muitc amigo dos Grivases, mas
já estive com eles diversas vezes, nas festas de Demetrius.
— Podemos convidá-los para jantar algum|dia?
— Claro! Está ansiosa para ter uma amiga nesta parte do mundo,
não?
— Sim. Gostei muito de Bridie. — Kim fez uma pequena pausa. — Ela
parece ser muito feliz.
— O deles foi amor à primeira vista. É claro que ela lhe contou isso,
não? — perguntou Markus, irónico.
— Mas muitas pessoas se apaixonam à primeira vista, Markus,
acredite.
Ele não falou mais nada até a hora da sobremesa, quando então
convidou-a para dar uma volta pelo jardim.
Kim aceitou de imediato e dali a pouco o luar prateado banhava o
casal que caminhava em silêncio pelas alamedas floridas. Tinha chovido
enquanto eles jantavam, e tudo parecia limpo, fresco e vibrante.
Ao erguer os olhos para o marido, Kim prendeu a respiração. Ela o
amava... e algum dia faria com que ele também a amasse. Seria um
milagre... mas os milagres acontecem!
Continuaram a caminhar de mãos dadas. Kim não ousava quebrar a
magia daquele instante com palavras. Preferia deixar que a noite falasse por

- 44 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

eles. Estavam completamente isolados do mundo, num lugar de sonho...


O zurro triste de um jegue cortou o silêncio da noite. Kim franziu a
testa, zangada.
— Por que vocês, gregos, são tão malvados com os animais?
Totalmente surpreso, Markus arregalou os olhos.
— Isso a incomoda tanto assim?
— Incomoda a qualquer um que tenha coração.
— Está querendo dizer que nós, gregos, não temos coração?
Kim largou da mão do marido e apontou para a colina distante, de
onde viera o zurro.
— Não consegue imaginar o pobre jegue amarrado lá em cima?
Provavelmente está com sede, e a comida deve estar fora de seu alcance!
— Comida? — repetiu Markus, incrédulo.
— É, a grama! O pobre já deve ter comido tudo ao seu redor.
— Essa é uma das razões pela qual prendemos o animal: para evitar
que ele coma demais.
— Oh, não adianta nada tentar fazê-lo enxergar uma crueldade
dessas! — exclamou Kim, impaciente, quebrando por instantes a harmonia
entre eles.
Dois dias depois, quando Markus dava uma volta, deparou-se com um
jegue pastando pacificamente dentro de uma cerca recém-construída, numa
parte abandonada do terreno do castelo.
— De onde, diabos, surgiu aquele jegue? -perguntou ele, depois de ter
voltado até o pátio onde estava Kim.
— Jegue? — Kim passou a mão pelos cabelos loiros. — Oh, ele... eu o
comprei.
— Comprou? — Markus ergueu as sobrance-J lhas. — Está falando
sério?
— Claro!
— Mas para que comprou um jegue?
— Para salvá-lo do sofrimento — respondeu! ela, calmamente. — Ele
precisava disso, não acha? Viu como está magro, coitadinho?
Markus semicerrou os olhos.
— Por acaso pretende comprar cada jegue que escutar zurrando de
tristeza?
— Não é um negócio ridículo! Salvar animais do sofrimento é um dever
humano.
Markus suspirou, exasperado.
— E você pensa que esse jegue que você.. "salvou do sofrimento" não
vai ser substituído por outro? Além do mais, quando descobrirem esse seu
novo hobby aqui na ilha, todos os habitantes começarão a tratar mal seus
próprios animais, na esperança de que você os compre. Os preços subirão, e
você acabará gastando cada centavo de sua mesada em jegues... — Markus
não se conteve. Caiu na gargalhada. — Kim, você é demais!
O riso dele era contagiante, e Kim também começou a rir. Mas ela não
estava disposta a desistir de seus propósitos.
— Não se importa se eu usar aquele terreno, não é?
— Não, não me importo — concordou ele, com um sorriso nos lábios.
— Mas você espera que eu arrume material e gente para construir os

- 45 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

cercados também?
Kim ergueu os olhos, persuasivamente, para o marido.
— Se você encontrasse mão-de-obra, Markus, ficaria muito grata. A
cerca não custará nada porque Sula cortou algumas árvores para que ele e
os outros empregados construíssem o cercado esta manhã.
— Ele e os outros? Quer dizer que os meus empregados passaram a
manhã construindo um cercado para um jegue?
— Há... sim.
— Começo a pensar que há muito mais para conhecer em você, Kim. O
que está tentando fazer?
— Não compreendo. Eu o estou envergonhando?
Markus suspirou, impaciente.
— Não, não é isso!
Kim olhou para ele, intrigada, e de repente seu coração acelerou. Ele
estava lutando contra a própria paixão! Sim, ele devia estar se sentindo
atraído, e queria defender o próprio coração!
Kim sorriu para si mesma. Markus suspeitava que ela estivesse
tentando derrubar suas defesas! Mas ele não daria seu coração a nenhuma
mulher. Segundo o seu ponto de vista, o amor não existia, era uma bobagem
inventada pelas mulheres.
Kim, com sua intuição feminina natural, sabia que ele devia estar se
questionando sobre isso. Aquela descoberta a encheu de esperanças.
Markus era vulnerável, afinal, e ela se esforçaria para destruir até o último
escudo de ferro atrás do qual ele escondia.

CAPÍTULO IX

No dia seguinte, Kim foi dar um grande passeio por um vilarejo


próximo. As ruas eram estreitas, com casinhas caiadas de branco, janelas
pintadas em cores vivas e jardins. Esses jardins, embora modestos, eram os
mais exuberantes que ela já vira. Parecia até que os habitantes disputavam
entre si para ver quem possuía o mais florido. Havia flores e trepadeiras de
todas as cores, do amarelo clarinho ao rubro.
Nas janelas havia pequenas floreiras de barro, com flores miúdas; e
entre uma casa e outra, estreitos gramados verdes. Era uma visão
encantadora. Ao fundo, avistavam-se montes escuros recortados contra o
azul-anil do céu, e o castelo onde Bridie morava. Tudo estava silencioso; só
se ouvia o zumbido dos mosquitos e algumas risadas de crianças.
Não havia choro de bebes; aliás, isso a deixara muito intrigada quando
chegara à Grécia. Nunca ouvira um bebé chorando, e já perguntara a Adela
por quê. A empregada respondera que era por causa do grande amor que os
gregos dispensam às suas crianças.
— Elas nunca têm chance de chorar — explicou Adela —, e é por isso
que a senhora nunca escutou choro de bebés.
"É, cuidam de seus filhos mas se esquecem dos animais", pensou Kim,
zangada, ouvindo o zurro triste de um jegue ali perto. Os gregos diziam: "Oh,
é apenas um animal. Por que a senhora se importa tanto com o sofrimento
dele?" Como se o sofrimento de um jegue não fosse importante!

- 46 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

De vez em quando algumas pessoas cumprimentavam Kim:


— Kalimera, Kyria Markus!
— Kalimera — respondia ela com um sorriso.
— Bom dia.
Kim já se habituara com o costume grego de chamá-la de sra. Markus,
e não pelo sobrenome do marido.
Mais um gemido de jegue e ela sentiu o coração partir. Sabia que não
havia possibilidade de comprar todos os jegues da ilha, mas mesmo assim
andou até onde estava o animal. Ele fora amarrado numa porção de terra,
onde havia grama rala. O sol era alto e o calor insuportável.
O animal começou a bater o casco no chão, à procura do que comer.
Uma nuvem de poeira o envolveu. Kim franziu a testa e se aproximou. O
jegue tinha um corte profundo na cabeça e, para seu horror, a ferida estava
coberta de moscas. Olhou ao redor e viu um balde de metal ao lado de um
poço. Encheu-o com água e levou para o animal, observando-o beber tudo,
até a última gota.
— O que você está fazendo com o meu jegue? Kim virou-se tão
depressa que quase bateu com o balde no peito do grego mal vestido que a
interpelava.
— Esse animal é seu?
— É meu, sim. Não tem o direito de dar água para ele! Tem pouca
água! Não chove há mais de duas semanas!
Kim colocou o balde no chão e encarou o grego com os olhos
brilhantes de indignação.
— Alguma vez já esteve a ponto de morrer de sede?
O homem encolheu os ombros.
— Já senti sede na vida, sim. — Olhou-a com curiosidade. — Está
aqui de férias, madame?
— Não, sou a sra. Markus Christou.
— Ah! — O homem sorriu, mudando completamente de expressão. —
Bem-vinda à nossa ilha, sra. Markus! O sr. Markus foi muito bom com meu
filho, sabe? Meu filho teve um acidente no mar e...
— Seu filho é mergulhador? Ele colhe esponjas?
— Foi o melhor da ilha — respondeu o homem, orgulhoso. — Só que
um dia sofreu um acidente e ficou paralítico. O sr. Markus lhe dá dinheiro
toda semana, para sua mulher e filhos. Seu marido é muito bom!
Kim ficou tão interessada em saber sobre os mergulhadores de esponja
que até se esqueceu do jegue. Soube que eles mergulhavam carregando um
peso nos ombros a fim de alcançarem o fundo do mar com maior rapidez.
Depois, com uma faca bastante longa, cortavam as esponjas bem depressa,
numa luta insana contra o tempo. Esses mergulhadores recebiam dinheiro
pela pesagem das esponjas secas, mas o pagamento não era dos mais
generosos. — E hoje ainda há mergulhadores de esponja aqui na ilha? —
perguntou, curiosa.
— Não muitos, mas esses que ainda mergulham agora usam
equipamento. Não são tão corajosos! O método antigo era bem melhor!
— Mas a vida dos homens sempre corria perigo — argumentou Kim.
Voltou a atenção para a ferida do jegue. — Como isso aconteceu? —
perguntou, com severidade.

- 47 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Eu bati nele para ver se andava. É muito teimoso, um verdadeiro


demónio! Mas ainda vou dobrar essa sua teimosia!
— Já lhe ocorreu que o animal pode gostar de bondade?
— Como assim? Ele não sente...
Kim suspirou, exasperada. Precisava tomar algumas lições de grego
para poder conversar com os habitantes da ilha! Achou melhor ir direto ao
assunto:
— Quanto você quer... qual é o seu nome?
— Elias.
— Elias, quer me vender o seu jegue?
— Você quer comprar Mitso? — perguntou o grego, desconfiado. —
Não quer Mitso, é brincadeira.
— Quanto? Quero comprar o jegue, sim. — Kim estremeceu ao olhar
para aquelas moscas nojentas sugando a ferida do pobre animal. — Quanto
quer por ele?
— Mas...
— Elias, estou lhe fazendo uma pergunta.
— É o sr. Markus quem está querendo?
— Não... — Kim lembrou-se de que, sendo para Markus, talvez o grego
deixasse o animal por preço mais acessível. — Quer dizer, sim, é meu marido
quem quer comprar o jegue.
— Mas por quê?
— Ele... hum... ele está colecionando jegues.
Elias arregalou os olhos escuros, atónito.
— Colecionando jegues? — E sacudiu a cabeça. — Oh, a madame está
pensando que eu sou bobo e está caçoando de mim.
— Não estou caçoando de ninguém — retrucou Kim, zangada. — Meu
marido está mesmo interessado na compra de jegues. Por quanto vai me
vender Mitso?
O homem ainda hesitou, mas acabou dizendo um preço que,
comparado ao que ela pagara por Rocky, era bem mais razoável.
— Leve-o para o castelo e receberá o seu dinheiro imediatamente.
Duas horas mais tarde Kim estava lavando a ferida enquanto Sula
segurava a cabeça do animal. O empregado trocava olhares significativos
com os jardineiros, como se dissesse: "Nossa patroa está maluca!"
— A pomada, Sula — pediu Kim.
— Pois não.
— Quer dizer que não há mesmo nenhum veterinário na ilha?
— Não, madame Markus, não temos médicos de bichos por aqui.
— E quando algum fica doente?
— Temos de buscar o médico de Rhodes, senhora.
— Mas, sendo assim, o animal pode morrer devido à demora!
Sula ergueu os ombros com pouco-caso.
— É apenas um animal, senhora.
Kim teve que se segurar para não responder; com maus modos.
Quantas vezes já ouvira aquela frase? Apertou o tubo do remédio com força e
untou! a ferida do animal, cuidadosamente.
— Agora coloque-o junto de Rocky e depois comece a construir outro
cercadinho um pouco maior dessa vez!

- 48 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Horas mais tarde, Kim já tinha acabado de falar com Bridie pelo
telefone, quando Markus apareceu.
— Então você comprou outro.
— Já viu Mitso? Notou aquele corte horrível que ele tem na cabeça?
— Com aquela pomada cor-de-rosa, quem não veria?
Kim encheu-se de coragem e arriscou:
— Markus, estive pensando... não seria bom contratarmos um
veterinário para ficar na ilha? Há tantos animais por aqui... na certa ele teria
muito trabalho!
— Não precisamos de um veterinário — retrucou Markus, sem muita
convicção.
— Como pretendo mesmo criar uma Sociedade Protetora dos Animais,
nada mais natural do que ter um veterinário à minha disposição. Você
poderia colocar um anúncio no jornal de Atenas?
— O que a faz pensar que estou de acordo com você? Um veterinário
em Malindos, para quê?
— Na ilha não há ninguém capacitado — disse ela, persuasivamente.
— Há muitos cachorros aqui conosco, e Bridie tem cavalos, não tem?
— Um ou dois. Eles gostam de galopar pela manhã, mas George sabe
como cuidar de seus próprios animais.
— Mas eu posso ter um veterinário, não posso? — Kim sorriu com
doçura. — Cuidar de animais é um hobby maravilhoso... Não quer ficar com
uma mulher entediada por não ter o que fazer, quer, Markus?
— Devia lhe dar uma surra — murmurou ele, com um brilho divertido
nos olhos.
— Mas você precisa admitir que Mitso estava desesperadamente só e
infeliz.
— Que nome para um jegue! E Rocky, então? Não é um nome grego.
— Achei o nome bonitinho igual a ele. Por isso o batizei assim.
— Tem o coração muito mole, Kim. Os jegues são bem mais fortes do
que parecem.
— É, mas os veterinários são úteis em toda a parte.
— Escute, Kim. Posso colocar um anúncio no jornal, mas o veterinário
virá a Malindos só de vez em quando. Ele não poderá ficar na ilha. Quem é
que vai pagar pelo seu trabalho?
— Todos aqueles que precisam dele.
— Não, Kim, você está enganada nesse ponto. Os habitantes humildes
da ilha jamais gastariam dinheiro para cuidar de seus jegues! Quanto às
pessoas ricas, há muito poucas por aqui, e o veterinário não teria trabalho
suficiente para sobreviver. Além dos jegues que você resolveu adotar, há
poucos animais na ilha.
— Tem muitos cães.
— Todos tão fortes que nunca precisaram de cuidados.
— Oh... — Kim suspirou. — Você não poderia pagar, Markus?
O marido riu.
— Eu sabia que você tinha essa intenção.
— Ah, não, eu realmente não pensava que o veterinário teria condições
de sobreviver sozinho em Malindos.
— Está bem, eu pago o salário do veterinário — disse Markus,

- 49 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

resignado. — Que remédio!


Depois que o marido saiu, Kim sorriu para si mesma. Estava fazendo
progressos... Sim, ainda havia uma esperança.
No dia seguinte, Bridie foi até o castelo.
— Que negócio é esse de Sociedade Protetora dos Animais? Estou
morrendo de curiosidade! Como lhe disse ontem por telefone, realizo alguns
trabalhos de caridade na ilha, mas faz tempo que estou preocupada com o
tratamento cruel dispensado aos animais da região. Só que eu nunca pensei
que criar um espaço para eles! Que ótima ideia, Kim! Precisamos arranjar
alguns voluntários, quem sabe consigamos arrastar nossos próprios
maridos...
— Já consegui alguns progressos — informou Kim, sorrindo. —
Markus concordou em pagar um veterinário para a ilha.
— Oh, ele é um homem maravilhoso! Está sempre disposto a praticar
uma caridade. O que ele faz pelos mergulhadores de esponja é fantástico.
Deve gastar uma pequena fortuna todo ano para mante-los e a suas famílias.
Um homem maravilhoso... Sim, Kim estava aprendendo a admirar
aquele homem misterioso que, por um acaso, se tornara seu marido. Agora
conhecia seu caráter verdadeiro, bem diferente da primeira imagem que
tivera no restaurante de Liverpool...
Kim e Bridie conversaram bastante enquanto tomavam café com
biscoitos. Fizeram muitos planos para que cada animal da ilha fosse bem
tratado no futuro. Depois, foram até o cercadinho onde Rocky e Mitso
pastavam pacificamente sobre a grama verde. Próximo à cerca, havia um
bebedouro repleto de água fresca.
— Markus diz que, assim que descobrirem que estou comprando
jegues, os preços vão disparar!
— E ele está certo, Kim! Quando você for comprar algum, telefone
antes para mim, que eu vou junto. Moro aqui há mais tempo e sei lidar com
essa gente simples. Eles são capazes de lhe arrancar até o último centavo, se
puderem, mas ao mesmo tempo lhe dariam a roupa do corpo se você
precisasse. Os gregos são uma raça complexa, principalmente esses que
vivem em ilhas. Pode deixar que eu dou um jeito neles.
— Até que eu não me saí tão mal quando comprei Rocky e Mitso —
informou Kim. — Fui bastante severa com Elias, e poderemos ser mais ainda
se fundarmos a Sociedade Protetora dos Animais. Markus, diz, com razão,
que cada jegue vendido é substituído rapidamente por outro. Isso não quer
dizer que eu tenha que comprar todos, pois, com uma sociedade legalizada,
poderei ameaçar os donos com um processo por maus tratos, não? Assim
eles toma-rão mais cuidado com seus bichinhos!
— Exato. Isso significa que nós não precisaremos comprar todos os
animais, da ilha.
— Nós?
— Eu também estou nessa, Kim. Não perderei isso por nada nesse
mundo! George me dará dinheiro para essa causa, tenho certeza.
Duas semanas mais tarde, um jovem inglês, Denis Studland, foi morar
na ilha, para trabalhar como veterinário. Kim e Bridie ficaram eufóricas,
pois, além de ter currículo respeitável, Denis também parecia preocupado
com os maus tratos dispensados aos animais e logo se prontificou a ajudá-

- 50 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

las a formar uma sociedade protetora de animais em Malindos.


Apesar de tudo estar indo muito bem, Kim estava preocupada. Desde o
primeiro encontro, Denis se interessara por ela. Era uma coisa tão evidente
que até Bridie tinha notado.
Um dia, Denis convidou as duas para conhecerem o chalé que ele
havia alugado, numa praia afastada. Lá os três discutiram animadamente
sobre as primeiras providências que poderiam tomar para conscientizar a
população local. Kim e Bridie acabararn ficando mais tempo do que deviam.
— Bem, acho que está na hora de irmos — disse Kim, levantando-se.
— Já? — Denis colocou o braço em seu om bro. — Escute, por que não
vem nadar aqui comigo
— Não, obrigada, Denis. Costumo nadar com meu marido — mentiu.
Denis fez que sim com um gesto de cabeça, mal escondendo seu
desapontamento.
— Espero que não haja maiores complicações — comentou Bridie
depois, enquanto as duas voltavam para o Castelo Astura.
— Também espero. Denis é um cara legal, nós três nos damos muito
bem e poderemos fazer um trabalho maravilhoso juntos. Seria uma pena se
não desse certo.
— Bem, ele parece estar bastante interessado em você, Kim. E, pelo
que conheço do seu marido, ele é muito ciumento, não é?
— Não sei. Para falar a verdade, nunca o vi com ciúmes. Também, não
tivemos nenhuma oportunidade para isso.
— Mas agora há.
— É verdade.
Kim permaneceu calada por alguns instantes. Uma ideia lhe surgiu na
mente: se ela deixasse Markus com ciúmes, ele seria forçado a admitir que a
amava. Sim, qualquer marido ficaria enciumado se soubesse que outro
homem se interessava por sua mulher... e que ela também se interessava
por ele.
Mas não seria justo envolver Denis dessa maneira. Não, ela poderia
magoar o jovem veterinário... Mas... e se ela o usasse sem machucá-lo?
Dias depois, enquanto jantavam, olhou para o marido e disse:
— Que tal convidarmos Denis para jantar uma noite dessas conosco,
Markus? Ele está um pouco solitário em Malindos, sem amigos. E é um
homem tão charmoso... mas nem preciso lhe dizer isso, não? Você já o
encontrou algumas vezes.
— Não o achei charmoso.
— Não? — Ela arregalou os olhos. — Mas Markus, todo mundo gosta
muito dele.
— Todo mundo? Pensei que você tivesse dito que ele não tem amigos.
— Bem, ele... já encontrou gente interessada em colaborar conosco,
claro. A maioria conhecidos de Bridie, de seu trabalho beneficente.
— Hum... — Markus pegou um pãozinho de dentro da cesta de vime e
olhou-a enigmaticamente. — Tem resposta para tudo, querida. Sim, claro
que podemos convidar seu amigo para jantar! Você escolhe o dia.
— Ótimo! Que tal...
— Poderíamos convidar também uma amiga minha.
Kim sentiu um frio no estômago.

- 51 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Uma amiga? Quem?


— Floria Costaíos. Ela é prima distante de George Grivases. Nós já
fomos muito íntimos.
— Foram?
— Sim. Minha madrasta quase me levou ao casamento. — Ele fez uma
pausa e observou a pressão da esposa, atentamente. — Por acaso Brii não
lhe contou nada sobre Floria?
— Não... oh, sim, parece que sim. Não lembro direito, não prestei
muita atenção.
— Ê mesmo? — perguntou ele, irónico. Tem certeza?
— Há alguma razão para eu mentir?
— Vamos mudar de assunto? — sugeriu Markus, gentilmente. — Diga-
me, quantos jegues você tem agora?
O rosto de Kim iluminou-se.
— Sete, mas dois deles foram comprados por Bridie.
— Por George, você quer dizer.
— Bem... Sim.
— Então ela também arrastou o marido para essa insensatez?
— Temos bastante gente interessada agora. A Sociedade Protetora já
existe, e encontramos quatro voluntários. Cada um tem sua área para
patrulhar, quando tiverem tempo, é claro. Eles nos informarão sobre
qualquer crueldade verificada contra animais, sejam cavalos, jegues, cães ou
gatos.
— Então já têm um projeto, é?
— Claro.
— E como acha que as pessoas daqui receberão essa interferência em
suas vidas?
— Eles se acostumarão com isso. Denis fará algumas palestras
educativas, e esperamos que desta forma os pequenos proprietários
aprendam a cuidar melhor de seus animais.
Markus riu, mas não fez nenhum comentário. Kim aproveitou seu bom
humor e acrescentou:
— Falando nisso, precisamos de dinheiro para construir um galpão
onde estocaremos comida e remédios para os animais.
— Bem, você está querendo fazer uma espécie de ambulatório para
eles, é isso?
— Mais ou menos — admitiu Kim, sorrindo encantadoramente.
— Isso significa que você vai precisar de muito mais dinheiro do que
me pede agora. Por que prolongar a minha agonia pedindo dinheiro aos
poucos? É melhor me dizer logo de quanto vai precisar.
Kim mal cabia em si de contentamento.
—— Você é bom e generoso. Admiro o que está fazendo por uma causa
que nem é sua.
— Não perca seu tempo me elogiando, querida.
Kim corou, e os dois riram.
— Você vai mesmo equipar o galpão? — perguntou.
— Depende do custo.
Com o auxílio de Denis e Bridie, o orçamento foi estimado e entregue a
Markus no dia seguinte. Como ele deu o dinheiro na hora, em quinze dias o

- 52 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

galpão estava pronto e equipado.


Naquela noite, aconteceu o jantar para Denis e Floria. Kim convidara
Bridie e George também, mas os dois estavam com visitas em casa.
Floria foi até o Castelo Astura no carro de George. Kim achou-a muito
mais atraente do que imaginara. Ela era uma mulher alta, morena, de pele
dourada e olhos amendoados e meio cinzentos. Floria Costalos era do tipo
que atraía a atenção de, todos por onde passava: era elegante e
desembaracada. Ela mediu Kim de alto a baixo, com menosprezo, mas suas
palavras foram calorosas.
— Finalmente conheço a esposa de Markus! Desejo-lhe muitas
felicidades, Kim. Seu nome é muito bonito. Ê abreviação de outro?
— Não, fui batizada assim mesmo, com este nome curtinho. —
Apertou a mão da grega com frieza. — Prazer em conhecê-la.
Markus as observava com um sorriso enigmático. Cinco minutos
depois Denis chegou, e os quatro sentaram-se na varanda para tomar um
aperitivo. As cigarras cantavam e a água da pequena fonte, no jardim,
brilhava ao luar. Kim ergueu a cabeça bem devagar, para deixar a brisa
noturna acariciar seu rosto. Fechou os olhos por um instante e, quando
reabriu, deparou-se com o rosto sorridente de Denis. Sorriu para ele.
— Suponho que Bridie já tenha lhe falado sobre as atividades da nova
Sociedade Protetora dos Animais de Malindos? — perguntou Markus à
convidada.
Floria fez que sim com um gesto de cabeça.
— Creio que a sociedade morrerá de morte natural. Não há como ditar
normas para um camponês grego dessa maneira. Ele jamais as levará a
sério.
Denis e Kim entreolharam-se.
— Não será uma coisa passageira — afirmou Denis. — Pretendemos
estabelecer uma espécie de código de comportamento em relação aos
animais.
— Uma coisa romântica e idealista, sem dúvida — Floria riu. — Mas
vocês não podem se esquecer de que vão lidar com pessoas que têm
costumes arraigados. Se impuserem a lei, eles se sentirão ofendidos e a
desafiarão. Os camponeses gregos são assim.
Kim ficou perturbada com aquelas palavras, mas não deixou que a ex-
namorada de Markus percebesse.
— Se eles não cumprirem a lei serão punidos.
— Mas vocês não são a lei — observou Floria.
— Como é que alguém como você, Kim, que está aqui há tão pouco
tempo, pode ter a presunção de impor suas ideias a um povo de costumes
milenares?
— Pretendemos contornar a situação — interveio Denis, calmamente.
— Numa outra ilha, um grupo de mulheres também formou uma Sociedade
Protetora dos Animais, e a experiência foi um grande sucesso.
— Foi? — quis saber Floria.
— Bem, até a última vez que conversei com elas estava sendo —
informou Denis.
A grega cruzou as longas pernas bronzeadas e suspirou.
— Só o tempo dirá se vocês terão sucesso ou não. Pessoalmente, acho

- 53 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

que a experiência será um fracasso. — Ela se voltou para Markus. — O que


você acha?
Kim mordeu os lábios. Havia algo de possessivo e maldoso na maneira
como Floria olhava para o seu marido. Ela era do tipo de mulher que não
desistia facilmente das coisas, e o convite de Markus para jantar devia tê-la
intrigado. De repente, Kim sentiu raiva dele por tê-la convidado. Por causa
disso, voltou sua atenção para Denis.
Markus sacudiu a cabeça.
— Não tenho nada a ver com esse projeto. Sou apenas o seu
patrocinador.
— Quer dizer que é você quem paga tudo.
— Floria arregalou os olhos, atónita. — Meu Deus! Markus, pensei que
tivesse mais juízo! Como pode financiar uma coisa que está fadada ao
fracasso?

— Ainda não está fadada ao fracasso! — retrucou Kim, com os olhos


brilhantes. Quando se sentia humilhada, sempre ficava com raiva.
O jantar foi um fracasso total. A conversa girou em torno da Sociedade
Protetora, e por mais que Denis e Kim tentassem expor suas ideias Floria os
tratava com desdém e superioridade. O pior de tudo é que Markus não dizia
uma palavra, limitando-se simplesmente a ouvir, sem tomar partido.
Kim teve a desagradável impressão de que o marido estava se
divertindo com seu crescente desconforto, e ficou mais enfurecida ainda. Ele
veria só uma coisa!
Assim que terminou o jantar, ela falou:
— Markus, talvez você e Floria prefiram ficar um pouco a sós para
conversar sobre os velhos tempos. Denis e eu temos algumas coisas a
discutir sobre o galpão. Com licença, sim?
A expressão de Denis era de quem não estava entendendo nada, mas
ele aceitou, com prazer, o braço que Kim lhe ofereceu, e os dois saíram em
direção ao jardim.
— O que foi? — quis saber ele depois que saíram. — Você me deixou
intrigado, Kim.
— Sinto muito, Denis. — Kim parou para respirar fundo. — Não
conseguia suportar mais aquela mulher nem por um segundo. Não se
incomodou por eu tê-lo chamado para um passeio, não é?
— Claro que não! Fico feliz em passear ao luar com você.
— Então, sobre o que vamos falar? — perguntou ela, alegremente. —
Sobre o galpão...
— Que eu saiba, não temos mais nada a falar sobre isso.
Kim largou o braço dele, gentilmente.
— Mas não há nada no projeto que você queira alterar? Isto é, mudar
as instalações das tomadas ou outra coisa qualquer?
— Não há o que mudar agora. Depois, conforme as necessidades,
poderemos alterar as coisas,
— Os dois chegaram ao pátio escuro das.oliveiras.
— Kim...
— Sim?
— Você e Markus.-.. Bem, hoje não agiram como um casal em lua-de-

- 54 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

mel.
— Não estamos em lua-de-mel.
— Sabe o que quero dizer — observou Denis, impaciente. — E aquela
mulher, Floria, há algo de estranho entre ela e seu marido. Markus não fez
esforço para defender nosso projeto enquanto ela o atacava.
— Eles foram namorados. Markus quase se casou com êla no ano
passado, nesta mesma época.
— Oh, então houve algo mais sério entre eles.
— Denis sacudiu a cabeça, zangado. — Você ama seu marido, Kim? —
perguntou bruscamente.
— Muito.
— Mas... não posso acreditar que Markus a ame. Ele não age como se
a amasse. Não notei menor sinal de carinho, nenhum olhar de ternura para
você, Kim. E o modo como ele se comportou com Floria, quase que tomando
o partido dela contra você...
— Não — protestou Kim, com veemência. Isso não é verdade, Denis!
— Pois bem, mas ele não defendeu suas ideias nem pôs um ponto final
naquelas bobagens que Floria dizia.
Isso era verdade. Kim não ousou negar.
— Lembre-se, Denis, de que Floria é convidada de Markus...
— Não importa o que você diga, Kim, há algo de estranho no
relacionamento de vocês. Se sabe que ele e Floria quase se casaram, por que
então me convidou para dar um passeio, deixando-os sozinhos? Não faz
sentido.
— Eu queria tomar um pouco de ar. Como lhe disse, não suportava
mais a presença daquela mulher.
— Exatamente! Não gosta dela e no entanto a deixa sozinha com seu
marido. — Denis sacudiu a cabeça, zangado, e parou de caminhar.
Kim não ligou e seguiu em frente.
— Kim! — Denis correu até ela e a agarrou pelo braço. — Kim, você
deve ter percebido meus sentimentos por você.
— Denis, por favor. Falei a verdade quando disse que amava meu
marido.
— E ele a ama? — perguntou Denis, triunfante. — Por que não
responde?
— Bem, acho que...
— Você não sabe mentir, Kim. Ele não a ama, mas isso já era de se
esperar! Já vivi na Grécia o suficiente para saber que poucos gregos se
casam por amor. Oh, Kim, por que se casou com ele? '
— Não quero falar sobre esse assunto, Denis. Vamos voltar para o
castelo?
Kim estava muito zangada consigo mesma. Por que ceder àquele
impulso idiota de provocar ciúmes em seu marido? E agora, o que
aconteceria? Denis era capaz de abandonar a ilha e o projeto.
— Você não vai desistir de tudo, vai, Denis?
—Não sei. Como posso continuar a vê-la, sentindo o que sinto? Se for
embora agora, será ruim para o projeto, mas se eu ficar talvez seja pior...
— Denis pensou um pouco. — Quem sabe vocês se separam e...
— Nunca! — interrompeu Kim. — Markus não quer nem ouvir falar em

- 55 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

separação.
— Quer dizer que você já falou com ele a esse respeito? Então, Kim,
ainda deseja viver com um homem que não a ama?
— Já disse que não quero mais discutir sobre esse assunto. Desejo
que fique, Denis, mas apenas para terminar o nosso projeto. Precisamos de
um homem experiente, e, se você for embora agora, levaremos meses até
encontrar alguém à altura. Você foi o único veterinário que respondeu ao
anúncio, porque realmente gosta do que faz. Os outros visam apenas ao
lucro, você sabe disso.
— Eu fiquei intrigado com o anúncio, e, quando conheci Bridie e você,
me entusiasmei. O salário é coisa secundária para mim.
— Acredito — concluiu Kim, com um suspiro.
— Você é o homem certo para o emprego, Denis. Por favor, não aja
impulsivamente.
— Ficarei por algum tempo — prometeu ele.
— Obrigada.
Kim virou-se com intenção de voltar para o castelo, mas de repente
viu-se presa pela cintura. Temendo perder o equilíbrio, agarrou-se à lapela
do terno de Denis. No instante seguinte, sentiu a pressão dos lábios do
veterinário sobre os seus, e ficou tão atónita que não soube reagir.
— O que é isso?
A voz áspera e zangada de Markus a trouxe de volta à realidade. Kim
afastou-se de Denis com o coração disparado e foi empurrada por Markus.
Viu os dois homens se encarando com ódio e, sem esperar para ver o
resultado, saiu correndo de volta para o castelo.

CAPÍTULO X

Kim só parou de correr quando entrou em seu quarto. Da janela fitava


o vazio com os olhos repletos de lágrimas. Afinal, o que é que ela pretendia
convidando Denis para aquele passeio ao luar? Floria devia ter presenciado
toda a cena, e agora era bem provável que estivesse se vangloriando de ter
visto a esposa de seu ex-namorado nos braços do amante!
Não sabia quanto tempo tinha se passado desde o incidente quando a
porta se abriu, com violência Markus entrou no quarto e bateu a porta com
um estrondo. Seus olhos brilhavam e o rosto era uma máscara de fúria. Kim
notou as mãos morenas trêmulas de tensão. Assustada, levou suas próprias
mãos ao pescoço.
— Markus, eu... você está bravo, mas...
— Bravo! — Ele deu dois passos adiante e parou. — Humilhado, isso
sim! Como ousa me ridicularizar dessa forma!
— Humilhado...
Kim sacudiu a cabeça, arrasada. Queria deixar o marido enciumado,
na esperança de que ele descobrisse que a amava. Tolo engano! Tudo o que
conseguira fora humilhá-lo, despertar sua fúria!
— Sim, fui humilhado! Essa pequena cena será comentada pela ilha
inteira amanhã! O escândalo vai crescer até que digam que você e Studland
estavam deitados na grama do castelo, fazendo...

- 56 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Pare! — gritou ela, possessa. — Afinal, quem é que vai comentar


alguma coisa?
— Floria, quem mais?
— Fl... Floria? Mas ela não pode dizer que Denis e eu estávamos...
fazendo nada de errado. Ou pode?
— Os boatos vão aumentando à medida que passam de boca em boca!
— Markus passou a mão pelos cabelos, cego de raiva. Kim foi agarrada com
crueldade, sacudida. — Há quanto tempo você vem mantendo este caso?
— Markus, por favor...
— Devia estrangulá-la! Eu lhe avisei de que se arrependeria
amargamente se fizesse algo para manchar o meu nome!
Com os cabelos em desalinho e o rosto pálido, Kim sentiu suas pernas
fraquejarem. Markus arrastou-a com violência até a cama, atirando-a sobre
o colchão.
— Eu te odeio — gritou ela. — Você é um selvagem!
— Não me provoque! — Markus fulminou-a com o olhar. — Há quanto
tempo está mantendo um caso com Denis?
— Não há caso nenhum.
— Não minta! Pensa que sou idiota, cego? Vocês saíram para fazer
amor.
— Não foi nada disso! Eu apenas pretendia conversar sobre negócios!
— Negócios! — Markus deu uma gargalhada satânica.
Kim sentiu um frio no estômago. Aquilo mais parecia o grunhido
selvagem de uma fera prestes a matar sua vítima. Apavorada, tentou fugir.
Mas ele a agarrou pelos punhos, torcendo-os para trás e machucando-a. As
lágrimas corriam pelo rosto de Kim, que, indefesa, aguardava a punição.
De repente, os lábios de Markus tomaram os seus num beijo sensual,
brutal, que quase lhe tirou o fôlego. Finalmente, o marido soltou-a e ela
tentou reagir, unhando-o no braço, debatendo-se em estado de semi-
inconsciência.
— Eu queria conversar sobre negócios, não importa o que você diga!
Markus empurrou-a contra o colchão novamente.
— Perguntei há quanto tempo você está mantendo esse caso. A cena
que presenciei já é uma prova de que existe alguma coisa entre vocês! ,
— Não estou tendo um caso com Denis! — O pescoço de Kim estava
dolorido, os lábios inchados e machucados. — Não tenho nada com ele!
Os olhos de Markus brilharam de desprezo e raiva.
— Está mentindo! E ele também!
— O que você fez com ele? — perguntou Kim, tremula.
— Apenas ordenei que ele tirasse as mãos de minha mulher! E o
despedi claro!
— Você o demitiu?
— E você espera que eu pague um salário para um homem fazer amor
com minha mulher? — gritou Markus, ameaçador.
— Que coisa mais injusta, nojenta de se dizer!
— Kim ficou possessa. Seus olhos faiscaram de raiva.
— Você está tão furioso que não consegue enxergar um palmo adiante
do nariz! Perdeu o controle da razão.
— Ele foi demitido. Não há mais o que discutir sobre o assunto.

- 57 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Ele é muito importante para o projeto, e nós,o manteremos,


Markus!
— Ah, é? Como?
— Encontraremos um jeito de lhe pagar. Felizmente, ele é um homem
dedicado, e talvez concorde em trabalhar por um pouco menos do que você
lhe prometeu.
— Pode tirar essa ideia da cabeça! Seu caso com Denis está terminado,
entendeu? Acabado! E, por Deus, saberei como vigiá-la no futuro!
Dito isto, Markus saiu, deixando-a estirada sobre a cama. Kim ainda
ficou ali por alguns momentos, chorando baixinho. Aos poucos, foi se
acalmando. Resolveu então tomar um banho de imersão bem quente e
perfumado, e foi o que fez.
Dentro da água, de olhos fechados e mais relaxada, Kim analisou os
acontecimentos. Agira como uma criança ao convidar Denis para um
passeio. Todos os seus planos fracassaram. Perdera a confiança e o carinho
do marido; e, como se não bastasse, os serviços de Denis também... Tudo o
que ganhara fora alguns arranhões. E agora? Seus planos para dar
continuidade ao projeto e fundar a Sociedade Protetora dos Animais teriam
ido por água abaixo?
Sentiu um frio na barriga. Despendera tanta energia, tantos sonhos
ali!
Ao entrar no quarto, enrolada numa toalha, deparou-se com Markus.
— Venha cá! — ordenou ele, com aspereza. Kim hesitou. Markus a
olhou de cima a baixo antes de insistir: — Venha logo, antes que eu vá
buscá-la.
Tímida, ela se aproximou. Markus agarrou a toalha e jogou-a no chão.
Seus olhares se encontraram por um instante. O robe dele estava aberto e,
com a segurança costumeira, as mãos morenas e quentes a puxaram contra
si, amoldando o corpo claro e recém-lavado contra o seu.
Os lábios de Markus cobriram os dela possessiva e carinhosamente.
Depois ele a afastou por um instante, passeou os olhos por seu corpo até
pousar com desejo o pequeno triângulo preservado do sol.
— Suponho que você não esteja com vontade de fazer amor comigo?
— Que importa? — Kim encolheu os ombros. — Você o faria de
qualquer maneira.
— Claro! Não lhe disse que eu a possuo... de corpo e alma?
— Expressão tipicamente grega. Sou sua propriedade, apenas.
— Tome cuidado — alertou Markus. — Pense antes de falar.
— A essa altura não faz a menor diferença o que eu digo ou não.
— A essa altura? — Os olhos dele estavam fixos em seus seios. — Por
quê?
— É lógico que você pretende se vingar de mim.
— Você acha que quero maltratá-la, usar seu corpo como bem
entender? Que tipo de homem pensa que sou?
Surpresa com a sincera indignação de Markus, Kim balbuciou:
— Ma... mas... você me tratou com brutalidade há poucos minutos e...
— Não foi há poucos minutos — corrigiu Markus. — Já faz mais de
uma hora que tive vontade de estrangulá-la!
— Não está mais zangado, então?

- 58 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Digamos que por alguma razão minha fúria tenha se acalmado um


pouco.
— Foi por alguma razão particular? — perguntou Kim, com malícia.
Markus respirou fundo. Era como se o perfume que ela usava o
embriagasse.
— Ainda não é hora de conversarmos — sussurrou ele, com voz rouca.
Curvando-se, beijou-a com sensualidade, acariciando-lhe as costas,
deixando-a arrepiada. Tonta de desejo, Kim sentia seu corpo vibrar, a pele
queimar, o coração disparar, descontrolado... Soltou um gemido de prazer ao
sentir os dedos experientes do marido acariciando-lhe o bico dos seios,
deixando-os rijos de desejo.
Markus sorriu, triunfante por vê-la totalmente entregue e desejosa.
Carregou-a com delicadeza até a cama e depois tirou o robe, enquanto
admirava o corpo nu e vibrante de Kim, cujos seios estavam prontos para
receber suas mãos possessivas. A boca úmida e delicada estava aberta, os
lábios rosados, os cabelos espalhados pela brancura virginal do travesseiro.
Ele apagou a luz, deixando apenas a penumbra de um pequeno abajur.
Três dias depois, Kim foi conversar com Denis. Ele parecia arredio,
carrancudo, disposto a ir embora. Percebendo que ele se sentia culpado por
tê-la beijado, Kim lhe explicou que logo tudo seria esquecido e que o trabalho
na ilha estava acima daquelas preocupações. O marido de Bridie prometera
pagar uma parte do salário dele, o que já seria uma grande ajuda.
Finalmente Denis acabou concordando ern ficar.
— Oh, Denis, que bom! Muito obrigada. As sim poderemos levar nosso
projeto adiante!
— É verdade. Mas, escute, Kim, sei que fui um tolo ao pensar que
poderia haver alguma coisa entre nós. Perdoe minha insensatez, e todos os
problemas que lhe causei.
Mais tarde Markus perguntou a Kim se Denis ia deixar a ilha.
— Ele pretendia ir embora, mas conversei com ele e agora resolveu
ficar.
— Espero que ele tenha o bom senso de voltar atrás e ir embora daqui!
— Sua atitude não está sendo nada razoável, Markus. Por que ele
deveria sair daqui, se não quer? Você é dono de uma parte da ilha, mas não
é o proprietário. Não pode ordenar que as pessoas partam. Denis alugou seu
chalé por um ano, e pode renovar o contrato. Se fosse embora agora, teria
que pagar mais um ano de aluguel. Bem, de qualquer maneira o persuadi a
ficar.
— Ele não precisou de muito tempo para resolver, não é? — perguntou
Markus, com o rosto vermelho de cólera. — Pois bem, mulher, agora lhe
darei uma ordem que terá que ser obedecida. Daqui para a frente, vai
desistir dessa associação idiota e cuidar de suas tarefas domésticas no
castelo.
— Não posso... E não vou! — Kim sentiu as lágrimas rolando pelo
rosto. — É meu hobby, Markus, quero continuar com ele!
— E ver aquele sujeito todos os dias? Proíbo-a! Ouviu bem?
— Foi tudo um engano, um grande engano — protestou Kim ? sentindo-
se injustiçada. — Não há nada entre mím e Denis e você não pode impedir
que trabalhemos juntos!

- 59 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Sou seu marido. Você deve me obedecer.


— Por favor, Markus — implorou ela, desamparada. — Não me negue
este prazer. Por favor...
Mas ele sacudiu a cabeça com determinação. Kim mordeu os lábios. O
que Bridie diria? E todos os outros Voluntários, tão dispostos a trabalhar?
Como poderia ela própria desistir, depois de tudo o que fizera pela causa?
Não havia nada que pudesse fazer no momento. Markus não cederia, pelo
menos por enquanto.
— Posso continuar cuidando dos meus jegues?
— Não faço objeção. Mas não compre mais nenhum!
Que situação ridícula! Kim teve vontade de chorar. E pensar que ela
própria fora a causadora de tudo!
— E... quanto a Bridie? Posso vê-la?
— Claro que sim!
— Mas ela é uma das cabeças do projeto, e vai continuar trabalhando
nele.
— Visite-a de vez em quando. — Markus parecia enfadado. — Agora
tenho de trabalhar. Faça o que eu disse, e fique longe de Studland,
entendeu?
Kim ficou sozinha na sala, sentindo-se mais desamparada e frustrada
do que nunca.
"Não desanime", disse baixinho a si própria, enxugando as lágrimas.
"Um dia tudo dará certo.”
Naquela tarde, depois de dar comida e água aos jegues, Kim foi visitar
Bridie. A irlandesa estava mais alegre do que nunca, falando pelos cotovelos.
— Você não sabe da novidade! Adivinhe só! Kim franziu a testa,
sorrindo.
— Não faço a menor ideia.
— Denis está saindo com Helena, a professora da escolinha local. Ela é
irmã de uma de nossas empregadas. Imagine que Denis já a levou ao baile
da vila, e ontem foi até a casa dela, cortejá-la como todo bom grego. Pelo que
disse Lefki, nossa empregada, os dois estão muito apaixonados!
— Puxa, aconteceu depressa, não? — comentou Kim, lembrando-se do
ar desolado de Denis, três dias atrás.
— Sim, tudo aconteceu muito depressa. Mas é assim que as coisas
são. — Bridie mal cabia em si de contentamento. — Helena é uma moça tão
bonita! E, sendo assim, não haverá mais complicações, Denis não vai mais
olhar para você... Lembra-se do que comentamos naquela vez que fomos
visitá-lo, não?
— Sim, claro.
Kim ficou calada por alguns instantes, imersa em seus pensamentos.
Se Denis estava namorando uma garota da ilha, e todos j 1á sabiam disso,
então não fazia sentido a atitude que Markus tinha tomado.
Sentia-se mais reanimada quando voltou para casa. Falaria novamente
com o marido, e quem sabe ele voltaria atrás. Claro, por que não?
Assim que entrou no castelo, viu Floria no jardim, caminhando ao lado
de um canteiro de rosas. Apertou o passo involuntariamente.
Floria a viu e esperou, fria e distante como sempre.
— Estou surpresa em vê-la.aqui — disse Kim. — Pensei que tivesse

- 60 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

voltado para Rhodes.


— Fui e voltei novamente. Perdi uma pulseira muito valiosa de
diamantes e safiras por aqui e estou procurando-a.
Kim olhou-a intrigada, não acreditando muito em suas palavras.
Depois, recriminou-se intimamente pela desconfiança. Afinal, que outro
motivo Floria teria para vir até Malindos?
— Markus sabe que você está aqui?
— Não. Cheguei há quase uma hora, e ele saiu. Estive procurando pela
pulseira mas ainda não tive sorte. Adela está me ajudando agora.
— Não sabe onde a perdeu?
— Não tenho a mínima ideia.
— Quer dizer que pode estar na casa de Bridie?
— Vim direto para cá porque tenho certeza de que a perdi na noite do
jantar... — Levou a mão à boca, soltando uma risadinha sardónica. —
Na mesma noite em que Markus a pegou nos braços de seu amante. —
Arrancou uma rosa da roseira e começou a girá-la entre os dedos. — Não a
culpo por ter um amante, minha cara. Aqui na Grécia é muito comum e está
na moda.
— Não seria melhor se nos preocupássemos em encontrar a pulseira?
— Interrompeu Kim, recobrando a voz e a dignidade. — Acho estranho que
você perca seu tempo com bobagens, ao invés de procurar sua preciosa jóia.
Ou será que não é tão valiosa assim?
Floria mordeu os lábios.;
— Não se faça de desentendida comigo, Kim. A menos que eu esteja
enganada, você não ficará aqui por muito tempo. Markus acabará se
divorciando, pois não é homem de tolerar infidelidade de uma esposa, não
importa a razão por que tenha se casado... — Floria encarou-a com
insolência. — Todo mundo sabe que ele se casou por necessidade, claro. Mas
agora Markus deve ter percebido que cometeu um erro não se casando
comigo no ano passado, quando fomos... amantes.
— Amantes?
— É claro que fomos amantes!
Apesar de não estar surpresa, Kim sentiu um aperto no coração.
— E você não se incomoda em confessar isso, Floria?
— Como acabei de dizer, é uma coisa que está na moda entre os
gregos.
Kim olhou-a com desprezo.
— Se Markus quisesse se casar com você teria feito isso no ano
passado.
Estranhamente, Floria não respondeu a essa observação. Ela parecia
estar concentrada na pobre rosa que tinha nas mãos, arrancando cada
pétala macia com suas unhas compridas e jogando-as ao sabor do vento.
Kim a observava, sem compreender como é que alguém podia destruir
uma coisa tão delicada como uma flor. Virou-se e foi embora, de cabeça
erguida, sem dizer uma palavra. Mas seu coração pesava no peito, doído,
sofrido. E se Markus quisesse mesmo o divórcio? Seria possível que ele a
julgasse infiel? Entrou no hall devagar, perdida nos próprios pensamentos, e
levou um susto ao ver o marido saindo do escritório.
— Disseram-me que você não estava.

- 61 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Cheguei há cinco minutos. Por quê? Que ria conversar comigo?


— Mas você não entrou pela porta da frente, não?
— Entrei pelo lado. — Markus franziu a testa, intrigado. — Por que
quer saber?
— É que... Floria está à sua procura no jardim.
Kim virou as costas para sair, mas Markus agarrou-a pelo braço e
forçou-a a voltar-se.
— Floria? O que ela quer? — Observou o rosto da esposa atentamente.
— Há algo de errado. O que foi? Diga!
Kim tentou soltar-se, em vão, Markus apertou seu braço com mais
força.
— Não gosto de pedir a mesma coisa duas vezes!
Os olhos de Kim se encheram de lágrimas, mas ela baixou os cílios
para que ele não percebesse.
— Floria esteve me falando algumas coisas Tudo o que posso lhe dizer,
Markus, é que o julgamento que você fez sobre o que viu no jardim naquela
noite está totalmente errado. Você tirou conclusões precipitadas. Mas isso
não tem mais importância agora, não é?
Dessa vez ela conseguiu se soltar, pois pegou Markus de surpresa.
Passou a mão pela marca vermelha do braço e seus lábios tremeram. Virou
as costas e disse, antes de subir para o quarto:
— Outra coisa, Markus. Não desejo mais ser sua esposa; de agora em
diante nossa relação será como foi no começo. Não ouse mais entrar no meu
quarto!
Kim subiu as escadas correndo, ignorando a chamada imperiosa do
marido. Minutos depois, viu-o andando pelo jardim, em direção ao canteiro
onde Floria estava.

CAPÍTULO XI

Dois dias depois, Kim decidiu que seria melhor abandonar a ilha. A
tensão e o sofrimento estavam insuportáveis, e não havia uma pessoa sequer
com quem ela pudesse falar...
Após ter visto Markus com Floria no jardim, Kim alimentara a
esperança de que ele voltasse mais tarde, a fim de esclarecer a situação.
Mas, infelizmente, nada disso acontecera: Markus continuara agindo como
se nada tivesse acontecido e apenas respeitara seu desejo de não entrar mais
em seu quarto.
Ferida em seu orgulho, Kim não conseguiu mais se entusiasmar com
os planos de Bridie e Denis, nem se concentrar no projeto. Foi por isso que,
reunindo a coragem que lhe restava, foi até o castelo da amiga e lhe confiou
toda a verdade, desde a falsa gravidez até o que acontecera entre ela e Denis
naquela fatídica noite em que Floria estivera em sua casa para jantar.
Bridie ficou de olhos arregalados, atónita. Kim mordeu os lábios, sem
saber se agira corretamente confiando tantas coisas a sua nova amiga.
Finalmente, Bridie falou, com um indisfarçável tom de tristeza na voz,
sempre tão alegre:
— George estava convencido de que Markus se casara apenas para se

- 62 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

livrar de Alexandra, mas eu me recusei a ouvi-lo, principalmente depois de


tê-la conhecido. Mesmo assim, ainda não consigo ligar um homem como
Markus à palavra "divórcio". E Floria não lhe disse que foi ele quem falou em
separação, disse?
— Mas tenho certeza de que ele está pensando em divórcio, Bridie. Ele
acredita que Denis e eu estávamos tendo um caso de verdade... Não
podemos culpá-lo por isso afinal, a cena que ele presenciou...
— Mas você não explicou tudo?
— O que há para explicar? Denis estava me beijando e eu não tentei
impedi-lo. Mais alguns segundos e então sim, eu o teria empurrado.
Acontece que Markus apareceu no momento errado.
Os olhos de Kim estavam sombrios de tristeza. Aquela era mais uma
peça que o destino lhe pregava. O mesmo destino que a jogara nos braços de
Markus lhe negara alguns segundos que faziam tanta diferença em sua vida,
em sua felicidade conjugal. Ela e Markus tinham se tornado amigos,
companheiros e amantes, e isso era o suficiente para enchê-la de esperanças
em conseguir conquistar seu amor. Mas agora tudo caíra por terra.
Bridie a chamou de volta à realidade.
— Tenho certeza de que Markus não pretende se divorciar, Kim,
apesar do que ele presenciou.
— Mas eu prefiro mil vezes o divórcio do que ver Floria como amante
de Markus — retrucou Kim, infeliz.
— Não entendo uma coisa. Markus não lhe contou nada sobre o que
ele e Floria conversaram no jardim naquele dia?
— Nem comentou.
— Mas isso é muito estranho, não acha, Kim?
— Se o que Floria disse é verdade, pode ser que Markus não queira
admitir que cometeu um erro não se casando com ela. É difícil ele
reconhecer suas falhas...
— Markus teve um ano inteirinho para decidir se queria ou não se
casar com ela. Daí você apareceu, sob circunstâncias estranhas. Mas vocês
concordaram em se casar, com vantagens mútuas. Na minha opinião, Kim,
ele permanecerá casado com você. E fiel!
— Mas você mesma disse que os homens gregos são infiéis...
— Não todos — interveio Bridie, enfaticamente. — Meu George é fiel, e
conheço outros que também o são. Sempre imaginei que Markus também
seria, quando se casasse.
— Se tivesse se casado por amor, quem sabe...
Bridie sacudiu a cabeça.
— Que confusão! E que azar, Denis ter cometido a estupidez de beijá-
la!
— Isso não tem mais importância, Bridie. Se Markus estava
arrependido de ter se casado comigo, como Floria disse, então já tinha o
divórcio em mente. O que aconteceu naquela noite só apressou um pouco as
coisas.
— E justamente Floria foi ver a cena!
— Markus falou que ela espalharia o fato pela ilha inteira.
— Ele disse isso? — Bridie arregalou os olhos, animada. — Puxa, Kim,
mas não lhe parece estranho que Markus tenha dito uma coisa dessas da

- 63 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

mulher com quem ele teoricamente pretende se casar?


— É... —— Kim hesitou. — Não tinha pensado nisso.
— Ele deve ter ficado louco de raiva por ela estar lá. Isso significa que
não gosta dela!
— Não confia nela — interveio Kim. — É diferente.
— Pior ainda! Como é que Markus pretende se casar com alguém em
quem ele não confia?
— O que está tentando me dizer, Bridie?
— Que essa história de divórcio que Floria lhe falou está muito mal
contada. Por que você não pergunta diretamente a Markus?
— Não sou eu quem deve tocar no assunto, não acha? Meu marido
sabe que conversei com Floria naquele dia, e, se ele quisesse esclarecer
algum mal-entendido, já poderia tê-lo feito.
— Mas Floria fói embora no mesmo dia. Será que você não percebe,
Kim, que, se houvesse algo entre, eles, Markus teria pedido para ela ficar?
No ano passado, ela esteve várias semanas conosco no castelo; dessa vez não
ficou sequer uma noite, embora tivesse dito a você que permaneceria mais
tempo por aqui. Então, o que a fez abandonar a ilha tão cedo?
Kim considerou o que a amiga estava lhe dizendo, mas um fato ainda a
intrigava: por que Markus não a procurara para esclarecer tudo?
— Ainda acho que ele está arrependido por não ter se casado com
Floria, Bridie.
Naquele mesmo dia, bem mais tarde, Kim resolveu dar um passeio até
um pequeno café da vila, à beira-mar. Seu coração estava pesado. Precisava
dizer a Markus que partiria naquela mesma noite. Mas, para onde? Sem
casa e sem emprego, sentia-se perdida. Como conseguiria construir uma
vida inteiramente nova, se não possuía mais nada? Se ao menos tivesse
alguns parentes distantes na Inglaterra... Ou mesmo irmãs, alguém em
quem ela pudesse confiar, se apoiar...
Kim entrou no cafeneion. Lá havia um pátio coberto por treliças
pintadas de branco, de onde pendiam parreiras carregadas de uvas. Quem
quisesse, podia esticar o braço e se servir da fruta. Todas as mesinhas
estavam cobertas por toalhas de linho e enfeitadas com vasinhos floridos e
pequenos candelabros que, à noite, eram acesos. O lugar tinha uma
aparência extremamente agradável e repousante.
Havia uma mistura tradicional de fregueses: um casal de turistas
americanos, um marinheiro com esposa e filho, pescadores jogando tavli,
enquanto os demais observavam atentamente, os cigarros pendendo dos
lábios grossos e sensuais.
Kim sentou-se a uma mesa ao lado do casal de americanos. Fez seu
pedido e, logo em seguida, a turista perguntou:
— Você é inglesa, não é? Acabamos de chegar de Londres. Puxa, nós
adoramos aquela cidade, aproveitamos cada minuto que passamos por lá!
— Aonde mais vocês foram? — perguntou Kim, interessada.
— França, Espanha...
— Não — consertou Kim. — Eu me referia à Inglaterra.
— Oh, ficamos apenas em Londres. Havia tanta coisa para se ver por
lá!
— E não dispomos de muito tempo — disse o marido.

- 64 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Londres não é a Inglaterra — informou Kim.


— Bem, sabemos disso, mas...
— Assim como Nova York não é os Estados Unidos. Se algum dia eu
for para lá, vou querer ver muito mais do que uma cidade grande, cheia de
luzes e compras para se fazer. Quero ver toda a beleza que o homem ainda
não conseguiu estragar.
"Por que estou falando desse jeito com estranhos?", perguntou-se,
Kim. Devia ser por causa da sua própria melancolia. Estava magoada pelo
fato de eles não terem conhecido as lindas paisagens do interior da
Inglaterra.
— Onde você mora? — perguntou-lhe a americana com curiosidade. —
Pretendemos voltar à Inglaterra no ano que vem, e daí poderemos conhecer
um pouco mais de seu país. Se você nos der seu endereço, iremos visitá-la
também, não é, Randy?
— Claro... — O americano tirou um cartão do bolso. — Nós moramos
em Oregon, à beira de oceano Pacífico. Tem uma brisa deliciosa o anc
inteiro. Será bem-vinda quando aparecer por lá.
— Muito obrigada. — Kim guardou o cartão dentro da bolsa.
— Onde você mora? — perguntou novamente a mulher.
— No momento estou residindo aqui na ilha.
— Aqui? Mas que fantástico! Faz tempo que veio para cá?
— Talvez nossa jovem não deseje responder a tantas perguntas, Jan.
— Em absoluto — retrucou Kim, sorridente.
— Estou aqui desde que me casei.
— Então você é casada com um desses gregos charmosos?
Kim teve de sorrir enquanto olhava ao redor, para os robustos
pescadores e marinheiros que quase lotavam o café.
— Sim, sou casada com um grego... — Suas faces ficaram rosadas. —
Aqui está ele — sussurrou Kim, com a garganta seca, apontando para
Markus, que estava em pé ao lado da mesa. — Ele... não costuma vir muito
à vila.
— Posso me sentar, Kim?
— Cl-claro.
Esforçando-se para manter a calma, Kim apresentou-o ao casal de
turistas. Dali a pouco os quatro estavam numa mesa de canto. Markus
puxou uma cadeira para Jan sentar-se.
— Obrigada — disse a americana, encantada.
— Imaginei que essa jovem tinha um marido alto e bonito. Já
conversamos bastante com ela, mas ainda não sabemos seu nome.
— É Kim — disse Markus, dando um largo sorriso. — E o meu nome é
Markus.
Markus sorriu para Kim com uma espontaneidade que a fez corar.
Nunca pensara que ele fosse capaz de ser tão simpático com um casal de
desconhecidos. Ele bateu palmas imperiosamente e um garçom apareceu
como que por encanto.
— O que gostariam de beber? — perguntou ao casal.
— Uma cerveja para mim, e outra limonada gelada para minha esposa
— disse Randy.
— Kim?

- 65 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— Já fiz o pedido, obrigada.


Markus falou em grego com o garçom e depois voltou sua atenção para
Randy.
— Há quanto tempo estão em Malindos?
— Viemos para passar o fim de semana, apenas, mas gostamos tanto
das praias que resolvemos ficar mais dois dias. Que lugar maravilhoso!
— Onde estão hospedados?
— No hotel Aphrodite.
— É o melhor da ilha — informou Markus.
— Estamos muito satisfeitos com ele.
O garçom trouxe as bebidas numa bandeja.
— Que tal se vocês fossem jantar conosco esta noite? — convidou Jan
com animação. — Adoraríamos ter companhia. Costumamos jantar às oito,
mas vocês podem chegar um pouco mais cedo para tomarmos um aperitivo
antes.
Kim sorriu. Apesar de mais velha, ela lembrava muito Bridie, por sua
vivacidade e simpatia. Olhou para Markus certa de que ele recusaria o
convite. Para sua surpresa, ele o aceitou imediatamente, sem ao menos
consultá-la!
— Então está combinado! — Jan parecia radiante. — É tão bom fazer
amigos em viagem, não acham?
— Faz tempo que vocês estão viajando? — quis saber Kim.
O casal trocou um olhar carinhoso antes de responder.
— É nossa lua-de-mel — informou Jan, corando levemente. — Randy
insistiu para que tivéssemos uma bem comprida, por isso estamos fora dos
Estados Unidos há quase um ano. Ficamos em nossa nova casa no Oregon
apenas um mês! Agora estou com muitas saudades de lá, e ansiosa para
voltar!
— Um ano! — Kim sacudiu a cabeça, atónita. — Entendo
perfeitamente sua vontade de querer voltar aos Estados Unidos. Afinal, não
há melhor lugar no mundo do que o próprio lar...
Markus estava com os olhos fixos na esposa. Era como se ele estivesse
lendo seus pensamentos e soubesse que ela iria embora do castelo, para
bem longe do lar que aprendera a amar em tão pouco tempo.
Meia hora depois, eles se levantaram e se despediram.
— Então está combinado — disse Randy. — Esperamos por vocês às
sete e meia no hotel.
Sozinha com Markus, Kim observou:
— Não pensei que você fosse aceitar o convite deles.
— Não vejo por que deva se admirar — respondeu Markus, secamente.
— Você pensa muita coisa.
— O que quer dizer com isso? — perguntou ela, intrigada.
— Não importa.
Os dois começaram a caminhar pela calçada à beira-rnar. Marinheiros
teciam redes, crianças corriam aos gritos, descalças e felizes.
— Como você veio parar aqui? — perguntou Markus, olhando de
soslaio para a esposa.
— Tive vontade de dar um passeio. E você, por que veio até a vila?
— Como você, tive vontade de dar um passeio. E resolvi tomar alguma

- 66 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

coisa no cafeneion de Stamati. Quer voltar a pé ou tomamos um táxi?


— O que você prefere?
— Para mim, tanto faz.
Conversavam por conversar, constatou Kim com tristeza. Sim, seria
melhor que se separassem.
Kim estava indecisa quanto ao que vestir para o jantar no Aphrodite.
Desde que chegara a Malindos, acostumara-se a usar vestidos para jantar,
mas sabia que no hotel o ambiente era mais informal. Seria melhor pedir a
opinião de seu marido. Bateu de leve à porta.
Markus abriu-a, imediatamente.
— O que foi?
— Devo usar vestido longo?
— Não tem um habillée mais curto?
— Tenho.
— Use-o, então. —— Markus calou-se, encarando-a, como se tivesse
algo a lhe dizer.
Kim fechou a porta com o coração apertado de dor. Escolheu um
vestido azul-marinho, de seda, todo bordado em dourado, cuja saia era
rodada e leve. Escovou os cabelos, deixando-os brilhantes, e fez uma
maquilagem leve, que realçava a cor de seus olhos. Depois passou um pouco
de perfume.
Markus ainda não estava pronto. Kim então resolveu ir até a varanda
para admirar o pôr-do-sol. Viu a noite chegar em seu manto de veludo;
aspirou a brisa que soprava do mar e o perfume das flores.
De repente, Kim estremeceu. Markus estava bem atrás dela; podia
sentir o perfume da loção pós-barba. Ele a segurou pelos braços, fazendo-a
virar-se. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas a escuridão evitou que
ele as visse.
— No que está pensando, tão silenciosa e contemplativa?
— Que o destino me trouxe para cá.
— O destino governa nossas vidas.
— É, mas às vezes pode ser cruel. Markus ergueu uma das
sobrancelhas.
— Esta é uma palavra muito forte, Kim.
— O destino uniu Demetrius a mim, e depois o matou. Foi o destino
também que fez com que Stephen fosse adotado por meus pais, e que eles
pagassem caro por sua bondade.
Markus não respondeu. Kim gostaria de olhá-lo nos olhos, mas não foi
possível. Deu-lhe as costas e soltou um suspiro ao contemplar o horizonte
estrelado. O jardim do castelo se transformara numa grande sombra, de
formas estranhas e misteriosas. A água da fonte, iluminada pelo luar,
parecia possuir luz própria, com centenas de diamantes cascateando por
entre as pedras. Era uma noite propícia para o amor...
— Acho melhor irmos para o hotel. — A voz de Kim soou fria e
impessoal. — Que horas são, Markus?
— Sete e quinze. Você tem razão, está na hora de irmos.
Saíram dali em silêncio. Kim estava tensa, e não conseguia relaxar.
Tinha a impressão de que Markus queria lhe dizer alguma coisa, mas não
encontrava coragem. Provavelmente pediria o divórcio, só estava tendo um

- 67 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

pouco de dificuldade para entrar no assunto. Pois bem, ela lhe pouparia o
sacrifício: depois do jantar diria a ele que o casamento estava acabado e que
partiria do castelo imediatamente.
Tomada a decisão, Kim acalmou-se um pouco. Mesmo assim, sentiu
uma dor no coração ao lembrar-se de que não tinha para onde ir. Bem, pelo
menos economizara algum dinheiro, o suficiente para se manter por dois
meses, enquanto procurava um emprego. Suspirou. Acostumara-se à vida do
castelo. Seria duro abandonar seus jegues e o projeto da Sociedade Protetora
dos Animais... Mas Bridie e Denis levariam tudo adiante, o que já era um
consolo.
Jan e Randy estavam no saguão do hotel, aguardando por eles. Os
quatro se cumprimentaram como velhos amigos e foram tomar um aperitivo.
Na conversa, Kim ficou sabendo que Randy tinha ascendência irlandesa.
— Vocês deviam conhecer Bridie, minha amiga. Ela é de Galway.
— Galway! — exclamou Jan. — Exatamente a região dos parentes de
Randy!
— Gostaria de conhecê-la, Jan?
— Seria fantástico! Ela é casada?
— Com um grego.
— Mesmo? Oh, então vamos jantar juntos amanhã. Que acham?
— Por que não vão todos à minha casa amanhã? — convidou Markus,
pegando Kim totalmente de surpresa.
— Seria maravilhoso — respondeu Randy. — Vocês moram deste lado
da ilha?
— Não, do outro.
Markus deu um cartão a Randy e lhe explicou o caminho para chegar
ao castelo. Ao ler o que estava escrito, tanto ele quanto a esposa arregalaram
os olhos.
— Um castelo! — exclamou Jan. -— Puxa, estivemos em várias ruínas
pela ilha, e no final do vale há dois castelos restaurados.
— Bridie mora naquele do alto do morro — informou Kim.
— Quer dizer que, ela também mora num castelo?
— Mora, sim.
— E vocês moram no outro? Eles devem ter uma vista fantástical
— Vocês comprovarão amanhã — disse Markus, com um sorriso.
O jantar transcorreu num clima agradabilíssimo. Parecia impossível
que Markus estivesse pensando em divórcio. Ao ser indagado sobre o
casamento, ele respondeu que fazia apenas alguns meses que estavam
juntos.
—— Quer dizer que todos nós estamos em lua-de-mel! —— disse Jan,
animada.
Kim logo descobriu que o casamento de Randy e Jan era o segundo.
Randy era viúvo, tinha cinqiienta e dois anos e três filhos casados. E o mais
interessante era que ele conhecera a esposa justamente no casamento de
Jeremy, seu filho mais novo. Quando resolveram se casar, venderam suas
casas e mudaram-se para o Oregon.
— Decidimos que nossas memórias seriam construídas por nós, e só
para nós — informou Jan.
Kim calou-se, pensativa. "Memórias construídas por nós, e só para

- 68 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

nós"... Que coisa linda! Gostaria que Markus tivesse ouvido aquelas
palavras. Mas faria alguma diferença? Olhou para o perfil do marido, que
conversava animadamente com Randy. Perguntou-se se ele realmente se
casaria com Floria... Floria, que lhe daria um herdeiro e quantos filhos mais
ele quisesse.
No dia seguinte, Kim acordou com náuseas. Tinha abandonado a ideia
de conversar com Markus na noite anterior, obviamente, e agora... sentia um
frio no estômago. Passou a mão na barriga, perplexa. Seria possível que...
— Não é verdade! Não, não pode ser! — exclamou baixinho.
Lembrou-se de que já fazia alguns dias que vinha sentindo um pouco
de enjoo pela manhã, mas recusara-se a dar importância ao fato. Agora não
havia como negar: estava esperando um filho de Markus...
O que faria? Se contasse a ele, Markus naturalmente desistiria do
divórcio. Mas desistiria também de Floria? Não. Eles certamente se
tornariam amantes. Oh, não, esse tipo de vida Kim não levaria! O melhor era
continuar fiel à ideia original e dizer que ia partir. Markus certamente
concordaria com o divórcio, e lhe daria uma mesada. Isso já seria o bastante
para sustentar-se e à criança. E Markus jamais saberia da existência do
filho...
Seus olhos se encheram de lágrimas. Amava o marido com devoção, e
no entanto se via forçada a abandoná-lo.
Nunca mais o veria. E quando outra criança viesse ao mundo,
provavelmente o filho de Floria, ele teria um herdeiro...
Não! Seria seu filho quem teria que receber a herança, não podia tirar-
lhe o que lhe era de direito. Isso significava que tinha de tomar outra
decisão. Ou ficava e suportava o suplício da infidelidade do marido, ou se
resignava a entregar a criança ao pai, quando ela não necessitasse mais dos
seus cuidados.

CAPÍTULO XII

Depois de muito pensar, Kim decidiu dar um passeio pelo jardim para
refrescar a cabeça. Sempre se sentira em paz caminhando entre as flores,
ouvind o trinar dos pássaros de plumagens coloridas que por ali voavam. Se
realmente resolvesse ir embora da ilha, aquelas lembranças ficariam para
sempre gravadas em sua memória.
"Memórias construídas por mim e para mim", pensou, sentindo um nó
na garganta. Não seria como para Randy e Jan, cujas memórias seriam
construídas e vividas a dois...
Assim que ela se aproximou do cercadinho, os jegues correram ao seu
encontro, ávidos por carinhos e torrões de açúcar. Kim chamou-os pelo
nome, e cada um deles veio em sua direção para ser acariciado.
Depois, ela decidiu ir até o galpão. Novas divisões estavam sendo
construídas em seu interior, e o projeto já despertara o interesse de muita
gente do lugar. Havia alguns homens à porta da construção e, quando eles a
viram, abriram passagem respeitosamente, analisando-a de alto a baixo.
Kim sorriu. Já se acostumara com essa análise à qual os homens
gregos invariavelmente submetiam as mulheres, fossem elas moças, velhas,

- 69 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

feias ou bonitas.
— Yassoo! Kim! — exclamou Bridie, à porta do galpão.
— Yassoo. — respondeu Kim em grego.
— Olá, Kim! — Denis apareceu do lado de Bridie. — Entre, venha ver o
que estamos fazendo.
Ele parecia estar muito alegre e feliz. Assim que pôde, Kim chamou
Bridie de lado e perguntou como ia indo o namoro dele com a professorinha
da vila.
— Pelo jeito vai bem — disse Bridie. — Quer saber de uma coisa? Vou
perguntar agora mesmo para ele se o negócio é sério.
— Vai?
— Por que não? — Bridie encolheu os ombros. — Se for mesmo sério,
todo mundo vai saber logo, logo. Não dá para manter segredo numa ilha
pequena como Malindos.
Denis tinha ido conversar com alguns homens que estavam no balcão;
quando ele voltou, Bridie fez a cara mais inocente do mundo e atacou:
— Quando é que o noivado vai ser oficializado?
Surpreso, ele arregalou os olhos e sorriu.
— Bridie, você não tem jeito mesmo!
— É o que George sempre me diz. E então? —— Estamos muito felizes
juntos. — Fez uma pausa, embaraçado. — Bem, na verdade não temos
muito o que esperar. Helena não se importa de levar uma vida simples.
— Mas você mora num chalé maravilhoso, Denis. Qualquer moça
adoraria morar lá.
— Sim, mas é alugado. Helena tem uma casa e será seu dote,
conforme seu irmão mencionou.
— Ele está louco para casar uma das irmãs, não? Você sabe por quê,
não sabe? Ele próprio quer se casar, mas não pode até que suas irmãs
estejam fora de casa!
— Alguém pode me explicar como é que funciona isso? — perguntou
Kim, intrigada.
— É simples — disse Denis. — Aqui, como em outras ilhas gregas, o
sistema de dote ainda existe. Toda noiva deve ter uma casa para oferecer de
dote, e é obrigação dos irmãos trabalharem para construí-la. Andreas e seu
pai, por exemplo, levaram cinco anos para construir a casa de Helena.
— Sozinhos?
— Claro que alguns primos e parentes ajudaram na construção. O
chalé ficou muito bonito. Maroula, a irmã de Helena, mora na casa de Bridie
porque trabalha lá, mas ela também vai ganhar uma casa para oferecer de
dote antes de se casar.
— Puxa! Coitado do Andreas, tem mais cinco anos de trabalho pela
frente — comentou Kim.
— Nada disso. — Denis sacudiu a cabeça. — Eu expliquei a ele que
sou inglês, e que por isso não posso aceitar o dote de maneira nenhuma.
— Ah! — exclamou Bridie. — Imagino que o pobre Andreas tenha
ficado radiante de felicidade, pois assim a casa de Helena ficará pará
Maroula. Isso significa que Maroula logo irá encontrar um marido, e assim
Andreas poderá se casar com Sou-phola, sua namorada que o espera ha
nove anos!

- 70 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

— É verdade — admitiu Denis, com um sorriso.


— Então você está mesmo decidido a se casar com Helena?
— Sim, estou.
— Ora, vejam! Já estamos convidadas para o noivado?
— Claro que sim, Bridie.
— Bem, meus parabéns pela escolha! Helena é uma moça muito
bonita. Aposto como você não imaginava que encontraria uma esposa em
Malindos.
— Não mesmo. Nem pensei que um dia pudesse sobreviver como
autónomo, na ilha.
Kim arregalou os olhos. — Quer dizer que arranjou mesmo clientes?
— Sim. Além de uns pequenos proprietários, ontem o dono do hotel de
Rhodes pediu-me para cuidar de dois potrinhos recém-nascidos. Pelo menos
por seis meses já tenho trabalho garantido.
— Fantástico! — exclamou Bridie, empolgada. — Uma coisa puxa a
outra. Aposto como outros donos de hotéis o procurarão para cuidar dos
potrinhos, a fim de conseguirem mais turistas!
— Não estou esperando isso, Bridie, mas o que vier será bem-vindo .
Antes de sair, Kim conseguiu ficar um pouco a sós com Denis.
— Você vai receber seu salário, Denis. Quando Markus souber que
está noivo de Helena, tenho certeza de que ele esquecerá tudo o que
aconteceu naquela noite.
— Não me importa o que ele faça; já economizei algum dinheiro e,
como disse, consegui algum trabalho. Helena e eu podemos nos virar muito
bem sozinhos.
Bridie levou Kim de carro até o castelo, e ficou de lhe telefonar depois.
Sem entender por quê, Kim viu-se caminhando até a pequena capela
bizantina onde se casara — a Capela de San Demetrius — de paredes cor de
mel, abóboda alta, e vitrais coloridos. Ela ficava ao topo de uma colina, ao
lado do vale Halthea, onde Markus possuía algumas plantações de laranjas e
olivas. A vista daquele lugar era maravilhosa; de um lado, as montanhas; de
outro, o oceano.
Reinava um silêncio absoluto dentro da capela. Kim ficou de frente
para o altar. O aroma de incenso penetrava em suas narinas, fazendo com
que ela recordasse vivamente seu casamento. Ficou ali por muito tempo, até
que um chamado a despertou, um chamado tão leve que a princípio ela
pensou que fosse o sussurro da brisa vinda dos montes distantes.
— Kim...
— O que você quer, Markus? — perguntou, sem virar-se.
— Por que você veio até aqui?
Markus aproximou-se. Kim sentiu o seu mag netismo, aquela força que
sempre a atraíra, desde começo do casamento.
— Não sei direito. Meus passos me guiarai e... de repente eu estava
aqui.
— Eu a vi subindo o morro. Você parecia tão| cansada!
Kim girou um pouco a cabeça para observá-lo. Ele lhe pareceu
ansioso.
— Não estou cansada. Por que veio atrás de mim?
— Para saber por que tinha vindo até aqui. — Markus sentou-se na

- 71 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

frente dela, examinando-lhe o rosto. — Está pálida, Kim.


— Sim, um pouco.
— Tenho uma coisa para lhe dizer.
— Não aqui, Markus. Não é o lugar certo para isso.
— Não é o lugar. — Markus ficou intrigado. — Como assim? O que
você quer dizer?
— Nós nos casamos aqui; não é o lugar para começarmos a discutir
sobre o nosso divórcio. Além do mais, ainda não me decidi. Isto é, eu ia
conversar com você sobre nossa separação e deixar Malindos, mas algo
aconteceu...
A voz de Kim dissolveu-se no silêncio da igreja. Afinal encontrara uma
resposta, depois daquela indecisão dolorosa da manhã. Ela não concordaria
com a separação. Sofreria o que tivesse de sofrer, mas melhor isso do que
privar seu filho de um lar. Ergueu os olhos para o marido.
— Vamos conversar, se você quiser, mas não aqui.
Markus a deteve.
— Espere um instante, Kim. De onde você tirou essa ideia de divórcio?
— Floria. Mas você jamais me expulsará do castelo. Estou aqui e vou
ficar.
— Nunca desejei outra coisa.
— Não no começo, talvez, mas Floria me disse que você a desejava.
Bem, pode tê-la, se quiser, Markus, mas como sua amante. Nunca como sua
mulher. — Kim fez força para controlar-se. Afinal, estava dentro de uma
igreja! — Floria conversou comigo naquele dia em que ela veio procurar a
pulseira. Você foi ao encontro dela e... eu pensei que fosse voltar para me
explicar tudo, para me dizer que ela se enganara. Mas você não tocou mais
no assunto. Então, é claro que o que ela disse era correto, não?
Kim teve a impressão de que Markus se controlava para não explodir.
Seus olhos escuros estavam irados e pareciam devorá-la.
— Você não me disse nada sobre o que Floria lhe contou.
— Segundo ela, você estava arrependido por não ter se casado com ela
no ano passado, quando... quando vocês ainda eram amantes. E ela me
assegurou que você queria o divórcio.
— Ela disse que nós éramos amantes?
— Sim. E isso é comum na Grécia, não é? — Kim ficou impaciente. —
Mas não quero conversar mais sobre essas coisas dentro da igreja. Deixe-me
passar, por favor.
— Não até que eu possa lhe dizer tudo o que sinto. — Markus colocou
as mãos sobre os ombros dela e fechou os olhos por um instante. — Fui um
idiota, Kim, em tentar lutar contra uma coisa que já sinto há semanas.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, Markus abraçou-a, e os
dois trocaram um longo e delicado beijo. Kim viu-se transportada para as
nuvens. Seria possível que o milagre se realizara?
— Oh, Markus, é verdade? — conseguiu exclamar depois que ele a
soltou. — Você me ama?
— Para sempre. — E curvou-se para beijá-la mais uma vez. — Como
sabe, minha querida, eu estava determinado a jamais me envolver com
mulher nenhuma. — Ele riu, sacudindo a cabeça. — Mas eu não tinha
amado até então. Quando descobri que você nunca foi amante de Demetrius,

- 72 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

fiquei surpreso. Alguma coisa se acendeu dentro de mim, mas fui um idiota
em sufocá-la, e deixar que nós dois sofrêssemos... Sim, querida, eu sabia
que você me amava. Estava escrito em seus olhos!
— Mas então por que...
— Meu orgulho tinha sido ferido, lembra-se? Oh, enquanto estava em
Atenas, senti tanto a sua falta que fui obrigado a admitir que a amava.
Mesmo assim, meu orgulho não deixou que eu lhe dissesse a verdade. Cada
vez que eu dava vazão aos meus sentimentos, logo me arrependia e tinha
raiva. E, na minha teimosia, jurei a mim mesmo que jamais a perdoaria por
ter me enganado.
— Eu suspeitava que você estivesse lutando contra o amor, Markus, e
foi por isso que tentei... tentei provocá-lo. Quis deixá-lo com ciúmes —
admitiu ela, baixando os olhos. — Por isso...
— Por isso você convidou Denis para jantar naquela noite. Mas eu
desconfiei disso, querida, e convidei Floria. Teria sido apenas uma
brincadeira, mas quando a encontrei nos braços de Denis...
— Mas, se sabia que eu o amava, Markus, então, devia ter percebido
que não havia nada entre eu e Denis... Não compreendo sua raiva.
— Não? Com Floria ao meu lado, certa de que espalharia a fofoca pela
ilha inteira?
— Não sei se ela comentou alguma coisa, Markus.
— Nem saberemos. Mas isso não importa mais.
— E ela encontrou a pulseira, afinal? — Não tinha perdido pulseira
nenhuma. Kim arregalou os olhos.
— Não? Então... Mas o que vocês conversaram depois, no jardim?
— Floria admitiu que veio até o castelo só para saber se nós dois
tínhamos terminado tudo. Eu disse que não e a mandei embora.
— Mandou embora?
— Mandei, sim, claro! Disse que estava casado e que amava minha
esposa.
— Oh, mas não foi justo da sua parte convidá-la para jantar! —
brincou Kim. — A pobre encheu-se de esperanças...
— Isso não tem mais importância.
— Mas por que você não explicou tudo?
—— Porque eu ainda estava louco de raiva por tê-la visto nos braços
de outro homem.
— Posso explicar. — Kim contou-lhe tudo o que acontecera naquele
instante, e terminou falando sobre Denis e Helena. — Então? Denis pode
ficar com o emprego, não pode?
— Sim, claro! — respondeu Markus, desajeitado. — Temo estar
gastando muito mais do que imaginei com esse projeto de vocês! — ralhou
ele, com falsa severidade. — Ah, por falar nisso, lembrei de uma coisa! Que
ideia foi essa de dizer às pessoas que sou eu quem está colecionando jegues?
— Só falei isso para Elias — Kim riu. — Achei que assim ele me
venderia o jegue por um preço mais barato.
— E ele vendeu?
— Não sei. — Kim aninhou-se nos braços do marido, feliz. — Markus...
eu te amo.
— Meu amor!

- 73 -
Mentira Fatal (Desire) Anne Hampson
Série Fascinação no. 101

Os dois se abraçaram e se beijaram com sofreguidão. Quando


finalmente Markus a soltou, Kim passou os braços em torno de seu pescoço,
acariciando-lhe a nuca.
— Ainda não me perguntou por que é que eu tinha mudado de ideia e
decidido não lhe dar mais o divórcio.
— Eu jamais a deixaria ir, por isso não é importante.
— Mas é importante! — insistiu Kim. — Sabe, querido, aconteceu uma
coisa que me fez mudar de ideia...
— Oh, Kim, isso não interessa — retrucou ele, acariciando com fervor
as curvas sensuais de sua mulher.
Kim fingiu indiferença e sacudiu a cabeça com pouco-caso.
— Está bem, se você acha que não é importante, não vou incomodá-lo
com bobagens.
Markus ficou curioso.
— Pelo jeito é importante. — Viu-a corar encantadoramente. — Kim...
minha esposa querida... está esperando um filho?
— Sim. — Kim sorriu, louca de felicidade. — Então, é muito
importante, não acha?
Markus não respondeu, limitando-se a fitá-la com adoração, antes que
seus lábios se encontrassem para mais um longo beijo de amor.

***FIM***

- 74 -

Você também pode gostar