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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA - UFU

INSTITUTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS - IERI


INSTITUIÇÕES DE DIREITO

UNIDADE 5 - Constituição

GABRIEL GONÇALVES

Uberlândia - MG
2021
GABRIEL GONÇALVES

UNIDADE 5 - Constituição
Conceito, Classificações, Primado da Constituição, Controle da
constitucionalidade das leis e dos atos normativos.

Estudo apresentado para o componente


Instituições de Direito, da grade curricular de
Ciências Econômicas, com a finalidade de
explorar noções em torno da Constituição
para obtenção de nota.

Professor: Arley César Felipe

Uberlândia - MG
2021
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 4
Conceito de Constituição 5
1.2. Em termos materiais ou Sociológicos 5
1.3. Em termos formais ou Políticos 6
1.3. Em termos positivos ou Jurídicos 6
Caracterização de Constituição 7
2.1. Caracterização relativa à forma 7
2.1.1. Costumeira ou Consuetudinária 7
2.1.2. Escrita 7
2.1.2.1. Codificadas 8
2.1.2.2. Legais (ou não-formais) 8
2.2. Caracterização relativa à rigidez de reforma 9
2.2.1. Rígidas 9
2.2.2. Flexíveis 9
2.3. Caracterização relativa à autoria 9
2.3.1. Promulgadas 9
2.3.2. Outorgadas 10
2.3.3. Pactuadas 10
2.4. Caracterização relativa à extensão 10
2.4.1. Concisas 10
2.4.2. Prolixas 11
Sobre a Constituição Brasileira de 1988 11
O Primado da Constituição 12
4.1. O Primado para Sieyès 12
4.2. O Primado para Kelsen 13
4.3. Um breve juízo 13
O Controle da Constitucionalidade das Leis 13
5.1. Controle repressivo 14
5.1.1. Difuso ou concreto 14
5.1.2. Concentrado ou abstrato 14
5.2. Controle preventivo 15
Conclusão 15
REFERÊNCIAS 17
4
INTRODUÇÃO

Na Unidade IV do curso de Instituições de Direito, foram


abordados e esclarecidos as interpretações do conceito de Estado e
suas derivações teóricas e práticas. Naturalmente, o passo adiante na
construção de um conhecimento concreto da disciplina envolve o debate
em torno daquilo que sustenta e delineia não apenas as atribuições do
Estado, mas também sua própria configuração. Nesse sentido, este
artigo se ocupará de expor as mais importantes interpretações sobre
aquela que é a autoridade máxima, não apenas dos Estados Modernos,
mas de um vasto espaço histórico e geográfico: a Constituição, além de
suas classificações perante uma gama de critérios, a noção de sua
primazia e os mecanismos de controle constitucional dos atos
normativos.
5
Conceito de Constituição

1.1. Em termos amplos

Em primeiro momento, não é insensato entender a Constituição como


o conjunto estruturante de normas, valores e fins do Estado, de forma a
atuar como delineador de sua configuração, atribuições e também
limitações. É evidente, porém, que este conjunto tem sua elaboração
vinculada ao poder vigente em dado momento de um Estado Soberano,
podendo ser este uma vontade popular ou centralizada em certo grupo de
indivíduos. Cabe destacar também a existência de Constituições não
escritas, históricas ou contemporâneas, que cumpriam o mesmo papel
daquelas em formato codificado, o que demonstra a amplitude da forma
pela qual sociedades elaboram seu sistema político.
Mais do que uma amplitude prática, o próprio conceito de
Constituição é revestido de uma gama de acepções distintas, sejam
relativas à divergências entre conteúdo e aplicação, à flexibilidade de
reformas, à autoria, se são escritas ou não, entre outras classificações a
serem abordadas nas próximas páginas.

1.2. Em termos materiais ou Sociológicos

Elaborado por Ferdinand Lassalle, o ponto de vista material - ou


sociológico - da Constituição abrange tudo aquilo que lhe for derivado no
aspecto de composição e funcionamento básico do Estado em sua
ordem política. Dessa forma, são compreendidas normas relativas à
organização do poder, à distribuição de competência, ao exercício da
autoridade, à forma de governo, aos direitos da pessoa humana, tanto
individuais como sociais (Bonavides, 2004).
Em outras palavras, a interpretação material pode ser resumida à
seguinte definição, elaborada por Prélot, que coloca a Constituição como
“o conjunto de regras mediante as quais se exerce e transmite o poder
político”. Assim, a matéria constitucional se trata das determinações de
poder fornecidas pelo arranjo político de cada Estado.
Logo, é consequência dessa concepção a impossibilidade de um
Estado inconstitucional, vide o fato de toda sociedade com algum grau
de organização política possuir seu próprio conjunto de normas políticas
e administrativas, sejam elas escritas ou não. Destarte, a Constituição é
tomada como material por se tratar dos meios reais pelos quais se
estrutura uma sociedade, independente de um conjunto de normas
escritas.
6
1.3. Em termos formais ou Políticos

Por outro lado, há a concepção formal da Constituição, abrangente


do conteúdo de aparência constitucional, ou seja, aquele que goza de
uma garantia institucional superior em relação à legislação ordinária.
Esta forma de se elaborar - e encarar - a Carta-Magna de um Estado
relega às normas não materialmente constitucionais a rigidez
procedimental destinada aquelas de fato, constitucionais.
Sobre esse processo de “constitucionalização” de normas
ordinárias, Bonavides argumenta:

Essa forma difícil de reformar a


Constituição ou de elaborar uma lei
constitucional, distinta pois da forma fácil
empregada na feitura da legislação ordinária -
cuja aprovação se faz em geral por maioria
simples, com ausência daqueles requisitos -
caracteriza a Constituição pelo seu aspecto
formal. (BONAVIDES, 2004, p. 82).

Muito vinculada a esta concepção está a obra “Teoria da


Constituição” do jurista Carl Schmitt, na qual a Constituição é tomada
como a decisão política fundamental, enquanto relega para um campo,
menos relevante, de Lei Constitucional toda aquela decisão não
diretamente vinculada a uma decisão política fundamental. Sobre isso,
Schmitt argumenta:

“A essência da Constituição não está


contida numa lei ou numa norma. No fundo de
toda normatização reside uma decisão política
do titular do poder constituinte, quer dizer, do
Povo na Democracia e do Monarca na
Monarquia autêntica”. (SCHMITT, 1932, p. 27)

É evidente, portanto, que essa classificação exige uma


diferenciação de tratamento jurídico entre a Constituição e a legislação
ordinária. Nesse sentido, cabe destacar critérios adicionais de
classificação da Constituição, que serão abordados ao longo deste texto.

1.3. Em termos positivos ou Jurídicos

Pensado pelo jurista Hans Kelsen, importante nome do positivismo


jurídico, esse prisma através do qual se entende a Constituição rejeita a
sustentação dos seus valores e normas, de fato, constitucionais, em
7
questões relacionadas a sociologia, economia, política ou filosofia. Com
efeito, a Constituição deve ser elaborada com base em uma norma
hipotética fundamental, de modo que seja superior a todo corpo jurídico
e o sirva de alicerce positivo, validando suas normas.

Caracterização de Constituição

Tomadas as definições e interpretações sobre o conceito de


Constituição supracitadas neste trabalho, é importante se debruçar
sobre as diferentes formas pelas quais uma Constituição pode se
apresentar. Portanto, o primeiro critério a ser destrinchado a seguir será
o relativo à forma.

2.1. Caracterização relativa à forma

2.1.1. Costumeira ou Consuetudinária

Este modelo constitucional predominou, histórica e


geograficamente, nos regimes absolutistas. Logo, antecede os
mecanismos modernos de limitação interna dos poderes soberanos no
Estado e agia como contra-revolucionário às ideias liberais do século
XIX.
Com efeito, a defesa de uma Constituição costumeira era
vinculada à defesa de um aspecto natural do poder político, de forma
que autores críticos à Constituição escrita, como De Maistre, apontavam
que “não se faz uma Constituição como um relojoeiro faz um relógio”.
Finalmente, para caracterizar uma Constituição como Costumeira,
faz-se necessário recorrer à interpretação material do conteúdo
constitucional, apresentada anteriormente neste artigo. De fato, trata-se
de um conjunto de normas primas baseado nos costumes de uma
sociedade em seus âmbitos políticos e judiciais, sem estarem contidas
em documentos formais unificados.

2.1.2. Escrita

Ao contrário do modelo anterior, esse tipo de Constituição é


codificado, escrito pelo órgão estatal competente, de modo a compilar
formalmente os costumes e normas estruturantes do Estado. No período
inicial desde a aplicação de Constituições escritas, elas gozaram de
8
prestígio sobre àquelas consuetudinárias; Bonavides também argumenta
a esse respeito:

“a) a crença na superioridade da lei


escrita sobre o costume; b) a imagem de que a
Constituição simbolicamente renova com toda a
solenidade o contrato social; e, finalmente, c) o
sentimento concebido, desde o século XVIII, de
que não há melhor instrumento de educação
política do que o texto de uma Constituição”.
(BONAVIDES, 2004, p. 86).

Por fim, a Constituição escrita reúne, de fato, certa clareza e


precisão de conteúdo, de forma a comportar certa “racionalidade”
ausente na arbitrariedade dos costumes. Ainda, as Constituições
escritas se ramificam em Constituições Escritas Codificadas e Escritas
Legais.

2.1.2.1. Codificadas

Adotadas mais frequentemente, se tratam do modelo


Constitucional escrito em apenas um texto jurídico, com coerência
interna própria, sistematicamente organizado e disposto em seções que
compõem um único corpo legislativo. Sobre a organização de uma
Constituição codificada, Bonavides discorre:

“A Constituição codificada compreende,


em boa técnica, as seguintes partes: o
Preâmbulo, a parte introdutória, a parte orgânica,
a parte dogmática e uma parte de disposições
gerais ou finais, acrescida não raro de algumas
disposições transitórias”. (BONAVIDES, 2004,
pg. 87).

2.1.2.2. Legais (ou não-formais)

São aquelas Constituições escritas cujo processo de elaboração


não foi preocupado em torná-la um único documento internamente
completo. Em outras palavras, são Constituições compostas por textos
relativamente esparsos e, de certa forma, independentes entre si; além
de terem sido elaborados em ocasiões distintas.
9

2.2. Caracterização relativa à rigidez de reforma

Partindo da elaboração de Bryce (1901), as Constituições podem


ser rígidas ou flexíveis, dependendo do processo de reforma atribuído a
cada uma e seus entraves jurídicos. Antes da definição dos modelos
rígido e flexível, é importante ter em mente que este critério não se faz
limitado à outras categorias apresentadas anteriormente. Por exemplo, é
comum que as Constituições costumeiras sejam mais flexíveis que as
Escritas, embora seja possível uma costumeira possuir menor
flexibilidade que uma escrita.

2.2.1. Rígidas

O modelo rígido é aquele cujas alterações constitucionais exigem


um procedimento diferente daquele aplicado na legislação ordinária.
Com efeito, no primeiro caso ele é mais oneroso e ilustre do que no
segundo. Embora o grau de rigidez seja variável, a maioria dos países
ocidentais apresentam Constituições rígidas.

2.2.2. Flexíveis

O modelo flexível, por outro lado, não coloca entraves à


modificação constitucional que não estejam também no processo da
legislação ordinária. Como exemplo, há a Constituição inglesa, que pode
ser juridicamente alterada pelo Parlamento da mesma forma que o
restante do corpo jurídico nacional.

2.3. Caracterização relativa à autoria

A Constituição, como já explicitado anteriormente, é elaborada, em


termos materiais, em momentos específicos da história de Estados
Soberanos, e reflete interesses e valores políticos de determinados
grupos de poder. Nesse sentido, é essencial a caracterização das
Constituições por autoria, ou seja, a quem é dada a responsabilidade e a
legitimação para elaborar o principal corpo legislativo do país.

2.3.1. Promulgadas

Vinculada ao constitucionalismo liberal, ao passo que visa limitar o


poder do governante e garantir, em certa medida, autoridade aos
10
mecanismos de representação popular no aparato estatal. Por esse
motivo, são chamadas também de Constituições Populares ou
Democráticas. Por esse prisma, há a necessidade de elaboração da
Constituição por representantes eleitos democraticamente, por meio de
uma Assembleia; em suma: se escoram no princípio político e jurídico de
que todo governo deve apoiar-se no consentimento dos governados e
traduzir a vontade soberana do povo (Bonavides, 2004, pg. 90).

2.3.2. Outorgadas

Enquanto a Constituição Promulgada visa distribuir a autoridade


legislativa para os representantes da população, a Outorgada, pelo
contrário, é consequência da centralização de poder no Chefe de
Estado. Com efeito, juridicamente, esse tipo de Constituição trata-se de
um ato unilateral da vontade política vigente; embora, em termos
políticos, se trate da síntese dialética do conflito entre uma vontade
popular ascendente e um poder político desejoso de manutenção do
status quo. Portanto, não obstante o caráter centralizador de uma
Constituição outorgada, ela é uma tentativa de concessão dos
governantes absolutos, visto que se tornam sujeitos à ela no momento
da outorgação.

2.3.3. Pactuadas

Podem ser consideradas a mediana histórica - e prática - entre as


supracitadas, em um momento de transição entre o absolutismo de
Constituições Outorgadas e o constitucionalismo liberal. Por certo, uma
Constituição Pactuada é o compromisso entre duas forças políticas
rivais, a tomar como exemplo as formas institucionais de monarquia
limitada, fruto da relação entre uma realeza absoluta decadente e a
burguesia ascendente.

2.4. Caracterização relativa à extensão

Podem ser Concisas ou Prolixas.

2.4.1. Concisas

É um modo de elaboração constitucional breve, de forma a


abordar apenas princípios gerais de organização política e valores
11
orientadores do sistema social e jurídico do Estado. Dessa forma, são
relegados à legislação ordinária todos os pormenores e detalhamentos
daquilo que não é materialmente constitucional.
Em virtude desse modo de elaboração, Constituições Concisas
tendem a ser mais flexíveis à interpretação e a possuírem maior
adaptabilidade a situações inéditas conforme um país vive seu
desenvolvimento social, econômico, político e jurídico.

2.4.2. Prolixas

Em contraposição ao modo anterior, este modo de elaboração é


detalhado, extenso e, como sugerido pelo nome, prolixo em detalhar
minúcias de regulação e organização do sistema político. Não vem como
surpresa o fato de que as Constituições Prolixas estão mais sujeitas a
abarcar um conteúdo mais adequado ao campo da legislação ordinária,
mas que é tomado como matéria constitucional apenas na esfera formal,
de modo que lhe é garantida toda a solenidade conferida à Constituição.
Naturalmente, essa complexidade adicionada ao aparato constitucional
confere a ele certa rigidez de reformas superior ao modelo Conciso.

Sobre a Constituição Brasileira de 1988

A partir da instrumentalização teórica fornecida por este trabalho


até então, é possível ampliar a compreensão sobre a Constituição
Brasileira de 1988. Na ordem das classificações apresentadas, o
principal texto jurídico brasileiro pode ser descrito como escrito e
codificado, rígido, promulgado e prolixo.
Por certo, a chamada Constituição Cidadã foi promulgada por uma
Assembleia Constituinte após a ditadura militar, organizada em formato
de um livro unificado e dividido em Preâmbulo, Corpo e Disposições
Transitórias. Esta forma organizacional caracteriza nossa Carta Magna
como escrita e codificada.
Ademais, há procedimentos especiais e solenes para revisão e
alteração da Constituição, de modo a ser considerada rígida. São
exigidos três quintos dos votos diretos favoráveis dos constituintes para
tal; por essa razão, ela é considerada rígida.
Cabe destacar também o alto nível de extensão e detalhamento da
Constituição Brasileira de 1988. São 250 artigos em seu Corpo e com
114 artigos nos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, além
de ter recebido 96 emendas desde sua aplicação até junho de 2017
(NOVO, 2020). Portanto, ela é uma Constituição prolixa.
12

O Primado da Constituição

A noção de primado da Constituição se entrelaça com a ideia de


que ela constitui a autoridade máxima e fundamental do corpo jurídico
de um país. Mais do que isso, a Constituição se torna o padrão jurídico
para toda e qualquer jurisprudência que deriva dela. Com efeito, esse
fenômeno de priorização da Constituição possui exigências e
consequências vinculadas à sua ocorrência.
Em primeiro lugar, ele exige uma diferenciação dentro do corpo
jurídico, como já citado neste trabalho ao tratar da concepção formal ou
política da Constituição. Nesse sentido, há o direito constitucional e o
direito ordinário, e há a fronteira entre ambos que não deve ser
ultrapassada.
Ademais, mera separação não é bastante para o Primado da
Constituição, é necessária também uma hierarquização. Para todos os
efeitos, são colocados em posição secundária não apenas a legislação
ordinária, como também o próprio legislador. Para o sistema político de
um país, isso é extremamente relevante, na medida que, por meio do
primado constitucional, fornece suporte jurídico para os conflitos
materiais incitados pelas forças políticas do direito ordinário.
Não obstante, é evidente a possibilidade de questionamento da
primazia da Constituição. Wahl (1987. p. ?) discorre a esse respeito ao
comentar sobre as diferenças de perspectiva entre o direito americano e
alemão, ao relatar o ponto de vista do jurista Anschutz:

“A Constituição não está acima do poder


legislativo mas à sua disposição. Por
conseguinte, a Constituição é, na realidade,
apenas uma lei como qualquer outra”. (WAHL,
1987, pg. ?).

Nesse sentido, cabe destacar as teorias de Sieyès e de Hans


Kelsen sobre a justificada, ou não, primazia do Direito Constitucional
sobre o ordinário.

4.1. O Primado para Sieyès

A fim de entender a defesa do Primado por este autor, é


importante ter em mente que Emmanuel Sieyès viveu como jurista no
13
período precedente à Revolução Francesa, de modo a combater as
ideias absolutistas decadentes.
Nesse sentido, ele visou, em sua teoria, justificar a primazia do
direito Constitucional ao vinculá-lo ao desejo popular (burguês)
soberano, que deveria compor o poder constituinte em detrimento da
nobreza e do clero. Logo, é justificada logicamente a defesa do Primado
da Constituição: se o poder vem do povo, por ele é legitimado e se,
ainda, a Constituição deve ser elaborada pelo povo, a ela deve ser
conferida primazia sobre as leis ordinárias.

4.2. O Primado para Kelsen

Em consonância com sua concepção positiva sobre a


Constituição, Hans Kelsen vai de encontro à teorização de Sieyès,
embora também faça defesa do Primado do Direito Constitucional. Vale
lembrar, Kelsen defende a Constituição como norma-pura, justificada e
validada com base em uma norma hipotética positiva, cuja mera
existência é suficiente para justificar a primazia da Constituição sobre as
leis inferiores.

4.3. Um breve juízo

Cabe advertir que, neste tópico, será tomada a liberdade de se


exprimir o ponto de vista do autor sobre as perspectivas do Primado
expostas acima. Nesse sentido, é, de fato, pertinente a existência de um
Primado da Constituição, tendo em vista a necessidade de se promover
sínteses dos movimentos dialéticos materiais com base em um conjunto
jurídico dotado de maior importância em relação às normas ordinárias,
tão sujeitas às alterações frequentes e com caráter secundário.
Entretanto, é importante que a primazia da Constituição venha, também,
de questões materiais, em detrimento de noções positivistas distantes
das relações de poder entre governados e governantes, como defendido
por Hans Kelsen.

O Controle da Constitucionalidade das Leis

Tomado como justificado o Primado da Constituição, em que há


diferença entre poder constituinte e poder constituído - de competência
restrita pela Constituição e cujos atos se confinam no espaço do direito
ordinário, submisso ao constitucional - surge a necessidade de se
teorizar em torno do próximo passo da aplicação material do Direito
14
Constitucional: como se dará o controle da constitucionalidade e dos
atos normativos?
Em primeiro lugar, a supremacia da Constituição como corpo
jurídico leva à exigência de que as leis ordinárias sejam compatíveis
com o conteúdo constitucional expresso na Constituição. Logo, não
apenas formalmente, é necessário que haja a garantia de que todas as
leis editadas no país não sejam inconstitucionais, sob a sujeição de que
seja anulada sua capacidade impositiva sobre os cidadãos.
Portanto, é necessário sistematizar formas de controle da
Constitucionalidade que garantam a adequação dos atos normativos à
Constituição.

5.1. Controle repressivo

Recebe esta denominação o controle constitucional exercido sobre


norma já existente que, embora tenha sido aprovada, possua conteúdo
inconstitucional, de modo a retirá-la do corpo jurídico do país. Sob, essa
forma de controle, há duas possibilidades.

5.1.1. Difuso ou concreto

De natureza subjetiva, é conferido a todo órgão judicante -


Magistrado ou Tribunal - o poder de conferir e avaliar a
constitucionalidade das leis ao lidar com casos concretos nos quais essa
revisão se faça indispensável. Nesse caso, a declarada
inconstitucionalidade da lei em questão se confina apenas ao caso
específico conduzido pelo órgão jurídico; isso ocorre em razão do fato
da inconstitucionalidade ser apenas necessária para o andamento do
caso, não se tratando de seu objeto principal.
Não obstante, é possível que o controle difuso alcance vias de ser
julgado, extraordinariamente, pelo órgão concentrador - no caso
brasileiro, o Supremo Tribunal Federal (STF)

5.1.2. Concentrado ou abstrato

É a modalidade na qual a competência de controle de


constitucionalidade é conferida a um órgão jurídico superior; como
supracitado, esse órgão, no caso brasileiro, é o STF. É realizado de
forma objetiva e avalia a constitucionalidade das normas de forma
abstrata, ou seja, seu procedimento não é acionado perante casos
concretos que visem dar andamento a um caso jurídico específico.
15
Para todos os efeitos, o controle de feito por essa via é válido para
todo o território nacional, de modo que, caso um ato normativo seja
considerado inconstitucional, ele é anulado.

5.2. Controle preventivo

Ao contrário do primeiro caso, o controle preventivo é aquele que


visa “atacar” uma norma ainda em processo de tramitação, antes de se
tornar válida. Via de regra, esse mecanismo de controle é exercido pelos
Poderes Executivo e Legislativo, por meio do veto presidencial e das
Comissões de Constituição e Justiça, não obstante seja cabível ao STF
zelar pela Constituição e, dessa forma, garantir que não sejam editadas
leis que violem as cláusulas pétreas da Constituição.
16
Conclusão

A estrutura de um Estado Soberano, inegavelmente, passa


profundamente não apenas pelo conteúdo de sua Constituição, mas
também pela sua própria configuração organizacional. Com efeito, o
estudo do Direito Constitucional capacita a percepção de facetas
fundamentais do Estado que são invisíveis à análise superficial das leis
ordinárias e seus mecanismos de manutenção, cujas consequências
são, de fato, materiais.
Por fim, conclui-se o alto teor intelectual para a promoção de
mudanças estruturais no corpo jurídico no país, seja na exigência da
garantia da soberania popular por vias constitucionais, ou pela sugestão
de reformas constitucionais que a tornem possível.
17
REFERÊNCIAS

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 15 ed. CO PUC


Minas. Belo Horizonte, 2004.

DODORICO, Luís Fernando. Elementos do controle de


constitucionalidade das leis: controle difuso, concentrado e o controle
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<https://jus.com.br/artigos/58718/elementos-do-controle-de-constituciona
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FROTA, David Augusto Souza Lopes. Constituição: conceito e


classificação. JUS.com.br, 2018. Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/70516/constituicao-conceito-e-classificacao>.
Acesso em 11/01/2022.

NOVO, Benigno Núñez. A Constituição Federal de 5 de outubro de


1988. JUS.com.br, 2020. Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/85520/a-constituicao-federal-de-5-de-outubro-
de-1988>.

SANTOS, Roberto Carlos Sobral. Concepção de Constituição adotada


por Ferdinand Lassale, Carl Schmitt e Hans Kelsen. JUS.com.br, 2014.
Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/29843/concepcao-de-constituicao-adotada-po
r-ferdinand-lassale-carl-schmitt-e-hans-kelsen>. Acesso em 14/01/2022.

WAHL, Rainer. O Primado da Constituição. Revista da Ordem dos


Advogados, Lisboa, Ano 47 - Vol. I, p. (61 - 106), abr. 1987. Disponível
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