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Universidade Federal de Uberlândia

Instituto de Economia e Relações Internacionais

Alessa Dias Ferraz


Gabriel Henrique Martins Gonçalves
Gabriel Lucas Ferreira
Geovani do Nascimento Faria

A visão de Machado sobre o “Grande Debate” formulado por


Polanyi

Uberlândia
outubro de 2021
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Resumo

O texto presente tem o objetivo de sintetizar as principais reflexões do artigo


“Karl Polanyi e o ‘Grande Debate’ entre substantivistas e formalistas na antropologia
econômica”, de Nuno Miguel Cardoso Machado, e avaliá-las criticamente a partir
dos conhecimentos obtidos ao longo do semestre de História do Pensamento
Econômico. Nesse sentido, a construção - elaborada por Alessa Ferraz, Gabriel
Gonçalves, Gabriel Ferreira e Geovani do Nascimento - atravessa uma breve
biografia de Machado até a interpretação do autor sobre o debate entre
substantivistas e formalistas, impulsionado pela ótica de Polanyi.

Palavras-chave: Antropologia Econômica; substantivistas e formalistas; Karl


Polanyi;
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Não são estranhos a nenhum estudioso das ciências sociais os calorosos e


quase permanentes debates sobre a antropologia de sua respectiva disciplina: o
escopo, metodologia e premissas de seus campos de estudo. Por certo, muito mais
profundamente que as ciências naturais, as ciências sociais são encharcadas por
vieses de seus autores por mais que se proponham como “ciências puras e
objetivas” e, por isso, a validade de suas bases teóricas é constantemente
questionada. Em outras palavras, o debate em torno da própria antropologia da
disciplina é frequente e crucial para toda a produção acadêmica decorrente. É
evidente que o caso da Economia não seria diferente, pelo contrário, o próprio
significado de Economia possui implicações teóricas diretamente relacionadas com
a produção acadêmica e, por consequência, afeta também a vida material daqueles
sujeitos às políticas públicas elaboradas a partir de tal formulação intelectual.
Nesse sentido, autores importantes fomentaram o debate sobre o que é a
Economia a fim de elaborar uma interpretação capaz de melhor guiar a disciplina,
teórica e materialmente. Entre eles estão Karl Polanyi e Nuno Machado - o primeiro,
iniciador do “Grande Debate” sobre as concepções de Economia e o segundo,
propagador do debate a partir das ideias de Polanyi.
É neste prisma que podemos discutir o artigo “Karl Polanyi e o ‘Grande
Debate’ entre substantivistas e formalistas na antropologia econômica” como uma
síntese do debate em torno de interpretações divergentes da economia, cuja autoria
é de Nuno Miguel Cardoso Machado, economista e sociólogo formado pela
Universidade de Lisboa. Sua tese de mestrado, dedicada ao pensamento
econômico de Polanyi (e doutorado em torno das teorias de Marx e da nova crítica
do valor) se traduz em seu artigo aqui referido, no qual Machado irá se munir da
obra de Polanyi como fio condutor para apresentar ao leitor o debate da
antropologia econômica, em que de um lado há os substantivistas - representados
por Polanyi, Pearson, Dalton, além do próprio Machado - e, do outro, os formalistas.
Com efeito, a exposição do autor visa defender a interpretação de Polanyi
como meio para evitar a “falácia economicista”. Para Machado, a abordagem
substantivista toma a Economia como um processo de interação entre o homem e o
ambiente social e natural, que resulta em uma contínua oferta de meios para
satisfazer as necessidades humanas. Assim, ela é uma abordagem que tem como
unidade de análise a sociedade - composta não por um coletivo de homo
economicus, mas por seres sociais -, e é base para a análise institucional de
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Polanyi, que assume que a economia pode estar instituída de várias formas em uma
sociedade, seja ela guiada por reciprocidade, redistribuição ou a troca. Dessa forma,
a abordagem substantivista capacita o estudo de sociedades cuja configuração
econômica se difere de uma sociedade de mercado. Enquanto isso, a abordagem
formalista toma como ponto de partida de suas análises o indivíduo que busca
maximizar seus ganhos, logo, a sua unidade de análise é o indivíduo cujo objetivo
econômico é a acumulação e a eficiência e, para isso, é dotado de racionalidade
econômica (essa que, na prática, é uma racionalidade de mercado). Em outras
palavras, a consequência da concepção formalista é interpretar como econômico
apenas aquilo que é de mercado.
Há, de fato, mérito de Machado em concluir a inadequação da concepção
formalista. Afinal, como é evidente pelas suas premissas de racionalidade
econômica, emprestadas dos economistas neoclássicos, há uma amplitude de
fatores marginalizados da investigação pela “falácia economicista”, além de análises
que partem não da realidade factual, mas de postulados a priori teóricos e
universalizantes. Corazza (2009) argumentou a esse respeito:

A economia deve ser mais objetiva e comprometida com os fatos. O


objetivo da ciência econômica é a previsão. Como saber positivo, a
economia deve ter conteúdo factual, ela não é metafísica, não se preocupa
com as essências, apenas com os fenômenos. Os princípios não podem ser
derivados da introspecção, pois esta é individual e não pode ser
generalizável. (CORAZZA, 2009, p.127)

Ademais, Machado faz um bom trabalho ao dedicar parte de seu artigo para
a apresentação das ideias formalistas nas palavras dos próprios autores. Com isso,
o leitor não é alienado de nenhuma das partes do debate, embora finalize a leitura,
muito provavelmente, alinhado com as visões do autor e, por consequência, de
Polanyi.
Entretanto, o autor parece concordar com Polanyi ao superestimar o papel da
Economia enquanto disciplina para outras Ciências Sociais. Ele afirma que “essa
fusão [de economia substantiva e formal] em um único conceito, todavia, é
prejudicial para uma metodologia precisa nas Ciências Sociais” (p.175), porém,
outros campos das Ciências Sociais, mesmo a história econômica, possuem suas
lógicas internas que fornecem certa independência em relação ao que é discutido
entre os economistas. Nesse sentido, Hobsbawm (1997) argumenta o seguinte:
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É plausível que os economistas possam concordar quanto ao valor


da história para sua disciplina, mas não que os historiadores concordem
quanto ao valor da economia para a sua. Em parte, isso se deve ao fato de
que a história abarca um campo muito mais amplo. Como vimos, uma
desvantagem óbvia da economia como matéria que lida com o mundo real é
o fato de que ela seleciona como “econômicos” alguns e apenas alguns
aspectos do comportamento humano e deixa os demais para outrem.
(HOBSBAWM, 1997, p.157)

O comentário do historiador é verdadeiro mesmo em caso de uma


abordagem econômica pautada pela ótica substantivista, que ainda precisa
“escolher” elementos como econômicos, embora estes sejam situados em
instituições sociais correspondentes à sua sociedade. Ora, a história, a sociologia e
a antropologia possuem ferramentas próprias para suas análises que não derivam
necessariamente das formulações dos economistas. Portanto, fica a impressão de
que Polanyi e Machado superestimaram a influência dos economistas dentro das
Ciências Sociais.
Por fim, a obra de Nuno Machado apresenta grande valor não apenas
didático, no sentido de introduzir o leitor ao debate e apontar uma perspectiva
crítica, mas em especial teórica, por resgatar a obra de Polanyi e reanimar
discussões metodológicas necessárias para a superação do paradigma neoclássico.
O único ponto de melhoria notável é a consideração implícita de uma suposta
necessidade das outras Ciências Sociais de se escorarem na Economia para seus
estudos próprios: com efeito, já vimos que não é bem assim. Pelo contrário, a
Economia poderia se tornar muito mais substantiva caso se escorasse na riqueza
teórica das Ciências Sociais.
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Referência bibliográfica

CORAZZA, Gentil. Ciência e Método na História do Pensamento Econômico.


Revista de Economia, v.35, n. 2 (ano 33), p. 107-135, maio/ago. 2009.

HOBSBAWM, Eric. Sobre História. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

MACHADO, Nuno. Karl Polanyi e o “Grande Debate” entre substantivistas e


formalistas na antropologia econômica. Economia e sociedade, v.21, n.1 |44|, p.
165-195, abr. 2012

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