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Ministério Público do Estado de Mato Grosso

Procuradoria Geral de Justiça

EXCELENTÍSSIMA SENHORA DESEMBARGADORA PRESIDENTE DO EGRÉGIO


TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO.

O PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO


GROSSO, no uso de suas atribuições legais e constitucionais, com fundamento nos
artigos 96, I, d, c/c 124, III, da Constituição Estadual, vem a presença de Vossa
Excelência propor a presente AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE em face
da Lei Municipal nº 2.683, de 21 de dezembro de 2021, do Município de Alta
Floresta-MT em razão dos fatos e fundamentos a seguir expostos.

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1. DOS FATOS

A Câmara Municipal de Alta Floresta/MT aprovou e o Prefeito


Municipal sancionou a Lei nº 2.683/2021, que “Veda ao Poder Público a instituição de
qualquer exigência de apresentação do cartão de vacinação contra a COVID-19, para
acesso aos estabelecimentos comerciais e congêneres, no âmbito do município de Alta
Floresta e dá outras providências” e que tem a seguinte redação:

LEI Nº 2.683/2021
SUMULA: “VEDA AO PODER PÚBLICO A INSTITUIÇÃO DE QUALQUER
EXIGÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DO CARTÃO DE VACINAÇÃO CONTRA A
COVID-19, PARA ACESSO AOS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS E
CONGÊNERES, NO ÂMBITO DO MUNICÍPIO DE ALTA FLORESTA E DÁ
OUTRAS PROVIDÊNCIAS”
AUTORIA: Douglas Pereira Teixeira de Carvalho.
A CÂMARA MUNICIPAL DE ALTA FLORESTA, Estado de Mato Grosso,
no uso de suas atribuições legais, aprovou e eu, VALDEMAR GAMBA,
Prefeito Municipal, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º- Fica o Poder Público proibido de instituir o "Passaporte de
Vacinação" ou qualquer outro meio probatório de imunização contra
o vírus Sars-Cov-2, como exigência para acesso aos estabelecimentos
comerciais ou congêneres, bem como em templos religiosos e igrejas
no Município de Alta Floresta.
Art. 2º- Para efeitos desta Lei considera-se "Passaporte de Vacinação"
ou qualquer outro meio probatório de imunização contra a Covid- 19:
I - a carteira de vacinação;
II - o comprovante de vacinação;

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III - ou qualquer outro documento emitido por órgão vinculado ao


Sistema Único de Saúde, em meio físico ou digital, que comprove a
aplicação de vacina contra a Covid-19.
Art. 3º- Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação
PREFEITURA MUNICIPAL DE ALTA FLORESTA – MT, Em 21 de
Dezembro de 2021.
VALDEMAR GAMBA
Prefeito Municipal

Como se verifica, o art. 1º da Lei questionada veicula hipótese


de vedação à exigência de vacinação contra o Covid-19 (Sars-Cov-2), e suas variantes,
chamado de “Passaporte de Vacinação”, como requisito para acesso aos estabelecimentos
comerciais ou congêneres, bem como em templos religiosos e igrejas no Município de Alta
Floresta.

O art. 2º, por seu turno, pormenoriza o que se entende por


Passaporte de Vacinação", sendo a carteira de vacinação, o comprovante de vacinação ou,
ainda, qualquer outro documento emitido por órgão vinculado ao Sistema Único de Saúde,
em meio físico ou digital, que comprove a aplicação de vacina contra a Covid-19.

Ocorre que, assim procedendo, a Lei Municipal nº 2.683, de 21


de dezembro de 2021, do Município de Alta Floresta-MT, ora hostilizada, encontra-se
eivada de inconstitucionalidade, por violar frontalmente a autonomia dos entes federados
no pacto federativo (art. 18 da Constituição Federal) ao extrapolar a competência
suplementar reconhecida aos Municípios (art. 30, inciso II, da Constituição Federal) no que
diz respeito às medidas de restrição à liberdade, adotadas no enfrentamento da pandemia

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decorrente do coronavírus responsável pelo surto da COVID-19, fustigando os arts. 173,


§2º e 193, da Constituição do Estado de Mato Grosso.

Outrossim, a Lei nº 2.683/2021, de Alta Floresta/MT, incorre em


inconstitucionalidade, dado que interfere indevidamente nas atribuições da Secretaria
Municipal de Saúde, violando o princípio da separação de poderes, ofendendo o art. 190 e
193 da Constituição do Estado de Mato Grosso, conforme se verá adiante.

2. DA INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI MUNICIPAL Nº 2.683, DE 21 DE DEZEMBRO DE


2021, DO MUNICÍPIO DE ALTA FLORESTA/MT

Como dito, ao estabelecer a vedação à exigência de vacinação


contra o Covid-19 (Sars-Cov-2), a Lei Municipal nº 2.683, de 21 de dezembro de 2021, do
Município de Alta Floresta-MT, ora hostilizada, encontra-se eivada de
inconstitucionalidade, por violar frontalmente a autonomia dos entes federados no pacto
federativo (art. 18 da Constituição Federal) ao extrapolar a competência suplementar
reconhecida aos Municípios (art. 30, inciso II, da Constituição Federal) no que diz respeito
às medidas de restrição à liberdade, adotadas no enfrentamento da pandemia decorrente
do coronavírus responsável pelo surto da COVID-19, fustigando os arts. 173, §2º e 193, da
Constituição do Estado de Mato Grosso.

Outrossim, a Lei Municipal nº 2.683, de 21 de dezembro de


2021, do Município de Alta Floresta-MT, de autoria do Poder Legislativo incorre em
inconstitucionalidade, dado que interfere indevidamente nas atribuições da Secretaria
Municipal de Saúde, violando o princípio da separação de poderes, ofendendo o art. 190 e
193 da Constituição do Estado de Mato Grosso.

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Preconizam os dispositivos constitucionais supramencionados:

Art. 173 O Município integra a República Federativa do Brasil.


(…)
§ 2º Organiza-se e rege-se o Município por sua lei orgânica e demais
leis que adotar, com os poderes e segundo os princípios e preceitos
estabelecidos pela Constituição Federal e nesta Constituição.

Art. 190 São Poderes do Município, independentes e harmônicos


entre si, o Legislativo e o Executivo.

Art. 193 Cabe à Câmara Municipal, com a sanção do Prefeito, legislar


sobre assuntos de interesse local, suplementar a legislação federal e
estadual, no que couber, e instituir os tributos de competência do
Município, nos termos definidos na Constituição Federal e nesta
Constituição.

No contexto atual em que o globo enfrenta a crise sanitária do


Coronavírus, é essencial harmonizar diferentes bens jurídicos e pontos de vistas para que
haja uma cooperação ótima entre atores políticos internacionais, agentes estatais e
entidades federativas.

É louvável a atuação da Câmara Municipal de Alta Floresta no


sentido de combate ao Coronavírus, todavia, certas medidas podem desencadear múltiplas
facetas de crises de ordem pública, sendo imprescindível ao Ministério Público, como
instituição incumbida de defesa da ordem jurídica, o papel de zelar pelo efetivo respeito
dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados na
Constituição, promovendo as medidas necessárias à sua garantia (CF, art. 129, II).

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Especificamente, o art. 1º da Lei Municipal nº 2.683, de 21 de


dezembro de 2021, do Município de Alta Floresta-MT veda a adoção de medidas
administrativas de combate à pandemia, de maneira que inquestionavelmente mina os
esforços tomados até o presente momento.

Outrossim, ao adotar tal vedação, adentra indevidamente nas


atribuições da Secretaria Municipal de Alta Floresta/MT, órgão do Executivo legitimado a
disciplinar a questão envolvendo a tomada de ações de vigilância epidemiológica e
sanitária de combate à Covid-19.

É indispensável ter-se em mente, neste passo, que, no que diz


respeito, especificamente, à organização das ações de vigilância epidemiológica e sanitária,
União, Estados e Municípios possuem competência administrativa comum (art. 23, inciso
II, da Constituição Federal1), ao passo que União e Estados detêm competência legislativa
concorrente (art. 24, inciso XII, da Constituição Federal 2), enquanto os Municípios,
competência legislativa suplementar (art. 30, inciso II, da Constituição Federal3).

Nesse prisma, cabe à União a definição e coordenação nacional


do sistema (art. 16, inciso III, alínea ‘c’, da Lei Federal nº. 8.080/1990) e da execução das
ações (art. 16, inciso VI, da Lei Federal nº 8.080/1990). Os Estados, por suas vezes,
coordenam e, em caráter complementar, executam as ações e serviços de vigilância
epidemiológica e sanitária (art. 17, inciso IV, alínea ‘a’, da Lei Federal nº. 8.080/1990), ao

1 Art. 23. É competê ncia comum da Uniã o, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: [...]
II - cuidar da saú de e assistê ncia pú blica, da proteçã o e garantia das pessoas portadoras de deficiê ncia; […].
2 Art. 24. Compete à Uniã o, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: […]
XII - previdê ncia social, proteçã o e defesa da saú de; […].

3 Art. 30. Compete aos Municípios: […]


II - suplementar a legislaçã o federal e a estadual no que couber; […].

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passo que os Municípios devem apenas executar serviços de vigilância epidemiológica e


sanitária (art. 18, inciso IV, alínea ‘a’, da Lei Federal nº. 8.080/1990), sem prejuízo de
legislarem sobre questões de interesse local (art. 30, I, CF), desde que por óbvio não
importe em coarctar a competência dos demais entes.

Especificamente no tocante ao assunto, no âmbito federal, a Lei


Federal nº 13.979/2020 prevê medidas que poderão ser adotadas pelo Brasil para
enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente
do SARS-CoV-2, tendo como objetivo a proteção de toda a coletividade.

O art. 3º, III, “d”, da Lei mencionada preconiza a possibilidade de


determinação da vacinação compulsória:

Art. 3º Para enfrentamento da emergência de saúde pública de


importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades
poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as
seguintes medidas: (Redação dada pela Lei nº 14.035, de 2020)
(...)
III - determinação de realização compulsória de:
(…)
d) vacinação e outras medidas profiláticas; ou

O parágrafo 4º do art. 3º prevê, ainda, que tais medidas são


obrigatórias, no sentido de que “as pessoas deverão sujeitar-se ao cumprimento das
medidas previstas neste artigo, e o descumprimento delas acarretará responsabilização,
nos termos previstos em lei”.

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Neste contexto, é possível afirmar que a vacinação é um direito


social fundamental que exige esforços por parte do Poder Público, bem como da
sociedade, principalmente diante da crise epidemiológica a qual atravessa o nosso país, em
razão da pandemia ocasionada pela Covid-19.

Em análise à mencionada compulsoriedade, o Supremo Tribunal


Federal, no julgamento da ADI nº 6.586/DF, se manifestou favorável não somente à
vacinação compulsória mas, ainda, à restrição de acesso a determinados lugares às
pessoas que optarem por não se vacinar, desde que presente outras cinco condições, veja-
se:

AÇÕES DIRETAS DE INCONSTITUCIONALIDADE. VACINAÇÃO


COMPULSÓRIA CONTRA A COVID-19 PREVISTA NA LEI 13.979/2020.
PRETENSÃO DE ALCANÇAR A IMUNIDADE DE REBANHO. PROTEÇÃO
DA COLETIVIDADE, EM ESPECIAL DOS MAIS VULNERÁVEIS. DIREITO
SOCIAL À SAÚDE. PROIBIÇÃO DE VACINAÇÃO FORÇADA. EXIGÊNCIA
DE PRÉVIO CONSENTIMENTO INFORMADO DO USUÁRIO.
INTANGIBILIDADE DO CORPO HUMANO. PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO
DA DIGNIDADE HUMANA. INVIOLABILIDADE DO DIREITO À VIDA,
LIBERDADE, SEGURANÇA, PROPRIEDADE, INTIMIDADE E VIDA
PRIVADA. VEDAÇÃO DA TORTURA E DO TRATAMENTO DESUMANO
OU DEGRADANTE. COMPULSORIEDADE DA IMUNIZAÇÃO A SER
ALCANÇADA MEDIANTE RESTRIÇÕES INDIRETAS. NECESSIDADE DE
OBSERVÂNCIA DE EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS E ANÁLISES DE
INFORMAÇÕES ESTRATÉGICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA
SEGURANÇA E EFICÁCIA DAS VACINAS. LIMITES À OBRIGATORIEDADE
DA IMUNIZAÇÃO CONSISTENTES NA ESTRITA OBSERVÂNCIA DOS
DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. COMPETÊNCIA COMUM DA

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UNIÃO, ESTADOS, DISTRITO FEDERAL E MUNICÍPIOS PARA CUIDAR DA


SAÚDE E ASSISTÊNCIA PÚBLICA. ADIS CONHECIDAS E JULGADAS
PARCIALMENTE PROCEDENTES.
I – A vacinação em massa da população constitui medida adotada
pelas autoridades de saúde pública, com caráter preventivo, apta a
reduzir a morbimortalidade de doenças infeciosas transmissíveis e a
provocar imunidade de rebanho, com vistas a proteger toda a
coletividade, em especial os mais vulneráveis.
II – A obrigatoriedade da vacinação a que se refere a legislação
sanitária brasileira não pode contemplar quaisquer medidas
invasivas, aflitivas ou coativas, em decorrência direta do direito à
intangibilidade, inviolabilidade e integridade do corpo humano,
afigurando-se flagrantemente inconstitucional toda determinação
legal, regulamentar ou administrativa no sentido de implementar a
vacinação sem o expresso consentimento informado das pessoas.
III – A previsão de vacinação obrigatória, excluída a imposição de
vacinação forçada, afigura-se legítima, desde que as medidas às
quais se sujeitam os refratários observem os critérios constantes da
própria Lei 13.979/2020, especificamente nos incisos I, II, e III do §
2º do art. 3º, a saber, o direito à informação, à assistência familiar,
ao tratamento gratuito e, ainda, ao “pleno respeito à dignidade,
aos direitos humanos e às liberdades fundamentais das pessoas”,
bem como os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade,
de forma a não ameaçar a integridade física e moral dos
recalcitrantes.
IV – A competência do Ministério da Saúde para coordenar o
Programa Nacional de Imunizações e definir as vacinas integrantes
do calendário nacional de imunização não exclui a dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios para estabelecer medidas

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profiláticas e terapêuticas destinadas a enfrentar a pandemia


decorrente do novo coronavírus, em âmbito regional ou local, no
exercício do poder-dever de “cuidar da saúde e assistência pública”
que lhes é cometido pelo art. 23, II, da Constituição Federal.
V - ADIs conhecidas e julgadas parcialmente procedentes para
conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 3º, III, d, da
Lei 13.979/2020, de maneira a estabelecer que: (A) a vacinação
compulsória não significa vacinação forçada, por exigir sempre o
consentimento do usuário, podendo, contudo, ser implementada
por meio de medidas indiretas, as quais compreendem, dentre
outras, a restrição ao exercício de certas atividades ou à frequência
de determinados lugares, desde que previstas em lei, ou dela
decorrentes, e (i) tenham como base evidências científicas e análises
estratégicas pertinentes, (ii) venham acompanhadas de ampla
informação sobre a eficácia, segurança e contraindicações dos
imunizantes, (iii) respeitem a dignidade humana e os direitos
fundamentais das pessoas; (iv) atendam aos critérios de
razoabilidade e proporcionalidade, e (v) sejam as vacinas distribuídas
universal e gratuitamente; e (B) tais medidas, com as limitações
expostas, podem ser implementadas tanto pela União como pelos
Estados, Distrito Federal e Municípios, respeitadas as respectivas
esferas de competência.
(STF ADI 6586/DF, Relator Ministro Ricardo Lewandowski, DATA DE
PUBLICAÇÃO DJE 07/04/2021 - ATA Nº 55/2021. DJE nº 63, divulgado
em 06/04/2021, grifos nossos, ausentes no original)

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Sendo assim, a vacinação obrigatória – não vacinação forçada –


é levada a efeito a partir de ações e medidas indiretas que não sejam invasivas, aflitivas ou
coativas.

A aplicação de sanções indiretas, que consistem, na maioria


dos casos, em se proibir que a pessoa não vacinada exerça determinadas atividades ou
frequente determinados locais, desde que cumpridos os requisitos fixados pelo STF no
julgado supramencionado, é meio adequado para se fazer cumprir o múnus público de
combate à pandemia do Coronavírus.

Nesse contexto, anda na contramão a Lei Municipal nº 2.683, de


21 de dezembro de 2021, do Município de Alta Floresta-MT, dado que veda ao Poder
Público Municipal a exigência de apresentação de comprovante de imunização para acesso
aos estabelecimentos comerciais ou congêneres, bem como em templos religiosos e igrejas
no Município de Alta Floresta.

Portanto, a Lei nº 2.683/2021, de Alta Floresta-MT, ora


hostilizada, encontra-se eivada de inconstitucionalidade, por violar frontalmente a
autonomia dos entes federados no pacto federativo (art. 18 da Constituição Federal) ao
extrapolar a competência suplementar reconhecida aos Municípios (art. 30, inciso II, da
Constituição Federal) no que diz respeito às medidas de restrição à liberdade, adotadas no
enfrentamento da pandemia decorrente do coronavírus responsável pelo surto da COVID-
19, fustigando os arts. 173, §2º e 193, da Constituição do Estado de Mato Grosso.

Igualmente, a Lei nº 2.683/2021, de Alta Floresta-MT, incorre


em inconstitucionalidade, dado que interfere indevidamente nas atribuições da Secretaria

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Municipal de Saúde, violando o princípio da separação de poderes, ofendendo o art. 190 e


193 da Constituição do Estado de Mato Grosso.

3. DO PEDIDO LIMINAR

Consoante demonstrado, a Lei Municipal nº 2.683, de 21 de


dezembro de 2021, do Município de Alta Floresta-MT, ao vedar ao Poder Público Municipal
a adoção de qualquer exigência de apresentação de comprovante de imunização para
acesso aos estabelecimentos comerciais ou congêneres, bem como em templos religiosos e
igrejas, no âmbito daquela urbe, incorre em patente inconstitucionalidade, visto que
enfraquece os esforços adotados até o presente para o combate ao Coronavírus, afronta o
entendido consolidado pela Suprema Corte Federal e, ao fim e ao cabo, viola a Carta
Estadual, em seus arts. 173, §2º, 190 e 193.

A necessidade de que o E. Tribunal de Justiça aprecie a questão


com a maior brevidade possível, além de salvaguardar a hígida aplicação da Constituição
Estadual, põe a salvo o direito constitucional à saúde e à vida dos cidadãos altaflorestenses
e evita, pelo típico efeito vinculante, a proliferação de outras normas municipais que
ponham em xeque os esforços adotados contra a pandemia.

Desta feita, havendo convergência do pedido com tese fixada


pelo STF, tem-se como presente o requisito da plausibilidade do direito.

O risco da demora apto a demonstrar a necessidade do


deferimento da cautelar, está justamente na livre circulação de pessoas potencialmente

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contaminadas pelo coronavírus em sua variante Ômicron, responsável pela absoluta


escalada na contaminação no país4.

Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Saúde 5 aponta a


piora no quadro da pandemia e, de acordo com informação dada no fim de ontem (quinta-
feira, dia 27), foram confirmados 616.657 casos da Covid-19 em Mato Grosso, sendo
registrados 14.240 óbitos em decorrência do coronavírus no Estado.

Ainda de acordo com o órgão estadual, foram notificadas 6.170


novas confirmações de casos de coronavírus no Estado. Dos 616.657 casos confirmados da
Covid-19 em Mato Grosso, 29.959 estão em isolamento domiciliar e 571.373 estão
recuperados. Entre casos confirmados, suspeitos e descartados para a Covid-19, há 187
internações em UTIs públicas e 206 em enfermarias públicas. Por derradeiro, a Secretaria
Estadual de Saúde aduz que a taxa de ocupação no Estado está em 83,11% para UTIs adulto
e em 43% para enfermaria adulta.

Embora a situação se agrave a cada dia, ainda há tempo de


reordenar os esforços coordenados, que resultou anteriormente na redução significativa
das taxas de ocupação de UTIs no Estado, de forma que é plenamente possível a
mitigação da contaminação desenfreada.

Dessa forma, com vistas às razões retromencionadas, fica


evidente o fumus boni iuris e o periculum in mora, requisitos essenciais para a concessão
de medida cautelar com a suspensão dos efeitos da Lei Municipal nº 2.683/2021 de Alta

4 https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2022/01/27/fim-de-ano-e-portas-abertas-como-a-
omicron-tomou-o-pais-em-tempo-recorde.htm. Acesso dia 28 de janeiro de 2022.
5 http://www.saude.mt.gov.br/noticia/8344. Acesso dia 28 de janeiro de 2022.

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Floresta/MT, até o deslinde deste processo, aplicando-se analogicamente os artigos 10 a 12


da Lei Federal nº 9.868/1999.

4. DOS REQUERIMENTOS

Em face do exposto, requer-se:

a) o recebimento da presente Ação Direta de


Inconstitucionalidade, visto que preenchidos os requisitos dispostos no artigo 3º da Lei nº
9.868/1999;

b) o deferimento da medida liminar, na forma requerida acima;

c) a requisição de informações ao Prefeito do Município de Alta


Floresta/MT e ao Presidente da Câmara Municipal do Município de Alta Floresta/MT, nos
termos do artigo 172, caput, do Regimento Interno do TJ/MT;

d) a notificação do Procurador-Geral do Município de Alta


Floresta/MT, para defesa do texto impugnado, conforme determina o artigo 125, §2º, da
Constituição do Estado de Mato Grosso;

e) a abertura de vista dos autos ao Procurador-Geral de Justiça,


a teor do previsto no artigo 173 do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Estado de
Mato Grosso;

f) a PROCEDÊNCIA do pedido da ação com a declaração de


inconstitucionalidade da Lei Municipal nº 2.683, de 21 de dezembro de 2021, do Município

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de Alta Floresta/MT, eis que, ao vedar ao Poder Público Municipal a adoção de qualquer
exigência de apresentação de comprovante de imunização para acesso aos
estabelecimentos comerciais ou congêneres, bem como em templos religiosos e igrejas, no
âmbito daquela urbe, incorre em patente inconstitucionalidade, visto que enfraquece os
esforços adotados até o presente para o combate ao Coronavírus, afronta o entendido
consolidado pela Suprema Corte Federal e, ao fim e ao cabo, viola a Carta Estadual, em
seus arts. 173, §2º, 190 e 193.

Documentos Anexos:

- Lei Municipal nº 2.683, de 21 de dezembro de 2021, do Município de Alta Floresta/MT

Cuiabá-MT, 03 de fevereiro de 2022.

Assinado de forma digital por


JOSE ANTONIO JOSE ANTONIO BORGES
BORGES PEREIRA:35373652172
Dados: 2022.02.03 17:45:11
PEREIRA:35373652172 -04'00'

JOSÉ ANTÔNIO BORGES PEREIRA


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