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O livro de Cesário Verde, Cânticos do Realismo

A representação da cidade
A cidade surge como um espaço que se opõe ao campo. O espaço urbano é visto como opressivo e destrutivo,
tanto para o sujeito poético como para os populares que para aí se deslocam em busca de melhores condições de
vida. Em contrapartida, o campo é perspetivado como um local de liberdade — sendo que o espaço rural não é
idealizado, mas descrito de forma realista e concreta.

A oposição cidade/campo alarga-se também ao campo amoroso: enquanto a cidade está associada à ausência,
impossibilidade ou perversão do amor, o campo representa a possibilidade de vivência plena dos afetos.

A representação da mulher
As próprias figuras femininas da obra de Cesário se associam a esta dicotomia: o eu poético sente-se atraído por
dois tipos opostos de mulher — a mulher fatal e a mulher frágil. No primeiro caso, temos figuras femininas que se
enquadram perfeitamente no espaço citadino e pertencem a um estrato social superior ao do sujeito poético e
ostentam riqueza e elegância. No segundo caso, temos personagens simples, inocentes, frágeis e desamparadas,
que, pelas suas características, não se enquadram no espaço urbano.

A representação dos tipos sociais


No que diz respeito aos tipos sociais representados na obra de Cesário, temos claramente um sentimento de
empatia do sujeito poético em relação aos elementos das classes mais baixas. Com efeito, é feita uma crítica às
condições degradantes em que os elementos do povo viviam, bem como à exploração a que estavam sujeitos.

A injustiça social denunciada na poesia de Cesário torna-se mais gritante pelo contraste que nela se estabelece
entre o trabalho permanente dos elementos do povo, que é visto como a força ativa da sociedade, e a preguiça que
caracteriza as classes dominantes.

Deambulação e imaginação: o observador acidental


Cesário Verde representa nos seus versos a cidade através do registo de perceções sensoriais: embora
predominem as referências visuais, o eu lírico caracteriza também o espaço urbano pelas constatações que lhe
chegam através do ouvido, do olfato e do tato.

A caracterização da cidade é feita enquanto o eu lírico caminha pelas ruas, anotando em movimento o que vê,
ouve, cheira e sente. O facto de deambular, de se deslocar no espaço, permite-lhe uma perceção dinâmica e um
conhecimento mais completo da realidade urbana, na medida em que passa por vários lugares e encontra
diferentes personagens.

Mas Cesário não se contenta em apresentar a realidade «como ela é», ou seja, de forma objetiva. O sujeito
poético coloca a sua subjetividade nessa descrição e fá-la acompanhar de insinuações apreciativas e de
comentários avaliativos.

Esse olhar subjetivo sobre o real e a cidade concretiza-se em vários casos numa representação imaginativa das
figuras, dos elementos e dos espaços que são descritos.

Por fim, note-se que a imaginação do sujeito lírico é também responsável por trazer para o presente alusões ao
passado da cidade. Tal significa que esta imaginação poética contribui decisivamente para dar significado
(valorização, crítica, sentido, etc.) à realidade que o sujeito poético descreve.

Inês Sofia
Perceção sensorial e transfiguração poética do real
Na poesia de Cesário, há um sujeito poético que se encontra em permanente deambulação e cujo olhar, à
semelhança de uma câmara de filmar, vai captando imagens, como instantâneos cuja rápida sucessão é por vezes
sugerida através do recurso ao assíndeto (recurso expressivo que consiste na omissão do “e”). Assim, a visão
desempenha um papel fundamental nestes poemas.

No entanto, o sujeito poético não se limita a descrever objetivamente a realidade que observa nas suas
deambulações. Ele ao observar é transportado para outras realidades/momentos, a isso chamamos de
transfiguração.

O imaginário épico (em «o sentimento dum ocidental»)


«O sentimento dum ocidental» é um poema longo que se centra na experiência de vida em Lisboa na segunda
metade do século XIX, como cidade ocidental moderna.

Quanto à estrutura externa, o poema encontra-se organizado em quatro partes, cada qual com onze quadras.
Na edição de O livro de Cesário Verde, as quatro partes receberam os títulos: «Ave-Marias» (seis da tarde), «Noite
fechada», «Ao gás» e «Horas mortas».

Em termos de estrutura interna, assistimos ao percurso de um sujeito poético que percorre Lisboa à medida que
as horas passam e a noite vai passando. As quatro partes correspondem, pois, a fases do fim do dia: fim da tarde,
chegada da noite, noite instalada e iluminada pelos candeeiros a gás e a noite cerrada das «Horas mortas».

«O sentimento dum ocidental» é predominantemente um poema lírico, na medida em que representa a


vivência de um eu (poético) numa cidade moderna do mundo ocidental. Trata-se de um poema com um forte
pendor narrativo, como sucede numa epopeia: o eu poético relata o seu percurso pela cidade. Mais ainda, esse
sujeito podia estar a celebrar Lisboa e a vida dos seus habitantes; mas, na verdade, está a criticá-la: a cidade é um
lugar decadente, sem brilho nem valor.

Há, contudo, uma dimensão épica no poema; mas essa não pertence ao presente. O Tejo, a estátua de Camões
e alguns outros elementos remetem para um passado em que Portugal conheceu a grandeza e a glória. As alusões
aos Descobrimentos e ao Império Marítimo são, assim, um esboço de uma epopeia do passado, que o presente
torna amarga porque já não é essa a realidade moderna.

Como sucederia com Camões, se tivesse vivido no fim do século XIX, o sujeito poético perdeu o motivo para
celebrar a pátria decadente e a cidade sem brilho.

Por fim, também as personagens que povoam a cidade moderna não são já os heróis militares, cívicos, políticos
e artísticos de outrora. São agora personagens decadentes como burgueses, dentistas ou gente que trabalha
mecanicamente, que não trazem estatuto épico à cidade.

O estilo de Cesário é vulgar e de tom coloquial, o que o situa longe do estilo elevado, retórico e grandiloquente
das epopeias. O próprio vocabulário do quotidiano da cidade («varinas», «boqueirões», «becos») em nada se
confunde com o léxico rico de um poema épico.

Inês Sofia
Linguagem, estilo e estrutura
1. Estrutura
Em termos de estrutura estrófica, Cesário recorre frequentemente à quadra, sejam os poemas longos («O
sentimento de um ocidental», «Nós») ou curtos («Sardenta»). Mas o poeta revela também o seu gosto pela
quintilha (estrofe de cinco versos), com que compõe «Cristalizações» ou «Num bairro moderno».

Quanto à métrica, a preferência de Cesário incide nos versos de doze sílabas métricas e nos decassílabos são
versos mais extensos e permitem ao poeta, de forma mais folgada e distendida, descrever a cidade e refletir sobre
as perceções que dela tem.

As composições poéticas de Cesário recorrem sempre à rima como forma de as organizar formalmente e de lhes
incutir musicalidade. Nos poemas constituídos por quadras, encontramos rima cruzada (abab) ou interpolada e
emparelhada (abba). As quintilhas estruturam-se geralmente num tradicional e ritmado abaab.

2. Linguagem e estilo
Cesário Verde inovou a literatura portuguesa, em fins do século XIX, ao trazer para o domínio da poesia uma
nova linguagem, menos retórica e menos elevada.

Ao representar a realidade moderna naquele tempo, Cesário socorre-se de vocábulos e expressões da vivência
citadina, sobretudo a que se associa ao povo.

A lírica de Cesário Verde aproxima-se da prosa não apenas pelo seu tom coloquial, mas também pelo uso do
verso longo — como o decassílabo e o alexandrino e do encavalgamento.

Recursos expressivos utilizados:


 Comparação e metáfora – propor semelhanças entre aspetos da cidade e os seus habitantes ou outros
elementos que dão sentido ou criticam. Algumas metáforas têm uma natureza fortemente visual,
decorrente do carácter descritivo desta poesia e de ela ter pontos de contacto com a pintura.
 Enumeração – associa-se ao carácter descritivo de alguns poemas de Cesário Verde. Nestas composições,
o poeta lista elementos do real para depois os analisar ou criticar.
 Sinestesia – resulta do processo de captação de sensações para a caracterização da vivência de um lugar.
 Hipérbole – representar de forma expressiva e gritante alguns aspetos da cidade.

Uso expressivo do adjetivo e do advérbio


É de forma surpreendente e original que Cesário utiliza os adjetivos, sobretudo quando surgem antes de nomes
pois estes adquirem um significado que vai para além do seu sentido literal.

É de forma muito ponderada que Cesário seleciona os adjetivos e os advérbios que utiliza, pois eles aplicam no
poema técnicas da pintura impressionista. A aproximação entre a poesia e a pintura afirma-se também pelo facto
de Cesário explorar uma linguagem plástica, com um forte apelo visual, e cultivar o recurso expressivo da imagem
com um acentuado valor simbólico.

Inês Sofia

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