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Desenhista, pintor, gravurista, ceramista e escultor.

Um dos maiores

mestres da arte brasileira. Uma vida dedicada ao amor e à solidariedade.

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90 YEARS OF ABELARDO DA HORA: LIFE AND ART

11 de agosto a 27 de setembro de 2015

Curadoria
Renato Magalhães Gouveia

CAIXA Cultural Recife

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A CAIXA é uma empresa pública brasileira que prima pelo respeito à diversidade, e mantém comi-
tês internos atuantes para promover entre os seus empregados campanhas, programas e ações
voltados para disseminar ideias, conhecimentos e atitudes de respeito e tolerância à diversidade de
gênero, raça, orientação sexual e todas as demais diferenças que caracterizam a sociedade.

A CAIXA também é uma das principais patrocinadoras da cultura brasileira, e destina, anualmente,
mais de R$ 60 milhões de seu orçamento para patrocínio a projetos culturais em espaços próprios e
espaços de terceiros, com mais ênfase para exposições de artes visuais, peças de teatro, espetácu-
los de dança, shows musicais, festivais de teatro e dança em todo o território nacional, e artesanato
brasileiro.

Os projetos patrocinados são selecionados via edital público, uma opção da CAIXA para tornar mais
democrática e acessível a participação de produtores e artistas de todas as unidades da federação,
e mais transparente para a sociedade o investimento dos recursos da empresa em patrocínio.

A exposição “Abelardo da Hora 90 anos: vida e arte” celebra a trajetória do renomado escultor
pernambucano, considerado pela crítica especializada o maior escultor expressionista do Brasil.
Trata-se da primeira retrospectiva após seu falecimento ocorrido em setembro de 2014, que apre-
senta ao público esculturas, esboços, estudos, pinturas e maquetes, dispondo de maneira didática
seu processo criativo e convidando o espectador a entender as motivações do artista de vanguarda,
educador e militante.

Desta maneira, a CAIXA contribui para promover e difundir a cultura nacional e retribui à socieda-
de brasileira a confiança e o apoio recebidos ao longo de seus 154 anos de atuação no país, e de
efetiva parceira no desenvolvimento das nossas cidades. Para a CAIXA, a vida pede mais que um
banco. Pede investimento e participação efetiva no presente, compromisso com o futuro do país, e
criatividade para conquistar os melhores resultados para o povo brasileiro.
Caixa Econômica Federal

Caixa Econômica Federal

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CAIXA is a Brazilian state-owned company that stands out in its respect to diversity, keeping
internal committees with employees and carrying out campaigns, programs and actions aimed at
disseminating ideas, information and a respectful and tolerant attitude towards diversity of gen-
der, race and color, sexual orientation, and all the other differences embedded in a plural society.

CAIXA is also one of the main sponsors of Brazilian arts and culture, and invests over 60 million
reais annually in cultural projects, presented either in its own venues or elsewhere, with an em-
phasis on exhibitions of visual arts and Brazilian handicraft, theater plays, musical concerts, as
well as theater and dance festivals all over the country.

Projects are selected on a competitive and public process, an option CAIXA has made not only
to democratize access by producers and artists from the whole country, but also to give transpar-
ency to the use of the company’s funds.

The exhibition “90 years of Abelardo da Hora: Life and Art” celebrates the career of renowned
artist from Pernambuco, considered by critics the greatest expressionist sculptor of Brazil. This is
the first retrospective after his death occurred in September 2014, presenting to the public sculp-
tures, sketches, studies, paintings and models, offering in a didactic way his creative process
and inviting the viewer to understand the avant-garde artist’s motivation, educator and militant.

With this project, CAIXA contributes to promote and disseminate Brazilian culture as means of
retribution to Brazilian society for the trust and support granted to CAIXA over its 153 year long
history of presence in the country and effective partnership in the development of our cities. For
CAIXA, life asks for more than just a bank: it asks for investment and participation in the present,
commitment to the future of the country, and creativity to achieve the best results for Brazilian
people.

Caixa Econômica Federal

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A exposição das obras do artista Abelardo da Hora oferece ao visitan- direção ao objetivo. E alcança de tal maneira que, ao findar, até ele se
te a oportunidade de sentir a força que provem de uma Obra de Arte sente agradecido e feliz.
em toda sua grandiosidade. Nela não se encontrará sequer o sinal do
progresso utilíssimo da tecnologia que tanto bem vem fazendo à huma- Nesta exposição se procurou mostrar poucas peças dentre as cente-
nidade, muito embora a rapidez com que se desenvolve chega a anes- nas que já produziu. Realçou os caminhos que percorreu, interessou
tesiar os malefícios que junto, por ventura, possam estar nos trazendo. fazer com que o público se dê conta de que, ao ver uma escultura de
bronze ou cimento, há um longo percurso que foi trilhado. Na vida, para
A Arte que, em boa hora, a Caixa Econômica Federal hoje está apre- que permaneça, nada se faz num piscar de olhos. É preciso ser como
sentando, coloca o espectador diante de uma realidade que já comple- Abelardo, ter objetivo sempre, lutar por ele que a Obra surgirá.
tou 5.000 anos de existência.
Que esta exposição tenha além da visão das peças, o mérito de buscar
A obra de Abelardo é por demais conhecida neste e em muitos países. um sentido educativo: apresentar a obra de Arte e o caminho para se
É forte e, ao mesmo tempo, carregada de uma delicadeza indescrití- chegar lá.
vel. Basta ver “A Fome e o Brado” e “Os Meninos do Recife”, fazendo
par com a sensibilidade das linhas da “Copacabana”. Os primeiros são Reafirma-se, antes de tudo, o grande educador que Abelardo foi, con-
uma denúncia do mundo absurdo em que vivemos e não só o de hoje. forme atestam seus acompanhantes.
No entanto, a figura alongada, pele acetinada da “Copacabana” ou os
desenhos com a alegria dos “Hora de Brincar” nos remetem à linda Agradecimento à Diretoria da Caixa Econômica Federal que está mos-
visão do futuro que todos almejamos. trando ao público a Obra de Arte e, oportunamente, acrescentando a
preocupação com a visão educadora que tanto nos tem faltado.
O íntimo da obra do artista aqui se revela não apenas nesses exemplos
contraditórios apresentados. Esta exposição quer contá-lo como perso-
nagem completo: educador por excelência, desenhista, pintor, grava- Renato Magalhães Gouveia
dor. Na escultura segue o mesmo trajeto e ainda vai ao barro, reproduz São Paulo, 5 de fevereiro de 2015.
no gesso, faz com suas próprias mãos as fôrmas, atinge ao destino
multidimensional, desenforma, chega até o bronze, corrige imperfei-
ções da fundição, prepara as pátinas negras, douradas, esverdeadas e
a obra de Arte se faz viva.

Quantas lições se tiram disso... Trabalha só, incansavelmente, mais


de oitenta anos de vida sem interrupção, caminha em linha reta em

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The exhibition of pieces from the artist Abelardo da Hora offers the visi- This exhibition aimed to show few pieces among hundreds he pro-
tors an opportunity to feel the strenght coming from a Work of Art in all duced. It highlighted the paths he went to, and wanted to get the audi-
its grandiosity. In it you will not find any signs of the very useful tech- ence to realize that by seeing a brass or cement sculpture, a long way
nological progress, that is so good to humanity, though the swiftness was traveled. For something to remain in life, it cannot be done in a
in which it develops is able to anesthetize the harms that might come flash. One has got to be like Abelardo, to always have a goal, fight for it
along with it. and the Work will come.

The Art that, in good time, Caixa Econômica Federal presents today May this exhibition have, besides the viewing of the pieces, the merit of
puts the spectators before a reality of 5000 years of existence. pursuing an educational sense: introduce the work of Art and the path
to get there.
Abelardo’s work is well known here and in many other countries. It is
strong and, at the same time, filled with indescribable delicacy. Just see It reaffirms, first and foremost, the great educator Abelardo was, as at-
“A Fome e o Brado” and “Os Meninos do Recife”, matching the sensitiv- tested by his followers.
ity of the lines of “Copacabana”. The first are a denunciation of the ab-
surd world we live in and not only today’s world. However, the elongated Our thanks to the Board of Caixa Econômica Federal that is showing
figure with satin skin of “Copacabana” or the joyful sketches of “Hora de the Work of Art to the public and has timely added the concern of an
Brincar” (Playtime) refer to the beautiful vision of future we all wish for. educational view, something we miss dearly.

The intimate part of the artist’s work is revealed here not only in these
contradictory examples. This exhibition aims to depict him as a full char- Renato Magalhães Gouveia
acter: educator by excellence, designer, painter, engraver. In sculpture São Paulo, February 5th, 2015.
he follows the same path and also uses clay, reproduces on plaster,
makes the molds with his own hands, reaches the multidimensional
destination, unmmolds, gets to brass, corrects imperfections in casting,
prepares the black, golden, greeny patinas and the work of Art is then
alive.

So many lessons we can learn out of all this... He works alone, rest-
lessly, over eighty years of life without interruptions; he walks a straight
line towards his goal and reaches it in a way that in the end, makes him
feel thankful and happy.

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Faço a minha arte respondendo a uma necessidade vital. Como
quem ama ou sofre, se alegra ou se revolta, aprova ou denun-
cia e verbera. Fruto das coisas que a vida ensina. Reflexo da
convivência social e fixação de elementos sedimentados pela
cultura da humanidade no seu itinerário histórico-social. Tenho
compromissos fundamentais com a cultura brasileira e com o
povo da minha terra.

A minha arte é feita dos meus sentimentos e de meus pensa-


mentos: nunca os separo. A marca mais forte do meu trabalho
tem sido, entretanto, o sofrimento e a solidariedade. A tônica é
o amor: o amor pela vida, que se manifesta também pela repul-
sa violenta contra a fome e a miséria, contra todos os tipos de
brutalidades, contra a opressão e a exploração. Arte pela vida
em favor da vida. Às vezes grito violentamente nos ouvidos dos
brutos e dos antropoides monstruosos que forjam as guerras
e as discriminações. Mas às vezes canto: as vitórias da minha
gente, o amor da minha gente, as belezas da vida.

Não faço arte para os colegas verem nem para os críticos. Faço
arte para mim e para a minha gente. Acho que o grande apelo
atual da humanidade é a paz, o entendimento, a solidariedade
e o amor, enfim. Pretendo que a minha arte seja mais uma voz
a reforçar esse apelo.

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I do my art in response to a vital need. Like someone who loves
or suffers, gets happy or rebels, approves or denounces and
punishes. It is the result of the things life teaches us. A mirror of
the social consciousness and the fixation of elements sedimented
by the culture of mankind in its social-historical itinerary. I have
essential commitments to the Brazilian culture and the people
from my homeland.

My art is made of my feelings and my thoughts: I never tear


them apart. The strongest feature of my work has been,
however, the suffering and solidarity. Love is the core: love for
life, also expressed by the violent repulse against hunger and
misery, against all sorts of brutalities, against oppression and
exploitation. Art for life in favor of life. Sometimes I yell violently
in the ears of the brute and of the monstrous anthropoids that
forge wars and discriminations. Nevertheless, sometimes I sing:
I sing the victories of my people, the love of my people, the
beauties of life.

I don’t do art for my peers to see nor for the critics. I do art for
myself and for my people. I think the great current appeal of
mankind is peace, understanding, solidarity and finally, love. I
intend my art to be one more voice strengthening this appeal.

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O menino Abelardo
Era 31 de julho de 1924 quando a Vida resolveu expor uma das suas
obras mais inquietas: Abelardo Germano da Hora, quarto entre os sete
filhos do casal Severina e José Germano da Hora.

Nascido na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata, zona canaviei-


ra de Pernambuco, Abelardo mudou-se para o Recife ainda criança,
quando seu pai foi trabalhar como chefe de tráfego na Usina São João
da Várzea, de propriedade de Ricardo Brennand, um industrial que viria
a ser de grande importância para sua carreira profissional.

Após o curso primário, Abelardo pensou em estudar Mecânica na Es-


cola Industrial (hoje Etepam - Escola Técnica Estadual Professor Aga-
menon Magalhães), mas como não havia vagas, terminou inscrito em
Artes Decorativas, juntamente com o irmão Luciano. Logo no primeiro Escola de Belas Artes
ano, destacou-se ao ponto de chamar a atenção do famoso professor
Álvaro Amorim, que bradou ao colega Edson de Figueiredo: “venha Aos quinze anos, formado em Artes Decorativas, Abelardo matriculou-
ver um verdadeiro escultor”. -se no curso de Escultura da Escola de Belas Artes, ministrado pelo
professor português Casimiro Correia, que o convidou a trabalhar em
Este episódio foi o seu passaporte para uma bolsa de estudos na Es- sua empresa de estuques, especializada em forros para tetos, onde
cola de Belas Artes. executou inúmeras peças de adereços e ornamentos para igrejas e edi-
fícios particulares da cidade.

Foi também aluno de Fédora do Rego Monteiro, Antonio Baltar e Mu-


rillo La Greca, a todos surpreendendo pela precocidade e desenvoltura.
Um ano antes de ser formar, Abelardo foi eleito presidente do Diretório
Estudantil, onde desenvolveu o gosto pela política, o que o fez pensar
que um artista não podia deixar de refletir sobre a realidade à sua volta.

Sendo assim, pleiteou junto à direção uma nova forma de estudar De-
senho e Pintura, através de excursões a diferentes pontos da cidade,
para que os alunos pudessem estabelecer contato com novas figuras,
lugares e paisagens. Vamos acabar com esse negócio de ficar só
desenhando e pintando dentro da escola e vamos desenhar e pin-
tar a vida lá fora – bradava Abelardo.

Uma de suas últimas excursões foi à Usina São João da Várzea, do


doutor Ricardo Brennand. Um passeio que mudaria a sua vida.

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Usina São João da Várzea
Na Usina São João da Várzea, antigo local de trabalho de seu pai,
um grupo de estudantes desenhava às margens do açude, quando um
Buick preto estacionou. De dentro dele saiu doutor Ricardo Brennand,
curioso com toda aquela movimentação.

Apresentando-se como estudante e presidente do Diretório Estudantil


da Escola de Belas Artes, Abelardo cumprimentou o empresário, que
achou o seu sobrenome familiar. Ao ouvir o nome de José Germano,
Ricardo Brennand, além de reconhecer o ex-funcionário, viu também
que aquele rapazote tinha algo de especial, ao ponto de prometer cons-
truir uma oficina de cerâmica artística para Abelardo desenvolver jarros
e pratos decorativos. Novas andanças
Em janeiro de 1942, três meses depois do encontro, o motorista de Após quatro anos com os Brennand, no início de 1946, foi para o Rio
Ricardo Brennand foi à sua residência avisar que “a oficina de Abe- de Janeiro, onde trabalhou em uma fábrica de manequins de lojas. Du-
lardo estava pronta”. Seu José Germano foi informado que seu filho, rante o período, usava a garagem de Abelardo Rodrigues para produzir
a partir daquele momento, passaria a morar na Usina, dividindo um dos a obra que intencionava inscrever no Salão Nacional de Belas Artes: a
quartos da Casa Grande, com três dos quatro filhos de Ricardo: Cor- peça A Família representava a saudade dos familiares que ficaram em
nélio, Jorge e Francisco – este último, influenciado pelo novo hóspede, Pernambuco.
viria a se tornar um artista renomado.
Infortunadamente, o Salão, que acontecia desde o Império, foi sus-
penso por ordem do presidente Eurico Gaspar Dutra. Críticos de arte
e jornalistas, com quem Abelardo se encontrava no Vermelhinho, bar
vizinho ao Museu Nacional de Belas Artes, começaram a esbravejar
contra o governo, que estava dando as costas para um importante pro-
grama cultural.

Aquilo ficou marcado na cabeça de Abelardo e o cancelamento do


evento fez com que decidisse voltar ao Recife. O seu descontentamen-
to ficou registrado na primeira página do Jornal do Brasil: Escultor de
Pernambuco volta decepcionado com a não realização do Salão
Nacional de Belas Artes.

Com um novo ânimo, o retorno ao Recife trouxe uma firme decisão:


organizar os artistas locais para cumprir o livre exercício da arte.

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Primeira exposição
Três meses após o seu retorno ao Recife, em janeiro de 1947, Abelar-
do já se articulava com o meio intelectual, engajava-se em ações do
Partido Comunista Brasileiro (PCB) e começava a preparar as escultu-
ras expressionistas da sua primeira exposição individual, entre elas A
Fome e o Brado, na qual mãe e filhos miseráveis agonizam, enquanto
uma mão erguida clama por mudança.

A exposição aconteceu em abril de 1948, na Associação dos Empre-


gados do Comércio de Pernambuco, localizada no centro do Recife.
O local transformou-se em ponto de encontro de poetas, escritores,
jornalistas, professores etc., tamanha a repercussão política do evento,
trazendo a Abelardo o reconhecimento como artista e comunista.
Abelardo, o mestre
E foi na sua primeira exposição que Abelardo conheceu Margarida, Em 1952, já pai de três meninas, Abelardo concebe o Atelier Coleti-
uma jovem estudante de Direito. Seu sincero interesse pelas obras fez vo com o propósito de promover cursos livres de desenho, música e
com que o artista lançasse mão de um convite: Aqui era para ter mais teatro, que rompiam com os padrões acadêmicos vigentes na Escola
um trabalho meu, mas eu ainda estou terminando. Você quer ir lá de Belas Artes. O Atelier transformou-se em um formador de vários ar-
na minha casa? É aqui pertinho. tistas da época, consolidando Abelardo como Mestre de uma geração
e influenciando nomes como Gilvan Samico, José Cláudio, Wellington
Margarida foi e deixou dona Severina ansiando por uma nora tão en- Virgolino e Aluísio Magalhães, entre outros.
cantadora. Seis meses depois os dois estavam casados e viveram jun-
tos por 62 anos, até a morte de Margarida em 17 de novembro de 2010. Em uma sala emprestada do Liceu de Artes e Ofício, Abelardo ensina-
va de graça e sonhava em formar desenhistas, pintores e escultores
com consciência política, propagadores de uma arte com raízes brasi-
leiras. Como ele mesmo dizia: Na luta de trabalho constante no seio
do povo, a gente aprende e a gente transmite.

Muitas foram as casas do Atelier, até que em 1954 Abelardo mudou-


-se para a Rua do Sossego, 307, tornando o local sua residência e
oficina-escola. Este mesmo endereço, em 2004, daria espaço ao Ins-
tituto Abelardo da Hora, OSCIP credenciada pelo Ministério da Justiça
e Ministério da Cultura, com o objetivo de preservar e disponibilizar ao
público a obra do artista, promovendo a cultura em todas as camadas
sociais – bandeira que levantou durante toda a sua vida.

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Movimento de Cultura Popular
A década de 60, apesar das adversidades, trouxe também o Movimen-
to de Cultura Popular, que Abelardo, agora pai de sete filhos (cinco
meninas e dois meninos), ajudou a criar quando era chefe da Divisão
de Parques e Jardins e da Guarda Municipal, na primeira gestão de MENINOS DO RECIFE
Miguel Arraes na Prefeitura do Recife.

São habitantes anônimos


Com suas novas atribuições, as atividades do Atelier Coletivo foram
Dessa cidade alagada,
transferidas para o MCP, que tinha como proposta “ampliar a politiza-
ção das massas, despertando-as para a luta social”, o que ia de encon- De limo e pedra formada
tro ao sonho de Abelardo de alcançar um maior número de pessoas Sob marés
com o seu trabalho de educador de arte, tendo sempre como fim o Submersa.
bem-estar social.
Em lodo, em lama inconsistente,
Abelardo fazia parte do conselho da direção, junto com o maestro Ge-
Consubstanciada.
raldo Menucci e o teatrólogo Luiz Mendonça. Eles representavam a
área de formação cultural. O trabalho de alfabetização de crianças e Vasto poço de afogados,
adultos tinha à frente o jovem educador Paulo Freire, um dos idealiza- Habitação de mitos e de fantasmas.
dores do MCP. Imenso pasto de pestes.
Cidade desabrigada.
Em 1962, no auge do MCP, que contava ainda com intelectuais e artis- Habitantes desse pântano,
tas como Francisco Brennand, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho,
Sem escrituras, sem títulos.
José Cláudio e Aloísio Falcão, Abelardo criaria “Meninos do Recife”,
Submetidos ao ócio
uma série de 22 desenhos a bico de pena, que retratava a situação de
miséria das crianças de rua, eternizadas em um poema escrito por ele, que gera a fome e o vício
poeta bissexto: E um calendário implacável
De misérias e imprevistos.

São apenas habitantes


Dessa cidade alagada,
Atirados sobre a lama,
Sob as marés da desgraça.

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A volta e a despedida
Com o Golpe de 1964, Abelardo é afastado da Prefeitura e detido mais
uma vez - foram mais de 70 prisões políticas ao longo da vida. Só não
foi morto porque era cunhado de Augusto Lucena, que tinha sido eleito
vice-prefeito do Recife, na chapa de Pelópidas Silveira e, com a cassa-
ção do titular, assumido a Prefeitura.

Depois disso, a situação de Abelardo no Recife ficou insustentável. A


falta de condições de trabalho fez com que fosse morar em São Pau-
lo - lá atuou como cenógrafo da TV Tupi, indicado pela amiga Lina Bo
Bardi, casada com Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São
Paulo (MASP).

Em 1968, de volta ao Recife e aos braços de sua Margarida e dos


filhos, começa a trabalhar na empresa de pesca do irmão Luciano. Os
anos foram passando e, aos poucos, Abelardo retoma as suas ativida-
des no ateliê e conclui o curso de Direito na Faculdade de Olinda – ele
nunca exerceu a profissão de advogado. Ao retornar ao circuito de ex-
posições, espalha a beleza de sua arte em diversas cidades brasileiras
e no mundo.

Em plena atividade artística e ainda comemorando os seus 90 anos,


Abelardo da Hora é internado em agosto de 2014, com um quadro
grave de pneumonia, vindo a falecer na manhã de 23 de setembro.
Abelardo deixa um acervo demais de 1.800 obras, entre esculturas,
tapeçarias, cerâmicas e desenhos, e um conselho a todo jovem artista:
Faça da sua arte um meio de vida fundamental. Como a alimenta-
ção. Ele tem que fazer arte constantemente. Não pode parar, é feito
bicicleta, se parar, cai.

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Abelardo, the boy Therefore, he requested that the Board allowed for a new way of study-
ing Design and Painting, with tours to different areas of the city, so that
On July 31st, 1924 Life decided to show one of its most restless works: students could be in contact with new figures, places and landscapes.
Abelardo Germano da Hora, the fourth of seven children of Severina Let’s put an end to sketching and painting only inside the School
and José Germano da Hora. and let’s sketch and paint life outdoors - exclaimed Abelardo.

Abelardo was born at Tiúma Mill, in São Lourenço da Mata, a sugar- In one of his last tours, they visited São João da Várzea Mill. It belonged
cane-growing region in the state of Pernambuco and then, in his child- to Doctor Ricardo Brennand. That tour would change his life.
hood, he moved to Recife while his father worked as a head of traffic at
São João da Várzea Mill, whose owner Ricardo Brennand, a manufac-
turer, would be very important for his professional career. São João da Várzea Mill

After middle school, Abelardo considered studying Mechanics at Escola At São João da Várzea Mill, the place where his father used to work, a
Industrial (currently called Etepam - Technical State School Professor group of students was sketching by the dam, when a black Buik parked
Agamenon Magalhães), but as there were no vacancies, he ended up there. From inside, Doctor Ricardo Brennand came out curious about
enrolled in Decorative Arts, along with his brother Luciano. Right in the all that stir.
first year, he stood out so much to the point that he caught the attention
of famous professor Álvaro Amorim, who exclaimed to his colleague Introducing himself as a student and president of the Students’ Union of
Edson de Figueiredo: “come and see a true sculptor” Escola de Belas Artes, Abelardo greeted the entrepreneur, who found
his last name somewhat familiar. When he heard the name of José Ger-
This episode was his passport to a scholarship at Escola de Belas Artes mano, Ricardo Brennand recalled his former employee. He also noticed
(Fine Arts School). something special about that lad, to the point of promising to build a
workshop of decorative pottery so that Abelardo could create jugs and
decorative dishes.
Escola de Belas Artes
In January 1942, three months after they met, Ricardo Brennand’s driv-
At the age of fifteen, with a degree in Decorative Arts, Abelardo enrolled er went to his house to tell him “Abelardo’s workshop was ready”.
in the Sculpture course of Escola de Belas Artes, taught by the Portu- Mr. José Germano was informed that from that moment on his son was
guese professor Casimiro Correia. Mr. Correia invited him to work in going to live in the Mill, sharing one of bedrooms of the Main House with
his stucco company, specialized in lining for ceilings, where he made three of the four children of Ricardo: Cornélio, Jorge and Francisco - the
countless finery and ornament for churches and private buildings in the latter, influenced by the new guest, would become a renowned artist.
city.

He was also a student of Fédora do Rego Monteiro, Antonio Baltar and New horizons
Murilo La Greca, surprising them all with his precocity and resourceful-
ness. One year before getting his degree, Abelardo was elected presi- After four years living with the Brennands, in the beginning of 1946, he
dent of the Students’ Union, where he developed his appreciation for went to Rio de Janeiro, where he worked at a factory of shop manne-
politics and made him think that artists could not escape reflecting upon quins. During this time, he used Abelardo Rodrigues’ garage to produce
the reality that surrounds them the work he intended to submit at Salão Nacional de Belas Artes (Fine

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Arts National Exhibition): the piece called A Família (The Family) repre- And so Margarida went and caused dona Severina to long for such a
sented the longing feeling from his family in Pernambuco. lovely daughter-in-law. Six months later they were married and lived
togheter for 62 years, until Margarida’s death on November 17th, 2010.
Unfortunately, the Exhibition, that had occurred since the Empire years,
was suspended by order of President Eurico Gaspar Dutra. Art critics
and journalists who Abelardo used to meet at Vermelhinho, a bar next to
Abelardo, the master
Museu Nacional de Belas Artes (National Museum of Fine Arts), started
In 1952, Abelardo, then father of three girls, creates the Atelier Coletivo
to vociferate against the government for it was turning its back to such
(Collective Studio) in order to promote free courses of sketching, music
an important cultural program.
and drama, that broke with the current academic standards from Es-
cola de Belas Artes. The Atelier became a place were many artists from
That really affected Abelardo and the cancellation of the event made
that time studied, consolidating Abelardo as Master of a generation and
him return to Recife. The front page of Jornal do Brasil newspaper reg-
influencing names such as Gilvan Samico, José Cláudio, Wellington
istered his dissatisfaction: Pernambuco sculptor to return home dis-
Virgolino and Aluísio Magalhães, among others.
appointed with the cancellation of Salão Nacional de Belas Artes.

In a borrowed room from the Liceu de Artes e Ofício (School of Arts and
With renewed cheer, his return to Recife also brought a firm decision:
Craft), Abelardo used to teach for free and dreamed of educating de-
organize local artists for the free exercise of art.
signers, painters and sculptors with political awareness, disseminators
of art with Brazilian roots. As he used to say: In the constant struggle
of work in the middle of the people, we learn and we transmit.
First exhibition
Three months after returning to Recife, in January 1947, Abelardo was The Atelier had many different addresses, until Aberlardo moved to Rua
already in touch with the intellectual milieu. He engaged into actions of do Sossego, 307, in 1954, and made it his home and studio-school.
the Brazilian Communist Party (PCB) and prepared expressionist sculp- This very address, in 2004, would host Instituto Abelardo da Hora (Ab-
tures for his first individual exhibition, among them A Fome e o Brado elardo da Hora Institute), an OSCIP (Public Interest Non-Governmental
(The Hunger and the Cry), in which a mother and her miserable children Organization) accredited by the Ministry of Justice and the Ministry of
agonize, while a raised hand cries for changes. Culture, aiming to preserve the artist’s work and make it available to the
public, promoting culture in all social levels - something he advocate for
The exhibition took place at Associação dos Empregados do Comércio
de Pernambuco (Association of Commercial Employees of Pernambu- Popular culture movement
co), located downtown Recife, in April 1948. The place became a meet-
ing point for poets, writers, journalists, professors etc. given the political Despite its adversities, the 60’s also brought the Movimento de Cultura
repercussion of the event, which resulted in Abelardo’s recognition as Popular - MCP (Popular Culture Movement), that Abelardo, now father
an artist and a communist. of seven children (five girls and two boys), helped create when he was
Head of Parks and Gardens Division and of the City Guard, in the first
Moreover, it was during his first exhibition that he met Margarida, a administration of Miguel Arraes as mayor of Recife.
young Law student. Her honest interest for his pieces of work made
him invite her: “I was supposed to have another piece here, but I Because of his new attributions, the activities of Atelier Coletivo were
am still finishing it. Would like to go to my house? It’s near here.” transfered to MCP, that proposed to “broaden the politization of the

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masses, awakening them for the social struggle”, something that match- And a ruthless calendar
es Abelardo’s dream of reaching a greater amount of people with his Of miseries and unforeseen events.
work as art educator, aiming social welfare.
They are just inhabitants
Abelardo was part of the Board of Directors, along with conductor Ger- Of this flooded city,
aldo Menucci and playwright Luiz Mendonça. They represented the Shoved against the mud,
area of cultural education. The young educator Paulo Freire, one of the Under the tides of misfortune.
creators of MCP, led the work related to literacy of children and adults.

In 1962, in the peak of MCP, which also counted with intellectuals and The return and the farewell
artists such as Francisco Brennand, Ariano Suassuna, Hermilo Borba
Filho, José Cláudio and Aloísio Falcão, Abelardo created “Meninos do With the Coup of 1964, Abelardo is dismissed from the City Hall and
Recife” (“Boys of Recife”), a series of 22 sketches made with pen and is arrested once again - he was arrested for political reasons over 70
ink. They portrayed the miserable situation of homeless kids, eternal- times throughout his life. They did not kill him just because he was the
ized for him in a poem that he, an occasional poet, wrote: brother-in-law of Augusto Lucena, who had been elected vice-mayor of
Recife, in the list of Pelópidas Silveira and who, with the impeachment
of the main candidate, was sworn in as mayor.
BOYS OF RECIFE
Later, Abelardo’s situation in Recife became untanable. The lack of
Anonymous inhabitants working conditions made him go to São Paulo to live - there he worked
Of this flooded city, as set designer at TV Tupi, thanks to a reccomendation of his friend
Made of slime and stone Lina Bo Bardi, who was married to Pietro Maria Bardi, director of MASP
Under tides (São Paulo Museum of Art).
Submerged.
In 1968, back to Recife and in the arms of his Margarida and children,
In sludge, in inconsistent he begins to work at his brother’s fishing company. The years went
mud, by and, little by little, Abelardo resumes his activities at the studio and
finishes his Law studies at Faculdade de Olinda (Olinda College) - he
Embodied. never worked as a lawyer. Back to the exhibition circuit, he spreads the
Vast well of drowned ones, beauty of his art in many different cities in Brazil and abroad.
Dwelling of myths and ghosts.
While still working full time as an artist and also still celebrating his 90th
Immense pasture of plagues. birthday, Abelardo da Hora is hospitalized in August 2014, with severe
Homeless city. pneumonia. He died in the morning of September 23rd. Abelardo left a
Inhabitants of this swamp, collection of over 1800 pieces of work, including sculptures, tapestry,
With no deeds, with no titles. pottery and sketches, and a piece of advice to every young artist: Turn
your art into an essencial livelihood. Just like nutrition. He must
Submitted to the idleness do art constantly. He cannot stop, just like riding a bicycle, if you
that leads to hunger and addiction stop, you fall.

18
TESTIMONIALS

19
ABELARDO E GUAIANASES His example of joint work initiatives and the meetings around
a certain artistic interest continued in the following decades,
É notável como Abelardo da Hora incentivou a formação de benefitting the appearance and education of new artists in
artistas em nosso estado, principalmente nas décadas de 40, 50 Pernambuco. Among the most important ones, I would like to
e 60, períodos que abrigaram a Sociedade de Arte Moderna de highlight Oficina Guaianases de Gravura (Guaianases Engraving
Pernambuco, o Atelier Coletivo e o Movimento de Cultura Popular, Workshop), that opened first in Recife and, later, in Olinda.
todos com a marca desse mestre em seus alicerces. Estou certo
de que, sem as iniciativas de Abelardo, vários talentos teriam se The artists João Câmara and Delano kindly opened the of their
perdido. Esse norte tenaz beneficiou gerações de artistas em nosso own well-supplied and active litography studio for those who
estado. wanted to know, learn and develop the resources of this technique.
Back then, I was 18. That was my definite chance in the weight of
O exemplo das iniciativas de trabalho em conjunto e as reuniões my professional choice and development of my work.
em torno de um determinado interesse artístico continuaram,
nas décadas seguintes, beneficiando o surgimento e a formação Living with inspirations different from mine, with artists more
dos novos artistas em Pernambuco. Entre as mais importantes experienced than I and following their relations in the institutional
eu destaco a Oficina Guaianases de Gravura, que funcionou circuit, the art market and everything else started for me at Oficina
primeiramente em Recife e, depois, em Olinda. Guaianases.

Partindo de um ateliê de litografia próprio, muito bem equipado e GIL VICENTE


ativo, os artistas João Câmara e Delano abriram generosamente
as portas do espaço para os que quisessem conhecer, aprender e TATUAGEM NA ALMA
desenvolver os recursos dessa técnica. Naquele tempo, eu tinha
18 anos. Essa oportunidade foi definitiva no peso da minha escolha Ele foi um homem que amou as mulheres e as homenageou
profissional e no desenvolvimento do meu trabalho. divinamente em enormes esculturas de concreto armado, plenas
de sinuosidade, sensualidade e beleza. Essas mulheres gigantes
A convivência com poéticas diferentes da minha, artistas mais e voluptuosas ficavam espalhadas pela cidade e tatuaram minha
experientes e suas relações no circuito institucional, o mercado de alma já na infância.
arte e tudo mais começou pra mim na Oficina Guaianases.
Sua obra também tem uma grande preocupação social e cultural.
GIL VICENTE Ele retratou divinamente a dignidade e dor dos mais fracos,
assim como exaltou maracatus, passistas, bumba meu boi, ricos
ABELARDO E GUAIANASES personagens da nossa cultura pernambucana.

It is remarkable to see how Abelardo da Hora encouraged the Em 2008, tivemos o prazer de fazer a cenografia do carnaval do
education of artists in our state, mainly in the 40’s, 50’s and 60’s. Recife em sua homenagem. Ele foi generoso em abrir sua obra
Such periods held the Sociedade de Arte Moderna de Pernambuco e me conceder total liberdade de interpretação. Pude mergulhar
(Pernambuco Modern Art Society), the Atelier Coletivo and the nas suas criações para criar minhas próprias versões de cada
Movimento de Cultura Popular, all of them with the imprint of this personagem seu, sem qualquer tipo de restrição.
master on their foundations. I am sure that, without Abelardo’s
iniciatives, many talents would have been lost. This tenacious Meu viva a Abelardo da Hora!
beacon benefitted generations of artists in our state.
JOANA LIRA

20
A TATTOO IN MY SOUL I have always admired Abelardo da Hora, his calling and ability
to work to the full extent of artistic practice. From clay to brass,
He was a man who loved women and he paid a divine tribute to from paper to India ink, from mortar to patina. Abelardo mastered
them with enormous sculptures made of reinforced concrete that everything and worked with the same passion and vitality of when
were full of sinuosity, sensuality and beauty. These giant and he was young, even in his mature and full of wisdom years. And
voluptious women were spread all over the city and tattooed my he was not just an artist. He was a Master and a Humanist, in
soul back in my childhood. a sense that he taught, organized public and political cultural
events, sympathized with rescue and social justice movements.
His work also brings a great social and cultural preoccupation. He
portrayed divinely the dignity and pain of the weakest, as well as His invention and creativity stretched into an arch that was able to
exalted maracatus (a performance related to a carnival tradition), cover from the accusing portrait of economic and amoral ugliness
dancers, bumba meu boi (a folk theatrical tradition) and other rich of the exploitation of a man to the poetic beauty of sensual living
characters of Pernambuco’s culture. shapes

In 2008, we had the pleasure of creating Recife’s carnival Abelardo lived in this continuo of humanity and imprinted in it the
scenography in a tribute to him. He was generous enough to open legacy of his honest, sincere and generous art.
up his work and give me total freedom of interpretation. I could
then delve into his creations in order to make my own versions of JOÃO CÂMARA FILHO
each of his characters, with no restrictions.
ABELARDO DEPOIS DE MORTO
Cheers to Abelardo da Hora!
A sua presença é mais forte agora do que quando estava vivo.
JOANA LIRA Hoje mesmo queria abandonar um quadro que não conseguia
resolver a contento e o ouvir dizer: “valoriza teu trabalho” E isso
Sempre admirei em Abelardo da Hora sua vocação e capacidade só tem força por vê-lo trabalhar incansavelmente, sem nenhuma
de trabalho em toda extensão do fazer artístico. Do barro ao queixa, muitas vezes em condições adversas, até sem um
bronze, do papel ao nanquim, da argamassa à pátina. Abelardo mínimo de espaço físico para trabalhar. Como quando esculpia
tudo dominava e o fazia com paixão e energia de jovem, mesmo na pedra a belíssima figura que vi muitos anos depois na casa
quando já maduro e carregado da sabedoria da muita idade. E de Cid Sampaio, no Monteiro. Não posso desmerecer essa
não era só um artista. Era um Mestre e um Humanista, no sentido confiança, além de um desrespeito a mim próprio. “Levanta o
de que ensinava, organizava ações culturais públicas e políticas, pé!”.
solidarizava-se com movimentos de resgate e justiça social.
Fico sem ter idade, nos meus oitenta e três anos, que só existem
Sua invenção e criatividade alongavam-se num arco capaz de no calendário, como os noventa dele. Abelardo nunca teve
cobrir desde o retrato denunciador da feiura econômica e amoral velhice, nunca teve doença, nunca teve morte.
da exploração do homem até a beleza poética das formas vivas
sensuais. Ele costumava dizer que antes de ele morrer descobririam a
eliminação da morte, uma espécie de vacina. Mal sabia ele que já
Nesse contínuo de humanidade, viveu Abelardo e nele inscreveu estava vacinado, que a morte, com ele, topou foi osso!
o legado de sua arte honesta, sincera e generosa.
JOSÉ CLÁUDIO
JOÃO CÂMARA FILHO

21
ABELARDO AFTER HIS DEATH de Cultura Popular, Clube da Gravura e Associação dos Artistas
Plásticos Profissionais de Pernambuco, entre outros. Abelardo de
His presence is stronger now than when he was alive. Today I todas as gerações e das lutas pela democratização da cultura em
felt like giving up on a paiting that I could not solve satisfactory nosso Estado.
and I could hear him saying: “treasure your work”. And this is
only meaningful because I saw him work restlessly, with no PAULO BRUSCKY
complaints, often times under adverse conditions, even without
any minimum physical space to work. Just like when he sculped ABELARDO OF ALL TIMES
out of the stone the marvelous figure I saw many years later in
Cid Sampaio’s residence, in Monteiro. I cannot demerit such I came up with this title, in 1988, when I organized and was the
trust, besides it would be desrespectful to myself. “Stand up!”. curator, as Coordinator of Historical Heritage and Preservation
of the Cultural Collection of Fundação de Cultura Cidade do
I get ageless, in my eighty-three years of life, which exist only in Recife (Cidade do Recife Cultural Foundation), of a retrospective
the calendar, just like his ninety. Abelardo never got old, never got exhibition, celebrating the 40th anniversary of artistic activities
sick, never got dead. of Abelardo da Hora, at Galeria Metropolitana de Arte Aloísio
Magalhães (Aloísio Magalhães Metropolitan Art Gallery).
He used to say that before he dies someone would discover the
elimination of death, a kind of vaccine. He hardly knew he was Along with journalist Ronildo Maia Leite, we published a book with
already vaccinated, that death had a hard time with him! this very same title and launched it at the end of the exhibition.

JOSÉ CLÁUDIO We will probably not find anyone in the entire history of
Pernambuco’s culture with such a coherent path as Abelardo
ABELARDO DE TODAS AS HORAS da Hora. Differently from most artists, who tend to settle with
success, he was Abelardo of all times, always willing to collaborate
Criei este título, em 1988, quando organizei e fui curador, como with the cultural movements of Pernambuco, being founder/
Coordenador do Patrimônio Histórico e Preservação do Acervo participant in most of them: Sociedade de Arte Moderna do Recife,
Cultural da Fundação de Cultura Cidade do Recife, de uma Atelier Coletivo, Galeria de Arte do Recife (Art Gallery of Recife),
exposição retrospectiva, comemorando 40 anos de atividades Movimento de Cultura Popular, Clube da Gravura (Engraving
artísticas de Abelardo da Hora, na Galeria Metropolitana de Arte Club) and Associação dos Artistas Plásticos Profissionais de
Aloísio Magalhães. Pernambuco (Association of Professional Plastic Artists of
Pernambuco), among others. Abelardo of all generations and all
Junto com o jornalista Ronildo Maia Leite, editamos um livro com struggles for the democratization of culture in our state.
esse mesmo título e lançamos no final da exposição.
PAULO BRUSCKY
Em toda a história da cultura pernambucana, provavelmente não
encontraremos alguém com um caminhar tão coerente como o
de Abelardo da Hora que, ao contrário da maioria dos artistas,
que tendem a se acomodar com a consagração, Abelardo era
de todas as horas, estava sempre disposto a colaborar com
os movimentos culturais de Pernambuco, sendo fundador/
participante da maioria deles: Sociedade de Arte Moderna do
Recife, Atelier Coletivo, Galeria de Arte do Recife, Movimento

22
23
Retrato de Margarida Autorretrato
Aguada de nanquim sobre papel, 1950 Aguada de nanquim sobre papel, 1950

Portrait of Margarida Self-portrait


Chinese ink on paper, Chinese ink on paper,
1950 1950

24
Torre de Iluminação Com o golpe militar, uma de suas obras pioneiras do espaço
Cinética da
dinamismo do Brasil – a Torre de Iluminação Cinética do bairro
Praça da Torre
Projeto de da Torre – foi considerada subversiva e destruída pelos milita-
escultura, 1959 res, que o acusavam de introduzir “mensagens ocultas” e de
Kinetic lighting tower
ter recebido dinheiro pela peça. O mensageiro, nas palavras de
(sketch), 1959 Abelardo a um coronel, era o vento e a obra havia sido doada
à Prefeitura.

With the military coup, one of his pioneer pieces from the space
dynamism in Brazil - the Torre de Iluminação Cinética (Kinetic
Light Tower) in Torre neighborhood - was considered subersive
and was destroyed by the military, who acused him of introdu-
cing “hidden messages” and of being paid for the piece. The
messenger, in the words of Abelardo to a colonel, was the wind
and the piece had been donated to the Municipality.

Maquete da Torre de
Iluminação Cinética da
Praça da Torre
Model of kinetic light
tower

25
Incêndio no Pátio do Paraíso
Xilogravura, 1953
Fire in Paradise Courtyard
Wood engraving, 1953

Bestas Beasts
Desenho, 1969 Drawing, 1969

Grupo de Frevo
Desenho, 1973
Frevo group
Drawing, 1973

Enterro de Camponês Burial peasant


Gravura em gesso, 1953 Plaster engraving, 1953

26
Vestais
Projeto de
escultura, sem data
Vestal
Sculpture project,
undated

Casal Dançando
Desenho, década
de 80
Couple dancing
Drawing, the 80’s

Mulher Encostada
Desenho, sem data Mulher Sentada
Woman leaning Desenho, sem data
Drawing, Undated Seated Woman
Drawing,
Undated

27
Série Meninos do Recife
Bico de pena, 1962
Children of Recife, Series
Pen and ink, 1962

28
Série Danças
Brasileiras de Carnaval
Bico de pena, 1963/1966
Brazilian CarnivalDances, series
Pen and ink, 1963/1966

Série É Hora de Brincar


Aguada de nanquim e acrílica
sobre papel, 2004
Time to play, series
Chinese ink and acrylics
on paper, 2004

29
A Fome e o Brado
Bronze, 1947
Hunger and Shout
Bronze, 1947

Menino do Mocambo
Bronze, 1969

Shanty boy
Bronze, 1969

Mãe com Filho Doente


Cimento com banho de
ácido, 1979

Mother with sick son


Polished concrete, 1979

30
Estela para Mulheres e
Crianças Abandonadas
Cimento com banho de
ácido, 1978

“Estela” for women and


abandoned children
Polished concrete, 1978

Mãe com Filha Morta


Concreto com banho de
ácido, 2013

Mother with
dead daughter
Concrete with acid bath,
2013

31
O Artilheiro
Bronze, 1991
The Striker
Bronze, 1991

Menino do Pirulito
Bronze, 1962
Lollipop Vendor
Bronze, 1962

32
Volúpia
Bronze, 1949
Voluptuousness
Bronze, 1949

Casal
Bronze, 2013
Couple
Bronze, 2013

Aurora II
Bronze, 1994
Aurora II
Bronze, 1994

33
Mariane Mariane
Bronze, 1975 Bronze, 1975

Mulher de Bruços
Nega Fulô Bronze, 1973
Bronze, 1952
Breaststroke woman
Nega Fulô Bronze, 1973
Bronze, 1952

34
Aurora I Aurora I
Bronze, 1975 Bronze, 1975

Figura de Mulher
Mãe-d’água Mother of the waters Bronze, 1983
Bronze, 1996 Bronze, 1996
Figure of woman
Bronze, 1983

35
36
Abelardo, mestre mestríssimo Aberlardo, master great master

Assim o definiu Gilberto Freire, e não poderia ter feito de outra maneira. That is how Gilberto Freire defined him and it could not have been
Uma das principais características de um mestre é conhecer profunda- any different. One of the main features of a master is acquiring a deep
mente o seu ofício e só assim poder transmiti-lo aos demais. knowledge of his craft and only then be able to transmit it to others.

Esse homem, apesar de franzino, construiu uma obra gigantesca - em This man, though thin, built a giant work - in all senses. For every piece
todos os sentidos. Para cada peça um esboço, seguido de uma ma- a sketch, followed by a clay model. The miniature was always followed
quete em barro. A miniatura vinha sempre acompanhada de uma am- by a larger model, still in clay, under a wooden structure normally made
pliação, ainda em barro, sobre um esqueleto de madeira normalmente with beams. On it, he set the clay that was sculpted for days until he
feito de travas. Nele montava-se o barro, que era esculpido durante achieved the perfect curve, the most captivating look, the most expres-
dias até conseguir a curva perfeita, o olhar mais dengoso, as linhas sive lines.
mais expressivas.
Abelardo was the author of the entire process. Carlos, his assistant for
Desse processo todo Abelardo era o autor. Seu ajudante de muitos many years, was in charge of hitting nails, preparing the clay and keep-
anos, Carlos, se encarregava de bater os pregos, preparar o barro e ing it moist during the days the work was being made by the master.
mantê-lo úmido durante os dias em que a obra estava sendo trabalha- Then, he would help him set up the mold and remove it. It was usually
da pelo mestre. Depois o ajudava a montar a fôrma e retirá-la. Quase in plaster. The matrix in clay was often times destroyed. Sorrow? No. It
sempre em gesso. A matriz em barro muitas vezes era destruída. Pe- was part of the process. Everything was still under construction.
sar? Não. Era parte do processo, tudo ainda estava em construção.
In the mold the huge women or their grand monuments gained a new
No molde as enormes mulheres ou seus monumentos grandiosos ga- structure, now more robust, in order to bear the weight that was to
nhavam um novo esqueleto, agora mais robusto, para suportar o peso come. They were made of iron, were folded and sawed there in his
que lhes aguardava. Eram feitos de ferro, dobrados e serrados, lá mes- studio, under his eyes, so that nothing would go out of his control. After
mo em seu ateliê, sob os olhos dele, para não escapar nada de seu being duly reinforced, the molds covered in wax would receive the ce-
controle. Depois de devidamente armadas, as fôrmas cobertas de cera ment and wait the necessary time to come out of their plaster cocoons.
recebiam o cimento e esperavam o tempo para saírem de seus casulos
de gesso. After they were ready in cement, Abelardo would sand them, correct im-
perfections and polish them until they were perfect. Some were bathed
Depois de prontas em cimento, Abelardo as lixava, acertava as imper- in acid so that the finish would highlight the expressiveness of his work.
feições e as encerava até ficarem perfeitas. Algumas eram banhadas
em ácido para que o acabamento ressaltasse a expressividade de sua He was a craftsman artist, like few others. And, like few others, he
obra. taught his artistic practice.

Era um artista artesão, como poucos. E, como poucos, ensinou o seu


fazer artístico.

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Presidenta da República | President Ficha Técnica | Technical Sheet
Dilma Vana Rousseff
Produção | Production Transportadora | Transportation
Ministro da Fazenda | Ministry of Economics Instituto Abelardo da Hora Transportadora Fink/Frey
Joaquim Levy
Produção Executiva / Coordenação Geral Projeto de Seguro | Insurance Project
Executive Producer / General Coordinator Afinitté Corretora de Seguros
Presidenta da CAIXA | CAIXA President Abelardo da Hora Filho
Miriam Belchior
Seguradora do Projeto | Insurance
Curadoria | Curator ACE Seguros S/A
Renato Magalhães Gouveia
Impressão | Printing
Acervo | Collection Companhia Editora de Pernambuco
Instituto Abelardo da Hora CEPE
Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães -
MAMAM

Direção de Arte | Art Direction


Daniel da Hora

Design Gráfico | Graphic Design


Luciana Oliveira

Cenografia | Scenography
Eduardo de Souza

Textos | Texts
Creatto Comunicação Estratégica

Tradução | Translation
Rita Felippi

Fotografia | Photography
Henrique Santos | Thomas Baccaro

Assessoria de Imprensa | PR
Aponte

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39
CAIXA Cultural Recife Codigo ISBN
Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife,
Recife/PE - CEP: 50.030-150
Galeria 1
Fone: (81) 3425-1915 / 3425-1900

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