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ALQUIMIA CONTEMPORÂNEA

Vencer o mundo e viver na riqueza

Salvatore Brizzi
NOTA INTRODUTÓRIA

Neste pequeno livro são expostas uma filosofia e uma prática que podem
revolucionar a sua vida. Leia-o pelo menos três vezes, para que as idéias aqui
reveladas comecem realmente a fazer parte do seu modo de viver,
conduzindo-o assim à libertação da perigosa ilusão de que lá fora exista um
mundo separado da sua consciência. Leve-o sempre com você como se fosse
um amuleto, porque a Força que emana destas páginas pode te ajudar a
alcançar o seu objetivo, ou a encontrar um...
Salvatore Brizzi

1. A VISÃO DAS MÁSCARAS

Quando encontrei pela primeira vez Victoria Ignis, na metade dos anos
90, eu tinha uns 25 anos e ganhava a vida trabalhando como estoquista para
uma grande indústria de alimentos. Por um certo tempo fui um código de
barras perfeitamente incorporado na engrenagem do sistema “produz –
consome - rompe”. Mas já há vários anos havia me tornado um código de
barras sempre menos útil, sempre menos legível. Tinha perdido toda a
confiança na possibilidade de encontrar um sentido para a minha vida: o
trabalho, o esporte, o amor, a família...tudo me parecia inútil, e à minha volta
eu também não conseguia ver exemplos de pessoas que fossem realmente
realizadas.
Primeiro o esporte, praticado há anos de forma obsessiva, depois o
álcool e as drogas me representavam o refúgio de uma realidade que já tinha
se tornado insuportável e ao mesmo tempo irremediável. A depressão, natural
conseqüência da incapacidade de dar um sentido à realidade, tornou-se a
minha companheira durante o dia, enquanto à noite, a dor de ter que viver
como um fantoche, vindo ao mundo por acaso, vinha escondida por algumas
horas de alteração de consciência por efeito de drogas. A dor estava cada vez
mais insuportável – às vezes mesmo sem estar mascarado pelas drogas –
quando a minha falta de objetivo pessoal e de sentido na vida chegou a
alcançar a conscientização de que aquela situação pudesse ser idêntica
também para muitos outros, que provavelmente era assim para todos, e que a
vida fosse já por ela mesma uma derrota, mesmo que você tenha nascido na
família de um rico Industrial ou de um ator de Hollywood.
À noite eu ia dormir esperando não mais acordar. Queria me esconder,
me anular, escorregar docemente na inconsciência mais completa, no
indefinido nada. Não queria mais pensar em quem eu era, nem refletir sobre a
minha condição.
Quando um ser humano descobre a sua impotência, quando enxerga a
sua mecanicidade, a sua ausência de um real querer, quando a existência o
coloca de lado, o sufoca, o esmaga, não há saída. Criam-se então condições
ideais para que possa acontecer algo de importante. Não foi por acaso que
justamente naqueles anos de escuridão e sofrimento, me aconteceu uma
experiência incomum: uma noite, enquanto estava em um bar com alguns
amigos, pela primeira vez, simplesmente pude enxergar com clareza todas as
suas dores. Estávamos em um dos tantos bares de Torino (é uma das cidades
onde há mais bares da Europa), sentados a mesa. Falava-se de coisas
estúpidas, contava-se piadas, e ria-se liberadamente. Para um olhar desatento
podia parecer uma das tantas reuniões de amigos, em um dos tantos locais,
uma noite como tantas outras. Pois saímos à noite justamente para isso: nos
divertir, beber um pouco, talvez conhecer um lugar novo, gente nova... e
depois voltarmos a casa para dormir. E na manhã seguinte recomeçar o
trabalho: oito horas em um escritório, fábrica, ou dirigindo um carro para
tentar vender alguma coisa a alguém, não vendo a hora que chegue a noite
para sair com os amigos ou voltar a casa para encontrar com a família. Um dia
esperando para que chegue a noite, uma semana esperando para que chegue
o fim-de-semana, um ano esperando para que cheguem as férias, trinta anos
esperando para que chegue a aposentadoria, uma vida esperando para que
chegue a morte... libertadora. Tudo programado para fugir da dor infinita de
uma vida sem objetivo, sem apoios, sem explicações.
De repente, como se dentro de mim se abrisse uma janela, comecei a
ver segundo uma nova ótica: as primeiras conseqüências foram o tempo que
foi se lentificando e as cores ficando mais lúcidas e brilhantes. Era como se
tivesse mais luz no local, mas essa luz vinha de dentro dos objetos e das
próprias pessoas. As vozes, todas as vozes e todos os sons, até a música ficou
mais longe e indistinguível. Naquele estado de consciência ‘suspenso’, as
expressões dos meus amigos, assim como aquelas dos outros, finalmente se
mostraram realmente como eram: foi naquele momento que de suas risadas
saíram assustadoras notas de dor. Não riam, mas batiam os dentes no esforço
de segurar o choro. Não contavam piadas, mas gritavam sua raiva. Não se
davam tapinhas amigáveis nas costas, mas descarregavam a própria
agressividade reprimida nos outros. Nenhum deles estava satisfeito.
Eram todos, homens e mulheres, empenhados em dar uma aparência
de credibilidade e originalidade às suas máscaras. Nenhum deles era feliz.
Claro, se eu tivesse perguntado tenho certeza de que teriam respondido: “-
Mas não dá pra ver que sou feliz? Estou rindo, então sou feliz, somos todos
felizes! Bebemos e rimos em companhia, beba você também! Por que essa
cara triste? Não estrague sua noite...”
Nos reuníamos para enganarmos a nós mesmos, para mostrar que
éramos alguém, que possuíamos uma identidade, para fingir que não tínhamos
fracassado na vida. Um bando de desiludidos infelizes que se sentiam em
dever, mesmo com si mesmos, de rir e brincar toda noite. Tínhamos que vestir
máscaras de felicidade, porque admitirmos de não sermos felizes, significaria
admitir de haver falido!
Não eram simpáticas noites com amigos, nunca foram, eram tentativas
de fugir da dor de viver sem um verdadeiro objetivo, sem um sonho. As férias
de verão, a aposentadoria e uma família que imita aquela da propaganda
podem substituir um verdadeiro objetivo quando o ser humano se encontra em
um estado hipnótico. À medida que começa a acordar, a recuperar-se da
indiferença quotidiana, estes paliativos não bastam mais, e tornam-se frágeis e
inconsistentes.

“Às massas, são dados pontos de referência externos, não


internos. E é normal que seja assim, porque a massa não consegue
curar-se dentro, é extro-versa (= voltada ao externo) por
natureza. Um Deus, um Messias, o dinheiro, a carreira, o Estado,
a Ciência e também a família, são todos pontos de referimento
externos, seguranças ilusórias externas. A massa não sente ainda a
voz da sua interioridade. Só pode acreditar em alguma coisa no
plano mental, confiar em alguém que a guie, mas não pode ainda
sentir a Força do próprio Ser.

Olha só, não estou falando mal do povo, escrevo somente suas
características para que você possa escolher onde se colocar. Só
alguns indivíduos podem perceber a Força – e são milhares
espalhados pelo mundo – mas devem ser orientados e educados
individualmente. Quando chega uma época, como a nossa, em que
todos os pontos de referimento externo entram em colapso, a
massa, então chega a um impasse: começar a olhar-se dentro... ou
enlouquecer. Alguns conseguirão encontrar o Coração, a Força, a
Realeza dentro de si. Muitos não conseguirão. As conseqüências
serão caos social, epidemias, delinqüência e loucura”

Assim teria me dito alguns meses mais tarde Victoria Ignis. Mas naquela
noite, naquele bar, ela ainda não existia, não fazia ainda parte da minha vida, e
eu fiquei durante duas horas seguidas aterrorizado por aquela minha visão
intuitiva. Por vários dias fiquei submerso como nunca em uma sensação de
desconforto, de um senso de impotência e de raiva. Sentia a dor de estar, de
ser vivo e consciente, de ter sido jogado na matéria sem ter pedido pra que
isso acontecesse. É uma dor infinita, interminável.
Naquela noite eu tinha demonstrado a mim mesmo que eu estava com
razão. Não era só eu o doente, os outros também sofriam de uma falta de
objetivo crônica, talvez ninguém fosse imune à ela. Sofriam em silêncio em
frente à televisão, enquanto abraçavam seus filhos, faziam amor ou enquanto
riam no bar com seus amigos, mas na verdade a dor não os deixava nunca. A
única diferença entre eu e eles é que agora eu estava pronto: a consciência da
minha condição e a honestidade comigo mesmo haviam me deixado pronto
para algo de novo. Eu ainda não sabia, mas estava pronto para a Escola.
É a Escola que te encontra, não é você a encontrá-la. Procurar
desenfreadamente por escolas, mestres e guias, viajando pelo Globo, como
fazem milhares de aspirantes discípulos “New Age”, é pura tolice. A Escola se
apresentou a mim sob a figura de Victoria Ignis, e aquela mulher foi tudo o que
eu conheci da Escola: nenhuma estrutura oficial, nenhum grupo, nenhuma
publicação. A Escola transformou o meu modo de ver a vida me revelando o
engano dos enganos, o pecado dos pecados: acreditar que possa existir um
mundo fora de nós capaz de nos influenciar.

Já há séculos, um grupo de audazes – de ‘Mônacos Guerreiros’ – descobriu


que este planeta é uma armadilha psicológica, e se reúnem em segredo para
elaborar um plano de fuga. Seu chefe se chamava Draco Daatson, e eles viviam
no escuro da mais escura época Medieval. Draco Daatson – ou seria melhor
chamá-lo de Prometheo, capaz de roubar o fogo dos Deuses – entendeu que
os seres humanos não são nunca prisioneiros dos outros homens, mas sim de
uma psicologia, do seu próprio modo falso de compreender a vida. Para haver
qualquer real esperança de escapar, não se deve então combater
materialmente contra alguém ou alguma coisa. Não basta, por exemplo,
destruir o governo, mas é necessário trabalhar em uma direção intro-versa (=
voltada ao interno) para mudar a própria psicologia. A realidade externa ficaria
então obrigada a adaptar-se àquela mudança interna.
Draco Daatson e seu grupo entenderam a raiz do problema: a humanidade vive
na falsa crença de que a consciência do indivíduo esteja localizada somente
dentro do seu corpo, e que fora, exista um mundo separado e objetivo, no qual
possa alcançar perigos ou satisfações.
Uma vez compreendida a fundo a origem do problema, liberar-se foi só
uma questão de tempo. Portanto, aplicando um método e ajudando-se
mutuamente, esses primeiros heróis se libertaram da armadilha psíquica e
fundaram diversas Escolas secretas, que pudessem transmitir também aos
outros, esse único e fundamental conhecimento: nós acreditamos que somos
separados do mundo, quando, ao contrário, o mundo está dentro de nós e é uma
projeção totalmente nossa.
Se vocês estão lendo este livro é porque ao tal antigo e fundamental
conhecimento – mesmo que já tenham lido em mil textos e escutado em
diversas histórias – ainda não querem acreditar.
Com o passar dos séculos, tais escolas se diferenciaram cada vez mais
e perderam contato entre elas, tanto que hoje é quase impossível reconhecê-
las em uma matriz única. De tempos em tempos alguém pega a tarefa de
trazer à luz tal conhecimento.

2. DEPENDENTE OU EMPREENDEDOR

Alguns dias após aquela experiência no bar, vagava à noite num grande
parque perto da minha casa. Eu havia organizado algumas hora antes, com
alguns amigos, uma cerimônia mágico-alquímica, inspirada um pouco na magia
ocidental e um pouco nos rituais Xamânicos utilizados entre os povos da
Amazônia. No decorrer desta nossa experiência, inalamos um pó marrom de
efeitos psicotrópicos muito potentes¹, conhecido como raiz de Paricá ou Virola
(uma árvore da Amazônia, em particular a Virola Theiodora). A Virola contém
DMT (Dimetiltriptamina), talvez a substância psicodélica mais potente em
absoluto. Como novatos bruxos e bruxas, escondidos entre as árvores do
parque, fizemos um círculo mágico na terra e, ao lado, um triângulo mágico,
utilizando uma faca da cerimônia. Nas fendas formadas espalhamos pó de
sulfeto de mercúrio. Os meus amigos, muito mais espertos do que eu,
recitavam fórmulas mágicas com o objetivo de invocar ‘presenças’ que
pudessem fornecer indicações sobre o significado de nossas vidas.
Nós estávamos sentados dentro do círculo mágico, enquanto as
entidades manifestavam-se ao interno do triângulo. Cada um de nós viu
aparecer nas fronteiras do triângulo alguma coisa diferente: uma das meninas
viu o tio que a havia molestado quando era pequena; um amigo conversou
com o pai, com o qual não conversava há tempos, alguém se comunicou com
entidades extraterrestres e alguém foi aterrorizado pelos seus demônios...que
são sempre interiores. Cada um recebeu o que lhe era mais útil naquele
momento de sua vida. Por volta das 3 horas da manhã, enquanto o efeito da
planta sagrada passava, seguia sozinho em direção à minha casa, que se
encontrava após o parque, quando no escuro entre as árvores me apareceu
pela primeira vez a figura de Victoria Ignis. No início me parecia só uma
sombra, um ectoplasma, depois, quando chegou mais perto, consegui
enxergar melhor seu rosto, iluminado por uma das lâmpadas do parque.
Demonstrava menos de 40 anos e vestia um elegante tailleur cinza, cabelos
negros, corpo carnudo e aspecto muito simpático. Como se estivesse
realmente me esperando, se moveu lentamente na minha direção, sem pressa,
segura de si, mesmo estando sozinha em um parque pouco iluminado, em
plena noite.
“As drogas no passado serviam para fazer-se penetrar em novos
mundos, dimensões desconhecidas da existência. Era um meio
sagrado utilizado pelos exploradores da consciência para se
reconectar ao seu Ser. „Psicodélico‟ vem do grego psiche e delos:
„revelador da alma‟. Hoje, as drogas servem somente para escapar
da quotidianidade, para esconder o desespero do existir sem um
objetivo. Tornaram-se o símbolo da derrota, da concessão do
próprio poder nas mãos do mundo externo. Não é por acaso que
antigamente tais substâncias ficassem sob custódia de Xamanos e
Sacerdotes, enquanto que hoje são propriedade de organizações
mafiosas.”

Disse a mulher quando estava perto de mim. Sorria e era cordial. Com aquele
seu vestido elegante parecia que tinha apenas saído de alguma festa privada
que acontecia nas redondezas. Talvez estivesse só pegando um pouco de ar
no parque por causa da fumaça, do álcool, ou então era uma prostituta que
estava tentando me atrair (se bem que vestida assim, naquela zona eu nunca
tinha visto). Em todo caso, para deixar tudo claro fui logo dizendo: “- Olha, eu
não tenho dinheiro. Se está aqui por isso se deu mal. Faço um trabalho do cão
e ganho o quanto me basta para sobreviver”.
“É justo que seja pobre, porque você é um escravo... é um escravo
interiormente, um dependente. E não pode obter ao externo o
que não é ainda internamente.”

Estava pronto para qualquer resposta, estava já esperando que por detrás das
árvores pudesse aparecer um de seus cúmplices para me ameaçar e pegar as
poucas notas que eu havia no bolso, mas uma resposta do gênero eu não
esperava.
- Do que você está falando? Disse, apenas voltei a mim. – O que quer dizer com
isso? Não sou escravo de ninguém. – Eu resmungava como um bêbado e
estava difícil de focar seu rosto, mas continuei mesmo assim: - Se não sou rico
é porque vivemos em uma sociedade capitalista onde se busca somente o
lucro, o dinheiro. É uma luta entre gigantes onde poucas famílias de eleitos
comem e todos os outros são engolidos.

¹Nota da Tradutora - Não incentivo nem desincentivo o uso de nenhuma substância. Acho que cada
um tem a sua consciência e as suas necessidades. Mas se alguém já fez o uso de tais substâncias
(como tantos), que resultou em informações preciosas como as que se encontram neste livro,
porque não aproveitar destas descobertas, e tentar praticá-las, e trazê-las à consciência,
naturalmente, ao invés de sair usando substâncias por aí? Talvez não seja tão simples como usar
substâncias, com certeza é um longo caminho a ser percorrido, com muita determinação e vontade.
Mas quem disse que também usando as tais substâncias se chega ao objetivo? Não são as
substâncias que vão nos poupar do esforço. Elas podem até nos ajudar a enxergar mais rápido, mas
não resolvem o resto, não transformam o “pó em ouro”. Acho que cada um tem um momento certo
para enxergar, e estamos em geral, em um momento muito propício para isto. Eu particularmente
prefiro o caminho natural, cada um na medida de sua compreensão e necessidade de aprendizado.

A mulher chegou mais perto, há menos de um metro de mim, e me fixou nos


olhos:
“O mundo é um reflexo seu. Você o cria projetando fora o que é
dentro. Está fazendo isso mesmo neste momento, conscientemente
ou inconscientemente, não importa. Aquilo que parece acontecer a
você, na verdade acontece dentro de você. Não encontre
justificativas para a sua pobreza em um mundo externo que você
mesmo está criando a cada instante. Você é o único responsável
por isso. Não é rico na matéria somente porque ainda não conhece
a riqueza do seu ser. A dependência não é uma situação
trabalhista, mas um estado interior, um estado da sua essência.
Você é dependente psicologicamente, e como conseqüência disto, o
é também materialmente. O estado de dependência reflete uma
mente preocupada com o futuro, que vive na dúvida e na
insegurança. Empreendedor e dependente parecem somente dois
papéis existentes na sociedade, a expressão de duas classes sociais,
mas na verdade são dois estados de ser bem precisos. O seu papel
na sociedade está intimamente ligado ao seu grau de Realeza
interior. Você depende porque não assumiu ainda a sua
responsabilidade individual, depende porque tem medo da vida e
daquilo que te espera, depende porque é mais cômodo seguir do
que conduzir. Mas lembre-se de que a vida não te reserva
nenhuma surpresa. Todos os acontecimentos ao seu redor são
desejados por você, e só você os cria, durante meses, anos, com o
seu modo de pensar, com as suas emoções, com a sua ausência de
sonhos e aspirações. O problema deste mundo é que é um mundo
de dependentes, onde poucos são autênticos líderes,
empreendedores, sonhadores, artistas, gênios. Você não é pobre
porque há pouco dinheiro no bolso, mas porque não tem um
sonho. Esta é a única verdadeira pobreza, e é daí que deriva a
pobreza material.”

Uma mulher sozinha no parque, à noite,... mas era eu que estava com medo
dela, não ela de mim. Recomeçou a falar, prendendo novamente a minha
atenção:
“Depender significa ter desistido de criar. Quem não tem um
sonho é destinado a seguir quem o tem. E, ao contrário, quem
tem uma idéia, quem tem um sonho, não depende, mas cria.
Quem tem um objetivo, torna-se, somente por isto, magnético e
atrai à sua volta, os colaboradores, os dependentes, os clientes, os
amigos... todos aqueles que serão atraídos por ele como ímãs e o
ajudarão a realizar seu sonho.

Presta atenção, não estou dizendo que depender de alguém seja


errado, porque se não existissem empregados, dependentes,
operários, colaboradores... nenhum sonho poderia tornar-se
realidade. Só estou te fazendo notar a diferença entre essas duas
condições, que são dois estados do ser. Será você, depois, a
escolher. Além disso, o verdadeiro empreendedor, se for um
empreendedor do „Ser‟, e não somente de aparências, não se
limita a dar trabalho, mas educa os seus colaboradores para que
desenvolvam também a capacidade de sonhar e de tornarem-se
autônomos um dia. O verdadeiro empreendedor cria outros
empreendedores porque a existência é abundante, e tem lugar
para todos. Se você ficar consciente do fato de que o sonhador e o
dependente representam somente dois degraus diferentes da
escada evolutiva, então poderá fazer uma escolha, uma verdadeira
escolha. Pergunte à sua essência em qual degrau da evolução você
quer se colocar.”

Porque me estava acontecendo tudo aquilo? Porque aquela mulher, e,


sobretudo, aquele discurso, que de um lado destoavam com as minhas crenças
– literalmente me violentavam – e de outro lado me atraiam, como se eu
sentisse profundamente essa necessidade? Acredito que qualquer um
responderia que preferiria ser um sonhador e um criador, mas a vida às vezes
nos redimensiona, a sociedade corta as nossas asas, mata nossos sonhos, as
nossas aspirações mais elevadas. Eu sempre fui um ativista, um contestador:
luto contra um governo que nos oprime e nos derruba, luto contra uma
religião que nos cria senso de culpa, contra uma medicina que mais nos faz
ficar doentes do que nos cura, contra famílias de bancários que estragam o
mundo e decidem as guerras... – repousei, tentando resistir ao seu ataque - um
ataque que era voltado diretamente à minha essência.
“Você ainda está procurando justificativas externas para o seu
fracasso, pela sua falta de vontade, pelas suas poucas idéias e
sonhos. Você criou pra si mesmo um mundo malvado onde
realizar os seus sonhos é impossível por causa de alguma coisa ou
de alguém que trama contra você. Mas o único artista das suas
vitórias e derrotas é você mesmo. Não delegue o seu poder ao
externo... nunca! Você está idolatrando um mundo externo, que
você acredita que haja um poder infinito sobre você. O estado, a
religião, a medicina, a ciência, os banqueiros, os chefes, para você
são divindades, que algumas vezes aceita e outras recusa e
combate com todas as suas forças, mas que em ambos os casos
considera mais potente do que você. Somente com o ato de
combatê-los, dá à eles um poder que eles não têm. Quando o
operário luta contra o patrão, o patrão já venceu, porque foi
reconhecido como tal. Lembre-se: somente um escravo luta para
liberar-se de um patrão. Cada vitória do escravo-operário não
pode ser mais do que parcial e provisória. A história demonstra
isso de maneira clara: como conseqüência de certas lutas,
aparentemente parece que o operário tenha conquistado alguma
coisa, mas se não ocorreu também uma transmutação de sua
essência, uma liberação sob o plano psicológico, cedo ou tarde
perderá o que pensava haver conquistado e ainda mais. Que um
operário tenha vencido ou perdido, continua sempre um operário.
Quem o desfruta fica contente mesmo quando é temporariamente
derrotado, porque sabe que deste modo reforçou no operário a
convicção de ser um operário, e é isso que conta, não o fato de
que venceu ou perdeu. Deste modo, os respectivos papéis
continuam sempre os mesmos. O patrão pode conceder-se de
perder uma batalha de vez em quando, porque sabe que assim
está vencendo a guerra, que é sempre uma guerra psicológica,
uma guerra de papéis.

Por outro lado até o patrão pode ficar prisioneiro do seu papel.
Pode iludir-se que operários e empregados sejam realmente
existentes fora dele, quando na verdade são partes dele mesmo
que ele deve conseguir governar para que o ajudem no seu
objetivo. E se ele entra em conflito com essa parte de si, torna-se
também prisioneiro do seu papel, da sua classe social. Se sentirá
um patrão que deve se defender contra dependentes que querem
desfrutar do seu poder, que criam obstáculos ao seu sonho,
querendo salários mais altos. Mas não é bem assim que funciona.
Os dependentes se encontram dentro do empreendedor, e
esperam ser aceitos, compreendidos, integrados e amados.”

Minha cabeça estava girando. E não só por causa das substâncias psicotrópicas
que ainda desenhavam mandalas Tibetanas entre meus neurônios, mas
porque aquelas palavras estavam deixando em crise todas as minhas
convicções, todas aquelas certezas que tinham levado anos para cristalizar
dentro de mim. Realmente não as aceitava, resistia, não via a hora daquela
mulher se afastar de mim, mas ao mesmo tempo não tinha coragem de ir
embora primeiro. Se tivesse feito rapidamente, hoje eu seria um homem
tranqüilo como tantos. Mas ao invés disso, me deixei atropelar por outros
conceitos absurdos, paradoxais, impossíveis.
“Se o operário-dependente quer realmente vencer deve parar de
recitar o seu papel de subordinado, parar de culpar alguém e
iniciar a transformar a si mesmo. Deve olhar pra dentro.”

E apontou o dedo na minha cara:


“Escute bem: deve transformar o seu ser, a sua essência interior,
não a sua condição exterior. A nova condição exterior será fruto
da sua transformação interior, exatamente como o atual estado
do seu ser está sendo espelhado no trabalho que está fazendo
agora e no misero salário que ganha através dele.

Um sonhador, um Rei, um empreendedor, constrói dia após dia


o seu sonho, que o envolve e o satisfaz totalmente a cada
instante e a cada inspiração. Não colocam a culpa de suas
derrotas nas instituições ou nos poderes econômicos. O sonhador
não há patrões, não há ídolos, não acredita que exista um
mundo fora de si que o possa impedir de criar aquilo que ele
quer. Você é supersticioso, continua a idolatrar um mundo onde
existem personagens maus que te impedem de obter resultados,
mas o mundo está dentro de você, o mundo é totalmente criado
por você, mesmo no menor e aparentemente insignificante
particular. Não tem ninguém lá fora que possa mover um só
músculo se você não quiser. O Universo mora em você, e não o
contrário. Quando sentir isso, aí então será livre, será um Rei,
será invencível.”

Estava ao limite de suportar aquela situação. Aquela mulher estava me


acusando de ser responsável por tudo o que acontecia ao meu redor. Uma
responsabilidade assim eu não conseguia sustentar, ainda não conseguia. Para
sentir-se criador do mundo é necessário possuir capacidades físicas e psíquicas
que ainda não tinha desenvolvido. O meu sistema nervoso não estava
preparado para segurar aquele imenso grau de responsabilidade.
“A responsabilidade não é qualquer coisa abstrata, mas
eminentemente física. Se o seu aparato psicofísico não está
pronto para administrá-la, não pode assumir uma dose tão
grande de responsabilidade, e conseqüentemente, de riqueza. Até
para administrar a riqueza, você tem que ter desenvolvido um
sistema nervoso adequado. Só quem consegue carregar nas costas
um grau bem definido de responsabilidade obtém um grau
correspondente de riqueza, que é sempre proporcional à
responsabilidade que pode se encarregar de cuidar. Vencer na
loteria, herdar a empresa da família, significa ser submetido a
uma voltagem elétrica muito grande, é como colocar o dedo
molhado na tomada: levará um baita choque, e seu sistema
nervoso se elevará.”

Eu tentei reagir: - Para mim não parece que seja assim. Conheço pessoas que
assumiram grande responsabilidade, mas que pra mim não possuem adequada
riqueza, e pessoas muito ricas e potentes que não são capazes de assumir
nenhuma responsabilidade.
“Isso é o que aparenta de fora, mas na realidade,
responsabilidade e riqueza são sempre correspondentes. Se você
herda uma empresa da sua família, mas a sua essência não é
ainda suficientemente madura, responsável, por um certo
período pode até parecer rico e ser invejado por isso por quem
são sabe olhar em profundidade, mas provavelmente deve estar
enfrentando uma prova terrível, uma prova que poucos
superam: adequar rapidamente o seu ser e o seu grau de
responsabilidade aquela nova riqueza material. Quem não o faz
perde muito, ou deve delegar a nova responsabilidade a algum
colaborador que consiga administrá-la. Ganhar uma
hereditariedade ou na loteria, ativam internamente o seu
aparelho psicofísico no limite do suportável, até que você consiga
adaptar o seu novo ser à sua riqueza material. Você pode herdar
uma empresa, isto é, uma riqueza material, mas raramente
herda também o sonho que levou à criação daquela empresa.
Uma empresa não é erguida pelo dinheiro ou pelas pessoas que
ali trabalham, mas exclusivamente pelo sonho de seu criador e
pela integridade com a qual tal sonho foi levado adiante por ele
mesmo, e depois pelos seus colaboradores. E isso não pode ser
herdado.

Uma coisa é administrar, outra é criar. Se você só toma conta


de uma empresa importante pode até parecer rico,
externamente, mas não é nunca feliz dentro de si. A autêntica
felicidade vem da realização de si mesmo na criação. Se você
consegue fazer seu o sonho de quem veio antes de você, a sua
essência te permitirá criar, sentir-se realizado, e a empresa
prosperará. Mas se você se limita a somente administrar alguma
coisa, a falta de criatividade secará o seu ser, e a empresa
perecerá. O verdadeiro líder não administra, cria.”

Me veio em mente a diferença que existe entre os herdeiros de hoje - que


“pegam carona” nos sonhos de seus antecedentes, trabalhando “por inércia”
nas empresas - e os fundadores da Fiat, entre Mario Cecchi Gori e seu filho
Vittorio entre a Ferrari durante e depois de Jean Todt.
“Por outro lado, existem pessoas com uma grande alma que
suportam grandes responsabilidades, mas aparentemente não
possuem um retorno em termos de riqueza. Mesmo nesse caso, se
olhar bem, descobre que essas pessoas sentem-se já ricas,
completas e serenas e não desejam nada mais. Ser rico significa
ter sempre aquilo que te serve, quando te serve. Se você se
encontra nesse estado psicológico, já é rico, independentemente
do tamanho da sua conta bancária. Mas pode ser também que,
neste caso, a chegada de uma riqueza material seja só uma
questão de tempo.”

Na verdade quando julgamos um homem estamos analisando somente uma


fotografia de sua vida, um instante, com todos os limites que a seguem. Em
alguns períodos, o ter de um indivíduo pode parecer maior do que o seu ser e
seu grau de responsabilidade, ou vice-versa. O seu ser pode parecer superior
ao seu ter. Em outras palavras, mesmo um estúpido pode, por um certo
período de tempo estar guiando uma nação, e ao mesmo tempo, pode
acontecer de um grande homem ou mulher, atravessarem um período de
dificuldade econômica. Isso faz com que, em alguns momentos, riqueza
interior e exterior pareçam desconectadas uma da outra. Mas não é assim.
“Draco Daatson dizia: “ter e ser fazem parte da mesmíssima
realidade. O ter é o ser distribuído no tempo”. Ao final da vida
de um ser humano, tirando e somando tudo que ele atravessou,
entre altos e baixos, podemos ver que a sua riqueza exterior e
sua essência interior correspondem sempre exatamente. O seu
ter foi o reflexo do seu ser.”

Enquanto uma parte de mim tendia à uma forte resistência aquelas idéias, uma
outra parte – a minha alma, a minha essência – entendia que estava de frente a
um modo totalmente novo de entender a vida, o trabalho, o dinheiro... Uma
giro de 360 graus naquele comum ‘bom senso’ com o qual somos educados
pela família e pela escola. Aquilo que me estava sendo comunicado era
grandioso, mas eu não conseguia ainda compreender o quanto. A sua voz veio
ainda a interromper o andamento dos meus pensamentos:
“Destingua-se. Eleve-se acima de sua espécie. Carregue
totalmente a sua cruz, a sua responsabilidade por aquilo que é e
por aquilo que te acontece a cada instante. Assim, contribuirá
enormemente à evolução da humanidade.

A massa se perde sempre em reclamações, gosta de colocar a


culpa de suas desgraças em alguém. A massa aspira depender,
ser cuidada, socorrida. Acha insuportável o peso de sua própria
cruz. A massa quer assistência social, pensão: trabalha por
décadas somente com o objetivo de poder, um dia não trabalhar
mais! Não se apaixona pelo que faz, quer segurança. Mas esta
segurança é uma quimera. A única segurança possível vem da
mais plena compreensão de que só pode te acontecer aquilo que
te serve para a sua evolução interior, aquilo que você precisa,
aquilo que você mesmo, a um nível profundo quer. Você é um
Rei, porque continua a escalar o muro das lamentações como um
escravo?”

Eu... um Rei! Isso era mais do que eu podia segurar pelo momento. Só me
lembro que senti minhas pernas balançarem, e depois, uma escuridão.

3. AS EMOÇÕES CRIAM A REALIDADE

Encontrei Victoria Ignis novamente alguns dias mais tarde. Estava saindo
do trabalho e indo até o estacionamento. Estava, como sempre, imerso em
pensamentos destrutivos, de derrota e raiva ao mesmo tempo. Sentia-me
prisioneiro de um trabalho que não me gratificava, um número perdido em
uma lista de números, um código de barras orgânico escravo do mundo e de
suas regras de ‘sobrevivência’. Por um lado, sabia que estava aqui para realizar
alguma coisa de importante, por outro eu ainda aderia ao vitimismo coletivo,
ao hábito de culpar a nação, a cidade, o bairro..., que não permitem que os
jovens se realizem.

“O mundo que te rodeia é unicamente um reflexo do que você é


nesta fase de sua vida. Os lugares que você freqüenta, as pessoas
que encontra todos os dias, representam partes de você. Você não
é um escravo porque faz aquele trabalho, mas faz aquele trabalho
porque dentro de você, ainda há um escravo. Não confunda a
causa e o efeito!”

Senti sua voz nas minhas costas. Não tinha percebido que ela estava me
seguindo. Provavelmente sabia onde eu trabalhava e vinha me encontrar na
saída. Suspirei. No fundo eu a temia. Meu aparelho psicofísico já tinha
registrado que aquela voz, aquela mulher colocava em perigo tudo o que eu
havia construído em décadas de vida. Era uma mulher perigosa.
“Quem se tornou um Rei na sua essência, cria em volta de si o
próprio Reino. Quem é um escravo cria situações de escravidão.
Mude a qualidade do seu ser e verá mudar o seu ter. A realidade
não é objetiva, não se encontra lá fora em algum lugar. A
realidade está dentro de você e muda à medida que você
compreende, se transforma, evolui. O mundo é a cristalização das
suas emoções e do seu modo de pensar. É constituído de uma
substância extremamente maleável. Mas para que esta substância
seja modificada é preciso tempo. Esta é a Alquimia. Entre a
mudança do seu estado interior e a correspondente mudança da
realidade „externa‟, ocorre um certo período de tempo, às vezes
muito longo, e isso faz com que você não perceba imediatamente
que é sempre e somente você a dar vida a tudo o que te rodeia.
As suas emoções e os seus pensamentos recorrentes formam
totalmente o seu mundo. As expressões na face das pessoas que
encontra, o seu jeito de agir, a cor de suas roupas, os lugares que
freqüenta... são criados por você no mais completo e verdadeiro
sentido do termo. Eles são matéria mutável colocada em suas
mãos.”

- Então porque não posso mudar a minha realidade quando e como quero? Eu
queria ser mais rico, mas não consigo. Queria ter um carro mais bonito, mas
não tenho. Eu também cheguei a ler algo sobre a capacidade do homem de
criar sua realidade, mas na prática não é assim, e é a prática que conta, não as
belas filosofias.
“A sua realidade é criada 95% pelo seu inconsciente. Aquela sua
parte ainda desconhecida por você. Eu te disse que você molda o
seu mundo a cada instante, mas não te disse o que quero
realmente dizer quando digo VOCÊ.

Quem é você? Aqui está a questão fundamental. Vou te explicar


assim: a dualidade sujeito/objeto é ilusória. A diferença entre o
sujeito que percebe e o mundo que é percebido é só aparente. Você
acredita ser uma entidade pensante fechada dentro de um corpo,
e se ilude que fora das fronteiras da sua pele existe o mundo
externo. Este é o engano dos enganos, a armadilha da qual a
humanidade é escrava.

Na verdade existe só a unidade, o Um – aquilo que normalmente


é entendido como Deus – e você é este Um. O problema é que
você ainda não é consciente disso, e se identifica somente com
uma pequena parte dele, os 5% que moram no seu aparelho
psicofísico, enquanto que todo o resto você esconde no seu
inconsciente. Assim, os seus estados inconscientes – ou seja, aquela
parte do Um que você ainda não conhece porque ainda não
englobou dentro de você – criam a sua atual realidade dia após
dia, sem que você perceba. À medida que você começa a
identificar-se com o Um, torna-se consciente de ser o único
verdadeiro criador, mas se continuar se identificando somente
com 5% do Um, através de seu pequeno aparelho psicofísico, será
o seu inconsciente a criar por você, e você se submete ao que
acontece na sua vida. Se você quer se tornar consciente de ser
criador, deve pular do Eu ao Um, da parte ao Todo, dos 5 aos
100%, da circunferência ao centro... Deve tornar consciente o seu
inconsciente. Só então sentirá que é realmente o único verdadeiro
artista de tudo o que te rodeia.

As pessoas que encontra, os eventos que assiste a cada dia não são
nada mais do que projeções do seu inconsciente, ou seja, projeções
daquela parte do Um que você ainda não consegue perceber como
suas, e que, então manifesta como se existissem fora de você. Isso
ocorre para que, assim você fique consciente de sua existência e
possa englobá-las, integrá-las, compreendê-las (cum-prehendere
= „prender dentro de si‟). Cada vez que você consegue sentir que
um evento externo é na verdade criado por você, mais um pedaço
é subtraído do seu inconsciente e integrado na sua consciência,
permitindo assim uma expansão da mesma. Integrando pedaço
por pedaço, se tornará consciente de ser Um, de ser plenamente
íntegro em si mesmo, um verdadeiro indivíduo (=não dividido).

Esse não é o mesmo discurso espiritual de sempre. Aqui não tem


nada de espiritual ou religioso. Estou te falando de como age a
realidade e do que você é em relação ao Universo: unus-vertere
significa ser voltado ao Um, à integridade do ser. Não se trata de
rezar ou meditar na posição de Lótus. Trata-se de entender que a
sua consciência é vítima de um engano: você acredita ser separado
do mundo quando na verdade você é Um Todo com ele. Você está
doente de separação e aspira unir-se com o Todo... não tem nada
de religioso nisso. É tudo muito pragmático.”

Aquele dia não tinha ainda instrumentos para compreender plenamente


a enormidade do que estavam me ensinando. Somente muitos anos depois,
entendi o precioso presente que Victoria Ignis estava me dando. Suas palavras
representavam a chave para entender até um fenômeno que está
acontecendo nos últimos anos. Multiplicam-se mais e mais livros que falam
sobre o desenvolvimento do potencial humano: como ficar rico, como ter
sucesso, como desenvolver a capacidades de líder, como se tornar criador da
própria realidade... Seminários que prometem fazer “descobrir o poder que
existe em você”, crescem como fungo. Em particular, vêm à tona grandes
sucessos como o livro “O segredo: a ciência do enriquecer, Attractor Factor (A
lei da atração), The Key... São textos úteis que falam de princípios esotéricos
bem precisos, como por exemplo, a lei da atração. Mas normalmente não se
entende o princípio base: não é procurando satisfazer os desejos do meu
‘pequeno Eu’ que me tornarei o criador do meu mundo, mas fazendo
justamente o contrário: tornando-me consciente de que, a minha situação
atual e tudo o que me acontece são coisas que Eu desejei. Se não aceito, e não
chego a sentir dentro de mim que só eu sou o criador daquilo que tenho neste
momento da minha vida, não terei nunca algo diferente no futuro. Não posso
me colocar de repente o objetivo de modificar minha condição econômica,
porque devo primeiro aceitar e ‘cumprehender’ que a quantidade de dinheiro
que hoje está em minha posse, materializei eu mesmo, com base naquilo que
preciso para o meu caminho evolutivo, e naquilo que sou capaz de administrar
hoje, em nível do ser.
Se eu acolho profundamente esta verdade, ocorre em mim uma elevação do
ser, e começo a sentir-me o Rei, o regente do meu Reino, abrindo as portas
para a possibilidade de, em uma fase sucessiva, criar aquilo que quero. O
problema de tantas pessoas é que continuam a imitar o Rei, pois continuam a
pensar com a psicologia do escravo; colocam o carro na frente dos bois. Se eu
recuso a condição na qual estou agora e não acredito que ela foi desejada por
mim, quer dizer que ainda estou pensando segundo um escravo. Como poderá
criar sua realidade futura se não sente que está criando também a atual? Mas
quando finalmente sou capaz de ver que todo o mundo está dentro de mim e
que eu o estou criando, o problema de ganhar mais dinheiro ou ter mais
sucesso nem existe. Aquilo que eu desejo coincide, então, com o que
acontece, em uma sucessão perfeita de eventos onde eu tenho sempre o
dinheiro que me serve para levar adiante os meus projetos.
“Não se trata de fazer acontecer aquilo que deseja, mas de desejar
aquilo que te acontece. Quando entender que tudo o que te
acontece foi desejado inconscientemente por você durante
muitísssimo tempo, automaticamente, você se identifica com o
Todo. Daquele momento em diante, aquilo que você quer e aquilo
que você é, coincidem-se. Usar a vontade focada para realizar um
desejo próprio é magia negra. Todos os homens praticam a magia
negra em todas as medidas e sob várias formas, sem nem saber.
Na magia branca não se „deseja‟, mas se segue a verdadeira
Vontade, ou seja, a vontade do Todo. Mas para agir segundo esta
vontade, precisa primeiro identificar-se com o Todo.”

Estas foram as palavras de Victoria Ignis quando conversamos há alguns anos.


Acredito que tal conceito deva ser trazido ao conhecimento dos leitores deste
tipo de livro, porque senão, podem desiludir-se. Na verdade conheço várias
pessoas que leram The Secret, mas não conseguem um carro novo e nem ficam
ricos. Os mesmos autores destes best sellers, que estão sim fazendo um ótimo
trabalho em favorecer a expansão da consciência, perceberam que muitas
pessoas não conseguem obter os resultados esperados. Joe Vitale escreveu
The Key justamente para ajudar às pessoas que não conseguiram resultados
com o The Secret. Mas é fundamental que as pessoas entendam que antes de
tentar modificar a realidade externa através do uso da vontade, é necessário a
compreensão de que não existe uma realidade externa.
Imaginemos que eu exprima o desejo de me tornar mais rico. Exatamente
porque existe uma lei da atração, a vida certamente responderá a este meu
desejo, mas não é certo que responda como eu espero. O objetivo de cada um
de nós é aquele de voltar a nos identificar com o Todo, enquanto que a
dualidade sujeito/objeto é só ilusória. Para conseguí-lo, devo parar de
considerar o dinheiro como algo de externo a mim. Se eu me torno rico sem
ter primeiro compreendido que o dinheiro que está sob minha possessão se
encontra dentro de mim e corresponde à elevação do meu ser, o meu “ficar
rico” reforçará em mim a crença de que o dinheiro seja realmente algo de
externo, e que eu posso ter mais dinheiro agindo simplesmente com a vontade
de fora de mim. Mas a realidade é que o dinheiro se encontra ao interno da sua
consciência, e sua quantidade depende da grandeza e da integridade desta
consciência.
Justamente porque eu quero, inconscientemente, a minha própria evolução,
me impedirei de ficar rico até que eu consiga compreender que a riqueza
depende do ser, e que haver é só uma conseqüência de ser. Então, assim que
eu tenha expressado conscientemente o desejo de me tornar rico posso obter,
como resposta, um enriquecimento, ou mesmo uma perda de dinheiro! O meu
desejo será de qualquer forma atendido, porque se continuo novamente
desiludido pela minha tentativa exterior de busca à riqueza, cedo ou tarde
começarei a aceitar aquilo que tenho, o que me fará efetivamente mais rico e
mais capaz de criar a minha realidade. Mas mesmo que o processo seja sempre
evolutivo, não é este o resultado que a maioria das pessoas espera quando
lêem um livro sobre a lei da atração.
***
Mas, voltando àquilo que me explicava Victoria Ignis naquele dia, na saída do
trabalho.
“O mundo que há em frente a seus olhos neste momento – disse
fazendo um enorme gesto com os braços, indicando o caminho, as
pessoas, os carros – é a representação do seu passado, não do seu
presente. A sua namorada, o seu trabalho, a sua conta no banco,
espelham aquilo que você pensou, sentiu, aquilo que você foi, nos
meses e anos passados da sua vida. Se você tivesse um acidente
neste momento, ou fosse diagnosticada uma doença, estes fatos
não espelhariam o seu presente, mas o seu passado. Um acidente
ou uma doença vêm cuidadosamente preparados dentro de você
por anos, sem que você perceba. As suas emoções negativas, os
seus incômodos, reclamações e pensamentos obsessivos criam as
doenças, as dificuldades e os acidentes. O seu falso modo de
compreender a vida hoje já está te preparando para as suas
desgraças futuras. Emoções negativas e reclamações solidificam-se
com o tempo, cristalizam-se dentro de você graças à repetição.
Tornam-se agregados psíquicos, verdadeiras entidades que
escorregam no inconsciente... e ali ficam na escuridão,
condicionam a sua vida. Reclamando, você nutre a cada dia estes
vampiros que fazem de você um escravo.

Você tem medo de falar em público e se sente


desconfortável? Já se perguntou por que é assim? O que, dentro
de você, te obriga a se comportar de um certo modo? Algo que
você não consegue controlar. O seu contínuo julgamento das
pessoas te leva a ter medo do julgamento dos outros. O tímido
parece uma vítima, quando na verdade é o contrário, ou seja,
alguém que julga o mundo e como conseqüência, tem medo de ser
julgado pelo mundo.”

Acertou em cheio. Eu sempre fui muito tímido e tinha muito medo de fazer até
uma pergunta em público quando assistia a uma conferência. Devo ao
encontro com aquela mulher o fato de que hoje eu ganhe a vida escrevendo
livros e fazendo palestras. Ou melhor dizendo, devo isso àquela parte de mim
que foi materializada nela. Quando consegui parar de julgar as pessoas,
aconteceu em mim uma verdadeira revolução interior. Posso tranquilamente
afirmar que somente após aquele dia eu comecei a viver realmente. Foi o meu
renascimento, porque até agora vivia escravo do medo do que os outros
podiam pensar de mim.
“A sua incapacidade de assumir a responsabilidade de tudo o que
acontece na sua vida, o seus julgamentos e reclamações contínuas
de alguém ou algo sobre o trabalho, a família, o querer delegar ao
externo a causa dos seus falimentos... tudo isso cria atritos,
sofrimentos, acidentes, doenças. Ao mesmo tempo que você quer
se identificar com o Todo e procura a sua Realeza perdida, não
quer acreditar que a existência seja construída por você. Te dá
medo a idéia de ser o Rei, o Regente do seu mundo.”

Realmente Victoria Ignis tinha toda a razão. Tantos admiram a filosofia do


‘criar a própria realidade’, lêem livros do tema, participam de seminários,
tornam-se até professores, mas pouquíssimos vivem realmente deste modo
no dia-a-dia. Já vi instrutores, que ensinavam seus grupos como ‘criar a própria
realidade’, ainda reclamarem do governo, dos bancários ou da escassa
oportunidade que nos oferece a sociedade!
“A reclamação é um indício de sua incapacidade de se perceber
como único criador dos eventos da sua vida. Em um caminho de
crescimento pessoal é indispensável abandonar cada tipo de
reclamação, senão nenhum outro passo poderá ser dado.”

Victoria Ignis foi sempre muito categórica. Considerava qualquer tipo de


reclamação – desde aquelas relacionadas às condições climáticas até aquela
voltada à ineficiência do Estado – como uma renúncia à própria Realeza.
“Draco Daatson dizia: “um Rei nunca reclama”. Se reclama, isso
significa admitir a existência de um poder superior ao seu, um
poder que é capaz de te impor alguma coisa que você não quis, e
da qual você reclama agora. Um verdadeiro Rei não pode admitir
um poder maior que o seu, então sabe que cada evento foi
desejado por ele mesmo, pelo seu ser mais profundo e
inconsciente. Assim, a reclamação perde todo e qualquer sentido. “

4. A SUA ANSIEDADE LENTIFICA O TREM

Uma vez estávamos viajando de trem juntos. Tínhamos que ir a Torino


e Cesena, e havia uma troca de trem em Piacenza. Sabíamos que entre a
chegada do nosso trem e a partida do trem seguinte teríamos somente 10
minutos, mas na metade do caminho estávamos já com 8 minutos de atraso.
Temendo perder o trem, entrei em um estado de ansiedade e não consegui
conter meu desespero: Caramba! Os trens dessa maldita ferrovia Italiana não
estão nunca no horário. Se perdermos a troca vamos ter que esperar o
próximo trem e chegar uma hora atrasados. Até na Índia os trens são mais
eficientes! Antes de terminar a frase já tinha me arrependido de ter dito. As
palavras tinham saído mecanicamente. A minha parte animal, a parte escrava e
submissa do mundo que eu carregava internamente tinha me pego de
surpresa, e eu sabia que a minha companheira de viagem – Victoria Ignis – não
me perdoaria. Ela estava sentada na cadeira em frente à minha, e curvou-se
para encostar-se ao meu rosto, lentamente, abrindo um ‘meio sorriso’, como
um tigre já seguro de haver a presa entre suas garras. Seus olhos estavam
apontando dentro dos meus com tanta intensidade que era impossível olhar
em outra direção para fugir do seu olhar. O ambiente ao redor tinha
desaparecido. Disse ela, então, com uma calma invejável, o que fazia aquele
momento ainda mais insuportável:
“Você é um escravo do mundo. Permite que o mundo decida se
pode ou não chegar a uma reunião. Você está colocando esta
responsabilidade nas mãos da ferrovia porque não a quer nas
suas mãos... é muito para você, o seu ser não consegue segurá-la.
Você é só um número entre tantos que vão encher as fileiras dos
derrotados, lamentadores, maltratados pela vida... as vítimas
profissionais.”

Senti-me humilhado, profundamente humilhado, mas não pelo que estava me


dizendo Victoria Ignis, mas pelo vacilo que eu tinha apenas deixado escapar.
Nessa época, eu realmente estava começando a ser cada vez mais consciente
de que frases como aquela sufocam a dignidade do homem e o reduzem a
uma marionete nas mãos de um ‘Deus exterior’, o mundo das aparências,
Maya. Assim como na história do Pinóquio, às vezes eu me comportava como
ser humano, e outras vezes, como um boneco, um fantoche.
“A maior superstição consiste em pensar que exista um mundo
lá fora, uma entidade desconhecida que pode decidir se hoje você
será derrubado ou ganhará um prêmio. Este trem está dentro
de você, na sua consciência, é um produto do seu cérebro. Não
existe nada fora da sua consciência. Então, este trem está em
suas mãos. Mas o seu ser é muito pequeno para contê-lo. Você
olha o mundo e ele parece ser gigantesco, enquanto que você se
considera um anão psicológico.”

Suas palavras representavam uma terrível e dolorosa verdade... tão verdadeira


que se tornava realmente insuportável. E eu não sabia mais quais linhas de
ação colocar em prática para proteger a mim mesmo, a tudo que eu tinha sido
até então, daquela implacável verdade.
- Existem centenas de pessoas viajando neste trem – tentei argumentar
enquanto me afastava alguns centímetros daqueles olhos que se voltavam
para o encosto do meu assento – como é possível que eu esteja influenciando
o horário do trem e também a vida dos outros passageiros? Eles também estão
criando suas realidades, certo?
“Os outros estão dentro de você, O mundo é feito de imagens na
sua consciência, e não de eventos ou pessoas. As pessoas que você
percebe são literalmente criadas pelo seu cérebro, pelo seu
sistema nervoso. As formas, cores, sons... tudo é constituído de
simples sinais elétricos que são depois elaborados pelo seu
cérebro. Lá fora não existem realmente casas, pessoas, trens... É
tudo fruto da sua interpretação interior. Você vê e sente
somente aquilo que é capaz de projetar a partir do seu aparelho
psicofísico. Aquilo que você vê é aquilo que você é interiormente.
O mundo te permite se conhecer.

O que você esta sentindo neste momento? Ansiedade e


preocupação pelo atraso do trem? Bem, a ansiedade que você
carrega dentro de você lentifica o trem, e faz com que ele
chegue atrasado, porque a realidade externa é obrigada a refletir
suas emoções. A realidade confirma as suas emoções e o seu
modo de pensar mais enraizado. O medo de chegar atrasado, o
julgamento da ineficiência das ferrovias... são estes os fatores que
criam o atraso do trem, e não o contrário.

Estar em um trem que chega no horário ou em um trem que


chega atrasado depende exclusivamente de você. Mas este é um
conceito incompreensível para a sua mente racional. Você pode
somente sentir ou não sentir que é assim, mas não pode chegar
a essa conclusão com a racionalidade. Se você quer se
reapropriar de sua vida deve sentir dentro de você que é assim.
A vitima é quem cria o culpado, o infrator.”

Resumiu. Virando de ponta cabeça com uma só frase o modelo de


pensamento de toda a atual humanidade. Mais tarde me explicou que aquela
frase tinha sido falada pela primeira vez pelo Monaco Guerreiro Draco
Daatson, e trazida ao Livro de Draco Daatson. Victoria Ignis usava muito as
frases pronunciadas por aquele ‘pioneiro da abertura interior’.
Naquele dia do trem aprendi muitas coisas. Naquela época, Victoria Ignis me
seguia há algum tempo como being educator (=educador do ser) – ou talvez
deveria dizer spiritual educator, embora não exista nada de espiritual em tudo
isso – cuidava pessoalmente de me preparar para a vida. Me ensinou que este
é o modo mais adequado para despertar a consciência do Ocidente de hoje:
um being educator – figura que lembra o tutor – lhe segue em cada coisa que
você faz por alguns dias, te avisando cada vez que você atribui ao externo as
causas do que acontece na sua vida, cada vez que se afasta do ‘caminho justo’,
cada vez que você se esquece de se voltar para a integridade do ser. Depois te
deixa sozinho e aparece após alguns meses para verificar em que ponto você
está e como pode prosseguir com o trabalho. Fica com você alguns dias e
depois te deixa sozinho novamente. Este esquema se repete algumas vezes,
até você conseguir viver vendo e sentindo o mundo como uma parte de você. É
um jeito muito prático de trabalhar com você mesmo, inserido no dia-a-dia.
“O „guru‟, chamado de mestre, desempenha unicamente a
função de substituir temporariamente o seu mestre interior, a
testemunha que te permite observar de maneira honesta e
imparcial todas as vezes que você se engana dizendo a si mesmo
que „os outros‟ estão te fazendo alguma coisa. A testemunha te
avisa quando você esta tentando escapar da responsabilidade por
aquilo que te acontece. Esta tarefa é realizada por alguém que
esta ao seu lado, até você conseguir realizá-la sozinho. Isso
também é o que diz a tradição das escolas ocidentais, que não
falam de horas e horas de meditação e nem de recitação de
mantras. Estas se diferenciam das escolas Orientais, onde o
„guru‟ é alguém vestido de branco e provavelmente com barba
longa, que fala aos discípulos com uma voz persuasiva e sentado
na posição de lótus. Para um ocidental, seguir uma tradição que
não é a sua, feita de meditações e mantras, significaria fugir do
real „trabalho interior‟. O crescimento interior do ocidental não
inclui mais a vida monástica, que é ainda uma hereditariedade
do método oriental, equivalente ao retiro no „Ashram‟. Ao
contrário, passa por um bom relacionamento com o dinheiro e
com o trabalho, e implica na capacidade de obter resultados
tangíveis e sucesso na vida.”

Ter tido uma mulher como being educator influenciou radicalmente os


anos seguintes da minha vida e o meu futuro, através dos ensinamentos.
Aquela energia feminina, mesmo às vezes sendo manifestada com extrema
severidade, foi sendo acomodada de maneira estável na minha essência e
impregna ainda hoje todo o meu ser. Victoria Ignis mostrava sempre o sorriso,
e quando ensinava, transmitia muita alegria, não era ‘pesada’ no seu modo, e
não perdia nunca o senso de humor. Emanava eficiência, mas também
serenidade interior. A sua centralização era excepcional: não realizava um só
gesto mecânico, involuntário supérfluo. Por exemplo, não coçava partes do
corpo mecanicamente e não usava palavras de ligação e gírias durante o
discurso. Suas palavras, sua postura e sua atitude eram todas conscientes. Eu
sentia a força da presença total que emanava de seu próprio corpo. Seus
movimentos eram vivos, repletos desta sua presença. Não desperdiçava
energia ao redor de si reclamando ou se incomodando, não comia nada que
não fosse indispensável para o seu organismo. Havia total controle de seu
aparelho psicofísico, não se submetia nunca à mecanicidade, nem física, nem
emotiva e nem à mental. Quando queria que um conceito entrasse na minha
cabeça, sabia como fazê-lo com extrema convicção. Sua força às vezes me
deixava arrepiado, e seu ‘amor compassional’ derretia meu coração. Em vários
momentos que estava com ela, tive medo de morrer. Imagine ter que ir às
zonas mais perigosas da cidade ao lado de uma pessoa que sente que é imortal
e, portanto, não tem mais medo de morrer... foi uma experiência interessante!
Era uma guerreira cheia de amor e paz.
Naquele dia, no trem, ela me ensinou como trabalhar interiormente
com o objetivo de aprender a sentir que o mundo esta dentro e não fora de
mim.
“Viva plenamente a emoção que sente neste momento. Sinta a
ansiedade, o medo, a impaciência... sem ficar se justificando: não
caia na tentação de culpar algo externo. Não reclame nunca, não
acuse um „fantasmagórico mundo externo‟ pelas suas desgraças.
Esteja presente nas suas emoções o máximo que puder, sem
recusá-la, sem escondê-la e sem reclamar. Acolha o seu
sofrimento, tente compreender seus incômodos, „faça as pazes‟
com a sua raiva, e tenha sempre em mente, em todos esses
momentos, que é exatamente aquela emoção que esta projetando
a realidade que você percebe como externa. Lembre-se sempre: a
sua ansiedade lentifica o trem!”

Neste momento senti vontade de retrucar: - não estou tão convencido


de esta minha emoção, em particular, crie a realidade, porque se for olhar
bem, primeiro aconteceu o evento, e somente mais tarde eu comecei a ficar
mal.
“Tem razão. Não é esta emoção em particular que cria a
realidade, mas o seu hábito de sentir coisas do gênero. Com o
tempo, as suas irritações e emoções relacionadas cristalizam-se
dentro de você, são transferidas ao inconsciente e agora dirigem
a sua vida. É a atitude psicológica a se incomodar com eventos
externos. As suas emoções inconscientes causam o evento, e o
evento a sua volta te provoca uma sucessiva emoção consciente.
Nesse momento você acredita que tenha sido o evento a
provocá-la, mas cai neste engano só porque não conhece o que
está cristalizado no seu inconsciente. Na verdade você não
conhece nada sobre você!”
5. SINTA A SUA EMOÇÃO

Outro trem foi também o palco da minha iniciação. Viajava de trem,


uma manhã, de Turim a Milão, e desta vez Victoria Ignis não estava comigo,
pelo menos não fisicamente. Sob um plano mais elevado aquela mulher já
estava de qualquer modo dentro de mim de maneira constante.
Eu estava lendo um livro quando o celular daquela senhora sentada em frente
a mim tocou. Ela atendeu e começou a falar em voz alta de suas tarefas,
dificuldades familiares, e problemas de saúde, sem nem se importar com quem
estava ao seu redor. Era insuportável: sua voz se tornava cada vez mais
irritante e eu não conseguia me concentrar na minha leitura. Quando eu já
estava a ponto de explodir e convidá-la a inserir aquele celular em um dos seus
orifícios mais íntimos, o observador, dentro de mim se manifestou
espontaneamente. Consegui assim, me lembrar de observar o que estava
acontecendo no meu aparelho psicofísico, desta vez sem a ajuda de Victoria
Ignis, a qual em situação parecida interviria para me fazer notar para qual
estrada estavam indo as minhas emoções e a minha imaginação negativa.
De repente eu estava presente a mim mesmo. Podia evitar a usual reação
mecânica ao evento externo, mas, sobretudo, me tornava consciente do fato e
que era a minha irritação, aquela que carregava comigo desde sempre, que
estava criando aquele episódio, e não vice-versa.
“O mundo é subjetivo, pessoal, construído sob medida para você
e por você. A agressividade é algo que faz parte de você, que
carrega sempre com você, quando come, quando dirige um
carro, quando faz meditação, quando faz amor, quando dorme...
está sempre com você, como o fato de que você tem 1 metro e
78 centímetros de altura e cabelo preto. Por estar sempre com
você, surge, porém, somente em algumas ocasiões, projetando ao
externo uma cena. A cena que você vive é uma projeção da sua
agressividade ou do seu medo. As emoções presentes no seu
inconsciente criam a cena e depois você reage à ela,
experimentando conscientemente a emoção.”

Estas eram as palavras que Victoria Ignis costumava me dizer em


situações parecidas, com firmeza e doçura ao mesmo tempo. E justamente
essas palavras me vieram em mente naquela situação. Então comecei a me
desinteressar pela cena exterior e me foquei no meu incômodo interior, no
meu julgamento para com a má educação de certas pessoas, na falta de
respeito e mil desculpas que costumava adotar para justificar a minha aversão
a alguém ou alguma coisa.
Quando queremos justificar um incômodo nosso, apelamos sempre a
algum princípio universal (o respeito, o amor, a amizade) ou então ao fato de
que as outras pessoas presentes também sentem o mesmo incômodo, e que
então o problema deve ser objetivo: “ Os outros viajantes também estavam
incomodados, não eã zi vam mais ouvir aquela mulher espalhando aos quatro
ventos sobre sua vida pessoal, então não era só um problema meu, era alguma
coisa objetiva!”. Este é um ótimo modo de continuar se enganando e escapar
da própria responsabilidade, permanecendo escravo do mundo. Mas
observando mais atentamente, se pode descobrir que nem todos reagem da
mesma forma em relação a um mesmo evento. Em frente a um recém-nascido
que chora eu posso ficar incomodado, mas alguém sente ternura, outro
preocupação; como posso então, afirmar que o meu incômodo seja causado
pelo choro da criança? Se a causa fosse realmente externa, em frente aquele
fenômeno todos reagiriam da mesma idêntica maneira. Mas se somente uma
pessoa não fica incomodada, esta é a prova de que a causa não é externa, mas
está no modo como é estruturado cada um de nós. Pode ser que mil pessoas
reajam do mesmo modo, mas se somente uma não o faz, significa que a causa
não está no exterior, mas na interpretação daquele evento, e este é um
fenômeno claramente subjetivo. Nós nunca interagimos com um mundo
objetivo, mas com a nossa interpretação subjetiva do mundo, e que está
relacionada com o plano intelectual, emocional e mesmo físico; na verdade até
as formas e cores são percebidas, criadas, de maneira diferente dependendo
das características do sistema nervoso de cada um.
Sinta a sua emoção, seu incômodo, sua dor... e não crie
justificativas mentais.

Me repetia incessantemente Victoria Ignis.


- Mas deve existir alguma outra coisa a ser feita! Às vezes a raiva é muito forte!
– protestava, quando chegava no meu limite.
“Você deve desejar que o seu sofrimento se torne seu, ao invés de
continuar submisso a ele! Mantenha dentro de você aquela
energia consciente, pois se o faz conscientemente deixa de ser
repressão. O segredo para transformar mais rapidamente o seu
ser consiste em estar presente quando sofre e fazer de tudo para
não escapar do sofrimento. Não tente resistir ou culpar um
„mundo externo fantasma‟ pela sua condição de dor. Cum
prehenda dentro de você a dor, ame-a, acolha-a, abra seu
coração à ela e ouça o que ela tem a te dizer. Não obterá nunca
algum resultado recusando-a.

Aqueles de sua espécie tendem a fugir do sofrimento, não


gostam do „sacrifício‟, do heroísmo, da coragem, da dedicação a
um ideal, não possuem um sonho ao qual consagrar-se, não se
propõem a morrer por uma causa. Desejam simplesmente as
férias, a pensão, e viver em longo prazo sem ter muitos
problemas. E essa é a condição mais triste para um ser humano.

Não faça nada. Sinta a sua emoção e imagine que a pessoa que
você encontra a sua frente é realmente uma projeção sua. Sinta
com todo o seu ser que você esta querendo aquela situação.
Torne desejada uma situação em que você foi até hoje submisso.
Aquela pessoa te diz e faz somente aquilo que você quer, somente
aquilo que você precisa para se libertar, para redescobrir o seu
ser Real. Os outros estão aqui para te ajudar. Todo o Universo foi
reunido para te ajudar a se libertar da ilusão. Mas até que você
enxergue e sinta isso por você mesmo, deve ter Fé no que eu te
digo.”

E aquele dia no trem, após anos de tentativas, finalmente enxerguei e senti na


minha pele. A minha dignidade de ‘portador da chama’ foi assumida; me
concentrei, foquei toda a minha atenção na raiva que estava sentindo e repeti
para mim mesmo, mentalmente: “estou dentro de uma maldita armadilha
emocional; a minha irritação me impede de ver a realidade dos fatos. Aquela
pessoa lá fora existe somente como projeção da minha irritação. Eu a estou
criando e controlando. Eu decido o volume de sua voz e as palavras que ela
pronuncia. Eu estou desejando tudo isso”. Sentia as minhas vibrações
aumentarem rapidamente. Eu estava começando a sair da gaiola psíquica em
que eu me havia colocado. Às vezes voltava a sensação de que a senhora com
o celular podia existir independentemente de mim, e então a irritação
recuperava energia, mas eu sabia que naquelas circunstâncias a força de
vontade era indispensável ao objetivo de assumir a armadilha emocional e
jogar fora cada pensamento de separação e dualidade. Ela não existia lá fora.
Tentava me concentrar em mim mesmo. Eu tinha que me concentrar na minha
emoção, mais do que nas pessoas ou os eventos externos, porque o meu
problema estava dentro de mim. Sabia bem, graças aos ensinamentos de
Victoria Ignis, que o meu mal estar era causado pelo meu ‘demônio’ e não pela
situação externa.
Não tinha nada a ver com uma tentativa de evitar uma realidade insuportável
utilizando uma técnica psicológica, mas ao contrário, era o esforço mágico de
alguém que queria alcançar a realidade além da ilusão, o conhecimento direto
do mundo que está alem de maya, aquele mundo de conto de fadas que às
vezes Victoria Ignis chamava de ‘O Reino da verdade’ ou ‘ O Reino dos céus’. E
num certo momento, consegui de realmente! Enquanto eu me observava de
maneira concentrada, algo me aconteceu. Entrei em um estado de consciência
diferente, o meu coração se expandiu e comecei a chorar.
O ciúmes, a irritação, a raiva... são armadilhas emocionais. Não
fazem parte de você, daquilo que você realmente é. São demônios que
vivem dentro de você e usam sua energia emocional para nutrir-se. Um
„portador da chama‟ não se identifica com seus demônios, mas os utiliza
para despertar, para abrir uma passagem na prisão psíquica. Quando
sentir uma emoção negativa, transforme-a em uma porta para entrar
na realidade além da ilusão. Fique desperto, observe o seu sofrimento de
fora, sem se envolver, como se estivesse acontecendo com outra pessoa,
como se você fosse um cientista que deve estudar as reações de sua
cobaia. Depois aceite este sofrimento, acolha-o dentro de você e ame-o.
Se não amar o seu demônio, ele nunca poderá se transformar em anjo;
o chumbo não poderá transmutar-se em ouro; o veneno não será
remédio. O demônio é um filho seu. Você o gerou, através dos tempos e
o cristalizou dentro de você. Ele vive já permanentemente na sua casa.
Imagine por um minuto que você é um pai que coloca pra fora de casa
um filho desnaturado, porque é muito agressivo, medroso ou incapaz.
Será que este filho não baterá a porta para ser acolhido ou
reconhecido? E nem será ouvido se bater com mais força, até que um
dia, derrubará a porta com toda a fúria de que é capaz? Não deixe
espaço para os seus demônios, e ao mesmo tempo, encha-os de
compaixão, porque são crianças medrosas disfarçadas atrás de máscaras
de monstros. Um belo dia você conseguirá realizar a transmutação: a
raiva se tornará „ímpeto guerreiro‟, o ciúmes se tornará amor
incondicional... cada emoção negativa se transformará em uma emoção
superior repleta de amor. Fora da prisão psíquica, no Reino dos Céus,
existe um estado de encantamento ilimitado, de bem estar, de
confiança na perfeição de tudo o que acontece... É um mundo que
espera só você, com paciência, há milhões de anos, para te envolver em
seu morno e afetuoso abraço.

Lembro-me ainda hoje do amor sem fronteiras com que Victoria Ignis
pronunciou aquelas palavras. Seu vulto emanava uma ternura capaz de
abraçar a humanidade inteira. Nem parecia ela... tinha sido literalmente
transfigurada. Era como se alguma coisa falasse comigo através de seu corpo
físico.
Aquele mesmo Amor tinha subido comigo no trem naquela manhã. Eu
não conseguiria descrever o que senti naquela situação utilizando somente a
linguagem humana. Para dar uma idéia do mundo que se abriu de repente,
diante dos meus olhos, teria que pedir ajuda a algum humorista de Vênus sob
o efeito do ópio. Deveria pegar emprestado os ultra sons emitidos pelos
golfinhos, o canto de amor de um raro passarinho, a vibração do vento quando
atravessa teias de aranha, o olhar esquivo de uma baleia logo antes de
mergulhar novamente no mar ou o ruído ensurdecedor de uma semente que
germina.
O meu conhecimento das coisas estava ignorando a mente racional,
como se esta fosse um velho asno impossibilitado de fazer seu dever, e a
espera de ser abatido. Graças a minha força de vontade, consegui mergulhar
no coração e me abrir para uma nova dimensão do conhecimento. Como
posso então descrever o sublime? O sublime envolve a sua mente, a domina, a
aquieta e depois a derrete com seu calor. Os efeitos do sublime são
permanentes, enquanto que os da razão não o são. Eu vi, da maneira mais
óbvia do mundo, que aquela mulher sentada à minha frente estava dentro de
mim... e eu a amava, ou melhor, eu era o próprio amor que me unia a ela. Senti
em mim uma combustão que nunca pensei que pudesse ocorrer em um corpo
humano sem causar uma falha instantânea do sistema nervoso. Estou certo de
que por causa da explosão de amor vinda naquela manhã, naquele trem,
alguns anjos no céu tornaram-se mais esplêndidos e passaram à hierarquia
superior; em Sírio, centenas de almas incorporaram contemporaneamente
milhares de novas intuições artísticas; Vênus modificou ligeiramente sua rota;
e sobre a Terra – posso jurar pela salvação da minha própria alma – milhares de
crianças africanas não sentiram fome naquele dia!
Finalmente livre das pedrinhas do incômodo e do julgamento, me
sentia leve e fresco. O olhar através do qual eu observava a realidade foi
iluminado. Quando afirmo que vi uma realidade diferente – e que isto seja
claro desde já – não quero dizer que me limitei a mudar a minha opinião sobre
aquela pessoa a nível intelectual, e sim que tais visões apresentaram-se à
minha frente como uma verdade interior inquestionável. Não pensava, mas
enxergava. E se eu puder ser ainda mais preciso, não diria nem que eu
enxergava, mas que eu sentia e tocava através de novos sentidos interiores: os
‘sentidos da alma’.
Um fogo incabível saia do centro do meu peito. Percebia em mim uma
força e uma potência desmedida, enquanto a minha consciência flutuava na
mais morna e tranqüila felicidade. Eu estava inflamado de amor. Sinal claro de
que estava observando a realidade além da ilusão. Eu estava vivo, e
temporariamente livre de alucinações psíquicas. Um vislumbre de realidade
estava ali, em frente a mim em sua mais maravilhosa e impensável forma. Dei
uma olhada à minha volta: as pessoas e as coisas emanavam, de dentro de si,
uma luz intensa e quente ao mesmo tempo, todo o ambiente era repleto de
cores nunca antes vistas que eu nem poderia descrever. Só o tentar seria um
sacrilégio com a natureza. Concentrei-me instintivamente na minha escuta,
como se agora fosse óbvio fazê-lo, e notei que cada pessoa emitia uma nota:
falavam uma língua feita de música que saía de seus corpos, invadindo o
espaço. Cada ser humano tocava uma nota diferente, independentemente se
estavam falando ou não, se se moviam ou estavam parados.
A dimensão supra-racional tinha vindo me fazer uma visita, me
impregnava e se expandia de dentro de mim. Alguma coisa dentro de mim
tinha sido rompida e a minha comoção tornava-se insustentável: comecei a
chorar soluçando como uma criança. Percebi, finalmente a ‘pequenez’ das
emoções que eu havia experimentado até aquele momento a minha vida.
Envergonhei-me de ter chamado de amor certos sentimentos mesquinhos os
quais pude então enxergar. As lágrimas que escorriam pelo meu rosto
pingavam nas páginas do livro aberto sobre meus joelhos e cada gota emitia
uma vibração que ressonava em todo o meu corpo, agitando-o sutilmente;
uma massagem quase imperceptível fluía pelo meu ser, o estimulava, o
reforçava... e desse modo eu o estava curando dos velhos males de milênios.
6. UM CAMINHO DEVONIANO

No final dos anos 90 eu trabalhei por 6 meses como operário na fábrica


da Fiat, no estabelecimento Mirafiori de Torino. Naquela época Victoria Ignis
tinha começado a aparecer cada vez com mais freqüência. Havia 3 meses que
tínhamos nos encontrado pela primeira vez, e nos víamos mais ou menos a
cada 15 dias. Era como se ela me cercasse, desenhando círculos sempre mais
estreitos.
Numa manhã de setembro estava voltando para casa após o turno da noite,
que terminava as 6 horas, e a encontrei no ponto de ônibus. Estava vestida
com um simples jeans e uma blusinha verde, leve e solta. Seja qual fosse a
roupa que vestisse, estava sempre elegante, fascinante... nobre. Ela era a
demonstração viva de que nobreza não depende da família ou do aspecto
físico, mas sim do desenvolvimento interior de uma pessoa: a nobreza pode
ser somente a ‘nobreza da alma’.
A calça justa enfatizava suas formas abundantes, e mesmo sendo o tipo de
mulher que me atraia fisicamente, durante o tempo que mantive contato com
ela nunca me passou pela cabeça um pensamento sexual em relação à ela. Era
evidente que ela, de alguma forma me impedia de tê-lo. Ela tinha controle
completo de seu centro sexual e de seu corpo emocional, e isso tornava
impossível em mim a presença de qualquer energia sexual ou passional. Às
vezes se estabeleciam entre nós contatos ‘de coração a coração’ muito
intensos, com lágrimas e tudo, outras vezes ela me aterrorizava ou batia de
frente com o meu modo de pensar até que eu interrompia a conversa e ia
embora. Mas mesmo neste caso, eu sabia que ela havia provocado
deliberadamente aquela reação em mim.
Victoria Ignis era um ‘vampiro ao contrário’, capaz de grudar em você e lhe
transmitir energia, de dar vida ao invés de tirá-la. Ela me ‘mordeu’ naquele
dia no parque e me enfeitiçou com seu modo de entender a existência
totalmente oposto ao usual. Várias vezes eu me pegava pensando se ela era
uma louca, desvairada ou uma ambiciosa sem escrúpulos, mas ao mesmo
tempo eu não via a hora de reencontrá-la e contava os dias que me separavam
dela.
Exatamente como acontece após uma mordida de vampiro, percebi que
estava irremediavelmente contaminado pela sua visão de mundo. Me
assustava mas ao mesmo tempo me seduzia. Alguma coisa em mim tinha
começado a mudar. Uma vez mordido, não se pode mais voltar atrás, não
existe antídoto: estava ocorrendo em mim uma transmutação alquímica que
cedo ou tarde me faria pertencer à sua mesma espécie.
- Como pode dizer coisas tão desconcertantes com aquela calma, com aquela
naturalidade inatural?
Perguntei a ela naquela manhã no ponto de ônibus.
“O meu modo de falar com você é conseqüência do que eu vejo,
não do que eu penso. Esse seu estupor é que deveria ser
estudado! Pensar que exista um mundo de nós do qual não
temos controle... isso sim é que é uma loucura! E quem pensa
assim deveria ser internado em uma clínica e estudado a fundo!
Você não percebe a loucura desta visão somente porque é a mais
aceita socialmente. É a massa que pensa assim, então parece
normal. Isso faz com que venham tratados como loucos os poucos
sãos que existem no mundo. Nesta época de caos é a massa que
dita as leis. No governo estão os representantes da massa, não
„os melhores‟, ou seja, indivíduos que tenham alcançado a
integridade do ser. Quando a massa, ignorante das leis do
Universo, se apoderou da educação, da ciência, da medicina e da
religião, começou a decadência. Nas “sociedades tradicionais”
estas instituições eram administradas por „iniciados‟, ou seja,
pessoas que já haviam adquirido um certo desenvolvimento de
sua essência, pessoas conscientes de serem uma unidade com o
todo, líderes com o coração aberto, capazes de transmitir
valores. Através das instituições, a massa era governada e ao
mesmo tempo educada, ou seja, ajudada a evoluir, a superar a
gana de aspirar por um crescimento da consciência. Enquanto
que hoje, é a massa – os não livres, os escravos – que decide
quem governa e como conseqüência, como deve ser o programa
educacional. Mas um escravo só pode eleger ao governo
“ditadores”. Os resultados estão sob os olhos de todos: filas de
autônomos formam uma escravidão empregatícia que luta pela
sobrevivência oito ou mais horas ao dia em um escritório ou
uma fábrica. Se o indivíduo ocupa uma posição no quadro
gerencial ou se é um operário de linha, se ganha altas cifras ou
somente o que dá pra comer, não muda nada, porque a
mentalidade é sempre empregatícia: é a atitude de depender, de
viver somente para satisfazer necessidades básicas ao invés de
viver por um valor. Se a escola não educa os valores, a
necessidade torna-se o valor.

A massa que se ilude de poder se autogovernar através da


chamada „democracia‟ esta se arruinando sozinha!

A partir do momento que cada ser deve necessariamente. Por


força das circunstâncias, encontrar fora de si o próprio
governante, o resultado do infantil desejo de autogoverno do
povo é a fatal submissão a quem possuir a habilidade de iludi-lo
que isso seja efetivamente possível.

O irracional desejo de democracia terá, então, sempre como


efeito a oligarquia, que, não por acaso, é hoje a forma de
governo mais difundida no mundo dito democrático. A
democracia não é possível, mas se o povo não percebe esta
impossibilidade e quer mesmo assim se iludir de poder
autogovernar-se, então uma oligarquia – uma casta voraz e sem
valores – é automaticamente autorizada a estabelecer-se no
poder por décadas, sendo chamada de „governo democrático‟. O
povo possui aquilo que merece... sempre.”

Eis um daqueles momentos em que eu queria matá-la! Eu era um sustentador


completo da democracia e sempre acreditei que ela deveria ser defendida com
unhas e dentes, enquanto que aquela mulher me dizia que a democracia não
só não existe atualmente, como era impossível de existir.
- E então qual solução você proporia? Tentei indagar.
“Não se trata de propor alguma coisa. A história move-se de
através de ciclos, então já se sabe que após este período de caos
que já dura há milênios, virá um período de „restauração dos
mistérios‟, durante o qual se restabelecerá uma Hierarquia do
Ser, como guia de uma Sociedade Tradicional.”

Victoria Ignis me explicou que o termo ‘tradicional’ não tem nada a ver com o
termo ‘conservador’. Uma Sociedade Tradicional não é tida como tal porque
adota leis, costumes e preceitos morais do passado – o que seria uma tolice,
por retroceder em coisas que já foram superadas – mas porque se refaz no
‘princípio tradicional’, o qual afirma que dentro de uma coletividade que queira
estar alinhada com a evolução do Cosmo, todos os cidadãos se dedicam à sua
própria realização interior, cada um em seu nível e de acordo com suas
características pessoais. Em uma sociedade autenticamente tradicional, a
elevação do ser do indivíduo – a sua identificação com o Todo – é vivida como
o único objetivo da vida consciente de um ser humano. Qualquer outra
atividade – política, econômica, científica, educativa, artística – roda em torno
de tal princípio e é simplesmente sua manifestação. Com a expressão
‘Hierarquia do Ser’, não deve ser entendido nada de místico ou religioso, mas
sim um governo composto por seres íntegros, ou seja, totalmente
identificados com o Todo. Sua consciência é tão extensa que percebem o
mundo, e assim, a comunidade, como parte de si mesmos. Como consequência
agem naturalmente pelo Bem Comum, sentindo que o bem dos outros é
também seu próprio bem. Não possuem mais apegos materiais nem interesses
pessoais, mas tomam decisões impopulares, enquanto que para e-ducar o
povo é necessário obrigá-lo a dar um salto para o alto, coisa que por livre e
espontânea vontade não fariam. O povo tende a estacionar nos fundos, e
normalmente não aspira a um maior grau de consciência, já que esta implica
em maior responsabilidade. No futuro, quem demonstrará possuir um ser mais
evoluído – vale dizer, que se encontrará em um nível mais elevado de
consciência – será encarregado de fazer as decisões mais importantes, seja na
política, seja dentro de uma indústria. Não serão mais a ambição e o desejo de
obter privilégios a fazer com que um indivíduo chegue a governar um país,
mas sim suas qualidades interiores: a Inteligência iluminada, a genialidade, o
heroísmo, a capacidade de sonhar, o coração aberto, a dedicação ao ideal, o
sacrifício de si mesmo até a morte...
- Quer dizer que nos será imposto do alto uma forma de governo desse tipo? A
idéia de Hierarquia me dá medo!
“Se for imposta do alto não é autêntica. Se instalará
espontaneamente, como fruto de um processo de e-ducação do
povo. A Hierarquia é um conceito natural, inevitável. Na verdade
na natureza não existe democracia. Draco Daatson dizia:
“Quando dois homens se encontram um dá e o outro recebe”. O
que significa dar algo a uma pessoa? Não quer dizer eã zi-la,
mas ao contrário, amá-la como uma parte de si e ajudá-la a
“subir um degrau”. Somente quando você ajuda alguém que está
abaixo de você a subir no seu degrau poderá subir ao degrau
sucessivo. Não é possível subir deixando para trás um degrau
vazio, porque cedo ou tarde cairá nele novamente. Onde quer
que dois homens se encontrem, mesmo por poucos minutos
dentro de um elevador, imediatamente e inevitavelmente se
estabelece uma ordem hierárquica. A distância do Todo – a
força com a qual um indivíduo sente ser um Rei responsável pelo
seu reino, o coloca no degrau que lhe cabe nessa escada invisível.
Quanto mais íntegra e unitária é a sua consciência, ou seja,
próxima aquela do „Uno‟, que carrega tudo dentro de si, mais
elevada é sua responsabilidade. Não é a raça, a idade, o sexo, a
fama o cargo assumido, a educação, o título de estudo... mas é
exclusivamente o nível do Ser, o nível de responsabilidade pelo
que acontece no mundo, que decide, em silêncio, a posição
hierárquica de toda e qualquer pessoa. E aqui entra em jogo a
escola. Esse conhecimento deveria se tornar patrimônio de
muitos para que muitos possam elevar a própria essência.
Precisamos de pessoas capazes de transmitir esses ensinamentos
revolucionários para permitir a transição do ser humano a um
novo estado de Consciência, no grau sucessivo da evolução
planetária. Alguns comparam este período histórico com o fim
do Cretáceo, quando desapareceram os dinossauros e iniciou a
era Cenozóica. Outros o comparam ao Devoniano (na Era
Paleozóica), quando alguns anfíbios conseguiram sair da água e
dar os primeiros “passos” em terra firme. Ambas as
comparações são adequadas. A humanidade esta sendo chamada
a se transferir do mar à praia, mas essa transição requer um
esforço enorme, uma revolução do Ser. Somente alguns
conseguirão. Outros terão o mesmo fim dos dinossauros. Quando
o Ser de um organismo se torna mais elevado do que ele pode
exprimir dentro de sua espécie, tal organismo desenvolve novos
órgãos que lhe fazem pertencer a uma nova espécie e mudar de
habitat.”

Eu estava perplexo diante daquelas palavras. O meu mundo estava


desmoronando, tijolo por tijolo.
“Perceber o mundo dentro de si não é só uma questão de idéia,
mas implica em um despertar da consciência, uma
transformação física, um desenvolvimento adequado do sistema
nervoso, a reativação de algumas glândulas, a Pineal e Pituitária,
principalmente. São anos de trabalho intenso durante os quais o
indivíduo é totalmente reeducado. Precisa-se de escolas
realmente educativas, seja para os adultos ou para as crianças. À
medida que o nível de consciência do povo se elevar, sempre
mais indivíduos íntegros serão eleitos ao governo, porque o
cidadão tem sempre e somente aquilo que merece. Você possui as
qualidades para transmitir aos outros esta nova visão de mundo,
mas primeiro deve reeducar a si mesmo, liberar-se da prisão
psíquica.”

Não acredito que eu possa ter o dom de ensinar. Não tenho um título de
estudo adequado, sempre tive medo de falar em público...
“Isso não é você quem deve dizer. Te asseguro que você já tem as
qualidades que servem, mas ainda é totalmente um escravo, um
anão psicológico, e por esse motivo vive na escassez, e não
consegue nem colher sua próprias qualidades, seu poder, seu
fogo. Você é vítima daquilo que te ensinaram a escola, os pais, a
mídia... Você é vítima do Mundo e nesse estado você não serve
para qualquer atividade que não seja meramente mecânica e
baseada na sobrevivência, como comer, trabalhar como
dependente e fazer filhos. Mas pode decidir mudar, sair da
psicologia do „ser vítima do mundo‟ e assim teria a possibilidade
de se tornar alguém, um verdadeiro indivíduo.

Lembrando que tudo o que você é agora deverá morrer: suas


idéias sobre o mundo, suas convicções políticas, sua moral, o seu
modo de amar... tudo! Tirarei todas as suas falsas raízes; se
aceitar de trabalhar comigo será só porque você não faz idéia do
que te espera! Você deverá confiar completamente em mim e ter
um desejo sobre humano, incontrolável de abandonar o seu
estado atual. No momento que decidir fazer um percurso de re-
integração, você morre, e o que sobra de você é colocado em
minhas mãos. Não é uma brincadeira, vou arrancar o seu
orgulho, e isso te fará mal. Só pode enfrentar algo do gênero
quando percebe que não vale à pena continuar a viver como uma
marionete nas mãos do mundo, quando você estiver pronto para
a história do Pinóquio. Se tiver ainda qualquer coisa pra segurar,
qualquer aspecto que você ainda seja apegado, nem adianta
começar.”

- Me diga uma coisa: você me escolheu porque sou um pouco especial? Porque
você acha que tenho mais possibilidade do que muitos outros?
“Não! Muito pelo contrário! Você tem as qualidades de
divulgador e professor que poderemos usufruir no futuro, mas
não é por nada especial. Te escolhi exatamente porque você me
representava um desafio e um teste: se uma pessoa insignificante
como você conseguir se libertar, quer dizer que será também
possível para milhões de outros!”
E soltou uma risada estridente. Desse modo deu o primeiro grande golpe no
meu amor próprio. Eu não tinha sido escolhido porque eu era um eleito, mas
porque representava seu desafio pessoal. Se Victoria Ignis podia ajudar
alguém como eu a alcançar a liberdade – a tornar-me o Rei do meu mundo –
esta seria uma grande vitória para a Escola. Quem era eu? Um falido, um
depressivo crônico, alguém que tinha usado álcool e drogas por anos, alguém
cujo título de estudo era o 3º Ensino Médio completo, e cuja máxima aspiração
consistia em ser contratado por tempo indeterminado como operário de linha
da Fiat.

7. FULMINADOS OU ILUMINADOS

“A este ponto te faço uma pergunta: você quer despertar? Quer


tentar sair do mar para se aventurar na praia? Quer sentir a
mesma emoção sentida pelos primeiros anfíbios, pioneiros na
revolução planetária da época?

Parem um pouco para pensar: o que estimula um ser vivo a


fazer alguma coisa antes dos outros de sua espécie? Consegue
imaginar a psicologia daquele primeiro anfíbio que se arrastou
pra fora da água? Você já se perguntou o que significa tentar
alguma coisa realmente diferente dos outros de sua espécie?
Consegue sentir, somente por um instante, o fogo que mova
Draco Daatson, indivíduo que, há séculos atrás, se deu conta de
estar em uma prisão psíquica e organizou um grupo com o
objetivo de fugir dela?”

Me subiu um arrepio pela espinha. Abriu-se um horizonte de possibilidades e já


me sentia capaz de tudo para guiar um exercito de revoltados! Era incrível com
Victoria Ignis podia, com poucas frases certeiras, me provocar uma revolução
interior, um aumento do estado vibratório. Mas justamente quando eu estava
para derramar lagrimas de comoção, a racionalidade voltou a me dominar – Eu
realmente acredito que muitas pessoas já tenham iniciado um percurso
espiritual. São milhões pelo mundo: meditação, yoga, reiki... e só escolher. Não
acho que ainda haja espaço para ‘pioneiros’. Talvez há cinqüenta anos atrás,
mas não mais atualmente. Me olhou por alguns longos segundos e depois
disse com um tom de desprezo exagerado:
“Estou falando de uma transformação do Ser, não de recitar
mantras de maneira mecânica na frente da foto de um maestro
de barba branca! Este não é o pacote espiritual mostrado em
revistas de cabeleireiro. Eu te digo que a sua realidade está
dentro de você... e você me fala de espiritualidade?”

Eu não entendia. Qual era a diferença? Naquela época parecia tudo a mesma
coisa. ‘New Age’, esoterismo, reiki, meditação transcendental, Rene Guenon,
Gurjieff, Crowley, tantra, teosofia... Compreendendo o meu sincero embaraço,
resolveu me explicar melhor sua afirmação:
“Uma coisa é um autêntico trabalho de despertar, ou seja, de
re-integração do Ser conduzido através da auto-observação
cotidiana e a modificação do seu modo de ver o mundo, outra
coisa são as técnicas. Despertar quer dizer parar de se achar
uma criança medrosa a mercê do mundo e começar a agir como
um Rei, o regente da sua realidade. Hoje estão proliferando – e
aumentarão cada vez mais nos próximos anos – as escolas que
ensinam técnicas, mas as técnicas, por si só, não despertam não
te conduzem para fora da realidade sujeito/ objeto de maneira
consciente. Se quer despertar deve segurar sua vida com sua
próprias mãos, tornar-se um „mônaco guerreiro‟, atravessar a
dor sem culpar nada nem ninguém. Os seres humanos estão
inventando as técnicas mais estranhas... por não despertarem
nunca, por não enfrentar suas dores.”
Me explicou com paciência que a recitação dos mantras não desperta, mas ao
contrário, adormenta. Os exercícios de respiração e a energia sexual podem
levar à loucura, pois introduzem no organismo uma quantidade de energia que
o sistema nervoso ainda não esta pronto para receber. Me fez ainda uma
longa lista de exemplos dos danos criados pelo auto-uso dessas técnicas.
“Em todos esses anos nunca vi um ocidental despertar utilizando
técnicas de meditação! Nunca. Nesses grupos todos falam do
despertar, mas ninguém o obtém e ninguém resolve
radicalmente seus problemas cotidianos! Utilizar técnicas para
atingir a chamada liberação é uma ilusão da ilusão, a armadilha
da armadilha. Nunca soube de ninguém que adquiriu a
integridade do próprio ser dentro de escolas esotéricas, de
meditação, escolas de magia, escolas de gnosi. E também existem
muitas pessoas que saem contando que, por exemplo, a energia
sexual pode levar à iluminação. Simplesmente não é verdade.
Pode até ajudar, assim como fazem alguns exercícios de
respiração e até certas drogas, mas as técnicas por si só não
levam a lugar nenhum. No melhor dos casos você adquire tanta
energia que não consegue lidar com ela e que acaba por
alimentar as criticas, incômodos e julgamentos para com o
mundo... mas não te libera do Mundo.”

Me disse que, se insistimos nessas técnicas, podemos ativar os centros sutis


(chakras) e ter experiências místicas muito fortes. Neste ponto pode-se ate
achar que ‘entrou para o Uno’, o Todo, e, realmente, de um certo ponto de
vista, é de fato verdade. Mas se trata do Todo sem consciência, o pacote
indiferenciado onde a consciência do individuo está imersa há milhões de anos,
e não o Uno ao qual a consciência deve expandir-se sempre mais, o Uno
autoconsciente, fruto de um esforço consciente. Essas pessoas estão
fulminadas, e não iluminadas, como pensam. Não e mesmo possível conseguir
o despertar consciente do Ser, ate alcançar a Unidade autoconsciente,
utilizando técnicas puramente mecânicas. Por meio de drogas, energia sexual,
exercícios de respiração, recitação de mantras entre outras, podemos
somente entrar no Nada, um estado comparado ao sono profundo primário,
de onde tudo e iniciado; um estado de embotamento da consciência onde os
problemas acabam enquanto não somos nem capazes de percebê-los, e não
porque já os cavalgamos e os superamos. Ao invés de ir pra frente, voltamos
para trás.
Algumas destas técnicas são antigas, de milênios atrás, o que não quer dizer
que são boas. Pelo contrário. Elas foram concebidas por uma humanidade
muito diferente da atual. As meditações e mantras que eram ensinados na
Índia ou na China há mais de mil anos atrás não funcionam para um ocidental
que vive na era atual, obviamente! E incrível como ninguém perceba a
inutilidade, ou ainda a periculosidade que existe no querer utilizar hoje certos
métodos tão antigos. No passado, a humanidade não tinha as mesmas
potencialidades de hoje, então os estudantes almejavam o anulamento da
consciência no Uno primário, e não ao despertar consciente, ou seja, a
integridade do Ser que podemos alcançar hoje.
“Tente você mesmo, na sua pele – me cutucou Victoria Ignis –
freqüente escolas e grupos, inscreva-se a diversos cursos.
Experimente em você, assim aprenderá a discernir, de maneira
autônoma e um dia poderá explicar aos outros a diferença.”

Nos anos sucessivos, enquanto Victoria Ignis me seguia na minha formação,


freqüentei algumas escolas e me inscrevi a vários grupos: da meditação
transcendental a meditação Zazen, da escola de magia à escola tântrica, do
pensamento positivo ao Reiki. Por um certo período passei também por
algumas ordens iniciáticas aceitando assumir os típicos nomes ocultos que
iniciam sempre com Frater ou Soror... Mais pra frente foi a vez dos grupos de
Osho, onde, a um certo ponto, como ocorre s muitos que freqüentam esses
grupos, me pediram para usar um nome sannyasin, alguma coisa tipo Ananda
anam, Shivaprem, Shaktiavasa, Devananda Urusvati e assim por diante, todos
nomes que significavam ‘ flor de lótus que se abre na testa’ ou ‘sinto o amor
do Absoluto impregnar em meu coração’!
Mas na realidade, em nenhum desses lugares haviam bem claro o real
significado da mudança de nome, algo que poderia ser feito – sem
obrigatoriedade – somente após a integração do Ser, e não antes, o que indica
a morte da personalidade anagráfica e o nascimento de um verdadeiro
indivíduo. Mas a partir do momento que, nessas escolas ou grupos ninguém
atinge realmente tal estado – ou pelo menos eu nunca encontrei alguém que
tivesse conseguido – escolhe-se mudar o nome para indicar uma certa
iniciação ou até no momento de entrada na escola!
A minha experiência foi única, porque pude atravessar todos esses diversos
ambientes ditos espirituais com desapego, sem me identificar com uma
técnica, com um mestre ou tradição oculta. Em alguns lugares fiquei somente
algumas semanas, outros, freqüentei por anos. Graças às advertências de
Victoria Ignis pude agir como expectador, ou seja, indagando, ao invés de ser
somente ‘aluno’ procurando espiritualidade.
Me lembro que em um desses grupos queriam me fazer uma coisa chamada
‘ativação dos chakras’. Victoria Ignis já tinha me aconselhado a ficar longe de
qualquer um que quisesse manipular meus chakras, o que me ajudou a evitar
possíveis danos.
- “Não tente ativar os centros sutis utilizando métodos
mecânicos! – Me disse uma vez. – Quer abrir de verdade o
chakra do coração? Bem, é louvável da parte sua. O modo mais
rápido e seguro para fazê-lo consiste em parar de julgar e
decidir amar seus inimigos. Tome hoje esta firme decisão e leve-
a adiante a cada instante de sua vida. Se esforce para amar
qualquer pessoa que te incomode e em poucos meses conseguira
abrir esse chakra.

- Quer abrir o terceiro olho? – continuou em tom cada vez mais


irônico – Magnífico, gosto dos jovens que desejam crescer! Neste
caso o modo mais rápido e seguro consiste em pensar a cada
instante que cada coisa que você vê é criada para você, por você.
Em pouco tempo será um homem totalmente novo.”

Me explicou que tentar forçar a ativação de um chakra através de qualquer


técnica que seja e um comportamento arriscado. Quem por exemplo tenta
influenciar um chakra por meio de respirações particulares e mudra (posições
das mãos) o faz somente porque não quer enfrentar a dificuldade de amar
conscientemente seus inimigos, não quer parar de julgar o mundo ou então
porque não consegue desenvolver uma forca de vontade suficiente para ver o
mundo dentro de si ao invés de vê-lo fora. Escolha o ‘caminho curto’, mas este
caminho leva à loucura, e não ao despertar da consciência, pois move energias
do subconsciente que ainda não sabemos gerenciar.
Uma outra experiência certamente instrutiva foi o encontro com a meditação
transcendental: se paga um valor razoável para adquirir um mantra
personalizado para repetir por vinte minutos duas vezes ao dia, o que deveria
levá-lo ao despertar da consciência! Paguei a minha quota e participei de um
pequeno ritual de iniciação no qual me foi dado o meu mantra, somente
porque queria verificar o que Victoria Ignis havia me explicado. Portanto
verifiquei na pratica que um mantra repetido desse modo hipnotiza a mente,
equivalendo a um tranqüilizante psicológico: torne-se mais calmo e deste
modo os sofrimentos te atacam menos, mas porque aumentou a sua
sonolência, e não porque você esta despertando!
“Não e por meio de um instrumento mecânico que você pode
transformar sua visão de mundo. Ocorrem esforços repetidos e
plena consciência. Como na historia do Pinóquio: O boneco que
quer se transformar em ser humano deve primeiro conhecer a si
mesmo, aceitar seus deveres e enfrentar diversas provas. Mas as
pessoas preferem mentir a si mesmas, esmagam o grilo falante
com um martelo, se iludem de estar avançando em direção à
praia, quando na verdade naufragam na segura tranqüilidade do
fundo do oceano. Temem aventurar-se na conquista da terra
firme, em um habitat ainda não explorado pelos outros de sua
espécie!”

8. AUTO-OBSERVAÇÃO E LEMBRANÇA DE SI

Me explicou um dia Victoria Ignis. Estávamos passeando na praça em


frente à Basílica de Superga, em Turim, esmagados entre o sol e os turistas
que, no verão, entopem o local. Era um daqueles dias em que eu gostaria de
ficar ao lado dela para sempre, só para continuar ouvindo as ‘batidas de seu
coração’, qualquer coisa que não tem a ver com o órgão físico, mas a forca
emanada de um coração aberto, capaz de irradiar amor e vontade a quem
estiver por perto.
“E nisso que consiste o trabalho do despertar: auto-observação,
lembrança de si e extermínio de toda e qualquer reclamação.
Entre os personagens mais famosos, os únicos em que se pode
fazer referencia „e Gurdjieff e seus alunos, e Eugene J. Gold. Ler
seus livros não é nem de longe uma perda de tempo.”

Numa outra ocasião, me falou de Eckhart Tolle, dizendo que seu livro O poder
do agora pode ser usado como um ‘ livro de escola’. Nunca me aconselhou
outros textos.
“- Você vê estas pessoas? – disse, apontando as pessoas na rua
– Não se observam e não estão nunca presentes. Deste estado e
ausência derivam todos os seus problemas e os problemas do
mundo. A atenção, o recordo de si... são o segredo de que falam
os alquimistas. Qualquer outra interpretação será uma tentativa
frustrada ou errônea. Você entende, então, o quão absurdo é
aplicar técnicas até se congelar no sono da consciência? Se antes
você não tinha acordado, tais técnicas não fazem outra coisa
senão deixar seu sono ainda mais profundo. O objetivo primário
é despertar, e você o obtêm procurando estar presente, em um
estado de atenção em qualquer que seja a situação. Com a
finalidade de obter prosperidade na sua vida não é importante o
que você faz ou quantas coisas faz, mas como as faz. Se pergunte
sempre se esta presente enquanto age, fala, escuta... Você deve
mudar a qualidade das suas ações, e o resto será só o resultado
disso. Lembre-se de si mesmo. No inicio você pode ate repetir
mentalmente „eu estou presente‟ se acha que pode te ajudar,
mas a um certo ponto o pensamento devera transformar-se em
sensação interna. Com o tempo isso será constante, e você terá
se tornado testemunha da sua própria vida, o Rei do seu Reino.
Quando você „despertar‟ e cruzar todos os dias com milhares de
pessoas que ainda congelam no sono, na armadilha psíquica, o
seu coração sentirá uma enorme compaixão. Se você ficar triste
ou sentir desprezo, é somente porque ainda está dormindo como
eles! Acreditar em alguma coisa que estaria fora de você é uma
doença da consciência. Essa doença é a causa do seu Universo,
uma excreção, uma sombra sua. O Universo esta dentro de
você... mas amanha de manha, no trabalho, tomado pela
mecanicidade de seus gestos cotidianos, você já terá se
esquecido.”

Realmente eu havia entendido rápido que este é o pior problema para


qualquer um que tente transformar sua própria visão da vida: no dia-a-dia não
é tão simples se lembrar de olhar para a existência com outros olhos. Por
exemplo, não é fácil amar nossos inimigos, porque quando alguém nos faz
uma grosseria, normalmente não estamos ‘presentes’ e não nos lembramos
que é justamente aquele o momento de amar. Não é simples considerar o
mundo como parte de nós, porque quando perdemos dinheiro também não
estamos presentes e não nos lembramos que aquele dinheiro foi subtraído por
nós mesmos.
“Por este motivo é indispensável que você insista muito na
lembrança de si, na capacidade de estar presente a todo
instante. Quando estiver de frente a uma situação que parece
difícil, esteja presente e lembre-se de mim, lembre-se destes
princípios. Lembre-se da sua vontade de despertar. Não se
preocupe com dinheiro, sucesso ou com a saúde... Não se
preocupe nem em encontrar o par perfeito. As suas energias
devem permanecer focadas no crescimento do seu Ser, e como
conseqüência, o mundo externo começará a mudar: chegara o
trabalho certo, a riqueza correspondente, o parceiro mais
adequado. Assim, justamente porque o haver é somente uma
projeção do ser, o trabalho e o dinheiro se adequarão ao novo
nível de sua essência. Já dizia Draco Daatson: „torne-se primeiro
um Rei... e logo depois um Reino te será dado‟. Então esqueça o
exterior e lembre-se de você a cada momento e sua vida. É inútil
que você deseje qualquer coisa agora, porque você ainda não se
conhece e não sabe o que é melhor pra você. Jesus também dizia:
„procurem primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as
outras coisas lhe serão dadas em seguida‟. O Reino de Deus é o
seu Reino, porque você é Deus. Torne-se o Rei do seu Reino e
tudo o que é material te será dado. Leia atentamente o
evangelho. Nele se encontram muitas verdades...”

Parou e me fixou nos olhos com aquela intensidade que me dava sempre
calafrios.
“Nunca se esqueça de você. Esteja sempre presente a si mesmo.
Não se adormente nunca. Observe tudo o que você faz. Nunca
justifique o que esta sentindo dando a culpa a alguém lá fora.
Não deixe sua mente vagando, foque no aqui e agora, se agarre
no Agora! Não se deslumbre com o Mundo, nunca pense que a
solução se um problema esteja neste mundo. A causa do
problema e sua solução estão sempre dentro de você. O mundo é
uma projeção do que você é dentro, então se quer mais dinheiro
concentre-se em você, e não no dinheiro. Na verdade você não é
preocupado porque tem pouco dinheiro, mas tem pouco dinheiro
porque é preocupado! Quem tem atitude de prosperidade, quem
vive na excelência não se preocupa com dinheiro. Se possui uma
mentalidade vencedora não se preocupa com dinheiro, já sabe
que se o projeto é bom, se acredita se é o seu sonho... o dinheiro
chegará como conseqüência! De agora em diante, a sua única
preocupação é permanecer centrado, em um estado de atenção
sempre no aqui e agora. Não deixe nada nem ninguém destruir a
sua totalidade, a sua integridade. Não estou falando de
integridade moral ou de bondade, mas de estar centrado em
todo o seu Ser. Quando guia um carro, quando passeia, assiste
TV... Não fazê-los de maneira mecânica e inconsciente, mas
lembre-se sempre de você. A auto-observação o esforço de não
reclamar nunca, de não julgar o comportamento dos outros, a
capacidade de sentir a sua emoção e suas dores sem fugir... tudo
isso te torna integro, inatacável, invulnerável, e com o tempo, te
trará riqueza também no plano material. Não ande nunca atrás
do dinheiro, trabalhe ao interno de si mesmo e o dinheiro virá
ao seu encontro.” Quanto mais você é, mas você tem, e não
vice-versa! Seja uma rocha que, ao interno, contém um Coração
cheio de Amor.”

Eu estava zonzo. Cada frase sua havia uma potência extraordinária. Cada
conceito derretia conceitos psicológicos seculares que se encontravam dentro
de mim e que me fizeram viver como escravo por toda a minha vida. – Já
percebi que não tenho força para estar presente por muito tempo. Após
algumas tentativas me sinto esgotado e cansado – confessei.
“Realmente não se pode fazer esforço para recordar-se de si por
muito tempo. Isso deve ser feito seguindo ciclos. O nosso aparelho
psicofísico tem seus ritmos próprios. Você não pode começar a
lembrar de você e esperar que isso ocorra hoje e sempre. Não é
somente uma questão de força de vontade.”

Me explicou que o trabalho do despertar acontece como um treinamento


esportivo. Tendo praticado esportes por muitos anos, logo entendi o conceito.
Exatamente como no esporte, você não pode treinar sempre com a mesma
intensidade: existem períodos de carga e períodos de descanso.
É mais provável que os resultados apareçam na fase de descanso, quando a
consciência relaxa justamente porque não estamos fazendo esforço. Assim
como no esporte, mais do que os músculos, é o sistema nervoso que se
desgasta e que precisa de períodos de repouso.
“Quando você se esforça para recordar-se a cada instante que o
mundo esta dentro de você e que é você que o cria, esta
colocando seu sistema nervoso sob teste. Essas tentativas de virar
de ponta cabeça a ordem do Mundo devem ser sustentadas por
um nível energético muito elevado, o que requer um sistema
nervoso solido em sua base. Os pensamentos são importantes.
Existem pensamentos potentes, cheios de fogo, que alçam vôo e
que fazem voar, seja você, seja quem está à sua volta. E existem
também pensamentos flácidos, que saem da mente e caem a
poucos centímetros de distancia de seus pés deixando uma
mancha oleosa na qual outros escorregam.

Os pensamentos potentes, se repetidos, podem colocar em crise


um sistema nervoso, o inflamam. Por este motivo, é tão difícil
pensar de maneira diferente em relação ao mundo. Estou te
falando de uma transmutação alquímica. Leva muito tempo para
obter resultados concretos.

Por muitos anos você acreditou cegamente na realidade do


mundo externo. Por muitos anos seus olhos foram deslumbrados
pela ilusão. Você criou um ídolo e se colocou de frente a ele. Por
muitos anos você acreditou que o mundo tinha vontade própria!

Você já se perguntou quem decide os eventos que acontecem no


mundo? Como um idólatra você atribuiu vontade a uma
entidade metafísica externa a você, a única diferença é que você
a chamou de Mundo ao invés de Deus. Você projetou uma
sombra fora de você e ai começou a ter medo. Após todos esses
anos de psico-escravidão, será duro percorrer o caminho da
libertação e entender que o mundo não tem vontade alguma, só
você a tem, e o mundo faz aquilo que você quer! Se em você
desaparece todo o medo, toda duvida, toda hesitação, o mundo
é obrigado a te obedecer. Será duro... mas o quanto será,
depende somente de você, da força da sua resistência, da dureza
das suas cristalizações. Draco Daatson dizia: O mundo existe
porque você existe. O mundo é vivo porque você é vivo. O mundo
é só um reflexo seu. Cada homem ou mulher que você encontra é
uma parte desconhecida de você, e está ali para te ajudar a
curar uma ferida da alma. Draco Daatson foi o primeiro, agora
cabe a nós, a você....”

Me ordenou a registrar por escrito o mais fielmente possível as frases


pronunciadas por ela durante nossos encontros. Escrevi tudo. E ela me dizia:
“Porque essas são palavras veiculadoras de Fogo. Releia-as
quando perder o centro, quando se sentir desencorajado, quando
parecer que o Mundo „reassumiu as rédeas‟ de sua vida. O Fogo
libertador de Draco Daatson atravessou os séculos e agora se expressa
através de minhas palavras. Um dia o fará através das suas...”

9. UM SONHO, UMA ESCOLA


A civilização moderna são esta se desenvolvendo, isso
simplesmente não é verdade. Construímos arranha-céus, pontes,
satélites..., mas isso não é desenvolvimento, porque são todos
extensões do nosso aparelho psico-físico e se suas necessidades.
Um passarinho que constrói seu ninho não esta se desenvolvendo,
não esta melhorando a si mesmo, esta somente trabalhando pela
sua sobrevivência. Uma lagarta que vira borboleta, ao contrário,
esta realmente se transformando. Quando você pensar em uma
escola e em seu objetivo, é exatamente para isso que ela deve ser.
Quem freqüenta uma escola não deve aprender a sobreviver,
mas a transmutar a si mesmo, de lagarta à borboleta!

O que significa „Universidade‟? Tem o mesmo significado de


Universo (voltado ao „Uno‟). Uma verdadeira escola deve ser
capaz de reconduzir o individuo ao Uno, ao Todo, ajudando-o
então a libertar-se da „neuro-prisão‟ que se encontra desde os
primeiros anos de vida. Uma escola real, favorece no ser humano
o crescimento de uma psicologia livre do medo e focada na
abundância ao invés de na escassez. Eu cultivo o sonho de uma
„Escola do Ser‟ uma Escola da Alma. A Escola de hoje fabrica
escravos em série. Cinco ou seis horas ao dia sentados atrás de
uma carteira escolar submetendo-se à lavagem cerebral servem
para preparar uma geração para a mediocridade, ao inferno do
mundo ordinário, à escravidão das pelo menos oito horas de
trabalho no escritório.

Sem dúvida o ser humano é por si só criativo, mas a escola consegue fazer dele
um robô, um código de barras orgânico perfeitamente encaixável no processo
do ‘produz-consome-racha’. As escolas de todo o mundo, ate as renomadas
universidades americanas, no final das contas ensinam somente algumas
coisas para sobreviver melhor neste mundo, mas não e-ducam a sonhar um
mundo diferente. Daquelas universidades saem predadores que atropelam os
outro para agarrar um pedacinho e mundo, mas o Líder de coração aberto que
vive na abundância é outra coisa... é uma outra espécie.”
“A escola prepara milhões de máquinas biológicas a não sentir
mais a dor da alma da luta pela sobrevivência. A dor de toda
uma existência passada dependendo de alguém à espera da
pensão. A escola nos anestesia nos acostumando a suportar a
falta de um sonho na nossa vida, o sofrimento de fazer aquilo
que não amamos. Uma verdadeira escola deveria instruir sobre
como vencer o mundo, e não como vencer no mundo. Quem
quer vencer no mundo é sempre orientado ao externo de si
mesmo (extra-versus), em busca de satisfações efêmeras, escravo
da competição, porque ainda acredita que a ilusão tenha uma
vida própria, independente de sua consciência. Quem quer
vencer o mundo é, ao contrário, orientado para dentro de si
mesmo (intro-versus) porque sabe que o ambiente externo, a
posição social e a riqueza, surgem de dentro para fora, na
essência. “Quem é patrão de si mesmo governa o mundo... e o
mundo o recompensa com abundância” dizia Draco Daatson.”

Quanto a isso eu não havia nada a discutir com Victoria Ignis. A psicologia que
nos dominou até hoje realmente nos faz acreditar que somos pequenos,
fracos, impotentes e que necessitamos de segurança e proteção do alto. Nas
escolas nos ensinam que somos incapazes de conhecer o Universo ao nosso
redor e que, então precisamos da ciência; que somos incapazes de nos curar,
então precisamos da medicina; que a riqueza da terra é limitada (não da para
todos!) então, se queremos viver na riqueza, devemos competir segundo a
regra ‘mors tua vita eã’ (sua morte é a minha vida). Mas as riquezas da terra
não são como um cobertor muito curto, que quando se puxa de um lado o
outro fica descoberto. São ao contrário, uma fonte abundante na qual todos
poderíamos ter acesso se somente mudássemos nosso modo de entender a
existência. No dito terceiro mundo existem cidades cheias de riquezas que
poderiam fornecer abundancia a todos os habitantes, enquanto ocorre que a
maioria desses povos se afundam na miséria porque em seu governo faltam
homens corajosos, de coração aberto, portadores de um sonho, capazes de
visões amplas, que consigam sentir dentro de si a responsabilidade pelo bem
estar dos cidadãos. Faltam verdadeiros líderes capazes de manifestar uma
psicologia de prosperidade e riqueza ao invés de severidade e desfrutamento.
“Essa é a psicologia da escassez, do medo e do limite transmitida
nas escolas do planeta: tem pouco... e para conseguir uma parte
daquele pouco você deve lutar desde quando nasce até morrer.
Mas a verdade é que o Universo é supra-abundante, tem riqueza
para todos e não é necessário passar por cima dos outros para
conseguí-la. „Vita tua vita eã‟ (sua vida, minha vida) será o
lema do futuro.”
Victoria Ignis me explicou que os homens são servos que lutam entre si
por uma fatia a mais de ilusão, alguma coisa que os faça esquecer a dor
de serem servos. Me fez entender que podemos ter o Universo ao
nossos pés. Mas na verdade ele nos parece algo amedrontador, cheio
de armadilhas, sob o qual não havemos nenhum poder e que devemos
temer.
“e você pudesse sentir mesmo por um instante que o Universo se
encontra dentro de você e o reflete... você não conheceria mais o
medo, não entraria mais em competição pela sobrevivência, não
haveria mais limites. Este é o êxodo psicológico a qual é chamada
a humanidade de hoje. Logo haverá uma divisão entre os Elfos e
os Orcs. De um lado uma nova geração que conhece a arte do
sonhar: espíritos livres, vulcões intuitivos, grandes
comunicadores, hábeis administradores de fortunas econômicas
cercados de abundância, capazes de amar com o coração aberto
e criar riqueza ao invés de tentar agarrar a dos outros. De outro
lado os anões psicológicos, os assustados com o mundo, à procura
de assistência Estatal, incapazes de assumir responsabilidade,
ocupados com a luta pela sobrevivência, prontos a desfrutar de
seus semelhantes para ficarem vivos: são os „reclamões‟, pessoas
que lamentam da vida e atribuem sempre a alguém ou alguma
coisa a causa de suas próprias mazelas e de sua falta de
integridade. Sendo pobres por dentro – incapazes de sentir a
abundância dentro de si mesmos – serão cada vez mais pobres
externamente, porque como disse Jesus: “A quem tem será dado
e ficará na abundância; e a quem não tem será retirado ate
mesmo aquilo que possui. [Mateus 13,12].
Que façam os empregados, os políticos ou administradores,
delegados, não importa, porque até nos cargos mais altos das
organizações freqüentemente se encontram anões da consciência,
homens „pobres por dentro‟. Mesmo que, por um período,
possam aparentar serem ricos e potentes, sua riqueza e seu
poder são sempre efêmeros enquanto fundados no medo e no
parasitismo. Os habitantes do planeta foram expostos por
milênios à „educastração‟, a comandos hipnóticos ou seja, a in-
dução ao invés da e-ducação. Uma única mensagem educativa
emerge das escolas, das famílias, da mídia: o mundo é um
gigante desconhecido que decide a cada dia se vai te premiar ou
te punir, te adoentar ou te deixar com saúde, se vai te matar ou
te deixar vivo... e você é um anão que se submete à sua „vontade‟.
Essa é a única grande religião de massa: o mundo eleito à
divindade onipotente.”

Entendi logo que uma escola sustentada por um paradigma similar não fazia
nada mais do que injetar na mente dos jovens atitudes e comportamentos de
vitimas medrosas, capazes de tudo para sobreviver.
“A figura do herói – do Mônaco guerreiro cujo sucesso nunca
depende de circunstâncias externas e cuja forca deriva da
integridade do Ser – desapareceu da educação normalmente
realizada nas escolas, e cedo ou tarde desaparecerão também os
livros que falam do assunto, para que nenhum jovem sinta mais
o tal chamado. O mito esta sendo ofuscado. Então os críticos
intelectuais de televisão, os administradores comandados, que
depredam as indústrias criadas por outros, os políticos
corruptos... serão os únicos pontos de referencia para as novas
gerações. Por isso os cidadãos devem se organizar e criar escolas
privadas e alternativas, onde seja mantido vivo o Fogo da alma.”

Sempre suspeitei, mesmo antes de encontrar Victoria Ignis, que gênios,


artistas, inventores, conseguissem emergir apesar das escolas comuns e não
graças a ela. Somente quem possui uma psique tão forte e inexplicável à
instituições acadêmicas possui alguma esperança de poder utilizar seus
talentos. Música, teatro, filosofia e procura da verdade desapareceram das
aulas para darem lugar à matérias técnicas que possam criar dependentes mais
rapidamente. E contraproducente mostrar a Beleza a quem, ao invés disso
deve ser adestrado a passar o resto de sua vida nas modernas plantações de
algodão: escritórios repletos de computadores. Deve-se fazer de modo que
não se tenha como comparar, a fim de que nunca venha a sentir a dor da
condição empregatícia. A maior aberração que a escola consegue realizar dia
após dia na mente das crianças é que o servo, uma vez que se torna adulto e é
inserido no mundo do trabalho, não só não se da conta de sua condição de
escravidão, mas se sente ainda um privilegiado e aspira trabalhar oito horas
por dia, seis dias na semana, realizando um trabalho que não o apaixona. O
servo agradece a sociedade que lhe concedeu tudo isso... e coloca seus filhos
para estudarem na escola comum, pois espera que um dia tal privilégio seja
concedido também a eles! O verdadeiro servo não é aquele que sabe que é
servo, mas aquele que foi condicionado desde pequeno a considerar ‘normal’
aquela que, pelo contrário, é claramente uma condição de escravidão. É
quando o servo perde a capacidade de reconhecer sua condição e a chama
‘democracia’ ou ‘sociedade livre’ que a casta que se encontra no poder
realmente venceu. Se desde quando nascemos somos expostos a visões de
adultos que mendigam trabalho de qualquer um, será para nós, normal fazer a
mesma coisa, mas, sobretudo, teremos perdido também a capacidade de
pensar em um modelo de vida diferente.
“Lembre-se de que a prisão é sempre interior e você é o único
responsável por ela. Como conseqüência, também a libertação se
encontra dentro de você. Não delegue ao externo a causa da sua
prisão, senão terá que fazer a mesma coisa pela sua liberação. „O
homem não cria o mundo, mas é criado por ele‟ é um comando
hipnótico deletério, que te obriga a se considerar vitima dos
caprichos da sorte e te transforma em mendigo. Deste comando
hipnótico nasce a sua miséria psicológica.”

Este sistema deve falir, e falirá. Escolas e universidades continuam a formar


jovens com atitude de dependência, seguidores da religião da sobrevivência,
quando no Ocidente as vagas de trabalho para dependente esta diminuindo a
cada dia em ritmo sempre crescente. O potencial vivaz e criativo com o qual os
jovens vêm ao mundo é reduzido e confinado graças ao ensinamento
escolástico atual, de maneira que eles aspirem depender e não mais criar. Mas
um dia o trabalho dependente desaparecera definitivamente de nossas vidas,
todas as atividades repetitivas e mecânicas serão feitas por maquinas, e então
somente os criativos sobreviverão: indivíduos que saibam reinventar a própria
vida e que possuem um sonho para seguir.
“A dependência vem de uma falta de amor pela vida. Se não
confia na vida, deve depender então, de alguém. Um indivíduo
totalmente centrado, desperto, de coração aberto, não trabalha
mais: sua única ocupação torna-se o sonhar, idealizar. Esse deve
ser o seu objetivo: aumentar seu nível de riqueza e diminuir a
quantidade de trabalho. Não é utopia, não é algo do qual deve se
envergonhar, é um direito seu enquanto ser humano. Quanto
mais limitado for seu objetivo, maior a quantidade de trabalho
que devera realizar na matéria. Saia da crença de que uma
riqueza maior deve com certeza ser as custas mais sofrimento.
Liberte-se da maldição da caçada ao Paraíso Terrestre! O
trabalho é produto de uma condenação, e não a condição
natural do ser humano. Só o seu senso de separação do Uno – a
falta de integridade do seu „Eu‟ – te vincula ao trabalho físico.”
Victoria Ignis me explicou o quanto é urgente uma escola que ensine os
jovens a arte de se conhecer, da auto-observação e da auto-
transformação.
“Evidentemente, só depois de uma transformação do nosso Ser,
podemos também redescobrir valores fortes e ideais a serem
seguidos. Não se pode colocar valores artificialmente na
multidão, mas pode-se fazer emergir da interioridade do
individuo, quando este é realmente e-ducado. Não se pode
borrifar amor, heroísmo e honestidade por ai, como se faz com a
água nas plantas. Mas pode-se ajudar um indivíduo a encontrar
o amor, heroísmo e honestidade dentro de si, servindo de
espelho. A transmutação de um único ser, alavanca ao progresso
toda a espécie. Como pode ser feliz um individuo que não
conhece acima de tudo a si mesmo? Que tipo de empregado,
diretor, mãe ou pai será? A vida de todo um País depende da
existência de indivíduos que pegaram para si a responsabilidade
do mundo. Sentem a humanidade dentro de suas consciências e
assumem a paternidade.”

A primeira fase consiste em e-ducar os adultos, para que estes desejem que
tais ensinamentos sejam transmitidos também aos seus próprios filhos,
colocando-os para em escolas alternativas, inovadoras. Nestas escolas se
presta atenção ao valor da criança como indivíduo, às suas inclinações, e à
expressão de suas qualidades. Preparam líderes sonhadores, e não códigos de
barra orgânicos. A nova civilização tem fome de homens e mulheres íntegros,
universais (voltados ao Uno) e não existe ainda uma escola que possa fazê-lo.
Além de e-ducar os pais, devem ser preparados os novos professores –
Portadores da Chama – capazes de transmitir por irradiação, somente com sua
presença, a nova visão do mundo aos seus alunos. No futuro não se tratará
mais de transmitir noções de uma mente a outra, mas de contagiar com o
sonho da liberdade a alma do aluno. De coração a coração, e não de mente a
mente.
“A escola comum te ensina a ser útil somente a si mesmo,
prendendo-o na roda da sobrevivência: estude, arrume um
trabalho, forme uma família, reproduza,... Hoje precisamos de
uma escola com visão ampla, que foque os esforços do indiv íduo
em ser útil à humanidade presente e futura, e não só a si
mesmo. A criança deve crescer com a idéia de que sua vida
deverá servir de exemplo a toda a espécie, e não ser uma luta
sem fôlego pela sobrevivência. Paradoxalmente, quando
trabalhamos só para a nossa manutenção, as vezes não
conseguimos nem isso, enquanto que se nos concentramos em ser
útil aos outros, certamente teremos sempre sustento para nós e
para nossos familiares. Lembre-se das palavras de Jesus:
„Procure primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas essas
coisas lhe serão dadas em seguida‟. Este será o modo de ser da
humanidade futura. Mas então porque não sabemos ser já hoje o
que seremos daqui a cem anos? Porque somos ainda submissos ao
tempo.

Ma essa é uma outra história...

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