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Positioning Latin America within the Southern Turn in Planning:

Perspectives on an “Emerging Field”

Resumo: A conclusão desta edição especial sobre o estado do planejamento na América


Latina fornece uma série de reflexões críticas baseadas na análise comparativa cruzada
de suas sete contribuições. Em vez de resumir os resultados incorporados na pesquisa,
aludimos às perguntas temáticas colocadas na introdução, respondendo com contra-
perguntas instigantes e baseadas em argumentos, conforme revelado por cada um dos
títulos das seções que compõem esta conclusão. Para contribuir para posicionar o
planejamento na América Latina como um "campo" emergente na virada do sul no
planejamento, as seções a seguir sugerem uma série de trajetórias de pesquisa cujas
razões subjacentes se baseiam nas percepções expostas em torno de problemas
significativos de planejamento em toda a região.

1 Present status of planning: an “induced” planning disarticulation?


O planejamento na América Latina tem sido historicamente moldado por uma série de
forças motrizes econômicas, socioculturais e sociopolíticas, nas quais a influência de
formas indicativas de planejamento, ideologia política liberal e outros modos
supranacionais de intervenção determinaram o papel dessa região na divisão
internacional do trabalho. Os contextos institucionais e o conteúdo instrumental do
planejamento são geralmente “desarticulados” no sentido de que os sistemas nacionais
de planejamento tendem a não ter coerência estrutural e capacidade de implementação
dentro e através dos níveis administrativos existentes. Essa desarticulação é aqui
denominada "induzida", em parte por causa do centralismo dependente do caminho
herdado dos regimes coloniais em cada país, e em parte devido a forças econômicas e
políticas externas associadas a forças pós-coloniais e imperialistas desde o advento da
primeira divisão internacional do trabalho, que favoreceu a tendência de concentrar o
poder econômico e político em capitais como Cidade do México e Buenos Aires.

Embora alguns países como México, Brasil e Uruguai tenham institucionalizado


estruturas de planejamento nacional nas últimas décadas, os sistemas de planejamento
espacial em toda a região exibem principalmente um caráter desarticulado em termos de
instituições políticas, instrumentos políticos e modos de implementação em diferentes
níveis de planejamento. No entanto, todos os países contam com estruturas
administrativas constituídas por três níveis básicos de governo (nacional,
estadual/provincial e municipal), que lhes permitem abordar objetivos genéricos de
planejamento espacial com uma abordagem setorial clara (por exemplo, políticas de
patrimônio ambiental ou cultural). O planejamento em nível nacional tem o papel de
orientar e implementar políticas específicas em todo o país, a fim de permitir que a
legislação direcione, entre outras coisas, o planejamento de áreas metropolitanas (por
exemplo, em casos federalistas como o México e Brasil) ou facilitar processos de paz
em contextos complexos e conflitantes de grupos armados (por exemplo, Colômbia).
Em escalas intermediárias, o planejamento metropolitano passou por longos períodos de
desenvolvimento em diferentes países, conforme evidenciado por estruturas legalistas
como o Estatuto da Metrópole do Brasil, que permitiu a elaboração de planos
metropolitanos abrangentes. No entanto, o desenvolvimento de regiões metropolitanas
muitas vezes contradiz os planos implementados para o equilíbrio regional, como
evidenciado na Colômbia. Os conflitos que surgem da distribuição equitativa dos
orçamentos nacionais e da articulação de políticas em diferentes níveis administrativos
revelam a persistência do vetor de desenvolvimento centralista dependente de trajetória.
Essa dinâmica territorial explica em parte os regimes legais especiais de algumas
capitais, como Buenos Aires, que como cidade autônoma tende a funcionar como uma
jurisdição fechada dentro do espaço metropolitano mais amplo. Outro tipo de
planejamento em escala intermediária tem a ver com planos regionais implementados
em uma base ad hoc. Entre eles, estão os planos estratégicos chilenos, implementados
para situações de riscos ambientais; os planos contratuais colombianos, projetados para
construir grandes infraestruturas de alcance supralocal; ou os planos microrregionais
argentinos, desenvolvidos para o gerenciamento de conurbações de médio porte.

No entanto, a “leveza institucional” do planejamento em escalas intermediárias mostra


que a condição desarticulada das estruturas de planejamento e a falta de implementação
formalizada também podem ser eficazes, permitindo que as intervenções de
planejamento ocorram ad hoc, ou seja, onde o planejamento é mais necessário. Esse
estado de desarticulação do planejamento permitiu inovações técnicas e sociais,
tipicamente acompanhando os processos burocráticos arquetípicos associados a sistemas
de planejamento mais formalizados, do tipo ideal abrangente e integrado, conforme
evidenciado em alguns estados-nações da Europa Ocidental no final do século XX
(Galland, Elinbaum 2015). Apesar das conotações de ineficiência, portanto, “sistemas
desconexos” também podem oferecer uma possibilidade de operabilidade sutil.

Por fim, o planejamento local na América Latina é melhor definido em termos legalistas
e de uso da terra. Instrumentos importados convencionais, como zoneamento e
regulamentos de construção, são comumente usados na maioria dos países. O
planejamento local também pode ser uma expressão de inovação, como no caso dos
municípios colombianos, onde existe um sistema duplo de planos regulatórios e
territoriais. O primeiro permite a gestão dos orçamentos municipais durante mandatos
de quatro anos, enquanto o segundo envolve planos de longo prazo destinados à
implementação de grandes obras públicas e ao direcionamento do mercado de terras. Na
prática, no entanto, a aclamada autonomia municipal resultou principalmente na
descentralização das funções e responsabilidades de planejamento, muitas vezes sem a
transferência concomitante de capacidades e recursos. Em outros casos, como os
“municípios livres” mexicanos (municipios libres), existe até uma falta de competências
fiscais. A dependência técnica e orçamentária vincula os municípios às políticas em
nível nacional e à verticalidade dos partidos políticos, que funcionam na prática como
um sistema de planejamento paralelo. O redimensionamento das políticas de
planejamento que afetam o desenvolvimento urbano local é evidenciado em pelo menos
três tipos de intervenções. Primeiro, no caso dos principais distritos comerciais, que
facilitam o investimento das finanças globais nos novos bairros de elite das capitais, por
exemplo, Puerto Madero em Buenos Aires, Puerto Maravilha no Rio de Janeiro ou
Santa Fe na Cidade do México. Em segundo lugar, na construção e concessão de
grandes projetos de infraestrutura, como o sistema de transporte público de Santiago
(Transantiago). E terceiro, no caso de políticas habitacionais como o Pro.Cre.Ar da
Argentina, um programa de créditos sociais implementado pelo governo federal em uma
base descendente, que produziu efeitos negativos indiretos nos processos de
urbanização nas escalas local e metropolitana.

2 The eclipsed discourse of planning as a means to overcome underdevelopment


and its enduring legacy: planning as urban growth and management or lack of
planning discourses?
Dados e Connell (2012) definem o Sul Global em relação a “toda uma história do
colonialismo, neo-imperialismo e mudanças econômicas e sociais diferenciais através
das quais são mantidas grandes desigualdades no padrão de vida, expectativa de vida e
acesso a recursos” (p. 13). Essa definição é remanescente do discurso do planejamento
como um meio de superar o subdesenvolvimento (De Mattos 2012), que se tornou
amplamente institucionalizado pelos governos nacionais desde o advento da era pós-
Segunda Guerra Mundial. Influenciada por uma série de organizações internacionais, a
estruturação e institucionalização dos discursos de planejamento na América Latina
devem ser entendidas à luz da definição de agendas nos níveis nacional e supranacional.
Amplamente divulgado por organizações financiadas pela ONU, como a Comissão
Econômica para a América Latina (CEPAL) e o Instituto Latino-Americano de
Planejamento Econômico e Social (ILPES), o discurso genérico para superar o
subdesenvolvimento em termos econômicos e sociais em toda a região foi influenciado
inicialmente pelas ideias indicativas de planejamento e política que viajaram da Europa
Ocidental (De Mattos 2012).

Temas específicos de planejamento em busca do desenvolvimento setorial, como


infraestrutura, transporte, habitação, energia e gestão de recursos ambientais, foram
selecionados mais recentemente pelos Estados-Nação latino-americanos em
predisposição a organizações internacionais de financiamento ao desenvolvimento,
como o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Isso é elucidado por praticamente
todos os países da região, mas principalmente nos casos do Brasil e da Argentina, onde
entidades públicas e privadas são amplamente financiadas por essas organizações por
meio de agências governamentais nacionais. Como em outros lugares, o capital de
desenvolvimento é frequentemente alocado para fins de desenvolvimento urbano em
conexão com megaprojetos em grandes áreas metropolitanas (por exemplo, distritos
comerciais), uma situação que exige consequentemente maior liberalização econômica,
bem como a privatização das funções de planejamento. Assim, o capital de
desenvolvimento tornou-se cada vez mais um agente de planejamento nesses contextos,
como evidenciado pelas taxas crescentes de financeirização e valorização do capital
imobiliário (De Mattos 2016; Rolnik 2012, 2013). Questões substanciais e bastante
complexas de planejamento, que evocam implicações socioespaciais diretas, são menos
refletidas pela mídia (ver ponto 4 abaixo). A informalidade e a marginalidade urbana,
por exemplo, que afetam o espaço urbano e metropolitano em todos os países são
contingentemente definidas e construídas pelos governos nacionais. O enquadramento
dessas questões perversas tem implicações políticas relevantes, uma vez que os níveis
de pobreza e desigualdade, bem como os déficits habitacionais, dependem em grande
parte dessas definições, muitas vezes aleatórias e excessivamente subjetivas.

Ao mesmo tempo, existem evidências limitadas sobre como os discursos de


planejamento adotados pela mídia se relacionam com questões de planejamento
levantadas por disciplinas profissionais, que priorizam e legitimam claramente certos
temas em relação às suas próprias reivindicações de conhecimento, enquanto
prejudicam outros. Isso implica a competição entre disciplinas profissionais na
definição de problemas de planejamento. Ao mesmo tempo, vale ressaltar que os temas
que dominam os discursos de planejamento acadêmico podem não estar
necessariamente relacionados aos atuais desafios socioespaciais ou ambientais,
conforme enquadrados pelos governos nacionais, ou ao foco ou cobertura da mídia dos
temas de planejamento. Essa discrepância precisa ser mais abordada em pesquisas
prospectivas.

Por fim, outros desafios de planejamento relacionados às crescentes taxas de


urbanização e expansão urbana que afetam amplamente as áreas metropolitanas da
América Latina são parcialmente abordadas pelos governos nacionais a partir de
perspectivas legalistas, particularmente nos maiores e mais populosos países da região
(Brasil e México). A urbanização rápida e amplamente descontrolada de várias áreas
metropolitanas gerou demanda excessiva por espaço e desafiou instituições do governo
local, que geralmente ficam para trás das transformações urbanas. A agenda de gestão
metropolitana surgiu como uma reação à incompatibilidade entre território funcional e
território institucional e lembra os desafios de coordenação e governança espacial
enfrentados por muitas metrópoles europeias nas décadas de 1960 e 1970, que levaram
ao estabelecimento de governos metropolitanos na região ao longo do tempo (Lefèvre
1998). Além disso, os discursos de planejamento relacionados às demandas de
transporte urbano e aos riscos ambientais parecem convergir no escopo da região,
apesar das diversas realidades econômicas e políticas. No entanto, esses discursos
tendem a divergir de escala no sentido de que os governos nacionais e instituições
financeiras internacionais endossam, tratam e determinam agendas de planejamento em
uma base ad hoc.

3 The constant gap between planning theory and practice – between professional
lobbying, geopolitical imposition and cultural protectionism?
A diferença entre teoria e prática é constante no campo do planejamento, embora
também seja o produto de diferentes abordagens culturais, políticas e socioeconômicas.
Apesar da imensa diversidade de modos de prática e da ampla pluralidade de ofertas
educacionais, a separação entre teoria e prática é dupla. É percebido inicialmente
através da produção de conhecimento decorrente de experiências de planejamento, que
ainda é incipiente e carece de sistematização (com exceção de alguns relatos históricos
de planos e biografias de planejadores).

Em contraste, a teoria aplicada se desenvolveu em pelo menos três direções. O primeiro


refere-se à competição entre diferentes campos profissionais, onde a proeminência dos
arquitetos impôs em quase todos os países da América Latina. Por exemplo, um lobby
profissional estabelecido por lei no Brasil evoca a competência exclusiva dos arquitetos
na elaboração de planos. Em segundo lugar, a maioria dos planejadores é educada “in
situ” na esfera dos ministérios, secretarias e departamentos de planejamento de
diferentes níveis da administração do planejamento. Apesar da aprendizagem rotineira
centrada na administração, há evidências associadas a tradições claras de planejamento,
como o racional-abrangente de planejadores mexicanos ou peruanos ou o "urbanismo"
do sul da Europa, exibido principalmente na Argentina, Colômbia e Uruguai.
Finalmente, a imposição de consultorias externas que resultam do crescente
financiamento do planejamento por agências internacionais como o BID ou o Banco
Mundial influenciou o vínculo entre academia e prática, como evidenciado pela criação
das chamadas “extensões universitárias”, bem como consultorias realizadas por várias
universidades. Em muitos casos, os quadros teóricos científicos são diluídos por meio
de argumentos genéricos, onde conceitos se tornam slogans, como noções de
sustentabilidade, cidades inteligentes, cidades compactas, construção de lugares,
governança (apolítica) e assim por diante.

Em relação à educação universitária, houve uma tentativa de elaborar currículos


alinhados às principais teorias internacionais (com ênfase no ismo jurídico instrumental
espanhol). No entanto, como Ortiz (nesta edição) aponta, os programas acadêmicos
raramente correspondem aos problemas da prática fundamentada. Isso explica por que
os profissionais de planejamento recém-treinados acham difícil implementar na prática
seus conhecimentos acadêmicos. Por outro lado, encontramos alguns programas
acadêmicos que se baseiam em referenciais teóricos locais limitados à produção
científica latino-americana, onde a literatura inglesa tem um impacto marginal na
educação da maioria dos estudantes, apesar do fato de a maioria das universidades ter
acesso a bancos de dados acadêmicos internacionais. Além disso, muitos pesquisadores
latino-americanos têm um preconceito (bem fundamentado) contra os principais jornais
anglo-saxões que, sem dúvida, tentam impor seus problemas e métodos aos países do
sul. Essa é uma das razões por trás da criação de instituições de indexação latino-
americanas, como REDALYC ou CAPES, cujo objetivo é “promover uma alternativa às
assimetrias na distribuição do conhecimento científico” (Lopez, et al. 2008).
“Planejamento”, como termo genérico, é substituído por “planeamiento”,
“planificação”, “planejamento”, “urbanismo”, que são alguns dos neologismos que
aparecem em alguns periódicos latino-americanos de planejamento conhecidos, como os
da Colômbia. Bitácora, Cuadernos de Geografía e Cuadernos de Vivienda y Urbanismo
ou EURE e Revista INVI do Chile, para citar alguns.

No entanto, a desconexão não é tudo entre teoria e prática. Vale mencionar experiências
produtivas “feitas no Brasil”, como a aplicação do orçamento participativo e a
recuperação de mecanismos de mais-valor, ou a renovação das favelas na Colômbia,
apoiada em uma base conceitual originada in situ. A longa tradição da pesquisa latino-
americana também se destaca em termos de construção da paz, informalidade e
planejamento comunitário, embora essas teorias não consigam enquadrar-se nas
estruturas legais e burocráticas dos governos nacionais nem nas agendas de curto prazo
dos partidos políticos. Uma restrição final é a escassez de financiamento para pesquisa
básica e aplicada no planejamento, pois muitas vezes não é uma prioridade nas agendas
dos governos da "nova direita" na região.

4 An ill-fated macro-region? The continuous reproduction of socio-spatial


disparities
Do ponto de vista dos governos locais, a questão da desigualdade socioespacial em geral
e da informalidade urbana em particular foi abordada principalmente como uma
preocupação técnica, ou seja, através de instrumentos importados de planejamento do
uso da terra e tecnologias digitais (ver exemplos da Colômbia, Argentina e México) que
produzem regulamentos de planejamento local e mapas de zoneamento. A adoção de
práticas regulatórias estaduais no manejo de assentamentos informais por meio de
ferramentas seletivas de planejamento e gestão do uso da terra tem sido amplamente
influenciada por instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial.
Enquadrar a informalidade urbana como uma questão puramente técnica, no
entanto, muitas vezes deixa implicações materiais relacionadas a títulos de
propriedade e serviços urbanos em grande parte não resolvidas (Connolly, Wigle
2017). Ao mesmo tempo, a propensão a incorporar esses instrumentos juntamente com a
implantação de tecnologias espaciais nos processos de regularização de assentamentos
"informais" levanta questões sobre o caráter discricionário do planejamento do uso da
terra, a construção social de assentamentos informais e o papel do estado na reprodução
contínua das disparidades socioespaciais, bem como das divisões de classes sociais
(ibid.).

As questões socioespaciais da desigualdade urbana ou da informalidade urbana são


geralmente tratadas pela imprensa em termos bastante sensacionalistas, e os problemas
de disparidades regionais são desconsiderados consideravelmente em essência. Imagens
que justapõem bairros ricos e carentes são meios padrão nos tabloides e fontes de
jornalismo popular na Argentina, Brasil, México e Colômbia - os países com maiores
graus de discrepâncias regionais.
Na maioria dos países, talvez com exceção do Uruguai, há uma dupla escala de
segregação, a saber local (manifestada espacialmente pela dualidade de condomínios
fechados e cinturões de miséria ou favelas) e a global (ponto de partida nos
relacionamentos pós-coloniais). A reprodução das desigualdades socioespaciais mostra
como o caráter político do planejamento permanece amplamente inquestionado pela
esfera e das práticas de planejamento e de planejadores em diferentes níveis de
administração.

5 A technocratic and autonomous planning education – between specialization


craft
O planejamento é interdisciplinar na prática, mas multidisciplinar em termos e modos
de planejar a educação em diferentes escolas e universidades ao redor do mundo (ver
Ortiz, nesta edição). Esse dilema demonstra o contraste entre o local do planejamento
do conhecimento em cada campo acadêmico e o know-how produzido pela prática
profissional, e como isso influencia - ou não - a definição política de problemas,
objetivos e políticas urbanas.

A primeira pergunta tem a ver com tentativas de incorporar as competências do campo


profissional no ensino superior universitário. Mais do que um processo de
institucionalização, é uma interpretação livre da prática, como mostra a grande
diversidade de modalidades e conteúdos de ensino. Na maioria dos casos, o
planejamento é uma área de assunto menor nos currículos das escolas de arquitetura e,
em menor grau, das escolas de geografia. Desde 2000, programas de pós-graduação em
planejamento foram criados em todos os países da região, incluindo cursos de
especialização e mestrado. A Colômbia, por exemplo, possui 24 programas de
mestrado. A maioria deles é fornecida por instituições privadas e apenas algumas são
credenciadas ou avaliadas por agências estaduais de controle de qualidade educacional.

Outro ponto importante é o escopo geográfico da educação universitária no


planejamento. Em geral, as instituições educacionais mais antigas estão localizadas em
capitais nacionais, como no México, cuja principal instituição é o Colegio de México,
fundado na década de 1960. No entanto, a tendência em alguns países (ou seja,
Colômbia, Argentina, Brasil) é a descentralização de novos programas em cidades
secundárias. Mais do que uma demanda concreta, novos programas são incorporados
nos currículos educacionais das universidades públicas provinciais por razões
competitivas, com base em uma rivalidade histórica centralista-federalista (ou seja, Rio
de Janeiro-São Paulo; Buenos Aires-Rosário-Córdoba; Medellín-Bogotá etc.) Também
é importante destacar o papel de algumas instituições autárquicas ligadas à educação e,
sobretudo, às atividades de pesquisa. Entre os mais conhecidos estão o Observatório das
Metrópoles do Rio de Janeiro, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Planejamento Urbano e Regional (ANPUR) em Belo Horizonte, o Centro de Estudos
Urbanos e Regionais (CEUR) em Buenos Aires e o Centro Interdisciplinar de
Desenvolvimento Urbano e Regional (CIDU) de Santiago, atualmente hospedado na
Universidade Católica do Chile.

O segundo aspecto importante diz respeito à abordagem do planejamento da educação


em relação à experiência profissional. A maioria dos programas de pós-graduação e
mestrado concentra-se nos modos de planejar, e não nos processos de planejamento. Em
geral, a instrução de planejamento se concentra no “urbanismo” e nas habilidades
instrumentais, e não no pensamento crítico ou na reflexão prática. Como aponta Ortiz, a
maioria do planejamento educacional ignora os problemas associados a processos
democráticos, desigualdades territoriais, impactos ambientais e conflitos sociais. Além
disso, embora quase todos os países da região mostrem uma institucionalização
acelerada do planejamento educacional, o número de planejadores ativos que mantêm o
ensino formal é certamente baixo. Prevalece a formação de organizações de
planejamento estatal, o que indica que o planejamento está mais intimamente ligado ao
artesanato do que à educação acadêmica. Esse pode ser o aspecto que melhor caracteriza
o estado atual do planejamento da educação na América Latina.

6 Transfer of planning knowledge – between the colonialist tradition and the


discovery of the autochthonous?
A transferência de ideias, como aponta Latour (1992), é um processo de tradução e não
um processo de recepção, rejeição, resistência ou aceitação. Esse aspecto é central na
configuração do planejamento urbano moderno na América Latina, na medida em que a
transferência de ideias da Europa e dos Estados Unidos o influenciou. As idéias que
foram difundidas no curso da mesma estratégia em todo o continente alcançam, em
alguns casos, sua incorporação nas agendas governamentais, influenciando as mudanças
nas políticas. No entanto, essa integração sempre foi dada por meio de uma tradução
específica em cada contexto nacional e local. O último é o argumento defendido pelos
historiadores culturais quando enfatizam a especificidade local de algumas práticas e
narrativas de planejamento. De qualquer forma, a tradução do conhecimento entre a
imposição da tradição colonial e a "invenção" dos indígenas faz parte do DNA do
planejamento latino-americano. Na prática, a transferência de conhecimento pode ser
explicada em relação à presença de redes de pesquisadores e à disseminação de boas
práticas profissionais.

Quanto às redes de pesquisadores, sua consolidação mostra como o intercâmbio


acadêmico entre os países latino-americanos se intensificou nas últimas décadas. Redes
como RELATEUR, RIDEAL e RII são apenas alguns dos grupos que promovem trocas
e discussões constantes, especialmente no estudo comparativo das políticas de
planejamento. Vale destacar o caso de pesquisadores brasileiros, que tentam ir além da
transferência direta de casos para integrar procedimentos e métodos de produção de
informação estatística com países vizinhos por meio do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), em articulação com organizações multilaterais como como
Comissão Econômica para a América Latina (ECLA) e União das Nações Sul-
Americanas (USAN). A disseminação de boas práticas é a segunda questão que
influencia a transferência de conhecimento no planejamento. Apesar da influência da
exportação de ideias ao longo do século passado, a troca de conhecimentos entre os
países da região é relativamente recente. Isso se deve, por um lado, à falta de estruturas
jurídicas unificadas de planejamento que permitam comunicar o escopo e o conteúdo
dos instrumentos, como eles foram usados e com quais resultados, conforme explicado,
por exemplo, nos relatórios sobre planejamento espacial sistemas e políticas publicados
pela CEC (1997, 2006) na Europa. Isso não impediu, no entanto, a disseminação de
“boas práticas” entre os países da região. Intervenções e projetos bem-sucedidos, como
os orçamentos participativos de Porto Alegre, implementados desde o final dos anos 80,
o sistema de transporte público TransMilenio em Bogotá ou a Rede Integrada de
Transportes (BRT) em Curitiba inspiraram e atraíram inúmeras delegações de
planejadores, políticos e pesquisadores de todo o mundo, ansiosos para aprender com as
lições de planejamento estabelecidas no Sul Global. Note-se, no entanto, que muitas
dessas inovações, principalmente brasileiras e colombianas, foram implementadas em
muitas outras cidades da região de maneira quase "mecânica". O canal usado para
relatar essas práticas, ou seja, a marca da cidade, mostra os benefícios dessas
intervenções de planejamento, mas omite a abordagem de especificidades locais e
outros elementos críticos para sua implementação.

Planning in Latin America as an emerging “field”? Potential contributions


towards setting prospective research agendas
Esta edição especial compreende um primeiro esforço para analisar a ideia de
campo no que se refere à forma como a profissão de planejamento na América
Latina foi e continua sendo moldada em meio a uma série de contradições
decorrentes dos processos de institucionalização entre a leveza administrativa e o
surgimento de programas acadêmicos, e entre uma atitude protecionista contra a
teoria internacional e a importação contínua de modelos de planejamento externo.
O conceito de campo como o espaço social no qual a prática de planejamento
molda sua influência como um modo de intervenção espacial é particularmente
relevante, em parte porque tem o potencial de permitir o desenvolvimento de futuras
compreensões sobre a especificidade dos processos de urbanização entre a divisão
internacional do trabalho as representações culturais locais, e também em termos da
coexistência entre os partidos políticos que formam sistemas de planejamento paralelo e
as organizações internacionais que definem problemas de planejamento e implementam
suas soluções.

Essas representações parecem naturais quando sistemas de planejamento mais


"formalizados", como os europeus, são considerados padrões comuns. No entanto, além
das proposições universalizantes - aquelas que consideram as políticas em tribunal, ou
seja, algo bom e válido para todos, como descrito ao conceber o planejamento como
uma tecnologia institucional (Mazza, 1996) - os sistemas de planejamento também
são construções sociais e históricas definidas por habilidades cognitivas, sociais e
discursivas. dimensões (Servillo, van den Broeck, 2012). Nesse sentido, pesquisas
adicionais sobre o caráter contextual e as causalidades históricas por trás da estruturação
e adaptação dos sistemas de planejamento latino-americanos são essenciais (isto é, a
relação entre os eixos de pesquisa aqui descritos e os processos de institucionalização
colonialista que definem e moldam o entendimento preconcebido de problemas reais).

Esta edição especial procurou determinar algumas razões subjacentes a respeito do


estado dos principais problemas que qualificam o caráter geral do planejamento em toda
a região. Essa definição é relevante, pois esses problemas muitas vezes coincidem com
preconceitos gerais sem clareza. A maioria das respostas individuais desta pesquisa
concorda com suas percepções um tanto perturbadoras sobre o estado atual das coisas
associadas a diferentes formas de planejamento nos países da América Latina. A esse
respeito, o leitor deve estar ciente do fato de que os colaboradores dessa compilação,
apesar de serem nativos dos respectivos países sobre os quais escrevem, foram educados
na Europa ou na América do Norte, e vários deles continuam residindo e trabalhando lá.
O que é surpreendente, no entanto, é que essas "percepções externas" sobre preconceito
sobre ineficiência, fragmentação e burocracia no planejamento parecem coincidir com o
julgamento de muitos acadêmicos e profissionais locais.

À luz das questões teóricas acima e de suas limitações, apoiamos a visão de que uma
perspectiva do Sul Global compreende uma entrada epistemológica para superar as
conotações geográficas e, ao mesmo tempo, uma via para revisar noções tácitas como
“marginalidade” - uma forma principal de produção do espaço urbano na América
Latina (Roy 2009). Longe do imaginário de espaços não regulamentados que estão além
do alcance dos estados-nação, a marginalidade não é uma forma, mas um processo que
mostra a relação conflituosa entre movimentos sociais com e contra a estrutura
institucional dos estados-nação. O surgimento de noções como “direito à cidade”,
“função social da terra” ou “gestão democrática” constituem novas formas de
interpretar políticas de planejamento. Apesar do esforço para incorporar esses conceitos
nas estruturas formais de planejamento, um conjunto de técnicas de negação, desvio e
adiamento os filtra.

A análise comparativa tentou esclarecer a especificidade do planejamento nos países


latino-americanos para estimular os debates acadêmicos além de uma compreensão
puramente técnica ou positivista do planejamento. Para contribuir para posicionar o
planejamento na América Latina como um campo emergente na atual virada do sul no
planejamento, a pesquisa prospectiva também deve abordar as implicações
socioespaciais emergentes da influência contínua de organizações internacionais nas
agendas nacionais de desenvolvimento. Da mesma forma, uma exploração do caráter
“desarticulado” dos sistemas de planejamento na América Latina, que se dissocia da
noção supranacionalmente imposta de “integração”, pode fornecer lições críticas e
análises mais profundas sobre o caráter dos processos formalizados, burocráticos e
rotineiros de planejamento dentro e fora desta região. Como afirma Roy (2009: 828),
“embora grande parte da teoria urbana tenha gerenciado um tráfego de ideias que
direciona conceitos da EuroAmerica para o Sul global, há uma urgência e necessidade
de traçar raízes e rotas mais complexas. É nesse sentido que o estudo da informalidade
na América Latina pode dizer algo profundo sobre regimes políticos e política em todas
as cidades”.

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