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DIREITO FINANCEIRO

PROFESSORA ONÍZIA PIGNATARO

DISCIPLINA CONSTITUCIONAL E LEGAL DOS PRECATÓRIOS

1. Considerações iniciais

O precatório pode ser definido como o requerimento formulado pelo juiz da


execução ao presidente do respectivo tribunal para que se requisite a dispensa
da verba necessária ao pagamento de valor determinado por pessoa jurídica de
direito público, em decorrência de condenação transitada em julgado. A sua
previsão e regulamentação se encontra no art. 100 e seus parágrafos, da
Constituição Federal de 1988 (CF/1988).

Em análise ao regramento disposto no art. 100 da CF/1988, colhe-se que os


débitos da Fazenda Pública podem ser classificados, por exemplo, em precatórios
comuns (art. 100, caput), precatórios alimentícios (art. 100, § 1º) e precatórios
alimentícios preferenciais (art. 100, § 2º).

CF/1988, art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal,


Estaduais, Distrital e Municipais, em virtude de sentença judiciária, far -se-ão
exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à conta
dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas
dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos para este fim.

§ 1º Os débitos de natureza alimentícia compreendem aqueles decorrentes de


salários, vencimentos, proventos, pensões e suas complementações, benefícios
previdenciários e indenizações por morte ou por invalidez, fundadas em
responsabilidade civil, em virtude de sentença judicial transitada em julgado, e
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, exceto sobre
aqueles referidos no § 2º deste artigo.

§ 2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por


sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores
de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei,
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor
equivalente ao triplo fixado em lei para os fins do disposto no § 3º deste artigo,
admitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será pago
na ordem cronológica de apresentação do precatório. (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 94, de 2016.)

2. Créditos alimentícios

Os precatórios alimentícios são aqueles que decorrem de obrigações de


natureza alimentar, tais como salários, vencimentos, benefícios previdenciários
e indenizações por morte ou invalidez.

Dessa maneira, qualquer processo judicial que gere a condenação de um ente


público a um pagamento de uma verba que se refira a salários ou complemento
de salários, remunerações em geral, benefícios previdenciários e qualquer
indenização por morte ou invalidez, terá a natureza de precatório alimentício.

Diferenciam-se os créditos alimentícios dos créditos alimentícios preferenciais


exatamente pela preferência no pagamento, que a CF/1988 atribui em seu art.
100, § 2º. Trata-se dos precatórios de natureza alimentar aqueles cujos
titulares, originários ou por sucessão hereditária, tenham 60 anos ou mais, ou
sejam portadores de doença grave, ou tenham deficiência conforme previsto
em lei.

Sobre esse tema, importante ter em mente o comando da Súmula nº 655 do


Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o qual “a exceção prevista no art. 100,
caput, da Constituição, em favor dos créditos de natureza alimentícia, não
dispensa a expedição de precatório, limitando-se a isentá-los da observância da
ordem cronológica dos precatórios decorrentes de condenações de outra
natureza”.

Ademais, o STF, no Informativo nº 698, compreendeu que a limitação de três


vezes o valor da Requisição de Pequeno Valor (RPV) é constitucional, pois a
superprioridade para créditos alimentares de idosos, pessoas com deficiência e
portadores de doenças graves tem tal limite de valor no § 2º do art. 100. Logo, se
o valor a receber pelo idoso ou doente for muito elevado, parte dele será
adimplida por meio da superpreferência e o restante será adimplido na ordem
cronológica de apresentação do precatório.

Importante é conhecer o momento que esta idade mencionada no artigo em


destaque é considerada para que o sujeito passe a ter a superpreferência. Nos
termos da redação do dispositivo em comento, para que a pessoa tenha direito à
superpreferência, a verificação da idade de 60 anos ou mais deve ocorrer na data
da expedição do precatório, mesmo que haja um lapso temporal considerável
entre o ato da expedição e o do pagamento.

Por conta disso, no mesmo informativo já informado, o STF considerou


inconstitucional a expressão “na data de expedição do precatório”, redação
anterior à Emenda Constitucional (EC) nº 94/2016, por violar o princípio da
igualdade, devendo a superprioridade contemplar todos os credores que
completassem 60 anos de idade enquanto estivesse aguardando o pagamento do
precatório de natureza alimentícia.

Embora o STJ tenha, em 2014, compreendido que o direito de preferência


dispensado aos maiores de 60 anos não contempla seus herdeiros, ainda que
também sejam idosos, sob o entendimento de que o benefício é, apenas,
estendido aos credores originários, por ser de caráter personalíssimo (RMS nº
44.836/MG, rel. Min. Humberto Martins, j. 20.02.2014), a EC nº 94/2016 alterou
a regra contida no art. 100, §2º, para estatuir que, independentemente da
natureza da titularidade (i.e., se originários ou por sucessão hereditária), todos
os credores da Fazenda Pública que tenham 60 anos, sejam portadores de doença
grave ou deficiência, terão os créditos pagos com preferência sobre os demais,
até o valor equivalente ao triplo fixado em lei, admitindo o fracionamento para
essa finalidade. O restante será pago na ordem cronológica de apresentação do
precatório.

3. Créditos de pequeno valor

Para além da classificação apresentada acima, há que se observar também as


chamadas obrigações de pequeno valor, previstas no art. 100, §§ 3º e 4º, da
CF/1988:

Art. 100. (...)

§ 3º O disposto no caput deste artigo relativamente à expedição de precatórios


não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em leis como de pequeno
valor que as Fazendas referidas devam fazer em virtude de sentença judicial
transitada em julgado.

§ 4º Para os fins do disposto no § 3º, poderão ser fixados, por leis próprias,
valores distintos às entidades de direito público, segundo as diferentes
capacidades econômicas, sendo o mínimo igual ao valor do maior benefício do
regime geral de previdência social.

Interessante é a redação do § 8º do art. 100 da CF/1988, que veda o


fracionamento, a repartição ou a quebra do valor da execução para que o credor
receba parte do valor devido sem precatório, ou seja, por meio de RPV, e o
restante por meio de precatório. Entretanto, poderá o credor renunciar ao valor
que exceder o quantum de pequeno valor e receber em RPV.

CF/1988, art. 100. (...)

§ 8º É vedada a expedição de precatórios complementares ou suplementares de


valor pago, bem como o fracionamento, repartição ou quebra do valor da
execução para fins de enquadramento de parcela do total ao que dispõe o § 3º
deste artigo.

Por fim, cumpre observar que cada ente federativo fixará o limite do crédito de
pequeno valor a ser pago em favor do particular, sendo certo que a CF/1988
estabelece o limite máximo de valor do maior benefício do Regime Geral da
Previdência Social, o que deve ser observado pela União, Estados, Distrito Federal
e Municípios (art. 100, § 4º).
Terão preferências, os precatórios que tenham essa natureza alimentar, mas que
os titulares tenham 60 anos ou mais, ou sejam portadores de doença grave, ou
tenham deficiência conforme previsto em lei.

O legislador constituinte considera a situação especial do credor (ou ele é idoso -


aquele tem 60 anos ou mais - ou tem uma grave doença, ou ele tem uma
deficiência), em virtude dessa situação excepcional, ele recebe um tratamento
preferencial.

Assim, temos os precatórios comuns (que não tem preferência nenhuma), o


precatório alimentício (que tem uma preferência sobre este primeiro precatório
comum) e depois o precatório alimentício preferencial (que tem preferência
sobre os demais, ou seja, se não tiver dinheiro para pagar todos, o ente público
deve pagar primeiro o precatório alimentício preferencial -, se sobrar dinheiro
paga todos os precatórios alimentícios, e por fim ele paga os precatórios
comuns).

No entanto, para essa preferência ao "precatório alimentício preferencial", nós


temos um limite. Ou seja, só será pago com essa "super preferência" o precatório
até três vezes o valor fixado para obrigações de pequeno valor, só que aqui
admite fracionamento.

Não é sobre todo valor que essa preferência incide, ou seja, "vai ter super
preferência até três vezes o valor que se define legalmente para obrigações de
pequeno valor, o montante que se define para obrigações de pequeno valor",
multiplica-se por três e até este valor pago com essa super preferência, o restante
deverá ser pago com a preferência normal dos precatórios alimentícios.

Havia uma discussão sobre o regime de precatórios para os créditos de natureza


alimentícia, se eles deveriam seguir o regime também ou não. O Supremo
pacificou que tem sim que expedir precatório (pois alguns entendiam que não
precisava expedir precatório), ou seja, para o STF expede-se o precatório - só
que são filas separadas, porque temos a fila do precatório comum, a fila do
precatório de natureza alimentícia e a fila do precatório de natureza alimentícia
preferencial.

A ordem de pagamento: primeiro paga toda a fila de precatório de natureza


alimentícia preferencial, depois paga-se a fila inteira na ordem cronológica,
precatórios de natureza alimentícia e depois os precatórios comuns.

Dentre essas espécies de pagamento por um ente público, nós temos a


chamada obrigações de pequeno valor, estão previstas nos §§ 3º e 4º do artigo
100 da Constituição.
Tais obrigações, portanto, não admitem fracionamento, mas admitem a renúncia
do excedente para ser beneficiado por esse regime jurídico.

Como que nós sabemos qual é o limite para se pagar dessa forma rápida?

Porque esta forma de pagamento funciona da seguinte maneira: o juiz expede


uma requisição de pagamento de pequeno valor (RPV), a pessoa jurídica de
direito público tem um prazo (normalmente, de 60 a 90 dias dependendo da
legislação específica) para pagar.
Emenda Constitucional nº 62/2009

Em 2009, foi promulgada a Emenda Constitucional (EC) nº 62/2009, que, oriunda


da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 12/2006, foi responsável por
alterar o art. 100 da CF/1988, acrescentando também o art. 97 ao Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), tendo como precípua função
aprimorar a situação de dificuldade enfrentada pelos entes públicos no
pagamento de precatórios.
Principais alterações/pontos de destaque

Como explicitado acima, a PEC nº 12/2006 nasceu como uma resposta à crise
enfrentada pelos entes federativos, que acumulavam valores pendentes de
pagamento, sem dar conta de emitir os respectivos precatórios. Nesse contexto,
sete foram os principais pontos trazidos com a EC nº 62/2009:

a) Precatórios alimentícios preferenciais.

b) Compensação obrigatória.

c) Correção monetária e juros de mora para precatórios.

d) Regime especial de pagamento de precatórios.

e) Uso de precatórios para compra de imóveis públicos.

f) Cessão de crédito em precatório.

g) Assunção de débitos de precatórios pela União.


Vejamos a redação conferida ao art. 100 da CF/1988 pela EC nº 62/2009:

CF/1988, art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal,


Estaduais, Distrital e Municipais, em virtude de sentença judiciária, far -se-ão
exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à conta
dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas
dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos para este fim.

§ 1º Os débitos de natureza alimentícia compreendem aqueles decorrentes de


salários, vencimentos, proventos, pensões e suas complementações, benefícios
previdenciários e indenizações por morte ou por invalidez, fundadas em
responsabilidade civil, em virtude de sentença judicial transitada em julgado, e
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, exceto sobre
aqueles referidos no § 2º deste artigo.

§ 2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por


sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores
de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei,
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor
equivalente ao triplo fixado em lei para os fins do disposto no § 3º deste artigo,
admitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será pago
na ordem cronológica de apresentação do precatório.

§ 3º O disposto no caput deste artigo relativamente à expedição de precatórios


não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em leis como de pequeno
valor que as Fazendas referidas devam fazer em virtude de sentença judicial
transitada em julgado.

§ 4º Para os fins do disposto no § 3º, poderão ser fixados, por leis próprias, valores
distintos às entidades de direito público, segundo as diferentes capacidades
econômicas, sendo o mínimo igual ao valor do maior benefício do regime geral
de previdência social.

§ 5º É obrigatória a inclusão, no orçamento das entidades de direito público, de


verba necessária ao pagamento de seus débitos, oriundos de sentenças
transitadas em julgado, constantes de precatórios judiciários apresentados até 1º
de julho, fazendo-se o pagamento até o final do exercício seguinte, quando terão
seus valores atualizados monetariamente.

§ 6º As dotações orçamentárias e os créditos abertos serão consignados


diretamente ao Poder Judiciário, cabendo ao Presidente do Tribunal que proferir
a decisão exequenda determinar o pagamento integral e autorizar, a
requerimento do credor e exclusivamente para os casos de preterimento de seu
direito de precedência ou de não alocação orçamentária do valor necessário à
satisfação do seu débito, o sequestro da quantia respectiva.

§ 7º O Presidente do Tribunal competente que, por ato comissivo ou omissivo,


retardar ou tentar frustrar a liquidação regular de precatórios incorrerá em crime
de responsabilidade e responderá, também, perante o Conselho Nacional de
Justiça.

§ 8º É vedada a expedição de precatórios complementares ou suplementares de


valor pago, bem como o fracionamento, repartição ou quebra do valor da
execução para fins de enquadramento de parcela do total ao que dispõe o § 3º
deste artigo.

§ 9º No momento da expedição dos precatórios, independentemente de


regulamentação, deles deverá ser abatido, a título de compensação, valor
correspondente aos débitos líquidos e certos, inscritos ou não em dívida ativa e
constituídos contra o credor original pela Fazenda Pública devedora, incluídas
parcelas vincendas de parcelamentos, ressalvados aqueles cuja execução esteja
suspensa em virtude de contestação administrativa ou judicial.

§ 10 Antes da expedição dos precatórios, o Tribunal solicitará à Fazenda Pública


devedora, para resposta em até 30 (trinta) dias, sob pena de perda do direito de
abatimento, informação sobre os débitos que preencham as condições
estabelecidas no § 9º, para os fins nele previstos.

§ 11 É facultada ao credor, conforme estabelecido em lei da entidade federativa


devedora, a entrega de créditos em precatórios para compra de imóveis públicos
do respectivo ente federado.

§ 12 A partir da promulgação desta Emenda Constitucional, a atualização de


valores de requisitórios, após sua expedição, até o efetivo pagamento,
independentemente de sua natureza, será feita pelo índice oficial de
remuneração básica da caderneta de poupança, e, para fins de compensação da
mora, incidirão juros simples no mesmo percentual de juros incidentes sobre a
caderneta de poupança, ficando excluída a incidência de juros compensatórios.

§ 13 O credor poderá ceder, total ou parcialmente, seus créditos em precatórios


a terceiros, independentemente da concordância do devedor, não se aplicando
ao cessionário o disposto nos §§ 2º e 3º.

§ 14 A cessão de precatórios somente produzirá efeitos após comunicação, por


meio de petição protocolizada, ao tribunal de origem e à entidade devedora.

§ 15 Sem prejuízo do disposto neste artigo, lei complementar a esta Constituição


Federal poderá estabelecer regime especial para pagamento de crédito de
precatórios de Estados, Distrito Federal e Municípios, dispondo sobre vinculações
à receita corrente líquida e forma e prazo de liquidação.

§ 16 A seu critério exclusivo e na forma de lei, a União poderá assumir débitos,


oriundos de precatórios, de Estados, Distrito Federal e Municípios, refinanciando-
os diretamente. (...)
Importante, contudo, notar que, no julgamento das Ações Diretas de
Inconstitucionalidade (ADI) nº 4.357/DF e da ADI nº 4.425/DF, relatadas pelo
Min. Ayres Britto, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucionais
dispositivos da EC nº 62/2009. Vejamos a ementa conferida para ambos os
acórdãos:

DIREITO CONSTITUCIONAL. REGIME DE EXECUÇÃO DA FAZENDA PÚBLICA


MEDIANTE PRECATÓRIO. EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 62/2009.
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL NÃO CONFIGURADA. INEXISTÊNCIA DE
INTERSTÍCIO CONSTITUCIONAL MÍNIMO ENTRE OS DOIS TURNOS DE VOTAÇÃO
DE EMENDAS À LEI MAIOR (CF, ART. 60, § 2º). CONSTITUCIONALIDADE DA
SISTEMÁTICA DE “SUPERPREFERÊNCIA” A CREDORES DE VERBAS ALIMENTÍCIAS
QUANDO IDOSOS OU PORTADORES DE DOENÇA GRAVE. RESPEITO À DIGNIDADE
DA PESSOA HUMANA E À PROPORCIONALIDADE. INVALIDADE JURÍDICO-
CONSTITUCIONAL DA LIMITAÇÃO DA PREFERÊNCIA A IDOSOS QUE COMPLETEM
60 (SESSENTA) ANOS ATÉ A EXPEDIÇÃO DO PRECATÓRIO. DISCRIMINAÇÃO
ARBITRÁRIA E VIOLAÇÃO À ISONOMIA (CF, ART. 5º). INCONSTITUCIONALIDADE
DA SISTEMÁTICA DE COMPENSAÇÃO DE DÉBITOS INSCRITOS EM PRECATÓRIOS
EM PROVEITO EXCLUSIVO DA FAZENDA PÚBLICA. EMBARAÇO À EFETIVIDADE DA
JURISDIÇÃO (CF, ART. 5º, XXXV), DESRESPEITO À COISA JULGADA MATERIAL (CF,
ART. 5º XXXVI), OFENSA À SEPARAÇÃO DOS PODERES (CF, ART. 2º) E ULTRAJE À
ISONOMIA ENTRE O ESTADO E O PARTICULAR (CF, ART. 1º, CAPUT, C/C ART. 5º,
CAPUT). IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DA UTILIZAÇÃO DO ÍNDICE DE
REMUNERAÇÃO DA CADERNETA DE POUPANÇA COMO CRITÉRIO DE CORREÇÃO
MONETÁRIA. VIOLAÇÃO AO DIREITO FUNDAMENTAL DE PROPRIEDADE (CF, ART.
5º, XXII). INADEQUAÇÃO MANIFESTA ENTRE MEIOS E FINS.
INCONSTITUCIONALIDADE DA UTILIZAÇÃO DO RENDIMENTO DA CADERNETA DE
POUPANÇA COMO ÍNDICE DEFINIDOR DOS JUROS MORATÓRIOS DOS CRÉDITOS
INSCRITOS EM PRECATÓRIOS, QUANDO ORIUNDOS DE RELAÇÕES JURÍDICO-
TRIBUTÁRIAS. DISCRIMINAÇÃO ARBITRÁRIA E VIOLAÇÃO À ISONOMIA ENTRE
DEVEDOR PÚBLICO E DEVEDOR PRIVADO (CF, ART. 5º, CAPUT).
INCONSTITUCIONALIDADE DO REGIME ESPECIAL DE PAGAMENTO. OFENSA À
CLÁUSULA CONSTITUCIONAL DO ESTADO DE DIREITO (CF, ART. 1º, CAPUT), AO
PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE PODERES (CF, ART. 2º), AO POSTULADO DA
ISONOMIA (CF, ART. 5º, CAPUT), À GARANTIA DO ACESSO À JUSTIÇA E A
EFETIVIDADE DA TUTELA JURISDICIONAL (CF, ART. 5º, XXXV) E AO DIREITO
ADQUIRIDO E À COISA JULGADA (CF, ART. 5º, XXXVI). PEDIDO JULGADO
PROCEDENTE EM PARTE. 1. A aprovação de emendas à Constituição não recebeu
da Carta de 1988 tratamento específico quanto ao intervalo temporal mínimo
entre os dois turnos de votação (CF, art. 62, § 2º), de sorte que inexiste parâmetro
objetivo que oriente o exame judicial do grau de solidez da vontade política de
reformar a Lei Maior. A interferência judicial no âmago do processo político,
verdadeiro locus da atuação típica dos agentes do Poder Legislativo, tem de gozar
de lastro forte e categórico no que prevê o texto da Constituição Federal.
Inexistência de ofensa formal à Constituição brasileira. 2. Os precatórios devidos
a titulares idosos ou que sejam portadores de doença grave devem submeter-se
ao pagamento prioritário, até certo limite, posto metodologia que promove, com
razoabilidade, a dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, III) e a
proporcionalidade (CF, art. 5º, LIV), situando-se dentro da margem de
conformação do legislador constituinte para operacionalização da novel
preferência subjetiva criada pela Emenda Constitucional nº 62/2009. 3. A
expressão “na data de expedição do precatório”, contida no art. 100, § 2º, da
CF, com redação dada pela EC nº 62/09, enquanto baliza temporal para a
aplicação da preferência no pagamento de idosos, ultraja a isonomia (CF, art.
5º, caput) entre os cidadãos credores da Fazenda Pública, na medida em que
discrimina, sem qualquer fundamento, aqueles que venham a alcançar a idade
de sessenta anos não na data da expedição do precatório, mas sim
posteriormente, enquanto pendente este e ainda não ocorrido o
pagamento. 4. A compensação dos débitos da Fazenda Pública inscritos em
precatórios, previsto nos §§ 9º e 10 do art. 100 da Constituição Federal,
incluídos pela EC nº 62/09, embaraça a efetividade da jurisdição (CF, art. 5º,
XXXV), desrespeita a coisa julgada material (CF, art. 5º, XXXVI), vulnera a
Separação dos Poderes (CF, art. 2º) e ofende a isonomia entre o Poder Público
e o particular (CF, art. 5º, caput), cânone essencial do Estado Democrático de
Direito (CF, art. 1º, caput). 5. O direito fundamental de propriedade (CF, art. 5º,
XXII) resta violado nas hipóteses em que a atualização monetária dos débitos
fazendários inscritos em precatórios perfaz-se segundo o índice oficial de
remuneração da caderneta de poupança, na medida em que este referencial é
manifestamente incapaz de preservar o valor real do crédito de que é titular o
cidadão. É que a inflação, fenômeno tipicamente econômico-monetário,
mostra-se insuscetível de captação apriorística (ex ante), de modo que o meio
escolhido pelo legislador constituinte (remuneração da caderneta de poupança)
é inidôneo a promover o fim a que se destina (traduzir a inflação do
período). 6. A quantificação dos juros moratórios relativos a débitos
fazendários inscritos em precatórios segundo o índice de remuneração da
caderneta de poupança vulnera o princípio constitucional da isonomia (CF, art.
5º, caput) ao incidir sobre débitos estatais de natureza tributária, pela
discriminação em detrimento da parte processual privada que, salvo expressa
determinação em contrário, responde pelos juros da mora tributária à taxa de
1% ao mês em favor do Estado (ex vi do art. 161, § 1º, CTN). Declaração de
inconstitucionalidade parcial sem redução da expressão “independentemente
de sua natureza”, contida no art. 100, § 12, da CF, incluído pela EC nº 62/09,
para determinar que, quanto aos precatórios de natureza tributária, sejam
aplicados os mesmos juros de mora incidentes sobre todo e qualquer crédito
tributário. 7. O art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, com redação dada pela Lei nº
11.960/09, ao reproduzir as regras da EC nº 62/09 quanto à atualização
monetária e à fixação de juros moratórios de créditos inscritos em precatórios
incorre nos mesmos vícios de juridicidade que inquinam o art. 100, § 12, da CF,
razão pela qual se revela inconstitucional por arrastamento, na mesma extensão
dos itens 5 e 6 supra. 8. O regime “especial” de pagamento de precatórios para
Estados e Municípios criado pela EC nº 62/09, ao veicular nova moratória na
quitação dos débitos judiciais da Fazenda Pública e ao impor o
contingenciamento de recursos para esse fim, viola a cláusula constitucional do
Estado de Direito (CF, art. 1º, caput), o princípio da Separação de Poderes (CF,
art. 2º), o postulado da isonomia (CF, art. 5º), a garantia do acesso à justiça e a
efetividade da tutela jurisdicional (CF, art. 5º, XXXV), o direito adquirido e à coisa
julgada (CF, art. 5º, XXXVI). 9. Pedido de declaração de inconstitucionalidade
julgado procedente em parte. (Grifos nossos.)

Depois desse julgamento do supremo nós tivemos a Emenda nº 94/2016. Tal


emenda deu uma reconfigurada nesta figura do precatório alimentício
preferencial, de forma que o que nós temos hoje após o julgamento do supremo
e com o advento desta Emenda nº 94/2016 é o seguinte:

Quem tem direito a essa super preferência?

Quem tiver um crédito alimentício em precatório e como titular desse crédito,


seja titular originário ou por sucessão hereditária tenha 60 anos de idade ou mais
ou então seja portador de doença grave ou deficiente, conforme definido na lei.
Também foi mantida aquela super preferência para até três vezes os valor das
obrigações de pequeno valor, sendo também, admitido fracionamento pra essa
finalidade.

Próximo ponto da Emenda nº 62/2009: compensação obrigatória.


No momento da expedição do precatório a Fazenda Pública poderá compensar
crédito, mesmo que ela não tivesse ainda inscrito aquele seu crédito em dívida
ativa, ela poderia já fazer a compensação. Isso foi questionado ao STF que
entendeu totalmente inconstitucional essa compensação. Ou seja, não pode
fazer essa compensação, porque não há também o mesmo direito garantido aos
credores dos precatórios.

Logo não pode mais ser feita essa compensação pela Fazenda Pública no
momento em que ela receber uma ordem de pagamento pro precatório. No
entanto, o Supremo modulou efeitos, considerando válidas as compensações que
tinham sido feitas até o dia 25 de março de 2015.

A Compensação obrigatória, portanto, hoje está nesta situação, ou seja, não


pode ser feita, mas reconhece-se ainda a validade do que foi concretizado até a
data de 25 de março de 2015.

Vamos, então, ver outro ponto: correção monetária e juros de mora.


O Supremo decidiu ser inconstitucional o uso da TR porque ela não faz a devida
atualização monetária, mesmo porque ela vai flutuando conforme vários
critérios, podendo inclusive ficar em zero. O STF determinou que seja utilizado o
IPCA em geral e se for um crédito ali de origem tributária deve ser utilizada a Selic,
que também embute juros.

O seja, o Supremo definiu em relação a correção monetária e juros de mora para


os precatórios, considerando que a fazenda usa Selic em seu favor ela também
deve pagar pela Selic. Por isonomia para os dois lados quando se tratar de crédito
tributário, ou seja, Selic para o fisco e também para o contribuinte.
OBS: Quem teve a infelicidade de ter o precatório expedido ou pago até esta data,
vale o que foi feito de acordo com a Emenda Constitucional nº 62/2009.

O próximo ponto da Emenda Constitucional nº 62/2009: O regime especial.

O STF considerou esse regime inconstitucional, modulando, contudo, os seus


efeitos para manter o prazo de cinco exercícios financeiros a contar de
01.01.2016.
Próximo ponto da emenda: uso dos precatórios para compra de imóveis públicos.

Próximo ponto da Emenda nº 62.


Em síntese, considerando o rol de modificações conferidas com a EC nº 62/2009,
temos que, com o julgamento das ADIs nºs 4.357/DF e 4.425/DF pelo STF, foram
reconhecidas e declaradas as seguintes inconstitucionalidades:

a) Precatórios alimentícios preferenciais: a preferência especial para pessoas


acima de 60 anos de idade e portadores de doença grave se mantém, tendo se
reconhecido, contudo, a inconstitucionalidade da expressão que vinculava a
idade à data da expedição do precatório. A questão foi sensivelmente
modificada com a EC nº 94/2016, responsável por alterar o regime de precatório
alimentício preferencial.

b) Compensação obrigatória: reconheceu-se a inconstitucionalidade da


compensação inserida com a EC nº 62/2009, tendo, contudo, modulado os efeitos
para que se considerassem válidas as compensações feitas até o dia 25.03.2015.

c) Correção monetária e juros de mora para precatórios: sob esse aspecto,


tratado no art. 100, § 12, da CF/1988, o STF decidiu ser inconstitucional a correção
pelo índice oficial de remuneração básica de poupança (taxa referencial – TR), por
resultar em ofensa ao direito de propriedade. A correção monetária deverá
observar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em geral e, em se
tratando de um crédito de origem tributária, usar-se-á a taxa do Sistema Especial
de Liquidação e Custódia (Selic).

O STF também declarou que o cálculo dos juros de mora com base na TR é
inconstitucional quanto aos débitos tributários, devendo utilizar-se a taxa Selic.
Modularam-se os efeitos para considerar válidos os precatórios expedidos ou
pagos até o dia 25.03.2015.

d) Regime especial de pagamento de precatórios: de acordo com a introdução


trazida pela EC nº 62/2009, os entes da federação que estivessem com
precatórios vencidos entrariam no Regime Especial, que condicionava o
parcelamento para pagamento em até 15 anos. O STF considerou esse regime
inconstitucional, modulando, contudo, os seus efeitos para manter o prazo de
cinco exercícios financeiros a contar de 01.01.2016.

e) Uso de precatórios para compra de imóveis públicos, Cessão de crédito em


precatório e Assunção de débitos de precatórios pela União: as alterações
trazidas pela EC nº 62/2009 tiveram a constitucionalidade reconhecida pelo STF.

Questão 1
Banca: TRF - 2 ª Região (adaptada)
Ano: 2017
Orgão: TRF - 2ª Região
Cargo: Juiz Federal
Os credores de débitos de natureza alimentícia, com 60 (sessenta) anos de idade
ou mais, ou que sejam portadores de doença grave ou deficiência, assim
definidos na forma da lei, gozam do benefício de receber o valor do precatório
com preferência sobre os demais, obedecido o limite de montante equivalente
ao triplo fixado em lei para requisições de pequeno valor.
A) CERTO
A Alternativa A está correta.
Justificativa: Alternativa certa.
O item julgado está correto. De acordo com o art. 100, § 2º da CF/1988, os débitos
de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por sucessão hereditária,
tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores de doença grave, ou
pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei, serão pagos com
preferência sobre todos os demais débitos, até o valor equivalente ao triplo
fixado em lei para os fins do disposto no § 3º deste artigo (requisições de
pequeno valor).
B) ERRADO
Justificativa: Alternativa errada.
O item julgado está correto.
A assertiva corresponde a redação literal do art. 100, § 2º da CF/1988.
§ 2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por
sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores
de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei,
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor
equivalente ao triplo fixado em lei para os fins do disposto no § 3º deste artigo,
admitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será pago
na ordem cronológica de apresentação do precatório. (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 94, de 2016).

Questão 2
Banca: CESPE - Adaptada
Ano: 2011
Orgão: TRF - 5ª Região
Cargo: Juiz Federal - Adaptada
Apenas os débitos de natureza alimentícia cujos titulares tenham sessenta e cinco
anos de idade, ou mais, na data de expedição do precatório, ou sejam portadores
de doença grave, definidos na forma da lei, devem ser pagos com preferência
sobre todos os demais débitos.
A) CERTO
Justificativa: Alternativa errada.
O item julgado está incorreto.
A assertiva está incorreta por mencionar a idade de 65 anos e por excluir da
preferência as pessoas com deficiência. De acordo com o art. 100, § 2º da
CF/1988, os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por
sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores
de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei,
serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos.
B) ERRADO
A Alternativa B está correta.
Justificativa: Alternativa certa.
O item julgado está incorreto.
De acordo com o art. 100, § 2º da CF/1988, os débitos de natureza alimentícia
cujos titulares, originários ou por sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta)
anos de idade, ou sejam portadores de doença grave, ou pessoas com
deficiência, assim definidos na forma da lei, serão pagos com preferência sobre
todos os demais débitos. A assertiva está incorreta por mencionar a idade de 65
anos e por excluir da preferência as pessoas com deficiência

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