epistemologia e modernidade

AUTOR: JOSÉ RICARDO CUNHA

1ª eDIçãO

ROTEIRO DE CURSO 2008.2

Sumário

Epistemologia e modernidade
I. APRESENTAÇÃO DO CURSO..........................................................................................................................................................03 II. PROGRAMA DO CURSO ..............................................................................................................................................................05 III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA .........................................................................................................................................................07 IV. PLANO DAS AULAS ...................................................................................................................................................................10 AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS. PENSAMENTO E VERDADE.................................................................................10 AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH ...................................................................................................14 AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES ............................................................................................................17 AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS ................................................................................................................................26 AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES .......................................................................................................................................29 AULA 6. INATISMO: DESCARTES......................................................................................................................................................31 AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE ..............................................................................................................................................35 AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO ...................................................................................................................39 AULA 9. CRITICISMO: KANT ............................................................................................................................................................42 AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE ...................................................................................................................................................48 AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA .....................................................................................................................53 AULAS 12 E 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO ..............................................................................................57

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

i. apresentaÇÃo do CUrso
Saudações acadêmicas! Este é o Curso de Ciência e Modernidade – uma introdução ao problema da verdade. Trata-se de um curso de filosofia que caminha entre a filosofia geral e a filosofia do direito e sua missão é problematizar o tema da verdade. Dessa forma, serve como pressuposto lógico e didático para o curso de filosofia do semestre seguinte, que irá problematizar o tema da justiça. Assim, o aluno será inserido nos dois pilares filosóficos – verdade e justiça – especialmente escolhidos e pensados para a grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas. Toda a tradição jurídica foi forjada tendo como pressuposto conceitual, de forma mais ou menos clara, a idéia de verdade: verdade dos fatos, verdade das leis, verdade da constituição, verdade do processo, verdade do discurso, verdade do intérprete, etc. Ainda que o conceito em si de verdade nunca tenha sido tematizado de forma absoluta ou mesmo encontrado um consenso entre filósofos ou juristas, a idéia da verdade sempre esteve – e ainda está – amparando e legitimando o direito e as decisões jurídicas. Seja pela recorrência aos fatos, às normas ou à argumentação, a comunidade jurídica busca um amparo de veracidade que responda aos anseios da consciência epistemológica de toda a sociedade. Isso deve deixar claro que o problema da verdade não é específico do direito, nem mesmo da filosofia, mas, antes, trata-se de um problema humano e, por isso mesmo, social. Essa imbricação entre sociedade e verdade nunca foi tão profunda e tão explícita como na modernidade. O laicismo moderno foi convertido em cientificismo moderno e a ciência, tendo na técnica o seu braço operacional, passou a ocupar o centro do pensamento social e o lugar privilegiado da verdade. Todas as formas de conhecimento e instituições modernas foram, então, visceralmente marcadas por essa “ideologia cientificista”. Foi assim com a economia, a política, a medicina e, dentre outras, o direito que, rapidamente, converteu-se em ciência do direito. Como se não bastasse, os próprios ramos do direito iniciaram uma corrida alucinada pelo seu próprio estatuto de cientificidade e, por isso, lemos e ouvimos falar em coisas como “ciência do direito processual”, “ciência do direito penal” ou “direito civil como ciência própria dentro do direito”. Todas essas reflexões terão lugar neste curso de Ciência e Modernidade. Não se pode imaginar, hoje, a figura de um profissional crítico e hábil do direito, que seja capaz de pensar por problemas e raciocinar dialeticamente, sem que esteja inserido nesse debate filosófico e preparado para a problematização da verdade. Portanto, o presente curso não tem caráter secundário ou diletante. Embora esteja cercado pelos prazeres da filosofia, sua tarefa é árdua e exige concentração e aprofundamento. Trata-se de uma oportunidade ímpar de experiência do pensamento para a qual estão todos desde já convidados.

FGV DIREITO RIO

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realização das leituras obrigatórias.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 1. fOrmas de avaliaçãO O aluno será avaliado mediante sua participação qualificada em sala de aula.2. tendo em vista o estudo dos limites e possibilidades de uma ciência do direito no contexto da crise e da crítica do paradigma da modernidade. que contribuíram para a constituição das idéias mais fortes de verdade na cultura ocidental. trabalhos e provas que forem aplicados. 3.3. Investigar as bases positivistas do cientificismo moderno e a sua inflexão sobre a chamada “ciência do direito”. antigos e modernos. Estudar os principais fundamentos. 2. ObjetivO Geral da disciplina Introduzir noções essenciais para a problematização do conceito de verdade a partir da compreensão dos fundamentos da epistemologia.1. 2. ObjetivOs específicOs da disciplina 2. FGV DIREITO RIO 4 . Apresentar a verdade como objeto de um intenso debate histórico – filosófico e jurídico – sobre o qual não há um consenso definitivo. 2.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ii. Fundamentos filosóficos da modernidade para a verdade. Pensamento e verdade. Os positivismos jurídicos e a ciência do direito II. emunah. As idéias de verdade e seus desafios intelectuais e sociais. 11. O positivismo: Comte. Realidade e verdade: Heráclito e Parmênides. FGV DIREITO RIO 5 . 7. 8. 12. Nossa idéia de verdade: aletheia. Positivismos jurídicos e a ciência do direito. Modernidade. 5. O positivismo e os positivismos jurídicos na ciência do direito. Fundamentos filosóficos da antiguidade para a verdade. Empirismo: Hume e Locke. veritas. Unidade 2: fUndamentOs da mOdernidade 6. programa do CUrso ementa Objetivos da filosofia e filosofia do direito. 2. Conceito e verdade: Sócrates. Unidade 3: ciÊncia e direitO na mOdernidade 10. 4. Unidade 1: fUndamentOs da antiGUidade 3. Criticismo: Kant. O pensamento e as tarefas do pensamento. Inatismo: Descartes. Modernidade e ideologia cientificista. intrOdUçãO: a verdade cOmO tema e prOblema 1. 13. Formalismo Jurídico e Realismo Jurídico. verdade e ciência. Linguagem e verdade: os Sofistas. 9. Introdução ao curso e seus objetivos.

FGV DIREITO RIO 6 . mas como forma de aproche para acepções relevantes ao tema. O fio condutor de todas as reflexões é o tema da verdade e os autores serão abordados não com o fim de se conhecer suas respectivas obras. o que seria impossível nos limites da carga horária da disciplina. além de didaticamente questionável.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ObservaçãO impOrtante O Curso não se propõe a uma abordagem enciclopédica do tema proposto.

Manuel. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. 1978. Inês Lacerda. FGV DIREITO RIO 7 . CARNAP. BORNHEIM. 1994. São Paulo: Abril Cultural. Theodor. Teoria política grega: Platão e seus predecessores. Helmut.]. São Paulo: Abril Cultural. BAUMAN. Derecho e razón práctica.). 1994. 1989. Giorgio. A condição humana. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. A filosofia do direito. Brasília: EdUnb. COING. 1983. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. São Paulo: Abril Cultural. 1985. 1999. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. Lisboa: Instituto Piaget. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Modernidade e ambivalência. BARKER. HORKHEIMER. Introdução à filosofia da ciência. ______. O justo e o verdadeiro: estudos sobre a objectividade dos valores e do conhecimento. Zygmunt. Lisboa: Editorial Notícias. CANARIS. México: Fontamara. Henri. ______. Empirismo. 2002. 1993.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iii. ARENDT. a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Abril Cultural. 1998. BiBliograFia sUgerida ADORNO. CUNHA. Robert. Francis. CAPRA. 1992. Claus-Wilhelm. 1995. Os filósofos pré-socráticos. 1999. 1998. São Paulo: Ática. [s. O ponto de mutação: a ciência. Rio de Janeiro: Forense Universitária. André-Jean (Org. Curitiba: EdUFPR. José Ricardo. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. ATIENZA. São Paulo: Cultrix. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. ______. Convite à filosofia. São Paulo: Abril Cultural. COLLI. Norberto. 1980. 1984. ARNAUD. São Paulo: Abril Cultural. Rio de Janeiro: Renovar. 1995. Hannah. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1983. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. Augusto. BATIFFOL. Marilena. Gerd. São Paulo: Landy. COMTE. 2002. Testabilidade e significado. semântica e ideologia. Dicionário enciclopédico de teoria e sociologia do direito. Fritjof. Max. (Org. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Ícone. 2000. CHAUÍ. Raymond. Rudolf. Sir Ernest. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo: Cultrix. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. Campinas: Unicamp. São Paulo: Brasiliense. ______. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Elementos fundamentais da filosofia do direito.).d. ALEXY. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. ARAÚJO. O nascimento da filosofia. BOBBIO. BACON. 1999. 1980. 1983. BOUDON.

MARQUES NETO. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. LOCKE. 1978. 1998. 1981. LÖWY. Tércio Sampaio. KANT. 1980. 1973.l. Ciência com consciência. Metodologia da ciência do direito. 1990. 1980. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Saraiva. 1997. HOLLAND. Agostinho Ramalho. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural. MIAILLE. 1989. Hilton. António Manuel. FGV DIREITO RIO 8 . Discurso do método. HUME. 2001. Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. Rio de Janeiro: Forense Universitária. É o direito uma ciência? São Paulo: Rideel. HESSEN. JAPIASSU. Teorias da verdade. Investigação sobre o entendimento humano. Portugal [s. Compêndio de introdução à ciência do direito. Karl. Questões epistemológicas. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. São Paulo: Atlas. Alexandre. Panorama histórico da cultura jurídica européia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. São Paulo: Abril Cultural. Lisboa: Estampa. Teoria do conhecimento. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. 1987. Hilton. Estudos de história do pensamento filosófico. São Leopoldo: Unisinos. GARCIA-ROZA. Michel. Edgar. São Paulo: Abril Cultural. FERRAZ JR. KIRKHAM. São Paulo: Abril Cultural. 1979. 2002. Luiz Alfredo. Introdução ao estudo do direito: conceito. 1989. São Paulo: Letras e Letras. John. Maria Helena. JHERING. 1996. Mchael. São Paulo: Cortez. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Rudolf von. Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporânea. MORIN. 1991. Rio de Janeiro: Rocco. Stephen William.).]: Europa-América. 1994. 2005. JAPIASSU. John. 1980. Rio de Janeiro: Francisco Alves.). DINIZ. Johannes. KAUFMANN. A ordem oculta: como a adaptação gera a complexidade. 2003. 1979. HESPANHA. David. 1983.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE DESCARTES. Paul. Por uma filosofia crítica da ciência. São Paulo: Perspectiva. KUHN. Introdução crítica ao direito. LARENZ. KOYRÉ. ______. HAWKING. São Paulo: Abril Cultural. 1997. Richard L. Reinhard (Org. HESSE. Coimbra: Arménio Amado. Lisboa: Calouste Gulbenkian. A ciência do direito. Crítica da razão pura. FEYERABEND. HABERMAS. Contra o método. objeto e método. Thomas. René. Meditações. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. 1993. São Paulo: Loyola. Arthur (Org. Rio de Janeiro: Forense.. Goiânia: Editora da UFG. 1990. Immanuel. Lisboa: Gradiva. 2004. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Rio de Janeiro: Imago. 2000. Jürgen.

São Paulo: Ática. François (Org. Buenos Aires: Paidos. Chaïm. 2001. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei – temas para uma reformulação. PERELMAN. Colômbia: Universidad Nacional de Colômbia. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. VIDAL. A questão da verdade: da metafísica moderna ao pragmatismo. NAGEL. (Orgs. 2000. O método III: o conhecimento do conhecimento. OST. WARAT. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Rio de Janeiro: DP&A. História da Filosofia. 2001. Alain. Lisboa: Casa da Moeda. Lisboa: Dom Quixote. Susana de. TOURAINE. Miguel. Paulo. Portugal [s. POPPER. 1978. Richard. Crítica da modernidade. São Paulo: Saraiva. Filosofia do direito. PLASTINO. PRIGOGINE. 1996. Lógica jurídica. FGV DIREITO RIO 9 .). François. 1974. 1998. RORTY.). Lógica das ciências sociais. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasileiro/ EdUnb. Lisboa: Instituto Piaget. CASTRO. António Braz. 1994. Elementos para uma teoria crítica del Derecho. Ernest.]: Europa-América. RORTY. 1995.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ______. 1994. TEIXEIRA. 2006. VERDENAL. 2006. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídica. 1999. A filosofia positiva de Augusto Comte. Conseqüências do pragmatismo. Rio de Janeiro: 7 Letras. Idéias contemporâneas: entrevistas do Le Monde. 1996. Richard. Ilya et al. Vera. 1989. In: CHÂTELET. Ensaios pragmatistas sobre verdade de subjetividade. GHIRALDELLI JR. São Paulo: Martins Fontes. Luiz Alberto. René.l. Carlos Alberto. REALE.. La estructura de la ciencia. Karl. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iV. sendo meiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. Veja o que diz Santo Agostinho sobre verdade? o tempo: Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e • • Nada nos é mais familiar do que éo tempo?Tentemos fornecer uma explicação fácil e sobre o tempo? Veja o que diz Santo Agostinho “O “O que oo tempo.. foram levados alevados a filosofar. Introdução ao problema da verdade como tarefa do pensamento.” (Aristóteles. com efeito. 2). Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para “O que e do tempo?para o eu disser que o tempo é a passagem encontro o presente Tentemos terei que uma explicação o presenteé explicação. 2). ObjetivOs da aUla Apresentar o curso aos alunos e organizar a forma de avaliação. maiores.. e do em seguida pouco a poucopouco a pouco até resolverem problemas até resolverem problemas maiores. plano das aUlas aUla 1. inserir o assunto da verdade mediante uma reflexão acerca do pensamento como experiência humana. prepare-se para aPARA A AULA 3) PREPARE-SE aUla Diz Aristóteles: “Foi. Se futuro. Diz Aristóteles: “Foi. pelo espanto que os homens.” progredindo em seguida (Aristóteles. Metafísica. não encontro O que é Se eu disser que tempo é passagem tempo passado? Onde ele está?explicação. não explicação. pensamento e Verdade NOTA AO ALUNO tema da aUla Apresentação do curso. Metafísica. presente recordo o futuro é o presente para o futuro. I. pelo espanto que os homens. O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que não são familiares? não são familiares? • Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e verdade? Nada nos é mais familiar do que o tempo..um tempo futuro? oOnde ele aestá? FGV DIREITO RIO 10 Se o passado é o que eu. sendo priassim hoje como no começo. não encontro tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. terei podepassado para Como sei que e do presente éparatempo que o do o tempo passar? o presente familiar e conhecido do tempo? Mas o que é Como sei que ele passa? O que é um que perguntar: Como pode o tempo passar? o tempo? Quando quero explicá-lo.. que há mais familiar conhecido conhecido do Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. assim hoje como no começo. com efeito. do presente espero. O O quedehá de mais efamiliar edo que o tempo? que o tempo: breve. Tentemos fornecer uma explicação fácil e que é breve. O que há de mais ele passa? O que um o futuro. introdUÇÃo ao CUrso e seUs oBJetiVos. foram filosofar. e progredinprimeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. I. do do passado para oepresente e doque eu. fornecerperguntar: Como fácil e breve. terei que dizer que o tempo é o tempo presente? Mas quanto então não seria mais corretoperguntar: Como pode apenas o passar? Como sei que .

Pensar é uma atitude quepoder fazer surgir o bém deve-se pensar que pensar não é um ato. o ser superados: Temos deve ser grandes obstáculos ao pensamento que devem que não é pensar: a. É QUE AINDA NÃO COMEÇAMOS A “O que mais desafia o pensamento nessa época de desafio do pensamenPENSAR. Tam-maior do experiência existencial histórica. conseqüentes. nesse sentido. Para tanto. repetitivos.breve. ser estranhado. dois canalizado para a síntese negativa. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. ao contrário. é presente ou futuro? O que é o tempo afinal?” (Santo presente ou futuro? O que é o tempo afinal? (Santo Agostinho. 1) uma ruptura com as cartilhas e manuais. e 2) uma exigência de justificação permanente de todas as normas e padrões de conduta. do presente recordo e o futuro é o que eu. nos sentido às sujeitos ao mundo. Confissões) Agostinho. b. doo tempo é apenas o seria mais correto quanto não seria mais o futuro o que que presente espero. Pensar não é mimese. Certamente. o que faz pensamento. A massificação: esta nos cálculo perda de nossa singularidade nos definindo apenas como parte de coletivos mais ou mera repetição. deve-se ter em conta que o pensamento é uma diante da vida. Assim. Leia a parábola abaixo. antecedentes e outro. O que há de mais familiar e conhecido do que o tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. Para tanto. pensar não é conduz ànem ser eficiente. passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. este “r” é ainda de colocar o é no verbo colocar.ter claro é mais do que isso. nada melhor do que a “O QUE MAIS DESAFIA O PENSAMENTO NESSA ÉPOCA DE DESAFIO DO PENSAMENTO.” não começamos a pensar. tunidades pessoais somente podem ser forjadas sem o outro ou contra o Pensar não é racionalizar na forma de causalidades. é estou pensando em escrever a seguir. é que ainda Deve-se indagar ao aluno: Diante da afirmação de Heidegger: Por que ainda não começamos a pensar? • • Por que ainda não começamos a pensar? O que é pensar? O que é pensar? Pensar não é divagar ou devanear sem compromissos. Mas para que isso aconteça. não encontro explicação. O individualismo: este nos conduz a achar que nossa subjetividade e oporpensamento. reflita e prepare-se para o debate: 9 FGV DIREITO RIO 11 . Pensar é nos define repetição e a mesmificação.” to. do presente espero. se acha. então não presente? Mas dizer que o tempo é apenas presente? Mas quanto “r” um presente?? Quando acabo dura um presente?? Quandooacabo de colocar odurano verbo colocar. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. também as verdades são famipodem e devem serfamiliar e pode Mas para que isso aconteça. pensar é um mera inexistente dando define comocoisas e criadores e capazes de transcender amovimento de reapropriação do mundo por meio da significação e resignificação do mundo. terei EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. este “r” ainda presente ou já é passado? A palavra a presente ou já “r”passado? A palavra éque estou pensando em escrever queseguir. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. não é fazer a menos amorfos e Embora todos estes eelementospor isso ao até fazer parte de umsocial. ninguém se perde no O debate hoje. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro. mas criar. de Nietzsche. então do presente recordo e correto édizer eu. Confissões) Como o tempo é familiar e pode ser estranhado. também as verdades são familiares e liares e podem e devem ser estranhadas. nada melhor do que provocação feita por Heidegger: a provocação feita por Heidegger: Como o tempo é estranhadas. possam mesmo tempo pessoal e contexto Para se superar tais obstáculos. Representa. isto é.

Mas. em letras de ouro. e. ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. tal como o camelo. FGV DIREITO RIO 12 . ó heróis”. que não ouvem nunca o que queremos? Ou será isto: entrar na água suja. leão. há para o espírito. do espírito: como o espírito se de suportação. padecer fome na alma? 10 Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos. Meus irmãos. lançando faíscas de ouro. Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. pergunta o espírito de supor“O que tação. as mais pesatorna camelo e o camelo. Nessa linha. quer conquistar. no mais ermo dos desertos. no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga. "para que eu Ou será isto: apartar-se da nossa causa. se for a água da verdade. criança. a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto. pesadas. e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos? Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma. Procura ali. por fim. respeito. ao qual inere o leão e o cargas por fim. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. pede fardos pesados há para o espírito. pede a sua força. não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão. do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo. “Tu deves !” Valores milenários resplendem nessas escamas. para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a próe quer ficar bem carregado. animal de escamas. pergunta o espírito de suportação. quer lutar para vencer o dragão. meus irmãos. vale discutir com os alunos a parábola das Três Metamorfoses de Nietzsche: EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Das três metamorfoses Das três metamorfoses Três metamorfoses. “Tu deves” barra-lhe o caminho. Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso. marcha ele para o seu próprio deserto. o espírito Muitos fardos pesados nomeio-vos. precisa-se do leão. suportador e respeitador? Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer. ó heróis". dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão. para escarnecer da própria sabedoria? "O que há de mais pesado. o espírito Muitos a sua força.normas e padrões de conduta. das. e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim. bem como do seu derradeiro deus. as mais lha como um camelo e quer ficar bem carregado. que marcha carregado para o deserto. “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre? "O que há de pesado?". o espírito forte. e ajoede suportação. pria loucura. cargas pesadas. Certamente. quando ele nos quer assustar?” Todos estes pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação. em cada escama resplende. Três metamorfoses. para que é preciso o leão. leão e o leão. Na verdade. pesadas. criança. como presa.há de mais pesado. e ajoelha como um camelo Não será isto: humilhar-se. “O que há de pesado?”. ao qual inere o respeito. por amor à verdade. quando ela celebra o seu triunfo? Subir o tome sobre mim e minha força se alegre? para altos montes. Qual é o grande dragão. mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer. o espírito forte. pergunta o espírito de suportação. o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. nomeio-vos. pergunta o espírito de suportação. a fim de tentar o tentador? Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e.

1990. o “Tu deves”. Assim Falou Zaratustra) bibliOGrafia complementar CUNHA. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. quer a sua vontade. José Ricardo. leão e o leão. 55-74) GARCIA-ROZA. meus irmãos. (Introdução. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. meus irmãos.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. 1998. pp. agora. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. Luiz Alfredo. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. Mas dizei. Constitui para ele. é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado. e esquecimento. outrora. um ato de rapina e tarefa de animal rapinante. para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito. agora. uma roda que gira por si mesma. Sim. (Nietzsche. que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança? Inocência. a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina. um sagrado dizer “sim”. é a criança. um jogo. pp. (Capítulo 2 – O Homem como Universo Infinito de Possibilidades. e. Como o que há de mais sagrado amava ele. precisa-se do leão. Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito torna-se camelo e o camelo. um movimento inicial. por fim criança. na verdade. que poderá ainda fazer uma criança. um novo começo. aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo. 7-23) FGV DIREITO RIO 13 .

naturalmente digno de confiança. se reproduz as afirmações que são recebidas prontas. cotejar a idéia de verdade com a experiência jurídica. na ordem da incerteza também se está FGV DIREITO RIO 14 . pois em todas as relações que o homem trava (consigo mesmo. Evidentemente que a busca da verdade somente pode se realizar de forma crítica. no campo do pensamento crítico. Essa busca pela verdade gera no homem certo conforto e estabilidade por estar diante de algo que acredita como fidedigno. ser buscada. De efeito. antes de qualquer coisa. por oposição a um pensamento crítico. prepare-se para a aUla A busca pela verdade é tão antiga quanto a existência do homem no mundo. isto é. nossa idÉia de Verdade: aletHeia. apresentar as principais tradições que confluíram para nossa idéia geral de verdade. nem tudo pode ser qualificado como verdadeiro: a verdade deve. Veritas. correndo-se o sério risco de perpetuar mitos e preconceitos. com a natureza e com Deus) ele busca encontrar nela uma verdade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 2. Aqui. emUnaH NOTA AO ALUNO tema da aUla A idéia de verdade. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. em geral. Quando o senso comum se cristaliza sobremaneira. sentido e limites da verdade. Para isso. historicamente se diferenciou verdade de senso comum. No senso comum. permanecemos com nossas opiniões e crenças sem ter nenhum motivo para duvidar delas. ObjetivOs da aUla Desenvolver uma reflexão sobre o conceito. a busca pela verdade acaba por atribuir à verdade um valor em si mesmo. suas contradições e possibilidades na filosofia e no direito. Veja e reflita sobre a tabela abaixo: pensamento mÍtiCo Preso e modelado Descomprometido e irresponsável esvaziado de senso ético Simples Subserviente pensamento CrÍtiCo Livre e criativo Comprometido e responsável Marcado pelo senso ético Complexo Autônomo. Também relacionada com a verdade. com o outro. Entretanto. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. Trata-se mesmo de um traço antropológico. estamos diante do que pode ser chamado de pensamento mítico. de forma que o verdadeiro é considerado bom e a verdade um bem. é a incerteza.

Sejadistorção ou falseamento. gera medo e pagerada pela incerteza. se o que ele diz é falso. Todavia. seja porque a própria unidade ontológicaverdade se pode veritas. não há apenas várias correntes ou definições. Também relacionadatemos as verdade. Na sua forma original é atribuído ao cretense Epimênides. que ocorre no senso Essa dúvida gerada pela de uma ou outra forma: samento mítico. ao dissimulado. • Como veritas (falar-descrever) sugere validade. é conectada ao pensamento mítico. significando rigor. tas exigem novas verdades. reto. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. então sem sentido e autoreferenciado. No direito. a pergunta primacial que se coloca é sobre a natureza da verdade. mas se for verdadeira. Contudo. fatos ou situações. na incerteza tem-se plena consciência da distâncialiga-severdade e da própria da idéia de verdade: ignorância. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Contudo. A SENTENÇA SEGUINTE Édiz é verdadeiro. Por isso. Também nos oferece uma sensação m estabilidade. que teria dizer que tudo que ele diz é mentira. sentido moral ou ético. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer do mentiroso. Se a sentença é falsa. ficamos em dúvida sobre em que acreditar ou fora da verdade. FGV DIREITO RIO 15 CONTEXTO DA Formas pelas quais . com a três grandes tradições herdadas pela filosofia na con no campo do pensamento crítico. “verdade das tempo somos confrontados com expressões do tipo: verdade dos faleis”. a verdade pode se ap VERDADE SENSO temos: Esquematicamente COMUM INCERTEZA Contudo. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver.ao acontecido. certas pessoas. o latim e o hebraico. precisão. quando conectada ao pensamento crítico. verdade das leis. Contudo. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. é a incerteza. própria ignorância. então o que lê FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Como reagir ao Paradoxo do Cretense?? Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. uma sensação maior de estabilidaPARADOXO DO CRETENSE. Na sua forma o para nos afastar de todas as dúvidas e inseguatribuído ao cretense Epimênides. quando condição imprescindível na dinâmica do conhecimento. ocorreu. estaremos diante de apori das mais conhecidas aporias é o c nos oferece Trata-se de descobrir o que é da forma que é. Nessa segunda hipótese. Nessa segunda hipótese. comum ou penem como agir Todavia. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Aqui. então o que lê diz é falso. é um mentiroso. Na ocorrência da incerteza. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. ou P de. Por isso. Essa dúvida sugere evidência ou a acreditar ou em como ao pensamento crítico. então afirmado que todos os cretenses são mentirosos. quando conectada ao pensamento mítico. porém. Contudo. diante dediferentemente do fatos ou situações. se o cretense. é evidente à razão. somos herdeiros de três tradições lingüístico- A verdade nos conforta e alivia.Dessa forma. mas recorrentes: • Como emunah (crer-confiar) sugere confiança em convenções ou co conhecimento. ela não é absoluta ou suficiente manifesta como tal ao espírito por oposição ao falso. na verdade. sem porque novas situações e descoberranças.está fora da incerteza também se • verdade. verdade do processo ou verdade do intérprete. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Na ocorrência da incerteza. o fato é que mesmo em relação à verdade. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. nos impulsiona na busca pela verdade. correspondência entre nosso intelecto e a coisa. porém. • crer-confiar: da ao que será. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele se ele diz a verdade. estaremos diante de aporias. Contudo. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. No direito não basta a verdade pura e simples. a pergunta primacial que05] coloca é sobre a natureza [inserir figura se culturais distintas: o grego. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. gera medo e paralisia. a da verdade diz sofrer fissuras. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. nos impulsiona na busca conceitos Deve-se deixar claro aos alunos como a busca pela verdade envolve três pelo uso correto das regras da linguagem. O verdadeiro é o enunciado ou o relato Claro que. na incerteza tem-se plena consciência da distância da verdade e da incerteza. então ela é falsa. não há paradoxo. exatidão na Em Latim. Como Epimênides é ele mesmo um ela é verdadeira. é condição imprescindível na dinâmica do distintos. Também o A verdadegrego. pela verdade. diferentemente do que ocorre no senso comum ou pensamento • falar-descrever: liga-se ao EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que foi. O verdadeiro é o do mentiroso. O que é verdade? Acerca dessa questão riam os sentidos possíveis paraaa verdade. então o que lê diz “é verdadeiro”. É tos. coerência interna ex ralisia. o verdadeiro se revelado. Em nos conforta e alivia. se o que ele diz é falso. descrição ou num relato sobre algo. e o direito? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Dependendo do sentido ao qual se atribua mais peso. Seja fundamental. seja porque a própria unidade ontológica da verdade pode sofrer Assim. na ordem daver-perceber: liga-se ao que é. a verdade comumente diz-se aletheia. que são estabelecidos ou herdados pelos sujeitos. Trata-se de apresentar algo exatamente como Uma das mais conhecidas aporias é o chamado então o que lê diz “é falso”. Mas podemos dar uma 18 versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: que ele diz é verdadeiro. Portanto. Assim. dúvidas e inseguranças.1 Independente dos resultados a que se chegue. O que é a verdade? Pense sobre quais seda verdade. logo está mentido. Assim. numa linguagem fiel ou Paradoxo PARADOXO DO CRETENSE. mítico. ela não é absoluta ou suficiente para nos afastar de porque novas situações e descobertas exige verdades. significando o não-oculto. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. ficamos em dúvida sobre em que • Como alethéia (ver-perceber) quando conectada agir diante de certas pessoas.

Marilena. 94-107) complementar KIRKHAN. 2003. e Capítulo 9 O Paradoxo do Mentiroso) FGV DIREITO RIO 16 . (Unidade 3. pp. Teorias da verdade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória CHAUI. Richard. São Leopoldo: Unisinos. (Capítulo 1 Projetos de Teoria da Verdade. Capítulo 2 Buscando a Verdade. 1994. e Capítulo 3 As Concepções de Verdade. São Paulo: Ática. Convite à filosofia.

A mudança e a transformação e. por conseqüência. que surge a partir da força dos contrários é. nada é absoluto. Dispersa-se e reúne-se. ao mesmo tempo. O movimento. O movimento. DESENVOLVIMENTO Introduzir o debate acerca do do devir como problema ontológico para a Introduzir o debate acerca do ser e ser e do devir como problema ontológico para a res) se destacaram pela visceralidade de seus pensamentos. Duas compreensões distintas e opostas da ontologia que. em si mesmo. tempo. descansa (o fogo etéreo a força dialética por excelência: "movendo-se. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES aUla 3. Tamanha a importância desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma escola própria. Logo. com tal com tal denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico a idéia de a idéia de movimento. avança e se retira. na medida em que nada é.” (Fragmento 91) A mudança. são partes imanentes da filosofia heraclitiana. reveste-se de imprevisibilidade. por conseqüência. Heráclito de Éfeso e mênides dede Eléa plantaram para toda a a posteridade filosófica a questão do ser e do Parmênides Eléa plantaram para toda posteridade filosófica a questão do ser e devir. avança e se retira. movimento. a partir do encontro com seu24 contrário: “Tudo se faz por contraste. a força dialética por excelência: “movendo-se. Heráclito de Éfeso e Pardestacaram pela visceralidade de seus pensamentos. descansa (o fogo etéreo do corpo do corpo humano)” (Fragmento 84 a). Objetivos da aUla compreensão da verdade acercareal. a transformação e. dois grandes filósofos (ou pensadores) se “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. o conflito são FGV DIREITO RIO 17 . informam e desafiam as concepções de verdade. O pensamento logológico de Heráclito. em si mesmo. Duas compreensõesdistintas e opostas da ontologia do realdo real que. compreensão da verdade acerca do do desenvOlvimentO 3. Heráclito de Éfeso HERÁCLITO DE ÉFESO “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúnese. pois o movimento constante faz com que as coisas sejam e não sejam numa dinâmica sem fim. escola própria. o conflito. ObjetivOs daaula 2. Tamanha a importância partes imanentes da filosofia heraclitiana. ao mesmo do devir. da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia” (Fragmento 08). que surge a partir da força dos contrários é.” (Fragmento 91) No No contexto do pensamento pré-socrático. mas vem-a-ser. ao encontrar-se com o dinamismo do movimento. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. realidade e Verdade: HerÁClito e parmÊnides NOTA AO PROFESSOR NOTA AO ALUNO 1. dois grandes filósofos (ou pensadocontexto do pensamento pré-socrático. real. informam e desafiam as concepções de verdade. Tema da aula tema da aUla Ontologia do real: o real: o problemado devir. e Ontologia do problema do ser e do ser do devir.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE AULA 3.

o outro. de Persuasão ser. sentido absoluto“verdadeser verdadeou “verdadeverdades? exercício da palavra. physis encontra-se na nos a própria physis. mas se for verdadeira. havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Fundamental paradoxo. e tu recebe a palavra que ouviste. de número três. o único caminho filosófico é o do ser. o pensar passa a ser atividade inversão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: caminho ser na sua manifestação lógica: a verdade. Como fenômeno da Acreditar no devir heraclitiano E O DIREITO? Como o problema significa admitir que tudo está em constante Acreditar no devir heraclitiano da verdade se relaciona significa admitir que tudo está em mutação. É é nomeado no Como possível falar-se em Aqui. investigatório capaz de levar diz é falso. que é e portanto que não inquérito que são a que 20 que não é não é caminho (pois à verdade caminho o outro. manifestada na dizer que tudo que ele diz é mentira. concomitantemente. proposições mutuaaquela que realmente leva à certeza. É leis”. do Ser. não há E se a pois o fato de alguém ser mentiroso nãopráxis humana pelo lógos. são a pensar: o primeiro. o único 1 caminho e o direito?filosófico é o do ser. pode-se considerar como o principal representante da Filosofia e seu Desta forma. mas não a natureza das coisas. eu é preciso não de todo incrível. então a conclusão não poderia ser outra. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. diz das expressões uma essência imutável. Assim. como final as categorias final da autores expressões tipo: inclusive o Direito.Para uma boa síntese cf. Desta forma. então ela é falsa.Claro que. o caso o caso Board Aqui. este acompanha). essência de todo o universo. o Dilidar todos os entes: com os problemas de insegurança jurídica? é preciso ser.que demarca o caráter de do do processo” ou seriam do intérprete”. que mesmo em relação à verdade. Se a sentença é falsa. sendo considerar como o principal representante da Filosofia do Ser. eu te direi. o fato é é. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. sentido moral ou ético.seus ou valor) para que fato ou mudança de um de seus elementos um de fato elementos (norma. mutuamente verdadeira. “verdade do processo” ou “verdade dodo direito. não pode ser outra coisa. Logo. pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüível). os únicos cami. Assim.1 Independente dos resultados a que se chegue. justificação. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Por isso. senão a daproposições instaurado por Parmênides no paradoxo ser / não ser. não há apenas várias correntes ou definições. PARMÊNIDES DE ELÉA CONTEXTO DA DESCOBERTA parmênides de eléa 1 Formas pelas quais "Pois bem. então liação entre se forexclusivas. sentido moral ou ético. aquele que possibilita o pensar. inclusive o Direito. No direito não basta a verdade pura e simples.. pois o ser atividade da verdade se relaciona O Acreditar tempo somos confrontadoso filósofo no admitir que tudo número com o Direito? mesmo é a pensar do A todo no ser fatos”. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. então. de uma geração após Heráclito. senão a da filiação entre ser e pensar. está excluído da verdade. EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE OBS: Heráclito é o pai da dialética. irá a segunda verdadeiramente impossível. dada sua não-existencialidade. de uma geração após Heráclito e seu principal opositor. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Por isso.de todo o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA universo. principal opositor. Parmênides. na verdade. outra.do Se “verdade dos fatos”. Contudo. Mas podemos dar uma aquele que possibilita o pensar. Não havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único caminho então o que lê diz “é falso”. porque é manifestada palavra que racional-argumentativa. No direito não basta a verdade pura e simples. O e tipo: “verdade dos parmenídico portanto ser".portanto que te digo. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. dada sua não-existencialidade. para Parmênides. é atalho de todo incrível. não há paradoxo. este é absoluto. nem o dirias. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. está excluído da verdade. sendo Fundamental na leitura do fragmento nos parece o caráter totalmente excludente a segunda verdadeiramente impossível. eu te digo. “Pois bem. Independente dos resultados a que se chegue. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. Se levarmos em conta a estrutura tridimensional intérprete”." (Fragmento 2). os únicos chega-se à decisão. oeste é o absoluto. nhos deTeorias da de inquérito pensar: o primeiro. então conclusão não poderia ser Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há preciso ser. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Não Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. não pode ser outra coisa. FGV DIREITO RIO 18 26 . Education (aoEducation (ao trabalhadas poraula). porque reito seria marcado por uma essência imutável.caminhosVerdade. a própria physis. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. e o que aquele que é. Mas o problema aponta para o paradoxo real que prática racional-argumentativa. ainda que uma camada superficial e acidental possa vir a se modificar. é atalho ser. deve-se apresentar aos alunos da aula). pois o mesmo é aopensar e portanto ser”. ser / não ser. que é e portanto Richard L. o fato é que mesmo em relação à verdade. pois nem conhecerias o nem o dirias. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. levarmos em das com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da cultura o direito importa valores. aquela quedois caminhos a certeza. leis”. Se a sentença é falsa.” (Fragmento 2). então ela é falsa. de Persuasão é acompanha). para Parmênides. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. devemos considerar que basta a possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como devemos considerar que basta a mudança de (norma.. irá dis.deverdade – filosófica: a do ser e a do não ser. e tu recebe a palavra que ouviste. encontra-se na práxis é nomeado diz o filósofo no seu fragmento E se a physis O sentido absoluto do serhumana pelo lógos. na leitura do fragmento quer parece o caráter totalmente excludente Claro que.. A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA no exercício da na prática demarca o caráter de todos os entes:aaquele que é. é não ser. então ela é verdadeira.(pois à verdade que não é e portanto que é preciso não ser. se o que ele a verdade. “verdade com significaseu fragmento de guarda três. São Leopoldo: Unisinos. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver.. verdadeiro e justo se não é. não há apenas várias correntes ou definições. Veja-seVeja-se Brown x Brown x Board os os demais também se transformem. No direito. o pensar passaE aDIREITO? Como o problemaintrínseca do ser na sua manifestação lógica: ". e a primeira distinguir realmente leva básicos a reflexão alétheia. na verdade. e a primeira instaurado por Parmênides no paradoxo à verdade – alétheia. concomitantemente. essência trínseca doinvestigatório capaz de levar “. São duas fipode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa... KIRKHAM. “verdade conta a estrutura tridimensional do direito. tinguir dois caminhos básicos de reflexão filosófica: a do ser e a do não ser. que não é (pois não é exeqüível). então que lê diz “é verdadeiro”. lidar com os problemas de insegurança jurídica? valor) para que demais também se transformem.. e o direito? [inserir figura 07] E O DIREITO? constante mutação.pode-se Parmênides. No direito. que não é e este então. 2003. e o que não muito tempo pela filosofia. eu te direi. São duas mente exclusivas. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas.. mas ser e pensar.

no entanto. deveriam freqüentar escolas primárias segregadas. a organização de direitos civis mais antiga do país. Seção Parmênides de Eléia) complementar KIRK.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória BORNHEIM. Os filósofos pré-socráticos. O caso FGV DIREITO RIO 19 .S. 1994. Seção Heráclito de Éfeso. Na primavera de 1954. um negro. sofreu um desafio nos Estados Unidos. que resultou em transformações não apenas em Topeka. no caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Brown v. Kansas. G. David Pitts. Massachusetts. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. São Paulo: Cultrix. é o nome de Oliver Brown. A ação inicial foi apoiada pela seção de Topeka da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [National Association for the Advancement of Colored People] (NAACP). uma ação havia sido iniciada em Boston. Nosso colaborado. (Introdução. teve sua matrícula negada em uma escola primária só para brancos na pequena cidade de Topeka. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Linda. mas na nação inteira. entre 1881 e 1949. onde eles viviam. Brown. em conformidade com a lei. rastreou as origens de uma das mais importantes decisões na história do direito constitucional dos Estados Unidos. no meio-oeste dos Estados Unidos. Board of Education] – a Suprema Corte dos Estados Unidos emitiu uma determinação segundo a qual as escolas públicas segregadas eram inconstitucionais. M. não foi a primeira vez que a educação segregada. O nome no caso. Quando a ação de Topeka chegou à Suprema Corte. Em 1849. (Capítulo 2 Os Pensadores Jônios. a segregação racial era a norma. sancionada pela lei. O caso Brown. e Capítulo 3 A Filosofia no Ocidente) aneXO brOWn cOntra a secretaria de edUcaçãO [brOWn v. em boa parte do país. SHOFIELD. Oliver Brown era o pai mais famoso dos Estados Unidos. 1999. Gerd. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. Somente em Kansas. Os filósofos pré-socráticos. bOard Of edUcatiOn]: a decisãO da sUprema cOrte QUe transfOrmOU Um país david pitts Em maio de 1954 – em uma decisão histórica. que iniciou um processo quando sua filha de sete anos. que originalmente foi iniciado em 1951. Doze outros autores em Topeka se uniram a Brown para representar seus filhos – 20 ao todo – que. não a exceção. Mas ele não era o único autor da ação no caso Brown contra a Secretaria de Educação.

diretora-executiva da Fundação Brown para a Igualdade. uma ação havia sido iniciada em Boston. diz que Oliver Brown “se tornou o líder entre os autores porque o seu nome era o primeiro. Marcus. Em 1849. Massachusetts. principalmente porque ele era o único homem do grupo. Na verdade. Kansas”. diz C. O caso Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. com aEducation]. Burnett -. sancionada pela lei. Ele era um trabalhador comum que acreditava que a segregação poderia ser abolida por meio dos tribunais. e por causa radical que abrangência dada determinaçãoSuprema Corte. “O herói anônimo no processo de Topeka é McKinley Burnett. diz que desafiar a segregação “foi uma luta à qual meu pai se dedicou por toda a sua vida”. mcKinley burnett.E. Johnconfirmado por dente da seção da naacp de to. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. Na verdade. Linda Brown Thompson. um ponto de vista Foto: Cortesia de Marita Davis. por causa da Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. ignorando os outros 12 autores da ação em Topeka. que reuniu Oliver Brown e os outros pais e foi em frente com Foto: Cortesia de confirmado por outras fontes em Topeka.E. até mesmo quando eu era bem pequena. a segregação racial era a norma. um ponto Scott. “Eu me lembro de que. e por causa do efeitodo efeito radical que teve sobre a sociedade americana em meados do séculoséculo XX. presi. em colaboração com o Sr. pekano início da década de 50. “A irmã de Marcus Burnett. vice-president outras fontes em Topeka. “Meu pai estava sempre lutando pelos seus direitos”.cinda Todd eScroggins. teve sobre a sociedade americana em meados do XX. na época. Somente em Kansas. (Sonny) Scroggins. A luta contra a segregação nas escolas se tornou uma coisa muito importante para ele”. Oliver Brown tinha uma posição de liderança entre os autores. ajuda da secretária da NAACP Lucinda Todd e os Herói Anônimo Herói Anônimo Burnett morreu em 1970. Cheryl Brown Henderson. Autores De acordo com algumas fontes em Topeka. por causa da abrangência determinação da da Suprema Corte. não a exceção. por ordem alfabética. era o presidente chefe do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso BroNAACP. ele estava sempre escrevendo cartas e organizando reuniões. no entanto. concorda. filho do principal advogado local. tee to Commemorate Brown v. ela diz.com a estratégia para ganhar a causa. (Sonny) Scroggins. Walter White. em parte porque ela acha que a mídia concentrou suas atenções em demasia na sua pessoa. que atualmente tem 55 anos e ainda mora em Topeka. Quando a ação de EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Topeka chegou à Suprema Corte. O tempo inteiro ele estava convencido de que venceríamos. "Foi Burnett o desafio Board of ajuda dos advoCommemorate gados locais”. Excelência e Pesquisa na Educação [Brown Foundation for Educational 28 FGV DIREITO RIO 20 . à À esquerda. acrescenta Scroggins. entre 1881 e 1949. com ajuda da advogados Burnett – com a ajuda daasecretária dosNAACP Lu. À esquerda. direita. na época. reluta em falar sobre a sua experiência e sobre o papel do seu pai ao desafiar o sistema. chefe do Comitê de wn Contra a Secretaria de Educação [Kansas CommitKansas para a Comemoração do of Education]. não foi a primeira vez que a educação segregada. Mas Charles Scott Jr. Seu filho. Sua irmã.” que. era o presidente da seção McKinley "O herói anônimo no processo de Topeka é local da NAACP.. que atualmente mora em Kansas City. o desafio legal. Board Caso Brown Contra a “Foi Burnett que reuniu Oliver Brown e os outros pais e Secretaria de Educação [Kansas Committee to foi em frente comBrown v.da seção local da Burnett." que. sofreu um desafio nos Estados Unidos. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. que tinha 13 anos na época do processo inicial e que ainda mora em Topeka. legal. executivo da NAACP. viceMarita Davis.Elisha Scott e Charles Bledsoe – desenvolveram uma White. president executivo da naacp. diz C. O caso foi levado em frente por meu pai e por outros advogados locais. Brunett e a NAACP”.locais". Marita Davis. Walter acrescenta os advogados Charles de vista Scott.O caso Brown. em boa parte do país.

Ele tem 55 anos. Com a ajuda dos decisão: “A segregaçãoapresentou brancas e e solicitou escolas públicas é um mandado judicial que locais. diz Charles escolares "separados porém iguais" de derrubar segregação verdade. Vicki Ann. que acabaram sendo incluídos no caso Brown”. "Eles sabiam que a única forma de derrubar a segregação no país inteiro e não apenas em Topeka. escola só escola só para negros". morreu de câncer em 1984. morreu de câncer em Scales também diz que tinha que levar sua filha. Legal juízes se mostraram favoráveisDefense dos autores. até umaaté uma para negros”. District Court for Defense Fund]. Vicki Ann. e que ainda moram na cidade. A Primeira Decisão Educação de Kansas e contra os autores. O dia de Burnett e dos autores no tribunal em Topeka foi o dia 28 de fevereiro de 1951. por causa do episódio de Plessy. ele de crianças o caso negras nas a emissão de prejudicial para as crianças negras”. “Meus filhos sempre do papel que tive“Meus filhos sempre tiveram orgulhotiveram orgulho do mos naque tivemos na história”. Burnett não ficaram RIO 21 EuA PrimeirA fizemos uma coisa muito importante. duas pessoas que fazem parte do grupo de autores de Topeka. meu pai.no caso Plessy contra “De certa forma. os outros autores em Topeka e os autores nos outros estados." acho que Decisão decepcionados". meu pai. "Donald papel história”. prejudicial para as o tribunal de KansasMas no final a decisão uma juízes foifavor da Secretaria de porque a crianças negras. ele apresentou o caso e solicitou a emissão de um mandado judiatualmente é juiz cial que proibisse a federal emnas escolas primárias públicasadvogado do Fundo de Defesa segregação Nova York. Excellence and Research]. “Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o outro lado da cidade. Henderson diz. em uma decisão de 1896 -. o dia 28 de fevereiro de crição de Kansas [U. Suprema Corte havia decretado. “Mas é importante que o caso Brown não seja simplificado demais – não devemos esquecer os advogados.crianças brancas essa decisão não havia sido anulada. dizendo. os outros advogados locais e o Sr. Com a ajuda dos outros advogados locais. o eram. na no país inteiro e não apenas essa decisão perder a causa e em seguida entrar com um recurso nasentiu forçado a tomar uma decisão a favor da Secretaria de tribunal de Kansas se Suprema Corte”. que atualmente é juiz federal em Tribunal Federal de Primeira Instância da Circunscrição 1951. Mas minha filha. teceu. Minha filha.S. de Topeka. Scales também diz que tinha que levar sua filha. “Eles sabiam que a única formapara negros ae brancos decepcionados”. dizendo. Portanto. era perder a causa e em seguida . nabrancos segregação de constitucionais. na época. eem Topeka. Suprema Corte havia decretado. Henderson. Zelma Henderson e Vivian Scales. concorda com a avaliação de Charles Scott Jr. por causa do episódio de Plessy. ela continua.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Equity. escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. Ruth Ann à escola. “Donald Andrew ainda está aqui em Topeka. passando por duas escolas só para para brancos." por uma escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. era não havia sido anulada. Andrew ainda está aqui em Topeka. na suaoutros advogados Os da NAACP [NAACP Legal à causa Fund]. Ele tem 55 anos. Mas no final a decisão dos juízes foi contra os autores porque a proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka. Minha filha. e e negras nas escolas públicas é Portanto. passando por duas escolas só outro lado da cidade. que ainda mora aqui e está com 57 anos. “passando 1984. advogado do Fundo de Defesa Legal da NAACP [NAACP Legalthe District of Kansas]. diz Charles Scott Jr. na verdade. E as duas são muito gratas a McKinley Burnett e aos advogados locais. ela continua.” "Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o Mas minha filha. diz Henderson. As duas mulheres estavam ansiosas para entrar no caso. dizendo que foi a liderança dessas pessoas que tornou possível a luta pela integração. constitucionais. “Temos muito orgulho do que nosso pai fez”. "passando por que ainda mora aqui e está com 57 anos." se sentiu forçado a tomar dos decisão a contra os autores Educação de Kansas e contra os autores. que de Kansas [U. se sente muito bem devido ao que aconteceu. FGV DIREITO "De certa forma. eram jovens mães no início da década de 50. dos autores no tribunal em Topeka foi Raymond Carter. eram. se sente muito bem devido ao que aconuma Eu acho que fizemos uma coisa muito importante”. Ruth Ann à escola. Burnett não ficaram Ferguson -. era. os outros advogados locais e o Sr. Raymond Carter.que sistemas Scott Jr. Eles compareceram ao Nova York.S. na época. Eles compareceram ao Tribunal Federal de Primeira Instância da CircunsO dia de Burnett e District Court for the District of Kansas]. era. em uma decisão de 1896 – no caso Plessy contra Os juízes que sistemas escolares “separados porém iguais” para negros e sua decisão: "A Ferguson – se mostraram favoráveis à causa dos autores. diz brancos.

Board of Education: The Battle for Integration. mas para afirmar direitos. Brown et al. [tradução livre: Brown Contra a Secretaria de Educação: A Batalha pela Integração]. há um significado mais amplo. Thurgood Marshall. beneficiando mulheres e outros grupos que achavam que seus direitos eqüitativos lhes estavam sendo negados”. Mark Tushnet ecoa o pronunciamento de Barker no seu livro definitivo. da maneira que era praticada. Estabelecimentos de ensino separados são inerentemente desiguais. Portanto. um caso histórico que serve para mostrar que. nos Estados Unidos. na Carolina do Sul. segundo Barker. “Trata-se de uma das mais importantes decisões da Suprema Corte”. “Concluímos”. um método de se oprimir um grupo racial e não algo “separado porém igual”. umA GrAnDe VitóriA LeGAL O resultado do caso Brown Contra a Secretaria de Educação foi considerado uma grande vitória legal. v. ele escreve “o caso Brown se destaca como a mais profunda afirmação da Corte sobre a questão central FGV DIREITO RIO 22 . privados da proteção igual das leis. pelo juiz-presidente da Suprema Corte Earl Warren. para os quais essas ações foram iniciadas. ele disse. et al]. “A decisão de 1954 resultou em muitos outros casos nos quais a cláusula de proteção eqüitativa foi citada. Virgínia. era. ele acrescenta. garantida pela Décima-Quarta Emenda”. diz Robert Barker. o caso Brown foi combinado a outros processos que desafiavam a segregação nas escolas. “Até hoje”. declaramos que os autores e outros que se encontram em situação similar. que mais tarde foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte. representando os autores. Brown v. A decisão unânime declarando que as escolas segregadas eram inconstitucionais foi lida no dia 17 de maio de 1954. Oliver L. The Board of Education of Topeka. “que no campo da educação pública não há lugar para a doutrina de ‘separados porém iguais’. ao apresentar a sua decisão. O nome do conjunto de casos passou a ser. em particular”. ao ser preparado para ir ao tribunal que tem a posição hierarquicamente mais elevada no país. oficialmente. No entanto. A Corte aplicou a cláusula de proteção eqüitativa com a finalidade a que ela se destina – proporcionar proteção para os negros. era o diretor jurídico da NAACP no nível nacional.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE A Decisão DA suPremA corte No dia 1 de outubro de 1951. na verdade. “É importante observar”. Brown e Outros Contra a Secretaria de Educação de Topeka e Outros [Oliver L. Pensilvânia. Ao ser indagado como a Corte pode tomar uma decisão – a favor da segregação no caso Plessy contra Ferguson e contra ela no caso Brown – Barker responde que a Corte dispunha de mais de 50 anos de provas de que a segregação racial. Ele apresentou – com sucesso – o caso. professor de direito e especialista em direito constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Duquesne [Duquesne University School of Law] em Pittsburgh. os tribunais existem não apenas para condenar crimes. devido à segregação da qual reclamaram. “que a Suprema Corte contou com a cláusula de proteção eqüitativa da Décima-Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos. estão sendo. Delaware e no Distrito de Colúmbia.

Antes do caso Brown. Arkansas. em um ato posterior. O andamento do processo foi muito mais rápido em Topeka e no meio-oeste. menos conhecido. a situação variava de lugar para lugar. trata-se de uma vitória do constitucionalismo americano”. emitiu. Em outras partes do sul do país. “ampliou a definição de justiça básica nas relações entre as comunidades”. Por outro lado. quando o presidente Dwight Eisenhower enviou tropas federais a Little Rock. diz Goldfield. que são o resultado das tendências na escolha de áreas residenciais. o procurador-adjunto do estado de Kansas que tratou do caso. Pau Wilson. afetando 300. Embora a luta contra a segregação sancionada pelas leis tenha sido vencida há muito tempo. atualmente. os tribunais federais. ele diz. FGV DIREITO RIO 23 .000 pessoas. que detalha a história do processo em A Time To Lose: Representing Kansas in Brown v. “o fim da segregação. Nesse aspecto. a tarefa seria mais difícil. Na maioria dos lugares. ainda estão lidando com questões referentes à segregação nos distritos escolares. houve muita resistência e a disposição das autoridades do poder executivo de usar a força para implementar a decisão da Corte se fez necessária em alguns lugares. embora nem sempre com rapidez. e às três séries do segundo grau. “A decisão da Suprema Corte”. Mas em grande parte da nação. a favor da segregação. em 1955. o sul finalmente recuperou o atraso no final da década de 60 e início da década de 70. a abolição da segregação ocorreu sem problemas. que conta em detalhes a história do fim da segregação em Black. os legisladores promulgaram 45 leis “com o objetivo de contornar a determinação da Suprema Corte” e até 1960. No ano letivo 1956-1957.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE da história dos Estados Unidos – como os americanos de todas as raças se tratam entre si. Mesmo assim. estava em andamento em 723 distritos escolares”. Wilson. “menos de um por cento dos estudantes do sul do país estavam freqüentando escolas integradas”. de modo geral.000 crianças negras. Board of Education [tradução livre: Hora de Perder: Representando Kansas no caso Brown Contra a Secretaria de Educação]. escreve que a decisão também “deu uma nova dimensão ao conceito constitucional de proteção eqüitativa e do devido processo legal”. As escolas de nível médio (equivalentes às sétima e oitava séries do primeiro grau. uma decisão judicial. a lei de Kansas havia previsto a segregação das escolas primárias das comunidades com população superior a 15. de acordo com David Godfield. Brancos e Sulistas]. DePois DA Decisão A Secretaria de Educação de Topeka não esperou a ordem da Corte para unir as suas escolas primárias negras e brancas. depois que o governador do estado desobedeceu uma ordem de um tribunal federal para integrar as escolas locais – a primeira vez em que tropas federais entravam em um estado do sul para proteger os negros desde os primeiros anos após a Guerra Civil. determinando “um início imediato e razoável das providências para a total conformidade” e a implementação da integração das escolas “com a devida rapidez”. Este é um dos motivos pelos quais a Suprema Corte. no Brasil) nunca havia sido segregadas. no tribunal. concorda. White and Southern [tradução livre: Negros. O caso mais famoso ocorreu em 1957.

Martin Luther King Jr. Gary Orfield e Susan Eaton. professor de direito e especialista em questões constitucionais na Universidade de Richmond [University of Richmond]. Embora a Suprema Corte somente tenha derrubado a segregação nas escolas públicas. diz Zelma Henderson. o Topeka State Journal. particularmente. tiveram um papel essencial. em conjunto. Nos anos seguintes. em dezembro de 1955. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. o impacto da iniciativa foi muito mais amplo. diz John Paul Jones.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE os tribunAis cAusAm muDAnçAs em Posições trADicionAis A luta contra a segregação mostra como é difícil mudar posições e costumes em qualquer sociedade. escreve Robert Wiesbrot em Freedom Bound: A History of America’s Civil Rights Movement [tradução livre: Rumo à Liberdade: Uma História do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. e não o resultado de medidas sancionadas por legislaturas e executivos eleitos pelo povo”. e da Lei do Direito ao Voto [Voting Rights Act] em 1965. mandados contra a segregação foram impetrados. especialmente as posições que apresentam raízes profundas na tradição e na história. Sem um judiciário independente. Com a promulgação da Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act] em 1964. “Lembro-me como se fosse ontem”. “A primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. Eles acrescentam: “Com a exceção do período de 1964 a 1968. os tribunais – e não o poder legislativo ou o executivo – têm sido os elementos dominantes na elaboração de políticas no que se refere ao fim da segregação”. a segregação foi praticamente eliminada. “Fizemos A coisA certA” Os historiadores dos direitos civis. a luta pelo fim da segregação teria sido muito mais difícil. concordam. o resultado de atos do judiciário para fazer valer direitos inalienáveis assegurados pela Constituição dos Estados Unidos. incluindo o serviço público e o mercado de trabalho. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. e sem as garantias da Constituição no que se refere aos direitos das minorias. “Um fato importante é que as mudanças. quase meio século mais tarde. ele acrescenta. Alabama. em comparação com os outros ramos do governo. foram. essas ações. Apenas um ano e meio após a determinação da Suprema Corte. o Dr. em Virgínia. incluindo a Suprema Corte. em grande parte. “A decisão proporcionou um critério de avaliação de justiça – independente da cor das pessoas – pelo qual os americanos poderiam balizar seu progresso rumo à realização do ideal de oportunidades iguais”. como parte de um cenário de ações populares iniciadas por um grande número de organizações não-governamentais. em sinal de protesto contra a segregação no sistema de transporte público local. Essa ação ajudou a deflagrar uma ofensiva sem trégua contra a segregação em todas as esferas da vida americana. Os tribunais. é o que eles escrevem em Dismantling Segregation [tradução livre: Acabando com a Segregação]. ressaltam a importância do resultado do caso Brown para o progresso nas relações raciais em geral. liderou um bem sucedido boicote aos ônibus em Montgomery. Senti FGV DIREITO RIO 24 . Lembrome bem da manchete. formaram o movimento pelos direitos civis. quando elas ocorreram.

e eliminariam a segregação. à esquerda. em memória da decisão da Suprema Corte.no diaele sempre acreditava queCorte derrubou a seu pai “Mas em que a Suprema haveria justiça. agora. mascoisa certa”. “Isso aconteceu há muito tempo. portanto eu tenho certeza de que ele os tribunais eram o lugar certo para se desafiar a segreficou muito feliz". e eliminariam a segregação”. “Meu pai acreditava que haveria justiça. do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação. quase meio século mais tarde.deixou de acreditar pai acreditava que os gação. da marcus burnett. “A EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. Ele nunca Burnett diz. ele acrescenta. na Escola Primária de Monroe 34 [Monroe Elementary School]. Pensei. diz Sonny Scroggins. momento. de 1954. Lembro-me bem da manchete. da reação do seu pai no dia em que a Suprema Corte reação do segregação. diz Vivian Scales. diz Zelma Henderson. na verdade. Vivian Scales e os outros pais poderiam. Senti uma alegria enorme. filho Marcus Burnett. mas é uma coisa que você nunca esquece. facilmente. O sítio fica em Topeka. fariam valer a Constituição e a Bush sancionou a Lei Pública 12-525 [Public Law 12Declaração dos Direitos. especificamente. órgão que ficará encarregado da manutenção do memorial. Pensei. "Meu que os tribunais. eram o Constituição a Declaração dos Direitos. agora. e McKinley primária monroe. O resultado final foi. os pais demonstraram muita coragem”. acrescenta Zelma Henderson. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. fica com você para sempre”. que fizemos a coisa uma alegria enorme. “Naquela época. “Esperamos que as pessoas visitem o local para compreender melhor a abrangência e a complexidade da decisão sobre o caso Brown”.Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. porta-voz do Serviço Nacional de Parques [National Park Service]. não apenas o fim da segregação. que fizemos a é uma coisa certa”. Zelma Henderson. à do líder da naacp em topeka. o presidente George tribunais. queque fica com você para sempre”. “Fomos à Suprema Corte dos Estados Unidos para afirmar esse fato. Board of Education National Historic Site]. a mensagem da decisão do caso Brown e do memorial. “Lembro-me como se fosse ontem”. se conformar com a decepção. portanto "Mas ele sempre que ele fiderrubou a segregação. Vivian Scales acrescenta. FGV DIREITO RIO 25 . “Oliver Brown. e deverá ser aberto ao público em 2002. “Quando você pensa no assunto. e o ativista poda NAACP em Topeka. em conformidade com a lei. e vencemos”. a mesma escola freqüentada por Linda Brown. que você nunca esquece. naquele momento. mas uma mudança fundamental no pensamento dos americanos em relação à raça e à igualdade. “Eu estou muito velha. na entrada da escola Burnett. entre outras entidades e indivíduos – terá materiais áudio-visuais e uma biblioteca para pesquisas. filho do líder O memorial – um trabalho da Fundação Brown [Brown Foundation] e do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Kansas Committee to Commemorate Brown v. o esquerda." 525] determinando a criação do Sítio Histórico NacioNo dia 26 de Brown Contra a Secretaria de Educação Bush nal do Caso outubro de 1992. é que todos os seres humanos e raças nascem iguais”. lítico sonny scroggins. diz Qefiri Colbert. e penso. naquele “Isso aconteceu há muito tempo. mas eles transformaram sua raiva em ação”. no final. mas se tivesse que fazer isso de novo. o presidente George [Brown v. tribunaisfariam valer alugar certo epara se desafiar a no final. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. quase meio século atrás. o Topeka State Journal. antes do fim da segregação. e penso. Vivian Scales acrescenta. eu o faria”. especificamente. Burnett diz. mcKinley burnett. Board of Education].eu tenho certeza de acreditava que cou muito feliz”. Marcus Burnett não se lembra. Marcus Burnett não se lembra. segregação. Ele nunca deixou de acreditar que os No dia 26 de outubro de 1992.

afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. era a religião etc. Esse o debate filosófico.AULA 4. um dos principais sofistas. NOTA AO ALUNO 2. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses.. tão atacadas Platão e Aristóteles. nada na polis resultava de uma força natural religião etc.. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do pensamento sofístico. direito. e tudo dependerá da habilidade exercício da retóricafala. Górgias de Eleontino. direito. ou divino. Além de conhecerem ciam todo o debate entre filosófico. Como tudo era produto da convenção – Assim. Daí a importância do discurso convincente – peithó. superior e nomos –. os . ágora. pensamento sofístico. afirmação de resultavam de uma convenção ou (política. mais profundo e interessante – donde sofisticado – do que em geral se apresenta. o logos sofistas. justamente. A questão central dos sofistas (ao menos na sua primeira geração) era a afirmação desofistas (ao menos na polis primeira geração) A questão central dos que todas as coisas na sua (política.) resultavam de uma convenção ou cultura humana. Os por isso.tudo intangível. justamente.. Os sofistas foram pensadores que rumaram das colônias para Atenas e. pelosdo ocidente foramNa pena de e vitimadas pelo Poucas doutrinas na história seus inimigos.) que todas as coisas na polis cultura humana. tudo poderia ser resultava de uma força naturalAssim. conheciam todo o rumaram das colônias para Atenas e.e devir. Contudo. a leidaoconvenção – nomos –. pelos seus inimigos. a lei paraoa construção do tem de natural do certo e domas são é a ferramenta e legal e do ilegal. os sofistas eram apenas demagogos e enganadores. pela violência do rapto ou pela sedução da palavra.é um tas foi. Tema da aula EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 4. a sofística preconceito como a sofística. Como tudo era produto e direito nada tem de natural ouser modificado construídos políticamente através na primeira poderia divino. inicial da filosofia. superior e intangível. Assim. Daí a importância esta idéia. lingUagem e Verdade: os soFistas A verdade como linguagem na sofística.. mas são pelo próprio homem. na primeira geração de sofistas. a sofística é um movimento bem se apresenta. Além de conhecerem o debate Heráclito Parmênides – ao devir. Na pena de Platão esofisticado – do que em geral movimento bem mais profundo e interessante – donde Aristóteles. por ser conhesofistas foram pensadores que debate entre Heráclito e Parmênides – isso. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS NOTA AO PROFESSOR 1. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofistas eram apenas demagogos e enganadores. ededicavam-seser e estudo e ensino da retórica. Esse incremento incremento da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e impulso impulso inicial da filosofia. nada na polis modificado pelo próprio homem. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer FGV DIREITO RIO 26 sofistas foi. geração de direito nada Assim. construídos políticamente através do lingüística de quem na Para comprovar errado. Objetivos tema da aUlada aula A verdade debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do Introduzir o como linguagem na sofística. do exercício da retórica na ágora. dedicavam-se ao estudo e ensino da retórica. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado 47 a Guerra de Tróia). Contudo. DESENVOLVIMENTO Poucas doutrinas na história do ocidente foram tão atacadas e vitimadas pelo prepare-se para a aUla preconceito como a sofística. Assim. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofis.

teles. antes. 48 FGV DIREITO RIO 27 49 . para ele mesmo fazer sua defesa. Górgias de Eleontino. uma verdade pode ser convencionada na polis até que outra a substitua em outro momento histórico. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó. mas o cidadão da polis. (Capítulo III. nada se mantém imune à possibilidade de ser resignificado pela palavra.1 Independente dos resultados a que se chegue. dos agentes lingüísticos que a instituem lidar com os problemas de insegurança jurídica? por um ato de fala. sofista Protágoras de Abdera: Prepare-se Protágoras de Abdera sobre a legou a mais conhecida Foi o grandepara o debate. Mesmo que seja pensado. metafísicos ou “verdade do intérprete”. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer sua acusação em praça pública e. São Paulo: Brasiliense. Richard L. Claro que o homem em questão não é o Até que ponto o homem pode instituir suas próprias verdades? indivíduo particular. A linguagem é. PENSAR e DIZER. Os Sofistas e Sócrates: o AULA 4 20 Humano como tema e problema: seção 3 Os Sofistas ou a arte de ensinar) LINGUAGEM E VERDADE: Os Sofistas CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. pela violência EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE do rapto ou pela sedução da palavra. isto é. 2003. No direito não basta a verdade pura e simples. desde que esta seja articulada no discurso convincente: a então o que lê diz “é falso”. mas. não há apenas várias correntes ou definições. Teorias da Verdade. no dia seguinte. fica a distinção entre SER. sentido moral ou ético. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. Isso pois uma coisa pode ser (tornar-se) o que a instituem implica a conseqüência de jurídicas. 3. 2. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. seriam verdades? Como identidade. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. É com o Direito? A todo tempo somos confrontados com possível falar-se o princípio da identidade. Mesmo que seja. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. No nível mais radical. se o que ele diz é falso. o dizer – linguagem – Acreditar problema da verdade se como três planos autônomos com dignidade relaciona campo próprio da verdade significa Acreditar na linguagem e campo próprio da verdade significa admitir tipo: as verdades jurídicas expressões filosófica e autonomia não possui envergadura doque “verdade dos fatos”. leis”. para ele mesmo fazer sua defesa. Com efeito. retórica. então A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Isso implica a conseqüência de que também é posque é. Marilena.Para uma boa síntese cf. 1994. KIRKHAM. a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito convencionado. não se trata Agora. Górgias faz suas clássicas afirmações: 1. “verdade do processo” outranscendentes. não pode ser dito. e o direito? Para além da habilidade retórica. mas de relatividade histórica. * * bibliOGrafia * Obrigatória 1 CHAUÍ. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Mas o problema aponta para o paradoxo real que ela é verdadeira. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. portanto. meditandoque nos seguinte frase do de todas as sentenças sofísticas: “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS”. ser e pensar. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. na verdade. Nada é. Isso graças ao fato da filosofia sofística ter desfeito a vinculação parmenídica entre realidade e pensamento. então ela é falsa. não há paradoxo. sível resignificar a todo todo momento as categorias das verdade Aqui. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. No Tratado do Não Ser. “verdade das paradecorrem de planos metafísicos própria resignificar os entes na sua admitir que as verdades jurídicas não decorrem de planos antes. Essa possibilidade de reinstituir a verdade abre ao homem um extraordinário campo de possibilidades. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado a Guerra de Tróia). suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. dos agentes lingüísticos ou transcendentes. convencionado. mas se for verdadeira. mas. com isso. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. portanto. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Se a sentença é falsa.Para comprovar esta idéia. demonstrando. o fato é que mesmo em relação à verdade. demonstrando com isso a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito sua acusação em praça pública e. no dia seguinte. então o que lê diz “é verdadeiro”. Quebra-se em verdade ou por um ato de fala. Por isso. o instrumento mais eficaz no processo social de instituição da verdade. não pode ser pensado. Claro que. Contudo. um dos principais sofistas. São Leopoldo: Unisinos. como E O DIREITO? E O DIREITO? Como ona linguagem comoestatuto próprio. TODASúltimo para o certo e o errado. observe atentamente o quadro de Salvador Dali: de mero relativismo individualístico. Veja-se o seguinte quadro de Salvador Dali: que não também é possível resignificar a momento as categorias das verdade jurídicas. Assim. “O HOMEM É A MEDIDA DE critério AS COISAS” o verdadeiro e o falso. No direito.

Brasília: EdUnB. Teoria política grega. (Capítulo IV. Ernest. A Teoria Política dos Sofistas) FGV DIREITO RIO 28 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar BARKER. 1978.

A comunicabilidade entre os indivíduos para se tornarcomunicabilidade entre os indivíduos para se inteligibilidade do real.AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES NOTA AO PROFESSOR EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 5. porém.este último o que nosaspectos dá acessohumana. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. Verdade e justiça A verdade não reside na linguagem racionalidade dóxa – de cada indivíduo. é superficial por verdade e a justiça se apresentam de forma definitiva. certo prática de partir desse filósofo. Para Sócrates. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a divisor O mais conhecido aUla de águas da filosofia ocidental é. O ponto 52 central do pensamento socrático é que a prática da justiça como virtude apenas será alcançada pelo conhecimento da justiça. é superficial de razão e sentido. Verdade e justiça tornam-se modificar-se constantemente. Razão como A partir desse primeiro de tudo aque é verdadeiro. o homemnodotado de razão etoda a tradição. marcando todos os aspectos da vida humana. aquele onde a último o que nos dá acesso ao mundo empírico. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do nos marca a ocidental. mas a filosofia se vale do arcabouço partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que pensamento todos até hoje. Trata-se da opção opção que faz Sócrates pela Razão como fundamento primeiro que faz Sócrates pela certo e justo. a questão epistemológica será a FGV DIREITO RIO 29 há comprovação histórica de sua existência. a razão deixa razão deixa de ser uma e justo. A Não há comprovação histórica de sua existência. de tudo que é verdadeiro. A A chamada"reconstrução socrática” recolocou o tema da ver. Sócrates. Sócrates. Tema ConCeito e Verdade: sÓCrates A verdade como conceito abstrato. Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. o real fundamento das relações não está nas convenções e normas para todos os homens. aquele onde a que reduz a princípios à unidades conceituais. tornam-se sinônimos dentro de umaou na opinião –universal. que. sem dúvida. porém. necessariamente válida Da mesma forma. que. necessariamente válidamundo inteligível. Assim. Esta guinada de ser uma prática de representará um dos mais profundos cortes no pensamento de tornar inteligibilidade do real. sendo marcando todos os Para Sócrates.verdade chamada “reconstrução socrática" recolocou o tema da dade como aletheia no centro de todas as discussões. sendo este temente. Trata-se da como aletheia no centro de todas as discussões. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do pensamento ocidental. A partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que nos marca a todos até hoje. Já a razão nos possibilita conhecer o para tosinônimos dentro de uma racionalidade universal. que reduz os princípios à unidades conceituais. Objetivos da aula A verdade como conceito abstrato. sem dúvida. um dos mais profundos cortes é pensamento de sentido. Esta guinada representará toda a tradição. Já a razão nos possibilita conhecer o mundo inteligível. verdade e os justiça se apresentam de forma definitiva. fundamento filósofo. O realmente verdadeiro e realmente justo é o que se eleva acima das múltiplas individualidades e somente é alcançado pelo sujeito virtuoso que abandona todos os seus preconceitos. NOTA AO ALUNO tema da aUla 2. mas a filosofia se vale do arcabouço . Não O mais conhecido divisor de águas da filosofia ocidental é. da aula 1. o homem é dotadopor modificar-se constanda vida ao mundo empírico. – nómos – específicas que produzem justiças singulares. dos os homens.

Brasília: EdUnB. então o que lê diz “é muito tempo pela filosofia. Como fenômeno da cultura o muitas vezes.1 Independente dos resultados a que se chegue. propõe um método que é constituído de dois momentos: o primeiro é a paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. então pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Marilena. onde através pleno sentido gramatical: tos e sua ignorância sobre o tema em debate. Para Sócrates. leva seu interlocutor a descobrir uma verdade conceitual dentro de si inconsistência com a utilização e enfrentada há Estamos diante de uma mesmo lógica que vem sendo discutida da razão. na verdade. ela é verdadeira. mais importante que as experiências jurídicas concretas possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como são os centros de referência conceitual do direito. São Leopoldo: Unisinos. São Paulo: Brasiliense. Pode-se desqualificar este Para tanto. bibliOGrafia 1 CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. direito importa valores. e o direito? Acreditar no conceito como verdade implica admitir que o direito é formado por conceitos unívocos que podem ser depreendidos pela expressões do tipo: “verdade dos fatos”.Para uma boa síntese cf. KIRKHAM. Se aque deve ser compreendido por todos os homens. Por isso. o segundo é a maiêutica. Claro que. são comumente compreendidos como a norma escrita. Assim. Ganha-se em segurança. não há paradoxo. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. desligado do mundo da vida. 1978. se o que ele diz é falso. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. não há apenas várias correntes ou definições. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer mesmo”: a busca da verdade universal inscrita em conceitos racionais. No direito. Tais centros. O justo está para o campo cultural se em adaptatividade que é essencial à realização da justiça. “verdade das leis”. sentido moral ou ético. mesmo justificação. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. verdadeiro e justo se E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com imbricam no campo ético. mas perdeque. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem de perguntas leva seu interlocutor a reconhecer seus preconceiironia. então o que lê diz “é falso”. Os Sofistas e Sócrates: o Humano como tema e problema: seção 4 Sócrates: o elogio da filosofia) complementar BARKER. então ela é falsa. dizer que tudo que ele diz é mentira. Sócrates e os Socráticos Menores) FGV DIREITO RIO 30 . Teoria política grega. mas se for verdadeira. no lidar com os problemas de insegurança jurídica? sistema romano-germânico. Obrigatória 20 CHAUÍ. Daí que autores como Aqui. 2003. onde. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. 1994. Teorias da Verdade. É desta maneira que podemos entender seu lema “conhece-te a si verdadeiro”. o fato é que mesmo em relação à verdade. . mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE chave de leitura para a compreensão do posicionamento que Sócrates assume ante a physis e a pólis. (Capítulo V. Contudo. Richard L. Ernest. No direito não basta a verdade pura e simples. tamA SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA bém através de perguntas. (Capítulo III. Mas o problema aponta para o paradoxo real que a justiça é este conceito racional sentença é falsa. É razão. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por é comum o recurso ao texto da lei (ainda que Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da mediado pela doutrina) para se explicar e entender as categorias jurídicas. como o verdadeiro está para o campo natural.

buscou-se novas bases que pudessem ser consideradas seguras e precisas para a fundamentação de uma verdade universal. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado de uma razão inata a partir do subjetivismo cartesiano. lançou as bases mais sólidas em termos epistemológicos. com o seu projeto criticista. o binômio razão e experiência passa a capitanear as investidas do homem sobre as forças naturais. o pensamento kantiano se insere num processo histórico que foi acontecendo por sucessivas rupturas na tessitura ontológica da filosofia e da sociedade. O rumo deste caminho levou a modernidade a uma opção pelo “problema do conhecimento” – epistemologia – como questão fundamental a ser tratada. quando a modernidade afasta-se das especulações metafísicas para empreender uma nova organização geral do saber. prepare-se para a aUla Na revolução epistemológica operada na modernidade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 6. sociais. basicamente a partir do século XVI. políticas e individuais. o que converteu a teoria do conhecimento em motor da reflexão filosófica do período. A nova perspectiva em construção considera como fundamentos adequados para o conhecimento apenas a abstração racional e a concretude experimental. Enquanto os racionalistas acreditam ser a verdade resultado de uma idéia primeira e fundante. Nesse contexto. duas correntes destacaram-se como forma de compreender e responder à questão proposta: o racionalismo e o empirismo. os empiristas crêem que a verdade resulta de um fato primeiro e fundante. inatismo: desCartes NOTA AO ALUNO tema da aUla A verdade como resultado da razão inata. Eis um esquema comparativo para melhor visualizar as diferenças entre as correntes filosóficas: raCionalismo Fundamentado numa razão inata Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental FGV DIREITO RIO 31 . Assim. Não há dúvida de que o principal nome da constituição da moderna filosofia da ciência é Immanuel Kant que. No entanto.

mas sim em recolocá. 29. sintetiza a perspectiva cartesiana no pensamento moderno. p. em certos caminhos de me haver encontrado. Ob. 1979. pois não meu intuito tendia tão destruir o tradicional conhecimento terra movediça e a areia.. con.”2 Querendo alcançar tal intento. p. após isso.Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Nessa tradição herdada por Kant. Ob. pouco aaumentar mais alto ponto a que a mediocridade de meu espí. reconstruir um novo e seguro tipo de lista ou idealista. registrado no início do Discurso de conhecimento que haja. reconstruir um novo e seguro tipo cartesiana no pensamento moderno. Discurso do método. Dois serão destacados: Descartes e Hume. são paulo: abril Cultural.alçá-lo. e de alçá-lo. vários epistemológicas. a proposição de um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. 44. como o inaugurador da verdade. René. 1 DEsCaRTEs. ao gradualmente meu conhecimento. desde juventude. pelo qual me parece que eu tenha meio de formei um método. por idealista. como o inaugurador da moderna escola racionaao menos. Pode-se dizer que Descartes. e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo que pudesse imaginar a menor dúvida.. Descartes cria um tipo de construtivismo de conhecimento duasnão se encontre motivo fundamentadode conhecimento que haja. René. ou. 2 DEsCaRTEs. Como dito. É exemplo. apenas. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta. que duvidam apenas por duvidar e torna afetam por sempre irresolutos: pois ao contrário. sintetiza a perspectiva ao menos.. pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento. Descartes cria um tipo de construtivismo aliEste parágrafo. herdada por Kant. 46. para encontrar a rocha somente a me certificar e remover a sobre o mundo. São Paulo: Abril Cultural. que fosse inteiramente indubitável. Discurso do Método. pois não está interessado em. mas sim em recolocá-lo sobre ou a argila. É isso que “Não que imitasse. sem ter que submetê-lo às autoridades exteriores.. por 2 . p. os céticos. desde a a juventude. procura isso que torna a perspectiva cartesiana construtivista. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta.”2 meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir. e de pouco a pouco. todo oestá interessado em. 57 DEsCaRTEs. Cit. uma boa razão para não se acreditar. René. 1979.”3 Praticando este método. através de um apenas. a perspectiva cartesiana construtivista. registrado no início do Discurso do Método.”1 Este parágrafo. Trata-se da dúvida metódica como forma de reconstruir em bases seguras e verdadeiras o próprio mundo à nossa volta. Descartes e Hume. a fim de ver se. por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade. pensei que era necessário agir exatamente ao contrário. escola racionalista ou tipo de conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendarcomo Bacon. de que de que que me conduziram considerações e máximas. Cit. cerçado sobre duas tarefas básicas: destruir toda formado Método. 29. não restaria algo em meu crédito. segundo Descartes. 3 FGV DIREITO RIO 32 . vários filósofos importantes – racionalistas e e empiristas – desenvolveram suas teorias epistemológicas. Descartes propõe um método para conduzir o espírito ao conhecimento verdadeiro.lançar as bases destruir nova fundamentação para a própria verdade. as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. formei um método.mas. por exemplo. Também influenciado pelas técnicas e pela matemática. alicerçado sobre que tarefas básicas: destruir toda forma para não acreditar nele. Também influenciadomotivo fundamentado para nãoprocura lançar as bases de uma nova fundamentação para a própriamoderna através de um Pode-se dizer que Descartes. para tanto. em certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas. p. o método que leva à verdade implica a dúvida como condição epistemológica: “. pouco. René.tipo de lo sobre bases supostamente mais seguras: conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendar as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. Dois serão destacados: “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade me haver encontrado. como afirma o próprio Descartes. empiristas – desenvolveram suas teorias filósofos importantes – racionalistas Nessa tradição. de uma o tradicional conhecimento sobre o mundo. acreditar nele. ao minha vida lhe permitam a mediocridade de rito e a curta duração demais alto ponto a que atingir. como Baconhecimento que não se encontre pelas técnicas e pela matemática. qualquer pessoa poderia conhecer de maneira nítida e clara as idéias que são inatas no espírito e. uma boa razão para não se acreditar.DESCARTES.

o que significa dizer que a razão. onde o raciocínio lógico é o mestre que conduz o pensamento e evita as contradições e vacilações. até o conhecimento dos mais compostos.que universaliza o conhecimento e torna acessível a verdade tão necessária ao homem e que jamais seria conhecida se estivesse fora dele. era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar. fosse alguma coisa. Descartes adota. na busca do conhecimento verdadeiro. para o verdadeiro conhecimento. como faculdade inata. o de conduzir por ordem meus pensamentos. de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. e supondo mesmo uma ordem 4 Idem. E. Portanto. como por degraus. Descartes. mas reside no próprio cogito como evidência apodíctica. o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. quatro preceitos da lógica: “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer. adverti que. como o primeiro princípio da filosofia que procurava. mais importante é a razão perfeita. “deusa razão”. conhecido com exatidão geométrica. Embora Deus seja a causa operativa última. e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito. duvidar de tudo aquilo que se tenha ao menos uma razão para duvidar. que pensava. julguei que podia aceitá-la. somente a razão conduzida logicamente. superiores àquelas idéias que derivam dos sentidos (adventícias) ou àquelas que são fabricadas pela imaginação (fictícias). para subir. As idéias inatas são racionais e existem porque nascemos com elas. pouco a pouco. Para o racionalismo cartesiano. é o nosso espírito que possui a razão e a verdade e não o mundo externo e é justamente por isso que pode ser conhecida com segurança. é o único lugar possível para as “idéias claras e distintas”. logo em seguida. ou seja. Essa é a grande descoberta do “penso. para o alcance da verdade via ciência. O terceiro.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE isso mesmo. tendo o cogito como paradigma metodológico. a razão é a natureza perfeita existente num ser imperfeito por força da ação de um Ser perfeito: Deus. onde a razão distingue as idéias inatas e faz delas representações seguras e verdadeiras que deduzem o mundo. poderá decifrar todos os códigos do mundo. logo existo” – cogito. “cientificamente”.”4 Por isso. isto é. FGV DIREITO RIO 33 . fundado em critérios internos e abstrações. O segundo. sem escrúpulo. cumpria necessariamente que eu. ergo sum – que verifica que a certeza do conhecimento não vem do objeto exterior. logo existo. O modelo epistemológico das ciências é o matemático. toma a realidade à sua volta e se propõe a dúvida como método. enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso. que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. notando que esta verdade: eu penso. e o conhecimento apenas dela pode advir. irrefutável: “Mas. Através da dúvida metódica ele comprova a falsidade de todo tipo de conhecimento sensível e chega à verdade absoluta do cogito. Conforme se infere da leitura do Discurso do Método.

Modernidade e ciência: algumas posições epistemológicas. Contudo. cit. pp. não há paradoxo. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É uma representação. dizer que tudo que ele diz é mentira. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. DEsCaRTEs. na verdade. Se a sentença é falsa. KIRKHAM. bibliOGrafia DA DESCOBERTA 1 CONTEXTO Formas pelas quais chega-se à decisão.”5 então o que lê diz “é falso”. Pode-se desqualificar este ter descoberto sem sentido portal de acesso ao conhecimento verdadeiro. Apesar de serem Aqui. E o último. Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como matrizes distintas. 37-38. Richard L. genéricas ou concretas – devem ser justificadas. n. o fato é que mesmo em relação à verdade. mas se for verdadeira. de uma idéia fundante. portanto. Ob. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. René. 2003. então muito tempo pela filosofia. o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza de nada omitir. jan/jul 2000. Essa possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? concepção ideal do direito pode manifestar-se tanto na maneira do jusnaturalismo como do formalismo jurídico. In: Direito. São Paulo: Saraiva. No direito. não há apenas várias correntes ou definições. 5 FGV DIREITO RIO 34 . 1996. Filosofia do direito.. (Parte I – Capítulo VIII. tal método pode ser associado ao procedimento matemático para solução de uma equação. São Leopoldo: Unisinos. então o que lê diz “é verdadeiro”. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer Como visto. suas normas – do próprio direito. “verdade das leis”. Diferentemente do indutivismo dos empiristas. José Ricardo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros. Miguel. Teorias da Verdade. se o que ele diz é falso. Por isso. sentido moral ou ético. que domina e controla o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA mundo transformando os fenômenos naturais e/ou sociais em fórmulas e abstraA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA ções. ambas são unidas pela idéia de que a razão univerJerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da sal pode inteligir um verdade pura unívoco. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. complementar CUNHA. 16. Como fenômeno natureza ou da estrutura lógico-formal cultura o direito importa valores. 20 REALE. Do Conhecimento Quanto a Origem). Inaugura-se o paradoxo dizendo-se ser eleo novo e autoreferenciado. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: moderno princípio epistemológico da razão suficiente. Obrigatória . Descartes abre o caminho do Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há dedutivismo racionalista moderno. fruto. então ela é falsa. seja da da justificação.1 Independente dos resultados a que se chegue. Mas é na base desta razão calculadora que Descartes pensa ela é verdadeira. No direito não basta a direito e simples. e o direito? Acreditar na verdade como representação racional do mundo a partir do uma razão inata implica admitir que também é o direito expressões detipo: “verdade dos fatos”.Para uma boa síntese cf. Claro que. O justo está para o campo cultural E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com como o verdadeiro está para o campo natural. Estado e sociedade. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa.

ser primordial os quais estariam estampados na mente do homem. Locke. podem tratado) como os homens.] nova Fronteira. [s. simplesmente pelo uso deleitores sem preconceito da falsidade desta como os suficiente para convencer os suas faculdades naturais. pequena Locke concorda com Descartes na afirmação de que o conhecimento é constituído marfim ou metal. os quais estacertos princípios inatos. 66 6 7 idéia inata nos originais . ou seja. EMPIRISMO: HUME E LOCKE EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 7. É contra isso que Locke se insurge. podem adquirir se o conhecimento que possuem sem que espero fazer nas outras partes hipótese todo pudesse apenas mostrar ( o a ajuda de quaisquer impressões inatas e deste 6 podem alcançar a certeza sem quaisquer pelo noções suas faculdades naturais. partir do empirismo inglês. acessível apenas pela razão. FERREIRa. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a aUla “A “A maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento constitui constitui maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento suficiente prova de que não é inato. lutando contra um dogmatismo já manifesto na tradição do pensamento ocidental. cuja caracteres. tais como crianças e “idiotas”. É bastante conhecida sua Entendimento Humano. John.” adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões inatas e sua luta contra o inatismo dos racionalistas. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a partir do Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a empirismo inglês. 145.LOCKE. É contra isso que Locke se insurge. Ensaio Acerca do idéia conhecimentos começam o inatismo dos dos sentidos. que afirmavam existir ou princípios também podem alcançar a certeza sem quaisquer destas noções uma Dessa maneira. conhecimento. Consiste numa opinião estabelecida suficiente prova de que não é inato. certas noções primárias. caracteres. Ensaio Acerca do Entendimento alcançam o Paulo: Abril Cultural.placa de madeira. tema da aUla Objetivos da aula A verdade como resultado da experiência empírica. escavada para por idéias. 1978. São verdadeiro conhecimentop. há uma categoria de pessoas que não Humano.”12 sujeitos que seria o verdadeiro fundamento para a verdade e o co- FGV DIREITO RIO 35 . John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e nhecimento. koinaì énoiai. Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese se pualma os recebera em seu ser primordial e os transportara consigo ao desse apenas mostrar (o que espero fazer nas outras partes deste tratado) mundo. TÁBUla.) Novo DicionárioBuarque da para dar-lhes as idéias necessárias ao conhecimento. certas noções os recebera koinaì riam estampados na mente do homem. como empirista que era. Ao Dessa maneira. são 7 afirmação sujeitos e que seria o verdadeiro rasas .estilo. empirismo: HUme e loCKe Tema da aula NOTA AO ALUNO A verdade como resultado da experiência empírica. cuja alma primárias. p. prontas para serem preenchidas pelas experiências futuras. acessível apenas pela razão. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e contrário dos racionalistas. como verdade e o inata nos de que ao nascermos somos como tábulasfundamento para a folhas paulo: abril Cultural. afirmava que os nossos também sua luta contra com a experiênciaracionalistas que afirmavam existir uma lOCKE. 1978. 145. mas diverge de que estas idéias sejam inatas no espírito humano. Língua Portuguesa. na qual os romanos escreviam com 12 Locke.l. Seria homens. simplesmente destas uso deou princípios originais. 1989. Para conter uma camada de cera. Cf. de papel em branco. em seu énoiai. Consiste numa opinião entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios estabelecida entre alguns homens que o entendimento comporta inatos. John. e os transportara consigo ao mundo. aurélio em função da ausência de um conjunto de vivências suficientemente significativas lanDa(Ed.AULA 7. In HOum .

pelos termos brancura. nem sempre adotam os mesmo princípios práticos ou as mesmas virtudes. já que nações inteiras chegam mesmo a divergir acerca de certos princípios consagrados em outras nações. John. devendo ser adquiridos pelos indivíduos ao longo de suas vivências e experiências. bem como de comprovação. Seguindo essa linha de raciocínio. com esse fim solicitarei a cada um repoderes do homem. Cit. sujeitos e povos podem convergir ou divergir em suas regras práticas – morais – conforme as experiências e vivências que possuam. homem. copiar as percepções dos podem remedar ou atingirão a força e a dos sentidos. 8 9 lOCKE.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Assim. Essas faculdades podem imaginação. Investigação Sobre o Entendimento Humano. 10 original. não há princípio que possa ser considerado universal. embriaguez. elefante. p. e que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. Locke passa a demonstrar que nenhum princípio da vida prática pode ser considerado inato8. não podem ser considerados inatos e universais. são desconhecidas por certas pessoas.”9 21 sentidos lógicos para o entendimento da realidade). conforme um fim útil). que os homens quando agem virtuosamente o fazem porque costumam tirar benefícios próprios de tal conduta e não porque a tenham inscrita dentro de si. Por conseguinte é indubitável que as mentes humanas tem várias idéias. e semiótica (conhecimento dos símbolos e correr a sua própria observação e experiência. que inicia com a seguinte afirmação: “Idéia é o objeto do pensamento. naturais ou universais. expressas entre outras. Ob. mas sentidos. John. Se Locke concorda que o conhecimento está nas idéias.. coisas que seriam descabidas caso fossem verdadeiramente inatos. pp. 150152. são paulo: abril Cultural. Nessa esteira. Cit. e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias. e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente. temos ainda David Hume. em linhas gerais. dureza doçura. 1980. essa opinião. p. pensamento.. Já examinei. temos ainda David Hume. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreendidas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias inatas e caracteres estampados sobre sua mente. Mesmo princípios morais basilares. exército. 140. “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de sente a um calor dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e moderadamente tépidotarde essa sensação oumais tarde pela imagiquando relembra mais e quando relembra a antecipa essa sensação ou a antecipa pela remedar ou Essas faculdades nação.Locke ainda invoca a diversidade cultural como prova cabal de que não há idéia ou princípio inato nos sujeitos. como a justiça. mas jamaiscopiar as percepçõesvivacidade do sentimento jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. ou seja. 159. já que todos eles dependem de uma experiência prévia dos sentidos que os transforme em idéia real e conhecimento verdadeiro.”22 FGV DIREITO RIO 36 Neste parágrafo. Tudo por uma única razão: mesmos essas idéias e princípios não são inatos. Todo homem tem consciência de que pensa. mesmo as evidências lógicas mais apodícticas. pois dependem de uma aquiescência por parte dos indivíduos. até porque. como os princípios da identidade e não-contradição. mas nega que estas sejam inatas.”10 diferença entre as percepções da mente quando o homem “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável lOCKE. Desenvolvendo o pensamento empírico. movimento. Portanto. Desenvolvendo o pensamento empírico. Tanto é assim. HUmE. David. como entendê-las? Essa é a questão enfrentada na Segunda parte do Ensaio. Ob. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento .

não pode haver conhecimento pleno e cientificamente válido fora do campo meramente conceptual. colocando-o em posição de destaque dentre os próprios empiristas. elas se combinam. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento empirista. com esta repetição. Cit. Na medida em que as percepções vão se repetindo.12 Com efeito. bem como criticando a resposta da velha teologia de que um Ente Supremo precisa ter sido a causa de tudo que foi criado e do que será criado. produzindo um tipo de “verdade” sobre os dados da realidade. FGV DIREITO RIO 37 . seja por semelhança. a causa corresponde à imaginação do sujeito afetada por uma determinada experiência dos sentidos.. Cit. Assim. que são levadas à memória. na medida em que “tudo que é pode não ser”13. as idéias correspondem à associação das percepções trazidas pela experiência sensível. Negando fundamentos abstratos e metafísicos. Hume encerra a Investigação criticando a idéia do apriorismo como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro dos acontecimentos do mundo real. para Hume. HUmE. temos que os conhecimentos começam com as sensações (experiência dos sentidos) estimuladas pelos objetos exteriores. fazendo com que.. não existe consciência mas. onde a razão forma os pensamentos. Hume afirma que a razão nada mais é que o hábito de associar idéias. 203. acusando mesmo de enganação e ilusão qualquer tentativa de levar o raciocínio das ciências abstratas de quantidade e número para os fatos concretos. David. Ob. vivências. ou seja. p. É a experiência que inscreve as idéias em nosso espírito e a razão as arranja (combinando ou separando). desta maneira. dentre outros. pp. 141-157. os pensamentos. Ob. 11 12 13 HUmE. não há demonstração possível. Na verdade.. HUmE. quer seja porque são semelhantes (semelhança). pode-se dizer que o empirismo de Hume é o mais inovador e radical. Nesse sentido. porque se repetem no mesmo espaço ou próxima umas das outras (contiguidade espacial) ou porque se repetem sucessivamente no tempo (sucessão temporal). David. já que em relação aos fatos. Assim. p. as sensações reunidas formam a percepção. formando. afirma que somente a vivacidade do sentimento original é capaz de responder ou explicar uma dada situação. etapa a etapa. assim. Em outras palavras. inaugurado por Bacon e continuado por Locke. estes são estimulados por dados internos ou externos ao sujeito. O fato é que. dos fatos. Contudo. Segundo sua filosofia. pode-se dizer que Hume compreende a verdade sobre o entendimento humano (o que Descartes chamaria de cogito) como a própria vivência imediata do pensar estimulado indutivamente por impressões. apenas. Cit. 204. ou seja. não há conhecimento da realidade que não se inicie com as impressões dos sentidos.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Neste parágrafo. no parágrafo em epígrafe. É a reunião das várias e diferentes sensações que permite perceber um objeto exterior. Por isso. ocorre o hábito da associação das percepções. Numa síntese geral do processo de conhecimento exposto por Hume na sua Investigação sobre o Entendimento Humano11. David. como é o caso da matemática. Ob. se associam. já que a relação de causalidade depende de uma experiência pessoal não universalizável sobre bases seguras. surjam as idéias. seja por diferença. dando início a um processo psicológico que vai.

KIRKHAM. então ela é verdadeira. fruto. Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. n. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. No direito não basta a verdade pura e simples. não há apenas várias correntes ou definições. 2003. 16. Miguel. 1996. Se a sentença é falsa. Do Conhecimento Quanto a Origem). E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. FGV DIREITO RIO 38 . In: Direito. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. então ela é falsa. o fato é que mesmo em relação à verdade. Filosofia do direito. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. No direito. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Acreditar na verdade como produto de uma experiência empírica implica admitir que também é o direito produto de uma experiência leis”. REALE. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. mas se for verdadeira. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. complementar CUNHA. (Parte I – Capítulo VIII. Estado e sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. jan/jul 2000. de um fato fundante.dizer que tudo que ele diz é mentira. Richard L.1 Independente dos resultados a que se chegue. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. sentido moral ou ético. “verdade das EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE e o direito? Aqui. São Paulo: Saraiva.Para uma boa síntese cf. Essa concepção empossível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? pírica do direito é corrente na common law e da origem ao chamado realismo jurídico. Por isso. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. José Ricardo. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. É empírica. portanto. 20 Formas pelas quais chega-se à decisão. São Leopoldo: Unisinos. Teorias da Verdade. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Obrigatória 1 .

do qual se pode inferir .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 8. A única fonte do direito é a Lei. Procedimentos de FUNDAMENTO NA LEI decidibilidade que subsumem o valor justiça ao valor segurança. sobretudo. 3) Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. fOrmalismO jUrídicO Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico. soluções para todos qual se pode os tipos de conflitos jurídicos. COERENTE mas. inferir . o racionalismo influenciou tanto o jusnaturalismo do século XVIII. e por uma operação mental Ordenamento jurídico DIREITO POSITIVO preciso e completo. FGV DIREITO RIO 39 devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. A única fonte do direito é a Lei. Já o empirismo está na base dos realismos jurídicos. 4) As determinações metajurídicas não tem valor jurídico. por atos de derivação racional. No direito. ObjetivOs da aUla Apresentar como Inatismo e Empirismo influenciaram as principais matrizes epistemológicas do direito. Vejamos. materializado no conceito de legalidade. todas as áreas do saber passaram a seguir uma ou outra matriz. 2) As 2. Portanto. Formalismo JUrÍdiCo e realismo JUrÍdiCo NOTA AO ALUNO tema da aUla Formalismo e Realismo Jurídico. o esquema apresentado na aula 6: raCionalismo FUNDAMENTO Fundamentado numa razão inata NO Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma RACIONALIDADE inferência (representação) lógica PRINCÍPIO DA empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera abstração Método deindutivamente conceitual quemundo externo por meio de uma Alcança o confere plenitude de sentido às experiência possibilitada pela percepção prescrições sensível normativas. por atos de derivação racional. Prepare-se podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico: para o debate refletindo sobre tais postulados: Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que 1) 1. . soluções para todos os tipos de conflitos jurídicos. novamente. As normas normas positivas constituem um universo significativo significativo auto-suficiente do positivas constituem um universo autosuficiente. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. o formalismo positivista do século XX. prepare-se para a aUla É necessário recordar que razão e experiência foram elevadas às categorias centrais do conhecimento na modernidade.

mas se for verdadeira. “verdade das possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? leis”. dizer que tudo que ele diz é mentira. Continue sua preparação refletindo sobre os novos postulados: 1. A Ciência do direito constrói-se elaborando teses sobre os comportamentos A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA judiciários. As determinações metajurídicas não têm valor jurídico. devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. TEIXEIRA. Os conceitos teóricos devem ter base empírica. 4. Contudo. Pode-se desqualificar este normas dependerá do uso que os juízes dêem as mesmas. O sentido das ser ela é verdadeira. apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. mas 1 limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. que mesmo em relação à verdade. então nem auto-suficiente. 7. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Formas pelas quais FGV DIREITO RIO 40 . O juiz é neutro. o fato é relações jurídicas. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. verdadeiro”. então o que lê diz “é 2. 18. sentido moral ou ético. razão porque só possuem valor se refletem as condutas judiciais e as conseqüências sociais das Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Capítulo síntese cf. Por isso. No direito não basta a verdade pura e simples. não há paradoxo. 4. portanto. Perspectivas contemporâneas da ontologia jurídica – Seções 17. Teorias daMoeda. A linguagem jurídica é formal e. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. É e o direito? Quais seriam os principais problemas possíveis resultantes dessas matrizes epistemológicas? Aqui. (Parte I. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. então o que lê diz “é falso”. Mas o problema aponta para o paradoxo real que A linguagem jurídica não é hermética pode 3. na verdade. realismO jUrídicO Novamente Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do realismo jurídico. As normas jurídicas e os conceitos dogmáticos constituem um conjunto de Claro que. 2000. A Ciência Jurídica deve estudar. precisa: possui um unívoco sentido dispositivo. Casa da Verdade. Antonio Braz. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: abstratos claramente definíveis. As leis não solucionam todos os casos concretos. Lisboa:Richard L. A ordem jurídica não oferece segurança. KIRKHAM. Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. então ela é falsa. Se a sentença é falsa. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. São Leopoldo: Unisinos. I. 2003. o direito positivo vigente. Não há significados paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Independente dos resultados a que se chegue. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. 5. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação.Para uma boaca. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Ontologia do Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 3. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer afirmações metafísicas. se o que ele diz é falso. não há apenas várias correntes ou definições. No direito. 6. 19 e 20 20). Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídiDESCOBERTA . sem formular juízos valorativos.

1994.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar WARAT. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei. temas para uma reformulação. Realismo e Interpretação da Lei). Luiz Alberto. FGV DIREITO RIO 41 . (Capítulo 4: Formalismo.

suas possibilidades: 83 FGV DIREITO RIO 42 Para desenvolver plenamente seus estudos. a fim de buscar suas condições de que o criticismo surge do movimento realizado por Kant dianpossibilidade. sem semmargens . consiste no exame de valor conhecida como criticismo. caindo. segundo as características é aquela da qual nada escapa a um minucioso exame. É por isso forma. ela está sendo para que nada fique à mercê de respostasde juiz e de e sem fundamento racional. por isso pode. a da razão para se apresentar de forma verdadeira e sistemática.ao conhecimento ee a verdade. a razão crítica é aquela da qual nada escapa a comumente se fala até mesmo seu agente operador visto e kantiana. caindo. de validade e os seus limites. numaerros. humildemente. impedindo seus delírios megalomaantes de tudo. um duplo papel: de juiz e de réu. CritiCismo: Kant Tema da aula NOTA AO ALUNO tema da aUla de inatismo e empirismo. samento kantiano. a saber: a) b) erro do dogmatismoque reduz tudo à mera experiêndois metafísica ilusória.ao impériorazão crítica por ela mesma.fazer sobre uma teoria. numa metafísica ilusória.visto e que se critica a siela. ou seja. o criticismo kantiano irá buscar as verdadeiras bases para um reduz tudo à mera experiência que ela pode e o que ela não mesmo. posto que também submetido à razão. onde da razão. É por isso que se submete às suas próprias leis. investigando osubjetiva. curiosamente. prepare-se para a aUla DESENVOLVIMENTO Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no a nenhum tipo de inconsistência. como ciência é. sobre o “tribunal da erazão” na éfilosofiaanalisado por ela.ao conhecimento e a por isso mesmo. Podemos afirmar ou uma experiência. Objetivos da aula ObjetivOs da aUla Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no penpensamento kantiano. A razão crítica é. o o erro do empirismo. ela está sendo julgada por ela mesma. Kant se propôs um saber crítico. a saber: a) o erro do criticismo racionalista. A síntese crítica A síntese crítica de inatismo e empirismo. dar dar margens a Para desenvolver plenamente seus estudos. racionalista que confia cegamente na cia subjetiva. que consiste no uma conduta ou uma experiência. esse que é submetido Assim. uma conduta exame de valor que se pode a fim de buscar suas condições de possibilidade. Kant se propôs um saber crítinenhum tipo de inconsistência. exatamente. para que nada fique à mercê de respostas níacos e reconhecendo. caindo. Assim. Dessaque comumente se fala sobre o “tribunal da razão” na filosofia kantiana. Daí sua filosofia também ser conhecida como criticismo. a razão ocupa.isso mesmo. por verdade. Dessa forma. em outrasceticismo quanto suas possibilidades limites. operador é a razão analisado por mesma. curiosamente. em outras palavras.AULA 9. Daí co. Podemos afirmar que o dois erros. CRITICISMO: KANT EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 9. suas possibilidades e limites. de validade e te daquilo que considera comoos seus limites. o criticismo kantiano irá buscar as palavras. um duplo papel: dogmáticas réu. julgada O conhecimento É a razão que se submete às suas próprias leis. num uso correto da razão. É a razão que ela não pode. até mesmo seu agente e de um sujeito autônomo. caindo. onde um minucioso exame. por isso mesmo. que confia cegamente Kant diante daquilo que considera como dogmatismosurge do movimento realizado porna razão. investigando o que ela pode e o que verdadeiras bases para um uso correto a razão ocupa. que sua filosofia também ser que se pode fazer sobre uma teoria. num ceticismo quanto b) o erro do empirismo que razão. ou seja.

mas uma estrela.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE “Em todos os seus empreendimentos a razão tem que se submeter à crítica. através do que ampliaria o nosso conhecimento. e não pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isto a prejudique e lhe acarrete uma suspeita desvantajosa. fracassaram sob esta pressuposição. racionalistas e empiristas estavam buscando um centro falso e inexistente. p. Immanuel. 77. 14. como acreditavam os antigos e medievais. 1994. No prefácio da Crítica da Razão Pura. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento.”16 Assim sendo. longe de possuir uma autoridade ditatorial. que o conhecimento KanT. o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que se deve estabelecer sobre os mesmos antes de nos serem dados. Para Kant. quando afirmavam ser a realidade racional em si mesma e. 15 KanT. por isso. porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos. Ob. diz ser esta “um tratado do método e não um sistema da ciência mesma. Como podemos ver. “colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão. consiste sempre em nada mais do que no consenso de cidadãos livres dos quais cada um tem que poder externar. Copérnico já havia demonstrado que o universo é infinito e. não obstante traça como que todo o seu contorno. ou o sujeito do conhecimento. p. 14 CHaUÍ. para seu conhecimento.. Convite à Filosofia. É aí que surge a revolução proposta por Kant. assim. 1980. 363. Dessa maneira. Cit. a teoria do conhecimento de Kant não é exatamente um discurso científico. Em outras palavras. Ob. com pretensão de universalidade e precisão. a partir de Kant.. sendo a Terra que gira ao seu redor. e não o contrário. No que tange à sua utilidade. nada é tão importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a esta inspeção atenta e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa. 12. 17 FGV DIREITO RIO 43 . 16 KanT. Immanuel. quando este afirma que é o sujeito de conhecimento – razão crítica – que deve ser o centro do conhecimento e não o contrário: “Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos. p. tendo em vista tanto os seus limites como também toda a sua estrutura interna.”17 Temos. são paulo: abril Cultural. Immanuel. Sobre esta liberdade repousa até a existência da razão. o veredicto desta última. girar em torno deles”15. assim. Crítica da Razão Pura. suas objeções e até seu veto. da razão em relação à realidade. quer dizer. sobre como é possível produzir conhecimentos ditos científicos e. marilena. sem constrangimento algum. todo o processo de produção do conhecimento. cabe ao sujeito o papel de instituir seus objetos cognitivos para afirmar-se como hegemonia da razão sobre o real. passa a ser visto como o resultado da relação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. são paulo: atica. mas um discurso sobre a ciência. por isso mesmo. a Terra não poderia ser o centro do cosmo e que o Sol não é um planeta. p.”14 A forma como Kant responde os problemas colocados à teoria do conhecimento pelas correntes racionalista e empirista ficou conhecida como uma espécie de revolução copernicana. Cit. onde existe uma sobreposição do primeiro em relação ao segundo. uma vez que é aquela que legisla sobre esta ao instituí-la como objeto para sua cognição. inteligível.

não seria porta. já existia o conhecimento universal.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE científico se opera na forma de uma relação entre sujeito e objeto. já que aquilo que informam do sujeito já estava contido na própria idéia do sujeito. sabendo que o centro do conhecimento é o sujeito cognoscente. Immanuel. o objeto cognoscível é sempre um fenômeno. mas apenas a maneira como se apresenta ao homem. Rapidamente. Cit. válido em qualquer tempo ou lugar. ou seja. sendo o que resulta de nossas experiências sensíveis. medieval e moderno. 27. vez que as ciências da natureza já estavam constituídas como um fato. sendo o que independe de nossas experiências sensíveis. vejamos o juízo a porta está aberta. 24-26. Ob. Ora. não pode ser conhecida. não pode ser tomado de maneira universal ou necessária. que pretendia desvendar metafisicamente os atributos ontológicos da natureza primeira do ente. ou seja. pois este é incognoscível. não o ente em si. 20 FGV DIREITO RIO 44 . Partindo dos aportes oferecidos tanto por empirismo como por racionalismo. embora seja concreto e enriquecido pelo dado real dos sentidos ou de nossa experiência pessoal. 18 KanT. sendo aquele cujo predicado já está contido no sujeito. Entretanto. o que é feito na Critica da Razão Pura. 19 KanT. Contudo. Immanuel. p. Ob. Esta proposição realmente acrescenta um dado novo sobre o sujeito que não era conhecido anteriormente. o númeo. saber como eram possíveis tais ciências. Kant distingue dois tipos de juízo: 1) o analítico. pois. Immanuel. embora esta seja uma proposição universal. como exemplo. p. reconhecido nos seus limites como limites da própria razão. O fenômeno é a coisa na maneira como se apresenta ao sujeito. Sua questão era. não se conhece racionalmente o númeno. caso contrário. Cit. então. Quando se debruça sobre o problema do conhecimento. pp.. este não pode ser conhecido cientificamente. Este reconhecimento dos limites da razão implica numa crítica kantiana ao dogmatismo do racionalismo antigo. a coisa em si. o que já se torna possível no caso do conhecimento puro. que o conhecimento empírico. tal qual ocorre nas proposições da matemática. científico. fazendo o conhecimento avançar. Em outras palavras. sendo sabido por todos. a resposta dada por Kant foi a seguinte: o que torna possível o conhecimento científico são os juízos sintéticos a priori. este pode ser conhecido cientificamente. ou seja. Vejamos que os juízos analíticos são sempre universais e necessários. Ob. mas sim a forma de sua apresentação.. destarte. No entanto. mas pode-se conhecer o fenômeno. todos sabem que porta abre e fecha. que é o fundamento último do próprio conhecimento. exatamente como deve ser o conhecimento científico.. conforme as características e determinações próprias do sujeito racional. Esta.20 Tomemos. este KanT. e 2) o puro ou a priori. Agora. Kant observa e distingue duas formas de conhecimento: 1) o empírico ou a posteriori. e 2) o sintético.19 Por outro lado. Portanto. somente há conhecimento científico quando o objeto de conhecimento é tomado na sua dimensão fenomênica. que significa a maneira pela qual um ente faz-se conhecer. a resposta somente poderia resultar da análise da faculdade de conhecer do sujeito. Kant não se preocupa em descobrir se é possível a construção de um saber de base universal. tido como científico. ou seja. já sabemos que este sujeito cognoscente é tomado criticamente. 39. estes não fazem o conhecimento em nada avançar. Cit. O que remete a outra questão: como é possível um juízo sintético a priori? Pois bem. sendo aquele que o conceito admitido no predicado representa uma informação nova em relação ao sujeito.18 O númeno é a coisa em si. Temos. o juízo a porta abre e fecha.

Kant faz uma espécie de síntese entre postulados do racionalismo e do empirismo. contudo. já o juízo a porta está aberta é sintético. mas não universal – é preciso que existam juízos sintéticos a priori que tenham as duas características. Acontece que. nem a matemática. não serve para explicar o funcionamento das ciências. ao mesmo tempo: “Ora. Cit.21 Somente os juízos sintéticos fazem a ciência avançar. que todas as portas do mundo estão abertas. e se os juízos sintéticos da experiência oferecem somente a possibilidade do crescimento do conhecimento – dado que naqueles o conhecimento é universal. propondo o conhecimento na forma do resultado de um processo complexo que parte dos dados empíricos fornecidos pela intuição sensível processando-os na forma transcendental das categorias do entendimento. 87. se os juízos analíticos trazem em si a universalidade e são. que promove a síntese do próprio conhecimento.”22 Ainda o conceito de juízo sintético a priori revela a hipótese central da filosofia kantiana da ciência: o conhecimento começa com a experiência. não podendo se dizer por que esta porta está aberta. É a priori porque vale universalmente. o juízo porta abre e fecha é analítico.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE conhecimento somente pode ser considerado válido para aquele sujeito especificamente. mas não são universais e necessários. p. Joaquim Carlos. seja universal e necessária: trata-se do juízo sintético a priori. Ob. já que é universal e necessário. Os juízos sintéticos a priori representam o conhecimento científico porque são universais e crescentes. A resposta está numa categoria empírica. tal qual o juízo o triângulo têm três lados ou todos os corpos são extensos. através de um esquematismo transcendental. mas possa ser tomada como atributo universal e necessário de dado objeto cognoscível. e nestes o conhecimento é crescente. também. 22 FGV DIREITO RIO 45 . que a informação não se restrinja a uma única observação específica de um fenômeno. 21 salGaDO. denominamos KanT. isoladamente. Já o conhecimento a priori é universal e necessário. 28. ao mesmo tempo. O juízo ‘todo acontecimento tem uma causa’ é um juízo sintético a priori. Assim descreve Kant: “Denominamos sensibilidade a receptividade de nossa mente receber representações na medida em que é afetada de algum modo. portanto. A Idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. já que sem eles não seria possível a física pura. de modo necessário. por isso. entretanto. tal qual todos os corpos se movimentam. sempre a priori. mas não avança. Belo Horizonte: Editora UFmG. não servido. na medida em que acrescentam uma informação sobre o sujeito. não provindo pois da experiência. Immanuel. são um fato. onde o predicado não esteja contido no sujeito mas que. para que haja ciência. estes conceitos ainda não respondem ao problema do conhecimento científico. p. é sintético porque no conceito acontecimento não está contido o conceito de causa. de forma que não faz avançar o conhecimento e. pois os juízos sintéticos são empíricos e fazem avançar o conhecimento. em contrapartida. Dessa forma. 1995. para explicar o funcionamento das ciências. onde não se revela nenhuma novidade sobre o sujeito.. é necessário. mas não surge todo ele da experiência. mas apenas traduz juízos analíticos. as quais.

74. a fim de pensá-los racionalmente. Cit. que caracteriza o conhecimento concreto e universal das ciências. 24 KanT. sendo. pô-las sob conceitos).. o sujeito racional é a própria unidade do conhecimento na forma do eu penso.. Immanuel. Modernizar passou a significar racionalizar e racionalizar passou a significar estar mais perto da verdade e da liberdade intelectual. Contudo. intuições sem conceitos são cegas. p. Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as suas funções. o conhecimento resulta da reunião das faculdades da sensibilidade – intuição sensível – e do entendimento. O conhecimento só pode surgir da sua reunião.”23 Como diz Kant. ou seja. todas as sínteses tem como centro o sujeito cognoscente que institui.25 Não resta dúvida que a epistemologia kantiana radicaliza a aventura moderna do empreendimento científico ao lançar as bases mais sistemáticas e sólidas de uma nova fundamentação da verdade. Pensamentos sem conteúdos são vazios. para Kant. é sempre uma postura racional que impõe à realidade bruta as regras ou leis que a torna inteligível. Dessa forma. tomada como verdade epistemológica. De efeito. Immanuel. Pela primeira. acrescentar-lhes o objeto na intuição) quanto tornar as suas intuições compreensíveis (isto é. ou seja. meio eficaz para a consecução de um fim qualquer. A nossa natureza é constituída de um tal modo que a intuição não pode ser senão sensível. na forma do sujeito de conhecimento. a mais alta faculdade do conhecimento. é a unidade racional transcendental. Ob. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. um processo complexo que opera através de sínteses que conduzem a diversidade dos dados empíricos à unidade das categorias do entendimento. Essa perspectiva racionalista kantiana serviu de base para a sustentação de uma sociedade que busca a legitimação de suas instituições e do comportamento de seus agentes em postulados racionalistas. pela segunda. antes.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendimento produzir representações. Ob. resulta. Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado. Ob. como diz Kant. 25 FGV DIREITO RIO 46 .24 Assim. mas. Portanto. um momento estático dos sentidos ou da razão. entramos em contato com o mundo e. O conhecimento não é. ele elevou ao mais alto pedestal a glória da razão teorética ou científica. à sua escolha. Nenhuma destas propriedades deve ser preferida à outra. o entendimento é a faculdade de pensar o objeto da intuição sensível. Embora o tribunal da razão tenha limitado a arrogância da razão onipotente da metafísica dogmática. Cit. Por isso se dizer que na filosofia kantiana é a razão que legisla. Joaquim Carlos. desse complexo processo de sínteses que acolhe a multiplicidade de percepções dos sentidos e as eleva à forma de conceitos inteligíveis e universais. contém somente o modo como somos afetados por objetos. 85. tanto é necessário tornar os conceitos sensíveis (isto é. p. e sem entendimento nenhum seria pensado. sujeito transcendental. isto é. pensamos este mesmo mundo. que fornece as condições últimas de possibilidade do conhecimento ou da verdade. ou. No entanto. como último reduto da verdade mesma. 23 salGaDO. o juízo sintético a priori. ocorre que o racionalismo kantiano foi convertido em racionalidade instrumental. os meios se autonomizaram KanT. o ato de pensar. como dito anteriormente. os objetos de sua investigação. pois. Muito rapidamente. por isso. 129.. p. Cit. Frente a isto.

a partir do século XIX. cultura o direito importa valores. Por isso. n. 16. jan/jul 2000. Contudo. No direito. isoladas de fundamentos éticos. então em moralismo. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como laridade e Manuel Atienza: contexto da descoberta do Direito de Miguel Reale e comente sua Jerzy Wróblewski na Teoria Tridimensional e contexto da justificação. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. se o que ele diz é falso. No direito não basta a verdade pura e simples. FGV DIREITO RIO 47 . Miguel. degenerando na forma de certas condutas consideradas meramente técnicas. sendo. pois. São Leopoldo: Unisinos. Filosofia do direito. que acabou por determinar Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há o modo de produção do resultados a que se chegue.Para uma boa síntese cf. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. “verdade das e o direito? Acreditar na verdade como produto de uma síntese entre entendimento e sensibilidade admitir que também o direito é produto leis”. Claro que. na verdade. mas se for verdadeira. Mas podemos dar uma cesso de embrutecimento da racionalidade científica e de autonomização da ciência versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: em relação ao mundo da vida. São Paulo: Saraiva. Direito. Para a aula. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. atingiu seu ápice com a hegeA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA monia absoluta do positivismo. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. complementar 20 CUNHA. pesquise a chamada dialética de integração-poAqui. Se a sentença é falsa. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Esse proela é verdadeira. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. Do Conhecimento Quanto a Origem). É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como de tal síntese. não há paradoxo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE então o que lê diz “é falso”. José Ricardo. como instrumento de dominação de certos grupos sociais. o fato é muito tempo pela filosofia. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Richard L. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. Teorias da Verdade. Independente dos conhecimento em todas as áreas do saber. Mesmo a moral foi transformada pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. em relação aos fins. (Parte I. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. 2003. sentido moral ou ético. Capítulo VIII. . Estado e Sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. então ela é falsa. então o que lê diz “é verdadeiro”. Mas o problema aponta para o paradoxo real que 1 que mesmo em relação à verdade. 1 Obrigatória KIRKHAM. não há apenas várias correntes ou definições. Como fenômeno da relação com o criticismo kantiano. 1996. constituído concomitantemente por fatos lidar com os problemas de insegurança jurídica? concretos e proposições abstratas que interagem reciprocamente. que retirou de boa parte dos cientistas a sensibilidade A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA social e os fundamentos éticos da busca da verdade. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. REALE. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira.

AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

NOTA 10. o positiVismo: Comte aUlaAO PROFESSOR

Tema AO ALUNO NOTAda aula

tema da aUla O positivismo filosófico.

O positivismo filosófico.
Objetivos da aula

ObjetivOs da aUla filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. Apresentar o positivismo

Apresentar o positivismo filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. DESENVOLVIMENTO
prepare-se para a aUla
A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela também um papel político para a

A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, manutenção da ordem. Isso quer dizer que, por um lado, o afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum positivismo se apresenta como uma teoria do conhecimento de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela capaz de apreender e desvendar a ordem natural dos também um papel político para a manutenção da ordem. Isso acontecimentos histórico, descobrindo leis gerais válidas para quer dizer que, por um lado, o positivismo se apresenta como todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma uma teoria do conhecimento capaz de apreender e desvendar a evolução intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, ordem natural dos acontecimentos histórico, descobrindo leis geo positivismo se apresenta como uma coordenação das ações políticas necessárias rais válidas para todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma evolução para a manutenção dessa ordem, que traz o desenvolvimento, e para uma eventual intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, o positivismo se apresenta correção de possíveis desvios. Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma coordenação das ações políticas necessárias para a manutenção dessa orcomo uma espécie de filosofia das filosofias, pois fornece a regra geral de dem que traz o desenvolvimento e para uma eventual correção de possíveis desvios. entendimento e interpretação de todos os acontecimentos históricos ao mesmo tempo Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma espécie de filosofia em que delimita os campos de intervenção da ação humana e fornece as regras de das filosofias, pois fornece a regra geral de entendimento e interpretação de todos como fazê-la. Para tanto, se opõe a qualquer tipo de saber que não esteja amparado os acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que delimita os campos de inem condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer tervenção da ação humana e fornece as regras de como fazê-la. Para tanto, se opõe a ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No qualquer tipo de saber que não esteja amparado em condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No lugar dessa ontologia99 caráter de metafísico, o positivismo, embalado pelo otimismo moderno, apresenta a ciência como verdadeira redentora e realizadora da promessa do conhecimento e do progresso. Comte acredita ter encontrado a filosofia natural a que Bacon tanto se referia sem, contudo, ter descoberto suas verdadeiras regras de funcionamento. Observar e descobrir o funcionamento da natureza é o ponto de partida para uma ação racional sobre a própria natureza que assegure ao homem um lugar privilegiado no mundo, isto é, um lugar de domínio que propicie uma natural evolução. Portanto, a filosofia
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positivista de Comte concede à ciência lugar de fundamental destaque, na medida em que a ela cabe fornecer o conhecimento do mundo e o plano de ação adequado ao seu manejo. Eis a síntese da perspectiva cientificista da filosofia positivista: ver para prever e prever para controlar. Afirma Comte:
“Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte de trabalhos da espécie humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a verdadeira base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos fenômenos, cujo resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evidentemente pode nos conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um fenômeno por outro, tudo isso em nosso proveito... Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores.”26

Apesar dessa apresentação dos postulados e das pretensões do positivismo, ainda é necessário um esforço de definição. Usemos o seguinte conceito: positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. É uma doutrina porque é um conhecimento organizado a partir de um corpo teórico próprio e definido. A substância dessa doutrina filosófica é o paradoxo entre o real e o transcendente, onde o primeiro deve ser entendido como uma exterioridade observável e o segundo como a própria metafísica. Assim, o positivismo rejeita a cientificidade, ou seja, o caráter de verdade, de qualquer explicação baseada em argumentos metafísicos, rejeitando, por conseguinte, todas as idéias totalizantes e que não estejam fundamentadas no observável. Portanto, apenas no plano do real fenomênico é possível praticar a ciência e descobrir a verdade. Deve-se ter em conta que não basta a pura observação, o fenômeno observado deverá ser racionalizado para que possa ser apresentado na forma de enunciados, prognósticos e prescrições. Considerando a realidade como uma exterioridade observável, Comte entende que os fenômenos podem ser vistos, previstos e subsumidos por uma lei geral de funcionamento, de modo a ser controlado ou, pelo menos, passível de controle pela razão humana. Por isso mesmo, estrutura sua filosofia positivista em três momentos fundamentais: uma filosofia da história (momento filosófico), uma teoria ou classificação das ciências (momento epistemológico) e uma reforma das instituições políticas e morais (momento sociológico). Todos estes momentos devem ser submetidos à Lei Fundamental do Progresso do Espírito Humano, consubstanciada na evolução dos três estados que marcaram a existência dos homens: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, sendo este último a grande expressão da natureza e cultura humanas:
“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os
COmTE, augusto. Curso de Filosofia Positiva. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 23.
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efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinara para cada um uma santidade correspondente. Enfim, no estado positivo, o espírito humano reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.”27

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, no estado positivo, a crença (in)fundada em agentes sobrenaturais e forças abstratas, próprias dos estados teológico e metafísico, desaparece para dar lugar a uma nova crença: o poder da observação e da razão que, combinadas, formam a base da ciência. Note-se a influência de Hume e de Kant, conforme admite o próprio Comte, na descrença em torno de um absoluto ontológico ou mesmo na apropriação crítica da ciência, estabelecendo seus limites e possibilidades, ou, ainda como quer Kant, na compreensão da ciência como o resultado da articulação entre sentido e razão, com primazia normativa desta última, pois é ela que determina o significado dos dados empíricos absorvidos pelos sentidos. No estado positivo, é o conhecimento científico que determina a verdade e os seus meios de produção. Por isso, Comte afirma dois postulados epistemológicos básicos: 1) a negação de uma unidade absoluta intrínseca à realidade; 2) a afirmação de uma relatividade histórica do conhecimento que está sempre em progresso e se liga a dadas situações sociais.28 Com base nesses postulados, afirma três regras metodológicas essenciais para a ciência: 1) A busca do conhecimento implica a delimitação de um objeto específico de conhecimento; 2) O objeto – fenômeno – deve ser estudado sistematicamente nas suas relações constantes de concomitância e sucessão, até que se encontre sua lei geral de funcionamento; e 3) A descoberta científica da lei de funcionamento de um fenômeno, permite a previsão racional de seu comportamento, como forma de controle, segundo o dogma da invariabilidade das leis naturais.29 Assim, o positivismo produz uma filosofia da ciência que possui como fundamento a observação que, no entanto, pressupõe: 1) a possibilidade da objetividade do conhecimento; 2) uma organicidade própria dos fenômenos que são sustentados por funções naturalmente determinadas; e 3) uma harmonia intrínseca da realidade que decorre da organicidade dos fenômenos. Em

27 28

COmTE, augusto. Ob. Cit., p. 4.

COmTE, augusto. Discurso Sobre o Espírito Positivo. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 63. COmTE, augusto. Discurso Preliminar Sobre o Conjunto do Positivismo. são paulo: abril Cultural, 1983, pp. 108-110.
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Mas o problema aponta para o paradoxo real queciências da sociedade. Essa acepção positivista. isentas de influências ideológicas na busca e na realização de uma “verdade pura”. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. livre de julgamentos de valor ou ideologias. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. sendo a primeira uma condição constante da sociedade que lhe garante a harmonia: ordem. sentido moral ou ético. descartando versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: previamente todas as prenoções ou preconceitos. paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado.31 Todos esses aspectos foram. p. 30 lÖWY. p.e a maior parte do século XX. Para tanto. toda sociedade é formada por uma estática social e por uma dinâmica social. Michael Lövy explica como as ciências sociais foram tomadas por este modelo epistemológico. mente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos e processos Claro que. haverá o progresso. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. “verdade das e o direito? De muitas formas o positivismo influenciou o direito. por isso. bastaria a implantação de um Estado sociocrata intervencionista que garantisse o funcionamento dos órgão sociais. basta compreender que. como se ciência e política fossem neutras. capaz de conduzir o espírito humano numa trajetória moral evoluída e verdadeiramente livre. na verdade. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. independentes da vontade e da ação humanas.30 Segundo o positivismo. 113. chegando às suas leis gerais imutáveis. a ciência – com sua pluralidade de objetos e unidade metodológica – descobre as leis gerais imutáveis da estática (ordem) e da dinâmica (progresso). que torna a política dependente da ciência. . se tudo estiver em ordem.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE outras palavras. augusto. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. e da aristocracia. inclusive pelo direito. Todo o século XIX . neutra. No lugar da democracia. assim como as empregados pelas ciências da natureza. enraizados na consciência epistemológica moderna que se expandiram A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA por todas as formas de conhecimento. Por isso. Se a sentença é falsa. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. não há apenas várias correntes ou definições. então ela é falsa. considerada por Comte como sendo anarquista. propõe uma sociocracia fundada no conhecimento científico da sociedade e. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. de A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA tal forma.1 Independente dos resultados a que se chegue. Nesse sentido. Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. Por isso a definição da sociologia como uma física social que investiga o fenômeno social como um dado objetivo e natural. isto é. assegurando a vitalidade do organismo e evitando as disfunções socialmente patológicas que pudessem ou impedir o progresso. sendo conduzidas basicamente pelos seguintes princípios: 1) A sociedade é regida por leis naturais. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Isso é o que será aprofundado nas lidar com os problemas de insegurança jurídica? aulas seguintes. donde a crença que o progresso decorre da ordem. então o que lê diz “é harmonia natural. também produz a idéia de que a política pode ser vista como uma técnica de arranjo social. No direito não basta a verdade pura e simples. Cit. 3) As pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. é2) A sociedade pode. foram hegemonizados por leis”. Contudo. Mas podemos dar uma de forma objetiva. ser epistemologicareina uma falso”. 1994. na vida social. é exatamente isso que ocorre nas sociedades. As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento.. e sendo a segunda o resultado de suas leis gerais de evolução que lhe garante o desenvolvimento: progresso. Ob. Aqui. COmTE. se o que ele diz falso. mas se devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos. então o que lê diz “é verdadeiro”. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como conceitos positivistas de direito. então da natureza. for verdadeira. não há paradoxo. o fato é que mesmo em relação à verdade. ocultando a questão fundamental das correlações de força e de busca pelo poder. leis invariáveis. portanto. consoante concepção positivista. são paulo: Cortez. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. 31 FGV DIREITO RIO 51 CONTEXTO DA Formas pelas quais chega-se à decisão. 17. No direito. considerada por ele reacionária. para uma boa existência da sociedade e sua respectiva evolução. Para garantir a ordem que produz progresso. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. mchael.

Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. Helmut. (Capítulo I. Principais Doutrinas da Filosofia do Direito – Seção VIII A modernidade: positivismo e formalismo). complementar COING. A Filosofia Positivista de Augusto Comte.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória VERDENAL. Elementos fundamentais da filosofia do direito. René. Lisboa: Dom Quixote. 1995. FGV DIREITO RIO 52 . In: CHÂTELET. François. 2002. História da filosofia.

são paulo: Cia das letras. GIDDEns. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. BERman. BaUman. por sua vez. Cornelius.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 11. 1987. se articula com a idéia de eficiência. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. As Consequências da Modernidade. Modernidade e Ambivalência. Trata-se. sem embargo de certos elementos de análise que são comuns ao tema. são paulo: Cia das letras. Buscando marcos para delimitar o período moderno. manifestando a implicação econômica da modernidade. Zygmunt. isso já oferece uma noção da força da modernidade que. é sempre contada pelos vencedores. o moderno costuma se ligar ao conceito de “modernização” (modernizar ou modernizado) que. ObjetivOs da aUla Introduzir o problema da modernidade no contexto do marco epistemológico a partir da influência do positivismo. ROUanET. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. plasTInO. CasTORIaDIs. Os fatos mais citados são a Reforma Protestante. Portanto. ainda não existem consensos sólidos quanto ao significado da palavra. Passa-se a idéia de que o Estado terá uma administração mais eficiente e a empresa uma produção mais eficiente. 1993. anthony. marshall. Boaventura de souza. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. quando se fala em modernizar o Estado ou modernizar uma empresa. Rio de Janeiro: Relume Dumará. evidentemente. 2001. As Encruzilhadas do Labirinto I. Rio de Janeiro: paz e Terra. a historiografia costuma apontar alguns acontecimentos históricos considerados como verdadeiras balizas. Carlos alberto. há muita diversidade quanto à definição do que seja moderno ou modernidade. É assim. como qualquer outra história. Crítica da Modernidade. modernidade e ideologia CientiFiCista NOTA AO ALUNO tema da aUla Delimitações para a modernidade. 32 FGV DIREITO RIO 53 . 1994. alain. manifestando a implicação política da modernidade.32 De um ponto de vista do senso comum. 1991. conforme os nomes já consagrados. HaBERmas. a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. A Reforma Protestante rompe com o tradicional monopólio da Igreja Católica na formulação da doutrina cristã e institui uma nova relação entre os homens e Deus. evidenciam que a modernidade surge de uma profunda vocação para a ruptura e a mudança. 1990. de um conceito profundamente ideologizado. Mal-estar na Modernidade. para uma instigante visão psicanalítica da modernidade cf. De um ponto de vista mais acadêmico. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova relação entre Estado e sociedade civil. são paulo: Cortez. petrópolis: Vozes. TORaInE. são paulo: Unesp. Uma reforma e duas revoluções. Jürgen. sanTOs. 1986. falar de modernidade é falar também Cf. prepare-se para a aUla Embora não seja pouco comum o recurso ao conceito de modernidade para explicar ou mesmo adjetivar certas situações ou fenômenos. sergio paulo. Por si só. 1997. O Primado da Afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. 1999. O Discurso Filosófico da Modernidade. manifestando a implicação teológica da modernidade. lisboa: Dom Quixote. traduzindo uma intuição de que o moderno ou modernizado é melhor do que aquilo que lhe antecedia. por exemplo.

que. falar de modernidade é falar também e a um só tempo de teologia.e Deus. paulatinamente. medicina. É sabido que este a de Galileu e ao teológicos. 1995. e a um só tempo de teologia. Se o um mundo não é mais visto visto como um cosmo fechado. 260. pode se libertar de todas uma vez obscurantistas. Hannah Arendt33 ao analisar a era moderna. aquele na defesa astronomia de de da dernidade. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE relação entre Estado e sociedade civil. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando aREnDT. Hannah. economia e política. O primeiro moencarna. A partircometer os mesmos erros já no quetalvez lombo e a realidade da colonização/invasão. como ser racional. manifestando a implicação teológica da modernidade. Dessa maneira. É na racionalidade que reside o o poder “esclarecido”. Para partir do conceitos teológicos. é na compreender melhor a questão. aponta aponta outros fatos fatos que considera determinantes: descoberta da dois que considera determinantes: a a desoutros dois coberta da América e a invenção do telescópio. Portanto. artes.ao analisar a era moderna. É importante frisar este novo Arendt. que ela encontra seu mais alto 75 toda essa Forense epistemológica só foi padrão de definição. já havia negado o geocentrismo. se trata é invenção do a partir Evidentemente. ponovas compreensões em torno e econômicos. Afetividade: a “A ilustração é a saída do homem de sua menoridade. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a 112 condução de um outro. da se perderam no que talvez tenha sido o ícone maior e principal fundamentoO outro fato fundamento epistemológico matematizado. política. a demonstrar do telescópio. não se trata daoinvençãodeve telescópio isoladamente. Carlos Alberto. como ser racional. se a idéia de como a grande metáfora do pensamento que realmente revolucionou a tessitura de está ligada às ligada às novas compreensões modernidade está ontológica da sociedade ocidental a em torno de século XVII: a ciência. a verdade saiu da revelação e foi para a razão. política. toda essa euforia epistemológica só foi possível graças possível graças às onde o rupturas que foram se produzindo. da qual ele é o próprio responsável. Então. do ser associado apontado por Hannah Arendt. Pratica a ação porque controla a ação. Dessa transformações que se partir do século XVII: a ciência. saindo da condicomo um protagonista que ção de “estar sujeito a”vai. medicina. Rio de Janeiro: Forense Universitária.poder do sujeito que. como conceitos que lhe são fundamentais. saindo da condição de “estar sujeito a” Na verdade. A Condição Humana. representação ou às sucessivas rupturas que foram se produzindo. o telescópio é tomado Portanto. paulatinamente. para o qual conhecer modernidade. p. O outro colonização/invasão. O Primado da crítica freudiana ao paradigma moderno. sucessivas humanismo renascentista produziu uma nova crença na 111 século XVI. os naturais. trata-se do próprio conceito trata-se do próprio conceito de sujeito que é reinventado para designar aquele que de sujeito que é reinventado para designar aquele que pratica a ação. 1995. Dito de outra maneira. em teoria. Trata-se as amarras do sujeito pode se libertar “esclarecido”. conhecimento –inclusive em cada indivíduo. as quais podem. manifestando a implicação política da modernidade. uma vez de todas as amarras obscurantistas. manifestando a implicação econômica da modernidade. Pratica a ação pratica a ação. mas pensamento que realmente revolucionou a tessitura ontológica grandes na ciência. No entanto. a invenção dodos objetos. economia e política. Entrematemática. é sim o maior genocídio da humanidade. Rio de Janeiro: euforia Universitária. reprecategoria de ciência/tecnologia sentação ou expressão. sobretudo. controla os fenômenos sociais e. e na humanismo do ser humano. A Condição Humana. muitas vidas Mundo. Trata-se do próprio credo Iluminista. em teoria. daí. indivíduo. Em todas as áreas do conhecimento – economia. é sim o ícone maior e principal mas do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e 76 todas as grandes transformade Com efeito. agora que. maneira. p. Evidentemente. como ser animal mas. mais alto padrão de definição. O primeiro América e a invenção do telescópio. inclusive. artes. . com fato apontado pudessem invenção empiricamente suas teorias. tão bem exposto por Kant: 76 . categoria de ciência/tecnologia Tribunais do Santo políticos e econômicos. aquele otimismo cultural próprio da encarna. a ciência passou a combinar suas teorias através do Telescópio. mas comoprópriouniverso infinito. inclusive. controla os fenômenos sociais porque controla a ação. mas como inclusive em cadaentão o centro Em todas as áreas do em qualquer lugar. por queNovodureza no imaginando buscou rocentrismo que buscou subjugar oviolento eurocentrismo que desnudado sob a forma de um tanta Mundo tratamento com Galileu poder reconstruir (heliocentrismo x geocentrismo) já não os mesmos se o que ele afirmava o paraíso terreno sem cometer subjugar o Novo Mundo imaginando poder reconstruir o paraíso era assim tão original ?erros jácoube a ele não apenas falar. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. . substituídas por ao quantificar. fundamentosucederam a eventualmente. muitas vidas se perderam praticados no Velho uma linguagem o sonho portanto humanidade. um universo infinito. voltemoslíticos conceitos telescópio. é na cientista sofreu duro processo inquisitório por parte dos que ela encontra seu Ofício.PLASTINO. Evidentemente. de Colomboee a realidade da experimentos que por Hannah tenha sido o maior genocídio daexata quantificadora. mas também provar Porque praticados no Velho Mundo. 260. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. sobretudo a partir expressão. Tudo e. Hannah Arendt75. geografia – o homem passa a economia. Tudo isso é possível porque o homem se destaca não apenas isso é possível porque o homem se destaca não apenas como ser animal mas. se a idéia de modernidaPortanto. 33 FGV DIREITO RIO 54 . Hannah. anteriormente. não radical deslocamento do lugar da verdade. que deixou de ser a religião para se instalar grande metáfora do do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e de todas as isoladamente. houve um quantidades.” o telescópioda tomado como telescópio ções que se da modernidade. como conceitos que lhe são fundamentais. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. da sociedade ocidental a sucederam a partir daí. sobretudo a partir do do século XVI. pode estar pode um cosmo fechado. Evidentemente. que reside É na racionalidade sobretudo. No entanto. geografia – o homem passa a ser reconhecido ser reconhecido como um protagonista que vai. os naturais. importânciaonde o centralidaderenascentista produziuSeuma próprio mundo não é mais o nova crença na importância e na centralidade do ser humano.ARENDT. Na verdade. ser traduzidas. então o centro como estar em qualquer lugar. agora otimismoda sob a formaCopérnico violento eulinhas básicas de suas teorias se sustentavamdesnudadocultural próprio um modernidade. Entre o sonho de Coterreno sem de Galileu. “negligenciando as qualidades intrínsecas telescópio.

1994. Petrópolis: Vozes.TOURAINE. Crítica da único princípio de organização da vida pessoal e coletiva: “Às vezes. o sujeito produção potencializada pela tecnologia numa A metafísica da ordem não é apenas a base das explica como a razãoeconômicasamais conhe.de produção 79 . a ordem social é. Se num primeiro momento foi caracterizado pelo seu poder revolumetaforizada segundo de livre pensamento o comunismo pretendeu a cionário. que ou técnicas até papel principal. Os Clássicos da Política. p. TOURaInE.de toda ideologias políticas ou tornou-se viga mestra cidas. Alain. um conhecer e controlar a realidade mesma. das proibições e dos privilégios. Com efeito. exercer direitos e deveres como comunismo se ampararam na mesma promessa de que tanto capitalismo inerentes à sua natureza e posição social. responder por siem análises quanto às suas respectivas bifurcações internas e subtendências. estando presente desde as atividades científicas ou técnicas até os modos 78 . p. é possível afirmar. são paulo: Ática. Sapere aude! ‘Tenha coragem de usar seu mediação dos conflitos. os indivíduos se crêem livres por estarem submetidos. Alain Touraine FGV DIREITO RIO 55 . Francisco (Org. produção da cultura.Modernidade. Ob. mais as capital e o trabalho. mas é o próprio fundamento da sociedade moderna. através de um crescente e sofisticado processo de industrialização e juridicização. crítica das tradições. Para a garantia da humanas e desta promessa. todos idéia do livro. nidade) imaginou a sociedade como uma ordem. capaz linhas gerais.esteve sociedade de indivíduos livres e iguais perante o lei. Trata-se felicidade seria uma conseqüência inevitável da liberdade e da ordem social. difusão do livro. Surge a figura do “sujeito de direito”. buscando a homensmais ampla de uma séculos são dominados pelos legistas. classificam.ilustração in WEFFORT. 36. Ocapitalismo e comunismo. Conservar é garantir a ordem. a nova ordem. O que é a mais acentuadamente política do que econômica. esta tomada comocentro da maior das conquistas modernas. uma vez comunista. onde o direito é apresentado como único instrumento legítimo de para usá-lo sem a condução de um outro. criação de uma administração pública e do Estado mais conhecidas. garantem um caminho previsível e necessário aos aconeconômico. É a grande aspiração da autonomia que parece indivíduos: sujeito autônomo é capaz de80 Sem recair mesmo e conduzir sua realizar-se. neste na idéiamomento oiniciativa. a produção ancorada em técnicas científicas produz em massa para EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE satisfazer. ao sua causa reside não na falta de entendimento. tornando o sujeito livre e capaz. 83-84. a sociedade é vista como um conjunto de conhecimentos que. da moder“Porque mesmo sonho deveria ser garantido pelo as práticas nidade da ordem não é em ordem que das ideologias políticas ou do A metafísicaprocuravam mais pôrapenas a basepôr em movimento: organização econômicas comércio e das regras de câmbio. com custos reduzidos. Essa fórmula mento.TOURAINE. reservando as expressões “liberalismo” e “socialismo” para uma designação de racional.liberdade e da felicidade. abundância e felicidade. os dois sistemas ciais-históricos sejam analisados como fenômenos naturais. petrópolis: Vozes. Novamente. Já a de uma espécie de sociedade epistemológica que “naturaliza” a tecimentos. É a presente desdeque oatividades científicas desempenha então o os modos de Esses razão. apostando a primeira no livre mercado e a segunda no planejamento dominados pelo homem.As expressões “capitalismo” e “comunismo” a idéia mais ampla buscando uma conotação mais buscando são aqui empregadas de uma sociedaeconômica do que política. 114 tornou-se a viga mestra de toda a atividade moderna. controlando as ações realização fazendo com que os fenômenos so. administrar os bens e as relações humanas.(ou as abundância. filósofos. uma arquitetura baseada sobre 1994. 38. fazendo da racionalização o moderna. em para vontade conforme seus interesses. a modernidade começa a alicerçar as fundações de uma realização de liberdade. já moderno pode ser caracterizadoliberdade por um profundo conservantismo. comandando também descobrir a ordem das coisas. Numa ponta (econômica). No. comandando também a forma de KanT. 36. O capitalismo pretendeu a liberdade nova ordem.. difundindo-se por toda a vida social.”34 ideologia de bem estar que promete conforto e segurança. já no caso do comunismo oas sociedades onde se desenvolveram o espírito e Estado. escritores. mas na falta de resolução e coragem império da lei. 80 . vamente. p. ordenam para a forma de administrar 35 sociedade racional. 2. Alain. apenas. as necessidades materiais da população. Alain Touraine enfatiza duas ideologias) adotaram distintos instrumentos estratégicos: no caso do capitalismo a dimensão ordenadora da ideologia modernista: caberia ao mercado garantir o sonho de liberdade. Impulsionada por esse otimismo cultural. noutra ponta (política). e as ciências observam. Forma-se. alain. abundância e felicidade. esteve metaforizada na idéia de igualdade universal. estando de direito. fazendo da racionalização o pp. A razão possibilitaa cálculo e o discerni. Quanto à abundância. Na perspectiva da ordem presente no expressão corrida industrial travada pelas maiores potências capitalista e moderna. Alain Touraine explica como a razão Vol.” os bens e as luminoso poder da modernista: a passa a ser entendido como aquele que pode Com o retrato razão. da cultura. mas é o próprio fundamento da sociedade a atividade moderna. 1993. especialmente os séculos XIX e XX. tanto no campo da ciência (cálculo) como identicamente presente nas duas principais ideologias modernas de emancipação dos no campo da moral (discernimento). uma próprio entendimento’ – esse é o lema da ilustração. Crítica da Modernidade. difundindo-se por toda a vida social. antes de mais nada. Emanuel. Cit. ela (a moder. assim.).79 Trata-se de uma concepção de bem estar que irá perpassar toda a modernidade. 34 35 relações humanas.

TOURAINE. para libertar uma ‘natureza humana’ que havia esmagado a autoridade religiosa. então o que lê diz “é Essa espécie de divinização do homem é. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. lidar com os problemas de insegurança jurídica? Aqui. então o que lê diz “é falso”. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. Princípios da Filosofia do Direito. ela a utilizou como uma arma crítica contra todos os poderes. 14. A Psicanálise e a Questão do Paradigma). por outro lado reencantou o mundo com um tipo de “sagrado profano” produzido pelas mãos salvadoras do homem. Georg W. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária. muito rapidamente. e um certo logicismo passou a predominar na visão de mundo moderna que. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer da lógica. 1990. Petrópolis: Vozes. Mas podemos dar uma do que não é auto-referente sua famosa afirmação: “o que é racional é real e o que é real é racioversãoDireito. o fato é ordem historicamente dos resultados a que 1 e o direito? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. 183-184. – A Modernidade Triunfante: Capítulo 1 – As Luzes da Razão. Independente irresistível. na verdade.quando nos é falsa. o cálculo. certamente. Cit. O Primado da Afetividade. (Capítulo 1.”38 Eis que a razão se apresenta como consumadora de uma Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas.. F. Rio de Janeiro: Relume Dumará. às vezes ela fez da razão um instrumento ao serviço dos interesses e do prazer dos indivíduos. 37 HEGEl. Georg W. ocorre que. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural.. PLASTINO. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. 2001. sobre e tem pleno sentido gramatical: nal. ainda dizer que tudo que ele diz é mentira. sentido moral ou ético. como o A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA “eterno que é presente. 13. (Primeira DESCOBERTA . a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Hannah. síntese cf. “verdade das Prepare-se para o debate estudando as formas possíveis de associação entre direito e ordem. 2003. 1995. então ela é verdadeira.”37 Nessa esteira de pensamento. Crítica da Modernidade. No direito. são paulo: loyola. Por isso. se por um lado desencantou a sociedade do sagrado divino e da mão salvadora de Deus. já que somente a razão é capaz de consubstanciar-se na história. mas se for verdadeira. 1994. se o que ele diz é falso. TOURaInE. que foi adotada como fundamento da ordem Claro que. São Leopoldo: Unisinos. a lógica da ordem transformou-se em ordem da lógica. um tributo à deusa razão verdadeiro”. lisboa: Guimarães Editores. Henrique de lima. 36 HEGEl. Ob. VaZ. F. p. 1993. Teorias da Verdade.”36 Entretanto. finalmente. Carlos. Ob. e às vezes. p. p. 18. Cit. Hegel.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que mesmo em relação à verdade. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Richard L. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. na verdade. não há apenas várias correntes ou definições. Mas o problema aponta para o paradoxo real que é um dos que melhor nos oferece uma boa compreensão do racionalismo típico da pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. toda ordem existente na sociedade só pode ser A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA racional. Contudo. Pode-se desqualificar prefácio do livro Princípios da Filosofia paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. não há paradoxo. então eladebruçamos. alain.) Formas pelas quais complementar 20 ARENDT. no este modernidade. pp. se chegue.Para uma boaParteKIRKHAM. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como epistemologia positivista no âmbito da modernidade. Leve em consideração a importância da leis”. para uma boa análise cf. Alain. Se a sentença é falsa. Escritos de Filosofia II: ética e cultura. 38 FGV DIREITO RIO 56 .

Common Law. O segundo desenvolveu-se na Inglaterra e está presente em boa parte dos países de língua inglesa. René. p. lEaDER.) Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. por ser reducionista. Rio de Janeiro: Renovar. se positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. como o Japão. aqui. Assim. ObjetivOs das aUlas Apresentar as diferentes formas pelas quais o positivismo se apresenta no direito e na idéia de “ciência do direito”. são paulo: martins Fontes. a expressão positivismo jurídico também é sujeita a ambigüidades. o direito ocidental estrutura-se na forma de duas grandes famílias. Donde muitos ao ouvirem a palavra positivismo. sheldon. ou sistemas jurídicos: 1) o Sistema Romano-Germânico ou Civil Law. In aRnaUD. contudo. Caracteriza-se. 104. Está baseado essencialmente nas normas legisladas. andré-Jean. O primeiro se desenvolveu na Europa continental e hoje está presente na maior parte do mundo. ela não explica corretamente o conceito e os avatares do positivismo jurídico. os positiVismos JUrÍdiCos e a CiÊnCia do direito NOTA AO ALUNO tema da aUla A influência do positivismo na ciência moderna do direito. uma das ambigüidades do positivismo. uma dicotomia inicial que é o cerne da abordagem positivista: a diferença entre um direito real e Cf. logo pensam em “aplicação exata da lei”. conforme as premissas positivistas. resulta de um vício intelectual de muitos juristas do sistema romano-germânico. no campo do direito. 1996. e o 2) Sistema da Common Law. Não que esteja errada tal concepção. 1999. (Org. Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo.39 Como foi dito.positivismo jurídico é a doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto. prepare-se para as aUlas A ciência do direito. Para entender melhor: como é sabido. inclusive em alguns países orientais. diante das ambigüidades do positivismo jurídico. já que o próprio positivismo jurídico pode assim ser definido. Está baseado nas decisões judiciais ou no reconhecimento das cortes de justiça dado aos costumes e princípios praticados na sociedade. Com efeito. A primeira delas resulta da sua contextualização no sistema jurídico. e para uma melhor compreensão da idéia de ciência do direito – que se liga ao conceito de positivismo – o melhor é refazer os passos percorridos na definição do positivismo. se enquadra exatamente nesse esquema. que tendem a confundir positivismo jurídico com legalismo. Da mesma forma que o termo positivismo enseja confusões semânticas. tendo tomado impulso maior através da técnica da codificação.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUlas 12 e 13. DaVID. 39 FGV DIREITO RIO 57 .

enquanto o transcendente absoluto corresponde ao “direito ideal”. determinado no tempo e no espaço. Positivismo. portanto.). O que está em questão é a própria concepção do jurídico que deve conformar o campo do cientista do direito. António Manuel Hespanha fala em “várias escolas positivistas”. ao sociólogo etc. Henri. 607. p. assim. pois a sua explicação precisa também define o objeto de estudo da ciência do direito. BOBBIO. BaTIFFOl. sobretudo. p. 43 FGV DIREITO RIO 58 . TROpER. 7-50. esta realidade ou exterioridade. Temos. 1995. alegando que cada uma delas entendeu de uma forma determinada o fenômeno jurídico como objeto positivo de estudo. superior ao direito real. sendo considerado pelos positivistas como questão filosófica. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE um direito ideal: “O direito. 42 Cf. de tal maneira que revele uma lógica inerente ao direito que possa ser convertida pelo cientista em enunciados e prognósticos que conformem uma técnica jurídica aplicável pela prática do direito. Na tradição jurídica. O positivismo jurídico. Esse objeto deve ser isolado dos demais aspectos da realidade social e estudado profundamente para que possam ser conhecidas suas características intrínsecas.. 40 Cf. (Org. portugal [s.42 De qualquer maneira. andré-Jean. Rio de Janeiro: Renovar. antes de mais nada. de uma doutrina antitética ao direito natural ou jusnaturalismo. o juspositivista estuda tal direito real sem se perguntar se além deste existe também um direito ideal (como aquele natural). este direito eticamente superior é reconhecido como o direito natural. Este direito ideal é assim considerado num sentido moral.]: publicações Europa-américa. 1999. uma clara e sólida perspectiva do positivismo jurídico: trata-se. a realidade jurídica corresponde ao “direito real”.41 Na definição proposta para positivismo jurídico – doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto – destacam-se. fenômeno jurídico. pp. todos os positivismos jurídicos43 convergem para o entendimento de que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente e aplicável. independentemente de influências externas.”40 Nestes termos. no caso. A única resposta capaz de pacificar os ânimos e manter coerência doutrinária. norberto. Evidentemente. 136. por isso. 174. 1998. michel. Ob. Essa busca pelo jurídico como objeto da ciência do direito rendeu muita polêmica entre os próprios positivistas. o positivismo jurídico é empirista e antimetafísico. exatamente. pois. Antes de qualquer coisa. ou seja. sem fazer depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito ideal. o jurídico deve ligar-se às normas do direito. ao economista. p. Determinado que a realidade jurídica corresponde a uma exterioridade observável que deve ser objetivamente constatada. In aRnaUD. como doutrina cientificista acerca do direito – ou a ciência do direito como manifestação metodológica do positivismo jurídico – reúne as seguintes premissas básicas: a) recusa a toda forma de subjetivismo ou moralidade. a resposta se mantém firme na idéia de que a realidade jurídica deve ser uma exterioridade observável. que nem sempre concordaram quanto à sua delimitação exata.l. Cit. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. resta saber qual é. seu funcionamento e sua aplicação. não podendo ser objeto do trabalho dos juristas “científicos”. O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. é aquele que efetivamente se manifesta na realidade histórico-social. Apesar de vaga. sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e. foi a seguinte: o objeto de estudo da ciência do direito é o fenômeno jurídico. tornando-o autônomo em relação ao filósofo. como um direito perfeito e. antónio manuel. objeto da ciência jurídica. os termos dicotômicos: realidade jurídica como direito real versus transcendente absoluto como direito ideal. são paulo: Ícone. um fenômeno. 41 HEspanHa.

sendo aceito na medida em que se expressa dentro de A primeira formas. mesmo que dura a lei deve ser aplicada. isto é. sociologismo e normativismo. basicamente. afirmado. seria a diferença entre a sentença prolatada por um juiz sociologista e aquela outra por um juiz legalista. entrou em vigor o “. na França Este fato expressão dura lex. Além disso.deprimeira [escola histórica] preparou a positivismo. Há aqueles que chegam quanto ao que seja ciado. A su uma espécie de vinculação entre ambos: novo Código básica é a lei manifestada sob o rótulo de Civil. França em 1804. maneira mecânica. consubstan.jurídico] através de sua crítica radical d preparou segundo [positivismo Direito. do historicismo jurídico. corresponde a uma ameaça ou imposição real de uma força que se apresenta sob determinada forma. pois se enquadram naquela definição geral onde se destacam dois critérios: 1) afirmação da realidade jurídica como fenômeno jurídico. de abrangência. Bobbio reconhece No início do . por isso. HEspanHa. é a tradição. basicamente. ou. a primeira [escola histórica] corrente positivista: o legalismo jurídico. ao mesmo tempo em que aceitam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente. na Escola Histórica do Direito. Este fato históripreparou o segundo [positivismo jurídico] através de sua crítica radical dojurídico”. mais mesmo passo. A principal forma de consubstanciação do legalis . o por Savigny povo” das situações de filosofia do o rótulo de “código jurídico”.contudo. sob a liderança de são a mesma natural. no mesmo passo. é a tradição.. o conceito de direito. é sem dúvida abásicano polêmica coisa” A forma mais aspecto mesmo passo. todos os teóricos do positivismo jurídico se ajustam a estas premissas. Porém. historicismo. entre ambos: “. em alemão. Direito. mesmo em casos semelhantes. como Norberto Bo afirmar que sem primeira mais polêmica quanto ao seu caráter positivista. entrou em vigor o novo Código e não há direito fora da lei. 175.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE b) cultivo de métodos objetivos e verificáveis. regular de maneira absoluta a to aspecto fenomênico.contudo. Assim. 45.44 Destarte. todavia. Isto gerou no legal desta forma de positivismo foi o Código de Napoleão.contudo. A básica do básica é a lei manifestada sobtambém corresponde pretendeunorberto. no precihistórico foi o marco para o surgimento samente na França em 1804. por exemplo – todas essas correntes são positivistas. o hist jurídico. quatro correntes podem ser apontadas como as mais importantes: legalismo.. quer artificialmente pelo Estado. Há aqueles que chegam a negar ou. que p. o paradigma des direito antónio manuel. mais precisam o segundo [positivismo jurídico] através afirmar queradical do direito natural. positivismo foi o Código de Napole 103 de Cit.”46 “escola histórica e positivismo jurídico não França em 1804. consubstanciado. foram várias as correntes positivistas que se formaram a partir de concepções específicas acerca da idéia de direito e fenômeno jurídico.. o direito é um constrangimento que se impõe a indivíduos e grupos. ao afirmar queo “escola histó. mais precisamente na para o legalismo jurídico. ao direito positivo. Embora bem distintas entre si – basta imaginar como. algumas com maior outras com menor projeção. éuma forma de positivismo.seu caráter positivista. consubstanciado. conforme a vontade exata do legislador que foi a au FGV DIREITO RIO 59 Escola de Napoleão. na Escola Hist pela coletividade. do século XIX. como Norberto Bobbio. espécie de vinculação na Escola Histórica do tivismo. co foi o marco para o surgimento da nova corrente positivista: Ob. ao que seja uma forma No início do século XIX.” 45.” A forma sua forma historicismo jurídico. d) produção de um corpo próprio de enunciados técnicos para aplicação específica em situações pertinentes. dir competente que o elaborou e promulgou. considerada por Savigny como o “espírito d de vinculação quanto ao seu caráter positivista. todavia. volksgeist. sob a liderança de Savigny. conhecido como Código de Napoleão. Bobbio re o historicismo Há aqueles que chegam a negar que seja uma forma de posi-entre ambos: “. rituais ou procedimentos socialmente estabelecidos. resultante da observação do fenômeno jurídico. O PositivisBOBBIO. “escola histórica e positivismo jurídico não A dúvida a das correntes positivistas citadas. Todavia. 2) negação do direito natural como transcendência metafísica.. o direito (positivista) visto na sua maneira pura de manifestação. sob a liderança de Savigny. basicamente. a primeira [escola h uma jurídico. Como afirmado. Comoconsiderada paradigma como o “espírito do mo Jurídico: liçõesjuridicamente relevantes na s direito.. possível de ser apl 102 103 44 45 46 No início do século XIX. Bobbio reconhece uma espécie fenomênico.. o historicismo jurídico.não é consenso. conhecido como Código de Napoleão. 1995. em alemão. entrou em vigor o novo são a de sua crítica Civil. ao seu natural. que o legalismo jurídico. todas esta correntes se sustentam sobre os dois princípios básicos e fundantes do positivismo jurídico: força e forma. o fenômeno jurídico. que também corresponde rica e positivismo jurídico não Savigny. Em outras palavras. Mas o que conforma o direito positivo? Historicamente. todavia. é sem dúvida a mais p A primeira das correntes positivistas citadas. c) exclusão de considerações valorativas de caráter político ou ético. Civil. sed lex. todos os positivismos jurídicos concordam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito positivo. como Norberto Bobbio. E 102 mesma coisa” século XIX. mesma coisa” . Em outras palavras. volksgeist. coerente e sem lacunas. são paulo: Ícone. quer espontaneamente das correntes positivistas citadas. conhecido como Código da Exegese.. p. expectativa de um sistema jurídico c pretendeu regular de maneira absoluta a totalidade das situIdem.

existem significativas diferenças lich. naEsse foi o casojurídica. ou seja. que não se reduz à lei. O sociologismo jurídico enfrentou fortes críticas. não passível de ser procurado no daquelese que identificavam o direito como um fenômeno para os toleradas num certo espaço territorial. cabendo à direito subjetivo. Fundamentos da Sociologia do sociologismo enquadrarem na mesma de validade do mesmo direito na idéia de Direito. Esse aspecto coincide com a vinculação dessas ou capaz direito que emerge daacreditando terem elaborado uma teoria de vigência. influentes do positivismo jurídico: o normativismo.prefácio deo livro que “tamocupam papel reivindicam cena si. necessariamente. códigos. portanto. como forma determinadas sanções no e prognósticos acerca do conjunto das situações Uma interessante manifesda sociedade. Eugen. Para estafoi o caso de Kelsen. A principal forma de consubstanciação do legalismo foi a Escola da Exegese. no corresponde fatos. existem significativas diferenças temos uma mudança nos pares. no sentido e o cismo e o sociologismo são mais afeitos ao segundo.sociedade. acreditando terem elaborado uma teoria dever ser – sollencapaz estatuto defundamento de validade do mesmo direito na idéiacientífica do direitoeficácia impõe identifica o direito a partir da estrutura lógica do de efetividade ou – que social. como dever oulei refletir tais práticas. importanteao afirmar no seu primeiros os principal destas diferenças resida no fato do legalismosegun. sociedade. sistemas jurídicos romano-germânico evigor conforme na jurisprudência ou na aplicaválida a norma jurídica desde e prognósticos acerca do conjunto das situações de de positivismo com os previsões que tenha entrado em da common law: ção do direito. Apesar deou formalista e no segundono sentido aqui descrito. vão sendo mais praticadas meno normativo. daqueles que identificavam o direito como jurídica aplicável Para esta ção até as sentenças judiciais que configuram norma o um fenômenoao caso concreto. jurídica aplicável ao caso concreto. No primeiro caso – legalismo e normativismo – podemos falar numa tação do sociologismo jurídico juridicamente relevantes. o fundamental normativismo buscarem o fundamento de validade do direito na idéiacientífica do direito no desenvolvimento do direito estatuto de ciência. portanto. realista ou o historicismo e o . No primeiro caso – legalismo e normativismo – e costumes buscarem o fundamento de validade do direito na idéia de vigência. portanto. As normas são válidas desde validade do direito na idéia de vigência. Brasília: EdUnb. se o normativismo identifica o direito a partir davontade da autoridade estatal –significativas diferençasdesde a estrutura lógica do dever ser sollen – que vai mesma obsessão cientificista.normas norma jurídica desde que tenha entrado em vigor em concordância com outras prio formas de jurídico. espontaneamente. a forma básica do direito é a norma. ou seja. A norma jurídica ato de fatos. na França do século XIX. acreditando tejurídica rem elaborado umaconcreto. o Essas quatroordenamentopositivismo reivindicam historicismo e o uma síntese. fundador e representante maior de uma das formas não. necessariamente. da autoridade como positivismo Esse vai o para de Essas quatro formas de competente e foi desde a Constituição uma a seurepresentante maior de uma dasnorma fundador e modo. é válida a norma mais idealista ou formalista e no segundo vigor – falar numa epistemologia jurídica desde que tenha entrado em caso conforme historicismo e sociologismo – numa epistemologia maisIsso porque materialista. como disposta nos códigos. ou seja. na medida em que estes dizem respeito às coisas como éelas são e não. é válida a que promulgadas pela autoridade competente conforme determinado no pró. uma das formas mais O sociologismo jurídico enfrentou fortes maior de especialmente jurídica é ato de vontade da autoridade estatal competente e vai desde a Constituiinfluentes do positivismo jurídico: normativismo. como dever respeito às coisas como elas são e mais medida em que estes dizem ou direito subjetivo. Para esta cer enunciados. pois enquanto o historicismo e o legalismo tendem p. a convicção de ser procuradocomo devem ser. pois traduzem nos casos concretos o todos os tempos. Esse corrente. na medida em que estes dizem respeito às normativo. Kelsen. que não normativo. reivindicam caso si. norma jurídica é ato de do lei. cada uma seu entre elas. o judiciais que configuram formas mais cada até as sentenças estatuto de ciência. nossa época. válidas desde que do direito é a no autoridade se reduz em concordância com outras normas hierarquicamente superiores do ordenamento à lei. jurídico. ou RIO 60 FGV DIREITO podemosseja. como disposta nos códigos.estatal devem ser. a mais praticadas lógica identifica direito forma do fato ou para os e toleradas num certoo espaçonaterritorial. e se buscam o fundamento obsessão cientificista. As normas são nãoforma básicaser procuradopelamundo dos competente corrente.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ações juridicamente relevantes na sua área de abrangência. para os a e do modo. aparece na obra de Eugen Ehrde garantia da ordem social. buscam hierarquicamente superiores porque o para jurídico. é destas a norma jurídica quando conforme as entre elas. Enquanto para os direito alemão.47 Para o sociologismo juríindivíduos a convicção de que tal prática corresponde a uma dico. epistemologia mais idealista todas serem positivistas. Apesar de todas serem positivistas.” determinado no próprio ordenamento jurídico. o direito corresponde às práticas sociais que se formam necessidade jurídica. como em Essas quatro formas bém em dos são os juizes que desempenham esse papel. Apesar de todas serem hierarquicamente superiores positivistas.EHRlICH. Talvez a principal válida diferenças resida no fato do legalismo e do tradiçõesnormativismo da sociedade. como um fenôO sociologismodaqueles que identificavam o direito especialmente num determinado momento histórico. é válida a norma jurídica quando conforme as tradições e costumes de fornecer enunciados. gerando mundo dos fatos. mas na própria enquanto o legalismo e o normativismo são Isso do primeiro sistema. é masfornecer enunciados. caso – historicismo e sociologismo – mesma obsessão mais realista ou materialista. previsões e prognósticos acerca do conjunto que promulgadas pela autoridade competente em concordância é a norma. o histori. vontade necessariamente. como sentido nos descrito. Talvez alegisladoresde positivismode destaque napara jurídica. cada Em a seu modo.não está no ato de legislar nem seja. como devem ser. necessidade de Kelsen. e A enquadrarem na à ordenamento jurídico. juridicamente relevantes. Já em termos de flexibilidade. nodisposta aqui Em síntese. 47 efetividade ou eficácia social. existem competente e impõe entre descumprimento de destas judiciais que configuram determinadas sanções no caso de elas.for. a passível de promulgadas norma. 1986. determinado no próprio ordenamento jurídico. previsões caso de descumprimento de suas prescrições. 7.resida no fato norma Constituição até as sentenças diferenças como forma do legalismo e do normativismo buscarem o fundamento de de garantia da ordem social. a forma básica do direito com outras normas das situações juridicamente relevantes. Talvez a principalsuas prescrições. sociologismo o normativismo o ciência. As normas são capaz de desde aplicável ao do positivismo jurídico:direito válidas forneinfluentes caso teoria científica do o normativismo. num determinado momento histórico. A norma fundador e representante críticas. gerandocostume que brota diretamente do seio social. sociólogo do e se enquadrarem nanuma epistemologia cientificista. especialmente jurídico enfrentou fortes críticas. que não se reduz corrente. a uma indivíduos elas passível que tal prática mundo dos coisas como não são e não. típicos porque o historicismo aqui descrito. Issodo ordenamento si. vão sendoinvestigação socioTransportada para o mundo jurídico.

resulta da figura dos “códigos”. Introdução Crítica ao Direito. FGV DIREITO RIO 61 . além de serem reconhecidos os diversos níveis hierárquicos do Estado competentes para legislar. (Primeira Parte – Epistemologia e Direito). Michel. Já no caso do legalismo. Os Positivismos. Lisboa: Editorial Estampa. e Seção 8. A Filosofia do Direito. isto é. o fenômeno jurídico. [s.2. só mudando após firme e convicta resistência de muitos anos.) HESPANHA. Com efeito. por isso mesmo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE a maior dureza e conservadorismo. o sociologismo e o normativismo já admitem maior mobilidade no conteúdo das normas jurídicas.d. Na situação inversa. bibliOGrafia Obrigatória BATIFFOL. essas formas de positivismos jurídicos apresentadas foram as respostas mais veementes já produzidas no âmbito da epistemologia jurídica e da filosofia do direito. Portugal: Publicações Europa-América. Todas negam o direito natural e afirmam a realidade jurídica como um fenômeno observável. As Escolas Clássicas do século XIX). 1998. António Manuel. A dinamicidade do normativismo se explica pela liberdade da vontade do legislador que pode a todo momento modificar as normas jurídicas. (Capítulo I. o sociologismo é sem dúvida o mais dinâmico já que as práticas sociais estão em constante mutação. a questão da “ciência do direito” foi enfrentada durante os séculos XIX e XX sob a influência maior do positivismo e.]. (Capítulo 8. Positivismo e Cientismo. a forma observável do direito. O Direito na Época Contemporânea – Seção 8. Lisboa: Editorial Notícias. Henri.mas divergem quanto à explicação em torno do que seja. O conservadorismo do historicismo se explica pelo fato das tradições serem sempre muito arraigadas na cultura dos povos. exatamente. complementar MIAILLE.3.3. que são sempre promulgados como obras acabadas e completas para terem longa estabilidade. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. 1989. de maior grau de flexibilidade.

e da associação nacional de pós-Graduação e pesquisa em Direitos Humanos. membro da associação Brasileira de Ensino do Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE JosÉ riCardo CUnHa Doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de santa Catarina. mestrado e doutorado. professor adjunto e Coordenador da Graduação da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas. professor adjunto da Faculdade de Direito UERJ. autor de livros e artigos em revistas especializadas nas temáticas de Filosofi a e Teoria do Direito. Direitos Humanos e Direitos da Criança e do adolescente. do Conselho nacional de pesquisa e pós-Graduação em Direito. leciona e pesquisa nas áreas de Filosofi a do Direito e Direitos Humanos. onde leciona na graduação. FGV DIREITO RIO 62 . mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela pUC-Rio e Bacharel em Direito pela UFRJ.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR aDmInIsTRaTIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR aCaDÊmICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE pÓs-GRaDUaÇÃO pROFEssOR COORDEnaDOR DO pROGRama DE CapaCITaÇÃO Em pODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos COORDEnaDOR DO CEnTRO DE TECnOlOGIa E sOCIEDaDE Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDEnaDOR aCaDÊmICO Da GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE EnsInO Da GRaDUaÇÃO Tânia Rangel COORDEnaDORa DE maTERIal DIDÁTICO COORDEnaDORa DE aTIVIDaDEs COmplEmEnTaREs Ana Maria Barros Vivian Barros Martins COORDEnaDORa DE TRaBalHO DE COnClUsÃO DE CURsO COORDEnaDOREs DO nÚClEO DE pRÁTICas JURÍDICas COORDEnaDORa DE sECRETaRIa DE GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE FInanÇas COORDEnaDORa DE maRKETInG EsTRaTÉGICO E planEJamEnTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO RIO 63 .

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