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epistemologia e

modernidade
AUTOR: JOSÉ RICARDO CUNHA

1ª edição

ROTEIRO De CURSO
2008.2
Sumário
Epistemologia e modernidade

I. APRESENTAÇÃO DO CURSO..........................................................................................................................................................03

II. PROGRAMA DO CURSO...............................................................................................................................................................05

III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA..........................................................................................................................................................07

IV. PLANO DAS AULAS....................................................................................................................................................................10

AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS. PENSAMENTO E VERDADE..................................................................................10

AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH....................................................................................................14

AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES.............................................................................................................17

AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS.................................................................................................................................26

AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES........................................................................................................................................29

AULA 6. INATISMO: DESCARTES.......................................................................................................................................................31

AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE...............................................................................................................................................35

AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO....................................................................................................................39

AULA 9. CRITICISMO: KANT.............................................................................................................................................................42

AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE....................................................................................................................................................48

AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA......................................................................................................................53

AULAS 12 e 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO...............................................................................................57


epistemologia e modernidade

I. APRESENTAÇÃO DO CURSO

Saudações acadêmicas! Este é o Curso de Ciência e Modernidade – uma introdu-


ção ao problema da verdade. Trata-se de um curso de filosofia que caminha entre a
filosofia geral e a filosofia do direito e sua missão é problematizar o tema da verda-
de. Dessa forma, serve como pressuposto lógico e didático para o curso de filosofia
do semestre seguinte, que irá problematizar o tema da justiça. Assim, o aluno será
inserido nos dois pilares filosóficos – verdade e justiça – especialmente escolhidos e
pensados para a grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Funda-
ção Getulio Vargas.
Toda a tradição jurídica foi forjada tendo como pressuposto conceitual, de
forma mais ou menos clara, a idéia de verdade: verdade dos fatos, verdade das
leis, verdade da constituição, verdade do processo, verdade do discurso, verdade
do intérprete, etc. Ainda que o conceito em si de verdade nunca tenha sido te-
matizado de forma absoluta ou mesmo encontrado um consenso entre filósofos
ou juristas, a idéia da verdade sempre esteve – e ainda está – amparando e legiti-
mando o direito e as decisões jurídicas. Seja pela recorrência aos fatos, às normas
ou à argumentação, a comunidade jurídica busca um amparo de veracidade que
responda aos anseios da consciência epistemológica de toda a sociedade. Isso
deve deixar claro que o problema da verdade não é específico do direito, nem
mesmo da filosofia, mas, antes, trata-se de um problema humano e, por isso
mesmo, social.
Essa imbricação entre sociedade e verdade nunca foi tão profunda e tão explí-
cita como na modernidade. O laicismo moderno foi convertido em cientificismo
moderno e a ciência, tendo na técnica o seu braço operacional, passou a ocupar
o centro do pensamento social e o lugar privilegiado da verdade. Todas as formas
de conhecimento e instituições modernas foram, então, visceralmente marcadas
por essa “ideologia cientificista”. Foi assim com a economia, a política, a medicina
e, dentre outras, o direito que, rapidamente, converteu-se em ciência do direito.
Como se não bastasse, os próprios ramos do direito iniciaram uma corrida alucina-
da pelo seu próprio estatuto de cientificidade e, por isso, lemos e ouvimos falar em
coisas como “ciência do direito processual”, “ciência do direito penal” ou “direito
civil como ciência própria dentro do direito”.
Todas essas reflexões terão lugar neste curso de Ciência e Modernidade. Não se
pode imaginar, hoje, a figura de um profissional crítico e hábil do direito, que seja
capaz de pensar por problemas e raciocinar dialeticamente, sem que esteja inserido
nesse debate filosófico e preparado para a problematização da verdade. Portanto, o
presente curso não tem caráter secundário ou diletante. Embora esteja cercado pelos
prazeres da filosofia, sua tarefa é árdua e exige concentração e aprofundamento. Tra-
ta-se de uma oportunidade ímpar de experiência do pensamento para a qual estão
todos desde já convidados.

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1. Objetivo Geral da Disciplina

Introduzir noções essenciais para a problematização do conceito de verdade a


partir da compreensão dos fundamentos da epistemologia, tendo em vista o estudo
dos limites e possibilidades de uma ciência do direito no contexto da crise e da crí-
tica do paradigma da modernidade.

2. Objetivos Específicos da Disciplina

2.1. Apresentar a verdade como objeto de um intenso debate histórico – filosó-


fico e jurídico – sobre o qual não há um consenso definitivo;
2.2. Estudar os principais fundamentos, antigos e modernos, que contribuíram
para a constituição das idéias mais fortes de verdade na cultura ocidental;
2.3. Investigar as bases positivistas do cientificismo moderno e a sua inflexão
sobre a chamada “ciência do direito”.

3. Formas de avaliação

O aluno será avaliado mediante sua participação qualificada em sala de aula,


realização das leituras obrigatórias, trabalhos e provas que forem aplicados.

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II. PROGRAMA DO CURSO

EMENTA

Objetivos da filosofia e filosofia do direito. O pensamento e as tarefas do pen-


samento. As idéias de verdade e seus desafios intelectuais e sociais. Fundamentos
filosóficos da antiguidade para a verdade. Fundamentos filosóficos da modernidade
para a verdade. Modernidade, verdade e ciência. O positivismo e os positivismos
jurídicos na ciência do direito.

INTRODUÇÃO: A VERDADE COMO TEMA E PROBLEMA

1. Introdução ao curso e seus objetivos. Pensamento e verdade.


2. Nossa idéia de verdade: aletheia, veritas, emunah.

UNIDADE 1: FUNDAMENTOS DA ANTIGUIDADE

3. Realidade e verdade: Heráclito e Parmênides.


4. Linguagem e verdade: os Sofistas.
5. Conceito e verdade: Sócrates.

UNIDADE 2: FUNDAMENTOS DA MODERNIDADE

6. Inatismo: Descartes.
7. Empirismo: Hume e Locke.
8. Formalismo Jurídico e Realismo Jurídico.
9. Criticismo: Kant.

UNIDADE 3: CIÊNCIA E DIREITO NA MODERNIDADE

10. O positivismo: Comte.


11. Modernidade e ideologia cientificista.
12. Positivismos jurídicos e a ciência do direito.
13. Os positivismos jurídicos e a ciência do direito II.

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OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

O Curso não se propõe a uma abordagem enciclopédica do tema proposto, o


que seria impossível nos limites da carga horária da disciplina, além de didatica-
mente questionável. O fio condutor de todas as reflexões é o tema da verdade e os
autores serão abordados não com o fim de se conhecer suas respectivas obras, mas
como forma de aproche para acepções relevantes ao tema.

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III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: frag-


mentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
ALEXY, Robert. Derecho e razón práctica. México: Fontamara, 2002.
ARAÚJO, Inês Lacerda. Introdução à filosofia da ciência. Curitiba: EdUFPR,
1993.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1995.
ARNAUD, André-Jean (Org.). Dicionário enciclopédico de teoria e sociologia do
direito. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.
ATIENZA, Manuel. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. São
Paulo: Landy, 2000.
BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpreta-
ção da natureza. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
BARKER, Sir Ernest. Teoria política grega: Platão e seus predecessores. Brasília:
EdUnb, 1978.
BATIFFOL, Henri. A filosofia do direito. Lisboa: Editorial Notícias, [s.d.].
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1999.
BOBBIO, Norberto. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. São
Paulo: Ícone, 1995.
BORNHEIM, Gerd. (Org.). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix.
BOUDON, Raymond. O justo e o verdadeiro: estudos sobre a objectividade dos
valores e do conhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
CANARIS, Claus-Wilhelm. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência
do direito. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1989.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente.
São Paulo: Cultrix, 1999.
CARNAP, Rudolf. Empirismo, semântica e ideologia. São Paulo: Abril Cultural,
1980.
______. Testabilidade e significado. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
______. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São
Paulo: Brasiliense, 1994.
COING, Helmut. Elementos fundamentais da filosofia do direito. Porto Alegre:
Sergio Antonio Fabris, 2002.
COLLI, Giorgio. O nascimento da filosofia. Campinas: Unicamp. 1992.
COMTE, Augusto. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
______. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. São Paulo: Abril Cul-
tural, 1983.
______. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
CUNHA, José Ricardo. Direito e estética: fundamentos para um direito humanís-
tico. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1998.

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DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


______. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito. São Paulo:
Saraiva, 1993.
FERRAZ JR., Tércio Sampaio. A ciência do direito. São Paulo: Atlas, 1980.
FEYERABEND, Paul. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psica-
nálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
HABERMAS, Jürgen. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Loyo-
la, 2004.
HAWKING, Stephen William. Uma breve história do tempo: do big bang aos
buracos negros. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
HESPANHA, António Manuel. Panorama histórico da cultura jurídica européia.
Portugal [s.l.]: Europa-América, 1998.
HESSE, Reinhard (Org.). Por uma filosofia crítica da ciência. Goiânia: Editora da
UFG, 1987.
HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. Coimbra: Arménio Amado, 1973.
HOLLAND, John. A ordem oculta: como a adaptação gera a complexidade. Lis-
boa: Gradiva, 1997.
HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cul-
tural, 1980.
JAPIASSU, Hilton. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. São Paulo: Letras
e Letras, 2001.
JAPIASSU, Hilton. Questões epistemológicas. Rio de Janeiro: Imago, 1981.
JHERING, Rudolf von. É o direito uma ciência? São Paulo: Rideel, 2005.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
KAUFMANN, Arthur (Org.). Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito
contemporânea. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2002.
KIRKHAM, Richard L. Teorias da verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento filosófico. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1991.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva,
1997.
LARENZ, Karl. Metodologia da ciência do direito. Lisboa: Calouste Gulbenkian,
1983.
LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural,
1978.
LÖWY, Mchael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen:
marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. São Paulo: Cortez,
1994.
MARQUES NETO, Agostinho Ramalho. Introdução ao estudo do direito: concei-
to, objeto e método. Rio de Janeiro: Forense, 1990.
MIAILLE, Michel. Introdução crítica ao direito. Lisboa: Estampa, 1989.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

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epistemologia e modernidade

______. O método III: o conhecimento do conhecimento. Portugal [s.l.]: Euro-


pa-América, 1996.
NAGEL, Ernest. La estructura de la ciencia. Buenos Aires: Paidos, 1974.
OST, François. Elementos para uma teoria crítica del Derecho. Colômbia: Univer-
sidad Nacional de Colômbia, 2001.
PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
PLASTINO, Carlos Alberto. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao
paradigma moderno. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
POPPER, Karl. Lógica das ciências sociais. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasi-
leiro/ EdUnb, 1978.
PRIGOGINE, Ilya et al. Idéias contemporâneas: entrevistas do Le Monde. São
Paulo: Ática, 1989.
REALE, Miguel. Filosofia do direito. São Paulo: Saraiva, 1996.
RORTY, Richard. Conseqüências do pragmatismo. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
RORTY, Richard; GHIRALDELLI JR., Paulo. Ensaios pragmatistas sobre verdade
de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
TEIXEIRA, António Braz. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídi-
ca. Lisboa: Casa da Moeda, 2000.
TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994.
VERDENAL, René. A filosofia positiva de Augusto Comte. In: CHÂTELET,
François (Org.). História da Filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1995.
VIDAL, Vera; CASTRO, Susana de. (Orgs.). A questão da verdade: da metafísica
moderna ao pragmatismo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
WARAT, Luiz Alberto. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei – temas
para uma reformulação. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1994.

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IV. PLANO DAS AULAS

AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS.


PENSAMENTO E VERDADE

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

Apresentação do curso. Introdução ao problema da verdade como tarefa do pen-


samento.

Objetivos da aula

Apresentar o curso aos alunos e organizar a forma de avaliação; inserir o assunto da


verdade mediante uma reflexão acerca do pensamento como experiência humana.

PREPARE-SE PARA APARA


3) PREPARE-SE AULA A AULA

Diz Aristóteles: “Foi, com efeito, pelo espanto que os homens,


Diz Aristóteles: “Foi, com efeito, pelo espanto que os homens,
assimhoje
assim hoje como
como no começo,
no começo, foram alevados
foram levados filosofar, a filosofar,
sendo pri- sendo
meiramente
primeiramenteabalados pelas dificuldades
abalados pelas mais óbvias, e progredin-
dificuldades mais óbvias, e
do em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores...”
progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas
(Aristóteles, Metafísica, I, 2).
maiores...” (Aristóteles, Metafísica, I, 2).

x • OOque
quesignifica o espanto
significa ou ou
o espanto estranhamento comocomo
estranhamento condição para apara
condição filosofia?
a filosofia?
• O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que
x O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que
não são familiares?
não
• são familiares?
Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e verdade?
x Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e
Nada nos é mais familiar do que o tempo. Veja o que diz Santo Agostinho sobre
verdade?
o tempo:

Nada nos é mais familiar“Odoque


“O que
queé éoootempo?
tempo. Veja o fornecer
Tentemos
tempo? Tentemos quefornecer
diz Santo
uma umaAgostinho
explicação fácil e sobre
explicação fácil o
e
tempo: breve. O que há de mais familiar e conhecido
breve. O que há de mais familiar e conhecido do que odo que o tempo?
Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não encontro
tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não
explicação. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para
o“O que ée explicação.
encontro
presente o tempo?
do Tentemos
Seo futuro,
presente para fornecer
eu disserterei que ouma
tempoexplicação
que perguntar: fácil e
é a passagem
Como
breve.
pode O que
o tempo
do passado passar?
para háComo
o de mais
sei
presente que efamiliar
ele passa?
do Oe que
presente conhecido
épara
um tempo do que
o futuro, o
terei
tempo?
que perguntar: Como pode Mas passar?
o tempo o que é oComo
tempo?
sei Quando
que ele quero
passa?explicá-lo,
O que é não
um
tempo passado? Onde eleencontro
está?explicação.
O que é um Se tempo
eu disser que oOnde
futuro? tempoele
é aestá?
passagem
SeDIREITO
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passado é o que eu, do do passado
presente para oepresente
recordo o futuro eé do presente
o que eu, dopara o futuro,
presente terei
espero,
que perguntar:
então não seria mais correto dizer que Como pode
o tempo o tempoo passar?
é apenas Como
presente? Mas sei que
quanto
breve. O que há de mais familiar e conhecido do que o
tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não
encontro explicação. Se eu disser que o tempo é a passagem
do passado para o presente e do presente para o futuro, terei
epistemologia e modernidade
que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um
tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o
passado é o que eu, do presente recordo e o futuro é o que eu, do presente espero,
passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu,
então do
não seriarecordo
presente maise correto
o futuro édizer quedoopresente
o que eu, tempoespero,
é apenas
então nãoo seria
presente? Mas quanto
mais correto
dura um
dizerpresente??
que o tempo Quando
é apenas oacabo
presente?deMascolocar
quantoodura
“r” no
umverbo colocar,
presente?? Quandoeste “r” é ainda
acabo
de colocar o “r” no verbo colocar, este “r” é ainda presente ou já é passado?
presente ou já é passado? A palavra que estou pensando em escrever a seguir, é A palavra que
estou pensando em escrever a seguir, é presente ou futuro? O que é o tempo afinal?” (Santo
presente ou futuro? O que é o tempo afinal? (Santo Agostinho, Confissões)
Agostinho, Confissões)
Como o tempo é familiar e pode ser estranhado, também as verdades são familiares e
Como
podem o temposer
e devem é familiar e pode Mas
estranhadas. ser estranhado, também
para que isso as verdades
aconteça, são fami-abrir-se a
é necessário
liares e podem e devem ser estranhadas. Mas para que isso aconteça, é necessário
uma experiência radical de pensamento. Para tanto, nada melhor do que a
abrir-se a uma experiência radical de pensamento. Para tanto, nada melhor do que
provocação
a provocaçãofeita
feita por
por Heidegger:
Heidegger:

“O QUE MAIS DESAFIA O PENSAMENTO NESSA ÉPOCA DE


DESAFIO DO PENSAMENTO, É QUE AINDA NÃO COMEÇAMOS A
“O que mais desafia o pensamento nessa época de desafio do pensamen-
PENSAR.”
to, é que ainda não começamos a pensar.”

Deve-se indagar ao aluno:


Diante da afirmação de Heidegger:
x Por que ainda não começamos a pensar?
x • Por que éainda
O que não começamos a pensar?
pensar?
• O que é pensar?

O debate deve dois


Temos hoje, ser canalizado para a síntese
grandes obstáculos negativa,
ao pensamento queisto é, o ser
devem quesuperados:
não é pensar:
x Pensar não é divagar ou devanear sem compromissos; ninguém se perde no
a. O individualismo:
pensamento, estesenos
ao contrário, conduz a achar que nossa subjetividade e opor-
acha.
tunidades pessoais somente podem ser forjadas sem o outro ou contra o
x Pensar não é racionalizar na forma de causalidades, antecedentes e
outro.
conseqüentes; pensar
b. A massificação: não
esta nosé conduz
cálculoànem ser
perda deeficiente.
nossa singularidade nos definindo
x apenas como parte de coletivos mais ou menos amorfos e repetitivos.
Pensar não é mimese, não é fazer a mera repetição.

Para se superar tais obstáculos, deve-se ter em conta que o pensamento é uma
Embora todos
experiência estes eelementos
existencial possam
histórica, por isso ao até fazer
mesmo partepessoal
tempo de um contexto
e social. Tam-maior do
pensamento, pensar
bém deve-se ter claro éque
mais do que
pensar é umPensar
não isso. ato, masé uma
criar.atitude
Pensarque
é poder fazer surgir o
nos define
diante da vida;
inexistente nos define
dando sentidocomo sujeitose criadores
às coisas ao mundo.e capazes
Assim,depensar
transcender
é umamovimento
mera de
repetição e a mesmificação. Representa, nesse sentido, 1) uma ruptura com as car-
reapropriação do mundo por meio da significação e resignificação do mundo, o que faz
tilhas e manuais; e 2) uma exigência de justificação permanente de todas as normas
e padrões de conduta.
Certamente, a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e 9
exige esforço e superação. Leia a parábola abaixo, de Nietzsche, reflita e prepare-se
para o debate:

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normas e padrões de conduta.
Certamente, a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige
esforço e superação. Nessa linha, vale discutir com os alunos a parábola das Três
Metamorfoses de Nietzsche: epistemologia e modernidade

DasDastrês
trêsmetamorfoses
metamorfoses
Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se
torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Três metamorfoses,
Muitos fardos pesados hánomeio-vos, doo espírito
para o espírito, espírito: como
forte, o espírito se
o espírito
de suportação,
torna cameloaoe qual inere o leão
o camelo, respeito;
e o cargas pesadas,
leão, por fim, as mais pesa-
criança.
das, pede fardos
Muitos a sua força.
pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito
“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoe-
de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais
lha como um camelo e quer ficar bem carregado.
pesadas, pede a sua“O força.
que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de supor-
tação,
"O que há de“para que eu o tome
pesado?", sobre mim
pergunta e minha
o espírito deforça se alegre? e ajoelha como um camelo
suportação;
Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a pró-
e quer ficar bem carregado.
pria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?
"O que háOude serámais
isto: pesado,
apartar-seódaheróis", pergunta
nossa causa, quando o espírito deo suportação,
ela celebra "para que eu
seu triunfo? Subir
o tome sobre
para altos mim e minha
montes, a fim deforça seoalegre?
tentar tentador?
Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à
verdade, padecer fome na alma?
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Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de ami-
zade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?
Ou será isto: entrar na água suja, se for a água da verdade, e não enxotar de si nem
as frias rãs nem os ardorosos sapos?
Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando
ele nos quer assustar?”
Todos estes pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal
como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio
deserto.
Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito tor-
na-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio
deserto.
Procura ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do
seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.
Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem
deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.
“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em
cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves !”
Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de
todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.
Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais
haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta sufi-
ciente o animal de carga, suportador e respeitador?
Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si
a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.
Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso,
meus irmãos, precisa-se do leão.

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epistemologia e modernidade

Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para
o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de
rapina e tarefa de animal rapinante.
Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é
forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de
arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina,
precisa-se do leão.
Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer
pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?
Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que
gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.
Sim, meus irmãos, para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o
espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista
o seu mundo.
Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito torna-se camelo e o
camelo, leão e o leão, por fim criança.
Assim falou Zaratustra.
(Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

BIBLIOGRAFIA

Complementar

CUNHA, José Ricardo. Direito e estética: fundamentos para um direito huma-


nístico. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1998. (Capítulo 2 – O Homem
como Universo Infinito de Possibilidades, pp. 55-74)
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psica-
nálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. (Introdução, pp. 7-23)

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AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

A idéia de verdade, suas contradições e possibilidades na filosofia e no direito.

Objetivos da aula

Desenvolver uma reflexão sobre o conceito, sentido e limites da verdade; apre-


sentar as principais tradições que confluíram para nossa idéia geral de verdade; co-
tejar a idéia de verdade com a experiência jurídica.

PREPARE-SE PARA A AULA

A busca pela verdade é tão antiga quanto a existência do homem no mundo.


Trata-se mesmo de um traço antropológico, pois em todas as relações que o ho-
mem trava (consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com Deus) ele busca
encontrar nela uma verdade. Essa busca pela verdade gera no homem certo conforto
e estabilidade por estar diante de algo que acredita como fidedigno, naturalmente
digno de confiança. De efeito, a busca pela verdade acaba por atribuir à verdade
um valor em si mesmo, de forma que o verdadeiro é considerado bom e a verdade
um bem. Entretanto, nem tudo pode ser qualificado como verdadeiro: a verdade
deve, antes de qualquer coisa, ser buscada. Para isso, historicamente se diferenciou
verdade de senso comum. No senso comum, permanecemos com nossas opiniões e
crenças sem ter nenhum motivo para duvidar delas. Aqui, em geral, se reproduz as
afirmações que são recebidas prontas, correndo-se o sério risco de perpetuar mitos
e preconceitos. Quando o senso comum se cristaliza sobremaneira, estamos diante
do que pode ser chamado de pensamento mítico, por oposição a um pensamento
crítico. Veja e reflita sobre a tabela abaixo:

PENSAMENTO MÍTICO PENSAMENTO CRÍTICO


Preso e modelado Livre e criativo
Descomprometido e irresponsável Comprometido e responsável
Esvaziado de senso ético Marcado pelo senso ético
Simples Complexo
Subserviente Autônomo.

Evidentemente que a busca da verdade somente pode se realizar de forma crítica,


isto é, no campo do pensamento crítico. Também relacionada com a verdade, mas
diferente do senso comum ou do pensamento mítico, é a incerteza. Assim como
no senso comum ou no pensamento mítico, na ordem da incerteza também se está

FGV DIREITO RIO 14


Dessa forma, temos
no campo do pensamento crítico. Também relacionada com as três grandes
a verdade, tradições
mas herdadas pela filosofia na con
diferente
da idéia de verdade:
do senso comum ou do pensamento mítico, é a incerteza. Assim como no senso
comum ou no pensamento mítico, na ordem
• daver-perceber:
incerteza liga-se
também seé;está fora da
ao que
verdade. Todavia, diferentemente do que ocorre
• no senso comum
falar-descrever: liga-se aoou
que pensamento
foi;
epistemologia e modernidade

mítico, na incerteza tem-se plena consciência dacrer-confiar:
distâncialiga-se ao que será.
da verdade e da própria
ignorância. Na ocorrência da incerteza, ficamos em dúvida sobre em que acreditar ou
Dependendo do sentido ao qual se atribua mais peso, a verdade pode se ap
fora
em da verdade.
como Todavia,
agir diante dediferentemente
certas pessoas,do fatos
que ocorre no senso comum
ou situações. Essa dúvidaou pen-gerada pela
de uma ou outra forma:
samento mítico, na incerteza tem-se plena consciência da distância da verdade e da
incerteza, quando conectada ao pensamento mítico, gera medo e paralisia; porém,
própria ignorância. Na ocorrência da incerteza, ficamos em dúvida sobre em que
quando ou conectada • nos impulsiona
Como alethéia (ver-perceber) sugere evidência ou a
acreditar em como aoagirpensamento crítico,
diante de certas pessoas, na busca
fatos ou situações. pela verdade.
Essa dúvida
correspondência entre nosso intelecto e a coisa.
Nessapela
gerada segunda hipótese,
incerteza, quandoé condição
conectadaimprescindível
ao pensamentonamítico, dinâmicagerado
medoconhecimento.
e pa-
• Como veritas (falar-descrever) sugere validade, coerência interna ex
ralisia;
Deve-se porém, quando
deixar claroconectada
aos alunosao pensamento
como a busca crítico,
pela nos impulsiona
verdade na busca
envolve três conceitos
pelo uso correto das regras da linguagem.
pela verdade. Nessa segunda hipótese, é condição imprescindível na dinâmica do
distintos, mas recorrentes: • Como emunah (crer-confiar) sugere confiança em convenções ou co
conhecimento.
que são estabelecidos ou herdados pelos sujeitos.

VERDADE SENSO COMUM


Esquematicamente temos: INCERTEZA
Contudo, a pergunta primacial que se coloca é sobre a na-
Contudo, a pergunta primacial que05]
[inserir figura se coloca é sobre a natureza
tureza da verdade. O que é a verdade? Pense sobre quais se-
da os
riam verdade. O que para
sentidos possíveis é aa verdade.
verdade? Acerca dessa questão
A verdade nos conforta e alivia. Também nos oferece uma sensação m
fundamental, somos herdeiros de três tradições lingüístico-
estabilidade. Contudo, ela não é absoluta ou suficiente para nos afastar de
culturais distintas: o grego, o latim
dúvidas e o hebraico.
e inseguranças. Seja porque novas situações e descobertas exige
verdades, seja porque a própria unidade ontológica da verdade pode sofrer
Assim, estaremos diante de apori
Em grego,
x A verdade a verdade
nos conforta comumente
e alivia. Tambémdiz-se aletheia, significando o não-oculto, o
das mais conhecidas aporias é o c
nos oferece Trata-se
revelado. uma sensação maior de oestabilida-
de descobrir que é da forma que é. Portanto, o verdadeiro se
PARADOXO DO CRETENSE, ou P
de. Contudo, ela não é absoluta ou suficiente
manifesta como tal ao espírito por oposição ao falso, ao dissimulado. O verdadeiro éo
do mentiroso. Na sua forma o
para nos afastar de todas as dúvidas e insegu-
reto, sem
ranças. Sejadistorção
porque novas ou falseamento.
situações e descober- Por isso, é evidente à razão. atribuído ao cretense Epimênides,

tas exigem novas verdades, seja porque a pró-


pria
x unidade Em ontológica
Latim, a verdade da verdade se pode sofrer significando rigor, precisão, exatidão na
diz veritas,
fissuras. Assim, estaremos diante de aporias.
descrição ou num relato sobre algo. Trata-se de apresentar algo exatamente como
Uma das mais conhecidas aporias é o chamado
então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
ocorreu, numa
PARADOXO
verdadeiro”. DO linguagem
CRETENSE, fiel ao ou acontecido.
Paradoxo O verdadeiro é o enunciado ou o relato
Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
doquementiroso.
dizer Na sua
tudo que ele diz é mentira. Mas oforma original
problema aponta é atribuído
para o paradoxo real que ao cretense Epimênides, que teria
afirmado que todos os cretenses são mentirosos. Como Epimênides é ele mesmo um
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
cretense,
paradoxo então
dizendo-se ser ele se
sem ele diz
sentido a verdade,
e autoreferenciado. Masé um mentiroso;
podemos dar uma logo está mentido. Assim, se o 18
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:
que ele diz é verdadeiro, então o que lê diz é falso. Contudo, se o que ele diz é falso,
Aentão
SENTENÇA o SEGUINTE
que lêÉdiz FALSAé verdadeiro.
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA
Como reagir ao Paradoxo do Cretense??
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas

E o direito?
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
de insegurança que possa gerar em nós.

Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo


E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
tempo dosomos
expressões confrontados
tipo: “verdade dos fatos”, “verdadecom
das expressões do tipo: verdade dos fa-
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
tos, verdade das leis, verdade do processo ou verdade do intérprete. É
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como

possível
lidar falar-se
com os problemas em verdade
de insegurança jurídica? ou seriam verdades? Como lidar com os
problemas de insegurança jurídica?
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural FGV DIREITO RIO 15
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
Formas pelas quais
DA
epistemologia e modernidade

BIBLIOGRAFIA

Obrigatória

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. (Unidade 3, Ca-
pítulo 2 Buscando a Verdade; e Capítulo 3 As Concepções de Verdade; pp.
94-107)

Complementar

KIRKHAN, Richard. Teorias da verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003. (Capí-


tulo 1 Projetos de Teoria da Verdade; e Capítulo 9 O Paradoxo do Mentiro-
so)

FGV DIREITO RIO 16


epistemologia e modernidade

AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES

AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES


NOTA AO PROFESSOR

NOTA AO ALUNO

1. Tema
Tema dadaaula
aula

Ontologia
Ontologia doo real:
do real: o problema
problema dodevir.
do ser e do ser e do devir.

Objetivos
2. Objetivos da aula
da aula

Introduzir
Introduzir o debate
o debate acercaacerca
do serdoe ser
do edevir
do devir
como como problema
problema ontológico
ontológico para a para a
compreensão
compreensão dada verdade
verdade acerca
acerca do real.
do real.

DESENVOLVIMENTO
3. DESENVOLVIMENTO

No No contexto
contexto do pensamento
do pensamento pré-socrático,
pré-socrático, dois
dois grandes grandes
filósofos (ou filósofos (ousepensado-
pensadores)
res) se destacaram
destacaram pela visceralidade
pela visceralidade de seusde seus pensamentos.
pensamentos. Heráclito
Heráclito de Éfeso
de Éfeso e e Par-
mênides de Eléa plantaram para toda a posteridade filosófica a questão
Parmênides de Eléa plantaram para toda a posteridade filosófica a questão do ser e do ser e do
devir. Duas
do devir. Duascompreensões distintas
compreensões distintas e opostas
e opostas da ontologia
da ontologia do realdo real
que, ao que,
mesmoao mesmo
tempo, informam
tempo, informam e desafiam
e desafiam as concepções
as concepções de verdade.
de verdade.

Heráclito de Éfeso
HERÁCLITO DE ÉFESO

“Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se;


“Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-
avança e se retira.” (Fragmento 91)
se; avança e se retira.” (Fragmento 91)

A mudança, a transformação e, por conseqüência, o conflito, são


A mudança e a transformação e, por conseqüência, o conflito são
partes imanentes da filosofia heraclitiana. Tamanha a importância
partes imanentes da filosofia heraclitiana. Tamanha a importância
desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma
desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma
escola própria, independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista,
escola própria, independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista, com tal
com tal denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico
denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico a idéia de
a idéia de movimento. O movimento, que surge a partir da força dos contrários é,
movimento. O movimento, que surge a partir da força dos contrários é, em si mesmo,
em si mesmo, a força dialética por excelência: “movendo-se, descansa (o fogo etéreo
a força dialética por excelência: "movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo
do corpo humano)” (Fragmento 84 a). O pensamento logológico de Heráclito,
ao encontrar-se com o dinamismo do movimento, reveste-se de imprevisibilidade,
na medida em que nada é, mas vem-a-ser, a partir do encontro com seu24contrário:
“Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”
(Fragmento 08). Logo, nada é absoluto, pois o movimento constante faz com que
as coisas sejam e não sejam numa dinâmica sem fim.

FGV DIREITO RIO 17


Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:

A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA epistemologia e modernidade


A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA

OBS: Heráclito é o pai da dialética.


Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
E o direito?
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
[inserir figura 07] E O DIREITO?
de insegurança que possa gerar em nós.

Acreditar no devirAcreditar no devir


heraclitiano
E O DIREITO? Como o problema heraclitiano
dasignifica
verdade significa
admitir
se relaciona admitir
que tudo estáque
emtudo está em mutação,
constante
constante mutação, inclusive o Direito. Se levarmos em conta a es-
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
inclusive o Direito.
expressões do Se levarmos
tipo: “verdade em conta
dos fatos”, “verdade das a estrutura tridimensional do direito,
trutura
leis”, tridimensional
“verdade do processo” ou “verdade dodo direito,
intérprete”. É devemos considerar que basta a
devemos considerar possível falar-seque basta a mudança
verdades? Como de um de seus elementos (norma, fato ou
mudança de um de seus elementos (norma, fato ou valor) para que
em verdade ou seriam
lidar com os problemas de insegurança jurídica?
valor) para que os demais
os demais também também se transformem.
se transformem. Veja-seVeja-se o casox Brown
o caso Brown Board x Board
Education
Aqui, deve-se apresentar Education
(aoaos final
alunos da (ao trabalhadas
aula).
as categorias final daporaula).
autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
PARMÊNIDES DE ELÉA
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
Parmênides de Eléa
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
DA "Pois Formasbem, eu te direi, e tu recebe a palavra que ouviste, os únicos
pelas quais
chega-se à decisão.
DESCOBERTA “Pois bem, eu te direi, e tu recebe a palavra que ouviste, os únicos cami-
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM,caminhos de São inquérito que2003. são a pensar: o primeiro, que é e portanto
nhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que é e portanto que não
1
Richard L. Teorias da Verdade. Leopoldo: Unisinos,

que ser,
é não não é não ser,
de Persuasão é caminho de Persuasão
20 (pois à verdade é acompanha);
caminho (pois à verdade
o outro,
que não é e portanto
acompanha); que é preciso
o outro, que não nãoé ser, este então,que
e portanto eu te
é digo, é atalho
preciso não ser, este
de todo incrível; pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüível),
então, eu te digo, é atalho de todo incrível; pois nem conhecerias o
nem o dirias...” (Fragmento 2).
que não é (pois não é exeqüível), nem o dirias..." (Fragmento 2).
Parmênides, de uma geração após Heráclito e seu principal opositor, pode-se
considerar
Parmênides, comodeo principal
uma geração representante após da Filosofia edo seu
Heráclito, Ser. Desta forma,
principal irá dis- pode-se
opositor,
tinguir dois caminhos básicos de reflexão filosófica: a do ser e a do não ser, sendo
considerar como o principal representante da Filosofia do Ser. Desta forma, irá
a segunda verdadeiramente impossível, dada sua não-existencialidade, e a primeira
distinguir
aquela quedois realmentecaminhos leva abásicos
certeza,de alétheia. a do ser e a do não ser, sendo
reflexão– filosófica:
a verdade
Fundamental
a segunda na leitura do fragmento
verdadeiramente impossível, nos dada parecesua
o caráter totalmente excludente
não-existencialidade, e a primeira
instaurado
aquela quepor Parmênides
realmente leva noà paradoxo
certeza, à serverdade
/ não ser. São duas proposições mutua-
– alétheia.
mente exclusivas. Não havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único caminho
investigatório
então capaz
o que lê diz “é falso”. Contudo,de
se olevar
que ele adiz verdade,
é falso, então oeste
que lê é dizo“é absoluto, essência de todo o universo,

aFundamental na seleitura do fragmento nos parece


humanaopelo caráter totalmente na excludente
verdadeiro”.
própria
Claro physis.
que, na verdade, não há E a pois
paradoxo, physis encontra-se
o fato de alguém ser mentirosonanãopráxis
quer lógos, manifestada
prática
instaurado racional-argumentativa,
por Parmênidesentão no aparadoxo
conclusão não
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
ser poderia
/ não ser ser.outra,
São senão a daproposições
duas fi-
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
liação
mutuamente
ela entre
é verdadeira, mas ser
se foreverdadeira,
pensar.então
exclusivas.
Assim, para
Não Pode-se
ela é falsa. Parmênides,
havendo desqualificar este o único caminho filosófico é o do ser,
intermediários possíveis e sendo o ser o único
aquele que possibilita o pensar; concomitantemente,
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
o pensar passa a ser atividade in-
caminho doinvestigatório capaz delógica:
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:
trínseca ser na sua manifestação levar “... a verdade,
pois o mesmoeste ééaopensar
absoluto, essência
e portanto ser”,de todo o
universo, a no
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA
diz o filósofo própria
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA
physis. E
seu fragmento dese númeroa physis três. O encontra-se na práxis
sentido absoluto do serhumana
é nomeado pelo lógos,
no exercício da na
manifestada palavra
práticaque demarca o caráter de todos os
racional-argumentativa, entes:aaquele
então que é, porque
conclusão é
não poderia ser
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
preciso ser,filosofia.
não Independente
pode serdosoutra coisa, e chegue,
o queo fato não é é, está excluído da verdade.
outra, senão a da filiação entre ser e pensar. Assim, para Parmênides, o único
1
muito tempo pela resultados a que se
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas

Ecaminho
o direito?filosófico é o do ser, aquele que possibilita o pensar; concomitantemente, o
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
de insegurança que possa gerar em nós.

pensar passaE a ser atividade intrínseca do ser na sua manifestação lógica: "... pois o
O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona
com oAcreditar
Direito? A todo no
temposer
somosparmenídico significa admitir que tudo
mesmo é a pensar e portanto ser", diz o filósofo
confrontados com
no seu fragmento de guarda
número três. O
uma essência imutável, ainda que uma camada superficial e acidental
expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das

sentido absoluto do ser é nomeado no exercício da palavra,que demarca o caráter de


leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
possa vir a se modificar, mas não a natureza das coisas. Logo, o Di-
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como

todos os entes: aquele que é, porque


lidar com os problemas de insegurança jurídica?
reito seria marcado por uma é preciso
essência ser, não pode ser outra coisa, e o que
imutável.
não é, está excluído da verdade.
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
FGV DIREITO RIO 18
26
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
epistemologia e modernidade

BIBLIOGRAFIA

Obrigatória

BORNHEIM, Gerd. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1999. (Intro-


dução; Seção Heráclito de Éfeso; Seção Parmênides de Eléia)

Complementar

KIRK, G.S. SHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Lisboa: Calouste Gul-


benkian, 1994. (Capítulo 2 Os Pensadores Jônios; e Capítulo 3 A Filosofia
no Ocidente)

ANEXO

BROWN CONTRA A SECRETARIA DE EDUCAÇÃO [BROWN V. BOARD OF EDUCATION]: A


DECISÃO DA SUPREMA CORTE QUE TRANSFORMOU UM PAÍS
David Pitts

Em maio de 1954 – em uma decisão histórica, no caso Brown Contra a Secre-


taria de Educação [Brown v. Board of Education] – a Suprema Corte dos Estados
Unidos emitiu uma determinação segundo a qual as escolas públicas segregadas
eram inconstitucionais. O nome no caso, Brown, é o nome de Oliver Brown, um
negro, que iniciou um processo quando sua filha de sete anos, Linda, teve sua matrí-
cula negada em uma escola primária só para brancos na pequena cidade de Topeka,
Kansas, no meio-oeste dos Estados Unidos, onde eles viviam. Nosso colaborado,
David Pitts, rastreou as origens de uma das mais importantes decisões na história
do direito constitucional dos Estados Unidos, que resultou em transformações não
apenas em Topeka, mas na nação inteira.
Na primavera de 1954, Oliver Brown era o pai mais famoso dos Estados Uni-
dos. Mas ele não era o único autor da ação no caso Brown contra a Secretaria de
Educação, que originalmente foi iniciado em 1951. Doze outros autores em Topeka
se uniram a Brown para representar seus filhos – 20 ao todo – que, em conformi-
dade com a lei, deveriam freqüentar escolas primárias segregadas. A ação inicial foi
apoiada pela seção de Topeka da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas
de Cor [National Association for the Advancement of Colored People] (NAACP),
a organização de direitos civis mais antiga do país.
O caso Brown, no entanto, não foi a primeira vez que a educação segregada, san-
cionada pela lei, sofreu um desafio nos Estados Unidos. Em 1849, uma ação havia
sido iniciada em Boston, Massachusetts. Somente em Kansas, entre 1881 e 1949,
11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. Quando a ação
de Topeka chegou à Suprema Corte, a segregação racial era a norma, não a exceção,
em boa parte do país, e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. O caso

FGV DIREITO RIO 19


O caso Brown, no entanto, não foi a primeira vez que a educação segregada,
sancionada pela lei, sofreu um desafio nos Estados Unidos. Em 1849, uma ação havia
sido iniciada em Boston, Massachusetts. Somente em Kansas, entre 1881 e 1949, 11
ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. Quando a ação de
epistemologia e modernidade
Topeka chegou à Suprema Corte, a segregação racial era a norma, não a exceção,
em boa parte do país, e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. O caso
Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo, por causa da
Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo, por causa da
abrangência
abrangência dada determinação
determinação da Suprema
da Suprema Corte,Corte, e pordo
e por causa causa
efeitodo efeitoque
radical radical que
teve
tevesobre
sobrea sociedade americana
a sociedade em meados
americana do século
em meados XX. XX.
do século

Herói Anônimo
Herói Anônimo “O herói anônimo no processo de Topeka é McKin-
ley
"O Burnett,” que, na época,
herói anônimo era o presidente
no processo de Topekada seção
é McKinley
local da NAACP,
Burnett," que, nadiz C.E. (Sonny)
época, Scroggins,da
era o presidente chefe do local da
seção
Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Bro-
NAACP, diz C.E. (Sonny) Scroggins, chefe do Comitê de
wn Contra a Secretaria de Educação [Kansas Commit-
Kansas
tee para a Comemoração
to Commemorate Brown v. Board do Caso Brown Contra a
of Education].
“Foi Burnett que
Secretaria dereuniu Oliver Brown
Educação e os outrosCommittee
[Kansas pais e to
foi em frente com o desafio legal, com a ajuda dos
Commemorate Brown v. Board of Education]. "Foi Burnett
advo-
gados locais”, acrescenta Scroggins, um ponto de vista
Foto:
Foto: Cortesia
Cortesia de que reuniu Oliver Brown e os outros pais e foi em frente com
de Marita Davis.
confirmado por outras fontes em Topeka. Na verdade,
À esquerda, Walter White, vice-
Marita Davis. o desafio
Burnett – comlegal, comdaasecretária
a ajuda ajuda dos advogados
da NAACP Lu- locais",
president executivo da NAACP; à
À esquerda,
direita, presi- cinda
Walter
McKinley Burnett, Todd eScroggins,
acrescenta os advogadosumCharles
ponto Scott, Johnconfirmado
de vista Scott, por
dente da Seção da NAACP de To- Elisha Scott e Charles Bledsoe – desenvolveram uma
White, vice-president outras fontes em Topeka. Na verdade, Burnett -- com a
pekano início da década de 50. estratégia para ganhar a causa.
executivo da NAACP; ajuda da secretária da NAACP Lucinda Todd e os
Burnett morreu em 1970. Seu filho, Marcus, que tinha 13 anos na época do
processo inicial e que ainda mora em Topeka, diz que desafiar a segregação “foi
uma luta à qual meu pai se dedicou por toda a sua vida”. Ele era um trabalhador
comum que acreditava que a segregação poderia ser abolida por meio dos tribunais. 28
O tempo inteiro ele estava convencido de que venceríamos. “A irmã de Marcus
Burnett, Marita Davis, que atualmente mora em Kansas City, Kansas”, concorda.
“Meu pai estava sempre lutando pelos seus direitos”, ela diz. “Eu me lembro de
que, até mesmo quando eu era bem pequena, ele estava sempre escrevendo cartas
e organizando reuniões. A luta contra a segregação nas escolas se tornou uma coisa
muito importante para ele”.

Autores
De acordo com algumas fontes em Topeka, Oliver Brown tinha uma posição de
liderança entre os autores, principalmente porque ele era o único homem do grupo.
Mas Charles Scott Jr., filho do principal advogado local, diz que Oliver Brown “se
tornou o líder entre os autores porque o seu nome era o primeiro, por ordem alfa-
bética. O caso foi levado em frente por meu pai e por outros advogados locais, em
colaboração com o Sr. Brunett e a NAACP”.
Linda Brown Thompson, que atualmente tem 55 anos e ainda mora em To-
peka, reluta em falar sobre a sua experiência e sobre o papel do seu pai ao desafiar
o sistema, em parte porque ela acha que a mídia concentrou suas atenções em
demasia na sua pessoa, ignorando os outros 12 autores da ação em Topeka. Sua
irmã, Cheryl Brown Henderson, diretora-executiva da Fundação Brown para a
Igualdade, Excelência e Pesquisa na Educação [Brown Foundation for Educational

FGV DIREITO RIO 20


epistemologia e modernidade

Equity, Excellence and Research], concorda com a avaliação de Charles Scott Jr.
“Temos muito orgulho do que nosso pai fez”, Henderson diz. “Mas é importante
que o caso Brown não seja simplificado demais – não devemos esquecer os advo-
gados, os outros autores em Topeka e os autores nos outros estados, que acabaram
sendo incluídos no caso Brown”.
Zelma Henderson e Vivian Scales, duas pessoas que fazem parte do grupo de
autores de Topeka, e que ainda moram na cidade, eram jovens mães no início da
década de 50. As duas mulheres estavam ansiosas para entrar no caso. E as duas são
muito gratas a McKinley Burnett e aos advogados locais, dizendo que foi a liderança
dessas pessoas que tornou possível a luta pela integração.
"Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o
“Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o
outro lado da cidade, passando por duas escolas só
outro lado da cidade, passando por duas escolas só para
para brancos,
brancos, até umaaté uma
escola escola
só para só para
negros”, negros", diz
diz Henderson.
Henderson.
“Meus “Meus tiveram
filhos sempre filhos sempre
orgulhotiveram
do papelorgulho
que tive-do
mos
papelnaque
história”, ela na
tivemos continua. “Donald
história”, Andrew"Donald
ela continua. ainda
está aqui em Topeka. Ele tem 55 anos. Mas minha filha,
Andrew ainda está aqui em Topeka. Ele tem 55 anos.
Vicki Ann, morreu de câncer em 1984.”
Mas minha filha, Vicki Ann, morreu de câncer em
Scales também diz que tinha que levar sua filha, Ruth Ann à escola, “passando
1984."
por uma escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. Minha filha,
Scales também diz que tinha que levar sua filha, Ruth Ann à escola, "passando por
que ainda mora aqui e está com 57 anos, se sente muito bem devido ao que acon-
uma escola
teceu. Eu achosóque
para brancos
fizemos umaque
coisaficava
muitobem em frente à nossa casa. Minha filha, que
importante”.
ainda mora aqui e está com 57 anos, se sente muito bem devido ao que aconteceu.
EuAacho
Primeira Decisãouma coisa muito importante."
que fizemos
O dia de Burnett e dos autores no tribunal em Topeka foi o dia 28 de fevereiro
A Primeira Decisão
de 1951. Eles compareceram ao Tribunal Federal de Primeira Instância da Circuns-
O diadedeKansas
crição Burnett e dos
[U.S. autores
District Courtnofortribunal em Topeka
the District foi Raymond
of Kansas]. o dia 28 Carter,
de fevereiro de
que
1951.atualmente é juiz federal em
Eles compareceram Nova York,
ao Tribunal era, nade
Federal época, advogado
Primeira do Fundo
Instância de
da Circunscrição
Defesa Legal da
de Kansas NAACP
[U.S. [NAACP
District Court Legal
for theDefense Fund].
District Com a ajuda
of Kansas]. dos outros
Raymond Carter, que
advogados locais, ele apresentou o caso e solicitou a emissão de um mandado judi-
atualmente é juiz federal em Nova York, era, na época, advogado do Fundo de Defesa
cial que proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka.
Legal da NAACP
Os juízes [NAACP
se mostraram Legal Defense
favoráveis Fund].
à causa dos Comdizendo,
autores, a ajudanados suaoutros advogados
decisão:
“A segregação
locais, de crianças brancas
ele apresentou o casoe enegras nas escolas
solicitou públicas
a emissão deé um
prejudicial
mandado para judicial
as que
crianças negras”. Mas no final a decisão dos juízes foi contra os autores porque a
proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka.
Suprema Corte havia decretado, em uma decisão de 1896 – no caso Plessy contra
Os juízes– se
Ferguson quemostraram favoráveis
sistemas escolares à causa
“separados dos autores,
porém dizendo,
iguais” para negros na sua decisão: "A
e brancos
segregação
eram, de crianças
na verdade, brancase essa
constitucionais, e negras
decisãonas
nãoescolas públicas
havia sido é prejudicial
anulada. Portanto, para as
ocrianças
tribunal de KansasMas
negras." se sentiu forçado
no final a tomar uma
a decisão decisãofoi
dos juízes a favor da Secretaria
contra os autores de porque a
Educação de Kansas e contra os autores, por causa do episódio de Plessy.
Suprema Corte havia decretado, em uma decisão de 1896 -- no caso Plessy contra
“De certa forma, meu pai, os outros advogados locais e o Sr. Burnett não ficaram
Ferguson -- quedizsistemas
decepcionados”, escolares
Charles Scott "separados
Jr. “Eles sabiam que porém iguais"
a única formapara negros ae brancos
de derrubar
segregação no país inteiro
eram, na verdade, e não apenaseem
constitucionais, essaTopeka, era não
decisão perder a causa
havia sidoe anulada.
em seguida Portanto, o
entrar com
tribunal deum recursosenasentiu
Kansas Suprema Corte”.
forçado a tomar uma decisão a favor da Secretaria de
Educação de Kansas e contra os autores, por causa do episódio de Plessy.
FGV DIREITO RIO 21
"De certa forma, meu pai, os outros advogados locais e o Sr. Burnett não ficaram
decepcionados", diz Charles Scott Jr. "Eles sabiam que a única forma de derrubar a
segregação no país inteiro e não apenas em Topeka, era perder a causa e em seguida
epistemologia e modernidade

A Decisão da Suprema Corte


No dia 1 de outubro de 1951, ao ser preparado para ir ao tribunal que tem a
posição hierarquicamente mais elevada no país, o caso Brown foi combinado a ou-
tros processos que desafiavam a segregação nas escolas, na Carolina do Sul, Virgínia,
Delaware e no Distrito de Colúmbia. O nome do conjunto de casos passou a ser,
oficialmente, Oliver L. Brown e Outros Contra a Secretaria de Educação de Topeka
e Outros [Oliver L. Brown et al. v. The Board of Education of Topeka, et al]. Thur-
good Marshall, que mais tarde foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte,
era o diretor jurídico da NAACP no nível nacional. Ele apresentou – com sucesso
– o caso, representando os autores.
A decisão unânime declarando que as escolas segregadas eram inconstitucionais
foi lida no dia 17 de maio de 1954, pelo juiz-presidente da Suprema Corte Earl
Warren. “Concluímos”, ele disse, “que no campo da educação pública não há lugar
para a doutrina de ‘separados porém iguais’. Estabelecimentos de ensino separados
são inerentemente desiguais. Portanto, declaramos que os autores e outros que se
encontram em situação similar, para os quais essas ações foram iniciadas, estão sen-
do, devido à segregação da qual reclamaram, privados da proteção igual das leis,
garantida pela Décima-Quarta Emenda”.

Uma Grande Vitória Legal


O resultado do caso Brown Contra a Secretaria de Educação foi considerado
uma grande vitória legal, um caso histórico que serve para mostrar que, nos Estados
Unidos, os tribunais existem não apenas para condenar crimes, mas para afirmar
direitos. “Trata-se de uma das mais importantes decisões da Suprema Corte”, diz
Robert Barker, professor de direito e especialista em direito constitucional na Fa-
culdade de Direito da Universidade de Duquesne [Duquesne University School of
Law] em Pittsburgh, Pensilvânia.
“É importante observar”, ele acrescenta, “que a Suprema Corte contou com a
cláusula de proteção eqüitativa da Décima-Quarta Emenda da Constituição dos
Estados Unidos, ao apresentar a sua decisão. A Corte aplicou a cláusula de proteção
eqüitativa com a finalidade a que ela se destina – proporcionar proteção para os
negros, em particular”. No entanto, segundo Barker, há um significado mais amplo.
“A decisão de 1954 resultou em muitos outros casos nos quais a cláusula de prote-
ção eqüitativa foi citada, beneficiando mulheres e outros grupos que achavam que
seus direitos eqüitativos lhes estavam sendo negados”.
Ao ser indagado como a Corte pode tomar uma decisão – a favor da segregação
no caso Plessy contra Ferguson e contra ela no caso Brown – Barker responde que a
Corte dispunha de mais de 50 anos de provas de que a segregação racial, da maneira
que era praticada, era, na verdade, um método de se oprimir um grupo racial e não
algo “separado porém igual”.
Mark Tushnet ecoa o pronunciamento de Barker no seu livro definitivo, Brown
v. Board of Education: The Battle for Integration. [tradução livre: Brown Contra a
Secretaria de Educação: A Batalha pela Integração]. “Até hoje”, ele escreve “o caso
Brown se destaca como a mais profunda afirmação da Corte sobre a questão central

FGV DIREITO RIO 22


epistemologia e modernidade

da história dos Estados Unidos – como os americanos de todas as raças se tratam


entre si. Nesse aspecto, trata-se de uma vitória do constitucionalismo americano”.
Pau Wilson, o procurador-adjunto do estado de Kansas que tratou do caso, no
tribunal, a favor da segregação, concorda. “A decisão da Suprema Corte”, ele diz,
“ampliou a definição de justiça básica nas relações entre as comunidades”. Wilson,
que detalha a história do processo em A Time To Lose: Representing Kansas in Bro-
wn v. Board of Education [tradução livre: Hora de Perder: Representando Kansas
no caso Brown Contra a Secretaria de Educação], escreve que a decisão também
“deu uma nova dimensão ao conceito constitucional de proteção eqüitativa e do
devido processo legal”.

Depois da Decisão
A Secretaria de Educação de Topeka não esperou a ordem da Corte para unir as suas
escolas primárias negras e brancas. Antes do caso Brown, a lei de Kansas havia previsto
a segregação das escolas primárias das comunidades com população superior a 15.000
pessoas. As escolas de nível médio (equivalentes às sétima e oitava séries do primeiro
grau, e às três séries do segundo grau, no Brasil) nunca havia sido segregadas.
Mas em grande parte da nação, a tarefa seria mais difícil. Este é um dos motivos
pelos quais a Suprema Corte, em um ato posterior, menos conhecido, emitiu, em
1955, uma decisão judicial, determinando “um início imediato e razoável das pro-
vidências para a total conformidade” e a implementação da integração das escolas
“com a devida rapidez”.
Mesmo assim, houve muita resistência e a disposição das autoridades do poder
executivo de usar a força para implementar a decisão da Corte se fez necessária em
alguns lugares. O caso mais famoso ocorreu em 1957, quando o presidente Dwight
Eisenhower enviou tropas federais a Little Rock, Arkansas, depois que o governador
do estado desobedeceu uma ordem de um tribunal federal para integrar as escolas
locais – a primeira vez em que tropas federais entravam em um estado do sul para
proteger os negros desde os primeiros anos após a Guerra Civil.
Em outras partes do sul do país, a situação variava de lugar para lugar. Na maio-
ria dos lugares, a abolição da segregação ocorreu sem problemas, embora nem sem-
pre com rapidez. No ano letivo 1956-1957, “o fim da segregação, afetando 300.000
crianças negras, estava em andamento em 723 distritos escolares”, de acordo com
David Godfield, que conta em detalhes a história do fim da segregação em Black,
White and Southern [tradução livre: Negros, Brancos e Sulistas].
Por outro lado, diz Goldfield, os legisladores promulgaram 45 leis “com o ob-
jetivo de contornar a determinação da Suprema Corte” e até 1960, “menos de um
por cento dos estudantes do sul do país estavam freqüentando escolas integradas”.
O andamento do processo foi muito mais rápido em Topeka e no meio-oeste, de
modo geral; o sul finalmente recuperou o atraso no final da década de 60 e início
da década de 70. Embora a luta contra a segregação sancionada pelas leis tenha sido
vencida há muito tempo, os tribunais federais, atualmente, ainda estão lidando
com questões referentes à segregação nos distritos escolares, que são o resultado das
tendências na escolha de áreas residenciais.

FGV DIREITO RIO 23


epistemologia e modernidade

Os Tribunais Causam Mudanças em Posições Tradicionais


A luta contra a segregação mostra como é difícil mudar posições e costumes em
qualquer sociedade, especialmente as posições que apresentam raízes profundas na
tradição e na história, diz John Paul Jones, professor de direito e especialista em
questões constitucionais na Universidade de Richmond [University of Richmond],
em Virgínia. “Um fato importante é que as mudanças, quando elas ocorreram,
foram, em grande parte, o resultado de atos do judiciário para fazer valer direitos
inalienáveis assegurados pela Constituição dos Estados Unidos, e não o resultado
de medidas sancionadas por legislaturas e executivos eleitos pelo povo”. Sem um
judiciário independente, e sem as garantias da Constituição no que se refere aos
direitos das minorias, ele acrescenta, a luta pelo fim da segregação teria sido muito
mais difícil.
Gary Orfield e Susan Eaton, concordam. Os tribunais, incluindo a Suprema
Corte, tiveram um papel essencial, em comparação com os outros ramos do gover-
no; é o que eles escrevem em Dismantling Segregation [tradução livre: Acabando
com a Segregação]. Eles acrescentam: “Com a exceção do período de 1964 a 1968,
os tribunais – e não o poder legislativo ou o executivo – têm sido os elementos do-
minantes na elaboração de políticas no que se refere ao fim da segregação”.
Embora a Suprema Corte somente tenha derrubado a segregação nas escolas
públicas, o impacto da iniciativa foi muito mais amplo. Essa ação ajudou a deflagrar
uma ofensiva sem trégua contra a segregação em todas as esferas da vida americana,
incluindo o serviço público e o mercado de trabalho. Apenas um ano e meio após a
determinação da Suprema Corte, em dezembro de 1955, o Dr. Martin Luther King
Jr. liderou um bem sucedido boicote aos ônibus em Montgomery, Alabama, em
sinal de protesto contra a segregação no sistema de transporte público local.
Nos anos seguintes, mandados contra a segregação foram impetrados, como par-
te de um cenário de ações populares iniciadas por um grande número de organiza-
ções não-governamentais; essas ações, em conjunto, formaram o movimento pelos
direitos civis. Com a promulgação da Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act] em
1964, e da Lei do Direito ao Voto [Voting Rights Act] em 1965, a segregação foi
praticamente eliminada.

“Fizemos a Coisa Certa”


Os historiadores dos direitos civis, particularmente, ressaltam a importância do
resultado do caso Brown para o progresso nas relações raciais em geral. “A decisão
proporcionou um critério de avaliação de justiça – independente da cor das pessoas
– pelo qual os americanos poderiam balizar seu progresso rumo à realização do ideal
de oportunidades iguais”, escreve Robert Wiesbrot em Freedom Bound: A History
of America’s Civil Rights Movement [tradução livre: Rumo à Liberdade: Uma His-
tória do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos].
O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes, quase
meio século mais tarde. “Lembro-me como se fosse ontem”, diz Zelma Henderson.
“A primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal, o Topeka State Journal. Lembro-
me bem da manchete, em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. Senti

FGV DIREITO RIO 24


Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos].
O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes, quase meio
século mais tarde. “Lembro-me como se fosse ontem”, diz Zelma Henderson. “A
primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal, o Topeka State Journal. Lembro-me
epistemologia e modernidade
bem da manchete, em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. Senti
uma alegria enorme. Pensei, naquele momento, e penso, agora, que fizemos a coisa
uma alegria
certa”. enorme.
Vivian Pensei,
Scales naquele “Isso
acrescenta, momento, e penso,háagora,
aconteceu muitoque fizemos
tempo, masa coisa
é uma coisa
certa”. Vivian Scales acrescenta, “Isso aconteceu há muito tempo, mas é uma coisa
que você nunca esquece, que fica com você para sempre”.
que você nunca esquece, que fica com você para sempre”.

Marcus Burnett não se lembra, especificamente,


Marcus Burnett não se lembra, especificamente, da
da reação do seu pai no dia em que a Suprema Corte
reação
derruboudoa segregação.
seu pai no diaeleem
“Mas que acreditava
sempre a Suprema queCorte
haveria justiça,
derrubou portanto eu"Mas
a segregação. tenhoelecerteza
sempre de acreditava
que ele fi- que
cou muito feliz”, Burnett diz. “Meu pai acreditava que
haveria justiça, portanto eu tenho certeza de que ele
os tribunais eram o lugar certo para se desafiar a segre-
ficou
gação.muito feliz",deixou
Ele nunca Burnettdediz. "Meu pai
acreditar queacreditava que os
os tribunais,
tribunais eramvaler
no final, fariam o alugar certo epara
Constituição se desafiar
a Declaração dos a
Direitos, e eliminariam
segregação. Ele nunca a segregação”.
deixou de acreditar que os
Marcus
Marcus Burnett,Burnett, à
à esquerda, filho
No dia 26 de outubro de 1992, o presidente George
do líder da NAACP em Topeka,
esquerda, filho do líder tribunais, no final, fariam valer a Constituição e a
McKinley Burnett, e o ativista po- Bush sancionou a Lei Pública 12-525 [Public Law 12-
da Declaração dos Direitos,
525] determinando e eliminariam
a criação a segregação."
do Sítio Histórico Nacio-
líticoNAACP em Topeka,
Sonny Scroggins, na entra-
da da Escola Primária
McKinley Burnett, Monroe.
e o No
nal dia
do 26
Casode Brown
outubroContra
de 1992, o presidente
a Secretaria George Bush
de Educação
[Brown v. Board of Education National Historic Site],
em memória da decisão da Suprema Corte, de 1954.
O sítio fica em Topeka, na Escola Primária de Monroe
34
[Monroe Elementary School], a mesma escola freqüen-
tada por Linda Brown, quase meio século atrás, antes
do fim da segregação.

O memorial – um trabalho da Fundação Brown [Brown Foundation] e do Comi-


tê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação
[Kansas Committee to Commemorate Brown v. Board of Education], entre outras
entidades e indivíduos – terá materiais áudio-visuais e uma biblioteca para pesquisas,
e deverá ser aberto ao público em 2002. “Esperamos que as pessoas visitem o local
para compreender melhor a abrangência e a complexidade da decisão sobre o caso
Brown”, diz Qefiri Colbert, porta-voz do Serviço Nacional de Parques [National
Park Service], órgão que ficará encarregado da manutenção do memorial.
“Oliver Brown, Zelma Henderson, Vivian Scales e os outros pais poderiam, fa-
cilmente, se conformar com a decepção, mas eles transformaram sua raiva em ação”,
diz Sonny Scroggins, do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown
Contra a Secretaria de Educação. “Naquela época, os pais demonstraram muita
coragem”, ele acrescenta. O resultado final foi, não apenas o fim da segregação, mas
uma mudança fundamental no pensamento dos americanos em relação à raça e à
igualdade, em conformidade com a lei.
“Eu estou muito velha, mas se tivesse que fazer isso de novo, eu o faria”, diz Vi-
vian Scales. “Quando você pensa no assunto, a mensagem da decisão do caso Brown
e do memorial, na verdade, é que todos os seres humanos e raças nascem iguais”,
acrescenta Zelma Henderson. “Fomos à Suprema Corte dos Estados Unidos para
afirmar esse fato, e vencemos”.

FGV DIREITO RIO 25


AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS

NOTA AO PROFESSOR
epistemologia e modernidade

1. Tema da aula

AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS


A verdade como linguagem na sofística.

NOTA AO ALUNO

2. Objetivos
Tema da aulada aula

A verdadeo como
Introduzir linguagem
debate acerca nadasofística.
relação entre verdade e linguagem a partir do
pensamento sofístico.
Objetivos da aula

Introduzir o debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do pen-


DESENVOLVIMENTO
samento sofístico.

Poucas doutrinas na história do ocidente foram tão atacadas e vitimadas pelo


PREPARE-SE PARA A AULA
preconceito como a sofística. A maior parte do que nos foi passado acerca dos
sofistas
Poucasfoi, justamente,
doutrinas pelosdoseus
na história inimigos.
ocidente foramNa
tãopena de ePlatão
atacadas e Aristóteles,
vitimadas pelo os
sofistas eram
preconceito comoapenas demagogos
a sofística. A maior parte e do
enganadores. Contudo,
que nos foi passado acercaados sofística
sofis- é um
tas foi, justamente,
movimento bem maispelosprofundo
seus inimigos. Na pena de– Platão
e interessante dondeesofisticado
Aristóteles, –osdo
sofistas
que em geral
eram apenas demagogos e enganadores. Contudo, a sofística é um movimento bem
se apresenta. Os sofistas foram pensadores que rumaram das colônias para Atenas e,
mais profundo e interessante – donde sofisticado – do que em geral se apresenta. Os
por isso,
sofistas conheciam
foram pensadorestodoqueo debate
rumaram entre
das Heráclito e Parmênides
colônias para Atenas e, por– isso,
ser econhe-
devir. Além de
conhecerem
ciam o debate
todo o debate entre filosófico,
Heráclito ededicavam-se
Parmênides – ser aoe estudo e ensino
devir. Além da retórica. Esse
de conhecerem
oincremento
debate filosófico, dedicavam-seargumentativa
da racionalidade ao estudo e ensino da retórica. Esse
foi imprescindível ao incremento
desenvolvimento e
da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e impulso
impulso inicial da filosofia.
inicial da filosofia.
A questão central dos sofistas (ao menos na sua primeira ge-
ração) era a afirmação
A questão central dos desofistas
que todas(aoasmenos
coisas na
na polis (política, geração)
sua primeira
direito, religião etc...)
era a afirmação de resultavam
que todasdeasuma convenção
coisas na polis ou (política,
cultura direito,
humana. Assim, nada na polis resultava de uma força natural
religião etc...) resultavam de uma convenção ou cultura humana.
superior e intangível. Como tudo era produto da convenção –
Assim,
nomos nadapoderia
–, tudo na polis ser resultava
modificadode uma
pelo forçahomem.
próprio naturalAs-superior e
sim, na primeira
intangível. Comogeração
tudo de sofistas,
era produtoa leida
e oconvenção
direito nada–tem de –,tudo
nomos
natural
poderiaouser divino, mas são construídos
modificado pelo próprio políticamente
homem. Assim, através na
do primeira
exercício da retórica na ágora. Daí a importância do discurso convincente – peithó.
geração de sofistas, a lei e o direito nada tem de natural ou divino, mas são
Assim, o logos é a ferramenta para a construção do legal e do ilegal, do certo e do
errado, e tudopolíticamente
construídos dependerá daatravés do exercício
habilidade lingüísticadaderetórica na ágora.
quem fala. Daí a importância
Para comprovar
esta idéia, Górgias de Eleontino, um dos principais sofistas, numa obra intitulada
Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado
47
a Guerra de Tróia), afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada, pois
pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses, pela violência do rapto ou pela
sedução da palavra. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer

FGV DIREITO RIO 26


Para comprovar esta idéia, Górgias de Eleontino, um dos principais sofistas, numa
obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter
provocado a Guerra de Tróia), afirma que Helena não pode ser acusada nem
condenada, pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses, pela violência
epistemologia e modernidade
do rapto ou pela sedução da palavra. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um
dia para fazer sua acusação em praça pública e, no dia seguinte, para ele mesmo
fazer sua defesa, demonstrando, com isso, a superioridade da palavra em relação a
sua acusação em praça pública e, no dia seguinte, para ele mesmo fazer sua defesa,
qualquer conceito
demonstrando comconvencionado.
isso a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito
convencionado.
FoiPrepare-se
o grandepara o debate,de
Protágoras meditando sobre
Abdera que a seguinte
nos legou a frase
maisdo
conhecida
sofista Protágoras de Abdera:
de todas as sentenças sofísticas: “O HOMEM É A MEDIDA DE
TODAS AS COISAS”;
“O HOMEM portanto,
É A MEDIDA critério último
DE TODAS para o certo e o errado,
AS COISAS”
o verdadeiro e o falso. Claro que o homem em questão não é o
Até que particular,
indivíduo ponto o homem
mas opode instituir
cidadão da suas
polis.próprias verdades?
Com efeito, não se trata
Agora, observe atentamente o quadro de Salvador Dali:
de mero relativismo individualístico, mas de relatividade histórica, isto
é, uma verdade pode ser convencionada na polis até que outra a substitua em outro
momento histórico.

Essa possibilidade de reinstituir a verdade abre ao homem um extraordinário campo


de possibilidades. No nível mais radical, nada se mantém imune à possibilidade de ser
resignificado pela palavra, desde que esta seja articulada no discurso convincente: a
retórica. A linguagem é, portanto, o instrumento mais eficaz no processo social de
então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
verdadeiro”.

instituição da verdade. Isso graças ao fato da filosofia sofística ter desfeito a


Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que

vinculação parmenídica entre realidade e pensamento, ser e pensar. No Tratado do


pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este

Não Ser, Górgias faz suas clássicas afirmações:


paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:

1. Nada é;
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA

2. Mesmo que seja, não pode ser pensado;


A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA

3. Mesmo que seja pensado, não pode ser dito.


Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas

E o direito?
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação

Para além da habilidade retórica, fica a distinção entre SER, PENSAR e DIZER, como
de insegurança que possa gerar em nós.
E O DIREITO?
três planos autônomos
Acreditar com
Acreditar
E O DIREITO? Como
na
ona dignidade
linguagem
linguagem
problema ecomo
da verdade como estatuto
campo
campo
se relaciona próprio.
próprio
próprio Assim, o dizer
da verdade
da verdade significa – linguagem –
significa
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
admitirdofilosófica
possui envergadura
expressões que as verdades
tipo: “verdade e fatos”,
dos jurídicas
autonomia
“verdade não decorrem
das para de planos
resignificar metafísicos
admitir que as verdades jurídicas não decorrem de planos
os entes na sua própria
metafísicos ououtranscendentes,
ou transcendentes, mas, antes, dos agentes
leis”, “verdade do processo” “verdade do intérprete”.mas,
antes, dos agentes lingüísticos
lingüísticos
É
que a instituem
identidade. Quebra-se que a o
possível falar-se em princípio
verdade
instituem
ou seriamda identidade,
de fala. Isso pois
verdades?
por um ato
Como
implicauma coisa pode
a conseqüência de ser (tornar-se) o
porcomum
lidar ato dede insegurança
os problemas fala. Isso implica a conseqüência de que também é pos-
jurídica?

que não é. Veja-se


que também o seguinte
é possível
sível a quadro
resignificar
resignificar todoa momento
todo demomento
Salvador
as Dali:
categorias das verdade
as categorias das verdade jurídicas.
jurídicas.
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
* * *
BIBLIOGRAFIA
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se

Obrigatória
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
DA
Formas pelas quais
chega-se à decisão. 48
1
CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó-
DESCOBERTA
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
teles. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Capítulo III. Os Sofistas e Sócrates: o
AULA 4
Humano como tema e problema: seção
LINGUAGEM E VERDADE: Os Sofistas
20
3 Os Sofistas ou a arte de ensinar)

FGV DIREITO RIO 27

49
epistemologia e modernidade

Complementar

BARKER, Ernest. Teoria política grega. Brasília: EdUnB, 1978. (Capítulo IV. A
Teoria Política dos Sofistas)

FGV DIREITO RIO 28


AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES

NOTA AO PROFESSOR epistemologia e modernidade

AULA
1. 5. CONCEITO
Tema da aula E VERDADE: SÓCRATES

A verdade como conceito abstrato.


NOTA AO ALUNO

Tema da aula
2. Objetivos da aula
A verdade como conceito abstrato.
Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do
pensamento socrático.
Objetivos da aula

Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir


do pensamento socrático.
DESENVOLVIMENTO

O mais conhecido
PREPARE-SE divisor de águas da filosofia ocidental é, sem dúvida, Sócrates. Não
PARA A AULA
há comprovação histórica de sua existência, mas a filosofia se vale do arcabouço
O mais conhecido divisor de águas da filosofia ocidental é, sem dúvida, Sócrates.
“Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do pensamento ocidental. A
Não há comprovação histórica de sua existência, mas a filosofia se vale do arcabouço
partir de Sócrates
“Sócrates” deu-seuma
para demarcar a clivagem racionalista
etapa inicial e decisivaque
do nos marca a ocidental.
pensamento todos até A hoje.
partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que nos marca a todos até hoje.
AA chamada"reconstrução
chamada “reconstrução socrática”
socrática"recolocou
recolocou o tema da ver-
o tema da verdade
dade como aletheia no centro de todas as discussões. Trata-se da
como aletheia no centro de todas as discussões. Trata-se da opção
opção que faz Sócrates pela Razão como fundamento primeiro
que
de tudofazque
Sócrates pela Razão
é verdadeiro, certo e como
justo. Afundamento
partir desse primeiro
filósofo, de tudo
aque
razão deixa de ser certo
é verdadeiro, uma prática
e justo.de comunicabilidade
A partir desse filósofo, entre os
a razão deixa
indivíduos para se tornar inteligibilidade do real. Esta
de ser uma prática de comunicabilidade entre os indivíduos para se
guinada
representará um dos mais profundos cortes no pensamento de
tornar
toda inteligibilidade
a tradição, marcando do todos
real. os
Esta guinada
aspectos representará
da vida humana. um dos
maisSócrates,
Para profundos cortes no
o homem pensamento
é dotado de razão deetoda a tradição,
sentido, marcando
sendo este último otodos os aspectos
que nos

da acesso ao mundoPara
vida humana. empírico, que, oporém,
Sócrates, homem é superficial
é dotadopor de modificar-se constan-
razão e sentido, sendo este
temente. Já a razão nos possibilita conhecer o mundo inteligível, aquele onde a
último o que nos dá acesso ao mundo empírico, que, porém, é superficial por
verdade e a justiça se apresentam de forma definitiva. Verdade e justiça tornam-se
modificar-se
sinônimos constantemente.
dentro Já a razão
de uma racionalidade nos possibilita
universal, conhecer
necessariamente o mundo
válida para to-inteligível,
aquele
dos onde a verdade
os homens, que reduze os
a justiça se apresentam
princípios de forma definitiva. Verdade e justiça
à unidades conceituais.
A verdade
tornam-se não residedentro
sinônimos na linguagem
de umaou na opinião –universal,
racionalidade dóxa – de necessariamente
cada indivíduo. válida
Da mesma forma, o real fundamento das relações não está nas convenções e normas
para todos os homens, que reduz os princípios à unidades conceituais.
– nómos – específicas que produzem justiças singulares. O realmente verdadeiro e
realmente justo é o que se eleva acima das múltiplas individualidades e somente é
alcançado pelo sujeito virtuoso que abandona todos os seus preconceitos. O ponto 52
central do pensamento socrático é que a prática da justiça como virtude apenas será
alcançada pelo conhecimento da justiça. Assim, a questão epistemológica será a

FGV DIREITO RIO 29


epistemologia e modernidade

chave de leitura para a compreensão do posicionamento que Sócrates assume ante


então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
a physis e a pólis. É desta maneira que podemos entender seu lema “conhece-te a si
verdadeiro”.

mesmo”: a busca da verdade universal inscrita em conceitos racionais. Para Sócrates,


Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
a justiça
pode é este
ser apresentado conceito
pela frase: Esta sentençaracional
é falsa. Se aque
sentençadeve
é falsa,ser
entãocompreendido por todos os homens.

Para tanto, propõe um método que é constituído de dois momentos: o primeiro é a


ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
ironia,
versão que não onde através
é auto-referente e tem de
plenoperguntas
sentido gramatical:leva seu interlocutor a reconhecer seus preconcei-

tos e sua ignorância sobre o tema em debate; o segundo é a maiêutica, onde, tam-
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA
Abém
SENTENÇA através
ANTERIOR deÉ VERDADEIRA
perguntas, leva seu interlocutor a descobrir uma verdade conceitual
dentro
Estamos diantede si mesmo
de uma comqueavemutilização
inconsistência lógica sendo discutida da razão.
e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
E o direito?
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
de insegurança que possa gerar em nós.

Acreditar no conceito como verdade implica admitir que o direito


E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
éexpressões
formado por conceitos unívocos que podem ser depreendidos pela
do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das

razão.
leis”, Assim,
“verdade mais
do processo” importante
ou “verdade do intérprete”. Éque as experiências jurídicas concretas
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como
sãocomosos problemas
lidar centros de referência
de insegurança jurídica? conceitual do direito. Tais centros, no
sistema romano-germânico, são comumente compreendidos como a
Aqui, deve-se apresentar aos norma
alunos asescrita. Daí que
categorias trabalhadas por é comum
autores como o recurso ao texto da lei (ainda que
mediado pela doutrina) para se explicar e entender as categorias jurídicas, mesmo
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
que,o muitas
cultura vezes,
direito importa valores, desligado
sentido moral ou doético.mundo
Por isso, suasdanormas
vida. – Ganha-se em segurança, mas perde-
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
se em adaptatividade que é essencial à realização da justiça.
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
Formas pelas quais
DA chega-se à decisão.
BIBLIOGRAFIA
DESCOBERTA
1
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.

Obrigatória 20

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó-


teles. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Capítulo III. Os Sofistas e Sócrates: o
Humano como tema e problema: seção 4 Sócrates: o elogio da filosofia)

Complementar

BARKER, Ernest. Teoria política grega. Brasília: EdUnB, 1978. (Capítulo V. Só-
crates e os Socráticos Menores)

FGV DIREITO RIO 30


epistemologia e modernidade

AULA 6. INATISMO: DESCARTES

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

A verdade como resultado da razão inata.

Objetivos da aula

Introduzir o debate acerca da verdade como resultado de uma razão inata a partir
do subjetivismo cartesiano.

PREPARE-SE PARA A AULA

Na revolução epistemológica operada na modernidade, buscou-se novas bases


que pudessem ser consideradas seguras e precisas para a fundamentação de uma
verdade universal. Não há dúvida de que o principal nome da constituição da mo-
derna filosofia da ciência é Immanuel Kant que, com o seu projeto criticista, lançou
as bases mais sólidas em termos epistemológicos. No entanto, o pensamento kan-
tiano se insere num processo histórico que foi acontecendo por sucessivas rupturas
na tessitura ontológica da filosofia e da sociedade, basicamente a partir do século
XVI, quando a modernidade afasta-se das especulações metafísicas para empreender
uma nova organização geral do saber. A nova perspectiva em construção considera
como fundamentos adequados para o conhecimento apenas a abstração racional e a
concretude experimental. Assim, o binômio razão e experiência passa a capitanear
as investidas do homem sobre as forças naturais, sociais, políticas e individuais. O
rumo deste caminho levou a modernidade a uma opção pelo “problema do conheci-
mento” – epistemologia – como questão fundamental a ser tratada, o que converteu
a teoria do conhecimento em motor da reflexão filosófica do período. Nesse contexto,
duas correntes destacaram-se como forma de compreender e responder à questão
proposta: o racionalismo e o empirismo. Enquanto os racionalistas acreditam ser
a verdade resultado de uma idéia primeira e fundante, os empiristas crêem que a
verdade resulta de um fato primeiro e fundante. Eis um esquema comparativo para
melhor visualizar as diferenças entre as correntes filosóficas:

RACIONALISMO EMPIRISMO
Fundamentado numa razão inata Fundamentado na percepção dos sentidos
Opera dedutivamente Opera indutivamente
Alcança o mundo externo por meio de uma
Alcança o mundo externo por meio de uma
experiência possibilitada pela percepção
inferência (representação) lógica
sensível e por uma operação mental

FGV DIREITO RIO 31


Opera dedutivamente Opera indutivamente
Alcança o mundo externo por meio de uma Alcança o mundo externo por meio de uma
inferência (representação) lógica experiência possibilitada pela percepção
sensível e por uma operação mental
epistemologia e modernidade

Nessa tradição herdada por Kant, vários filósofos importantes – racionalistas e


empiristas – desenvolveram
Nessa tradição, herdada por suas
Kant, teorias epistemológicas.
vários filósofos importantesDois serão destacados:
– racionalistas
eDescartes
empiristase –Hume.
desenvolveram suas teorias epistemológicas. Dois serão destacados:
Descartes e Hume.

“Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de
“Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade
de mehaver
me haverencontrado, desdea ajuventude,
encontrado, desde juventude,
em em certos
certos cami-caminhos
nhos
que queme me conduziram a considerações
conduziram consideraçõese máximas, de que de que
e máximas,
formei um método, pelo qual me parece que eu tenha meio de
formei um método, pelo qual me parece que eu tenha meio de
aumentar gradualmente meu conhecimento, e de alçá-lo, pouco
aaumentar gradualmente
pouco, ao mais meu
alto ponto a que conhecimento,
a mediocridade de meueespí-
de alçá-lo,
pouco
rito a pouco,
e a curta duraçãoaodemais
minhaalto
vidaponto a que atingir.”
lhe permitam a mediocridade
1 de
meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir.”2
Este parágrafo, registrado no início do Discurso do Método, sintetiza a perspectiva
cartesiana no pensamento moderno. Descartes cria um tipo de construtivismo ali-
Este parágrafo,
cerçado sobre duasregistrado no início
tarefas básicas: do toda
destruir Discurso
formadode Método, sintetiza
conhecimento que ahaja,
perspectiva
ao menos, uma
cartesiana no boa razão para não
pensamento se acreditar;
moderno. reconstruir
Descartes criaumumnovo
tipoe seguro tipo
de construtivismo
de conhecimento
alicerçado que não
sobre duas se encontre
tarefas básicas:motivo
destruirfundamentado
toda forma depara não acreditarque haja,
conhecimento
nele. Pode-se dizer que Descartes, como o inaugurador da moderna escola raciona-
ao menos, uma boa razão para não se acreditar; reconstruir um novo e seguro tipo de
lista ou idealista, teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta, como Ba-
conhecimento
con, por exemplo.que não seinfluenciado
Também encontre motivo fundamentado
pelas técnicas para nãoprocura
e pela matemática, acreditar nele.
lançar
Pode-se as bases
dizer de uma
que nova fundamentação
Descartes, para a própria
como o inaugurador verdade, através
da moderna escola de um
racionalista ou
tipo de conhecimento
idealista, teve os mesmo seguroideais
e verdadeiro (ciência)
de pessoas emque pudesse desvendar
perspectiva as forças
oposta, como Bacon, por
e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. É
exemplo. Também influenciado pelas técnicas e pela matemática, procura lançar as
isso que torna a perspectiva cartesiana construtivista, pois não está interessado em,
bases de
apenas, uma onova
destruir fundamentação
tradicional conhecimento parasobre
a própria verdade,
o mundo, mas simatravés de um tipo de
em recolocá-
lo sobre bases supostamente
conhecimento mais seguras:
seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendar as forças e as
leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. É isso que
“Não que imitasse, para tanto, os céticos, que duvidam apenas por duvidar e
torna afetam
a perspectiva
por semprecartesiana
irresolutos:construtivista, poistodo
pois ao contrário, nãooestá
meu interessado
intuito tendiaem,
tão apenas,
destruir o tradicional
somente conhecimento
a me certificar sobre
e remover a terra o mundo,
movediça maspara
e a areia, sim em recolocá-lo
encontrar a rocha sobre
ou a argila.”2

2
- DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 29.
Querendo alcançar tal intento, Descartes propõe um método para conduzir o
espírito ao conhecimento verdadeiro, sem ter que submetê-lo às autoridades exte-
riores. Trata-se da dúvida metódica como forma de reconstruir em bases seguras e 57
verdadeiras o próprio mundo à nossa volta, ou, como afirma o próprio Descartes,
a proposição de um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas
ciências. Como dito, o método que leva à verdade implica a dúvida como condi-
ção epistemológica: “...mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesqui- 1
DESCARTES, René. Discurso do
sa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar método. São Paulo: Abril Cultu-
ral, 1979. p. 29.
como absolutamente falso tudo aquilo que pudesse imaginar a menor dúvida, a
2
DESCARTES, René. Ob. Cit.,
fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente p. 44.
indubitável.”3 Praticando este método, segundo Descartes, qualquer pessoa pode- 3
DESCARTES, René. Ob. Cit.,
ria conhecer de maneira nítida e clara as idéias que são inatas no espírito e, por p. 46.

FGV DIREITO RIO 32


epistemologia e modernidade

isso mesmo, superiores àquelas idéias que derivam dos sentidos (adventícias) ou
àquelas que são fabricadas pela imaginação (fictícias). As idéias inatas são racionais
e existem porque nascemos com elas, o que significa dizer que a razão, como facul-
dade inata, é o único lugar possível para as “idéias claras e distintas”, para o verda-
deiro conhecimento. Essa é a grande descoberta do “penso, logo existo” – cogito,
ergo sum – que verifica que a certeza do conhecimento não vem do objeto exterior,
mas reside no próprio cogito como evidência apodíctica, irrefutável:

“Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo
era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, no-
tando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as
mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que
podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da filosofia que procura-
va.”4

Por isso, somente a razão conduzida logicamente, tendo o cogito como paradig-
ma metodológico, poderá decifrar todos os códigos do mundo, e o conhecimento
apenas dela pode advir. Conforme se infere da leitura do Discurso do Método, Des-
cartes, na busca do conhecimento verdadeiro, toma a realidade à sua volta e se pro-
põe a dúvida como método, ou seja, duvidar de tudo aquilo que se tenha ao menos
uma razão para duvidar. Através da dúvida metódica ele comprova a falsidade de
todo tipo de conhecimento sensível e chega à verdade absoluta do cogito, onde a
razão distingue as idéias inatas e faz delas representações seguras e verdadeiras que
deduzem o mundo, conhecido com exatidão geométrica, “cientificamente”.
Para o racionalismo cartesiano, a razão é a natureza perfeita existente num ser
imperfeito por força da ação de um Ser perfeito: Deus. Embora Deus seja a causa
operativa última, mais importante é a razão perfeita, “deusa razão”,que universaliza
o conhecimento e torna acessível a verdade tão necessária ao homem e que jamais
seria conhecida se estivesse fora dele. Portanto, é o nosso espírito que possui a razão
e a verdade e não o mundo externo e é justamente por isso que pode ser conhecida
com segurança. O modelo epistemológico das ciências é o matemático, fundado
em critérios internos e abstrações, onde o raciocínio lógico é o mestre que conduz o
pensamento e evita as contradições e vacilações. Descartes adota, para o alcance da
verdade via ciência, quatro preceitos da lógica:

“O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não
conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação
e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e
tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em
dúvida. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em
tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resol-
vê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos
objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por
degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem 4
Idem.

FGV DIREITO RIO 33


epistemologia e modernidade

entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer
em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza
de nada omitir.”5
então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
verdadeiro”.
Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
Como visto, tal método pode ser associado ao procedimento matemático para
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que

solução de uma equação. Mas é na base desta razão calculadora que Descartes pensa
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
ter descoberto
paradoxo dizendo-se ser eleosemnovo
sentido eportal de acesso
autoreferenciado. aodarconhecimento
Mas podemos uma verdadeiro. Inaugura-se o
moderno princípio epistemológico da razão suficiente, que domina e controla o
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:

Amundo transformando
SENTENÇA SEGUINTE É FALSA os fenômenos naturais e/ou sociais em fórmulas e abstra-
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA
ções. Diferentemente do indutivismo dos empiristas, Descartes abre o caminho do
dedutivismo
Estamos racionalista
diante de uma inconsistência moderno.
lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas

E o direito?
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
de insegurança que possa gerar em nós.

Acreditar na verdade como representação racional do mundo a


E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
partir de
expressões uma
do tipo: razão
“verdade inata
dos fatos”, implica
“verdade das admitir que também é o direito
uma representação, fruto, portanto,
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como
de uma idéia fundante. Essa
concepção
lidar com os problemas ideal do direito
de insegurança jurídica? pode manifestar-se tanto na maneira do
jusnaturalismo como do formalismo jurídico. Apesar de serem
matrizes distintas, ambas são unidas pela idéia de que a razão univer-
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
sal pode inteligir
justificação. No direito não bastauma verdade
direito pura unívoco,
e simples. Comoseja da danatureza ou da estrutura lógico-formal
fenômeno

do próprio direito.
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
BIBLIOGRAFIA
DA
Formas pelas quais
chega-se à decisão.
DESCOBERTA
1
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
Obrigatória
20

REALE, Miguel. Filosofia do direito. São Paulo: Saraiva, 1996. (Parte I – Capítulo
VIII. Do Conhecimento Quanto a Origem).

Complementar

CUNHA, José Ricardo. Modernidade e ciência: algumas posições epistemológi-


cas. In: Direito, Estado e sociedade, Revista do Departamento de Direito da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, n. 16, jan/jul 2000.

5
DESCARTES, René. Ob. cit., pp.
37-38.

FGV DIREITO RIO 34


AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE

epistemologia e modernidade

NOTA AO PROFESSOR
AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE
Tema da aula

NOTA AO ALUNO
A verdade como resultado da experiência empírica.
Tema da aula

A verdade como resultado da experiência empírica.


Objetivos da aula

Objetivos da aula
Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a partir
do Introduzir
empirismooinglês.
debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a
partir do empirismo inglês.

DESENVOLVIMENTO
PREPARE-SE PARA A AULA

“A “Amaneira
maneira pela
pelaqual
qualadquirimos
adquirimosqualquer conhecimento
qualquer constitui constitui
conhecimento
suficiente prova de que não é inato. Consiste numa opinião estabelecida
suficiente prova de que não é inato. Consiste numa opinião
entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios
estabelecida
inatos, entre
certas noções alguns koinaì
primárias, homens que
énoiai, o entendimento
caracteres, os quais esta-comporta
certos
riam princípios
estampados inatos,
na mente certas cuja
do homem, noçõesalma primárias,
os recebera em koinaì
seu énoiai,
ser primordial os
caracteres, e osquais
transportara
estariamconsigo ao mundo. na
estampados Seria suficiente
mente para
do homem, cuja
convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese se pu-
alma os recebera em seu ser primordial e os transportara consigo ao
desse apenas mostrar (o que espero fazer nas outras partes deste tratado)
mundo. Seria
como suficiente
os homens, para convencer
simplesmente pelo usoosdeleitores sem preconceito
suas faculdades da falsidade
naturais, podem adqui- desta
hipótese se pudesse
rir todo apenas
o conhecimento quemostrar
possuem (semo aque espero
ajuda fazer impressões
de quaisquer nas outras partes
inatas e deste
podem alcançar a certeza sem quaisquer destas noções ou princípios
tratado) como os homens, simplesmente pelo uso de suas faculdades naturais, podem originais.” 6

adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões


Dessa maneira, John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e
inatas
tambéme sua
podem alcançar
luta contra a certeza
o inatismo sem quaisquer
dos racionalistas, destas noções
que afirmavam existir ou
umaprincípios
idéia inata.”12nos sujeitos que seria o verdadeiro fundamento para a verdade e o co-
originais
nhecimento, acessível apenas pela razão. É contra isso que Locke se insurge, lutan-
do contra um dogmatismo já manifesto na tradição do pensamento ocidental. Ao
Dessa maneira, John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e
contrário dos racionalistas, Locke, como empirista que era, afirmava que os nossos
também sua luta
conhecimentos contra com
começam o inatismo dos racionalistas
a experiência dos sentidos. que afirmavam
É bastante existirsuauma LOCKE,
conhecida idéia John. Ensaio Acerca do
6

Entendimento Humano. São


afirmação
inata nos desujeitos
que ao nascermos
e que seria somos
o como tábulasfundamento
verdadeiro rasas , ou seja,
7
como
para a folhas
verdadePaulo:e Abrilo Cultural, 1978, p.
de papel em branco, prontas para serem preenchidas pelas experiências futuras. 145.
conhecimento, acessível apenas pela razão. É contra isso que Locke se insurge, Pequena placa de madeira,
7
Locke concorda com Descartes na afirmação de que o conhecimento é constituído marfim ou metal, escavada para
por idéias, mas diverge de que estas idéias sejam inatas no espírito humano. Para conter uma camada de cera, na
qual os romanos escreviam com
Locke,
12 há uma
- LOCKE, John.categoria de pessoas
Ensaio Acerca que não Humano.
do Entendimento alcançamSãoo verdadeiro
Paulo: Abril conhecimento
Cultural, 1978, p. 145.
um estilo. Cf. TÁBULA. In HO-
em função da ausência de um conjunto de vivências suficientemente significativas LANDA FERREIRA, Aurélio Bu-
arque (Ed.) Novo Dicionário da
para dar-lhes as idéias necessárias ao conhecimento, tais como crianças e “idiotas”. Língua Portuguesa. [s.l.] Nova
66
Fronteira, 1989.

FGV DIREITO RIO 35


epistemologia e modernidade

Assim, mesmo as evidências lógicas mais apodícticas, como os princípios da identi-


dade e não-contradição, são desconhecidas por certas pessoas. Tudo por uma única
razão: mesmos essas idéias e princípios não são inatos, devendo ser adquiridos pelos
indivíduos ao longo de suas vivências e experiências.
Seguindo essa linha de raciocínio, Locke passa a demonstrar que nenhum prin-
cípio da vida prática pode ser considerado inato8, ou seja, não há princípio que
possa ser considerado universal, já que todos eles dependem de uma experiência
prévia dos sentidos que os transforme em idéia real e conhecimento verdadeiro.
Mesmo princípios morais basilares, como a justiça, não podem ser considerados
inatos e universais, pois dependem de uma aquiescência por parte dos indivíduos,
bem como de comprovação, coisas que seriam descabidas caso fossem verdadeira-
mente inatos. Tanto é assim, que os homens quando agem virtuosamente o fazem
porque costumam tirar benefícios próprios de tal conduta e não porque a tenham
inscrita dentro de si; até porque, nem sempre adotam os mesmo princípios práti-
cos ou as mesmas virtudes. Nessa esteira,Locke ainda invoca a diversidade cultural
como prova cabal de que não há idéia ou princípio inato nos sujeitos, já que nações
inteiras chegam mesmo a divergir acerca de certos princípios consagrados em outras
nações. Portanto, sujeitos e povos podem convergir ou divergir em suas regras prá-
ticas – morais – conforme as experiências e vivências que possuam. Se Locke con-
corda que o conhecimento está nas idéias, mas nega que estas sejam inatas, naturais
ou universais, como entendê-las? Essa é a questão enfrentada na Segunda parte do
Ensaio, que inicia com a seguinte afirmação:

“Idéia é o objeto do pensamento. Todo homem tem consciência de que pensa, e


que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. Por conseguinte é indubi-
tável que as mentes humanas tem várias idéias, expressas entre outras, pelos termos
brancura, dureza doçura, pensamento, movimento, homem, elefante, exército, em-
briaguez. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreen-
didas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias
inatas e caracteres estampados sobre sua mente. Já examinei, em linhas gerais, essa
opinião, e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido
quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias, e por quais
meios e graus elas podem penetrar na mente; com esse fim solicitarei a cada um re-
poderes do homem, conforme um fim útil); e semiótica (conhecimento dos símbolos e
correr a sua própria observação e experiência.”
21
9
sentidos lógicos para o entendimento da realidade).
Desenvolvendo o pensamento empírico, temos ainda David Hume.
Desenvolvendo o pensamento empírico, temos ainda David Hume.
“Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável
“Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável dife-
diferença entre as percepções da mente quando o homem
rença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de
sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar 8
LOCKE, John. Ob. Cit., pp. 150-
um calor excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e 152.
quando relembra tépido
moderadamente e quando
mais tarde relembra
essa sensação oumais tarde pela
a antecipa essaimagi-
9
LOCKE, John. Ob. Cit., p. 159.
sensação
nação. Essasoufaculdades
a antecipapodem
pela imaginação. Essas as
remedar ou copiar faculdades
percepções dos 10
HUME, David. Investigação
podem remedar ou copiar as percepções dos sentidos, mas
sentidos, mas jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento Sobre o Entendimento Humano.
São Paulo: Abril Cultural, 1980.
jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento
original.”10
p. 140.
original.”22

FGV DIREITO RIO 36

Neste parágrafo, Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento
epistemologia e modernidade

Neste parágrafo, Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensa-
mento empirista, inaugurado por Bacon e continuado por Locke, dentre outros.
Contudo, pode-se dizer que o empirismo de Hume é o mais inovador e radical,
colocando-o em posição de destaque dentre os próprios empiristas. Segundo sua
filosofia, não há conhecimento da realidade que não se inicie com as impressões dos
sentidos. Na verdade, estes são estimulados por dados internos ou externos ao sujei-
to, dando início a um processo psicológico que vai, etapa a etapa, produzindo um
tipo de “verdade” sobre os dados da realidade. Por isso, no parágrafo em epígrafe,
afirma que somente a vivacidade do sentimento original é capaz de responder ou
explicar uma dada situação. Nesse sentido, pode-se dizer que Hume compreende a
verdade sobre o entendimento humano (o que Descartes chamaria de cogito) como
a própria vivência imediata do pensar estimulado indutivamente por impressões, ou
seja, não existe consciência mas, apenas, vivências. Numa síntese geral do processo
de conhecimento exposto por Hume na sua Investigação sobre o Entendimento Hu-
mano11, temos que os conhecimentos começam com as sensações (experiência dos
sentidos) estimuladas pelos objetos exteriores. É a reunião das várias e diferentes
sensações que permite perceber um objeto exterior, ou seja, as sensações reunidas
formam a percepção. Na medida em que as percepções vão se repetindo, elas se
combinam, se associam, quer seja porque são semelhantes (semelhança), porque
se repetem no mesmo espaço ou próxima umas das outras (contiguidade espacial)
ou porque se repetem sucessivamente no tempo (sucessão temporal). O fato é que,
com esta repetição, ocorre o hábito da associação das percepções, fazendo com que,
assim, surjam as idéias. Em outras palavras, as idéias correspondem à associação das
percepções trazidas pela experiência sensível, que são levadas à memória, onde a
razão forma os pensamentos. É a experiência que inscreve as idéias em nosso espí-
rito e a razão as arranja (combinando ou separando), formando, desta maneira, os
pensamentos. Assim, Hume afirma que a razão nada mais é que o hábito de associar
idéias, seja por semelhança, seja por diferença.
Negando fundamentos abstratos e metafísicos, Hume encerra a Investigação cri-
ticando a idéia do apriorismo como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro
dos acontecimentos do mundo real, dos fatos; bem como criticando a resposta da
velha teologia de que um Ente Supremo precisa ter sido a causa de tudo que foi
criado e do que será criado, já que a relação de causalidade depende de uma expe-
riência pessoal não universalizável sobre bases seguras. Assim, a causa corresponde
à imaginação do sujeito afetada por uma determinada experiência dos sentidos.12
Com efeito, para Hume, não pode haver conhecimento pleno e cientificamente
válido fora do campo meramente conceptual, como é o caso da matemática, já
que em relação aos fatos, não há demonstração possível, na medida em que “tudo
que é pode não ser”13, acusando mesmo de enganação e ilusão qualquer tentativa
de levar o raciocínio das ciências abstratas de quantidade e número para os fatos
concretos. 11
HUME, David. Ob. Cit., pp.
141-157.
12
HUME, David. Ob. Cit., p. 204.
13
HUME, David. Ob. Cit., p. 203.

FGV DIREITO RIO 37


dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:

A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA


A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA epistemologia e modernidade
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
E o direito?
de insegurança que possa gerar em nós.

E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona


Acreditar na verdade como produto de uma experiência empírica
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com

implica admitir que também é o direito produto de uma experiência


expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
empírica,
possível fruto,
falar-se em portanto,
verdade ou deComo
seriam verdades? um fato fundante. Essa concepção em-
pírica do direito é corrente na common law e da origem ao chamado
lidar com os problemas de insegurança jurídica?

realismo jurídico.
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
Bibliografia
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
imbricam no campo ético.
Obrigatória
CONTEXTO
Formas pelas quais
DA chega-se à decisão.
DESCOBERTA
1
REALE, Miguel. Filosofia do direito. São Paulo: Saraiva, 1996. (Parte I – Capítulo
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.

VIII. Do Conhecimento Quanto a Origem).


20

Complementar

CUNHA, José Ricardo. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológi-


cas. In: Direito, Estado e sociedade – Revista do Departamento de Direito da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, n. 16, jan/jul 2000.

FGV DIREITO RIO 38


epistemologia e modernidade

AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

Formalismo e Realismo Jurídico.

Objetivos da aula

Apresentar como Inatismo e Empirismo influenciaram as principais matrizes


epistemológicas do direito.

PREPARE-SE PARA A AULA

É necessário recordar que razão e experiência foram elevadas às categorias centrais


do conhecimento na modernidade. Portanto, todas as áreas do saber passaram a se-
guir uma ou outra matriz. Vejamos, novamente, o esquema apresentado na aula 6:

RACIONALISMO EMPIRISMO
FUNDAMENTO
Fundamentado
NO numa razão inata Fundamentado na percepção dos sentidos
Opera dedutivamente Operadeindutivamente
Método abstração
conceitual
Alcançaque confere externo por meio de uma
o mundo
PRINCÍPIO DA
Alcança o mundo externo por meio de uma plenitude de sentido às
RACIONALIDADE experiência
prescrições possibilitada pela percepção
inferência (representação) lógica
sensível e por uma operação mental
normativas.

Ordenamento jurídico
DIREITO POSITIVO
No direito, o racionalismo influencioupreciso
tanto o jusnaturalismo do século XVIII,
e completo.
COERENTE
mas, sobretudo, o formalismo positivista do século XX. Já o empirismo está na base
dos realismos jurídicos. Procedimentos de
FUNDAMENTO NA decidibilidade que
LEI subsumem o valor
justiça ao valor
segurança,
FORMALISMO JURÍDICO materializado no
conceito de legalidade.

Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem


Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que
ser úteis
podem ser úteisna compreensão
na compreensão do jurídico:
do formalismo formalismo jurídico. Prepare-se
para o debate refletindo sobre tais postulados:

1) A única fonte do direito é a Lei;


1. A única fonte do direito é a Lei;
2) As normas positivas constituem um universo significativo auto-
2. As normas positivas constituem um universo significativo auto-suficiente do
suficiente, do qual se pode inferir , por atos de derivação racional, soluções para todos
os tipos de conflitos jurídicos; inferir , por atos de derivação racional, soluções para todos os
qual se pode
tipos de conflitos jurídicos;
3) Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. Esse
não faz o direito porque já o encontra realizado;
FGV DIREITO RIO 39
4) As determinações metajurídicas não tem valor jurídico,
devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico;
epistemologia e modernidade

3. Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. Esse não faz o direito
porque já o encontra realizado;
4. As determinações metajurídicas não têm valor jurídico, devendo-se encon-
trar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico;
5. A linguagem jurídica é formal e, portanto, precisa: possui um unívoco senti-
do dispositivo;
6. O juiz é neutro;
7. A Ciência Jurídica deve estudar, sem formular juízos valorativos, o direito
positivo vigente.

REALISMO JURÍDICO

Novamente Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis
na compreensão do realismo jurídico. Continue sua preparação refletindo sobre os
novos postulados:

1. A ordem jurídica não oferece segurança. As leis não solucionam todos os


casos concretos;
então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
2. As normas jurídicas e os conceitos dogmáticos constituem um conjunto de
verdadeiro”.

afirmações metafísicas;
Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
pode 3. A linguagem
ser apresentado jurídica
pela frase: Esta sentença não
é falsa. é hermética
Se a sentença é falsa, então nem auto-suficiente. O sentido das

normas dependerá do uso que os juízes dêem as mesmas; Não há significados


ela é verdadeira, mas se for verdadeira, então ela é falsa. Pode-se desqualificar este
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que nãoabstratos
é auto-referenteclaramente definíveis;
e tem pleno sentido gramatical:

4. ASEGUINTE
A SENTENÇA Ciência É FALSAdo direito constrói-se elaborando teses sobre os comportamentos
judiciários. Os conceitos teóricos devem ter base empírica, razão porque só
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA

Estamos diantepossuem valorlógica


de uma inconsistência se que
refletem as condutas
vem sendo discutida e enfrentada hájudiciais e as conseqüências sociais das
relações jurídicas.
1
muito tempo pela filosofia. Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação

E o direito?
de insegurança que possa gerar em nós.

E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona


com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
Quais seriam os principais problemas possíveis resultantes dessas
expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das

matrizes epistemológicas?
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como
lidar com os problemas de insegurança jurídica?

Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
Bibliografia
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
Obrigatória
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
Formas pelas quais
TEIXEIRA,
DA
DESCOBERTA
Antonio Braz.
chega-se Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídi-
à decisão.

1
- Para uma boaca.
síntese Lisboa: Casa da Moeda,
cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. 2000.
São Leopoldo: Unisinos,(Parte
2003. I. Ontologia do Direito. Capítulo
I. Perspectivas contemporâneas da ontologia 20 jurídica – Seções 17, 18, 19 e
20).

FGV DIREITO RIO 40


epistemologia e modernidade

Complementar

WARAT, Luiz Alberto. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei, temas


para uma reformulação. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1994. (Capítu-
lo 4: Formalismo, Realismo e Interpretação da Lei).

FGV DIREITO RIO 41


AULA 9. CRITICISMO: KANT

epistemologia e modernidade

NOTA AO PROFESSOR
AULA 9. CRITICISMO: KANT

Tema da aula
NOTA AO ALUNO

Tema da aula
A síntese crítica de inatismo e empirismo.

A síntese crítica de inatismo e empirismo.

Objetivos da aula
Objetivos da aula

Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no


Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no pen-
pensamento
samento kantiano.
kantiano.

PREPARE-SE PARA A AULA


DESENVOLVIMENTO

Paradesenvolver
Para desenvolver plenamente
plenamenteseus estudos,
seus sem sem
estudos, dar margens
dar margens a
a nenhum tipo de inconsistência, Kant se propôs um saber críti-
nenhum tipo de inconsistência, Kant se propôs um saber crítico. Daí
co. Daí sua filosofia também ser conhecida como criticismo, que
sua filosofia
consiste também
no exame ser conhecida
de valor que se podecomo sobre uma que
fazer criticismo, consiste no
teoria,
uma conduta
exame ou uma
de valor queexperiência,
se pode fazer a fim sobre
de buscar
uma suas condições
teoria, uma conduta
de possibilidade, de validade e os seus limites.
ou uma experiência, a fim de buscar suas condições de Podemos afirmar
que o criticismo surge do movimento realizado por Kant dian-
tepossibilidade, de validade e os seus limites. Podemos afirmar que o
daquilo que considera como dois erros, a saber: a) o erro do
criticismo surge
dogmatismo do movimento
racionalista, que confia realizado
cegamente porna Kant diante
razão, daquilo
caindo, que mesmo,
por isso considera como
numa metafísica
dois erros, ilusória;
a saber: a) b) o errodododogmatismo
o erro empirismo, que reduz tudoque
racionalista à mera experiên-
confia cegamente na
cia subjetiva, caindo, por isso mesmo, num ceticismo quanto ao
razão, caindo, por isso mesmo, numa metafísica ilusória; b) o erro do empirismo que
conhecimento ea
verdade. Dessa forma, o criticismo kantiano irá buscar as verdadeiras bases para um
reduz
uso tudodaà razão,
correto mera investigando
experiênciaosubjetiva,
que ela pode caindo,
e o quepor elaisso mesmo,
não pode, num ceticismo
em outras
quanto ao
palavras, conhecimento
suas possibilidadesee alimites.
verdade. Dessa
É por forma,
isso que o criticismo
comumente kantiano
se fala irá buscar as
sobre o “tri-
bunal da razão”
verdadeiras na filosofia
bases para um kantiana, onde da
uso correto a razão
razão,ocupa, curiosamente,
investigando o queum eladuplo
pode e o que
papel: de juiz e de réu, ou seja, ela está sendo julgada por ela mesma. É a razão que
ela não pode, em outras palavras, suas possibilidades e limites. É por isso que
se submete às suas próprias leis. Assim, a razão crítica é aquela da qual nada escapa a
comumente
um minuciososeexame;
fala sobre
até mesmoo “tribunal da erazão”
seu agente operador na éfilosofia kantiana,
visto e analisado poronde
ela, a razão
ocupa,
para quecuriosamente,
nada fique à mercêum duplo papel: de
de respostas juiz e de eréu;
dogmáticas semoufundamento
seja, ela está sendo julgada
racional.
O
porconhecimento
ela mesma. É como ciência
a razão queé,seexatamente,
submete às essesuas
que próprias
é submetidoleis.ao império
Assim, da crítica
a razão
razão para se apresentar de forma verdadeira e sistemática, segundo as características
é aquela da qual nada escapa a um minucioso exame; até mesmo seu agente e
de um sujeito autônomo, posto que também submetido à razão. A razão crítica é,
operador
antes é visto
de tudo, a razão e que
analisado
se criticapor
a siela, paraimpedindo
mesma, que nadaseus fique à mercê
delírios de respostas
megaloma-
níacos e reconhecendo, humildemente, suas possibilidades:
83

FGV DIREITO RIO 42


epistemologia e modernidade

“Em todos os seus empreendimentos a razão tem que se submeter à crítica, e não
pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isto a prejudique
e lhe acarrete uma suspeita desvantajosa. No que tange à sua utilidade, nada é tão
importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a esta inspeção atenta
e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa. Sobre esta liberdade
repousa até a existência da razão; o veredicto desta última, longe de possuir uma
autoridade ditatorial, consiste sempre em nada mais do que no consenso de cidadãos
livres dos quais cada um tem que poder externar, sem constrangimento algum, suas
objeções e até seu veto.”14

A forma como Kant responde os problemas colocados à teoria do conhecimento


pelas correntes racionalista e empirista ficou conhecida como uma espécie de re-
volução copernicana. Copérnico já havia demonstrado que o universo é infinito e,
por isso mesmo, a Terra não poderia ser o centro do cosmo e que o Sol não é um
planeta, mas uma estrela, sendo a Terra que gira ao seu redor, e não o contrário,
como acreditavam os antigos e medievais. Para Kant, racionalistas e empiristas es-
tavam buscando um centro falso e inexistente, quando afirmavam ser a realidade
racional em si mesma e, assim, inteligível. Dessa maneira, “colocaram a realidade
exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão, ou o sujeito
do conhecimento, girar em torno deles”15. É aí que surge a revolução proposta por
Kant, quando este afirma que é o sujeito de conhecimento – razão crítica – que deve
ser o centro do conhecimento e não o contrário:

“Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha que se regular pelos
objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori so-
bre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento, fracassaram sob esta
pressuposição. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas
da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento,
o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori
dos objetos que se deve estabelecer sobre os mesmos antes de nos serem dados.”16

Assim sendo, todo o processo de produção do conhecimento, a partir de Kant,


passa a ser visto como o resultado da relação entre sujeito cognoscente e objeto cog-
noscível, onde existe uma sobreposição do primeiro em relação ao segundo, quer
dizer, da razão em relação à realidade, uma vez que é aquela que legisla sobre esta
ao instituí-la como objeto para sua cognição, para seu conhecimento. Em outras
palavras, cabe ao sujeito o papel de instituir seus objetos cognitivos para afirmar-se 14
KANT, Immanuel. Crítica da
como hegemonia da razão sobre o real. Como podemos ver, a teoria do conheci- Razão Pura. São Paulo: Abril
Cultural, 1980, p. 363.
mento de Kant não é exatamente um discurso científico, mas um discurso sobre 15
CHAUÍ, Marilena. Convite à
a ciência, sobre como é possível produzir conhecimentos ditos científicos e, por Filosofia. São Paulo: Atica, 1994,
isso, com pretensão de universalidade e precisão. No prefácio da Crítica da Razão p. 77.
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
Pura, diz ser esta “um tratado do método e não um sistema da ciência mesma; não
16

p. 12.
obstante traça como que todo o seu contorno, tendo em vista tanto os seus limites 17
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
como também toda a sua estrutura interna.”17 Temos, assim, que o conhecimento p. 14.

FGV DIREITO RIO 43


epistemologia e modernidade

científico se opera na forma de uma relação entre sujeito e objeto, conforme as


características e determinações próprias do sujeito racional, que é o fundamento
último do próprio conhecimento. No entanto, já sabemos que este sujeito cognos-
cente é tomado criticamente, ou seja, reconhecido nos seus limites como limites da
própria razão. Este reconhecimento dos limites da razão implica numa crítica kan-
tiana ao dogmatismo do racionalismo antigo, medieval e moderno, que pretendia
desvendar metafisicamente os atributos ontológicos da natureza primeira do ente,
o númeo, ou seja, a coisa em si. Esta, não pode ser conhecida, mas apenas a maneira
como se apresenta ao homem. Em outras palavras, não se conhece racionalmente o
númeno, mas pode-se conhecer o fenômeno, que significa a maneira pela qual um
ente faz-se conhecer, não o ente em si, pois este é incognoscível, mas sim a forma
de sua apresentação.18 O númeno é a coisa em si; este não pode ser conhecido cien-
tificamente. O fenômeno é a coisa na maneira como se apresenta ao sujeito; este
pode ser conhecido cientificamente. Portanto, somente há conhecimento científico
quando o objeto de conhecimento é tomado na sua dimensão fenomênica, ou seja,
o objeto cognoscível é sempre um fenômeno.
Quando se debruça sobre o problema do conhecimento, Kant não se preocupa
em descobrir se é possível a construção de um saber de base universal, tido como
científico, vez que as ciências da natureza já estavam constituídas como um fato, ou
seja, já existia o conhecimento universal, científico. Sua questão era, então, saber
como eram possíveis tais ciências. Rapidamente, a resposta dada por Kant foi a se-
guinte: o que torna possível o conhecimento científico são os juízos sintéticos a priori.
O que remete a outra questão: como é possível um juízo sintético a priori? Pois bem,
sabendo que o centro do conhecimento é o sujeito cognoscente, a resposta somente
poderia resultar da análise da faculdade de conhecer do sujeito, o que é feito na Cri-
tica da Razão Pura. Partindo dos aportes oferecidos tanto por empirismo como por
racionalismo, Kant observa e distingue duas formas de conhecimento: 1) o empírico
ou a posteriori, sendo o que resulta de nossas experiências sensíveis; e 2) o puro ou a
priori, sendo o que independe de nossas experiências sensíveis. Temos, destarte, que
o conhecimento empírico, embora seja concreto e enriquecido pelo dado real dos
sentidos ou de nossa experiência pessoal, não pode ser tomado de maneira universal
ou necessária, o que já se torna possível no caso do conhecimento puro, tal qual
ocorre nas proposições da matemática.19 Por outro lado, Kant distingue dois tipos
de juízo: 1) o analítico, sendo aquele cujo predicado já está contido no sujeito; e
2) o sintético, sendo aquele que o conceito admitido no predicado representa uma
informação nova em relação ao sujeito. Vejamos que os juízos analíticos são sempre
universais e necessários, válido em qualquer tempo ou lugar, exatamente como deve
ser o conhecimento científico. Entretanto, estes não fazem o conhecimento em
nada avançar, já que aquilo que informam do sujeito já estava contido na própria
idéia do sujeito, sendo sabido por todos.20 Tomemos, como exemplo, o juízo a porta 18
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
abre e fecha. Ora, embora esta seja uma proposição universal, todos sabem que porta p. 39.

abre e fecha, pois, caso contrário, não seria porta. Agora, vejamos o juízo a porta KANT, Immanuel. Ob. Cit., pp.
19

24-26.
está aberta. Esta proposição realmente acrescenta um dado novo sobre o sujeito que 20
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
não era conhecido anteriormente, fazendo o conhecimento avançar. Contudo, este p. 27.

FGV DIREITO RIO 44


epistemologia e modernidade

conhecimento somente pode ser considerado válido para aquele sujeito especifica-
mente, não podendo se dizer por que esta porta está aberta, que todas as portas do
mundo estão abertas. Dessa forma, o juízo porta abre e fecha é analítico, tal qual o
juízo o triângulo têm três lados ou todos os corpos são extensos; já o juízo a porta está
aberta é sintético, tal qual todos os corpos se movimentam.
Acontece que, isoladamente, estes conceitos ainda não respondem ao problema
do conhecimento científico, pois os juízos sintéticos são empíricos e fazem avançar
o conhecimento, mas não são universais e necessários, não servido, portanto, para
explicar o funcionamento das ciências. Já o conhecimento a priori é universal e ne-
cessário, mas apenas traduz juízos analíticos, onde não se revela nenhuma novidade
sobre o sujeito, de forma que não faz avançar o conhecimento e, também, não serve
para explicar o funcionamento das ciências. A resposta está numa categoria empíri-
ca, onde o predicado não esteja contido no sujeito mas que, ao mesmo tempo, seja
universal e necessária: trata-se do juízo sintético a priori.21 Somente os juízos sintéti-
cos fazem a ciência avançar, na medida em que acrescentam uma informação sobre
o sujeito; contudo, é necessário, para que haja ciência, que a informação não se
restrinja a uma única observação específica de um fenômeno, mas possa ser tomada
como atributo universal e necessário de dado objeto cognoscível.
Os juízos sintéticos a priori representam o conhecimento científico porque são
universais e crescentes, ao mesmo tempo:

“Ora, se os juízos analíticos trazem em si a universalidade e são, por isso, sempre


a priori, e se os juízos sintéticos da experiência oferecem somente a possibilidade
do crescimento do conhecimento – dado que naqueles o conhecimento é universal,
mas não avança, e nestes o conhecimento é crescente, mas não universal – é preciso
que existam juízos sintéticos a priori que tenham as duas características, já que sem
eles não seria possível a física pura, nem a matemática, as quais, entretanto, são um
fato. O juízo ‘todo acontecimento tem uma causa’ é um juízo sintético a priori. É a
priori porque vale universalmente, de modo necessário, não provindo pois da expe-
riência; é sintético porque no conceito acontecimento não está contido o conceito
de causa.”22

Ainda o conceito de juízo sintético a priori revela a hipótese central da filosofia


kantiana da ciência: o conhecimento começa com a experiência, mas não surge todo
ele da experiência, já que é universal e necessário. Kant faz uma espécie de síntese
entre postulados do racionalismo e do empirismo, propondo o conhecimento na
forma do resultado de um processo complexo que parte dos dados empíricos forne-
cidos pela intuição sensível processando-os na forma transcendental das categorias do
entendimento, através de um esquematismo transcendental, que promove a síntese do
próprio conhecimento. KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
21

p. 28.
Assim descreve Kant: 22
SALGADO, Joaquim Carlos.
A Idéia de Justiça em Kant: seu
fundamento na liberdade e na
“Denominamos sensibilidade a receptividade de nossa mente receber representa- igualdade. Belo Horizonte: Edi-
tora UFMG, 1995, p. 87.
ções na medida em que é afetada de algum modo; em contrapartida, denominamos

FGV DIREITO RIO 45


epistemologia e modernidade

entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendi-


mento produzir representações. A nossa natureza é constituída de um tal modo que
a intuição não pode ser senão sensível, isto é, contém somente o modo como somos
afetados por objetos. Frente a isto, o entendimento é a faculdade de pensar o objeto
da intuição sensível. Nenhuma destas propriedades deve ser preferida à outra. Sem
sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, e sem entendimento nenhum seria
pensado. Pensamentos sem conteúdos são vazios, intuições sem conceitos são cegas.
Portanto, tanto é necessário tornar os conceitos sensíveis (isto é, acrescentar-lhes o
objeto na intuição) quanto tornar as suas intuições compreensíveis (isto é, pô-las sob
conceitos). Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as suas
funções. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. O conheci-
mento só pode surgir da sua reunião.”23

Como diz Kant, o conhecimento resulta da reunião das faculdades da sensibili-


dade – intuição sensível – e do entendimento. Pela primeira, entramos em contato
com o mundo e, pela segunda, pensamos este mesmo mundo. O conhecimento não
é, pois, um momento estático dos sentidos ou da razão, mas, antes, um processo com-
plexo que opera através de sínteses que conduzem a diversidade dos dados empíricos
à unidade das categorias do entendimento, na forma do sujeito de conhecimento,
sujeito transcendental.
Dessa forma, o juízo sintético a priori, que caracteriza o conhecimento concreto
e universal das ciências, resulta, como dito anteriormente, desse complexo processo
de sínteses que acolhe a multiplicidade de percepções dos sentidos e as eleva à forma
de conceitos inteligíveis e universais. No entanto, todas as sínteses tem como centro
o sujeito cognoscente que institui, à sua escolha, os objetos de sua investigação, a
fim de pensá-los racionalmente. De efeito, o ato de pensar, para Kant, é sempre uma
postura racional que impõe à realidade bruta as regras ou leis que a torna inteligível.
Por isso se dizer que na filosofia kantiana é a razão que legisla, ou seja, que fornece
as condições últimas de possibilidade do conhecimento ou da verdade, sendo, por
isso, a mais alta faculdade do conhecimento.24 Assim, o sujeito racional é a própria
unidade do conhecimento na forma do eu penso, ou, como diz Kant, é a unidade
racional transcendental.25
Não resta dúvida que a epistemologia kantiana radicaliza a aventura moderna
do empreendimento científico ao lançar as bases mais sistemáticas e sólidas de uma
nova fundamentação da verdade, tomada como verdade epistemológica. Embora
o tribunal da razão tenha limitado a arrogância da razão onipotente da metafísica
dogmática, ele elevou ao mais alto pedestal a glória da razão teorética ou científi-
ca, como último reduto da verdade mesma. Essa perspectiva racionalista kantiana
serviu de base para a sustentação de uma sociedade que busca a legitimação de suas
instituições e do comportamento de seus agentes em postulados racionalistas. Mo- 23
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
dernizar passou a significar racionalizar e racionalizar passou a significar estar mais p. 74.

perto da verdade e da liberdade intelectual. Contudo, ocorre que o racionalismo 24


SALGADO, Joaquim Carlos. Ob.
Cit., p. 129.
kantiano foi convertido em racionalidade instrumental, ou seja, meio eficaz para a 25
KANT, Immanuel. Ob. Cit.,
consecução de um fim qualquer. Muito rapidamente, os meios se autonomizaram p. 85.

FGV DIREITO RIO 46


epistemologia e modernidade

então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
verdadeiro”.
em relação aos fins, degenerando na forma de certas condutas consideradas mera-
Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer

mente técnicas, isoladas de fundamentos éticos. Mesmo a moral foi transformada


dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
em
ela moralismo,
é verdadeira, como então
mas se for verdadeira, instrumento dedesqualificar
ela é falsa. Pode-se dominação este de certos grupos sociais. Esse pro-
cesso de embrutecimento da racionalidade
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:
científica e de autonomização da ciência
em relação ao mundo da vida, que retirou de boa parte dos cientistas a sensibilidade
social e os fundamentos éticos da busca da verdade, atingiu seu ápice com a hege-
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA
monia absoluta do positivismo, a partir do século XIX, que acabou por determinar
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
o modo
muito defilosofia.
tempo pela produção 1
Independentedo
dos conhecimento em
resultados a que se chegue, todas
o fato é as áreas do saber.
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
E o direito?
de insegurança que possa gerar em nós.

E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona


Acreditar na verdade como produto de uma síntese entre enten-
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com

dimento e sensibilidade admitir que também o direito é produto


expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
de talfalar-se
possível síntese, sendo,
em verdade ou seriampois,
verdades?constituído
Como concomitantemente por fatos
lidar com os problemas de insegurança jurídica?
concretos e proposições abstratas que interagem reciprocamente.
Para a aula, pesquise a chamada dialética de integração-po-
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Wróblewski na
laridade
Jerzy Teoria
e Manuel Atienza:Tridimensional
contexto da descoberta edo Direito
contexto da de Miguel Reale e comente sua
relação com o criticismo kantiano.
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
imbricam no campo ético.
Bibliografia
CONTEXTO
Formas pelas quais
DA chega-se à decisão.
DESCOBERTA
1 Obrigatória
- Para uma boa síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, 2003.

20
REALE, Miguel. Filosofia do direito. São Paulo: Saraiva, 1996. (Parte I. Capítulo
VIII. Do Conhecimento Quanto a Origem).

Complementar

CUNHA, José Ricardo. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemoló-


gicas. Direito, Estado e Sociedade – Revista do Departamento de Direito da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, n. 16, jan/jul 2000.

FGV DIREITO RIO 47


AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE epistemologia e modernidade

AULA 10.PROFESSOR
NOTA AO O POSITIVISMO: COMTE

NOTA AOaula
Tema da ALUNO

Tema da aula
O positivismo filosófico.

O positivismo filosófico.
Objetivos da aula

Objetivos
Apresentar o da aula filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte.
positivismo

Apresentar o positivismo filosófico conforme desenvolvido por Augusto


Comte.
DESENVOLVIMENTO

A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O


PREPARE-SE PARA A AULA
seu maior formulador, Augusto Comte, afirmou a filosofia como uma espécie de
denominador comum de todo tipo de conhecimento, teórico ou
A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem
prático, dando a ela também um papel político para a
dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte,
manutenção da ordem. Isso quer dizer que, por um lado, o
afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum
positivismo se apresenta como uma teoria do conhecimento
de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela
capaz de apreender e desvendar a ordem natural dos
também um papel político para a manutenção da ordem. Isso
acontecimentos histórico, descobrindo leis gerais válidas para
quer dizer que, por um lado, o positivismo se apresenta como
todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma
uma teoria do conhecimento capaz de apreender e desvendar a
evolução intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado,
ordem natural dos acontecimentos histórico, descobrindo leis ge-
o positivismo se apresenta como uma coordenação das ações políticas necessárias
rais válidas para todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma evolução
para a manutenção dessa ordem, que traz o desenvolvimento, e para uma eventual
intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, o positivismo se apresenta
correção de possíveis desvios. Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado
como uma coordenação das ações políticas necessárias para a manutenção dessa or-
como uma espécie de filosofia das filosofias, pois fornece a regra geral de
dem que traz o desenvolvimento e para uma eventual correção de possíveis desvios.
entendimento e interpretação de todos os acontecimentos históricos ao mesmo tempo
Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma espécie de filosofia
em que delimita os campos de intervenção da ação humana e fornece as regras de
das filosofias, pois fornece a regra geral de entendimento e interpretação de todos
como fazê-la. Para tanto, se opõe a qualquer tipo de saber que não esteja amparado
os acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que delimita os campos de in-
em condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer
tervenção da ação humana e fornece as regras de como fazê-la. Para tanto, se opõe a
ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No
qualquer tipo de saber que não esteja amparado em condições reais, demonstráveis e
históricas de fundamentação, negando qualquer ontologia absoluta e transcendente
que não surja da história e não se afirme nela. No lugar dessa ontologia99de caráter
metafísico, o positivismo, embalado pelo otimismo moderno, apresenta a ciência
como verdadeira redentora e realizadora da promessa do conhecimento e do pro-
gresso. Comte acredita ter encontrado a filosofia natural a que Bacon tanto se referia
sem, contudo, ter descoberto suas verdadeiras regras de funcionamento. Observar e
descobrir o funcionamento da natureza é o ponto de partida para uma ação racional
sobre a própria natureza que assegure ao homem um lugar privilegiado no mundo,
isto é, um lugar de domínio que propicie uma natural evolução. Portanto, a filosofia

FGV DIREITO RIO 48


epistemologia e modernidade

positivista de Comte concede à ciência lugar de fundamental destaque, na medida


em que a ela cabe fornecer o conhecimento do mundo e o plano de ação adequado
ao seu manejo. Eis a síntese da perspectiva cientificista da filosofia positivista: ver
para prever e prever para controlar. Afirma Comte:

“Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte de trabalhos da es-


pécie humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a
verdadeira base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos
fenômenos, cujo resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evi-
dentemente pode nos conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um
fenômeno por outro, tudo isso em nosso proveito... Todas as vezes que chegamos a
exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos
permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se
realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese
sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito,
os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores.”26

Apesar dessa apresentação dos postulados e das pretensões do positivismo, ainda


é necessário um esforço de definição. Usemos o seguinte conceito: positivismo é a
doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. É uma doutrina
porque é um conhecimento organizado a partir de um corpo teórico próprio e
definido. A substância dessa doutrina filosófica é o paradoxo entre o real e o trans-
cendente, onde o primeiro deve ser entendido como uma exterioridade observável e
o segundo como a própria metafísica. Assim, o positivismo rejeita a cientificidade,
ou seja, o caráter de verdade, de qualquer explicação baseada em argumentos me-
tafísicos, rejeitando, por conseguinte, todas as idéias totalizantes e que não estejam
fundamentadas no observável. Portanto, apenas no plano do real fenomênico é
possível praticar a ciência e descobrir a verdade. Deve-se ter em conta que não basta
a pura observação, o fenômeno observado deverá ser racionalizado para que possa
ser apresentado na forma de enunciados, prognósticos e prescrições.
Considerando a realidade como uma exterioridade observável, Comte entende
que os fenômenos podem ser vistos, previstos e subsumidos por uma lei geral de
funcionamento, de modo a ser controlado ou, pelo menos, passível de controle pela
razão humana. Por isso mesmo, estrutura sua filosofia positivista em três momen-
tos fundamentais: uma filosofia da história (momento filosófico), uma teoria ou
classificação das ciências (momento epistemológico) e uma reforma das instituições
políticas e morais (momento sociológico). Todos estes momentos devem ser sub-
metidos à Lei Fundamental do Progresso do Espírito Humano, consubstanciada na
evolução dos três estados que marcaram a existência dos homens: estado teológico,
estado metafísico e estado positivo, sendo este último a grande expressão da natu-
reza e cultura humanas:

“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas inves- 26


COMTE, Augusto. Curso de Fi-
losofia Positiva. São Paulo: Abril
tigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os Cultural, 1983, p. 23.

FGV DIREITO RIO 49


epistemologia e modernidade

efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os


fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais
mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias
aparentes do universo.
No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação ge-
ral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verda-
deiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e
concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos obser-
vados, cuja explicação consiste, então, em determinara para cada um uma santidade
correspondente.
Enfim, no estado positivo, o espírito humano reconhecendo a impossibilidade
de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a
conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em desco-
brir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas,
a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos,
reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabe-
lecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o
progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.”27

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, no estado positivo, a crença (in)fundada


em agentes sobrenaturais e forças abstratas, próprias dos estados teológico e me-
tafísico, desaparece para dar lugar a uma nova crença: o poder da observação e da
razão que, combinadas, formam a base da ciência. Note-se a influência de Hume
e de Kant, conforme admite o próprio Comte, na descrença em torno de um ab-
soluto ontológico ou mesmo na apropriação crítica da ciência, estabelecendo seus
limites e possibilidades, ou, ainda como quer Kant, na compreensão da ciência
como o resultado da articulação entre sentido e razão, com primazia normativa
desta última, pois é ela que determina o significado dos dados empíricos absorvidos
pelos sentidos. No estado positivo, é o conhecimento científico que determina a
verdade e os seus meios de produção. Por isso, Comte afirma dois postulados epis-
temológicos básicos: 1) a negação de uma unidade absoluta intrínseca à realidade;
2) a afirmação de uma relatividade histórica do conhecimento que está sempre em
progresso e se liga a dadas situações sociais.28 Com base nesses postulados, afirma
três regras metodológicas essenciais para a ciência: 1) A busca do conhecimento
implica a delimitação de um objeto específico de conhecimento; 2) O objeto – fe-
nômeno – deve ser estudado sistematicamente nas suas relações constantes de con-
comitância e sucessão, até que se encontre sua lei geral de funcionamento; e 3) A
descoberta científica da lei de funcionamento de um fenômeno, permite a previsão
racional de seu comportamento, como forma de controle, segundo o dogma da 27
COMTE, Augusto. Ob. Cit., p. 4.
invariabilidade das leis naturais.29 Assim, o positivismo produz uma filosofia da 28
COMTE, Augusto. Discurso So-
bre o Espírito Positivo. São Paulo:
ciência que possui como fundamento a observação que, no entanto, pressupõe: 1) Abril Cultural, 1983, p. 63.
a possibilidade da objetividade do conhecimento; 2) uma organicidade própria dos 29
COMTE, Augusto. Discurso
fenômenos que são sustentados por funções naturalmente determinadas; e 3) uma Preliminar Sobre o Conjunto do
Positivismo. São Paulo: Abril
harmonia intrínseca da realidade que decorre da organicidade dos fenômenos. Em Cultural, 1983, pp. 108-110.

FGV DIREITO RIO 50


epistemologia e modernidade

outras palavras, se tudo estiver em ordem, haverá o progresso, donde a crença que o
progresso decorre da ordem. Para garantir a ordem que produz progresso, a ciência
– com sua pluralidade de objetos e unidade metodológica – descobre as leis gerais
imutáveis da estática (ordem) e da dinâmica (progresso).30 Segundo o positivismo, é
exatamente isso que ocorre nas sociedades. Por isso a definição da sociologia como
uma física social que investiga o fenômeno social como um dado objetivo e natural,
chegando às suas leis gerais imutáveis. No lugar da democracia, considerada por
Comte como sendo anarquista, e da aristocracia, considerada por ele reacionária,
propõe uma sociocracia fundada no conhecimento científico da sociedade e, por
isso, capaz de conduzir o espírito humano numa trajetória moral evoluída e verda-
deiramente livre. Para tanto, basta compreender que, consoante concepção positi-
vista, toda sociedade é formada por uma estática social e por uma dinâmica social,
sendo a primeira uma condição constante da sociedade que lhe garante a harmonia:
ordem; e sendo a segunda o resultado de suas leis gerais de evolução que lhe garante
o desenvolvimento: progresso. Nesse sentido, para uma boa existência da sociedade
e sua respectiva evolução, bastaria a implantação de um Estado sociocrata interven-
cionista que garantisse o funcionamento dos órgão sociais, assegurando a vitalidade
do organismo e evitando as disfunções socialmente patológicas que pudessem ou
impedir o progresso. Essa acepção positivista, que torna a política dependente da
ciência, também produz a idéia de que a política pode ser vista como uma técnica de
arranjo social, ocultando a questão fundamental das correlações de força e de busca
pelo poder, como se ciência e política fossem neutras, isentas de influências ideoló-
gicas na busca e na realização de uma “verdade pura”. Michael Lövy explica como as
ciências sociais foram tomadas por este modelo epistemológico, sendo conduzidas
basicamente pelos seguintes princípios: 1) A sociedade é regida por leis naturais,
isto é, leis invariáveis, independentes da vontade e da ação humanas; na vida social,
reina
então o queuma
lê diz “é harmonia
falso”. Contudo, senatural;
o que ele diz é2)falso,A sociedade
então o que lê diz “é pode, portanto, ser epistemologica-
verdadeiro”.
mente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos e processos
Claro que, na verdade, não há paradoxo, pois o fato de alguém ser mentiroso não quer

empregados
dizer que tudo que ele dizpelas ciências
é mentira. daaponta
Mas o problema natureza; 3)realAsqueciências da sociedade, assim como as
para o paradoxo
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
daé verdadeira,
ela natureza, mas se devem
for verdadeira,limitar-se
então ela é falsa.à observação
Pode-se e à explicação causal dos fenômenos,
desqualificar este

de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando


paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical:
previamente todas as prenoções ou preconceitos.31 Todos esses aspectos foram, de
tal forma, enraizados na consciência epistemológica moderna que se expandiram
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA
A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA
por todas as formas de conhecimento, inclusive pelo direito.
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
muito tempo pela filosofia.1 Independente dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
E o direito?
de insegurança que possa gerar em nós.

E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona


De muitas formas o positivismo influenciou o direito. Todo o
com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
30
COMTE, Augusto. Ob. Cit., p.
século XIX ,e a maior parte do século XX, foram hegemonizados por
expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das
leis”, “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. É
113.
conceitos
possível positivistas
falar-se em de direito.
verdade ou seriam verdades? Como Isso é o que será aprofundado nas 31
LÖWY, Mchael. As Aventuras
lidar com os problemas de insegurança jurídica? de Karl Marx Contra o Barão
aulas seguintes. de Münchhausen: marxismo e
positivismo na sociologia do co-
Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como nhecimento. São Paulo: Cortez,
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da 1994, p. 17.
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
FGV DIREITO RIO 51
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
Formas pelas quais
DA chega-se à decisão.
epistemologia e modernidade

Bibliografia

Obrigatória

VERDENAL, René. A Filosofia Positivista de Augusto Comte. In: CHÂTELET,


François. História da filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

Complementar

COING, Helmut. Elementos fundamentais da filosofia do direito. Porto Alegre:


Sergio Antonio Fabris Editor, 2002. (Capítulo I. Principais Doutrinas da Fi-
losofia do Direito – Seção VIII A modernidade: positivismo e formalismo).

FGV DIREITO RIO 52


epistemologia e modernidade

AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

Delimitações para a modernidade.

Objetivos da aula

Introduzir o problema da modernidade no contexto do marco epistemológico a


partir da influência do positivismo.

PREPARE-SE PARA A AULA

Embora não seja pouco comum o recurso ao conceito de modernidade para


explicar ou mesmo adjetivar certas situações ou fenômenos, ainda não existem con-
sensos sólidos quanto ao significado da palavra. De um ponto de vista mais acadê-
mico, há muita diversidade quanto à definição do que seja moderno ou moderni-
dade, sem embargo de certos elementos de análise que são comuns ao tema.32 De
um ponto de vista do senso comum, o moderno costuma se ligar ao conceito de
“modernização” (modernizar ou modernizado) que, por sua vez, se articula com a
idéia de eficiência, traduzindo uma intuição de que o moderno ou modernizado é
melhor do que aquilo que lhe antecedia. É assim, por exemplo, quando se fala em
modernizar o Estado ou modernizar uma empresa. Passa-se a idéia de que o Estado 32
Cf. TORAINE, Alain. Crítica da
Modernidade. Petrópolis: Vozes,
terá uma administração mais eficiente e a empresa uma produção mais eficiente. 1994; BAUMAN, Zygmunt. Mo-
Por si só, isso já oferece uma noção da força da modernidade que, como qualquer dernidade e Ambivalência. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
outra história, é sempre contada pelos vencedores. Trata-se, evidentemente, de um 1999; GIDDENS, Anthony. As
Consequências da Modernida-
conceito profundamente ideologizado. de. São Paulo: Unesp, 1991;
Buscando marcos para delimitar o período moderno, a historiografia costuma BERMAN, Marshall. Tudo que
é Sólido Desmancha no Ar. São
apontar alguns acontecimentos históricos considerados como verdadeiras balizas. Paulo: Cia das Letras, 1986;
HABERMAS, Jürgen. O Discur-
Os fatos mais citados são a Reforma Protestante, a Revolução Industrial e a Revolu- so Filosófico da Modernidade.
ção Francesa. Uma reforma e duas revoluções, conforme os nomes já consagrados, Lisboa: Dom Quixote, 1990;
CASTORIADIS, Cornelius. As En-
evidenciam que a modernidade surge de uma profunda vocação para a ruptura e cruzilhadas do Labirinto I. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987; SAN-
a mudança. A Reforma Protestante rompe com o tradicional monopólio da Igreja TOS, Boaventura de Souza. Pela
Católica na formulação da doutrina cristã e institui uma nova relação entre os ho- Mão de Alice: o social e o político
na pós-modernidade. São Paulo:
mens e Deus, manifestando a implicação teológica da modernidade. A Revolução Cortez, 1997; ROUANET, Sergio
Paulo. Mal-estar na Moderni-
Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação dade. São Paulo: Cia das Letras,
entre produção e comércio, manifestando a implicação econômica da moderni- 1993. Para uma instigante visão
psicanalítica da modernidade
dade. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime cf. PLASTINO, Carlos Alberto. O
Primado da Afetividade: a crítica
e institui uma nova relação entre Estado e sociedade civil, manifestando a impli- freudiana ao paradigma mo-
cação política da modernidade. Portanto, falar de modernidade é falar também derno. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 2001.

FGV DIREITO RIO 53


e Deus, manifestando a implicação teológica da modernidade. A Revolução Industrial
rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção
e comércio, manifestando a implicação econômica da modernidade. A Revolução
Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova
epistemologia e modernidade
relação entre Estado e sociedade civil, manifestando a implicação política da
modernidade. Portanto, falar de modernidade é falar também e a um só tempo de
teologia, economia e política, como conceitos que lhe são fundamentais.
e a um só tempo de teologia, economia e política, como conceitos que lhe são
fundamentais.
NoNoentanto,
entanto,HannahHannahArendt Arendt7533, ,ao ao analisar
analisar aa era era moderna,
moderna, aponta
aponta outros dois fatos que considera determinantes:
outros dois fatos que considera determinantes: a descoberta da
a des-
coberta da América e a invenção do telescópio. O primeiro
Américaeme teoria,
encarna, a invenção do telescópio.
aquele otimismo culturalO próprio
primeiro da encarna,
mo- em
teoria,
dernidade,
linhas básicas de suas teorias aquele otimismo
na defesa dacultural
agora desnudado
se sustentavam sob próprio
a forma
astronomia de um
de Copérnicoda modernidade,
violento eu- agora
rocentrismo
que, anteriormente, já haviadesnudado que
sobbuscou
negado o geocentrismo. a forma subjugar
Então,depor oviolento
umque Novo Mundo no imaginando
eurocentrismo
tanta dureza que buscou
tratamento com Galileu poder
se o quereconstruir o paraíso terreno
ele afirmava (heliocentrismo sem cometer
x geocentrismo) já não os mesmos
subjugar o Novo Mundo imaginando poder reconstruir o paraíso
era assim tão original ?erros
Porque jácoube
praticados
a ele não noapenas
Velhofalar,Mundo.
mas tambémEntreprovar
o sonho de Co-
através do terreno
Telescópio. sem
A partircometer
de Galileu, os
lombo e a realidade da colonização/invasão, muitas vidas se perderam
suas teorias a mesmos
ciência passou erros
a já praticados
combinar no quetalvezno Velho
Mundo.
tenha Entre
uma linguagem
sido o sonho
matemática,
o maior de Colombo
portanto
genocídio daexata eequantificadora,
humanidade. a realidade
O outro da experimentos
com colonização/invasão,
fato apontado que por Hannah muitas vidas
pudessem
Arendt, demonstrar
a invenção empiricamente
dotalvez
telescópio, suas teorias. É importante frisar este novo
se perderam no que tenhaé sidosim oo íconemaiormaior e principal
genocídio fundamentoOdaoutro fato
da humanidade.
fundamento epistemológico matematizado, para o qual o conhecer deve ser associado
modernidade. Evidentemente, não se trata da invenção do telescópio isoladamente,
apontado por
ao quantificar, Hannah Arendt,
“negligenciando a invenção
as qualidades intrínsecasdodos telescópio, é sim opor ícone maior e principal
mas do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e objetos,
de todas
76
substituídas
as grandes transforma-
fundamento
quantidades, asda modernidade.
quais
ções que se sucederam Evidentemente,
podem, eventualmente,
a partir daí.
ser traduzidas.”não
Dessa maneira,
Com seefeito,
tratahouve
o telescópio da invenção
um
é tomado do telescópio
como a
radical deslocamento do lugar da verdade, que deixou de ser a religião para se instalar
grande metáforamas
isoladamente, do pensamento que realmente revolucionou
do seu desenvolvimento por Galileu Galilei a tessitura
e deontológica
todas as grandes
na ciência. Dito de outra maneira, a verdade saiu da revelação e foi para a razão.
da sociedade ocidental
transformações que se a partir do século
sucederam XVII:daí.
a partir a ciência.
Dessa maneira, o telescópio é tomado
Portanto, se a idéia de modernida-
como a grande metáfora do pensamento que realmente
Portanto, se a idéiarevolucionou
de a tessitura
de está ligada às
modernidade está ligada às
novas compreensões
ontológica da sociedade ocidental a em partirtornodode século
conceitosXVII: a ciência.
teológicos, po- Para
novas compreensões em torno
compreender melhor a questão, voltemoslíticos a Galileu
de e econômicos,
e ao telescópio.
conceitos é na categoria
teológicos, É sabido de que este
cientista sofreu duro processo inquisitório ciência/tecnologia
por parte
políticos dos que
e econômicos, é ela
na encontra
Tribunais seu Ofício,
do Santo
mais alto padrão de
categoria de ciência/tecnologia definição, repre-
sentação ou expressão.
que ela encontra seu mais Evidentemente,
alto
75
- ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de toda
padrão essa euforia
Janeiro: de
Forense epistemológica
definição,
Universitária, sóp.foi
1995, 260.
possível graças às sucessivas rupturas que foram se produzindo, sobretudo a partir
representação ou expressão. Evidentemente, toda essa euforia epistemológica só foi
do século
possível XVI,
graças onde o humanismo
às sucessivas rupturas que foram renascentista
se produzindo, produziu
sobretudo uma a partirnova
do crença na
111
importância
século XVI, onde e nao centralidade do ser humano.
humanismo renascentista produziuSeuma o próprio
nova crença mundo na não é mais
importância
visto comoe um na centralidade do ser humano.
cosmo fechado, mas como Se o próprio mundo nãoinfinito,
um universo é mais vistoentão o centro
como um cosmo fechado, mas como um universo infinito, então
pode estar em qualquer lugar, inclusive em cada indivíduo. Em todas as áreas doo centro pode estar
em qualquer lugar, inclusive em cada indivíduo. Em todas as áreas do conhecimento –
conhecimento – economia, política, artes, medicina, geografia – o homem passa a
economia, política, artes, medicina, geografia – o homem passa a ser reconhecido
ser reconhecido como um protagonista que vai, paulatinamente, saindo da condi-
como um protagonista que vai, paulatinamente, saindo da condição de “estar sujeito a”
ção de “estar sujeito a” para situar-se na condição de “ser sujeito de”. Na verdade,
para situar-se na condição de “ser sujeito de”. Na verdade, trata-se do próprio conceito
trata-se do próprio conceito de sujeito que é reinventado para designar aquele que
de sujeito que é reinventado para designar aquele que pratica a ação. Pratica a ação
pratica a ação. Pratica a ação porque controla a ação, controla os fenômenos sociais
porque controla a ação, controla os fenômenos sociais e, inclusive, os naturais. Tudo
e, inclusive, os naturais. Tudo isso é possível porque o homem se destaca não apenas
isso é possível porque o homem se destaca não apenas como ser animal mas,
como ser animal mas, sobretudo, como ser racional. É na racionalidade que reside
sobretudo, como ser racional. É na racionalidade que reside o poder do sujeito que,
oumapoder do sujeito que, uma vez “esclarecido”, pode se libertar de todas as amarras
vez “esclarecido”, pode se libertar de todas as amarras obscurantistas. Trata-se
obscurantistas. Trata-se do próprio credo Iluminista, tão bem exposto por Kant:
76
- PLASTINO, Carlos Alberto. O Primado da crítica freudiana ao paradigma moderno. Afetividade: a

“A ilustração é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio


responsável. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento
112 sem a 33
ARENDT, Hannah. A Condição
Humana. Rio de Janeiro: Foren-
condução de um outro. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando se Universitária, 1995, p. 260.

FGV DIREITO RIO 54


liberdade e da felicidade.79 Trata-se de uma concepção de bem estar que irá
perpassar toda a modernidade, especialmente os séculos XIX e XX, através de um
crescente e sofisticado processo de industrialização e juridicização. Numa ponta
(econômica), a produção ancorada em técnicas científicas produz em massa para
epistemologia e modernidade
satisfazer, com custos reduzidos, as necessidades materiais da população; noutra
ponta (política), os indivíduos se crêem livres por estarem submetidos, apenas, ao
sua da
império causa
lei,reside
ondenãoonadireito
falta deéentendimento,
apresentadomascomo
na falta de resolução
único e coragem
instrumento legítimo de
para usá-lo sem a condução de um outro. Sapere aude! ‘Tenha coragem de usar seu
mediação dos conflitos. Com efeito, a ordem social é, antes de mais nada, uma
próprio entendimento’ – esse é o lema da ilustração.”34
ideologia de bem estar que promete conforto e segurança. Forma-se, assim, um
luminoso retratoda modernista:
Com o poder a passa
razão, o sujeito produção potencializada
a ser entendido pela que
como aquele tecnologia
pode numa
conhecer
sociedade e controlar a realidade
de indivíduos mesma.
livres e A razão possibilita
iguais perante ao cálculo
lei. Essae o discerni-
fórmula esteve
mento, tornando o sujeito livre e capaz, tanto no campo da ciência (cálculo) como
identicamente presente nas duas principais ideologias modernas de emancipação dos
no campo da moral (discernimento). É a grande 80
aspiração da autonomia que parece
realizar-se. O sujeito autônomo é capaz de responderrecair
indivíduos: capitalismo e comunismo. Sem por siem
mesmo análises quanto
e conduzir sua às suas
respectivas
vontade bifurcações
conforme internasSurge
seus interesses. e subtendências, é possível
a figura do “sujeito afirmar,
de direito”, em linhas
capaz para gerais,
exercer direitos e deveres inerentes à sua natureza e posição
que tanto capitalismo como comunismo se ampararam na mesma promessa de social. Impulsionada
por esse otimismo cultural, a modernidade começa a alicerçar as fundações de uma
realização de liberdade, abundância e felicidade. O capitalismo pretendeu a liberdade
nova ordem. Se num primeiro momento foi caracterizado pelo seu poder revolu-
metaforizada
cionário, neste na idéiamomento
segundo de livre oiniciativa,
pensamento já moderno
o comunismopode serpretendeu a liberdade
caracterizado
por um profundo
metaforizada na conservantismo.
idéia de igualdade Conservar é garantir
universal. a ordem,
Quanto a nova ordem,
à abundância, esta esteve
tomada como expressão maior das conquistas modernas. Na perspectiva
presente no centro da corrida industrial travada pelas maiores potências capitalista e da ordem
moderna, a sociedade é vista como um conjunto de conhecimentos que, uma vez
comunista, apostando a primeira no livre mercado e a segunda no planejamento
dominados pelo homem, garantem um caminho previsível e necessário aos acon-
econômico.Trata-se
tecimentos. Já a felicidade
de uma espécieseriadeuma conseqüência
sociedade inevitável
epistemológica da liberdade
que “naturaliza” a e da
ordem social, controlando
abundância. Para a garantia as ações humanas e fazendo
da realização com que ososfenômenos
desta promessa, so- (ou as
dois sistemas
ciais-históricos sejam analisados como fenômenos naturais. Alain Touraine enfatiza
duas ideologias) adotaram distintos instrumentos estratégicos: no caso do capitalismo
a dimensão ordenadora da ideologia modernista:
caberia ao mercado garantir o sonho de liberdade, abundância e felicidade, já no caso
do comunismo
“Porqueoasmesmo sonho
sociedades ondedeveria ser garantido
se desenvolveram peloe Estado.
o espírito as práticas da moder-
nidade procuravam
A metafísica da ordem mais
não pôr em ordem
é apenas que pôr
a base dasemideologias
movimento: organização
políticas do
ou econômicas
comércio e das regras de câmbio, criação de uma administração pública e do Estado
mais conhecidas, mas é o próprio fundamento da sociedade moderna, estando
de direito, difusão do livro, crítica das tradições, das proibições e dos privilégios. É a
presente
razão,desde asoatividades
mais que científicas
capital e o trabalho, ou técnicas
que desempenha atéo os
então modos
papel de Esses
principal. produção da
cultura, difundindo-se
séculos são dominadosporpelos
toda a vida
legistas, social,escritores,
filósofos, buscando todosa homens
idéia mais ampla
do livro, e as de uma
ciênciasracional,
sociedade observam,comandando
classificam, ordenam
também para descobrir
a formaa ordem das coisas.” os bens e as
de administrar
35

relações humanas. Novamente, Alain Touraine


A metafísica da ordem não é apenas a base das
ideologiascomo
explica a razão
políticas tornou-se amais
ou econômicas vigaconhe-
mestra de toda
cidas, mas é o próprio
a atividade moderna, fundamento
fazendo da dasociedade
racionalização o
moderna, estando presente desde as atividades
78 científicasPetrópolis:
- TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. ou técnicas até 1994,
Vozes, os modos
p. 36.de produção
79
- TOURAINE, Alain. Ob. Cit., p. 38. da cultura, difundindo-se por toda a vida social,
80
- As expressões “capitalismo” e “comunismo”
buscando asãoidéia
aqui mais
empregadas
ampla buscando
de uma uma conotação mais
socieda-
econômica do que política, reservando as expressões “liberalismo” e “socialismo” para uma designação
de racional, comandando também a forma de
mais acentuadamente política do que econômica. KANT, Emanuel. O que é a
34

administrar os bens e as relações humanas. No- ilustração in WEFFORT, Francisco


(Org.). Os Clássicos da Política.
vamente, Alain Touraine explica como a razão Vol. 2, São Paulo: Ática, 1993,
tornou-se a viga mestra de toda a atividade moderna, fazendo da racionalização o pp. 83-84. 114
único princípio de organização da vida pessoal e coletiva: “Às vezes, ela (a moder- Modernidade. Petrópolis: Vozes,
TOURAINE, Alain. Crítica da
35

nidade) imaginou a sociedade como uma ordem, uma arquitetura baseada sobre 1994, p. 36.

FGV DIREITO RIO 55


epistemologia e modernidade

o cálculo; às vezes ela fez da razão um instrumento ao serviço dos interesses e do


prazer dos indivíduos; e às vezes, finalmente, ela a utilizou como uma arma crítica
contra todos os poderes, para libertar uma ‘natureza humana’ que havia esmagado
a autoridade religiosa.”36 Entretanto, ocorre que, muito rapidamente, a lógica da
ordem transformou-se em ordem da lógica, e um certo logicismo passou a predo-
minar na visão de mundo moderna que, se por um lado desencantou a sociedade
do sagrado divino e da mão salvadora de Deus, por outro lado reencantou o mundo
com um tipo de “sagrado profano” produzido pelas mãos salvadoras do homem.
Essa espécie de divinização do homem é, na verdade, um tributo à deusa razão
então o que lê diz “é falso”. Contudo, se o que ele diz é falso, então o que lê diz “é
verdadeiro”.
queque,foi
Claro adotada
na verdade, comopoisfundamento
não há paradoxo, da ordem
o fato de alguém ser mentiroso não quer da lógica. Hegel, certamente, ainda

é um dos que melhor nos oferece uma boa compreensão do racionalismo típico da
dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas o problema aponta para o paradoxo real que
pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Se a sentença é falsa, então
modernidade,quando
ela noseladebruçamos,
é verdadeira, mas se for verdadeira, então no este
é falsa. Pode-se desqualificar prefácio do livro Princípios da Filosofia
paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Mas podemos dar uma
do Direito,
versão sobre esua
que não é auto-referente famosa
tem pleno afirmação: “o que é racional é real e o que é real é racio-
sentido gramatical:

nal.” Nessa esteira de pensamento, toda ordem existente na sociedade só pode ser
37
A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA
Aracional, já que
SENTENÇA ANTERIOR somente a razão é capaz de consubstanciar-se na história, como o
É VERDADEIRA

“eterno que é presente.” 38


Eis que a razão se apresenta como consumadora de uma
Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há
ordem
muito historicamente
tempo pela filosofia. Independente irresistível.
1
dos resultados a que se chegue, o fato é
que mesmo em relação à verdade, não há apenas várias correntes ou definições, mas
limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver, a despeito da sensação
E o direito?
de insegurança que possa gerar em nós.

E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona

Prepare-se para o debate estudando as formas possíveis de asso-


com o Direito? A todo tempo somos confrontados com
expressões do tipo: “verdade dos fatos”, “verdade das
ciação entre
leis”, “verdade direito
do processo” e ordem.
ou “verdade Leve
do intérprete”. É em consideração a importância da
epistemologia positivista no âmbito da modernidade.
possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como
lidar com os problemas de insegurança jurídica?

Aqui, deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como
Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da
justificação. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da
Bibliografia
cultura o direito importa valores, sentido moral ou ético. Por isso, suas normas –
genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural
como o verdadeiro está para o campo natural. No direito, verdadeiro e justo se
Obrigatória
imbricam no campo ético.

CONTEXTO
Formas pelas quais
TOURAINE,
DA
DESCOBERTA
Alain. Crítica
chega-se à decisão. da Modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. (Primeira

1
- Para uma boaParte – A Modernidade
síntese cf. KIRKHAM, Richard L. Teorias da Verdade.Triunfante: Capítulo 1 – As Luzes da Razão.)
São Leopoldo: Unisinos, 2003.

20
Complementar

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


1995. 36
TOURAINE, Alain. Ob. Cit., p.
18.
PLASTINO, Carlos. O Primado da Afetividade. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
37
HEGEL, Georg W. F. Princípios
2001. (Capítulo 1. A Psicanálise e a Questão do Paradigma). da Filosofia do Direito. Lisboa:
Guimarães Editores, 1990, p.
13.
38
HEGEL, Georg W. F. Ob. Cit.,
p. 14. Para uma boa análise cf.
VAZ, Henrique de Lima. Escritos
de Filosofia II: ética e cultura.
São Paulo: Loyola, 1993, pp.
183-184.

FGV DIREITO RIO 56


epistemologia e modernidade

AULAS 12 e 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO

NOTA AO ALUNO

Tema da aula

A influência do positivismo na ciência moderna do direito.

Objetivos das aulas

Apresentar as diferentes formas pelas quais o positivismo se apresenta no direito


e na idéia de “ciência do direito”.

PREPARE-SE PARA AS AULAS

A ciência do direito, conforme as premissas positivistas, se enquadra exatamen-


te nesse esquema, já que o próprio positivismo jurídico pode assim ser definido.
Da mesma forma que o termo positivismo enseja confusões semânticas, a expressão
positivismo jurídico também é sujeita a ambigüidades. A primeira delas resulta da
sua contextualização no sistema jurídico. Para entender melhor: como é sabido, o
direito ocidental estrutura-se na forma de duas grandes famílias, ou sistemas jurí-
dicos: 1) o Sistema Romano-Germânico ou Civil Law; e o 2) Sistema da Common
Law. O primeiro se desenvolveu na Europa continental e hoje está presente na
maior parte do mundo, inclusive em alguns países orientais, como o Japão. Está
baseado essencialmente nas normas legisladas, tendo tomado impulso maior através
da técnica da codificação. O segundo desenvolveu-se na Inglaterra e está presente
em boa parte dos países de língua inglesa. Está baseado nas decisões judiciais ou no
reconhecimento das cortes de justiça dado aos costumes e princípios praticados na
sociedade.39 Como foi dito, uma das ambigüidades do positivismo, no campo do
direito, resulta de um vício intelectual de muitos juristas do sistema romano-ger-
mânico, que tendem a confundir positivismo jurídico com legalismo. Donde muitos
ao ouvirem a palavra positivismo, logo pensam em “aplicação exata da lei”. Não que
esteja errada tal concepção, contudo, por ser reducionista, ela não explica correta-
mente o conceito e os avatares do positivismo jurídico.
Com efeito, diante das ambigüidades do positivismo jurídico, e para uma me-
lhor compreensão da idéia de ciência do direito – que se liga ao conceito de po- 39
Cf. DAVID, René. Os Grandes
sitivismo – o melhor é refazer os passos percorridos na definição do positivismo. Sistemas do Direito Contem-
porâneo. São Paulo: Martins
Assim, se positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente Fontes, 1996; LEADER, Sheldon.
absoluto,positivismo jurídico é a doutrina do direito que afirma a realidade jurídi- Common Law. In ARNAUD, An-
dré-Jean. (Org.) Dicionário En-
ca em detrimento do transcendente absoluto. Caracteriza-se, aqui, uma dicotomia ciclopédico de Teoria e de Socio-
logia da Direito. Rio de Janeiro:
inicial que é o cerne da abordagem positivista: a diferença entre um direito real e Renovar, 1999, p. 104.

FGV DIREITO RIO 57


epistemologia e modernidade

um direito ideal: “O direito, objeto da ciência jurídica, é aquele que efetivamente


se manifesta na realidade histórico-social; o juspositivista estuda tal direito real sem
se perguntar se além deste existe também um direito ideal (como aquele natural),
sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e, sobretudo, sem fazer
depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito i­deal.”40
Nestes termos, a realidade jurídica corresponde ao “direito real”, enquanto o trans-
cendente absoluto corresponde ao “direito ideal”. Antes de qualquer coisa, o positi-
vismo jurídico é empirista e antimetafísico.41
Na definição proposta para positivismo jurídico – doutrina do direito que afirma
a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto – destacam-se, pois, os
termos dicotômicos: realidade jurídica como direito real versus transcendente abso-
luto como direito ideal. Este direito ideal é assim considerado num sentido moral,
portanto, como um direito perfeito e, por isso, superior ao direito real. Na tradição
jurídica, este direito eticamente superior é reconhecido como o direito natural, sen-
do considerado pelos positivistas como questão filosófica, não podendo ser objeto
do trabalho dos juristas “científicos”. Temos, assim, uma clara e sólida perspectiva
do positivismo jurídico: trata-se, antes de mais nada, de uma doutrina antitética ao
direito natural ou jusnaturalismo.
Determinado que a realidade jurídica corresponde a uma exterioridade obser-
vável que deve ser objetivamente constatada, resta saber qual é, exatamente, esta
realidade ou exterioridade, pois a sua explicação precisa também define o objeto
de estudo da ciência do direito. Esse objeto deve ser isolado dos demais aspectos
da realidade social e estudado profundamente para que possam ser conhecidas suas
características intrínsecas, independentemente de influências externas. O que está
em questão é a própria concepção do jurídico que deve conformar o campo do
cientista do direito, tornando-o autônomo em relação ao filósofo, ao economista,
ao sociólogo etc. Evidentemente, o jurídico deve ligar-se às normas do direito, seu
funcionamento e sua aplicação, de tal maneira que revele uma lógica inerente ao
direito que possa ser convertida pelo cientista em enunciados e prognósticos que
conformem uma técnica jurídica aplicável pela prática do direito.
Essa busca pelo jurídico como objeto da ciência do direito rendeu muita po-
lêmica entre os próprios positivistas, que nem sempre concordaram quanto à sua
delimitação exata. A única resposta capaz de pacificar os ânimos e manter coerência 40
BOBBIO, Norberto. O Positivis-
doutrinária, foi a seguinte: o objeto de estudo da ciência do direito é o fenômeno ju- mo Jurídico: lições de filosofia do
direito. São Paulo: Ícone, 1995,
rídico. Apesar de vaga, a resposta se mantém firme na idéia de que a realidade jurídi- p. 136.
ca deve ser uma exterioridade observável, ou seja, um fenômeno; no caso, fenômeno 41
Cf. TROPER, Michel. Positivis-
mo. In ARNAUD, André-Jean.
jurídico. António Manuel Hespanha fala em “várias escolas positivistas”, alegando (Org.). Dicionário Enciclopédico
que cada uma delas entendeu de uma forma determinada o fenômeno jurídico de Teoria e de Sociologia da Di-
reito. Rio de Janeiro: Renovar,
como objeto positivo de estudo.42 De qualquer maneira, todos os positivismos ju- 1999, p. 607.
rídicos43 convergem para o entendimento de que o fenômeno jurídico corresponde 42
HESPANHA, António Manuel.
Panorama Histórico da Cultura
ao direito vigente e aplicável, determinado no tempo e no espaço. Jurídica Européia. Portugal [s.l.]:
O positivismo jurídico, como doutrina cientificista acerca do direito – ou a ciên- Publicações Europa-América,
1998, p. 174.
cia do direito como manifestação metodológica do positivismo jurídico – reúne as 43
Cf. BATIFFOL, Henri. Ob. Cit.,
seguintes premissas básicas: a) recusa a toda forma de subjetivismo ou moralidade; pp. 7-50.

FGV DIREITO RIO 58


epistemologia e modernidade

b) cultivo de métodos objetivos e verificáveis; c) exclusão de considerações valora-


tivas de caráter político ou ético; d) produção de um corpo próprio de enunciados
técnicos para aplicação específica em situações pertinentes.44 Destarte, todos os teó-
ricos do positivismo jurídico se ajustam a estas premissas, ao mesmo tempo em que
aceitam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente, ao direito positi-
vo. Todavia, o conceito de direito, resultante da observação do fenômeno jurídico,não
é consenso. Em outras palavras, todos os positivismos jurídicos concordam que o
fenômeno jurídico corresponde ao direito positivo. Mas o que conforma o direito
positivo? Historicamente, foram várias as correntes positivistas que se formaram
a partir de concepções específicas acerca da idéia de direito e fenômeno jurídico,
algumas com maior outras com menor projeção. Porém, quatro correntes podem
ser apontadas como as mais importantes: legalismo, historicismo, sociologismo e nor-
mativismo.
Embora bem distintas entre si – basta imaginar como, mesmo em casos seme-
lhantes, seria a diferença entre a sentença prolatada por um juiz sociologista e aquela
outra por um juiz legalista, por exemplo – todas essas correntes são positivistas, pois
se enquadram naquela definição geral onde se destacam dois critérios: 1) afirmação
da realidade jurídica como fenômeno jurídico; 2) negação do direito natural como
transcendência metafísica. Além disso, todas esta correntes se sustentam sobre os
dois princípios básicos e fundantes do positivismo jurídico: força e forma, isto é, o
direito (positivista) visto na sua maneira pura de manifestação, o fenômeno jurí-
dico, corresponde a uma ameaça ou imposição real de uma força que se apresenta
sob determinada forma. Em outras palavras, o direito é um constrangimento que se
impõe a indivíduos e grupos, sendo aceito na medida em que se expressa dentro de
formas, rituais ou procedimentos socialmente estabelecidos, quer espontaneamente A primeira das correntes positivistas citadas, o hist
jurídico, consubstanciado, basicamente, na Escola Hist
pela coletividade, quer artificialmente pelo Estado.
Direito, sob a liderança de Savigny, é sem dúvida a mais p
A primeira das correntes positivistas citadas, o historicismo jurídico, consubstan- quanto ao seu caráter positivista. Há aqueles que chegam
ciado, basicamente, na Escola Histórica do Direito, sob a liderança de Savigny, que sejaéuma forma de positivismo, como Norberto Bo

sem dúvida a mais


A primeira das polêmica
correntes quanto ao seu caráter
positivistas citadas, positivista.
afirmar que “escola histórica e positivismo jurídico não
o historicismo 102
mesma coisa” ; todavia, no mesmo passo, Bobbio re
Há aqueles que chegam a negar que seja uma forma de posi-
uma espécie de vinculação entre ambos: “...contudo, a primeira [escola h
jurídico, consubstanciado, basicamente, na Escola Histórica do
tivismo, como Norberto Bobbio, ao afirmar queo “escola
preparou segundo histó-
[positivismo jurídico] através de sua crítica radical d
Direito,
rica sob a liderança
e positivismo de Savigny,
jurídico não são a mesmaé sem
coisa”dúvida
natural.” 45 A formaabásica
; todavia, mais
103
nodo polêmica
historicismo jurídico, que também corresponde
aspecto fenomênico, é a tradição, considerada por Savigny como o “espírito d
mesmo
quanto passo,
ao seuBobbio
caráterreconhece uma
positivista. Há espécie
aqueles deque vinculação
chegam a negar
ou, em alemão, volksgeist.
entre ambos: “...contudo, a primeira [escola histórica] preparou
que seja uma forma de positivismo, como Norberto Bobbio, ao
o segundo [positivismo jurídico] através No início do século XIX, mais precisam
afirmar que “escola histórica e
de sua crítica radical do direito natural.”positivismo
46 jurídico não são ema 1804, entrou em vigor o novo
França
102 Civil, conhecido como Código de Napoleão. E
mesma coisa”
No início ; todavia,
do século no mesmo
XIX, mais preci- passo, Bobbio reconhece histórico foi o marco para o surgimento
samente na França
uma espécie de em 1804, entrou
vinculação entreemambos:
vigor o “...contudo,
novo Códigoa primeira [escola histórica] corrente positivista: o legalismo jurídico. A su

Civil, conhecido como Código de Napoleão. Este fato históri- básica é a lei manifestada sob o rótulo de
preparou o segundo [positivismo jurídico] através de sua crítica radical dojurídico”. direito
HESPANHA, Como
44 afirmado,
António Manuel. o paradigma des
co foi o marco
103
para o surgimento da nova corrente positivista: Ob. Cit., p. 175.
onatural.” A formaA básica
legalismo jurídico. do básica
sua forma historicismo jurídico, que
é a lei manifestada sobtambém corresponde pretendeu ao seu
de positivismo foi o Código de Napole
regularO Positivis-
BOBBIO, Norberto.
45 de maneira absoluta a to
oaspecto fenomênico,
rótulo de é a tradição,
“código jurídico”. Comoconsiderada por Savigny como o “espírito dodas
afirmado, o paradigma povo”
mo Jurídico:
situações liçõesjuridicamente
de filosofia do relevantes na s
direito. São Paulo: Ícone, 1995,
desta
ou, em forma de positivismo
alemão, volksgeist. foi o Código de Napoleão, que
de abrangência. Isto gerou no legal
p. 45.
expectativa de um sistema jurídico c
pretendeu regular de maneira absoluta a totalidade das situ- Idem. 46
coerente e sem lacunas, possível de ser apl
maneira mecânica, conforme a vontade exata do legislador que foi a au
No início do século XIX, maisque precisamente
competente o elaborou e promulgou.na
Assim, para o legalismo jurídico, dir
FGV DIREITO RIO 59
e não há direito fora da lei, por isso, mesmo que dura a lei deve ser aplicada,
França em 1804, entrou em vigor o novo Código
expressão dura lex, sed lex. A principal forma de consubstanciação do legalis
Civil, conhecido como Código deExegese,
Escola da Napoleão.
na França Este fato
do século XIX.
epistemologia e modernidade

ações juridicamente relevantes na sua área de abrangência. A principal forma de


consubstanciação do legalismo foi a Escola da Exegese, na França do século XIX.
num determinado momento
Transportada parahistórico,
o mundo vão sendo
jurídico, mais praticadas
a investigação socio-
e toleradas num certo espaço territorial, gerando para que
lógica identifica o direito na forma do fato ou costume os
brota diretamente do seio social.47 Para o sociologismo jurí-
indivíduos a convicção de que tal prática corresponde a uma
dico, o direito corresponde às práticas sociais que se formam
necessidade jurídica, comocabendo
espontaneamente, dever ou direito
à lei subjetivo.
refletir tais práticas.
O sociologismo jurídico enfrentou fortes críticas, especial-
mente
O sociologismo daqueles
jurídico que
num determinado identificavam
enfrentou
momento fortes ocríticas,
histórico, direito como
sendoum
vão especialmente mais fenô-
praticadas
meno normativo, portanto, não passível de ser procurado no
daquelese que toleradasidentificavam
num certo o direito
espaço como um fenômeno
territorial, gerando para os
mundo dos fatos, na medida em que estes dizem respeito às
normativo, portanto,
indivíduos
coisas comoanão passível
convicção
elas são e não,de ser
queprocurado
tal prática
necessariamente, no corresponde
como mundo
devemdos ser. a uma
fatos, naEssemedidafoi o caso
necessidade de Kelsen,
emjurídica,
que estes
como fundador
dizem eourepresentante
dever respeito direitoàs maiorcomo
coisas
subjetivo. de umaelas das são
formas e mais
não,
influentes do positivismo
necessariamente, jurídico:comoo normativismo.
devem ser.Para Esseestafoicorrente,
o casoa de forma bási-
Kelsen,
ca do direito é a norma, que não se reduz à lei, como disposta nos códigos. A norma
O sociologismo fundador
jurídicoe enfrentou
representante maior de especialmente
uma das formas mais
jurídica é ato de vontade da autoridadefortes estatalcríticas,
competente e vai desde a Constitui-
daqueles
ção influentes
que identificavam
até as sentenças do positivismo jurídico:
o direito norma
judiciais que configuram o
como jurídica
um fenômenoaplicável aoPara
normativismo. esta
caso con-
creto.
normativo,As normas são não
corrente,
portanto, válidas
a forma desde
passível que
básica
de serpromulgadas
do direito é apela
procurado norma,
no autoridade
mundo que dosnãocompetente
se reduz
em concordância com
à lei, em
outrasdisposta
como
normas hierarquicamente
nos códigos.
superiores do ordenamento
fatos, na medida que estes dizem respeitoA às normacoisas jurídica
como éelas ato sãode e não,
jurídico.
vontade necessariamente,
da
Essas autoridade
quatro formas estatal
como competente
de devem
positivismo e vai
ser. reivindicam
Esse foi odesde
caso
para si, a Kelsen,
de
Constituiçãocada até aasseu
fundador
uma e sentenças
representante judiciais
modo, o estatuto deque
maior deconfiguram
ciência, uma dasnorma
acreditando formas
te- mais
jurídica rem elaborado
aplicável
influentes ao do uma
caso teoria científica
concreto.
positivismo As do direito
normas
jurídico: o são capaz
válidasde desde
normativismo. forne- Para esta
cer enunciados, previsões e prognósticos acerca do conjunto
que promulgadas pela autoridade competente
corrente, a forma em básicaconcordância
do direito écom outrasque
a norma, normas
não se reduz
das situações juridicamente relevantes. Apesar de todas serem
hierarquicamente superiores positivistas, do
à lei,ordenamento
como nodisposta jurídico.
sentido nos Em
aqui síntese,
códigos.
descrito, o normativismo
e Ase norma jurídicanaé ato de
enquadrarem
identifica o direito a partir da estrutura
mesma
vontade dalógica
obsessão do dever
cientificista,
autoridade ser –significativas
existem
estatal sollen – que
competente e impõe
diferenças
vai desde a
determinadas sanções no casoConstituição entre elas. Talvez
de descumprimento a principal destas diferenças
de suas prescrições,
até as sentenças judiciais que resida
como no fato norma
forma
configuram
do legalismo e do normativismo buscarem o fundamento de
de garantia da ordem social. jurídica aplicável ao caso concreto. As normas são válidas desde
validade do direito na idéia de vigência, ou seja, é válida a
norma jurídica desde queautoridade
que promulgadas pela tenha entrado competente em concordância
em vigor conforme determinado comnooutras
pró- normas
prio
Essas quatro ordenamento
hierarquicamente jurídico.
formas de positivismo
superiores Issoreivindicam
doporque o historicismo
ordenamento para si, cada
jurídico.e o uma
sociologismo
Em a seu modo,
síntese, buscam o
o normativismo
oidentifica
estatuto de fundamento de validade
ciência,oacreditando
direito terem
a partir dodamesmo
elaborado
estruturadireito
uma nateoria
lógica idéia de efetividade
do científica
dever ou eficácia
serdo–direito
sollen capaz
– que impõe
social, ou seja, é válida a norma jurídica quando conforme as tradições e costumes
de fornecer enunciados,
determinadas previsões
sanções no casoe prognósticos
de descumprimento acerca dode conjunto das situações
suas prescrições, como forma
da sociedade. No primeiro caso – legalismo e normativismo – podemos falar numa Uma interessante manifes-
47

tação do sociologismo jurídico


juridicamente relevantes.
de garantia
epistemologia damais Apesar
ordem deou
social.
idealista todas serem epositivistas,
formalista no segundono casosentido aqui descrito,
– historicismo e so- aparece na obra de Eugen Ehr-
ciologismo na
e se enquadrarem – numa
mesma epistemologia mais realista existem
obsessão cientificista, ou materialista. Enquanto
significativas para os lich,
diferenças importante sociólogo do
direito alemão, ao afirmar no
primeiros
entre elas.EssasTalvez osalegisladores
quatro principal
formas de
ocupam
destas papel dereivindicam
diferenças
positivismo
destaque
residanano cena
para fatojurídica,
si,docada
para
legalismo os segun-
uma a eseu
prefácio de seu livro que “tam-
do modo, o época, como em
bém em nossa
dos são os juizes que desempenham esse papel, pois traduzem nos casos concretos o todos os tempos, o fundamental
normativismo buscarem o fundamento
estatuto
direito quedeemerge
ciência, sociedade. de
daacreditando Esse validade
teremaspecto do direito
elaborado
coincide umacom na
aidéia
teoria de vigência,
científica
vinculação ou nocapaz
do direito
dessas for- desenvolvimento do direito
não está no ato de legislar nem
seja, é mas válida
de fornecera norma
de positivismo jurídica
enunciados,
com desde jurídicos
previsões
os sistemas que tenha
e prognósticos entradoacerca
romano-germânico emdoevigor conforme
conjunto
da common das
law:situações
na jurisprudência ou na aplica-
ção do direito, mas na própria
enquanto
determinadojuridicamente o legalismo
no próprio e o normativismo
ordenamento
relevantes. Apesar jurídico.
de todassão típicos
Isso do
seremporque primeiro sistema,
o historicismo
positivistas, no sentidoo histori-
e o descrito,
aqui sociedade.” EHRLICH, Eugen.
cismo e o sociologismo são mais afeitos ao segundo. Já em termos de flexibilidade, Fundamentos da Sociologia do
sociologismo buscam o fundamento
e se enquadrarem na mesma de validade
obsessão do mesmo
cientificista, direitosignificativas
existem na idéia de diferenças
Direito. Brasília: EdUnb, 1986,
temos uma mudança nos pares, pois enquanto o historicismo e o legalismo tendem p. 7.
efetividade ou eficácia
entre social,a ou
elas. Talvez seja, é destas
principal válida adiferenças
norma jurídica
residaquando
no fatoconforme as
do legalismo e do
tradiçõesnormativismo
e costumes da sociedade.
buscarem No primeiro
o fundamento decaso – legalismo
validade e normativismo
do direito –
na idéia de vigência,
FGVou
DIREITO RIO 60
podemosseja,
falar é
numa epistemologia
válida a norma mais idealista
jurídica desdeouqueformalista
tenha eentrado
no segundo caso –conforme
em vigor
historicismo e sociologismo
determinado – numa
no próprio epistemologia
ordenamento maisIsso
jurídico. realista ou materialista.
porque o historicismo e o
epistemologia e modernidade

a maior dureza e conservadorismo, o sociologismo e o normativismo já admitem


maior mobilidade no conteúdo das normas jurídicas. O conservadorismo do histo-
ricismo se explica pelo fato das tradições serem sempre muito arraigadas na cultura
dos povos, só mudando após firme e convicta resistência de muitos anos. Já no caso
do legalismo, resulta da figura dos “códigos”, que são sempre promulgados como
obras acabadas e completas para terem longa estabilidade. Na situação inversa, de
maior grau de flexibilidade, o sociologismo é sem dúvida o mais dinâmico já que as
práticas sociais estão em constante mutação. A dinamicidade do normativismo se
explica pela liberdade da vontade do legislador que pode a todo momento modificar
as normas jurídicas, além de serem reconhecidos os diversos níveis hierárquicos do
Estado competentes para legislar.
Com efeito, a questão da “ciência do direito” foi enfrentada durante os séculos
XIX e XX sob a influência maior do positivismo e, por isso mesmo, essas formas de
positivismos jurídicos apresentadas foram as respostas mais veementes já produzidas
no âmbito da epistemologia jurídica e da filosofia do direito. Todas negam o direito
natural e afirmam a realidade jurídica como um fenômeno observável,mas diver-
gem quanto à explicação em torno do que seja, exatamente, o fenômeno jurídico,
isto é, a forma observável do direito.

Bibliografia

Obrigatória

BATIFFOL, Henri. A Filosofia do Direito. Lisboa: Editorial Notícias, [s.d.]. (Ca-


pítulo I. Os Positivismos.)
HESPANHA, António Manuel. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Euro-
péia. Portugal: Publicações Europa-América, 1998. (Capítulo 8. O Direito
na Época Contemporânea – Seção 8.2.3. Positivismo e Cientismo; e Seção
8.3. As Escolas Clássicas do século XIX).

Complementar

MIAILLE, Michel. Introdução Crítica ao Direito. Lisboa: Editorial Estampa,


1989. (Primeira Parte – Epistemologia e Direito).

FGV DIREITO RIO 61


epistemologia e modernidade

JOSÉ RICARDO CUNHA


Doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC-Rio e Bacharel
em Direito pela UFRJ. Professor Adjunto e Coordenador da Graduação da
Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas. Professor
Adjunto da Faculdade de Direito UERJ, onde leciona na graduação, mestrado
e doutorado. Leciona e pesquisa nas áreas de Filosofi a do Direito e
Direitos Humanos. Membro da Associação Brasileira de Ensino do
Direito; do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito;
e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos
Humanos. Autor de livros e artigos em revistas especializadas nas
temáticas de Filosofi a e Teoria do Direito, Direitos Humanos e Direitos
da Criança e do Adolescente.

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