epistemologia e modernidade

AUTOR: JOSÉ RICARDO CUNHA

1ª eDIçãO

ROTEIRO DE CURSO 2008.2

Sumário

Epistemologia e modernidade
I. APRESENTAÇÃO DO CURSO..........................................................................................................................................................03 II. PROGRAMA DO CURSO ..............................................................................................................................................................05 III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA .........................................................................................................................................................07 IV. PLANO DAS AULAS ...................................................................................................................................................................10 AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS. PENSAMENTO E VERDADE.................................................................................10 AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH ...................................................................................................14 AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES ............................................................................................................17 AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS ................................................................................................................................26 AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES .......................................................................................................................................29 AULA 6. INATISMO: DESCARTES......................................................................................................................................................31 AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE ..............................................................................................................................................35 AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO ...................................................................................................................39 AULA 9. CRITICISMO: KANT ............................................................................................................................................................42 AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE ...................................................................................................................................................48 AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA .....................................................................................................................53 AULAS 12 E 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO ..............................................................................................57

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

i. apresentaÇÃo do CUrso
Saudações acadêmicas! Este é o Curso de Ciência e Modernidade – uma introdução ao problema da verdade. Trata-se de um curso de filosofia que caminha entre a filosofia geral e a filosofia do direito e sua missão é problematizar o tema da verdade. Dessa forma, serve como pressuposto lógico e didático para o curso de filosofia do semestre seguinte, que irá problematizar o tema da justiça. Assim, o aluno será inserido nos dois pilares filosóficos – verdade e justiça – especialmente escolhidos e pensados para a grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas. Toda a tradição jurídica foi forjada tendo como pressuposto conceitual, de forma mais ou menos clara, a idéia de verdade: verdade dos fatos, verdade das leis, verdade da constituição, verdade do processo, verdade do discurso, verdade do intérprete, etc. Ainda que o conceito em si de verdade nunca tenha sido tematizado de forma absoluta ou mesmo encontrado um consenso entre filósofos ou juristas, a idéia da verdade sempre esteve – e ainda está – amparando e legitimando o direito e as decisões jurídicas. Seja pela recorrência aos fatos, às normas ou à argumentação, a comunidade jurídica busca um amparo de veracidade que responda aos anseios da consciência epistemológica de toda a sociedade. Isso deve deixar claro que o problema da verdade não é específico do direito, nem mesmo da filosofia, mas, antes, trata-se de um problema humano e, por isso mesmo, social. Essa imbricação entre sociedade e verdade nunca foi tão profunda e tão explícita como na modernidade. O laicismo moderno foi convertido em cientificismo moderno e a ciência, tendo na técnica o seu braço operacional, passou a ocupar o centro do pensamento social e o lugar privilegiado da verdade. Todas as formas de conhecimento e instituições modernas foram, então, visceralmente marcadas por essa “ideologia cientificista”. Foi assim com a economia, a política, a medicina e, dentre outras, o direito que, rapidamente, converteu-se em ciência do direito. Como se não bastasse, os próprios ramos do direito iniciaram uma corrida alucinada pelo seu próprio estatuto de cientificidade e, por isso, lemos e ouvimos falar em coisas como “ciência do direito processual”, “ciência do direito penal” ou “direito civil como ciência própria dentro do direito”. Todas essas reflexões terão lugar neste curso de Ciência e Modernidade. Não se pode imaginar, hoje, a figura de um profissional crítico e hábil do direito, que seja capaz de pensar por problemas e raciocinar dialeticamente, sem que esteja inserido nesse debate filosófico e preparado para a problematização da verdade. Portanto, o presente curso não tem caráter secundário ou diletante. Embora esteja cercado pelos prazeres da filosofia, sua tarefa é árdua e exige concentração e aprofundamento. Trata-se de uma oportunidade ímpar de experiência do pensamento para a qual estão todos desde já convidados.

FGV DIREITO RIO

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3.2. Investigar as bases positivistas do cientificismo moderno e a sua inflexão sobre a chamada “ciência do direito”. Estudar os principais fundamentos. 2. Apresentar a verdade como objeto de um intenso debate histórico – filosófico e jurídico – sobre o qual não há um consenso definitivo. 2. ObjetivO Geral da disciplina Introduzir noções essenciais para a problematização do conceito de verdade a partir da compreensão dos fundamentos da epistemologia. antigos e modernos.1.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 1. 2. fOrmas de avaliaçãO O aluno será avaliado mediante sua participação qualificada em sala de aula. realização das leituras obrigatórias. tendo em vista o estudo dos limites e possibilidades de uma ciência do direito no contexto da crise e da crítica do paradigma da modernidade. ObjetivOs específicOs da disciplina 2. que contribuíram para a constituição das idéias mais fortes de verdade na cultura ocidental. trabalhos e provas que forem aplicados. FGV DIREITO RIO 4 .3.

5. veritas. emunah. Linguagem e verdade: os Sofistas. Unidade 3: ciÊncia e direitO na mOdernidade 10. Positivismos jurídicos e a ciência do direito. Conceito e verdade: Sócrates. 9. Unidade 1: fUndamentOs da antiGUidade 3.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ii. Introdução ao curso e seus objetivos. Os positivismos jurídicos e a ciência do direito II. O pensamento e as tarefas do pensamento. Modernidade. 12. Unidade 2: fUndamentOs da mOdernidade 6. Inatismo: Descartes. intrOdUçãO: a verdade cOmO tema e prOblema 1. Pensamento e verdade. 2. Fundamentos filosóficos da modernidade para a verdade. Formalismo Jurídico e Realismo Jurídico. programa do CUrso ementa Objetivos da filosofia e filosofia do direito. 4. Empirismo: Hume e Locke. 8. Modernidade e ideologia cientificista. 13. O positivismo: Comte. As idéias de verdade e seus desafios intelectuais e sociais. Nossa idéia de verdade: aletheia. Fundamentos filosóficos da antiguidade para a verdade. 11. verdade e ciência. FGV DIREITO RIO 5 . Criticismo: Kant. Realidade e verdade: Heráclito e Parmênides. 7. O positivismo e os positivismos jurídicos na ciência do direito.

mas como forma de aproche para acepções relevantes ao tema. O fio condutor de todas as reflexões é o tema da verdade e os autores serão abordados não com o fim de se conhecer suas respectivas obras. o que seria impossível nos limites da carga horária da disciplina. além de didaticamente questionável. FGV DIREITO RIO 6 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ObservaçãO impOrtante O Curso não se propõe a uma abordagem enciclopédica do tema proposto.

d. São Paulo: Ática. FGV DIREITO RIO 7 . Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 1983.). ALEXY. Rio de Janeiro: Renovar. A filosofia do direito. Augusto. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Testabilidade e significado. [s. BAUMAN. México: Fontamara. (Org. Theodor. Max. HORKHEIMER. 1983. ATIENZA. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. CHAUÍ. São Paulo: Ícone. 1984. 1995. 1992. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Discurso sobre o espírito positivo. Campinas: Unicamp. Elementos fundamentais da filosofia do direito. 1998. São Paulo: Abril Cultural. O justo e o verdadeiro: estudos sobre a objectividade dos valores e do conhecimento. O ponto de mutação: a ciência. São Paulo: Abril Cultural. Fritjof. ______. Claus-Wilhelm. São Paulo: Brasiliense. CANARIS. 1999. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ______. São Paulo: Landy.]. BACON. Dicionário enciclopédico de teoria e sociologia do direito. ARENDT. Teoria política grega: Platão e seus predecessores. Rudolf. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. 1980. CAPRA. Brasília: EdUnb. 1999. São Paulo: Cultrix. 1998. Zygmunt. ______. CUNHA. São Paulo: Abril Cultural. Introdução à filosofia da ciência. Sir Ernest. Lisboa: Editorial Notícias. BOUDON. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1994. 2002. Marilena.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iii. 1995. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. Convite à filosofia. Gerd. São Paulo: Abril Cultural. Norberto. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. BARKER. São Paulo: Abril Cultural. COING. Francis. Inês Lacerda. 2002. 1983. COMTE. 1980. Manuel. Derecho e razón práctica. Lisboa: Instituto Piaget. Os filósofos pré-socráticos. A condição humana. ARAÚJO. André-Jean (Org. Curso de filosofia positiva. Raymond. Giorgio. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. 1999. Curitiba: EdUFPR. 1985. BORNHEIM. ______. Helmut. José Ricardo. BOBBIO. BATIFFOL. COLLI. São Paulo: Cultrix. Hannah. 2000. semântica e ideologia. Empirismo.). ARNAUD. Lisboa: Calouste Gulbenkian. São Paulo: Abril Cultural. Modernidade e ambivalência. 1993. Robert. O nascimento da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. CARNAP. 1978. Henri. BiBliograFia sUgerida ADORNO. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. 1994. a sociedade e a cultura emergente. 1989.

A ciência do direito. KOYRÉ. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Perspectiva. 1983. LOCKE. 1978. KANT. HUME. HOLLAND. Karl. 1973. Luiz Alfredo. 1997. Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporânea. Hilton.l. 2001. Richard L. São Paulo: Cortez. 1980. Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. Por uma filosofia crítica da ciência. Questões epistemológicas. John.]: Europa-América. Goiânia: Editora da UFG. 2005. Compêndio de introdução à ciência do direito. 1990. objeto e método. Lisboa: Estampa. FEYERABEND. JAPIASSU. Johannes. 1989. 1979. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. São Paulo: Abril Cultural. LARENZ. São Leopoldo: Unisinos. 2004. Maria Helena. Rio de Janeiro: Forense Universitária. É o direito uma ciência? São Paulo: Rideel. MARQUES NETO. 1993. Reinhard (Org. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Mchael. São Paulo: Atlas. 1981. A estrutura das revoluções científicas. A ordem oculta: como a adaptação gera a complexidade. Metodologia da ciência do direito. Immanuel. Introdução ao estudo do direito: conceito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE DESCARTES. Michel. 1989. JAPIASSU. HESSEN. 2002. António Manuel. São Paulo: Abril Cultural.). LÖWY. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Abril Cultural. Teoria do conhecimento. Agostinho Ramalho. São Paulo: Abril Cultural. 1980. KIRKHAM. Ensaio acerca do entendimento humano. 1990. KAUFMANN. Alexandre. Investigação sobre o entendimento humano. Meditações.). Ciência com consciência. Hilton. 2003. 1994. Teorias da verdade. HESPANHA. DINIZ. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. 1996. Coimbra: Arménio Amado. HAWKING. FGV DIREITO RIO 8 . Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. Contra o método. 1998. São Paulo: Abril Cultural.. Crítica da razão pura. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Estudos de história do pensamento filosófico. Portugal [s. São Paulo: Letras e Letras. 1980. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Tércio Sampaio. ______. São Paulo: Loyola. Edgar. Arthur (Org. FERRAZ JR. Stephen William. Lisboa: Gradiva. 1987. HABERMAS. JHERING. Panorama histórico da cultura jurídica européia. GARCIA-ROZA. Rudolf von. Jürgen. Rio de Janeiro: Rocco. Thomas. David. KUHN. 1979. 2000. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. 1997. Discurso do método. John. HESSE. René. 1991. MIAILLE. Rio de Janeiro: Forense. Paul. MORIN. Introdução crítica ao direito.

TEIXEIRA. 1996. Ernest. Alain. A filosofia positiva de Augusto Comte. O método III: o conhecimento do conhecimento. VIDAL. Susana de. 2006. Ilya et al. Lisboa: Instituto Piaget. História da Filosofia. François (Org. Chaïm. RORTY. 2001. Petrópolis: Vozes. Conseqüências do pragmatismo. PERELMAN. RORTY. REALE. 1995. POPPER. 1989. 2001. Luiz Alberto. Lógica jurídica. FGV DIREITO RIO 9 . OST.. Ensaios pragmatistas sobre verdade de subjetividade. Crítica da modernidade. François. 1998. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasileiro/ EdUnb. WARAT. Richard. 1974. VERDENAL. Idéias contemporâneas: entrevistas do Le Monde. René. 1996. Lisboa: Dom Quixote. Elementos para uma teoria crítica del Derecho.]: Europa-América. La estructura de la ciencia.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ______. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. Rio de Janeiro: 7 Letras.). NAGEL. PRIGOGINE. GHIRALDELLI JR. António Braz. Filosofia do direito. Miguel. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1994. Buenos Aires: Paidos. CASTRO. TOURAINE. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídica. Colômbia: Universidad Nacional de Colômbia. São Paulo: Martins Fontes. Paulo. Portugal [s. (Orgs. Lisboa: Casa da Moeda. Carlos Alberto. Rio de Janeiro: DP&A.). PLASTINO. In: CHÂTELET. 1999. 2006.l. Vera. Lógica das ciências sociais. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei – temas para uma reformulação. 1994. Karl. A questão da verdade: da metafísica moderna ao pragmatismo. Richard. São Paulo: Ática. 1978. 2000. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. São Paulo: Saraiva.

do do passado para oepresente e doque eu. Tentemos fornecer uma explicação fácil e que é breve. Veja o que diz Santo Agostinho sobre verdade? o tempo: Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e • • Nada nos é mais familiar do que éo tempo?Tentemos fornecer uma explicação fácil e sobre o tempo? Veja o que diz Santo Agostinho “O “O que oo tempo. 2).” (Aristóteles. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para “O que e do tempo?para o eu disser que o tempo é a passagem encontro o presente Tentemos terei que uma explicação o presenteé explicação. com efeito. terei podepassado para Como sei que e do presente éparatempo que o do o tempo passar? o presente familiar e conhecido do tempo? Mas o que é Como sei que ele passa? O que é um que perguntar: Como pode o tempo passar? o tempo? Quando quero explicá-lo. com efeito. prepare-se para aPARA A AULA 3) PREPARE-SE aUla Diz Aristóteles: “Foi. O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que não são familiares? não são familiares? • Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e verdade? Nada nos é mais familiar do que o tempo. maiores. terei que dizer que o tempo é o tempo presente? Mas quanto então não seria mais corretoperguntar: Como pode apenas o passar? Como sei que .um tempo futuro? oOnde ele aestá? FGV DIREITO RIO 10 Se o passado é o que eu.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iV. Se futuro. 2). não explicação. O que há de mais ele passa? O que um o futuro. inserir o assunto da verdade mediante uma reflexão acerca do pensamento como experiência humana. assim hoje como no começo. Metafísica. não encontro O que é Se eu disser que tempo é passagem tempo passado? Onde ele está?explicação. e do em seguida pouco a poucopouco a pouco até resolverem problemas até resolverem problemas maiores.. Introdução ao problema da verdade como tarefa do pensamento. pensamento e Verdade NOTA AO ALUNO tema da aUla Apresentação do curso.. O O quedehá de mais efamiliar edo que o tempo? que o tempo: breve. I. introdUÇÃo ao CUrso e seUs oBJetiVos.” progredindo em seguida (Aristóteles. plano das aUlas aUla 1. Diz Aristóteles: “Foi. Metafísica. não encontro tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. pelo espanto que os homens. sendo priassim hoje como no começo. e progredinprimeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. I. do presente espero. pelo espanto que os homens. presente recordo o futuro é o presente para o futuro.. foram levados alevados a filosofar. sendo meiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. fornecerperguntar: Como fácil e breve. ObjetivOs da aUla Apresentar o curso aos alunos e organizar a forma de avaliação. foram filosofar.. que há mais familiar conhecido conhecido do Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo.

nada melhor do que a “O QUE MAIS DESAFIA O PENSAMENTO NESSA ÉPOCA DE DESAFIO DO PENSAMENTO. é estou pensando em escrever a seguir. Para tanto. deve-se ter em conta que o pensamento é uma diante da vida. 1) uma ruptura com as cartilhas e manuais. ninguém se perde no O debate hoje.” to. tunidades pessoais somente podem ser forjadas sem o outro ou contra o Pensar não é racionalizar na forma de causalidades. pensar não é conduz ànem ser eficiente. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro. Leia a parábola abaixo. Tam-maior do experiência existencial histórica. não é fazer a menos amorfos e Embora todos estes eelementospor isso ao até fazer parte de umsocial. nos sentido às sujeitos ao mundo. passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. pensar é um mera inexistente dando define comocoisas e criadores e capazes de transcender amovimento de reapropriação do mundo por meio da significação e resignificação do mundo. se acha. O que há de mais familiar e conhecido do que o tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. o ser superados: Temos deve ser grandes obstáculos ao pensamento que devem que não é pensar: a. doo tempo é apenas o seria mais correto quanto não seria mais o futuro o que que presente espero. do presente espero. terei EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. Pensar é uma atitude quepoder fazer surgir o bém deve-se pensar que pensar não é um ato. este “r” ainda presente ou já é passado? A palavra a presente ou já “r”passado? A palavra éque estou pensando em escrever queseguir. isto é. antecedentes e outro. Certamente. Mas para que isso aconteça. É QUE AINDA NÃO COMEÇAMOS A “O que mais desafia o pensamento nessa época de desafio do pensamenPENSAR. Assim. mas criar. é que ainda Deve-se indagar ao aluno: Diante da afirmação de Heidegger: Por que ainda não começamos a pensar? • • Por que ainda não começamos a pensar? O que é pensar? O que é pensar? Pensar não é divagar ou devanear sem compromissos. conseqüentes. Pensar é nos define repetição e a mesmificação. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. e 2) uma exigência de justificação permanente de todas as normas e padrões de conduta. também as verdades são famipodem e devem serfamiliar e pode Mas para que isso aconteça. reflita e prepare-se para o debate: 9 FGV DIREITO RIO 11 .ter claro é mais do que isso. ser estranhado. Pensar não é mimese. não encontro explicação. O individualismo: este nos conduz a achar que nossa subjetividade e oporpensamento. este “r” é ainda de colocar o é no verbo colocar. é presente ou futuro? O que é o tempo afinal?” (Santo presente ou futuro? O que é o tempo afinal? (Santo Agostinho.” não começamos a pensar. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. nada melhor do que provocação feita por Heidegger: a provocação feita por Heidegger: Como o tempo é estranhadas.breve. possam mesmo tempo pessoal e contexto Para se superar tais obstáculos. b. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. Confissões) Agostinho. do presente recordo e o futuro é o que eu. nesse sentido. Para tanto. Representa. repetitivos. A massificação: esta nos cálculo perda de nossa singularidade nos definindo apenas como parte de coletivos mais ou mera repetição. então não presente? Mas dizer que o tempo é apenas presente? Mas quanto “r” um presente?? Quando acabo dura um presente?? Quandooacabo de colocar odurano verbo colocar. Confissões) Como o tempo é familiar e pode ser estranhado. dois canalizado para a síntese negativa. de Nietzsche. então do presente recordo e correto édizer eu. também as verdades são familiares e liares e podem e devem ser estranhadas. ao contrário. o que faz pensamento.

suportador e respeitador? Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer. ao qual inere o leão e o cargas por fim. “O que há de pesado?”. pergunta o espírito de supor“O que tação. não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão. se for a água da verdade. leão. ao qual inere o respeito. o espírito Muitos fardos pesados nomeio-vos. meus irmãos. por amor à verdade. Mas. Procura ali. mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. em letras de ouro. padecer fome na alma? 10 Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos. a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto. a fim de tentar o tentador? Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e. o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo. FGV DIREITO RIO 12 . pede fardos pesados há para o espírito. e. quando ele nos quer assustar?” Todos estes pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação. animal de escamas. quer conquistar. pergunta o espírito de suportação. do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo. ó heróis”. para escarnecer da própria sabedoria? "O que há de mais pesado. Três metamorfoses. ó heróis". no mais ermo dos desertos. do espírito: como o espírito se de suportação. em cada escama resplende. Meus irmãos. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. Qual é o grande dragão. pergunta o espírito de suportação. dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão. "para que eu Ou será isto: apartar-se da nossa causa. e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos? Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma. para que é preciso o leão. “Tu deves !” Valores milenários resplendem nessas escamas. ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. as mais lha como um camelo e quer ficar bem carregado. como presa. pergunta o espírito de suportação. “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre? "O que há de pesado?". bem como do seu derradeiro deus. para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a próe quer ficar bem carregado. e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim. pesadas. leão e o leão. das. tal como o camelo. as mais pesatorna camelo e o camelo. no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga. marcha ele para o seu próprio deserto. pesadas. Nessa linha. o espírito Muitos a sua força.há de mais pesado. precisa-se do leão. e ajoelha como um camelo Não será isto: humilhar-se. criança. “Tu deves” barra-lhe o caminho. pede a sua força. Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. criança. Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso. lançando faíscas de ouro. que não ouvem nunca o que queremos? Ou será isto: entrar na água suja.normas e padrões de conduta. há para o espírito. que marcha carregado para o deserto. cargas pesadas. o espírito forte. o espírito forte. Na verdade. e ajoede suportação. quando ela celebra o seu triunfo? Subir o tome sobre mim e minha força se alegre? para altos montes. Certamente. vale discutir com os alunos a parábola das Três Metamorfoses de Nietzsche: EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Das três metamorfoses Das três metamorfoses Três metamorfoses. por fim. respeito. quer lutar para vencer o dragão. nomeio-vos. pria loucura.

é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado. Constitui para ele. e. para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito. pp. 7-23) FGV DIREITO RIO 13 . um ato de rapina e tarefa de animal rapinante. 1998. agora. 55-74) GARCIA-ROZA. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. meus irmãos. (Capítulo 2 – O Homem como Universo Infinito de Possibilidades. um novo começo. uma roda que gira por si mesma. aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo. quer a sua vontade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. que poderá ainda fazer uma criança. outrora. agora. Como o que há de mais sagrado amava ele. é a criança. um jogo. Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito torna-se camelo e o camelo. por fim criança. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. e esquecimento. José Ricardo. meus irmãos. Assim Falou Zaratustra) bibliOGrafia complementar CUNHA. leão e o leão. um movimento inicial. na verdade. um sagrado dizer “sim”. Luiz Alfredo. Assim falou Zaratustra. Sim. 1990. (Introdução. (Nietzsche. Mas dizei. o “Tu deves”. que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança? Inocência.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. precisa-se do leão. a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. pp.

correndo-se o sério risco de perpetuar mitos e preconceitos. Também relacionada com a verdade. com o outro. Aqui. prepare-se para a aUla A busca pela verdade é tão antiga quanto a existência do homem no mundo. no campo do pensamento crítico. sentido e limites da verdade. estamos diante do que pode ser chamado de pensamento mítico. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. com a natureza e com Deus) ele busca encontrar nela uma verdade. se reproduz as afirmações que são recebidas prontas. ObjetivOs da aUla Desenvolver uma reflexão sobre o conceito. Evidentemente que a busca da verdade somente pode se realizar de forma crítica. em geral. por oposição a um pensamento crítico. Quando o senso comum se cristaliza sobremaneira. permanecemos com nossas opiniões e crenças sem ter nenhum motivo para duvidar delas. antes de qualquer coisa. Essa busca pela verdade gera no homem certo conforto e estabilidade por estar diante de algo que acredita como fidedigno. a busca pela verdade acaba por atribuir à verdade um valor em si mesmo. cotejar a idéia de verdade com a experiência jurídica. Para isso. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. de forma que o verdadeiro é considerado bom e a verdade um bem. Veja e reflita sobre a tabela abaixo: pensamento mÍtiCo Preso e modelado Descomprometido e irresponsável esvaziado de senso ético Simples Subserviente pensamento CrÍtiCo Livre e criativo Comprometido e responsável Marcado pelo senso ético Complexo Autônomo. Entretanto. suas contradições e possibilidades na filosofia e no direito. nem tudo pode ser qualificado como verdadeiro: a verdade deve. Veritas. De efeito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 2. naturalmente digno de confiança. emUnaH NOTA AO ALUNO tema da aUla A idéia de verdade. é a incerteza. Trata-se mesmo de um traço antropológico. ser buscada. nossa idÉia de Verdade: aletHeia. No senso comum. historicamente se diferenciou verdade de senso comum. apresentar as principais tradições que confluíram para nossa idéia geral de verdade. pois em todas as relações que o homem trava (consigo mesmo. isto é. na ordem da incerteza também se está FGV DIREITO RIO 14 .

então o que lê diz é falso. FGV DIREITO RIO 15 CONTEXTO DA Formas pelas quais . então sem sentido e autoreferenciado. com a três grandes tradições herdadas pela filosofia na con no campo do pensamento crítico. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer do mentiroso. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. ficamos em dúvida sobre em que acreditar ou fora da verdade. que ocorre no senso Essa dúvida gerada pela de uma ou outra forma: samento mítico. Também relacionadatemos as verdade. Assim. dúvidas e inseguranças. nos impulsiona na busca pela verdade. porém. mas recorrentes: • Como emunah (crer-confiar) sugere confiança em convenções ou co conhecimento. Como Epimênides é ele mesmo um ela é verdadeira. ocorreu. Na ocorrência da incerteza. se o que ele diz é falso. No direito. Sejadistorção ou falseamento. Assim. Também nos oferece uma sensação m estabilidade. ficamos em dúvida sobre em que • Como alethéia (ver-perceber) quando conectada agir diante de certas pessoas. ela não é absoluta ou suficiente manifesta como tal ao espírito por oposição ao falso. e o direito? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo expressões do tipo: “verdade dos fatos”. diante dediferentemente do fatos ou situações. Por isso. Contudo. o latim e o hebraico. a verdade pode se ap VERDADE SENSO temos: Esquematicamente COMUM INCERTEZA Contudo. Em nos conforta e alivia. ou P de. se o cretense. mítico. exatidão na Em Latim. é conectada ao pensamento mítico. ao dissimulado. No direito não basta a verdade pura e simples. certas pessoas. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. O verdadeiro é o enunciado ou o relato Claro que. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Também o A verdadegrego. verdade das leis. gera medo e paralisia. na ordem daver-perceber: liga-se ao que é. Por isso. se o que ele diz é falso. própria ignorância. fatos ou situações. logo está mentido. a da verdade diz sofrer fissuras. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. porém. comum ou penem como agir Todavia. • crer-confiar: da ao que será. mas se for verdadeira. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Aqui. Seja fundamental. somos herdeiros de três tradições lingüístico- A verdade nos conforta e alivia. quando conectada ao pensamento mítico. O verdadeiro é o do mentiroso. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. não há paradoxo. seja porque a própria unidade ontológicaverdade se pode veritas. pela verdade. nos impulsiona na busca conceitos Deve-se deixar claro aos alunos como a busca pela verdade envolve três pelo uso correto das regras da linguagem. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. que teria dizer que tudo que ele diz é mentira. tas exigem novas verdades. o fato é que mesmo em relação à verdade. Trata-se de apresentar algo exatamente como Uma das mais conhecidas aporias é o chamado então o que lê diz “é falso”. O que é a verdade? Pense sobre quais seda verdade. Na ocorrência da incerteza. diferentemente do que ocorre no senso comum ou pensamento • falar-descrever: liga-se ao EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que foi. a pergunta primacial que05] coloca é sobre a natureza [inserir figura se culturais distintas: o grego. Nessa segunda hipótese. não há apenas várias correntes ou definições. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O que é verdade? Acerca dessa questão riam os sentidos possíveis paraaa verdade. então o que lê FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Como reagir ao Paradoxo do Cretense?? Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. sentido moral ou ético. estaremos diante de aporias. significando o não-oculto. é condição imprescindível na dinâmica do distintos. Na sua forma o para nos afastar de todas as dúvidas e inseguatribuído ao cretense Epimênides. numa linguagem fiel ou Paradoxo PARADOXO DO CRETENSE.Dessa forma. significando rigor.está fora da incerteza também se • verdade. Portanto. quando conectada ao pensamento crítico. na incerteza tem-se plena consciência da distância da verdade e da incerteza. uma sensação maior de estabilidaPARADOXO DO CRETENSE. seja porque a própria unidade ontológica da verdade pode sofrer Assim. Nessa segunda hipótese. Contudo. o verdadeiro se revelado. Se a sentença é falsa. precisão. então ela é falsa. na incerteza tem-se plena consciência da distâncialiga-severdade e da própria da idéia de verdade: ignorância. reto. é a incerteza. na verdade. Contudo. gera medo e pagerada pela incerteza. É tos. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. correspondência entre nosso intelecto e a coisa. “verdade das tempo somos confrontados com expressões do tipo: verdade dos faleis”. ela não é absoluta ou suficiente para nos afastar de porque novas situações e descobertas exige verdades. é evidente à razão. que são estabelecidos ou herdados pelos sujeitos. Dependendo do sentido ao qual se atribua mais peso.ao acontecido. Contudo. então o que lê diz “é verdadeiro”. Mas podemos dar uma 18 versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: que ele diz é verdadeiro. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele se ele diz a verdade. a verdade comumente diz-se aletheia. Na sua forma original é atribuído ao cretense Epimênides. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. quando condição imprescindível na dinâmica do conhecimento. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. descrição ou num relato sobre algo. verdade do processo ou verdade do intérprete. • Como veritas (falar-descrever) sugere validade. é um mentiroso.1 Independente dos resultados a que se chegue. coerência interna ex ralisia. então afirmado que todos os cretenses são mentirosos. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. estaremos diante de apori das mais conhecidas aporias é o c nos oferece Trata-se de descobrir o que é da forma que é. a pergunta primacial que se coloca é sobre a natureza da verdade. Essa dúvida sugere evidência ou a acreditar ou em como ao pensamento crítico. sem porque novas situações e descoberranças. A SENTENÇA SEGUINTE Édiz é verdadeiro. Contudo. Todavia.

e Capítulo 3 As Concepções de Verdade. 1994. (Capítulo 1 Projetos de Teoria da Verdade. Richard. e Capítulo 9 O Paradoxo do Mentiroso) FGV DIREITO RIO 16 . pp.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória CHAUI. 94-107) complementar KIRKHAN. Teorias da verdade. 2003. (Unidade 3. Convite à filosofia. São Paulo: Ática. São Leopoldo: Unisinos. Capítulo 2 Buscando a Verdade. Marilena.

mas vem-a-ser. Heráclito de Éfeso HERÁCLITO DE ÉFESO “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. em si mesmo. realidade e Verdade: HerÁClito e parmÊnides NOTA AO PROFESSOR NOTA AO ALUNO 1. escola própria. Tamanha a importância partes imanentes da filosofia heraclitiana. Heráclito de Éfeso e mênides dede Eléa plantaram para toda a a posteridade filosófica a questão do ser e do Parmênides Eléa plantaram para toda posteridade filosófica a questão do ser e devir. Tema da aula tema da aUla Ontologia do real: o real: o problemado devir. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES aUla 3. a força dialética por excelência: “movendo-se.” (Fragmento 91) No No contexto do pensamento pré-socrático. movimento. A mudança e a transformação e. O pensamento logológico de Heráclito. por conseqüência. que surge a partir da força dos contrários é. em si mesmo. informam e desafiam as concepções de verdade. compreensão da verdade acerca do do desenvOlvimentO 3. avança e se retira. e Ontologia do problema do ser e do ser do devir. ao mesmo do devir. o conflito. O movimento. Objetivos da aUla compreensão da verdade acercareal. que surge a partir da força dos contrários é. ao mesmo tempo. dois grandes filósofos (ou pensadocontexto do pensamento pré-socrático. descansa (o fogo etéreo do corpo do corpo humano)” (Fragmento 84 a).” (Fragmento 91) A mudança. com tal com tal denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico a idéia de a idéia de movimento. o conflito são FGV DIREITO RIO 17 . da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia” (Fragmento 08). Logo. informam e desafiam as concepções de verdade. por conseqüência. reveste-se de imprevisibilidade. Tamanha a importância desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma escola própria. Heráclito de Éfeso e Pardestacaram pela visceralidade de seus pensamentos. nada é absoluto. dois grandes filósofos (ou pensadores) se “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se. na medida em que nada é. pois o movimento constante faz com que as coisas sejam e não sejam numa dinâmica sem fim. descansa (o fogo etéreo a força dialética por excelência: "movendo-se. O movimento. real. ao encontrar-se com o dinamismo do movimento. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. tempo. Duas compreensões distintas e opostas da ontologia que. ObjetivOs daaula 2. a partir do encontro com seu24 contrário: “Tudo se faz por contraste. Dispersa-se e reúnese. avança e se retira. Duas compreensõesdistintas e opostas da ontologia do realdo real que. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. DESENVOLVIMENTO Introduzir o debate acerca do do devir como problema ontológico para a Introduzir o debate acerca do ser e ser e do devir como problema ontológico para a res) se destacaram pela visceralidade de seus pensamentos. são partes imanentes da filosofia heraclitiana. a transformação e.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE AULA 3.

São Leopoldo: Unisinos. concomitantemente. Parmênides.seus ou valor) para que fato ou mudança de um de seus elementos um de fato elementos (norma. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. pois o ser atividade da verdade se relaciona O Acreditar tempo somos confrontadoso filósofo no admitir que tudo número com o Direito? mesmo é a pensar do A todo no ser fatos”. principal opositor. que não é e este então. Fundamental paradoxo. No direito não basta a verdade pura e simples. eu te direi. mas ser e pensar. sendo considerar como o principal representante da Filosofia do Ser. eu te digo. nhos deTeorias da de inquérito pensar: o primeiro. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. tinguir dois caminhos básicos de reflexão filosófica: a do ser e a do não ser. os únicos cami.” (Fragmento 2). Assim.. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. “verdade do processo” ou “verdade dodo direito. está excluído da verdade. então ela é falsa. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. São duas mente exclusivas. na verdade. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. irá dis.que demarca o caráter de do do processo” ou seriam do intérprete”. PARMÊNIDES DE ELÉA CONTEXTO DA DESCOBERTA parmênides de eléa 1 Formas pelas quais "Pois bem. proposições mutuaaquela que realmente leva à certeza..deverdade – filosófica: a do ser e a do não ser. de uma geração após Heráclito e seu principal opositor. como final as categorias final da autores expressões tipo: inclusive o Direito.." (Fragmento 2). de Persuasão ser. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. concomitantemente. Assim.Claro que.do Se “verdade dos fatos”.(pois à verdade que não é e portanto que é preciso não ser. “Pois bem. não pode ser outra coisa. para Parmênides. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. que mesmo em relação à verdade. não há E se a pois o fato de alguém ser mentiroso nãopráxis humana pelo lógos. pois o mesmo é aopensar e portanto ser”. Education (aoEducation (ao trabalhadas poraula). na verdade. então ela é falsa. encontra-se na práxis é nomeado diz o filósofo no seu fragmento E se a physis O sentido absoluto do serhumana pelo lógos. que é e portanto que não inquérito que são a que 20 que não é não é caminho (pois à verdade caminho o outro. aquela quedois caminhos a certeza. o pensar passaE aDIREITO? Como o problemaintrínseca do ser na sua manifestação lógica: ". o único 1 caminho e o direito?filosófico é o do ser. O e tipo: “verdade dos parmenídico portanto ser". Logo.1 Independente dos resultados a que se chegue. sendo Fundamental na leitura do fragmento nos parece o caráter totalmente excludente a segunda verdadeiramente impossível. e o que não muito tempo pela filosofia. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. physis encontra-se na nos a própria physis. é atalho de todo incrível.pode-se Parmênides. então conclusão não poderia ser Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há preciso ser. o fato é é.Para uma boa síntese cf. os únicos chega-se à decisão. Mas podemos dar uma aquele que possibilita o pensar. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. o caso o caso Board Aqui. Não havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único caminho então o que lê diz “é falso”. diz das expressões uma essência imutável. Independente dos resultados a que se chegue. Desta forma. então ela é verdadeira. se o que ele a verdade. EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE OBS: Heráclito é o pai da dialética. então liação entre se forexclusivas.. senão a daproposições instaurado por Parmênides no paradoxo ser / não ser. essência trínseca doinvestigatório capaz de levar “. Se levarmos em conta a estrutura tridimensional intérprete”. outra. manifestada na dizer que tudo que ele diz é mentira. não pode ser outra coisa. porque é manifestada palavra que racional-argumentativa. KIRKHAM. e o direito? [inserir figura 07] E O DIREITO? constante mutação. lidar com os problemas de insegurança jurídica? valor) para que demais também se transformem. 2003. dada sua não-existencialidade. nem o dirias. Por isso. pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüível). pois nem conhecerias o nem o dirias. justificação. de número três. não há apenas várias correntes ou definições. o fato é que mesmo em relação à verdade. e a primeira distinguir realmente leva básicos a reflexão alétheia. senão a da filiação entre ser e pensar. o outro. É leis”. porque reito seria marcado por uma essência imutável.. deve-se apresentar aos alunos da aula). “verdade com significaseu fragmento de guarda três. É é nomeado no Como possível falar-se em Aqui. não há paradoxo. e o que aquele que é. verdadeiro e justo se não é. mutuamente verdadeira. então que lê diz “é verdadeiro”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. eu é preciso não de todo incrível. No direito. São duas fipode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. o pensar passa a ser atividade inversão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: caminho ser na sua manifestação lógica: a verdade. e a primeira instaurado por Parmênides no paradoxo à verdade – alétheia. do Ser. e tu recebe a palavra que ouviste. “verdade conta a estrutura tridimensional do direito. levarmos em das com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da cultura o direito importa valores. de Persuasão é acompanha). ser / não ser. é atalho ser. Se a sentença é falsa. leis”. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. de uma geração após Heráclito.. o Dilidar todos os entes: com os problemas de insegurança jurídica? é preciso ser. Veja-seVeja-se Brown x Brown x Board os os demais também se transformem. ainda que uma camada superficial e acidental possa vir a se modificar. No direito não basta a verdade pura e simples. mas não a natureza das coisas. que não é (pois não é exeqüível). este é absoluto. Mas o problema aponta para o paradoxo real que prática racional-argumentativa.. que é e portanto Richard L.de todo o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA universo. havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. No direito. sentido absoluto“verdadeser verdadeou “verdadeverdades? exercício da palavra. irá a segunda verdadeiramente impossível. e tu recebe a palavra que ouviste. são a pensar: o primeiro. oeste é o absoluto. sentido moral ou ético. não há apenas várias correntes ou definições. dada sua não-existencialidade. então a conclusão não poderia ser outra. para Parmênides. pode-se considerar como o principal representante da Filosofia e seu Desta forma.. Se a sentença é falsa. FGV DIREITO RIO 18 26 . Por isso. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. este acompanha). a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. investigatório capaz de levar diz é falso. Contudo. na leitura do fragmento quer parece o caráter totalmente excludente Claro que. Como fenômeno da Acreditar no devir heraclitiano E O DIREITO? Como o problema significa admitir que tudo está em constante Acreditar no devir heraclitiano da verdade se relaciona significa admitir que tudo está em mutação.portanto que te digo. sentido moral ou ético. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. inclusive o Direito. essência de todo o universo. mas se for verdadeira. devemos considerar que basta a possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como devemos considerar que basta a mudança de (norma. é não ser.caminhosVerdade. Não Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. a própria physis. o único caminho filosófico é o do ser. então. está excluído da verdade. eu te direi. A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA no exercício da na prática demarca o caráter de todos os entes:aaquele que é. aquele que possibilita o pensar. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural.

Na primavera de 1954. Oliver Brown era o pai mais famoso dos Estados Unidos. Brown. (Introdução. Em 1849. um negro. Os filósofos pré-socráticos. Doze outros autores em Topeka se uniram a Brown para representar seus filhos – 20 ao todo – que. em conformidade com a lei. Seção Heráclito de Éfeso. SHOFIELD. uma ação havia sido iniciada em Boston. Nosso colaborado. O caso FGV DIREITO RIO 19 . no caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Brown v. Seção Parmênides de Eléia) complementar KIRK. no entanto. Mas ele não era o único autor da ação no caso Brown contra a Secretaria de Educação. teve sua matrícula negada em uma escola primária só para brancos na pequena cidade de Topeka. rastreou as origens de uma das mais importantes decisões na história do direito constitucional dos Estados Unidos. entre 1881 e 1949. (Capítulo 2 Os Pensadores Jônios. Linda. é o nome de Oliver Brown. Massachusetts. Board of Education] – a Suprema Corte dos Estados Unidos emitiu uma determinação segundo a qual as escolas públicas segregadas eram inconstitucionais. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. a segregação racial era a norma.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória BORNHEIM. O nome no caso. que iniciou um processo quando sua filha de sete anos. onde eles viviam. não foi a primeira vez que a educação segregada. G. M. sancionada pela lei. que originalmente foi iniciado em 1951. 1999. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Somente em Kansas. que resultou em transformações não apenas em Topeka. não a exceção. no meio-oeste dos Estados Unidos. 1994. bOard Of edUcatiOn]: a decisãO da sUprema cOrte QUe transfOrmOU Um país david pitts Em maio de 1954 – em uma decisão histórica. David Pitts. Gerd. Quando a ação de Topeka chegou à Suprema Corte. deveriam freqüentar escolas primárias segregadas. e Capítulo 3 A Filosofia no Ocidente) aneXO brOWn cOntra a secretaria de edUcaçãO [brOWn v. a organização de direitos civis mais antiga do país.S. Os filósofos pré-socráticos. O caso Brown. em boa parte do país. A ação inicial foi apoiada pela seção de Topeka da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [National Association for the Advancement of Colored People] (NAACP). São Paulo: Cultrix. Kansas. sofreu um desafio nos Estados Unidos. mas na nação inteira. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados.

uma ação havia sido iniciada em Boston. reluta em falar sobre a sua experiência e sobre o papel do seu pai ao desafiar o sistema. filho do principal advogado local. A luta contra a segregação nas escolas se tornou uma coisa muito importante para ele”. teve sobre a sociedade americana em meados do XX. Kansas”. e por causa do efeitodo efeito radical que teve sobre a sociedade americana em meados do séculoséculo XX. em colaboração com o Sr. (Sonny) Scroggins. ele estava sempre escrevendo cartas e organizando reuniões. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. em parte porque ela acha que a mídia concentrou suas atenções em demasia na sua pessoa. no entanto. Autores De acordo com algumas fontes em Topeka. não a exceção. “O herói anônimo no processo de Topeka é McKinley Burnett. diz que desafiar a segregação “foi uma luta à qual meu pai se dedicou por toda a sua vida”. executivo da NAACP.E. (Sonny) Scroggins. com ajuda da advogados Burnett – com a ajuda daasecretária dosNAACP Lu. era o presidente da seção McKinley "O herói anônimo no processo de Topeka é local da NAACP. era o presidente chefe do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso BroNAACP. direita.com a estratégia para ganhar a causa. diretora-executiva da Fundação Brown para a Igualdade. Seu filho. Burnett -. por causa da Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. concorda. O tempo inteiro ele estava convencido de que venceríamos. Marcus. tee to Commemorate Brown v. a segregação racial era a norma. sofreu um desafio nos Estados Unidos. Johnconfirmado por dente da seção da naacp de to. Excelência e Pesquisa na Educação [Brown Foundation for Educational 28 FGV DIREITO RIO 20 . Massachusetts. diz que Oliver Brown “se tornou o líder entre os autores porque o seu nome era o primeiro. até mesmo quando eu era bem pequena.. Marita Davis. em boa parte do país.O caso Brown. presi. que atualmente tem 55 anos e ainda mora em Topeka. principalmente porque ele era o único homem do grupo. e por causa radical que abrangência dada determinaçãoSuprema Corte. diz C. que reuniu Oliver Brown e os outros pais e foi em frente com Foto: Cortesia de confirmado por outras fontes em Topeka.locais". president executivo da naacp. um ponto Scott. Oliver Brown tinha uma posição de liderança entre os autores. diz C. ajuda da secretária da NAACP Lucinda Todd e os Herói Anônimo Herói Anônimo Burnett morreu em 1970.Elisha Scott e Charles Bledsoe – desenvolveram uma White. o desafio legal. "Foi Burnett o desafio Board of ajuda dos advoCommemorate gados locais”. Ele era um trabalhador comum que acreditava que a segregação poderia ser abolida por meio dos tribunais. entre 1881 e 1949. Walter acrescenta os advogados Charles de vista Scott. O caso foi levado em frente por meu pai e por outros advogados locais.cinda Todd eScroggins. Cheryl Brown Henderson. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. viceMarita Davis. pekano início da década de 50. que atualmente mora em Kansas City. com aEducation]. Linda Brown Thompson." que. Na verdade. mcKinley burnett. “A irmã de Marcus Burnett. Em 1849. ela diz. ignorando os outros 12 autores da ação em Topeka. por ordem alfabética. Na verdade. “Eu me lembro de que. sancionada pela lei.E. na época. Sua irmã. legal.” que. Walter White. na época. vice-president outras fontes em Topeka. chefe do Comitê de wn Contra a Secretaria de Educação [Kansas CommitKansas para a Comemoração do of Education]. “Meu pai estava sempre lutando pelos seus direitos”. O caso Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. por causa da abrangência determinação da da Suprema Corte.da seção local da Burnett. não foi a primeira vez que a educação segregada. um ponto de vista Foto: Cortesia de Marita Davis. Somente em Kansas. Mas Charles Scott Jr. Quando a ação de EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Topeka chegou à Suprema Corte. à À esquerda. acrescenta Scroggins. À esquerda. Board Caso Brown Contra a “Foi Burnett que reuniu Oliver Brown e os outros pais e Secretaria de Educação [Kansas Committee to foi em frente comBrown v. que tinha 13 anos na época do processo inicial e que ainda mora em Topeka. Brunett e a NAACP”.

Eles compareceram ao Tribunal Federal de Primeira Instância da CircunsO dia de Burnett e District Court for the District of Kansas]. "Donald papel história”." por uma escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. FGV DIREITO "De certa forma. diz Charles Scott Jr. que acabaram sendo incluídos no caso Brown”. os outros autores em Topeka e os autores nos outros estados. passando por duas escolas só outro lado da cidade. Andrew ainda está aqui em Topeka. escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. ela continua. que de Kansas [U. por causa do episódio de Plessy.no caso Plessy contra “De certa forma. até umaaté uma para negros”. Ruth Ann à escola. ela continua. Com a ajuda dos decisão: “A segregaçãoapresentou brancas e e solicitou escolas públicas é um mandado judicial que locais. Legal juízes se mostraram favoráveisDefense dos autores. por causa do episódio de Plessy. Ele tem 55 anos. eram.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Equity. morreu de câncer em 1984. E as duas são muito gratas a McKinley Burnett e aos advogados locais. “Mas é importante que o caso Brown não seja simplificado demais – não devemos esquecer os advogados. Ruth Ann à escola. duas pessoas que fazem parte do grupo de autores de Topeka. ele de crianças o caso negras nas a emissão de prejudicial para as crianças negras”. Vicki Ann. os outros advogados locais e o Sr. escola só escola só para negros". District Court for Defense Fund]. Suprema Corte havia decretado. “Meus filhos sempre do papel que tive“Meus filhos sempre tiveram orgulhotiveram orgulho do mos naque tivemos na história”.S. dos autores no tribunal em Topeka foi Raymond Carter. constitucionais. O dia de Burnett e dos autores no tribunal em Topeka foi o dia 28 de fevereiro de 1951. advogado do Fundo de Defesa Legal da NAACP [NAACP Legalthe District of Kansas]. que ainda mora aqui e está com 57 anos. se sente muito bem devido ao que aconteceu. Burnett não ficaram Ferguson -. na no país inteiro e não apenas essa decisão perder a causa e em seguida entrar com um recurso nasentiu forçado a tomar uma decisão a favor da Secretaria de tribunal de Kansas se Suprema Corte”. "Eles sabiam que a única forma de derrubar a segregação no país inteiro e não apenas em Topeka. de Topeka. As duas mulheres estavam ansiosas para entrar no caso. Mas minha filha. dizendo. Ele tem 55 anos. Minha filha. diz Henderson. meu pai. Henderson diz. era. morreu de câncer em Scales também diz que tinha que levar sua filha. “Temos muito orgulho do que nosso pai fez”. Excellence and Research]. na época. na verdade.S. ele apresentou o caso e solicitou a emissão de um mandado judiatualmente é juiz cial que proibisse a federal emnas escolas primárias públicasadvogado do Fundo de Defesa segregação Nova York. Com a ajuda dos outros advogados locais. Burnett não ficaram RIO 21 EuA PrimeirA fizemos uma coisa muito importante.que sistemas Scott Jr. diz brancos. eem Topeka. “Donald Andrew ainda está aqui em Topeka." se sentiu forçado a tomar dos decisão a contra os autores Educação de Kansas e contra os autores. concorda com a avaliação de Charles Scott Jr. “Eles sabiam que a única formapara negros ae brancos decepcionados”. nabrancos segregação de constitucionais. o eram. o dia 28 de fevereiro de crição de Kansas [U." acho que Decisão decepcionados". Minha filha. A Primeira Decisão Educação de Kansas e contra os autores. diz Charles escolares "separados porém iguais" de derrubar segregação verdade. Vicki Ann. Mas no final a decisão dos juízes foi contra os autores porque a proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka. que atualmente é juiz federal em Tribunal Federal de Primeira Instância da Circunscrição 1951. os outros advogados locais e o Sr. Eles compareceram ao Nova York. em uma decisão de 1896 – no caso Plessy contra Os juízes que sistemas escolares “separados porém iguais” para negros e sua decisão: "A Ferguson – se mostraram favoráveis à causa dos autores. “passando 1984. era. Suprema Corte havia decretado. prejudicial para as o tribunal de KansasMas no final a decisão uma juízes foifavor da Secretaria de porque a crianças negras. meu pai. Scales também diz que tinha que levar sua filha. em uma decisão de 1896 -. e que ainda moram na cidade. passando por duas escolas só para para brancos. era não havia sido anulada. Raymond Carter. "passando por que ainda mora aqui e está com 57 anos. eram jovens mães no início da década de 50. teceu.crianças brancas essa decisão não havia sido anulada. “Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o outro lado da cidade. e e negras nas escolas públicas é Portanto. dizendo que foi a liderança dessas pessoas que tornou possível a luta pela integração. dizendo. se sente muito bem devido ao que aconuma Eu acho que fizemos uma coisa muito importante”.” "Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o Mas minha filha. Henderson. Portanto. na suaoutros advogados Os da NAACP [NAACP Legal à causa Fund]. na época. Zelma Henderson e Vivian Scales. era perder a causa e em seguida .

ele acrescenta. privados da proteção igual das leis. ele escreve “o caso Brown se destaca como a mais profunda afirmação da Corte sobre a questão central FGV DIREITO RIO 22 . “Concluímos”. Oliver L. pelo juiz-presidente da Suprema Corte Earl Warren. oficialmente. Mark Tushnet ecoa o pronunciamento de Barker no seu livro definitivo. há um significado mais amplo. Pensilvânia. declaramos que os autores e outros que se encontram em situação similar. Thurgood Marshall. professor de direito e especialista em direito constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Duquesne [Duquesne University School of Law] em Pittsburgh. representando os autores. “A decisão de 1954 resultou em muitos outros casos nos quais a cláusula de proteção eqüitativa foi citada. para os quais essas ações foram iniciadas. Virgínia. ao ser preparado para ir ao tribunal que tem a posição hierarquicamente mais elevada no país. beneficiando mulheres e outros grupos que achavam que seus direitos eqüitativos lhes estavam sendo negados”. ao apresentar a sua decisão. ele disse. No entanto. os tribunais existem não apenas para condenar crimes. segundo Barker. The Board of Education of Topeka. Portanto. Board of Education: The Battle for Integration. “Até hoje”. na verdade. “Trata-se de uma das mais importantes decisões da Suprema Corte”.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE A Decisão DA suPremA corte No dia 1 de outubro de 1951. um caso histórico que serve para mostrar que. A decisão unânime declarando que as escolas segregadas eram inconstitucionais foi lida no dia 17 de maio de 1954. Brown v. et al]. “É importante observar”. O nome do conjunto de casos passou a ser. Delaware e no Distrito de Colúmbia. [tradução livre: Brown Contra a Secretaria de Educação: A Batalha pela Integração]. que mais tarde foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte. Ele apresentou – com sucesso – o caso. estão sendo. da maneira que era praticada. devido à segregação da qual reclamaram. um método de se oprimir um grupo racial e não algo “separado porém igual”. mas para afirmar direitos. Brown e Outros Contra a Secretaria de Educação de Topeka e Outros [Oliver L. A Corte aplicou a cláusula de proteção eqüitativa com a finalidade a que ela se destina – proporcionar proteção para os negros. nos Estados Unidos. Ao ser indagado como a Corte pode tomar uma decisão – a favor da segregação no caso Plessy contra Ferguson e contra ela no caso Brown – Barker responde que a Corte dispunha de mais de 50 anos de provas de que a segregação racial. “que no campo da educação pública não há lugar para a doutrina de ‘separados porém iguais’. era o diretor jurídico da NAACP no nível nacional. garantida pela Décima-Quarta Emenda”. Brown et al. diz Robert Barker. o caso Brown foi combinado a outros processos que desafiavam a segregação nas escolas. na Carolina do Sul. umA GrAnDe VitóriA LeGAL O resultado do caso Brown Contra a Secretaria de Educação foi considerado uma grande vitória legal. “que a Suprema Corte contou com a cláusula de proteção eqüitativa da Décima-Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Estabelecimentos de ensino separados são inerentemente desiguais. v. em particular”. era.

Board of Education [tradução livre: Hora de Perder: Representando Kansas no caso Brown Contra a Secretaria de Educação]. quando o presidente Dwight Eisenhower enviou tropas federais a Little Rock. diz Goldfield. escreve que a decisão também “deu uma nova dimensão ao conceito constitucional de proteção eqüitativa e do devido processo legal”. O caso mais famoso ocorreu em 1957. Na maioria dos lugares. em 1955. que detalha a história do processo em A Time To Lose: Representing Kansas in Brown v. DePois DA Decisão A Secretaria de Educação de Topeka não esperou a ordem da Corte para unir as suas escolas primárias negras e brancas.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE da história dos Estados Unidos – como os americanos de todas as raças se tratam entre si. a lei de Kansas havia previsto a segregação das escolas primárias das comunidades com população superior a 15. a tarefa seria mais difícil. No ano letivo 1956-1957. White and Southern [tradução livre: Negros. Mesmo assim.000 pessoas. As escolas de nível médio (equivalentes às sétima e oitava séries do primeiro grau. ainda estão lidando com questões referentes à segregação nos distritos escolares. a abolição da segregação ocorreu sem problemas. no tribunal. Mas em grande parte da nação. Em outras partes do sul do país. Antes do caso Brown. de acordo com David Godfield. Embora a luta contra a segregação sancionada pelas leis tenha sido vencida há muito tempo. Pau Wilson. “ampliou a definição de justiça básica nas relações entre as comunidades”. determinando “um início imediato e razoável das providências para a total conformidade” e a implementação da integração das escolas “com a devida rapidez”. estava em andamento em 723 distritos escolares”. trata-se de uma vitória do constitucionalismo americano”. FGV DIREITO RIO 23 . O andamento do processo foi muito mais rápido em Topeka e no meio-oeste. Por outro lado. depois que o governador do estado desobedeceu uma ordem de um tribunal federal para integrar as escolas locais – a primeira vez em que tropas federais entravam em um estado do sul para proteger os negros desde os primeiros anos após a Guerra Civil. afetando 300. uma decisão judicial.000 crianças negras. concorda. o procurador-adjunto do estado de Kansas que tratou do caso. Brancos e Sulistas]. Este é um dos motivos pelos quais a Suprema Corte. Wilson. os legisladores promulgaram 45 leis “com o objetivo de contornar a determinação da Suprema Corte” e até 1960. “A decisão da Suprema Corte”. de modo geral. em um ato posterior. no Brasil) nunca havia sido segregadas. a favor da segregação. houve muita resistência e a disposição das autoridades do poder executivo de usar a força para implementar a decisão da Corte se fez necessária em alguns lugares. o sul finalmente recuperou o atraso no final da década de 60 e início da década de 70. a situação variava de lugar para lugar. que conta em detalhes a história do fim da segregação em Black. e às três séries do segundo grau. “menos de um por cento dos estudantes do sul do país estavam freqüentando escolas integradas”. menos conhecido. ele diz. Arkansas. embora nem sempre com rapidez. que são o resultado das tendências na escolha de áreas residenciais. Nesse aspecto. os tribunais federais. “o fim da segregação. emitiu. atualmente.

essas ações. em conjunto. diz John Paul Jones. escreve Robert Wiesbrot em Freedom Bound: A History of America’s Civil Rights Movement [tradução livre: Rumo à Liberdade: Uma História do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. em dezembro de 1955. em Virgínia. “A primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. concordam. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. os tribunais – e não o poder legislativo ou o executivo – têm sido os elementos dominantes na elaboração de políticas no que se refere ao fim da segregação”. o Dr. “Um fato importante é que as mudanças. professor de direito e especialista em questões constitucionais na Universidade de Richmond [University of Richmond]. Sem um judiciário independente. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. Gary Orfield e Susan Eaton. liderou um bem sucedido boicote aos ônibus em Montgomery. “A decisão proporcionou um critério de avaliação de justiça – independente da cor das pessoas – pelo qual os americanos poderiam balizar seu progresso rumo à realização do ideal de oportunidades iguais”. o impacto da iniciativa foi muito mais amplo. quase meio século mais tarde. Com a promulgação da Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act] em 1964. tiveram um papel essencial. e sem as garantias da Constituição no que se refere aos direitos das minorias. Alabama. Lembrome bem da manchete. particularmente. o Topeka State Journal. como parte de um cenário de ações populares iniciadas por um grande número de organizações não-governamentais. incluindo o serviço público e o mercado de trabalho. foram. e da Lei do Direito ao Voto [Voting Rights Act] em 1965. o resultado de atos do judiciário para fazer valer direitos inalienáveis assegurados pela Constituição dos Estados Unidos. Os tribunais. a segregação foi praticamente eliminada. em grande parte. a luta pelo fim da segregação teria sido muito mais difícil. especialmente as posições que apresentam raízes profundas na tradição e na história. Senti FGV DIREITO RIO 24 . Nos anos seguintes. ressaltam a importância do resultado do caso Brown para o progresso nas relações raciais em geral. Embora a Suprema Corte somente tenha derrubado a segregação nas escolas públicas. incluindo a Suprema Corte. em sinal de protesto contra a segregação no sistema de transporte público local. “Fizemos A coisA certA” Os historiadores dos direitos civis. Apenas um ano e meio após a determinação da Suprema Corte. “Lembro-me como se fosse ontem”. formaram o movimento pelos direitos civis. Eles acrescentam: “Com a exceção do período de 1964 a 1968. ele acrescenta. é o que eles escrevem em Dismantling Segregation [tradução livre: Acabando com a Segregação]. Martin Luther King Jr.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE os tribunAis cAusAm muDAnçAs em Posições trADicionAis A luta contra a segregação mostra como é difícil mudar posições e costumes em qualquer sociedade. e não o resultado de medidas sancionadas por legislaturas e executivos eleitos pelo povo”. em comparação com os outros ramos do governo. mandados contra a segregação foram impetrados. Essa ação ajudou a deflagrar uma ofensiva sem trégua contra a segregação em todas as esferas da vida americana. diz Zelma Henderson. quando elas ocorreram.

de 1954. à esquerda. e penso. mas uma mudança fundamental no pensamento dos americanos em relação à raça e à igualdade. Marcus Burnett não se lembra. que você nunca esquece. no final. “Quando você pensa no assunto. o esquerda. antes do fim da segregação. órgão que ficará encarregado da manutenção do memorial. porta-voz do Serviço Nacional de Parques [National Park Service]. “Oliver Brown. e McKinley primária monroe. FGV DIREITO RIO 25 . fica com você para sempre”.Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. "Meu que os tribunais. da reação do seu pai no dia em que a Suprema Corte reação do segregação.eu tenho certeza de acreditava que cou muito feliz”. quase meio século atrás. diz Sonny Scroggins. na verdade. naquele momento. Vivian Scales e os outros pais poderiam. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. Vivian Scales acrescenta. Board of Education]. mascoisa certa”. em conformidade com a lei.deixou de acreditar pai acreditava que os gação. Senti uma alegria enorme. o presidente George tribunais. “Isso aconteceu há muito tempo. à do líder da naacp em topeka. segregação. mas é uma coisa que você nunca esquece. da marcus burnett. e eliminariam a segregação”. facilmente.no diaele sempre acreditava queCorte derrubou a seu pai “Mas em que a Suprema haveria justiça. que fizemos a é uma coisa certa”. e o ativista poda NAACP em Topeka. quase meio século mais tarde. agora. agora. e eliminariam a segregação. eu o faria”. Pensei. não apenas o fim da segregação. diz Qefiri Colbert. e penso. O sítio fica em Topeka. Lembro-me bem da manchete. Burnett diz. “A EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. “Esperamos que as pessoas visitem o local para compreender melhor a abrangência e a complexidade da decisão sobre o caso Brown”. “Meu pai acreditava que haveria justiça. na Escola Primária de Monroe 34 [Monroe Elementary School]. acrescenta Zelma Henderson. especificamente. ele acrescenta. diz Zelma Henderson. filho do líder O memorial – um trabalho da Fundação Brown [Brown Foundation] e do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Kansas Committee to Commemorate Brown v. Zelma Henderson. Board of Education National Historic Site]. mas eles transformaram sua raiva em ação”. o presidente George [Brown v. “Lembro-me como se fosse ontem”. Ele nunca deixou de acreditar que os No dia 26 de outubro de 1992. na entrada da escola Burnett. e deverá ser aberto ao público em 2002. Pensei. filho Marcus Burnett. eram o Constituição a Declaração dos Direitos. a mensagem da decisão do caso Brown e do memorial. que fizemos a coisa uma alegria enorme. mas se tivesse que fazer isso de novo. “Naquela época. e vencemos”. os pais demonstraram muita coragem”. entre outras entidades e indivíduos – terá materiais áudio-visuais e uma biblioteca para pesquisas. naquele “Isso aconteceu há muito tempo. mcKinley burnett. em memória da decisão da Suprema Corte. momento. Vivian Scales acrescenta. portanto "Mas ele sempre que ele fiderrubou a segregação. Ele nunca Burnett diz. especificamente. portanto eu tenho certeza de que ele os tribunais eram o lugar certo para se desafiar a segreficou muito feliz". “Eu estou muito velha. lítico sonny scroggins. se conformar com a decepção. o Topeka State Journal. “Fomos à Suprema Corte dos Estados Unidos para afirmar esse fato. diz Vivian Scales. a mesma escola freqüentada por Linda Brown. queque fica com você para sempre”. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. Marcus Burnett não se lembra. fariam valer a Constituição e a Bush sancionou a Lei Pública 12-525 [Public Law 12Declaração dos Direitos. tribunaisfariam valer alugar certo epara se desafiar a no final. do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação." 525] determinando a criação do Sítio Histórico NacioNo dia 26 de Brown Contra a Secretaria de Educação Bush nal do Caso outubro de 1992. é que todos os seres humanos e raças nascem iguais”. O resultado final foi.

Contudo. A questão central dos sofistas (ao menos na sua primeira geração) era a afirmação desofistas (ao menos na polis primeira geração) A questão central dos que todas as coisas na sua (política. Assim. Os por isso. era a religião etc. Como tudo era produto da convenção – Assim. os sofistas eram apenas demagogos e enganadores. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer FGV DIREITO RIO 26 sofistas foi. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS NOTA AO PROFESSOR 1. inicial da filosofia.AULA 4.. lingUagem e Verdade: os soFistas A verdade como linguagem na sofística. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do pensamento sofístico. o logos sofistas. nada na polis resultava de uma força natural religião etc. a leidaoconvenção – nomos –. e tudo dependerá da habilidade exercício da retóricafala. NOTA AO ALUNO 2. a sofística é um movimento bem se apresenta. do exercício da retórica na ágora. nada na polis modificado pelo próprio homem. mais profundo e interessante – donde sofisticado – do que em geral se apresenta. afirmação de resultavam de uma convenção ou (política. a lei paraoa construção do tem de natural do certo e domas são é a ferramenta e legal e do ilegal.. Na pena de Platão esofisticado – do que em geral movimento bem mais profundo e interessante – donde Aristóteles. Esse incremento incremento da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e impulso impulso inicial da filosofia. direito. a sofística preconceito como a sofística. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. pelos seus inimigos. dedicavam-se ao estudo e ensino da retórica. Como tudo era produto e direito nada tem de natural ouser modificado construídos políticamente através na primeira poderia divino. direito. Objetivos tema da aUlada aula A verdade debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do Introduzir o como linguagem na sofística. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado 47 a Guerra de Tróia). Esse o debate filosófico. pensamento sofístico.tudo intangível. geração de direito nada Assim. Além de conhecerem o debate Heráclito Parmênides – ao devir. DESENVOLVIMENTO Poucas doutrinas na história do ocidente foram tão atacadas e vitimadas pelo prepare-se para a aUla preconceito como a sofística.. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofistas eram apenas demagogos e enganadores. os .. superior e intangível. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. Assim. conheciam todo o rumaram das colônias para Atenas e. Górgias de Eleontino.) resultavam de uma convenção ou cultura humana. pelosdo ocidente foramNa pena de e vitimadas pelo Poucas doutrinas na história seus inimigos.é um tas foi. tão atacadas Platão e Aristóteles. um dos principais sofistas. Daí a importância esta idéia. justamente. superior e nomos –. ágora. tudo poderia ser resultava de uma força naturalAssim. Contudo. justamente.) que todas as coisas na polis cultura humana.e devir. construídos políticamente através do lingüística de quem na Para comprovar errado. por ser conhesofistas foram pensadores que debate entre Heráclito e Parmênides – isso. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofis. mas são pelo próprio homem. Daí a importância do discurso convincente – peithó. ou divino. Os sofistas foram pensadores que rumaram das colônias para Atenas e. pela violência do rapto ou pela sedução da palavra. Tema da aula EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 4. na primeira geração de sofistas. Além de conhecerem ciam todo o debate entre filosófico. ededicavam-seser e estudo e ensino da retórica.

mas o cidadão da polis. “verdade do processo” outranscendentes. para ele mesmo fazer sua defesa. mas. 48 FGV DIREITO RIO 27 49 . 2003. Claro que. Górgias de Eleontino. mas. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. um dos principais sofistas. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. mas se for verdadeira. desde que esta seja articulada no discurso convincente: a então o que lê diz “é falso”. para ele mesmo fazer sua defesa. portanto. “verdade das paradecorrem de planos metafísicos própria resignificar os entes na sua admitir que as verdades jurídicas não decorrem de planos antes. portanto. Assim. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado a Guerra de Tróia). Mesmo que seja pensado. e o direito? Para além da habilidade retórica. a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito convencionado. no dia seguinte. Se a sentença é falsa. Richard L. Essa possibilidade de reinstituir a verdade abre ao homem um extraordinário campo de possibilidades. São Paulo: Brasiliense. 3. * * bibliOGrafia * Obrigatória 1 CHAUÍ. mas de relatividade histórica. No direito não basta a verdade pura e simples. metafísicos ou “verdade do intérprete”. o instrumento mais eficaz no processo social de instituição da verdade. então ela é falsa. não pode ser pensado. A linguagem é. TODASúltimo para o certo e o errado. sível resignificar a todo todo momento as categorias das verdade Aqui. seriam verdades? Como identidade. então o que lê diz “é verdadeiro”. não se trata Agora.Para uma boa síntese cf. Isso pois uma coisa pode ser (tornar-se) o que a instituem implica a conseqüência de jurídicas. sentido moral ou ético. não há paradoxo. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. não pode ser dito. demonstrando. o dizer – linguagem – Acreditar problema da verdade se como três planos autônomos com dignidade relaciona campo próprio da verdade significa Acreditar na linguagem e campo próprio da verdade significa admitir tipo: as verdades jurídicas expressões filosófica e autonomia não possui envergadura doque “verdade dos fatos”. 2. dos agentes lingüísticos que a instituem lidar com os problemas de insegurança jurídica? por um ato de fala. teles. o fato é que mesmo em relação à verdade. Mas o problema aponta para o paradoxo real que ela é verdadeira. pela violência EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE do rapto ou pela sedução da palavra. Marilena. nada se mantém imune à possibilidade de ser resignificado pela palavra. Teorias da Verdade. antes. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural.Para comprovar esta idéia. com isso. na verdade. Por isso. no dia seguinte. retórica. Nada é. fica a distinção entre SER. Quebra-se em verdade ou por um ato de fala. 1994. Isso graças ao fato da filosofia sofística ter desfeito a vinculação parmenídica entre realidade e pensamento. Mesmo que seja. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. leis”. convencionado. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó. No Tratado do Não Ser. como E O DIREITO? E O DIREITO? Como ona linguagem comoestatuto próprio. No direito. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. sofista Protágoras de Abdera: Prepare-se Protágoras de Abdera sobre a legou a mais conhecida Foi o grandepara o debate. dos agentes lingüísticos ou transcendentes. Com efeito. São Leopoldo: Unisinos. observe atentamente o quadro de Salvador Dali: de mero relativismo individualístico. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer sua acusação em praça pública e. KIRKHAM. “O HOMEM É A MEDIDA DE critério AS COISAS” o verdadeiro e o falso. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. se o que ele diz é falso. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Os Sofistas e Sócrates: o AULA 4 20 Humano como tema e problema: seção 3 Os Sofistas ou a arte de ensinar) LINGUAGEM E VERDADE: Os Sofistas CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão.1 Independente dos resultados a que se chegue. Claro que o homem em questão não é o Até que ponto o homem pode instituir suas próprias verdades? indivíduo particular. então A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. isto é. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. meditandoque nos seguinte frase do de todas as sentenças sofísticas: “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS”. Veja-se o seguinte quadro de Salvador Dali: que não também é possível resignificar a momento as categorias das verdade jurídicas. No nível mais radical. É com o Direito? A todo tempo somos confrontados com possível falar-se o princípio da identidade. Isso implica a conseqüência de que também é posque é. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. não há apenas várias correntes ou definições. Górgias faz suas clássicas afirmações: 1. PENSAR e DIZER. (Capítulo III. uma verdade pode ser convencionada na polis até que outra a substitua em outro momento histórico. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. demonstrando com isso a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito sua acusação em praça pública e. ser e pensar. Contudo.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar BARKER. Teoria política grega. 1978. A Teoria Política dos Sofistas) FGV DIREITO RIO 28 . (Capítulo IV. Ernest. Brasília: EdUnB.

sendo este temente. Razão como A partir desse primeiro de tudo aque é verdadeiro. marcando todos os aspectos da vida humana. Sócrates. verdade e os justiça se apresentam de forma definitiva.AULA 5. Esta guinada de ser uma prática de representará um dos mais profundos cortes no pensamento de tornar inteligibilidade do real. mas a filosofia se vale do arcabouço partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que pensamento todos até hoje. sem dúvida. NOTA AO ALUNO tema da aUla 2. Já a razão nos possibilita conhecer o para tosinônimos dentro de uma racionalidade universal. O ponto 52 central do pensamento socrático é que a prática da justiça como virtude apenas será alcançada pelo conhecimento da justiça. tornam-se sinônimos dentro de umaou na opinião –universal. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES NOTA AO PROFESSOR EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 5. que. Verdade e justiça tornam-se modificar-se constantemente. Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. o homemnodotado de razão etoda a tradição. porém. o homem é dotadopor modificar-se constanda vida ao mundo empírico. que reduz os princípios à unidades conceituais. que. Assim. aquele onde a último o que nos dá acesso ao mundo empírico.verdade chamada “reconstrução socrática" recolocou o tema da dade como aletheia no centro de todas as discussões. Tema ConCeito e Verdade: sÓCrates A verdade como conceito abstrato. A comunicabilidade entre os indivíduos para se tornarcomunicabilidade entre os indivíduos para se inteligibilidade do real. Já a razão nos possibilita conhecer o mundo inteligível. Esta guinada representará toda a tradição. A Não há comprovação histórica de sua existência. dos os homens. Trata-se da como aletheia no centro de todas as discussões. Verdade e justiça A verdade não reside na linguagem racionalidade dóxa – de cada indivíduo. é superficial de razão e sentido. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a divisor O mais conhecido aUla de águas da filosofia ocidental é. certo prática de partir desse filósofo. Para Sócrates. um dos mais profundos cortes é pensamento de sentido. sem dúvida. aquele onde a que reduz a princípios à unidades conceituais. a questão epistemológica será a FGV DIREITO RIO 29 há comprovação histórica de sua existência. de tudo que é verdadeiro. da aula 1. A A chamada"reconstrução socrática” recolocou o tema da ver. Não O mais conhecido divisor de águas da filosofia ocidental é. O realmente verdadeiro e realmente justo é o que se eleva acima das múltiplas individualidades e somente é alcançado pelo sujeito virtuoso que abandona todos os seus preconceitos. porém. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. A partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que nos marca a todos até hoje. Objetivos da aula A verdade como conceito abstrato. – nómos – específicas que produzem justiças singulares. a razão deixa razão deixa de ser uma e justo. Trata-se da opção opção que faz Sócrates pela Razão como fundamento primeiro que faz Sócrates pela certo e justo.este último o que nosaspectos dá acessohumana. Sócrates. sendo marcando todos os Para Sócrates. o real fundamento das relações não está nas convenções e normas para todos os homens. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do nos marca a ocidental. necessariamente válidamundo inteligível. necessariamente válida Da mesma forma. mas a filosofia se vale do arcabouço . fundamento filósofo. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do pensamento ocidental. é superficial por verdade e a justiça se apresentam de forma definitiva.

No direito não basta a verdade pura e simples. direito importa valores. (Capítulo V. Ernest. não há apenas várias correntes ou definições. 2003. Claro que. Tais centros. são comumente compreendidos como a norma escrita. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por é comum o recurso ao texto da lei (ainda que Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da mediado pela doutrina) para se explicar e entender as categorias jurídicas. Brasília: EdUnB. na verdade. então o que lê diz “é muito tempo pela filosofia. e o direito? Acreditar no conceito como verdade implica admitir que o direito é formado por conceitos unívocos que podem ser depreendidos pela expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Os Sofistas e Sócrates: o Humano como tema e problema: seção 4 Sócrates: o elogio da filosofia) complementar BARKER. É razão. Richard L. dizer que tudo que ele diz é mentira. verdadeiro e justo se E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com imbricam no campo ético. Se aque deve ser compreendido por todos os homens. Para Sócrates. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. Por isso. Teoria política grega. Obrigatória 20 CHAUÍ. sentido moral ou ético.1 Independente dos resultados a que se chegue. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. São Leopoldo: Unisinos. Ganha-se em segurança. (Capítulo III. Mas o problema aponta para o paradoxo real que a justiça é este conceito racional sentença é falsa. São Paulo: Brasiliense. É desta maneira que podemos entender seu lema “conhece-te a si verdadeiro”. como o verdadeiro está para o campo natural.Para uma boa síntese cf. KIRKHAM. Pode-se desqualificar este Para tanto. Assim. bibliOGrafia 1 CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. então pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. mas se for verdadeira. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem de perguntas leva seu interlocutor a reconhecer seus preconceiironia. no lidar com os problemas de insegurança jurídica? sistema romano-germânico. não há paradoxo. “verdade das leis”. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. o fato é que mesmo em relação à verdade. tamA SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA bém através de perguntas. Contudo. . Como fenômeno da cultura o muitas vezes. mas perdeque. o segundo é a maiêutica. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer mesmo”: a busca da verdade universal inscrita em conceitos racionais. mesmo justificação. propõe um método que é constituído de dois momentos: o primeiro é a paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Daí que autores como Aqui. então o que lê diz “é falso”. No direito. 1978. ela é verdadeira. Teorias da Verdade. leva seu interlocutor a descobrir uma verdade conceitual dentro de si inconsistência com a utilização e enfrentada há Estamos diante de uma mesmo lógica que vem sendo discutida da razão. se o que ele diz é falso. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Sócrates e os Socráticos Menores) FGV DIREITO RIO 30 . então ela é falsa. onde. O justo está para o campo cultural se em adaptatividade que é essencial à realização da justiça. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE chave de leitura para a compreensão do posicionamento que Sócrates assume ante a physis e a pólis. mais importante que as experiências jurídicas concretas possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como são os centros de referência conceitual do direito. onde através pleno sentido gramatical: tos e sua ignorância sobre o tema em debate. desligado do mundo da vida. Marilena. 1994.

o que converteu a teoria do conhecimento em motor da reflexão filosófica do período. Não há dúvida de que o principal nome da constituição da moderna filosofia da ciência é Immanuel Kant que.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 6. o binômio razão e experiência passa a capitanear as investidas do homem sobre as forças naturais. lançou as bases mais sólidas em termos epistemológicos. Nesse contexto. Eis um esquema comparativo para melhor visualizar as diferenças entre as correntes filosóficas: raCionalismo Fundamentado numa razão inata Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental FGV DIREITO RIO 31 . duas correntes destacaram-se como forma de compreender e responder à questão proposta: o racionalismo e o empirismo. basicamente a partir do século XVI. O rumo deste caminho levou a modernidade a uma opção pelo “problema do conhecimento” – epistemologia – como questão fundamental a ser tratada. com o seu projeto criticista. Enquanto os racionalistas acreditam ser a verdade resultado de uma idéia primeira e fundante. Assim. sociais. inatismo: desCartes NOTA AO ALUNO tema da aUla A verdade como resultado da razão inata. quando a modernidade afasta-se das especulações metafísicas para empreender uma nova organização geral do saber. buscou-se novas bases que pudessem ser consideradas seguras e precisas para a fundamentação de uma verdade universal. prepare-se para a aUla Na revolução epistemológica operada na modernidade. políticas e individuais. A nova perspectiva em construção considera como fundamentos adequados para o conhecimento apenas a abstração racional e a concretude experimental. os empiristas crêem que a verdade resulta de um fato primeiro e fundante. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado de uma razão inata a partir do subjetivismo cartesiano. o pensamento kantiano se insere num processo histórico que foi acontecendo por sucessivas rupturas na tessitura ontológica da filosofia e da sociedade. No entanto.

”2 Querendo alcançar tal intento.. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta.alçá-lo. sintetiza a perspectiva cartesiana no pensamento moderno. por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade. vários epistemológicas. os céticos.DESCARTES. desde a a juventude.”3 Praticando este método. alicerçado sobre que tarefas básicas: destruir toda forma para não acreditar nele. p. segundo Descartes. o método que leva à verdade implica a dúvida como condição epistemológica: “. Dois serão destacados: Descartes e Hume. É exemplo.. pois não meu intuito tendia tão destruir o tradicional conhecimento terra movediça e a areia. e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo que pudesse imaginar a menor dúvida. após isso. con. como afirma o próprio Descartes. a perspectiva cartesiana construtivista. pouco. 2 DEsCaRTEs. através de um apenas. mas sim em recolocá-lo sobre ou a argila.”2 meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir.. como Baconhecimento que não se encontre pelas técnicas e pela matemática. e de pouco a pouco.. René. p. 3 FGV DIREITO RIO 32 . registrado no início do Discurso de conhecimento que haja. p.Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Nessa tradição herdada por Kant. apenas. uma boa razão para não se acreditar. como o inaugurador da moderna escola racionaao menos. Trata-se da dúvida metódica como forma de reconstruir em bases seguras e verdadeiras o próprio mundo à nossa volta. Ob. de que de que que me conduziram considerações e máximas. procura isso que torna a perspectiva cartesiana construtivista. ao minha vida lhe permitam a mediocridade de rito e a curta duração demais alto ponto a que atingir.lançar as bases destruir nova fundamentação para a própria verdade. Descartes propõe um método para conduzir o espírito ao conhecimento verdadeiro. 46. sintetiza a perspectiva ao menos. em certos caminhos de me haver encontrado. acreditar nele. p. para encontrar a rocha somente a me certificar e remover a sobre o mundo. ou. Cit. Pode-se dizer que Descartes. 44. empiristas – desenvolveram suas teorias filósofos importantes – racionalistas Nessa tradição. É isso que “Não que imitasse. Cit. por exemplo. uma boa razão para não se acreditar. qualquer pessoa poderia conhecer de maneira nítida e clara as idéias que são inatas no espírito e. todo oestá interessado em. herdada por Kant. 29. por idealista. que duvidam apenas por duvidar e torna afetam por sempre irresolutos: pois ao contrário. 1 DEsCaRTEs. René. 29. pelo qual me parece que eu tenha meio de formei um método. de uma o tradicional conhecimento sobre o mundo. São Paulo: Abril Cultural. vários filósofos importantes – racionalistas e e empiristas – desenvolveram suas teorias epistemológicas.tipo de lo sobre bases supostamente mais seguras: conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendar as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. mas sim em recolocá. reconstruir um novo e seguro tipo de lista ou idealista. como o inaugurador da verdade. Dois serão destacados: “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade me haver encontrado. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta. pois não está interessado em. Descartes cria um tipo de construtivismo aliEste parágrafo. sem ter que submetê-lo às autoridades exteriores. 1979. pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento. René. as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. Discurso do Método. Descartes e Hume. a fim de ver se. Também influenciado pelas técnicas e pela matemática. pouco aaumentar mais alto ponto a que a mediocridade de meu espí. ao gradualmente meu conhecimento. 57 DEsCaRTEs. e de alçá-lo. escola racionalista ou tipo de conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendarcomo Bacon. para tanto. reconstruir um novo e seguro tipo cartesiana no pensamento moderno. Também influenciadomotivo fundamentado para nãoprocura lançar as bases de uma nova fundamentação para a própriamoderna através de um Pode-se dizer que Descartes. que fosse inteiramente indubitável. não restaria algo em meu crédito. são paulo: abril Cultural. Descartes cria um tipo de construtivismo de conhecimento duasnão se encontre motivo fundamentadode conhecimento que haja. Como dito. René.”1 Este parágrafo. 1979. Ob. registrado no início do Discurso do Método. em certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas. cerçado sobre duas tarefas básicas: destruir toda formado Método. formei um método. por 2 . pensei que era necessário agir exatamente ao contrário. a proposição de um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. desde juventude.mas. Discurso do método.

O segundo. irrefutável: “Mas. mais importante é a razão perfeita. julguei que podia aceitá-la. toma a realidade à sua volta e se propõe a dúvida como método. superiores àquelas idéias que derivam dos sentidos (adventícias) ou àquelas que são fabricadas pela imaginação (fictícias). e supondo mesmo uma ordem 4 Idem. como por degraus. Conforme se infere da leitura do Discurso do Método. onde a razão distingue as idéias inatas e faz delas representações seguras e verdadeiras que deduzem o mundo. como o primeiro princípio da filosofia que procurava. mas reside no próprio cogito como evidência apodíctica. tendo o cogito como paradigma metodológico. conhecido com exatidão geométrica. para o alcance da verdade via ciência. duvidar de tudo aquilo que se tenha ao menos uma razão para duvidar. para o verdadeiro conhecimento. enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso. era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar. e o conhecimento apenas dela pode advir. notando que esta verdade: eu penso. adverti que. onde o raciocínio lógico é o mestre que conduz o pensamento e evita as contradições e vacilações. FGV DIREITO RIO 33 . pouco a pouco. ou seja. Portanto. de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. é o único lugar possível para as “idéias claras e distintas”. é o nosso espírito que possui a razão e a verdade e não o mundo externo e é justamente por isso que pode ser conhecida com segurança. As idéias inatas são racionais e existem porque nascemos com elas. ergo sum – que verifica que a certeza do conhecimento não vem do objeto exterior. O modelo epistemológico das ciências é o matemático. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer. somente a razão conduzida logicamente. Descartes. “cientificamente”.”4 Por isso. a razão é a natureza perfeita existente num ser imperfeito por força da ação de um Ser perfeito: Deus. Embora Deus seja a causa operativa última. E. “deusa razão”. na busca do conhecimento verdadeiro. fundado em critérios internos e abstrações. para subir. logo existo” – cogito. que pensava. e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito. O terceiro. o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. fosse alguma coisa. logo existo. o de conduzir por ordem meus pensamentos. poderá decifrar todos os códigos do mundo. como faculdade inata.que universaliza o conhecimento e torna acessível a verdade tão necessária ao homem e que jamais seria conhecida se estivesse fora dele. Através da dúvida metódica ele comprova a falsidade de todo tipo de conhecimento sensível e chega à verdade absoluta do cogito. Essa é a grande descoberta do “penso. Para o racionalismo cartesiano. quatro preceitos da lógica: “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal. logo em seguida. até o conhecimento dos mais compostos. o que significa dizer que a razão. que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. isto é. sem escrúpulo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE isso mesmo. cumpria necessariamente que eu. Descartes adota.

. que domina e controla o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA mundo transformando os fenômenos naturais e/ou sociais em fórmulas e abstraA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA ções. Diferentemente do indutivismo dos empiristas. DEsCaRTEs. Essa possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? concepção ideal do direito pode manifestar-se tanto na maneira do jusnaturalismo como do formalismo jurídico. fruto. José Ricardo. Se a sentença é falsa. seja da da justificação. de uma idéia fundante. na verdade. Obrigatória .1 Independente dos resultados a que se chegue. genéricas ou concretas – devem ser justificadas. 20 REALE. e o direito? Acreditar na verdade como representação racional do mundo a partir do uma razão inata implica admitir que também é o direito expressões detipo: “verdade dos fatos”. Claro que.Para uma boa síntese cf. Pode-se desqualificar este ter descoberto sem sentido portal de acesso ao conhecimento verdadeiro. Estado e sociedade. 37-38. Teorias da Verdade. se o que ele diz é falso. “verdade das leis”. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer Como visto. o fato é que mesmo em relação à verdade. 16. No direito não basta a direito e simples. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como matrizes distintas. ambas são unidas pela idéia de que a razão univerJerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da sal pode inteligir um verdade pura unívoco. então o que lê diz “é verdadeiro”. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. pp. Por isso. O justo está para o campo cultural E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com como o verdadeiro está para o campo natural. Inaugura-se o paradoxo dizendo-se ser eleo novo e autoreferenciado. n. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. cit.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros. complementar CUNHA. portanto. In: Direito. mas se for verdadeira. Ob. dizer que tudo que ele diz é mentira. Contudo. (Parte I – Capítulo VIII. jan/jul 2000. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. 5 FGV DIREITO RIO 34 . Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: moderno princípio epistemológico da razão suficiente. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. E o último. 2003. então muito tempo pela filosofia. René. Apesar de serem Aqui. suas normas – do próprio direito. Descartes abre o caminho do Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há dedutivismo racionalista moderno. o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza de nada omitir. Richard L. Filosofia do direito. não há paradoxo. tal método pode ser associado ao procedimento matemático para solução de uma equação.”5 então o que lê diz “é falso”. Como fenômeno natureza ou da estrutura lógico-formal cultura o direito importa valores. Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Do Conhecimento Quanto a Origem). KIRKHAM. Modernidade e ciência: algumas posições epistemológicas. É uma representação. não há apenas várias correntes ou definições. No direito. sentido moral ou ético. bibliOGrafia DA DESCOBERTA 1 CONTEXTO Formas pelas quais chega-se à decisão. São Paulo: Saraiva. Mas é na base desta razão calculadora que Descartes pensa ela é verdadeira. Miguel. 1996. então ela é falsa. São Leopoldo: Unisinos.

estilo. mas diverge de que estas idéias sejam inatas no espírito humano. koinaì énoiai. 66 6 7 idéia inata nos originais . É contra isso que Locke se insurge.” adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões inatas e sua luta contra o inatismo dos racionalistas.LOCKE. afirmava que os nossos também sua luta contra com a experiênciaracionalistas que afirmavam existir uma lOCKE.) Novo DicionárioBuarque da para dar-lhes as idéias necessárias ao conhecimento. Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese se pualma os recebera em seu ser primordial e os transportara consigo ao desse apenas mostrar (o que espero fazer nas outras partes deste tratado) mundo. empirismo: HUme e loCKe Tema da aula NOTA AO ALUNO A verdade como resultado da experiência empírica.] nova Fronteira. que afirmavam existir ou princípios também podem alcançar a certeza sem quaisquer destas noções uma Dessa maneira. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e contrário dos racionalistas. 1978. ou seja. aurélio em função da ausência de um conjunto de vivências suficientemente significativas lanDa(Ed. acessível apenas pela razão.l. Ao Dessa maneira. Seria homens. Cf. tais como crianças e “idiotas”. Locke. [s. tema da aUla Objetivos da aula A verdade como resultado da experiência empírica. os quais estacertos princípios inatos. Língua Portuguesa. Ensaio Acerca do idéia conhecimentos começam o inatismo dos dos sentidos.”12 sujeitos que seria o verdadeiro fundamento para a verdade e o co- FGV DIREITO RIO 35 . p. simplesmente destas uso deou princípios originais. em seu énoiai. John. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a aUla “A “A maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento constitui constitui maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento suficiente prova de que não é inato. podem tratado) como os homens. há uma categoria de pessoas que não Humano. Ensaio Acerca do Entendimento alcançam o Paulo: Abril Cultural. In HOum . podem adquirir se o conhecimento que possuem sem que espero fazer nas outras partes hipótese todo pudesse apenas mostrar ( o a ajuda de quaisquer impressões inatas e deste 6 podem alcançar a certeza sem quaisquer pelo noções suas faculdades naturais. 1989. 1978. John. pequena Locke concorda com Descartes na afirmação de que o conhecimento é constituído marfim ou metal. partir do empirismo inglês. certas noções os recebera koinaì riam estampados na mente do homem. certas noções primárias. como verdade e o inata nos de que ao nascermos somos como tábulasfundamento para a folhas paulo: abril Cultural. caracteres. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a partir do Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a empirismo inglês. cuja alma primárias. simplesmente pelo uso deleitores sem preconceito da falsidade desta como os suficiente para convencer os suas faculdades naturais. na qual os romanos escreviam com 12 Locke. conhecimento. É contra isso que Locke se insurge. FERREIRa.placa de madeira. 145. 145. de papel em branco. Consiste numa opinião estabelecida suficiente prova de que não é inato. são 7 afirmação sujeitos e que seria o verdadeiro rasas . cuja caracteres. como empirista que era. São verdadeiro conhecimentop. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e nhecimento. prontas para serem preenchidas pelas experiências futuras. escavada para por idéias. lutando contra um dogmatismo já manifesto na tradição do pensamento ocidental. TÁBUla. Consiste numa opinião entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios estabelecida entre alguns homens que o entendimento comporta inatos. acessível apenas pela razão. EMPIRISMO: HUME E LOCKE EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 7. e os transportara consigo ao mundo. É bastante conhecida sua Entendimento Humano.AULA 7. ser primordial os quais estariam estampados na mente do homem. Para conter uma camada de cera.

Desenvolvendo o pensamento empírico. Portanto. John. Mesmo princípios morais basilares. Tudo por uma única razão: mesmos essas idéias e princípios não são inatos. como a justiça. já que todos eles dependem de uma experiência prévia dos sentidos que os transforme em idéia real e conhecimento verdadeiro. devendo ser adquiridos pelos indivíduos ao longo de suas vivências e experiências. Cit. 1980. ou seja. “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de sente a um calor dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e moderadamente tépidotarde essa sensação oumais tarde pela imagiquando relembra mais e quando relembra a antecipa essa sensação ou a antecipa pela remedar ou Essas faculdades nação.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Assim. Tanto é assim. 8 9 lOCKE. mesmo as evidências lógicas mais apodícticas. 140. como os princípios da identidade e não-contradição. 10 original. que os homens quando agem virtuosamente o fazem porque costumam tirar benefícios próprios de tal conduta e não porque a tenham inscrita dentro de si. dureza doçura. que inicia com a seguinte afirmação: “Idéia é o objeto do pensamento. não podem ser considerados inatos e universais. não há princípio que possa ser considerado universal. p. e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente. com esse fim solicitarei a cada um repoderes do homem. Seguindo essa linha de raciocínio. Investigação Sobre o Entendimento Humano. já que nações inteiras chegam mesmo a divergir acerca de certos princípios consagrados em outras nações. Desenvolvendo o pensamento empírico. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreendidas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias inatas e caracteres estampados sobre sua mente. homem. nem sempre adotam os mesmo princípios práticos ou as mesmas virtudes. Locke passa a demonstrar que nenhum princípio da vida prática pode ser considerado inato8. mas jamaiscopiar as percepçõesvivacidade do sentimento jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias. e semiótica (conhecimento dos símbolos e correr a sua própria observação e experiência. pois dependem de uma aquiescência por parte dos indivíduos. Já examinei.”9 21 sentidos lógicos para o entendimento da realidade). pelos termos brancura. pp.”22 FGV DIREITO RIO 36 Neste parágrafo. David.Locke ainda invoca a diversidade cultural como prova cabal de que não há idéia ou princípio inato nos sujeitos. sujeitos e povos podem convergir ou divergir em suas regras práticas – morais – conforme as experiências e vivências que possuam. Essas faculdades podem imaginação. movimento. Todo homem tem consciência de que pensa. Cit. HUmE. copiar as percepções dos podem remedar ou atingirão a força e a dos sentidos. como entendê-las? Essa é a questão enfrentada na Segunda parte do Ensaio. Nessa esteira. até porque. temos ainda David Hume. Se Locke concorda que o conhecimento está nas idéias. embriaguez. coisas que seriam descabidas caso fossem verdadeiramente inatos. John. e que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. expressas entre outras. elefante. Por conseguinte é indubitável que as mentes humanas tem várias idéias. p. pensamento. são desconhecidas por certas pessoas. temos ainda David Hume. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento . bem como de comprovação.. Ob.”10 diferença entre as percepções da mente quando o homem “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável lOCKE. 159. 150152. mas sentidos. naturais ou universais. Ob. essa opinião. conforme um fim útil). são paulo: abril Cultural.. mas nega que estas sejam inatas. em linhas gerais. exército.

na medida em que “tudo que é pode não ser”13. 11 12 13 HUmE. bem como criticando a resposta da velha teologia de que um Ente Supremo precisa ter sido a causa de tudo que foi criado e do que será criado. inaugurado por Bacon e continuado por Locke.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Neste parágrafo. dando início a um processo psicológico que vai. a causa corresponde à imaginação do sujeito afetada por uma determinada experiência dos sentidos. as idéias correspondem à associação das percepções trazidas pela experiência sensível. Negando fundamentos abstratos e metafísicos. Nesse sentido. não há conhecimento da realidade que não se inicie com as impressões dos sentidos. as sensações reunidas formam a percepção. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento empirista. seja por semelhança. dos fatos. Cit. temos que os conhecimentos começam com as sensações (experiência dos sentidos) estimuladas pelos objetos exteriores. vivências. FGV DIREITO RIO 37 . como é o caso da matemática. que são levadas à memória. se associam. produzindo um tipo de “verdade” sobre os dados da realidade. O fato é que. etapa a etapa. Por isso. quer seja porque são semelhantes (semelhança). onde a razão forma os pensamentos. já que em relação aos fatos. 141-157. pode-se dizer que Hume compreende a verdade sobre o entendimento humano (o que Descartes chamaria de cogito) como a própria vivência imediata do pensar estimulado indutivamente por impressões. elas se combinam. Cit. com esta repetição. não há demonstração possível. pp. os pensamentos. ou seja. É a experiência que inscreve as idéias em nosso espírito e a razão as arranja (combinando ou separando). 204. Ob. Segundo sua filosofia. dentre outros.. ou seja. David. já que a relação de causalidade depende de uma experiência pessoal não universalizável sobre bases seguras. David. Ob. estes são estimulados por dados internos ou externos ao sujeito. formando. HUmE. Hume afirma que a razão nada mais é que o hábito de associar idéias. Cit. para Hume. no parágrafo em epígrafe. Hume encerra a Investigação criticando a idéia do apriorismo como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro dos acontecimentos do mundo real. porque se repetem no mesmo espaço ou próxima umas das outras (contiguidade espacial) ou porque se repetem sucessivamente no tempo (sucessão temporal). David. fazendo com que. Assim. surjam as idéias. p. não existe consciência mas. acusando mesmo de enganação e ilusão qualquer tentativa de levar o raciocínio das ciências abstratas de quantidade e número para os fatos concretos. Assim.. p. desta maneira. Na medida em que as percepções vão se repetindo. Em outras palavras. 203. Ob. É a reunião das várias e diferentes sensações que permite perceber um objeto exterior. ocorre o hábito da associação das percepções. seja por diferença. Contudo. Numa síntese geral do processo de conhecimento exposto por Hume na sua Investigação sobre o Entendimento Humano11.12 Com efeito. assim. HUmE.. colocando-o em posição de destaque dentre os próprios empiristas. não pode haver conhecimento pleno e cientificamente válido fora do campo meramente conceptual. pode-se dizer que o empirismo de Hume é o mais inovador e radical. Na verdade. apenas. afirma que somente a vivacidade do sentimento original é capaz de responder ou explicar uma dada situação.

REALE. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. complementar CUNHA. FGV DIREITO RIO 38 . Se a sentença é falsa. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia.Para uma boa síntese cf. No direito não basta a verdade pura e simples. não há apenas várias correntes ou definições. Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. de um fato fundante. n. São Leopoldo: Unisinos. (Parte I – Capítulo VIII.dizer que tudo que ele diz é mentira. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Acreditar na verdade como produto de uma experiência empírica implica admitir que também é o direito produto de uma experiência leis”. Do Conhecimento Quanto a Origem). jan/jul 2000. Estado e sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. portanto. o fato é que mesmo em relação à verdade. Por isso. José Ricardo. Richard L. Filosofia do direito. “verdade das EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE e o direito? Aqui. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. É empírica. In: Direito. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. 20 Formas pelas quais chega-se à decisão. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Essa concepção empossível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? pírica do direito é corrente na common law e da origem ao chamado realismo jurídico. Teorias da Verdade. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. KIRKHAM.1 Independente dos resultados a que se chegue. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. fruto. No direito. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Obrigatória 1 . São Paulo: Saraiva. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. então ela é verdadeira. 1996. mas se for verdadeira. então ela é falsa. 2003. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. 16. sentido moral ou ético. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Miguel.

Portanto. Vejamos. FGV DIREITO RIO 39 devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. o formalismo positivista do século XX. o racionalismo influenciou tanto o jusnaturalismo do século XVIII. fOrmalismO jUrídicO Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico. Procedimentos de FUNDAMENTO NA LEI decidibilidade que subsumem o valor justiça ao valor segurança. novamente. do qual se pode inferir . Já o empirismo está na base dos realismos jurídicos. materializado no conceito de legalidade. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. soluções para todos qual se pode os tipos de conflitos jurídicos.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 8. e por uma operação mental Ordenamento jurídico DIREITO POSITIVO preciso e completo. Formalismo JUrÍdiCo e realismo JUrÍdiCo NOTA AO ALUNO tema da aUla Formalismo e Realismo Jurídico. por atos de derivação racional. ObjetivOs da aUla Apresentar como Inatismo e Empirismo influenciaram as principais matrizes epistemológicas do direito. No direito. todas as áreas do saber passaram a seguir uma ou outra matriz. prepare-se para a aUla É necessário recordar que razão e experiência foram elevadas às categorias centrais do conhecimento na modernidade. 3) Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. . por atos de derivação racional. o esquema apresentado na aula 6: raCionalismo FUNDAMENTO Fundamentado numa razão inata NO Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma RACIONALIDADE inferência (representação) lógica PRINCÍPIO DA empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera abstração Método deindutivamente conceitual quemundo externo por meio de uma Alcança o confere plenitude de sentido às experiência possibilitada pela percepção prescrições sensível normativas. Prepare-se podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico: para o debate refletindo sobre tais postulados: Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que 1) 1. inferir . 4) As determinações metajurídicas não tem valor jurídico. As normas normas positivas constituem um universo significativo significativo auto-suficiente do positivas constituem um universo autosuficiente. soluções para todos os tipos de conflitos jurídicos. 2) As 2. A única fonte do direito é a Lei. COERENTE mas. A única fonte do direito é a Lei. sobretudo.

não há apenas várias correntes ou definições. “verdade das possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? leis”. 4. realismO jUrídicO Novamente Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do realismo jurídico. portanto. o fato é relações jurídicas. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Os conceitos teóricos devem ter base empírica. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: abstratos claramente definíveis. Ontologia do Direito. O juiz é neutro. O sentido das ser ela é verdadeira. se o que ele diz é falso. A Ciência do direito constrói-se elaborando teses sobre os comportamentos A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA judiciários. 6. sem formular juízos valorativos. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer afirmações metafísicas. A ordem jurídica não oferece segurança. o direito positivo vigente. Pode-se desqualificar este normas dependerá do uso que os juízes dêem as mesmas. TEIXEIRA. Mas o problema aponta para o paradoxo real que A linguagem jurídica não é hermética pode 3. A Ciência Jurídica deve estudar. Capítulo síntese cf. verdadeiro”. então ela é falsa. mas 1 limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Independente dos resultados a que se chegue. No direito não basta a verdade pura e simples. A linguagem jurídica é formal e. No direito. É e o direito? Quais seriam os principais problemas possíveis resultantes dessas matrizes epistemológicas? Aqui. Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. mas se for verdadeira. sentido moral ou ético. Casa da Verdade. 5. As leis não solucionam todos os casos concretos. 2003. 2000. Contudo. Teorias daMoeda. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. então nem auto-suficiente. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. 4. não há paradoxo. apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. As normas jurídicas e os conceitos dogmáticos constituem um conjunto de Claro que. devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. Lisboa:Richard L. São Leopoldo: Unisinos. então o que lê diz “é falso”. As determinações metajurídicas não têm valor jurídico. que mesmo em relação à verdade. na verdade. Antonio Braz. Como fenômeno da cultura o direito importa valores.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 3. razão porque só possuem valor se refletem as condutas judiciais e as conseqüências sociais das Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Perspectivas contemporâneas da ontologia jurídica – Seções 17. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Por isso. I. KIRKHAM. Não há significados paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. dizer que tudo que ele diz é mentira.Para uma boaca. Se a sentença é falsa. 19 e 20 20). precisa: possui um unívoco sentido dispositivo. Continue sua preparação refletindo sobre os novos postulados: 1. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. 7. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídiDESCOBERTA . Formas pelas quais FGV DIREITO RIO 40 . então o que lê diz “é 2. 18. (Parte I.

(Capítulo 4: Formalismo. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei. temas para uma reformulação. 1994. Realismo e Interpretação da Lei).EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar WARAT. Luiz Alberto. FGV DIREITO RIO 41 . Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.

a saber: a) b) erro do dogmatismoque reduz tudo à mera experiêndois metafísica ilusória. caindo. É a razão que ela não pode. Objetivos da aula ObjetivOs da aUla Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no penpensamento kantiano. curiosamente. o criticismo kantiano irá buscar as palavras. ou seja. por isso pode. ela está sendo para que nada fique à mercê de respostasde juiz e de e sem fundamento racional. que consiste no uma conduta ou uma experiência.ao conhecimento ee a verdade.fazer sobre uma teoria. Assim.isso mesmo. A síntese crítica A síntese crítica de inatismo e empirismo. Dessaque comumente se fala sobre o “tribunal da razão” na filosofia kantiana. samento kantiano. Daí sua filosofia também ser conhecida como criticismo. em outrasceticismo quanto suas possibilidades limites. a razão crítica é aquela da qual nada escapa a comumente se fala até mesmo seu agente operador visto e kantiana. sem semmargens . por verdade. de validade e te daquilo que considera comoos seus limites. como ciência é. até mesmo seu agente e de um sujeito autônomo. que confia cegamente Kant diante daquilo que considera como dogmatismosurge do movimento realizado porna razão.visto e que se critica a siela. Dessa forma. o o erro do empirismo. sobre o “tribunal da erazão” na éfilosofiaanalisado por ela. Kant se propôs um saber crítico. caindo. caindo. curiosamente. impedindo seus delírios megalomaantes de tudo. suas possibilidades e limites. de validade e os seus limites. Daí co. onde um minucioso exame.ao conhecimento e a por isso mesmo. operador é a razão analisado por mesma. julgada O conhecimento É a razão que se submete às suas próprias leis. suas possibilidades: 83 FGV DIREITO RIO 42 Para desenvolver plenamente seus estudos. num ceticismo quanto b) o erro do empirismo que razão. posto que também submetido à razão. É por isso que se submete às suas próprias leis. dar dar margens a Para desenvolver plenamente seus estudos. CritiCismo: Kant Tema da aula NOTA AO ALUNO tema da aUla de inatismo e empirismo.ao impériorazão crítica por ela mesma. o criticismo kantiano irá buscar as verdadeiras bases para um reduz tudo à mera experiência que ela pode e o que ela não mesmo. Podemos afirmar ou uma experiência. a da razão para se apresentar de forma verdadeira e sistemática. A razão crítica é. a fim de buscar suas condições de que o criticismo surge do movimento realizado por Kant dianpossibilidade. investigando o que ela pode e o que verdadeiras bases para um uso correto a razão ocupa. numaerros. humildemente. um duplo papel: dogmáticas réu. CRITICISMO: KANT EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 9. por isso mesmo. ela está sendo julgada por ela mesma. onde da razão. esse que é submetido Assim. prepare-se para a aUla DESENVOLVIMENTO Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no a nenhum tipo de inconsistência. para que nada fique à mercê de respostas níacos e reconhecendo. ou seja. uma conduta exame de valor que se pode a fim de buscar suas condições de possibilidade. É por isso forma. exatamente. numa metafísica ilusória. que sua filosofia também ser que se pode fazer sobre uma teoria. a razão ocupa. a saber: a) o erro do criticismo racionalista. Podemos afirmar que o dois erros. racionalista que confia cegamente na cia subjetiva. Kant se propôs um saber crítinenhum tipo de inconsistência. consiste no exame de valor conhecida como criticismo. investigando osubjetiva. num uso correto da razão. em outras palavras. caindo. segundo as características é aquela da qual nada escapa a um minucioso exame.AULA 9. um duplo papel: de juiz e de réu.

por isso mesmo. p.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE “Em todos os seus empreendimentos a razão tem que se submeter à crítica. p. No prefácio da Crítica da Razão Pura. quando este afirma que é o sujeito de conhecimento – razão crítica – que deve ser o centro do conhecimento e não o contrário: “Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos. Convite à Filosofia. diz ser esta “um tratado do método e não um sistema da ciência mesma. É aí que surge a revolução proposta por Kant. e não pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isto a prejudique e lhe acarrete uma suspeita desvantajosa. 1980. Sobre esta liberdade repousa até a existência da razão. 77. Cit. nada é tão importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a esta inspeção atenta e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa. 12. suas objeções e até seu veto. Cit. todo o processo de produção do conhecimento. 14 CHaUÍ. onde existe uma sobreposição do primeiro em relação ao segundo. p. 16 KanT. para seu conhecimento. da razão em relação à realidade. 17 FGV DIREITO RIO 43 . e não o contrário. Ob. 363. No que tange à sua utilidade. mas uma estrela. Ob. marilena. não obstante traça como que todo o seu contorno. que o conhecimento KanT. “colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão. a partir de Kant. Copérnico já havia demonstrado que o universo é infinito e. p.. Immanuel. 15 KanT. quer dizer. quando afirmavam ser a realidade racional em si mesma e. são paulo: atica. Para Kant. através do que ampliaria o nosso conhecimento.”16 Assim sendo. o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que se deve estabelecer sobre os mesmos antes de nos serem dados.. ou o sujeito do conhecimento. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento. a teoria do conhecimento de Kant não é exatamente um discurso científico. Immanuel.”17 Temos. com pretensão de universalidade e precisão. tendo em vista tanto os seus limites como também toda a sua estrutura interna. por isso. consiste sempre em nada mais do que no consenso de cidadãos livres dos quais cada um tem que poder externar. fracassaram sob esta pressuposição. passa a ser visto como o resultado da relação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. Como podemos ver. cabe ao sujeito o papel de instituir seus objetos cognitivos para afirmar-se como hegemonia da razão sobre o real. Immanuel. porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos. uma vez que é aquela que legisla sobre esta ao instituí-la como objeto para sua cognição. inteligível. mas um discurso sobre a ciência. racionalistas e empiristas estavam buscando um centro falso e inexistente. a Terra não poderia ser o centro do cosmo e que o Sol não é um planeta. Dessa maneira. longe de possuir uma autoridade ditatorial. assim. sendo a Terra que gira ao seu redor. sem constrangimento algum.”14 A forma como Kant responde os problemas colocados à teoria do conhecimento pelas correntes racionalista e empirista ficou conhecida como uma espécie de revolução copernicana. girar em torno deles”15. 1994. como acreditavam os antigos e medievais. Em outras palavras. 14. sobre como é possível produzir conhecimentos ditos científicos e. o veredicto desta última. são paulo: abril Cultural. Crítica da Razão Pura. assim.

Sua questão era. Portanto. então. sendo sabido por todos. este não pode ser conhecido cientificamente. tido como científico. que o conhecimento empírico. sendo aquele que o conceito admitido no predicado representa uma informação nova em relação ao sujeito. Kant observa e distingue duas formas de conhecimento: 1) o empírico ou a posteriori. o que já se torna possível no caso do conhecimento puro. ou seja. que pretendia desvendar metafisicamente os atributos ontológicos da natureza primeira do ente. estes não fazem o conhecimento em nada avançar. pois. o objeto cognoscível é sempre um fenômeno. vejamos o juízo a porta está aberta. vez que as ciências da natureza já estavam constituídas como um fato. Kant distingue dois tipos de juízo: 1) o analítico. 27. 20 FGV DIREITO RIO 44 . já existia o conhecimento universal. Immanuel. que significa a maneira pela qual um ente faz-se conhecer. mas apenas a maneira como se apresenta ao homem. Ora. Esta proposição realmente acrescenta um dado novo sobre o sujeito que não era conhecido anteriormente. O que remete a outra questão: como é possível um juízo sintético a priori? Pois bem. Ob. e 2) o sintético. que é o fundamento último do próprio conhecimento. embora seja concreto e enriquecido pelo dado real dos sentidos ou de nossa experiência pessoal. caso contrário.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE científico se opera na forma de uma relação entre sujeito e objeto. Kant não se preocupa em descobrir se é possível a construção de um saber de base universal. O fenômeno é a coisa na maneira como se apresenta ao sujeito. o númeo. somente há conhecimento científico quando o objeto de conhecimento é tomado na sua dimensão fenomênica. reconhecido nos seus limites como limites da própria razão.18 O númeno é a coisa em si.. Immanuel. Cit. saber como eram possíveis tais ciências.19 Por outro lado. tal qual ocorre nas proposições da matemática. não pode ser conhecida. já que aquilo que informam do sujeito já estava contido na própria idéia do sujeito. Cit. fazendo o conhecimento avançar. sendo o que resulta de nossas experiências sensíveis. Em outras palavras. 24-26. mas sim a forma de sua apresentação. mas pode-se conhecer o fenômeno. pp. Ob. Immanuel. não o ente em si. Temos. sabendo que o centro do conhecimento é o sujeito cognoscente. este KanT. Agora. destarte. Partindo dos aportes oferecidos tanto por empirismo como por racionalismo. conforme as características e determinações próprias do sujeito racional. p. como exemplo. válido em qualquer tempo ou lugar. Contudo. No entanto. exatamente como deve ser o conhecimento científico. a coisa em si. sendo o que independe de nossas experiências sensíveis. medieval e moderno. não seria porta. ou seja. o juízo a porta abre e fecha.20 Tomemos. pois este é incognoscível. o que é feito na Critica da Razão Pura. já sabemos que este sujeito cognoscente é tomado criticamente. Quando se debruça sobre o problema do conhecimento. não se conhece racionalmente o númeno. 19 KanT. a resposta somente poderia resultar da análise da faculdade de conhecer do sujeito. Vejamos que os juízos analíticos são sempre universais e necessários. a resposta dada por Kant foi a seguinte: o que torna possível o conhecimento científico são os juízos sintéticos a priori. 18 KanT. Esta. Este reconhecimento dos limites da razão implica numa crítica kantiana ao dogmatismo do racionalismo antigo. p. Cit. ou seja. 39. Entretanto. e 2) o puro ou a priori. ou seja. sendo aquele cujo predicado já está contido no sujeito. embora esta seja uma proposição universal.. científico.. não pode ser tomado de maneira universal ou necessária. este pode ser conhecido cientificamente. todos sabem que porta abre e fecha. Rapidamente. Ob.

denominamos KanT. entretanto.21 Somente os juízos sintéticos fazem a ciência avançar. que a informação não se restrinja a uma única observação específica de um fenômeno. É a priori porque vale universalmente. mas possa ser tomada como atributo universal e necessário de dado objeto cognoscível. não servido. em contrapartida. Kant faz uma espécie de síntese entre postulados do racionalismo e do empirismo. que todas as portas do mundo estão abertas.”22 Ainda o conceito de juízo sintético a priori revela a hipótese central da filosofia kantiana da ciência: o conhecimento começa com a experiência. Ob. as quais. onde o predicado não esteja contido no sujeito mas que. onde não se revela nenhuma novidade sobre o sujeito. é sintético porque no conceito acontecimento não está contido o conceito de causa. através de um esquematismo transcendental. Immanuel. contudo. 87. é necessário. já que sem eles não seria possível a física pura. isoladamente. na medida em que acrescentam uma informação sobre o sujeito. propondo o conhecimento na forma do resultado de um processo complexo que parte dos dados empíricos fornecidos pela intuição sensível processando-os na forma transcendental das categorias do entendimento. p. o juízo porta abre e fecha é analítico. pois os juízos sintéticos são empíricos e fazem avançar o conhecimento. nem a matemática. seja universal e necessária: trata-se do juízo sintético a priori. não serve para explicar o funcionamento das ciências. por isso. mas apenas traduz juízos analíticos. mas não universal – é preciso que existam juízos sintéticos a priori que tenham as duas características. se os juízos analíticos trazem em si a universalidade e são. tal qual todos os corpos se movimentam. de forma que não faz avançar o conhecimento e. são um fato. A resposta está numa categoria empírica. Belo Horizonte: Editora UFmG. 28. Assim descreve Kant: “Denominamos sensibilidade a receptividade de nossa mente receber representações na medida em que é afetada de algum modo. Acontece que. Já o conhecimento a priori é universal e necessário. não provindo pois da experiência. mas não avança. tal qual o juízo o triângulo têm três lados ou todos os corpos são extensos. para explicar o funcionamento das ciências. já o juízo a porta está aberta é sintético. estes conceitos ainda não respondem ao problema do conhecimento científico. A Idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. de modo necessário. Dessa forma. e nestes o conhecimento é crescente. 21 salGaDO. sempre a priori. Cit. para que haja ciência. que promove a síntese do próprio conhecimento. mas não são universais e necessários.. não podendo se dizer por que esta porta está aberta. Joaquim Carlos. Os juízos sintéticos a priori representam o conhecimento científico porque são universais e crescentes. também. 1995. ao mesmo tempo. O juízo ‘todo acontecimento tem uma causa’ é um juízo sintético a priori. ao mesmo tempo: “Ora. portanto. 22 FGV DIREITO RIO 45 . já que é universal e necessário. e se os juízos sintéticos da experiência oferecem somente a possibilidade do crescimento do conhecimento – dado que naqueles o conhecimento é universal. p. mas não surge todo ele da experiência.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE conhecimento somente pode ser considerado válido para aquele sujeito especificamente.

é sempre uma postura racional que impõe à realidade bruta as regras ou leis que a torna inteligível. Contudo. 129. um momento estático dos sentidos ou da razão. Muito rapidamente. os objetos de sua investigação. resulta. os meios se autonomizaram KanT. Dessa forma. como dito anteriormente. pois. a fim de pensá-los racionalmente. p. p.24 Assim. 74. mas. a mais alta faculdade do conhecimento. por isso. O conhecimento só pode surgir da sua reunião. sujeito transcendental. Cit. todas as sínteses tem como centro o sujeito cognoscente que institui. Por isso se dizer que na filosofia kantiana é a razão que legisla.. e sem entendimento nenhum seria pensado. p. Cit. o ato de pensar. tanto é necessário tornar os conceitos sensíveis (isto é. um processo complexo que opera através de sínteses que conduzem a diversidade dos dados empíricos à unidade das categorias do entendimento. ou seja. à sua escolha. Nenhuma destas propriedades deve ser preferida à outra.. Portanto. 85. que caracteriza o conhecimento concreto e universal das ciências. Ob. Pensamentos sem conteúdos são vazios. Immanuel. como diz Kant. sendo.25 Não resta dúvida que a epistemologia kantiana radicaliza a aventura moderna do empreendimento científico ao lançar as bases mais sistemáticas e sólidas de uma nova fundamentação da verdade. Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as suas funções. contém somente o modo como somos afetados por objetos. meio eficaz para a consecução de um fim qualquer. entramos em contato com o mundo e. é a unidade racional transcendental. isto é. Modernizar passou a significar racionalizar e racionalizar passou a significar estar mais perto da verdade e da liberdade intelectual. ou seja. Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado. Pela primeira. Ob. O conhecimento não é. 24 KanT. 23 salGaDO. De efeito. Embora o tribunal da razão tenha limitado a arrogância da razão onipotente da metafísica dogmática. o conhecimento resulta da reunião das faculdades da sensibilidade – intuição sensível – e do entendimento. ocorre que o racionalismo kantiano foi convertido em racionalidade instrumental. desse complexo processo de sínteses que acolhe a multiplicidade de percepções dos sentidos e as eleva à forma de conceitos inteligíveis e universais. que fornece as condições últimas de possibilidade do conhecimento ou da verdade. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. pela segunda. na forma do sujeito de conhecimento. pô-las sob conceitos). ele elevou ao mais alto pedestal a glória da razão teorética ou científica. ou. Cit. pensamos este mesmo mundo. A nossa natureza é constituída de um tal modo que a intuição não pode ser senão sensível. intuições sem conceitos são cegas. tomada como verdade epistemológica. o juízo sintético a priori. Joaquim Carlos. Frente a isto. para Kant. Ob. 25 FGV DIREITO RIO 46 . antes.”23 Como diz Kant. acrescentar-lhes o objeto na intuição) quanto tornar as suas intuições compreensíveis (isto é.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendimento produzir representações. Essa perspectiva racionalista kantiana serviu de base para a sustentação de uma sociedade que busca a legitimação de suas instituições e do comportamento de seus agentes em postulados racionalistas. como último reduto da verdade mesma. o entendimento é a faculdade de pensar o objeto da intuição sensível. Immanuel.. o sujeito racional é a própria unidade do conhecimento na forma do eu penso. No entanto.

1996. Se a sentença é falsa. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. isoladas de fundamentos éticos. que acabou por determinar Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há o modo de produção do resultados a que se chegue. mas se for verdadeira. Para a aula. Mesmo a moral foi transformada pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Esse proela é verdadeira. então ela é falsa. Como fenômeno da relação com o criticismo kantiano. Independente dos conhecimento em todas as áreas do saber. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como de tal síntese. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. cultura o direito importa valores. 2003. 16. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. (Parte I. pois. Estado e Sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. em relação aos fins. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Capítulo VIII. Contudo. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. não há paradoxo. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como laridade e Manuel Atienza: contexto da descoberta do Direito de Miguel Reale e comente sua Jerzy Wróblewski na Teoria Tridimensional e contexto da justificação. Filosofia do direito. 1 Obrigatória KIRKHAM.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE então o que lê diz “é falso”. Por isso. Mas o problema aponta para o paradoxo real que 1 que mesmo em relação à verdade. “verdade das e o direito? Acreditar na verdade como produto de uma síntese entre entendimento e sensibilidade admitir que também o direito é produto leis”. complementar 20 CUNHA. Miguel. então o que lê diz “é verdadeiro”. José Ricardo. FGV DIREITO RIO 47 . Mas podemos dar uma cesso de embrutecimento da racionalidade científica e de autonomização da ciência versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: em relação ao mundo da vida. REALE. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. degenerando na forma de certas condutas consideradas meramente técnicas. n. . se o que ele diz é falso. No direito. São Leopoldo: Unisinos.Para uma boa síntese cf. sendo. jan/jul 2000. sentido moral ou ético. pesquise a chamada dialética de integração-poAqui. Richard L. No direito não basta a verdade pura e simples. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. o fato é muito tempo pela filosofia. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. constituído concomitantemente por fatos lidar com os problemas de insegurança jurídica? concretos e proposições abstratas que interagem reciprocamente. então em moralismo. Direito. como instrumento de dominação de certos grupos sociais. a partir do século XIX. Claro que. São Paulo: Saraiva. Do Conhecimento Quanto a Origem). que retirou de boa parte dos cientistas a sensibilidade A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA social e os fundamentos éticos da busca da verdade. não há apenas várias correntes ou definições. na verdade. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Teorias da Verdade. atingiu seu ápice com a hegeA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA monia absoluta do positivismo.

AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

NOTA 10. o positiVismo: Comte aUlaAO PROFESSOR

Tema AO ALUNO NOTAda aula

tema da aUla O positivismo filosófico.

O positivismo filosófico.
Objetivos da aula

ObjetivOs da aUla filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. Apresentar o positivismo

Apresentar o positivismo filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. DESENVOLVIMENTO
prepare-se para a aUla
A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela também um papel político para a

A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, manutenção da ordem. Isso quer dizer que, por um lado, o afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum positivismo se apresenta como uma teoria do conhecimento de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela capaz de apreender e desvendar a ordem natural dos também um papel político para a manutenção da ordem. Isso acontecimentos histórico, descobrindo leis gerais válidas para quer dizer que, por um lado, o positivismo se apresenta como todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma uma teoria do conhecimento capaz de apreender e desvendar a evolução intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, ordem natural dos acontecimentos histórico, descobrindo leis geo positivismo se apresenta como uma coordenação das ações políticas necessárias rais válidas para todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma evolução para a manutenção dessa ordem, que traz o desenvolvimento, e para uma eventual intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, o positivismo se apresenta correção de possíveis desvios. Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma coordenação das ações políticas necessárias para a manutenção dessa orcomo uma espécie de filosofia das filosofias, pois fornece a regra geral de dem que traz o desenvolvimento e para uma eventual correção de possíveis desvios. entendimento e interpretação de todos os acontecimentos históricos ao mesmo tempo Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma espécie de filosofia em que delimita os campos de intervenção da ação humana e fornece as regras de das filosofias, pois fornece a regra geral de entendimento e interpretação de todos como fazê-la. Para tanto, se opõe a qualquer tipo de saber que não esteja amparado os acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que delimita os campos de inem condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer tervenção da ação humana e fornece as regras de como fazê-la. Para tanto, se opõe a ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No qualquer tipo de saber que não esteja amparado em condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No lugar dessa ontologia99 caráter de metafísico, o positivismo, embalado pelo otimismo moderno, apresenta a ciência como verdadeira redentora e realizadora da promessa do conhecimento e do progresso. Comte acredita ter encontrado a filosofia natural a que Bacon tanto se referia sem, contudo, ter descoberto suas verdadeiras regras de funcionamento. Observar e descobrir o funcionamento da natureza é o ponto de partida para uma ação racional sobre a própria natureza que assegure ao homem um lugar privilegiado no mundo, isto é, um lugar de domínio que propicie uma natural evolução. Portanto, a filosofia
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positivista de Comte concede à ciência lugar de fundamental destaque, na medida em que a ela cabe fornecer o conhecimento do mundo e o plano de ação adequado ao seu manejo. Eis a síntese da perspectiva cientificista da filosofia positivista: ver para prever e prever para controlar. Afirma Comte:
“Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte de trabalhos da espécie humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a verdadeira base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos fenômenos, cujo resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evidentemente pode nos conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um fenômeno por outro, tudo isso em nosso proveito... Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores.”26

Apesar dessa apresentação dos postulados e das pretensões do positivismo, ainda é necessário um esforço de definição. Usemos o seguinte conceito: positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. É uma doutrina porque é um conhecimento organizado a partir de um corpo teórico próprio e definido. A substância dessa doutrina filosófica é o paradoxo entre o real e o transcendente, onde o primeiro deve ser entendido como uma exterioridade observável e o segundo como a própria metafísica. Assim, o positivismo rejeita a cientificidade, ou seja, o caráter de verdade, de qualquer explicação baseada em argumentos metafísicos, rejeitando, por conseguinte, todas as idéias totalizantes e que não estejam fundamentadas no observável. Portanto, apenas no plano do real fenomênico é possível praticar a ciência e descobrir a verdade. Deve-se ter em conta que não basta a pura observação, o fenômeno observado deverá ser racionalizado para que possa ser apresentado na forma de enunciados, prognósticos e prescrições. Considerando a realidade como uma exterioridade observável, Comte entende que os fenômenos podem ser vistos, previstos e subsumidos por uma lei geral de funcionamento, de modo a ser controlado ou, pelo menos, passível de controle pela razão humana. Por isso mesmo, estrutura sua filosofia positivista em três momentos fundamentais: uma filosofia da história (momento filosófico), uma teoria ou classificação das ciências (momento epistemológico) e uma reforma das instituições políticas e morais (momento sociológico). Todos estes momentos devem ser submetidos à Lei Fundamental do Progresso do Espírito Humano, consubstanciada na evolução dos três estados que marcaram a existência dos homens: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, sendo este último a grande expressão da natureza e cultura humanas:
“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os
COmTE, augusto. Curso de Filosofia Positiva. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 23.
26

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efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinara para cada um uma santidade correspondente. Enfim, no estado positivo, o espírito humano reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.”27

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, no estado positivo, a crença (in)fundada em agentes sobrenaturais e forças abstratas, próprias dos estados teológico e metafísico, desaparece para dar lugar a uma nova crença: o poder da observação e da razão que, combinadas, formam a base da ciência. Note-se a influência de Hume e de Kant, conforme admite o próprio Comte, na descrença em torno de um absoluto ontológico ou mesmo na apropriação crítica da ciência, estabelecendo seus limites e possibilidades, ou, ainda como quer Kant, na compreensão da ciência como o resultado da articulação entre sentido e razão, com primazia normativa desta última, pois é ela que determina o significado dos dados empíricos absorvidos pelos sentidos. No estado positivo, é o conhecimento científico que determina a verdade e os seus meios de produção. Por isso, Comte afirma dois postulados epistemológicos básicos: 1) a negação de uma unidade absoluta intrínseca à realidade; 2) a afirmação de uma relatividade histórica do conhecimento que está sempre em progresso e se liga a dadas situações sociais.28 Com base nesses postulados, afirma três regras metodológicas essenciais para a ciência: 1) A busca do conhecimento implica a delimitação de um objeto específico de conhecimento; 2) O objeto – fenômeno – deve ser estudado sistematicamente nas suas relações constantes de concomitância e sucessão, até que se encontre sua lei geral de funcionamento; e 3) A descoberta científica da lei de funcionamento de um fenômeno, permite a previsão racional de seu comportamento, como forma de controle, segundo o dogma da invariabilidade das leis naturais.29 Assim, o positivismo produz uma filosofia da ciência que possui como fundamento a observação que, no entanto, pressupõe: 1) a possibilidade da objetividade do conhecimento; 2) uma organicidade própria dos fenômenos que são sustentados por funções naturalmente determinadas; e 3) uma harmonia intrínseca da realidade que decorre da organicidade dos fenômenos. Em

27 28

COmTE, augusto. Ob. Cit., p. 4.

COmTE, augusto. Discurso Sobre o Espírito Positivo. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 63. COmTE, augusto. Discurso Preliminar Sobre o Conjunto do Positivismo. são paulo: abril Cultural, 1983, pp. 108-110.
29

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Isso é o que será aprofundado nas lidar com os problemas de insegurança jurídica? aulas seguintes. por isso. . não há paradoxo. foram hegemonizados por leis”. COmTE. As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como conceitos positivistas de direito.1 Independente dos resultados a que se chegue. não há apenas várias correntes ou definições. Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. então o que lê diz “é verdadeiro”. leis invariáveis. No lugar da democracia. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. portanto. Por isso a definição da sociologia como uma física social que investiga o fenômeno social como um dado objetivo e natural. também produz a idéia de que a política pode ser vista como uma técnica de arranjo social. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. ocultando a questão fundamental das correlações de força e de busca pelo poder. que torna a política dependente da ciência. como se ciência e política fossem neutras. considerada por Comte como sendo anarquista. 113. descartando versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: previamente todas as prenoções ou preconceitos. chegando às suas leis gerais imutáveis.31 Todos esses aspectos foram. o fato é que mesmo em relação à verdade. toda sociedade é formada por uma estática social e por uma dinâmica social. Se a sentença é falsa. “verdade das e o direito? De muitas formas o positivismo influenciou o direito. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Contudo. Nesse sentido. é2) A sociedade pode. Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. 31 FGV DIREITO RIO 51 CONTEXTO DA Formas pelas quais chega-se à decisão. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. 30 lÖWY. de A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA tal forma. ser epistemologicareina uma falso”. então da natureza.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE outras palavras. na verdade. enraizados na consciência epistemológica moderna que se expandiram A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA por todas as formas de conhecimento. e sendo a segunda o resultado de suas leis gerais de evolução que lhe garante o desenvolvimento: progresso. se o que ele diz falso. para uma boa existência da sociedade e sua respectiva evolução. isentas de influências ideológicas na busca e na realização de uma “verdade pura”.. 17. bastaria a implantação de um Estado sociocrata intervencionista que garantisse o funcionamento dos órgão sociais. Mas o problema aponta para o paradoxo real queciências da sociedade. sendo conduzidas basicamente pelos seguintes princípios: 1) A sociedade é regida por leis naturais. Michael Lövy explica como as ciências sociais foram tomadas por este modelo epistemológico. capaz de conduzir o espírito humano numa trajetória moral evoluída e verdadeiramente livre. se tudo estiver em ordem. a ciência – com sua pluralidade de objetos e unidade metodológica – descobre as leis gerais imutáveis da estática (ordem) e da dinâmica (progresso). No direito. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Cit. Essa acepção positivista. Aqui. Para tanto. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. então o que lê diz “é harmonia natural. é exatamente isso que ocorre nas sociedades. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. p. sendo a primeira uma condição constante da sociedade que lhe garante a harmonia: ordem. mchael. neutra. inclusive pelo direito. augusto. Por isso. Mas podemos dar uma de forma objetiva. Todo o século XIX . mas se devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos. assegurando a vitalidade do organismo e evitando as disfunções socialmente patológicas que pudessem ou impedir o progresso. e da aristocracia. consoante concepção positivista.30 Segundo o positivismo.e a maior parte do século XX. independentes da vontade e da ação humanas. são paulo: Cortez. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. então ela é falsa. Para garantir a ordem que produz progresso. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. basta compreender que. considerada por ele reacionária. 1994. Ob. assim como as empregados pelas ciências da natureza. propõe uma sociocracia fundada no conhecimento científico da sociedade e. p. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. for verdadeira. haverá o progresso. No direito não basta a verdade pura e simples. mente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos e processos Claro que. 3) As pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. donde a crença que o progresso decorre da ordem. na vida social. livre de julgamentos de valor ou ideologias. isto é. sentido moral ou ético.

História da filosofia. complementar COING. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. (Capítulo I. 1995. 2002. René. Lisboa: Dom Quixote. In: CHÂTELET. Helmut. Elementos fundamentais da filosofia do direito. FGV DIREITO RIO 52 . Principais Doutrinas da Filosofia do Direito – Seção VIII A modernidade: positivismo e formalismo). A Filosofia Positivista de Augusto Comte. François.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória VERDENAL.

manifestando a implicação econômica da modernidade. As Consequências da Modernidade. são paulo: Cia das letras. petrópolis: Vozes. alain. a historiografia costuma apontar alguns acontecimentos históricos considerados como verdadeiras balizas. 32 FGV DIREITO RIO 53 . ObjetivOs da aUla Introduzir o problema da modernidade no contexto do marco epistemológico a partir da influência do positivismo. traduzindo uma intuição de que o moderno ou modernizado é melhor do que aquilo que lhe antecedia. por exemplo. De um ponto de vista mais acadêmico. marshall. Rio de Janeiro: Relume Dumará. É assim. para uma instigante visão psicanalítica da modernidade cf. é sempre contada pelos vencedores. o moderno costuma se ligar ao conceito de “modernização” (modernizar ou modernizado) que. a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. O Discurso Filosófico da Modernidade. ROUanET. A Reforma Protestante rompe com o tradicional monopólio da Igreja Católica na formulação da doutrina cristã e institui uma nova relação entre os homens e Deus. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. evidentemente. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. manifestando a implicação política da modernidade. sem embargo de certos elementos de análise que são comuns ao tema. Uma reforma e duas revoluções. TORaInE. BERman. de um conceito profundamente ideologizado. conforme os nomes já consagrados. 1987. BaUman. há muita diversidade quanto à definição do que seja moderno ou modernidade. Boaventura de souza. Rio de Janeiro: paz e Terra. quando se fala em modernizar o Estado ou modernizar uma empresa. Crítica da Modernidade. lisboa: Dom Quixote. sergio paulo. Mal-estar na Modernidade. 1986. são paulo: Unesp. Jürgen. plasTInO. Os fatos mais citados são a Reforma Protestante. 1990. são paulo: Cia das letras. por sua vez. Trata-se. falar de modernidade é falar também Cf. As Encruzilhadas do Labirinto I. Portanto. 1994. Carlos alberto. sanTOs. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. CasTORIaDIs. GIDDEns. HaBERmas. se articula com a idéia de eficiência. ainda não existem consensos sólidos quanto ao significado da palavra. 2001. Passa-se a idéia de que o Estado terá uma administração mais eficiente e a empresa uma produção mais eficiente. O Primado da Afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. Por si só. prepare-se para a aUla Embora não seja pouco comum o recurso ao conceito de modernidade para explicar ou mesmo adjetivar certas situações ou fenômenos. 1993. Zygmunt. 1997. Cornelius. como qualquer outra história. 1999. 1991. modernidade e ideologia CientiFiCista NOTA AO ALUNO tema da aUla Delimitações para a modernidade. manifestando a implicação teológica da modernidade. são paulo: Cortez. Modernidade e Ambivalência. evidenciam que a modernidade surge de uma profunda vocação para a ruptura e a mudança. anthony. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova relação entre Estado e sociedade civil. Buscando marcos para delimitar o período moderno.32 De um ponto de vista do senso comum. isso já oferece uma noção da força da modernidade que.

agora otimismoda sob a formaCopérnico violento eulinhas básicas de suas teorias se sustentavamdesnudadocultural próprio um modernidade. paulatinamente.poder do sujeito que. Afetividade: a “A ilustração é a saída do homem de sua menoridade. reprecategoria de ciência/tecnologia sentação ou expressão. para o qual conhecer modernidade. é na compreender melhor a questão.ao analisar a era moderna. agora que. ser traduzidas. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE relação entre Estado e sociedade civil. O primeiro moencarna. indivíduo. substituídas por ao quantificar. sobretudo a partir expressão. se trata é invenção do a partir Evidentemente. então o centro como estar em qualquer lugar. um universo infinito. 260.” o telescópioda tomado como telescópio ções que se da modernidade. que. já havia negado o geocentrismo.PLASTINO. Entre o sonho de Coterreno sem de Galileu. aponta aponta outros fatos fatos que considera determinantes: descoberta da dois que considera determinantes: a a desoutros dois coberta da América e a invenção do telescópio. do ser associado apontado por Hannah Arendt. artes. Hannah. trata-se do próprio conceito trata-se do próprio conceito de sujeito que é reinventado para designar aquele que de sujeito que é reinventado para designar aquele que pratica a ação. geografia – o homem passa a economia. O Primado da crítica freudiana ao paradigma moderno. como conceitos que lhe são fundamentais. política. que deixou de ser a religião para se instalar grande metáfora do do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e de todas as isoladamente. Evidentemente. Portanto. 1995. O outro colonização/invasão. Pratica a ação pratica a ação. por queNovodureza no imaginando buscou rocentrismo que buscou subjugar oviolento eurocentrismo que desnudado sob a forma de um tanta Mundo tratamento com Galileu poder reconstruir (heliocentrismo x geocentrismo) já não os mesmos se o que ele afirmava o paraíso terreno sem cometer subjugar o Novo Mundo imaginando poder reconstruir o paraíso era assim tão original ?erros jácoube a ele não apenas falar. ponovas compreensões em torno e econômicos. É sabido que este a de Galileu e ao teológicos. A Condição Humana. 260. como ser animal mas. manifestando a implicação teológica da modernidade. Dessa maneira. O primeiro América e a invenção do telescópio. controla os fenômenos sociais porque controla a ação. Hannah Arendt33 ao analisar a era moderna. que ela encontra seu mais alto 75 toda essa Forense epistemológica só foi padrão de definição. tão bem exposto por Kant: 76 . toda essa euforia epistemológica só foi possível graças possível graças às onde o rupturas que foram se produzindo. os naturais. No entanto. mas pensamento que realmente revolucionou a tessitura ontológica grandes na ciência. categoria de ciência/tecnologia Tribunais do Santo políticos e econômicos. artes. aquele otimismo cultural próprio da encarna. pode se libertar de todas uma vez obscurantistas. Trata-se as amarras do sujeito pode se libertar “esclarecido”. da sociedade ocidental a sucederam a partir daí. conhecimento –inclusive em cada indivíduo. É na racionalidade que reside o o poder “esclarecido”. que reside É na racionalidade sobretudo. a verdade saiu da revelação e foi para a razão. 1995. a invenção dodos objetos. Se o um mundo não é mais visto visto como um cosmo fechado. mas comoprópriouniverso infinito. com fato apontado pudessem invenção empiricamente suas teorias. . Evidentemente. em teoria. Tudo isso é possível porque o homem se destaca não apenas isso é possível porque o homem se destaca não apenas como ser animal mas. sobretudo. medicina. p. economia e política. daí. de Colomboee a realidade da experimentos que por Hannah tenha sido o maior genocídio daexata quantificadora. p. em teoria. como conceitos que lhe são fundamentais. importânciaonde o centralidaderenascentista produziuSeuma próprio mundo não é mais o nova crença na importância e na centralidade do ser humano. sucessivas humanismo renascentista produziu uma nova crença na 111 século XVI. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando aREnDT. “negligenciando as qualidades intrínsecas telescópio. os naturais. saindo da condicomo um protagonista que ção de “estar sujeito a”vai. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a 112 condução de um outro. não se trata daoinvençãodeve telescópio isoladamente. é sim o ícone maior e principal mas do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e 76 todas as grandes transformade Com efeito. uma vez de todas as amarras obscurantistas. A Condição Humana. mais alto padrão de definição. Tudo e. mas também provar Porque praticados no Velho Mundo. Em todas as áreas do conhecimento – economia. política. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. as quais podem. muitas vidas se perderam praticados no Velho uma linguagem o sonho portanto humanidade. maneira. e a um só tempo de teologia. Entrematemática. sobretudo a partir do do século XVI. não radical deslocamento do lugar da verdade. saindo da condição de “estar sujeito a” Na verdade. Pratica a ação porque controla a ação.ARENDT. se a idéia de modernidaPortanto. falar de modernidade é falar também e a um só tempo de teologia. 33 FGV DIREITO RIO 54 . Então. No entanto. manifestando a implicação econômica da modernidade. Carlos Alberto. houve um quantidades. É importante frisar este novo Arendt. pode estar pode um cosmo fechado. inclusive. Para partir do conceitos teológicos. voltemoslíticos conceitos telescópio. anteriormente. Dito de outra maneira. medicina. Hannah. Rio de Janeiro: euforia Universitária. economia e política.e Deus. mas como inclusive em cadaentão o centro Em todas as áreas do em qualquer lugar. representação ou às sucessivas rupturas que foram se produzindo. controla os fenômenos sociais e. é na cientista sofreu duro processo inquisitório por parte dos que ela encontra seu Ofício. paulatinamente. Dessa transformações que se partir do século XVII: a ciência. a demonstrar do telescópio. A partircometer os mesmos erros já no quetalvez lombo e a realidade da colonização/invasão. muitas vidas Mundo. inclusive. Trata-se do próprio credo Iluminista. da se perderam no que talvez tenha sido o ícone maior e principal fundamentoO outro fato fundamento epistemológico matematizado. o telescópio é tomado Portanto. aquele na defesa astronomia de de da dernidade. Na verdade. é sim o maior genocídio da humanidade. manifestando a implicação política da modernidade. da qual ele é o próprio responsável. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Evidentemente. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. como ser racional. a ciência passou a combinar suas teorias através do Telescópio. . como ser racional. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. geografia – o homem passa a ser reconhecido ser reconhecido como um protagonista que vai. fundamentosucederam a eventualmente. e na humanismo do ser humano. se a idéia de como a grande metáfora do pensamento que realmente revolucionou a tessitura de está ligada às ligada às novas compreensões modernidade está ontológica da sociedade ocidental a em torno de século XVII: a ciência. Hannah Arendt75.

36.de toda ideologias políticas ou tornou-se viga mestra cidas.ilustração in WEFFORT. O capitalismo pretendeu a liberdade nova ordem. reservando as expressões “liberalismo” e “socialismo” para uma designação de racional. abundância e felicidade. 83-84. assim. mas é o próprio fundamento da sociedade a atividade moderna. uma arquitetura baseada sobre 1994. é possível afirmar. a modernidade começa a alicerçar as fundações de uma realização de liberdade. Se num primeiro momento foi caracterizado pelo seu poder revolumetaforizada segundo de livre pensamento o comunismo pretendeu a cionário. a ordem social é. Ob. Alain. controlando as ações realização fazendo com que os fenômenos so.As expressões “capitalismo” e “comunismo” a idéia mais ampla buscando uma conotação mais buscando são aqui empregadas de uma sociedaeconômica do que política. e as ciências observam. alain. um conhecer e controlar a realidade mesma.Modernidade. É a presente desdeque oatividades científicas desempenha então o os modos de Esses razão. das proibições e dos privilégios. vamente. Alain. estando presente desde as atividades científicas ou técnicas até os modos 78 . com custos reduzidos. crítica das tradições. da cultura.(ou as abundância. escritores. Impulsionada por esse otimismo cultural. Petrópolis: Vozes. difundindo-se por toda a vida social. Cit. os indivíduos se crêem livres por estarem submetidos. TOURaInE. ordenam para a forma de administrar 35 sociedade racional. Conservar é garantir a ordem. 1994. uma próprio entendimento’ – esse é o lema da ilustração. já moderno pode ser caracterizadoliberdade por um profundo conservantismo. Crítica da único princípio de organização da vida pessoal e coletiva: “Às vezes. Emanuel.liberdade e da felicidade. buscando a homensmais ampla de uma séculos são dominados pelos legistas.). garantem um caminho previsível e necessário aos aconeconômico. neste na idéiamomento oiniciativa.TOURAINE. apenas. o sujeito produção potencializada pela tecnologia numa A metafísica da ordem não é apenas a base das explica como a razãoeconômicasamais conhe. responder por siem análises quanto às suas respectivas bifurcações internas e subtendências. Quanto à abundância. Sapere aude! ‘Tenha coragem de usar seu mediação dos conflitos. administrar os bens e as relações humanas. tornando o sujeito livre e capaz. fazendo da racionalização o moderna. antes de mais nada. apostando a primeira no livre mercado e a segunda no planejamento dominados pelo homem. especialmente os séculos XIX e XX. petrópolis: Vozes. Francisco (Org. a nova ordem.esteve sociedade de indivíduos livres e iguais perante o lei. Essa fórmula mento. É a grande aspiração da autonomia que parece indivíduos: sujeito autônomo é capaz de80 Sem recair mesmo e conduzir sua realizar-se. Novamente. todos idéia do livro. ela (a moder. 114 tornou-se a viga mestra de toda a atividade moderna. Trata-se felicidade seria uma conseqüência inevitável da liberdade e da ordem social. mas é o próprio fundamento da sociedade moderna. estando de direito.” os bens e as luminoso poder da modernista: a passa a ser entendido como aquele que pode Com o retrato razão.”34 ideologia de bem estar que promete conforto e segurança. da moder“Porque mesmo sonho deveria ser garantido pelo as práticas nidade da ordem não é em ordem que das ideologias políticas ou do A metafísicaprocuravam mais pôrapenas a basepôr em movimento: organização econômicas comércio e das regras de câmbio. nidade) imaginou a sociedade como uma ordem. p. mais as capital e o trabalho. Os Clássicos da Política. 38. 1993. Crítica da Modernidade. capaz linhas gerais. Para a garantia da humanas e desta promessa.79 Trata-se de uma concepção de bem estar que irá perpassar toda a modernidade. onde o direito é apresentado como único instrumento legítimo de para usá-lo sem a condução de um outro. Alain Touraine FGV DIREITO RIO 55 . em para vontade conforme seus interesses. exercer direitos e deveres como comunismo se ampararam na mesma promessa de que tanto capitalismo inerentes à sua natureza e posição social. Surge a figura do “sujeito de direito”. ao sua causa reside não na falta de entendimento. 80 . No. Alain Touraine enfatiza duas ideologias) adotaram distintos instrumentos estratégicos: no caso do capitalismo a dimensão ordenadora da ideologia modernista: caberia ao mercado garantir o sonho de liberdade. Numa ponta (econômica). as necessidades materiais da população. comandando também descobrir a ordem das coisas.. Com efeito. Forma-se. A razão possibilitaa cálculo e o discerni. uma vez comunista. esteve metaforizada na idéia de igualdade universal.TOURAINE. os dois sistemas ciais-históricos sejam analisados como fenômenos naturais. esta tomada comocentro da maior das conquistas modernas. noutra ponta (política). 34 35 relações humanas.de produção 79 . mas na falta de resolução e coragem império da lei. difundindo-se por toda a vida social. são paulo: Ática. classificam. já no caso do comunismo oas sociedades onde se desenvolveram o espírito e Estado. produção da cultura. O que é a mais acentuadamente política do que econômica. Na perspectiva da ordem presente no expressão corrida industrial travada pelas maiores potências capitalista e moderna. 2. Ocapitalismo e comunismo. que ou técnicas até papel principal. 36. difusão do livro. filósofos. fazendo da racionalização o pp. Já a de uma espécie de sociedade epistemológica que “naturaliza” a tecimentos. p. abundância e felicidade. a sociedade é vista como um conjunto de conhecimentos que. criação de uma administração pública e do Estado mais conhecidas. comandando também a forma de KanT. através de um crescente e sofisticado processo de industrialização e juridicização. Alain Touraine explica como a razão Vol. p. a produção ancorada em técnicas científicas produz em massa para EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE satisfazer. tanto no campo da ciência (cálculo) como identicamente presente nas duas principais ideologias modernas de emancipação dos no campo da moral (discernimento).

Georg W. Hegel. na verdade. Richard L.”37 Nessa esteira de pensamento. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Princípios da Filosofia do Direito. p. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. 1994. Crítica da Modernidade. Pode-se desqualificar prefácio do livro Princípios da Filosofia paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. F.”38 Eis que a razão se apresenta como consumadora de uma Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Carlos. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. 2001. 18. Escritos de Filosofia II: ética e cultura. Cit. 2003. para uma boa análise cf. Contudo. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Ob. (Capítulo 1. na verdade. 38 FGV DIREITO RIO 56 . bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. ainda dizer que tudo que ele diz é mentira. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer da lógica. então eladebruçamos. 37 HEGEl.”36 Entretanto. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. a lógica da ordem transformou-se em ordem da lógica. se chegue. 1995. pp. Teorias da Verdade. Georg W.. Mas podemos dar uma do que não é auto-referente sua famosa afirmação: “o que é racional é real e o que é real é racioversãoDireito. (Primeira DESCOBERTA . – A Modernidade Triunfante: Capítulo 1 – As Luzes da Razão. O Primado da Afetividade. sentido moral ou ético. 14. já que somente a razão é capaz de consubstanciar-se na história. alain. lidar com os problemas de insegurança jurídica? Aqui. então o que lê diz “é Essa espécie de divinização do homem é. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Rio de Janeiro: Relume Dumará. se por um lado desencantou a sociedade do sagrado divino e da mão salvadora de Deus. Por isso. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. No direito não basta a verdade pura e simples.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que mesmo em relação à verdade. mas se for verdadeira. lisboa: Guimarães Editores. certamente. o cálculo.) Formas pelas quais complementar 20 ARENDT. que foi adotada como fundamento da ordem Claro que. “verdade das Prepare-se para o debate estudando as formas possíveis de associação entre direito e ordem. TOURAINE. 183-184. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como epistemologia positivista no âmbito da modernidade. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Se a sentença é falsa. por outro lado reencantou o mundo com um tipo de “sagrado profano” produzido pelas mãos salvadoras do homem. Alain. ela a utilizou como uma arma crítica contra todos os poderes. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A Condição Humana. não há paradoxo. às vezes ela fez da razão um instrumento ao serviço dos interesses e do prazer dos indivíduos. sobre e tem pleno sentido gramatical: nal. finalmente. No direito. São Leopoldo: Unisinos. e às vezes. e um certo logicismo passou a predominar na visão de mundo moderna que. 36 HEGEl. A Psicanálise e a Questão do Paradigma). Petrópolis: Vozes. então o que lê diz “é falso”. 1990. TOURaInE. Leve em consideração a importância da leis”. um tributo à deusa razão verdadeiro”. ocorre que. no este modernidade. muito rapidamente. F. não há apenas várias correntes ou definições.Para uma boaParteKIRKHAM. toda ordem existente na sociedade só pode ser A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA racional. Independente irresistível. são paulo: loyola. 1993. o fato é ordem historicamente dos resultados a que 1 e o direito? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Cit. se o que ele diz é falso. Henrique de lima. como o A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA “eterno que é presente. Mas o problema aponta para o paradoxo real que é um dos que melhor nos oferece uma boa compreensão do racionalismo típico da pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. então ela é verdadeira. Ob. p. para libertar uma ‘natureza humana’ que havia esmagado a autoridade religiosa.. Hannah. 13. síntese cf. p. PLASTINO.quando nos é falsa. VaZ.

Para entender melhor: como é sabido. já que o próprio positivismo jurídico pode assim ser definido. 39 FGV DIREITO RIO 57 . sheldon. A primeira delas resulta da sua contextualização no sistema jurídico. ou sistemas jurídicos: 1) o Sistema Romano-Germânico ou Civil Law. ObjetivOs das aUlas Apresentar as diferentes formas pelas quais o positivismo se apresenta no direito e na idéia de “ciência do direito”. lEaDER. como o Japão. e o 2) Sistema da Common Law. por ser reducionista. In aRnaUD. são paulo: martins Fontes. Não que esteja errada tal concepção. uma das ambigüidades do positivismo. p. René. Assim. prepare-se para as aUlas A ciência do direito. Está baseado essencialmente nas normas legisladas. contudo. os positiVismos JUrÍdiCos e a CiÊnCia do direito NOTA AO ALUNO tema da aUla A influência do positivismo na ciência moderna do direito. diante das ambigüidades do positivismo jurídico.) Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. Da mesma forma que o termo positivismo enseja confusões semânticas. o direito ocidental estrutura-se na forma de duas grandes famílias. Caracteriza-se. ela não explica corretamente o conceito e os avatares do positivismo jurídico. 1996. O primeiro se desenvolveu na Europa continental e hoje está presente na maior parte do mundo. Está baseado nas decisões judiciais ou no reconhecimento das cortes de justiça dado aos costumes e princípios praticados na sociedade. a expressão positivismo jurídico também é sujeita a ambigüidades.39 Como foi dito. andré-Jean. tendo tomado impulso maior através da técnica da codificação. inclusive em alguns países orientais. Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo. se enquadra exatamente nesse esquema. resulta de um vício intelectual de muitos juristas do sistema romano-germânico. que tendem a confundir positivismo jurídico com legalismo. O segundo desenvolveu-se na Inglaterra e está presente em boa parte dos países de língua inglesa. se positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. Donde muitos ao ouvirem a palavra positivismo. Rio de Janeiro: Renovar. uma dicotomia inicial que é o cerne da abordagem positivista: a diferença entre um direito real e Cf. no campo do direito. e para uma melhor compreensão da idéia de ciência do direito – que se liga ao conceito de positivismo – o melhor é refazer os passos percorridos na definição do positivismo. 1999. conforme as premissas positivistas. Com efeito. (Org. Common Law. 104.positivismo jurídico é a doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto. aqui. DaVID.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUlas 12 e 13. logo pensam em “aplicação exata da lei”.

enquanto o transcendente absoluto corresponde ao “direito ideal”. tornando-o autônomo em relação ao filósofo. O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. TROpER.). sem fazer depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito ideal. andré-Jean. independentemente de influências externas. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. os termos dicotômicos: realidade jurídica como direito real versus transcendente absoluto como direito ideal. esta realidade ou exterioridade. Rio de Janeiro: Renovar. 1999. 7-50. seu funcionamento e sua aplicação.l. determinado no tempo e no espaço. Essa busca pelo jurídico como objeto da ciência do direito rendeu muita polêmica entre os próprios positivistas. portanto. Positivismo. norberto. pois a sua explicação precisa também define o objeto de estudo da ciência do direito. Esse objeto deve ser isolado dos demais aspectos da realidade social e estudado profundamente para que possam ser conhecidas suas características intrínsecas. este direito eticamente superior é reconhecido como o direito natural. não podendo ser objeto do trabalho dos juristas “científicos”. portugal [s. (Org. objeto da ciência jurídica. como um direito perfeito e. antónio manuel. 43 FGV DIREITO RIO 58 . no caso. Antes de qualquer coisa. exatamente. p. o juspositivista estuda tal direito real sem se perguntar se além deste existe também um direito ideal (como aquele natural). antes de mais nada. 41 HEspanHa. resta saber qual é. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. 607. Evidentemente.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE um direito ideal: “O direito. o positivismo jurídico é empirista e antimetafísico.”40 Nestes termos. uma clara e sólida perspectiva do positivismo jurídico: trata-se.. assim. 1995. Determinado que a realidade jurídica corresponde a uma exterioridade observável que deve ser objetivamente constatada.42 De qualquer maneira. como doutrina cientificista acerca do direito – ou a ciência do direito como manifestação metodológica do positivismo jurídico – reúne as seguintes premissas básicas: a) recusa a toda forma de subjetivismo ou moralidade. António Manuel Hespanha fala em “várias escolas positivistas”. que nem sempre concordaram quanto à sua delimitação exata. michel. In aRnaUD. um fenômeno. sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e. a resposta se mantém firme na idéia de que a realidade jurídica deve ser uma exterioridade observável. 1998. alegando que cada uma delas entendeu de uma forma determinada o fenômeno jurídico como objeto positivo de estudo. 174. de uma doutrina antitética ao direito natural ou jusnaturalismo. O positivismo jurídico. superior ao direito real. o jurídico deve ligar-se às normas do direito. O que está em questão é a própria concepção do jurídico que deve conformar o campo do cientista do direito. Henri. de tal maneira que revele uma lógica inerente ao direito que possa ser convertida pelo cientista em enunciados e prognósticos que conformem uma técnica jurídica aplicável pela prática do direito. Este direito ideal é assim considerado num sentido moral. BaTIFFOl. ou seja. BOBBIO. pois. sobretudo. pp. p. a realidade jurídica corresponde ao “direito real”. A única resposta capaz de pacificar os ânimos e manter coerência doutrinária. Ob. é aquele que efetivamente se manifesta na realidade histórico-social. sendo considerado pelos positivistas como questão filosófica. Cit. Na tradição jurídica. por isso. Temos. fenômeno jurídico. Apesar de vaga. 40 Cf. p.41 Na definição proposta para positivismo jurídico – doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto – destacam-se. são paulo: Ícone. 136. ao economista. todos os positivismos jurídicos43 convergem para o entendimento de que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente e aplicável.]: publicações Europa-américa. foi a seguinte: o objeto de estudo da ciência do direito é o fenômeno jurídico. ao sociólogo etc. 42 Cf.

em alemão. expectativa de um sistema jurídico c pretendeu regular de maneira absoluta a totalidade das situIdem. é a tradição. o direito (positivista) visto na sua maneira pura de manifestação.. historicismo. Há aqueles que chegam a negar ou. resultante da observação do fenômeno jurídico. conforme a vontade exata do legislador que foi a au FGV DIREITO RIO 59 Escola de Napoleão. Além disso.contudo. Em outras palavras. A su uma espécie de vinculação entre ambos: novo Código básica é a lei manifestada sob o rótulo de Civil. mais precisam o segundo [positivismo jurídico] através afirmar queradical do direito natural. possível de ser apl 102 103 44 45 46 No início do século XIX. Direito. sob a liderança de Savigny. na Escola Hist pela coletividade. consubstanciado. 1995. E 102 mesma coisa” século XIX. ao que seja uma forma No início do século XIX. o paradigma des direito antónio manuel. HEspanHa. do século XIX. que p. volksgeist. todavia. Há aqueles que chegam quanto ao que seja ciado. é a tradição. Este fato históripreparou o segundo [positivismo jurídico] através de sua crítica radical dojurídico”. foram várias as correntes positivistas que se formaram a partir de concepções específicas acerca da idéia de direito e fenômeno jurídico. Isto gerou no legal desta forma de positivismo foi o Código de Napoleão... mesmo que dura a lei deve ser aplicada. sob a liderança de são a mesma natural. quer artificialmente pelo Estado. a primeira [escola histórica] corrente positivista: o legalismo jurídico.44 Destarte.contudo. coerente e sem lacunas. Todavia. ao direito positivo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE b) cultivo de métodos objetivos e verificáveis. o fenômeno jurídico. positivismo foi o Código de Napole 103 de Cit. ao afirmar queo “escola histó.seu caráter positivista. dir competente que o elaborou e promulgou. é sem dúvida a mais p A primeira das correntes positivistas citadas. basicamente.” A forma sua forma historicismo jurídico. p. rituais ou procedimentos socialmente estabelecidos. entrou em vigor o novo são a de sua crítica Civil. todavia.contudo. o historicismo jurídico. regular de maneira absoluta a to aspecto fenomênico. 2) negação do direito natural como transcendência metafísica. basicamente. todavia. como Norberto Bobbio. sed lex. Bobbio re o historicismo Há aqueles que chegam a negar que seja uma forma de posi-entre ambos: “. corresponde a uma ameaça ou imposição real de uma força que se apresenta sob determinada forma. quatro correntes podem ser apontadas como as mais importantes: legalismo. são paulo: Ícone. como Norberto Bo afirmar que sem primeira mais polêmica quanto ao seu caráter positivista. na França Este fato expressão dura lex. conhecido como Código de Napoleão. A principal forma de consubstanciação do legalis . sendo aceito na medida em que se expressa dentro de A primeira formas. Em outras palavras. mesma coisa” . Mas o que conforma o direito positivo? Historicamente..” 45.. volksgeist. sob a liderança de Savigny. de abrangência. por isso. no mesmo passo. Bobbio reconhece uma espécie fenomênico. França em 1804. mais mesmo passo. como Norberto Bobbio. na Escola Histórica do Direito. que o legalismo jurídico. conhecido como Código de Napoleão. quer espontaneamente das correntes positivistas citadas. Bobbio reconhece No início do . Embora bem distintas entre si – basta imaginar como. conhecido como Código da Exegese. que também corresponde rica e positivismo jurídico não Savigny. co foi o marco para o surgimento da nova corrente positivista: Ob.jurídico] através de sua crítica radical d preparou segundo [positivismo Direito. Comoconsiderada paradigma como o “espírito do mo Jurídico: liçõesjuridicamente relevantes na s direito. ao mesmo tempo em que aceitam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente. o por Savigny povo” das situações de filosofia do o rótulo de “código jurídico”. mais precisamente na para o legalismo jurídico. é sem dúvida abásicano polêmica coisa” A forma mais aspecto mesmo passo. entre ambos: “. ou.não é consenso. 175. Como afirmado. 45. “escola histórica e positivismo jurídico não A dúvida a das correntes positivistas citadas. ao seu natural. c) exclusão de considerações valorativas de caráter político ou ético. consubstan. mesmo em casos semelhantes. entrou em vigor o “.. todos os teóricos do positivismo jurídico se ajustam a estas premissas. sociologismo e normativismo. a primeira [escola h uma jurídico. basicamente. d) produção de um corpo próprio de enunciados técnicos para aplicação específica em situações pertinentes.”46 “escola histórica e positivismo jurídico não França em 1804. éuma forma de positivismo. por exemplo – todas essas correntes são positivistas. o direito é um constrangimento que se impõe a indivíduos e grupos. o conceito de direito. espécie de vinculação na Escola Histórica do tivismo. do historicismo jurídico. entrou em vigor o novo Código e não há direito fora da lei. afirmado. A básica do básica é a lei manifestada sobtambém corresponde pretendeunorberto. o hist jurídico. considerada por Savigny como o “espírito d de vinculação quanto ao seu caráter positivista. isto é. maneira mecânica. O PositivisBOBBIO. pois se enquadram naquela definição geral onde se destacam dois critérios: 1) afirmação da realidade jurídica como fenômeno jurídico. Assim. todas esta correntes se sustentam sobre os dois princípios básicos e fundantes do positivismo jurídico: força e forma. no precihistórico foi o marco para o surgimento samente na França em 1804. todos os positivismos jurídicos concordam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito positivo. algumas com maior outras com menor projeção. em alemão. seria a diferença entre a sentença prolatada por um juiz sociologista e aquela outra por um juiz legalista.. Civil. Porém. consubstanciado.deprimeira [escola histórica] preparou a positivismo.

Já em termos de flexibilidade.” determinado no próprio ordenamento jurídico. epistemologia mais idealista todas serem positivistas. Fundamentos da Sociologia do sociologismo enquadrarem na mesma de validade do mesmo direito na idéia de Direito. necessariamente. influentes do positivismo jurídico: o normativismo. cabendo à direito subjetivo. na medida em que estes dizem respeito às coisas como éelas são e não. juridicamente relevantes. Talvez a principalsuas prescrições. aparece na obra de Eugen Ehrde garantia da ordem social. na medida em que estes dizem respeito às normativo. é válida a norma jurídica quando conforme as tradições e costumes de fornecer enunciados. cada uma seu entre elas. a forma básica do direito com outras normas das situações juridicamente relevantes. Enquanto para os direito alemão. a passível de promulgadas norma. Para esta cer enunciados. como sentido nos descrito. é destas a norma jurídica quando conforme as entre elas. e se buscam o fundamento obsessão cientificista. ou seja. Apesar de todas serem positivistas. nossa época. sociologismo o normativismo o ciência.prefácio deo livro que “tamocupam papel reivindicam cena si. caso – historicismo e sociologismo – mesma obsessão mais realista ou materialista. cada Em a seu modo. ou RIO 60 FGV DIREITO podemosseja. o fundamental normativismo buscarem o fundamento de validade do direito na idéiacientífica do direito no desenvolvimento do direito estatuto de ciência. mas na própria enquanto o legalismo e o normativismo são Isso do primeiro sistema. que não se reduz à lei.EHRlICH. não passível de ser procurado no daquelese que identificavam o direito como um fenômeno para os toleradas num certo espaço territorial. vão sendoinvestigação socioTransportada para o mundo jurídico. Kelsen. a uma indivíduos elas passível que tal prática mundo dos coisas como não são e não. Brasília: EdUnb. Talvez alegisladoresde positivismode destaque napara jurídica. Eugen. como devem ser. acreditando terem elaborado uma teoria dever ser – sollencapaz estatuto defundamento de validade do mesmo direito na idéiacientífica do direitoeficácia impõe identifica o direito a partir da estrutura lógica do de efetividade ou – que social. e A enquadrarem na à ordenamento jurídico. 7. num determinado momento histórico. como um fenôO sociologismodaqueles que identificavam o direito especialmente num determinado momento histórico. previsões caso de descumprimento de suas prescrições. como dever respeito às coisas como elas são e mais medida em que estes dizem ou direito subjetivo. que não normativo. é válida a que promulgadas pela autoridade competente conforme determinado no pró. existem competente e impõe entre descumprimento de destas judiciais que configuram determinadas sanções no caso de elas.estatal devem ser. portanto. uma das formas mais O sociologismo jurídico enfrentou fortes maior de especialmente jurídica é ato de vontade da autoridade estatal competente e vai desde a Constituiinfluentes do positivismo jurídico: normativismo. O sociologismo jurídico enfrentou fortes críticas. importanteao afirmar no seu primeiros os principal destas diferenças resida no fato do legalismosegun. ou seja. jurídica aplicável ao caso concreto. portanto. no corresponde fatos. acreditando tejurídica rem elaborado umaconcreto. como em Essas quatro formas bém em dos são os juizes que desempenham esse papel. necessariamente. se o normativismo identifica o direito a partir davontade da autoridade estatal –significativas diferençasdesde a estrutura lógica do dever ser sollen – que vai mesma obsessão cientificista. espontaneamente. vão sendo mais praticadas meno normativo. sistemas jurídicos romano-germânico evigor conforme na jurisprudência ou na aplicaválida a norma jurídica desde e prognósticos acerca do conjunto das situações de de positivismo com os previsões que tenha entrado em da common law: ção do direito. existem significativas diferenças lich. o Essas quatroordenamentopositivismo reivindicam historicismo e o uma síntese. Apesar de todas serem hierarquicamente superiores positivistas. reivindicam caso si. Para estafoi o caso de Kelsen. necessidade de Kelsen.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ações juridicamente relevantes na sua área de abrangência. sociedade. fundador e representante maior de uma das formas não. como disposta nos códigos.normas norma jurídica desde que tenha entrado em vigor em concordância com outras prio formas de jurídico. o direito corresponde às práticas sociais que se formam necessidade jurídica. gerando mundo dos fatos. As normas são nãoforma básicaser procuradopelamundo dos competente corrente. como dever oulei refletir tais práticas. no sentido e o cismo e o sociologismo são mais afeitos ao segundo. válidas desde que do direito é a no autoridade se reduz em concordância com outras normas hierarquicamente superiores do ordenamento à lei. a convicção de ser procuradocomo devem ser. previsões e prognósticos acerca do conjunto que promulgadas pela autoridade competente em concordância é a norma. para os a e do modo. Issodo ordenamento si. da autoridade como positivismo Esse vai o para de Essas quatro formas de competente e foi desde a Constituição uma a seurepresentante maior de uma dasnorma fundador e modo. Apesar deou formalista e no segundono sentido aqui descrito. No primeiro caso – legalismo e normativismo – podemos falar numa tação do sociologismo jurídico juridicamente relevantes. sociólogo do e se enquadrarem nanuma epistemologia cientificista. A principal forma de consubstanciação do legalismo foi a Escola da Exegese. daqueles que identificavam o direito como jurídica aplicável Para esta ção até as sentenças judiciais que configuram norma o um fenômenoao caso concreto. A norma fundador e representante críticas. na França do século XIX. As normas são válidas desde validade do direito na idéia de vigência. Talvez a principal válida diferenças resida no fato do legalismo e do tradiçõesnormativismo da sociedade.47 Para o sociologismo juríindivíduos a convicção de que tal prática corresponde a uma dico. pois enquanto o historicismo e o legalismo tendem p. que não se reduz corrente. portanto. realista ou o historicismo e o . 47 efetividade ou eficácia social. Esse aspecto coincide com a vinculação dessas ou capaz direito que emerge daacreditando terem elaborado uma teoria de vigência. naEsse foi o casojurídica. o judiciais que configuram formas mais cada até as sentenças estatuto de ciência. o histori. típicos porque o historicismo aqui descrito. nodisposta aqui Em síntese.resida no fato norma Constituição até as sentenças diferenças como forma do legalismo e do normativismo buscarem o fundamento de de garantia da ordem social. ou seja. vontade necessariamente. existem significativas diferenças temos uma mudança nos pares.não está no ato de legislar nem seja. buscam hierarquicamente superiores porque o para jurídico. especialmente jurídico enfrentou fortes críticas. 1986. As normas são capaz de desde aplicável ao do positivismo jurídico:direito válidas forneinfluentes caso teoria científica do o normativismo. pois traduzem nos casos concretos o todos os tempos. A norma jurídica ato de fatos. é válida a norma mais idealista ou formalista e no segundo vigor – falar numa epistemologia jurídica desde que tenha entrado em caso conforme historicismo e sociologismo – numa epistemologia maisIsso porque materialista. a mais praticadas lógica identifica direito forma do fato ou para os e toleradas num certoo espaçonaterritorial.sociedade. códigos. Esse corrente. norma jurídica é ato de do lei. No primeiro caso – legalismo e normativismo – e costumes buscarem o fundamento de validade do direito na idéia de vigência.for. a forma básica do direito é a norma. gerandocostume que brota diretamente do seio social. é masfornecer enunciados. como disposta nos códigos. jurídico. como forma determinadas sanções no e prognósticos acerca do conjunto das situações Uma interessante manifesda sociedade. determinado no próprio ordenamento jurídico.

e Seção 8. a questão da “ciência do direito” foi enfrentada durante os séculos XIX e XX sob a influência maior do positivismo e. o fenômeno jurídico.) HESPANHA. FGV DIREITO RIO 61 . Henri. a forma observável do direito.d. Portugal: Publicações Europa-América. A Filosofia do Direito.3. As Escolas Clássicas do século XIX). Lisboa: Editorial Notícias. António Manuel. complementar MIAILLE. O Direito na Época Contemporânea – Seção 8. Introdução Crítica ao Direito. o sociologismo e o normativismo já admitem maior mobilidade no conteúdo das normas jurídicas. Todas negam o direito natural e afirmam a realidade jurídica como um fenômeno observável. só mudando após firme e convicta resistência de muitos anos. (Capítulo 8.]. resulta da figura dos “códigos”. o sociologismo é sem dúvida o mais dinâmico já que as práticas sociais estão em constante mutação. Com efeito. Já no caso do legalismo. bibliOGrafia Obrigatória BATIFFOL. [s. Na situação inversa. Os Positivismos. 1989.2. Positivismo e Cientismo. O conservadorismo do historicismo se explica pelo fato das tradições serem sempre muito arraigadas na cultura dos povos. exatamente. A dinamicidade do normativismo se explica pela liberdade da vontade do legislador que pode a todo momento modificar as normas jurídicas.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE a maior dureza e conservadorismo. além de serem reconhecidos os diversos níveis hierárquicos do Estado competentes para legislar. essas formas de positivismos jurídicos apresentadas foram as respostas mais veementes já produzidas no âmbito da epistemologia jurídica e da filosofia do direito. por isso mesmo. isto é. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. que são sempre promulgados como obras acabadas e completas para terem longa estabilidade. 1998. (Capítulo I.3. Lisboa: Editorial Estampa.mas divergem quanto à explicação em torno do que seja. (Primeira Parte – Epistemologia e Direito). Michel. de maior grau de flexibilidade.

leciona e pesquisa nas áreas de Filosofi a do Direito e Direitos Humanos. FGV DIREITO RIO 62 . do Conselho nacional de pesquisa e pós-Graduação em Direito. mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela pUC-Rio e Bacharel em Direito pela UFRJ. autor de livros e artigos em revistas especializadas nas temáticas de Filosofi a e Teoria do Direito. membro da associação Brasileira de Ensino do Direito. professor adjunto da Faculdade de Direito UERJ. Direitos Humanos e Direitos da Criança e do adolescente. onde leciona na graduação. mestrado e doutorado.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE JosÉ riCardo CUnHa Doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de santa Catarina. e da associação nacional de pós-Graduação e pesquisa em Direitos Humanos. professor adjunto e Coordenador da Graduação da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR aDmInIsTRaTIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR aCaDÊmICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE pÓs-GRaDUaÇÃO pROFEssOR COORDEnaDOR DO pROGRama DE CapaCITaÇÃO Em pODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos COORDEnaDOR DO CEnTRO DE TECnOlOGIa E sOCIEDaDE Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDEnaDOR aCaDÊmICO Da GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE EnsInO Da GRaDUaÇÃO Tânia Rangel COORDEnaDORa DE maTERIal DIDÁTICO COORDEnaDORa DE aTIVIDaDEs COmplEmEnTaREs Ana Maria Barros Vivian Barros Martins COORDEnaDORa DE TRaBalHO DE COnClUsÃO DE CURsO COORDEnaDOREs DO nÚClEO DE pRÁTICas JURÍDICas COORDEnaDORa DE sECRETaRIa DE GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE FInanÇas COORDEnaDORa DE maRKETInG EsTRaTÉGICO E planEJamEnTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO RIO 63 .

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