Você está na página 1de 31

Parabéns para você

- Pa... rabéns pra v-vo... cê... n-nessa da... ta... querida... – uma voz entrecortada foi
cantando entre soluços. – M-muitas... fe... felicidades...

Sozinha no escuro, sentindo somente frio, dor e solidão, Agnes voltou a chorar com
toda sua dor.

Ela estava sentada no chão frio e duro sem nada para aquecer seu corpo a não ser um
fino vestido de algodão cru. Suas mãos e pés estavam acorrentados e cada parte do seu
corpo doía. Era provável que uma costela estivesse quebrada.

- M-muitos a-anos d-de vi... da...

Sua noção do tempo se perdeu totalmente e ela não sabia se estava ali por horas, dias ou
mesmo semana. Mesmo sem saber quanto tempo tinha se passado, ela lembrava muito
bem de como tinha sido aquele dia que deveria ser tão especial.

De manhã bem cedo, antes de todo mundo acordar, a primeira coisa que ela fez foi
alimentar seus queridos pássaros e limpar as gaiolas. Eram dois canários, um pintassilgo
e um rouxinol. Todos acomodados em grandes gaiolas em seu quarto e perto da janela
para que pudessem receber a luz do sol.

- Bom dia, meus bichinhos! Hoje é meu aniversario! Vocês vão cantar parabéns para
mim? – ela falou enquanto limpava as gaiolas, trocava a água e dava comida. Enquanto
isso, os pássaros cantavam lindamente enchendo seu coração de alegria.

Foi muito difícil convencer seus pais a deixar que criasse pássaros e ela ainda custava a
acreditar que eles tinham permitido tal luxo uma vez que membros da Vinha não
aceitavam nenhum tipo de futilidade e isso incluía animais de estimação. Mas como os
pássaros eram pequenos, não ocupavam muito espaço e nem faziam sujeira, eles
acabaram cedendo contanto que ela redobrasse seus esforços para ser boa filha e
desempenhar bem suas tarefas. E ela cumpriu o acordo à risca sem falhar nem um
milímetro.

Sim, ela sempre fez tudo por eles e cumpria todas as exigências, por mais absurdas que
fossem. E sempre que possível, fazia ainda mais. Na escola ela tinha as melhores notas.
Todos os livros sobre prendas domésticas, etiquetas e regras sobre a boa esposa e dona
de casa foram decorados rapidamente e ela podia até citar vários trechos de cor.

Ela sabia lavar, passar, cozinhar todos os pratos permitidos pela organização, costurar,
bordar, fazer tricô, crochê, arrumar e administrar uma casa com perfeição. Seus modos
eram o de uma verdadeira dama. Sempre calma, silenciosa, gestos delicados e modos
impecáveis. Ela nunca discutiu, nunca levantou a voz uma única vez, nunca respondeu
mal.

Sempre que era castigada, ela aceitava humildemente e sempre se desculpava.

- Me perdoe, mãe. Sei que fui muito má. Por favor, me castigue como achar melhor. – E
sua mãe fazia exatamente isso, sem a menor piedade. Mesmo assim ela nunca reclamou
porque achava que era sua culpa. Ela não era boa o suficiente para ter o amor dos seus
pais, por isso tinha que ser punida.

Se quisesse ser amada por eles, tinha que melhorar muito e ser perfeita. E ela conseguiu.

Foi por isso que ao completar quinze anos ela realmente acreditou que ia receber algo
especial. Não era costume na sua família fazer festas de aniversário. Nem um mísero
presente ou um parabéns. A data sempre passava em branco. Só que daquela vez era
uma data especial, pois era o momento da transição entre a infância e a vida adulta.

Claro que ela não esperava nenhuma festa surpresa com balões coloridos, confetes, bolo
e doces. Aquilo estava à anos-luz de distância da sua realidade. Ela apenas esperava um
pouco de reconhecimento por parte dos seus pais, que eles vissem o quanto ela se
esforçou para ser a filha perfeita e lhes deixar orgulhosos.

Isso não aconteceu. E nunca ia acontecer.

Agnes tentou se mexer e seu corpo doeu mais ainda. Sua mãe tinha lhe castigado
momentos antes. Ou foi horas? Ela não sabia. A mulher lhe espancou sem nenhuma
piedade usando um cabo de vassoura, tomando cuidado somente de não deixar marcas
permanentes porque não desagradar seu futuro marido.

- Estou fazendo isso para o seu bem. – A mulher falou ofegante e suada depois te ter lhe
aplicado mais uma “correção”. – Se você não se dobrar aqui, vai ser quebrada no
confinamento. – e foi embora sem dizer mais nada, lhe deixando sozinha na escuridão.

O pior era o silêncio e a escuridão ao seu redor. O porão da casa era totalmente fechado,
não tinha nenhuma janela ou ventilação. Ela não podia ouvir nada ao seu redor e não
enxergava nem dez centímetros à sua frente. A única luz que tinha era para ver sua mãe
lhe espancando de novo e de novo. A luz acabou se tornando algo ruim e perigoso, ficar
no escuro representava segurança. Enquanto tudo estava escuro, tudo bem. Mas quando
via a luz da lanterna no alto da escada, significava sua mãe vindo para lhe torturar de
novo.

E tudo isso porque ela ousou questionar seus pais somente uma vez, uma única vez.

Após alimentar os pássaros, ela fez sua cama caprichosamente, trocou de roupa, penteou
os cabelos conforme uma dama deveria fazer e desceu para ajudar a empregada com o
café da manhã. Apesar de a mulher ser capaz de fazer tudo sozinha, Agnes queria se
certificar de que tudo fosse feito do jeito que seus pais queriam.

A mesa foi posta com tudo nos seus devidos lugares. Pratos limpos, guardanapos bem
dobrados, talheres polidos. Havia um bule de café fumegante do jeito que seu pai
gostava. Forte e sem açúcar. Uma cesta com alguns pães, outra com biscoitos água e sal
e o pote de manteiga. Geralmente era esse o café da família.

- Bom dia, pai. Bom dia mãe. – ela cumprimentou com muita formalidade. – O café está
servido.
A Srta. Duister olhou para a mesa com olhos críticos, claramente à procura de algo para
criticar. Como não achou nada, fez uma carranca de desagrado e sentou-se à mesa junto
com o marido e Boris. Ela os serviu como sempre. O Sr. Duiser era sempre o primeiro
em tudo e ganhou uma boa xícara de café, pão com manteiga e vários biscoitos. Boris
recebeu a mesma coisa. Ela e Agnes ficaram só com um pouco de café e quatro
biscoitos para cada uma. Boris e seu pai podiam comer o quanto quisessem e repetir
porque eram homens e sempre mereciam o melhor. As mulheres, pelo que lhe
ensinaram, não trabalhavam duro e não precisavam de tanta comida assim.

A família fez a refeição em silêncio, como sempre. Seus pais odiavam qualquer tipo de
conversa à mesa. Quando terminaram, todos foram para a sala de estar e seu pai falou
para Boris com muita formalidade.

- Aqui está. – começou lhe dando uma caixa. – Hoje você completa quinze anos e já é
um homem. E homens devem usar isso.

Boris abriu a caixa e tirou de lá um bonito relógio de bolso. Pelo que ela sabia, só
membros do conselho usavam algo assim.

- Um dia você vai me substituir no conselho, então deve ter o seu próprio relógio.
Começarei a te ensinar ainda hoje.
- E você também irá usar calças compridas, porque já é um homem. – ela ouviu sua mãe
falar. – As roupas novas estão no seu quarto, em cima da sua cama.

Deu para ver como ele ficou feliz e ela sentiu inveja, mas sabia que sua vez ia chegar
logo. E de fato chegou com o som da campainha.

- Agnes, vá atender a porta!

Mais do que depressa ela obedeceu e deu de cara com dois homens desconhecidos.

- Pois não? – perguntou educadamente.


- O Sr. Duister nos chamou.
- Sim, podem entrar. – sua mãe disse. – Chegaram na hora certa. Agnes, mostre a eles o
caminho para o seu quarto.
- Meu... quarto? – a moça olhou para a mulher sem entender.
- Sim. Eles vieram levar aqueles pássaros estúpidos embora.
- Levar... embora... o que vão fazer com eles? – Sra. Duister a olhou como se tivesse
ouvido alguma ofensa e respondeu rispidamente.
- Vão ficar com eles, soltar, cozinhar com batatas, eu não me importo. Só quero que
levem esses malditos pássaros para longe daqui. Toleramos isso tempo demais, agora
chega.
- Mas...

Seu pai entrou na conversa.

- Você já tem quinze anos e está na hora de se preparar para o casamento. Você terá que
se dedicar totalmente ao seu marido e as necessidades dele, não pode haver espaço para
esse tipo de coisa em sua vida. Então é melhor ir se acostumando desde já. Estamos te
fazendo um favor.
Ela abriu a boca, fechou e abriu de novo sem emitir nenhum som. O correto seria dizer
“sim senhor” e obedecer. Era o que ela faria em qualquer situação. Mas não daquela
vez. Aquilo foi demais para ela.

- Pai, mãe, por favor, não tirem os meus pássaros! Eu farei tudo o que vocês quiserem,
qualquer coisa!

Seu pai fechou a cara e ela se encolheu de medo porque ele a olhou com tanta raiva que
por um instante pensou que ia levar uma surra monumental.

- Você vai fazer tudo o que eu mandar de qualquer jeito! Não tenho que te dar nada em
troca porque é sua obrigação me obedecer!
- Por favor... – ela murmurou com um fio de voz – Eu sempre fiz tudo que vocês
mandaram! Me esforcei para ser boa filha, dei o melhor de mim...
- Não fez mais que sua obrigação! – Sra. Duister ralhou. – Agora tire aquelas gaiolas
dessa casa rápido!

Ela engoliu, respirou fundo, apertou as mãos com força e disse.

- Não, por favor! Meus pássaros não! – falou só um pouco mais alto.

Eles olharam para ela com os olhos arregalados, rostos vermelhos, lábios apertados de
tanta raiva. Antes que ela pudesse reagir, uma mão pesada acertou seu rosto lhe jogando
no chão.

- Como você ousa levantar a voz para mim? Mulher, por acaso foi essa a educação que
você deu para ela?
- Não, nunca! Eu a eduquei muito bem! – falou assustada, pois aquilo podia sobrar para
ela também.

Boris correu para ajudar Agnes a levantar e seu pai segurou seu braço, puxando-o para
longe.

- Por favor, ela não fez por mal! – o rapaz tentou dizer e calou-se diante do olhar do seu
pai. Era inútil tentar defendê-la. Eles nunca iam lhe dar ouvidos e ele acabaria sofrendo
o mesmo castigo.
- Ensine essa desavergonhada qual é o lugar dela. – O homem disse e sua esposa teve
que obedecer.
- Venha agora mesmo sua monstra! – a mulher pegou a filha pela mão, fez com que se
levantasse num gesto brusco e a levou até o porão. – Você vai aprender a respeitar o seu
pai nem que seja na marra!

E eles lhe aplicaram o pior castigo de todos. Agnes já foi castigada várias vezes ao
longo da sua vida. Sempre pelas menores faltas, pequenos deslizes, coisas mínimas para
as quais os outros pais sequer dariam atenção. Muitas vezes aconteceu de ela e Boris
fazerem a mesma coisa, mas somente ela ser punida. Ela já ficou ajoelhada no milho por
várias horas, já ficou trancada no quarto por quase três dias inteiro só recebendo pão e
água e mais de uma vez seus pais a levaram para lhe mostrar as moças rebeldes que
ficavam no confinamento e ameaçavam lhe dar o mesmo destino caso não fosse a boa
filha que eles queriam. E vários outros castigos físicos.

Mas aquele era o pior castigo de todos. Moças rebeldes normalmente eram levadas ao
confinamento onde eram quebradas de tal forma que nunca mais conseguiam juntar os
pedaços de novo. Só que isso costumava ser uma vergonha para as famílias e eles só
faziam isso como último recurso. Geralmente elas eram punidas em casa primeiro.

E assim estava sendo o dia que ela imaginou ser o mais especial da sua vida inteira. O
dia em que seus pais iam finalmente reconhecer seus esforços para ser uma boa filha.

Um facho de luz atraiu sua atenção e lhe encheu de pavor, pois luz significava dor,
castigo e punição. No entanto, ela viu que era seu pai e por um instante pensou ele
estava ali para livrá-la do castigo. Seu alivio logo se dissipou ao ver que ele carregava
algo em sua mão.

- Você é mulher e precisa aprender o seu lugar. – Disse com frieza. - Nunca retruque um
homem, nunca questione, conteste e nem responda. Seja grata por eu estar fazendo isso,
porque quando você casar seu marido poderá fazer muito pior. Eu estou te educando
agora para você não passar por isso no futuro. Vire-se de costas.

Ela ficou paralisada, pois não acreditava que seu pai estava fazendo aquilo. Ele agia
como se fazer aquilo lhe causasse pesar, mas ela olhou em seus olhos e viu um prazer
sádico em torturá-la. Ele realmente queria fazer aquilo, talvez sempre quisesse e não fez
por falta de oportunidade.

- Faça o que eu estou mandando ou será muito pior!


- Pai...
- Eu serei cuidadoso para não te machucar, pois não quero desagradar ao seu futuro
marido. Mas não me provoque ou eu posso não conseguir me controlar!

Foi com muita dificuldade que ela obedeceu com as lágrimas caindo em abundância.
Definitivamente algo se quebrou dentro dela. Seus pais eram pessoas frias, insensíveis e
cruéis que não se importavam com ela nem um pouco. Tantos anos de dedicação para
ser a filha perfeita não valeram de nada. Eles não a amavam, não tinham nem a menor
consideração por ela.

Para eles, ela era apenas uma coisa sem vontade própria que podiam dispor como
quisessem. Eles não se importavam com os seus sentimentos, nem com o seu bem estar.

Pensar nisso fez com que um ódio descomunal surgisse dentro dela pela primeira vez.
Ela os amou, esperou qualquer migalha de afeto e só recebeu ódio, castigos e punições
em troca. Aqueles dois eram monstros, duas pessoas de coração frio e perverso que não
mereciam o seu amor, muito menos seu carinho e consideração.

Ela ouviu seu pai movimentando o chicote se preparando para o primeiro golpe e fechou
os olhos com força. Mesmo sem ver nada, ela pode sentir o braço dele se erguendo para
dar o primeiro golpe. Então aconteceu. Seus lábios se moveram numa súplica muda e
desesperada, implorando para qualquer coisa, entidade, ser, o que quer que pudesse
ouvi-la, para ajudá-la a sair daquele inferno. Ela pediu socorro, implorou, disse que faria
qualquer coisa, que até venderia sua alma se fosse preciso para poder ter mais liberdade
e seguir sua vida como quisesse e livre daqueles castigos cruéis.

A chicotada esperada não veio e tudo ficou em silêncio. A temperatura ao seu redor caiu
mais ainda e Agnes sentiu como se o chão debaixo dela tivesse deixado de existir. Ela
abriu os olhos rapidamente e viu a maior escuridão de toda sua vida. Era como se ela
estivesse imersa em uma massa compacta e escura que lhe segurava e amparava seu
corpo ferido.

- O-onde eu estou? – sussurrou com um pouco de medo.


- Você está nas sombras. – uma voz estranha respondeu ecoando dentro de sua cabeça.
Não era uma voz humana. Não era nem mesmo uma voz e sim palavras que se
formavam na sua mente e que não vinham dela. – Você está segura e protegida. Nós
vamos proteger você de todo o mal.
- Quem são vocês?
- O povo das sombras. Somos aqueles que vão dominar esse mundo quando a Serpente
finalmente voltar.
- Serpente?
- A Serpente fará um novo mundo. E você poderá fazer parte dele se nos ajudar.

A moça estava começando a ficar interessada.

- Poderei ser livre? Vou ter meus pássaros de volta?


- Você terá tudo o que quiser. A Serpente irá te recompensar muito bem. Nunca mais
seus pais lhe farão mal de novo. Você terá poder, terá voz. Terá tudo.

O medo tinha sumido totalmente, cedendo lugar à esperança de dias melhores.

- O que eu devo fazer? Por favor, me ajude! Eu faço qualquer coisa para a Serpente
voltar!
- Sua alma. Venda a sua alma. Você pertencerá a Serpente e trabalhará preparando o
mundo para a sua volta. Se aceitar, será recompensada de formas que nem imagina. Se
recusar, seu pai a aguarda.

Ao lembrar do seu pai pronto para lhe chicotear sem piedade nenhuma, Agnes não
pensou duas vezes.

- Eu aceito, de todo coração! Se é minha alma que a Serpente quer, é o que ela terá!
- Feito. – a voz simplesmente disse e Agnes sentiu um pouco de ardência nas costelas,
no lado esquerdo. – De hoje em diante, você é o cavalo negro da fome. Sua missão é
sugar a vida das pessoas!
- Sugar as pessoas? – aquilo não parecia exatamente algo bom para se fazer. Ela queria
apenas ser livre, não machucar as pessoas.
- O pacto com a serpente é capaz de sugar a sua vida. Então absorva o máximo que
puder das outras pessoas, se alimente de toda luz, alegria e vida de todos ao seu redor.
Você permanecerá jovem e bela. E as pessoas vão temê-la e te respeitar. Seus pais não
terão forças para dominá-la.

Seus pais lhe negaram amor, negaram carinho, afeto e atenção. Ela nunca teve
momentos de alegria nem com eles, nem com ninguém. Nunca foi feliz de verdade,
apenas viveu uma ilusão. Sendo assim, ela estava decidida a absorver de todo mundo
tudo o que ela sempre quis e lhe foi negado até saciar sua fome.

- Eu farei isso. – Ela disse com plena certeza do que queria.


- Lembre-se de que sempre estaremos com você e sempre a protegeremos. Se precisar
de algo, peça para as sombras.

A escuridão ao seu redor foi dissolvida e Agnes voltou ao porão no instante que seu pai
ia lhe dar a primeira chicotada. Ela nunca tinha feito aquilo antes, mas pareceu intuitivo.
Bastou apenas um pouco de concentração e ela ouviu o baque de um corpo caindo atrás
dela.

- Agnes... o que está acontecendo? – seu pai perguntou com a voz muito fraca. Ela
virou-se e o viu caído no chão e parecia muito fraco. Em compensação, ela se sentiu
mais forte.

O castigo teve que ser encerrado ali mesmo. Nenhum dos dois conseguiu lhe dar
nenhuma punição. Aquele foi o último castigo que o casal lhe aplicou na vida toda.
O tempo passou e Agnes estava adorando o seu novo dom. Os hematomas sumiram
rapidamente do seu corpo graças a energia que estava sugando das pessoas ao seu redor.
Aquilo lhe alimentava mais do que qualquer tipo de comida. Lhe deixava forte,
saudável e sempre bem disposta. Quando ia para a escola tudo ficava melhor porque
tinha grande quantidade de energia para absorver, um pouco de cada pessoa.

Com o tempo ela aprendeu a usar seu poder e entendeu que era mais vantajoso absorver
pequenas porções de muitas pessoas para que elas pudessem se recompor e lhe
alimentar de novo no futuro. Quanto a sua família, ela procurou ter cuidado porque não
queria matá-los. Mas absorver seus pais os mantinha sob controle até certo ponto. Eles
ainda tinham autoridade, mas pouca disposição para aplicarem qualquer castigo.

Claro que ela ainda não era totalmente livre como queria. As sombras lhe disseram que
no momento, era impossível a Serpente voltar. Ia levar muitos anos e ela tinha que ser
paciente. Até lá, as sombras prometeram que ela ia ter o máximo de poder e liberdade
que sua condição permitia, pois ela ainda tinha o trabalho de preparar o mundo para a
serpente e não podia ser limitada como as demais mulheres da organização.

Após concluir o ensino médio, seus pais lhe chamaram.

- Você está prestes a completar dezoito anos. – Seu pai disse. Quase três anos depois,
ele estava mais magro, envelhecido e com mais cabelos brancos do que deveria ter na
sua idade. – Sua mãe e eu já providenciamos um bom noivo para você.

Noivo? Seu coração se encheu de pavor, pois sabia muito bem o que o casamento
significava para as mulheres da organização. Significava prisão, tortura, escravidão, um
eterno silêncio e somente poder seguir o marido como uma sombra. Eram apenas
servas, propriedades dos seus maridos e viviam somente para lhes dar filhos, cuidar da
casa e servi-los como eles achassem melhor. Não podia haver destino pior do que
aquele.
Nem mesmo seu poder foi capaz de fazer com que eles mudassem de idéia e ela viu que
seria preciso matá-los para se livrar daquele destino. No entanto, ainda não estava na
hora. Foi pensando nisso que ela correu para o porão, onde as sombras eram mais fortes,
e implorou por ajuda.

- Eu não posso me casar! Eles devem ter escolhido um homem horrível para mim!

A vela que ela tinha levado ao porão acendeu sozinha, reforçando as sombras ao seu
redor.

- Você não irá se casar. Seu compromisso é com o povo das sombras.
- O que eu devo fazer?
- Livre-se do seu noivo. Acabe com a vida dele. Se fizer isso, seu caminho para a
liberdade começará a ser traçado.
- Vocês... vocês querem que eu o mate?

Até então aquele tipo de coisa nunca tinha passado pela sua cabeça. Agnes apenas
sugava a energia das pessoas em pequenas quantidades, nunca até a morte. Não que ela
tivesse algum escrúpulo sobre matar alguém. Seu coração, que já era maldoso, se tornou
pior ainda com o tempo. Ela aprendeu a pensar somente em si mesma, pois se não
fizesse isso ninguém mais o faria. Seu mundo era feito de pessoas horríveis que seriam
capazes de pisar em sua cabeça se ela lhes desse uma chance. Em um mundo assim, só
restava matar para não morrer. Seu medo era somente o de ser descoberta, pois ir para a
cadeia não estava em seus planos.

- Mate-o. – as sombras repetiram. – Não lhe acontecerá nada. Mate-o e você terá a ajuda
de que precisa. Nós nunca lhe deixaremos sozinha.

Ouvir isso lhe deu mais confiança. Se ela tinha que matar um homem nojento e
desagradável para ser livre, então era isso que ela ia fazer.

Alguns dias depois, seu pretendente veio visitá-la. Era um homem de vinte e cinco anos,
boa aparência, parecia ser forte e saudável. Ele tinha cabelos castanhos e belos olhos
verdes que encantariam qualquer mulher. Até que não seria desagradável tê-lo como
marido se não fosse o fato de ele olhá-la como quem olha uma lesma sobre a folha de
alface. Havia desprezo no seu olhar, desdém, pouco caso.

- Ela será uma excelente esposa e dona de casa. – Sr. Duister disse. – Agnes sabe se
comportar como a mais perfeita dama. É uma moça prendada, educada, silenciosa,
obediente, submissa e muito recatada!
- Ela foi muito bem educada. – Sua mãe completou. – Nós sempre fomos muito severos
e sua educação foi a melhor possível. Eu prometo que será a esposa perfeita.

Ela acompanhava tudo em silencio, com os olhos baixos e as mãos na frente do seu
corpo para mostrar recato. O homem a olhou como quem analisa uma mercadoria e por
fim disse.

- Se ela é mesmo tudo isso que vocês falaram, então eu não preciso procurar mais. Ela
será minha esposa. – a moça ouviu o homem dizer como quem escolhe um par de meias
e não uma mulher para casar e dividir a vida.
Seus pais ficaram muito satisfeitos e mandaram Agnes para a cozinha a fim de preparar
o jantar para seu futuro marido e assim mostrar seus dotes culinários. Ela obedeceu sem
dizer nada, pois tinha a confiança de que sua oportunidade ia chegar.

O jantar transcorreu normalmente e ela se manteve silenciosa. Sua intenção não era
agradar aquele imbecil, nada disso. Ela só queria estudá-lo e para isso o melhor era
observar muito e falar pouco.

Seu noivo passou a visitá-la todos os dias e os encontros eram muito formais. As únicas
palavras que eles trocavam eram os cumprimentos iniciais. Depois era deixada de lado
como um objeto qualquer e ele passava o tempo conversando com o seu pai enquanto
ela tinha que ficar enfurnada na cozinha preparando o jantar para ele. Os dois nunca
ficavam sozinhos e nunca conversavam. Nunca houve sequer o menor contato físico
entre eles. Que noivado estranho!

Certa noite, enquanto ela colocava a mesa para o jantar, seu pai teve que se ausentar por
alguns minutos para atender ao telefone deixando seu noivo sozinho. Sua mãe estava no
quarto do casal fazendo qualquer coisa e a empregada estava ocupada vigiando um
assado no forno. Tudo parecia normal até seu noivo se aproximar lhe dando um leve
susto.

- Pois não? – perguntou com a voz baixa e suave tentando disfarçar a surpresa. – Deseja
algo?

Ele a olhou de cima à baixo friamente, deixando-a sem saber o que fazer.

- Eu vou deixar passar porque ainda somos noivos. Da próxima vez em que você me
dirigir a palavra sem que eu tenha dado permissão, serei muito duro.

Ela abriu levemente a boca e o olhou como se não estivesse entendendo nada.

- Já vi que você não é muito inteligente. Bem, mulher nenhuma é. Só quero deixar uma
coisa bem clara: seja exatamente como seus pais prometeram e não terá muitos
problemas.

Que os homens da organização eram tiranos dominadores e machistas não era novidade
nenhuma para ela. Agnes sabia muito bem que eles eram educados para acreditarem que
mulheres eram coisas sem vontade própria feitas apenas para servi-los. A grande
maioria seguia esse pensamento, já que era conveniente para eles e ela até achava um
milagre Boris não ser como eles. Ainda assim estar diante de um homem com esse
pensamento era assustador. Pelo visto ele ia ser pior do que seu pai mesmo sendo
relativamente jovem.

- Eu não quero que me questione em nada. Não importa o que eu mande fazer. Você
fará. Se eu mandar sentar, você senta. Se eu mandar rolar no chão e me dar a pata, é
exatamente isso que você fará. Eu fui bem claro?

Como não conseguia esboçar nenhuma reação, ela apenas balançou a cabeça
afirmativamente.
- Ótimo. Continue silenciosa e falando o mínimo possível. Não gosto do som da sua
voz. – e saiu dali sem falar mais nada. Pouco depois seu pai voltou do escritório e eles
continuaram conversando como se nada tivesse acontecido.

Agnes continuou o serviço sentindo muita raiva e foi com muito custo que ela não
absorveu aquele maldito até a morte. Mais do que nunca, ela estava decidida a acabar
com a raça dele.

E sua chance finalmente chegou. Um dia, quando estava conversando com as sombras,
ela recebeu instruções de sugar seus familiares até deixá-los exaustos, só tomando o
cuidado para não matá-los. O objetivo era que eles dormissem a noite inteira e não
acordassem por nada.

- Farei conforme vocês ordenam. – respondeu confiante de que tudo ia dar certo.

Durante o jantar, ela sugou todos, até Boris. Eles ficaram exaustos demais para fazerem
qualquer coisa e foram dormir mais cedo. Depois que todas as luzes foram apagadas,
Agnes foi até a lavanderia da casa, mexeu nas roupas sujas e tirou dali uma calça e
camisa de Boris.

As roupas ficaram um pouco grandes e largas, sendo preciso dobrá-las em algumas


partes para que não ficassem desconfortáveis. Ela prendeu bem os cabelos e colocou um
dos chapéus do seu pai. A sensação de estar usando roupas masculinas era bem
estranha, pois ela nunca tinha vestido nada assim antes. Nem mesmo shorts ela tinha
vestido, só saias e vestidos.

Em seguida, ela foi até a garagem e pegou o carro que Boris ganhou ao completar
dezoito anos, enquanto ela apenas ganhou um noivo imbecil e dominador.

As mulheres do seu meio nunca aprendiam a dirigir, pois Sr. Malacai achava isso uma
abominação. Mulheres tinham que ser levadas e conduzidas, nunca conduzir nada. Foi
graças à ajuda das sombras que ela conseguiu fazer aulas de direção sem que ninguém
descobrisse e por ser muito inteligente, foi capaz de tirar a carteira logo na primeira
tentativa.

Tudo estava escuro e silencioso. As sombras começaram a se mover diante dela e Agnes
deu a partida no carro pronta para segui-las. Os vultos seguiram pela rua com ela ao seu
encalço.

Por sorte havia pouco movimento e nenhum trânsito, assim ela levou pouco tempo para
chegar ao seu destino. As sombras a levaram até um prédio de boa aparência que
parecia ser relativamente novo. Tinha cinco andares, fachada bem cuidada e um belo
jardim. Ela estacionou o carro ali perto e foi até o portão. Uma parte das sombras entrou
na fechadura e o portão abriu na mesma hora para que ela entrasse.

Seu coração martelava no peito e ela sentia uma carga de adrenalina circulando por suas
veias. O portão de dentro também foi aberto e ela entrou no elevador. A sombra que lhe
conduzia indicou o quarto andar e ela apertou o botão.
O prédio tinha quatro apartamentos por andar as sombras abriram uma das portas,
destrancando a fechadura sem fazer nenhum ruído. Logo depois desapareceu indicando
que ela já tinha chegado ao local certo e o resto era por conta dela.

Agnes hesitou um pouco, pensando se devia ou não fazer aquilo porque não sabia de
quem era aquele apartamento. Seu noivo morava em outro bairro e ela não entendia por
que as sombras diziam que ele estava ali. Bem... as sombras não erravam e ela tinha que
confiar. Após tomar coragem ela girou a maçaneta e entrou no apartamento com passos
de felino, sem fazer nenhum barulho. Quando passou pela sala, ouviu som de conversa
vindo de um dos quartos. Uma das vozes era do seu noivo num tom que ela nunca tinha
ouvido antes.

Ele ria, falava palavras carinhosas e o tom da sua voz era caloroso e suave. Também
havia outra voz falando junto com ele e era voz de mulher. Tudo ficou claro para ela.

- Oh, como é lindo! – a mulher exclamou quando abriu a caixa de veludo. – Deve ter
custado muito caro, meu amor!
- Você merece. E eu? Não ganho nenhum beijo?

A mulher pulou em seu pescoço e beijou os lábios dele apaixonadamente. Agnes nunca
sentiu tanta vontade de matar alguém em toda sua vida, nem mesmo seus pais. Então era
isso? Ela sempre fez de tudo para ser uma mulher boa, recatada e decente. Fez
sacrifícios, abriu mão de toda sua vaidade e aceitou tudo calada. E tudo isso para quê?
Para aquele idiota arrumar uma amante e lhe dar o melhor enquanto ela tinha que aturar
seus abusos e desmandos? Foi para isso que ela aprendeu a ser uma esposa perfeita?

Todas as suas dúvidas tinham desaparecido e ela entrou no quarto decidida. O casal
logo notou sua presença e a expressão de susto no rosto do seu noivo foi impagável.

- O que significa isso? – perguntou sem acreditar no que estava vendo.


- Eu é que pergunto. – Agnes rosnou com uma expressão furiosa no rosto.
- Amor, quem é essa aí? – a outra mulher perguntou olhando-a de cima a baixo com
pouco caso.
- A noiva dele. – Agnes respondeu entre dentes mostrando a aliança fina na mão direita.
- Noiva? Moacir, o que está acontecendo?
- Quieta, Virginia. E você, saia daqui agora mesmo e amanhã vou ter uma conversa
séria com seus pais! Que tipo de mulher é você para andar por aí durante a noite e ainda
por cima vestida desse jeito? Você vai...

A frase foi cortada ao meio e o homem caiu de joelhos ofegando. A mulher também se
sentiu mal, mas não tanto quanto ele.

- O que é isso?
- Seu desgraçado! – Agnes lhe deu um tapa bem dado no seu rosto. – Era esse o tipo de
marido que você pretendia ser? – outro tapa. – Você ia dar o melhor para essa
vagabunda aí enquanto eu não ia poder nem te olhar de frente? – mais um tapa.
- Você vai me pagar por isso! – ele falou tentando se levantar e tombou para o lado.
Agnes ainda lhe deu vários chutes extravasando toda sua raiva.
- Pare com isso! Quem você pensa que é? – a outra tentou ir para cima dela e caiu no
meio do caminho após Agnes lhe sugar também.
- Isso é entre nós. Fique quieta.

Ela voltou suas atenções ao noivo que lutava para se levantar e segurou o pescoço dele
com força.

- Você é um lixo humano, como todos os homens da organização. Sua vida não vale
nada e você é só um desperdício de oxigênio.
- O que você está fazendo? – perguntou com a voz rouca e ofegante de quem estava
tendo o ar sugado de seus pulmões.
- Jogando o lixo fora. Eu nunca vou casar com um ser desprezível como você.

Aquilo nunca tinha acontecido antes, pois até então ela sugava as pessoas aos poucos
sem lhes causar grandes danos. Só que daquela vez sua fome atingiu o auge. Aquele
miserável estava disposto a dar o melhor para outra pessoa e nada de bom para ela.
Então ela decidiu que ia sugar tudo dele. Toda sua alegria, toda sua felicidade, força,
saúde, vigor, toda sua vida até não sobrar nenhuma gota. Ela queria mais, muito mais.
Queria tudo o que ele tivesse.

A amante dele arregalou os olhos e soltou um grito esganiçado quando viu, bem na sua
frente, o corpo do seu namorado murchando aos poucos como uma planta que vai
perdendo a vida gradualmente até secar. O corpo dele foi encolhendo, secando, sua pele
perdeu o brilho, os olhos afundaram nas órbitas e a voz dele foi sumindo pouco a pouco.
Seu rosto ficou seco, os lábios encolheram mostrando os dentes numa espécie de sorriso
macabro e seu coração parou de bater para sempre.

Agnes deu um longo suspiro após a maior refeição da sua vida. Ela nunca se sentiu tão
bem.

- Deus do céu! O que você fez com ele? – ela ouviu a voz da outra e a olhou como uma
fera contempla uma presa.
- Sabe... eu ainda estou com fome. – falou indo em direção a pobre mulher que se
encolhia de medo, chorava e implorava por sua vida.
- Não, por favor! Eu não sabia que ele tinha noiva, juro por tudo que é mais sagrado! Eu
não sabia! Ele nunca falou nada!

Em suas mãos, estava aquela caixa de veludo que o traste tinha lhe dado de presente e
Agnes a pegou. Dentro havia um lindíssimo conjunto de colar e brincos de ouro com
turmalina rosa. O pingente do colar era oval e cercado com pequenos diamantes tendo a
turmalina no centro. Os brincos tinham o mesmo formato e eram a coisa mais linda e
delicada que ela tinha visto, o que lhe encheu de ódio porque aquele presente
maravilhoso era para outra mulher, não para ela.

- Você quer? Pode ficar! Leve o que quiser! É tudo seu, mas por favor não me mate! Eu
prometo que não falo nada para ninguém!

Seus olhos voltaram para a mulher. Sua parte lógica lhe dizia que ela não tinha culpa do
seu noivo ser um canalha mentiroso. Ela parecia estar falando a verdade sobre não saber
que Moacir era comprometido. Porém, essa mesma parte lógica lhe disse que aquela
mulher tinha visto demais e com certeza ia lhe denunciar. Nada pessoal, eram apenas
negócios e ela não podia correr nenhum risco.
- Não, por favor! Não faz isso!
- Apenas durma. Prometo que você não sentirá dor.
- Não... não... – a mulher murmurou até perder os sentidos e Agnes fez com ela o
mesmo que tinha feito com seu noivo, sugando tudo até não sobrar mais nada. Ah,
como aquilo era bom! A energia dela era ainda melhor e mais abundante, lhe deixando
mais satisfeita do que nunca.

Quando terminou, ela olhou as jóias mais uma vez e chegou a conclusão de que adorava
cor de rosa.

- Quando a Serpente voltar, estarei usando isso e também o vestido mais lindo de todos!

Na noite seguinte, a família esperava pela chegada do seu noivo como sempre. Quando
voltou para casa, na noite anterior, ninguém tinha percebido sua ausência e o dia
transcorreu normalmente.

- Estranho, ele não costuma se atrasar. – Seu pai falou consultando o relógio de bolso. –
Será que aconteceu alguma coisa?

Ele decidiu telefonar para seu futuro genro e ficou preocupado quando ninguém atendeu
ao telefone. Depois resolveu ligar para a sede da organização e ficou sabendo que
Moacir não tinha ido trabalhar naquele dia.

- O que terá acontecido? – Sra. Duister perguntou com preocupação.


- Não faço idéia. Amanhã irei até a casa dele para saber se está tudo bem. Se eu não o
encontrar, terei que chamar a polícia. Agnes, providencie o jantar. Estou com fome.
- Sim senhor. – ela respondeu suavemente e foi cuidar das suas tarefas sentindo a maior
satisfação do mundo. Aquele imbecil não ia aparecer naquela noite. E em nenhuma
outra.

Como ele não foi encontrado em lugar nenhum, a polícia teve que ser acionada. Sr.
Malacai também estava preocupado.

- Isso é estranho, ele nunca faltou ao trabalho. É um homem honrado e dedicado.


- Espero que não tenha acontecido o pior. – Sr. Duister disse. – Ele foi o melhor noivo
que eu encontrei para Agnes.

Vários dias se passaram até finalmente descobrirem o que tinha acontecido com o
sujeito. A descoberta foi feita da forma mais inesperada possível. Uma amiga de
Virgínia também tinha dado pela sua falta e decidiu ir até seu apartamento. A porta
estava aberta, o que lhe encheu de preocupação. Ela entrou tomando muito cuidado e
gritou como louca quando deparou-se com os cadáveres no chão do quarto. A polícia foi
chamada, os repórteres apareceram em massa e o caso foi muito noticiado.

O cadáver de Moacir foi identificado graças aos documentos que ele levava no bolso e
aquilo foi um escândalo na organização.

- O que ele estava fazendo na casa daquela... daquela... – Sr. Duister nem conseguiu
terminar a frase por causa da indignação. Virginia era apenas uma mulher comum,
formada em direito e que trabalhava num escritório de advocacia. Mas na cabeça dos
homens da Vinha, aquilo era o mesmo que ser uma prostituta da pior espécie porque
eles não conseguiam aceitar que uma mulher trabalhasse fora, tivesse o próprio dinheiro
e ainda por cima morasse sozinha. Aquilo para eles era o fim do mundo.

Agnes ouvia tudo em silêncio sem mostrar nenhuma emoção.

Sr. Malacai olhou para ela e disse.

- Eu lamento por isso, Srta. Duister. Aquela mulher deve ter levado seu noivo para o
mal caminho e por causa dela, ele teve aquele destino cruel.

Era ridículo como eles sempre arrumavam um jeito de culpar as mulheres até pelos
erros dos homens.

- Aqui, imagino que queira ficar com isso. – o velho lhe estendeu um lenço
cuidadosamente dobrado. Agnes o abriu e viu que era a aliança do seu noivo. Por que
diabos ela ia querer guardar aquilo?
- Obrigada pela atenção, Sr. Malacai. – foi só o que ela pode dizer.

Seus pais voltaram a procurar um bom noivo para ela e os dias transcorreram
normalmente. Quando teve a chance, ela foi falar com as sombras e elas fizeram um
pedido bem singular: um altar devia ser montado no porão.

- Por que querem isso?


- O sobrenatural está enfraquecendo cada vez mais nesse mundo. Chegará um tempo em
que não será possível nos comunicarmos e também não poderemos te ajudar.
- Não, por favor, não me deixem! Eu preciso de vocês! – implorou aflita, pois eram os
únicos amigos com quem podia contar.
- Não abandonaremos você, mas precisamos da sua colaboração. Esse altar deve ser
ornado com os objetos das vítimas que você fará no futuro.

Aquilo foi uma surpresa. Apesar de ter gostado do que fez, E ela realmente gostou, não
lhe passou pela cabeça fazer de novo.

- Esses objetos servirão como uma espécie de ligação entre as almas dessas vítimas e o
mundo material. Através deles, seremos capazes de nos comunicamos com você e te
ajudar. Você já tem dois. Precisa de mais.

Ela lembrou-se da aliança do seu noivo e do conjunto de colar e brincos que tinha tirado
daquela mulher. Eram um bom começo.

- Além do mais, - as sombras alertaram. – o pacto com a Serpente sugará sua vida, então
você deve absorver a vida dos outros se quiser permanecer jovem e saudável. Você terá
que fazer isso especialmente no mês de outubro, que é quando a barreira irá enfraquecer
temporariamente e você estará mais suscetível a ser sugada pela Serpente.

Bem... se ela tinha que fazer aquilo para conseguir os favores das sombras, então ela ia
fazer com o maior prazer. As sombras também lhe instruíram a procurar,
preferencialmente, vítimas jovens, saudáveis e sem vícios, pois tinham mais energia
vital e de melhor qualidade.

- Meus pais querem arrumar outro noivo para mim. Se isso acontecer, eu o matarei sem
piedade.
- Não se preocupe, eles não arrumarão outro noivo porque nós já estamos trabalhando a
seu favor. Aguarde e confie.

Foi o que ela fez. Alguns dias depois, Sr. Malacai procurou seu pai para lhe fazer um
pedido importante.

- Essa é a situação. – finalizou após contar a história. – Essa moça é filha de um


membro muito importante do conselho. Colocá-la no confinamento poderá trazer muita
vergonha para ele.
- Eu aposto que foram as más influências! O mundo está perdido com essa
modernidade!

Agnes ouvia tudo sem muito interesse, pois não imaginava como aquilo podia afetá-la.

- É por isso que eu preciso da sua filha. Ela é uma moça de comportamento exemplar e
tenho certeza de que será boa influencia para a filha do nosso colega. Se ela for capaz de
colocar juízo na cabeça daquela moça e evitar que se torne uma criatura
desavergonhada, estará nos fazendo um grande favor.

Sem lhe consultar e nem ao menos saber se ela queria fazer aquilo, Sr. Duister
concordou e ainda garantiu que Agnes era capaz de convencer a tal moça rebelde. Ela
não teve outra escolha a não ser dar o seu melhor e foi levada até a casa da coitada a
quem ela devia convencer a abrir mão da sua alma para se tornar um zumbi sem
personalidade.

De certa forma, ela sentiu uma pontinha de inveja porque jamais teria coragem de se
rebelar contra seus pais ou contra a instituição. Sem falar que o destino das moças
rebeldes era cruel demais para ela querer encará-lo.

- Não vem me encher com essas regras idiotas. Eu vou sair de casa e não quero nem
saber! – a moça falou assim que Agnes entrou em seu quarto.
- Eles vão caçar você até nos confins da Terra e te colocar no confinamento. Você já
deve ter visto o que eles fazem com as moças que se rebelam.
- Não me importo. Eu prefiro morrer do que viver como escrava de marido. Você não
faz idéia do imbecil a quem me prometeram em casamento! Ele tem mais de trinta anos,
é feio de doer e parece que foi criado numa cocheira!

Agnes não sabia o que fazer, pois ela mesma preferia morrer a ter um destino parecido.
Felizmente ela não precisava morrer, pois tinha as sombras para lhe ajudar. Aquela
jovem estava decidida e ela não sabia o que fazer para mudar a cabeça dela. O melhor
era dar de ombros e desistir. Se ela queria ir para o confinamento, problema dela. Só
que fazer isso poderia lhe trazer problemas com seus pais.

- Você está perdendo seu tempo. Volta para o Sr. Malacai e diz que eu o mandei para o
inferno.
A coragem daquela moça era impressionante, assim como sua energia forte e decidida.
Ela tinha tanta esperança, tanta determinação! Aquela criatura ingênua realmente
acreditava que podia ter dias melhores. Sua boca encheu de água. Esperança, sonhos,
otimismo em relação ao futuro... podia haver energia melhor do que essa? Não
resistindo à tentação, Agnes acabou lhe sugando quase sem querer.

- Droga, eu estou exausta com isso tudo! – ela reclamou sentando na cama. Seu rosto
estava pálido, ela respirava com dificuldade e toda sua postura confiante foi embora.
- Se você está exausta só com a nossa conversa, ficará ainda pior se continuar insistindo
com essa insanidade. – Agnes voltou a falar após sugar um pouco mais daquele
otimismo. – Não vale a pena se rebelar. É inútil e só te fará mal.
- Mas eu... eu...
- Se mantiver a boca fechada e a cabeça abaixada, poderá ter uma vida segura e
confortável. Sei que não é justo, mas é o que nós podemos ter. Não há esperança. Não
há outra alternativa.

Ela reparou que a moça foi murchando cada vez mais e diminuiu um pouco o ritmo,
pois não tinha intenção de matá-la.

Um pranto sentido escapou do seu peito e ela começou a chorar desconsoladamente.


Toda sua esperança foi embora em questão de segundos. Tudo o que ela podia ver era
um grande buraco negro à sua frente. Só havia escuridão e desespero em sua vida.
Nenhuma chance de ser feliz, nenhuma fé no futuro. Talvez aquela garota estivesse com
razão. Não adiantava lutar, era totalmente inútil. Por que se esforçar tanto por uma
batalha perdida?

- Excelente! – Sr. Malacai elogiou quando Agnes saiu do quarto com a moça logo atrás
de cabeça baixa, totalmente desprovida de qualquer emoção, luz ou esperança. Seus
olhos estavam apagados e sem brilho e seus lábios nunca mais iam sorrir novamente. –
Aqui está sua filha, meu caro colega. Dócil e obediente como uma mulher deve ser.
- Muito obrigado, Sr. Malacai!

Por um instante Agnes se arrependeu de ter tirado toda a garra e força daquela garota.
Quanto desaforo ter todo aquele trabalho só para o Sr. Malacai levar todo o crédito!
Bem, não havia mais o que fazer. Pelo menos ela não ia ter nenhum aborrecimento
naquele dia.

Mas no dia seguinte aquilo se repetiu. Sr. Malacai disse que ficou impressionado com a
facilidade com que ela dobrou aquela moça tão difícil e rebelde.

- Se você conseguiu mudar a cabeça dela, imagino que conseguirá fazer o mesmo com
as moças do confinamento. Muitas ainda estão resistentes.

E foi o que Agnes fez. Uma a uma, ela foi conversando com as moças. Era meio
patético porque elas não tinham lá muita coisa para sugar. Pelo menos foi fácil e no fim
do dia todas estavam quebradas de tal forma que nunca mais iam cometer nenhum ato
de rebeldia.
Sr. Malacai olhava para elas e estava satisfeito com o trabalho de Agnes, que passou a
ser incumbida da tarefa de conversar com moças e até com rapazes rebeldes. Ela até que
não se importou com isso, pois tinha alguma energia boa para sugar e também estava se
livrando das tarefas domésticas chatas que sua mãe empurrava para ela.

Dois meses depois, Sr. Malacai chamou o Sr. Duister para uma conversa muito séria.
Eles foram para o escritório enquanto Agnes ficou na sala com sua mãe pensando no
que aqueles dois estariam planejando. Sua mãe fazia crochê e parecia alheia a tudo.
Seus cabelos estavam ficando brancos, seu rosto estava mais envelhecido e ela parecia
estar sempre cansada e sem energia.
Mais de uma hora depois Sr. Malacai foi para a sala seguido do Sr. Duister que estava
com uma cara péssima. Aquilo a deixou preocupada, pois podia significar um castigo
certo. O que ela teria feito daquela vez?

- Srta. Duister, seu pai e eu conversamos e tomamos uma decisão muito importante.
- Sim, Sr. Malacai.
- No fim desse ano, você prestará vestibular para a faculdade de psicologia.

Por um instante eles pensaram que a Sra. Duister fosse ter um ataque cardíaco. A
mulher ficou branca, com os olhos esbugalhados, o ar faltou em seus pulmões e a voz
nem saía mais da sua garganta. Foi preciso que a empregada lhe trouxesse um copo de
água com açúcar para acalmar seus nervos.

- Um absurdo! Uma afronta! Isso não está certo! Você não pode deixar!
- Cale a boca, mulher. – Sr. Duister falou mal humorado. – Você acha que eu estou feliz
com esse absurdo? Minha filha fazendo faculdade? Só pode ser o fim do mundo!
- Nenhum homem vai querer casar com ela desse jeito!

Sr. Malacai mandou que os dois ficassem em silêncio e Agnes não estava acreditando
no que tinha acabado de ouvir. Fazer faculdade? Ela nunca sequer ousou sonhar com
isso, pois pensava que era impossível.

- Eu também não concordo com isso e vocês sabem o que eu penso sobre mulher ter
acesso ao ensino superior. – o velho disse. – No entanto, estamos num período de
transição. A Vinha ainda não tem a força necessária para tomar conta de tudo e
precisamos de toda colaboração possível.
- Não precisamos da ajuda de mulher nenhuma! Os homens podem cuidar de tudo
sozinhos!
- Sim, eles podem. – o presidente concordou. – mas isso levará mais tempo do que
gostaríamos e como vocês sabem, eu não sou mais jovem. Quero deixar tudo
devidamente encaminhado antes que minha jornada nesse mundo encerre.

Seus pais ainda tentaram fazer com que ele mudasse de idéia, mas foi em vão. Agnes
sabia que quando Sr. Malacai tomava uma decisão, nunca voltava atrás e daquela vez
torcia para que isso não acontecesse. Apesar de nunca ter se interessado em estudar
psicologia, a perspectiva de ir para a faculdade, conhecer um ambiente diferente do da
organização e talvez estar em contato com pessoas novas era bem empolgante para ela.

- Mas Sr. Malacai, nenhum homem vai querer casar com nossa filha se ela tiver um
diploma! – Sr. Duister tentou argumentar mais uma vez.
O velho olhou para ela e disse.

- Srta. Duister, como sabe, nós acreditamos que mulheres devem ser sempre submissas e
estar sob a sombra dos homens. Não aceitamos que façam faculdade, tenham profissão e
nem fonte de renda. No entanto, estamos abrindo essa exceção porque acreditamos que
a senhorita será capaz de fazer uma grande contribuição à nossa causa.
- Eu entendo, Sr. Malacai.
- Infelizmente isso poderá afastar qualquer pretendente e sei que será um sacrifício
enorme para você não poder casar, ter filhos e seguir o caminho que toda mulher deve
seguir. Mas quero que saiba que seu sacrifício será reconhecido por nós.
- Um absurdo! Se outras mulheres verem isso, vão querer seguir pelo mesmo caminho!
– seu pai falou já quase arrancando os cabelos.
- Não, elas não vão querer porque sua filha saberá mantê-las na linha. Essa é a minha
palavra final e exijo ser obedecido.

Não adiantou protestar, implorar, ameaçar e nem argumentar. Sr. Malacai se manteve
irredutível e ele ordenou que Agnes fizesse a inscrição para o vestibular imediatamente
e começasse os estudos. Ela nunca atendeu uma exigência daquele velho com tanta boa
vontade em toda sua vida.

De noite, após seus pais irem para a cama, ela correu para o porão e a vela acendeu.

- Obrigada, muito obrigada! - com sinceridade. – Eu nunca pensei que fosse possível!
- Nós conseguimos influenciar a mente do velho para que ele fizesse nossa vontade.
Você terá o máximo de poder que uma mulher na sua situação poderá ter. Poderá
estudar, trabalhar, ter sua própria fonte de renda e no futuro, até poderá ter um carro só
para você.

Aquilo era bom demais para ser verdade. Mulher nenhuma da organização poderia
sonhar nem com a décima parte daquilo. Claro que ela teria que seguir muitas regras e
ainda não teria o direito de viver conforme desejava, mas aquilo era bem melhor que
nada.

Dali por diante, Agnes estudou como se sua vida dependesse disso. Se não conseguisse
passar, seus pais iam jogar na sua cara que ela não era capaz e isso poderia fazer com
que Sr. Malacai desistisse da sua idéia. E todo seu esforço valeu a pena, pois ela passou
em primeiro lugar geral na faculdade de psicologia para desespero dos seus pais e de
muitos membros da organização.

Todos passaram a questionar a sanidade do Sr. Malacai por ter permitido uma coisa
dessas e Agnes teve que trabalhar duro para anular qualquer ato de rebeldia das moças
que poderiam querer seguir o seu exemplo. Aquilo podia ser egoísta e cruel, mas ela
tinha que cuidar dos seus interesses acima de tudo.

A vida na faculdade não era exatamente fácil porque os outros alunos estranhavam sua
forma de vestir e se comportar. Não tinha problema, bastava sugar a energia deles e se
esbaldar à vontade. Ninguém a incomodava e tudo ia bem dentro do possível.
Em casa, ela fazia o seu melhor para sugar seus pais e quebrar qualquer resistência que
eles pudessem apresentar. Ainda assim era difícil porque eles estavam revoltados por
ela ter passado em primeiro lugar enquanto Boris teve que ficar na fila de reserva e só
conseguiu uma vaga porque outro candidato desistiu.

Apesar de não odiar o irmão, era um deleite ser melhor e mais inteligente do que ele.
Aquilo era como um tapa na cara do seu pai que vivia dizendo que mulher não tinha
inteligência nenhuma. Ela se esmerava em ser perfeita em tudo e para mostrar o quanto
era capaz e inteligente. Era a melhor vingança contra aqueles idiotas atrasados.

Quando completou dezenove anos, Agnes recebeu uma tarefa importante das sombras.

- Sococó da Ema? Nunca ouvi falar. – ela disse diante do altar que tinha feito. Outros
objetos foram acrescentados. Uma carteira, um molho de chaves, um relógio de pulso e
um anel solitário.
- É lá onde se encontra o cavalo pálido da morte. Precisamos que você traga-a para o
nosso lado. Nós encaminharemos tudo para que você faça essa viagem.

Menos de uma semana depois, Agnes estava em Sococó da Ema e foi direto para a casa
de uma mulher chamada Berenice, que tinha perdido uma filha recentemente.

Trazê-la para o seu lado foi fácil. Tudo o que ela queria era se vingar da cidade e trazer
sua filha de volta e a Serpente podia fazer isso.

- A partir de agora, você é o cavalo pálido da morte. – Agnes declarou quando concluiu
o ritual onde Berenice vendeu sua alma e recebeu a marca de Ior. – Sua missão é levar
peste e decadência para o maior número possível de pessoas.

As instruções que as sombras deram foi de que Berenice deveria iniciar uma
peregrinação pelo país levando peste e doença para as pessoas. Quanto mais
conseguisse infectar, melhor. A mulher vendeu tudo o que tinha e iniciou sua jornada.

De volta para casa, a vida seguiu normalmente. Ela estava indo muito bem no curso de
psicologia e conseguindo cada vez mais espaço na organização para desespero de
muitos homens. Para manter tudo o que conquistou, ela se empenhou em manter dóceis
e obedientes todas as moças para que elas não quisessem seguir seu exemplo. Claro que
ela não concordava com esse tipo de coisa, mas precisava cuidar de si mesma e não
tinha a menor intenção de se colocar em risco para ajudar a um monte de desconhecidas.
O movimento feminista que se virasse com isso, ela só estava ali para cuidar dos seus
interesses.

Até que em fim veio o dia da sua formatura. Ela se formou com louvor e só não se
tornou oradora da turma porque não era exatamente popular, mas isso não importou.
Agnes se tornou psicóloga e assim pode exercer a profissão indo de colégio em colégio
para colocar os alunos rebeldes na linha. Sua habilidade para disciplinar adolescentes se
tornou lendária e muitos pais a procuravam particularmente na esperança de domar o
gênio difícil dos seus filhos e filhas.

Foi assim que ela conheceu Penha, uma menina de cinco anos com um gênio tão rebelde
e difícil que seus pais já estavam entrando em desespero. Era uma menina caprichosa,
desobediente e extremamente mimada que se achava no direito de mandar e desmandar
naquela mansão como se já fosse a proprietária. Agnes nunca tinha atendido alguém
dessa idade antes e não sabia muito bem o que fazer.

Normalmente ela não teria atendido a esse caso porque nunca tinha sugado crianças
dessa idade e tinha medo de acabar matando a menina e com isso arrumar problemas.
No entanto, o salário era bom demais para ser ignorado. Ela não recebia salário nenhum
da organização, só uma ajuda de custo patética. Eles achavam que mulher só devia
colocar a mão em dinheiro para fazer as compras da casa e abominavam mulheres
independentes. O pouco que recebia vinha dos casos que atendia particularmente.
Poderia ser mais se Sr. Malacai não criasse tantos problemas e não a enchesse de
trabalho constantemente.

- Você é a nossa última esperança. – a dona da casa falou com a voz chorosa. – Nós já
tentamos de tudo e nada consegue domar o gênio dessa menina.
- Eu não entendo por que ela é assim. – o pai falou. – Nós damos tudo o que ela quer,
sempre realizamos quaisquer desejos e nunca proibimos nada!

Embora não fosse especialista em psicologia infantil, Agnes sabia que aquela era a
combinação perfeita para criar pirralhos mimados e desobedientes.

- Aqui é o quarto dela. Fique a vontade e se precisar de algo, pode chamar a empregada.
– a mãe disse e saiu dali apressadamente para não ter que encarar o mini-monstro que
tinha ajudado a criar.

Agnes deu um suspiro cansado e entrou no quarto.

- A Srta. Marie quer doces agora mesmo! Vá buscar! – uma vozinha irritante gritou para
a empregada. – Traz chocolate quente para o nosso chá! Com chantili e marshmallow!

A empregada saiu dali correndo e só cumprimentou Agnes rapidamente ao passar por


ela. A menina estava sentada à uma pequena mesa de chá para bonecas. Havia quatro
cadeirinhas ao redor da mesa com uma boneca em cada. Sob a mesa havia um conjunto
de chá de brinquedo e miniaturas imitando biscoitos, pães e bolos. Uma ponta de inveja
surgiu, pois ela nunca teve um único brinquedo na vida.

- Olá. – Agnes a cumprimentou com sua voz fria de sempre. A menina ergueu a cabeça
para olhá-la. Era uma menina muito bonita, olhos castanhos, cabelos bem pretos e lisos
e seu rosto parecia até meigo. Ninguém pensaria que ela é um monstrinho só por olhar.

A garotinha a olhou por um tempo, inclinou a cabeça para um lado, depois para outro.

- Quem é você?
- Meu nome é Agnes Duister. Seus pais pediram para que eu passasse um tempo para
conversar com você.
- Agnes. Que nome bonito! Mais bonito que o meu.
- E o seu qual é?
- Maria da Penha. Ou só Penha. Todo mundo me chama assim.
Depois disso ela não soube mais o que dizer, pois não sabia lidar com crianças e não
tinha idéia do que fazer com aquela menina.

- Eu estou tomando chá com as bonecas.


- Estou vendo.
- Essa é Marie e ela adora doces. Aquela ali é Emile e a com chapéu é a Madeleine.
- Vejo que você gosta de nomes franceses.

A criaturinha sorriu.

- Eu adoro a França, é tão chique! Quero ir pra lá um dia e ter um sotaque bem bonito.
Eu já sei falar algumas palavras em francês: bonjour e omelete au fromagi.

Agnes teve vontade de rir da pronúncia da menina.

- É bonjour e omelette au fromage.

Penha tentou repetir algumas vezes e deu risadinhas com a própria pronúncia.

- Você fala francês ?


- Sim, eu aprendi quando tinha uns dez anos.
- Oh! – os olhos da menina brilharam com fascinação. – Fala um pouquinho pra eu
ouvir?

Pega desprevenida, Agnes custou a pensar em algo para dizer e acabou falando qualquer
coisa sob o olhar fascinado da criança.

- Que lindo! Sua voz é tão bonita! Você é cantora?

Seu rosto queimou. Cantora? Ela nunca sequer cantarolou nada em sua vida. Seus pais
teriam lhe dado cem chicotadas se a pegassem cantando.

A empregada chegou trazendo uma bandeja com doces e quatro xícaras de chocolate
quente do jeito que Penha tinha pedido. A menina esvaziou a mesa rapidamente,
colocou Marie de lado para desocupar uma cadeira e convidou.

- Vem tomar chocolate com a gente.

A mais velha deu um passo para trás e sentiu vontade de sair correndo.

- Tem bombom, amêndoas, biscoito e um bolo muito gostoso! E chocolate quente


também.

Suas mãos apertaram com força e ela sentiu como se algo estivesse estrangulando sua
garganta. Céus, o que estava acontecendo? Por que ela estava com medo? Era só uma
garotinha inofensiva lhe convidando para tomar chocolate quente. O que havia de
errado naquilo?

Muitas coisas. Primeiro porque Agnes nunca tomou chocolate quente na vida. Em sua
casa, doces eram expressamente proibidos e eles quase não usavam açúcar. Só uma ou
outra vez ela tinha provado balas que eram contrabandeadas entre garotos e garotas da
organização. Ela não conhecia amêndoas confeitadas, chocolate e os raros bolos que
comeu na vida eram coisas sem gosto nenhum. Os biscoitos na sua casa eram do tipo
água e sal.

Na faculdade havia uma lanchonete onde ela poderia comprar o que quisesse. O
problema era que ela quase não tinha dinheiro nenhum. Ela ganhava só o suficiente para
pagar a passagem de ônibus e nada mais. Se não fosse seu poder de sugar as pessoas, ela
teria passado fome porque não tinha dinheiro para comprar um único salgado sequer.

Segundo porque ela nunca chegou tão perto de bonecas e outros brinquedos. Sentar
naquela mesinha junto com uma menina e suas bonecas era algo que ela jamais se
imaginou fazendo.

- O que foi? Pode vir. A cadeirinha é muito forte, não vai quebrar não. Vem! – ela
estendeu a mão e ficou abrindo e fechando, indicando para que ela se aproximasse.

Foi com muito custo que ela tirou um pé do chão, depois outro e abaixou-se lentamente
para sentar na cadeira. Era meio esquisito e um pouco desconfortável.

- Agora eu vou servir chocolate quente para a Srta. Duister. Sejam boazinhas com ela,
viu? – Penha falou com as bonecas que ainda estavam à mesa e deu a xícara para Agnes,
que olhou o líquido fumegante sem saber o que fazer. Penha deu um gole e sorriu com
satisfação. – Hum, tá gostoso!

O vapor adocicado da bebida chegou ao seu nariz, fazendo sua boca encher de água. O
cheiro era tão atraente e tentador que Agnes não resistiu e deu um gole e uma onda de
bem estar correu pelo seu corpo como se ela tivesse sugado energia de muito boa
qualidade.

- Você gostou?
- Sim, é delicioso. – e ela foi sincera, pois nunca tinha provado nada tão bom em sua
vida e acabou dando outros goles com muito gosto.
- Come um biscoito.

Normalmente ela não gostava de biscoitos porque os da sua casa eram horríveis. No
entanto, aqueles eram tão bonitos que ela não resistiu a curiosidade e acabou provando
um. Tinha um gosto muito bom que ela não soube identificar e derreteu na sua boca.

- Eu nunca provei desses biscoitos antes. – confessou.


- Esse que você comeu é de baunilha. O de coco também é muito bom!

Baunilha... Agnes já tinha ouvido falar. Céus, havia tantas coisas no mundo que ela
nunca provou na vida! Tantos sabores e texturas!

Sentindo-se mais á vontade, ela pegou outros, provou das amêndoas confeitadas e ficou
encantada quando comeu uma fatia de bolo de chocolate.

- Por que meus pais querem que você converse comigo? – a menina perguntou após
comer mais um biscoito. Agnes ficou um tanto sem jeito porque não queria abordar
aquele assunto desagradável. Apesar de tudo, aquela criança estava sendo gentil com
ela.
- Digamos que eles estão preocupados com você.

Penha pousou a xícara sobre a mesa.

- Mas eu não tô doente.


- Por que diz isso?
- Eles só preocupam comigo quando tô doente.
- Seus pais parecem muito bons. Eles te dão tudo o que você quer.

Ela fez um bico.

- Minha mãe nunca tomou chá comigo e com as minhas bonecas. Ontem eu pedi pro
meu pai ler uma história e ele não leu.
- Eles são maus com você? Te batem? Te colocam de castigo?

A menina balançou a cabeça dizendo que não.

- Eles não ligam pra mim. Só me dão coisas. Eu gosto de ganhar coisas. Mas meus pais
me dão coisas demais e não brincam comigo.

A explicação foi simples, mas Agnes pode entender bem o porque da insatisfação dela
porque sentia a mesma coisa. Ambas eram neglicenciadas, deixadas de lado como se
não valessem nada. Não tinham afeto, nem atenção. Claro que se ela pudesse trocar de
pais com aquela menina, faria sem pensar duas vezes porque apesar de tudo, eles não
eram perversos com ela. Ainda assim era doloroso ser tratada mais como fardo do que
como filha e não foi difícil se identificar com aquela criança.

Ela voltou para casa sentindo-se pensativa. Sim, a menina era mesmo uma peste
mimada e desobediente do pior tipo que poderia existir. As empregadas eram
testemunhas disso. Por outro lado, também era uma criança que queria ser amada pelos
pais e não recebia o amor de que precisava.

Bem... ela recebia os melhores brinquedos, roupas e tudo o que pedia. Apesar de não
receber nenhuma atenção, também não recebia nenhum castigo. Isso não deveria bastar?
Se ela fizesse a décima parte do que aquela menina fazia, ia passar pelo menos três
meses acorrentada no porão apanhando de chicote todos os dias.

Durante o jantar, ela estava mais silenciosa de que costume. Seus pais pareceram nem
notar isso, pois era o que queriam. Já Boris notou sua quietude e quando teve uma
chance, perguntou se havia algum problema.

- Tive que atender uma criança difícil hoje, apenas isso. – respondeu como se não fosse
nada de mais.
- Eu não sei como você consegue. Eu já teria perdido a paciência há muito tempo.
- Tem que saber lidar com elas. – a jovem mentiu e encerrou o assunto. Boris não era
mau com ela e nunca foi grosseiro. Ainda assim ela não confiava nele o suficiente para
fazer confidências. Para falar a verdade, ela não confiava em ninguém além das
sombras.
Os dias passaram e ao contrário do que pensou, ela não conseguiu esquecer a menina.
Por que ela se sentia tão esquisita com relação aquela criança? Seria fome? Talvez... ela
nunca tinha provado a energia de crianças antes e de repente sentiu vontade de
experimentar. Se bem que ela não se sentia exatamente confortável sugando crianças.
Mesmo alguém como ela tinha limites.

Uma semana depois, ela ficou surpresa ao ser procurada pelo pai da Penha. O homem
parecia desesperado.

- Senhorita, eu preciso da sua ajuda urgente! – e lhe estendeu um envelope elegante que
ela abriu e teve a surpresa de ver um desenho meio tosco de criança. Parecia uma
menina com vestido longo, alguns rabiscos que ela não soube decifrar e ao lado da
menina algo que parecia uma mulher com vestido preto e óculos.
- O que é isso? – ele respondeu um tanto envergonhado.
- Bem... minha filha disse que vai dar uma festa muito elegante com suas bonecas e...
hã... você é sua convidada especial. – o rosto dele parecia queimar de constrangimento.
- Sua filha quer que eu vá a uma festa de bonecas? Senhor, eu tenho coisas muito
importantes para ocupar meu tempo. – falou com frieza tentando disfarçar o embaraço.
- Por favor, Srta. Duister! Desde que você a visitou, Penha ficou mais comportada. E ela
prometeu que se a senhorita for, ela continuará se comportando bem. A senhorita não
faz idéia da paz e do sossego que está reinando na minha casa!

Ouvir aquilo foi uma surpresa porque ela não tinha feito nada de especial com a menina,
apenas pedido para que se comportasse bem. Em momento algum ela achou que Penha
fosse lhe dar ouvidos nessa parte.

O homem estava tão desesperado que faltou pouco cair de joelhos e implorar. Ele até
prometeu pagar o dobro do que tinha pagado antes e Agnes acabou aceitando. Sr.
Malacai estava lhe atrapalhando de tal forma que ficou difícil conseguir novos clientes
apesar da procura ser alta. O pagamento proposto por aquele homem valia por três
sessões.

No dia e na hora marcados, ela entrou no quarto da Penha e levou um susto ao ver o
lugar com os móveis afastados, uma mesa de tamanho médio cheia de guloseimas, um
pequeno aparelho de som tocando uma música suave e as bonecas espalhadas para todos
os cantos.

- Você veio! – a menina veio lhe saudar alegremente. – Daqui a pouco a festa vai
começar, não temos muito tempo.

Ela pegou sua mão e lhe puxou até a penteadeira. Agnes ficou totalmente confusa e
desnorteada.

- O que você vai fazer?


- Te preparar para o baile!

Agnes puxou a mão repentinamente e deu dois passos para trás como se estivesse diante
de um leão faminto pronto para devorá-la.
- Não acho que isso seja adequado, eu só estou aqui para...
- Pra dançar com o príncipe! Mas antes tem que se arrumar. Vem, você vai ficar linda!

O ar parecia faltar dos seus pulmões e ela não sabia se devia inspirar ou expirar
primeiro.

- Calma, eu sou prof... pross.. profissional! É assim que fala? Vou te deixar bem bonita
pro príncipe!
- Mas... mas...

Penha soltou seus cabelos e os afagou com os dedos.

- Seus cabelos são bonitos. Queria ser loira também. – ela pegou uma escova para
pentear e Agnes se encolheu toda. – Que foi?
- Meus cabelos já estão penteados e... – ela tentou se levantar e a menina bloqueou sua
passagem.
- Ah, você tá com medo de puxar, né? A empregada também puxa muito o cabelo
quando me penteia e dói.

Agnes sabia como era aquilo. Quando sua mãe lhe penteava, ela tinha a impressão de
que a mulher ia arrancar os cabelos junto com o couro cabeludo. Foi por isso que ela
aprendeu a se pentear sozinha para preservar seus cabelos em sua cabeça.

- Eu vou pentear devagarzinho, ó! – a menina foi mesmo suave embora não fosse esse o
medo de Agnes.

Penha penteou seus cabelos, ajeitou para que uma parte ficasse a frente dos ombros e
abriu uma gaveta onde tinha muitas tiaras.

- Para que isso?


- Princesa tem que usar tiara, ué!
- P-princesa?

Uma das tiaras foi colocada em sua cabeça, deixando-a paralisada. Depois Penha pegou
seu kit de maquiagem e Agnes pensou que ia ficar com cara de palhaço.

- Que pele bonita! Nem precisa muita coisa. Pronto! Olha como você tá linda! O
príncipe vai adorar!

Olhar seu reflexo foi mesmo uma surpresa. Apesar de tão pequena, Penha conseguiu
fazer um trabalho relativamente bem feito. Ela tinha lhe passado batom cor de rosa, um
pouco de blush nas faces e sombra nos olhos.

- Agora deixa eu me arrumar porque também quero ficar bem bonita!

A tal festa ficou mais por conta da imaginação da Penha do que qualquer outra coisa.
Ela imaginou um príncipe bonito para cada uma, embora Agnes não estivesse
interessada em nada do tipo. Colocou uma musica para dançar e ficou bailando pelo
quarto enquanto Agnes só assistia. Dançar já era pedir demais para ela e felizmente
Penha não forçou nada. Pelo menos ela pode aproveitar bem as guloseimas que a
menina mandou preparar para a festa.

Quando chegou a hora, ela precisou lavar o rosto e arrumar os cabelo. Ela se olhou no
espelho mais uma vez e por mais que hesitasse, tinha que admitir que gostou do que
Penha tinha feito. Maquiagens eram totalmente proibidas para as mulheres da
organização. Nem mesmo um mísero batom.

Os únicos enfeites permitidos eram os broches e alianças para mulheres casadas. Não
podiam usar colares, pulseiras, anéis ou brincos. Presilhas para cabelos nem pensar.

E assim sua vida seguiu ao longo dos meses. Ela ia visitar Penha, conversava e até
participava passivamente das suas brincadeiras. Com o tempo ela entendeu que seu
interesse não tinha nada a ver com fome. Ela tinha se afeiçoado a menina, talvez tivesse
gostado dela desde o início, por isso nunca quis sugá-la como faria com qualquer outra
pessoa.

Na organização, as coisas continuavam as mesmas. Ela se esforçava ao máximo para


mostrar seu valor, cumpria as ordens do Sr. Malacai e colocava muitos adolescentes
rebeldes na linha. Esse era seu trabalho em tempo integral. Era difícil arrumar tempo
para visitar Penha, mas ela fazia o seu melhor. Além de lhe render um bom dinheiro,
sua única fonte de renda, também lhe trazia momentos agradáveis.

- O quê... – ela se espantou quando viu que o espartilho estava difícil de fechar que
ficou preocupada. Era óbvio que suas visitas à casa da Penha estavam lhe rendendo
alguns quilinhos a mais. Não dava para evitar. A comida ali era infinitamente melhor
que a da sua casa. Não só os pratos doces como também os salgados. Ela estava
provando iguarias com as quais não podia nem sonhar.

Ela deu um suspiro e conseguiu fechar o espartilho com muito custo. Era preciso
disfarçar bem para que sua mãe não notasse ou ia ter muitos aborrecimentos.

Fora esse pequeno inconveniente, tudo parecia correr bem. Mas um dia, ao visitar
Penha, ela encontrou a menina aos prantos.

- O que aconteceu?
- Meus pais querem viajar! Pra Paris! – ela sentiu algo desagradável e procurou ignorar.
- Você sempre quis ir a Paris.
- Aí a gente não vai poder brincar!
- Brincaremos quando você voltar.
- Vai demorar muito! Eles querem ficar dois anos lá, mas eu não quero mais!

Era de se espantar que Penha não quisesse fazer a viagem dos seus sonhos por sua
causa. Agnes também ficou triste com a partida da menina, mas entendeu que era
melhor assim. Ela estava se apegando demais àquela criança e isso não era bom. Era
preciso manter o foco na sua missão de preparar o mundo para a volta da Serpente e
aquela menina estava lhe distraindo.

- Penha, controle-se. – Agnes falou com sua voz calma e monótona. – Você sempre quis
fazer essa viagem. É o seu sonho.
- É, mas...
- Não deixe de fazê-la por minha causa. Não vale a pena.
- Você é minha melhor amiga.

Por um instante seu coração doeu. Nunca ninguém lhe chamou de amiga. Muito menos
de melhor amiga. Mas ela tinha que se manter firme.

- Continuaremos amigas quando você voltar. – prometeu sabendo que aquilo não ia
acontecer. Pelo menos era no que acreditava.
- Vai levar muito tempo!
- Nem tanto. Você terá muito o que fazer em Paris para ganhar o sotaque que você
sempre quis. Você ainda quer esse sotaque, não quer?

Após hesitar um pouco, Penha fez que sim com a cabeça enxugando as lágrimas.

- Quando eu voltar, você vai mesmo brincar comigo?


- Sim, eu vou. Então seja uma boa menina com seus pais. Tudo ficará bem.

A despedida foi difícil porque Penha chorou muito e até lhe encheu de abraços e beijos
que Agnes recebeu um tanto constrangida, pois não estava acostumada com
demonstrações de afeto. Nunca ninguém lhe beijou ou abraçou em sua vida. Ver Penha
ir embora foi ao mesmo tempo um alívio e uma tristeza. Bem, com o tempo aquilo ia
passar e ela decidiu não pensar mais naquilo.

Em sua casa, durante o jantar, ela só beliscava da comida insossa de sempre.

- Pare de brincar com a comida! – sua mãe ralhou.


- Me desculpe, mãe. Eu estou sem fome.
- Cale a boca vocês duas! – seu pai repreendeu e ambas se calaram. A hora da refeição
era sempre assim. Seu pai não gostava de ouvir ninguém falando.

Ela foi para o seu quarto mais cedo e pegou um livro para ler. Era um livro chato sobre
etiqueta que logo foi deixado de lado. Três meses depois da Penha ter ido embora, ela
ainda continuava triste e vazia. Muitas vezes ela se sentia uma idiota porque imaginava
que a menina já a tivesse esquecido, mas não conseguia evitar. Gostar das pessoas era
mesmo uma armadilha, um convite para se machucar seriamente. Ela devia ter tido mais
cuidado, talvez até recusado o trabalho. Se ao menos as sombras falassem com ela...

Mas nem isso. O sobrenatural estava enfraquecendo cada vez mais graças à arrogância
do Sr. Malacai que todo ano fortalecia a barreira. As sombras estavam perdendo sua
força e podiam passar semanas sem lhe dizer uma única palavra. Dentro de casa ela
sentia apenas solidão. Seus pais só notavam sua existência para lhe dar ordens ou
reprimendas. Boris estava ocupado com os assuntos dele e ela nunca teve grande
afinidade com o irmão. Mesmo que tivesse, seus pais não gostavam quando os dois
conversavam muito. Achavam que cada um devia apenas cuidar dos seus assuntos.

Amizade era quase inexistente na organização. Somente os homens tinham alguma


proximidade, mas tudo era muito formal e distante. Amizade entre mulheres não era só
desencorajado como também proibido. Eles tinham medo de que elas se unissem porque
isso podia levar a uma rebelião. Amizade entre homens e mulheres era impossível na
cabeça deles. Afinal, os homens as viam como inferiores. Como ser amigo de quem é
visto como inferior?

E assim ela seguia solitária e cada vez com mais raiva de todos a seu redor. Um dia
todos iam queimar e arder enquanto ela ia assistir tudo dando risadas.

Um dia chegou uma carta para ela. De Paris, o que foi uma surpresa. Ela abriu o
envelope com o coração aos pulos e viu um desenho da Penha. Atrás algo pontudo que
ela imaginou ser a Torre Eiffel. Em primeiro plano, uma garotinha vestida de vermelho
e de mãos dadas com uma mulher com vestido preto. Ela quase chegou a sorrir. Penha
ainda não sabia escrever, então deve ter lhe mandado aquele desenho e ela guardou com
todo cuidado.

Outras cartas foram chegando. No início eram só desenhos. Depois algumas palavras
simples que com o tempo foram formando frases. Aos seis anos e meio, Penha já
conseguia escrever cartas simples com sua letrinha torta de criança e muitos erros de
português. Ela dizia que estava aprendendo francês e que ia ganhar um sotaque bem
bonito.

Às vezes sua mãe via as cartas e as rasgava. Houve uma vez que Agnes não conseguiu
se controlar e sugou a mulher até ela cair desmaiada no chão. Assim ela pode salvar
uma carta onde Penha tinha lhe mandado uma bela gargantilha que parecia ser de prata,
mas na verdade era ouro branco e tinha um bonito pingente de cristal em forma de gota.

“Uma princesa tem que ter jóias” a menina escreveu em sua carta e Agnes olhou
fascinada para a jóia, algo que nunca tinha usado em sua vida a não ser a aliança de
casamento que agora estava jogada em uma gaveta.

Após hesitar um pouco, ela colocou a gargantilha. Era uma jóia bonita e discreta que
podia ser usada por debaixo da roupa sem que ninguém visse. Poder usar algo bonito
lhe dava conforto mesmo que ninguém pudesse ver.

Um dia, as sombras lhe chamaram. Foi quase um milagre porque elas não davam
notícias a quase dois meses.

- Eu estou aqui. – Disse com sua voz calma. Outros objetos foram acrescentados ao seu
altar. Estava ficando cada vez mais fácil fazer novas vítimas.
- O sobrenatural enfraqueceu mais uma vez. – as sombras disseram. Tememos pela sua
vida.
- Acham que eu estou em perigo?
- Não agora, mas no futuro. Você é muito importante para a volta da serpente e nada
pode te acontecer. Um dia, você será seu braço direito.

Seu corpo tremeu. Ser o braço direito da entidade que um dia irá dominar o mundo?
Aquilo ia muito além dos seus sonhos.

- O que eu devo fazer?


- Um dia você se unirá ao povo das sombras. Não agora, pois você ainda precisa andar
sob o sol. Mas quando estiver perto da hora, você terá que se unir à nós.
Um pedaço de sombra se formou na sua frente.

- Isso é o sangue da Serpente. Se você tomar, será parte do povo das sombras.

O pingente sob sua roupa se mexeu e flutuou no ar, esticando um pouco a corrente.
Agnes o protegeu com as mãos.

- Isso foi um presente.


- A jóia não será danificada. – as sombras garantiram e só assim ela tirou as mãos de
cima do pingente.

O pedaço de sombra líquida envolveu a pedra e penetrou em seu interior deixando-a


totalmente negra.

- Quando chegar a hora, coloque a pedra próxima aos seus lábios e nós faremos o resto.

E sumiram sem falar mais nada. Agnes ficou contemplando a pedra totalmente negra e
lamentou um pouco aquilo ter acontecido com um presente tão lindo. Mas era por uma
boa causa.

Os dias seguintes passaram sem nenhum incidente. De vez em quando ela recebia cartas
da Penha, que estava escrevendo cada vez melhor. E alguns mimos também. Um
broche, um anel, uma pulseira, só coisas pequenas que podiam ser levadas em
envelopes. Agnes tomava o maior cuidado para que aquelas cartas não caíssem nas
mãos da megera da sua mãe.

Até que por fim, dois anos se passaram e a família da Penha decidiu voltar. A menina
escreveu muito entusiasmada dizendo o dia da sua volta e pedindo para que fosse visitá-
la, pois tinha comprado muitos presentes.

Ela ficou receosa, pois não sabia como seus pais iam reagir se soubesse da sua amizade
com uma menina de sete anos. E aquilo era muito estranho mesmo. Mas como queria
ver Penha de novo, ela acabou aceitando o convite.

- Oi! Você veio! – a menina correu até ela e pulou em seus braços quase lhe jogando no
chão, pois ela não tinha muita força física e Penha cresceu bastante.
- Sim, eu vim. Acalme-se, está tudo bem. – Falou tentando conter o ataque de beijos que
a menina dava em seu rosto.
- Eu senti muito sua falta, viu?

Seu rosto queimou e ela colocou Penha no chão.

- Como foi a viagem? Se divertiu muito?


- Sim! E ganhei um sotaque muito bonito, não acha?

Ela tinha que admitir que o sotaque da Penha estava bem realista, como alguém que
nasceu em Paris e aprendeu português.

- Olha o que eu trouxe parra você! – A menina mostrou alguns embrulhos contendo
produtos de beleza, um vidro de perfume super caro, chocolates e um estojo com um
espelho. O estojo era feito de prata com o seu nome escrito em letras de ouro. – É para
você sempre ver como é bonita.
- Você não precisava ter se incomodado... – falou sem jeito diante de tantos presentes,
coisa que nunca recebeu na vida.

Foi difícil levar aquelas coisas para casa e esconder dos seus pais. Os chocolates podiam
ser comidos, mas ela não sabia o que fazer com os produtos de beleza porque eles eram
perfumados e sua mãe ia notar com certeza. E passar perfume era algo totalmente
proibido na organização. Nem homens podiam usar.

Ainda assim ela deu um jeito e foi usando tudo com o máximo de discrição possível. O
estojo sempre era levado em sua bolsa, pois lhe dava uma sensação boa tê-lo por perto.

***

Normalmente Agnes não ficava gripada, mas era mês de outubro e a barreira tinha
enfraquecido muito, lhe sugando mais que o normal. E fazia tempos que ela não sugava
nenhuma vítima. Isso fez com que ela ficasse doente, o que era ruim.

- Sua inútil, como se atreve a ficar doente? Quem vai me ajudar em casa? Mulheres não
ficam doentes, temos que estar sempre fortes e saudáveis para servir!

Sua mãe ralhava sem parar e não lhe dava a menor ajuda. Somente a empregada e Boris
e mesmo assim escondidos daquela megera sem coração. Agnes estava se controlando
ao máximo para não sugá-la até a morte.

Um dia, eles foram convidados para o casamento de um membro importante da


organização.

- Nós vamos passar vergonha porque você é fraca demais para cumprir seus deveres. –
seu pai disse. – Eu devia te dar uma surra bem grande por tamanha audácia!

Ela não retrucou, pois temia ser agredida e podia acabar fazendo uma loucura para se
defender.

- Pai, por favor, ela não tem culpa por ter ficado doente. Acontece com qualquer um!
- Acontece com homens que trabalham duro, se sacrificam e fazem tudo funcionar!
Mulher faz o quê da vida? Nada, são umas imprestáveis, não fazem nenhum trabalho
pesado!

Esse era o pensamento das pessoas da organização. Na cabeça deles, mulheres não
deviam nunca ficar doentes, pois era seu dever cuidar e nunca serem cuidadas. Um
homem ter que cuidar de uma mulher era visto como humilhação, uma grande afronta e
muitas eram deixadas sem tratamento médico, só sendo atendidas em último caso.

- Eu comprei antigripais para você. – Boris disse em voz baixa deixando comprimidos
dentro da gaveta do criado e uma jarra com água. – Tome um de duas em duas horas,
deve resolver. Queria te deixar comida, mas a mãe está vigiando tudo.
- Obrigada, os comprimidos já são suficientes. Ficarei bem.
- Espero que sim, não é certo nossos pais te tratarem desse jeito.
Todos saíram, deixando-a sozinha. Agnes se sentia perdida e abandonada, como se
ninguém importasse com ela. A fraqueza estava cada vez pior e ela decidiu ir até a
cozinha e comer algo sem se importar com as futuras reprimendas da sua mãe. Ela não
podia ficar o dia inteiro sem comer.

Quando tentou levantar, no entanto, a fraqueza piorou e ela caiu de volta na cama.

Você também pode gostar