Você está na página 1de 325

Este documento faz parte do acervo

do Centro de Referência Paulo Freire

acervo.paulofreire.org
para o estudo e a pesquisa; criticou o ensino hu1nanista e propôs a
matemática como modelo de ciência perfeita.
Descartes assentou em posição dualista a questão ontológica da
filosofia: a relação entre o pensamento e o ser. Convencido do potencial
da razão hun1ana, propôs-se a criar um n1étodo novo, científico, de
conhecimento do n1undo e a substituir a fé pela razão e pela ciência.
Tornou-se assin1 o pai do racionalismo. Sua filosofia esforçou-se por
conciliar a relighlo e a ciência. Sofreu a influência da ideologia burguesa
do século XVII, que refletia, ao lado das tendências progressistas da classe
em ascensão na França, o temor das classes populares.
No Discurso do método, Descartes apresenta assim os quatro grandes
princípios do seu método científico:
"1 º) O primeiro era o de ja1nais acolher algurna coisa. corno verdadeira
que eu não conhecesse evidente1nente como tal; isto é, de evitar,
cuidadosamente, a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus
juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito,
que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
2º) O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu
examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias
fossem para melhor resolvê-las.
3 Q) O terceiro, o de conduzir por ordem rneus pensa1nentos, con1eçan­
do pelos objetos mais simples e n1ais fáceis de conhecer, para subir, pouco
a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e
supondo mesrno un1a orden1 entre os que não se precedem naturalmente
uns aos outros.
4º) E o últin10, o de fazer em toda parte enumerações tão completas
e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir"*.
Descartes, o pai da filosofia n1odema 1 escreveu sua obra principal e111
francês, a língua popular, possibilitando o acesso de maior número de
pessoas. Até então, o latim medieval representava a língua da religião, da
filosofia, da diplon1acia, da literatura. O con1ércio já se utilizava das novas
línguas vernáculas (italiano, espanhol, holandês, francês, inglês e alemão).
O século XVI assistiu a uma grande revolução lingüística: exigia-se dos
educadores o bilingüisrno: o latim como linRua culta e o vernáculo como
língua popular. A Igreja percebeu logo a importância desse conflito,
exigindo, através do Concílio de Trento (1562), que as pregações
ocorressem em vernáculo.

* DESCARTES. Os pensadores. São Paulo, Abril, 1983.


Vinte anos depois da publicação do Discurso do método, JOÃO AMOS
COMÊNIO (1592-1670) escreveu a Didática magna (1657), considerada
como método pedagógico para ensinar com rapidez, economia de tempo
e sern fadiga. Ao invés de ensinar palavras, "sombras das coisas", dizia
Comênio, a escola deve ensinar o conhecimento das coisas.
O pensamento pedagógico 1noderno caracteriza-se pelo realismo.
JOHN LOCKE (1632-1704) perguntava-se de que serviria o latim para
os homens que vão trabalhar nas fábricas. Talvez fosse melhor ensinar
mecânica e cálculo. Mas as classes dirigentes continuavam aprendendo
latim e grego: um "bom cidadão" deveria recitar algum verso de Horácio
ou Ovídio aos ouvidos apaixonados de sua namorada. As humanidades
continuavam fazendo pane da educação da nobreza e do clero.
Locke, em seu Ensaio sobre o entendimento humano, combateu o
inatismo antepondo a idéia da experiência sensorial: nada existe em nossa
mente que não tenha sua origem nos sentidos.
A pedagogia realista insurgiu-se contra o formalismo humanista
pregando a superioridade do don1ínio do mundo exterior sobre o do1nínio
do mundo interior, a supremacia das coisas sobre as palavras. Desenvol­
veu a paixão pela razão (Descartes) e o estudo da natureza (Bacon). De
humanista, a educação torna-se científica. O conhecimento só possuía
valor quando preparava para a vida e para a ação.
O surto das ciências naturais, da física, da química, da biologia,
suscitou interesse pelos estudos científicos e o abandono progressivo dos
estudos de autores clássicos e das línguas da cultura greco-latina. Até a
moral e a política deveriam ser modeladas pelas ciências da natureza. A
educação não era mais considerada um meio para aperfeiçoar o homern.
A educação e a ciência eram consideradas um fim em si mesmo. O
cristianismo afirmava que era preciso saber para amar (Pascal). Ao
contrário, dizia Bacon, saber é poder, sobretudo poder sobre a natureza.
Bacon divide as ciências em : ciência da memória ou ciência histórica;
ciência da imaginação, ou poética; e ciência da razão ou filosófica.
Locke empresta à educação uma importância extraordinária. A criança,
ao nascer, era, segundo ele, uma tabula rasa, um papel em branco sobre
o qual o professor podia tudo escrever.
João Amos Comênio é considerado o grande educador e pedagogo
moderno e um dos maiores reformadores sociais de sua época. Foi o
primeiro a propor um sistema articulado de ensino, reconhecendo o igual
direito de todos os homens ao saber. Para ele, a educação deveria ser
permanente, isto é, acontecer durante toda a vida humana. Afirmava que

Você também pode gostar