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Colégio Vasco da Gama

Ensaio Filosófico

Poderá a manipulação do genoma humano ser ética?

Disciplina: Filosofia
Professora: Ana Lúcio

Trabalho realizado por: Bernardo Simões


11ºA

Março de 2021

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A manipulação dos genes do ser humano é uma questão que tem levantado
muitas dúvidas na comunidade científica sobre se é moralmente aceitável alterar os
genes de uma pessoa que ainda não nasceu, não tendo esta controlo sobre as suas
escolhas. Ao longo do meu trabalho, irei tentar apresentar argumentos contra a
manipulação do genoma humano e argumentos a favor. A posição por mim defendida
é a de que a alteração do genoma humano, se for regulada e feita de uma forma
extremamente cuidadosa e com boas intenções, irá ser uma mais-valia para as
gerações futuras, através do seu uso na medicina irá permitir curar certas doenças.

A manipulação do genoma humano é uma questão que tem vindo a inquietar


os filósofos, já desde o século passado, quando o escritor Aldous Huxley no seu livro
“Admirável Mundo Novo” escreveu sobre uma sociedade onde é o governo que
escolhe o tipo de indivíduos necessários ao país. Mais tarde, também Robert Nozick,
defensor do libertarismo, escreveu sobre este tema no seu livro “Anarquia, Estado e
Utopia” afirmando que o governo não deveria interferir nestas situações e que a
manipulação deveria ser uma opção para quem assim o desejasse.

No entanto, vários autores, entre eles Leon Kass, defendem que a manipulação
do genoma humano deve ser regulada por alguma entidade de modo a proteger
valores importantes, como a justiça social, e o bem-estar das crianças por nascer.

Se a manipulação do genoma humano for provada como uma operação


segura, a sua maior aplicação será na medicina onde irá servir para prevenir e curar
doenças genéticas. Hoje em dia, cerca de 6% de todos os bebés nascidos no mundo
têm algum tipo de condição grave que deriva de uma má formação ao nível dos seus
genes. Se a comunidade científica conseguir identificar quais os genes responsáveis
por tais condições, é possível que estas possam ser prevenidas ainda antes do
nascimento através da manipulação dos genes do feto. No entanto, muitos
especialistas acreditam que a manipulação do genoma humano não é necessária para
atingir estes mesmos resultados, uma vez que o uso da fertilização in vitro (que cria
vários embriões que podem ser testados para doenças genéticas) já é utilizada para
evitar cerca de 250 doenças genéticas. Marcy Darnovsky, diretora executiva da
organização The Center for Genetics and Society, afirmou num artigo publicado no
“The New York Times” (link: 13.04.2021) que «não existe nenhuma razão médica para
manipular o genoma humano porque doenças genéticas podem ser prevenidas
usando testes ao embrião, entre outros meios.».

Embora estas afirmações sejam verdadeiras, na realidade não é tão fácil como
parece uma vez que algumas doenças requerem cerca de 10 000 embriões para se ter

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a certeza de que apenas 1 deles irá ser completamente saudável. Normalmente
durante os tratamentos in vitro os casais normalmente produzem cerca de 10
embriões, o que daria ao casal menos de 1% de chance de selecionar um embrião
saudável.

Por outro lado, também existem vários argumentos contra a manipulação


genética, como o Argumento do Fantoche. Este argumento defende que a pessoa
modificada geneticamente será incapaz de escolher as suas opções livremente em
matérias relacionadas com o gene alterado. Quem controla as suas decisões é, nesta
situação, a pessoa que realizou as modificações. O principal defensor desta teoria é o
médico Leon Kass. No entanto este argumento é altamente problemático, uma vez
que não é por uma pessoa ter uma maior afinidade genética para um certo desporto,
por exemplo, que significa que a pessoa irá gostar desse desporto, ou até por razões
externas, não quer dizer que o poderá praticar.

Outro argumento muito utilizado para argumentar contra a manipulação


genética é o Argumento da Autenticidade. Este argumento defende que a manipulação
genética retira a autenticidade dos resultados alcançados pela pessoa geneticamente
modificada. A ideia principal é a de que os seus talentos e as suas habilidades não
são verdadeiramente suas, mas sim resultado da modificação. De acordo com o
presidente do Conselho Internacional de Bioética «O natural importa. Não importam os
medicamentos ou os dispositivos auxiliares utilizados, mas sim o perigo de violar ou
deformar a natureza da ação humana.».

Segundo este argumento a pessoa geneticamente modificada não precisa de


desenvolver certos traços físicos ou psicológicos uma vez que a alteração dos genes
já o fez. No entanto a modificação genética não implica que a pessoa seja perfeita
numa determinada área, mas sim que esta seja mais propícia a desenvolvê-la. Uma
pessoa não pode confiar apenas nos genes para as situações do quotidiano, a
experiência e o trabalho são tanto ou mais importantes quanto os genes de cada um.

Posto estes argumentos acima apresentados que podem ser refutados e


contrariados eu acredito que a manipulação do genoma humano, quando feita com
segurança e por profissionais especializados, será uma mais-valia para toda a
humanidade que poderá, com o avanço da tecnologia, continuar a evoluir e tornar-se
cada vez mais uma opção mais fiável e mais segura. A conclusão a que cheguei é que
não há argumentos éticos aceitáveis para impedir completamente as intervenções
genéticas em seres humanos, no entanto, o respeito à liberdade da futura criança e o

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interesse em promover a justiça social colocam certos limites éticos para determinada
intervenção.

Bibliografia:

Robert Nozick (2009) Anarquia, Estado e Utopia. Lisboa: Edições 70, pp 324 a 342.

Aldous Huxley (2013) Admirável Mundo Novo. Lisboa: Antígona.

Webliografia:

https://peh-med.biomedcentral.com/articles/10.1186/1747-5341-1-9
(31.03.2021_10:34h)

http://apfilosofia.org/wp-content/uploads/2017/06/O-direito-a-uma-identidade-gen
%E2%94%9C%C2%AEtica-n%E2%94%9C%C3%BAo-manipulada-normalizado.pdf
(31.03.2021_11:28h)

https://portal.oa.pt/publicacoes/revista/ano-2003/ano-63-vol-i-ii-abr-2003/artigos-
doutrinais/jose-de-oliveira-ascensao-intervencoes-no-genoma-humano-validade-etico-
juridica/ (31.03.2021_11.52h)

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5573992/ (01.04.2021_11:16h)

https://core.ac.uk/download/pdf/144550183.pdf (13.04.2021_14:49h)

https://www.nytimes.com/2014/02/24/opinion/genetically-modified-babies.html
(13.04.2021_15:30h)

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