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PROTÓTIPOS TEXTUAIS

Ana Cristina Macário Lopes


Fernanda Irene Fonseca

Os protótipos textuais são modelos mentais, construídos por abstracção a partir


de características textuais gerais. Correspondem ao que vulgarmente se designa como
"tipos de texto". Discriminam-se geralmente os seguintes protótipos textuais: narrativo,
descritivo, argumentativo, expositivo-explicativo, injuntivo-instrucional e dialogal-
conversacional.
Cada protótipo textual define-se por um determinado grupo de características,
podendo algumas destas características ser constantes e outras variáveis. Os
textos/discursos actualizam, de forma mais ou menos evidente e de forma mais ou
menos cabal, os protótipos de base disponíveis na memória dos falantes.
O conhecimento destes modelos mentais manifesta-se, por exemplo, na
classificação dos textos e no reconhecimento dos mesmos como exemplos mais ou
menos próximos de determinado protótipo. Os textos com que nos deparamos no
dia-a-dia situam-se, por certas propriedades que os caracterizam, ou próximos da
conformidade total em relação às propriedades do protótipo textual a que pertencem (o
que se verifica raramente), ou numa zona mais ou menos periférica, verificando-se então
uma conformidade parcial.
A maior parte dos textos é constituída por numerosas sequências, as quais
poderão actualizar diferentes protótipos textuais. De facto, num mesmo texto costumam
ocorrer sequências de diferentes tipos (por exemplo, num texto narrativo, é habitual
surgirem sequências de tipo descritivo e sequências de tipo conversacional-dialogal). A
classificação tipológica deverá ser equacionada ao nível da sequência textual.

Sequência narrativa
Os textos (ou as sequências textuais) que actualizam o protótipo textual narrativo
caracterizam-se por representar eventos, temporalmente correlacionados, que
configuram o desenvolvimento de uma acção global. Os eventos representados
encadeiam-se de forma lógica e orientam-se para um desenlace, preenchendo as três
categorias da lógica triádica das acções: situação inicial, complicação e resolução. É
também característica dos textos narrativos a unidade de personagens (pelo menos
uma).
Existem múltiplas e diversificadas formas de actualização do protótipo textual narrativo,
por exemplo: contos, fábulas, histórias, parábolas, reportagens, notícias e relatos de
experiências pessoais (protagonizadas ou não pelo locutor).

Sequência descritiva
As sequências textuais que actualizam o protótipo textual descritivo são construídas em
torno de um dado objecto, acerca do qual se predicam diversos atributos. Os textos
descritivos são uma exposição de diversos aspectos que configuram o objecto sobre o
qual incide a descrição. Podem constituir objecto de descrição, por exemplo: pessoas e
personagens (quer traços físicos, quer atributos psicológicos), espaços (físicos,
psicológicos ou sociais), fenómenos atmosféricos e todo o tipo de objectos.
As sequências textuais descritivas surgem frequentemente articuladas com sequências
textuais de outros tipos. Por exemplo, em textos narrativos, é frequente surgirem
sequências descritivas que permitem caracterizar uma personagem ou um espaço social,
por forma a motivar o desenrolar da acção.
Como exemplo do protótipo textual descritivo, poderemos referir textos ou sequências
textuais em que se faz a enumeração dos atributos de uma determinada pessoa ou das
propriedades de um determinado objecto (casa, móvel, rua, etc.).
Rui Abel Pereira, FLUC, 2009 1
Sequência argumentativa
O objectivo central dos textos/discursos que actualizam o protótipo textual argumentativo
consiste em justificar e/ou refutar opiniões. Quem produz um texto argumentativo visa
convencer o(s) seu(s) interlocutor(es), obter a sua aprovação relativamente a uma
determinada tese, ou refutar uma opinião alheia. Assim, poder-se-á dizer que um texto
argumentativo se caracteriza, por um lado, pela expressão de uma opinião que, sendo
controversa, suscita uma defesa e abre um espaço de contestação e, por outro lado, pela
expressão de argumentos a favor ou contra uma determinada tese.
As sequências textuais e os textos de tipo argumentativo são muito frequentes nas
interacções verbais do nosso dia-a-dia: na propaganda política, publicidade, nos debates
televisivos sobre questões polémicas e mesmo em situações informais de interacção
sobre aspectos práticos como optar por usar o transporte público ou o automóvel privado.

Sequência expositiva ou explicativa


Estão associados ao protótipo textual expositivo-explicativo (também designado
simplesmente "explicativo") os textos em que se apresentam análises e sínteses de
representações conceptuais, com o objectivo de expor e explicar algo. Textos deste tipo
são particularmente frequentes em contextos pedagógicos, visto tratar-se de situações de
comunicação em que se pretende explicar conhecimentos previamente construídos. A
ocorrência de textos do tipo expositivo-explicativo não se restringe, todavia, a estes
contextos: de facto, este protótipo adequa-se a situações diversificadas em que se
apresentam problemas e propostas de resolução dos mesmos, eventualmente
acompanhadas de justificação.
Podemos encontrar numerosos exemplos de actualização deste protótipo textual nos
manuais escolares das disciplinas do ramo das ciências naturais, onde abundam textos
em que se passa constantemente da exposição (sucessão de informações com o
objectivo de dar a conhecer algo) à explicação (com o intuito de fazer compreender o
porquê do problema e a sua resolução).

Sequência instrucional
Os textos que actualizam o protótipo textual injuntivo-instrucional têm subjacente o
objectivo de controlar o comportamento do(s) seu(s) destinatário(s). Trata-se de textos
que incitam à acção, impõem regras comportamentais ou que, simplesmente, fornecem
instruções sobre as etapas e os procedimentos que deverão ser seguidos de modo a
alcançar um determinado objectivo. Estes textos estão sempre orientados para um
comportamento futuro do destinatário.
Este protótipo textual é actualizado numa grande diversidade de textos, desde
enunciados simples como "Proibido fumar" até às regras de utilização de um software
extremamente complexo, incluindo, por exemplo: receitas de culinária, instruções de
montagem.

Sequência dialogal
O protótipo dialogal-conversacional, também designado apenas "dialogal", é actualizado
em textos produzidos por, pelo menos, dois interlocutores que tomam a palavra à vez.
Estes textos são constituídos por um número variável de trocas verbais. Os enunciados
dos diversos interlocutores presentes numa interacção dialogal são mutuamente
determinados - ou seja, os intervenientes cooperam na produção do texto, de tal modo
que esta se configura como uma realização interactiva.
O protótipo textual dialogal manifesta-se, por exemplo, numa conversa telefónica, nas
interacções quotidianas orais, nos debates e nas entrevistas.

in Dicionário de Terminologia Linguística

Rui Abel Pereira, FLUC, 2009 2


PROTÓTIPOS TEXTUAIS E GÉNEROS TEXTUAIS
Ana Martins

As reflexões recentes sobre tipos ou tipologias de texto têm por base fundamentalmente
as propostas de Jean-Michel Adam (1992), segundo as quais, a partir da
heterogeneidade composicional dos discursos reais, são definidos padrões de
textualização. Trata-se de passar da complexidade das formas discursivas reais para o
apuramento de formas mais elementares ou tipos relativamente estáveis de sequências,
disponíveis para entrarem num número infinito de combinações.
Aquilo que Adam descreve são protótipos textuais (narrativo, descritivo,
argumentativo, expositivo, injuntivo, dialogal), ou seja, agregados de regularidades do
processo de textualização.
Se dermos como equivalentes os termos protótipos textuais e tipos de texto, então
temos de reconhecer que raramente um discurso real — efe(c)tivamente produzido num
contexto situacional efe(c)tivo — corresponde integralmente a uma tipologia. Talvez
alguns textos técnicos (a circular, o aviso, a convocatória, etc.) sejam
composicionalmente homogéneos. A regra é a heterogeneidade: o sermão tem
sequências argumentativas e sequências narrativas; o discurso publicitário tem
descrição e argumentação; o romance tem narração e descrição, etc.

1. Quando analisamos um texto, devemos considerar dois níveis de critérios:


(i) o nível de critérios internos ao texto – atinentes à sua forma-conteúdo, implicados
no saber-fazer textual, na técnica de textualização. Segundo estes critérios é possível
apurar um feixe de características formais (umas mais centrais, outras mais periféricas)
conducentes a abstra(c)ções, que são os tipos de texto ou tipos de sequências textuais.
Neste nível, temos:
– um tipo de sequência narrativa: com uma sucessão temporal-causal de
acontecimentos, uma estrutura triádica preparação-culminação-resultado; com uma
unidade temática e com uma moralidade;
– um tipo de sequência argumentativa: constituído pelo par argumento-conclusão,
através do qual o locutor apresenta razões ou provas de modo a que o interlocutor
aceite aquilo que ele defende, assente numa base pressuposicional comum;
– um tipo de sequência descritiva, com os processos básicos de designação,
enumeração e qualificação;
– um tipo de sequência dialogal, ou seja, uma sequência poligerida com fórmulas de
abertura, corpo e fórmulas de fechamento;
– um tipo de texto injuntivo ou instrucional, com um alinhamento não consecutivo de
a(c)ções não radicadas temporalmente.

1
ADAM, Jean-Michel 1992 – Les Textes: Types et Prototypes, Paris, Nathan.

Rui Abel Pereira, FLUC, 2009 3


(ii) o nível de critérios exteriores ao texto – respeitantes à situação de comunicação
em que tem lugar uma produção discursiva real e à sua função comunicativa.

2. Para a produção de um discurso, o locutor combina um (ou mais) tipo(s) de


sequência textual com uma função discursiva. Assim se entende que:
– seja possível narrar um episódio (tipo) para descrever uma situação social (função);
– uma instrução (função) se execute através da descrição de obje(c)tos e da descrição
de a(c)ções (tipo);
– a função argumentativa possa assumir o tipo/forma de texto narrativo ou descritivo,
sempre que o locutor tenta agir sobre o outro, modificar as suas representações ou
orientar a sua reflexão sobre um dado problema.

3. Compare-se:
a) Boticário: perfume que vem das flores.
b) UDACA: vinho que vem das uvas.
c) «Bazar»: palavra que vem do persa.
Em a) temos uma sequência descritiva com função argumentativa; esta função resulta
de se contrariar uma base pressuposicional forte – a de que os perfumes são feitos,
para além da destilação de flores, de substâncias sintéticas, álcool, fixador, etc; desta
maneira é focada a pureza do perfume que conduzirá à conclusão: «comprar o produto
é bom para si».
Em b) temos também um texto descritivo, mas a função argumentativa não funciona,
porque, à partida, não há a pressuposição de que o vinho pode ser feito de algo que
não seja de uvas.
Em c) temos um texto descritivo num discurso com função descritiva.

4. O exemplo a) – Boticário: o perfume que vem das flores – não é uma sequência
injuntiva/instrucional, dado que não tem características formais típicas dessa sequência
(os imperativos, os circunstanciais de fim, a enumeração de procedimentos não estão
lá) e também não tem função discursiva injuntiva ou instrucional dado que lhe falta o
cará(c)ter impositivo/obrigatório afe(c)to aos procedimentos visados (neste caso, a
compra do produto).
in Ciberdúvidas

Rui Abel Pereira, FLUC, 2009 4