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198011992 - chegando aos 260 títulos

mais de 6 m'ilhões de exemplares vendidos

No final da década de 50, quando os jovens


começaram a mobilizar-se para contestàr a
sociedade, "rebelde sem causa" e "juventude
transviada" foram expressões que marcaram
uma geração. Depois vieram os hippies e seus
happenirígs. A "Era de Aquário" exigia novas
maneiras de pensar e de se relacionar com o
mundo. Hoje, após os new waves, punks,
darks, pós-modernos e tantas ondas mais,
será que o !ema "Paz e Amor" - a grand_e
bandeira da contracultura - ainda é a palavra
de órdern?

Áre_as de interesse:
Comunicação, Política, Sociologia

Carlos Alberto M. Pereira


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O QUE E edição

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A. Hiih:iria
CONTRACULTURA
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-,Sàfíiantha Simões Braga
Rua Rio Grantle do Norte 1299/303
SavassiBhteM.G.
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C.EP 3 13 111
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º-
HÁ ALGO NO AR ALÉM DOS
A VIÕES DE CAR REI RA

Paz e Amor. Paradise Now. Desbunde. Desre-


pressão. Revolução Individual. You Are What You
Eat. Aqui e Agora. É Proibido Proibir. A Imagi-
nação Está Tomando o Poder. Flower Power.
"Eu pensava ter dado um grande salto para a frente Tum on, Turne in and Drop out. Etc. Etc.... Pala-
e percebo que na verdade apenas ensaiei os tímidos vras de ordem e expressões como estas foram, num
primeiros passos de uma longa marcha." determinado momento, capazes de mobilizar ·
multidões de jovens e intelectuais, nas mais dife-
(A Chinasa - Godard) rentes partes do mundo. Corriam os anos 60 e
um novo estilo de mobilização e contestação
social, bastante diferente da prática política da
Agr::decimentos a: Alberto Sabino Jr., Heloísa esquerda tradicional, firmava-se cada vez com maior
Buarque de Ho/landa, José Leon ardo Gomes da força, pegando a crítica e o próprio Sistema de
Silva Neto, Luís Carlos Maciel, Luís Carlos Fridman surpresa e transformando a juventude, enqu anto
e Maria Lygia M. C. Pereira. grupo; num novo foco de contestação radical. O
que estava acontecendo? Falava-se no ·surgimento
.
8. Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura

de uma nova consciência, de uma novà era, enfim, movimentos organizados de contestação social -
de novos tempos. Era uma revolução em curso? e isto tanto pelas bandeiras que levantava, quanto
Estava-se presenciando o surgimento de uma nova pelo modo como as encaminhava -· a contracultura
utopia? conseguia se afirmar, aos olhos do Sistema e das
Aos poucos, os meios de comunicação de massa oposições (ainda que gerando incansáveis dis-
começavam a veiéular um termo novo: contra- cussões), como um movimento profundamente
cultura. Inicialmente, o fenômeno é caracte- catalisador e questionador, capaz de inaúgurar para
rizado por seus sinais mais evidentes: cabelos setores significativos da população dos Estados
compridos, roupas coloridas, misticismo, um tipo Unidos e da Europa, inicialmente, e de vários países
de música, drogas e assim por diante. Um conjunto de fora do mundo desenvolvido, post_eriormente, um
de hábitos. que, aos Ólhos das famílias de classe estilo, um modo de vida e u~a cultura underground,
média, tão ciosas de seu projeto de ascensão social, marginal, que, no mínimo, davam o que pensar.
parecia no mínimo um despropósito, um absurdo Esse espírito libertário e questionador da racio-
mesmo. Rapidamente, no entanto, começa a ficar ' nalidade ocidental, que viria a marcar tão forte-
mais claro que aquele conjunto de manifestações mente isto que ficou conhecido como a contra-
culturais novas não se limitava a estas marcas cultura, já se ahunciava nos Estados Unidos, desde
superficiais. Ao contrário, significava também os anos 50, com uma geração de poetas - a beat
novas maneiras de pensar, modos diferentes de generation - que produziu um verdadeiro símbolo
encarar e de se relacionar com o mundo e com as do fenômeno com o poema "Howl" (Allen
pessoas. Enfim, um outro universo de significados Ginsberg, 1956), que, traduzido, significa uivo ou
e valores, com suas regras próprias. berro. Nesta mesma época, com seu apogeu por
Começavam a se· delinear, assim, os contornos volta dos anos 1956-1968, surge o. rock- 'n-roll,
de um movimento social ·de caráter fortemente sintetizado na figura provocativa de Elvis Presley,
1ibertário, com enorme apelo junto a uma juven- i
aglutinando um público jovem que começava a
i
tude de camadas médias urbanas e com uma prática fazer deste tipo de música a expressão de seu
e um ideário que colocavam em xeque, frontal- descontentamento e rebeldia, tornando inse-
mente, alguns valores centrais da cultura ocidental, paráveis a música (ou a arte) e o comportamento.
especialmente certos aspectos essenciais da raciona- É a chamada juventude transviada, com suas gangs,
lidade veiculada e privilegiada por esta mesma
cultura. Ainda que diferindo muito dos tradicionais
motocicletas e revoltas contra os professores nas
salas de aula. São os "rebeldes sem causa" _t:º_ _ il
'
10
Carlos Alberto Messeder Pereira

retrata~os, não i':1porta se justa ou injustamente,


pelos filmes da epoca e encarnados na figura de
-----------,11l
: e é 'contracultura

para um jornal underground brasileiro. Toda essa


movimentação na música era seguida de perto pelo
1

li:.,_. -

James Dean. Já começava a se delinear, de modo movimento hippie, com suas comunidades e
b:st~nte claro, algo que seria de grande impor- passeatas pela paz. Por volta de 1967, na mesm~
tanc1a para a compreensão da década seguinte: uma época em que na lendária São Francisco era reali-
consciência etária. A oposição jovem/não-jovem zado com grande alarde o enterro simbólico_ do
começava a ganhar cada vez maior sentido para a mesmo movimento hippie, surgia um curioso
compreensão de determinados movimentos sociais. 1:,,
partido: o Youth lnternational Party (Partido
~•. no entanto, nos anos 60, que essa explosão Internacional da Juventude). que vinha lançar a
pai 1t1co-cultural ganha potência máxima. Na figura do yippie (o hippie politizado). Ainda um 1
música, o ié-ié-ié dos Beatles e o novo som de Bob fato importante na caracterização desse quadro são
Dylan começavam a reunir um público crescente e as revoltas nos campi universitários que culminam
c~da_ vez mais significativo diante da opinião 1
com a radicalização do movimento estudantil inter- i
publica. A segunda metade da década é marcada nacional, sintetizada pelo Maio de 68, na França.
por grandes concertos e festivais de rock que, na A partir de então, era difícil ignorar-se a contra-
verdade: se transformâvam sempre em grandes
happenmgs. Entre alguns dos mais importantes
estão o de Monterey, em 1967, quando surgem
cultura como forma de contestação radical. Se
seria fácil e totalmente absorvida pelo Sistema,
pelo Establishment - palavras consagradas p~lo
i
j
J1mmy Hendrix e Janis Joplin; o de Woodstock, jargão da época -, se era um sinal evidente da alie-
em 1969; o de Altamont, ainda no mesmo alio,
q~ando_ um negro é assassinado pelos Hell's Angels,
ev1denc1ando-se a presença da violência no interior
nação de parcelas cada vez maiores das populações
de países situados nos quatro cantos do mundo o_u
se significava a crítica mais radical que já se havia
l
da contracLiltura; e, finalmente, o da Ilha de Wight. produzido à cultura ocidental como um todo, estas
_Este, por sua vez, contou com a presença de. figuras eram algumas das questões centrais que estavam
importante~ da música brasileira, ou melhor, do colocadas na pauta de uma discussão quente e
Tropicalismo, como Caetano Veloso Gilberto Gil profongada, que não deixa de apontar para um
(ambos vivendo em ·Londres na época) e Gal saldo que parece exigir e merecer um balanço
Gosta, ao lado de pessoas de outras .áreas como cuidadoso do qual possam sair pi_stas que apontem
Rogério Sganzerla, José Vicente ou Antoni; Bivar no sentido de uma melhor compreensão do que foi
que realizava a cobertura jornalística do festivaÍ ou do que é a contracultura.

JS .L'?-_ ••••••
O que é' Contracultura 13

uma aproximação mais direta do fenômeno da


contracultura é, sem dúvida alguma, o depoi-
mento de alguém que, pelo menos no Brasil, teve
um papel fundamental tanto na atualização quanto
na divulgação das idéias da contracultura. Seu
nome é Luís Carlos Maciel - colaborador do
Pasquim do começo dos anos 70 e de vários outros
jornais underground, bem como autor de vários
A ASCENSÃO DE UM livros sobre o assunto em questão -, que nestas
anotações que se seguem, publicadas já nos anos 80,
PODER JOVEM nos dá algumas pistas fundamentais que vale a pena
seguir.

Embora bastante prox1mo no tempo, o movi- Primeira anotação


mento de contr;icultura, num certo sentido, já faz
P?rte de um passado histórico, estando um pouco O termo "contracultura" foi inventado pela imprensa
distante do nosso dia-a dia. Os tempos mudam e
0
norte-americana,-nos anos 60, para designar um conjunto
fica então difícil reconstituir o vigor, o pique da de ma_nifestações culturais novas·que floresceram, não só
movimentação daqueles anos ôO que tanto marca- nos Estados Unidos, como em vários outros países, espe-
ram, de modo radical e definitivo, a experiência da cialmente na Europa é, embora com menor intensidade e
juventude internacional. repercussão, na América Latina. Na verdade, é um termo
•, Por outro lado, descrever, em poucas páginas, a adequado porque uma das características básicas do fenô-
natureza de um movimento complexo e rico como meno é o fato de se opor, de diferentes maneiras, à cul·
a contracultura, ou mesmo contar um pouco de sua tura vigente e oficializada pelas principais. instituições
história, não é tarefa fácil. Especialmente se o que das sociedades do Ocidente.
se pretende é compor um quadro capaz de passar ContracUltura é a cultura marginal, independente do
· de modo. vivo e atual um pouco do clima daquele reconhecimento oficial. No sentido universitário do ter· i
momento.
mo é uma anticultura. Obedece a instintos desclassi· h
Nesse sentido, um bom ponto de partida para ficados nos quadros acadêmicos. 11
d
'
14 Carlos Alberto Messéder Pereira O que é Contracultura 15

Segunda anotação
1 pretá-la. São diferentes leituras do mundo e por nenhum
critério pretensamente objetivo podemos afirmar que
Pode·se entender contracultura, a palavra, de duas uma seja mais válida - ou mais objetiva", verdadeira'\
11 11

maneiras: "científica" etc. - do que outra.


a) comq um fenômeno histórico concreto e parti~ Criamos, inventamos culturas - e a todo momento,
cular, cuja origem pode ser localizada nos anos 60; e praticamente sem cessar. Trata-se, apenas,·no fundo, de
b} como uma postura, ou até uma posição, em. face um jogo cuja graça maior há de ser, sempre, sua carga
da cultura convencional, de crítica radical. poética. O valor mais alto de uma cultura é sua visão
No primeiro sentido, a contracultura não é, só foi; no poética.
segundo, foi, é e certamente será. Cultura, pois, é essencialmente Arte - um dos piores
prejuízos causados pçla visão Científica que domina a
nossa cultura foi o de distorcer, obscurecer e finalmente
Terceira anotação ignorar esse fato.

Acostumamo-nos, através da educaçãO, a ver na cul•


tura que herdamos de nossos pais e antePassados uma Quarta anotação
'
ent_idade intocável, definitiva, que se apresenta diante de
nós como parte da própria essência da realidade - algo A compreensão do fenômeno da contracultura depen-
"natural" como o Sol 'ou .a Lua, ou o resultado de uma de d_a erradicação desse preconceito, introjetado em todos
evolução que se diria "biológica" porque inevitável. nós desde a infância: o de que nossa cultura particular e
É evidente, porém, que não é assim. suas formas esp.ecíficas e limitadas são, de alguma manei-
Cultura é um produto histórico, isto é, contingente 1 ra, superiores, ou melhores, ou mais objetivas etc. do que
mais acidental do que necessário, uma criação arbitrária quaisquer outras, pretéri\as ou a inventar.
da liberdade - cujo modelo supremo é a Arte. · Esta é uma ilusão tenaz, amparada por todas nossas
Não há cultura, a rigor - como manifestação de Uma instituições - da universidade ã política -, e o primeiro
inexistente unaturezaª humana, por exemplo -, mas ato indiscutivelmente positivo e genuinamente ràvolu-
culturas, no plural", criadas por diferentes homens em cipnário da contracultura foi o de desmenti-la.
diferentes épocas, .lugares e Condições, tanto objetivas Esse ato foi espontâneo. O surgimento e o desenvol- '

quanto subjetivas. Elas expressam não a realidade em si: vimento ct'o que se chamou contracultura não foram pre·
mas diferentes maneiras· de ver essa realidade e de inter- vistos - e só foram pr~cariamente apreendidos, à custa
.
16 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 17

de distorções - pelos quadros de conhecimento elabora- liarés; antes, suas formas mórbidas - dinheiro, explo-
dos por ·nossa cultura. ração, repressão, autoritarismo etc. - são suas conse-
Sua fonte foi ·a maQia fundamental da realidade, seÚ qüências ou sintomas, ou ainda mel.hor: são ela própria,
poder incessante de criação, insubmisso. a todos os tipos ao nível da experiência coletiva concreta.
e tentativas de racionalização.
Esta é a principal originalidade histórica da contra-
cultura. Ela tem mais a ver com um passe de mágica do Sexta anotação
que qualquer processo racionalizável.
11
"Na noíte dos tempos" quer c:fizer: aqui e agora. A I'1.1
Eternidade do Instante Eficiente. J
Qu irlta anotação ,Il1
A contracultura foi certamente propiciada pelas pró-
1
Sétima anotação 1
prias doenças de nossa cuJtura tradicional. Tais doen-
ças condiciona·ram seu surgimento_, como- um antídoto, 1
O dÕente é o homem condicionado que conhece_mos
ou anticorpo, nec(Jssário à preservação de um mínimo de em nossa c,ultura. Sua perda básica é a da própria liber-
saúde existencial, que passou a ser socialmente e_xigido dade. Em função disso, ele se torna, cada vez mais, um
pelo _próprio instinto de sobrevivência ·de nossa vida em escravo do que ·os hindus chamam Maya. ,j
comum.
Maya significa ilusão mágica, arte, jogo. O olho des- '.i
Nossa cultura é, ela própria, uma doença. Uma arte perto o vê àssim; o adormecido o confun~e· com o real, ii
mórbida. i1
prende-se em sua teia.
O pensamento do século XIX tentou diagnosticar essa i
Nas teias de Maya, o sujeito vive um estado de aluci-
doença de diferentes maneiras. Chama-se "alienação", nação completa, de absoluta confusão merital. Sua mente
de Marx - e '·'neuróse", em Freud. No marxi~mo, é o cohturbada cria uma série interminável-de monstruosi-
resultado psicológico da exploração econômica; na dades econômicas, sociais, p~icológicas e existenciais.
psicanálise, o produto socia·I da repressão dos instintos. O grande obstáculo é que esse estado onírico, alucina-
Há de ser ambas as Coisas - e ITiais ainda .. tórin, é considerado "normal" por sua própria ótica, que
A origem dessa doença perde-se na noite dos tempos: é a vigente; dessa forma, a preservação e mesmo a evo-
ela não depende apenas das maneiras que os homens orga- lução da doença são asseguradas. Considerando-,se "sau-
nizaram sua sobrevivência material ou suas relações fami- dável", o doente não procura médíco nem remédio - e
18 Carlos Alberto Messeder Pereira
O que é Contracultura 19

atribui seu sofrimento a uma fatalidade absurda e incom·


preens ível. Essa condição caracteriza o nosso cotidiano. na medida em que ó fenômeno.a que ele se referia
A doença é essencialmente mental - e, portanto, ia també m se expandindo e se revelando, aos olhos
tanto física quanto espiritual. Mente~ Corpo e Espírito - de um número crescente de pessoas; como um tema
esses tFês são um só. obrigàtório de discussão. Ê ela ro que não se pode
esquecer ou deixar de levar em consideração a força,
o poder da imprensa, especialmente da grande im-
)
prensa, no sentido de lançar rótulos ou modismos.
Oitava anotação
Mas isto, por si só, não parece ser suficiente para
A contracultura surgiu do confronto entre a cultura,
explicar a enorme e rápida difusão do termo con-
reconheci_da -como doença, e a visão juvenil, cujo instinto tracultura.
natural é para a saú~e. A audácia dessa visão ,não pode Assim que, de um lado, temos a expansão e
ser considerada mera precipitação ingênua, pois funda-se, difusão do fenômeno a que o rótulo se referia e, de
antes,. num desencanto radical - atingido por saturação, outro - o que é um ponto fundamental -, o grande
maturidade - Com o mundo tal-com o o conhece mos. vigor expressivÔ do próprio rótulo. Desta forma, o
As vertentes que confluíram para a formação de con-
termo "colava" não apenas porque se referia a um
tracultura são várias, de naturezas aparentemente diver- fenômeno que assumia proporções cada vez maio-
sas, mas sublinhadas pelo denominador comum da inten- res, ou porque era veiculado por .uma imprensa mais
ção libertária. E a fonte instintiva dessa intellção é, sem ou menos poderosa, mas, talvez, especialmente, por-
dúvida, a visão juvenil.* que contin ha em si mesmo uma expressiva carga de ·
informação a respeito do movimento que designava.
• • • Tratava-se, de fato, de um movimento de contes-
tação que colocava frontalmente em xeque a cultura
Surgido inicialmente na imprensa, o rótulo oficial, prezada e defendida pelo Sistema, pelo
contra cultura foi ganhando um espaço de circu- Establishment. Diante desta cultura privilegiada e
lação cada vez mais amplo. E isto, principalmente, valorizada, a contracultura se encontrava efetiva-
mente do outro lado das barricadas. A afirmação e
a sobrevivência de uma parecia significar a negação
*
e a morte da outra. E agora, amplificada e difundida
Lufs Carlos Maciel. Revista Careta, Ano Llll, nC? 2736, de
20/07/19 81. p. 19. pelos meios de comunicação de massa, a recusa-
radical da juventude ganhava a cena com grande

¼i-,.,_s:z :==:··"'
20 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 21

alarde e assumia ares de uma verdadeira contra-


cultura. " ... um certo espírito, um certo modo de _contestação ...
•Podemos entende r por contracu ltura duas coisas um tipo de crítica anárquica-que, de certa maneira, Toinpe
até certo ponto diferentes, ainda que muito ligadas com as reg,as do jogo . .. "
entre si. E, quando alguém usa o termo, é poss ívél
que esteja se referindo a uma ou a ambas as coisas.
De um lado, o termo contracu ltura pode se refe-
rir ao conjunto de movimentos de rebelião da juven-
tude de que falávamos anteriormente e que marca-
ram os anos 60: o movimento hippie, a música rock,
uma certa movimentação nas universidades,viagens
de mochila, drogas, orientalismo e assim por diante.
E tudo isso levado à frente com um forte espírito
de contestação; de insatisfação, de experiência, de
busca de uma outra realidade, de um outro modo
de vida. Trata-se, então, de um fenômeno datado e
situado historicamente e que, embora muito pró-
ximo de nós, já faz parte do passado. Hoje, mesmo
quando nos vemos diante de um ou outro destes
elementos, eles já não têm o mesmo sentido de
antes, ou pelo menos não com aquela .força.
De outro lado, o mesmo termo pode também se
referir a alguma coisa mais geral, mais abstrata, um
certo espírito, um certo modo de contestação, de
enfrentamentci diante da ordem vigente, de caráter
profund amente radical e bastante estranho às for-
mas mais tradicionais de oposição a esta mesma
ordem dominante. Um tipo de crítica anárquica -
esta parece ser a palavra-chave - que, de certa ma- Colagem so/Jre o happening "Para Conjurar o Espírito
neira, "rompe com as regras do jogo" em termos de da Catástrofe", deJean-JacquesLebel e TetsumiKudo,

' - - - - - - - - - 1 - 9 6 - 4 ._ _ _ ____;__ __,_ _____ JI


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. -------,·'-,..a-~-~~~,--~-:~~--,.,.~•.
22 Carlos Alberto MessederPereira O que é Contracultura
23

modo. de se fazer oposição a uma determinada tura dominante, realizando-se uma espec,e de
situação. Aquela postura ou posição de crítica "crítica selvagem" a esta mesma cultura e.sociedade
radical em face da cultura convencional, à qual se ocidentais.
refere Maciel em suas anotações. Uma contracul- Não se tratava da revolta de uma elite que, em-
tura, entendida assim, reaparece de tempos em bora privilegiada, visasse uma redistribuição da
tempos, em diferentes épocas e situações, e costuma riqueza social e do poder em favor dos mais humil-
·ter um papel fortemente revigorador da crítica des. Nem de uma "revolta de despossu ídos". Ao
social. contrário. Era exatamente a juventude das camadas
Tanto no sentido mais geral quanto no específico, altas e médias dos grandes centros urbanos que,
o termo aponta para uma realidade cuja natureza tendo pleno acesso aos privilégios da cultura domi-
extremamente radical, questio nadora , e bastante nante, por suas grandes possibilidades de entrada no
"difere nte" se comparada às formas mais tradi- sistema de ensino e no mercado de trabalho, rejei-
cionais de oposição ao status quo, sugere a idéia de tava esta mesma cultura de dentro. E mais. Rejei-
que estamos de fato diante de algo situado fora da tavam-se não apenas os valores estabelecidos mas,
ou contra a cultura oficial. E isto na medida em que basicamente, a estrutura de pensamento que preva-
esta nova realidade se apóia sobre uma recusa fun- lecia nas sociedades ocidentais. Criticava-se e rejei- !i
LI
damental,.expl ícita ou implícita, de alguns dos va- tava-se, por exemplo, o predom ínio da raciona- 1-i
lores mais sagrados e prezados por aquela cultura. lidade científica, tentando-se redefinir a realidade
';

Fiel à filosofia utópica do drop out, a juventude através do desenvolvimento de formas sensoriais de
engajada na contracultura dos anos 60 buscava, percepção. Nas palavras de William James, est'u-
através deste conjun to de idéias e comportamentos, dioso dos agentes alucinógenos do final do século .
cair fora do Sistema. Descrente do futuro e desen- passado: " ... a consciência racional, como a cha-.
cantada com o presente - uma sociedade e uma cul- mamas, constitui apenas um tipo especial de cons:
tura que, segundo o consenso da época, estavam ciência, enquan to, a seu redor, dela separadas por
simplesmente "doent es" -, o que tentava criar era um tenu íssimo biombo, jazem formas potenciais
um mundo alternativo, underg round, situado nos inteiram ente diferentes ( ... ). Nenhuma con-
interstícios daquele mundo desacreditado, ou no cepção do universo em sua totalidade que
que se acreditava ser o outro lado de suas muralhas. ignore essas outras formas de consciência pode ser
Rompia-se com praticamente todos os hábitos con-
definitiva {... ). Elas impedem um fechamento
sagrados de pensamento e compo rtamen to da cul- prematuro de nossas contas com a realidade".
24 Ozrlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 25

É a recusa radical destes princípios mais do que cada vez mais freqüente e comum o emprego, em
consagrados que parece emprestar ao rótulo contra- contextos diversos, da expressão conflito de gera-
cultura seu forte sentido, justificando sua fácil acei- ções. Falar então de conflito de gerações era tocar
tação de ambos os lados das barricadas. Tanto da em um problema essencialmente político. Não se
parte daqueles que se colocavam ao lado do novo tratava mais de um fenômeno episódico e parti-
fenômeno, quanto da parte dos que lhe faziam cular, mas de um foco importante de contestação
oposição, o que se pressentia era uma ruptura, no social de nossa época. O espaço privado e íntimo
sentido mais ·essencial da palavra com a ordem da família ~ palco por excelência destes conflitos
d_ominante. E aí talvez --.. na sua fúria, na falta de - ganhava ares de arena política. Houve quem dis'.
s1stem?ticidade de sua crítica - esteja a dimensão sesse que a "revolução" havia chegado às salas de
·essencial da radicalidade da contracultura. visita de algumas das mais pacatas famílias bur-
Em?ora a _contracultura não seja uma invenção guesas ou mesmo sentado à mesa do jantar. Ao
exclusiva da Juvent[!de, o que é fácil de demonstrar invés de encontrar seu inimigo de classe no ope-
pela idade avançada de alguns de seus teóricos e rariado das fábricas - afirmavam alguns -, a bur-
gurus mais destacados, ela encontra no jovem o seu guesia o encon~rava na figura de seus filhos cabe-
intérprete principal e o seu motivo mais forte. ludos.
Eram estes mesmos jovens que atualizavam e Mas não era apenas no interior da família que o
colocavam_ ~-m pr?ti,ca, no seu cotidiano, algu- · jovem se constituía num foco de contestação. O
mas das 1de1as, h1poteses e suposições daqueles mesmo acontecia na escola, nos campi universi-
teóricos "mais velhos". Está, assim, profunda- tários, na música, nas movimentações de rua, em
mente ~arcada_ po_r um inegável "espírito juvenil", grandes movimentos sociais, enfim, em todos os
no sentido mais nco da expressão. De uma certa lugares e/ou instituições onde sua presença se fazia
forma, podia·-se falar agora da entrada em cena notar. Com especial destaque para certos pa ises e
para certos grupos sociais, jovem e juventude pas-
de, un:i poder jove11; que, não apenas pelo seu vigor
propno, mas tambem pelas alianças que conseguia savam a ser sinônimo de contestação. Pelo menos
estabelecer com grupos de contestação às vezes inicialmente, é a juventude branca de camadas
muito diferentes, ia se revelando uma presença médias de países como os Estados Unidos ou
cada vez mais incômoda do ponto de vista do aqueles da Europa Ocidental que vai se constituir 1

status quo.· em algo que poderia ser definido como o núcleo


A partir de um certo momento começou a ser básico deste novo espírito de. contestação radical

__ , __ , ___ ~------------
?:":::>o_______:__ __ =• ·-
~
26
Carlos AlbertoMess ederPereira O que é Contracultura 27

da contracultura. E, assim, a oposição filhos/pais;


ou mel_hor, a oposição jovem/adulto, ganhava, cada estilo de vida exportado com razoável suce~so para
0 mundo inteiro. Por outro lado, entravamos,
vez mais, uma dimensão nova e radical.
naquela hora, em um novo período da l_u~? en:tre as
Co~tudo, parece não ter sido tão de repente que
grandes potências. Vivia-se a "guerra fna , ahn:ien-
tudo isto aconteceu. Efetivamente, de modo mais
tada pela ameaça atômica, entre os Estados Um dos
acentu_ado a partir da 11 Grande Guerra, e especial-
mente nos países ditos desenvolvidos - com des- e a União Soviética, e que se expressava tanto n~s
t~que para os Estados Unidos -, as condições de maciços investimentos industriais de guerra :eali-
vida e a definição mesma do que fosse o jovem ou zados por ambas as partes, quanto no macarth1smo,
a juventude haviam se transformado bastante e fenômeno que tanto marcou a década de ~O nos
todas estas transformações apontavam no sentido Estados Unidos com suas listas negras e uma impl~-
de fazer deste mesmo jovem uma peça importante , cável perseguição a personagens da esquerda ameri-
de destaque no grande xadrez social. cana. • . - d
Certamente, para quem está situado deste nosso Por outro lado, falando ainda espec1a 1merite o
lado não-afluente do mundo contemporâneo, não caso dos Estados Unidos, vale lembrar que ~o
deve ser muito fácil perceber e avaliar de modo volume extremamente grande de sua pop~laçao
imediato o alcance e o significado destas alte- com menos de 20 anos, portanto b_ast~nte Jovem,
rações. Afinal de contas, por maior que tenha sido vinha se acrescentar O forte desenvolv1ment~, no
entre nós o impacto da 11 Guerra Mundial e mesmo pós-guerra, de uma · educação liberal ~u: t!_nha,
de seu término ou das transformações ocorridas no entre outros, o efeito de reforçar a ex1stenc1~ _de
período que se seguiu a ela, nossa situação era muito um espaço legítimo de questionamento _e re1vm-
diferente daquela vivida pela Europa - o palco mais dicação específicos do jovem. Amda na area ed~-
vivo daquele conflito não apenas militar mas sobre- cacional, é bom chamar a atenção para a expansa_o
tudo ideológico - ou pelos Estados Unidos. de cursos superiores que vinha ocorrend? tanto no
Especialmente no que se refere aos Estados Uni- Estados Unidos quanto na. Eur?~ª- Ocijental. A
experiência do campus umvers1tano nao apenas
dos, talvez a grande novidade do período pós-
significava uma enorme concen_traçã~ de jov~ns
guerra, este país começava a se constituir então no
num espaço bastante aberto de d1sc_ussa~ e-questio-
primeiro grande exemplo de uma sociedade aflu- º.
ente, tecnocrática, o que se materializava, por namento, que por si só já favorecia mc'.emento
exemplo, na afirmação do amerícan way of !ífe, um de uma identidade grupal, como t~~be": ª!~d~va ª
transformar a juventude numa carreira . ainda
,
28
Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 29

mais longa, o que adiava um pouco mais o contato para a busca ideal de um máximo de modernização,
mais direto entre o jovem e o "mundo dos adultos" - racionalização e planejamento, com prhzilégio dos
decorrente, por exemplo, da profissionalizacão. aspectos técnico-racionais sobre os sociais e hu-
. ~orno se tudo isso não b,astasse para reforçai as manos, reforçando uma tendência crescente para
f1le1ras deste exército de jovens, vale lembrar que o a burocratizacão da vida social. Tudo isto, por sua
repertório de informações desta mesma juventude vez, apoiado ~ referendado pelo dogma da ciência,
havia se transformado bastante durante a década de ou melhor, pela crença absoluta na objetividade do
50. Com o desenvolvimento galopante que tiveram conhecimento científico e na palavra do especia-
os meios de comunicação, a difusão de normas, lista, o intérprete autorizado do discurso da tecno-
va\ores,_ gost~s. e padrões de comportamento, que logia, da•produtividade e do progresso. .
ate entao estivera sob a influência mais direta do Neste sentido, a tecnocracia - esta forma soc1a l
círculo mais íntimo, representado, por exemplo, acima apontada - se afirma como um imperativo
pela família ou outras instituições afins, se liber- cultural incontestável e indiscutível_ à cuja domi-
tava agora destas amarras tradicionais e locais nacão boa parte da população mundial do final do
ganhando uma dimensão mais universal e aproxi'. sé~ulo XX se rende sem muitas vezes ter ao menos
man·do realidades até então infinitamente afas- a mais leve consciência deste fato.
tadas umas das outras. Afinal de contas, o mundo Diante de um tal sistema, altamente repressivo e
da comunicação de massa era aquela "aldeia global" massificante, uma das características essenciais de
de que nos fala Mcluhan - um nome importante toda a contestação da juventude vai ser a ênfase na
no ~lenco de teóricos que tiveram seu lugar no afirmacão da individualidade, dado que, ao lado de
movimento de rebelião da juventude. outras· marcas não menos importantes, vai afastar
Mas c?m_o se caracteriza essa sociedade em que '· esta populacão jovem das formas mais tradicionais
se const1tu1 e com que, se defronta este poder e diSpon íveis de luta pai ítica, aquela política
jovem? Como ela se apresenta aos olhos daqueles "quadrada" e "careta" - na versão desta mesma
que vão desafiá-la? Suas marcas mais fortes pare- população - praticada, muitas vezes, por seus pró-_
cem ser uma indústria altamente avançada, aliada prios pais.
a uma razoável afluência, aliança que se traduz Assim, uma parte significativa da juventude de
numa pauta de consumo sempre renovada e num um sem-número de países do mundo ocidental se
sistema essencialmente_ massificante. Trata-se, na 'encontrava, no final dos anos 50 e começo dos 60,
verdade, de uma sociedade tecnocrática voltada numa situação de difícil saída. Se, de um lado,
---
30 Carlos Alberto Messeder Pereira

rejeitava, cada vez com mais força, seja o Sistema,


sejam os valores tradicionais, de outro não conse-
guia canalizar este descontentamento para as for-
mas consagradas de luta política, por não encon-
trar neste tipo de contestação respostas a sua nova
problemática.
Deste modo, grande parte da energia crítica
desta nova geração de descontentes vai ser canali-
zada para atividades até então não descobertas pelas
formas tradicionais de luta política, manifestando- HISTÓRIA DE UM SONHO?
se de maneiras as mais surpreendentes para quem
não estivesse suficientemente atento ao surgimento
daquele novo fenômeno de contestação social inti-
tulado por 11/larcuse - um de seus teóricos e ideólo- Quando, no começo da década de 70, o ex-
gos mais destacados - como a Grande Recusa. Beatle John Lennon declarou, em alto e bom
som, para o mundo inteiro: "o .sonho ·acabou",
certamente deve ter havido quem, sem conseguir
esconder uma ponta de satisfação, lá com os seus
botões tenha pensado que, afinal de contas, aquilo·
não podia dar c.erto mesmo, pois aquele projeto de
revolução individual, cultural, não passava de um
sonho. E assim, depois de muita fantasia e ilusão,
havia-se chegado novamente ao duro terreno da
realidade. Tratava-se apenas de mais um castelo
revolucionário que desmoronava e até que, desta
vez, a História havia andado rápido. E certamente
houve também muitos jovens que, apesar de suas·
simpatias para com aquelas novas propostas de
transformação social, se surpreenderam e se decep-
cionaram com a possível e cantada "falência revo-

32 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracu/tura 33

lucionária" da contracultura. papel que a Europa seguramente desempenhou na


Mas será a história da contracultura apenas a his- formação de toda essa nova ideologia da juventude,
tória de um sonho, de uma ilusão? E de um sonho certas condições especiais dos Estados Unidos
fracassado? Seria só isso que diziam os versos de faziam deste país o berço por excelência da contra-
Lennon? É difícil negar que a contracultura seja a cultura.
mais recente ou a última (pelo menos até agora) Já desde os anos 50, era bastante visível na socie-
grande utopia radical de transformação social que dade americana a familiaridade, crescente que a
se produziu no Ocidente. Mas a utopia se resume noção de antiintelectualismo vinha ganhando, Um
numa ilusão, num sonho? Como se move uma uto- exemplo desse fato é o surgi menta de toda uma
pia ao longo da História? É possível afirmar que tradição boêmia - aquela dos beatniks - de verdá-,
toda aquela energia, toda aquela ânsia de transfor- deiros representantes de um anarquismo român-
mação revolucionária, que tanto marcou o Oci- tico, cujo estilo de contestação e agitação, novo e
dente nos anos 60 e parte dos 70, simplesmente se radical quando comparado à luta da esquerda tradi-
esgotou 'ou não deu em nada? Foi um sonho que cional, estava apoiado sobre noções e crenças tais
passou e deixou suas marcas frágeis em alguns como a da necessidade do "desengajamento em
hippies de boutique ou em festinhas elegantes, massa" ou da" "inércia grupal".
regadas com bom vinho e alguma droga da modá? É no interior desta geração de rebeldes margina-
Não seriam as coisas mais complicadas e a História lizados dos bairros boêmios que surge a poesia beat, , ,,
, menos cruel? à qual se ligam nomes como Allen Ginsberg, 1íder e
, inspirador do flower power (o J:<Oder da flor) dos
anos 60. Ginsberg foi um dos verdadeiros ideali-
* * *
zadores do estilo típico de concentração e mani-
festação dos hippies, ,sendo presença obrigatória
, , Falar da contraçultura é, num certo sentido, nesses acontecimentos. Sua fórmula de intervenção
falar dos Estados Unidos - pelo menos num mo- se encontra em um de seus poemas, intitulado
mento inicial. Afinal, foi lá onde primeiro se mani- "How to Make a March/Spectacle". Por sua vez,
festou, de modo mais ma,cante e evidente, esse seu já mencionado poema "Howl" (1956) foi obje- .
novo espírito de contestação que os movimentos to, na época, de um processo por obscenidade em
de rebelião da juventude dos anos 60 viriam colo- São Francisco, o berço dos beatniks. Os versos
car na ordem do dia. Apesar da importância do ini'ciais deste poema - "I saw the best minds of my

''_:...~---
34 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 35

. - .

' generation destroyed by madness"* - exprimem momento anterior.


toda a dramaticidade da angustiante experiência É Norman. Mailer, romancista americano indisso:
desta geração, cuja busca passava freqüentemente luvelmente ligado a todo este novo espírito de
pelos caminhos dolorosos da loucura e dos hospi- revolta que já começava a se afirmar na década de
tais psiquiátricos, como ocorreu com o poeta Carl 50 nos Estijdos Unidos, quem vai chamar a atenção
Solomon, a quem o poema é dedicado. Ainda para um outro fenômeno de contestação contem-
outros nomes expressivos são os de William porânea ao dos beatniks. Trata-se dos hipsters, isto
Burroughs ou Jack Kerouac, autor do livro On The é, aqueles que se· opõem aos square - os "caretas",
Road, de 1958, que, em dado momento, afirmou: os "quadrados", aqueles que q Sistema pode transo.
"Eliminai a inibição literária, gramatical e sintá- formar com sucesso em conformistas bem ajus-
tica", seguindo com a pregação de obediência a tados. Da mesma forma como o On The Road de
"nenhuma disciplina que não seja a da exaltação Kerouac havia feito do beatnik um grande assunto
retórica e da afirmacão não censurada". da imprensa de todo o mundo, o termo e o assunto
Foram os beatniks um dos grupos de destaque a · hipster são, no mesmo ano de 1958, definitiva-
encarnar, de modo especialmente vigoroso, a rebel- mente consagrados por um artigo de Mailer intitu-
dia marginalizada dos anos 50 nos Estados Unidos. lado "The White Negro: Superficiál Reflections on
Já fascinados pelas doutrinas orientais, ponto fun- the Hipster". Yale lembrar que coubera a Ginsbe°rg,
damental de encontro entre eles e os alegres hippies um ano .antes, o lançamento _literário do termo
dos anos 60, rejeitavam o caminho do intelect_ualis- através de.seu poema "Howl".
mo, devotando-se a uma vida marcadamente senso- Ao contrário do square, conformista e fiel defen-
rial e deixando-se arrastar por sua lu_dicidade e sor do american way of fite, o hipster é aquele que
desprezo pelas satisfações de uma carreira e de um se rebela contra aquela situação. Diante da falência
rendimento regular. É este estilo de comportamento da revolução proletária nestas sociedades indus-
que os faz um dos grupos pioneiros do espírito de triais avançadas, ele é aquele que se revolta e nega
contestação da contracultura dos anos 60,sendo, de violentamente os valores estabelecidos. Na socie-
uma certa forma, os hippies prematuros de um dade americana, ele pode ser definido como um
"negro branco'' (o white negro de Mailer), exata-
mente porque nesta sociedade os negros são aquele
* Em português: "Vi as melhóres cabeças da minha geraçã6 des-
grupo que, por sua posição marginalizada, se vê
truídas pela loucura". obrigado a manter sempre uma atitude de rebelião,
.
.
36 Oirlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 37

uma vez que está constantemente exposto ao boêmios de cidades européias como Londres ou
perigo. Finalmente, hípster e square são, antes de Paris se enchiam daqueles mesmos rebeldes que
mais nada, um "estado de espírito" , uma atitude começavam a falar uma linguagem de revolta e
de revolta ou de conformismo diante do status quo contestação, com uma marca forteme nte existen-
das então modernas sociedades tecnocráticas. · cial. e anárquica, e voltada principalmente para a
Apesar do valor que Mailer percebe na atitude transformação da consciência, dos valores e do
beat de "busca da sensação" e da "satisfação comport amento, na busca de novos espaços e
orgástica", não aceita aquilo que ele vê como sua novos canais de expressão para o indivíduo e para
passividade ou falta de afirmatividade. Assim, as pequenas realidades do cotidiano.
acima do beatník, ele colocaria o hípster, cuja cons- De ambos os lados do Atlântico sopravam tam-
ciência dos extremos terrores da vida assemelha-se bém novos ventos, que evidenciavam a tentativa de
e é derivada da que tem o negro, "pois nenhum renovação por parte do próprio pensamento teó-
negro pode andar por uma rua seguro de que a rico crítico, de esquerda, diante das novas contra-
violência não virá encontrá-lo em seu passeio". O dições surgidas no período do pós-guerra e diante
que Mailer admirava no hípster era sua disposição do tipo de organização e vida social que vinha se
de aceitar o desafio "de se desligar da sociedade, de evidenciando naquelas sociedades industriais avan-
existir sem raízes, de empreender essa viagem sem çadas.
rumo pelos rebeldes imperativos do ego. Em suma, Era, por exemplo, a Nova Esquerda (para a qual
seja ou não uma vida criminosa, a decisão está em a política é feita, antes de tudo, de envolvimentos
encorajar o psicopata que existe dentro de si pessoais e não de idéias abstratas) que começava a
mesmo, de explorar aqueles domínios de experi- despontar com suas idéias e publicações, as quais
ência em que a segurança é tédio e portanto doença teriam, nos anos 60, um papel e um desenvolvi-
(, .. )". É, assim, neste sentido, que aquela forma mento extremamente importantes junto aos seto-
de "delinqü ência juvenil" atualizada pela atitude res da contracultura que levavam à frente uma for-
hípster estava "desafiando o desconhecido". ma de contestação mais explicitamente política e,
Mas não era ápenas nos Estados Unidos que essa de modo especial, junto ao movimento estudantil
combinação de marginalidade, boemia e revolta internacional que provocaria a grande explosão do
vinha se evidenciando. Assim como São Francisco, Maio de 68 francês, com suas barricadas e seus
Chicago ou Nova York exibiam suas hordas de slogans renovadores. O vigor da presença da Nova
estranhos e novos rebeldes, também os bairros •Esquerda nas novas forças de contestação social
,
38 Carlos Alberto Messeder Pereira u que e Contracuuura 39
'
pode também ser avaliado pelo papel de enorme
podiam ser dispensadas, de outro, os projetos de
importância que tem, ao longo dos anos 60, a
transformação soe.ia! revolucionária explicitavam,
SDS (Students for a Democratic Society), organi-
cada vez mais claramente, a ênfase na busca não
zacão estudantil de amplitude mundial. apenas da liberdade mas, fundamentalmente, do
- ·Por sua vez, nomes como Paul Goodman, Dwight prazer. Em suma, o que se pode observar por toda
Mcdonald e, especialmente, C. Wright Mills, ao parte é uma tentàtiva· de renovar e atualizar o
fado de grupos que sustentavam publicações radi- instrumental teórico de análise da crítica social
cais como Liberation e Dissent, vinham, nos _Esta- mais progressista, no sentido de dar conta das
dos Unidos, tentando desvendar a nova rnalídade novas realidades. que se apresentavam ·àqueles que
das sociedades tecnocráticas. Os trabalhos de pen- se empenhavam num projeto e numa prática de
sadores como Herbert Marcuse ou Norman l3rown, transformação social nas novas condições de desen-
pelo confronto que forneciam entre as obras de volvimento industrial e afluência que caracteri-
Marx e Freud e pelo que exploravam no sentido de zavam especialmente as sociedades européias oci-
descobrir .os mecanismos, as raízes-ou o sentido de dentais e a norte-americana.
fenômenos tais como a dominação, a repressão ou No entanto, uma vez mais, as próprias condições
a alienacão bem como as possibilidades de trans- da sociedade americana faziam com que o pêndulo
formacã~ s~cial radical nas modernas sociedades da contracultura caísse mais fortemente na dire-
indust~iais, viriam a constituir, por sua vez, um dos cão dos Estados Unidos. Ao contrário da juven-
mais sólidos pilares teóricos da crítica da contra- tude européia, que trazía às costas todo o peso de
cultura. Em 1954, aparecia o One Dimensional uma longa tradição de luta política de esquerda
Man, de Marcuse, e, em 1955, do mesmo autor, o bastante institucionalizada, o jovem norte-ameri-
Eros ánd Civilization, ambos analisando e discu 0
cano contava com um background radical de
tindo a natureza das sociedades industriais avan- esquerda bem menos sólido. Deste modo, era nos
çadas e suas possibilidades de transformação revo- Estados Unidos que as novas formas de contes-
lucionária. Norman O. Brown, por sua vez, publi- tação e luta política postas em cena pelos movi-
cava em 1959 o livro intitulado Life against mentos de rebelião da juventude iam encontrar o
Dea;h: The Psy~hoanalitical Meaning _of History, campo mais fértil de surgimento e desenvolvi-
cruzando, como sugere o próprio título, a psica- mento .
.nálíse e a investigação social. A população jovem norte-americana, mais livre
Se, de um lado,-nem a psique nem a classe social do peso de uma tradição que seus colegas europeus,
--

.. -----·-- ----.,.• -. - ~ ~ - -?:,-.,...,::_- -,,,._••-~--___ _:_- ___~__ .


O que é Contracultura 41
40 Carlos Alberto Messeder Pereira

(especialmente na sua grande demonstracão de for-


sentia-se especialmente estimulada pela presença de ça que foi o Maio de 68), como em· inúmeros
grupos bastante significativos do ponto de vista
outros momentos, quando alianças com hippies,
político (minorias étnicas ou culturais), mas que negros ou outras "forças emergentes " permitiram
não encontravam um lugar muito definido e estabe- aos estudantes abriras portas de novos espaços de
lecido em espaços institucionais tradicionalmente intervenção política.
voltados para uma atuação política mais reconhe- Especialmente no que se refere aos Estados Uni-
cida, como sindicatos ou partidos. Assim, a juven- dos, toda a movimentação em torno das várias
tude americana mostrava-se mais sensível àquelas manifestações da cultura jovem, indo do flower
novas formas de contestação, menos sistemáticas e
power aos estudantes e intelectuais da Nova
menos explicitamente políticas, bem como, de uma
Esquerda, passando por movimentos como o gay
certa forma, se revelava ainda mais inovadora e
power ou women's lib, é acompanhada de perto
radical na formulação e concretização daqueles pelo surgimento e pela consolidação do b!ack
tipos de luta que deixavam em muitas cabeças uma
power, o poder negro, cuja luta teve como ponto
mesma dúvida: mas isso é político? de partida e ponte de articulação com a revolta de
Em linhas certamente muito gera/s, este é o pano
outros grupos a difícil .batalha pelos direitos civis
de fundo contra o qual vemos frorescer toda a que marcou, desde o início, a década de 60 nos
cultura jovem dos anos 60, batizada com o rótulo Estados Unidos.
de contracultu ra. Esta, por sua,vez, se concretizou Pela posição especial que o negro ocupa na socie- ·
através de inúmeras manifestações surgidas em dife- dade americana, visivelmente oprimido e radical.-
rentes campos, como o das Artes, com especial des- mente excluído frente ao american way of fife, ·ele
taque para a música, ou melhor, para o rock; o da não apenas detém um enorme potencial de revolta,
organização social, àparecendo em primeiro plano a como também se· constitui num aliado quase que
ênfase dada pelo moyimento hippie à vida comuni- natural do jovem branco de camadas médias que se
tária, na cidade ou no campo; e, ainda, o da atua- rebela diante do Sistema, recusando suas eventuais
ção política. Aqui chama a atenção tanto o novo ofertas e vantagens, ainda que não seja possível
estilo de manifestação e intervenção surgido no omitir a diferença racial existente entre os dois gru-
bojo de toda a cultura psicodélica que.os mesmos
hippies popularizavam, quanto a atuação da Nova
pos. Para este jovem brnnco o negro é, ao mesmo
tempo, um corajoso símbolo de rebeldia diante da
Esquerda. Isto pode ser melhor observado tanto na
prática do movimento estudantil internacional opressão e de recusa de um estilo de vida contra o
42 Carlos Alberto Messeder Pereira , ..
O que é Contracultura 43

qual aquele mesmo jovem - fll_ho do Establishment


- luta desesperadamente. Deste modo, o negro que está longe de ter um significado apenas musi-
assume, de certa forma, o papel de depositário de cal. Por tudo que conseguiu expressar, por todo o
valores já nostalgicamente perdidos para o branco, envolvimen_to social que conseguiu provocar, é um
e o encontro com ele, suas tradições, sua música, fenômeno verdadeiramente cultural, no sentido
sua cultura, enfim, é o encontro com a força de mais amplo da palavra, constituindo-se num d?s
uma vigorosa fonte "natural" de rebeldia e recusa. principais veículos da nova cultu:a que _e~plod1a
Não é de estranhar, portanto, todo o peso e o signi- em pleno coração das sociedades 1ndustna1s avan-
ficado que o negro vaí ganhar - e, por aí, o poder çadas.
negro - aos olhos daquela cultura jovem ... e Mas algum tempo antes do rock dos anos_?º• u~
branca. outro ritmo não muito afastado daquele Ja havia
Não apenas nos Estados Unidos, mas em todos também demonstrado sua enorme capacidade de
os lugares onde floresceu, a cultura jovem dos anos mobilização social. Era o rock- 'n-roll, em meados
60 foi extremamente sensível e simpática a toda e dos anos 50, com seu balanço frenético e sensual,
qualquer movimentação ·de grupos étnicos ou cul- seus estridentes acordes de guitarra elétrica e seu
turais que se vissem nessa posição de marginalidade fiel e alucinado público jovem. Quem não se lem-
.ou exclusão diante das vantagens e promessas da bra de nomes como Bill Haley, Alan Freed, Chuck
sociedade ocidental. Além disso, o tipo de luta que Berry, Little Richard, Fats Domino ou The Plat-
estes grupos se viam obrigados a levar adiante - ters? Ou de músicas como "Rock around the
fora dos espaços políticos tradicionais e, portanto, Clock" "Only You'', ''Roll over Beethoven",
tendo que se valer de um alto grau de inventividade "Rock' and Roll Music", "Back in the USA",
- os aproximava da utopia revolucionária daquela "Carol", "Tutti Frutti" ou "Sweet Lit~le Sixteen"?
juventude que, por suas idéias e também pela posi- E, afinal, quem não se lembra de figuras _como
ção que ocupava naquela mesma sociedade, se via James Dean - símbolo máximo da contestaçao dos
na contingência de ter que buscar saídas alternativas ''rebeldes sem causa" - ou Elvis Presley, que, com
para expressar seu descontentamento e fazer valer sua voz sensual e seus requebras audaciosos, fazia
suas crencas e sua voz. muita moca desmaiar nas primeiras filas da platéia
E, certamente, estas saídas foram encontradas. de seus shows? Esta era a época do rock-'n-roll.
Uma delas, por exemplo, é a música. No quadro da Ainda que feito por músicos mai~ velhos, o roc~-
contracultura, o rock é um tipo de manifestação 'n-roll dos anos 50 já tinha um públ 1co certo e defi-
nido: a juventude branca rebelde e com uma forte
44 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 45

'
consciência de idade. Ao mesmo tempo, este tipo obrigatórias para quem quiser evcicar o "espírito"
de música operava uma vigorosa e expressiva sín- desta época. São eles: Os Beatles, Bob Dylan e os
tese de música branca e música ·negra. Por outro Rolling Stones. De ambos os lados do Atlântico, o
lado, é deste filão musical que surge toda uma su- trabalho destas pessoas abria novos caminhos para
cessão de danças e ritmos. tais como o twist, o Ma- a música. Mas, além disso, elas eram capazes, prin-
dison, o Watusi, o hu!ly gu!ly, o surf, o jerk e assim cipalmente, de encarnar a revolta e a~ aspirações de
por diante. Foi, finalmente, este som do rock-'n-rol/ toda uma juventude rebelde que via na aliança
que acompanhou e embalou o dia-a'.dia de uma entre Arte, comportamento e contestaç1ío uma
juventude que então começava a descobrir a força e nova possibilidade de expressão e sustentação de
o alcance de seu potencial de contestação. sua identidade.
Mas o rock dos anos 60 não apenas levaria toda No começo da década de 60, na cidade operária
esta história adiante como também traria dados de Liverpool, Inglaterra, quatro rapazes colocavam
novos. Um deles - e que não era de pequena impor- no ar sua música · eletrizante. Eram eles John
tância - refere-se a uma maior' aproximação de Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo
idade entre os compositores e/ou intérpretes e o Starr. Rapidamente, a palavra Beatles passava a sig-
público da música jovem. Ao contrário do rock- 'n- nificar não apenas música, mas, especialmente, .
ro/1, criado para jovens por músicos mais velhos, o todo um novo estilo de vida que, ao lado de novos
rock dos anos 60 era um tipo de músicà feito por comportamentos, incluía também humor, inv~nção,
jovens epara jovens. Desta forma, para aqueles que novas roupas e até mesmo um novo corte de cabelo.
ainda não acreditavam que a juventude havia se tor- Aos poucos,· uma verdadeira beatlemania tomava·
nado uma poderosa força social, aí estava a música conta da juventude, o que evidentemente era acom-
a evidenciar ruidosamente este fato novo. panhado de perto pela indústria da comunicação de
Diante do grande número de intérpretes, compo- massa. Certamente não era à toa que, em 1966,
sitores e grupos que compõem o mundo do rock Lennon afirmava: "Somos mais populares que Je-
internacional, é difícil saber quem apontar no sen- sus Cristo". Afinal de contas, apenas um ano antes,
tido de reavivar um pouco desta história. Entre- ·eles haviam sido condecorados pela rainha da Ingla-
tanto, umá coisa é certa: há três nomes que inicia- terra, fato que provocou uma enorme onda de pro-
ram, pelo menos em suas grandes linhas, esta verda- testos na tradicional Câmara dos Lordes.
deira revolução cultural que a música rock dos anos Já desde 1956, Lennon e Paul McCartney toca-
60 sintetiza, constituindo-se, assim, em referências vam juntos no conjunto The Ouarrymen, que o pri-

' . '.,.,,, -,
46 O que é Contracultura 47
Carlos Alberto Messeder Pereira
.

meiro havia organizado naquele ano. Em 1958, era


a vez de George Harrison se juntar ao grupo, que,
agora, passava a se chamar The Si/ver Beatles. Em
1961, era contratad o o empresário Brian Epstein,
que, durante todo seu contrato com o conjunto,
foi o responsável por uma certa orientação discipli-
nadora e pelo constante reparo da imagem pública
do grupo, o que se constituiu numa fonte fre-
qüente de conflitos. Brian sempre demonstr ou, por
exemplo, grande preocupação com as roupas e a
aparência do grupo, tendo praticame nte inventado
os terninhos e o corte de cabelo dos Beatles. Con-
forme declarações do próprio Lennon, em 1971:
"Brian literalmente limpou a nossa imagem. Havia
brigas .homéricas porque eu me recusava a me
emboneca r. Ele e Paul formaram até uma espécie
de aliança para me manter na linha: eu estava sem-
pre sujando a imagem dos Beatles". Em 1962, Rin-.
go Starr vinha se juntar aos outros três, ocupando o
1ugar do baterista Pete Best, e causando por isso
enormes pr<Jtestos por parte das fãs do baterista
anterior, as quais, nas apresentações, gritavam frases
como: "Pete is best" e "Pete Best Forever - Ringo
never!". Estava assim formado o conjunto que,
segundo a declaração do crítico do jornal Sunday
Times, de Londres, reunia "os maiores composi- " .
tores, desde Beethoven". ·
Em ·outubro de 1962, surge o primeiro grande
sucesso dos Beatles: é lançado o compacto de Lave
Me Do. Em janeiro de 1963, o grupo lançava o seu
48 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 49

primeiro LP: Please Please Me. Estava no ar o Liver- "Norwegian Seul", por exemplo, George Harrison,
pool Sound. Em novembro do mesmo ano, o con, crescentemente interessado pela Índia, fazia uso
junto se apresentava para a Família Real, no Royal da cítara.
Varíety Show, e, rapidamente, se tornava o assunto O ano de 1967 marca o começo de uma série de
do momento em todo o mundo. Foi nesta apresen- modificacões na vida e na produção do grupo. Em
tação que Lennon, com seu humor crítico, convi- agosto, ~ empresário Brian Epstein se suicida. A
dou a platéia a participar do espetáculo dizendo: partir deste mesmo ano, passam a trabalhar apenas
"Quem estiver nos lugares mais baratos, bata pal- em estúdio - a última apresentação ao vivo havia
mas; os outros, nos assentos mais caros, apenas sido em São Francisco, em agosto de 1966. O mis-
agitem suas jóias". No mesmo ano, depois de várias ticismo e, especialmente, a alusão ao uso de drogas
apresentações por toda a Inglaterra, provocando começavam a aparecer no trabalho do grupo.
verdadeiras reações de massa com jovens gritando e Assim, por exemplo, "A Day in the Life" tem sua
desmaiando, o conjunto batia um recorde: o LP With execução proibida em estações americanas e ingle-
the Beatles chegava às lojas com mais de 250 mil pe- sas por referência direta a drogas. O ano de 1967
didos antecipados, só na Inglaterra. A partir daí, os foi uma época de grande influência oriental, através
Beatles seguiam sua enorme carreira de sucesso. principalmente do contato com o Maharishi - o
Uma vez conquistado o Reino Unido, partiam guro da Meditação Transcendental. No ano seguin-
agora para a conquista dos Estados Unidos.- Em te os Beatles ainda se encontrariam na Índia estu-
1964, o conjunto é recebido por mais de dez mil d;ndo meditacão com o mesmo Maharishi. Em
fãs no aeroporto Kennedy, em Nova York. Além junho de 1967, surgia o LP.SGT Pepper's Lonely
disso, aparecem no Ed Sullivan Show e são as.sis- Hearts Club Band - verdadeiro marco na história
tidos por mais de setenta milhões de pessoas. Suas dos Beatles, que praticamente inaugura a era do
apresentações no Washington's Coliseu e no Carne- '
experimentalismo eletrônico na música popular
gie Hall são um estrondoso sucesso. No mésmo contemporânea -, cuja faixa "Lucy in the Sky
ano, o filme A Hard Day's Night ,(que, no füasil, with Diamonds" trazia as iniciais LSD, as mesmas
recebeu o título de Os Reis do /é-lé-lé) é um enor- que identificavam o alucinógeno responsável pelas
me sucesso de público e crítica. Em 1965, é a vez grandes "viagens" daquele momento. Em dezem-
do álbum e do filme He/p. Ainda neste ano, o bro deste mesmo ano, é lançado o filme Magicai
grupo lança o disco Rubber Sou/, que vai marcar Mistery Tour, que foi duramente criticado.
o começo de sua maior sofisticação - na faixa Por esta época, cada um dos Beatles começava a
50 Carlos Alberto Messeder Pereira 51
O que é Contracultura

se tornar mais independente um do outro, ao mes- Lennon fazendo um balanço das transformações
mo tempo que suas posições individuais iam to- causada~ por toda a "revolução" da contracultura
mando rumos cada vez mais específicos: o agressivo daqueles anos 60, afirmava:
ativismo político radical e inovador de Lennon, o
carisma romântico e pragmático de Paul, o orienta- "Eu acordei pra isso também. O sonho àcabou .. As
lismo psicodélico de Harrison ou o humorismo coisas continuam comà eram, com a diferença que eu
simpático de Ringo. estou com trinta anos e uma porção de gente· usa
No ano de 1968, apareciam, entre outras produ- cabelos compridos."
ções, o desenho Yellow Submarine e o disco Hey
Jude, primeiro lançamento da gravadora Apple, de Fim de um grupo, fim de uma década e fim _de
propriedade do grupo. um sonho. Na sua composição "God", tambem
Em 1969, o casamento de Joh.n Lennon com desta época, o mesmo tom era reafirmado:
Yoko Ono - representante do mundo da Arte
Experimental nova-iorquino - significava mais um "O sonho acabou
passo no reforço dos caminhos individuais de cada 0 que é que eu posso dizer?
um dos Beatles. Por sua vez, OS· desentendimentos O sonho acabou
entre Paul e John aumentavam. Mas, apesar de ontem, eu er"a um fabricante dé sonhos
tudo, ainda um grande sucesso: em agosto de 1969, mas agàra eu .nasci novamente_
surge Abbey Road, o último LP do conjunto. Eu er:a o leão-marinho
Ainda um fato importante marcava a vida do grupo mas agora eu sou John
neste ano: em novembro de 1969, John Lennon E então, meus amigos,
devolvia a condecoração recebida da rainha, em Vocês têm de continuar
1965, em protesto pelo envolvimento britânico no O.sonho acabou."
Vietnã e na Biafra.
A estréia do filme Let lt Be, nenhum dos quatro ·Juntos desde o começo dos anos 60 ~ fiéis repre-
Beatles comparecb. Em dezembro deste mesmo sentantes daquele momento, não era a to~ que os
ano, Paul McCartney pedia, na justiça, a dissolução Beatles se separavam. Como se pode avaliar pelas
legal dos Beatles. Com eles, encerrava-se uma época. afirmações de Lennon, havia uma marc! de desen-
No mesmo mês de dezembro de 1970, em uma canto no ar. Entretanto, se a separaçao da_quelas
entrevista concedida ao jon:ial Rolling Stone, John quatro figuras que tanto haviam influenciado a
52
Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 53
--

juventude dos anos 60 tinha um pouco a ver com o mundo pop que então se concentrava especial- ·
aquele clima de desencanto, ela não deixava de mente no Village. Ê por volta desta época, por
apontar para um nov0 momento que mais uma exemplo, que Dylan se encontra com Woody Guth-
vez se traduziria no trabalho individual de cada um rie - seu verdadeiro ídolo -, que, algum tempo
deles a partir dali.
depois, lhe faria este enorme elogio: "Pete Seeger é_
Nos Estados Unidos, também desde o começo um cantor de músicas folk, Jack Elliot é_ um cantor
dos anos 60, um outro nome marcava a música da de músicas folk; mas Bob Dylan é um cantor folk''.·
_década. Era Robert Zimmerman ou, como é bem É dentro das estruturas da música folk ameri-
mais conhecido, Bob Dylan, que, em 1960, com cana que Dylan vai construir o seu LP de estréia -
apenas 19 anos, trocava seu estado natal de Minne- intitulado Bob Dylan-, lançàdo em março de 1962,
sota pelo já famoso bairro de Greenwich Village, alguns meses antes do lançamento do primeiro
em Nova York, uma das cenas privilegiadas de toda sucesso dos Beatles. O disco incluía composições
a movimentação do underground americano.
-Ao longo de sua trajetória nas décadas de 60 e
do próprio Dylan, bem como canções ?e velhos
compositores de blues e outras que variavam do
70, Dylan desempenhou· o papel de uma figura mais tradicional ao mais moderno folk.
extremamente polêmica, capaz de gerar os protes- O seu segundo LP, The Freewheelín'Bob Dylan,
tos mais radicais por parte de seu público, ao mes- lancado em maio de 1963, evidenciava o desenvol-
mo tempo em que era tomado como um verdadeiro virr{ento de seu trabalho. É por volta deste momen-
mito. Cantor folk, porta-voz da Nova Esquerda to que Dylan começa a se afirmar como o porta-
americana, guru dos híppíes, inovador do rock, voz da Nova Esquerda, como o grande cantor da
estes são alguns dos rótulos com que ele teve que se protest song. É deste LP, por exemplo, a canç_ão
defrontar naqueles anos quentes e difíceis. De um "Blowing in the Wind", que se tornou verdadeiro
modo ou de outro, o fato é que Dylan alcançava hino do Movimento dos Direitos Civis que se estru-
um sucesso estrondoso, não apenas como artista turava com mais vigor naquele momento, e diante
mas, basicam~nte, como um dos I íderes de toda do qual Dylan; ao lado de Joan Baez, desemp~-
uma geração.
nhava um papel de frente. Assim, ambos parti-
Sua chegada a Nova York, no começo da década cipam, em Washington, por exemplo, em agosto de '
de 60, havia significado um encontro radical e 1963 da Marcha dos Direitos Civis.
duradouro com a música folk, ao mesmo, tempo É ~este mesmo ano, em julho, no Newport Foi k
que lhe facilitava um contato mais direto com todo Festival, que ele se afirma definitivamente, ao lado
O que é Contracultura 55
54 Carlos Alberto Messeder Pereira

que se havia convertido num autêntico Iíder e iria


de nomes já consagrados como Pete Seeger, Peter,
protestar ruidosamente.
Paul and Mary e mesmo Joan Baez. Emerge, assim, O LP Another Side of Bob Dylan, lançado em
deste Festiva[, como uma das grandes vozes do
agosto de 1964, trazia uma música intitulada,,Mr.
novo movimento juventude/fo/k. As declarações de
Tambourine Manª, cantada no Newp~rt _F?lk Fes-
Dylan e Baez à imprensa reforçam suas posições e tival daquele ano, que efetivamente ~1grnf1cou_ um
lideranças. "Minhas canções protestam contra a
divisor de águas. Nela, Dylan temat1zava .ª liber-
guerra, contra as .bombas e os preconceitos raciais, dade de espírito e, acima de tudo, os efeitos das
contra o conformismo", dizia Bob Dylan. De sua "viagens" de drogas. Se antes havia se tornado o
parte, Joan Baez afirmava: "Há coisas que me cho- arauto da Nova Esquerda, agora o público mais
cam profundamente: o assassinato de crianças por
específico que conquistava eram os hippie~.
poeira radioativa ou o assassinato dos espíritos pela _ Em março de 1965, surgia o LP Brmgmg lt A!I
segregação racial. Gosto de cantar e não posso
back Home, no qual Dylan, retomando os cami-
esquecer tudo isso quando canto".
nhos do rock, partia para o que se começava acha-
O seu terceiro LP, The Times They Are A-Chan-
gin', de janeiro de 1964, só vem reafirmar o fato
mar de fo/k-rock. Esta retomada do rock lhe custa-
ria, por exemplo, a perda do apoio de J~an Baez.
de que, jâ bem mais do que um músico, Dylan
havia se convertido num verdadeiro "caminho a se- Cada vez mais, suas novas posições a~a~ec1am, para
0 seu público de esquerda mais trad1c1onal, como
guir" para uma juventude que via nas suas canções
uma verdadeira traição ao movimento de contes-
a denúncia das mazelas e contradições de uma socie-
dade que se afirmava como o reino absoluto da tacão. .
liberdade e da qual, cada vez mais, o jovem ameri-
·o acidente de motocicleta sofrido por Dylan
cano desconfiava abertamente. pouco depois do surgimento de seu álbum B(onde ·
on Biande (1966) o afasta por um ano e meio da.s
Mas o ano de 1964, na trajetória de Bob Dylan,
representaria um momento de virada. Dos temas gravações e das apresentações em público. lro_nica-
sociais e pai íticos mais explícitos, passava agora a mente, foi durante esta ausência prolongada e_ mv~-
explorar especialmente aqueles referentes ao amor luntária que aquela parcela da juvent~de universi-
tária "engajada" conseguiu se desvencilhar de seus
e ao seu mundo interior; e tudo isto, diga-se de pas-
sagem, com o mesmo pique inovador e revolucio- preconceitos com relação à m~s!ca :óc~. Entre-
tanto isto não seria capaz de pac1f1car 1nte1ramente
nário de antes. Mas o público não aceitaria assim
as rel~ções de Dylan com o público e mesmo com a
tão facilmente a mudança de orientação daquele
56 Carlos Alberto Messeder Pereira
O que é Contracultura 57

crítica. Sua vontade de questionar e de inovar era


bem maior que a preocupação com um sucesso Wight, na Inglaterra, em agosto de 1969, fechando
fácil e garantido. _ a turbulenta década de 60. Recusando a imagem do
É no histórico ano de 1968, no mês de janeiro, gênio místico e revolucionário, ele, provocativa-
que Dylan faz sua rentrée, depois-daqu ele ano e mente, se apresentou como alguém próspero, ele-
meio. de ausên~ia. O LP intitulava-se John Wes!ey gantemente vestido, tudo isto acompanha do de
Hardmg e tra:1~ a marca de um grande despoja- uma interpretação· amena e discreta. O público
mento com musicas cantadas numa voz tênue sua- ,- reagia indignado.
ve. Trabalho_ qu~, pela negação de toda com;lexi- No entanto este ainda não era o ponto máximo
dade ou rad1cal1smo, era uma verdadeira volta às de indignação que ele seria capaz de provocar. Em
raízes e à simplicidade, opondo-se diametralm ente junho de 1970_ era a vez do polêmico álbum duplo
à linha do rock progressivo, experimental que Self Portrait, uma dose talvez excessiva, mesmo
havia se consolidado durante seu afastament~ mas para - Dylan, de convencionalismo. Ainda neste
que rapidamen_te começava a dar mostras de desgas- mesmo ano, e numa espécie de "correção de rota",
t? e empobrecimento. Fechando o disco, duas mú- ele grava New Morning, de certa forma uma reutili-
sicas country. Aqui não se pode esquecer a cono- zação no seu trabalho de 1,1ma ·contestação mais
taçã? fortemente reacionária que tinha a country explícita, mais evidente. Este disco lhe valeu da
mus,c, voltada para o interior, para o campo, para revista Rolling Stone, que havia criticado dura-
o mundo dos_ pequenos camponeses e freqüente- mente seu trabalho anterior, o seguinte comentário :
mente apropriada pela mentalidade conservadora "Dylan nos pertence de novo!"
das classes dominantes. E Dylan sabia muito bem Durante o ano de 1971, ·dois trabalhos em que
d_E;_ t~do iss?· Mais do que apenas uma nova expe- ele revisita com mais freqüência seu passadd: Wat-
nenc1a musical, este seu trabalho investia vigorosa- chin' the River Flow e More Gratest Hits. É tam-
mente contra sua imagem de mito, de guru, de bém deste ano o lançamento do livro Tarantula,
~uem se esperam respostas a todas as perguntas reunindo diversos textos seus.
" 1m~g~m esta que o público, apesar dos desencontros'. Os anos de 1972 e 1973 foram, para Dylan, um
1~s1st1a em cultivar diante dele. Nessa mesma linha período de atividades mais tranqüilas e discretas.
situa-se o LP Nashville Sky!ine, de abril de 1969. Já em 197 4, ele não apenas volta a se apresentar
_ Mas sua grande performance de questionam ento em público com grande freqüência - realizando,
diante do público teria lugar no Festival ·da ilha de por exemplo, uma grande e bem-sucedida tournée
pelos Estados Unidos -, como lança um de seus
58 O que é Contracultura 59
Carlos Alberto Messe4er Pereira
r
grandes sucessos de público e de crítica: o LP Pla- fez de sua imagem a marca registrada d9s Stones e,
net Waves. Porém, mais importante do que o suces- aos poucos, ele foi se tornando a figura central do
so deste seu trabalho era o fato dele evidenciar a grupo. Quando os Beatles já faziam_grande_sucesso
extraordiná ria capacidade de Dylan no sentido de na Inglaterra, os Rolling Stones ainda nao eram
trabalhar simultaneamente com as diversas vari- conhecidos. No entanto, a rápida ascensão da ban-
antes contidas em sua criação musical. E, desta for- da de Liverpool não deixava de ser ~til aos ~to~es,
~ª: P!anet Waves fazia um pouco a ponte entre as embora este grupo trilhasse um caminho propno e
varias facetas de sua controvertida trajetória artís- bastante diferente daquele seguido pelos Beatles,
tico-musical: de arauto da Nova Esquerda a guru com seu discreto ar de "bons moços". Ao contrári?,
do~ hippies, passando por fonte de indignação gene- a imagem dos Rolling Stones era de uma rebeldia
ralizada de todas as partes. Mas, por esta época, já agressiva, alucinada, até mesmo temível.. •
ia. longe o tempo áureo da contracultu ra e talvez Homossexualismo, uso de drogas, escandalos,
até i:r,esmo por isso, fosse agora possível e;te tipo acidentes nos shows, conflitos e choques com auto-
de s intese da parte de alguém que viveu tão inten° ridades estes são alguns dos ingredientes de uma
sarnente as propostas e os conflitos de seu mo- image~ que traduzia a fúria radical da contestação
mento. Pelos anos afora, o trabalho de Bob Dylan de uma parcela da juventude internacio~al. .
vem continuand o, de. uma maneira ou de outra a O período de formação do grupo vai de mais _ou
desempenh ar o papel constante de um verdadeÍro menos 1960 - ano em que Mick Jagger e Ke1th
marco na música internacional. Richards se encontram num trem e conversam so-
Voltando à Inglaterra, nos defrontamo s agora bre sua paixão comum pelo rhythm and blues - a
com a violenta fúria revolucionária de um grupo 1962, quando, em julho, ainda sem todos os nomes
que certamente marcou como poucos uma época que fariam a fama do grupo, ele se apresenta ao
não apenas na música, mas também na cultura: os vivo pela primeira vez, no clube Marquee, em Lon-
Rol!ing Stones. Quem não se lembra, por exemplo, dres, com o apoio de Alexis Korner, que, naquela
do incrível sucesso de "Satisfactio n", em meados época, liderava uma importante b/ues band cha-
da década .de 60? Mas este é um fato pequeno se mada B/ues lncorporated. Durante o segundo se-
comparado à história deste grupo que hoje, nos mestre de 1962, numa série de idas e vindas, o gru-
anos 80, já atingiu sua maioridade, po vai tomando sua forma mais def!ni~va e, ~m
Para muita gente, os Rolling Stones são a figura janeiro de 1963, estava assi'.11 const1tu_1do: M1ck
de Mick Jagger. Seu jeito agressivo e provocador Jagger, Bill Wyman, Keith R1chards, Bnan Jones,
60 Ozr/os Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 61

Charlie Wat ts e, finalmente, lan Stew art, que Bo.bDylan.


logo
deixaria o grupo, voltando apenas para even
tuais
enco ntro s e gravações.
Ao longo de prati cam ente vinte anos, os Rolli
ng
Ston es vêm 'produzindo um trab alho que
inclui
numerosos discos, alguns filmes e urna incrí
vel per-
formance no palco capaz de abalar qual
quer platéia.
O ano de 1963 marcou, efetivamente, o
início
de carreira dos Stones. Foi em abril que
Andrew
Loog Oldham os viu pela primeira vez. Uma
sema-
na depois, ele assinava um cont rato para
empre--
sariar o grupo. A partir daí, inicia-se um verd
adeiro
turb ilhão de atividades. No espaço de apen
as seis
semanas que se seguiram, os Ston es cons
eguiram
um cont rato de gravação com a Decca e um
com-
pact o simples - Come on. Tam bém por essa
época
fazem sua primeira apresentação na TV. De
sete m·
bro a novembro realizam uma excursão por
toda a
Inglaterra e, pouc o antes do final da tournée,
sur-
gia um novo com pact o: / Wanna Be You
r Man.
No ano seguinte, 1964, o grupo já estava plen
a-
men te afirmado, com enor me sucesso e uma
ima-
gem definida. Surgia o primeiro álbu m: The
Rolling
Stones. E o ano seguiu realmente chei
o de ativi-
dades e eventos: apresentações no palco
e TV, i
'tournées dent ro e fora da Inglaterra e enco 1,,
ntro s
memoráveis. Em uma de suas duas viagens i
reali-
zadas aos Estados Unidos naqu ele ano, o
grupo,
dura nte uma gravação no Chess Stud ios, .de
Chica-
go, encontra-se com Chuck Berry, Muddy
Waters e
62 Carlos Alberto MessederPereira o que é Contracultura 63
.

Willie Dixon. Ainda um fato important e: sua apre- .


Foi enorme a reação de todo o mundo do rock e,
sentação no Ed Sullivan Show, naquele rnesmo ano, em julho, a condenação de Richards era anulada e.ª
desencadeou tal histeria na audiência do estúdio Jagger era dada liberdade co.ndicional. Era o pri-
que eles não puderam mais aparecer por lá. Aliás, meiro grande affair envolvendo drogas e astros do
freqüente mente, suas apresentações· ao vivo eram rock de modo tão aberto, tom tanto espaço na ·
bastante tumultuadas, quase não se podendo nem imprensa internacional. Logo foi a vez_ '!_e Bria!1 Jo-
rnesmo ouvi-los. O público · enlouquecia, atirava nes condenad o a nove meses de pnsao. Sai sob
objetos sobre o palco, destruía os teatros. pagamento de fiança, mas acaba hospitalizado so~
. As tournées por diversós países continuar am em a alegação de exaustão nervosa. O ano de 1967 foi
1965. Aliás, elas · sempre foram uma constante na de LPs como Between The Buttons, Flowers e,
vida do grupo. Naquele ano foi a vez, por exemplo, finalmente Their Satanic Majesties Request, que
da Austrália, Austria, países da Escandinávia, Ale- foi a prim~ira e última grande incursão dos Stones
manha, França, Irlanda e, novamente, os Estados na onda da música psicodélica.
Unidos. Um novo LP, intitulado Out of Our Heads, Em· 1968; o grupo produzia dois LPs de enorme
trazia um dos grandes sucessos dos- Stones: a com- sucesso: Jumpin'Jack Flash e Beggar's Banquet, de-
posição "(1 Can't Get No) Satisfacti on". Por essa finido pela imprensa especiali-zada como "um dos
época, Jagger e Richards começam a compor suas maiores álbuns de rock- 'n-ro/1 dos anos 60", e que
· próprias canções. A primeira delas, "The Last trazia duas faixas que marcariam época: "Sym-
Time'.', vai aparecer em LP do ano seguinte. pathy for The Devil" e "Street Fighting ~an". A?
1966: novamente várias tournées pela Europa e contrário do último LP de 1967 - Their. Satantc
Estados Unidos. Quanto aos LPs, dois merecem Majesties Request -, bastante. marcado pelo int:-
destaque: Aftermath , com a famosa faixa "Paint it resse de Brian Jones no uso de instrumen tos eletro-
Black", e Got Live lf You Want lt, onde aparece a nicos, os dois de 1968 significavam a opção por um
referida canção "The Last Time", de autoria de caminho diferente, onde, aliás, Brian tinha pouca
Jagger e Richards. participação. É a partir daí, inclusive, que come-
O ano de 1967 não foi fácil para os Stones, ten- cam a se evidenciar diferenças musicais fortes entre
do sido marcado pelo primeiro de uma longa série ~le e o restante do conjunto. Por outro lado, suas
de processos por uso de drogas. Keith Richards e dificuldades de relacionamento com o grupo e,
Mick Jagger foram julgados e condenad os a penas especialmente, sua difícil convivência co1;1 o fato
de respectivamente um ano e três meses de prisão. da liderança quase natural de Jagger terminam por
64 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 65

isolá-lo cada vez mais, até que viesse a deixar o gru-


'
que se deu o polêmicocasamento de Mick Jagger
po em junho do ano seguinte, sendo posterior- ·coma nicaragüense Bianca Perez Morena de Macias,
mente contratado o guitarrista Mick Taylor. a partir de então simplesmente Bianca Jagger. Mui-
Mas o ano de 1969 seria bem mais tumultuado tos se perguntavam como era possível que uma fi-
do que o afastamento de um dos componentes do gura tão radical e con.testadora do mundo do rock
grupo poderia fazer supor. Havia sido programado, como Mick Jagger fosse capaz de se submeter às
para o dia 5. de julho, um grande concerto gratuito regras de uma cerimônia de casamento que, afinal
n_o Hyde Park. Apenas dois dias antes da data pre- de contas, descontados alguns "efeitos especiais",
vista para o show, uma tragédia abalava a vida dos era igual a qualquer outra. Imediatamente, o casal
S_t~nes: Brian Jones aparecia morto em sua piscina, passava a ocupar lugar de destaque no jet-set inter-
v1t1mado por um ataque de asma, segundo a versão nacional, estando a imprensa atenta a sua presença,
1
que circulou oficialmente. No entanto, os rumores sempre notada em qualquer lugar. Sua separação
s~bre um consumo cànstante e excessivo de drogas definitiva, no entanto, viria ,a ocorrer em 1979,
nao cessavam. :Apesar do abalo causado por· aque- quando se divorciam também com grande alarde.
la morte súbita, o concerto não deixou de ser rea- Em 1972, surgia o álbum duplo Exile on Main
lizado, tendo sido dedicado ao ex-companheiro. Street. Novamente, tournées pelos Estados Unidos
1969 foi também o ano dos trágicos episódios de e também Canadá. E cada apresentação era uma
Altárnont, registrados no referido filme Gimme ocasião sempre renovada de verdadeiro dei írio por
Shelter, que estreou na Inglaterra em 1971. É tam- parte do público.
bém deste ano de 1969 o LP Let ltB!eed título No ano de 1973, um fato marcante: devido às
que, traduzido, significa "deixa sangrar". ' sucessivas acusações de uso de drogas, os Stones
Em 1970 aparecia o fime Ned Ke/ly, que con- têm sua entrada proibida no Japão e Austrália, em-
tava com a participação de Mick Jagger e, em 1971, bora este último país logo volte atrás em sua deci-
era a vez de Performance, novamente com ele. são. Surgia o LP Goats Head Soup com a faixa
Também neste ano de 1971 surgia a "Rolling Sto- "Angie",' que apareceria também em compacto
nes Records", cujo símbolo era o desenho de uma simples.
enorme Iíngua. O primeiro LP a aparecer com o Em 1974, mais um remanejamento na estrutura
novo selo foi Sticky Fingers. A partir de então, do .conjunto: Mick Taylor deixa o grupo que, pos-
todos os discos do grupo seriam pràduzidos pela teriormente, incorpora Ronnie· Wood, assumindo
Rolling Stones Records. Foi também em 1971 então os Stones sua composição atual. Quanto aos
.
66 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é· Contracultura 67

'
LPs, era a vez de lt's On/y Rock-'n-Ro/1. que causaram no curto espaço de suas carreiras,
Passados mais de dez anos desde seu apareci- exigem um registro especial: Jimmy Hendrix e
mento, os Rolling Stones haviam alcançado um lu- Janis Joplin. Foi no Festival de Monterey, nos
gar absolu.tamente próprio e incontestável no mun- Estados Unidos, -em 1967, que eles fizeram sua
do do rock internacional. E, num certo sentido, explosiva aparição e, em 1970, num período de
eram um grupo que resistia como poucos à dimi- quinze dias, ambos morriam.
nuição de intensidade da contestação da contra- Tanto num caso como no outro eram mortes
cultura, que, por essa época, já dava mostras evi- que, de uma certa maneira, significavam a angus-
dentes de desintegração como movimento. Ao lon- tiante exploração quase obrigatória dos limites do
go da_ década de 70 e mesmo entrando agora na de seu tempo. Em entrevista à revista Esquire, no ano
80, os- Rolling Stones seguem com seu trabalho de 1968, no auge da fama, Janis Joplin declarava:
musical, registrando uma longa série de álbuns "Talvez eu não dure muito tempo, mas, se eu me
realmente incríveis. Eis alguns: B!ack and Blue controlo, não vou servir para nada, agora". Esse
(1976), Lave You Live (1977), Some Girls (1978), mesmo sentido de urgência diante do momento
Emotional Rescue (1980), Tattoo You (1981 ). E 0 - presente, de valorização extrema do "aqui e agora"
fôlego do conjunto, assim como o de seu público marcou a atuação de Jimmy Hendrix.
cativo, não parece diminuir com o passar do tem- Enquanto Janis Joplin interpretava os senti-
po - muito pelo contrário. mentos da época através de seus blues, cantados
Mas, apesar da força e da importância do papel com voz rouca e lancinante - chegando mesmo a
que tiveram grupos como os Beatles e os Rolling ser tida como a cantora favorita dos Hell's Angels
Stones ou um compositor/intérprete do porte de -, Hendrix o fazia através de uma habilidade toda
Bob Dylan, o panorama da música jovem dos anos especial no uso da guitarra elétrica. Nas suas mãos,
60 e coi:neço dos 70 certamente engloba uma quan- todos os sons possíveis e impossíveis deste instru-
tidade incrível de outros nomes que seria difícil mento eram radicalmente explorados, incluindo-se
listar -aqui.. The Mama's and The Papa's, Genesis, mesmo o uso deliberado da distorção como ele-
Yes, Deep Purple, Led Zeppelin, Queen, Animais, mento musical. Era a música eletrônica no seu
The Who, Pink Floyd, Mothers of lnvention, desenvolvimento máximo, a nível da música popu-
Jethro Tull, são .apenas algumas referências dentro lar. Nas palavras de Luís Carlos Maciel, "a_guitarra
de uma enorme série. elétrica, em Jimmy Hendrix, não é apenas um novo
No entanto, há dois nomes que, pelo impacto som: é uma nova experiência existencial que exige;

- -
68 Ozrlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 69

para que se estabeleça uma comunicação efetiva, de urna nova cultura. Misticismo irracionalista, filo-
uma alteração profunda na própria maneira de sofia oriental, astrologia, especulação metafísica,
viv~r do. ouvinte, nos próprios valores que norteiam hedonismo primitivista etc., geralmente conside-
seu comportamento e no seu próprio sistema ner- rados bob9gens infantis pelo melhor pensamento
voso". moderno, foram transformados nas principais dis-
'
Uma excelente amostra de tudo isso que vem ciplinas da academia do underground:'
sendo dito é, por exemplo, sua apresentação no Principalmente durante a segunda metade da
Festival de Woodstock, nos Estados Unidos, no ano década de 60, os grandes acontecimentos musicais .
de 1969, quando, em dado momento, Hendrix ini- da contracultura foram os festivais. Reunindo um
cia uma longa impro.visação com a guitarra a partir número enorme de grupos, compositores e intér-
do tema de "Star·Spangled Banner", o hino dos pretes - e, obviamente, um público gigantesco -,
Estados Unidos. Pouco a pouco, através de um som esses happeníngs musicais eram uma ocasião única
violento e angustiado, a melodia vai sendo literal- para o encontro ·daqueles que, às vezes desespera-
mente estraçalhada, dissolvida e, em seguida, sem damente, tentavam criar um mundo novo que
nenhuma interrupção, ele começa a tocar o "Purple fugisse aos limites do Siste.ma.
Haze", uma de suas composições mais célebres, Foram inúmeros esses festivais e tiveram lugar,
com enorme suavidade e delicadeza, numa tenta- especialmente, nas mais diferentes cidades dos Es-
tiva de contrapor, à desintegração do hino nacional tados Unidos e da Europa. No entanto, pelo menos
americano, um novo hino da contracultura. dois deles, pela importância que tiveram enquanto
Ainda uma vez é Luís Carlos Maciel que chama a marco.s não apenas da música, mas do movimento
atenção para a expressiva ligação entre Hendrix, de de contracultura como um todo, exigem uma refe-
um lado, e o rock e a contracultura, de outro. "Do rência especial - Woodstock e Altamont. Por
ponto de vista estritamente musical, a obra de Hen- razões diversas mas, possivelmente, com igual
drix encerra a grande lição cultural do rock. Foi impacto sobre o momento, ambos extrapolaram de
essa música que praticamente estabeleceu o mé- muito as fronteiras da música e marcaram época na
todo fundamental de criação da contracultura. história do movimento de rebelião da juventude
Consiste basicamente em recolher o lixo da cultura internacional.
estabelecida, o que é, pelo menos', considerado lixo Ambos os festivais se realizaram no ano de 1969,
pelos padrões intelectuais vigentes, e curtir esse tendo resultado em filmes (Woodstock e Gímme
lixo, ·1evá-lo a sério como matéria-prima da criação . Shelter) igualmente incríveis e que não podem dei-
70 Carlos Alberto Messeder Pereira
O que é Contraêultura 71
,
.

xar de ser vistos por alguém qué queira entender


por dentro um pouco daquele tempo. No entanto meses depois de Woodstock, em dezembro de 69,
há ~ma diferença profunda entre eles: enquanto ~ não teve a mesma sorte e se configurou como um
festival de Woodstock representou a realizacão dos momentos mais negros da utopia da contra-
a~ui e agora, ~~. utopia do peace and /ove, pel~ cultura, deixando ·no ar um forte sentimento de
clima de tranqu1l1dade e alegria em que transcor- frustração, perplexidade e fracasso.
reu: :'.'ltamont, ao contrário, apontou para á des- É assim que Maciel, em texto escrito na época,
tru1çao, para o fim da chamada "era de Aquarius" intitulado ''O Fracasso da Contracultura", comenta 1

pelo tom agressivo e pelos episódios de violênci~ o fes1'ival: "Para comemorar uma bem-sucedida ex-
sangr~nta que o marcaram, culminando com 0 cursão pelos Estados Unidos que lhes rendeu mais
assassinato de um negro pelos Hell's Ange_ls. de um milhão de dólares, os Rolling Stones resol-
Nas palavras de Abbie Hoffman um dos nomes veram oferecer um concerto de graça aos fãs da
obrigatórios da contracultura no~te-americana e Califórnia, onde é alta a percentagem de hippies e
autor de um livro sobre um desses festivais, intitu- afins. Escolheram Altamont, que fica a quarenta
!a~o Woodstock Nation, o clima daquele encontro milhas de San Francisco, contrataram alguns gru'
foi assim descrito: "Se eu tivesse que resumir a pos famosos para os números de abertura (Santana,
ex~eriência ?e Woodstock, eu diria que foi a pri- Grateful Dead, Jefferson Airplane etc.) e deram aos
meira tentativa de aterrissar um homem na Terrá" Hell's Angels, a assustadora gang de motociclistas,
Realmente, o que se configurou durante aquele; um caminhão cheio de cerveja como pagamento
três dias foi a "nação" de Woodstock, um outro por seus serviços como 'guarda de segurança'. Com-
país, um outro mundo, onde o lema "é proibido pareceram cerca de trezentas mil pessoas - e o
~roibir", do Maio de 68 fraricês, foi posto em prá- desastre foi total. O congestionamento de tráfego
tica de verdade, nuni ambiente psicodélico com transformou a área num verdadeiro inferno. Além
mui'.a música (nomes como Jimmy Hendrix,' Janis do ácido e da maconha, e ao contrário do que
Joplm, Ten Years After, Santana, Richie Havens, aconteceu em Woodstock, as bebidas alcoólicas e as
Joan Baez, Joe Cocker etc. etc.), muita alegria bolinhas de anfetamina tiveram um amplo consu-
onde meio. milhão de pessoas formavam uma ver'. mo. A violência estourava a cada momento, em
dadeira comunidade, no melhor estilo da filosofia discussões e brigas sangrentas. Chamados de
hippie da época. 'fascistas' pelo público, os Angels espancavam
Já Altamont, ao contrário, realizado quatro quem pintasse na frente. Quatro pessoas morreram:
uma afogada e duas atropeladas pelos automóveis
72 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 73

, irritados. O restante, um estudante negro chamado da transformação, da revolução aqui e agora. E,


Meredith Hunter, foi esfaqueado por um Angel no para isso, a música, ou. melhor, o rock desempe-
momento em que apontava um revólver na direção nhou um papel fundamental.
do palco, enquanto Mick Jagger cantava os versos Sobre o show de rock, Billy Mundi, do conjunto
escabrosos de 'Sympathy for the-Devil'. ( ... ) A Mothers of lnvention, afirma o seguinte: "No espe-
euforia criada por Woodstock era forte demais e táculo convencional, o artista procura fazer que o
1970 foi, de acordo, um ano carregado de oti- público se identifique com ele e nele se anule. É
mismo. Mas a água continuava a rolar sob a ponte e uma técnica reacionária. No rock são os músicos
o próprio Woodstock teria de ser esquecido. que devem se identificar com o público e se anular
Aquele sonho colorido não poderia durar para sem' no público. É um sentimento revolucionário. O
pre e, na falta de novas felizes confirmações, Alta- som amplificado, que corta toda possibilidade de
mont foi ressuscitada com seus sombrios signifi- comunicação não só com a pessoa ao lado mas de
cados, como um despertar cruel para a dura reali- cada pessoa consigo mesma. As luzes relampejantes,
dade". que diluem as relações de espaço e anulam a capa-
Ficava assim evidenciada a presença da violência cidade de orientar-se segundo o hábito embrute-
do ódio, enfim, da contra-utopia no .interior d~ cedor do espaço tridimensional. Então tudo explo-
própria contracultura. E a presença marcante dos de. Explode a segurança que o Sistema oferece.
Hell's Angels nos episódios de Altamont só corro- Explode a segurança que oferecem a rotina e os
borava ainda mais esta evidência. Este grupo era hábitos, aceitos passivamente porque são mais
uma organização direitista e extremamente violenta cômodos e ajudam a sobréviver. O homem se
que surgiu na Califórnia, nos Estados Unidos, mas encontra consigo mesmo e ao mesmo tempo con-
que se estendeu por vários países da Europa. Decla- fundido com uma multidão infinita de outros
. radamente fascistas, com um comportamento pau- homens. Não somos gente de espetáculo, não
tado pela intolerância e autoritarismo, o grupo fazemos espetáculo. Somos apenas provocadores
sempre chamou atenção pelo uso ostensivo de de um rito".
capacetes, suásticas e medalhas sobre seus blusões No grande rito da contracultura, que o rock aju-
de couro negro. , dava a encenar, um grupo tinha um papel absoluta-
M&s, com todas suàs contradições, estes.e outros mente fundamental: eram os híppies. Com seu
festivais de música foram, talvez, os grandes mo- mundo psicodélico, seus cabelos agressivamente
mentos de atualização da utopia da contracultura: compridos, suas roupas coloridas e exóticas enfim
' '
74 Carlos Alberto Messeder Pereira ·
O que é Contracultura 75

com seu ar freak (estranho, extravagante), eles


começaram a encher ·as ruas dos Estados Unidos, no dos direitos civis. O acirramento das lutas raciais,
ou melhor, da Califórnia, já desde os primeiros a crescente corrida armamentista e o início da guer-
anos da década de 60. E não é preciso dizer que, de ra do Vietnã, por volta de 1963, vinham se acres-
lá, eles começaram a se espalhar pelo mundo intei- centar a este clima de descrédito e descontenta·
ro, numa viagem longa e sinuosa. Era o flower po- menta.
wer que começava a ganhar seu lugar ao sol, com o No entanto, o que ITJarcava esta nova onda de
aval de nomes nada desprezíveis como Andy War- protestos que começava a tomar conta, principal-
hol, Ginsberg, Thimothy Leary, Alan Watts, Mc- mente, da sociedade americana era o seu caráter de
Luhan, Marcuse e tantos outros. não-violência. Mesmo no caso do movimento negro,
Nas principais cidades dos Estados Unidos, cer- é apenas num segundo momento que ele assume
tas partes ou mesmo avenidas convertiam-se, pouco uma tática e um tom de maior agressividade diante,
a pouco, em verdadeiros centros de•hippismo. É o inclusive, da constatação da progressiva falência da
que ocorre, por exemplo, com Haight-Ashbury (em luta pacífica pelos direitos civis. É nesse processo
São Francisco), Sunset Boulevard (em Los Angeles), de râdicalização, por exemplo, que figuras como o
Old Town (em Chicago) ou East Village (em Nova pastor Martin Luther King .(que viria a ser assassi-
York). Por outro lado, cidades como Londres e nado em 1968) vão aos· poucos perdendà a hege-
especialmente Amsterdã, ou ainda outras marcadas . mania na luta anti-racismo para Iíderes e grúpos
por um traço qualquer de "exotismo"; como Kat- com posições mais radicais. É por volta de 1965,
mandu, Marrakesh ou Cuzco, por exemplo, conver- por exemplo, que surge o Black Panther Party, do
tiam-se também, para desespero das autoridades qual Eldridge Cleaver, um importante Iíder negro
locais, em verdadeiras "mecas" de um novo misti- que teve um papel de destaque na articulação de
cismo mundano. seu movimento com o protesto da juventude bran-
O final dos anos 50 e começo dos 60, nos Esta- ca; foi o ministro de Informação. ·
dos Unidos, foram especialmente movimentados. A São desta época as grandes marchas pacifiStas
descrença no liberalismo - visto, cada vez mais, contra a guerra .ou pelos direitos· do cidadão, as
como um mito, uma retórica que só protegia inte- passeatas hippies com seus slogans alegres, sua
resses -, aliada ao crescente questionamento dos música, suas cores e seus toques de orientalismo e
"benefícios" da sociedade industrial, constituía o os sit-ins dos jovens estudantes de universidades
pano de fundo das primeiras reivindicações em tor- americanas e européias. Aumenta, nos Estados Uni-
dos, a recusa ao pagamento de impostos, por parte
76 Carlos Alberto Messedér Pereira O que é Contracultura 77

daqueles que discordavam do destino dado pelo converteu em um dos gurus do movimento hippie,
governo ao dinheiro público (guerra do Vietnã, destacando-se o seu Chelsea Girl - filme funda-
armas nucleares etc.). Cresce a resistência à pres- mental para o hippismo. Também exige uma refe-
tação do serviço militar, ao alistamento e embar- rência especial o trabalho realmente revolucionário
que para as frentes de combate, chegando-se, até do Living Theater, grupo teatral que consagrou
mesmo, à queima de cartões de recrutamento, internacionalmente os nomes de Jul ien Back e
numa clara demonstração do repúdio 'dos jovens Judith Malina. Até 1964, o grupo teve sua sede em
norte-americanos à guerra do Vietnã. Aqui vale a Nova York; a partir desta data, em função de pro-
pena lembrar acontecimentos como a peça Hair, blemas com as autoridades, passa a viver o exílio
um musical que tematizava, com todas as cores da europeu, tendo estado no Brasil em 1971. Em per-
época, o drama da juventude diante da guerra do feita sintonia com o projeto de revolução cultural
Vietnã - peça que foi transformada posterior- dos anos 60, um de seus espetáculos trazia o
mente em 'filme com trilha sonora de enorme famoso título Paradise Now.
sucesso - e a figura do lutador de boxe Muham- Esse é o contexto mais imediato no qual os
mad Ali, o Cassius Clay, que, em 1966, teve o -hippies estão surgindo e se espalhando pelos quatro
t ítu!o de campeão cassado diante de sua recusa, cantos do mundo, com seus slogans de um radicalis-
por motivos político-religiosos, à prestação do ser- mo bem-humorado como Faça Amor, Não a Guerra,
viço militar. Paz e Amor ou com o curioso hábito, freqüente nas
No entanto, o grande fato a ser salientado, neste suas passeatas e manifestações, de distribuir flores
período, talvez seja a intensidade com que toda a às pessoas em volta, com um sorriso nós lábios, ao
agitação político-cultural de caráter novo agluti- invés de gritar violentas e conhecidas palavras de
nava grupos sob certos aspectos tão diferentes ordem. É assim que os hippies encarnavam, de
como hippies, negros e aqueles estudantes que modo bastante especial, a nova radicalidade de um
representavam os começos de uma nova esquerda. determinado momento e de_ certos segmentos
E tudo isso, diga,se de passagem, com muito rock sociais.
ao fundo, o som que, afinal de contas, havia reali- Por outro lado, não se pode esquécer que a
zado a mais radical fusão da música bránca com a década de 60, a nível internacional, foi realmente
negra. Mas não era apenas na músic.a que o clima da um tempo de muita agitação, esperança e inovação
época estava presente. É impossível esquecer, por nas formas de luta política. Basta lembrar, por
exemplo, o cinema de Andy Warhol, artista que se exemplo, alguns dos grandes acontecimentos que se

O que é Contracu/tura 79
78 Carlos Alberto Messeder Pereira

sociedade chinesa passassem por um rigoroso pro-


destacavam no panorama mais geral daquela época,
cesso de transfo rmação revolucionária, capaz de
dentre os quais pelo menos três exigem uma refe-
colocá,los em sintonia com as mudanças política s
rência especial: a Revolução Cultural Chinesa, are-
que a nova-es trutura de poder, surgida com a revo-
sistência popular vietnamita à agressão armada _d_os
Estados Unidos e a guerrilha de Guevara na Boi 1v1a. lução proletária ocorrid a há quase vinte anos, havia
produzido. Enfim, o que se buscava era uma espé-
Em todos estes casos, o que estava em jogo era a
cie de politização radical de todas as áreas dé vida
abertur a de novos espaços de contest ação política e
social, capaz de transfo rmar, num sentido revolu-
de luta com a surpreendente emergência de novos
cionário, desde as· mais simples relações de trabalh o
venced~res num quadro de novas vitórias. Muito
provavelmente, este era o dado que tanto fascinava e de família até o conjun to da estrutu ra do sistema
a juventu de da época e lhe permitia, in~lusive, um~ de ensino.
. No trágico episódio da guerra do Vietnã, a luta
identificação tão forte com acontec imento s ate
certo ponto bastante afastados de seu cotidian o. do povo vietnam ita, em condiçõ es de enorme infe-
Da mesma maneira, é talvez por aí que se deva rioridade militar, contra o avantajado poderio béli-
compre ender o prestígio e a popularidade, entre os co dos Estados Unidos simbolizava a capacidade de
jovens, de. personagens como Mao Tse-Tung, Ho resistência que era possível brotar em resposta a
Chi Min e Che Guevara, respectivamente represen- uma agressão imperialista. Para os Estados Unidos,
. tativos de cada um daqueles três grandes aconteci- a tentativa de ganhar aquela guerra exigia, cada vez
mais, o uso de um potencial de viólência poucas
mentos dos anos 60.
Na China a Revolução Cultural significava uma vezes sequer imaginado. Entreta nto, isto não era
tentativ a de' mobilização e de crítica que visava a suficiente para que ocorresse uma suposta e espe-
constru ção de um tipo de sociedade sociali~ta_ que rada "vitória fácil" em termos estritam ente milita-
não esbarrasse nos mesmos impasses do socialismo res. O moral do inimigo não se abatia e a luta con-
soviético, já duramente avaliado e criticad o, tinuava, sendo cada palmo de terra disputa do vio-
naquele momen to, a nível internacional. Neste sen- lentamente. Assim, a resistência do povo vietna-
tido, boa parte da energia revolucionária passa a se_r mita convertia-se, aos olhos do mundo inteiro e da
canalizada, a partir de 1965/1 966, para uma redefi- juventude em particular, num verdadeiro símbol o
nição política dos hábitos, costum es, ~odos de de resistência capaz de despert ar um insuspeitado
pensar e agir tradicionais. O gr?nd obJ;t1_vo era espírito de solidariedade internacional e que se
fazer com que os sistemas culturais e 71deolog1cos da
expressava, por exempl o, no famoso lema de

~-~~=---~
.-,. L~.•=~..~
80 Carlos Alberto Messeder Pereira
O que é Contracultura 81

Guevara: "criar um, dois, três, muitos Vietnãs".


onde ele afirmava: "Nos próprios Estados Unidos o
Por sua vez, a experiência da luta revolucionária
movimento negro e os estudantes progressistas que
guerrilheira de Che Guevara nas selvas da Boi ívia, .
são cada vez mais numerosos, convertem em'algo
avaliada por ele próprio, naquele momento histó-
seu a figura de Che. Nas manifestações mais comba-
rico particular, como a forma fundamental de ação. 1
tivas pelos direitos civis e contra a agressão ao Viet-
para a libertação da América Latina, significava
nã, seus retratos são esgrimidos como emblemas de
uma primeira tentativa de internacionalização dos
melhores frutos e esperanças da Revolução Cubana, luta. Poucas vezes na História, ou talvez nunca,
uma figura; um homem, um exemplo, se universali-
que, naquela época, era vista como a grande expe-
zaram com tal celeridade e apaixonante força .. É
riência de implantação do socialismo na América
que Che encarna em sua forma mais pura e desinte-
Latina. A partir daquela "base guerrilheira" boli-
ressada o espírito internacionalista que caracteriza
viana, o que se esperava, então, era que o movi-
o mundo de hoje e cada vez mais o mundo de
mento revolucionário se estendesse a outros países
amanhã". Confirmando esta forte identificação da
da América do Sul, numa verdadeira frente anti im-
perialista. E o empenho pessoal de Guevara neste j~ventude com a figura de Che, vale lembrar que o
livro Woodstock Nation, de autoria do Iíder yippie
processo era total, como demonstram as palavras
de Fidel Castro: para Che, "o comando militar e Abbie_ Hoffman, incluía, entre outros documentos
uma longa carta manuscrita do I íder guerrilheir~
político da guerrilha devia estar unificado e ( ... )
dirigi_da "à juventude dos Estados Unidos", na qual,
a luta só podia ser dirigida da guerrilha e não de
depois de toda uma reflexão sobre a importância e
cômodos e burocráticos escritórios urbanos". Era
especificidade da luta do jovem norte-americano,
exatamente este seu enorme ·envolvimento pessoal
ele se despedia com o seu clássico "venceremos".
numa luta de libertação verdadeiramente sem fron-·
Assim vivia o conturbado mundo dos anos 60
teiras que fazia dele um herói como poucos: Sua
morte em combate, no mês de outubro de 1967, cheio no entanto de muita fé e esperança no pr/
sente, ou mesmo num futuro bastante imediato. E
significava um dos mais fortes golpes no clima pro-
gressista daquela época. No ano seguinte, 1968, é nele que se insere a grande utopia do movimento
vinha a público o seu diário, em que ele paciente- hippie da construção, no mundo aqui e agora, do
mente registrava o dia-a--dia de sua luta. Em sua seu paraíso dé paz e amor. Para tanto, era funda-
edição cubana, o diário vinha acompanhado de mental que eles conseguissem escapar, de algum
uma longa introdução assinada por Fidel Castro, modo, aos limites da sociedade e da cultura ociden-
tais. E este era, na verdade, o sentido de sua filo-
O que é Contracultura 83
82 Carlos Alberto Messeder Pereira

sofia do drop out - expressão que Iiterai mente sig-


nifica "cair fora". Para os hippies, "cair fora" dessa
camisa-de-força ocidental significava ganhar um
outro lugar, fugindo então simultaneamente ao
cerco do espaço ;físico, institucional e lógico deste
mundo oddental. É por aí que se pode entender
melhor os três grandes eixos de movimentação que
marcavam sua rebelião - da cidade, a retirada para
o campo; da família para a vida em comunidade; e
do racionalismo cientificista para os mistérios e
descobertàs do misticismo e do psicodelismo das
drogas.
Es1;e era, portanto, o verdadeiro sentido da crí-
tica do movimento hippie à repressão que, do seu
ponto de vista, caracterizava o modo de vida do
Ocidente: a busca às vezes desesperada e nem sem-
pre muito Consciente de um novo espaço onde
fosse possível viver uma outra vida. Assim, começa
a ocorrer uma enorme expansão das "comunida.des
hippies". No seu interior, a própria organização
econômica se torna comunal, surgindo, por exem-
plo, inúmeras "comunidades agrícolas". Para a
opinião pública de classe média, são pessoas mar-
ginais, na sua maioria viciadas em drogas. Para eles
próprios, aquela nova forma de vida significava a
fuga da máquina e uma volta à natureza, vivendo
do próprio trabalho, quase sempre manual.
Nesta sua tentativa de inventar uma nova ma-
neira de viver, os hippies concentravam sua energia
revolucionária especialmente no questionamento

--- . ..• ----------=--·-- ____,,.,-


Carlos Alber-to_M,_e-ss_e_d_er_F_e_re-,--,a--.---0-q_u_e_é_C:_o_n_tn_a_cu_/tu-,-a----
84 -----------•8•5-.,-.-Tj~-=----~ -- - ---- -~~- ------- -,,,
i

da repressão internalizada em cada um, na busca de para "expand ir ou alargar a consciência", conhe-
si mesmo e do significado da existência, enfim, cido ,como o "papa psicodélico" e que havia sido
grandes "viagens", por mais abstrato s que estes expulso da universidade de Harvard em 1963 por
objetivos possam parecer. Segundo Paulo Coelho, suas práticas com o LSD - bem como Alan Watts
em texto de época intitulado "As Sociedades Alter- - o "papa do zen-bud ismo" nos Estados Unidos -
nativas" e publicado na revista Planeta, a questão estão indissoluvelmente ligados a toda esta onda de
era assim colocada: "Todos os movimentos polí- misticismo e psicodelismo. E mais: tanto para um
ticos tradicionais partiam do princípio de que a como para o outro ambas as experiências são basi-
sociedade era a justificativa para a existência do camente complementares. "A viagem de LSD é
homem. O hippismo inverteu o processo: o homem uma peregrinação religiosa''., dizia Leary, enquant o
era a única justificativa para a existência da socie- Watts defendia o uso do LSD como via legítima
dade". O homem, ou o indivíduo, era assim a peça para experiências místicas devido aos fortes esque-
central no complicado xadrez da revolucão cul- mas repressivos contidos na cultura ocidental, que
tural/individual que os hippies tentavam ef~tivar. E agem sobre as consciências individuais, limitando-as
para tanto não faltaram adeptos e aliados. na sua sensibilidade.
É também como parte desse processo de liber- Fundam entalme nte, o que se buscava eram
tação das amarras da repressão da sociedade e da novas possibilidades de apreensão da realidade, e
cultura ocidentais que se deve compree nder a di- tanto o misticismo quanto a droga constituíam-se
fusão e o sucesso, entre os hippies e no interior da numa forma de oposição ao racionalismo domi-
contracu ltura em geral, do misticismo - especial- nante nas sociedades tecnocráticas. Racionalismo
mente aquele marcado por uma forte dose de este calcado sobre o modo de conhecer da Ciência,
orientalismo - e da droga, ou melhor, do "psico- ou seja, sobre a própria estrutura do pensame nto
delismo". Expressão que, por sua vez, é assim científico que, como tal, permite, ao mesmo tempo
definida por Maciel: "movim ento social -e até que impõe, uma determin ada perc.epção da reali-
certo ponto político, nascido de uma conquist a d!lde. Assim, além do prazer que a droga é capaz
científic a: a descoberta das virtudes dos produtos de proporcionar através de seus efeitos, o que a
químico s alucinógenos, dos quais o LSD é o mais tornava especialmente atraente no contexto da
famoso". contracu ltura era o caráter "demoli dor" daquela
Nomes como Thimothy l.eary - um dos princi- experiência em termos de certas estrutura s de
pais teóricos da utilização das drogas alucinógenas pensamento. Nas palavras de Eric Burdon, do con-
86 Carlos Alberto Messeder Pereira
O que é Contracultura 87

junto Animais: ·,,A experiência da droga, a longo


prazo, pode não representar absolutamente nada, que ocorreu aquela enorme e colorida manifestação
mas· nos ensinou que deixar-se caotizar não é pacifista na qual se tentou, nada mais nada menos,
necessari,imente inútil". que fazer levitar o Pentágono, no melhor estilo do
Este era também o sentido do lúdico ou do ativismo da época. Mesmo sem entrar no mérito
mágico para a contracultura - uma nova forma de objetivo das técnicas empregadas, é fácil perceber
aproximação do real. Já no caso das religiões orien- que. se trata, no mínimo, de uma nova e curiosa
tais, que tinham tanto prestígio junto à juventude forma de enfrentar o poder. Ainda durante este
rebelde dos anos 60, era toda uma outra concepção ano, dois fatos importantes: em São Francisco, ver-
do universo que estava em jogo, toda uma outra dadeiro berço do hippísmo, realiza-se o enterro
maneira de encarar a natureza ou o corpo, por simbólico do movimento híppíe. Um caixão é cre-
exemplo. E estes dados as transformavam em sis- mado, enquanto os manifestantes, em uníssono,
temas de pensamento extremamente questiona- bradam:·"Os híppíes morreram! Vivam os homens
dores e polêmicos quando postos frente à visão de livres!" Praticamente ao mesmo tempo, Abbie
mundo dominante no Ocide-nte. Hoffman e Jerry Rubin fundam o YIP (Youth
Desta forma, o homem novo que a contracul- lnternational Party, o Partido Internacional da
tura tentava construir pressupunha efetivamente Juventude), tentativa de abrir um espaço mais
um novo modo de conceber e de se relacionar cdm institucionalizado_ que fosse capaz de canalizar a
o mundo à sua volta, nas mais diferentes áreas do energia revolucionária de toda aquela juventude
seu cotidiano, exigindo portanto o surgimento de rebelde. Entrava assim em cena a figura do yíppíe,
uma nova consciência ou de uma "nova sensibili- o híppíe politizado, expressando talvez o início de
dade". Em todo esse processo de transformação, o uma. convergência entre os projetos de revolução
hippismo tinha um papel realmente de vanguaré:la. cultural e revolução política. Jerry Rubin, ex-1 íder
Assim, ao longo de toda a década de 60, estes arau- estudantil em Berkeley, afirmava: "Os yíppíes sã.o
tos da Era de Aquarius vão constantemente reafir- revolucionários. Misturamos a política da Nova
mar sua presença através de acontecimentos sempre Esquerda com um estilo de vida psicodélico. Nossa
significativos. maneira de viver, nossa própria existência é a Revo-
Do ponto de vista da história e da organização lução,,.
do movimento hippíe, 1967 é um ano especial- Aliás, este esforço de tentar a fusão de um ati-
mente marcante. Foi em outubro, por exemplo, vismo mais diretamente político com o psicode-
- - lismo daquele momento era vivível por toda parte.

_---~=-=--=···==-=-~>~--~-,!~-~~"-- - - - - - - -
88 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracultura 89

Em seu livro Rock, o Grito e o Mito, Roberto rar e absorver a contestação que os grupos ali pre-
Muggiati afirma o seguinte sobre o importante con- sentes représentavam e engendravam. O resultado
gresso de antipsiquiatria realizado em Londres, no final foi o famoso Chicago Triai, o Processo de Chi-
ano de 1967: "No verão de 1967, o rock é um dos cago, envolvendo diversos Iíderes ·dos movimentos
assuntos estudados em Londres no congresso Dialé- ali presentes, como Bobby Seale, do B!ack Panther
tica da Libertação, organizado pelo psicanalista Party, Jerry Rubin e .Abbie Hoffman, do YIP, ou
existencial R. D. Laing e seus colegas da 'antipsi- Tom Hayden, um dos fundadores da SDS (Stu-
quiatria', num esforço para conciliar libertação dents for a Democratic Society), e um importante
social e libertação psíquica. São grupos da Nova 1 íder da Nova. Esquerda, todos indiciados sob a acu-
Esquerda, psicanalistas e sociólogos que debatem, sação de "conspiração", embora a falta de provas
procurando dar forma a uma 'esquerda visionária' e fosse evÍdente: Na verdade, o que estava sendo jul-
fundir a pai ítica radical com a pai ítica do êxtase". gado neste momento era a própria identidade de
Outro aconteci menta que dá mostras desta uma geração, com sua consciência crítica e seus
"politização radical do psicodelismo", na segunda ideais de transformação social.
metade da década de 60, são os distúrbios que Mas não foi apenas nos Estados Unidos que o
envolveram a Convenção do Partido Democrático ano de 1968 significou um momento de confron-
realizada êm Chicago, em agosto de 1968. O epi- tação radical com o Sistema. Também na Europa,
sódio se converteu numa das maiores demons- este foi um ano decisivo para o movimento estu-
trações do potencial de violência e repressão que o dantil - uma das grandes manifestações do ati-
Sistema era cap·az de mobilizar contra o protesto vismo da juventude rebelde dos anos 60. Quem
organizado de negros, estudantes e hippies, ou não se lembra do Maio de 68 francês, com sL:i\is
yippies. O ·que se viu foram três dias de intensas barricadas e seus slogans de um radicalismo que
manifestações e violentos choques com uma pai í- em nada se parecia com o das manifestações pai í-
cia disposta a fazer um uso essencialmente pai ítico ticas tradicionais? "Sejam realistas: peçám o impos-
de sua força, revelando a existência de um verda- sível", "O sonho é realidade", "Temos uma
deiro plano com o objetivo de assustar e intimidar esquerda pré-histórica",. "O álcool mata, tomem
os manifestantes e tendo como resultado um LSD" "Sou marxista tendência Groucho" "É
f • ,_ '

enorme saldo de mortos e feridos. De uma certa proibido proibir" e tantos outros. Do mesmo
forma, estes episódios demonstravam os limites do modo, as universidades alemãs demonstraram,
liberalismo americano na sua possibilidade de tale- durante toda a década, uma incrível efervescência.
90 O que é Contracultura 91
Carlos Alberto Messeder Pereira
/

Nomes como Daniel Cohn,Bendit, na França, ou cida no interio r da· escola e que se manifestava
Rudi Dutschke, na Alemanha, se tornavam inter- tanto no dia-a-dia das relações entre as pessoas· ali
envolvidas no desempenho de seus papéis, quanto
nacionalmente conhecidos.
no· discur;o que se produzia e reproduzia dentro
Enqua nto isso, nos Estados Unidos, •especial-
mente Berkeley, Califórnia, e Colúmbia, Nova daquelas instituições. É no bojo deste proc_ess?
que vão surgir as universidades livres ou as ant1un1-
York, já haviam se convertido em pólos inter-
versidades, com seus currícu los radicalmente trans-
nacionais da luta dos estudantes. A primeira grande
formados e sua organização monta da em bases
revolta estudantil ocorrida em Berkeley, em 1964,
muito diferentes das do ensino tradicional, dentro
teve como um de seus resultados a criação do Free
do espírit o mais geral da criação de anti ou contra -
Speech Movement. No ano de 1966, novos e vio-
instituições, que tanto marcava aqueles anos de
lentos distúrbios viriam a ocorre r na Califórnia - o
. nome de Mário Sávio se tornava definitivamente intenso vigor da contra cultura . .
conhec ido. Em 1968, seria a vez da grande revolta Este novo camin ho trilhad o pelo movim ento
estudantil internacional era, em boa medida, o
na universidade de Colúmbia, com forte presença
do movim ento negro. resultado do encon tro de todas aquelas forças
Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa emergentes que a rebelião da juventude havia posto
Ocidental, o que chamava a atenção nesta onda de em cena. De um lado, hippies, yippies, negros e
revolta estudantil que marcou a década de 60 era a ui-na infinidade de minorias etnocu lturais que se
sua originalidade em· termos da abertura de novos organizavam e, de outro, um novo pensament_? de
espaços de luta política e da elaboração de uma esquerda que tentava se ajustar às transf~ri:naçoes e
nova linguagem crítica. Fiel à ideologia da rebelião à complexidade das sociedades industriais. Era. a
da juvent ude internacional, o ponto focal da crítica Nova Esquerda, que vinha se organizando ~esd~ o
e do protes to destas fileiras do movimento estudan- começ o dos anos 60. Um de seus frutos no interio r
til era a própria universidade enquan to instituição. ·do movimento estudantil foi a SOS (Students for a
Suas bandeiras de luta, longe de estarem refe- Democratic Society), a maior organização estu-
ridas apenas às questões mais gerais do conjun to da dantil dos Estados Unidos, com forte presença em
sociedade, falavam da sala de aula e das relações vários países europeus, fundada por volta de 196~.
mais diretas vividas no espaço específico das ·insti- Por sua vez, este discurso crítico que o movi-
tuiçõe s de ensino. Quando se questionava a repres- mento estudantil internacional elaborou ao longo
são, por exemplo, a ênfase era posta naquela exer- dos anos 60 visava não apenas as contra dições da
.

'
92 Carlos Alberto Messeder Pereira O que é Contracu/tura 93

sociedade capitalista, mas també m aquelas de uma


nossa energia na constr ução de novas condições. O
sociedade industrial, tecnoc rática , nas suas mani- que for possível utiliz~r da velha sociedade; nós uti-
festações mais simples e corriqúeiras. Nas palavras
lizaremos sem escrúpulos: meios de comunicação,
de um manifesto afixado à entrad a principal da
Sorbo nne duran te o Maio de 68: "ª revolução que
está começ ando questionará não só a sociedade
dinhe iro, estratégia, know- how e as poucas e boas
idéias liberais".
Esgotada, é evidente que a contra cultur a não
capita lista como també m a sociedade industrial. A
estava. No entan to, os sinais de um remanejamento
socied ade de consu mo tem de morre r de morte vio- das linhas básicas de seu projet o inicial são evi-
lenta. A sociedade da alienação tem de desaparecer dentes. Quais as chances de vitória desta reorien-
da história. Estamos inventando um mund o novo e tacão tática ... e estratégica? Quais os riscos de
original. A imaginação está toman do o poder ". ab.sorção pelo Sistema? Difícil responder. O m íni-
Em 1971, foi. organizado um enorm e congresso mo que se pode dizer é que, vista com o recuo d_e
em Berkeley, Califórnia, do qual participaram, ao uma perspectiva histórica que a passagem de mais
lado de sociólogos e outros cientistas, os principais dez anos já nos permi te ter, aquela reorientação era
1íderés das comunidades híppíes, jovens radicais de
real mente inevitável.
organizações estudantis, representantes de minorias
como o Gay Power, Women's Lib, Black Panther e
assim por diante . O que se procurava realizar era * * *
uma espécie de balanço de toda aquela intrincada Dentre os inúmeros projetos de transf ormaç ão
movim entaçã o dos anos 60, bem como a avaliação social, mais ou menos radicais, mais ou menos utó-
das possíveis saídas a curto ·e médio prazos. O picos, que os anos 60 viram surgir, a contr_acultu~a
resultado foi a publicação de uma "declaração de certam ente tem um lugar impor tante. E isto nao
princípios'.' na qual, em determ inado trecho , se apenas devido ao seu poder de mobilização - que
afirmava o seguinte: "A nova sociedade, a Socie- não foi nada pequ eno-, mas, principalmente, pela
dade Alternativa, deve emergir do velho Sistema, natureza das idéias que coloco u em circulação, pelo
como um cogumelo novo brota de um tronco apo-
modo como as veiculou e pelo espaço de interven-
drecid o. Acabou-se a era do protes to subterrâneo e
ção crític a que abriu. Não eram apenas novos ato-
das demon straçõ es existenciais. Acabou-se o mito
res que surgiam na cena do já tumul tuado debate
de que os artistas têm que estar à margem de sua
pai ítico-cultural internacional. Era todo um nov?
época . Devemos de agora em diante investir toda a
discurso, com marcas de uma extrem a complex1-
.

---·· ~----· '-e..,'.


1
94 Ozrlos Alberto Messeder Pereira

dade, que surgia, possibilitando o exerc 1c10 mais


sistemático de um tipo de crítica social que, até
aquele momento, não estava disponível. Medir sua
eficácia; em termos de curto e médio prazo, certa-
mente é uma tarefa difícil. Tarefa que, aliás, é difi-
cultada pela impossibilidade de que esta avaliação
seja realizada segundo os critérios de eficácia dos
projetos mais tradicionais de transformação social.
N". entanto, o que é certo é que a revolução anár-
quica que a contracultura pregava e realizava dei-
xou marcas inequívocas, tendo, antes de mais INDICAÇÕES PARA LEITURA
nada, introduzido novos interlocutores no debate
cultural.

1) Em termos do movimento de contracultura como um


todo, há dois trabalhos que devem ser lidos: A Contracultura, de
Theodore Roszak, editado pela Vozes, em 1972; e A Juventude na
Sociedade Moderna, de Marialice Foracchi, editado pela Livraria
Pioneira Editora, .em 1972. Há ainda um volume .do l/1ternational
Saciai Science Journa/, publicado pela UNESCO, intitulado Yauth:
a Social Force? ·{volume XXIV, number· 2, 1972), que é extre~
mamente interessante, .contendo desde artigos mais teóricos até
análises de casos concretos.
2) No que se refere a documentos de época, relativos aos diver-
sos grupos responsáveis pelo deseT'lvolvimento da contraCu!tura, há
duas coletâneas que merecem uma olhada: Rebelión en Estados
Unidos, organizada por Robert Cohen e editada por Siglo XXI
Editores, México,.1969; e BAMN (By Any Means Necessary) Outlaw
Manifestos and Ephemera 1965-70, organizada por Peter Stansil! e
David Zane Mairowitz e editada po_r Penguin B~)Qks, Londres, 1971.
3) Os livros teóricos e ativistas que, de um modo ou _de outro, se
converteram nos "gurus" da contracultura são fundamentais para
quem quiser se aprofundar no assunto. Praticamente todos os nomes
mais importantes e suas respectivas obras aparecem comentados na
O que é Contracultura 97
96 Carlos Alberto Messéder Pereira

Além disso, não esquecer o material de época, especialmente


bibliografia que acompanha o livro de T_heodore Roszak indicado
aquele surgido no período 1967 - 1972/1974: os jornais e revistas
anteriormente. Há mu"itos deles editados em português. underground, · como, por exemplo, Flor do Mal, Presença, Verbo
4} Sobre o movimento estudantil internacional, há duas co!etâ-
Encantado, Bondinho, Pasquim (que começa em 1969} etc., além de
.neas, reunindo artigos de diversos autores, que são excelentes: publicações como Navilouc·a e PO/em e discos (Mautner, Gal, Cae-
Student Power, organizada por Alexander Cockburn e Robin Black- tano, G"il, Novos Baianos, Raul Seixas, Lu(s Melodia etc. etc.l.
burn e editada pela Penguin Books em associação com a New Left
Review, Londres, 1969; e Student Power, o'rganizada por Julian
Nagel e editada por Merlin Press, Londres, 1969 .
. 5)" Não esquecer que os discos de rock e os jornáis e revistas
underground internacionais, bem como alguns filmes da época (Easy
Ríder,• Woadstack, Gimme Shelter, Haír etc. etc.), são um material
da maior importância.
6) No que se refere ao Brasil, especificamente , há umas leituras
obrigatórias.
De Luís Carlos Maciel, ver os seguintes livros, que reúnem, entre
outros, diversos artigos seus publicados na imprensa da éoca: Nova
Consciência/Jornalismo Contracultural- 1970/72, Rio, Eldorado,
1973; A Morte Organizada, Rio/São Paulo, Global e Ground, 1978;
e Negócio Seguinte, Rio, Codecri, 1981.
De Torquato Neto, ver o livro Os últimos Dias de Paupéria (edi-
ção revista e ampliada), São Pau!o, Ed\tora Max Umonad ltda.,
1982 {organizado por Ana MaricJ Silva de Araújo Duarte e Waly
Salomão).
De Caetano Veloso, Alegria, Alegria, coletânea 0rgan·1zada por
Wa!y Salomão e editada pela EditOra Pedra Q Ronca, Rio, 5/data.
Sobre o Teatro Oficina, ver o volume n9 60 da coleção ·"Tudo é
História", da Editora Brasiliense, intitulado Teatro Oficina {1958-
1982), Trajetória de uma Rebeldia Cultural, de autoria de Fernam::lo
Peixoto.
caro leitor:
As opiniões expressas neste livro.são as do autor,
Para um balanço geral da trajetól"ia da cultura brasileira nos anos podem não ser as suas. Caso voce ache que vale a
60 e 70, ver ainda: Impressões de Viagem, de Heloísa Buarque de pena escrever um outro livro sobre o mesmo tem_a,
Hol!anda, publicado pela Brasiliense, São Pauio, em 1980; Cultura e nõs estamos dispostos a estudar sua publ1caça o
Participação nos Anos 60, de Heloísa Buarque de Hollanda ~ Marcos com o mesmo título como "segunda visão". 1

A. Gonçalves, editado pela Brasiliense, São Paulo, na coleção "Tudo


é História", volume n9 41; Arte em Revista, n'? 5, São Paulo, 1981;
e Retrato de Época, Rio, Funarte, 1981 (de minha autoria}.

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