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1
Ilustração de Thalita Sophia
Moreira da Silva com
intervenção de Carlus Campos

DIREITOS HUMANOS,
CIDADANIA E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Josbertini Virgínio Clementino
Ana Lourdes Maia Leitão

REALIZAÇÃO

III
Copyright©2021 Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR)


Presidência Luciana Dummar
Direção Administrativo-Financeira André Avelino de Azevedo
Gerência Geral Marcos Tardin
Gerência Editorial e de Projetos Raymundo Netto
Análise de Projetos Aurelino Freitas, Emanuela Fernandes e Fabrícia Góis

SECRETARIA DE PROTEÇÃO SOCIAL, JUSTIÇA, CIDADANIA, MULHERES E DIREITOS HUMANOS (SPS)


Secretária de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos - SPS Socorro França
Coordenação Técnica PROARES III SPS Maria de Fátima Lourenço Magalhães
Gerência Técnica do PROARES III Anete Morel Gonzaga
Gerência de Fortalecimento Institucional do PROARES III Selma Maria Salvino Lôbo

UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (UANE)


Gerência Pedagógica Viviane Pereira
Coordenação de Cursos Marisa Ferreira
Design Educacional Joel Lima
Front-End Isabela Marques

CURSO PROTEÇÃO SOCIAL: PROGRAMA INTEGRADO DE EDUCOMUNICAÇÃO


Concepção e Coordenação Geral Cliff Villar
Coordenação Executiva Vanessa Fugi
Coordenação Adjunta Patrícia Alencar
Coordenação de Conteúdo Ana Lourdes Leitão
Equipe de apoio da coordenação Adriana Josino e Priscila Moreira
Revisão e Assessoria de Comunicação Daniela Nogueira
Projeto Gráfico, Edição de Design e Coordenação de Marketing Andrea Araujo
Design Miqueias Mesquita e Kamilla Damasceno
Arte-terapia Joana Barroso
Ilustrações Ana Luiza Travassos de Oliveira Carvalho, Anny Rammyli Nascimento da Silva, Antônia Travassos de Oliveira Carvalho, Bárbara Vazzoler Villar,
Beatriz Vazzoler Villar, Bernardo Saraiva Pinheiro, Davi Bogea Caldas, Fernanda Vitória de Almeida Matos, Francisco Mateus Braga da Silva,
Guilherme Araújo Carvalho, João Vazzoler Villar, João Victor Batista Veloso, Júlia Nogueira de Holanda, Luanna Madureira Marques, Lucas Mesquita Mororó,
Lucas Sobreira de Araújo, Maia Alease Lima Oliphant, Maria Clara Negreiros Lobo, Maria Júlia Sousa de Oliveira, Mariana Negreiros Lobo, Mariana Vazzoler Villar,
Mateus Saldanha Félix, Maurício Rafael Cipriano Gomes, Rafaela Microni Santos, Thalita Sophia Moreira da Silva, Yasmin Microni Santos,
Yasmin Monteiro Gomes Bezerra, com intervenção de Carlus Campos
Direção de Projetos Alexandre Medina
Estratégia e Relacionamento Adryana Joca
Gerência Executiva de Projetos Lela Pinheiro
Análise de Projetos Daniele Andrade
Análise de Marketing Digital Fábio Junior Braga

Este curso é parte integrante do Curso de Capacitação sob o tema PROTEÇÃO SOCIAL na modalidade
de Educação a Distância (EaD), em decorrência do Contrato celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha
e a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos - SPS , sob o nº 143/20.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD


P967 Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação / vários autores; organizado por Ana
Lourdes Maia Leitão; vários ilustradores. - Fortaleza : Fundação Demócrito Rocha, 2021.
192 p. : il.; 26cm x 30cm. – (Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação ; 12v.)
Inclui bibliografia e apêndice/anexo.
ISBN: 978-65-86094-76-3 (Coleção)
ISBN: 978-65-86094-79-4 (Fascículo 1)
1. Direitos Humanos. 2. Políticas Públicas. 3. Assistência Social. 4. Drogas. 5. Igualdade Racial.
6. Segurança Alimentar e Nutricional. 7. Proteção à Vida. 8. Direito das Mulheres. 9. População
LGBTQIA+. 10. Pessoas com deficiência. I. Leitão, Ana Lourdes Maia. II. Título. III. Série.
2021-1549 CDD 341.4
CDU 341.4
Todos os direitos desta edição reservados à:
Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410 Fundação Demócrito Rocha
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
Índice para catálogo sistemático: CEP: 60.055-402 - Fortaleza-Ceará
Direitos Humanos 341.4 Tel.: (85) 3255.6037 - 3255.6148
Direitos Humanos 341.4 fdr.org.br | fundacao@fdr.org.br
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 4
2 DIREITOS HUMANOS 4

3 CIDADANIA 9

4 POLÍTICAS PÚBLICAS 12
REFERÊNCIAS 15
Ilustração de João
Vazzoler Villar com
intervenção de
Carlus Campos
1
INTRODUÇÃO
2
O
s direitos humanos equivalem aos direitos naturais ga-
rantidos a todo e qualquer indivíduo, que independe da
sua classe social, etnia, gênero, nacionalidade ou po-
sicionamento político, e têm um caráter universal cujo
ponto de partida é a dignidade da pessoa humana.
Cidadania é um conceito que se refere à situação de uma
pessoa que pertence a comunidade de um país, apta a exercer
DIREITOS
a qualidade de ser cidadão. O vínculo com determinado país
gera direitos e deveres civis, políticos e sociais assegurados pe- HUMANOS
las leis. Política pública é a soma das escolhas governamentais
traduzidas em ações e deliberações do governo orientadas para 2.1 FUNDAMENTOS E
solução de problemas que ocorrem na sociedade. DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO
O objetivo deste fascículo é compreender essas três temá-
ticas de grande importância para que as pessoas possam de- DOS DIREITOS HUMANOS
sempenhar o seu papel como cidadãos, buscando o exercício Dentre os diferentes significados, o da pa-
pleno da cidadania, conhecer seus direitos e deveres, inclusive lavra direito está ligado à teoria do Estado
o conjunto de direitos naturais que visam assegurar a dignidade ou da política, que é o direito como orde-
da pessoa humana, acompanhar e reivindicar a criação de polí- namento normativo, considerando que o
ticas públicas assim como usufruir das já existentes. nosso objeto de estudo está relacionado a
Ao longo deste fascículo, esses três conceitos serão expli- uma ação pública governamental. Diante
cados de forma detalhada para que cada um que faça a leitura disso, direito é considerado:
possa assimilar as diversas compreensões e tenham elementos É o conjunto de normas de conduta e de
para uma atuação efetiva na construção da sociedade. organização, apresentando por conteúdo a
regulamentação das relações fundamentais
para a convivência e sobrevivência do grupo
social. Tais como as relações: familiares, eco-
nômicas, relações políticas, e ainda a regula-
mentação dos modos e das formas através
das quais o grupo social reage a violação das
normas de primeiro grau ou a institucionali-
zação da sanção. (BOBBIO, 1999, p.349).

4 | Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Ilustração de Ana O surgimento dos direitos humanos
Luiza Travassos de
Oliveira Carvalho
tem relação com o conceito de direito.
com intervenção de Historicamente, aparecem como um ex-
Carlus Campos perimento dos homens para regulamen-
tar os conflitos de interesses e disciplinar
as relações entre eles. Foram pactuados
e evoluíram diante da necessidade da foi um dos países signatários. Hoje essa
sociedade de proporcionar direitos e de- declaração é assinada pelos 192 países
veres para todos os homens igualmente, que compõem as Nações Unidas (LEÃO;
isto é, o que se chama equilíbrio da or- NEVES; COUTINHO; NETO, 2019).
dem social (PIOVESAN, 2010). Nesse entendimento, direitos humanos
Os grandes acontecimentos de con- são aqueles que decorrem do reconheci-
flitos, de guerras e de revoluções, como mento da dignidade intrínseca do homem
também das grandes invenções cientí- com que lida e proporciona direitos co-
ficas e tecnológicas têm, em geral, uma muns a todo ser humano. Sabe-se que são
ligação muito próxima, destacando a universais, naturais ou acima e antes da
afirmação ou a ampliação dos direitos do lei, históricos e interdependentes, ou seja,
homem. Exemplo disso, em 1948, após a independem do reconhecimento formal
2ª Guerra Mundial, foi criada a Declara- dos poderes políticos, embora devam ser
ção dos Direitos do Homem e do Cidadão, garantidos por esses poderes. A igualdade
proclamada em 1789, na Revolução Fran- aqui defendida não tem relação com:
cesa, inspirada nos ideais da liberdade, As condições físicas, intelectuais ou psico-
lógicas, pois cada pessoa tem sua individu-
igualdade e fraternidade, a Declaração
alidade, sua personalidade, sua cultura, sua
de Direitos da Revolução Americana e a religiosidade, e tem de ser respeitada. As
Declaração Universal dos Direitos Huma- pessoas são diferentes em sua subjetividade,
nos (PIOVESAN, 2010). porém mostram-se iguais enquanto seres hu-
A Declaração Universal dos Direitos manos, com as mesmas necessidades e facul-
Humanos, formada por 30 artigos que tra- dades essenciais. Portanto, tem os mesmos
direitos. (DALLARI, 1998, p.14).
tam dos direitos inalienáveis que devem
garantir a liberdade, dignidade humana, Os direitos humanos equivalem aos
igualdade, justiça e a paz mundial, foi direitos naturais garantidos a todo e
adotada pelas Nações Unidas em 10 de qualquer indivíduo, independentemente
dezembro de 1948 e traduzida em mais de sua classe social, etnia, gênero, nacio-
de 500 idiomas. Além disso, inspirou as nalidade ou posicionamento político, e
constituições de muitos estados e demo- têm um caráter universal cujo ponto de
cracias recentes, inclusive o Brasil, que partida é a dignidade da pessoa humana.

Curso Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação | 5


2.2 AS DIVERSAS GERAÇÕES Há uma classificação criada em 1979 Ao buscar-se o conceito de direitos
pelo jurista tcheco-francês Karel Vasak, humanos, pode-se afirmar, sem gran-
DOS DIREITOS HUMANOS denominada de “gerações de direitos”, des dificuldades, que são os direitos
Os direitos humanos são garantias que baseada nos princípios da Revolução próprios de todos os homens enquanto
permutam ao longo do tempo e vão se Francesa:  liberdade, igualdade e fra- homens. Para Comparato (2010), três as-
adaptando às necessidades específicas ternidade (VASAK, 1983). Didaticamen- pectos devem ser levados em considera-
de cada momento e se ressignificando no te, os direitos humanos estão distribuí- ção no tocante à sua definição: primei-
âmbito dos dados contextos históricos. dos em três dimensões ou gerações. ramente, são direitos naturais, visto que
existem antes de qualquer lei; segundo,
são direitos históricos, uma vez que evo-
AS GERAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS luem em conformidade com novas ne-
FONTE: Elaborado pelos autores a partir de Wolkmer (2013).

cessidades sociais bem como pressões


São os direitos civis e políticos. Trata-se dos direitos individuais populares; e por último, são direitos
vinculados à liberdade, à igualdade, à propriedade, à segurança universais, dado que são amplos, exten-
e à resistência às diversas formas de opressão. Direitos sivos e atingem a todos, independente-
1ª GERAÇÃO
inerentes à individualidade, tidos como atributos naturais, mente de fronteiras. 
(LIBERDADE)
inalienáveis e imprescritíveis, que, por serem de defesa e Complementando tal conceito, San-
serem estabelecidos contra o Estado, têm especificidade de tos (2004) afirma que a expressão “di-
direitos “negativos” (WOLKMER, 2013, p. 127). reitos humanos” pode ser atribuída aos
valores ou direitos inatos e intrínsecos
Os direitos humanos de segunda dimensão relacionam-se
à pessoa humana, somente por ela ter
às transformações do papel do Estado, que, a partir daí,
nascido. São direitos que fornecem uma
passar a agir mais ativamente, não sendo somente fiscal
natureza essencial da pessoa humana,
das regras jurídicas. 
ou melhor, que não suscetíveis de volati-
Os direitos sociais são também titularizados pelo indivíduo lidade dependendo da época. Logo, são
2ª GERAÇÃO e oponíveis ao Estado. São reconhecidos o direito a saúde, direitos inalteráveis, intransferíveis e im-
(IGUALDADE) educação, previdência social, habitação, entre outros, que prescritíveis que se agregam à natureza
demandam prestações positivas do Estado para seu atendimento da pessoa humana simplesmente pelo
e são denominados direitos de igualdade por garantirem, fato de ela existir no mundo do direito.
justamente às camadas mais miseráveis da sociedade, a
concretização das liberdades abstratas reconhecidas nas
primeiras declarações de direitos (WOLKMER, 2013, p. 128).

São os direitos meta individuais, direitos coletivos


e difusos, direitos de solidariedade. A nota
caracterizadora desses “novos” direitos é a de que seu
3ª GERAÇÃO titular não é mais o homem individual (tampouco
(FRATERDADE) regulam as relações entre os indivíduos e o Estado), mas
agora dizem respeito à proteção de categorias ou grupos de
pessoas (família, povo, nação), não se enquadrando nem
no público nem privado (WOLKMER, 2013, p. 128).

6 | Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste Ilustração de João Vazzoler Villar
com intervenção de Carlus Campos
Intrínsecos a todos os seres humanos,
os direitos humanos independem de raça,
etnia, nacionalidade, religião, sexo ou qual- ART. 23 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
quer outra condição em que o indivíduo se Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e
encontra. Os direitos humanos passam a dos Municípios:
figurar como direitos fundamentais a partir  I - zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições
do momento que integram as legislações democráticas e conservar o patrimônio público;
internacionais, caso da ONU e nacionais, II - cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das
por exemplo a Constituição Brasileira. pessoas portadoras de deficiência;
No Brasil, a Constituição de 1988, co- [...]
nhecida como Constituição Cidadã, é con- V - proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência;
siderada um grande avanço como marco [...]
dos direitos humanos, pois buscou garantir IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das
direitos civis, culturais, sociais, econômicos condições habitacionais e de saneamento básico;
e políticos por meio da instituição de um X - combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização,
estado democrático de direito, capaz de promovendo a integração social dos setores desfavorecidos
assegurar o exercício dos direitos coletivos
e individuais numa sociedade sem precon-
FONTE: Elaborado pelos autores a partir da Constituição Federal de 1988.
ceitos, plural e fraterna (BRASIL, 1988).
Preceituam-se, na Constituição Fede-
ral, inúmeros deveres do Estado brasileiro, Ainda, no tocante aos serviços públicos básicos,
quer em termos de garantia que ele é obri- destaca-se como dever do Estado garantir:
gado a prestar, em razão do direito/obriga-
ção que esta resguarda, quer em termos
de prestação que se lhe impõe satisfazer. DEVERES DO ESTADO
O que se designa competência, na realida-
de, é um complexo de deveres que se con- à segurança (art. 144: “A segurança pública, dever do Estado...”);
fere ao Estado como principal responsável à saúde (art. 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado...”);
pela execução de políticas públicas. à educação (art. 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado...”);
aos direitos culturais: (art. 215: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício
dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais...”);
ao desporto (art. 217:“ É dever do Estado fomentar práticas desportivas
formais e não formais, como direito de cada um,...”);
ao meio ambiente (art. 225:“ Todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações...”)

FONTE: Elaborado pelos autores a partir da Constituição Federal de 1988.

Curso Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação | 7


Ilustração de Beatriz
Vazzoler Villar com
intervenção de
Carlus Campos

Logo, os direitos conferidos na Cons- seções da Constituição Federal de 1988,


tituição ao cidadão, quão grandemente no Título II - Dos Direitos e Garantias Fun-
à coletividade, pleiteiam a imposição de damentais, exatamente nos artigos 5º ao
deveres ao Estado para efetivá-los. Nes- 17, da Carta Magna, no Capítulo I, preci-
te ponto, defronta-se a relação cidadão e samente na seção referente - Dos direitos
sociedade frente ao poder do Estado. Aos e deveres individuais e coletivos; já no
primeiros (cidadão/sociedade), os direi- Capítulo II, encontra-se na parte - Dos di-
tos; ao último (Estado), os deveres. reitos sociais; no Capítulo III, na seção Da
Na Constituição Federal de 1988, os nacionalidade; no Capítulo IV consta na
direitos fundamentais se explicitam de parte - Dos direitos políticos e, por último
duas formas, os direitos expressamente no Capítulo V situa-se - Dos partidos po-
positivados e os direitos implicitamen- líticos. Isso posto, são direitos protetivos
te positivados. Os direitos fundamentais frente a atuação estatal (BRASIL, 1988).
explícitos estão prescritos em diversas Os direitos fundamentais não estão
restritos somente no Título II da nossa
Carta Magna, mas também em seu artigo
5º, parágrafo 2º. Os direitos e as garantias
expressos nesta Constituição não excluem
outros decorrentes do regime e dos prin-
cípios por ela adotados ou dos tratados
internacionais de que a República Federa-
tiva do Brasil seja parte (BRASIL, 1988).
Logo, Moraes (2011) afirma que os di-
reitos e as garantias fundamentais estão
previstos em todo o contexto da Consti-
tuição, e a previsão desses direitos po-
dem ter sede nos Tratados Internacionais
de Direitos Humanos.

Ilustração de Bárbara Vazzoler Villar


com intervenção de Carlus Campos
8 | Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste
3 Por uma ordem cronológica, primeiro
veio o surgimento dos direitos civis, depois
os direitos políticos e, por fim, os direitos
sociais. Durante o nascimento dos direitos
civis, ocorreu um acréscimo gradativo de ou-
tros direitos associados a uns que já existiam
CIDADANIA e que faziam parte da vida de todos os adul-
tos de uma comunidade (OLIVEIRA, 2010).
3.1 CONCEITO E DEFINIÇÕES A  cidadania expressa um conjunto de direitos
que dá à pessoa a possibilidade de participar
A expressão “cidadania” vem do latim e refere-se ao indivíduo que ha- ativamente da vida e do governo de seu povo.
bita a cidade (civitas), induz diretamente à ideia de cidade, um núcleo Quem não tem cidadania está marginalizado ou
urbano, ou seja, comunidade politicamente organizada. Então, etimo- excluído da vida social e da tomada de decisões,
logicamente pode-se dizer que cidadão é aquele que habita a cidade. ficando numa posição de inferioridade dentro do
grupo social. (DALLARI, 1998, p.14).
Na Grécia, de acordo com Aristóteles, cidadão significava que não é
cidadão porque vive na cidade, afinal, os estrangeiros e os escravos “A cidadania é um status conferido àque-
também ali vivem; tampouco são cidadãos aqueles que compartilham les que são membros integrais de uma co-
de um mesmo sistema legal, de levar ou ser conduzido diante do tribu- munidade” (MARSHALL, 2002, p. 24). Logo,
nal, pois residentes estrangeiros não possuem completamente esses em um sistema de parâmetro de igualdade,
direitos, sendo obrigados a apresentar um patrono, um cidadão res- todas as pessoas que possuem o status de ci-
ponsável por eles; chamamos de cidadãos apenas aqueles que têm dadania também terão um mesmo conjunto
o poder de tomar parte na administração deliberativa ou judicial da de direitos e obrigações. “A classe social, por
cidade (GORCZEVSKI; MARTIN, 2011). outro lado, é um sistema de desigualdade”
Devido às adversidades de se definir o termo cidadania, um concei- (MARSHALL, 2002, p. 24). Nesta perspectiva, a
to clássico é do sociólogo britânico Marshall (2002), que, ao estudar o desigualdade presente no sistema de classes
desenvolvimento histórico da cidadania na Inglaterra, estabeleceu sociais é possível ser aceitável, contanto que
a diferença entre as três dimensões: civil, política e social, visto que a a igualdade de cidadania se mantenha reco-
pessoa titular dos três elementos de direitos seria considerada cidadã.  nhecida (MARSHALL, 2002).

FONTE: Elaborado pelos autores a partir de Marshall (2002)


TRÊS DIMENSÕES DO CONCEITO DE CIDADANIA
A dimensão civil da cidadania é formada pelos direitos essenciais à liberdade individual, liberdade
de locomoção, liberdade de imprensa, liberdade de pensamento, liberdade religiosa, direito à
DIMENSÃO CIVIL
propriedade e celebração de contratos. O autor aponta os tribunais de justiça como as entidades
mais próximas à defesa dos direitos civis.

Entende-se o direito de participação no exercício do poder político, tanto como um detentor de


DIMENSÃO POLÍTICA um mandato político quanto como um eleitor que tem o direito de escolher seu representante. As
entidades associadas são o parlamento e os conselhos do governo local.

A dimensão social diz respeito a tudo que fala sobre direitos inerentes à sociedade, tais como
DIMENSÃO SOCIAL segurança, transporte e bem-estar. Essa dimensão se refere a uma pessoa levar a vida de um modo
civilizado de acordo com padrões da sociedade.

Curso Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação | 9


Ilustração de Thalita Sophia
Moreira da Silva com
intervenção de Carlus Campos

3.2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DO BRASIL/1988: A “CONSTITUIÇÃO CIDADÔ


Em 1988, sabe-se que ocorreu a Assembleia Constituinte que ori- Na busca de compreensão do termo cidadania, a Lei nº.
ginou a Constituição Federal do Brasil. De todas as constituições 9265/1996, de 12 de fevereiro de 2016, lista quais são esses
que o país já teve, essa foi a democrática, recebendo o nome de atos e nos ajuda a compreender o que é cidadania segundo a
Constituição Cidadã (SILVA, 2009). legislação brasileira:
Na Constituição de 1988, a cidadania apresenta-se como
fundamento do Estado brasileiro, também é conhecida como a
“Constituição Cidadã”. Para compreender o conteúdo semânti-
co dessa cidadania, é importante lembrar que a cidadania tem
ARTIGO 1° DA LEI Nº. 9265/1996
um sentido dinâmico, ou melhor, em constante construção; Art. 1º São gratuitos os atos necessários ao exercício
além disso, que não se pode apreender o presente sem conhe- da cidadania, assim considerados:
cer o longo caminho histórico percorrido até os dias atuais, ou I - Os que capacitam o cidadão ao exercício da soberania
seja, é necessário olhar para o passado; e, por fim, a cidadania popular, a que se reporta o art. 14 da Constituição;
mostra-se como um horizonte de possibilidades, levando con- II - Aqueles referentes ao alistamento militar;
sigo a força do que se quer fazer dela, isto é, mostrando o olhar III - Os pedidos de informações ao poder público,
para o futuro (SILVA, 2009). em todos os seus âmbitos, objetivando a instrução
Na atual Carta Maior, o termo Cidadania figura-se já no seu de defesa ou a denúncia de irregularidades
primeiro artigo como um dos fundamentos da República Fede- administrativas na órbita pública;
rativa Brasileira: IV - As ações de impugnação de mandato eletivo por
abuso do poder econômico, corrupção ou fraude;
V - Quaisquer requerimentos ou petições que visem as
garantias individuais e a defesa do interesse público;
ART.1° DA REPÚBLICA VI - O registro civil de nascimento e o assento de óbito,
FEDERATIVA DO BRASIL bem como a primeira certidão respectiva;
VII - O requerimento e a emissão de documento de
Art.1° A República Federativa do Brasil, formada pela
identificação específico, ou segunda via, para pessoa
união indissolúvel dos Estados e Municípios e do
com transtorno do espectro autista.
Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático
V - O pluralismo político.
de direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.

10 | Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


3.3 O QUE É SER CIDADÃO E COMO EXERCER A CIDADANIA?
Após compreender os conceitos, das leis
e da etimologia da palavra, é importante
agora salientar a importância da cidada- TIPOS DE DIREITOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
nia não só como um conjunto de regra-
mentos fundamentos na legislação que Os direitos civis são referentes às garantias à liberdade
abarcam direitos e deveres das pessoas. É (individuais e de expressão), à igualdade (perante a lei
imprescindível que cada indivíduo tenha e à segurança), entre outros. Portanto, definidos no
DIREITOS CIVIS
consciência cívica acerca dos seus direitos Artigo 5º ao longo de 77 incisos, da nossa Carta Magna.
e deveres e como devem ser exercidos. Conheça as principais garantias previstas na Lei Maior,
Portanto, para exercer a cidadania em essenciais para o exercício da cidadania Carta Magna.
todas as formas na sociedade, é dever Os direitos sociais estão descritos no Artigo 6º da Carta
de todos os sujeitos em conjunto. Morais Maior e são relacionados a educação, saúde, moradia,
(2013), nesse sentido, afirma que: DIREITOS SOCIAIS
previdência social, assistência aos desamparados,
Cidadania implica sentimento comunitário, proteção à infância e aos idosos, entre outros.
processos de inclusão de uma população,
um conjunto de direitos civis, políticos e
econômicos e, significa também, inevitavel- Os direitos políticos são referentes ao voto, ou seja, está
mente, a exclusão do outro. Todo cidadão ligado ao sistema político e à democracia, com o sigilo
é membro de uma comunidade, como quer DIREITOS POLÍTICOS
do voto respeitado e poder criar partidos políticos. Estes
que essa se organize, e esse pertencimen- estão descritos nos Artigos 14 e 17 da Carta Magna.
to, que é fonte de obrigações, permite-lhe
também reivindicar direitos, buscar alterar
as relações no interior da comunidade, ten-
FONTE: Elaborado pelos autores a partir da Constituição Federal 1988.
tar redefinir seus princípios, sua identidade
simbólica, redistribuir os bens comunitários.
A essência da cidadania, se pudéssemos
defini-la, residiria precisamente nesse cará-
ter público, impessoal, nesse meio neutro
no qual se confrontam, nos limites de uma
comunidade, situações sociais, aspirações,
desejos e interesses conflitantes. Há, certa-
A atuação efetiva da população nos as-
mente, na história, comunidades sem cida-
dania, mas só há cidadania efetiva no seio suntos do Estado é requisito para a cons-
de uma comunidade concreta, que pode ser trução de Estado Democrático e Social de SAIBA MAIS
definida de diferentes maneiras, mas que é Direito retratado pela Constituição Federal
sempre um espaço privilegiado para a ação de 1988. “A cidadania transforma o indiví- Conheça as principais
coletiva e para a construção de projetos para duo em elemento integrante da sociedade garantias previstas na
o futuro (MORAIS, 2013, p.4).
política, credenciando o sujeito a exercer Constituição Federal, essenciais
Os direitos e deveres de todos os brasi- direitos em face do Estado. A cidadania é o para o exercício da cidadania.
leiros estão escritos na Constituição Fede- ápice dos direitos fundamentais” (SIQUEIRA http://www.planalto.gov.br/ccivil_
ral/88. Dessa forma, para conhecer os seus JUNIOR, 2006, p.2). A política pública é uma 03/constituicao/constituicao.htm
direitos, é importante conhecer o que diz os forma para executar a ação ativa do Estado,
seus mais diversos artigos que a compõe. solicitada pelos direitos constitucionais.

Curso Proteção Social: Programa Integrado de Educomunicação | 11


4
POLÍTICAS CONCEITO DE POLÍTICA PÚBLICA
PÚBLICAS ÊNFASE Conceito de política pública;

4.1 EM BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO Curso de ação escolhido para lidar com um
problema ou uma questão de interesse comum;
Políticas públicas têm sido objeto de estudo
de muitos autores, não tendo uma precisão Conjunto de decisões inter-relacionadas referentes
conceitual tão simples, por isso tendo inúme- SOBRE A FINALIDADE à seleção de objetivos e dos meios para atingi-los;
ras definições. DAS POLÍTICAS
A pesquisadora Celina Souza evidencia a PÚBLICAS E AS Conjunto de decisões adotado e posto em prática
imprecisão do conceito de “políticas públi- DECISÕES NELAS mediante processos selecionados que definem os
cas” indicando que pode se referir a diferen- ENVOLVIDAS recursos necessários, sua distribuição e gestão;
tes objetos, a saber: um campo de atividade
Estratégias que apontam para diversos fins, todos
governamental, como exemplifica a políti-
eles, de alguma forma, desejados pelos diversos
ca agrícola; uma situação social desejada,
grupos que participam do processo decisório;
como a política de igualdade de gênero; uma
proposta de ação específica, como a políti- O conjunto das atividades de um governo,
ca de ações afirmativas, uma norma quanto diretamente realizadas por agentes públicos ou
ao tratamento de determinado problema, NAS AÇÕES DOS por agentes da sociedade e que influenciam a
como a política de fontes de energia reno- AGENTES PÚBLICOS vida dos cidadãos;
váveis; ou mesmo um conjunto de objetivos E DA SOCIEDADE QUE Um curso de ação produzido por um governo
e programas que o governo possui em um IMPACTAM NA VIDA (Executivo, Legislativo e/ou Judiciário) que satisfaz
campo de ação, como a política de direitos DAS PESSOAS uma necessidade e que se expressa na forma de
humanos (SOUZA, 2006). objetivos estruturados em um conjunto de diretrizes,
Para SARAIVA (2006), as definições sobre de caráter imperativo, aceitos pela coletividade;
“políticas públicas” parecem bem semelhan-
tes, entretanto há divergências de entendi- NA INTERVENÇÃO DA Fluxo de decisões públicas, orientado para manter
mento com ênfases diferenciadas, conforme REALIDADE VISANDO o equilíbrio social ou a introduzir desequilíbrios
se observa no quadro: GERAR EQUILÍBRIO destinados a modificar essa realidade;
Na ausência de um consenso conceitual,
um importante elemento para compreensão Sistema de decisões públicas que visa a ações ou
do que vem a ser “políticas públicas” é a con- TANTO NAS AÇÕES omissões, preventivas ou corretivas, destinadas a
sideração do contexto histórico em que elas QUANTO NAS manter ou modificar a realidade de um ou vários setores
estão inseridas. No tempo presente, vivencia- OMISSÕES DOS da vida social, por meio da definição de objetivos e
mos a era das sociedades modernas que tem GOVERNOS estratégias de atuação e da alocação dos recursos
como característica a diferenciação social. Isso necessários para atingir os objetivos estabelecidos.
significa que  seus membros não apenas pos-
suem atributos diferenciados (idade, sexo, reli- FONTE: Elaborado pelos autores a partir de SARAVIA (2006).

12 | Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Ilustração de Mariana Negreiros Lobo
com intervenção de Carlus Campos

gião, estado civil, escolaridade, renda, setor 4.2 AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO


de atuação profissional etc.), como tam-
bém possuem ideias, valores, interesses e BRASIL PÓS-CONSTITUIÇÃO CIDADÃ
aspirações diferentes e desempenham pa- Historicamente, as políticas públicas no
péis distintos no decorrer da sua existência. Brasil se caracterizavam pela aguda cen-
Isso faz com que a vida em sociedade seja tralização decisória e financeira na esfe-
complexa e compreenda diferentes padrões ra federal, cabendo apenas aos estados
de interação: cooperação, competição, con- e municípios o papel de executores das
flito (RUA; ROMANINI, 2013). iniciativas formuladas pelo governo fede-
Uma boa definição é a utilizada por ral. As políticas públicas eram marcadas A descentralização, por sua vez, não
Maria das Graças Rua, que é categórica ao fortemente por uma fragmentação insti- significa apenas transferir atribuições, de
apresentar o entendimento de políticas tucional, havendo pouca ou ausência de forma a garantir eficiência, mas é vista,
públicas como “conjunto de decisões e coordenação das ações entre os diversos sobretudo, como redistribuição de poder,
ações destinadas à resolução de proble- órgãos, além de forte caráter setorial com favorecendo a democratização das rela-
mas políticos”. discriminação pormenorizadas das es- ções entre Estado e sociedade bem como
truturas especializadas em cada área de do acesso aos serviços.
atuação governamental: educação, saú- No que concerne às noções de política
de, habitação etc. Além disso, a sociedade pública e política social, existe uma dife-
O PROCESSO DE civil praticamente era excluída do proces- renciação que merece notoriedade: pode-
so de formulação de políticas, da imple- -se mencionar que as políticas sociais fa-
EFETIVAÇÃO DAS mentação dos programas e do controle da zem parte de um subconjunto pertencente
POLÍTICAS PÚBLICAS ação governamental (CLEMENTINO, 2011). a um conjunto maior que se denomina de
Observem esse trecho: Com o advento da “Constituição Cida- políticas públicas, ou melhor, “toda políti-
(...) uma vez que as políticas públi- dã” em 1988, que detém um caráter des- ca social é uma política pública, mas nem
cas são respostas, não ocorrerão a centralizador, buscou-se delinear um novo toda a política pública é uma política so-
menos que haja uma provocação. federalismo entre União, Estados e muni- cial” (RODRIGUES, 2010, p. 9).
Em linguagem mais especializada, cípios, afora a ampliação dos benefícios A focalização das políticas sociais, por
as políticas públicas se destinam
sociais garantidos pelo Estado visando outro lado, é incorporada pelo reconheci-
a solucionar problemas políticos,
que são as demandas que logra- criar um sistema de proteção social amplo mento da necessidade de se estabelece-
ram ser incluídas na agenda gover- destinado a redução das desigualdades rem prioridades de ação em contexto de
namental. Enquanto essa inclusão socioeconômicas do País. Há também um limites de recursos e pelo entendimento
não ocorre, o que se tem são ‘esta- avanço no sentido do surgimento de es- de que é preciso atender de forma diri-
dos de coisas’: situações mais ou paços institucionalizados do Estado com gida a alguns segmentos da população,
menos prolongadas de incômodo,
a sociedade civil e com o setor privado que vivem situações de injustiça social.
injustiça, insatisfação ou perigo,
que atingem grupos mais ou me- como os conselhos. Nesse modelo o Esta- Nesse sentido, diversas iniciativas, ações,
nos amplos da sociedade sem, to- do deixa de ser o provedor direto exclusi- planos setoriais e políticas públicas foram
davia, chegar a compor a agenda vo e passa a ser coordenador e fiscalizador constituídas e/ou fortalecidas, tais como po-
governamental ou mobilizar as au- de serviços que podem ser prestados pela líticas para: criança e adolescente, juventu-
toridades políticas (RUA, 1998, p. 2)
sociedade civil ou pelo mercado ou em de, idoso, gênero, LGBTI+, igualdade racial,
parceria com esses setores. pessoas com deficiência, dentre outros.

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qual o Estado não deveria intervir. O que
atualmente é considerado problema pú-
blico provavelmente antes não era e possi-
4.3 CICLO DE VIDA DE UMA POLÍTICA PÚBLICA velmente depois não será, pois a formação
Tudo se inicia a partir de um problema in- Tudo começa com o surgimento de um da agenda pública é mutante. Quando um
dividual que poderá derivar para um pro- problema, não de qualquer problema, mas problema tem o status de público? Quan-
blema social. Esse pode passar a ser um de um considerado “público”. Esse ele- do é recuperado por alguma das múltiplas
problema “público” quando ocorre a sua mento é essencial porque existem proble- instituições que integram o governo (VÁZ-
entrada na agenda pública. Dessa forma, mas que, embora afetem muitas pessoas QUEZ; DELAPLACE, 2011, p. 36).
não é qualquer problema social que terá sta- (problema social), podem não ser consi- O Ciclo das Políticas Públicas é
tus de problema político, mesmo que afete derados públicos. Por exemplo, o status segmentado, por esse entendimento, em
muitas pessoas. O chamado problema pú- subordinado das mulheres durante muito sete fases distintas: entrada do problema
blico é aquele presente na agenda pública tempo não foi considerado um problema na agenda pública, estruturação do pro-
e encampado pelas instituições na busca de público, assim como a violência contra a blema, conjunto das soluções possíveis,
soluções. O conceito já referido aqui por RUA mulher também não era considerada um análise dos pontos positivos e negativos
(1998) de problema político é semelhante ao problema público, mas um problema que das soluções, tomada de decisão, imple-
aqui agora utilizado de problema público. deveria ser resolvido na esfera privada e no mentação e avaliação.
Percebe-se que as etapas são com-
preendidas como uma unidade contra-
ditória, visto que o ponto de partida não
FIGURA 1: CICLO DE VIDA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS está claramente definido. As atividades
de etapas distintas podem ocorrer si-
multaneamente ou podem apresentar-
-se parcialmente superpostas (RUA,
FORMAÇÃO DEFINIÇÃO 2014). O ciclo de políticas é uma abor-
dagem para o estudo das políticas públi-
DE AGENDA DO PROBLEMA
cas, identificando, assim, fases sequen-
ciais e interativas-iterativas no processo
AJUSTE ANÁLISE DO de produção. Confira melhor essas fases
PROBLEMA no quadro ao lado (p.15).
AVALIAÇÃO Souza (2006) afirma que uma política
pública pode tanto ser parte de uma políti-
FORMAÇÃO DE ca de Estado quanto ser uma política de go-
MONITORAMENTO ALTERNATIVAS verno. Nesta perspectiva, é de suma impor-
tante entender essa diferença: uma política
TOMADA DE de Estado é toda política que, independen-
IMPLEMENTAÇÃO DECISÃO: ADOÇÃO temente do governo e do governante, deve
DA POLÍTICA ser efetivada porque é resguarda pela carta
constitucional. Em relação à política de go-
verno, pode advir da alternância de poder.
Consequentemente, cada governo tem
seus projetos, que, por sua vez, se transfor-
FONTE: Elaborado pelos autores a partir de Rua (2014, p.33) mam em políticas públicas.

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FONTE: Elaborado pelos autores a partir de Rua (2014, p.34-35)

QUADRO 10: FASES SEQUENCIAIS E INTERATIVAS-ITERATIVAS NO PROCESSO DE PRODUÇÃO


FORMAÇÃO Formação da agenda ocorre quando uma situação qualquer é reconhecida como um problema político e a sua
DA AGENDA discussão passa a integrar as atividades de um grupo de autoridades dentro e fora do governo (RUA, 2014, p.34).

FORMAÇÃO DAS Formação das alternativas e tomada de decisão: ocorre quando, após a inclusão do problema na agenda
ALTERNATIVAS e alguma análise deste, os atores começam a apresentar propostas para sua resolução. Essas propostas
E TOMADA DE expressam interesses diversos, os quais devem ser combinados, de tal maneira que se chegue a uma solução
DECISÃO aceitável para o maior número de partes envolvidas (RUA, 2014, p.34).

A tomada de decisão não significa que todas as decisões relativas a uma política pública foram tomadas, mas,
sim, que foi possível chegar a uma decisão sobre o núcleo da política que está sendo formulada. Quando a política
TOMADA DE é pouco conflituosa e agrega bastante consenso, esse núcleo pode ser bastante abrangente, reunindo decisões
DECISÃO sobre diversos aspectos. Quando, ao contrário, são muitos os conflitos, as questões são demasiado complexas
ou a decisão requer grande profundidade de conhecimentos, a decisão tende a cobrir um pequeno número de
aspectos, já que muitos deles têm as decisões adiadas para o momento da implementação (RUA, 2014, p.34-35).
A implementação consiste em um conjunto de decisões a respeito da operação das rotinas executivas das
diversas organizações envolvidas em uma política, de tal maneira que as decisões inicialmente tomadas
deixam de ser apenas intenções e passam a ser intervenção na realidade. Normalmente, a implementação se
IMPLEMENTAÇÃO faz acompanhar do monitoramento: um conjunto de procedimentos de apreciação dos processos adotados,
dos resultados preliminares e intermediários obtidos e do comportamento do ambiente da política. O
monitoramento é um instrumento de gestão das políticas públicas e o seu objetivo é facilitar a consecução
dos objetivos pretendidos com a política (RUA, 2014, p.35).
A avaliação é um conjunto de procedimentos de julgamento dos resultados de uma política, segundo critérios que
AVALIAÇÃO expressam valores. Juntamente com o monitoramento, destina-se a subsidiar as decisões dos gestores da política
quanto aos ajustes necessários para que os resultados esperados sejam obtidos (RUA, 2014, p.35).

Referências
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 11. ed. Rio MORAES, Alexandre de. Direitos humanos VASAK, Karel. As Dimensões
de Janeiro: Campus, 1992, p. 5. fundamentais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2011. Internacionais dos Direitos do Homem.
CLEMENTINO, Josbertini Virgínio. As políticas RUA, Maria das Graças; ROMANINI, Roberta. Para Lisboa: Editora Portuguesa de Livros
de juventude na agenda pública brasileira: aprender políticas públicas. Volume I – Técnicos e Científicos, Unesco, 1983.
desafios e perspectivas. Fortaleza: EdMeta, 2011. Conceitos e teorias. Brasília: Instituto de Gestão, WOLKMER, Antonio Carlos. Introdução
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação Economia e Políticas Públicas, 2013. aos fundamentos de uma teoria geral dos
histórica dos Direitos Humanos. 7. ed. São SARAVIA, Enrique. Introdução à teoria da política “novos” direitos. Revista Jurídica, v. 2, n.
Paulo: Saraiva, 2010. pública. In SARAVIA & FERRAREZI, Políticas 31, p. 121-148, 2013.

MARSHALL, Thomas H. (2002). Cidadania e Públicas, Enap, 2006.


classe social. Volume I. Brasília: Senado Federal, SOUZA, C. Políticas Públicas: uma revisão da
Centro de Estudos Estratégicos, Ministério da literatura. Sociologias. Porto Alegre. v.8, n.16,
Ciência e Tecnologia. p.20-45, jul./dez., 2006.

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Autores
JOSBERTINI VIRGÍNIO CLEMENTINO
Graduado em Administração Pública e de Empresas, mestre em Planejamento e Políticas
Públicas pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e doutorando em Ciência Política pelo
ISCSP/Universidade de Lisboa. Foi secretário do Trabalho e Desenvolvimento Social do Estado
do Ceará, diretor do Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para a Juventude do
Ministério do Trabalho e Emprego em Brasília e chefe de Gabinete da Liderança do PDT da
Câmara dos Deputados em Brasília. Atuou como secretário de Juventude do Município de
Maracanaú e consultor do Banco Mundial. Presidiu o Fórum Nacional dos Secretários Estaduais
da Assistência Social (Fonseas) e o Conselho Estadual do Trabalho do Ceará. É fundador e atuou
na direção das OSCs Universidade da Juventude e Comunidade Empreendedores de Sonhos.

ANA LOURDES MAIA LEITÃO


Graduada em Pedagogia em Regime Especial pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA),
em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e em Direito pela Universidade de
Fortaleza (Unifor). Tem especialização em Educação para Recuperação de Dependentes Químicos
(Uece), em Direito Tributário, Trabalhista e Previdenciário pela (UniAteneu) e mestrado profissional
em Planejamento e Políticas Públicas (Uece). Atualmente cursa Gestão Pública. É professora dos
cursos graduação e pós-graduação em Administração, Ciências Contábeis, Direito, Gestão de
Recursos Humanos e Serviço Social, e coordenadora de Estágio em Serviço Social (UniAteneu). É
advogada. Discute os seguintes temas: Assistência Social, Cidadania, Políticas Públicas, Direitos da
Criança e do Adolescente; Direito Trabalhista e Previdenciário e Seguridade Social.

Ilustrações
Desenhos originais das crianças Ana Luiza Travassos de Oliveira Carvalho, Anny Rammyli
Nascimento da Silva, Antônia Travassos de Oliveira Carvalho, Bárbara Vazzoler Villar, Beatriz
Vazzoler Villar, Bernardo Saraiva Pinheiro, Davi Bogea Caldas, Fernanda Vitória de Almeida
Matos, Francisco Mateus Braga da Silva, Guilherme Araújo Carvalho, João Vazzoler Villar, João
Victor Batista Veloso, Júlia Nogueira de Holanda, Luanna Madureira Marques, Lucas Mesquita
Mororó, Lucas Sobreira de Araújo, Maia Alease Lima Oliphant, Maria Clara Negreiros Lobo, Maria
Júlia Sousa de Oliveira, Mariana Negreiros Lobo, Mariana Vazzoler Villar, Mateus Saldanha Félix,
Maurício Rafael Cipriano Gomes, Rafaela Microni Santos, Thalita Sophia Moreira da Silva, Yasmin
Microni Santos, Yasmin Monteiro Gomes Bezerra, que participaram da Oficina de Ilustração com
Joana Brasileiro Barroso, com intervenção artística de Carlus Campos.

APOIO REALIZAÇÃO

III

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