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Armadilhas do coração

No Honourable Compromise
Jessica Steele

NOS BRAÇOS DE DEREK, VANESSA DESCOBRIU OS FRÁGEIS LIMITES ENTRE


ÓDIO E AMOR.
Ela se tornou prisioneira de sua própria ousadia.
Vanessa entrou no quarto de Derek e despiu-se sorrateiramente. Era um plano perfeito, pensou.
Dali a pouco, quando a governanta viesse acordá-lo, surpreenderia a filha do patrão na cama com
o novo funcionário da empresa. Com o escândalo, Derek Morgan não ficaria nem mais um dia no
emprego.
De repente, braços fortes a enlaçaram, e lábios ardentes lhe roubaram um beijo. “Você tem um
jeito muito especial de mostrar que me odeia, querida”, ele lhe sussurrou ao ouvido, impedindo-a
de fugir.

Nova Cultural 1987

Digitalização: Dores Cunha.


Correção: Edith Suli.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à


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Copyright: Jessica Steele


Título original: No Honourable Compromise
Publicado originalmente em 1984 pela Mills & Boon Ltd., Londres,
Inglaterra
Tradução: Nicole Collet
Copyright para a língua portuguesa: 1987 Editora Nova Cultural Ltda. -
São Paulo - Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Tipolino Artes Gráficas Ltda. e impressa na
Divisão Gráfica da Editora Abril S.A.
Foto da capa: RfB

CAPITULO I

O quarto ricamente mobiliado parecia pequeno para conter a ansiedade de


Vanessa Thompson. Ela não conseguia suportar mais o silêncio prolongado de seu
pai sobre o cargo que ele lhe prometera dar na companhia de turismo da família,
tão logo completasse a maioridade.
Jovem, bonita e nascida em berço de ouro, Vanessa não tinha motivos para
se preocupar com o futuro. Entretanto, precisava trabalhar para sentir-se útil e
realizar-se tanto profissional como financeiramente.
A atração que sentia pelas atividades do pai a fizera cursar com especial
interesse a faculdade de turismo, durante quatro anos. Fascinava-a a perspectiva de
conhecer lugares novos e relacionar-se com pessoas de todos os tipos. Por outro
lado, a vocação para administrar negócios corria nas veias dos Thompson, e
Vanessa sabia que teria uma participação ativa nas decisões da empresa. Agora era
uma questão de honra ocupar o cargo de direção na Thompson Turismo.
A personalidade de Vanessa possuía duas facetas distintas. A tranqüilidade e
a meiguice que faziam dela uma pessoa sensível e alegre às vezes davam lugar a
lapsos de infantilidade e agitação, tornando-a agressiva e desprovida de afeto.
Calma e irrequieta, impulsiva e ponderada, meiga e determinada, Vanessa
articulava uma infinidade de planos para o futuro, confundindo-se em meio a tantos
projetos. Uma coisa, entretanto, estava mais do que clara para ela: conseguiria o
cargo na Thompson a qualquer preço.
Justificava-se, portanto, o estado de ansiedade em que se encontrava. O fato
de Clement não haver sequer tocado no assunto, dando-lhe uma previsão de quando
começaria a trabalhar, deixava-a inquieta. Por mais que se perguntasse o que
poderia estar provocando o adiamento, ela não era capaz de achar uma resposta
convincente.
Os pensamentos de Vanessa foram interrompidos pelo toque estridente do
telefone.
Reconheceu a voz rouca de sua melhor amiga do outro lado da linha e sentiu-
se feliz em poder compartilhar com ela a aflição do momento.
- Que bom você ter ligado, Mônica!
- E então? Telefonei para saber como passou a noite.
- Acho que ontem nós abusamos e tomamos alguns drinques a mais. Mas, no
fim, deu tudo certo.
- Pois hoje trate de se controlar.
- Por quê? Alguma razão especial?
- Os pais de Ron viajaram. A casa está vazia e ele vai dar uma festa.
- Não sei se poderei ir...
Elas não tinham segredos uma para a outra, e o tom evasivo de Vanessa foi
suficiente para alertar Mônica de que havia algo errado. Após uma breve pausa, ela
foi direto ao assunto:
- Seu pai ainda não falou sobre o emprego, não é?
- Não, nem tocou no assunto. E é por isso que quero ficar em casa hoje, vou
ter uma conversa franca com ele, porque não agüento mais esperar!
- Entendo. Eu lhe desejo boa sorte! Não se aflija e vá com calma. Você verá
que não há motivos para se preocupar. O cargo lhe foi prometido há tempos, e o
lugar é seu.
- Mas agora eu preciso ver a promessa cumprida. Palavras não bastam, eu
quero fatos!
Embora Vanessa estivesse querendo dar um tom zombeteiro ao assunto, no
íntimo continuava perturbada. O futuro estava em jogo e ela não via a menor graça
nisso.
Não encontraria dificuldades em arranjar um emprego, mas era a Thompson
que ela queria. Chegara a hora de concretizar o sonho há tanto tempo alimentado e
ela não podia conceber a idéia de abrir mão dele.
A mente de Vanessa fantasiava a conversa que teria com o pai, preparando os
argumentos que usaria para convencê-lo, caso surgisse algum empecilho para a
posse do cargo.
Alheia à dispersão da amiga, Mônica continuava a tagarelar e Vanessa só
voltou à realidade ao escutar qualquer coisa sobre Bob Peterson.
- Resolva a questão com seu pai, o mais rápido possível, e nos encontraremos
na festa. Se você não for, Bob ficará inconsolável!
Vanessa suspirou, cansada, e mordeu o lábio. Bob a assediava com presentes
e pedidos de casamento e ela não conseguia fazê-lo entender que não o amava.
Usara de tato e diplomacia, mas em vão. A seguir, fora firme e objetiva e tampouco
obtivera resultados. Bob era incansável e não parecia disposto a desistir de
conquistá-la.
- Olhe, Mônica, talvez eu apareça por lá, mais tarde. Mas não garanto nada.
- Combinado. A festa começa às dez e se prolongará por toda a noite. Será
ótimo se puder ir. Você precisa se distrair, Vanessa. Agitação, champanhe e gente
bonita, quem sabe, até um banho de piscina! Dizem que Ron tem amigos
interessantes.
- Ah, não sei! Só depois que eu resolver a minha situação é que poderei me
divertir. Você entende? Estou formada, dei tudo de mim para conseguir o diploma e
agora a incerteza! Mas, enfim, vejamos o que acontece.
- Está certo, vou torcer por você!
Despediram-se e pensativa, Vanessa recolocou o fone no aparelho. Absorta
como estava, tropeçou em uma cadeira e praguejou baixinho. Estirou-se sobre a
cama e cruzou os braços atrás da nuca.
Pela janela podia constatar que ainda faltavam muitas horas para a chegada do
pai. O dia avançava com lentidão e as cortinas esvoaçavam, deixando entrever um
pedaço de céu azul. Dando um bocejo entediado, Vanessa olhou para o teto e, com
ar indiferente, correu os olhos pelo mobiliário do quarto.
A um canto, uma estante apinhada de livros sobre história e geografia
confirmavam o prazer que experimentava de ler e aprimorar os conhecimentos. As
paredes eram cobertas de posters, bilhetes fotografias e ilustrações, formando um
complexo de imagens. Assim, personagens e cenários os mais contrastantes
conviviam pacificamente, embora um artista plástico não hesitasse em acusar o
ambiente de poluição visual. O primeiro bichinho de estimação de Vanessa, um
cãozinho chamado Robby, figurava ao lado de Albert Einstein, que mostrava a
famosa língua. Mais adiante, enfileiravam-se Jean-Paul Sartre, um conhecido cantor
de rock, uma gravura oriental, as ilhas gregas.
O cômodo era amplo, alojando uma cama com criado-mudo, um armário e
uma série de módulos, com discos, aparelho de som sofisticado, enfeites singelos e
antiguidades caras.
Mas nada despertava a atenção de Vanessa que, depois de levantar, andava
em círculos. Trocava os objetos de lugar, ligava e desligava o som, folheava um
livro da estante, sem, entretanto, saber o que estava fazendo.
Foi com imenso alívio que percebeu os últimos raios de sol sumirem sob o
manto escuro da noite. Impaciente, tomou um banho, vestiu-se e foi até a sala de
estar para esperar a chegada do pai.
Passava das sete horas quando Clement chegou, e Vanessa procurando
disfarçar o nervosismo, beijou-lhe a face.
- Que tal um drinque, papai?
- Acho que prefiro um suco de maracujá gelado. Este terno cheio de colarinho
e gravata quase me sufoca, hoje!
- Deixe por minha conta. Volto num instante com o suco! Minutos depois,
Vanessa entrou com uma jarra e dois copos.
Acomodou-se na outra ponta do sofá e, bebericando o refresco, falou de
assuntos sem importância com o pai, até que Trudy, a governanta, veio anunciar que
o jantar estava pronto.
No estado de ansiedade em que se encontrava, Vanessa engoliu a comida,
ouvindo Clement contar como havia sido o dia no escritório. Apesar de tensa e
nervosa, não deixou de reparar nas rugas de preocupação que marcavam o rosto
dele, com o pressentimento de que o pai lhe escondia alguma coisa.
Terminada a refeição, quando Trudy veio perguntar se queriam café, Vanessa
não pôde mais conter-se e explodiu:
- Não me diga que vai sair, papai!
- Ora, ora, eu pensei que estávamos numa democracia! Mas, pelo visto uma
moral dupla foi instaurada nesta casa. Você não costuma sair? Então por que eu
haveria de permanecer enclausurado, como um velho vampiro sem dentes?
A governanta os observava ao lado da mesa, em atitude solícita. Passava os
olhos do pai para a filha e, de novo, da filha para o pai e, por fim, resignada, dirigiu-
se à cozinha, sem saber se deveria ou não servir o café.
Quando ficaram a sós, Clement encarou Vanessa com o olhar pensativo,
estudando-lhe o semblante delicado. Ela parecia um botão em flor, com o rosto
corado, os lábios cheios e rosados que lhe conferiam um aspecto de inocência,
realçada pelos grandes olhos negros e cabelos lisos, castanhos quase loiros. Ele deu
um meio sorriso, com infinita ternura. Tinha a certeza de que Vanessa tramava algo.
- Existe um motivo especial para que você queira que eu fique aqui, trancado
como um velho vampiro?
- Bem.. Ocorreu-me que chegou o momento de ingressar na Thompson
Turismo e provar as qualidades de administradora e guia turístico. Hoje Nova York,
amanhã, o mundo! - Vanessa disse à queima-roupa, com um riso nervoso, enquanto
lançava ao pai um olhar interrogativo.
Clement baixou os olhos e tamborilou com os dedos na mesa Não contente
com isso, num embaraço crescente, analisou as unhas polidas. E conservou-se em
silêncio.
Fazendo um supremo esforço para não demonstrar a decepção, Vanessa
sustentou o sorriso, mas, na verdade, sentia a terra abrir-se a seus pés.
Procurando imprimir um tom de firmeza à voz, indagou com ar casual:
- Você vê algum problema em me empregar na Thompson, papai?
- Não é bem isso, eu.
- Você não me quer mais na companhia?
- Não, minha filha, não se trata disso. Eu quero que você participe dos
negócios.
- Ah, que alívio! Por um segundo, pensei que não era mais bem-vinda!
Vanessa ia prosseguir falando, mas emudeceu ao deparar com a fisionomia
preocupada de Clement. Havia alguma coisa errada. Apressou-se, então, em
esclarecer sua posição.
- Papai, se duvida de que eu seja responsável, quero que saiba que as minhas
intenções são sérias. Reconheço que sou um pouco temperamental, que já bati o
carro e que quase fugi de casa, mas são coisas do passado. Afinal, nos últimos
tempos, você deve ter notado o quanto eu mudei! Ah, meu Deus, admito que tenho
repentes de irresponsabilidade, mas será que não mereço uma chance?
- Pare com essa ladainha, Vanessa! Não precisa fazer um relatório, conheço
você muito bem. É uma moça criativa e enérgica tem tino para os negócios e...
- O que há, então?
- Eu deveria ter-lhe contado antes.
- O quê? O que você deveria ter-me contado?
- Não existe um cargo disponível para você agora, filha. Atônita, Vanessa
olhou para o pai com tamanha incredulidade que não esboçou sequer uma reação.
Depois, refazendo-se do choque, deu vazão a toda a indignação.
- Como não há lugar para mim? A diretoria da Thompson é formada
exclusivamente por membros da família. Nas férias passadas, tio Walter deixou o
cargo vago, o que equivale a dizer que serei eu a ocupá-lo!
- O cargo já foi ocupado. Sinto muito, Vanessa, eu sei o que o emprego
significava para você. Mas está feito.
- Como. está feito?
- Desculpe, querida. Eu deveria ter-lhe falado antes, eu.
- É apenas uma brincadeira, não é? Você quis testar meus nervos. Ah, papai,
quando vai aprender a ser sério? Quase me matou do coração! - Vanessa não podia
crer que aquilo não fosse uma piada, de muito mau gosto, por sinal.
Clement, no entanto, não dava mostras de estar brincando. Ao contrário,
fitava-a com seriedade. Recomeçou a tamborilar com os dedos sobre a mesa,
tropeçando nas palavras:
- Estou lhe dizendo a verdade, filha. Na qualidade de diretor da companhia, e
em conjunto com os outros membros da empresa, achei conveniente chamar alguém,
alguém de fora, para completar o quadro da administração.
- Mas qual a razão dessa mudança repentina? Os detalhes para a minha
admissão na companhia já estavam acertados.
- Nós concluímos que deveríamos contar com os serviços de uma pessoa que
não pertencesse à família. Compreenda, as inovações são vitais no nosso ramo de
negócios.
A partir daí, Clement enveredou por um complicado caminho de explicações,
recheado de termos de marketing e matemática que ao final, levava a uma única
conclusão, definitiva e implacável: ela não deveria alimentar qualquer esperança
com relação ao cargo.
Quando Clement terminou o discurso, Vanessa estava arrasada.
Trudy chegou com a bandeja de café, mas, percebendo o clima do recinto,
girou sobre os calcanhares e retornou à cozinha.
- Mas, papai, o que será de todos os meus sonhos? Arruinados por um intruso!
Tudo bem, eu sei que devo me conformar e lutar para alcançar o que almejo em
outra empresa. A batalha não pára aí e a Thompson não é a única companhia do
mundo onde encontrarei possibilidade de construir carreira. Por outro lado, faz parte
de meu temperamento não me considerar derrotada tão facilmente. E não pense que
vou engolir a história de ser desbancada por um mero estranho! Quem é ele?
- Você já ouviu falar dele, ainda que não o tenha conhecido. Derek Morgan é
um profissional muito competente e...
- Não precisa me dar a ficha do homem. Ele é famoso no meio comercial. Só
não entendo como aceitou trabalhar na Thompson. Imaginei que a nossa... a sua
companhia fosse peixe pequeno, em comparação com outras concorrentes que
existem por aí. Ou talvez ele esteja tão interessado no seu emprego quanto no meu?
- Vanessa sugeriu, sarcástica e ferida.
Clement, todavia, não mordeu a isca.
- Você se engana. Correm diversos boatos a respeito da pessoa dele, mas tudo
não passa de inveja. Morgan é um homem íntegro e merece toda a confiança.
- Discordo, mas você é quem decide.
E, assim, Vanessa deu a discussão por encerrada, consciente de que prolongar
o assunto não levaria a nada. O pai tinha maneiras tranqüilas, que combinavam com
a cabeleira branca e o par de pacatos olhos azuis que ostentava. Entretanto, quando
cismava com alguma coisa, não havia nada que o fizesse mudar de idéia.
Clement sorriu, conciliador e inabalável na decisão que tomara. Piscando,
procurou apaziguá-la com palavras encorajadoras.
- Vamos, filha, procure ver o lado bom das coisas.
- Lado bom? Só pode ser piada! Você me prometeu um lugar na diretoria da
Thompson e, baseada nisso, tracei projetos para o futuro. E, então, sem mais nem
menos, o castelo se desmorona e voa pelos ares! Aquele...aquele maldito usurpador!
Incapaz de se controlar, sentindo a raiva e a angústia misturarem-se dentro de si,
Vanessa trancou-se no quarto, enquanto as lágrimas inundavam-lhe os olhos. Não
queria mostrar ao pai o lado frágil de sua personalidade. Vagueou pelo cômodo, de
um canto a outro, detendo-se no pôster de Einstein que, irreverente, mostrava-lhe a
língua.
E então, tomada de uma súbita determinação, apanhou a bolsa e as chaves do
carro. Desceu as escadas, atravessou o vestíbulo como um furacão e ainda escutou a
voz de Clement Thompson, atrás de si, perguntando aonde ia àquela hora.
Incontrolada, informou:
- Pode ter certeza de que não irei a uma aula de esperanto!
- Pois não vai a lugar algum, se pretende dirigir! Você não está em condições
de conduzir sequer uma bicicleta!
Reconhecendo que ele tinha razão, Vanessa depositou as chaves do carro no
aparador e sorriu, pedindo desculpas pelos modos rudes. Depois, sem maiores
esclarecimentos, retirou-se, decidida.
A noite estava fresca e a caminhada serviu para serenar-lhe o ânimo.
Continuava sem entender o procedimento do pai, mas o respeitava e não podia
deixar de amá-lo. Por conseguinte, todo o ressentimento centrou-se na figura de
Derek Morgan. Positivamente, odiava-o!
Quatro dias se passaram e Vanessa continuava inconformada. A raiva que
sentia de Derek Morgan aumentara de forma considerável e ela arquitetava planos
mirabolantes para tirá-lo do cargo. Não ignorava que alimentava idéias fantasiosas,
mas, mesmo assim, não descartava a possibilidade de encontrar um plano eficiente.
Certa noite, sentindo necessidade de espairecer, Vanessa jantou e foi para o
quarto. Telefonou para Mônica, marcando um encontro, num bar bem freqüentado.
A amiga aceitou o convite com entusiasmo e prometeu avisar os outros
companheiros.
Vanessa tomou um banho rápido e, nua, com os cabelos ainda úmidos,
colocou-se em frente ao armário, observando as roupas que se enfileiravam na
sucessão de cabides.
Após um exame minucioso, escolheu um vestido tomara-que-caia, negro e
colante, que lhe moldava as formas esguias. Cobriu as longas pernas com meias
rendadas, escuras, e calçou um par de sapatos de verniz furta-cor.
Olhando-se no espelho, deu uma volta e fez trejeitos de mulher fatal. Com
uma careta, aprovou o resultado e passou à etapa seguinte, a da maquilagem: rímel e
delineador nos olhos escuros, que eram naturalmente amendoados e imprimiam-lhe
um aspecto exótico; blush nas maçãs do rosto e batom de um rosa vivo, para realçar
os lábios carnudos; e, finalizando, uma envolvente fragrância oriental nos pulsos e
nos lóbulos das orelhas.
Mais animada, pôs um disco na vitrola e começou a rodopiar pelo quarto,
enquanto penteava os cabelos, até que brilhassem como seda. Colocou um par de
brincos de brilhante e vestiu luvas negras. Desligou o aparelho de som e,
assobiando, desceu as escadas que conduziam ao saguão.
Ao passar diante da biblioteca, defrontou-se com o olhar espantado do pai,
que a encarava com nítida reprovação. Mas Vanessa deu de ombros, dirigindo-se
para a porta.
- Aonde vai, vestida assim?
- A uma casa noturna que foi inaugurada recentemente.
- Cuidado, menina, esta cidade oferece muitos perigos!
- Bobagem. Manhattan é maravilhosa! - ela replicou, parando para ajeitar os
cabelos no espelho do hall. Afastando-se um pouco, tirou uma das luvas e analisou o
efeito.
- O que acha de eu usar uma luva só? Não é mais original?
- E o que entendo de luvas? Você faz cada pergunta! Nem imagino como
seria se sua mãe estivesse viva!
- Humm. Vou pôr uma só. Todas as mulheres usam duas luvas e eu quero
parecer diferente. Bem, boa-noite, papai. E não se aflija, Manhattan até que é
bastante simpática!
Com isso, largou uma das luvas sobre o aparador e saiu no seu possante
Mercedes branco. Inconscientemente, desejava desafiar Clement e magoá-lo da
mesma maneira como ele a magoara.
Percorria as ruas de Nova York em alta velocidade, atravessando a imensa
ponte que separava a ilha de Manhattan do resto do continente. Mantinha as mãos
firmes no volante, sentindo que toda a indignação revertia-se em vivacidade. Estava
disposta a dançar, rir e tagarelar, a fim de livrar-se das tensões acumuladas.
Prometendo a si mesma que aquela noite seria gloriosa, jogou a cabeça para trás e
deixou os longos cabelos agitarem-se ao sabor do vento.
Estacionou o carro a poucos metros do Acid Quesn. Tratava-se de um clube
prive, mas Vanessa não teve a menor dificuldade em entrar, fazendo uso dos
encantos femininos, com classe.
Logo à entrada vários olhares de admiração voltaram-se para ela, deixando-a
satisfeita com o papel de mulher fatal. Encontrou os amigos, sentados numa mesa
situada num dos diversos ambientes do bar.
A casa era decorada com bom gosto, cheia de antiguidades e acessórios de
velhas embarcações. A luz das velas mesclava-se à fraca claridade das lamparinas e
refletia-se nos espelhos que se espalhavam pelo labirinto de salas, balcões, sofás de
alvenaria e mesas rústicas.
Ao fundo, uma pequena pista de dança, com luzes coloridas, era encimada
por um mezanino antigo, de recantos escuros. Mas Vanessa não chegou à pista,
detendo-se na mesa dos amigos Adrian, Bob, Sadie, Mônica e Johnny.
Cumprimentou a todos e acomodou-se numa cadeira próxima a Mônica.
Conversavam animadamente, Adrian e Johnny contando como tinham se
tornado sócios do clube e relatando as façanhas que haviam feito antes disso, a fim
de burlar as severas restrições da casa e desfrutar os prazeres oferecidos.
Foi então que Bob manifestou exagerada agressividade, experimentando uma
garrafa de vinho branco pela terceira vez e acusando o bar de servir bebidas de
qualidade duvidosa. A rispidez com que ele se dirigia ao garçom era deselegante e
Vanessa sentiu-se incomodada.
Felizmente, Adrian e Johnny intervieram, afirmando que não havia nada de
errado com o vinho e Bob acalmou-se.
À medida que o tempo passava, o grupo foi se revelando cada vez mais
inconveniente, atraindo as atenções das outras pessoas. Vanessa verificou,
desgostosa, que ela e Adrian eram os únicos sóbrios na mesa.
E, sem perceber, concentrou os pensamentos em Derek Morgan, o intruso que
lhe tomara o cargo na Thompson.
Foi dominada por ondas de cólera e por uma sensação de impotência. "Se eu
tivesse nascido homem, em vez de mulher, já teria sido admitida há muito tempo na
companhia. Pois sim! Se até meu primo Basil, covarde e malévolo como é,
conseguiu uma vaga na diretoria! E eu fui passada para trás por um intruso!",
refletiu com desagrado e, à guisa de consolo, bebeu um gole de vinho.
De repente, percebeu que Bob, de algum modo, conseguira sentar-se ao lado
dela. Visivelmente embriagado, ele não demonstrou qualquer vestígio de discrição e
disse em voz alta:
- Não olhe agora, mas tem alguém nos observando. E, ao que parece, não
gostou muito de nós!
Todos os olhares se convergiram na direção que Bob apontava, inclusive o de
Vanessa, que precisou virar-se na cadeira para ver o que causara tamanho alvoroço.
Tratava-se de um homem de olhos acinzentados e penetrantes, que ocupava a mesa
vizinha.
- Ora! E quem se importa? Eu é que não!
Vanessa lançou ao desconhecido uma expressão provocante. Ela não podia
deixar de notar que estava diante de um homem bonito e elegante. A tez morena,
contrastando com os cabelos claros e lisos, a boca sensual e carnuda e os olhos
cinzados de um brilho intenso davam a ele feições másculas e determinadas.
Estava rodeado de pessoas, e uma loira bastante sedutora o acompanhava.
Vanessa sentiu a vaidade feminina ferida ao vê-lo dispensar atenções a outra
mulher, mesmo que se tratasse de um mero desconhecido.
Nesse instante, o odiado nome de Morgan foi pronunciado por algum de seus
amigos, o que fez Vanessa voltar a participar da conversa do grupo.
- O que foi que você disse, Adrian?
- Eu estava explicando que o homem que você quase fuzilou com o olhar não
é outro senão Derek Morgan.
Mônica e Sadie tinham ido ao toalete e Vanessa sentiu-se insegura sem a
companhia das amigas. Forçou um sorriso e insistiu:
- Você está querendo me dizer que o homem que está na mesa ao lado é
Derek Morgan, Adrian?
- Ele mesmo. Eu o vi no escritório de meu pai algum tempo atrás, tratando de
negócios ou coisa semelhante.
- Pois não nos convide para a mesma festa! - Vanessa exclamou, com as faces
em fogo.

CAPÍTULO II
Quando Mônica e Sadie retornaram à mesa, a conversa foi aos poucos
tornando-se generalizada. Vanessa, porém, não conseguia ficar indiferente à
presença de Derek Morgan.
Como se não bastasse ter-lhe roubado o emprego, ele ainda estava ali para
estragar-lhe a noite. Virou ligeiramente a cadeira, de modo a enxergá-lo melhor,
pois queria gravar na memória o rosto que tanto odiava.
A loira platinada persistia com os ares sedutores em cima de Morgan, que
parecia bastante animado. Vanessa censurou com o olhar as atitudes do casal e
surpreendeu-se que ele fosse tão jovem. Ela o imaginara um homem de meia-idade
e, no entanto, aparentava ter no máximo trinta e cinco anos.
Deu-se conta, também, das maneiras elegantes que o grupo dele ostentava e,
voltando-se para os amigos, sentiu-se envergonhada pelo comportamento pouco
adequado deles.
O contraste entre os grupos era gritante e Vanessa percebeu o quanto os
companheiros dela eram infantis. Estudou cada um dos amigos e, pela primeira vez,
ponderou que, se não amadurecessem um pouco, não conseguiria mais conviver
com eles. Não que não gostasse deles, mas era uma questão de identificação.
"A vida é cheia de meandros e atalhos. As pessoas vêm e vão, e seguem a
nosso lado uma parte do caminho. Depois, crescem conosco e cultivam laços. Ou,
então, tornam-se estranhas e já não têm mais nada a nos dizer.
Ou, ainda, viajam, morrem, mudam de cidade. Hoje, Mônica, Sadie, Johnny,
Bob e Adrian. Amanhã, quem sabe?", filosofou, conscientizando-se de que já não
era a mesma Vanessa que entrara horas atrás no clube prive.
Ficou pensativa, analisando as pessoas que estavam a seu lado, tentando saber
o que traziam dentro de si, apesar do papel social que estavam representando.
Mas a noite era uma criança e Vanessa acabou deixando as reflexões de lado.
Retomando a postura displicente, conversou com desenvoltura e procurou se
divertir.
Sabia que não adiantava levar a vida muito a sério. Devia aproveitar o
presente, cedendo à animação do ambiente, ao sabor adocicado do vinho e à bonita
decoração. Não permitiria que a presença de Morgan a atrapalhasse.
Decidiu virar a mesa do jogo, divertindo-se à custa dele. Cruzou as pernas,
em posição provocante, e endereçou-lhe um olhar convidativo. Pois não estava
vestida de mulher fatal?
Mas logo percebeu que a brincadeira não levaria a nada. Morgan ignorou-lhe
a presença e prosseguiu conversando com a loira sedutora.
Com o orgulho ferido diante de tamanho desprezo, Vanessa respirou fundo e
procurou manter-se calma. Bob a tirou da situação pouco agradável em que se
encontrava.
- Vanessa!
- O que é, Bob?
- Vamos dançar?
- Bem, eu.. ora bolas, vamos!
Quando chegaram à pista -de dança, Bob a apertou com tamanho ardor, que
ela mal pôde respirar.
Estar nos braços de Bob era pior do que havia imaginado, e, empurrando-o,
implorou com voz asfixiada:
- Pelo amor de Deus, Bob, vá com calma! Você me agarra como se eu fosse
uma tábua de salvação em meio a um dilúvio! Assim acabará me matando de falta
de ar!
Diante dos apelos, Bob desculpou-se e afrouxou o abraço. No entanto,
dançava mal, e Vanessa lamentou a falta de jeito do seu par.
O desconforto chegou ao auge no momento em que se defrontou com Derek
Morgan e a loira, dançando a menos de um metro de onde se encontrava.
Incapaz de conter a irritação, disse em voz alta a Bob e a quem mais quisesse
ouvir:
- Quero ir para casa!
- Mas por quê?
- Não me sinto bem aqui - ela replicou em tom de desafio ao notar que os
olhos de Morgan a procuravam.
- Algum problema? A bebida não lhe fez bem? Ou terá sido a fumaça dos
cigarros?
Vanessa riu da ingenuidade de Bob e da preocupação sincera que ele
demonstrava. Em seguida, sua fisionomia endureceu.
- Não é nada disso, Bob. Eu apenas não suporto usurpadores e há um aqui,
bem na minha frente. Assim sendo, é melhor que eu me retire, antes que comece a
ter náuseas!
Embora estivesse se dirigindo ao amigo, Vanessa não despregava os olhos de
Derek Morgan, e este, franzindo o cenho, de imediato compreendeu que as palavras
dela lhe diziam respeito.
Vanessa lançou-lhe um último olhar de desdém e, com a cabeça erguida,
deixou a pista de dança, seguida por Bob. Chegando à mesa avisou os amigos que
estava de saída e, sob os protestos de Mônica, apanhou a bolsa.
- Mas ainda é cedo, Vanessa! Temos a noite toda pela frente! Estávamos
combinando de ir ao mirante ver o sol nascer e depois tomar o café da manhã no
Tommy's...
- Ah, Mônica, parece divertido, mas fica para a próxima vez.
- Por que você ficou tão aborrecida, de repente?
- Querida, se eu lhe disser, você não vai acreditar! É uma longa história, que
um dia eu conto.
- Pois eu vou querer saber de tudo, em detalhes. Promessa é dívida, hein?
- Certo. Divirta-se por mim, Mônica. Até mais!
Vanessa sentiu o ar fresco da noite envolvê-la e atravessou a rua em direção
ao estacionamento.
Estava mais calma e aliviada por sair daquele ambiente fechado.
Entretanto, quando Derek Morgan lhe voltava à mente, o sangue fervia-lhe
nas veias e ela se arrependia por não ter dito tudo o que queria, e muito mais. Afinal,
ele não ouvira nem a metade do que merecia!
Parou ao lado do Mercedes e abriu a minúscula bolsa para pegar as chaves.
Ao colocar a mão na maçaneta da porta, sentiu que alguém se aproximava no meio
dos carros e um frio percorreu-lhe a espinha, impedindo-a de qualquer reação. O
homem alto e forte, de corpo bem proporcionado e rijo, não era outro senão Derek
Morgan!
Quando Derek ficou ao lado dela, Vanessa mal conseguia manter-se de pé.
Reuniu as forças que tinha para desabafar o rancor que lhe corroía a alma.
- Será que o que eu disse na boate não foi suficiente para afastá-lo de mim?
Ou você quer ouvir mais?
- Eu não consegui entender o significado das suas agressões. - Morgan apoiou
as mãos nos quadris estreitos e ficou aguardando uma justificativa. Projetava o
queixo para a frente, numa atitude hostil.
Vanessa não se intimidou e, ignorando a presença dele, voltou a manusear as
chaves do carro. Mas, antes que pudesse esboçar qualquer gesto, sentiu nos ombros
as mãos fortes e grandes, que, como garras de aço, obrigaram-na a virar-se e a
enfrentá-lo.
Os olhos acinzentados de Morgan brilhavam com intensidade. Vanessa tentou
desvencilhar-se, sem êxito e, fora de si, elevou a voz:
- Tire as mãos sujas de cima de mim! Seu,..
- Prossiga! Nunca me importei com insultos gratuitos. Eu só queria lhe pedir a
delicadeza de esclarecer as insinuações que fez no salão. Vamos, não se faça de
vítima! Por que não continua com as acusações que iniciou lá dentro?
- Pois me solte, de uma vez por todas, e volte para a companhia de sua
mulher! Você e aquela loira vulgar bem se merecem!
- Não sou casado..
- Então ela tirou a sorte grande e conseguiu livrar-se de você!
- Escute, esta conversa não levará a nada. Eu já percebi o quanto você me
despreza. Só queria saber o motivo de tanto ressentimento.
Vanessa respirou fundo e respondeu com sarcasmo:
- Pelo visto, você tem uma longa lista de truques sujos para conseguir o que
quer. Seria esperar demais que se lembrasse de todos eles!
- E qual o truque sujo que eu usei com você? - Morgan demonstrava tamanho
desembaraço que Vanessa teve vontade de esbofeteá-lo. Mas as mãos fortes dele
continuavam a aprisioná-la, sem piedade. Sentindo-se frágil, desabafou:
- Você não hesita em passar por cima das pessoas, desde que consiga realizar
suas ambições, não é? Você busca seus objetivos, sem se importar com os meios.
Custe o que custar.
- Está sugerindo que eu a humilhei?
- E quem pensa que é para poder me humilhar? Mas é muita presunção
mesmo! Pensar que me atinge! Eu só quis dizer que você não tem escrúpulos, Derek
Morgan!
- Como sabe meu nome?
Vanessa não respondeu. Aproveitando-se da momentânea surpresa dele,
libertou-se e colocou a chave na fechadura do carro. Entretanto, mais uma vez, viu
frustrados os esforços para sair dali. com tranqüilidade, Morgan tirou-lhe as chaves
das mãos.Cerrando os punhos, Vanessa explodiu:
- O que pensa que está fazendo?
- Vou chamar um de seus amigos para levá-la em casa. Você está á nervosa
demais para dirigir.
- Eu estou bem e não preciso dos cuidados de ninguém, e muito menos dos
seus.
- Talvez você tenha bebido em excesso, ou esteja com o estado emocional
abalado. Não sei. Mas, na verdade, não está em condições de dirigir e...
- Não estou embriagada e não necessito dessas malditas chaves! Fique com
elas e faça bom proveito! Eu posso ir a pé!
Assim dizendo, fez menção de se afastar, mas Morgan bloqueou-lhe a
passagem.
- Não sei quem você é, nem onde mora. Mas estou certo de que não existem
casas nas imediações, num raio de quatro quilômetros. É uma longa caminhada e
você ficará exposta aos perigos da noite. Ainda mais vestida desse jeito!
Vanessa reconhecia que ele estava sendo sensato, pois Manhattan era uma
cidade que não perdoava os desavisados. Por outro lado, jamais se humilharia
perante Morgan, concordando com ele! Portanto, não se deu por vencida e fingiu dar
pouca importância ao que ele dizia.
- Conheço a cidade, meu caro, e sei como me defender dos perigos. Sou
amiga dos crioulos do Harley e já fui freqüentadora Assídua dos bares da Broadway.
Convivi com o meio marginal.
- Ora, não me venha com conversa fiada! Você está tentando me iludir e
qualquer um pode ver que você não passa de uma garota inexperiente. Pois vá ao
Harley com essas roupas e reja o que acontece. Você não sobreviveria nem por um
segundo!
"Ele não engoliu, mas pelo menos eu tentei!", Vanessa pensou com seus
botões, furiosa.
- Você mora na Wood House! - ele disse de repente, surpreendendo-a.
- Como. como sabe? Você esteve lá durante a minha ausência e. oh, meu
Deus, meu pai deve tê-lo convidado! Isso é demais! - Vanessa havia ficado tão
confusa que agora pouco se importava com a presença dele ou com o que ele
pudesse estar pensando.
- Então, você é a filha de Clement Thompson! Já tinha ouvido falar que você
tem temperamento difícil, mas.
- Quem andou falando de mim?
As primeiras suspeitas de Vanessa recaíram sobre o tio Walter, que a acusava
de ser geniosa desde o dia em que ela atirara o primo Basil numa poça de lama,
quando ambos tinham catorze anos.
- Mas foi há muito tempo! Eu o atirei na poça porque ele não parava de
atormentar o gato do vizinho!
- De que está falando? - Derek Morgan perguntou, sem entender a súbita
mudança de assunto.
- Ora, esqueça, não é de sua conta! - rebateu ela, os nervos à flor da pele.
Vanessa sentia-se invadida por aquele estranho. Além de lhe darem o cargo
que era seu, por direito, ainda faziam comentários sobre a vida particular dela,
tecendo considerações acerca do pretenso gênio "difícil" que possuía!
O tremor que sentia era de raiva, mas Morgan interpretou como uma reação
às brisas geladas que sopravam naquele início de primavera.
- Você deve estar com frio. Venha.
Antes que ela pudesse protestar, Morgan a conduziu para o interior de um
carro esporte, parado a poucos metros dali.
- O que vai fazer?
- Bem, se você não quer que um de seus amigos a leve para casa, eu me acho
na obrigação de deixá-la sã e salva em Wood House.
- Quanta nobreza de caráter! Você me comove!
O carro deslizou pela rua até ganhar velocidade. A tranqüilidade de Morgan
ao volante deixava Vanessa ainda mais irritada e ela se dispôs a acabar com o bom
humor dele.
- Por que tanta pressa? Está com receio de que a loira sedutora troque você
por outro?
- Na verdade, eu apenas quero zelar pela paz de espírito de seu pai. Depois, se
me permite, voltarei ao Acid Queen.
- Ah, é? Suponho que vá comemorar sua entrada na Thompson.
- Não. Estamos celebrando o aniversário de um amigo - ele replicou,
inabalável.
Logo as luzes de Wood House começaram a eliminar a escuridão da noite e
eles iniciaram o percurso pela alameda sinuosa que levava à mansão. Derek Morgan
parou o carro em frente à casa.
Não parecia estar com pressa e, virando a chave de ignição, desligou o motor.
Olhou para Vanessa de modo penetrante, como que tentando adivinhar-lhe os
pensamentos.
- Pelo que entendi, a antipatia que tem por mim deve-se à minha ligação com
a Thompson Turismo. - As mãos de Morgan descansavam sobre o volante e ele
falava com voz grave e ritmada, que não deixava transparecer qualquer emoção.
Diante do prolongado silêncio de Vanessa, prosseguiu: - Só não compreendi ainda
porque me acusou de usar truques sujos. Afinal, o que há de errado em eu fazer
parte do quadro administrativo da Thompson?
- Pois saiba que o cargo na companhia era meu! Você o roubou de mim e só
pode ter conseguido através de chantagem, porque meu pai jamais quebraria a
promessa que fez de me empregar na empresa!
Vanessa não pôde conter as lágrimas e, não desejando que Morgan
compartilhasse da tristeza que sentia, saiu do carro e caminhou em direção à casa,
buscando a chave da entrada principal dentro da bolsa.
Enquanto andava, no entanto, ouviu atrás de si o barulho da porta do carro se
fechando e, pouco depois, Derek Morgan estava a seu lado.
Pararam por um momento, diante da mansão e Vanessa preparou-se para
entrar sem olhar para trás. Mas Morgan a obrigou a virar-se e disse, com
sinceridade, tentando se desculpar:
- Eu não sabia que o cargo era seu. Eu...
- E que diferença teria feito para você? Não posso reviver o passado. Não sei
o que faria.
- Então, prepare-se para o futuro. Eu lhe asseguro que você não ficará no
cargo por muito tempo!
Sem lhe dar tempo de responder, bateu a porta atrás de si.

CAPÍTULO III

Na manhã seguinte, Vanessa não conseguiu ficar na cama por muito tempo.
Estava inquieta; a imagem de Derek Morgan não lhe saía da cabeça. Como odiava o
modo paternal como a tratara na véspera. E, sobretudo, recriminava-se por ter sido
um fantoche nas mãos dele!
Não podendo conter a ansiedade, enfiou-se debaixo de uma ducha de água
fria para ativar a circulação e acalmar os nervos.
Era uma questão de honra derrubar Derek Morgan! Fazê-lo engolir o orgulho
e perder a confiança irritante com que se conduzia! Cerrou os dentes, enquanto se
ensaboava, determinada a conseguir o que queria.
O primeiro passo para pôr em prática o plano que tinha em mente era fazer as
pazes com o pai, que poderia ser seu aliado sem que tivesse consciência disso.
Afinal, conhecia Derek Morgan e mantinha contato diário com ele. E, além disso,
estar de bem com Clement o deixaria longe de suspeitar as intenções de vingança
que alimentava.
Vanessa vestiu-se e, depois de passar um pente nos cabelos, desceu as escadas
até a copa, exibindo um sorriso. A expressão amável, no entanto, quase foi por água
abaixo quando se lembrou de que, graças a Derek Morgan, teria de empreender uma
caminhada forçada ao estacionamento do Acid Queen, a fim de apanhar o carro.
Clement, sentado à mesa, estava entretido em ler o jornal e não lhe deu a
menor atenção, o que demonstrava que a guerra entre ambos não acabara. A
confirmação veio a seguir, com o resmungo que ele deu:
- Eu já lhe recomendei um milhão de vezes!
- O quê, papai? - Vanessa indagou, incomodada com o tom áspero.
- Para que cuide direito de suas coisas! Custava muito ter guardado o carro na
garagem? Depois reclama: "Papai, a lataria apodreceu! Papai, isso, papai, aquilo!"
- Mas...
- Imagine só deixar o carro na alameda durante a noite toda! Admirada, ela se
deu conta de que Derek havia trazido o carro para Wood House e retornara ao Acid
Queen com um dos amigos. Entretanto, se antes reclamara de ter que ir ao
estacionamento, agora estava indignada. Não queria, em hipótese alguma, dever
favores a Morgan!
Trudy interrompeu os pensamentos dela para perguntar-lhe o que desejava
comer.
- Apenas chá e torradas, querida.
- Apenas chá e torradas, querida! - repetiu a velha governanta com olhar de
reprovação.
- Ora, não me olhe assim, Trudy! Você me deixa arrasada!
- Eu vi você nascer e me preocupo com sua saúde. Do jeito que vai ficará
anêmica!
- Até lá eu tenho um longo caminho a percorrer - retrucou Vanessa com uma
Visada, apalpando os quadris que, na realidade, estavam em perfeita forma.
A governanta balançou a cabeça e saiu. Um silêncio constrangedor se instalou
na copa e Vanessa tentou romper a barreira que a separava do pai. Ele era a única
pessoa no mundo em que podia confiar e o amava de todo o coração, juntos haviam
enfrentado tanto as situações difíceis como as mais felizes. Sempre tinham se dado
muito bem.
Desde a adolescência, entretanto, a rebeldia natural à idade os afastara um
pouco. Vanessa despertara para a vida com perspectivas de mudança e cedo teve os
primeiros namorados e contatos com o mundo lá fora. Mas, passada a fase em que
ambos se entreolhavam com certa reserva, incapazes de compreender um ao outro,
voltaram a entender-se às mil maravilhas.
Era com tristeza, portanto, que Vanessa via as relações entre ambos
estremecerem. Não suportando mais o pesado silêncio, disse com voz meiga,
tentando uma reconciliação:
- Você está bravo comigo porque saí ontem à noite, não é?
- Você tem vinte e um anos. Eu espero que saiba o que faz.
- Fui apenas encontrar meus amigos numa boate. bem, não exatamente uma
boate. Seria melhor dizer que se trata de uma mistura de discoteca, bar e restaurante.
Tem vários ambientes, todos muito bem decorados. Nós dançamos, conversamos e
isso foi tudo, eu juro! - Vanessa estava aliviada ao constatar que o clima tenso havia
se dissipado.
Clement deixou o jornal de lado e olhou para a filha com imensa ternura. com
um sorriso, levantou-se para dar-lhe um beijo na testa e, em seguida, saiu para o
trabalho. Vanessa sentiu-se feliz com o carinho do pai e por terem feito as pazes.
Terminada a refeição, Trudy veio tirar a mesa e Vanessa ofereceu-se para
ajudá-la, com o coração leve.
- Você está tramando alguma coisa, menina!
- Que idéia, Trudy!
- Quem me garante?
- Humm. Bem, talvez eu tenha algumas idéias. mas papai não precisa saber,
certo?
- O sr.. Thompson não toma conhecimento de tudo que se passa nesta casa.
Isso eu asseguro!
E com essas palavras, a velha mulher tirou do bolso do avental as chaves do
Mercedes, deixando-as sobre a mesa, com uma expressão de cumplicidade.
Intrigada, Vanessa disfarçou a surpresa e perguntou-lhe onde as havia
encontrado.
- Estavam dentro da caixa do correio.
As duas recolheram a louça do café e Vanessa passou as horas seguintes
tentando encontrar uma forma de expulsar Derek Morgan da Thompson Turismo.
Os projetos mais impossíveis vieram-lhe à cabeça: seqüestro, chantagem,
espionagem... e, de repente, já não estava mais apenas procurando uma maneira de
derrubar o homem que lhe tomara o cargo na Thompson. Estava, isso sim, fazendo
parte de um verdadeiro filme de aventura e ação.
Chegou ao ponto de planejar a morte de Morgan com arsênico, como nos
livros de Agatha Christie.
Reconhecendo o absurdo de suas idéias, decidiu dar uma trégua a si mesma, e
telefonou para Mônica.
Conversaram sobre os acontecimentos da noite anterior e Vanessa soube o
quanto Bob Peterson lastimara a sua partida repentina.
- Mas ele ficou tão inconsolável assim, Mônica? Oh, daria tudo para que me
esquecesse, de uma vez por todas!
- Você não sabe nem a metade da história. Bob se embebedou e não parou
mais de falar em você.
- É melhor deixar Bob de lado, porque essa conversa me chateia. E hoje, qual
vai ser o programa?
- Não sei. Eu estava querendo ir assistir a um filme ou a uma peça de teatro. E
você?
- Eu pretendo ficar em casa, para fazer uma média com meu pai.
- Eu não quero ser indiscreta, mas... ele já lhe falou sobre o emprego?
- Hum. Depois eu explico. As coisas estão complicadas, mas acho que vou
conseguir remediar a situação.
Mônica permaneceu em silêncio do outro lado da linha e não insistiu mais no
assunto, respeitando a reserva da amiga.
- Que tal irmos ao centro, amanhã?
- Ótima idéia. Estou mesmo precisando comprar algumas roupas.
Combinaram de apanhar o primeiro trem da manhã com destino ao coração de
Manhattan e trocaram algumas idéias sobre preços, moda e liquidações.
Despediram-se, após alguns minutos.
Mal colocou o telefone no aparelho e ele tocou novamente. Vanessa atendeu
com prontidão.
A voz grave e decidida que a cumprimentava com polidez tomou-a de
surpresa. Ficou paralisada, por alguns instantes, sem conseguir ceder ao impulso de
desligar o telefone. Sentou-se na beirada da cama e só aos poucos foi se recuperando
do susto. Derek Morgan! Que ousadia..
- Como está, senhorita Thompson?
- Estou muito bem, se lhe interessa saber. Aliás, estava, antes de falar com
você!
- Eu pensei que tudo o que me disse ontem era efeito de bebida. Mas, pelo
que vejo, você me detesta de verdade.
- É claro que eu não estava bêbada! Você é um usurpador sórdido e não
permitirei que continue ocupando o lugar que me pertence! - Vanessa desligou sem
lhe dar chance de retrucar, e ficou imóvel por um instante, saboreando o triunfo de
ter desdenhado Derek Morgan. Pois ele merecia muito mais, concluiu, com os olhos
fixos no vazio e a mente mergulhando em abismos.
Sentou-se numa cadeira de balanço, em frente à janela, e contemplou a
paisagem do jardim, de macieiras em flor sob o céu límpido.
À hora do jantar, Vanessa já estava mais calma. Traçara uma linha de ação, e
a perspectiva de colocá-la em prática a deixava mais animada.
Em primeiro lugar precisaria levantar um certo número de dados a respeito de
Derek Morgan para poder descobrir o ponto fraco dele e partir para o ataque. Assim,
enquanto jantava, perguntou ao pai onde Morgan morava.
- Num apartamento próximo ao Central Park.
Clement olhava para a filha com uma sombra de suspeita, tentando descobrir
se ela ainda guardava alguma espécie de ressentimento. Vanessa, ciente da atitude
do pai tratou logo de apanhar uma laranja da fruteira, começando a descascá-la com
ar distraído. Prosseguiu com a conversa, procurando ser natural.
- E onde ele morava antes, papai?
- Não estou certo. Parece que veio de Londres para cá. há uns seis anos.
- Mas é estranho que Morgan prefira o centro, com tanta área verde a ser
aproveitada na companhia da esposa e dos filhos. - Vanessa precisava de elementos
para montar o complicado quebra-cabeça que tinha em mente.
- Ele não é casado. As pessoas solteiras preferem a agitação da cidade à
solidão do campo.
- Tomara que ele seja velho, careca e gordo! - Ela suspirou, com uma careta.
- Um dia você o conhecerá, não se preocupe.
Vanessa pressentiu que o pai sondava a possibilidade de apresentá-la a
Morgan e, para tanto, buscava a confirmação de que ela já havia superado o
desapontamento.
A forma como Clement aceitava a presença do outro homem na companhia,
chegando até a elogiar-lhe o desempenho profissional, acabou deixando Vanessa
irritada. Sem poder mais disfarçar a mágoa, com o pretexto de que estava cansada,
recolheu-se cedo.
Como que querendo libertar-se da obsessão de Derek Morgan, mergulhou nos
labirintos de um sono sem sonhos, só acordando na manhã seguinte, com a sensação
de haver estado num túnel escuro e silencioso, onde não havia lugar para desejos e
revanches.
Levantou-se e, após tomar a costumeira ducha fria, desceu para tomar o café
da manhã. Em seguida, saiu para a estação, sentindo os tímidos raios do sol
acariciarem-lhe os cabelos.
Mônica já a aguardava no local combinado e pegaram o trem que ia ao centro
pelos subúrbios da cidade.
Entraram e saíram de diversas lojas, experimentando roupas, folheando livros
e escutando discos. Na hora do almoço, pararam numa lanchonete para um
sanduíche rápido e, em seguida, continuaram a peregrinação pelos magazines.
No final da tarde, estavam exaustas e sem disposição para mais nada.
Sentaram-se no vagão do trem e voltaram para casa. Vanessa mostrava-se
sorridente e bem-humorada, mas, nem bem se separaram na estação, o sorriso deu
lugar a uma expressão meditativa.
Sem prestar atenção no que fazia, colocou as compras no carro e foi pela
estrada que levava a Wood House. Derek Morgan voltava a invadir-lhe os
pensamentos.
Amaldiçoando a hora em que aquele homem entrara em sua vida, manobrou o
Mercedes e o guardou na garagem.
Logo que entrou em casa, Trudy informou, com um olhar malicioso, que Bob
Peterson havia telefonado três vezes.
- Caso ele torne a ligar, diga-lhe que eu já tenho um compromisso para esta
noite. Está bem?
- Eu é que não vou entrar nas suas complicações amorosas. Resolva você
mesma os problemas com os namorados.
- Oh, está bem, Trudy! Você tem escrúpulos demais. Quando vai aprender a
ser um pouco menos rígida? Seja um tantinho desonesta, fume alguns cigarros por
dia, beba e jogue uma vez ou outra! - Vanessa brincou, afagando-lhe com ternura os
cabelos grisalhos.
Quando a campainha tocou, ela prontificou-se a abrir a porta. Imaginou que
talvez pudesse ser Bob Peterson insistindo em vê-la e, enquanto girava a chave na
fechadura, considerou qual seria a melhor forma de livrar-se dele. Naquela noite
pretendia encontrar-se com Mônica, mas não tinha disposição de ver mais ninguém.
Porém, para surpresa de Vanessa, não se tratava de Bob Peterson. Apoiado no
umbral com displicência, vestindo calça de lã e camisa branca de mangas
arregaçadas, lá estava Derek Morgan, em pessoa!
Os olhos grandes e expressivos brilhavam com intensidade. A boca máscula e
sensual abria-se num sorriso enigmático, que se irradiava pelo rosto inteiro.
Contrariada, Vanessa teve de admitir a atração que sentia por ele e mordeu o lábio
com raiva.
- O que quer aqui?
- Desta vez será mais difícil me dispensar.
- Bem, suponho que queira falar com meu pai, mas ele não está em casa. Saiu
cedo para o trabalho e só voltará à noite.
- Na verdade, ele está no clube de bridge.
- Mas então... você veio falar comigo. Pois diga logo, a que devo o imenso
prazer da visita?
Morgan ignorou o sarcasmo contido nas palavras de Vanessa e a encarou,
sem se intimidar. Fez uma pausa, mas viu que ela não tinha intenção de convidá-lo a
entrar.
- Eu telefonei ontem para saber se estava tudo bem com você e para me
desculpar de alguma involuntária indelicadeza de minha parte.
"Ora bolas! Agora ele propõe que sejamos bons amigos! É muita audácia!" A
vontade que tinha era de bater a porta na cara dele, mas procurou controlar-se.
Foi então que notou que o sorriso ainda perdurava nos lábios dele, indicando
que também se esforçava para manter a calma. A testa franzida e os olhos faiscando
confirmavam que Derek Morgan estava contrariado com a agressividade dela.
- Entendo que esteja contrariada com a perda do emprego e lamento muito
que tenha sido eu o responsável por isso. Imagino que o desapontamento seja muito
grande. É a única explicação para essa total ausência de bons modos!
- Mas veja que prepotência! Veio aqui para me dar lição de moral?
- Não, é claro que não. E me perdoe se ontem fui inconveniente. As intenções
eram as melhores possíveis e eu apenas quis garantir a sua segurança. E, lógico, seu
pai...
Vanessa hesitou por um segundo e, por fim, inquieta, acabou perguntando:
- O que há de errado com meu pai?
- Nada, que eu saiba. Mas ele se preocupa muito com você. Ela não ficou
satisfeita com a resposta. Ocorreu-lhe a hipótese de Clement sofrer de alguma
moléstia incurável e ocultar o fato para não fazê-la sofrer. Porém, não teve tempo de
refletir melhor, pois Morgan recomeçou a falar.
- Clement Thompson trabalha muito para um homem da idade dele e precisa
de tranqüilidade para viver. Assim, pensei que nós dois deveríamos ser amigos, a
fim de não lhe trazer maiores aborrecimentos. E, já que eu sou o vilão da história
achei que o primeiro passo para uma aproximação deveria partir de mim.
- Está insinuando que eu infernizo a vida de meu pai quando ele vem para
casa?
- Bem. não posso afirmar com segurança, mas se tomar como base a forma
como você me trata eu diria que ele deve estar atravessando maus bocados!
Vanessa desviou o olhar, envergonhada. Não podia negar que nos últimos
tempos vinha se comportando de maneira intratável e de difícil convivência. Mas a
culpa era de Morgan, pensou Se ele não tivesse lhe tirado o lugar na Thompson,
tudo estaria em perfeita harmonia. Seus olhos escuros pousaram numa roseira e
acompanharam o vôo de uma borboleta pelo jardim. Depois, retornaram a Derek,
com agressividade.
- E daí?
- E daí, Vanessa, que seu pai necessita de paz quando volta para casa, após
um dia de trabalho árduo.
- Puxa, mas você é mesmo comovente! Ou será que se preocupa com meu pai
porque planeja um descanso permanente para ele?
- O que está sugerindo?
- Bem, eu estava apenas me perguntando se você não almeja o cargo dele da
mesma forma que desejou o meu!
- Você.
Morgan perdeu a paciência e olhou para Vanessa de modo ameaçador, prestes
a explodir. Ela se preparou para ouvir palavras pouco lisonjeiras, mas ele se
restringiu a comentar, com pouco caso:
- Meu Deus, seu tio não estava brincando quando disse que você era terrível.
Nem parece ter vinte e um anos. É hora de crescer, menina! O mundo não é a
redoma cor-de-rosa em que você vive.
- Não me venha com sermões! Se eu tivesse nascido homem o emprego já
seria meu!
- Pois seria uma grande perda. - ele falou, sem vestígio de agressividade ou
zombaria.
- O quê?
- Zangada ou não você é muito bonita. Seria uma pena se...
- Poupe os elogios, porque não necessito deles! Vá agradar a loira sedutora
que, pelo visto, não contraria nenhuma de suas vontades!
- Refere-se a Selene Astorn? Uma criatura encantadora.
- Pois então case-se com ela e seja muito feliz!
Achando graça da infantilidade de Vanessa, Morgan cruzou os braços e
sorriu.
- Acho que quem está precisando casar é você, para entrar nos eixos.

CAPÍTULO IV

Vanessa não disse mais nada, limitando-se a fechar a porta com violência.
Mais tarde, lamentou ter perdido a cabeça, mas Morgan a deixara fora de si. Quem
era ele para se julgar no direito de lhe fazer observações sobre sua vida íntima? Não
aparentava ter mais do que trinta e cinco anos e já assumia ares e Paternalismo e de
grande conhecedor do mundo. Sem contar a ironia contida nas palavras dele!
Passou o dia alheia ao que se passava a seu redor. Tomou sol, estudou alguns
trechos de um trabalho sobre os ovnis na ilha de Páscoa, mas não havia nada que
prendesse a sua atenção. Tentou ler um livro a respeito das descobertas de um
arqueólogo russo, mas entediou-se logo no início. Sua mente parecia não se
inmteressar pela Ilha de Páscoa e, muito menos, pelo tal arqueólogo.
A primavera, com todo o seu esplendor, tampouco a tocava. O verde suave da
grama, bem cortada, e as cores delicadas dos canteiros de rosas não eram vistos pelo
seu olhar distante.
Os pensamentos estavam inteiramente voltados para Derek Morgan. Não
conseguia perceber o que tanto a perturbava em Morgan. Sem dúvida, tratava-se de
um homem atraente: corpo esguio e atlético, além de um olhar sensual e penetrante..
Mas não era o tipo que lhe agradava. E não podia se esquecer de que ele lhe roubara
o emprego, o que os afastava definitivamente.
Não era justo! Por culpa de Derek Morgan não podia sequer mergulhar na
leitura gratificante de dois livros interessantíssimos. "O cínico!", pensou, rangendo
os dentes de raiva e procurando encontrar pela milésima vez uma maneira de se
vingar.
O fim de semana chegou cheio de sol e calor. Vanessa, entretanto, acordou
desanimada por não ter encontrado nenhum plano brilhante para atacar Morgan.
Como fazia todas as manhãs, tomou banho e, em seguida, desceu para o café.
- Bom dia, papai.
- Bom dia. Você está bem?
Clement fechou o jornal e olhou para a filha com preocupação.
- Claro! Por que não haveria de estar?
Procurando não demonstrar o mau humor, ela deu um sorriso e sentou-se à
mesa. Não desejava que o pai soubesse o quanto estava ressentida, pois, na verdade,
reconhecia que era absurda a prevenção que tinha com relação a Derek Morgan.
Em vez de tentar arranjar um emprego, ficava lamentando, dia e noite, a
frustração do cargo perdido. Envergonhava-se da própria conduta. Portava-se tal
qual uma criança mimada e precisava superar isso.
Trabalhar a ajudaria a vencer a mágoa e o ressentimento, dando-lhe nova
perspectiva de vida. Mas como deixar de lado o que sentia em relação a Derek
Morgan, se ele não lhe saía dos pensamentos?
Clement parecia entender o conflito da filha e quebrou o silêncio com um
comentário zombeteiro:
- Estou ficando preocupado com você. Ontem à noite não saiu, e nem
anteontem.
- O que há de tão surpreendente nisso?
- Bem, devo admitir que é um tanto estranho, partindo de você! Humm,.. e,
quanto a hoje à noite, o que pretende fazer? - O pai deu uma tosse seca, olhando
para ela com expectativa exagerada.
Vanessa teve a certeza de que ele estava querendo dizer alguma coisa.
- Por quê? Pensou em algo especial para a noite de hoje, papai?
- Sim, temos um... convidado especial para o jantar.
De imediato ela soube de quem se tratava. Conhecia todos os amigos da
família e sabia que se fosse um deles não haveria tanto suspense.
Portanto, o convidado daquela noite só poderia ser.. Derek Morgan! Diante
dessa conclusão, sentiu-se ferida com a falta de percepção de Clement. Não só ele
convidava o usurpador de seu cargo para jantar como também pretendia que ela se
portasse como uma perfeita anfitriã! Tratou logo de livrar-se do encargo, inventando
um pretexto.
- Sinto muito, mas hoje tenho uma festa. Aliás, foi por esse motivo que fiquei
em casa nas últimas duas noites. Queria descansar e poupar energias. Será que seu
convidado ficará ofendido com a minha ausência?
- Acho que ele compreenderá - Clement a tranqüilizou, embora, em seus
olhos azuis, transparecesse uma sombra de desapontamento.
- E quem é a pessoa tão especial?
- Bem, eu o convidei porque temos negócios a tratar e além disso, achei que
seria bom que você o conhecesse.
- Está se referindo a Derek Morgan, não é?
Clement abaixou os olhos, cada vez mais constrangido, temendo a reação da
filha.
- Vanessa, espero que compreenda. Ficou chateada?
- Você queria me apresentar a ele?
- Gostaria. Além do que temos assuntos importantes a discutir a respeito dos
negócios da empresa. Morgan passará a noite aqui.
- O quê? Será nosso hóspede? Mas eu pensei que morasse perto! Afinal, o
centro de Manhattan fica apenas a meia hora daqui. Vanessa não pôde evitar que sua
voz se alterasse, adquirindo um tom estridente.
Derek Morgan já estava passando dos limites! Primeiro, tirava-lhe o emprego,
estragava-lhe a noite no Acid Queen, roubava-lhe noites de sono e tardes de lazer e
agora tinha a ousadia de vir jantar em sua casa. E, como se não bastasse, ainda iria
passar a noite debaixo do mesmo teto que ela, sem a menor cerimônia!
Decidiu que tiraria Morgan de seu caminho, por bem ou por mal. Esforçou-se
por reaver a calma, pensando na vingança que arquitetara mentalmente, e dirigiu-se
ao pai com fingida compreensão.
- Eu posso entender, papai. Vocês precisam discutir uma porção de detalhes
que dizem respeito à Thompson e. talvez, até precisem varar a noite.
- Eu sabia que poderia contar com a sua colaboração, Vanessa. Obrigado,
filha.
Clement deu-lhe um beijo e saiu para trabalhar. Assim que se viu a sós,
Vanessa deu vazão a toda a indignação, franzindo a testa em expressão de
desagrado.
Quando Trudy veio tirar a mesa, notou a fisionomia contrariada de Vanessa e
tentou consolá-la.
- Não sei o que aconteceu e prefiro não saber. Mas fique tranqüila, menina,
porque, de uma maneira ou de outra, tudo se resolve.
- Parece que temos hóspede para esta noite. Você já preparou o quarto?
- Já está tudo pronto. O sr. Thompson deu-me todas as instruções ontem...
- Mas ele só me falou hoje! Que covardia!
- Não leve tudo tão a sério. Assim, você acabará doente dos nervos. Seu pai
deve ter se esquecido de lhe dizer antes.
Mas tanto Trudy quanto Vanessa sabiam que Clement Thompson possuía
uma memória imbatível.
Subiu para o quarto e, depois de telefonar para todas as pessoas que conhecia,
conseguiu afinal que Sadie se prontificasse a dar uma festa improvisada em sua
casa, desde que cada um dos convidados levasse algo para comer ou beber.
Vanessa adorava cozinhar e por isso passou o resto da manhã no preparo de
petiscos para a festa da amiga. Assim, entre farinha e ovos, pôde esquecer os
problemas que a afligiam, pelo menos por algumas horas.
A tarde transcorreu tranqüila e, após demorada reflexão, Vanessa decidiu
deixar o amor-próprio de lado e ser amável com Derek Morgan, a fim de não causar
aborrecimentos ao pai.
Entretanto, foi-lhe impossível evitar um aperto no coração, no momento em
que avistou o carro dele aproximando-se pela alameda que conduzia a Wood House.
com um suspiro, fechou a janela do quarto e desceu até o saguão, para recebê-
lo.
Encontrou Morgan na sala de estar, trocando cumprimentos com Clement,
que o convidava a sentar-se e pôr-se à vontade. Ao vê-la, o pai virou-se e sorriu, um
pouco constrangido e temeroso da reação da filha.
- Morgan. quero que conheça Vanessa. Filha, este é Derek Morgan, de quem
eu já lhe falei.
Vanessa estendeu a mão para Morgan, sem demonstrar entusiasmo.
Procurando parecer indiferente, perguntou se ele desejava que a bagagem fosse
levada ao quarto de hóspedes. Clement, longe de entender a situação, sorriu em sinal
de aprovação e a encorajou a fazer as honras da casa.
Contrariada pelo papel que precisava desempenhar, ela concordou em
conduzir o hóspede ao quarto.
Longe dos olhos do pai, a expressão dócil deu lugar a uma total frieza e, com
gestos mecânicos, acompanhou Morgan pelas escadarias da casa.
Ele tentou quebrar o gelo, incomodado com o silêncio de Vanessa.
- Você fica muito bem com o vestido que está usando.
- É uma pena que não possa admirá-lo por mais tempo. Eu não ficarei para o
jantar.
- Não me diga que você me trocou pelo rapaz que estava na boate, outro dia! -
Morgan olhava para Vanessa com ar de deboche.
- Eu lhe peço um pouco mais de respeito quando falar de meu futuro marido.
- Ele é seu noivo?
- Bob e eu pretendemos nos casar o mais breve possível. É só o que posso lhe
adiantar. - Vanessa escondeu a mão atrás das costas, para que Morgan não notasse a
falta da aliança.
Derek, todavia, percebeu a manobra e riu.
- Onde está o anel do noivado?
- Isso é coisa para pessoas mais velhas! Bob e eu não nos prendemos a esse
tipo de futilidade. Bem, o quarto é este. Acho que nada lhe faltará, mas, se precisar
de alguma coisa, peça a Trudy, a governanta.
Sem dar-lhe tempo de responder, virou-se e foi para o seu próprio quarto.
Experimentava uma sensação de triunfo por tê-lo humilhado, chamando-o de
velho, mas surpreendeu-se ao constatar que o sentimento de vitória não lhe dava
qualquer prazer.
Por outro lado, estava amargurada pelo fato de Morgan não ter demonstrado
qualquer sinal de descontentamento pela ausência dela no jantar.
Sem conseguir suportar a solidão das quatro paredes do quarto, foi ter com
Trudy na cozinha.
- E então, como vão indo os preparativos para o jantar?
- Os pratos ficaram magníficos e de acordo com o planejado! Tem certeza de
que não vai ficar para prová-los?
- Absoluta. Não que eu não esteja com água na boca, Trudy. mas... ora, deixe
isso para lá. Quer que eu a ajude em alguma coisa?
- Bem, partindo de você essa oferta gentil, até volto a ter fé na humanidade!
Vanessa foi invadida por uma onda de remorso e mal-estar, e a custo conseguiu
controlar as lágrimas que lhe inundavam os olhos escuros.
Respirou fundo e começou a separar os petiscos que havia feito para a festa.
- Eu sou tão má assim, Trudy?
- Nem tanto. Tudo o que você precisa é de um bom marido, que lhe dê umas
palmadas de vez em quando.
- Trudy, deixe de ser chata. Que mania tem todo mundo de achar que o
casamento resolve os problemas das mulheres. O mundo mudou, sabia?
Enquanto a governanta resmungava, Vanessa lembrou-se da conversa com
Morgan, sobre o mesmo assunto.
A atmosfera da casa começava a deprimi-la e, por isso, levou os salgadinhos
para o carro, resolvida a ir embora o quanto antes.
Procurou pelo pai para despedir-se e o encontrou na biblioteca, com Derek.
Era tarde demais para voltar atrás, embora fosse o que mais desejasse fazer no
momento.
"Coragem! Você precisa suportar a farsa só por mais alguns segundos!",
pensou, enquanto lhes dirigia um sorriso desejando uma boa noite.
- Sinta-se em casa, sr. Morgan.
- Preferia que me chamasse de Derek. É menos formal. - ele corrigiu,
levantando-se da poltrona e tomando-lhe as mãos.
Inesperadamente, Vanessa sentiu-se magnetizada pela figura máscula de
Morgan a sua frente, que lhe tocava os dedos com maneiras tão delicadas.
Perdeu o fôlego por um instante, observando-lhe a postura de naturalidade e
sofisticação, o terno cor de creme que moldava o corpo esbelto, de músculos exatos.
Ao lado dela, Morgan aparentava ser muito alto. Os olhos acinzentados faiscavam,
enigmáticos, enquanto ele continuava a segurar-lhe a mão, com um toque que
lembrava uma carícia...
Como que saindo de um transe, Vanessa se recompôs e deu um passo para
trás.
- É melhor eu me apressar... Adeus!
- Não faça nada que possa vir a arrepender-se depois - foi a recomendação de
Clement ao ver Vanessa se afastar em direção à porta.
A festa estava animada e a turma de jovens conversava alegremente.
Vanessa, entretanto, desde que chegara, olhava para a pista de dança, sem
qualquer interesse. Não bastasse a irritação e a vontade de ficar só, logo Bob
apareceu para importuná-la.
Diante da recusa de dançar com ele, Bob tentou convencê-la a beber um
drinque e, sem querer, entornou metade da bebida no vestido dela.
Bastante constrangido com a situação, procurou consertar o estrago,
estendendo-lhe um lenço para limpar a roupa. Desajeitado e trêmulo, Bob esbarrou
no braço de Vanessa e acabou lhe derrubando o resto da bebida em cima.
- Ah, Bob, até parece que você tem alguma coisa contra mim. É melhor você
me dar o lenço, antes que algo pior aconteça!
- Desculpe, não tive a intenção de.
- Tudo bem, desta vez passa.
Vanessa não pôde deixar de comparar a falta de classe de Bob com os modos
elegantes de Derek Morgan. Suspirou, desejando estar em casa, debaixo das
cobertas. Mas só o fato de saber que Morgan estaria em Wood House a fazia
estremecer.
Não, não abandonaria a festa. Ao contrário, decidiu ficar até o amanhecer
para não correr o risco de encontrá-lo.
Tentou rir das piadas que Bob lhe contava, mas logo percebeu ser uma tarefa
acima de suas forças. O rapaz não tinha a menor graça. Ficou feliz quando percebeu
o interesse que uma das amigas de Sadie manifestava por ele, e mais do que
depressa procurou incentivar um romance.
- Pelo que vejo, Bob, você conquistou uma admiradora. Acho melhor eu sair
do caminho. Boa sorte! - Afastou-se, sem dar-lhe oportunidade de protestar, rezando
para que Bob a esquecesse de uma vez por todas.
Circulou de um lugar a outro, procurando descontrair-se em meio à multidão,
mas não havia meios de não se sentir deslocada.
Estava na cozinha preparando um drinque, quando Mônica apareceu.
- O que há com você? Está tão quieta!
- É... acho que estou um pouco deprimida.
- Por quê? - a amiga perguntou com simpatia, puxando uma cadeira para
acomodar-se melhor.
- Não é nada grave - Vanessa a tranqüilizou, sentando-se e bebericando o
drinque com um sorriso triste.
- Como não é nada grave? Conheço você, Vanessa e... já sei! É o cargo na
Thompson, não é? Seu pai ainda não resolveu a situação?
- Sim, na verdade ele solucionou. mas não da maneira como eu gostaria.
- O que ele decidiu?
- O cargo não será mais meu. Foi ocupado, há algumas semanas Por um
estranho, Mônica!
- Não compreendo. - A amiga olhou para Vanessa, sem acreditar no que
ouvia. - Ele tinha prometido o emprego a você..
Era isso que mais a aborrecia. Não culpava o pai pela situação; no íntimo,
estava certa de que Derek fizera algum tipo de chantagem para convencer Clement a
mudar de idéia de maneira tão súbita e inexplicável.
- O problema, Mônica, é que meu pai foi obrigado. Não posso crer que ele,
em sã consciência, pudesse quebrar uma promessa tão antiga.
- E o que pensa fazer?
- Não sei. Passo dias e noites quebrando a cabeça para arrumar um jeito de
expulsar o tal homem da companhia, mas sem resultado.
As duas amigas consideraram uma série de planos para desbancar Derek
Morgan. No final todos se mostraram ineficientes.
Com a chegada de outras pessoas na cozinha, o assunto terminou por aí e elas
resolveram voltar para a festa.
Cada uma foi para um lado e, então, sozinha no salão, Vanessa terminou
conhecendo um certo Jimmy Vaughan, com quem iniciou uma conversa agradável.
Mas, como a paz não é duradoura, em breve a amistosa conversa era
interrompida por uma cena de ciúmes de Bob. Procurando contornar a situação,
Vanessa o acalmou entre rodeios, palavras doces e movimentos enérgicos, enquanto
se desculpava junto a Vaughan.
A seguir, julgando a conduta de Bob detestável, foi procurar a companhia de
Mônica e Adrian.
Os três formaram uma roda e trocaram comentários sobre a festa e as
investidas fracassadas de Bob.
Àquela altura, Vanessa captou um brilho peculiar nos olhos esverdeados de
Mônica e soube que a amiga tivera uma grande idéia. De acordo com um velho
código das duas, ela piscou e perguntou:
- Vamos ao toalete, Mônica?
- Está bem, querida. Você nos desculpa, Adrian? Estaremos de volta em um
minuto.
- Pois Deus nos proteja! Sei muito bem o que significam as confabulações no
banheiro - ele exclamou, com uma sonora gargalhada.
Elas retribuíram a risada e foram se trancar no toalete. Enquanto Vanessa se
apoiava na pia, mal contendo a curiosidade, a amiga andava de um lado para o
outro, fazendo verdadeiros malabarismos mentais para verbalizar o plano.
Vanessa ficou boquiaberta com o que ouvia.
- Está sugerindo que eu seduzo Derek Morgan? Mas isso não vai dar em
nada! Francamente, você já teve idéias melhores, Mônica!
- Você não captou o espírito da coisa! Pense só: Bob e Vaughan estavam
quase se devorando por sua causa. Por que o mesmo não poderia acontecer com
Derek Morgan?
- E o que eu ganho com isso?
- Muito simples. Se ele se apaixona por você, fica mais fácil reaver o cargo na
Thompson. Afinal, não dizem que o amor é cego?
- Não creio.
Vanessa lembrou, por um instante, de Selene Astorn. com certeza a loira
platinada teria Derek Morgan na mão. Como competir com a languidez
embriagadora daquela mulher? com uma careta, balançou a cabeça:
- Não daria certo, Mônica. Além do mais, eu não sou o tipo dele. Morgan
gosta de loiras oxigenadas, com olhar de volúpia.
- Ele é um homem, não é? E que homem! Não custa tentar, você não tem nada
a perder.
Imersa em seus pensamentos, Vanessa demorou a responder.
- Vou pensar no assunto. Mas ainda acho que é uma perda de tempo.

CAPITULO V

Já passava das quatro horas da madrugada quando Vanessa decidiu ir para


casa. Vencida pelo cansaço, dirigiu o Mercedes até Wood House.
As ruas estavam desertas e em quinze minutos o carro venceu a distância
entre a casa de Sadie e a dos Thompson.
A mansão estava às escuras e, deslizando pelo carpete, que amortecia os
passos, ela foi para o quarto.
Enquanto retirava a maquilagem do rosto a sugestão de Mônica veio-lhe à
mente, levando-a para um mundo de fantasias.
Jogou o vestido sobre a cadeira e colocou uma minúscula camisola verde,
rendada e de decote generoso. As palavras da amiga não lhe saíam da cabeça, mas
não parecia haver nenhuma possibilidade de êxito daquele plano louco.
O primeiro empecilho era Derek Morgan conhecer suas verdadeiras
intenções. com certeza, estaria de sobreaviso em qualquer tentativa que fizesse de
ludibriá-lo.
O segundo problema consistia na raiva que aquele homem lhe despertava. Só
ao relembrar os olhares zombeteiros que ele lhe dirigira antes do jantar, sentia o
sangue ferver. Seria muito difícil simular um flerte com Morgan.
E ainda havia Selene Astoin, com quem nem sonhava em competir. Mais
deprimida do que nunca, deitou-se e apagou a luz do abajur. A ansiedade deixava o
cansaço para um segundo plano, e o pensamento de que Morgan se achava tão perto
dali bastava para enfurecê-la.
Sentia-se humilhada por ter sido obrigada a engolir a hospitalidade prestada
ao homem que lhe arruinara a vida. Era uma estranha na própria casa..
Nos seus devaneios, vivia um autêntico drama, em que os Thompson
apareciam como oprimidos indefesos e Morgan fazia o papel de vilão. Até a sra.
Truemann, que sempre fora a boa e rabugenta governanta, passou a ser a "pobre
Trudy", que tivera de fazer um esforço enorme para servir um jantar ao gosto do
convidado e, ainda por cima, precisaria acordar cedo para despertar o detestável
hóspede.
Vanessa mergulhou tão fundo na história que não se deu conta de que Trudy
acordava cedo sempre e que, portanto, a presença de Derek Morgan não a obrigava
a nenhuma mudança radical de hábitos. Além disso, já era uma tradição da Wood
House saudar os hóspedes pela manhã com uma bandeja de chá, torradas, geléia e
manteiga..
Irrequieta, sentou-se e acendeu a luz. Uma idéia começava a surgir.
Visualizou a governanta entrando no quarto de Morgan com a bandeja de café
nas mãos.
Vanessa saltou da cama e foi olhar-se no espelho do banheiro. Não podia
negar que a camisola lhe conferia um aspecto bastante sedutor, acentuando-lhe as
curvas bem-feitas do corpo.
E se Trudy a encontrasse nos braços de Morgan, quando fosse servir o chá
com torradas? A velha governanta ficaria escandalizada com a cena e correria para
contar tudo a Clement.
Seu pai, então, duvidaria da integridade do funcionário e defenderia a honra
da filha, expulsando-o de casa. E, o que era mais importante, da diretoria da
Thompson Turismo.
E o cargo seria dela!
A perspectiva de êxito a deliciava e ela cerrou as pálpebras, experimentando
uma rara alegria. Imaginava o quadro todo, com requinte de detalhes: Trudy sem
fala, de olhos esbugalhados; depois, Clement, no auge da decepção, fazendo um
sermão para Derek Morgan...
Pensou vagamente nas conseqüências que o plano poderia trazer, mas a seguir
deixou os escrúpulos de lado. Afinal, estava apenas lutando por seus direitos.
Seu cérebro fervilhava e, impaciente, contou os minutos que a separavam da
aurora, quando colocaria em prática o plano. Antecipando a vitória, olhou a foto de
Einstein e mostrou-lhe a língua também.
Gradualmente, a escuridão da noite foi substituída pelos primeiros sinais do
amanhecer. Era chegada a hora.
Andando na ponta dos pés, Vanessa foi para o quarto de hóspedes, na
extremidade oposta do corredor.
Torceu para que a porta não estivesse trancada e, com a respiração suspensa,
experimentou a fechadura. As palmas das mãos suavam devido à excitação e
escorregaram na maçaneta, frustrando a tentativa inicial.
Vanessa não se deu por vencida e persistiu até conseguir realizar seu intento.
Com cuidado, entrou no quarto e tornou a fechar a porta, cautelosa.
O cômodo estava imerso na penumbra e Vanessa demorou um pouco para se
acostumar com a escuridão. Encontrou um vulto estirado na cama de casal,
parcialmente coberto pelo lençol. Pé ante pé, aproximou-se do leito, constatando
que ele dormia profundamente. com o coração acelerado, permaneceu imóvel,
tomando coragem para prosseguir.
Quando afinal convenceu-se de que não havia perigo, sentou-se na beirada da
cama. Mais alguns segundos, e aventurou-se a puxar o lençol.
Nisso Derek se mexeu e ela prendeu a respiração, ficando estática. Mas ele
continuava dormindo.
Ouvindo o ressonar tranqüilo, Vanessa deitou-se ao lado dele e cobriu-se.
Tensa, sentiu o calor do corpo másculo bem junto ao seu. Conservou-se quieta,
tentando descontrair-se. Repentinamente, Morgan se virou e pousou-lhe o braço na
cintura delgada.
Olhou para ele na escuridão, rígida de pavor, e teve de se controlar para
conter o impulso de fugir dali e desistir da farsa. Mas agora estava aprisionada, sem
escapatória.
Era o fim. Fora descoberta, mas não por Trudy, e sim pelo próprio Derek
Morgan!
Dominando o nervosismo, conservou-se imóvel e aguardou o que estava para
acontecer. Entretanto, não houve nada ás especial. Morgan não fez menção de
acender a luz e repreendê-la. Continuou a dormir, o braço forte ainda pousado na
maciez do corpo dela.
Em vez de se alegrar pelo andamento perfeito do plano, Vanessa foi
dominada por uma onda de exasperação, pois concluiu que Derek não passava de
um don-juan barato. Estava tão acostumado a ter mulheres na cama que, mesmo
dormindo, abraçava um corpo feminino com toda a naturalidade!
Teve o ímpeto de sacudi-lo e mostrar-lhe que não era Selene Astorn, mas
lembrou-se do emprego, que estava prestes a ser seu, e controlou-se mais uma vez.
A respiração cálida e regular dele a excitava. Ao sentir o peito largo roçar-lhe
os seios, tão precariamente protegidos pelo tecido fino da camisola, constatou que
ele não usava a camisa do pijama e que talvez não estivesse vestindo roupa alguma.
Um arrepio a percorreu, junto de uma sensação completamente desconhecida.
Vanessa nunca dormira com um homem e assumira a virgindade até que
encontrasse a pessoa certa. Resistira com bravura às investidas dos namorados, o
que não a impedia de sonhar como seria sua primeira noite de amor. Imaginava um
clima de paixão e sensualidade, entregando-se com toda a intensidade de seu ser.
Um ambiente-íntimo e aconchegante com luzes de vela e perfumes exóticos, um
parceiro terno e gentil...
E não o quarto de hóspedes de sua casa, com o homem que mais odiava na
face da terra!
Todavia, não podia evitar que um tremor de ansiedade a percorresse diante da
proximidade insinuante do corpo másculo. Seria tão fácil abraçá-lo, sentir sob os
dedos o calor daquela pele macia..
O tempo escoava-se com uma lentidão insuportável e, vencendo aos poucos a
tensão, Vanessa relaxou e aninhou-se no peito acolhedor de Morgan.
Uma discreta batida na porta a tirou do estado de sonolência.
Trudy aproximou-se da cama e ficou paralisada no meio do quarto, diante da
cena que presenciava. Por pouco não derrubou a bandeja no chão, enquanto
encarava a menina que vira nascer agora em situação tão comprometedora.
Passado um instante de estupefação, girou sobre os calcanhares e retirou-se,
batendo a porta atrás de si.
Vanessa sorriu, satisfeita. Demoraria meses, anos talvez, para contar a Trudy
o que realmente ocorrera naquela noite.
Logo seu pai ficaria sabendo do escândalo e tudo sairia de acordo com o
planejado. Antes de sair da cama, deu um último olhar para Derek Morgan.
E qual não foi seu susto ao deparar com os olhos acinzentados bem abertos,
fitando-a com displicência!
Vanessa agarrou-se à cabeceira, obrigando Morgan a erguer-se também.
Encarou-o com um misto de inocência e ironia:
- Algo me diz que você perdeu o direito ao café da manhã, Derek. ou seria
mais conveniente chamá-lo de Morgan?
Procurou libertar-se dele, mas sem sucesso. O braço que lhe circundava a
cintura parecia ter adquirido a dureza do aço e não se moveu nem um milímetro do
lugar.
- Bem que eu fui avisado!
- Eu te adverti de que não permaneceria muito tempo na Thompson, lembra?
Derek fez um gesto negativo, deixando-a confusa. A calma que ele
demonstrava era incomum naquelas circunstâncias e começava a deixá-la inquieta.
- Na realidade, Vanessa, minha conversa com seu pai não girou somente em
torno de negócios.
- O que quer dizer com isso?
- Eu mencionei a revolta que você tinha pelo meu ingresso na companhia.
Vanessa virou-se devagar e o encarou, com firmeza. No rosto delicado,
emoldurado pelos cabelos claros, havia uma vaga nota de censura.
Não lhe agradava que um estranho falasse dela a seu pai. Sentindo-se traída,
tentou decifrar o que ia na mente de Morgan.
- E então? Qual foi a reação de meu pai?
- Ele me assegurou que você acabaria entendendo a situação. Por outro lado,
contou-me que é bastante geniosa e faria tudo para tomar o meu lugar.
Vanessa estava inconformada com a atitude de Clement. Como ele pudera ser
tão indiscreto? Não era justo que comentasse traços de sua personalidade com um
desconhecido.
Com um desconforto crescente, tentou livra-se do braço de Derek e mais uma
vez não obteve êxito. Endereçou-lhe um olhar cheio de hostilidade e desprezo.
Involuntariamente, porém, os olhos dela desceram do semblante másculo de
Morgan para o tórax musculoso, recoberto de pêlos dourados.. Embaraçada, voltou a
fixar o rosto dele.
- Bem. você já sabe o que penso com relação a esse assunto. Só quero lhe
adiantar que em breve Trudy terá contado a meu pai que me encontrou em sua
cama. Aí ele terá um ataque de nervos e... Você não deveria ter um sono tão pesado,
sr. Morgan.
- Pois sinto desaponta-la, senhorita Thompson, mas me vejo na obrigação de
confessar que meu sono é leve como uma pluma, a despeito do que você possa
pensar! Aliás, se tivesse entrado em meu quarto alguns minutos depois,
provavelmente teria me encontrado lendo.
- O quê?
- Acontece que tenho o costume de acordar cedo. Resolvi ler um pouco para
não fazer barulho e despertar a casa inteira antes do horário habitual.
Só que, ao ver você se deitando a meu lado, achei que sua companhia seria
bem mais excitante que um livro.
Transtornada, Vanessa desviou o olhar para o chão. Procurou parecer
indiferente e imprimir um tom gélido à voz:
- Não acredito no que está dizendo. Como podia saber que era eu?
- Com certeza não se tratava de Trudy. e muito menos de seu pai!
Portanto, tinha de ser você. Daí, quando não encontrei resistência para abraçá-
la, comecei a me perguntar por que estava sendo honrado com tão inesperada visita!
- Você me abraçou de propósito?
Pensamentos contraditórios entrelaçavam-se na mente de Vanessa e ela se viu
na iminência de perder o controle da situação. Mas tratou de tranquilizar-se. Se ele
estivera acordado ou não, pouco importava. Trudy os vira na cama e não negaria as
evidências.
Não era capaz, entretanto, de evitar que uma vaga sensação de mal-estar lhe
oprimisse o peito.
- Você quis me testar? Achou que eu... que eu... Não. você sonhava e me
confundiu com Selene Astorn!
- Selene tem um corpo totalmente diferente do seu, Vanessa Thompson! -
Derek endereçou um olhar sugestivo para o decote dela, que a fez enrubescer.
Com o intuito de distraí-lo das rendas de sua camisola, Vanessa resolveu
encerrar a conversa.
- Você quer fazer a gentileza de me largar, agora que já estamos conversados?
- Mas, minha querida, você veio a mim de modo tão espontâneo
- Escute aqui, é melhor acabar de vez com esta farsa. Meu pai deve aparecer a
qualquer momento e.
- Não compreendo. Não era isso que você queria? Agora mudou de idéia e vai
estragar o belo flagrante?
Vanessa respirou fundo e reuniu as forças que tinha para manter o sangue-
frio. Não havia por que desesperar-se. Afinal, seu plano estava indo às mil
maravilhas e ela não daria a Morgan o gosto de saber o quanto estava excitada com
a proximidade dele.
- Meu pai saberá o suficiente pela boca da sra. Truemann. Não é necessário
que presencie o fato!
- Ah, não, minha cara! Não pense que vai se libertar tão facilmente de mim! -
ele avisou, enquanto Vanessa se debatia e tentava alcançar o chão.
Derek a mantinha segura pelos pulsos e a puxou para junto de si,
imobilizando-a sem o menor esforço.
Amedrontada, ela sentiu o magnetismo da pele macia, a aspereza dos pêlos
que recobriam o tórax, o hálito quente em seu pescoço. Não conteve um gemido.
- Solte-me!
- Pois espere para ver como vou soltá-la! - com o tronco largo sobre o corpo
de Vanessa, Morgan já não sorria mais. Os olhos acinzentados, ao contrário, a
encaravam com extrema dureza.
- E como, senhorita Thompson, tenciona arranjar provas contra mim, se é
você que está na minha cama, e não eu na sua? Vai ser difícil me acusar de estupro!
- Eu não pretendia acusá-lo de nada! - ela rebateu com tamanha agonia, que a
fisionomia dele abrandou-se.
- Pois muito obrigado pela consideração. - Derek falou, voltando a sorrir com
sarcasmo. Seus olhos tornaram a deter-se no decote da camisola de Vanessa. - Ao
que parece, você preparou para mim o papel de vil sedutor.
- Então, já que as coisas estão nesse pé...
Não precisou terminar a frase. O olhar cheio de desejo que ele lhe lançava era
suficiente para Vanessa entender a mensagem. Em vão, tentou afastá-lo. com
incrível rapidez, ele a dominou com todo o peso do corpo e roubou-lhe um beijo.
Vanessa estremeceu com a sensualidade dos lábios quentes e carnudos de
Derek. Sem hesitar, ele a beijou com avidez renovada, que quase lhe tirou o fôlego.
Ela não conseguia conter a excitação. Já não era dona de seus sentidos,
movia-se apenas por instinto. Começou a acariciar as costas largas, entregando-se à
deliciosa emoção de sentir-se entre aqueles braços protetores. No entanto, um apelo
da consciência a fez lembrar que seu pai poderia entrar a qualquer instante. Era
verdade que desejava a maior autenticidade possível para o plano que traçara, mas já
estava havendo um certo exagero! Se fosse surpreendida na posição em que estava,
nunca mais conseguiria olhar Clement com dignidade.
Começou a se debater, desferindo golpes no ar e sentindo-se a ponto de
desfalecer. Derek, entretanto, continuava explorando sua boca com uma sofreguidão
enlouquecedora. Os lábios dele se moveram vagarosamente sobre o rosto dela,
deixando um rastro de fogo, até atingirem a orelha pequena e bem delineada,
prosseguindo pelo pescoço e pelo colo alvo.
Ele traçava círculos com a língua e mordiscava a pele macia e Vanessa deu
um suspiro entrecortado, sentindo que não conseguiria resistir por muito mais
tempo.
Com a voz rouca de desejo, que não excluía uma nota de ironia, Derek
murmurou:
- Está gostando... ?
- Eu... bem... Solte-me - ela falou sem convicção, com os pensamentos
embaralhando-se na mente conturbada.
A razão lhe dizia para parar, mas o seu corpo pedia mais. Queria mais, muito
mais...
- E eu que pensei que você gostasse de carícias... - ele retorquiu, queimando-
lhe os lábios com um beijo impiedoso.
- Solte-me! - Vanessa repetiu, quando por fim conseguiu desviar o rosto.
Vendo que ele não tinha a intenção de parar, fez-lhe um último apelo:
- Está me machucando! Pare com isso!
- Não posso, Vanessa. Você é tão bonita. - Derek sussurrou com infinita
meiguice.
Toda aquela ternura contrastava com o modo selvagem que entrelaçava as
coxas musculosas às dela, com os movimentos sensuais e ritmados que a
carregavam para uma dimensão de sensações inebriantes.
Vanessa estava atordoada. Seu corpo inteiro respondia ao intenso apelo de
erotismo e, instintivamente, acariciou o dorso nu, os quadris estreitos.
Derek escorregou os dedos pelos ombros de Vanessa, afastando as alças da
camisola, e voltou a explorar-lhe a boca, com uma delicadeza desarmante.
Quando as mãos dele tocaram o bico rosado e rígido de seu seio, Vanessa
fechou os olhos e soltou um gemido de prazer. Ofegante, ele desceu os lábios sobre
o colo delicado, detendo-se demoradamente em cada um dos seios, excitando os
mamilos com a língua.
Vanessa não escutava mais os apelos da razão. Seus dedos mergulharam nos
cabelos sedosos de Derek e, movendo os quadris num gesto instintivo, colou as
coxas contra as dele.
As carícias se tornavam cada vez mais ousadas e ele desceu mais, detendo-se
no umbigo, fazendo-a contorcer-se de excitação.
- Derek..
- Não pense em mais nada a não ser neste momento, minha doce princesa.
Naquele instante, porém, Vanessa ouviu os passos de seu pai no corredor.
Teve um sobressalto, como que despertando de um sonho.
O ruído fez-se mais alto e depois foi gradativamente sumindo. Atônita, ela
não entendia por que Clement não fora vê-los no quarto e sentiu-se, no fundo,
agradecida por isso.
Derek afastou-se dela, sentando-se na borda da cama.
Atordoada demais para raciocinar sobre o que ocorrera entre os dois, Vanessa
olhou para ele com ar patético. Mas, em lugar de ternura, viu uma inconfundível
expressão de zombaria.
Não tinha palavras para a decepção que a transportava para um mundo de
trevas. A desilusão mesclava-se ao orgulho ferido, culminando numa raiva cega.
Sentia-se enganada, usada a descartada. O que antes pensara ser um carinho
verdadeiro surgia como uma encenação grosseira!
Seus olhos encheram-se de lágrimas e fitou Derek, tremendo de indignação.
Jamais um homem a tocara com tamanha intimidade, e eis que ele vencera todas as
resistências, subjugando-a com o único intuito de humilhá-la!
Num ímpeto, esbofeteou-o em cheio na face.
Ele não revidou.
- O que foi que eu fiz? - perguntou, irônico.
- Seu sujo! - ela gritou fora de si, levantando-se de um salto.
- Que eu saiba, não tirei nenhum pedaço...
- Mas teria tirado, se eu cedesse aos seus apelos sexuais! Mas Vanessa
mentia. Por pouco não havia se deixado possuir e Derek tampouco ignorava esse
fato. Ao sair do quarto, envergonhada e aborrecida, a gargalhada dele a acompanhou
ainda por algum tempo.
CAPITULO VI

Mais furiosa do que nunca, Vanessa voltou para o seu quarto e foi direto para
o chuveiro.
O contato da água fria aliviou-lhe os músculos tensos, porém não foi
suficiente para apagar o calor do toque de Derek Morgan, que continuava vivo em
seu corpo.
Fazendo um exame de consciência, teve de admitir que jamais alguém lhe
despertara emoções tão intensas. Era espantoso que houvesse correspondido com
todo o ardor aos estímulos do homem que mais odiava!
Enquanto se enxugava na toalha felpuda, recordou como as mãos hábeis dele
haviam lhe acariciado os seios, despertando-lhe uma sensação vertiginosa.
Aquelas imagens ardentes, todavia, desapareceram ante a lembrança do
sorriso irônico que ele exibira, ao final de tudo.
Vanessa procurou se convencer de que aqueles momentos não passaram de
um sonho e que precisava esquecer. Ao que tudo indicava, Morgan não deixava de
ser um conquistador barato, que se aproveitava das mulheres e depois as descartava.
Mas, então, como explicar o modo delirante como ele a beijara? Como
ignorar a paixão que aqueles olhos acinzentados exprimiam no momento em que
trocavam beijos e carícias tão íntimas?
Sem resposta para as dúvidas que a atormentavam, Vanessa procurou pensar
em coisas mais agradáveis que, no caso, eram as reações de Trudy e Clement diante
das últimas novidades. Derek Morgan pagaria caro pelo que fizera, assim que seu
pai tomasse conhecimento de tudo, consolava-se.
Aguardava ansiosamente o momento em que Trudy pedisse para falar a sós
com Clement. Isso aconteceria antes ou depois do café? Sem querer perder a cena
por nada do mundo, Vanessa apressou-se em se vestir.
No íntimo, porém, continuava deprimida. Inexplicavelmente, a esperança de
reaver o emprego na companhia de turismo já não a animava como antes.
Preocupava-se mais com o sorriso cruel que Derek Morgan lhe dirigira antes
de sair do quarto de hóspedes...
Como que para compensar o estado de espírito em que se encontrava,
escolheu uma bermuda estampada e uma blusa decotada, de cor viva. Penteou os
cabelos e os prendeu numa trança, apressando-se em sair do quarto, pois a solidão
das quatro paredes começava a sufocá-la.
Ao fechar a porta e alcançar o corredor, ponderou que seria forçada a mentir
para o pai, contrariando os princípios de honestidade que sempre cultivava. Mas
decidiu ir até o fim naquela farsa, pois não havia outra maneira de reaver o cargo na
Thompson. Além disso, Derek Morgan praticamente a obrigara a entrar no jogo.
Desceu as escadas, em direção à copa para tomar a refeição. Mas, ao perceber
que Derek se achava sozinho à mesa, deu meia volta para disfarçar o rubor que lhe
subia às faces.
Notando-lhe o embaraço, ele provocou:
- Perdeu o apetite, de repente?
Vanessa sentiu a raiva crescer, mas, antes que pudesse responder à altura, seu
pai apareceu e também sentou-se à mesa.
Ela engoliu em seco. Só lhe restava tomar lugar ao lado dele.
Enquanto manuseava os talheres, tentava definir uma linha de ação.
Deveria assumir uma postura de inocência ultrajada, com ares de indignação,
ou apatia? Ou quem sabe seria melhor demonstrar uma tristeza inconsolável?
Incerta, olhou para o pai, sem sorrir.
- Você está tão séria, minha filha! Parece que não descansou bem a noite
passada...
Clement olhou para ela com ares interrogativos. Vanessa, porém, limitou-se a
baixar a vista e a mastigar um pedaço de bacon.
Estava satisfeita que o pai tivesse reparado em suas olheiras, pois isso
reforçaria o que Trudy contaria mais tarde.
A governanta trouxe uma bandeja de sonhos recheados com geléia e a
colocou sobre a mesa. Sem dizer uma palavra, manteve a fisionomia fechada,
retirando-se a seguir.
Clement tornou a encarar a filha, atônito e ao mesmo tempo constrangido.
- Que bicho mordeu Trudy? Ela nunca se comportou dessa maneira!
- Não sei. - Vanessa falou, evasiva, procurando imprimir o maior realismo
possível a seu papel de inocência ultrajada.
- Ora, mas isso não pode ficar assim! Mais tarde terei uma conversa com ela.
Espero que não se impressione, Morgan, nossa governanta é muito temperamental.
- Não se preocupe comigo, sr. Thompson - Derek o tranqüilizou, com um
brilho misterioso no olhar. - E, por falar em conversa, eu gostaria de ter uma
palavrinha com o senhor, antes que fosse para o escritório.
- Mas é claro. Poderemos conversar assim que terminarmos o café.
"O que Morgan estaria tramando? questionou Vanessa, balançando
nervosamente as pernas sob a mesa.
A atitude dele parecia-lhe suspeita. A probabilidade de discutir negócios com
Clement àquela hora da manhã era mínima... Assim, só restaria uma alternativa: o
assunto da conversa tinha algo a ver com a cena que Trudy presenciara no quarto de
hóspedes!
Olhando-o de soslaio, buscou no semblante másculo alguma pista que
esclarecesse a sua real intenção, mas nada conseguiu descobrir. O rosto de Derek
Morgan permanecia impassível, sem demonstrar nada além de um apetite excelente
e um irritante bom humor...
Vanessa queria encontrar uma forma de impedir que os dois conversassem em
particular, mas, no auge da aflição, foi incapaz de pensar numa solução.
Por mais que procurasse adiar o fim da refeição com perguntas relativas ao
andamento dos negócios na companhia, depois de certo tempo, todos ficaram
satisfeitos e só lhe restou a alternativa de aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
Foi com visível inquietação que ela os viu entrar na biblioteca.
As suposições mais absurdas lhe passaram pela cabeça até que, impotente,
desistiu de tentar adivinhar o que falavam. Mas de uma coisa estava certa: detestava
Derek Morgan. Por causa dele perdera o cargo que lhe era destinado. E, agora, por
culpa dele, talvez precisasse enfrentar a ira do pai, pois, caso estivessem discorrendo
sobre o que acontecera no quarto de hóspedes, na madrugada, ela estaria em maus
lençóis!
Já antevia a hora em que Clement abriria a porta da biblioteca com os olhos
chispando, tornando a vida dela um verdadeiro inferno...
Nervosa, começou a andar em círculos pela copa. Sem poder conter a
ansiedade, mudava os objetos de lugar, sem lembrar-se de que Trudy ficaria furiosa.
De minuto a minuto seus olhos eram atraídos para a porta da biblioteca que,
para seu desespero, continuava fechada.
Receava escutar a voz alterada do pai, entretanto, tudo o que podia escutar
eram murmúrios abafados.
Ficava horrorizada ao imaginar que coisas Morgan poderia estar dizendo para
colocar Clement contra ela. Desanimada, Concluiu que desta vez não poderia contar
com o apoio de Trudy. Estaria ilhada na mansão, cercada por olhares de
desaprovação.
Para surpresa de Vanessa, não foi Clement que saiu primeiro da biblioteca,
mas Derek Morgan. Jovial, ele se aproximou dela.
- Suponho que meu pai já esteja sabendo de tudo..
- Bem, você preferiria que fosse a governanta a lhe dar a notícia?
- Ah, então você falou!
Sem se preocupar em esconder os sentimentos, Vanessa deixou-se cair na
cadeira mais próxima, com uma expressão de aniquilamento estampada no rosto.
"Adeus, Thompson!", lamentou consigo mesma, pois, pelo visto, seu plano ia
de mal a pior.
A voz grave de Morgan interrompeu-lhe os pensamentos, deixando-a ainda
mais estarrecida:
- Mas eu não disse tudo.
- Ah, quanta gentileza! - Vanessa retorquiu com rispidez, alarmando-se com o
brilho indecifrável que transparecia nos olhos dele.
- Não há por que agradecer. Na verdade, vim avisá-la de que seu pai quer lhe
falar. Ele está esperando por você na biblioteca.
- Ora, não me diga! Você o convenceu a me dar umas palmadas?
- Não, eu nem ousaria. Mimada como é, duvido que algum dia ele tenha lhe
encostado um dedo!
- Vá para o inferno! - Sem se dignar a olhá-lo, Vanessa foi ao encontro do pai.
À medida que se aproximava da biblioteca, porém, sentia o coração disparar.
Respirou fundo e transpôs a porta, decidida a lutar até as últimas conseqüências.
Esperava a pior das acolhidas e preparava-se para enfrentar uma ladainha de
cobranças e reprimendas. No entanto, confortavelmente instalado na cadeira de
balanço, Clement recebeu-a com um sorriso.
Sem poder compreender, Vanessa puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente,
olhando para ele cheia de expectativa.
O pai pigarreou, parecendo escolher cuidadosamente as palavras.
- Eu me esforço para entender sua geração. Tento ser liberal e compreensivo,
aceito que você vá festas que terminam a altas horas, usando um vestido apertado e
uma luva só.
Vanessa pressentiu que aquela era apenas a introdução de um longo sermão.
"Mas o que estava acontecendo, afinal?", indagou-se, lamentando que não tivesse
lhe ocorrido a idéia de escutar por trás da porta a conversa entre Morgan e seu pai.
Assim, poderia defender-se melhor, sem ter de sondar Clement para descobrir em
que terreno estava pisando.
- Não negarei que estou muito desapontado com você, filha. Trabalhei duro
para lhe proporcionar um lar e uma educação decentes.
Vanessa não o interrompeu. A expressão triste de Clement a fazia remoer os
remorsos e ela prometeu a si mesma que tentaria ser uma boa filha, para não
decepcioná-lo mais.
Reconhecia que seu pai lhe dera uma vida privilegiada, merecendo carinho e
compreensão ao invés de rebeldia. Daí por diante, começou a enumerar
mentalmente uma série de coisas que faria para agradá-lo, esquecendo-se até de
ouvir o que ele dizia.
Uma frase, porém, a fez despertar de seus devaneios, apagando qualquer traço
de arrependimento e avivando toda a raiva anterior:
- Morgan, é claro, responsabilizou-se por tudo.
- Ele o quê? - Vanessa perguntou, corando de exasperação.
- É óbvio que ele tomou para si toda a responsabilidade.
- Humm. e por que ele faria isso?
- A despeito do que aconteceu, Morgan é um homem honrado. Ele me contou
como vocês dois perderam a cabeça e... e... - Clement não sabia como continuar e
calou-se, constrangido.
- Perdemos a cabeça? - Involuntariamente ela passou a mão pelos cabelos
sedosos, sentindo um arrepio ao recordar o modo selvagem como Derek a tomara
nos braços.
Decerto que perdera a cabeça ao envolver-se com ele. Morgan, entretanto,
estava longe de ter se descontrolado, e a prova disso estava na maneira como ele a
olhara depois de quase fazerem amor!
Por que Morgan teria mentido? Qual a vantagem em distorcer os fatos? Na
realidade ele só estava reforçando o plano dela, ao tomar para si a responsabilidade
do que acontecera... Vanessa percebia que algo estava errado, entretanto não sabia
exatamente o quê. Por precaução, permaneceu em silêncio, na esperança de que o
pai fosse mais explícito e terminasse por inteirá-la do que conversara com Morgan.
Mas Vanessa por pouco não caiu da cadeira ao escutar o que Clement lhe
disse em seguida.
- Em suma, minha filha, na qualidade de um homem íntegro, ele quer se casar
com você.
- Casar comigo?! - ela repetiu, sem conseguir assimilar a importância do que
acabara de ouvir.
A estupefação de Clement não era menor. Mostrava-se tão transtornado
diante dos últimos acontecimentos, que não notou o efeito que suas palavras haviam
causado na filha.
Pensativo, olhou através da janela e, após uma pausa, prosseguiu:
- Naturalmente eu preferiria que você tivesse se controlado. Afinal, mesmo
sentindo uma atração irresistível por ele, você mal o conhecia... Ah, Vanessa, eu
bem lhe avisei que essa história de chegar tarde em casa ainda lhe traria problemas!
Se você chegasse mais cedo, teria tempo de pensar melhor e, quem sabe... - Clement
gaguejou, incapaz de completar a frase.
Vanessa sorriu diante do embaraço dele, percebendo que o pai até se
confundia com os argumentos.
- Sei como se sente, papai, mas...
- Eu compreendo. Mesmo um homem íntegro como Derek não pode lutar
contra as emoções, quando elas surgem de repente. Lembro a primeira vez que vi
sua mãe, no baile de formatura da faculdade.. Estava tão linda, com um vestido
branco e uma flor nos cabelos! Eu a convidei para dançar uma valsa e...
- Mas você entendeu tudo errado! Eu não quero me casar com ele!
- Não, filha, eu conheço você melhor do que imagina. Não negue os
sentimentos em nome do feminismo, do socialismo e das coisas todas que a
juventude prega. Casar não é tão grave assim e eu lhe garanto que não vai abalar as
suas convicções políticas. Pense só, você entrando na igreja com um longo vestido
branco...
- Eu não vou me casar!
- Está certo, não precisa ser um vestido longo. Acho que hoje em dia a igreja
já se modernizou a ponto de aceitar uma noiva de minissaia. Humm. O que lhe
parece? Você entrando na igreja de mini branco. Não é terrivelmente subversivo?
Vanessa ficou desnorteada e lastimou não poder corresponder às expectativas
do pai. Mas como deixá-lo sonhar com um casamento que ela não tinha a menor
intenção de realizar?
- Eu já disse, não vou me casar com ninguém, por enquanto. Papai, veja bem..
- Querida, eu sei que a paixão é uma emoção muito particular, mas por que
não compartilha os sentimentos comigo, em vez de negá-los? Sou seu pai e desejo o
melhor para você!
- Mas. eu não estou apaixonada.
Clement olhou para Vanessa com um rasgo de incredulidade e depois meneou
a cabeça.
- Por que insiste em esconder que ama Derek? Não é vergonha alguma sentir
amor à primeira vista. Eu tenho um amigo que se apaixonou perdidamente por uma
mulher que viu no trem, quando viajava para a Califórnia.
- Ah, é? E que fim levou ele? - Vanessa perguntou, com súbito interesse.
- Bem, não deu nada com a tal mulher do trem e, mais tarde, casou-se com
outra, que conheceu por intermédio do correio sentimental de uma revista.
- Está vendo? Nem tudo é como nos filmes - Vanessa retrucou, desanimada.
E, assumindo um tom enérgico: - Por que não acredita em mim, papai? Não sou
mais criança e tenho plena consciência do que digo!
Apesar de todo o esforço que ela fazia para convencê-lo, Clement continuou
balançando a cabeça. E de repente a benevolência desapareceu para dar lugar a uma
expressão de zanga:
- Lá vem você com a eterna teimosia! Aqui está um homem que se dispõe a
tirá-la da situação embaraçosa em que Trudy a encontrou, de manhã. Além disso,
não é um homem comum, é alguém que lhe despertou emoções muito fortes, pois,
do contrário, não teria ido para a cama com ele, sem mais nem menos. E você ainda
insiste em me dizer que não quer se casar!
- Você fala como se esse casamento lhe conviesse muito! ela acusou,
ressentida.
- Não é isso, Vanessa..
- Pois então seja claro: o que acontecerá se eu não me casar com Morgan?
Não ignoro que Trudy sofreu um grande choque, mas.
- A sra. Truemann teve o maior abalo de sua vida, apenas isso!
- Você quer que eu me case, mas por quê? com certeza não é apenas pela
reação de Trudy! Que poder Derek tem sobre você, para fazer com que deseje tanto
esse casamento? Quero saber o que ele tramou! - Vanessa levantou-se e começou a
andar pelo aposento. - Vamos papai, diga logo.
- De que está falando? - Clement a seguia com os olhos, com uma expressão
intrigada no rosto.
- Da mesma forma como ele coagiu você a lhe dar o cargo na Thompson, está
fazendo chantagem para você me obrigar a casar, não é?
- Mas não existe chantagem, filha! Deus me perdoe, mas o que anda passando
pela sua cabeça?
- Como assim? Eu não acredito! Você sabia muito bem o que significava o
cargo que me prometeu!
- Eu não tive outra alternativa. - Clement justificou, cabisbaixo.
Vanessa passou a língua pelos lábios ressecados, impaciente. Faltava pouco
para seu pai lhe dizer a verdade. Então ela saberia qual fora o truque sujo utilizado
por Morgan.
- Que chantagem ele fez com você?
- Chantagem? Não houve nada disso. Não fosse por Derek, a companhia
estaria falida, Vanessa.
- Falida? O que quer dizer com isso?
- Eu não quis preocupar você. mas.
- Como poderia estar à beira da falência, se fez investimentos colossais ainda
no mês passado?
- Por isso mesmo. Eu me vi forçado a dispor de uma soma enorme para salvar
a Thompson de dívidas.
- Por que não me disse? Eu tenho parte na herança de mamãe; é só passá-la
para seu nome!
- Não daria nem para o começo. Quando falo de dinheiro, refiro-me a uma
soma vultosa!
- Derek Morgan é tão rico assim?
A única coisa que importava a Vanessa naquele momento era o futuro da
empresa. Diante disso, o fato de casar ou não com Morgan passava para segundo
plano.
- Eu tive sorte em cruzar com Derék em meu caminho Clement continuou. -
Na ocasião, ele estava à procura de um bom investimento. E, é claro, seria
inconcebível que aplicasse tanto dinheiro e não fosse querer tomar parte nas
decisões da diretoria. Ele exigiu o cargo?
- Não, nem mencionou o assunto. Fui eu que o ofereci; achei que era mais do
que justo.
Vanessa ficou pensativa, sentindo-se culpada por não prestar mais atenção
com o que ocorria à sua volta. Agora recordava como seu pai se mostrara
apreensivo, meses atrás, mas, na época, nem dera importância ao fato, continuando a
levar a vida despreocupada a que estava acostumada.
A indignação que sentira ao entrar na biblioteca dissipou-se por completo,
dando lugar a uma intensa inquietação.
- Gostaria que tivesse me contado tudo antes, papai. Num impulso, Vanessa
saiu, séria e compenetrada. Uma ruga de preocupação vincava-lhe o rosto.
Subiu para o quarto, apanhou a bolsa e uma jaqueta e encaminhou-se para a
porta da rua.
Derek Morgan surgiu à sua frente, bloqueando-lhe a passagem.
- Por favor, deixe-me passar. Se me dá licença, quero dar uma volta. -
Constrangida, Vanessa abaixou os olhos, pois notara que ele a observava
atentamente.
- Quer companhia?
Com um gesto de cabeça, ela deu a entender que precisava ficar sozinha e,
deprimida, saiu de Wood House.

CAPÍTULO VII

Vanessa vagava pelas ruas da zona central da cidade sem perceber pessoas,
lojas e vitrines. Nada tinha importância para ela.
Contrariando os hábitos, entrou numa charutaria e comprou um maço de
cigarros. A seguir, parou num bar e pediu um copo de vinho branco.
Indiferente ao que se passava à sua volta, fumava e bebia sem pressa,
enquanto mantinha o olhar fixo no movimento da rua, através da grande janela
envidraçada.
Em outra mesa, um rapaz olhava para ela com insistência. Era bem
apessoado, moreno de olhos castanhos, e trajava roupa esporte. Num dado
momento, aproximou-se e perguntou-lhe se tinha fósforos para acender o cigarro.
Vanessa limitou-se a estender-lhe o isqueiro, apática, sem perceber que estava
sendo cortejada. Na verdade, o pensamento dela estava em casa. A simples idéia de
que o pai tivesse sofrido pressões de ordem financeira, suportando sozinho o peso
das responsabilidades com a Thompson, causava-lhe uma incrível angústia. A
tristeza aumentava quando tentava entender a proposta de casamento de Derek.
Quanto mais procurava justificá-la, mais a ansiedade tomava conta dela.
Desanimada, pagou a conta e caminhou em direção ao Central park. Sentou-
se num banco, contemplando as árvores frondosas que a cercavam e a revoada dos
pombos de penugem furta-cor.
Qual o motivo que teria levado Morgan a responsabilizar-se por tudo,
ocultando de Clement o quanto ela fora leviana? Talvez desejasse poupar seu pai de
maiores desgostos. Mas, ainda assim, a decisão de desposá-la era de um extremismo
exagerado e não fazia sentido!
- Oh, Deus! - disse em voz alta, sem perceber que estava atraindo a atenção
das pessoas que passavam na rua.
Via-se numa encruzilhada, pois não concebia a idéia de unir-se a um homem
que repudiava e, ao mesmo tempo, sentia-se na obrigação de solidarizar-se com a
situação difícil do pai, ainda que precisasse submeter-se a uma farsa.
Por outro lado, não havia como negar que se enganara em relação a Derek
Morgan. Ao que tudo indicava, ele ignorava a promessa que Clement fizera de
passar o cargo a ela e além disso, sua entrada na Thompson salvara a empresa da
falência.
Precisava ponderar todos esses dados, a fim de chegar a uma decisão final.
Mas seria difícil encontrar uma solução ideal, em vista das pressões que vinha
sofrendo.
O conflito aumentava dentro dela. Como desapontar seu pai, informando que
não pretendia casar com Derek, depois de todas as dificuldades que Clement havia
enfrentado? Ele nunca mais teria dignidade para olhar o sócio dê cabeça erguida!
De uma coisa, porém, estava certa: nunca confessaria o plano que a fizera
entrar no quarto de hóspedes. Seu pai jamais a perdoaria!
Em meio às reflexões, Vanessa concluiu que precisava esclarecer a proposta
de casamento com Morgan. Só depois estaria em condições de tomar uma decisão
acertada. Caminhou pelas ruas que havia seguido e entrou no carro. com um longo
suspiro, deu a partida e rumou para Wood House.
Ao entrar em casa, Vanessa deparou com Trudy, que se ocupava em polir os
objetos de prata da cristaleira. Cumprimentou-a com um sorriso, sem graça, mas a
governanta não lhe dirigiu sequer um olhar.
Fingiu ignorar o pouco caso de Trudy e foi direto ao assunto.
- Onde está o sr. Morgan? Ele já saiu?
- Não. Seu pai foi para o escritório e o sr. Morgan se encontra no quarto de
hóspedes.
Mais nervosa do que desejaria admitir, Vanessa atravessou o saguão e subiu
os degraus da escada em direção ao segundo andar. E se ele confirmasse aquela
proposta maluca? O que faria? Hesitou um pouco diante da porta, mas em seguida
entrou sem bater.
Morgan a encarou por alguns instantes e continuou a guardar seus pertences
numa maleta, que estava aberta sobre a cama.
Desconcertada, ela viu que Derek lhe ignorava a presença. Teve o ímpeto de
fugir dali, mas era imprescindível esclarecer a questão do casamento.
Simulando um ar de naturalidade, Vanessa sentou-se numa cadeira e esperou
uma oportunidade para falar.
Só depois de fechar a mala, Morgan olhou para ela com uma expressão
interrogativa. Depois de observar-lhe o rosto, seus olhos acinzentados pousaram nas
longas e bem torneadas pernas, sensualmente cruzadas.
Vanessa sentiu o rubor subir-lhe às faces e, embaraçada, descruzou as pernas.
Pela fisionomia de Derek, teve quase certeza de que ele estava fazendo um enorme
esforço para não rir.
Rígida na cadeira, enfiou as mãos nos bolsos da saia e procurou adotar uma
postura descontraída. Não lhe agradava ser objeto de riso de Morgan mais uma vez;
todavia, era o que menos importava no momento.
Precisava ser forte e vencer o medo.
Notando a situação pouco agradável em que Vanessa se encontrava, Morgan
conteve a vontade de dar umas boas gargalhadas.
- A que devo o prazer desta visita? - indagou, com um brilho divertido nos
olhos.
- Relaxe. Não estou arquitetando nenhum plano diabólico - ela retrucou.
- Mudou de idéia?
Cruzando as pernas outra vez, Vanessa projetou o queixo numa atitude
desafiadora. Gostaria de lhe dizer uma porção de coisas pouco lisonjeiras, mas
achou melhor conter a agressividade, pois não ganharia nada com isso. Em vez de
insultá-lo, afundou mais as mãos nos bolsos e, mentalmente, contou até dez.
- Papai me disse que você quer se casar comigo.
- Sinto informá-la, mas está enganada. Eu nunca quis casar com você. - Os
olhos acinzentados de Morgan faiscavam, enquanto a voz pausada revestia-se de
extrema frieza. Ele recolheu alguns papéis sobre a escrivaninha e virou-se de costas
para Vanessa.
Ela arregalou os olhos e, atônita, acompanhou-lhe os movimentos seguros.
Viu-o guardar os papéis numa pasta ao lado da maleta e depois, voltar a encará-la.
- Não compreendo... Você disse a meu pai que pretendia...
- Eu falei que me casaria com você. É bem diferente de querer casar.
- Se eu estou entendendo, você vai se casar comigo porque se sente na
obrigação de reparar... o deslize que cometeu, enquanto hóspede de meu pai, não é?
Ainda que contrariando seus sentimentos... - Ela se esforçou para engolir a
humilhação.
- Tenho motivos para agir assim.
- Escute aqui, se o problema é a sra. Truemann, pode esquecer. Já enfrentei os
olhares de desaprovação da fera e sei como contornar a situação.
- Quer dizer que você está habituada a ir para a cama com todos os homens
que seu pai hospeda? Muito interessante!
- Guarde com você essas conclusões precipitadas. Você foi o primeiro e,
felizmente, eu aprendi a lição!
Vanessa estava prestes a explodir e deixar de lado todas as noções de boas
maneiras, mas um olhar ameaçador fez com que se calasse.
Derek havia dado um passo à frente e contraía os maxilares com raiva,
parecendo mais alto do que nunca. Ela sentiu-se frágil e indefesa, e, com um
estremecimento, prendeu a respiração.
- Pelo menos sinto-me útil. Graças a mim, os futuros hóspedes de Wood
House poderão descansar em seus quartos com segurança!
Vanessa olhou para Morgan com ódio, demonstrando o seu desagrado. Diante
disso, ele acrescentou, num tom rude:
- Será que você não pode medir as conseqüências que esse tipo de aventura
pode trazer? Outro, no meu lugar, não hesitaria em se aproveitar da situação!
- É problema meu! Sou bastante crescida para me cuidar, sabia? - Apesar da
resposta, ela desviou os olhos, mordendo o lábio. Morgan tinha razão e ela precisava
admitir o quanto fora insensata. Era próprio da sua personalidade mostrar-se às
vezes demasiado cautelosa e, outras vezes, agir impulsivamente, sem usar a razão.
Não havia uma situação de equilíbrio.
O que mais a deixava irritada era o fato de Morgan ter descoberto sua
fraqueza, quando mal a conhecia. Sentia-se vulnerável e temia a possibilidade de
ficar à mercê daquele homem. E se ele não tivesse se deixado dominar pelos
escrúpulos? Teriam ido até o fim, ela acabaria se entregando! As emoções que
experimentara nos braços de Derek tinham sido profundas demais...
- Você achou que sua pretensa ingenuidade a protegeria de um ataque? - ele
interrompeu-lhe o devaneio. - Pois aprenda uma coisa: nem todos os homens
resistem quando uma mulher os procura na cama!
- Por quem você me toma? Não me julgue pelo que aconteceu hoje de manhã!
Eu não vou para a cama com o primeiro que aparece, eu. eu nunca. - Vanessa calou-
se, fora de si. De repente, uma idéia lhe surgiu. - Você parou porque percebeu que
eu sou virgem? Você. sabia disso?
Morgan ficou perplexo, sem dizer uma palavra. Depois, tomando fôlego,
explodiu:
- Meu Deus! Será que não percebe o risco que correu, oferecendo-se daquele
jeito?
- Eu conhecia os limites e o impediria de se exceder, no momento exato. Não
me julgue uma tola e, muito menos, tente me dar lições de moral! As aulas de
educação sexual que tive na escola foram suficientes!
- Não, Vanessa. Naquele momento você me desejava e teria ido até o fim. Se
estivéssemos sozinhos, você sabe melhor do que eu qual seria o desfecho da sua
visita ao meu quarto.
Ela desviou os olhos, para que eles não confirmassem a verdade que aquelas
palavras continham. Veio-lhe à memória a firmeza do corpo másculo contra o seu,
arrancando-lhe gemidos de prazer.
Tornou a observar o corpo esguio que horas atrás estivera tão perto do dela,
quente e sensual, enquanto Derek a examinava com um olhar penetrante, como que
querendo entrar nos seus pensamentos.
Ele usava uma calça de linho bege e as mangas arregaçadas da camisa branca
deixavam à mostra os braços fortes, cobertos de pêlos aloirados.
Sem conter a curiosidade de estudá-lo com mais atenção, Vanessa mediu-o de
cima a baixo, demorando-se na curva da boca bem desenhada, no nariz aquilino e no
par de olhos que pareciam atiçá-la com um convite silencioso...
A sensualidade que transbordava naquele olhar era inebriante e, perturbada,
Vanessa levantou-se e foi para a outra extremidade do quarto, ficando de costas para
ele.
- Bem, acho melhor conversarmos outra hora.
- Para acertarmos os detalhes do casamento?
- Mas, eu pensei que você não quisesse se casar comigo! - Vanessa virou-se,
mas, antes que pudesse raciocinar, Derek a enlaçava com os braços musculosos.
Sensações de prazer tornaram a invadi-la. Ela deixou-se beijar sem oferecer a
menor resistência. Morgan aprofundou o beijo e começou a deslizar as mãos pelas
curvas delicadas do corpo dela, acariciando a pele nua por baixo da blusa.
Atendendo a um frágil apelo da consciência, Vanessa tentou afastá-lo, mas só
conseguiu esboçar um gemido de protesto. Não havia como desvencilhar-se daquele
abraço. Estava presa entre o corpo másculo e a parede.
Precisava mante-lo distante, pensou, para lutar contra o desejo imperioso que
a assaltava e a impedia de retribuir àquelas carícias abrasadoras.
Precisava fugir..
No entanto, como se o corpo fosse dominado por alguma vontade estranha,
ela se abandonou ao sabor das emoções e rodeou-lhe o pescoço, afagando os cabelos
loiros e roçando os seios no peito largo.
De súbito, recuou, sobressaltada. E se ele encarasse o contato dos dois como
uma mera brincadeira? Pois não havia zombado dela, logo depois de quase terem
feito amor?
- Solte-me, Derek! Não quero que Trudy presencie outra cena!
- Não seja boba. Depois do que aconteceu, ela nunca mais entrará aqui sem
bater.
- Olhe, que tal pararmos por aqui e esquecermos essa farsa de casamento?
- De jeito nenhum - ele retrucou num sussurro, continuando a beijá-la no
pescoço.
- E você pensa que eu vou concordar em me casar por conveniência? jamais!
- Vanessa respondeu, sentindo uma onda simultânea de frio e calor, enquanto
Derek deslizava a língua em seu colo macio.
De repente, Morgan deixou as mãos caírem ao longo do corpo e reassumiu a
pose agressiva.
- É claro que se casará comigo. Você não tem escolha, srta. Thompson!
- É uma ameaça?
- De forma alguma. Mas eu sei que você não magoaria seu pai por nada no
mundo.
Irritada, Vanessa deu alguns passos em direção à porta, procurando ganhar
tempo. Mais uma vez, Morgan atacava seu ponto fraco, pressionando-a a ceder.
Resolveu verificar até onde ia a perspicácia dele.
- E o que mais você sabe, Derek Morgan?
- Nada de muito especial. Afinal, não estou a par dos problemas da família
Thompson... Sei apenas que Clement lhe contou como eu salvei a companhia da
falência.
- Vamos, acabe com os rodeios! Aonde quer chegar?
- É muito simples: eu ajudo seu pai, com a condição de não ser contrariado.
Não havia mais nenhum traço de zombaria nos olhos de Morgan e Vanessa o
encarou, sentindo que uma terrível ameaça pairava no ar.
- Você está blefando! O contrato com meu pai já foi fechado e legalizado!
- Com efeito, está tudo em ordem. Mas existe uma cláusula no contrato que
me confere certos direitos. Como por exemplo retirar meu capital da companhia, se
eu não estiver satisfeito com o andamento dos negócios.
Vanessa estremeceu, num misto de pavor e raiva. Então, Morgan era mais
esperto do que imaginava! Lastimou sua ingenuidade ao pensar que conseguiria
trapaceá-lo, Tudo fora em vão. Agora, não só ele permaneceria na Thompson como
ainda a obrigaria a se casar com ele. No mínimo, pretendia entrar na família para
depois exigir o controle total da empresa.
E tudo por culpa dela! Não fosse sua infeliz tentativa de incriminá-lo, ainda
haveria tempo de virar a mesa.
Mas estava feito. Dera-lhe, de mão beijada, a oportunidade de se apoderar da
companhia e não podia, àquela altura dos acontecimentos, desesperar-se. Era
imprescindível manter a calma, pois haveria de surgir uma forma de contornar a
situação. Assim, com cautela redobrada, perguntou:
- Quer dizer que, se eu não concordar em me casar com você, vai usar a
cláusula do contrato?
- Bem, entenda como quiser. Só acho que seu pai não merece mais dores de
cabeça.
- E quanto a Selene Astorn? Vocês não estão noivos? Vanessa agarrou-se ao
último trunfo que tinha nas mãos.
Derek não respondeu. Arqueando as sobrancelhas, comentou com ar
distraído:
- A propósito, foi bom você ter tocado no assunto. Não vejo nenhum anel de
noivado no seu dedo. Isso significa que não há empecilhos para o nosso casamento?
Tomada de surpresa, Vanessa deixou que a sinceridade falasse mais alto e não
se preocupou em esconder os sentimentos.
- Nunca tive intenção de me casar com Bob. Nenhum homem jamais me fez
experimentar as sensações que tive hoje.
Arrependeu-se imediatamente de suas palavras, mas era tarde para voltar
atrás. Baixando os olhos, preparou-se para escutar a réplica sarcástica dele, que,
entretanto, não veio.
Parecendo compreender a intensidade das emoções de Vanessa, Derek
limitou-se a sorrir com carinho.
- Você ficou desorientada com o que aconteceu, não é?
A expressão dele suavizara e ela descontraiu um pouco. Continuava, porém, a
buscar uma maneira de escapar das pressões.
- Isso não vem ao caso. Eu só preciso saber se esse casamento será baseado
nas aparências ou se... você tem em mente um casamento no pleno sentido da
palavra?
- Por quê? Você tem alguma razão especial para preservar a virgindade?
- É claro! Já não basta ser forçada a aceitar um casamento por conveniência?
- Pense bem, Vanessa. Nós poderíamos nos divertir muito...
- Isso não faz sentido! Que prazer você pode sentir em possuir uma mulher
que o odeia? É esse o seu ideal de casamento? Pois eu, no seu lugar, teria mais
amor-próprio!
- Se você me odiar como demonstrou no quarto, para mim está ótimo.
Vanessa engoliu em seco, incapaz de defender-se. Ao recordar-se da maneira
ardente com que respondera às carícias, ficava cada vez mais confusa.
- Eu estou certo de que você não poupará sacrifícios pelo seu pai, não é?
- Está bem. Digamos que eu me submeta a esse casamento. Você conhece
meus motivos. Mas... e os seus?
- Meus?
- Sim. Eu me caso para salvar meu pai da falência e de um possível ataque
cardíaco. E você, o que ganha levando essa farsa adiante? - impaciente, Vanessa não
disfarçou a acusação implícita em suas palavras.
- Seja mais clara.
- Escute aqui, você pode ser mais esperto do que eu, mas não sou nenhuma
burra!
- E quem falou que você é burra? Tenho todo o respeito por sua inteligência.
- Não desconverse! Tanto quanto eu, você não tem a menor vontade de se
casar. A indignação de Trudy é um pretexto precário demais para me fazer acreditar
que você decidiu "salvar as aparências". Qual é o verdadeiro objetivo? Chegar à
presidência da companhia?
Morgan empalideceu, com raiva, mas em seguida falou num tom brando:
- Você pensou em tudo, mas sinto desapontá-la. Já tenho muito com que me
preocupar, para querer arcar com o peso da presidência da Thompson!
- Então me diga por que quer se casar comigo, se não me ama e, além disso,
já tem uma noiva!
A expressão grave dele foi substituída por um largo sorriso, irritando-a ainda
mais. Morgan aproximou-se e, com a mão espalmada sobre o coração, fez uma
careta.
- E se eu lhe dissesse que estou perdidamente apaixonado por você? Não
sabia, com toda a sua experiência, que pode haver amor à primeira vista?
- Ora, vá para o inferno! Não há acordo com você!
As zombarias de Morgan já estavam ultrapassando os limites. Sem conseguir
se controlar por mais tempo, ela saiu do quarto, batendo a porta com força.
Depois de apanhar a bolsa, desceu as escadas como um furacão e, instantes
depois, entrava no possante Mercedes, para sair em alta velocidade.
Sem prestar atenção no trânsito, só percebeu que estava nas principais
avenidas de Manhattan quando teve de enfrentar um forte congestionamento.
Parada num farol, percebeu que suas pernas tremiam e achou mais sensato
estacionar e esperar o nervosismo passar. Só lhe faltava sofrer um acidente, pensou.
Seguiu por uma via secundária e parou o carro numa rua sem saída.
Exausta e furiosa, fez um esforço enorme para relaxar.
Por fuga da realidade ou apenas em virtude de cansaço acumulado, sentiu o
sono se apossar dela e recostou-se no banco para dormir. Não agüentava mais
continuar pensando na confusão em que se metera...

CAPÍTULO VIII

Já era noite quando Vanessa acordou. Logo que abriu os olhos, despertando
de um sono tumultuado e povoado de pesadelos, levou um susto. As luzes da rua
ofuscavam-lhe a vista e demorou alguns instantes para se lembrar de onde estava.
Ainda piscando, atordoada, percebeu que estava ali há várias horas. A
primeira reação que teve foi retesar o corpo e examinar o beco, pois, pelo tempo que
passara inconsciente no carro, era um milagre que não tivesse sido assaltada!
Deu a partida e fez a manobra para sair dali, seguindo pela Quarta Avenida.
Os bares e lanchonetes que se alinhavam ao longo das calçadas a fizeram lembrar
que não havia comido nada desde a hora do café. Sentindo uma fome súbita,
procurou um lugar para jantar.
O horário do rush tornava as ruas praticamente intransitáveis, e Vanessa
tratou de estacionar na primeira vaga que encontrou.
Andou alguns quarteirões a pé, à procura de um lugar adequado, até decidir-
se por um restaurante chinês.
Sentou-se numa mesa de fundo e, após pedir uma porção de frango xadrez,
foi ao toalete lavar o rosto e pentear os cabelos.
Ao retornar â mesa, ficou bebericando uma dose de saque morno, enquanto
esperava pela comida.
Quando o frango foi servido, o apetite aumentou. Entrementes, à medida que
suas idéias clareavam, o problema relativo ao casamento com Derek Morgan voltou
a atormentá-la.
Continuava sem saber como agir e, quanto mais refletia, mais confusa ia
ficando. A cabeça latejava e sentimentos contraditórios tomavam conta dela. O que
diria a seu pai quando ele mencionasse o casamento?
Desanimada, pagou a conta e preparou-se para voltar a Wood House.
Uma vez dentro do carro, porém, sentiu-se impotente para enfrentar Clement
e resolveu passear pela cidade.
O último filme de Spielberg estava em cartaz num dos cinemas da Broadway
e Vanessa resolveu assisti-lo para espairecer um pouco.
Durante duas horas, deixou de lado as inquietações que a afligiam para vibrar
com as estrepolias dos personagens da fita. Aquele mundo de fantasia e aventura,
entretanto, não podia afastá-la pára sempre das preocupações. A realidade era
implacável e não seria possível protelar indefinidamente uma decisão.
Caso se recusasse a casar com Morgan, que artifício usaria para dissuadi-lo de
apelar para a cláusula do contrato? Já tentara todos os argumentos, inclusive Selene
Astorn, sem sucesso. Que fazer então?
A imagem de Derek Morgan veio-lhe à mente e tentou analisado. Descobriria
o ponto fraco dele, nem que para isso tivesse de fundir o cérebro!
Com a firme determinação de arranjar um meio de convencer o "inimigo" a
capitular, Vanessa entrou num bar e pediu um café, aproveitando o ambiente calmo
do recinto para refletir melhor.
Derek era um enigma indecifrável. Num primeiro momento, ela o tomara por
um usurpador sem escrúpulos, para depois constatar que se enganara. Não só ele não
forçara sua entrada na Thompson como também salvara a companhia de uma
quebra! Além disso, estava sendo sincero quando se surpreendeu ao saber que o
cargo, pertencia a ela, por direito.
Depois ele a seduzira, sem a menor hesitação, e, embora tivesse zombado
dela, Vanessa intuía que a desejara intensamente naqueles breves momentos de
abandono.. Apesar de não ter muita experiência com os homens, confiava na
sensibilidade que possuía de captar os sentimentos das pessoas e saber quando
corria perigo. E, com Derek, sentira-se estranhamente relaxada e protegida.
De repente, a perspectiva de viver com Morgan não a atemorizava mais. Ela
chegou até a antecipar o prazer de levarem uma vida em comum.
Imaginava como seria bom ter alguém para dividir os problemas e as alegrias,
um homem que a aninhasse nos braços nas noites frias e lhe dissesse palavras de
amor... Sim, Derek a perturbava de uma maneira inexplicável, fazendo-a estremecer
com um simples toque. Os olhos acinzentados pareciam enfeitiçá-la e, por mais que
se esforçasse, não conseguia desvendar o segredo do encantamento que a
transportava para outros mundos, quando estava perto dele.
E, no entanto, não podia ignorar o fato de que ele a ameaçara!
Vanessa já estava na terceira xícara de café, sem conseguir uma coerência de
idéias. Vendo que seria inútil prosseguir, resolveu voltar para casa.
Em Wood House, seguiu pela alameda e, sem ânimo para manobrar, parou
em frente à entrada principal. Depois de dar alguns passos, notou o carro de Derek
estacionado a poucos metros de seu Mercedes. Olhou para a casa. e observou que
todas as luzes estavam acesas"Algo está acontecendo!", cogitou, enquanto se dirigia
para a porta de entrada.
Inicialmente pensou que confabulavam acerca de seu casamento. Mas, ao
colocar a chave na fechadura da porta, ocorreu-lhe que seu pai poderia estar
passando mal e, deixando de lado as incertezas, precipitou-se para o saguão.
Derek Morgan surgiu, como que vindo do nada, e a julgar por sua expressão
estava quase fora de si. Vanessa mal teve chance de murmurar:
- Eu achei que você tivesse ido embora!
- Eu ia embora!
- Mas. aconteceu alguma coisa? - ela perguntou com voz sumida.
- É claro que aconteceu! Você saiu daqui, dirigindo como uma louca, e ficou
doze horas fora sem dar notícia! Seu pai quase teve um colapso!
Ficamos os dois aqui, contando as horas, cheios de preocupação, enquanto a
senhorita se divertia sabe-se lá onde!
- Quer dizer que vocês dois.
- Que bela dor de cabeça você nos arrumou, Vanessa! E nós imaginando que
tivesse sofrido um acidente! Derek passou a tarde inteira tentando localizá-la e você
não estava em parte alguma. Já estávamos preparados para o pior. - Clement
interrompeu-a, surgindo da biblioteca.
Os olhos azuis fuzilavam de indignação e ele não parava de gesticular, como
que querendo expressar toda a dor de cabeça que a filha lhe causara.
Vanessa não sabia o que dizer. Mexia os lábios, mas não conseguia emitir
nenhum som, pois seu estarrecimento era muito maior do que as palavras poderiam
exprimir. Nem de longe imagina que uma inocente escapada pudesse ocasionar
tamanha confusão..
Enquanto Derek a fitava com dureza, Clement prosseguia com o sermão:
- Até a sra. Truemann, coitada, ficou abalada com o seu sumiço. Precisou de
sedativos para dormir e, ainda assim, custou a pegar no sono.
- Ora, eu apenas saí para dar uma volta...
Morgan não a deixou prosseguir dizendo com um sorriso cético:
- Agora sabemos que sua intenção foi dar um simples passeio. Mas, na hora
que você saiu, acelerando como uma lunática, nós não tínhamos a menor idéia do
que pretendia fazer. Só nos restava empreender uma ronda pela cidade e telefonar
para todos os hospitais!
- Eu contei a Morgan como você capotou com seu antigo carro e bateu num
poste, numa de suas crises temperamentais! - Clement arrematou, desgostoso.
- Ah, papai, naquela época eu tinha dezessete anos. Minha carteira de
motorista era recente e eu mal sabia dirigir!
Ela sentia-se incomodada por Derek presenciar a forma como era repreendida
pelo pai, tal qual uma adolescente. Sua humilhação, todavia, cresceu quando
Clement arrebatou-lhe as chaves do carro.
- A verdade é que você ainda não aprendeu a controlar os impulsos. Diante
disso, é melhor que fique longe do carro! E, para ter certeza de que não vai mais
fazer bobagens, as chaves ficarão comigo! - Clemente afastou-se, recolhendo-se na
biblioteca.
Vanessa deduziu que o pai se isolava para se acalmar e evitar que Morgan
assistisse a um verdadeiro acesso de fúria. Envergonhada, tentou se desculpar.
- Ele ficou muito nervoso. Não estava falando sério..
- Deve conhecê-lo melhor do que eu. Mas bem que você merecia uma lição!
- Ora, não me venha com paternalismos!
Sem ânimo para ficar ali, discutindo com Morgan, Vanessa deu de ombros e
começou a subir as escadas.
Mas logo viu que não se livraria dele com tanta facilidade. meio caminho do
patamar, Derek a alcançou:
- Onde você esteve, Vanessa?
- Você pode não acreditar, mas eu estava justamente procurando alguém mais
interessante para me casar - ela rebateu, os olhos chispando.
Derek segurou-lhe o braço e a obrigou a encará-lo.
- Mas pelo que sei nenhum de seus amigos tem condições de se casar com
você. Do contrário não teria preservado a virgindade por tanto tempo, não é?
- Não posso afirmar nada. Você foi o primeiro homem com quem fui para a
cama. Se eu tivesse feito isso há mais tempo, O que me garante que eu não... que eu
não teria ido até o fim? - foi o débil protesto dela, enquanto desviava o olhar,
embaraçada, pois sabia que não era verdade.
- Eu lhe asseguro que você não teria ido até o fim...- falou Derek, em tom
confidente.
- Como garante? Sua experiência com mulheres é tão grande que lhe permite
fazer previsões?
- Minhas experiências passadas não contam. A única coisa que lhe diz
respeito é com quantas mulheres eu manterei relações daqui por diante.
As palavras de Morgan não davam margens a dúvidas. Estava mesmo
determinado a se casar! E, para sua surpresa, Vanessa sentiu-se deliciada com a
segurança que ele demonstrava ao falar. De novo, vieram-lhe à mente imagens de
sonho, em que ele a abraçava e a acariciava, sussurrando promessas de amor...
Tímida, arriscou:
- Quer dizer que não vai mais ter... nenhuma aventura?
- Exato. Mas, se está pensando que nosso noivado será longo, esqueça... - ele
sorriu, insinuante.
- Você... ficou mesmo preocupado comigo hoje à tarde?
- Eu não sou um mau sujeito, Vanessa. Diante do nervosismo de seu pai,
achei que seria mais conveniente ficar aqui e ajudá-lo.
- Amanhã cedo conversarei com ele e tudo ficará bem. - Ela recomeçou a
subir a escada, procurando esconder o quanto estava desapontada por não ter sido o
motivo principal da preocupação de Derek.
Pararam em frente à porta do quarto dela e Morgan afagou-lhe os cabelos
sedosos.
- Tenho certeza de que encontrará o melhor jeito de fazer as pazes com seu
pai. Bem, o que importa é que você está sã e salva.
- Sim - Vanessa concordou.
- Só lhe peço para não desaparecer de novo sem avisar. Se quiser passear
amanhã cedo, posso fazer-lhe companhia.
A alegria que até então ela tentara ocultar desabrochou num sorriso.
- Você vai passar a noite conosco, Derek?
- Não espera que eu vá deixá-la sozinha outra vez, não é?
- ele brincou, num tom carinhoso, antes de curvar-se, e procurou os lábios
dela, enlaçando-a com a maior naturalidade do mundo.
Vanessa deixou-se beijar. Quando deu por si, acariciava-lhe também os
cabelos loiros, aproximando cada vez mais o corpo do dele, sentindo uma intensa e
perturbadora emoção. Aqueles lábios sensuais tocavam-lhe a boca da mesma
maneira que acontecera antes, como se a paixão fosse impossível de controlar.
Mas Derek, com um movimento gentil, acabou separando-se dela. Abriu-lhe a
porta, convidando-a a entrar com um gesto.
- Boa noite, Vanessa.
- Boa noite - ela respondeu como que saindo de um transe. Quando ele tornou
a fechar a porta, ela murmurou: "Boa noite, meu amor...", compreendendo de súbito
que não era ódio o que sentia por aquele homem estranho. Durante as últimas
semanas, não estivera fazendo outra coisa senão fugir da realidade, de um
sentimento que se apossava dela sem dar-lhe trégua...
No íntimo, tivera muito medo de se deixar dominar por aquela emoção
desconhecida, que a perturbava e a subjugava com uma força avassaladora.
Tentava enganar-se a si mesma, receando não ser correspondida em sua
paixão.
O fato de ter sido justamente Derek a ocupar o cargo que lhe fora prometido
contribuíra para que ela se confundisse, pensando que o detestava. Além disso,
havia Selene Astorn. "Como pude ser tão cega?", questionou-se, estranhando as
reviravoltas inexplicáveis, para não dizer irônicas, da vida.
Com a cabeça fervilhando, Vanessa dirigiu-se para o banheiro e tomou um
banho reconfortante. A lembrança de Derek não lhe abandonava os pensamentos e,
fechando os olhos, tateou o próprio corpo, revivendo as sensações que as mãos dele
haviam lhe despertado.
Depois, já de camisola, sentou-se na beirada da cama e abraçou as pernas,
olhando para as folhas de um coqueiro que balançavam, enquadradas pela moldura
da janela.
Relembrava cada instante que passara com Derek e, sorrindo, recordava a
promessa que ele lhe fizera de que não a deixaria sozinha. Em seu inconsciente,
alimentava uma esperança secreta de que ainda viria procurá-la no quarto. Esperou
pela chegada da madrugada, pelas horas tardias em que todos na casa estariam
adormecidos e a brisa sopraria, silenciosa, comparando com os suspiros dos
amantes.. Mas Derek não apareceu e, aos poucos, Vanessa foi vencida pelo cansaço.
Na manhã seguinte, logo que acordou, seu primeiro pensamento foi para
Derek. A perspectiva de vê-lo a deixava tão ansiosa que, incapaz de permanecer na
cama por mais um minuto sequer, pôs-se de pé e tomou a costumeira ducha matinal.
Cheia de expectativa, escancarou as portas do armário e lançou um olhar
crítico para as roupas penduradas nos cabides. Queria um traje que lhe caísse bem,
mas que em contrapartida não denunciasse o quanto se esmerava para parecer bonita
aos olhos de Derek.
Retirou algumas peças, atirando-as sobre a cama. Começou a experimentá-
las, mas, indecisa, não escolheu nenhuma delas. Optou por um vestido de malha sem
mangas, de um rosa vivo, que lhe realçava a pele clara. Calçou um par de sandálias
da mesma cor e enfeitou-se com brincos de prata.
Antes de sair do quarto, demorou-se em frente ao espelho para aplicar uma
fina camada de brilho nos lábios carnudos e pentear os cabelos. Depois de certificar-
se de que estava bem arrumada, deixou os aposentos.
À medida que descia as escadas, os devaneios da noite anterior deram lugar a
uma terrível sensação de insegurança. E se Derek desistisse do casamento?
Torturada com a possibilidade de ele não amá-la com a mesma intensidade com que
o amava, sentiu o medo tomar conta dela.
De qualquer forma, ele a desejava, nem que fosse só um pouquinho, ou não a
teria beijado à porta do quarto, na véspera. Assim, nem tudo estava perdido!
Mais conformada, dirigiu-se à copa.
A visão de seu pai, sentado sozinho à mesa, alarmou-a ainda mais.
- Bom dia, papai.
Clement balançou a cabeça, sem dizer uma palavra, e continuou a ler o jornal.
- Algo errado?
- Ora, não me diga que já esqueceu o que me fez passar ontem! - ele
exclamou, mal-humorado.
- Eu sei, você tem todo o direito de estar assim, mas.. me desculpe, sim?
Nunca mais farei uma coisa dessas...
- Eu acho bom! Senão, pode desistir de voltar a dirigir aquele maldito carro.
- Certo, certo. Mas entenda, as circunstâncias ontem foram...excepcionais,
não é? - ela retrucou, tentando falar da maneira mais doce possível.
- Sim, tem razão. Foram absolutamente excepcionais! Eu jamais esperava
ouvir que minha filha...
- Imagino o quanto deve ser difícil para você aceitar que eu estive naquele
quarto com Derek. Sei como é, todos os pais julgam suas filhas eternas garotinhas
e...
- O que está tentando me dizer? - Clement explodiu.
- Ah, papai, sei como se sente. Foi um choque, não é? Mas veja a situação
pelo lado positivo! E pensar que você intuiu a coisa toda, muito antes de mim! -
Vanessa sorriu, os olhos brilhando de contentamento, pois descobria como era bom
amar Derek.
O pai, porém, não compartilhava a alegria nem parecia entender seus olhares
sonhadores.
- Não compreendo, seja mais clara. Assim você me deixa nervoso, Vanessa!
De que está falando?
- Eu me refiro à nossa conversa de ontem. Você acertou em cheio: eu estou
apaixonada por Derek! - ela informou, sem parar de sorrir.
Clement largou o jornal de lado. Limpou a garganta e olhou para ela,
estarrecido.
- Fala sério?
- Nunca falei tão sério em toda a minha vida! - Vanessa garantiu, divertida
com a reação dele.
- Não pode ser! Trata-se de mais um de seus caprichos.
- Eu lhe asseguro que não. Não me pergunte como fui me apaixonar por ele...
eu não saberia explicar. Só sei que quero me casar com Derek. Ah, papai, me
desculpe por todos os transtornos que lhe causei, eu juro que vou me regenerar e
nunca mais aborrecê-lo! - ela prometeu, veemente.
Ansiava por tranqüilizar o pai e poder, afinal, dividir com ele a alegria que
experimentava.
E isso só seria possível quando Clement, se acalmasse e se acostumasse com
a idéia do casamento. Entretanto, ele parecia cada vez mais surpreso e Vanessa
começou a ficar irritada.
- Vamos, não é tão mau assim. Você não gosta de Derek? É claro que gosta!
Outro dia mesmo, não ficou aí fazendo os maiores elogios a ele?
Mas o pesar que transpareceu na voz dele mostrou-lhe que o problema não
era o casamento com Derek. Muito pelo contrário:
- Morgan não pretende se casar com você, filha.
- Não, você se engana! Ele me falou que... - ela se exprimiu num fio de voz,
sentindo-se quase desfalecer.
- Ele não tem intenção de se casar, filha. Tudo não passou de um plano para
puni-la. Eu estava tão furioso com o que você tinha feito e tão embaraçado perante a
sra. Truemann, que quis lhe dar uma lição. Então combinei com Morgan de lhe
pregar uma peça. Ele concordou em colaborar com o plano, em vista do lamentável
estado de nervos em que eu me encontrava.
- Você estava furioso comigo?
- Derek me contou como você entrou no quarto de hóspedes e.
- Ele lhe contou o golpe que eu tentei dar?
- Sim. Fiquei mais constrangido do que nunca e jurei que você pagaria por
isso - Clement confirmou.
Engolindo em seco, Vanessa baixou os olhos, incapaz de ordenar os
pensamentos. Ignorava qual era a sensação pior: ter sido ludibriada ou constatar que
o amor de Derek não passara de uma cilada.
A muito custo, conteve as lágrimas e armou-se de coragem para conhecer os
pormenores da trama.
- Foi... foi você quem teve a idéia do casamento?
- Não, na verdade, não... Eu não tinha nenhum plano definido em mente, até
que Morgan me disse que, se quiséssemos dar-lhe o maior susto de sua vida,
bastaria inventar essa história de casamento.
Naquele momento Vanessa odiou Derek com todas as forças. Consciente da
luta interna que se travava em Vanessa, Clement tornou a balançar a cabeça, cheio
de pesar.
- Sinto muito, filha.. Derek não lhe deu nenhum motivo para pensar que ele
estava apaixonado, não é?
- Não, ele não falou em amor, mas mencionou uma cláusula que anulava o
acordo de vocês, caso a vontade dele fosse contrariada.
- Essa cláusula não existe, querida.
Diante do olhar atônito do pai, Vanessa arqueou as sobrancelhas.
- Como não existe?
- Ah, minha filha, estou tão arrependido do que lhe fiz! com certeza, Morgan
aludiu à cláusula para ser mais convincente!
A conversa foi interrompida por Trudy, que veio servir o café. Depois que ela
se foi, os dois comeram em silêncio, sem coragem de se encarar.
Estranhando a ausência de Derek, Vanessa quebrou o gelo que se abatera
sobre eles:
- Derek não vai tomar café?
- Ele tinha compromissos urgentes na cidade e partiu antes de você acordar.
Desapontada, ela fez um gesto com a cabeça, em sinal de compreensão. E
deu-se conta de que, apesar de tudo, seu amor por Derek era mais forte do que um
mero ressentimento.
Mais calma, pôde analisar a situação e enxergar os fatos com maior clareza.
A punição era cruel e ela não concordava com a forma que lhe fora imposta,
mas era forçada a reconhecer que tampouco agira com retidão, ao tentar trapacear
Derek com um golpe tão baixo. Na verdade, tanto ela quanto seu pai e Derek
haviam cometido um erro, ao agir com tamanha precipitação.
Mas estava feito e a existência humana era assim: vivendo e
aprendendo...Resolvida a questão e superado o orgulho ferido, restava seu amor por
Derek. E a incerteza do futuro... O que fazer para conquistá-lo?

CAPÍTULO IX

Nos dias que se seguiram, Vanessa não fez outra coisa senão pensar em Derek
Morgan. Ele teimava em ocupar-lhe a mente, aparecendo até nos sonhos.
No domingo, decidiu pôr um fim ao tormento. Derek não a procurara e era
provável que tivesse coisas mais interessantes a fazer na companhia de Selene
Astorn. Se ele mentira com referência à cláusula do contrato, era bem provável que
houvesse escondido a verdadeira relação que tinha com a outra mulher. Para ser
"convincente", como dissera seu pai..
Assim, sem chances de lutar, só lhe restava uma alternativa: esquecê-lo,
matando dentro de si qualquer sombra de esperança, que apenas serviria para torná-
la mais infeliz.
Vanessa chorou, lastimando o sonho desfeito. Em seguida, lavou o rosto e,
respirando fundo, preparou-se para apagar a lembrança de Morgan.
Vestiu uma minissaia jeans e uma camiseta larga, penteou os cabelos e desceu
para tomar café.
Clement a saudou com um sorriso, tentando perceber se ela ainda estava
magoada. Vanessa disfarçou a tristeza e retribuiu-lhe o sorriso. Não valia a pena
inquietá-lo com uma batalha que já estava perdida.
Queria dar a impressão de que os últimos acontecimentos não a tinham
abalado, pois sabia que, no fundo, Clement sentia-se culpado por sua paixão
impossível.
- Hoje à noite eu vou jogar uma partida de bridge no clube E você, já tem
programa?
- Talvez eu encontre com Mônica e alguns amigos. Mas, se quiser, posso
desmarcar - ela afirmou, esforçando-se para agradá-lo.
- Oh, não, você está na idade de se divertir!
O sentimento de culpa de Clement era evidente. Poucos dias antes, ele teria
aceito de bom grado que ela permanecesse em casa...
- Escute, papai, não sou mais criança e sei me cuidar. Não há por que se
preocupar comigo, tenho uma longa vida pela frente. Só gostaria que me fizesse um
favor.
- O que é? - Clement perguntou, solícito.
- Não diga a Derek sobre os meus sentimentos. Não lhe fale jamais do meu
amor!
- Você tem minha palavra, querida. Morgan nunca saberá da conversa que
tivemos.
Satisfeita, Vanessa procurou distrair-se com outros assuntos.
Pelo menos, seu orgulho estaria a salvo e Derek não tomaria conhecimento da
extensão dos danos que lhe causara. Daí por diante, o que tinha a fazer era
reorganizar sua vida. sem ele!
Trataria de arranjar um emprego em alguma agência de turismo, para não
depender mais do dinheiro do pai e, depois, talvez até montasse um pequeno
apartamento na cidade, para estar mais perto das agitações culturais da metrópole.
Eram quase onze horas quando seu pai se despediu e foi ao clube de bridge.
Como era a folga de Trudy, Vanessa ficou sozinha em casa. Aproveitou para
refletir sobre os projetos que tinha para o futuro e começou a andar de um cômodo a
outro, mudando objetos de lugar, como era seu hábito, quando estava agitada.
A seguir, pensou em sair com os amigos. Mas, desanimada como estava, logo
afastou a idéia.
Atravessava um período crucial, em que deveria tomar muitas decisões e
determinar o rumo de sua vida. Assim, não tinha vontade de encontrar as mesmas
pessoas que, invariavelmente, falariam de futilidades e terminariam a noite num bar
qualquer. Já fazia algum tempo que se sentia deslocada de seu círculo de amigos, à
exceção de uma ou outra pessoa, como era o caso de Mônica.
Apanhou um romance policial, vestiu um biquíni e foi estirar-se ao sol, numa
espreguiçadeira à beira da piscina.
As aventuras do detetive Poirot prenderam sua atenção durante algum tempo.
Mas o sol estava quente e, deixando o livro no piso de pedra, levantou e pulou
dentro da água, onde ensaiou algumas braçadas.
A tarde ia avançada e Vanessa sentiu fome. Para afastar a preguiça, tomou
uma ducha e vestiu um camisão. Ligou o som no máximo de volume e foi até a
cozinha preparar alguma coisa para comer.
Decidiu que o mais rápido seria um suflê de legumes e frango grelhado.
Enquanto batia a massa do suflê, Derek Morgan voltou a ocupar-lhe os
pensamentos. Fazendo uma careta, concentrou-se na receita, mas sem muito
sucesso: entre um punhado de farinha e outro de queijo ralado, a figura dele surgiu à
sua frente, quase palpável.
Após o almoço, deitou-se no sofá e adormeceu, despertando a tempo de
assistir a um show de videoclips na televisão.
Passava das sete quando o programa terminou e, sem ter o que fazer,
preparou-se para retomar as emocionantes aventuras de Hercule Poirot.
Nisso, o telefone tocou.
- Alo.
- Sou eu, Derek.
- Meu pai não está - Vanessa comunicou, sentindo o coração bater mais forte.
- Isso é um convite para eu ir visitá-la?
A voz de Morgan era acariciante e, arrepiando-se da cabeça aos pés, Vanessa
deixou-se cair na poltrona mais próxima.. Tentando parecer natural, arriscou:
- Por que ligou? Queria conversar com sua noiva? Houve uma pausa do outro
lado da linha e ela passou a língua nos lábios ressecados, temendo uma represália
sarcástica.
Para sua surpresa, porém, não havia traço de zombaria no convite que ele lhe
fez para saírem para jantar.
Vacilante demorou para responder. Não compreendia o sentido da atitude de
Morgan, e, de imediato, colocou-se na defensiva.
- Sinto muito, Derek, mas já tenho um compromisso. eu.
- Você se dá conta de que vamos nos casar? - ele rebateu, num tom áspero.
- Eu sei disso, tanto quanto você! - Vanessa explodiu, irada, antes de bater o
telefone com raiva.
Aquela encenação estúpida estava se tornando insuportável e no entanto, ele
insistia em brincar com os sentimentos dela!
Gradativamente, a exasperação transformou-se em profunda melancolia e as
lágrimas inundaram-lhe os olhos escuros.
Soluçando, foi até o bar e serviu-se de uma dose de gin. Bebia, sem pressa,
enquanto andava pela sala e sentia o calor da bebida invadir-lhe o corpo.
Entorpecida, subiu ao quarto e despiu-se, enfiando-se debaixo dos lençóis e
apagando a luz.
Vanessa teve um sono pesado e sem sonhos. À primeira claridade da aurora,
porém, já estava acordada. com os olhos fixos na transparência das cortinas
esvoaçantes, divagava.
O espírito de luta, que herdara do pai, devolveu-lhe o entusiasmo e, quanto
mais pensava no inesperado telefonema de Derek, mais se convencia de que não
adiantava entregar-se à tristeza.
Não permitiria que ele lhe passasse a perna. Pois bem, se Morgan desejava
jogar, que jogasse então! Não seria ela a estragar o divertimento dele e, tampouco,
lhe daria o gosto de deixar-se atingir por aquelas intrigas.
Esperaria isso sim, para ver até onde ia o cinismo de Derek. Um pouco menos
angustiada, Vanessa voltou a cochilar e, quando tornou a despertar, a manhã já ia
alta.
Desceu apressada para a copa e encontrou Clement no saguão, já de saída
para o escritório. Vanessa esboçou um sorriso e, sem proferirem uma palavra, os
dois se abraçaram e selaram a reconciliação.
Antes de sair, o pai devolveu-lhe as chaves do carro e recomendou-lhe
prudência ao dirigir.
O fato de saber que tudo estava bem entre eles era suficiente para renovar as
energias em Vanessa. Correu para o quarto e pôs um disco na vitrola, começando a
dançar e estalar os dedos, no ritmo da melodia.
Enquanto isso sua mente criativa brincava de armar artimanhas para apanhar
Derek. De repente, mudara de postura e passara a encarar aquela história toda como
uma grande piada e agora sentia-se tentada a embarcar no jogo de gato e rato.
Afinal, a vida não era mais do que um grande jogo.
Mas, ao zombar da situação, nem de longe imaginava que na realidade
tentava desesperadamente curar a ferida que Derek deixara aberta em seu coração.
Disposta a prosseguir, Vanessa foi até a biblioteca procurar a agenda de
telefones do pai.
Confirmando suas suposições, o número de Morgan lá estava anotado.
Vanessa contou até dez e discou. Queria achar uma maneira de lhe pregar uma peça,
mas não pôde evitar um ligeiro estremecimento quando a secretária do escritório
atendeu e transferiu a ligação para a sala dele.
Ao ouvir a voz de Derek do outro lado da linha, sentiu as pernas fraquejarem
e quase ficou sem fala. "Então era assim o amor!", pensou, deprimida. Mas num
instante tratou de recobrar o ânimo.
- Eu sinto muito por ter desligado o telefone de maneira tão brusca, Derek.
Você me pegou de surpresa. Estou ligando para saber se o jantar ainda está de pé.
- Ora, ora. Não tem nenhum compromisso inadiável para esta noite? - ele
replicou, sarcástico.
Vanessa arregalou os olhos e abriu a boca, pronta para responder à altura, mas
se conteve. Mordendo o lábio, procurou desempenhar bem o seu papel.
- O compromisso de ontem à noite não era inadiável.
- Aonde você foi, então?
- Eu fui explicar a situação para Bob Peterson... Achei que, diante dos últimos
acontecimentos, era meu dever ser franca e não deixá-lo na ilusão.
Fez-se um longo silêncio do outro lado da linha e quando por fim Derek falou
foi num tom rude e arrogante.
- Vocês dois eram tão íntimos, a ponto de não poder dispensá-lo por telefone?
- Entenda, Derek, Bob me pediu em casamento! Além disso, recusei seu
convite ontem porque bem, eu achei que você também poderia precisar da noite
livre para, humm. esclarecer a situação com alguém.
- Pois enganou-se. Eu não tenho ninguém tão intimo! - Derek retrucou e,
mudando de tom, renovou o convite: - Que tal jantarmos hoje? Ou será que você vai
desligar o telefone outra vez?
Acertaram que ele a apanharia por volta das nove horas e, quando Vanessa
recolocou o fone no gancho, seus olhos brilhavam de contentamento. Tinha
conseguido um encontro com Derek Morgan.
Mas, em seguida, despertou para a realidade e, desconsolada, lembrou-se de
que ele não a amava e apenas estava se divertindo à sua custa... Bem, não havia mal
algum em sonhar um pouco. Quem sabe, aos poucos, não conseguiria fazê-lo se
interessar de verdade?
Correu para o quarto e abriu a porta do guarda-roupa para escolher a roupa
que usaria à noite. Desta vez não hesitou: separou um vestido de seda verde-água,
colante e sem alças, com pregas nos quadris, que lhe ressaltavam as curvas bem-
feitas.
Usaria sapatos e bolsa de um tom de verde mais escuro e o par de brincos de
esmeralda completaria a elegância do traje.
Satisfeita com a escolha foi tomar um banho. Lavou os longos cabelos com
um xampu de ervas cheirosas e massageou o corpo com uma esponja para amaciar a
pele. Após a ducha demorada, usou um creme hidratante e pintou as unhas com
esmalte verde-metálico. Por mais tradicional que tentasse parecer, sempre acabava
se traindo com uma nota de ousadia...
Em seguida, secou os cabelos, até que lhe caíssem pelos ombros em mechas
brilhantes.
Consultando o relógio, viu que faltava somente uma hora para Derek vir
buscá-la. Como o tempo voara! Sentou-se diante do espelho da penteadeira e
maquilou-se com cuidado, realçando as faces com um pouco de blush.
Delineou os olhos com lápis e rímel e esfumaçou uma sombra verde-
acinzentada sobre as pálpebras. Depois de contornar os lábios e passar batom,
aplicou uma fragrância floral atrás da orelha e nos pulsos e vestiu-se.
Quando desceu para aguardar a chegada de Derek, Vanessa deu de encontro
com Clement no saguão.
Observando-a de alto a baixo, o pai reparou nos cabelos esvoaçantes e no
corpo esguio moldado pela seda do vestido. Assobiou, espantado.
- Aonde você vai?
- Acredite ou não vou, vou sair com Morgan!
- Você vai. não me diga! - tropeçando nas palavras, Clement não conseguiu
esconder a surpresa.
- Bem... sei que isso não significa nada, mas, como ele pensa que eu o
detesto, achei que poderia tirar a má impressão se aceitasse o convite para jantar
fora. Fiz mal, papai?
Clement a abraçou, sorrindo.
- O velho orgulho dos Thompson, não é? Eu lhe desejo toda a sorte do
mundo, filha. Agora preciso ir, Só passei por aqui para buscar o talão de cheques,
que eu esqueci.
- Muito trabalho?
- E como. vou jantar com um cliente e tentar fechar um contrato.
- Boa sorte para você também, papai...
Pouco depois a campainha soou. com o coração batendo descompassado,
Vanessa espiou através do olho mágico e, constatando que se tratava de Derek, abriu
a porta.
Constrangida, disse a primeira coisa que lhe ocorreu:
- Papai precisou sair para fechar um negócio.
- Felizmente vim procurar pela filha! - Ele sorriu, desinibido, parecendo tão
natural que Vanessa relaxou um pouco.
Derek a levou a um restaurante de comida indiana, que ostentava uma
decoração suntuosa e exótica, à meia-luz. com o ambiente romântico do lugar,
Vanessa precisou reunir todas as forças para não se deixar envolver pelo fascínio.
Afinal, tudo não passava de uma farsa!
Enquanto se deliciavam com um delicioso curiy, acompanhado de passas e
castanhas, eles conversaram sobre os mais diversos assuntos e, gradativamente,
falaram mais de si mesmos.
Rindo, Vanessa relatou episódios de sua vida cheia de atribulações e
comentou os sonhos que tinha de ser guia turístico. Morgan, por outro lado, contou
as estrepolias de adolescente e falou dos pais que moravam no interior.
A atmosfera ia se tornando cada vez mais íntima e, a uma certa altura, Derek
perguntou se a questão com Bob Pêterson fora resolvida.
- Sim, Bob... ficou chocado, mas não teve outra alternativa senão aceitar...
Morgan sorriu e os olhos acinzentados revestiram-se de um brilho
enigmático.
O jantar terminou em meio a um clima amigável e descontraído. Quando
entraram no carro, ele sugeriu que fossem para o seu apartamento, o que colocou
Vanessa na defensiva.
Entretanto, disposta a prosseguir com o jogo, acatou a sugestão.
- Está certo. Só não quero chegar tarde em casa...
- Não demorará mais do quê alguns minutos - Derek assegurou, com um
sorriso sedutor.
"Pronto! Estava demorando muito! Agora ele lhe exibiria a fatídica coleção
de selos!"
Derek guiava com segurança e, a julgar pela velocidade que imprimia às
marchas, Vanessa concluiu que pretendia mostrar-lhe a "coleção de selos" o quanto
antes...
Mas, quando tomaram o elevador do sofisticado edifício, ele não fez qualquer
menção de tocá-la e nem mesmo depois que entraram no apartamento.
Vanessa observou a sala luxuosamente mobiliada com móveis de alvenaria e
esculturas em bronze. Pouco à vontade, cruzou os braços e aguardou a inevitável
investida dele.
- Um dos motivos que me levaram a trazê-la aqui foi o desejo de que
conhecesse sua futura casa...
"Oh, que comovente! Pois nem era necessário revelar qual era o outro
motivo!". Depois que ele a conduzisse à cozinha e à área de serviço, não tardaria a
levá-la para ver o quarto!
Todavia, não foi o que aconteceu: percorreram a cozinha, equipada com os
últimos avanços da tecnologia, a lavanderia, o escritório e a aconchegante sala de
televisão. A seguir, ele disse o que Vanessa menos esperava ouvir:
- Eu lhe mostrarei o restante dos cômodos em outra ocasião, porque já é tarde
e sei que você precisa voltar para casa.
- Oh... - soltando uma exclamação, ela apressou-se em emendar: - Você tem
razão, meu pai pode ficar preocupado!
Vanessa se perguntava até quando duraria aquela charada. Que espécie de
coisa Morgan estaria tramando?
Estudou-lhe o porte altivo, valorizado pelo terno cinza-claro que usava, de
corte arrojado e impecável, que combinava com uma fina gravata de crochê. Ela
teve um arrepio, só de pensar em estar entre aqueles braços fortes... Derek reparou
que era observado e sorriu.
- Tem mais uma coisa que eu quero que veja. Tremendo, Vanessa abriu o
pequeno estojo que ele lhe entregava. Seu coração disparou quando viu o solitário
que ali estava guardado.
Não teve tempo de se refazer da surpresa, pois Derek, num movimento
rápido, colocou o anel em seu dedo.
- Derek, é... é lindo!
Lágrimas de emoção rolaram-lhe pelo rosto e, num gesto instintivo, aninhou-
se no peito dele.
Derek a beijou com paixão intensa e Vanessa se entregou aos apelos do
coração. Numa excitação febril, puxou-o para si, dando vazão à sensualidade
reprimida. Curvou-se para deixar-se acariciar em cada pedaço de seu corpo, sedento
do toque abrasador dos dedos de Derek.
Os beijos não se restringiram à boca carnuda de Vanessa, mas passaram a
explorar o pescoço, as orelhas e os seios.
Sem parar de beijá-la, Derek livrou-se do paletó e da gravata e, com carícias
cada vez mais ousadas, desceu o zíper do vestido, deixando escorregar as mãos
másculas pela pele aveludada por baixo da seda.
Depois, com delicadeza, a carregou para o sofá...
Suspirando e murmurando o nome dele, Vanessa desabotoou-lhe a camisa e
tateou o tórax musculoso, roçando os seios na pele nua.
Derek reclinou-se e, de lábios entreabertos, beijou-lhe os mamilos
entumecidos, enquanto apalpava-lhe a parte interna das coxas.
- Quero você... Eu a desejo tanto! E agora você é minha... - Derek sussurrou,
os olhos turvados de desejo. As palavras de Morgan fizeram Vanessa voltar à
realidade e, envergonhada, desvencilhou-se dele. Ajeitou a roupa, procurando cobrir
os seios e pensou na profundidade de seu amor.
Olhou para ele como se fosse a última vez. com profunda tristeza, deu-se
conta de que não deveria ter permitido que o contato dos dois chegasse até aquele
ponto, pois, mais cedo ou mais tarde, Derek a abandonaria e diria que tudo não
passara de uma brincadeira!
- Eu não posso. não... posso! - gaguejou com os olhos marejados.
Morgan a encarou, franzindo as sobrancelhas e tentando compreender a
situação.
- Não pode? Mas como, se um segundo atrás estava em meus braços e...
- Eu sei, não precisa entrar em detalhes! Mas vamos parar por aqui,.eu.
- Você me deseja tanto quanto eu a desejo, Vanessa! - completou Derek,
atraindo-a para si.
Vanessa, no entanto, tornou a repeli-lo. com as mãos trêmulas, balançou a
cabeça, com pesar, e começou a chorar, desabafando toda a dor.
- Eu desejo você, sim! Mas não posso! Derek respirou fundo.
- O que houve de errado? - perguntou preocupado.
- Nada!
- Nós vamos resolver isso. Agora fique calma e não chore mais, está bem? -
Derek a abraçou e acariciou-lhe os cabelos, afastando uma mecha que lhe caía sobre
o rosto. Ainda soluçando, Vanessa recostou-se no ombro dele. - Você tem medo?
Ah, minha menina assustada, não fique assim! Eu não ia apressar você...
- Eu sei, mas é que... não somos casados! - ela falou, num esforço de justificar
a recusa.
O semblante másculo tornou-se grave e ele a abraçou com força.
- Entendo. A primeira vez é sempre difícil. Desculpe-me se fui um tanto
precipitado, mas perdi o controle... Você me perdoa?
- Não há nada para perdoar - Vanessa deu um sorriso triste e baixou os olhos.
- Bem, precisamos apressar o nosso casamento, não acha? Ela fechou os
olhos, sentindo as palavras de Derek como uma punhalada, pois sabia que não podia
acreditar nele..

CAPÍTULO X

Derek esperou Vanessa entrar em casa e, depois de lhe dar um aceno de mão,
ligou o carro e seguiu pela alameda.
Logo que ele sumiu de vista o sorriso que até então Vanessa sustentara
morreu-lhe nos lábios. Fechou a porta com a expressão angustiada e subiu as
escadas. Lágrimas quentes escorreram-lhe pelo rosto, enquanto trancava a porta do
quarto e dava vazão à sua tristeza.
Despiu-se com movimentos automáticos e estirou-se na cama, fixando o
lustre do teto. Em seguida, olhou para o anel de brilhante em sua mão e tentou
calcular quanto tempo levaria para que Derek o pedisse de volta.
Fazia quase um mês que aquele pretenso noivado se arrastava e, contrariando
suas expectativas, Morgan ainda não se manifestara no sentido de desenganá-la.
Já não sabia o que era pior: a espera ou o momento fatal, em que ele lhe diria
com delicadeza que tudo não passara de uma farsa!
A perspectiva de perdê-lo causou-lhe pânico e, chorando convulsivamente,
sofreu com antecedência a inevitável separação.
Como a vida era irônica! refletiu, cheia de amargura. O destino havia
colocado Derek em seu caminho e agora iria tirá-lo dela sem piedade.
Desanimada, lavou o rosto e foi até a cozinha para beber um copo de água.
Clement acabara de chegar e foi ao encontro dela.
- E então, como foi o passeio?
- Eu... correu tudo bem. - Para não frustrá-lo, ela acrescentou: - Derek e eu
estamos nos conhecendo melhor.
- Isso significa que você o conquistou?
Vanessa sorriu, relutante e, no íntimo condenou Derek por estar levando a
brincadeira longe demais, alimentando esperanças até em Clement.
Entretanto, não querendo decepcionar o pai, tentou imprimir à voz uma nota
de entusiasmo.
- Nós ficamos noivos, papai.
- Ah, que bom, filha! Bem que sua mãe dizia, esses olhos misteriosos ainda
haveriam de enfeitiçar um homem sem que ele percebesse.
- Você acha mesmo?
- Mas é claro! Derek é um rapaz sério e decidido. Se lhe pôs um anel de
noivado no dedo, é porque seguramente está apaixonado e pretende se casar!
O espanto inicial de Clement transformou-se em júbilo. Era óbvio que se
alegrava em ter Morgan como genro e, no dia seguinte, a primeira coisa que fez foi
dar as boas novas para Trudy, contagiando-a com seu entusiasmo.
A governanta abriu um sorriso alegre e abandonou a atitude reservada das
últimas semanas. Chegou até a preparar uma vitamina de frutas especial para
Vanessa...
Mônica telefonou antes do almoço, para saber por que Vanessa andava
sumida e ela, a fim de livrar-se de explicações embaraçosas, alegou que estava noiva
de Morgan.
Sem esconder a admiração, Mônica explodiu numa sonora gargalhada.
- É incrível como com você tudo foge aos padrões de normalidade. Quem
diria, hein? Eu lhe sugeri que pregasse uma peça nele, mas nunca imaginei que fosse
você a cair em suas malhas!
- Nem eu... - Vanessa respondeu, sentindo que seu amor por Derek aumentava
dia após dia. Como á vida era irônica!
- Então você está realmente apaixonada! Quando será o casamento?
- Na verdade, nós ainda não marcamos a data. Nossa ligação é recente e...
você compreende, não é?
- Sim, eu sei. Essas coisas não são resolvidas do dia para a noite.
Sempre falante, Mônica quis saber dos pormenores do começo de seu
relacionamento com Derek. Como havia surgido a centelha de paixão, onde
acontecera o primeiro beijo e coisas assim. Evasiva, Vanessa satisfez a curiosidade
da amiga, omitindo os detalhes mais íntimos do que ocorrera entre os dois. Quando
desligou o telefone, estava arrasada. Passou a tarde tentando concentrar-se no
complicado caso que Poirot tinha o encargo de solucionar, mas a apatia começava a
dominá-la.
Eram quatro horas quando largou o livro e decidiu que era melhor parar de
fingir para si mesma que estava interessada nas aventuras do detetive belga.
Nisso, o telefone tocou. Era Derek!
Depois de perguntar a ela como havia passado a noite, convidou-a para sair,
logo mais.
Vanessa concordou, fingindo ignorar o plano dele de descartá-la na primeira
oportunidade que tivesse.
E, de súbito, ficou apreensiva. E se ele tivesse em mente revelar a verdade
naquela noite?
Novamente, o orgulho típico dos Thompson sobrepôs-se à angústia e,
decidida, prometeu a si mesma que não entregaria os pontos. Seria ela a desfrutar o
prazer de rir por último. Derek não perdia por esperar!
Mas sua determinação de nada lhe servia. Como conseguiria enganá-lo, se o
brilho que transparecia em seus olhos, no momento em que o viu, horas mais tarde,
não a deixava mentir?
Vanessa não pôde evitar um arrepio de prazer quando Morgan rodeou-lhe a
cintura com as mãos másculas e a beijou suavemente no pescoço. Em seguida, ele
lhe passou o braço sobre os ombros e a conduziu até o carro, que ficara estacionado
em frente ao portão principal.
- Aonde você quer ir? Já jantou?
- Não. Trudy estava acabando de pôr a mesa quando você chegou - Vanessa
respondeu, com uma sensação de desconforto.
- O que acha de irmos ao Roberts? Também estou faminto!
- Eu... para mim está ótimo. É um restaurante recém-inaugurado, não é?
- Exato. Dizem que é muito bom.
Conversaram sobre banalidades e Vanessa esforçou-se por parecer
interessada. Entretanto, não pensava em outra coisa senão na iminente separação.
Buscava no semblante calmo de Morgan indícios de que tencionava
oficializar o rompimento naquela noite, mas ele parecia bem disposto e com
excelente humor.
Apesar de bem conceituado, o restaurante ofereceu uma comida muito ruim e
Derek recusou-se a aceitá-la e a pagar a conta. Após discutir com o maítre,
fez valer seus direitos e Vanessa admirou-lhe o caráter decidido.
Quando afinal deixaram o Roberfs, ele sorriu:
- Que diabos! Mas não vou deixar que minha futura mulher morra de fome.
Que tal irmos para o meu apartamento e prepararmos nós mesmos um jantarzinho?
- Está bem... - ela concordou sem muita convicção, entregue ao curso dos
acontecimentos.
Estava certa de que, estando a sós, Derek abriria o jogo. Pois bem, então que
fosse o quanto antes, para acabar com aquela agonia o mais rápido possível. Ou será
que ele pretendia seduzi-la antes de descartá-la... ?
Vanessa estava tensa e apreensiva quando entrou na luxuosa sala do
apartamento de Derek, que percebendo-lhe o embaraço a abraçou, com carinho.
Todavia, ela continuava temerosa.
- O que há, Vanessa? Não se sente bem?
- Estou com dor de cabeça. Acho que foi o vinho.
- Quer tomar um analgésico?
- Não adianta, sou alérgica. Ah, dói demais! Por favor, Derek, leve-me para
casa! Quando isso acontece, só uma noite de sono pode me curar - ela implorou,
satisfeita ao constatar que sua súplica surtia efeito.
Derek prontificou-se a levá-la imediatamente para Wood House e, vinte
minutos depois, parava o carro esporte em frente à casa dos Thompson.
No caminho, Vanessa acalmara-se, sentindo-se mais segura. Agora que se
achava em terreno conhecido, seu nervosismo desaparecia como que por encanto.
Pensando no pretexto absurdo que inventara para sair do apartamento, não
conteve um sorriso travesso, que não passou despercebido a Derek.
- Sua diabinha! Você não teve dor de cabeça alguma. Foi só uma desculpa
para não ficar a sós comigo. - Ele riu e deu-lhe um beijo carinhoso nos lábios
entreabertos.
Vanessa retribuiu ao sorriso e, magnetizada com a proximidade dele, falou
com uma desenvoltura que lhe era desconhecida:
- Ora, não amole uma pobre virgem!
- E o que eu ganho com isso? - foi a réplica divertida, enquanto ele lhe
lançava um olhar malicioso para o decote da blusa.
- Que tal um café? Não lhe parece justo?
Em resposta, Derek tirou a chave do contato e desligou os faróis do carro.
Entraram abraçados na sala de estar e Vanessa sugeriu que ele se sentasse no
sofá, enquanto aguardava o café ficar pronto, Morgan, entretanto, a deteve.
- Sente-se aqui comigo... É tão bom sentir você perto de mim...
Vanessa obedeceu e, quando Derek a acomodou no colo, não ofereceu
resistência. Ele pousou os lábios nos seus, num beijo delicado e sensual.
As mãos dela repousavam sobre os ombros másculos e deslizaram pelo dorso
musculoso, numa carícia.
- Eu também gosto de estar perto de você...
- Não me toque deste jeito, querida. Receio não conseguir me controlar.
- Eu sei. Para mim também é difícil resistir à atração que sinto por você, eu...
acho que não vou suportar por muito tempo! - Vanessa admitiu, arrependendo-se
tarde demais do pouco cuidado que tivera com as palavras.
Estimulado pelo que acabara de ouvir, Derek beijou-lhe a nuca, excitando-a
até a loucura.
Não havia como escapar ao magnetismo de Derek e, esquecendo-se de tudo o
mais, Vanessa o abraçou com força, invadida por uma onda de ternura. E, sem que
se desse conta, recomeçou a acariciá-lo..
Mordiscava o pescoço largo, ansiosa por sentir o odor másculo daquela pele
macia, enquanto introduzia a mão sob a camisa, tocando-lhe o peito, o ventre...
- Vanessa... não me torture... Seu pai pode aparecer!
- Meu pai só chegará mais tarde e Trudy foi visitar a irmã. Venha.
Rolaram pelo sofá e, em pouco tempo, o vestido de Vanessa caía ao chão,
assim como as peças íntimas. Uma das mãos de Derek apertava a cintura dela,
enquanto a outra excitava-a com carícias cada vez mais ousadas.
Vanessa, num gesto instintivo, arqueou o corpo para facilitar os movimentos
dele.
A advertência, no encanto, ao contrário do que um dia imaginara, partiu do
próprio Derek:
- Por favor, Vanessa, vista-se!
Foi como se ela acordasse de um sonho. Atordoada, apressou-se em apanhar o
vestido, as mãos ainda tremendo de excitação.
Quando estava pronta, sentou-se ao lado dele, esperando pelo pior. "Agora ele
vai me pedir o anel de volta!" Recriminando-se pela falta de controle, ao entregar-se
sem a menor resistência, olhou para Derek, vacilante.
Faria o possível e o impossível para manter a classe, diante da humilhação
que estava para lhe ser imposta. Lágrimas encheram-lhe os olhos, mas ela evitou
que transbordassem. "Eu preciso ser mais forte. E serei!"
- Er... as coisas foram acontecendo, não é. ? murmurou, julgando que Derek
demorava demais para entrar no assunto.
- Diga de novo. Adoro ouvir isso de você.. - ele murmurou, num sorriso
irresistível. - É melhor não corrermos nenhum risco por enquanto. Já pensou se
Clement ou Trudy chegassem, resolvessem tomar um copo de leite e, atraídos pelos
ruídos, viessem até a sala? Ia ser uma cena e tanto!
- Eu me enfiaria no primeiro bueiro que encontrasse e só sairia de lá no fim
dos tempos! - Vanessa brincou, sem poder deixar de sorrir também.
- Mas não vamos precisar esperar muito, pois está tudo encaminhado. Eu até
já arrumei dispensa no trabalho para a nossa lua-de-mel.
- Lua-de-mel? - Vanessa arregalou os olhos. Aquilo estava indo longe demais,
longe demais! E quase desmaiou de susto, quando o escutou dizer:
- O que acha dê marcarmos o casamento para o final da semana?
Confusa, não soube o que responder. Mas Derek a tranqüilizou, afirmando
que, na primeira oportunidade, participaria Clement de seus planos.
Naquela noite, Vanessa custou a conciliar o sono, incapaz de ordenar as idéias
e assimilar o que acontecera... Simplesmente estava com o casamento marcado para
o fim da semana!
No mínimo, Oerek pretendia alimentar-lhe as esperanças até a véspera da data
marcada, quando os preparativos para a cerimônia estivessem prontos.
O súbito rompimento a deixaria bastante abalada.
Quando afinal conseguiu dormir, a madrugada já ia alta. Mergulhou num
sono agitado, que não durou muito...
Sonhou que Clement a levava para a igreja. Lá, uma multidão se acotovelava
à espera dela, em meio a uma decoração de flores, fitas e longas velas brancas em
castiçais de prata.
O vestido era branco, feito às pressas, e comprido demais. Caminhando com
dificuldade, entrou na igreja. O tapete vermelho que conduzia ao altar parecia não
ter fim e ela andava, andava, andava...
Foi aí que se deu conta de que o noivo não estava presente e estacou,
acometida de vertigem. Sem saber o que fazer, tropeçou na cauda do vestido,
arrancando gargalhada de toda a assistência, inclusive de seu pai.
Àquela altura, Vanessa despertou do pesadelo. Suando frio, demorou alguns
segundos para perceber que se encontrava no quarto, sã e salva. Olhou para o
relógio na mesinha de cabeceira. Eram quase seis da manhã.
Aos poucos, as batidas cardíacas foram se normalizando e ela recobrou a
consciência. Rememorando o sonho, teve um arrepio ao pensar que Derek poderia
realmente estar tramando abandoná-la em pleno dia do casamento!
Uma onda de ódio cresceu em seu coração. Lívida de raiva, praguejou
baixinho contra ele, cerrando os punhos. Não se deixaria cair na armadilha! "Derek
que esperasse para ver!" Seria ela a deixá-lo boquiaberto!
A partir daí, Vanessa assumiu o papel de noiva feliz, enquanto, no fundo, seu
coração endurecia dia a dia.
A correria para aprontar o enxoval e cuidar dos preparativos do casamento
serviu-lhe de pretexto para evitar Derek. Afinal, se ele pretendia levá-la para uma
lua-de-mel de um mês e meio, nada mais natural que ela estivesse ocupada e não
dispusesse de tempo para vê-lo.
Com um sorriso amargo, foi à costureira tirar as medidas para o vestido
branco. Ao recordar o pesadelo que tivera, no entanto, preferiu escolher um modelo
curto.
Todas as tardes Derek lhe telefonava para saber se tudo estava correndo bem,
ao que ela dava uma resposta positiva, fingindo corresponder às expectativas dele.
Mas no íntimo sentia-se martirizada com aquela guerra de nervos. Cada vez
que ele ligava, preparava-se para ouvir as palavras fatais de que não haveria
casamento nenhum... E ele nada dizia.
Era sexta-feira, véspera do dia marcado, e Vanessa estava prestes a sofrer
uma crise nervosa.
No final da tarde, como era de costume, Derek ligou.
- E então? Como se sente?
- Eu... estou bem. Acho que a ansiedade é um estado típico, não? Afinal,
nunca casei antes...
"Agora! Agora ele poria as cartas na mesa!"
Derek, entretanto, continuou na atitude carinhosa de sempre. Conversaram
algum tempo e ele expressou o desejo de que chegasse logo o dia em que finalmente
se tornariam marido e mulher.
E despediu-se com um toque de otimismo.
- Não fique nervosa, querida. Eu lhe prometo que tudo dará certo.
Ao colocar o fone no gancho, Vanessa explodiu num riso histérico, misturado
a um choro compulsivo.
A noite arrastou-se com uma lentidão insuportável e, na manhã seguinte,
Vanessa foi ao salão de beleza sentindo-se tal qual um condenado à morte.
Moças solícitas e gentis a conduziram para uma verdadeira maratona, que
incluiu sauna, banho de ervas e óleos especiais, pedicure, manicure, depilação e um
demorado tratamento de cabelos.
Mas, quando começaram a encher-lhe os cabelos de laquê, a fim de firmar um
penteado complicado, e aplicaram-lhe uma pesada maquilagem, ela protestou e
exigiu simplicidade. Afinal, detestava sentir-se como uma boneca de vitrine.
A vontade de Vanessa foi respeitada de imediato.
Deixou o cabeleireiro por volta das três horas, com uma maquilagem discreta,
que lhe conferia um ar saudável e natural. Os cabelos, presos num coque baixo, de
onde propositalmente escapavam alguns cachos, emolduravam-lhe o rosto com um
toque romântico.
Vanessa estava satisfeita com a sua aparência e tinha consciência de que
estava mais bela do que nunca. E, no entanto, de que servia tudo aquilo?
Sarcástica, imaginou que sempre lhe restava a alternativa de comparecer a um
baile à fantasia...
Em casa, continuou a encenar seu papel e vestiu-se, dando os últimos
retoques.
Eram quatro horas quando desceu para encontrar o pai no saguão. O
casamento estava marcado para as quatro e meia e havia tempo de sobra para
chegarem à igreja.
Clement sorriu, orgulhoso, e a abraçou, tomando cuidado para não
desmanchar-lhe o penteado.
- Como se sente? Muito nervosa? Pois não se aflija, seu pai está com você!
Vamos? Eu sei que a noiva costumava chegar atrasada, mas...
- Eu não vou, papai! - Vanessa desabafou com voz estridente.
Tremia da cabeça aos pés, incapaz de controlar o nervosismo, e precisou
sentar-se para não perder o equilíbrio.
Clement não podia acreditar no que ouvira e preferiu pensar que se tratava de
mais uma das habituais brincadeiras da filha.
- Você. o quê?
- Eu não vou me casar com Derek Morgan!
- Isso é uma piada! Só pode ser! - ele elevou a voz, alterado.
Vanessa não se mexeu no lugar, dando a entender que falava sério. O que se
seguiu foi uma confusão. De início Clement atribuiu a atitude da filha ao pânico e
fez de tudo para convencê-la de que nada havia de assustador em se casar. Aos
poucos, no entanto, foi compreendendo que ela estava mesmo determinada a não
aparecer na igreja. Inconformado, pôs-se a andar de um lado para o outro na sala.
- Mas por que se vestiu, então? Ou melhor, por que não conversou com Derek
antes que a situação chegasse a esse ponto?
- Porque... porque... - Vanessa não conseguiu dizer mais nada. Os soluços
explodiram, desesperados, mas nem isso comoveu o pai.
- Meu Deus. Eu. Pois saiba, menina, que esta é a última peça de mau gosto
que você me prega! Acho que Trudy tem razão, você foi mimada demais! - Ele saiu
da casa, batendo a porta com estrondo.
Vanessa deixou-se ficar no sofá, sentindo-se oca, sem saber se devia rir ou
chorar. O abalo que sofrera a deixara incapacitada de mover-se do lugar. Não sentia
nada, não conjeturava nada e nada mais receava. Apenas ficou ali, sentada,
enroscando o indicador numa mecha de cabelo.
Não pôde precisar quanto tempo permaneceu naquela posição, enrolando e
desenrolando a mecha como uma autômata.
Saiu do torpor ao ouvir o barulho de um carro freando e passos enérgicos se
aproximando nos degraus da entrada.
No momento seguinte, Derek surgiu à porta e avançou em direção a ela com
movimentos vigorosos.
Naquela fração de segundo, Vanessa percebeu que ele vestia um smoking
branco e bem talhado, com um cravo na lapela. Os cabelos loiros estavam penteados
para trás, fazendo-o parecer um galã de cinema, e ela sentiu o coração bater mais
rápido..
Entretanto, a expressão naquele rosto estava muito mais para Charles Bronson
do que para Rodolfo Valentino. e sua cólera preencheu a sala com um clima tenso.
Furioso demais para fitá-la, passeou o olhar pelos quadros na parede:
- Eu sabia! Meu Deus, eu tinha certeza, mas tentava me convencer de que
estava errado! Eu devia ter confiado na minha intuição. Você é uma tratante,
Vanessa!
"Então ele sabia que ela planejara passar-lhe a perna!" Vanessa esboçou um
sorriso sem graça.
- Pois bem, agora que já sabe, o que pretende fazer?
- Você tem duas possibilidades...
- Ah, é? E quais são?
- Ou você irá àquela igreja comigo por bem... ou irá por mal! Ou irá de livre
e espontânea vontade, ou serei forçado a carregá-la no colo!
- Então tente! Será que não compreende que eu o odeio? Os olhos de Vanessa
brilharam, desafiantes e em atitude de provocação.
- A essa altura, pouco me importa o que sente, srta. Thompson! Mas eu lhe
asseguro que se casará comigo!
Vanessa não agüentou mais e começou a soluçar, desamparada. E, quanto
mais tentava se controlar, mais as lágrimas vinham-lhe aos olhos, aos borbotões...
- Você... você pensa que vai me fazer de boba, mas não sabe com quem está
lidando!
Desconcertado, Derek apoiou-se ao batente e a encarou, arqueando as
sobrancelhas:
- Eu fazer você de boba?
- Não banque o inocente! A única razão que o trouxe aqui foi o orgulho
ferido, não é? Você pretendia me abandonar na porta da igreja e não suportou que
eu estragasse seu magnífico plano, não é?
- Quer dizer que você pensou... Que idéia mais louca! Derek falou mais para
si do que para ela.
- Pode parar de fingir! Qual era sua verdadeira intenção? Esperar pelo meu
"sim", para então dar uma bela gargalhada e sair da igreja, sem dar resposta?
- Mas...
- Eu sei de tudo, Derek. Você jamais pensou em se casar comigo! Só pensava
em me punir!
- Ah, agora começo a compreender! Vanessa, acredite, eu parei de brincar no
dia em que coloquei o anel em seu dedo Derek assegurou, sentando-se ao lado dela,
já mais calmo.
- Você parou. Mas você me disse que não queria se casar comigo!
- O que mais eu podia dizer? Eu desejava me aproximar de você a todo custo,
mas você ignorava todas as minhas tentativas.
- Tentativas?
- Claro! Eu a amei no primeiro momento que a vi, naquela boate. Imagine
meu espanto quando você começou a me condenar por uma coisa que eu não fazia a
mínima idéia do que era! Aí fui atrás de você no estacionamento, procurei-a no dia
seguinte, telefonei-lhe... E você sempre me ignorando!
Vanessa recomeçou a chorar, mas desta vez de felicidade, e buscou o
aconchego dos braços de Derek.
- Ah, Derek, me abrace forte! Se você soubesse o quanto sofri! Descobri que
o amava e, ao mesmo tempo, precisei conviver com a perspectiva de perdê-lo, dia
após dia!
Derek a apertou contra o peito e acariciou-lhe os cabelos com infinita ternura.
- É tão bom saber que você me ama, Vanessa!
- Eu amo você com loucura, Derek. Tive tanto medo de te perder.
Tentando esquecer o pesadelo, Vanessa beijou a boca sensual de Morgan,
com infinita ternura.
Ele correspondeu avidamente, apertando-lhe a cintura, para então percorrer os
quadris e as coxas, com mãos experientes que a fizeram submergir num mar de
sensualidade.
Beijavam-se com ardor e ondas de desejo cada vez mais fortes percorriam o
corpo de Vanessa, que, na voracidade da paixão, entrelaçou as pernas às dele.
Arquejantes, entre afagos e carícias, caíram no chão...
Mas Morgan se levantou e estendeu-lhe a mão. Juntos caminharam até a porta
e, com um sorriso malicioso nos lábios, ele a olhou com profunda afeição:
- É melhor nos apressarmos, meu bem. Do contrário, não chegaremos a tempo
na igreja.

FIM