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PALAVRA AO LEITOR , p.

3
TRIBUNA
.... ~ ~ . .
Do Nosso Jeito
Mário Rost
"'\

\ .,."
L :" p.5

ARTIGOS
A Oferta Queimada , !••••••••••••••• p.9
Deomar Roos
Igreja, Família e Missão . p.37
Leonardo Neitzel
Filosofia da Educação Cristã Lu p.55
Equipe Técnick do ICSP
Filosofia da Educação Cristã ..................•.... p.67
Equipe Técnica do ICSP

LITURCIA
Domingo de Cristo para Todas as

x
MÚSICA
.... ............................... , p.88
p.89

01 . BIBLIOGRÁFICA' ~ f (..r p.91

LIVROS RECEBIDOS r \ ~ ::": .. ~ p. 95


Suplemento Teológico

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Suplemento Teológico
ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

INSTITUTO CONCÓRDIA
DE SÃO PAULO
EDUCANDÁRIO OFICIAL DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL

--~

Volume 16 li Número 1 e Ano 2001


VOX CONCORDIANA - SUPLEMENTO TEOLÓGICO
Revista teológica semestral publicada pela se - o -

Congregação de Professores da Escola Superior de Teologia


"Igr:::- ~

EdL:= =-

Editor da;:- ;:- -


Deomar Roos
caç2= __
ta e~_='
Congregação de Professores
preg:-<
Ari Lange, David Coles W., Deomar Roas,
anos .~_, _
Leonardo Neitzel, Mário Rost,
Paulo W. Buss, Raul Blum oferece- : _
fica,
CUltUE ~-:-
Os artigos assinados são da responsabilidade dos seus autores jeitinb: __
t.or G"'- --
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eletróric:
ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA
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Tiragem: 900 exemplares

Volume 16 e Número 1 li Ano 2001

VOLUME lé •
A presente edição da Vox Concordiana oferece material variado con-
tendo reflexões relevantes para a vida da igreja. Na Tribuna, o prof. Mário
Rost compartilha a experiência que teve no trabalho pastoral com congre-
lENTO TEOLÓGICO gações estruturadas no sistema de áreas de ação. A seçào Artigos apresen-
ta três trabalhos. O primeiro artigo examina" A Oferta Queimada". Trata-
lblicada pela se da exegese de uma perícope do livro de Levítico enfocando o sistema
Superior de Teologia sacrificial do Antigo Testamento. O prof. Leonardo Neitzel contribui com
"Igreja, Família eMissão", um resumo da sua tese de doutoramento na
área da missiologia. A equipe técnica do ICSP delineou a "Filosofia da
Educação Cristã Luterana" que contém a proposta teóricaj teológica e pe-
dagógica da educação oferecida no ICSP. O sumário da "Filosofia da Edu-
cação Cristã Luterana" é um resumo do mesmo artigo que o precede nes-
:ssores ta edição da Vox Concordiana. A seção Liturgia traz a ordem litúrgica e a
Deomar Roas, pregação do culto de ação de graças que celebrou os cinqüenta e quatro
Üio Rost, anos da CPTN em solo brasileito. O praf. Raul Blum, na seção Música,
1 Blum oferece dois hinos inéditos para o uso congregacional. A Resenha Bibliográ-
fica, elaborada pelo prof. Leonardo Neitzel, enfoca uma obra na área da
cultura brasileira que trata de um tema que todos nós conhecemos bem: o
idade dos seus autores jeitinho brasileiro. Toda esta matéria certamente merece a atenção do lei-
tor da Vox Concordiana.
IAS CONGÊNERES As reações dos leitores da Vox Concordiana serão bem recebidas. O
contato com o editor do periódico pode ser feito por carta ou por correio
eletrônico.
~OLOGIA
Ao leitor, ... boa leitura!
São Paulo, SP
: (11) 5841-7529
m.br
Deomar Roos
Editor

e Ano 2001

VOLUME 16 e NÚMERO 1 ••ANO 2001 3


Do Nosso lEITO
'"

lviário Rost 1

- Por quê?
- Porque sim.
- "Porque sim" não é resposta!
Este diálogo é comum nas discussões infantis. Significa que algo não
tem explicação, que uma das partes não quer dar explicações ou acha que
não deve argumentar.
Ocupo esta tribuna com a intenção de provocar reflexão sobre coisas
que fazemos como sempre fizemos e raramente explicamos; sobre as quais
não conversamos buscando compreender e fazer compreender a razão de
fazermos aquilo do jeito que fazemos. Quero compartilhar sobre coisas
que aprendi e vivenciei ao servir congregações como a flCristo" de
Mal.Candido Rondon, PR e a "Ebenézer" do Campo Limpo, São Paulo,
SP. Vou falar da vida congregacional e de diferentes enfoques na organi-
zação de congregações cristãs luteranaso
Por quê construir igrejas? Conservar igrejas? Identificar igrejas?
Realizar cultos? Ensaiar corais? Aprender tocar instrumentos musicais?
Ornamentar altares? Fazer fogo (velas)? Limpar igrejas? Batizar? Divul-
gar devocionários? Comprar hinários? Ler a Bíblia? Ensaiar danças? Criar
liturgias? Celebrar a Santa Ceia? Inscrever comungantes? Absolver pe-
nitentes? Adquirir instrumentos musicais? Equipamentos de sorn? Noi-
te de corais? Noite artística/ de talentos? Construir salas de aula? Trei-
nar professores/as? Comprar material didático? Realizar congressos in-
1S o ~lra b a lhOm.'h os manUalS (1
f an t'? o . t
co agem, pm.uraj 1110 d.elagerrt
; .,,). 1 as-
\? D
seios? Catecismo? Programas de Natal? Canto para as mães? Homena-
gem aos pais? Pic-nic? Confirmação? Estudos Bíblicos? Grupos do PEM?

1 Professor na Escola Superior de Teologia, São Paulo, SP.

VOLW,IE 16 e NÚMERO 1 " ANO 2001 5


TRIBUNA--------·-----------------------

Visitas aos afastados? Visitas aos idosos? Visita aos enfermos? Visitas que dá pricL-.' " --
evangelísticas? Entregar folhetos? Manter programas de rádio? Escre- ainda deix',y,:.::
ver em jornais e revistas? Iniciar pontos de pregação? Fundar novas con- 3. No
gregações? Enviar missionários? Socorrer necessitados? Fazer campa- disponível ::~':.:
nha do quilo? Bazar da pechincha? Doar roupas e utensílios? Oferecer teológica so1.---:ê~.'
cursos e palestras? Convidar pessoas novas? Recepcionar visitantes? objetivos. E:,.':::::.~-'
Realizar almoços comunitários? Integrar novos membros? Manter ca- No det?~:::_.
dastro de endereços? Participar de congressos e atividades distritais? de uma gran.:':ê ~:
Elaborar relatórios? Enviar estatísticas? Ofertar? Preparar informativos? rança para
Conviver? Aconselhar? Consolar? ... e tantas outras coisas ... por quê? manentemen:::: ,
Sim, por que fazemos tudo isso? Porque sim? opção pela c-r~c:' -
Todos nós pretendemos que a igreja seja atuante, cheia de vida; que vens, mulher::::. ::
todos os seus membros estejam envolvidos, sentindo-se parte da igreja, frente de aç2.c ~.:
não apenas espectadores. Imaginamos as crianças, os jovens, adultos e áreas. As orie,'c:
idosos envolvidos nos trabalhos da igreja. Mas como planejamos alcançar grado de EXp;7:::o

isso? Como organizamos nosso trabalho? Adotamos, praticamente desde para a adoç~;~ ~.
o início da IELB, o modelo com departamentos que reúnem segundo a metas para c-s ~.- -.
idade e/ ou segundo o sexo das pessoas. Mas ... por quê? munhão, ensz·: _ ,.
Alguns fatos contribuíram decisivamente para a percepção de que a Por que ro=-c
organização das pessoas de uma congregação para o envolvimento no ção? Porque si,"
trabalho não precisa necessariamente partir do critério idade e sexo: Quero "_;:-.,.
1. No final dos anos 70, início dos anos 80, circulou um livrete prepa- trabalho das 'C::::':
rado pelo pastor Horst Kuchenbecker, chamado Minha Igreja. Além dos - Propor.::' -- - -,
dados históricos da IELB, que na ocasião celebrava o seu 750. aniversário, fa primordis.l .~.',_:::
organograma, resumo das principais doutrinas, encontrei ali, pela primeira ação com. a rêZ~.: ':: '::
vez, sistematizados de forma muito clara e simples os objetivos da Igreja. za da igrej2" 2 c
Em alguns poucos parágrafos apontava as razões da existência da igreja pIo, tem a \'e:- '::'-'
cristã no mundo e fundamentava cada uma com várias passagens bíbli- - Q"~n~
L-I..a.~
L,,---,~::.'

caso Uma verdadeira preciosidade. Mostrava como pela adoração, comu- que o evang-::__··
nhão, ensino, serviço e testemunho a igreja caminha para alcançar seus obje- tarmos SOD''.e::-'.
tivos, cuidando de seus membros e abrindo as portas para o ingresso de detrimento "~" :o:
muitas outras pessoas. - No esc'.:::': -
2. Em meados dos anos 80, a Escola Superior de Teologia convidava a muito nm'a"-
gente para uma programação chamada Semana do Leigo. Eram reunidos vens; muitc t.:
dezenas de leigos e pastores que estudavam e refletiam sobre os objetivos servas. No"-: -- ::
da Igreja, abordando cada vez um deles. Foram memoráveis encontros nos congress_ o '
que serviram para sedimentar a compreensão de uma igreja comprometi- sexo aposte- ",:',' ~
da com os interesses mais essenciais do evangelho, com uma perspectiva NaestrutuE _7.:-c·'

6 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ••.\


------------------ROST: ÁREAS
DEAçÃoNACONGREGAÇÃO

, Visita aos enfermos? Visitas que dá prioridade a organização em vista dos objetivos pelos quais Cristo
r programas de rádio? Escre- ainda deixou sua igreja no mundo.
'pregação? Fundar novas con- 3. No final dos anos 80, o Prof. Erní Seibert lançava um livro, agora
r necessitados? Fazer campa- disponível sob o título A Igreja Hoje, oferecendo subsídios para reflexão
roupas e utensílios? Oferecer teológica sobre práticas da congregação cristã organizada a partir de seus
,vas? Recepcionar visitantes? objetivos. Excelente material de estudo para lideranças.
novos membros? Manter ca- No debate para flexibilizar o rigor tradicionalista e //pastorcêntrico"
cessos e atividades distritais? de uma grande congregação, visando ampliar o campo de ação da lide-
:ertar? Preparar informativos? rança para além dos aspectos ditos administrativos
11 e desenvolver per-
11

1tas outras coisas ... por quê? manentemente novas lideranças/ foi se cristalizando em meu pastorado a
im? opção pela organização do trabalho segundo áreas de ação. Líderes jo-
eja atuante, cheia de vida; que vens/ mulheres e homens passaram a avaliar, planejar e coordenar cada
;8, sentindo-se parte da igreja, frente de ação da congregação atuando como diretorias das respectivas
crianças, os jovens, adultos e áreas. As orientações da IELB com vistas a preparação de um Plano Inte-
,ias como planejamos alcançar grado de Expansão/ na segunda metade dos anos 80, também colaboraram
~dotamos, praticamente desde para a adoção da estratégia, pois encareciam a definição de objetivos e
Lentos que reúnem segundo a metas para os cinco anos seguintes em cada uma das áreas: adoração, co-
.
as ... por que.A? munhão, ensino, serviço social e testemunho.
'nte para a percepção de que a Por que fazemos as coisas do jeito que fazemos na nossa congrega-
ação para o envolvimento no ção? Porque sim?
r do critério idade e sexo: Quero repartir pontos que avalio como positivos na organização do
80, circulou um livre te prepa- trabalho das pessoas na congregação segundo as cinco áreas citadas:
mado Minha Igreja. Além dos - Proporciona bastante clareza sobre como e onde engajar-se na tare-
lebrava o seu 750. aniversário, fa primordial da Igreja: proclamar o Evangelho. Fica fácil relacionar cada
1as, encontrei ali, pela primeira ação com a razão de ser da Igreja. É bom compreendermos o que a limpe-
: simples os objetivos da Igreja. za da igreja, a arrumação do altar ou recepção dos visitantes, por exem-
razões da existência da igreja plo, tem a ver com a adoração e testemunho do povo de Deus.
a com várias passagens bíbli- - Quando prestamos atenção simultaneamente às várias direções a
va como pela adoração, comu- que o evangelho nos impele/impulsiona, afasta-se o risco de incremen-
ninho. para alcançar seus obje- tarmos somente uma linha de atuação. Privilegiar o serviço social, em
Q as portas para o ingresso de detrimento do ensino e do evangelismo, por exemplo.
- No esquema jovens-servas-Ieigos é comum que pessoas se sintam
)erior de Teologia convidava a muito novas ou muito velhas para participar do departamento dos jo-
'llana do Leigo. Eram reunidos vens; muito novos ou muito novas para o departamento dos leigos ou das
l e refletiam sobre os objetivos servas. Nos congressos de servas, os homens serão sempre bem-vindos;
:::oram memoráveis encontros nos congressos dos homens, as servas serão sempre bem-vindas - mas o
3.0 de uma igreja comprometi- sexo oposto em relação a maioria sempre será um estranho no ninholl•
11

ngelho, com uma perspectiva Na estrutura das áreas de ação não há "estranhos no ninho" nem pessoas

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 7


TRIBUNA----------------------------------

muito novas ou muito velhas. Você nunca está novo ou velho demais para
a evangelizaçào, para o serviço, para o ensino, para a comunhão, para a
adoração. O tempo de permanência numa determinada área de ação pode
ser o tempo da vida inteira.
- O cristão com aptidões e treinamento em determinada área pode
desenvolver por muito mais tempo a atividade para a qual tem aptidão e
foi treinado.
- É favorecido. a integração da família pelas atividades na igreja. Pais/
mães e filhos, avós e netos, tios/tias e sobrinhos, irmãos/primos de dife-
rentes idades -podem estar ativos num mesmo deoartamento.
<" A exoeriên-
cia, o ímpeto juvenil e a descontração das crianças convivem numa mes-
cla saudável, sem ranços, preconceitos ou incomunicação.
A estrutura de direito, com seu presidente, tesoureiro, secretário e
vices que é necessária, inclusive para que se cumpram os requisitos para
existência de uma congregação frente à legislação do país, se revela, no no .<.A.•. rLtlgc
entanto, insuficiente e inadequada para o trabalho próprio da Igreja ten- oferta quei::::-.?_ .
do em vista seus objetivos. Junto com a "estrutura de poder", sujeita a (V",\,'.-.1-
"9\ .i,
""-,c:. ,_ :~'"-=

uma grande rotatividade, uma congregação necessita de uma "estrutura gógicas


de trabalho", uma "organização para a ação", com líderes que tenham a logia básic? :?
virtude da constância, que sirvam de referência e orientação para quem é cas sugeIli:.?:: -:.
mais novo ou está chegando agora.
Em si, de fato; não é um modelo organizacional que resolve todos os
problemas na igreja; nem é o antigo que cria todos os problemas que exis-
tem nela. Mas ... ainda lembramos por qtle temos esta ou aquela forma de
organização ao atacarmos os desafios como Igreja? Percebemos que há
outras formas viáveis para estruturação das nossas congregações? Por
que esta ou aquela forma é mais apropriada? Quais suas vantagens e des-
vantagens? Por que mudar algo? Por que não mudar algo?
- Porque sim?
. - --- - -

8 Vox CONCORDIANA
,,? novo ou velho demais Dara
~
- _c, para a comunhão, para a
~,ernÜnada área de ação pode

em determinada área pode


':le para a qual tem aptidão e

:>8 atividades na igreja. Pais/


A OFERTA QUEIMADA
"'-

~-hos,irmãos/primos de dife- Deomar Roos 1


-_~,
,
departamento.
. A experiên-
~::mças conVIVem nurna mes-
'_~omunicação. I. INTRODUÇÃO
Cente, tesoureiro, secretário e
c::umpram os requisitos para A tarefa deste artigo é examinar o sacrifício básico do cuito de Israel
.-slação do país, se revela, no no Antigo Testamento, a oferta queimada (il71l). Das três variedades de
_~balho próprio da Igreja ten- oferta queimada previstas em Lv 1, a primeira delas, a oferta do novilho
<rutura de poder", sujeita a (vv.1-9), é que recebe atenção.2 O artigo traça rápidas considerações isa-
necessita de uma "estrutura gógicas sobre o livro de Levítico, investiga o texto em foco, delineia a teo-
, , com líderes que tenham a logia básica da oferta queimada e indica algumas perspectivas poimêni-
:~.::iae orientação para quem é cas sugeri das pela perícope.

z?,cional que resolve todos os


".)dos os problemas que exis- 11. CONSIDERAÇÕES ISAGÓGICAS
2:110S esta ou aquela forma de
Igreja? Percebemos que há A. Caráter do livro de Levítico
. '- nossas congregações? Por
- Quais suas vantagens e des- Desde tempos antigos, Levítico costumava ser o primeiro livro estuda-
~J n-mdar algo? do pelas crianças judias e integrava o fundamento curricular da escola pri-
mária judaica conservadora. Qual é a razão desta preferência por Levítico?3
Isto mostra a importância do livro na teologia judaica conservadora.
Na tradição massorética, o livro é intitulado pela palavra inicial do
texto ~~P"1 (1.1), forma verbal traduzida como "e chamou". O título "Le-
vítico" dado ao livro pela teologia ocidental pode ser enganoso no senti-
do de sugerir que se trata de um livro com as rubricas para os levitas. Na

1 Professor na Escola Superior de Teologia, São Paulo, sr,


2 As outras variedades são a oferta de caprinos e ovinos (vv. 10-13) e de aves (vv. 14-17).
3 Milgrom, Leviticus 1-16, p, 3, cita um midrash explicativo para tal preferência.

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 e NÚMERO 1e ANO 2001 9


ARTIGOS------------------------------
2. Con-~ - c- --
verdade, o livro pouco tem a ver com os levitas que são mencionados ape- 17-27):
nas em 25.32-34, quase en passant.4 No período helenista, o termo "levitas" a) santlc~~::é:
significava" sacerdotes" e é isto que a Septuaginta e a Vulgata intencionam bi, - --..-
" , •.
sanL1UcC
- -
c
~
exprimir com os títulos AEuCnKov e Leviticus, respectivamente. Isto é equi- c) sarLtici?>i:: ~ ~
valente à designação rabínica bi~j~i:ll1Jin("manual dos sacerdotes"). d) santid~~é: ~:'
Embora o livro refira-se aos sacerdotes, apenas algumas leis dizem e) testas ::2.:---: _~ ~
respeito somente a eles. Com exceção de alguns capítulos,5 a maior parte f) Sânticlaci::- _
do livro não é dirigido. ao clero mas aos leigos, à nação como um todo. O g) recorrere>:' _-:
destinatário primeiro de Levítico é o povo de Israel. Este fato é significan- h) redirniL~::
te e indica que o sacerdócio universal de todos os crentes já estava previs- Um olhar é<:é--'
to desde tempos antigos. O fato de Levítico envolver todo o povo de Deus truturado ao re'~~::.::
contrasta com a produção semelhante no antigo Oriente Próximo onde a ção e da santifi.::,c.:: c

literatura sacerdotal era dirigido. estritamente aos sacerdotes iniciados no são articulados :O.: _.
seu mister. a matéria vai S2:-:'::
aspecto de justifi.:: o -, ~
B. Esboço do livro de Levítico quanto a segure:> -~
O livro de Levítico tem uma estrutura bem definida. De forma sim- santificação. O 25': ::-:
ples, Levítico pode ser dividido em três blocos principais: ção ("como ISr22
("como Israel de.~::: -:c::
1. Remoção da impureza que separa o ser humano de Deus (Lv 1-16).
2. Comportamento apropriado ao povo purificado (Lv 17-26).
C. Data e autoria. de ~_-'::J
3. Apêndice sobre os votos (Lv 27).
Também é possível delinear a estrutura do livro da seguinte forma: O livro de L,H_::.
1. Manual do sacrifício (Lv 1-7). Moisés. O livro ir'ci.:::~c • -~

2. Sacerdócio (Lv 8-10). lhe disse" (1.1), _"".i:::-::


3. Pureza e impureza (Lv 11-16). SENHOR a Moise5
4. Santificação (Lv 17-26). NHOR a Moisés e ~. "h - -

5. Apêndice sobre os votos (Lv 27). redigidas na tercei::-: -:


O teólogo luterano Mark Lenz esboça o livro de Levítico como se- personagem que c:c.
gue:6 explícita da autor> ,:- . ::'
1. Como Israel deve aproximar-se de Deus (Lv 1-16): cos, a respeito de ?'-:~'-
a) pelo sacrifício de sangue (Lv 1-7), autoria do livro.7
b) através do sacerdócio (Lv 8-10), 1. A visão tmdi::
c) evitando contaminação (Lv 11-16). do pelo Moisés histÓL:::
até Moisés. Entre ouc
4 A Concordância Bíblica e o BibleVlorks 4.0 registram, no livro de Levítico, dois versículos com a
ocorrência do substantivo "levita": Lv 25.32-33. 7 Veja os comentários e c'
5 Como, por exemplo, 6.1-7.21; 10.8-15; 16.2-28. aprofundada a respeito.:ic ."
6 Lenz, Leviticlls, pp. 10-11.
VOUfME 16 <; NÚMERO 1. • .

10 Vox CONCORDIANA
------------------------ Roos: A OFERTA QUEIMADA

2. Como Israel deve demonstrar seu relacionamento com Deus (Lv


.~:~ que são mencionados ape- 17-27):
c : :,elenista, o termo "levitas"
a) santidade pessoal (Lv 17),
- ;:"ta e a Vulgata intencionam
b) santidade no comportamento sexual (Lv 18),
:espectivamente. Isto é equi- c) santidade na sociedade (Lv 19-20),
d. ~ 1 dos sacerdoteslf) •
o;; 11!.-a_
___ c..:.. ~· ••..

d) santidade para sacerdotes (Lv 21-22),


'?penas algumas leis dizem
e) festas santas (Lv 23-24),
c .res capítulos,5 a maior parte
f) santidade da terra (Lv 25),
::~ à nação corno um todo. O
g) recompensa pela obediência e punição pela desobediência (Lv 26),
e I~raeL Este fato é significan-
h) redimindo o que é de Iahweh (Lv 27).
- ::"os crentes já estava previs-
Um olhar atento ao esboço de Levítico constatará que o livro está es-
:c:"'olver todo o povo de Deus
truturado ao redor dos dois pilares da teologia bíblica: os motifs da justifica-
. ::go Oriente Próximo onde a
ção e da santificação. Os meios e a dinâmica de justificação e santificação
'= 20S sacerdotes iniciados no
são articulados ao longo do livro numa lógica crescente na medida em que
a matéria vai sendo desenvolvida. De forma genérica, pode-se dizer que o
aspecto de justificação recebe maior ênfase no primeiro bloco (Lv 1-16) en-
quanto a segunda divisão (Lv 17-27) dá grande atenção ao elemento de
:em definida. De forma sim- santificação. O esboço proposto por Lenz reflete esta estrutura de justifica-
:25 principais: ção ("corno Israel deve aproximar-se de Deus", Lv 1-16) e santificação
õ:= humano de Deus (Lv 1-16). ("como Israel deve demonstrar seu relacionamento com Deus", Lv 17-27).
:_;urificado (Lv 17-26).
C. Data e autoria do livro de Levítico
jo livro da seguinte forma:
O livro de Levítico é composto de oráculos revelados por Deus a
Moisés. O livro inicia com a sentença "e chamou o SENHOR a Moisés e ...
lhe disse" (1.1). Afirmações corno "falou o SENHOR a Moiséslf, "disse o
SENHOR a Moisés", "disse mais o SENHOR a Moisés" e "falou o SE-
NHOR a Moisés e a Arão" são recorrentes no livro. Estas afirmações estão
- livro de Levítico corno se- redigidas na terceira pessoa do singular corno se o seu autor fosse um
personagem que observava o que se passava. Nã.o há no livro afirmação
explícita da autoria mosaica. Assim sendo, debate-se, nos meios acadêmi-
eus (Lv 1-16):
cos, a respeito do autoria do livro. Três são as propostas a respeito da
autoria do livro?
1. A visão tradicional - aqui favorecida - entende que o livro foi redigi-
do pelo Moisés histórico. Ou que, pelo menos, a matéria do livro retrocede
até Moisés. Entre outros, há quatro argumentos que sustentam esta visão:
- ~J de Levítico, dois versículos com a
7 Veja os comentários e os manuais de isagoge do Antigo Testamento para uma discussão mais
aprofundada a respeito da autoria de Levítico e do Pentateuco.

VOLUME 16 " NÚMERO 1 " A.NO 2001


Vox CONCORDIANA
ARTIGOS--------------------------------

a) O livro pressupõe que as leis foram dadas por Deus a Moisés no


deserto. Afirmações como as contidas em Lv 27.34 e mesmo as acima men-
cionadas dão apoio a esta afirmação.
b) Não há instituição ou afirmação em Levítico que não possa ser
enquadrada no período mosaico.
c) Levítico não se enquadra e não supre as necessidades específicas sacrificL=Ú - _
do período pós-exílico, como defendem alguns autores. contidas (
d) O livro de Ezequiel, especialmente nos seus capítulos finais, cita
ou refere-se a Levítico com muita freqüência. Isto seria indicador da auto-
ridade e antigüidade de Levítico.
2. A visão crítica abandona a autoria mosaica. Levítico é um documen-
.-- ..
to sacerdotal originário da fonte P de origem pós-exílica. Foi Julius Wel- tecrncc) e tr,~__
...
lhausen quem popularizou a expressão clássica de uma evolução da vida SIdO eSCl"Itc --
religiosa do antigo Israel. Segundo Wellhausen, a religião de Israel era
simples no início da sua história, passou por sucessivas etapas de desen-
volvimento religioso e progrediu para um formato mais complexo e refi-
nado. Esta evolução é detectada nos livros do Antigo Testamento. Os tex-
tos de Crônicas e o documento P apresentam o ponto final desta evolução
religiosa. Uma evidência desta evolução seria o próprio sistema sacrificial
que, no início, não previa local definido para o culto. O mesmo ocorre
com as festas do Antigo Testamento que, ao final, têm calendário rígido.
Tudo isto demonstra o crescimento do poder e da influência da classe sa- pacíficas ~
cerdotal na vida do israelita comum. Tanto o documento P como o livro .A~estrllttlr.:~ ~_-
de Levítico tiveram a sua edição completa ao final do século V a.c. segmda
3. A visão intermediária foi defendida, em tempos recentes, pelos teó-
Jogos judeus Yehezkel Kaufmann e Jacob Milgrom, entre outros.s Esta fício ele
percepção entende que o documento P é pré-exílico mas não mosaico. Três
argumentos básicos sustentam tal posição intermediária: / r,
a) A língua, as leis e as instituições de Levítico não se enquadram paCIIICEL:,..-

nem se adequam ao período pós-exílico. e de


b) Deuteronômio e Josué mencionam Levítico e outras partes do do-
cumento P. Porém o inverso não acontece.
c) As leis de santidade, da guerra, do sacrifício, do sangue lembram COIlrurlç2~C ~:
as leis mencionadas em Juízes e Samuel. por três C:J_·,-~ - :

Nos meios acadêmicos críticos, a opção dois é aceita, sendo agora 17).
questionada pela terceira alternativa.

8 Veja, por exemplo, a argumentação de Milgrom em LeViticus 1-16, pp. 3-35.


10 Veja, pc,'

12 Vox CONCORDL4.NA
-------------------- Roas: A OFERTA QUEnVIADA

- c ~~o:' Dor Deus a Moisés no


:..;:::mesmo as acima men-

~ : <tico que não possa ser o prirrteiro t'tloco elo livro ele Le\TÍtico (L\T 1~7) é den.orrtlriado "IT1..arlual
do sacrifício/!o 1\ razão do llOlne é ev'idente: esta seçã.o apresertta o sisterrta
c:'- ~:ecessidades específicas sacrificial d_o.l-b.~n.tigo Testaulerlto errl detalrles e COr1'lvariações. As listagertS
~,utores. contida.s errt 1.1=6.7 e 6.8=7.38 são distirttas con-i algulTIaS repetiçõesY Per=
~:::us capítulos finais, cita gurlta-se pelo ITloti\lO de tal diferença rlàS listâgens. il~srespostas são 'varia-
=~::' seria indicador da auto- das. TaJ'vez a n-tais con_',lincertte é a qllê ~ djstin.gue
~ erttre as audiências de
cada seçào. L"\ll,1-b,7 parece ser rnais diciáJico: visand~o o leitor co:rrrU1Ti, e
.:_ =? Levítico é um documen- cOrttéríl inBtru.ções sacrificíais dirigidas ao po-vo sirr'tples, L··/ 6,8-7,38 é 111_ais
-. ~Ós-exí1ica. Foi Julius Wel- técrÜco e traz as rubricas ~1ara os oficiarltes.10 :Fortanto; L~/ 6.8-7.38 de\Te ter
. =~,de uma evolução da vida sido escrito d_d perspecti'va do oficiallte d_ocuJto 'visarlcio os sacerdotes.
:;:n, a religiã.o de Israel era
'xessivas etapas de desen-
':-"'Lato mais complexo e refi- lI!. TEXTO DE LEVÍnCO 1.1-9
_.:o.ntigoTestamento. Os tex-
- ~-'onto final desta evolução Ao Contexto e estrutura literária
- próprio sistema sacrificial
o culto. O mesmo ocorre Le,/ítico iriicia com os três tipos ul.ais comu:ns de sacrifício ào Antigo
__nal, têm calendário rígido. T"~;,,~,~,,,<-,t·r
.l.~ulclll.l,-.l~ v,.. vI _~ •....
r,cert'as u __ l(h ..tC~~ \íTL'v- i')
q'~"'1·m~rl.'r. ('\;:n~t~·-L!'C:
.1. I V..!.C.l.Ou r1r. c0r"'~;C alL! \LV
••....••.... íT" L} ••....o;:nrt~~
r)\ ç, 1'C ~au
, -= da influência da classe sa- pacíficas (L\T 3). 'fodas estas são ofertas l/de arOITla agradá:velfl ao Serttlor.
jocumento P como o livro A estrutura literária destes três capítulos é sirnples: a introdução (1.1-2) é
final do século Va.c. seguida de nove parágrafos, sendo três para cada tipo de oferta. O sacrifí-
tempos recentes, pelos teó- cio r_li_aIs irn_porta11te é tratado prinleiro, PAoferta queilrtada enfoca o sacri=
Ugrom, entre outros.8 Esta fício de bO~\linos (1.3-9); de ovinos e caprinos (1.10-13) e de a-'ves (1.14-17).
'-::·.ilico mas não mosaico. Três [}uas \lariedades de ofertas d_e cereais são enfocadas: cereais não cozidos
- ::::rmediária: (2.1-3); cozidos (2.4--10) e orientações 'variadas (2.11=16). Dentre as oÍertas
Levítico não se enquadram pacíficas, sEioclescritos os sacrifícios de bO\lir;.os (3,1-5)/ ele o'vi:n_os(3,6-11)
e de ca~}rirtos (3. 17).
2c-itico e outras partes do do- L\71 terrt três parágrafos antecedidos pelâ introclução (V\l. 1-2). p~es-
trutura literária (leste capit-ulo é clara: a clá"Lisula prill.cipal irdcia COITl a
êcrifício, do sangue lembram COlljtl11Ção ~~ (-v, 2: JJqlléuldü - - alglu§rn dentre \lÓS ... q_lle é segllida
por três orações subordin_ad,as iniciadas 1)01"E~ (Use!!; ~\T'V. 3~~9;10=13" 14=
dois é aceita, sendo agora 17). C}":p defirle a sittlaç2~O geral e o b~ apoIlta para a CâStllstica rrlarcan.o.o
as subdi'visões. i\. fraseologia do capítulo é con.sistente. Cada tipo de ofer=

SIL,;/ I.1-6.7 das nossas versÔes correspo11de a Lv 1-5 na BibIia hebraica. L~\T6.8-7.38 é o equivalente
,1-16, pp~3-35. aos capítulos 6-·7do texto lYt3SSorético.
10 \Tej2~! por exelYlplo, as orientações para o ritual contidas en1 Lv 6.9,25.
Vox CONCORDIANA
13
ARTIGOS-------------------------------------
trava a are,:: ~
ta queimada inicia com "se a sua oferta for ..." e termina com "aroma tro entre D2'~'
agradável a Iahweh". A primeira oferta é descrita em detalhes e as outras FunciomÜn',:,, ::'
duas recebem descrição sucinta. Em todos os três tipos fica claro o papel
do adorador e o papel do sacerdote.
Versículo 2
B. Texto de Levítico 1.1-9
Versículo 1

Tradução: IIE Iahweh chamou a Moisés e falou-lhe da tenda da reu-


nião dizendo: ..." Traduçã,c
tre vós aprese:~~:.
animais domé"-'":: =
1. Os vv. 1-2 servem de introdução tanto ao manual do sacrifício (Lv
1-7) como a todo o livro de Levítico.
2. O texto inicia com vaw consecutivo sugerindo que Levítico faz parte 1. Há alg:·.·.:-~~:
de uma narrativa mais ampla. É um novo documento vinculado à obra 10 tal qual ar::"'''-.c- -. ~
athnach sob _._0 _ .
anterior. Ao final do livro de Êxodo, o tabernáculo está erguido (Êx 40). A
continuação vem em Levítico que apresenta as leis a serem implementa- tradução acirc.~ ~-:~'~
='

das no tabernáculo e na vida do povo de Israel. Vulgata apó:" '


dois substantl\ ~ ~.::
3. Moisés se encontrava no pátio externo do tabernáculo e Deus lhe
falou do interior da tenda da reunião. Normalmente, Deus falava com refere-se a qU?:::: .u

2. A oroer:-
Moisés a partir da arca da aliança, estando Moisés dentro da tenda mas
separado da arca pela cortina (Êx 25.22; 30.6,36; Nm 7.89). Aqui, Moisés ção dentro de ...:-:
ficou sozinho com Deus para receber a comunicação divina. ao povo. Existe ?o ~ ..
rnas não são s::'~ :'.0.
4, O verbo ~}I?,normalmente traduzido como "chamar", tem o senti-
do de falar em voz alta e clara. É o verbo usado quando se refere a alguém externo, com ê:-:':.
que está longe (Êx 34.31; Is 40.2). Neste contexto, o verbo indica solenida- interno, dandc :O-'":::=- .

3. Ao On.,'=~ : o

de e importância do que segue.


sacrificial de"l.'e"-:- -
5. A expressão 1l.'i1j Si)K tem sido traduzida como Iltenda da congrega-
Israel. Entre 2,5 :' .. ' _ '::.
ção". As versões recentes preferem Iltenda da reunião" ou "tenda do encon-
tro". O termo 1!.'i1j é proveniente da raiz 1lJ; que significa "designar" (qal) Mesopotâmia '" :::.::'"
bem como I'reunir-se, vir, juntar-se, congregar-se, aliar-se" (nifal). Também
11 Veja a nota a d:
tem o sentido de II tomar conselho junto". A tenda da reunião é a parte inter- Levine, Le·vitic:.~ -
na e central do tabernáculo. Estava dividida em dois ambientes: o lugar you presents ":-.
Erom the flock.
santo, onde ministravam os sacerdotes, e o santo dos santos, onde se encon-
12 Veja Milgrom, :..::

14 Vox CONCORDIANA VOLUME 16" NU"':C' .


Roas: A OFERTA QUEIMADA

e termina com "aroma trava a arca da aliança. Portantol 'l.';~~0i{é o lugar onde acontece o encon-
,,:~':a em detalhes e as outras tro entre Deus e o ser humano. Deus ali aparece e revela-se ao seu povo.
, ~::-êstipos fica claro o papel Funcionalmente, é o mesmo que 1~~~ ou, o mais geral, tLi,p~o lugar santo.

Versículo 2
bli1S~ niid~jS~iiL)~
••.. -. T
~j:l-S~i:l'1
. - T' .• T ......• ". -

~)i1~~ 1~l~bl~id' ~~ip~-~~


O}~
1~~;:qid'
i~~;:qid;'i?0f;:r-V~
: b:;,~;Jl~-m~
'~~iPlJ
:' -::falou-lhe da tenda da reu-
Tradução: IIFala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando alguém den-
tre vós apresentar uma oferta a Iahweh, trareis a vossa oferta dentre os
~ .oJ) manual do sacrifício (Lv animais domésticos, seja do gado bovino ou do rebanho de ovinos."

;::rindo que Levítico faz parte 1. Há alguma dificuldade com a leitura da segunda parte do versícu-
_~:cumento vinculado à obra 10 tal qual apresentada pela Bíblia hebraica. A sugestão massorética do
'cculo está erguido (Êx 40). A athnach sob ;-rT'i1~ pode ser artificial e interromper o fluxo da sentença. A
' • .os leis a serem implementa- tradução acima reflete a concordância com o id est C'isto é") proposto pela
_ :-:.21. Vulgata após o substantivo ;-ri?0~ (animal doméstico") conferindo aos
:.:' do tabernáculo e Deus lhe dois substantivos que seguem (i~?, 1~~)a função de aposto. Ou seja, ;'ii?7i:l
:-__~o.lmente, Deus falava com refere-se a quais animais? Resposta: refere-se a j~~ e a 1~~.n
:.loisps dentro da tenda mas 2. A ordem "fala aos filhos de Israel e dize-Ihes" introduz uma cita-
~36; Nm 7.89). Aqui, Moisés ção dentro de uma citação: Deus fala para Moisés que, por sua vez, falará
'.''nicação divina. ao povo. Existe alguma diferença entre os verbos j~;t e ii;l'$. São próximos
::omo "chamar", tem o senti- mas não são sinônimos precisos. O verbo j~;t aponta mais para o aspecto
c:o quando se refere a alguém externo, com ênfase no discurso, enquanto j~~ enfoca mais o elemento
>::\to, o verbo indica solenida- interno, dando atenção ao conteúdo do discurso.
3. Ao ordenar "fala aos filhos de Israel", Deus indica que o sistema
como "tenda da congrega-
.:::3.0. sacrificial deve ser revelado aos israelitas. Este fato é significante e único a
=~'eunião" ou "tenda do encon- Israel. Entre as nações do antigo Oriente Próximo (como, por exemplo,
, .:;uesignifica "designar" (qal) Mesopotâmia e Egito),12 não era permitido aos leigos participar ou mes-
=::--se,aliar-se" (nifal). Também
11 Veja a nota a do v. 2 no aparato crítico da Biblia Hebraica Stuttgartensia. A tradução adotada por
",",dada reunião é a parte inter- Levine, Lel'iticus, p. 4, e Milgrom, Leviticus 1-16, p. 133, merece atenção: "When any person among
~a em dois ambientes: o lugar you presents an offering of Iivestock to the Lord, he shall choose his offering from the herd or
=:etodos santos, onde se encon- from the flock."
12 Veja Milgrom, Leviticus 1·16, p. 144.

Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 e NÚMERO 1e ANO 2001 15
ARTIGOS---- --------------.---------------

mo ver os rituais. O antigo Israel quebrou com esta tradição. O slsterna este poderis ."ê~
sacrificial deve ser vroclamado
~ e ensinado ao DOVO.A
~ conclusão do ma- Iahweh. COly 2C-'

nual do sacrifício terr11ill.alYl C01Ylllnla pala"\Tra aos leigos: !/Essa é a iristru.- para o objete _
çào ... no dia ern q-ue ordenou aos filh.os de Israel que trouxesserrt as suas
ofertas ao SENHOR, no deserto do Sinai!1 (L'v 7,37~38). tv1ilgrom COTICllli
como segu_e:13 fllrt ar't:! e\lerLtí ttlê IIpriest~;' marLllal,/t Israelite T·/ersiorif 15 Versículo -;
not ar':.esoteric doctrir~el the zea.lo1.ls1)T g-ctarcied sectet af the };riestly guild'l
but an open book orl,,,,,
.•..
rnore accurateIv. a school textbook for 0.11 Israel.!! ,
4_.A expressao
.', - 6".=""
)~T\~'
""':'I (flt:;n." ~ d" T, ~ 11'\; ~; __ 1;~" "{~n"r
'~,~ \. illU.0~ ( t-; lSrael ] ln",AJ.Cdd allctllJ~éL .D l.1.l.l.l'J

de Israel querrl terrl Iahvvel1 corriO pai. Neste corLtexto; são lJiológip•
cos (descen.dLentes de 1L1~braão) e filhos por eleiçào (Israel por Deus
como pO'iO escoll-tido),14 'Traduzir a expressão S~}W: 9~.~ COIYlú J1israelitas!f
não está errado? 111as soa Ttàcion.alístico e, talv-ez, afastado da ên.fase 11â Traduç2h~:
aliança. O qlle não é possfvel é trad-úzir l--jorfljttdetls/f _N§~o há judeus no cho sem defeit~
períod_o n'losaico no sentido religioso do terlYlO. trará para a StE.
5. O substanti~vo ;,~~~ se refere aos arLirn.ais cloIT'tésticos (ou dOl~nesti~
T ... \

cados) e irlCl"Lli \rários tipos de qlladrúpedes. i'Jeste contexto, den.tre os 1. A oferts, c-'>=_=-,'
animais domésticos, os GUadrÚDedes aualificados
.:.. .1 J_
Dara a oferta Queimada
..!.. ..l. é a oferta mai;: --,c -,
são os bovinos (ii?~) e os ovinos e caprinos (1~;';). no início e a.c ~,~
6. O verbo ::ni? tem uma variedade de sibCTnificados,15No sentido estati-
- ]'r o sistema S2,CC -~, :,
'\TO d·e qa 1, -. 1..0 como 1/eStar ••. perto,. prOXlyrtO
" I'". , 1~O
f pode ser traduzlo TI' -Ü!llfslgrtl-
,., ..
, ' I sibCTnifico
;'~lJ
fica Iltrazer para perto", Em ocasiões variadasl o verbo significa I'vir perto, possíveis tréL::_:
aproximâr-sel! ou ITleSn-lO /1 apreserltar tribu-tos ou presentes a um_ go'ver~ dente II . O nc:'-',~ ,-
nante !! ,\ItS N I
_ o COIllexto ,...•.•
Ct.lltlCO 1
ele Le\rltlCO, o 1[H.ll1.
'1:'1 .•
de ~ji? e,/ adeq.tladarrtente
.... -y- -'",'

e a melhor tY?:.'_:"
traduzido .:...tDor oferecer, avresentar". Este verbo faz Darte do vocabulário
/I ..!..
mente queilYe'.~ c

padrão do sistema sacrificial110 i\11tigo Testarl1en.to. O st.lbstan.tivo 1~~Runl guns dicion2c:~:' -


derivado nominal do verbo ::li;? significa l'aQuEo Que é trazido, aDresenta-
-- J ••. ~ 1. ' .l"
atuaisl este te::':'
do, oferecido", Este é o terrriO genérico para sacrifício: sendo tambéríl tra~ com a segurec?
duzido COIT!.O oferta, apresentação". j\ Se}Jtu_gin.ta.o tradtlZ; ele forma livre.'
/I
,
I/.;.J, E --'.~
para ;-;L·!.
j

como õwpov. O Novo Testamento menciona este termo técnico ern Mc 7.11- eram ofereClc,c:: -
Pesquisas arqueológicas ,descobriram artefatos com a inscrição hebraica r:'ip. ngos e sem 52.' -.'
7. A expressão ;":1~'("0. Iahweh"\;, é importarlte
T - ois estabelece o con-
\ ~.J v.
de textos ugar::::
texto da ceril-=-r1Ô11ia e defin.e o destin.atário dâ oferta. SeI:_J'l a iden.tificaçàol
17 Veja a disCU5"ã.~,-'-
18 A pele não erió=,'-'o,C,
13 Milgrom, Lcuilicus 1-16, p. 144. 7.8).
14;-\ leitura cristã relaciona este fato CODl a eleição de Deus no batisn1o. 19 Veja Hartley, J..::-
15 Veja Schokel, Dicionnrio Bíl7lico ico-Pon'us:ui;,: pp . .590-591- 20 Ofertas queir:-c3:'.>
16 \Teja :L\1ilgroTI1!Lc-dUcl1s 1-16, p. 145. 21 Veja Milgrom L::

16 Vox COj\ICORDIAJ'.L4. VOLUME 16 " i\ U"".


---------------------- Roos: A OFERTA QUEIMADA

~~'~~(~
esta tradiçã.oo O sisterrlél este poderia ser um ritual cananeu. Mas não é o caso: esta oferta é para
ft~cortclu.sào elo 111a~ Iahweh. Com esta informação, tanto a fé e como a oferta estão dirigidas
~_c~~s
leigos: IiEssa é a in.stru.= para o objeto correto da adoração.
que trouxessem as Sllas
37-38). ~AilgrorÍl COrtCllli
fi Israelite 'l/ersionl is Versículo 3
:::ecret aÍ th.e lJriestl)r gu.ild,
=,~ textbook for alI IsraeL// ji?~;:rw i:l~ii?ii7ln:~
a aliança. É filllo 'j:J~'i'~
1:~~1;1,~}
são filllos tdológi- i!i~ :d~'i'~
'jJi~ ~ry~ n!}~-~~
UellS : iiiii~~~~~
T
i~~'~
.': ...

':·.~ez;afastado da ênfase li.â


Tradução: I/Se a sua oferta for oferta queimada de gado bovino; ma-
. Não há judeus no
cho sem defeito ele o oferecerá. Junto à entrada da tenda da reunião o
trará para a sua aceitação perante Iahweh.1/
-~_~.isdornésticos (ou. dorn.esti-
--. :'-.J este contexto; derttre os
U'7.lJ) é o primeiro sacrifício a ser descrito. Esta
1. A oferta queimada
para a oferta queirr'tada
é a oferta mais freqüente no Antigo Testamento: é oferecida diariamente,
ujicados.15 No sentido estati- no início e ao final do dia. Este sacrifício é expiatório e fundamental para
o sistema sacrificial do antigo Israel. O termo li7!; proveniente do verbo
}-l!'óxirrlo", No hiÍit signi=
i17lJ significa literalmente
I aquilo que sobel/. O substantivo i17ii tem três
1/
,~:Tt/erbo sigrÜfica ff'vir perto,
possíveis traduções: I/oferta queimada", I'oferta plena;' ou "oferta ascen~
CLl presentes a um gover-
dente O nome da oferta refere-se ao aspecto de incineração sobre o altar
1/ •
:d'Jj? é aclequad.amen.te
e a melhor tradução continua sendo" oferta queimada".l? A oferta é total-
parte do vocabulário
, r, SUDsrarttlvo
1 •• ' '919 mente queimada no altar,18 transformada em fumaça e sobe até Deus. Al-
-- .cl-L1.:0. U l~: 1-:;'Uil1
guns dicionários e versões traduzem i1'?ii como '/holocausro". Nos dias
t1ue é traziclo,. apresenta~
sendo tambélT!. tra- atuais, este termo recebeu um significado histórico específico relacionado
com a segunda grande guerra e deixou de ser uma tradução adequada
~-Lt:ao traduz, de forrrlâ li'vrel
~:"termo técnico em l'vk 7.11. para i17ii .19A oferta queimada é antiga em Israel. Sacrifícios queimados já
:xn a inscricão eram oferecidos nos tempos pré-mosaicos.20 O ritual era simples, sem clé-
~ hebraica i~1".: )'
rigos e sem santuário. A evidência bíblica da oferta queimada tem apoio
-"~~rLtepois estabelece o con.-
de textos ugaríticos e hititas.21
Serrl a iden.tíficação,.

17 Veja a discussão ampla em Milgrom, Leviticus 1-16, pp. 172-174.


18 A pele não era queimada sobre o altar. Era dada ao sacerdote como parte do seu pagamento (Lv
7.8).
19 Veja Hartley, Leviticus, p. 17.
20 Ofertas queimadas foram oferecidas por Noé, Abraão e Jó, por exemplo.
21 Veja Milgrom, LeviticliS 1-16, pp. 174-175.

Vox COr.JCORDIANA VOLUME 16 • NÚMERO 1 li ANO 2001 17


ARTIGOS-----------------------------
favor, para, o-_c
2. A primeira modalidade de oferta queimada descrita em Lv 1 é a do
sacrifício c;er:: c'
novilho. O substantivo i~?
é um termo genérico que inclui todos os bovi-
=
nos e pode ser trad uzido por "gado" ou "gado bovino". Este novilho deve 1""::-1T.t an('1,t"
_1-/ -..J \.,_,_~
~
,-o 0'_
_

de Deus, O ~_ ._
ter duas qualificações para ser apresentado como oferta queimada: ser
é o ofertante
macho (1;:;) e não ter defeito (Ci'~~).Isto suscita a pergunta a respeito do
de Deus, Ul5l_:-=-'-
gênero: por que macho? O texto não oferece explicação teórica. Não se
t I L-/C".
fiava"" !Io; -<"",,_:d_
[:'-o"c .:
discute aqui a relação superioridade-inferioridade. Os machos não são
é a justificaç~
superiores às fêmeas. Da perspectiva econômica e pragmática, a fêmea é
te Iah,veh'o ':
mais custosa e necessária para o suprimento de leite e bezerros. A explica-
ção para a escolha do macho se encontra no contexto bíblico e na cultura
do antigo Israel. O contexto canônico sugere a existência de uma hierar- gráfico: a ofer::,
da tenda de, re"_=-=~
quia de representaçãoo.22 Na família, o pai representa o grupo familiar. No
antigo Israel, o macho tem funçãoo representativa. Este animal também aspecto verhc,.
aceitação do
deverá. ser sem defeito. O substantivo bi'[j1;l (forma plural intensiva, tal-
tabernáculo 52,(1
vez) significa "sem defeito, sem mácula, perfeito" e deriva-se do verbo
poderá o pecado:' 0-:' _ . c
Ci~~ que quer dizer "ser completo, ser pleno". O sacrifício aceitável a Deus
recebe respost2 ='--=-~:-=-
.
é feito com um animal perfeito. Segundo Lv 22.17-30, o sacrifício imper- 5. Este Yer~l-=<: -=-._ .
feito é desqualificado. Esta exigência é reiterada ao longo do Pentateu-
sentação. O
CO.23 Este qualificaçã_o ecoa nas palavras do profeta Malaquias (1.8-14) onde
donados Dar2_::: ='_==r:'-
os adoradores são acusados de oferecer animais defeituosos a Deus. A
bíblico é sucinL e =:
intençào de Deus com a exigência de um animal sem defeito é evidente:
para tornar o homem perfeito, o substituto deve ser perfeito. A teologia suplementar o~'_:e 0_

bíblica relaciona isto com Cristo. Ele é o substituto perfeito, sem defeito e declaração dos n-:--
oração ou recitaçãc _c:: '
sem mácula, do pecador.
animal como 5uDStlt'_-_::
3. A oferta será apresentada "junto à entrada da tenda da reunião".
Este é o espaço entre a entrada (ou portão) do complexo do tabernáculo
até a entrada da tenda da reunião. Esta área era acessível ao leigo. O v. 5
informa que o altar sacrificial está diante da tenda da reunião. Segundo o
Verskulo 4
v. 11, o ofertante sacrifica o animal no lado norte do altar. O leigo, portan-
to, tem acesso à área que circunscreve o altar.
4. A expressão 7"iTi;'i''~~c, id:;':iC, ("para a sua aceitação perante Iahweh")
é muito importante. O substantivo li:::~procede do verbo ;,~~ que signifi-
Tradução: "E ", .' _
ca "ter prazer, ter agrado, ser propício ou gracioso, favorecer". O substan-
.! \..Á_ (1''''
mad~_Cl a fl·m.--:1p '-l LLe:
- ;.
tivo li:;;~significa "boa vontade, favor, benevolência, aceitação" e implica
.1. h 2':::- -

no ato de ser aceito. A expressão i~i::iC,pode traduzida como "para o seu


1. Este ato inici:: .
"colocar, illlopor "2~ ==.
22 Veja, por exemplo, lCo 11.3 e 15-28. são, apertar com" -
23 Veja, por exemplo, Lv 3.1,6,9; 4-3,-23,28,32;5,15,18,25; 22.17·25; Dt 17.1.

18 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ••NÚMERO I •


--------------------- Roos: A OFERTA QUEIMADA

:::-ada descrita em Lv 1 é a do favor, para a sua aceitação" ou "para aceitação por eleff indicando que o
<:::0 que inclui todos os bovi- sacrifício será aceito em lugar e para o benefício do ofertante. O termo
,'.: bovino". Este novilho deve 1;::;,} aponta para o objetivo da oferta queimada que é obter a benevolência

.: como oferta queimada: ser de Deus. O sujeito e elemento expiador é o sacrifício, o objeto beneficiado
::i ta a pergunta a respeito do é o ofertante. O motif em desenvolvimento é a aceitação do pecador diante
::2 explicação teórica. Não se de Deus. Discute-se como poderá o pecador ter a benevolência divina} o
,~ridade. Os machos não são frwor Dei. Esta discussão leva ao tema fundamental da teologia cristã que
::--,icae pragmática, a fêmea é é a justificação do pecador diante de Deus. A expressão ;'Yi' ':J~"("peran-
:.e leite e bezerros. A explica-
te Iahweh") não deixa dúvidas sobre o loeus desta aceitação: é diante de
~:ontexto bíblico e na cultura Iahweh. Por um lado} esta expressão aponta para o aspecto espacial e geo-
2 a existência de uma hierar- gráfico: a oferta queimada é feita dentro do tabernáculo, junto à entrada
:-,esenta o grupo familiar. No da tenda da reunião, o lugar onde Deus mora. Por outro, isto indica o
c~ta.tiva. Este animal também aspecto vertical: a aceitação do pecador se dá diante de Deus. Tanto a
~ .forma plural intensiva, tal- aceitação do pecador diante de Deus bem como a presença de Deus no
.-ê~'ieito"e deriva-se do verbo tabernáculo são motifs importantes na teologia bíblica. A pergunta" como
. O sacrifício aceitável a Deus poderá o pecador ser aceito por Deus e receber a benevolência dos céus?"
,n 22,17-30, o sacrifício imper- recebe resposta neste texto: através da oferta queimada.
-"rada ao longo do Pentateu- 5. Este versículo descreve o primeiro estágio do sacrifício que é a apre-
" Jieta Malaquias (1.8-14) onde sentação. O ofertante adentra o tabernáculo com a sua orerta e são inspe-
'1111aisdefeituosos a Deus. A cionados para confirmar que cumprem as exigências do ritual. O texto
:-imal sem defeito é evidente: bíblico é sucinto e não descreve todos os detalhes do ritual. Temos que
.:leve ser perfeito. A teologia suplementar o que ali não aparece. A apresentação certamente inclui a
: -"Uuto perfeito, sem defeito e declaração dos motivos do ofertante para o sacrifício, a enunciação duma
oração ou recitação de algum salmo, a inspeção} aprovação e aceitação do
::êtrada da tenda da reunião". animal como substituto do ofertante.
io cmnplexo do tabernáculo
c era acessível ao leigo. O v. 5
Versículo 4
: tenda da reunião. Segundo o
'~,rte do altar. O leigo, portan- ;'~i'ry iVXi ,,p ii_~ '1~yi
.:.",aceitação perante Iahweh")
':i~'lij~:'" i"~;'~'ji
T," - : T :.:

:2de do verbo ~~n


que signifi-
Tradução: "E ele pressionará a sua mão sobre a cabeça da oferta quei-
3-cioso,favorecer". O substan-
-.~olência,aceitação" e implica mada a fim de que seja aceita em seu favor para expiar por ele."
:: traduzido. como "para o seu
1. Este ato inicia a segunda parte do sacrifício. O verbo l~~significa
I'colocar, impor (as mãos), pressionar, apoiar, manter" e implica em pres-
,:--25; Dt 17.1.
são, apertar com força. "Pressionarlf é a tradução que melhor se enquadra

Vox CONCORDIANA. VOWI\IIE 16 " NÚMERO 1 li> ANO 2(J(jl 19


ARTIGOS------------------------------

neste contexto. O ato da imposição das mãos passou a ser designado i1~"r.lO
geta judeu n',c:::.' ,
termo técnico posterior que não aparece no hebraico bíblico. O Antigo as suas falta~:':-'
Testamento apresenta outras cerimônias que incluem a i1~"~9.24 AMish- retorno à tu? :'-:=':0, ,
nah apresenta o debate dos rabinos a respeito da i1~"r.l9 impunha-se uma
2. A e\:pl'C:: , :
ou duas mãos? O substantivo singular ;'T" ("a sua mão") eventualmente também, "a :::-:".,~,
poderia ser entendido de forma coletiva. Lv 16.21 informa que ambas as
propósito do :=<:
mãos eram impostas. Chouraqui afirma que, segundo a tradição, o ofer- seu favor. O ~'_>:'-' ,
tante impunha as duas mãos na cabeça do animal, entre os chifres.2S Mil- 3. Araiz -:: :o ':o
grom apresenta evidências rabínicas de que a colocação da mão direita
(1;:):)éapal?':;':" :.
era com força sobre a cabeça do animap6 Levine menciona o uso da i1~"~y
tivo piei (-:::;- :-'
na tradição hitita.27 O rito da i1~"r.lO continuou com os rabinos. A igreja mada.32 Os cOC'::",-=:' , :
cristã mantém o ritual da i1?"r.lO na cerimônia de ordenação e instalação
gem do verbo ::-:: =

do pastor. Qual é o significado da i1~"r.lO? As explicações para este ritual cado da raiz -:::
podem ser agrupadas em cinco categorias:28
a) O "e"].-·,'· --'"
\' .1. _' ~ __ ._

a) Há o aspecto de identificação do pecador com o animal. Através "cobrir" ou u o: __ ~::


da i1~"r.lO, o pecador identifica-se, faz-se um, passa para o animal. tante diante
b) Há o aspecto da transferência do pecado. Pela i1:;"r.lY, o pecado do
ção não tem, :CC:~ ::':0
ofertante é transferido para o animal que será o seu substituto. Este gesto
pos passados
não é mecânico. É por esse pecado que o animal será sacrificado.29
b) O '-e'~1---· -,-'
•• .1. _"' .. __ •

c) O motifproeminente da substituição está presente. É o animal, como "I'lmpar, PUrlI'.::-:


,.-
substituto do ofertante, que sofrerá a morte do pecador. Trata-se da morte
substitutiva. pecado do otêc:~, ~ _
_ No Ht:
r) h ~h-c._ '...
d) A imposição das mãos implica na declaração do propósito do ofer-
fica "resgate
tante com a oferta. O animal está sendo oferecido para o objetivo previsto
pela justiça di-,':,:'":.::
naquele sacrifício.
são que melhc'c ::. :.- "
e) A i1~"r.lO indica a propriedade do animal. É dono do animal que se
A expre5~~' -~. -::-
apresenta para o ritual. lho será ofere::.
O texto é sucinto e não informa os detalhes do rito. O gesto da :-J?"r.lY
expiar pelo 5c',', ~'': ,: - .
certamente era acompanhado por alguma recitação. Lv 16.21 inform,a que
4. É preei;;: -, ---,
as iniqüidades dos filhos de Israel eram confessadas sobre o animal. E pos-
piciação tem L:-=,' _ "
sível que se proferisse uma oração, um salmo ou alguma fórmula litúrgica. Deus. No conec:::: :-'-
A Mishnah preserva fórmulas de designação de ofertas queimadas de um satisfeita. O ce,,::o-
período posterior da tradição judaica.3D Chouraqui cita Maimônides, exe-
do humano ser:- ::,~::
24 Veja, por exemplo, Lv 24.10,16; Nm 8.10; 27.18-23; Dt 34.9. pagamento dês:c ~'" ,
25 Chouraqui, Levítico, p. 25.
26 Milgrom, LeviticlIs 1,16, p. 150. 30 Levine, Levitic;,~ ::
27 Levine, Levitieus, p. 6. 31 Chouraqui, Lc:::.·
28 Veja a discussão detalhada em Milgrom, Leviticus 1-16, p. 151- 32 Veja Lv 9.7; 14.::= > 2~ :o
29 2Co 5.21 afirma que Jesus foi feito pecado por nós. 33 Veja a discussão e::' _c'
nacional de

20 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 a NÚ.\ic: - -
Roos: A OFERTA QUEIMADA

;:.?ssou a ser designado i1~'~O


:-,ebraico bíblico. O Antigo geta judeu medieval, que afirma que o ofertante confessava publicamente
. .e ~ncluem a ;·r:::'~o.24
A Mish- as suas faltas com a seguinte formulação:31 "Eu cometi uma falta ... mas
T .•

retorno à tua presença, e eis meu sacrifício que ofereço para ser absolvido."
.-~.da i1~'ô9 impunha-se uma
2 sua mao
- ") even t ualmen
1 te 2. A expressão i~ i1~l:l'1significa literalmente fi e será aceita por ele" ou,
-- 16.21 informa que ambas as
também, "a fim de que seja aceita em seu favor". Esta expressão indica o
.:: segundo a tradição, o ofer- propósito do sacrifício: ser aceito pelo pecador, em lugar do pecador e em
-:-.imal, entre os chifres.25 Mil- seu favor. O sujeito da ação é o sacrifício e o objeto beneficiado é o ofertante,
3. A raiz i::l;" é termo importante no contexto cúltico. A forma em pieI
_-= 2 colocação da mão direita

:' --''-e menciona o uso da i1:'~O (j~::)é a palavra sacrificial por excelência no Antigo Testamento. O infini-
tivo pieI ('t.l;' "para expiar") indica a função expiatória da oferta quei-
T ..

_:.JU com os rabinos. A igreja


:-":'3.de ordenação e instalação mada.32 Os comentários registram um vigoroso debate a respeito da ori-
-.s explicações para este ritual
gem do verbo. Há três possibilidades etimológicas básicas para o signifi-
cado da raiz ,~::
.e :3.dor com o animal. Através a) O verbo tem a sua origem num cognato árabe com o significado de
'.' passa para o animal. "cobrir" ou "ocultar". Assim, o verbo significa" cobrir o pecado" do ofer-
tante diante de Deus, aplacando, desta forma, a ira divina. Esta explica-
.~3do. Pela i1~'ôO, o pecado do
ção não tem, nos meios acadêmicos atuais, a aceitação que já teve em tem-
.e::-s. o seu substituto. Este gesto
_:::1al será sacrificado.29 pos passados.
b) O verbo tem a sua origem no cognato acádio kupur que significa
.está presente. É o animal, como
"limpar, purificar". Desta forma, a oferta queimada limpa ou purifica o
io pecador. Trata-se da morte
pecado do ofertante. Esta hipótese tem opositores.
::laração do propósito do ofer- c) No hebraico bíblico, o substantivo ,~j (derivado da raiz i::J;") signi-
fica "resgate".33 Assim, a oferta queimada expia, paga o resgate exigido
::-ecidopara o objetivo previsto
pela justiça divina em virtude do pecado. Ao que parece, esta é a compreen-
:mal. É dono do animal que se são que melhor se enquadra no contexto sacrificial do Antigo Testamento.
A expressão ~i} '5:);' ("expiar por, em favor de") indica que o novi-
lho será oferecido em lugar e em favor do ofertante com o objetivo de
clhes do rito. O gesto da i1~'~O
ecitação. Lv 16.21 informa que expiar pelo seu pecado.
iessadas sobre o animal. É pos- 4. É preciso distinguir os conceitos de propiciação e expiação. A pro-
. c· ou alguma fórmula litúrgica.
piciação tem Deus como objeto. O pecado humano provoca a justa ira de
o de ofertas queimadas de um Deus. No conceito bíblico, a ira de Deus tem que ser propiciada, aplacada,
)tu'aqui cita Maimônides, exe- satisfeita. O conceito de expiação tem o ser humano como objeto. O peca-
do humano gera culpa e esta tem um preço de resgate. A expiação é o
pagamento deste preço de resgate. Neste sentido, o Dicionário Internacio-
30 Levine, Leviticus, p. 6.
31 Chouraqui, Levitico, p. 25.
~- 151.
32 Veja Lv 9.7; 14.20; 16.24; Ez 45.15,17.
33 Veja a discussão em Levine, Leviticus, pp. 6·7; Wenham, Leviticus, pp. 58·62; e no Dicionário Inter-
nacional de Teologia do Antigo Testamento, pp. 743·744.
Vox CONCORDI.4NA
VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 21
ARTIGOS-------------------------------
3 . L e\'ltlC\='
~.. ~-u:,~
- -=- __

nal de Teologia do Antigo Testamento sugere que o verbo ,~:;, significa "expi-
(literalmente
ar mediante o oferecimento de um substituto".34 A propiciação volta-se novo. Os espe:.::::.·
para os céus: visa aplacar a ira ofendida de Deus. A expiação volta-se para
não ultrapasse.:>
o pecador e seu pecado: enfoca o pagamento do resgate do pecado. O de bom tamanl-.~
conceito de propiciação é muito usado no paganismo no sentido de ofere- 4. O subsc2~ -:--
cer à divindade uma dádiva com o objetivo de receber um benefício. Na vida do ofert2r::: :: ::
teologia bíblica, o resgate que aplaca a ira divina é a morte do pecador.
Em seu amor, para que o ser humano não morra, Deus providencia os sangue está re>::::- ..-
ma o seu sang:.::: ::- -.
meios de propiciação da sua ira. O ponto culminante acontece no Novo nerado.36 O S2U,~ _.:: ::
Testamento, no sacrifício propiciatório e expiatório do messias.
através do altar
5. O verbo -:-.
Versículo 5 do sangue. Ao ",o =

designada para o-c - c::

71Ti;'~ ~:J.9~'i?~0 pniK. ôr:r~l do altar, não er.::.__::-


r'::;~':J.:l ,:t"P711
0':1;:r-n~ o~;m~::r tabernáculo (l;- ~ -
à cortina que ser":- -.. -
i1.'i~ ~i1~ i1D~-'tp~ ::l~::l9O~i~jT~~ br:i;:ni~'P'l! i tabernáculo, onei:::':: --
mada ficava no F2::::: _-_
Tradução: "E ele imolará o novilho diante de Iahweh e os filhos de 10 e a entrada da :e:- - - - - _
Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue. E eles aspergirão o sangue ao altar da oferta cu::-:-- , -
redor sobre o altar que se acha à entrada da tenda da reunião." vinte e cinco cent::.'.'::::'
ra.37 O altar era c..::::::
1. A Septuaginta traduz o verbo ~O~ no plural (assim como no v. 11) a meia distância d:: _
dando a entender que mais de uma pessoa participa do ritual de imolação
do novilho. A tradução acima reflete a aceitação do texto massorético que rede sobre a qual 20 :.:: -' ,-
tem evidência textual de peso a seu favor. não apresenta e'\-i,:'~:- =_ :

2. O verbo ~G~ é termo técnico para o sacrifício do animal e envolve o do sangue era acc=-:,- -;--
ato de cortar a garganta (2Rs 10.7). Segundo o texto, é o ofertante que alguma fórmula li:-..'.:-~--
mata o novilho. Com certeza ele não está sozinho mas conta com a assis-
tência dos sacerdotes. No período do templo de Salomão e no novo culto
previsto por Ezequiel, os levitas são proeminentes neste serviço: são eles
Versículo 6
que imolam o animal. No sacrifício diário e rotineiro, esta é tarefa dos
sacerdotes. Milgrom lembra a tradição rabínica:35 o animal a ser sacrifica-
do ficava posicionado ao norte do altar (1.11) com sua cabeça olhando
Tradução: i/E e~: ': _
para o oeste, para a tenda da reunião; o ofertante Íicava no lado leste do
altar com a face olhando para o oeste; também para a tenda da reunião.
36 Milgrom, LeviticlIs 1-:-
37 Êx 27.1-8 descreve c ~:.:" _
34 Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 744. côvados de comprirn~~.:-
35 Milgrom, LeuiticlIs 1-16, p. 155.

VOLUME 16 fi NÍlMEF.C 1. • ~
22 Vox CONCORDIANA
Roas: A OFERTA QUEIMADA

'::J verbo ,~:;, significa "expi- 3. Levítico não é claro sobre a idade do novilho. A expressão i~f::r 1::!
.34 A propiciação volta-se (literalmente, "filho do rebanho") refere-se a um animal aparentemente
~ ::'.15, A expiação volta-se para novo. Os especialistas entendem que o novilho teria ao redor de um ano e
=::-:c· do resgate do pecado. O
não ultrapassaria os três anos de idade. Trata-se de um animal crescido e
, ''-C?nismono sentido de ofere- de bom tamanho.
:e receber um benefício. Na 4. O substantivo I:l~("sangue") aponta para a teologia do sangue. A
:'l'.'ina é a morte do pecador. vida do ofertante é trazido. no sangue do sacrifício. O derramamento do
:'norra, Deus providencia os sangue está relacionado com a idéia de morte. O ofertante morre e derra-
~':,lminante acontece no Novo ma o seu sangue através do novilho que o substitui. O sangue não é inci-
:l2tório do messias. nerado.36 O sangue é a vida do animal (Lv 17.10-14) e deve voltar a Deus
através do altar.
5. O verbo p~i ("espalhar, espargir") é a palavra comum para o uso
do sangue. Ao escorrer do novilho, o sangue era recolhido em vasilha
designada para este fim. Este sangue era espalhado ao redor e nos lados
-':!~~j,EJS 'i?~::r1;.-r.,~~lJW' do altar, não em cima. Dois altares faziam parte da mobília sagrada do
-~ ='j;;r~;:T 1"r,r~ ~j.~ ~:l~'p;" tabernáculo (Lv 4.7). O altar do incenso ficava na tenda da reunião, junto
.:; O:Ji~;:T-S~ 071;:ni~ ~pj!: à cortina que separava o lugar santo do santíssimo, o lugar mais santo do
tabernáculo, onde se encontrava a arca da aliança. O altar da oferta quei-
::nte de Iahweh e os filhos de mada ficava no pátio externo, no lado leste, entre a entrada do tabernácu-
10 e a entrada da tenda da reunião. O sangue era aspergido nas laterais do
.::eles aspergirão o sangue ao
o tenda da reunião." altar da oferta queimada. Este altar era quadrado, media dois metros e
vinte e cinco centímetros de lado e um metro e trinta centímetros de altu-
plural (assim como no v. 11)
l' raY O altar era oco e parcialmente preenchido com terra. No seu interior,
:' ?,rticipa do ritual de imolação a meia distância da sua altura, havia uma grelha de bronze em forma de
::oçãodo texto massorético que rede sobre a qual as ofertas eram colocadas para serem cremadas. O texto
não apresenta evidência mas é razoável supor que este ritual de aspersão
:ocrifíciodo animal e envolve o do sangue era acompanhado de alguma oração, recitação dum salmo ou
,io o texto, é o ofertante que alguma fórmula litúrgica.
-·zinho mas conta com a assis-
1ll de Salomão e no novo culto
inentes neste serviço: são eles Versículo 6
e rotineiro, esta é tarefa dos
'êica:35 o animal a ser sacrifica-
.11) com sua cabeça olhando
:ertante ficava no lado leste do Tradução: "E esfolará a oferta queimada e a cortará em seus pedaços."
~ém para a tenda da reunião.
36 Milgrom, Leviticus 1-16, p. 156.
" 744.
37 Êx 27,1-8 descreve o altar do holocausto e informa as suas dimensões. As suas medidas são cinco
côvados de comprimento e largura e três côvados de altura,

Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NÜMERO 1• ANO 2001
ARTIGOS------------------------------
2.0
1. O Pentateuco Samaritano e a Septuaginta apresentam os verbos
mente (L"
~'i:!5:li1e ni1~ no plural, assumindo os sacerdotes ou os oficiantes e o ofer-
tante como sujeitos da ação. Na verdade estes dois textos explicitam o que fogo n2C' ,e:-'
de fato acontece: é o ofertante que executa a ação mas com a assistência
dos oficiantes. A proposta de emenda pode ser forte mas fica empatada
com as outras evidências que apóiam o texto massorético.
2. O verbo b5tp~ significa "esfolar, tirar a pele, despojar (da pele), des-
pir". Segundo o texto, é o ofertante (com o auxílio dos oficiantes) que tira
a pele do novilho. A pele nunca era queimada. As razões podem ser duas.
Primeiro, por uma questão funcional: pele queimada não tem cheiro bom.
Segundo, Lv 7.8 afirma que a pele vai para o sacerdote que oficia o ritual.
Isto seria parte do seu salário que a poderia vender ou mesmo fazer algu-
ma vestimenta para si ou para a sua família.
3. O próximo passo é cortar ou seccionar (IiO~) o novilho em partes. Trauc,."
--1" _o.. -

Em quantas partes era ele dividido? É difícil responder. A cabeça certa- com a caL-'ec~
mente era separada do corpo. Há notícias de que no judaísmo posterior o sobre o altar.
animal era seccionado em dez pedaços. Como se trata de um animal de
bom tamanho, a divisão em partes facilitava o processo de cremação das O subst2.l'.rl _
mesmas já que todo o animal era queimado. apenas três YezOc~ :- c := -

ainda não est?,:: r':- - .


-=

vez de algum c-~ o: -


Versículo 7 vísceras do a.n:.:.-~'.?~
:.: =_

corpo quando e~== :


seremincineraé,--.· -
apetitoso que se::- -= - - .

Tradução: "E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar e postos da melhc- -:.', - ~
disporão a lenha sobre o fogo.1!

1. Alguns manuscritos hebraicos, o Pentateuco Samaritano, a Septua- Versículo 9


ginta, a versão siríaca e um manuscrito do Targum apresentam a forma
pluralO'j\1jD ("os sacerdotes") tal qual se lê nos vv. 5 e 8. A forma singular
1;':;';:1 refere-se a Arão enquanto o plural O'j\1:;'Drefere-se aos filhos de Arão.
A sugestão de emenda é atrativa e colocaria o texto em linha com os vv. 5
e 8. Mas não há necessidade absoluta de alteração. O texto massorético
faz sentido tal qual se encontra.38 Tradução: iiAs s _.~-
sacerdote queimar 2. = .

38 As versões brasileiras estão divididas quanto a esta emenda: algumas a aceitam, outras, não. Veja fogo, de aroma agr 2:.. ~._
a discussão mais detalhada desta nota textual em Hartley, Leviticus, p. 13, e em Milgrom, Leviticus
1-16, p. 157. 39 Veja a discussão das p: 'c _

24 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 & NÚMERO 1 •


--------------------- Roas: A OFERTA QUEIMADA

'sinta apresentam os verbos 2. O fogo do altar tem origem divina (9.24) e deve queimar continua-
- ::e5 ou os oficiantes e o ofer- mente (Lv 6.9)3). A expressão ~l{ 1~\~ significa "pôr fogo". Neste caso, o
::~dois textos explicitam o que fogo não está sendo iniciado mas, sim, aumentado. A lenha (c'l!~ literal-
o ação mas com a assistência
mente "madeiras") é acrescentada ao altar e os pedaços de madeira são
~ :'er forte mas fica empatada arrumados de tal maneira (T}~ "arranjar, dispor") que o fogo está prepa-
-: massorético. rado para incinerar o novilho. A tradição judaica posterior apresenta de-
talhes sobre como lidar com o fogo.
, '_"ele,despojar (da pele), des-
'Tdlio dos oficiantes) que tira
~,~,.As razões podem ser duas. Versículo 8
,:eimada não tem cheiro bom.
:'2.cerdote que oficia o ritual. iJ~jTnK.i tli~';Tn~ O~nÇ1~0 n~ O~jr,rj0 l'r,r~ ~j.~ ~~i~l
--ender ou mesmo fazer algu- : n:Jmi1-?17 iWK WKi1-?li iWK O~~lii1-Sli
- .. : . - - -•. -; .• T - .. - ...• T -

'?r (ii!J~) o novilho em partes. Tradução: "E os filhos de Arão, os sacerdotes, disporão os pedaços-
:" responder. A cabeça certa- com a cabeça e a gordura - sobre a madeira que está no fogo que está
::.:;,ueno judaísmo posterior o sobre o altar."
:-::,c; se trata de um animal de

,') processo de cremação das O substantivo 1.,::i apresenta alguma dificuldade. Este vocábulo ocorre
apenas três vezes na Bíblia hebraica (Lv 1.8)2; 8.20) e o seu sentido exato
ainda não está definido.39 O substantivo é traduzido como "gordura", tal-
vez de algum órgão interno ou mesmo a capa de gordura que envolve as
vísceras do animal como um todo. A gordura e a cabeça (separada do
corpo quando este foi seccionado, v. 7) são dispostas sobre o altar para
serem incinerados. A gordura tem a importante função de produzir o cheiro
apetitoso que sobe até os céus. Os pedaços não são amontoados mas dis-
-,e, porão fogo sobre o altar e postos da melhor maneira para o processo de cremação.

,',euco Samaritano, a Septua- Versículo 9


--=-3.rgum apresentam a forma
:')5 vv. 5 e 8. A forma singular
iit:1#W0Sj0-n~
o~~~rr:rT i~~'~'
vt~iJi~~i'0:
i:JiPl
: -:-refere-se aos filhos de Arão.
:. texto em linha com os vv, 5 : i1ii1~? nin~j-n~i
T - - • - •...•
i1WKi1Sii
T

,:::'ração. O texto massorético


Tradução: "As suas vísceras e as suas pernas ele lavará com água. E o
sacerdote queimará tudo sobre o altar. É oferta queimada, oferta feita pelo
óllgumas a aceitam, outras, não. Veja fogo, de aroma agradável a Iahweh."
p. 13, e em Milgrom, Leviticus
:',-iUCllS,
39 Veja a discussão das possibilidades em Milgrom, Leviticus 1,16, p. 159.

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ê NÚMERO 1ê ANO 2001 25


ARTIGOS------------------------------

1. Este versículo é cmcial a toda a perícope. A sentença final apresen- sacrifício roi
ta o grand finale teológico do texto. Duas notas do aparato crítico da Bíblia to por Deus.
Hebraica Stuttgartensia devem ser comentadas: declaração
a) À semelhança do que se passa com os verbos ~tp~ e 1ii',\J do v. 6, o queimada
Pentateuco Samaritano e a Septuaginta apresentam o verbo rO; ("lavar") 5. O tern10 -'':''',-'':
no plural, sugerindo que mais de uma pessoa participa do ato de lavagem de. A sua etírr'.c~: ~. c c:
das vísceras e das pernas. A evidência pode ser forte mas não é necessário quanto ao seu 5'.::::-:- - - . - -
emendar o texto. deriva do subs:?:::-~-
b) Alguns manuscritos hebraicos, o Pentateuco Samaritano, a Septua- do se enquadre '~-C:C_..
ginta (que acrescenta Ea-d.v), a versão siríaca e o Targum Pseudo-Jonathan 6. A expres;::c ' ~'- .--
acrescentam o pronome ~ii1 após i17'lJ ficando a leitura ~'m, il71J ("isto é substantivos ~::~. ::
oferta queimada") como nos vv. 13 e 17. Os testemunhos são fortes e uma vem da raiz ,'el:: < - -
padronização do texto certamente é atraente. Mas não exigem a alteração vem do verbo -:-': ~"
da leitura. Milgrom considera a possibilidade do pronome ~'il ter sido do Levine, é d2i ,'.:: -
perdido acidentalmente ao longo do processo de transmissão do texto.40 A expressão C"-';'-:---
2. O termo :'JP indica a parte interna, o meio. Schokel entende que, dável". Esta eXF""occ
como substantivo, :'}P significa o que há dentro de um ser vivo.41 Aplica- se Deus estivesse I', .
do a um quadrúpede, significa, literalmente, o meio do animal, daí vísce- ça da oferta que':':'
ras ou entranhas. O substantivo 17'}~ vem da forma verballi'}~ que tem o sacrifício. O no','i::-
sentido de "encurvar, inclinar, dobrar". Daí li'}:;'é o membro que se dobra, 'o.' Ia o.o o f-ert2,L:c:c,'. __
cor
a perna. As vísceras e as pernas devem ser lavadas para evitar que o altar colocar Deus en"'.',' : -' -,
seja impurificado por sujeira, resíduos corporais, fluídos e alimentos par- de mais antigo he' ::- -=

cialmente digeridos. O ofertante lava as pernas e as vísceras. Só partes nicos; aos mais 2.I'.::C:- -c:_ ~-,
limpas podem ser oferecidas a Deus. 7. A afirmaç": :
3. Após seccionado e lavado, o animal está pronto para ser oferecido aroma agradável: =0 -,
a Deus. O sacerdote queima toda a oferta (exceto o couro) sobre o altar. A fato da oferta ser
raiz verbal '~p está relacionada com o substantivo ii~~pque significa rou e teve prazer '.'.: '.' __
"fumaça". Usado no hifil (como neste versículo), o verbo significa literal- ofertante foi _pa2:2 v ::._' - ~ _
mente "transformar em fumaça" ou "tornar sacrifício em fumaça", daí correta relação con', = -:'
"queimar". A oferta é enviada para o alto em forma de fumaça. Este é o voltar em paz par?,=~c, . _"
termo usual para o sacrifício. que "isto não é ore"-- ~
4. A afirmação il?1J ("é oferta queimada") é uma fórmula declarató- agradável a Iah,\-eh ,'. _
ria e indica a aprovação da oferta. Se o texto for emendado para ~'i1 i17:!J uma palavra de E''-.:-,c'.;:::::''
("isto é oferta queimada") em sintonia com os vv. 13 e 17, como indicado
acima, isto fica mais evidente. Esta afirmação está reconhecendo que o
42 Veja a discussão em l-Ie'~'
43 Levine, LeviticllS, p. S
44 Para uma discussão 2.. :.:::-:::~

40 Milgrorn, Leviticus 1-16, p. 161.


do antigo Oriente ri""'" -
41 Schiikel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, p. 591. incenso em cerimôni2~ :,: _

26 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 ê NÚMERC' 1• -
----------------------Roos: A OFERTA QUEIMADA

:~.:::,
e. A sentença final apresen-
sacrifício foi feito da maneira correta, atingiu os seus objetivos e foi acei-
-~s do aparato crítico da Biblia
to por Deus. Caso o sacrifício não tenha sido feito adequadamente, a
verbos ~tli~ declaração do sacerdote certamente será l{';' ;'7:17 l{S ("isto não é oferta
S - T e nliJ
-T do v. 6, o
queimada")!
-=sentam o verbo rD~("lavar")
5. O termo i1tp~ ("oferta feita pelo fogo") apresenta alguma dificulda-
: ~participa do ato de lavagem
~er forte mas não é necessário de. A sua etimologia é debatida nos meios acadêmicos e não há consenso
quanto ao seu significado exato.42 Tradicionalmente entende-se que iitp~
deriva do substantivo tli~ ("fogo") e refere-se a algo queimado. Este senti-
.~i'teuco Samaritano, a Septua-
do se enquadra bem na oferta queimada que é uma oferta feita pelo fogo.
, e o Targum Pseudo-Jonathan
6. A expressão Din~nJ~} ("aroma agradável") é constituída de dois
:'.:1.0 a leitura ~ii1 i1?:17("isto é
~estemunhos são fortes e uma substantivos que geralmente são usados em conjunto. O substantivo D~'
vem da raiz verbal nTi~ que, no hifil, significa "cheirar o aroma". Já Din\l
:::.:'viasnão exigem a alteração
vem do verbo DiJ que tem o significado de "repousar, descansar". Segun-
.:-~'Le do pronome l{,i1 ter sido
SJ de transmissão do texto.40
do Levine, é daí que vem o sentido de "experimentar prazer, conforto".43
A expressão Oin'n:}'j tem o sentido literal de "aroma ou fragrância agra-
., meio. Schokel entende que,
dável". Esta expressão implica num antropomorfismo para Deus: é como
:'Jro de um ser vivoY Aplica-
se Deus estivesse no céus cheirando o aroma apetitoso que sobe na fuma-
-= o meio do animal, daí vísce-
ça da oferta queimada. Esta é uma expressão importante e padrão para o
3. forma verbal .l)J~que tem o sacrifício. O novilho é oferecido a fim de que Deus lembre-se com miseri-
;.:-:-= é o membro que se dobra,
córdia do ofertante. A oferta aponta para a propiciação, para a ação de
oyadas para evitar que o altar
colocar Deus em boa disposição em relação ao ofertante. Isto vai ao que
'rais, fluídos e alimentos par-
de mais antigo há no uso da expressão. Retrocede aos sumerianos, babilô-
-=rnas e as vísceras. Só partes
nicos, aos mais antigos tempos.44
7. A afirmação final ("é oferta queimada, oferta feita pelo fogo, de
:'stá pronto para ser oferecido
aroma agradável a Iahweh") é conclusiva e teologicamente importante. O
\ceto o couro) sobre o altar. A
fato da oferta ser de aroma agradável a Iahweh, significa que Deus aspi-
.~stantivo 'i~~pque significa
rou e teve prazer no sacrifício. A oferta foi aceita por Deus, a culpa do
:'-110), o verbo significa literal-
ofertante foi paga, a ira de Deus foi aplacada e o ofertante agora está na
01' sacrifício em fumaça", daí
correta relação com Deus. Isto significa dizer que ele foi perdoado e pode
:::TI forma de fumaça. Este é o
voltar em paz para casa. Caso isto não aconteça, haverá a declaração de
> ") é uma fórmula declarató- que "isto não é oferta queimada!" e o sacrifício não será de "de aroma
agradável a Iahweh", A compreensão luterana vê nesta afirmação final
: for emendado para ~'i1 il7iJ
os vv. 13 e 17, como indicado uma palavra de evangelho: trata-se da absolvição do ofertante.
;ão está reconhecendo que o
42 Veja a discussão em Hartley, Leviticus, pp. 13-14, e Milgrom, Leviticus 1-16, pp. 161-162.
43 Levine, Leuiticus, p. 8.
44 Para uma discussão a respeito do uso de substâncias aromáticas no culto do Antigo Testamento e
do antigo Oriente Próximo, veja Hartley, Leviticus, p. 22-23, e Levine, Leviticus, p. 8. O uso do
incenso em cerimônias litúrgicas dos nossos dias retrocede a este antigo costume.

Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 27
ARTIGOS------------------------------

8. O símbolo massorético s("setumah"), que sinaliza novo parágrafo D ~.i.Tn+e"'pret-,...:::


1. ••... a~~t..,.~l ,~,
-"-.l.. .,....;.-
••

na Bíblia hebraica, aponta para uma pausa no texto. O v. 10 passa a des-


crever outra variedade da oferta queimada. l\ oterta
se dá o rito cIo :"o:~:~'
Ullla d/do
alva o!ere=,_-.'
. .
C. Sumário do ritual e pressupõe a Fl'-~:·=
participação da :2
Os procedimentos do rito da oferta queimada podem ser descritos fício que lhe é
de forma sucinta como segue.45 O ofertante adentrava o pátio externo o cheiro bom
do tabernáculo trazendo o novilho a ser ofertado e apresentava-se ao vem de Deus pari'
sacerdote explicando-lhe a razão do sacrifício. Esta poderia ser o nasci- queimada. A pai?, ...
mento de um filho (Lv 12), a cura de uma doença (Lv 14) ou uma ocasião terno que é o ri ti.'.<
de impureza ritual (Lv 15). Em seguida, o ofertante impunha a sua mão A oferta quei:-='c.'
sobre a cabeça do novilho provavelmente confessando sobre ele o seu tem apenas signii~ >.. u

pecado, fazendo uma oração, recitando ou cantando um salmo ou um Cristo no Antigo -êo"" ...
cântico, ou enunciando uma fórmula litúrgica. Na continuidade, com a tem sido sombra
assistência dos oficiantes, o ofertante imolava o novilho no lado norte estivesse além do ~<:.
do altar. A tradição rabínica posterior afirma que o ofertante e o animal lançando a sombE. _~
deviam estar olhando para o lado oeste, na direção da tenda da reunião sombra recai sobre ?
onde se achava Deus. O sangue do novilho era coletado pelo sacerdote O rito do sacrifício ~-' :,
em vasilha própria. O oficiante o aspergia nos lados do altar possivel- virá e a sua obra c'.:.:'.'.' .
mente seguindo alguma ordem ritual, talvez elevando o sangue e profe- Portanto, o ritual c.' :-=:' ..
rindo uma oração a Deus. A pele do novilho era tirada, a sua cabeça era gação da palavra e " c . =

separada e o animal era seccionado em partes pelo ofertante com o auxí- pada, como S0111b:'?--
lio de sacerdotes. O fogo do altar era avivado com mais lenha. O sacer- um carimbo de Cri:< .,-=
dote iniciava o processo de incineração queimando primeiro a cabeça e para a sua obra que ;:-::: ' ... _
a gordura. Enquanto isso, o ofertante preparava as outras partes, lavan- coa. Nesta proclarno:": ..
do as pernas e as vísceras do novilho. Depois, as outras partes eram A pergunta cn.:::.-.
trazidas pelo sacerdote e queimadas sobre o altar. É razoável supor que vos a que se propÔe" ..
a fórmula dec1aratória era verbalizada pelo sacerdote ao final do rito: doa? A resposta é 5:C:':''
Deus aceitou a oferta. Possivelmente, o ritual era acompanhado da enun- mágico, ex opere
ciação de formulações litúrgicas, de algumas orações ou do canto de al- está em si mesmo, .~, :-::,
guns salmos. Cristo. Fora de Je5'U5 .
lho é um infeliz anir:'?
Cristo, Deus usa e:" te 0.'_,_ .. _
te. Crer nas prome:o:o."~ ...
45 Para uma descrição mais detalhada do ritual da oferta queimada, veja Milgrom, Leviticus 1,16, p, 46 A través da oferta ,co: _ :'.
163, e Wenham, Leviticus, pp, 52·53,
47 Expiar pecados e "·.:·c ...
Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 •• NÜZvIERC 1 • -.
--------------------- Roas: A OFERTA QUEIMADA

.:ruesinaliza novo parágrafo


:-.0 texto. O v. 10 passa a des- D. Interpretação da oferta queimada
A oferta queimada é um ato que acontece na terra e no céu. Na terra
se dá o rito do sacrifício, no céu, a reação de Deus. A oferta queimada é
uma dádiva oferecida a Deus, uma oração que se materializa no sacrifício
e pressupõe a participação interna do ofertante. É um ato externo com a
participação da fé e do coração do ofertante. No céu, Deus reage ao sacri-
.eimada podem ser descritos
fício que lhe é apresentado. Numa figura antropomórfica, o Senhor aspira
-:e adentrava o pátio externo
o cheiro bom da oferenda e, aceitando-a, perdoa o ofertante. Esta ação
: :ertado e apresentava-se ao
vem de Deus para o ofertante. Os meios da graça são aplicados na oferta
.:ia. Esta poderia ser o nasci-
:ença (Lv 14) ou uma ocasião queimada. A palavra e a promessa de Deus estão vinculadas ao sinal ex~
terno que é o ritual.
. :ertante impunha a sua mão
::onfessando sobre ele o seu A oferta queimada não é somente uma representação de Jesus e não
.. cantando um salmo ou um tem apenas significância simbólica. É mais. É a presença proléptica de
Cristo no Antigo Testamento. O apóstolo Paulo afirmou que "tudo isto
zica. Na continuidade, com a
.:,xa o novilho no lado norte tem sido sombra das causas que haviam de viril (Cl2.17). É como se o sol
estivesse além do Novo Testamento iluminando a cruz e o túmulo vazio e
.·... 3. que o ofertante e o animal
lançando a sombra destes sobre as instituições do Antigo Testamento. Esta
c iireção da tenda da reunião
sombra recai sobre a oferta queimada dando-lhe um caráter cristológico.
:. era coletado pelo sacerdote
O rito do sacrifício aponta para o evento culminante no futuro: o messias
nos lados do altar possivel-
virá e a sua obra cumprirá plenamente os objetivos da oferta queimada.
c:Z elevando o sangue e profe-
Portanto, o ritual da oferta queimada é proclamação cristológica. Via pre-
:' era tirada, a sua cabeça era
:e5 pelo ofertante com o auxí-
gação da palavra e via promessa de Deus,46 Jesus ali está de forma anteci-
do com mais lenha. O sacer- pada, como sombra que vem lá da frente. A oferta queimada é um tipo,
um carimbo de Cristo que aponta para a frente, para o arquétipo divino e
.::lmando primeiro a cabeça e
para a sua obra que se cumpre na Sexta-Feira Santa e no domingo da Pás-
orava as outras partes, lavan-
coa. Nesta proclamação em ato, Cristo se faz presente na oferta queimada.
c:oois, as outras partes eram
A pergunta crueial é a seguinte: a oferta queimada cumpre os objeti-
; altar. É razoável supor que
~o sacerdote ao final do rito: vos a que se propõe?4i O sacrifício do Antigo Testamento realmente per-
doa? A resposta é sim, com toda a certeza. Não por um poder intrínseco,
:,1era acompanhado da enun-
,,5 orações ou do canto de 0.1-
mágico, ex opere opera to que opera no ritual. A eficácia do sacrifício não
está em si mesmo. A oferta queimada cumpre os seus objetivos através de
Cristo. Fora de Jesus, a oferta perde o seu significado. Sem Cristo, o novi-
lho é um infeliz animal imolado em nome de intenções religiosas. Mas em
Cristo, Deus usa este animal para expressar a sua boa vontade ao ofertan-
te. Crer nas promessas vinculadas à oferta queimada é crer no Deus que
.c·mada, veja Milgrom, Leviticus 1·16, p.
46 Através da oferta queimada, Deus efetivamente quer perdoar o ofertante.
47 Expiar pecados e mover Deus a uma disposição benevolente para com o ofertante.

Vox CONCORDIANA
VOLUi\tIE 16 " NíU\JERO 1 e ANO 2001 29
ARTIGOS----------------------------
versão próxEl-" --
justifica o pecador através do messias. É crer em Cristo posto diante do os vv. 3-9a con:<::'_ - -
pecador em forma de caricatura, de sombra. Estes são os aspectos sacrifi-
cial e sacramental simultâneos no ritual: se o ofertante vai a Deus na ofer-
ta queimada, Deus, nesta mesma oferta, vem ao ofertante com a sua ab-
solvição e o seu perdão.
Duas observações devem ser feitas:
a) À semelhança do que acontece com o sacramento do altar nos dias o texto de
atuais, existe a possibilidade do ofertante ter participação meramente ex- que estão em
1. COllceitc- --
terna e irrefletida ao aproximar-se para o ritual. Isto não é do agrado de
Deus e o ofertante será responsável pelo seu ato. perspectivas. Pc' ----
b) Não podemos esquecer a obra do Espírito Santo no Antigo Testa- do, que aceit2cc c_c: _

mento. Deus age pela loucura da pregação levando pessoas a crer no mes- aspira como
sias que já veio (Novo Testamento) ou ainda por vir (Antigo Testamento). fogo contínuo. P -:
A oferta queimada é pregação de Cristo no Antigo Testamento. A terceira meios para rescl--=~
pessoa da Trindade utiliza esta proclamação para levar pessoas a este va, a oferta lhe -=:-
messias, tipificado no novilho imolado e incinerado sobre o altar. Ali está Deus da ofert2 c'-:::-:
Cristo. Quem nele crê, tem perdão, vida e salvação. evidencia os as;:;:::-:
2. Ritual
guido. A cerimÓ~-_:_'
lhante. Havia rre:.~ : -
E. Avaliação das versões brasileiras
aves. Umelemen:: ---
As versões brasileiras de Lv Ll-9 em geral são boas. Dentre as Bíblias (exceto as partes:: -
protestantes, figura a tradução de Almeida, edição revista e atualizada. culto no Novo T25:_' __ ::.
Esta segue junto ao hebraico e representa o texto clássico do protestantis- do. Com qual
mo brasileiro que moldou a fé e a vida de gerações de cristãos. A Nova jam mantidas né' :~- -
Versão Internacional, Bíblia recente no mercado brasileiro, tem boa lin- feito com ordem:,:: ::: - -
guagem, texto fluente e utiliza parcialmente o princípio lingüística da 3. Pecado .• -"""::'::~.
equivalência dinâmica na sua tradução. Para um estudo mais aprofunda- zes ao dia) e ern::c :
do, esta versão tem limites. A liberdade de tradução pode significar liber- punha a sua mão ::- ::-:=
dade quanto ao texto hebraico A Nova Tradução na Linguagem de Hoje do a sua culpa. Esc~ :
da Bíblia, fiel ao princípio da equivalência dinâmica, segue pelos cami- meia a vida do se~-' -
nhos da simplificação, nem sempre coincidentes com o texto massorético. diante de Deus.
As Bíblias católicas caracterizam-se pela elegância da norma culta e pela 4. Morte. Peca:: c: ::

beleza estilística utilizadas em suas traduções. A Bíblia de Jerusalém tem


que 'J o salário do F-.:é:_:
bom texto, próximo ao hebraico, numa tradução crítica e refletida. As no- de matar, derram:'.::. c_

tas ao pé da página são liberais. A Bfolia Vozes, apesar de alguma liberda- sobre o altar mosto: -
de na formulação da tradução! tem bom texto e segue próxima ao hebrai- dor. Tudo é queime.:_,
co. A Edição Pastoral e a Tradução Ecumênica da Bíblia apresentam boa

VOLUME 16 e NÚMERC -
30 Vox CONCORDIANA
---------------------- Roas: A OFERTA QUEIMADA

~"er em Cristo posto diante do versão próxima ao texto massorético. Na Tradução Ecumênica da Bíblia,
ê Estes são os aspectos sacrifi- os vv, 3-9a constituem um único e longo período.
~,ofertante vai a Deus na ofer-
em ao ofertante com a sua ab-
IV. TEOLOGIA DA OFERTA QUEIMADA

~,sacramento do altar nos dias o texto de Lv 1.1-9 deixa transparecer importantes temas teológicos
er participação meramente ex- que estão em harmonia com o quadro mais amplo da teologia bíblica.
--tual. Isto não é do agrado de 1. Conceito de Deus. Esta perícope apresenta Deus a partir de duas
~:ato. perspectivas. Por um lado, é o Deus irado que exige a reparaçào do peca-
:~pirito Santo no Antigo Testa- do, que aceita o sangue derramado, que recebe a vida do ofertante, que
>:yando pessoas a crer no mes- aspira como agradável o cheiro do anirílal cremado. Sobre o seu altar há
c por vir (Antigo Testamento). fogo contínuo. Por O1.ltro,é o Deus que toma a iniciativa e providencia os
,-'-.ntigo Testanlento. A terceira meios para resolver o problema do ofertante. Ele aceita a morte substituti-
para levar pessoas a este va, a oferta lhe é cheiro agradável, ele absolve e perdoa o ofertante. O
":inerado sobre o altar. Ali está Deus da oferta queimada é o Deus justo e, também, o Deus amoroso. Isto
-?l,'ação. evidencia os aspectos de lei e evangelho.
2. Ritual definido. O rito da oferta queimada é definido e deve ser se-
guido. A cerimônia da oferta de bovinos, ovinos ou caprinos era seme-
lhante. Havia modificações para uma ordem mais simples na oferta de
aves. Um elemento característico da oferta queimada é que todo o animal
::=-alsão boas. Dentre as Bíblias
(exceto as partes não qualificadas) era incinerado no altar. Se o formato do
o edição revista e atualizada.
culto no Novo Testamento é simples, o do Antigo Testamento é elabora-
~exto clássico do protestantis-
do. Com qual ficamos? A liberdade cristã sugere que as duas formas se-
;eraçÔes de cristãos. A Nova
jam mantidas na igreja. Isto nos leva ao Deus que deseja que "tudo seja
=~'=ado brasileiro, tem boa lin-
feito com ordem e decência" na igreja (lCo 14.40).
~:e o princípio lingüística da
3. Pewdo. A oferta queimada era apresentada diariamente (duas ve-
::0 um estudo mais aprofunda-
zes ao dia) e em ocasiões especiais. Ao trazer o sacrifício, o ofertante im-
:c?,dução pode significar liber-
punha a sua mão sobre o novilho e confessava o seu pecado reconhecen-
Jução na Linguagem de Hoje
do a sua culpa. Esta situação aponta para a realidade do pecado que per-
, dinâmica, segue pelos cami-
-=:Ltescom o texto massorético. meia a vida do ser humano. Esta situação de pecado deve ser resolvida
diante de Deus.
e;ância da norma culta e pela
4. Morte. Pecado é coisa séria e gera morte. O apóstolo Paulo afirmou
, 25. A Bíblia de Jerusalém tem
que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Na oferta queimada, o ato
c ',:çào crítica e refletida. As no-
de matar, derramar o sangue, tirar a pele, esquartejar o animal e queimá-Io
'::25, apesar de alguma liberda-
sobre o altar mostra a morte em ação. Nada sobra do substituto do peca-
:' e segue próxima ao hebrai-
dor. Tudo é queimado, morto.
,:21. da Bíblia apresentam boa

Vox CONCORDIA.NA VOLUME 16 ••NÜMERO 1 e ANO 2001 31

~~----.-
ARTIGOS------------------------------

5. Ira de Deus. Em virtude do pecado, Deus está irado com o pecador 12. AbsolL'i(f
e esta ira deve ser apaziguada. Como se apazigua a ira de Deus? Arespos- Deus que aspiro_c -~-: __
ta bíblica é clara: oferecendo a vida do ofensor. A oferta queimada mostra o seu perdão. Est? ~ -
a ira de Deus sendo executada contra o pecador através do seu substituto. vos a que se pr0l--"~~ c:- -

Esta é a exigência da ira de Deus. termos tipológicos _


6. Derramamento do sangue. Existe estreita conexão entre o sangue e a Pai e reconcilia o
vida no Antigo Testamento. Tirar o sangue de alguém equivale a terminar 13. Vincula(L
com a vida e cessar a sua existência como ser vivente. Esta é a razão para mesmo. A oferta ,y_", __
as afirmações contidas em Lv 17.11; Gn 9.4; Dt 12.23. Como pela imposi- J esus quem perno?
. - -- --
ção das mãos estava caracterizada a substituição, ao derramar o sangue mento em forma
do animal o ofertante apresentava a sua vida a Deus. oferta queimada, es:
7. Queima total sobre o altar. O pecado não existe por si mas se encarna há sacrifício agr?,G:' ,_
no pecador e atinge corpo e alma, o homem todo. Portanto, não só o ele- meios da graça. _-\- u __

mento imaterial do ser humano deve sorrer a conseqüência do pecado, c0111preensão da o:~:--- -
mas o homem todo. Também o corpo deve ser entregue à morte. Como é a 14. Deus f1iS~, _
pessoa toda do ofertante que está sendo oferecida, assim todo o animal justo e, ao mesnlC' ~"'~.~.
-_
deve ser consumido no fogo do altar. divina não é ignor,,~
8. ConÍissão de pecado e deÍé. Ao impor e pressionar a sua mão na cabe- do seu substituto_ F :
ça do novilho, o adorador reconhecia a sua culpa e a responsabilidade para que o ofert2xé= '=
pelo seu pecado e ali o confessava. Ao mesmo tempo, ao oferecer o sacri- mesmo rito, Deus s: :-_---
fício, o ofertante confessava publicamente a sua ré nas promessas de amor, julgamento e ~c
Iahweh, a sua gratidao a Deus e a sua decisão de viver vida santificada. 15. Lei eevaJ1::-~-.'
9. Objetivo da 0Íerta queimada. O objetivo da oferta queimada é a acei- 1.1-9 está articulac" c:-:--- -c

tação do pecador diante de Deus. A oferta queimada quer expiar o pecado te na matéria da F2::-~: ::-:
do ser humano bem como propiciar a ira de Deus. O novilho era aceito mentos perpassan,_ :=
como preço do resgate do pecador. Se a culpa foi paga e a ira de Deus foi
apaziguada, então o pecador volta ao correto relacionamento com Deus.
No aspecto vertical, ele está justificado perante Deus.
10. Substituição. Caso o ofertante não desejasse sua própria morte,
esta expiação deveria ser feita através de um substituto. Esta é a possibili-
V• PER~PECTTT_.\.-
'\.v 1v"-.~rTI--'-.
dade de vida para o pecador. Na oferta queimada, o novilho substituía o
ofertante. Isto aponta para a morte substitutiva de Cristo e para a satisfa- A perícope d2e,::2::-:. _
ção vicária alcançada pela sua obra. balho pastoral e nLÍss
11. Intermediário. O ser humano não pode chegar diretamente a Deus 1. O texto mostLc -- -
e continuar incólume. Se tentar, encontrará um Deus santo e irado dispos- leigos na igreja e IVe2,-_ o o: c:-

to a acertar contas com o pecador. Se este ser humano deseja um Deus que igualmente sério nc! S,êH ----:

lhe seja favorável, ele necessita de um intermediário que traga a sua causa Senhor na igreja e fL'_ ~,-_,
perante Deus. Este é o sacerdote. Esta intermediação olha para a frente, salvação do ser hun-'~:- :
para o ofício sacerdotal de Cristo.
32 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ••NÚZvfERO 1 •
----------------------- Roos: A OFERTA QUEIMADA

:=eus está irado com o pecador 12. Absolvição. O aroma agradável indica a disposição favorável de
=zigua a ira de Deus? A respos- Deus que aspira o bom odor, aceita a oferta e volta-se ao ser humano com
~Jr. A oferta queimada mostra o seu perdão. Esta é a absolvição do pecador. A oferta cumpriu os objeti-
>.:1,or
através do seu substituto. vos a que se propôs e agora o pecador está perdoado diante de Deus. Em
termos tipológicos, somos remetidos ao sacrifício de Cristo que agrada ao
.ta conexão entre o sangue e a Pai e reconcilia o pecador com Deus.
,:2 alguém equivale a terminar 13. Vinculação cristológica. O sacrifício não tem poder mágico em si
21' 'vivente. Esta é a razão para
mesmo. A oferta queimada é eficaz via Cristo. Isto equivale
~ a dizer aue
" é
: Dt 12.23. Como pela imposi- Jesus quem perdoa. O sacrifício é a proclamação de Jesus no Antigo Testa-
--:uição, ao derramar o sangue mento em forma de sombra. Se anularmos a vinculação cristológica da
a Deus.
oferta queimada, esta perderá a sua razão de ser. Na teologia bíblica, não
30 existe por si mas se encarna há sacrifício agradável a Deus fora de Cristo e não há aceitação fora dos
" todo. Portanto, não só o ele-
meios da graça. A vinculação cristológica é a chave hermenêutica para a
21" a conseqüência do pecado, compreensão da oferta queimada.
:21' entregue à morte. Como é a
14. Deus justo e justificador. Na oferta queimada, percebe-se o Deus
:-2recida, assim todo o animal
justo e, ao mesmo tempo, justificador do ofertante (Rm 3.26). A justa ira
divina não é ignorada. Ela é propiciada com a oferta do pecador através
:."ressionar a sua mão na cabe-
do seu substituto. Por outro, é o próprio Deus que providencia o meio
3. culpa e a responsabilidade
para que o ofertante seja justificado. Este meio é a oferta queimada. No
:'::,0 tempo, ao oferecer o sacri-
mesmo rito, Deus se manifesta justo e justificador do pecador. Justiça e
2 a sua fé nas promessas de
:.30 de viver vida santificada.
amor, julgamento e salvação estão presentes na oferta queimada.
15. Lei e evangelho. A discussão acima demonstra que a perícope de Lv
: da oferta queimada é a acei-
1.1-9 está articulada em termos de lei e evangelho. Há uma lógica crescen-
','eimada quer expiar o pecado
~e Deus. O novilho era aceito te na matéria da perícope em termos de lei e evangelho. Estes dois ele-
mentos perpassam o texto do primeiro ao último versículo.
:"?, foi paga e a ira de Deus foi
-:J relacionamento com Deus.
,=,-teDeus.
:iesejasse sua própria morte,
:, substituto. Esta é a possibili- V. PERSPECTIVAS POIMÊNICAS
:mada; o novilho substituía o
::.'-ade Cristo e para a satisfa- A perícope da oferta queimada abre perspectivas que orientam o tra-
balho pastoral e missionário .
.;-2chegar diretamente a Deus 1. O texto mostra qual é o Deus com quem os pastores, os líderes e os
::1, Deus santo e irado dispos- leigos na igreja e na missão estão lidando. É o Deus sério na sua justiça e
~humano deseja um Deus que igualmente sério no seu amor. Se este Deus é assim, então os interesses do
--ediário que traga a sua causa Senhor na igreja e na missão precisam ser feitos com seriedade visando a
:.:.nediação olha para a frente, salvação do ser humano.

Vox CONCORDIANA VOLWiJE 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001


ARTlGOS------------------------------
deixou de ter re1e-- ° - - -
2. O ritual tem ordem e o culto flui conforme previsto por Deus.48 Os
sacerdotes Nadabe e Abiú agiram de forma independente e experimenta- a oferta queimad?: --,
tos. E não vai ale"'" ~, c
ram a ira de Deus (Lv 10.1-7). Pastores e líderes são convidados a agir com
reverência ao conduzir o povo de Deus no culto. A congregação tem dian- com a exegese lu::::-' - ,
e cristocêntrica é ?_~,: " ::-
te de si dois modelos bíblicos de adoração: um, complexo (o do Antigo
reconhece e valor:z c
Testamento) e outro, simples (o do Novo Testamento). Não é preciso esco-
lher um dentre os dois. Ambos os modelos podem ser adota dos visando a queimada. Por OLe -
edificação do povo de Deus. de linguagem e
3. O texto mostra a realidade da vida dos fiéis tanto na igreja como na enxerga o messE~; :-':-0,,_
mada. Este messi:o = = - -
missão. Quem apresenta a oferta queimada é o "filho de Israel", alguém
do povo de Deus. O pecado existe na vida do ser humano, seja ele quem
for. Esta situação deve ser resolvida diante de Deus. A oferta queimada
apresenta a solução para o pecado. Esta solução vale para tempos passa- BIBLIOGRAFIA SE:::~:=,
dos e para os dias atuais.
4. A densidade teológica da perícope, a articulação do texto em ter- Auneau, Joseph. :=- =- -

mos de lei e evangelho e a sua vinculação cristológica estabelecem um (1994), São P? = -

paradigma homilético para o pregador. A pregação (ou estudo bíblico)


Chouraqui, André -.:- - .: -
elaborada nos moldes de Lv 1.1-9 fará com que Cristo esteja diante do Brandt e And:::- ~_.. _.
ouvinte, edificará o povo de Deus e, espera-se, os seus objetivos serão
alcançados. Cimosa, Mário. 19~-= -
5. Por fim, a perícope da oferta queimada constitui bom texto para a
Gilbert, Floyd Lee . .:
proclamação missionária, seja sermão ou estudo bíblico. Um texto con-
Candeia.
tendo um ritual não familiar ao ouvinte desperta a atenção. Os aspectos
culturais e religiosos devem ser explicados. A teologia da oferta queima- Hartley, John E. 19::::' -
da é relevante aos ouvintes dos nossos dias. A diagnose do pecado será Books.
feita pela lei contida na perícope. O seu evangelho brilha com um fulgor
especial. À semelhança do Antigo Testamento, este texto levará o ouvinte Harris, R. Laird; ,.\:-::'
até Cristo. Internacional .c.. =- __

Rd
e on do, T'LU_iL .-. -

Vida Nova.
VI. CONCLUSÃO Harrison, Roland l-.:
Downers Grc::-
Há duas tendências nos meios acadêmicos quanto à interpretação da Hoff, PauL 1983. C:: -
oferta queimada. A teologia liberal tende a entender a oferta queimada
como uma instituição do passado que cumpriu a sua função histórica e Keil, C. F.;Delitzscr ::
1) I Grand R·;:,,~-.:
k'-'-·---
1.. ••..•.. o ---

48 Lv 6.8·13 tem orientação específica com as rubricas para a atuação dos sacerdotes no ato de
oficiar a oferta queimada.

34 Vox CONCORDV1NA VOLWVIE 16 "NÜMERC .-


------------------------- Roas: A OFERTA QUEIMADA

:: ::l1e previsto por Deus.48 Os deixou de ter relevância nos dias atuais. A teologia reformada tende a ler
:-jependente e experimenta- a oferta queimada como uma alegoria com significados a serem descober-
:-:'-5 são convidados a agir com tos. E não vai além da simbologia. O caminho do meio, a terceira via, vem
.~:'J. A congregação tem dian- com a exegese luterana histórica confessional. A interpretação tipológica
.:n1, complexo (o do Antigo e cristocêntrica é a chave hermenêutica que faz a diferença. Por um lado,
,-emento). Não é preciso esco- reconhece e valoriza a historicidade e a relevância da instituição da oferta
- . jem ser adotados visando a queimada. Por outro, percebe a simbologia do texto e vai além das figuras
de linguagem e do simbolismo. A interpretação tipológica e cristocêntrica
~fiéis tanto na igreja como na enxerga o messias presente na palavra e promessa associadas à oferta quei-
. "filho de Israel", alguém
-= '.)
mada. Este messias confere significado divino à oferta queimada .
:~ ser humano, seja ele quem
~_e Deus. A oferta queimada
- ;20 vale para tempos passa- BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

'?.rticulação do texto em ter- Auneau, Joseph. 1990. O Sacerdócio na Bíblia, trad. Maria Cecília M. Duprat
:ristológica estabelecem um (1994), São Paulo, Paulus .
.:-regação (ou estudo bíblico)
.. ,lue Cristo esteja diante do Chouraqui, André.1992. A Bíblia: Ele Clama ... (Levítico), Trad. Wanda C.
-? -se, os seus objetivos serão Brandt e André Cardoso (1996), Rio de Janeiro, Imago Editora.
Cimosa, Mário. 1984. Levítico e Números, São Paulo, Paulinas.
constitui bom texto para a
~3.
~:udo bíblico. Um texto con- Gilbert, Floyd Lee. 1995. A Lei e a Graça: Tipo e Antítipo, São Paulo, Editora
Candeia.
~?erta a atenção. Os aspectos
-""-
teologia da oferta queima- Hartley, John E. 1992. Leviticus (Word Biblical Commentary 4), Dallas, Word
, .--\diagnose do pecado será Books .
.:~;elho brilha com um fulgor
.•' este texto levará o ouvinte Harris, R. Laird; Archer Jr., Gleason L.; Waltke, Bruce K. 1980. Dicionário
Internacional de Teologia do Antigo Testamento, trad. Márcio Loureiro
Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo Pinto (1998) , São Paulo,
Vida Nova.

Harrison, Roland K. 1980. Leviticus: An Introduction and Commentary,


Downers Grove, Inter-Varsity Press.
:JS quanto à interpretação da
Hoff, Paul. 1983. O Pentateuco, Miami, Editora Vida.
entender a oferta queimada
~.:-riua sua função histórica e Keil, C. F.;Delitzsch, F. S.d. The Pentateuch (Commentary on the Old Testament
1), Grand Rapids, Eerdmans.
-.• atuação dos sacerdotes no ato de

Vox CONCORDIANA VOUli\1E 16 • NÚMERO 1e ANO 2001 35


ARTlGOS---------------------------

Kurtz, J. H. 1980. Sacrificial Worship of the Old Testament, Grand Rapids,


Baker.

Lamparter, Helmuth. 1980. In Gottes Schuld, Stuttgart, Calwer Verlag.


Lenz, Mark J. 1988. Leviticus, Mi1waukee, Northwestern Publishing House.
INTRODUÇÃO
Levine, Baruch A. 1989. Leviticus (JPS Torah Commentary), Philadelphia,
Jewish Publication Society.
o presente e~~'.' c:
Milgrom, Jacob. 1991. Leviticus 1-16 (The Anchor Bible 3), New York, doutorado em rri~:,,:
Doubleday. logical Seminary
O título em inglês::: .: .'.
Noordtzij, A. 1982. Leviticus, Grand Rapids, Zondervan.
City of Fortaleza., y ~~.
Noth, Martin. 1978. Das Dritte Buch Mose - Leviticus (Das Alte Testament bait e oikos na ESCL~._: '-::
Deutsch 6), Gottingen, Vandenhoeck & Ruprecht. ja com famílias em ? -.....
- c- .

no presente estude ~ ~-=


Porter, J. R. 1976. Leviticus (The Cambridge Bible Commentary), Cambridge, blioteca da Escol? S: -=.
Cambridge University Press. Paulo. Os principa;,:- ---
Santos, Jonathan F. dos. 1986. O Culto no Antigo Testamento, São Paulo, tese da pesquisa ..: I= = .. -::

Vida Nova. ênfases e reiteraçÔ",~

Schokel, Luiz Alonso. 1994. Dicionário B{blico Hebraico-Português, trad. 1vo


Storniolo e José Bortolini (1997), São Paulo, Paulus.
I. HIPÓTESE DA PE3:"_ . 3
Seiss, Joseph A. 1860. Gospel in Leviticus, Grand Rapids, Kregel
Publications. A hipótese en'c,: ::-~'.
Vaux, Roland de. 1965. Ancient Israel, 2 vols., New York, McGraw-Hill Book campo é a seguinte :. :
estrutura da famíL: =. :...
Company.
tipos de relacioname:·.~
Wenham, Gordon J. 1981. The Book of Leviticus, Grand Rapids, Eerdmans. padrio, vizinhançêL l-::, ..
suem potencialidade~ -;
família na palavra de -= -=. -
nho cristão a igreja e~:: ~-='-::-
prindo sua tarefa na ::-:',:
~:'
Ahipóteseem'cl'-= 0'-= -

pregação, catequese :': .' ... '.c:


munho através dos C?~ cc -- . ,

1 Professor na Escola Supu:: .. , --:-


riar de Teologia no dia 2: :'

36 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ."-
---------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

- ~d Testamentl Grand Rapids;


IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO
:3tuttgart, Calwer Verlag. Leonardo Neitzel1
~:hwestern Publishing House.
INTRODUÇÃO
. Commentary), Philadelphia,

o
presente estudo pretende oferecer um resumo da minha tese de
.·'wchor Bible 3), New York, doutorado em missiologia. O programa foi realizado no Concordia Theo-
logical Seminary (Fort Wayne, Indiana, EUA) no período de 1997 a 2000.
Zondervan. O título em inglês é o seguinte: "Mission Outreach and Households in the
City of Fortaleza, Northeast Brazil". A tese gira em torno do conceito de
.- Leviticus (Das Alte Testament bait e oikos na Escritura; teologia e suas implicações para a missão da igre-
Ruprecht. ja com famílias em Fortalezal CE. Serão apresentados excertos da mesma
no presente estudol poréml o texto completo pode ser encontrado na bi-
CommentarY)1 Cambridge,
blioteca da Escola Superior de Teologia do Instituto Concórdia de São
Paulo. Os principais pontos do presente resumo são os seguintes: L Hipó-
tese da pesquisa; lI. Metodologia; m. Aspectos emergentes; IV. Novas
ênfases e reiterações; V. Considerações finais .

. Hebraico-Portuguêsl trad. Ivo


?\.llo, Paulus.
I. HIPÓTESE DA PESQUISA
."{S; Grand Rapids, Kregel
A hipótese em torno da qual gira a pesquisa literária e a pesquisa de
:---:ewYork/McGraw-Hill Book campo é a seguinte: no estado do Ceará; também na capital Fortalezal a
estrutura da família como é entendidal os graus de parentesco e outros
tipos de relacionamentos pessoais e de afinidade como a amizadel com-
:'5; Grand Rapidsl Eerdmans. padrio; vizinhança, hospitalidade; são dons naturais de Deus que pos-
suem potencialidades para a missão da igreja naquela cultura. Nutrindo a
família na palavra de Deus e equipando seus membros para o testemu-
nho cristão a igreja está desenvolvendo sua natureza missionária e cum-
prindo sua tarefa na missão de Deus.
A hipótese envolve áreas fundamentais do trabalho da igreja como a
pregação; catequese no lar, devoções e estudos bíblicos familiares, teste-
munho através dos canais naturais de relacionamentos humanos confor-

1 Professor na Escola Superior de Teologia, São Paulo, SP. Aula inaugural proferida na Escola Supe-
rior de Teologia no dia 20 de fevereiro de 2001.
Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 ••NÚMERO 1 ••ANO 2001 37
ARTIGos--------------------------- ....
me descritos por Martinho Lutero na explicação do Primeiro Artigo do mentação bíblica _.__
Credo Apostólico e na Tábua dos Deveres do Catecismo Menor (Livro de família na educaçi'~ ~",c
ConcÓrdia, pp. 370,379-384). Enfatiza ter suporte da Escritura, das Confis- família; 5. Caracter:::.- -'. ,-
sões Luteranas e do exemplo pessoal da família de Lutero bem como de A pesquisa de::.o.:: -
outros cristãos através da história. ra), a função da igre ê :,:. ,- ,
A pesquisa parte da perspectiva de que a congregação local e a famí- estudos bíblicos nc" "c: , ' ;;:
lia são parceiras no trabalho do reino de Deus. Na comunhão corporativa rentesco de sangue 2'.::' __ c
da congregação como corpo de Cristo com o seu Senhor através da Pala- se baseia no métodc ~'
vra e sacramentos, e no relacionamento entre a família e a congregação pretativo e constr6i -;;: c:

não há tensão, dicotomia ou competição, pois ambas instituições perten- desenvolvida sobre~' -
cem à economia divina. A família natural pertence à ordem da criação e Cresswell, Herbert T ~ - -: - .

não é a igreja. A natureza da igreja não consiste nos relacionamentos hu- Stablein, Catherine :'~::',
manos, mas vai além destes, pois estes são apenas frutos do relaciona- aspectos culturais. e::' ~:-' -
mento propiciado por Deus através de Cristo que é o cabeça da igreja. A sa de campo auxili2 ~., - , .
congregação é a família espiritual de Deus reunida pelo Espírito Santo, o tamentos, comunicc.;ê
qual não conhece limites de parentesco e relacionamentos familiares, mas cia da família nucleco' -= -=

ultrapassa os mesmos, englobando a todos (Rm 12:12-28; Gl 3:24-29). pais e individuais, C


Procurando verificar o nutrimento da fé e missão na e através da fa- pesquisa auxiliam :,2' ::' - - ,-
mília, a pesquisa entende que não existe antagonismo ou duplicação de em paradigmas ou LO:_:O_~ ~: - ê
trabalho entre as duas instituições, pois ambas têm funções bem defini- em seu ministério T'.2' - c
das. A pesquisa não está propondo também nenhum tipo de cristianismo da pesquisa auxiliê,::' :-.:.-
particular ou privado por parte da instituição famíliar. A congregação lo- relação à sua missã.c p,.:' . ,
cal trabalha em comunhão com famílias e através das mesmas no sentido
de levar a palavra de Deus às pessoas e incorporá-Ias na igreja, o corpo de B. Questões operacic=-~ __
Cristo. Fazendo clara distinção entre a família natural e a espiritual, a pre-
A pesquisa está e:- : ' :-.
sente pesquisa procura descobrir, através da Escritura, da literatura teo-
questões da pesqui":o
lógica, não teológica e da pesquisa de campo desenvolvida em Fortaleza,
(QPC). A pesquisa lit2:o: o' :::
fatores que venham fortalecer ou abrir portas para a IELE na sua missão
Quais são os fundam,:::- -~;;: o o

entre o povo daquela cultura. na família? 2. Quais "ê '


ção cristã e missão Lê. ::, o __

local quanto à eduC?::::'


lI. METODOLOGIA DA PESQUISA rísticas do povo, culL.:.o :: :-=-
A pesquisa de e:o:,:: : -: :

A. Esboço geral são as características:.,:, - ;-


lidades e barreiras d~s :::.
A pesquisa abrange duas grandes áreas: a pesquisa literária e a pes-
leza? 3. Qual é a funç~-
quisa de campo. A pesquisa literária engloba as seguintes sub-áreas: 1. A tã e missão na famili2-
definição de igreja nas Escrituras e nas confissões luteranas; 2. A funda-

38 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • NÚMERO 1. •


-------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

=?;ão do Primeiro Artigo do mentação bíblica do sacerdócio universal dos cristãos; 3. A influência da
-- Catecismo Menor (Livro de família na educação cristã do lar (dois exemplos da história); 4. Lutero e a
_- ="teda Escritura, das Confis- família; 5. Características da cultura, igreja e família em Fortaleza.
:-_-~liade Lutero bem como de A pesquisa de campo engloba aspectos culturais (terra, povo e cultu-
ra), a função da igreja ligada à família, a prática de devoções domésticas e
:c :. congregação local e a famí- estudos bíblicos nos lares, aspectos do relacionamento das famílias, pa-
.•.~ Na comunhão corporativa rentesco de sangue, amizade e outros. A metodologia da pesquisa de campo
- seu Senhor através da Pala- se baseia no método qualitativo. Esse método é descritivo, indutivo, inter-
"=':-2 a família e a congregação pretativo e constrói-se sobre teoria fundamentada (grounded theory). É
:.:; ambas instituições perten- desenvolvida sobre os postulados teóricos de estudiosos como John W.
.-ê:::,tenceà ordem da criação e Cresswell, Herbert J. e Irene Rubin, Viggo S0gaard, Peter Frost e Ralph
c;~tenos relacionamentos hu- Stablein, Catherine Marshall, Gretchen B. Rossman e outros. O estudo dos
?cpenas frutos do relaciona- aspectos culturais, etnográficos, antropológicos e sociológicos da pesqui-
:::' que é o cabeça da igreja. A sa de campo auxilia na descoberta de fatores ligados a costumes, compor-
:::1.midapelo Espírito Santo/ o tamentos/ comunicação, relacionamentos familiares, parentesco, abrangên-
_:~ionamentos familiares, mas cia da família nuclear e extensiva e outras redes de relacionamentos gru-
-:\.m 12:12-28; G13:24-29). pais e individuais. O estudo dos aspectos teológicos e missionários da
:e e missão na e através da fa- pesquisa auxiliam na compreensão de como os elementos acima constitu-
":?gonismo ou duplicação de em paradigmas ou manifestam-se como preparatío evangelíca para a igreja
"_--~-'as têm funções bem defini- em seu ministério naquela região. O estudo dos aspectos eclesiológicos
. :--enhum tipo de cristianismo da pesquisa auxiliam na compreensão da função da congregação local em
~J famíliar. A congregação 10- relação à sua missão junto a famílias.
:: :'.yésdas mesmas no sentido
--;·orá-las na igreja, o corpo de B. Questões operacionais e protocolares
u:. natural e a espiritual, a pre-
- c Escritura, da literatura teo- A pesquisa está elaborada sobre questões, divididas em duas seções:
-: desenvolvida em Fortaleza, questões da pesquisa literária (QPL) e questões da pesquisa de campo
: ?S para a IELB na sua missão
(QPC). A pesquisa literária é composta por quatro QPLs quais sejam: 1.
Quais são os fundamentos bíblico-teológicos da educação cristã e missão
na família? 2. Quais são os fundamentos histórico-teológicos da educa-
ção cristã e missão na família? 3. Quais são as funções da congregação
local quanto à educação cristã e missão na família? 4. Quais são as caracte-
rísticas do povo, cultura e famílias no nordeste do Brasil?
A pesquisa de campo é composta por três QPCs quais sejam: 1. Quais
são as características das famílias em Fortaleza? 2. Quais são as potencia-
-~. a pesquisa literária e a pes- lidades e barreiras dos relacionamentos pessoais entre famílias em Forta-
. ? ?,sseguintes sub-áreas: 1. A leza? 3. Qual é a função da congregação local relacionada à educação cris-
-::ssões luteranas; 2. A funda- tã e missão na família?

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 39


ARTIGOS-------------------------- _

Cada questão da pesquisa literária (QPL) e da pesquisa de campo (QPC) bém aqui apenas?~o::...
está subdividida em questões menores chamadas operacionais. Os questio- recorrer ao texto C'~::'.. '=

nários da pesquisa de campo contêm as questões chamadas protocolares.


Questões protocolares são o instrumental p.d. usado nas entrevistas. Ao Escrituras Sa2:rad
'-' 2.:'

O teste de campo do instrumental (questões protocolares) foi desen- Deus criou (i


volvido junto a um segmento da população a ser pesquisada, isto é, dez mos ver no livro de _., .
famílias cristãs, filiadas a uma congregação na cidade de Port Wayne, In-
esses propósitos ,. _ . ,
diana, praticantes de estudos bíblicos domiciliares.
Antigo Testamento -=: o'
Pentateuco Deus e1','=-,= 0::,'
C. Metodologia desenvolvida na pesquisa de campo misericórdia e do t~:,:-=..
A metodologia da teoria fundamentada enfatiza a interação entre o a educarem seus
pesquisador e o entrevistado, pesquisa in loco no contexto sócio-geográfi- Deus chama a aten~~' ~
co. Utiliza-se de questões abertas no sentido de dar ao entrevistado a mais suas casas: "Ajunti':
completa liberdade de expressão e de se buscar os mais completos e acu- trangeiro que está. = :::- -. '
rados elementos da entrevista pessoal, sem distorção do conteúdo do que temam ao Senhor ",:,~:,
está sendo perguntado. ta lei; para que se-.:.: :
A pesquisa de campo foi desenvolvida num período de cinco sema- temer ao Senhor '::~,
nas na cidade de Fortaleza envolvendo três segmentos de famílias: dez qual ides, passandc
famílias praticantes da fé cristã (filiadas e participantes de uma igreja), livro de Samuel \'eI" .
dez famílias não praticantes da fé cristã e dez famílias de pastores. As Este se torna serYiJ ?>-- .
trinta famílias residem em bairros diferentes, cobrindo grande parte da filhos de Eli, que e~.o
área da cidade de Fortaleza no que diz respeito aos níveis sociais. As trin- (lSm 1.21-28; 3.13;: 3 .
ta famílias foram previamente conta ta das pelo pesquisador e agendada a promisso que fez (ic:=: -.'.
entrevista com o maior número de membros presentes no momento da lia ao Senhor (Js L·L.::
entrevista, Cada membro da família tinha oportunidade de se expressar, e espiritual de seus i,-~~':' ~ .
a resposta final, de consenso, era dada pelo "porta-voz" apontado pelos por eles (Jó 1.5). bis>< : .
membros da família. Expressões não verbais eram anotadas pelo entrevis- e filhos são condan-::'
tador. Cada entrevista durou de uma a duas horas; era sempre gravada e testemunhas da nk:'~:" ~ -
transcrita imediatamente após cada visita domiciliar, Outras informações semelhantes (Pr -1:,1 .-=--=
demo gráficas e metodológicas da pesquisa de campo podem ser encon- O Novo Test?,n'.:::-" .
tradas na tese referida acima. gar e a função da p>-.
alguns desses texto" "~ .c'
convite de Jesus F?::: ,~~
III. PARADIGMAS EMERGENTES DA PESQUISA amigos e colegas de ~=-'.
com o salvador Je5,::= -:. .:
A educação cristã e missão da família (nutrimento da fé e testemu- convite gracioso e __._
nho) têm o suporte das três áreas pesquisadas como se vê a seguir. Tam- çam palavras de _. "-

40 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 " NÚMERO 1 • .'.


---------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

- e da pesquisa de campo (QPC) bém aqui apenas algumas referências serão fornecidas, sendo necessário
operacionais. Os questio-
:':'-é'edas recorrer ao texto completo da tese para uma visão do quadro completo.
>estões chamadas protocolares.
i. usado nas entrevistas. A. Escrituras Sagradas
-::stõesprotocolares) foi desen-
= a ser pesquisada, isto é, dez
.
Deus criou a família com propósitos bem definidos, conforme pode-
. na cidade de Fort Wayne, In- mos ver no livro de Gênesis. Com a queda em pecado o homem manchou
..:.=iliares. esses propósitos de Deus. Porém em sua misericórdia, através de todo o
Antigo Testamento, Deus anuncia sua promessa da vinda do salvador. No
uisa de campo Pentateuco Deus entrega aos pais a responsabilidade da proclamação desta
misericórdia e do testemunho família (Dt 6.4-9). Os pais são conclamados
.~? enfatiza a interação entre o a educarem seus filhos no conhecimento do Senhor. Através de Moisés
.'J no contexto sócio-geográfi- Deus chama a atenção dos pais e mostra como eles devem testemunhar às
: de dar ao entrevistado a mais suas casas: "Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o es-
:sear os mais completos e acu- trangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam e aprendam; e
. dístorção do conteúdo do que temam ao Senhor vosso Deus; e cuidem de cumprir todas as palavras des-
ta lei; para que seus filhos; que não a souberam, ouçam e aprendam a
num período de cinco sema-
ê temer ao Senhor vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra a
~3 segmentos de famílias: dez qual ides, passando o Jordão; para a possuir." (Dt 31.12-13) No primeiro
• participantes de uma igreja), livro de Samuel vemos Ana e Elcana devolvendo seu filho Samuel a Deus.
: dez famílias de pastores. As Este se torna servo abençoado no trabalho do Senhor; em contraste com os
~es, cobrindo grande parte da filhos de Eli, que erravam; faziam errar o povo, e o pai não os corrigia
::ito aos níveis sociais. As trin- (1Sm 1.21-28; 3.13; 8.3). Josué foi ricamente abençoado pela aliança e com-
:-elo pesquisador e agendada a promisso que fez ao Senhor com respeito à fidelidade dele e de sua famí-
:c's presentes no momento da lia ao Senhor (Js 24.15). Já estava constantemente preocupado com a vida
~~ortunidade de se expressar, e espiritual de seus filhos e continuamente oferecia sacrifícios ao Senhor
:' l/porta-voz" apontado pelos por eles (Jó 1.5). Existem diversas passagens no livro de Salmos onde pais
.s eram anotadas pelo entrevis- e filhos são conclamados a aplicar a palavra de Deus em suas vidas e ser
,s horas; era sempre gravada e testemunhas da mesma (SI 78; 127; 128). O livro de Provérbios tem ênfases
; Jmiciliar. Outras informações semelhantes (Pr 4.1; 12.4; 17.6; 18.22; 19.13,14; 20.7; 22.6; 31).
~.de campo podem ser encon- O Novo Testamento possui inúmeras passagens que enfatizam o lu-
gar e a função da palavra de Deus no lar. Também aqui citaremos apenas
alguns desses textos. O evangelista Mateus, após ter sido agraciado com o
convite de Jesus para seguí-lo; abre a sua casa para que seus parentes,
PESQUISA amigos e colegas de trabalho desfrutem da mais abençoada comunhão
com o salvador Jesus. Certamente, Mateus quer agradecer a Jesus pelo
nutrimento da fé e testemu- convite gracioso e quer dar oportunidade para que os de seu círculo ou-
ias como se vê a seguir. Tam- çam palav:tas de salvação tais como "não vim chamar justos; e sim peca-

Vox CONCORDIANA VOLUAiE 16 ••NÜMERO 1 ••ANO 2001


ARTlGOS-----------------------------

dores ao arrependimento" (Mt 9.9; Lc 5.23-32).Aqui podemos ver um exem- o lar de uma famíl,:~- ,--
plo de evangelismo oikos. O homem possesso, após ter sido curado por em situação de eILe:'::,,__
Jesus, é convidado por Jesus para retomar ao seu lar e contar aos seus as apóstolos para que :C.r- ',:~- : _
grandezas que Jesus lhe havia feito - e ele não pode silenciar (Lc 8.38-39; testemunha sua fie::_:.~' ,-
Mc 5.19). A casa de Lázaro era um lugar de comunhão com o salvador templo como de cs::: ,,:: _'
Jesus. A família tinha o costume de parar as atividades para ouvir a pala- como estratégia de e-'c-:::c
vra do Senhor. Havia dificuldades que Jesus tinha que resolver quando quer que levassen-.
um membro da família não dava tanta importância às prioridades da vida, amigos, providenc:- .
tais como a comunhão com o salvador ouvindo a sua palavra (Lc 10.38). culto para os crist2c o
Durante o seu ministério, Jesus investiu grande parte de seu tempo lidan- família são exempkc '
do com famílias inteiras ou membros individualmente. Trouxe-Ihes a men- testemunho da pa.12,-_, _--: _ ,_
sagem da salvação, o perdão e a vida; proveu-Ihes ajuda e força em mo- bém o Pulpit Comii:.'- --
mentos de stress, e deu-Ihes orientações para a vida neste mundo e na a) É maravilh0:< -:. -c '
eternidade (Mc 1.29-34; Lc 5.27-32; 10.38-41; Jo 11; 12.1-11). André dá um É o pecado/ não a c-,
importante testemunho de fé/ conduzindo seu próprio irmão, Pedro, a quando somos "rer.?~:' - ,
Jesus (Jo 1.41A2). Através do livro de Atos vemos que o testemunho da fé para sermos agracte:::-
ia do culto regular no templo e perpassava a vida diária de cada cristão/ misericórdia exercidê -::'_ "
no lar e na sociedade - e o Senhor acrescentava à igreja os que iam sendo b) Vemos aqui :' - c ,- .
salvos (At 2.46A7). Na igreja cristã primitiva o testemunho do evangelho pessoas referidas li'.:: ::.:: -c-,-=
era feito no templo e de casa em casa, diariamente (At 5.42). Escrituras que o Úze:':'_ ,.
Por causa das perseguições ao cristianismo como religio illicita os cris- c) Com que fre::;.-_-~:-
tãos se reuniam nas casas. Em suas epístolas Paulo saúda diversas igrejas ministério da igrei:, :.:: -= __

que se reúnem nas casas (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl4.15; Fm2). Não podemos tornou-se sugeito de::: _-: =_
deduzir disso que somente a igreja como assembléia pública é que se reu- graça em sua famíli2 ::-:- --
nia nos lares por causa das perseguições. Havia também o estudo da Pala- de ancestral. (Pulp:: :- -
vra no lar, informalmente. Lenski/ um exegeta luterano/ afirma que a ex- O estudo do te:':-:'
pressão kaf oikon emAt 5.42 não é apenas uma forma adverbial/ mas tam- sobre a perspectiva c:': ::::' -:
bémuma preposição com sentido distributivo (Lenski 1961/237). Isto sig- de extensão do prese-:-~-:-::
nifica que os apóstolos não estavam apenas proclamando as boas novas a tários onde o tema :,-: c:. -
respeito de Jesus em casas, mas de casa em casa. Junto com a estratégia ia 10.32,48; Rm 12.13.:>~: _
também a quantidade. A Escritura no _-",~ - :::-
Em Atos 10 vemos Pedra proclamando o evangelho na casa de Cor- relacionamento íntir:c,:,:::--:-c :=
nélio para toda a sua família (At 10.2,22/24; 11.14). Com respeito a este de pessoas de difere=-::::' :::
testemunho diz George E. Sweazey: "Teria sido impossível para a igreja em contextos geogL':::' :
do Novo Testamento ter batizado Cornélio ou o carcereiro sem prestar estruturas familiare::.-,_ ":'
atenção às suas famílias. A fé era vista como uma questão de família/ e o Jesus. Pelo lavar de' '.-- -:-' -
evangelismo era direcíonado/ tanto quanto possível, não somente para natural para dentro .'> :, ::-:'
indivíduos, mas para famílias inteiras." (Sweazey, 95) EmAt 12.12 vemos aos membros da fsn-~-__' _,

42 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ••NÚMERO 1 • .~


-------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMíliA E MISSÃO

_-\quipodemos ver um exem- o lar de uma família cristã sendo utilizado pelos membros para orarem
,<, após ter sido curado por em situação de emergência. Em Atos 16.15 Lídia abre sua casa para os
, : seu lar e contar aos seus as
apóstolos para que anunciem o evangelho. Aos presbíteros de Mileto Paulo
- ~, pode silenciar (Lc 8.38-39; testemunha sua fidelidade ern sempre ter pregado o evangelho tanto no
-:,comunhão com o salvador
templo como de casa em casa (At 20.20). Áqüila e Priscila usavam o lar
· :::Ívidades para ouvir a pala- como estratégia de evangelismo. O Pulpit Commentary afirma: "Por onde
· ~ tinha que resolver quando quer que levassem o evangelho eles formavam um círculo de cristãos
~~:mciaàs prioridades da vida, amigos, providenciavam abrigo para os obreiros e lugar de reuniões de
.:',.:1.0 a sua palavra (Lc 10.38). culto para os cristãos." (Pulpit, 564). A vida do jovem Timóteo e de sua
- ie parte de seu tempo lidan- família são exemplos clássicos da importância da educação cristã e do
'.c:dmente. Trouxe-lhes a men-
testemunho da palavra de Deus no lar e na família (2Tm 1.5). Aqui tam-
-:,',l-lhesajuda e força em mo- bém o Pulpit Commentary faz um belo depoimento:
.':'3- a vida neste mundo e na
a) É maravilhoso ver a fé sendo transmitida através de três gerações.
To 11; 12.1-11). André dá um
É o pecado, não a graça, que é transmitido por linhagem de sangue. Mas
seu próprio irmão, Pedra, a quando somos "renascidos, não de sangue, mas de Deus/' temos razões
""mosque o testemunho da fé para sermos agradecidos como o apóstolo, por tão belo quadro de rica
.o. ,'ida diária de cada cristão, misericórdia exercido. em família.
:ê','a à igreja os que iam sendo b) Vemos aqui a vantagem de uma educação piedosa, pois foi das
, o testemunho do evangelho pessoas referidas que ele recebeu em sua juventude o conhecimento das
_':~nente(At 5.42). Escrituras que o fizeram sábio para a salvação.
':lLO como religio illicita os cris- c) Com que freqüência mães cristãs têm dado filhos preciosos para o
, Paulo saúda diversas igrejas ministério da igreja de Cristo! (Agostinho e Mônica). O próprio Timóteo
C14.15; Fm 2). Não podemos tornou-se sugeito desta fé. Ele não negligenciou a feliz continuidade da
'2mbléia pública é que se reu- graça em sua família, mas dignamente perpetuou o melhor tipo da pieda-
·'-ia também o estudo da Pala-
de ancestral. (Pulpit 7,8)
-:,ta. luterano, afirma que a ex- O estudo do tema da hospitalidade no Novo Testamento jorra luz
--a forma adverbial, mas tam- sobre a perspectiva do testemunho cristão no e através do lar. Por questão
"O (Lenski 1961,237). Isto sig- de extensão do presente estudo, apenas citaremos os textos neo-testamen-
-~'roc1amandoas boas novas a
tários onde o tema aparece: Mc 1.29; Lc 10.7; 10.38-42; 5.29; 19.5-7; At
:3.50.. Junto com a estratégia ia 10.32,48; Rm 12.13; 16.23; G14.14; 1Tm 3.2; Tt 1.8; Hb 12.2; lPe 4.9,10.
A Escritura no Antigo e Novo Testamentos constitui um mosaico de
Jevangelho na casa de Cor- relacionamento íntimo entre Deus e seu povo. A igreja cristã é composta
~. 11.14). Com respeito a este de pessoas de diferentes culturas, famílias e regiões. Ainda que vivendo
sido impossível para a igreja em contextos geográficos diferentes, tendo linguagem, características e
~ ou o carcereiro sem prestar estruturas familiares diversas, o povo de Deus se tornou um em Cristo
:' uma questão de família, e o Jesus. Pelo lavar do batismo o Espírito Santo traz mernbros da família
: possível, não somente para natural para dentro da família de Deus, que é a igreja. Ele torna possível
2?lZey, 95) EmAt 12.12 vemos aos membros da família usufruírem a comunhão com ele nessa família da

Vox CONCORDIANA
VOLllME 16 ••NÚlvlERO 1 ••ANO 2001 43
ARTIGOS--------------------------------
cidadão ou campc':
fé e tornarem-se seus servos na proclamação do seu evangelho. Pelo nu- cristão lnenos i lI;:' ~
trimento da fé cristã no lar as famílias estão dizendo "sim" ao chamado
ou o Pai Nosso. E
de Deus para a sua missão. Pelo testemunho do evangelho a outras famÍ- de aceitá-Ia comc ','
lias o povo de Deus está se unindo a ele na expansão desse mosaico de
famílias que entram para a igreja diariamente. A família tem o seu lugar
no reino de Deus. Ela é chamada com um propósito. O plano de Deus é de
que a família cristã sirva no seu propósito dentro e fora do lar, através dos Quando li)'
laços de família, parentesco e de amizade. Deus não quer apenas usar a dor, através de
família nesse sentido, mas ele a capacita a tal pelo Espírito Santo e a equi- te santificado, de
pa através da sua igreja. nenhuma maior ,~':':'-
ensinar e adnlOe~ c,:
B. Da história e doutrina da igreja todos; ora e di: ,: ,
inquieto vive í1c'
Ao abordar-se a questão da educação cristã e do testemunho na famí-
No entanto, este ,'~"
lia é fundamental distinguir claramente entre a doutrina do ministério
age como se VZl'C~; ,
público e a doutrina do sacerdócio universal dos cristãos. Ensinando so-
para outras pes;:.:· ,:
bre o ministério público, as confissões luteranas afirmam "que ninguém
deve publicamente ensinar na igreja ou administrar os sacramentos a
Lewis W. SpiE -
menos que seja legitimamente chamado" (CA art. XIV). Por questão de seus direitos e re:;'..- = :':: "

ordem e decência na igreja (lCo 14.40)1os cristãos exercitam as funções do mundo. A eles é dê,:' ,:
sacerdócio em seu meio chamando e ordenando alguém que pregue pu- sas em suas famíl>~ ~- ,-
blicamente a Palavra e administre os sacramentos em prol do reino de Walther, em '~:,l'c', -=,
Cristo em seu meio. .:= u

Ao mesmo tempo, no âmbito pessoal ou particular, cada cristão, uma


A igreja crio- o
vez que foi agraciado com o perdão em Cristo, é um sacerdote, uma teste- onário enviado c, =,
munha, um instrumento de Deus a serviço da salvação do seu semelhante outros a Cristo ..c,::
(lPe 2.8-9). Relacionamos a seguir algumas afirmações de Lutero e outros
Deus, e arregiiízc:--
teólogos luteranos que fazem clara distinção entre o ministério público e exército de CrisL =:,
o sacerdócio universal dos cristãos. LuteIO, em seu sermão sobre o SI 110.4
res e mestres. Peso
afirma:
vezes têm dons
uma capacidade 5:, ,
Assim que somos feitos cristãos através deste Sacerdote e seu oficio sacer- so dom de eXaJnii:.:" '
dotal; incorporados nele pelo batismo através da fé, então, cada um de nós,
confortar, admoes~:
conforme o seu chamado e posição, obtém o direito e o poder de ensinar e con-
fessar diante de outros esta Palavra que temos recebido dele. Ainda que nem
Em sua exege;::e: --
todos têlIl o ofício pÚblico do ministério e o chamado, cada cristão tem o direito
e a tarefa de ensinar, instruir, admoestar, confortar e admoestar seu próximo
A primeirLi "
com a palavra de Deus em cada oportunidade ou sempre que necessário. Por torna cristão é tr.::,
exenzplo, pai e lnãe deveriam fazer isso para seus filhos, um irmão, próximo,

VOLUME 16 " NírME: = • -


44 Vox CONCORDIANA
NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

:,0 seu evangelho. Pelo nu- cidadão ou camponês pelo outro. Um cristão pode instruir e admoestar a outro
:izendo "sim" ao chamado cristão menos instruído ou fraco, com respeito aos Dez Mandamentos, o Credo
ou o Pai Nosso. E aquele que recebe tal instrução está também sob a obrigação
::> evangelho a outras famí-
de aceitá-Ia como palavra de Deus e cOl~fessá-lapublicamente. (LW 13,333)
2xpansão desse mosaico de
:2 A família tem o seu lugar Em outro momento Lutero afirma:
•~-:isito. O plano de Deus é de
c'-:ro e fora do lar, através dos
Quando um cristão começa a conhecer Cristo como seu Senhor e Salva-
=21).5 não quer apenas usar a
dor, através de quem elefoi salvo da morte, seu coração se torna completamen-
~pelo Espírito Santo e a equi- te santificado, de modo que ele deseja sempre ajudar a outros. Ele não conhece
nenhuma nzaior alegria do que a de conhecer a Cristo. Portanto, ele começa a
ensinar e admoestar a outros; dá graças e declara os louvores do seu Senhor a
todos; ora e diz a outros que também venham para esta graça. Este espírito
.é"tãe do testemunho na famí- inquieto vive no lnais pacifico lugar de todos, isto é, na graça e paz de Deus .
a doutrina do ministério
':c'e No entanto, este espírito não pode ficar quieto, mas continuamente labuta e
, dos cristãos. Ensinando so- age conw se vivesse apenas para isto - para trazer o louvor e a glória de Deus
'o,nas afirmam '1 que ninguém para outras pessoas. (Walther, 9-10)
,~,ministrar os sacramentos a
.=.-\, art. XIV). Por questão de Lewis W. Spitz, teólogo luterano, enfatiza que pais cristãos exercem
,~tâos exercitam as funções do seus direitos e responsabilidades sacerdotais na igreja, na família e no
:endo alguém que pregue pu- mundo. A eles é dada a responsabilidade de serem sacerdotes e sacerdoti-
:nentos em prol do reino de sas em suas famílias (Spitz, 336,339).
Walther, em um sermão sobre Mc 7.31-37, diz:
,: particular, cada cristão, uma
:J, é um sacerdote, uma teste- A igreja cristã é uma grande casa missionária. Cada cristão é um missi-
?, salvação do seu semelhante
onário enviado por Deus para dentro do seu próprio círculo para converter
:e.iirmaçães de Lutero e outros outros a Cristo, convidá-Ias para as bodas celestiais, chamá-Ias para o reino de
~"entre o ministério público e Deus, e arregimentar soldados onde quer que seja para o tesouro eterno e o
;emseu sermão sobre o Sl110.4 exército de Cristo. Deus não dá os seus dons espirituais somente para pasto-
res e mestres. Pessoas leigas, que não exercem o ministério público, muitas
vezes têm dons gloriosos, um conhecimento maravilhoso da doutrina cristã,
';te Sacerdote e seu ofício sacer- uma capacidade superior de entender e explicar as Escrituras, um maravilho-
fé, então, cada um de nós, so dom de examinar mestres e opor os que errani, o maravilhoso dom de guiar,

,':to e o poder de ensinar e con- confortar, admoestar, orar e coisas semelhantes. (Walther, 270-271)
e ;'ecebido dele. Ainda que nem
:"do, cada cristão tem o direito Em sua exegese sobre Jo 20.19-23 Lutero diz:
,,·tar e admoestar seu próximo
.-" sempre que necessário. Por A primeira e mais elevada obra de amor que um cristão faz quando se
torna cristão é trazer outros a também crerem do mesmo modo que ele mesmo
!sfilhos, um irmão, próximo,

VOLUME 16 ••NÚMERO 1 ••ANO 2001 45


Vox CONCORDIANA
ARTIGOS-----------------------------

veio a crer. E aqui vocês observam que Cristo mesmo institui o ofício do minis- Não há espaçe :'.::~'::
tério da Palavra externa em cada cristão; pois ele mesmo veio com esse ofício e te sobre Lutero e 2., "-._~,:
a Palavra externa. Retenhamos bem isto, pois temos que admitir que isto foi Lutero, Agostinho '::--
dito a nós. Desta forma o Senhor deseja dizer: "Vocês tem recebido o suficiente e da literatura cris:? =" "':::'':
de minha parte - paz e alegria e tudo o que possuem; para vocês mesmos não dráticos, pastores e .•',:"::: ,:
necessitam de mais nada. No entanto, trabalhem agora e sigam meu exemplo; Como se pode::--:::- :'
como eu tenho feito, assim façam vocês. Meu pai me enviou ao mundo somente petição ou antagonlsl~': ::, :::-
para o benefício de vocês, para que eu possa servir a vocês, não para o meu sal. Ambos foram q.,

próprio benefício. Eu terminei a obra, morri por vocês e dei-Ihes tudo o que eu Ambos têm funções -=', - -,'
sou e tenho. Lembrem-se efaçam também da mesma forma, que apenas sirvam nhão dos santos atr:'::~ •.
e ajudem a outros; de outra forma vocês não teriam nada que fazer na terra. ção da Palavra e S2C:'::-- :-:-- ::-
Pela fé vocês têm o suficiente de cada coisa. Portanto, eu os envio ao mundo diária de acordo eo:::' :,
como meu pai me enviou; isto é, que cada cristão instrua e ensine a seu próximo
para que ele também possa vir a Cristo. Nesse sentido nenhum poder é delega-
C. Pesquisa de cam:>:
do exclusivamente a papas ou bispos, mas todos os cristãos são conclamados a
professarem sua fé publicamente e também a guiarem outros à fé .... Em segun- A pesquisa de=~_:-:':=-
do lugar, se você tem exercitado a si rnesnw nesta sublime tarefa e ensinado a ratura básica sobre.:: ::,
outros o caminho correto da verdade, então fortaleça a sua mente para perseve- po, por meio de en-.:-c.' :P:,
rar e servir a outros. Assim, o exemplo de sua vida e boas obras segue; não que Não vamos nos deter : -= _ -,

você seja capaz de merecer ou adquirir algo por si mesmo, observando que você existe sobre a cul (elr •. ,. : , : :: c
possui de antemão tudo que é necessário para a sua salvação. (Lenker, 356) tos que emergem C,?S =:",:: _
para estudo da igre':, :: :- -
Para Lutero, trabalho missionário inicia no lar, no seio da família. Ele região do Ceará e L::,:, c -= -=

chama pais cristãos de apóstolos e bispos a quem Deus entregou a res- A estrutura f2.1'1-":'~,:, .. :'.
ponsabilidade espiritual do lar: dos e ataques de ~ ,
no entanto, rico e i:~:::.:' - '-:
Em verdade, pai e mãe são apóstolos, bispos e sacerdotes para seus filhos, r
cultural. Laços de .:=,' ,::' ,
pois são eles que introduzem os filhos no Evangelho. Em resumo, não há maior para outras pessoas.::' - •-::'-
ou mais nobre autoridade na terra do que a dos pais sobre seus filhos, pois esta te, comunicação, yiSl:?: =-

autoridade é espiritual e temporal. Qualquer que ensina o Evangelho ao outro mílias e outras redes -=== ,-=,: _
é verdadeiramente seu apóstolo e ,pispo, (LW 4,45-46)
mar de preparatio ec,::~"
Em outra circunstância, enfatizando o exercício sacerdotal dos cris- quela região. Relacior'.•,::
tãos, Lutero ressalta: rais emergentes da res = .. ,:
1) A terra e o pc:'-
povo e seus parentes
A maior e mais nobre tarefa e o mais importante serviço que podemos
seca, ele chora e sofre :-::.__ .
fazer para Deus na terra é trazer outras pessoas, e especialmente aqueles que
sentimento é muito ce:-:- -:: .:-
nos são confiados, ao conhecimento de Deus pelo santo evangelho. (Abiding
Word,91) res e músicas de cante:=' :::::'

46 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • NÜMERO 1 • ,-',


-------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

:J institui o oficio do minis- Não há espaço nesse estudo para abordar a pesquisa mais abrangen-
- u:esmo veio com esse ofício e te sobre Lutero e a família, onde entra também o estudo dos catecismos de
:J5 que admitir que isto foi Lutero, Agostinho sobre a família e outros exemplos da história da igreja
- --:35 tem recebido o suficiente e da literatura cristã em geral. A tese cita uma ampla referência de cate-
:-ii!; para vocês mesmos não dráticos, pastores e outros profissionais na área da família e igreja.
:gora e sigam meu exemplo; Como se pode observar, na Escritura e teologia luterana não há com-
--:-enviou ao mundo somente
petição ou antagonismo entre o ministério público e o sacerdócio univer-
a vocês, não para o meu
:-:1' sal. Ambos foram instituídos por Deus e se complementam no seu reino.
:-xês e dei-lhes tudo o que eu Ambos têm funções distintas. Aquilo que os cristãos recebem na comu-
c::;lforma, que apenas sirvam nhão dos santos através do exercício do ministério público - a administra-
.7ill nada que fazer na terra. ção da Palavra e sacramentos - isto eles exercitam e publicam em sua vida
-_mto, eu os envio ao mundo
diária de acordo com as ordens em que Deus os estabelece.
~trua e ensine a seu próximo
_:ido nenhum poder é delega-
c-~ cristãos são conclamados a C. Pesquisa de campo
-:-m outros à fé .... Em segun- A pesquisa de campo abrange duas grandes áreas: a pesquisa da lite-
:-: sublime tarefa e ensinado a ratura básica sobre o contexto cultural e geográfico, e a pesquisa de cam-
- -coça a sua mente para perseve- POI por meio de entrevistas e questões protocolares propriamente ditas.
C_, e boas obras segue; não que Não vamos nos deter aqui na análise ou referência da rica literatura que
: ':lesmo, observando que você existe sobre a cultura nordestina. O que apresentamos são alguns aspec-
c::a salvação. (Lenker, 356) tos que emergem das entrevistas e que constituem material fundamental
para estudo da igreja que trabalha ou pretende trabalhar com famílias na
:-0 lar, no seio da família. Ele região do Ceará e Fortaleza.
- quem Deus entregou a res- A estrutura familiar nordestina é complexa e sofre todos os desman-
dos e ataques de qualquer família brasileira, sem distinção. Um aspecto,
no entanto, rico e importante para a missão de Deus é o antropológico e
-c e sacerdotes para seus filhos, cultural. Laços de parentesco e amizade, compadrio, abertura da família
Em resumo, não há maior
para outras pessoas, conceito de família nuclear e extensiva ou abrangen-
_115 sobre seus filhos, pois esta te, comunicação, visitação, hospitalidade, migração, socializaçào das fa-
__Cl2sinao Evangelho ao outro
';:5-46)
mílias e outras redes de relacionamentosl constituem o que podemos cha-
mar de preparatio evangelica (Michael Green) para a missão da igreja na-
2xercício sacerdotal dos cris- quela região. Relacionamos a seguir alguns dos aspectos ou fatores cultu-
rais emergentes da pesquisa de campo:
1) A terra e o povo. O nordestino valoriza grande mente sua terra, seu
_-.-dante serviço que podemos povo e seus parentes. Às vezes, forçado a deixar sua terra por causa da
: e especialmente aqueles que seca, ele chora e sofre; sempre alimenta o desejo de voltar um dia. Esse
--.' santo evangelho. (Abiding sentimento é muito bem expresso através das canções folclóricas~ popula-
res e músicas de cantores regionalistas como Luiz Gonzaga e outros.

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 e NÚMERO 1e ANO 2001 47


ARTIGOS------------------------------

2) Afamília. Para o nordestino a família ultrapassa os limites da famí- quanto à prática di' :' ~õ __ .
lia nuclear e de laços sangüíneos; ela é numérica em muitos casos, abran- sa desenvolver SU2. ~c-,
gente e inclusiva de parentes distantes e amigos. Membros de famílias, deixam o interior n: :>,~
embora haja exceções! têm comunicação próxima e aberta com parentes e 6) Visão sobre ~ .:
com outras famílias. O lar é o "abrigo do combatente", onde ele se sente Famílias não cristã.:=- :~~.
seguro com os seus. A sociedade é patriarcal, mas estão havendo transfor- igreja. Em alguns c.= :'.'.:'.
mações no sentido de que os filhos têm comunicação mais próxima com a "lá em certo lugar :-_.'
mãe, e ser esta a responsável pela administração da casa, pois está inserin- dade física ou 111.2.k:' .. '
do-se cada vez mais no mercado de trabalho. ou conhecer sobre .~.= -: . ' .
3) Preservação e transmissão de tradições de famílias. Embora um tanto em formação quanto 2 ~-:.~- -
declínio, principalmente nos grandes centros urbanos, as tradições de fa- preocupação da "c-- . _.
mília ainda são repassadas em muitos casos. Os pais repassam as histórias aproximar mais de>:: :::.
dos seus antepassados e procuram incutir nos filhos valores tradicionais. a igreja como sub:=-:::-.:'c_.
4) Preservação e transmissão de valores espirituais. Quanto à transmissão
cia das diferente:=-_;-o:~'::-.-
de valores espirituais, por ser a sociedade católica, repassa-se crenças do to grande ao seio ,":0 :.eu_.
cotidiano, tradições da igreja, rezas, missas, romarias, simbolismos de ao involvimento c:~-
benzeduras e outros costumes muito mais que o ensino da Escritura Sa- mesmo chega a e\.::-::u
grada. É comum afirmar-se que o católico o é por tradição e não por co- tada. Grupos de :-:-::.:: .c:.
nhecimento e fé na Escritura Sagrada. Uma família expressou-se dizendo rêm sem a visã,o
que tudo isto é resultado dos 500 anos de experiência da colonização da e sacramentos. A :::::-::' ::
América Latina. Traçando uma comparação entre católicos e protestantes dos diversos dep?:': -:::-.- c

com respeito a esse fator, concluiu-se: católicos são fortes em repassar a fé so ele se desvinc...:.' ..
e tradição aos seus. Avós, bisavós e padrinhos demandam dos seus a pri- mudou de religiã.o :::-
meira comunhão, a participação das missas e rezas básicas. Poucas famíli- precisa estar na ceI'.:::' _.', .
as protestantes o fazem; a maioria dos protestantes é mais flexível, in- Ou torna-se tão i2.::-:' -::. -
consciente e em certo sentido até descompromissada com o assunto. converter toda a icc'.:.' -
I
5) Prática da hospitalidade. Apesar de haver restrições por causa da } de laços familiares. :-::"'.
invasão de privacidade, o que é próprio dos centros urbanos ultimamen- orientação para a ''-:':> -:
te, a casa do cearense está aberta aos parentes e amigos. Existe um profun- 7) Trabalho do :,
do sentimento de solidariedade e de comunidade. Famílias facilmente se de casais, dando- ~
visitam e se comunicam. Sendo introduzido a uma família por um amigo família e de testem:.::-'
ou vizinho, o visitante tem acesso livre à comunicação com qualquer mem- Igrejas atuam na oríe::'_
bro da família. Há casos em que o visitante é logo assimilado como sendo res,
... estudos bíblicos::: .: __~
membro da família. Em certas circunstâncias o visitante precisa forçar sua Jovens e cnanças, '.-1:":'::- - :
saída de uma visita domiciliar, pois a família acolhe-o de tal maneira que a vida. Os laços de éU::".
é difícil partir. Existem novas tendências nessa área, principalmente por no testemunho do e-'-~::- ='.
causa da verticalização da cidade, que precisam ser verificadas, mas o evangelho principaL.:::~' -: -:::
cearense ê hospitaleiro. A pesquisa de campo traz exemplos marcantes dos primeiros contat~: -: u

48 Vox CONCORDIANA VOLWIIE 16 ••N(rMERO 1 •


NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

:ra.passa OS limites da famí- quanto à prática da hospitalidade e trabalho da igreja. A igreja local preci-
.. :2. em muitos casos, abran- sa desenvolver sua sensibilidade acolhedora para com as famílias que
·:sos. Membros de famílias, deixam o interior no período das secas e vêm para a cidade.
:I1H e aberta com parentes e 6) Visão sobre Deus e igreja. Existem diferentes aspectos nesta área.
::·.L,atente", onde ele se sente Famílias não cristãs têm uma concepção negativa e distante de Deus e da
:':'25 estão havendo transfor- igreja. Em alguns momentos vêem Deus como âncora, alguém disponível
:":cação mais próxima com a "lá em certo lugar" para ajudar em caso de prática de vingança; necessi-
~?o da casa, pois está inserin- dade física ou material. Existe respeito, mas nenhum incentivo de se ler
ou conhecer sobre o Deus da Bíblia no seio da família. Existe muita desin-
, 'laias. Embora um tanto em formação quanto à fé cristã. Famílias não cristãs não se sentem parte da
- ·Abanos, as tradições de fa- preocupação da igreja cristã por elas; acham que os cristãos poderiam se
~,:;pais repassam as histórias aproximar mais delas. Entre as famílias cristãs existem aquelas que vêem
~iilhos valores tradicionais. a igreja como substituta da educação cristã e missão na família. A influên-
::[(lis. Quanto à transmissão cia das diferentes denominações trouxe um legalismo e radicalismo mui-
.:)lica, repassa-se crenças do to grande ao seio da família cristã. '/Tudo é proibido" e a pressão quanto
o romarias, simbolismos de ao involvimento com o grupo religioso e contribuições financeiras para o
· .. e o ensino da Escritura Sa- mesmo chega a extremos. A igreja como instituição está sendo desacredi-
é por tradição e não por co- tada. Grupos de interesses comuns se formam para estudo da Bíblia po-
.?mília expressou-se dizendo rém sem a visão da igreja como corpo de Cristo, alicerçada sobre Palavra
periêncía da colonização da e sacramentos. A igreja é vista às vezes como dividindo a família, através
:.entrecatólicos e protestantes dos diversos departamentos. Quando alguém se filia a um grupo religio-
:.:;são fortes em repassar a fé so ele se desvincula da sua família. Isto por duas razões: como ele/ela
::3 demandam dos seus a pri- mudou de religião, é colocado de escanteio, ou é levado a presumir que
, rezas básicas. Poucas famíli- precisa estar na contra-mão do mundo onde a família ainda permanece.
:estantes é mais flexível, in- Ou torna-se tão fanatizado pelo novo grupo religioso a ponto de querer
:111issadacom o assunto. converter toda a família de uma só vez, o que causa atritos e rompimentos
?Ter restrições por causa da de laços familiares. Há também famílias que vêem a igreja como fonte de
:entros urbanos ultimamen- orientação para a vida e comunidade acolhedora.
:;e amigos. Existe um profun- 7) Trabalho da igreja junto a famz1ias. Igrejas trabalham com encontros
:3.ade. Famílias facilmente se de casais, dando-lhes uma roupagem mais de orientação bíblica para a
2. uma família por um amigo família e de testemunho do evangelho nas diversas situações familiares.
·.:nicação com qualquer mem- Igrejas atuam na orientação a nubentes, na condução de grupos familia-
o logo assimilado como sendo res, estudos bíblicos de famílias, cultos domésticos, grupos de senhoras,
, o visitante precisa forçar sua jovens e crianças, visando o testemunho do evangelho e orientações para
? acolhe-o de tal maneira que a vida. Os laços de amizade e parentesco são vistos como fortes elementos
'ssa área, principalmente por no testemunho do evangelho. Esses canais viabilizam o testemunho do
:isam ser verificadas, mas o evangelho principalmente nestas áreas: visitação domiciliar, construção
.po traz exemplos marcantes dos primeiros contatos em bairros onde a igreja pretende evangelizar, iní-

Vox CONCORDIANA VOLllME 16 e NÚIVfERO 1 ••ANO 2001 49


ARTIGos------------------------------

cio de estudos bíblicos e devoções domésticas e programas missionários. • Fortalecimer:~ "


Famílias ou membros das mesmas são vistos como "abridores de portas/! sionária.
ou "edificadores de pontes" no diálogo e relacionamento com outras fa- • Visão holíshc? :-
mílias. O estudo bíblico de família é visto como canal integrador da famí- as parceiras na illl~~;~
lia e igreja, e como oportunidade de testemunho para a comunidade cir- juntos no testenmn;--~
cunstante. Oportuniza o início de novas missões. É visto também como • Fortalecime:-:c .::' -.
oportunidade de serviço junto a famílias que passam por diversos tipos porte da família ol',i", "', '~ _
de necessidades. O estudo bíblico em família é visto como algo que vai 41 Fortalecime;.c~ ~."
além do círculo concêntrico da família. A quase totalidade das famílias família (comunhão -= o,
:::. ., Õ

cristãs e de pastores entrevistados pratica um certo tipo de estudo bíblico, 41 Viabilizaçã.o:='", ::0: ..
devoção ou culto doméstico. pando e fortalecendc-:' -; .
8) Holismo no trabalho junto afamtlias. Ainda que o sistema de departa- • Viabilizaçã.o:.:: ?,' 0::-.-
mentos na igreja é praticado, as igrejas de Fortaleza estão implementando gações a partir de i'..':>: ~? .•
também atividades para famílias inteiras e grupos familiares na área da • Fortalecimen:~ ,=' -. '?-.
educação cristã no lar, do testemunho e serviço social. Igrejas estão procu- lho em condomíni.::~ ~"':. , , . :
rando integrar cada vez mais o grupo familiar com as atividades da igreja. • Fortalecimen:~ ~?'
Os aspectos descobertos na pesquisa de campo constituem elemen- . 41 Fortalecime:--~
tos de preocupação, desafio e oportunidade para a igreja no que diz res- • Viabilizaç2cc" .
peito ao seu envolvimento com o trabalho missionário junto a famílias tempos de crise.
naquele contexto. As implicações do trabalho missionário junto a famílias
precisam ser consideradas.
v. CONSIDERACÕE~ F:',-".
IV. OQUE A PESQUISA TRAZ DE Novo OU REITERA NO No planejamen:' '-
CAMPO DA MISSIOLOGIA apresentada: dos 3- :'.':' ,
tipo de missão junte ~.::, __
• Incentivo à igreja na continuação da ênfase de Lutero no ensino dos vidas 105 atividade~ :-.-'::
catecismos e testemunho na família. no distrito Verdes-~\l.":o:- -.' -
• Incentivo à igreja e família ao exame das Escrituras no que diz res- ma atividade mis~:~>: '
peito ao lugar da família na igreja. conclusões podem se- -= '.

• Incentivo à igreja e família ao exame da literatura teológica e con- não foram relatados .".::0:;'
textual sobre a família e o testemunho cristão. ou não há trabalho 11.'~S:,.
• Motivação à família cristã quanto ao estudo bíblico e devoções do- nos que a presente Fes_~·.. :: -=

mésticas ("em cada lar um altar"). outros dados importe:".:':o:' -


• Motivação à família como agente de Deus no mundo e represen- missionário junto a _~,:: o:
tante da congregação local no contexto geográfico e social em que está cupar-se por e proc.'::'.: --':: -
inserida. IELB 2004, 19).

50 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ."-
------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

:c~ e programas missionários, • Fortalecimento do sacerdócio universal dos cristãos na obra mis-
~::omo Ilabridores de portas" sionária.
-=>donamento com outras fa-
• Visão holística no trabalho missionário: congregação local e famíli-
: :'_',0 canal integrador da famí-
as parceiras na missão; membro da família natural e grupos de famílias
, ,ru~o para a comunidade cir- juntos no testemunho.
_5sÕes. É visto também como
• Fortalecimento do ministério público. A congregação local tem su-
:,:2 passam por diversos tipos porte da família onde ela reside.
,:?, é visto como algo que vai
• Fortalecimento dos laços de comunhão entre congregação local e
=,:,ase totalidade das famílias
família (comunhão e celebração de eventos na família e igreja).
:':-,certo tipo de estudo bíblicof • Viabilização de treinamento de famílias para o testemunhof equi-
pando e fortalecendo-as para tal.
,,::',.:1a
que o sistema de departa- • Viabilização de abertura de novos pontos de missão e/ ou congre-
: :'taleza estão implementando gações a partir de núcleos familiares.
::rupos familiares na área da • Fortalecimento da missão urbana quanto à penetração do evange-
:~o social. Igrejas estão procu- lho em condomínios fechados e de difícil acesso.
,cr com as atividades da igreja. • Fortalecimento das visitas pastorais domiciliares e de novos contatos.
~e campo constituem elemen- . • Fortalecimento da prática diária do testemunho cristão
-=para a igreja no que diz res- • Viabilização do serviço cristão a famílias em necessidade e / ou em
=11issionáriojunto a famílias tempos de crise.
-:' missionário junto a famílias

v. CONSIDERAÇÕES FINAIS
ovo OU REITERA NO
No planejamento global da IELB (2000-2004) a seguinte estatística é
apresentada: dos 57 distritos da IELBI 45 relataram como tendo algum
tipo de missão junto a famílias. Nesses 45 distritos estão sendo desenvol-
~:Lfasede Lutero no ensino dos vidas 105 atividades missionárias com famílias. Conforme o documento I
no distrito Verdes-Maresl em cujo contexto Fortaleza está inseri da, nenhu-
3.as Escrituras no que diz res- ma atividade missionária com famílias foi relatada. No mínimo, duas
conclusões podem ser extraídas: ou os dados sobre a igreja de Fortaleza
:::da literatura teológica e con- não foram relatados (apenas 67% das paróquias enviaram seus relatórios)
'õ"
ou não há trabalho missionário junto a famílias naquela região. Parece-
estudo bíblico e devoções do- nos que a presente pesquisa é providencial e vem a bom tempo. Existem
outros dados importantes no documento da IELB. Afirma que IItrabalho
e Deus no mundo e represen- missionário junto a famílias é positivo e oportuniza a cada família preo-
<'gráfico e social em que está cupar-se por e procurar trazer outra família para a igrejall (Planejamento
IELB 20041 19).

Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 51


ARTIGOS----------------------------
Com base nas considerações do presente estudo, a conclusão é de seus familiares, pare:- -"
que Deus tem um plano para a família cristã no contexto do Ceará e Forta- compartilhar a fé CL5~: "'::
leza. A igreja é o corpo de Cristo, a família espiritual de Deus. Ela está Nosso desejo e ,--c:C :

reunida em determinado lugar pelo Espírito Santo através da Palavra e usar esses aspectos F "" .
dos sacramentos. É constituída por famílias inteiras e/ou membros de igreja no contexto
famílias que têm laços de parentesco, relacionamentos de amizade e de sam ser utilizados :' 0:,' ,_',
interesses dentro e fora da igreja. Deus tem agraciado a igreja no contexto
lares, e as famílias F ~r c c :'--
do Ceará e Fortaleza com as potencialidades naturais do relacionamento - com alegrIa, lou',:r e c::.- - '
humano. A igreja pode fortalecer esses canais no seu objetivo de ajudar
famílias cristãs a se equiparem para o testemunho do evangelho. Pode
também fortalecer esses canais para ajudar famílias não cristãs a conhece- BIBLIOGRAFIA
rem a salvação somente em Cristo Jesus. Essa preparatio evangelica natural
como bênção da criação divina e tão claramente definida por Lutero não
Arn, Win e Charles. _.:
pode ser subestimada pela igreja em sua missão naquela região. Não dan-
do ênfase aos estudos dos aspectos culturais, contextuais, antropológicos pp. 43,45-5,1:, c-,~'::'"
e sociológicos, a igreja pode estar negligenciando potencialidades natu- Cresswell, John "\\' -::
rais importantes da ordem da criação que muito lhe ajudarão na procla- Approaches. 11:.0-:' --,
mação do evangelho naquele contexto.
Jesus ama a cada membro da família e a todas as famílias do mundo, Frost, Peter & Ralph :::'::,,.,.
pois morreu pela salvação de todos. Famílias cristãs estão agora livres para Park: Sage PuL-::::' : '.:
servir em gratidão e alegria. Jesus quer ser o senhor de cada família, não Green, Michael. 19S: -
importando sua estrutura, composição, tamanho. Quer ser o cabeça do lar, Nova.
não importando se no palacete, bairro nobre, centro da cidade, periferia ou
favela. Ele deseja repartir as bênçãos da salvação com cada família na ter- Igreja Evangélica l.. '.::",r.: '
ra, e para este fim convida a família cristã, membro da igreja, que o auxilie Queremos Ser. -,
nesta tarefa. Ele deseja que cada membro da família cristã continue em seu pp 2, 18-19.
chamado, construindo importantes relacionamentos de modo que aqueles
que ainda estão nas trevas possam ouvir do amor de Jesus e serem incor-
Lenker,JohnN.,ed. L:'
VaI. XI. Chure'- ~,
porados na sua família espiritual. Ele deseja que cada família cristã desfru-
p.356.
te do prazer de compartilhar seu amor com aqueles que estão sob seus
cuidados, e de celebrar a alegria de ver seus entes queridos e outras famí- Lenski, R.C.H. 193..;
lias serem abraçados na fé em Jesus. Missão na família é um processo no Minneapolis: ""','-l ~<
qual somente o Espírito Santo é o capacitador e equipador. Famílias cristãs Livro de Concórdia/ As:
são apenas instrumentos que trabalham em humildade e submissão. e notas de Arn2,l.-:" - -
Win Arn afirma que 80% das pessoas que têm qualquer relaciona-
e Sino daI, pp. -:' ,-
mento com a igreja vieram para a igreja através de parentes ou amigos
(Arn, 43). Podemos conjeturar que um considerável número desse grupo Luther's Works. 1936
se tornará membro da igreja. Que tamanho impacto poderão ter junto a Psalms lI, vaI. \~===

52 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 •• N(nHERC 1 •
~------------------- NEITZEL: IGREJA, FAMÍLIA E MISSÃO

-c::--Je estudo, a conclusão é de seus familiares, parentes e amigos quando motivados e equipados para
.C :--,0 contexto do Ceará e Forta-
compartilhar a fé cristã em seu círculo familiar!
. o espiritual de Deus. Ela está Nosso desejo e oração é de que o senhor Jesus, cabeça da Igreja, possa
.~=,Santo através da Palavra e
usar esses aspectos pesquisados para a sua glória e para a expansão da
~3 inteiras e/ou membros de igreja no contexto do Ceará e Fortaleza. Que os aspectos emergentes pos-
, ::,)namentos de amizade e de
sam ser utilizados pela igreja a levar a palavra de Deus para dentro dos
. ograciado a igreja no contexto lares, e as famílias para a comunhão da igreja pela ação do Espírito Santo
- ::3naturais do relacionamento
- com alegria, louvor e gratidão.
:'éÜS no seu objetivo de ajudar
c ~2munho do evangelho. Pode
: ~2mílias não cristãs a conhece-
BIBLIOGRAFIA
: <~êt preparatio evangelica natural

::,ente definida por Luteronão


Arn, Win e Charles. 1982. The Master's Plan for Making Disciples. Pasadena,
':3são naquela região. Não dan-
'3, contextuais, antropológicos pp. 43, 45-54, 97-125.
=:'.ciando potencialidades natu- CresswelI, John W. 1994. Research Design - Qualitative & Quantitative
=Emito lhe ajudarão na procla- Approaches. Thousand Oaks: Sage Publications.

:c? todas as famílias do mundo, Frost, Peter & Ralph Stablein, eds. 1992. Doing Exemplary Research. Newbury
~scristãs estão agora livres para Park: Sage Publications.
:: o senhor de cada família, não Green, MichaeI. 1989. Evangelização na Igreja Primitiva. São Paulo: Vida
::,o.nho.Quer ser o cabeça do lar, Nova.
:2. centro da cidade, periferia ou
c. ',-ação com cada família na ter- Igreja Evangélica Luterana do Brasil, Conselho Diretor. 1999. A Igreja Que
::,embro da igreja, que o auxilie Queremos Ser: Planejarnento IELB 2004. São Leopoldo: outubro 1999,
c~ família cristã continue em seu pp 2, 18-19.
:,camentos de modo que aqueles Lenker, John N., ed. 1966. The Precious and Sacred Writings of Martin Luther.
:0 amor de Jesus e serem incor- VoI. XI. Church Postil: Gospels. Minneapolis: Lutherans in AlI Lands,
-?,que cada família cristã desfru- p.356.
:~m aqueles que estão sob seus
.:3 entes queridos e outras famí- Lenski, R.C.H. 1934. The Interpretation of The Acts of the Apostles .
,'''0 na família é um processo no Minneapolis: Augsburg Publishing House, p. 237.
_~,ore equipa dor. Famílias cristãs Livro de Concórdia, As Confissões da Igreja Evangélica Luterana. 1980. Tradução
::1 humildade e submissão.
e notas de Arnaldo Schüler. Porto Alegre e São Leopoldo: Concórdia
os que têm qualquer relaciona- e Sinodal, pp. 70,370,379-384.
?través de parentes ou amigos
::,.siderável número desse grupo Luther's Works. 1956. "Psalm 110". TransI. H. Richard Klann, in Selected
>.0 impacto poderão ter junto a Psal71lsII, voI. XIII. Saint Louis, Concordia Publishing House, p. 333.

Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NíuvIERO 1 ••ANO 2001 53
ARTIGOS---------------------------------

Luther's Worlcs. 1962. "To the Councilmen oÍ All CHies in Germany that FILOSOFIA D_~
they Establish and Maintain Christian Schools". Ed. Walther L Brandt,
in The Christian in Society II, American edition, vol 45. Philadelphia:
Muhlenberg Press, pp. 45-46.

Marshall, Catherine, and Gretchen B. Rossman. 1995. Designing Qualitative INTRODUÇÃO


Research. Second edition. Newbury Park: Sage Publications.
T":l 1 •. ',
nctucar slgmL':: ~_._-- --
Rubin, Allen, and Earl Babbie. 1993. Research Methods for Social Worlc. Pacific
ação parte de press.:_~· <
Grove: Brooks/Cole Publishing Company.
tos, quer expressos I~~.: 'c: _
Rubin, Herbert J., and lrene S. Rubin. 1995. Qualitative Intervieweing - The onal sempre opera 20-;:'- 0-
Art DfHearing Data. Newbury Park: Sage Publications. A posse duma filosc<::c - c:

cacional: a) uma rr,,-:.:' '': c: - .::


S0gaard, Viggo. 1996. Research in Church and Mission. Pasadena: William
dições de se poder
Carey Library. orientada; c) clarer ~ :'-:;: _
Spitz, Lewis W. 1945. "The Universal Priesthood of Believers", in Abiding quê?), aos objeti'lo'c-o" -
Word, vol. I, ed. Theodore Laetsch. Saint Louis: Concordia Publishing (como?),aopapel .. _ ,_
House, pp. 91,336,339.

Sweazey, George E. 1978. The Clwrch as E-uangelist. San Francisco: Harper


& Row Publishers, p. 95.
I. DEFINIÇÃO
Miller, A.F. 1946. "The Use oÍ God's Word in the Home", in Abiding Word, Filosofia da
vo1. I, ed.Theodore Laetsch. Saint Louis: Concordia Publishing House, fundamentam e reZ2~~0
pp.85-104. mo-nos à filosofia _--: - = - - -::

emana da fonte do ":-':'--:'': --


lhe Pulpit Commentary. 1983. "Corinthians". Eds. H.D.M. Spence and
cípios e convicções.::.:-
Joseph S. Excell, '1'01.XIX. Grand Rapids: Wm B. Eerdmans, pp. 7-8,
564-565. bíblica à educaçik;

Walther, c.F.W. 1942. "Bringing Souls to Christ: Every Christian's Desire


and Duty". Sermon on Mark 7:31-37. Missio Apostolica, Journal of the lI. FUNDAMEl\TAC~
Lutheran Society for Missiology, '1'01.VI/l, issue no. 11, May 1998,
pp.6-16.
A educação cri:,,:' -:;:-
Walther, c.F.W. 1964. "The Holy Delight and Duty of alI Christians oÍ Leading que se vale para re~2: ' _
Souls to Christ". Sermon on Mark 7:31-37. 12th. Sunday After Trinity,
1 O presente texto foi ei:c: ~
in Year of Grace". Transl. Donald E. Heck. La Valle, pp. 270-271. Ensino Fundamental ,0 'o-c:
profao Nilza Eller Barrc' :','
do Carmo SoPaiva (c .. "c
profa_ Lúcia Gusson ;,,,-::-

54 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 ••NÍlMERO 1 • -


EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ LUTERANA

: .':'~llCities in Germany that FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ LUTERANA


~_·.~'ols".Ed. Walther L Brandt,
~~Ütion, vol 45. Philadelphia: Equipe técnica do ICSP 1

c:~. 1995. Designing Qualitative INTRODUÇÃO


Sage Publications.
Educar significa, primordialmente, agir para transformar. Ora, toda
:c,thodsfor Social Work. Pacific
ação parte de pressupostos, princípios, convicções, valores quer implíci-
tos, quer expressos. Isso se aplica também à educação. A prática educaci-
"... 11itative Intervieweing - The onal sempre opera a partir de uma filosofia, sendo esta elaborada ou não.
'::'ÕPublications. A posse duma filosofia desenvolvida e expressa, garante à instituição edu-
cacional: a) uma prática pedagógica atualizada e contextualizada; b) con-
, ~\lission, Pasadena: William
dições de se poder justificar a prática pedagógica porque ela é pensada e
orientada; c) clareza e segurança quanto à necessidade da educação (por
··-,od of Believers", in Abiding quê?), aos objetivos (para quê?), aos conteúdos (o quê?), aos métodos
': -:"ouis: Concordia Publishing (como?), ao papel dos agentes educacionais (quem? a quem?).

;'êlist. San Francisco: Harper


I. DEFINIÇÃO
, ':he Home", in Abiding Word, Filosofia da educação é o conjunto de princípios e convicções que
:::oncordia Publishing House, fundamentam e regem um sistema educacional. No presente caso, referi-
mo-nos à filosofia cristã da educação. O que vale dizer, que a educação
emana da fonte do cristianismo - a Escritura Sagrada - e dela extrai prin-
Eds. H.D.M. Spence and
cípios e convicções que a fundamentam e regem. É a aplicação da teologia
~~: Wm B. Eerdmans, pp. 7-8,
bíblica à educação .

.-~ist: Every Christian' s Desire


~,:sio Apostolica, Journal of the lI. FUNDAMENTAÇÃO
--Ul, issue no. 11, May 1998,
A educação cristã está nos propósitos de Deus como instrumento de
::>.1tyoi alI Christians of Leading que se vale para reger a humanidade. Como Deus se revela à humanida-
- -=-7. 12th. Sunday After Trinity,
10 presente texto foi elaborado em 1998-1999 pela equipe técnica da Escola de Educação Infantil,
La Valle, pp. 270-271. Ensino Fundamental e Médio do Instituto Concórdia de São Paulo: re\'. Amo Bessel (capelão),
profa. Nilza Eller Barros Leal (diretora), profa. Susane Stem (orienta dor a educacional), profa. Maria
do Carmo S. Paiva (coordenadora pedagógica), profa. Silvia Timm (coordenadora pedagógica),
profa. Lúcia Gusson Aguiar (coordenadora pedagógica).

Vox CONCORDIANA. VOLUME 16 ••NÚMERO 1 ••ANO 2001 55

__ ". m _." - -~:-:-


ARTIGOS--------------------------------
2. Adão e E",-e
de? Como explicita os seus propósitos? O ser humano toma conhecimen-
to parcial de Deus a partir do universo e da própria consciência que nele humanidade, foraL- _
está. Este conhecimento, porém, é limitado e imperfeito. Deus se revela pri- santos, puros, etec~ -_--
mordialmente no texto da Escritura Sagrada - a Bíblia -, inspirada pelo seu plenamente habilit."_~ '-;-
T:spírito Santo e; por isso, verdadeira, fiel, confiável como o próprio Deus. 3. Porém, Adãc ~ -= -- - --
No texto da Escritura Sagrada: a) Deus se dá a conhecer a si próprio e os pela desobediênci?
seus propósitos para com o ser humano; b) dá condições ao ser humano de 4. As principe': ~ :: : = ~
conhecer as suas próprias características, necessidades e propósito de vida; semelhança dÍ\Tin?,~ o ~ _ :-:-- -

c) Deus oferece e aplica o seu amor ao ser humano, especialmente, na pes- nhecimento da \-on:~ ~~
soa, vida, ação e ensino de Jesus Cristo; d) Deus expressa e anuncia duas propósitos do criacL:~ -:-
eterna.
mensagens essenciais à humanidade: a lei (aponta as limitações do ser hu-
mano e seu estado natural perante Deus) e o evangelho (a boa notícia do 5. Os descende:-:~c -: :
amor de Deus, da oferta e doação de recursos divinos ao ser humano). A terísticas dos seus F ê:~ ~'- -
Escritura Sagrada é a fonte, o fundamento e o guia supremos para definir então, todas as pess-> c' :
os objetivos, conteúdos, métodos, mídias e agentes da educação. 6. Pecado é Yl-:",: ,-:' - 0_

vontade divina em ::"':- ,,-- e-


7. O ser huma:-,: '"
llI. VISÃO CRISTÃ DO UNIVERSO lhança de Deus.
8. Apesar disse 0== '"

A. Deus bui o mais elevadc -:_'0_ c-:- o - -

restauração e do S2'~:.~'~:=. -,:-::


1. Deus se revela na Escritura Sagrada. Há um único Deus, que existe 9. A prova mal:- _:: ---
em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Deus Pai é atribuída a expressa na vinda d.e ,~_ - -
obra da criação e manutenção do universo; a Deus Filho, Jesus Cristo, que santa, morte e reSSl:.l':-"'::' :
se fez homem, é atribuída a obra da salvação do mundo; a Deus Espírito zi-lo a Deus.
Santo é atribuída a obra da santificação, isto é, conduzir os seres humanos
10. A salvação
ao arrependimento e à fé em Cristo bem como habilitá-Ias e sustentá-Ias mente, mediante a i2 é::-_-. - é: - ~
na vivência com Deus.
11. Pela proda::·:;::
2. Os principais adjetivos que se aplicam a Deus são: invisível, eter- sustenta no ser hunv:- - : _= -=
no, todo-poderoso, onipresente, onisciente, santo, justo, fiel, misericordi- semelhante.
oso, gracIOSO, an10roso. 12, A fé cristã é .::::---.
3. O universo e tudo quanto nele há não existe nem subsiste à parte
mentos, na linguage::'. __ c - -
de Deus porque depende integralmente dele. os seus semelhante;::

B. o ser humano 13. A morte ni'í,c e :_::


tos no último dia; Pl'-: :: :
1. O ser humano é a criatura por excelência no universo, obra máxi- Jesus; salvação e yid:. :<é:- -
ma do criador e fruto do Se\l poder, da sua sabedoria e do seu amor, cons- Jesus.
tituído de corpo, alma, intelecto, sentimentos,
56 Vox CONCORDIANA VOLUME 16 • N(UvIERO 1 •
----------EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIADA EDUCAÇÃOCRISTALUTERANA

:2~'humano toma conhecimen- 2. Adão e Eva, o homem e a mulher criados no princípio e pais da
humanidade, foram feitos à imagem e semelhança de Deus, isto é: eram
: ?rópria consciência que nele
:nperfeito. Deus se revela pri- santos, puros, eternos; mantinham comunhão perfeita com Deus e estavam
, -? Bíblia -, inspirada pelo seu plenamente habilitados para corresponder aos propósitos do criador.
: ::~Íiável como o próprio Deus. 3. Porém, Adão e Eva, seduzidos por Satanás, voltaram-se contra Deus
:.~.a conhecer a si próprio e os pela desobediência, originando-se o pecado.
.~~condições ao ser humano de 4. As principais conseqüências desse ato são: perda da imagem e
: :2ssidades e propósito de vida; semelhança divinas; rompimento da comunhão com Deus; perda do co-
.'.:-:nano,especialmente, na pes- nhecimento da vontade de Deus e das condições de corresponder aos
:::Jeusexpressa e anuncia duas propósitos do criador; toda sorte de sofrimentos e males; morte física e
eterna.
ê?Onta as limitações do ser hu-
ê:' evangelho (a boa notícia do 5. Os descendentes dos primeiros seres humanos herdaram as carac-
:~·:'sdivinos ao ser humano). A terísticas dos seus pais e as transmitem de geração para geração. Desde
2J guia supremos para definir então, todas as pessoas são concebidas e nascem em pecado.
: gentes da educação. 6. Pecado é viver afastado da relação com Deus; é transgressão da
vontade divina em pensamentos, sentimentos, palavras, atos e omissões.
7. O ser humano é incapaz de restaurar, por si só, a imagem e seme-
lhança de Deus.
8. Apesar disso, Deus ama incondicionalmente o ser humano, lhe atri-
bui o mais elevado valor dentre todas as criaturas e age em favor da sua
restauração e do seu bem-estar terreno e eterno.
Há um único Deus, que existe 9. A prova maior do amor incondicional de Deus ao ser humano se
;anto. A Deus Pai é atribuída a expressa na vinda de seu filho Jesus Cristo ao mundo. Jesus, por sua vida
?, Deus Filho, Jesus Cristo, que
santa, morte e ressurreição, se fez o substituto do ser humano para condu-
:?o do mundo; a Deus Espírito zi-Ia a Deus.
-:. é, conduzir os seres humanos 10. A salvação do ser humano é presente de Deus e acontece gratuita-
::'ffiO habilitá-Ias e sustentá-Ias
mente, mediante a fé em Jesus Cristo.
11. Pela proclamação e ensino do evangelho, o Espírito Santo gera e
:ê\ffi a Deus são: invisível, eter- sustenta no ser humano a fé em Cristo e desenvolve nele amor a Deus e ao
:: santo, justo; fiel, misericordi- semelhante.
12. A fé cristã é dinâmica. O ser humano exterioriza a fé nos pensa-
-,::',0 existe nem subsiste à parte
mentos, na linguagem, nas atitudes e ações quando convive e serve todos
ele. os seus semelhantes.
13. A morte não é fim da vida. Haverá: ressurreição de todos os mor-
tos no último dia; punição eterna de todas as pessoas que não creram em
2léncia no universo; obra máxi- Jesus; salvação e vida eterna no céu para todas as pessoas que creram em
: sabedoria e do seu amor, cons- Jesus.

Vox CONCORDIANA VOLW\.fE 16 • NÚMERO 1o ANO 2001 57


ARTIGOS---------------------------- -----------E: __
14. A educação cristã é instrumento de Deus que proporciona ao ser
IV. A NECESSIDADE ::
humano conhecimento intra e interpessoal, lhe oferece o amor de Deus e
o desenvolve para uma vida de amor.
Por que educar~ = :- - -: :
humano necessita de "'~.. ~.
C. O universo
1. Depende de ter ::.-- ,-
1. O universo visível e invisível não surgiu por si, nem funciona por tação, higiene, prote.::~< >:r
o ~

si mesmo, mas foi criado no princípio e é mantido por Deus continua- 2. A sua própri2. ':'.,'.:-.-: = '
mente. volvimento para re>.:::: .<-,,,
2. O universo não funciona por acaso mas por leis naturais que Deus com o mundo.
criou e mantém. 3. Ela é do intere~:2 2
3. O universo tem como centro a manifestação, morte e ressurreição pósitos para com o ser :"'::-' . -
de Jesus Cristo.
4. O universo não se desenvolve num processo infinito, mas tem como Para que eduC2.rc .•...,: - , :

fim a vinda do senhor Jesus Cristo para ressuscitar os mortos e julgar a 1. Preservar e
todos os seres humanos. na em sociedade, t2.n:. :-. - -
5. O universo e tudo quanto ele contém existe em benefício da vida. 2. Formar o ser r.',::'."_
6. Deus é a fonte e o doador de todas coisas necessárias à vida. da razão para promc'.:'-:
7. Deus estabeleceu no universo as condições e nele proporciona os prover o seu sustente ~--::: ..:
meios necessários à vida. conduzir-se honrad2.r:-.::::-:" - -
8. Cabe ao ser humano, dotado de razão, extrair do universo e ade- e na comunidade one" 2::" _.
quar para o seu uso os meios para a procriação e preservação da vida. 3. Consolidar e e:,.:'- .:.:- - . -
9. O ser humano é responsável pela administração e pela preserva- evangelho, conduzir c ::2. :
ção racional dos meios de vida. na;b) desenvolver 2, ---,-
10. Em última análise, o senhor Jesus governa o universo. serviço a Deus e ao 5e:::',2:.
11. O senhor Jesus governa o universo valendo-se dos seres humanos 4. Contribuir par:" :" -: r-',·.:
como seus parceiros administrativos: a) para estabelecer, pelo casamento, especial ao ministéric .~,rr
convívio satisfatório entre homem e mulher; propiciar, na família, condi- todo tipo de líderes cr>' : ,.
ções adequadas para gerar, criar e educar filhos; b) para estabelecer or-
dem e assegurar condições de vida em sociedade através de autoridades
Perfil do educando
eleitas dentre os e pelos cidadãos; c) para estabelecer a sua igreja (o con- A educação crist? ~
junto de todas as pessoas que crêem em Jesus Cristo) através da qual anun- formação de um educ:r:-
cia a sua palavra e, por ela, gera a fé nos seres humanos e os habilita à vida - confiar em De:.-:: :: '.
em amor. sua existência;
12. A educação cristã é um instrumento de Deus para que o ser hu- - orientar-se pel? :: c:''
mano reconheça Jesus Cristo como senhor do universo. palavras, sentimentos 2 .', ' -,
13. A educação cristã habilita o ser humano para administrar, em par- - valorizar a vid? e :' :- . ,
ceria com Deus, o universo. - entender a escc>
construção do seu fu: __ ::'
58 Vox CONCORDIANA
VOLUME 16 • NÚMERO 1• ~
----------EQUIPE DOICSP: FILOSOFIA
DAEDUCAÇÃO
CRISTÃLUTERANA
- .
que proporCiOna ao ser
_ :c'.\::;
':c derece o amor de Deus e IV. A NECESSIDADE E OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO

Por que educar? Donde provém a necessidade da educação? O ser


humano necessita de educação pelos seguintes motivos:
1. Depende de terceiros nos primeiros anos de vida quanto à alimen-
~'::~.lpor si, nem funciona por tação, higiene, proteção, aprendizagem e habilitação para gerir-se.
.·.":ntido por Deus continua- 2. A sua própria natureza exige aperfeiçoamento, adequação, desen-
volvimento para relacionar-se com Deus, consigo, com o semelhante e
. .'~ por leis naturais que Deus com o mundo .
3. Ela é do interesse e da vontade de Deus para realizar os seus pro-
:c-~:ação,morte e ressurreição pósitos para com o ser humano.

.~c5s0 infinito, mas tem como Para que educar? Quais são os principais objetivos da educação?
~ouscitar os mortos e julgar a 1. Preservar e fomentar as condições e bens favoráveis à vida huma-
na em sociedade, tanto naturais como culturais.
.. :existe em benefício da vida. 2. Formar o ser humano como pessoa moral e racional, que faça uso
:sas necessárias à vida. da razão para promover o bem próprio e dos outros; gerir a própria vida,
- iíções e nele proporciona os prover o seu sustento pelo trabalho e participar da gestão da sociedade;
conduzir-se honradamente na família, na economia, na política, nas artes
~:-' extrair do universo e ade- e na comunidade onde está inserido.
';3.0 e preservação da vida. 3. Consolidar e expandir o reino de Deus: a) pelo anúncio e ensino do
:.:J:unistração e Dela
J. Dreserva-
J.
evangelho, conduzir o ser humano à fé em Jesus Cristo e à salvação eter-
na; b) desenvolver a fé cristã no ser humano para que esta se expresse em
::o\"erna o unIverso. serviço a Deus e ao semelhante.
..?Jendo-se dos seres humanos 4. Contribuir para a formação de pessoas que se dediquem de forma
·2 estabelecer, pelo casamento,
especial ao ministério, como evangelistas, pastores, mestres, diáconos e
todo tipo de líderes cristãos.
~:propiciar, na família, condi-
filhos; b) para estabelecer or- Perfil do educando
::edade através de autoridades
:~tabelecer a sua igreja (o con- A educação cristã que se propõe alcançar estes objetivos resultará na
"Cristo) através da qual anun- formação de um educando que apresenta o seguinte perfil:
25 humanos e os habilita à vida - confiar em Deus Pai, Filho e Espírito Santo como fundamento de
sua existência;
m de Deus para que o ser hu- - orientar-se pela Palavra de Deus, expressa na Bíblia, nas atitudes,
io universo. palavras, sentimentos e ações;
:"'.i'mO para administrar, em par- - valorizar a vida e a natureza como preciosos dons de Deus;
- entender a escola como agente indispensável na sua formação e
construção do seu futuro;
Vox CONCORDIANA VOLW\fE 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 59

.. ~
ARTIGOS-----------------------------

- considerar-se um ser valioso que integra o mundo e busca nele, de


maneira responsável, os recursos para sua sobrevivência;
- estar preparado para discernir entre o bem e o mal e para tomar
decisões coerentes, encarando o futuro com esperança;
- participar da realidade social, política, econômica, ideológica e reli-
giosa para questionar os pontos frágeis e contribuir na transformação dos
mesmos;
- ser solidário e disposto a cooperar com o seu semelhante;
- respeitar a propriedade, as opiniões e as diferentes culturas;
- ser responsável por seus atos, procedimentos e palavras;
- ter consciência dos seus direitos e deveres como pessoa que integra
a família, a escola, a comunidade, o país e o mundo;
- ser criativo frente a dificuldades e desafios;
- manter-se motivado na escola, no trabalho, na sociedade e para a
vida em família;
- desenvolver o raciocínio lógico e ser capaz de expressar-se com cla-
reza e criatividade nas diferentes formas de comunicação;
- desenvolver hábitos que favoreçam o desenvolvimento saudável
do corpo, da alma, da mente e dos sentimentos;
- ser capaz de auto-gerenciar-se no uso do tempo e no aproveitamen-
to de oportunidades de estudo e trabalho;
- ter adquirido um domínio básico de todas as disciplinas cursadas e
assimilado uma cultura geral adequada ao seu nível escolar.

IV. A METODOLOGIA DA EDUCAÇÃO

Como colocar em prática a educação? Que metodologia é adequada


para atingirem-se os seus objetivos? Antes de responder essas questões é
necessário considerar os pressupostos da aprendizagem.

Pressupostos da aprendizagem
Os pressupostos da aprendizagem se resumem nos seguintes:
1. Toda criança nasce com o potencial para desenvolver sua inteli-
gência e sua capacidade de conhecer, e o faz através de sua ação sobre o
ambiente, que, por sua vez, reage e responde ao educando, num processo
de interação mútua.

60 Vox CONCORDIANA
---- --EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ LUTERANA

2. A inteligência nesta perspectiva, corresponde a uma capacidade


ou estrutura lógica, isto é, a uma possibilidade interna, genética, proces-
sual e evolutiva que o educando utiliza ao se relacionar com o mundo.
3. Esta inteligência é construída pelo educando em seu processo de
relacionar-se com o ambiente, agir sobre ele, tentar compreendê-Io.
4. A relação entre o educando que conhece e o objeto a ser conhecido
- o ambiente - é, pois, uma relação dinâmica e dialética, em sentido sem-
pre crescente de evolução qualitativa. E esta relação se dá através da ação
- mental e/ou física do educando.
5. Assim não é "imprimindo" no educando a informação sobre um
dado conhecimento, como um carimbo no papel, através de sua apresen-
tação gradativa e detalhada e da sua exaustiva repetição que se possibilita
ao educando o domínio deste conhecimento. O educando alcançará o do-
mínio do conhecimento quando lhe for possível agir sobre ele, levantar
perguntas, elaborar hipóteses, soluções, viver as contradições da hipótese
e retomá-Ia, tentar sua superação até descobrir e compreender o conheci-
mento. Mais importante que armazenar informações sobre um assunto é
aprender a pensar sobre este, compreendendo as relações e as causas im-
plícitas nas informações.
6. A maneira de se relacionar com o objeto de conhecimento desenca-
deia três etapas de pensamento: a) assimilação - primeiro contato com o
novo, causando impacto; b) acomodação - confronto do real com as hipóte-
ses, incoerências e dÚvidas; c) adaptação - processo de compreensão ou
descoberta de um novo que, naquele momento, lhe satisfaz. Estas etapas
são as mesmas para todos os alunos em qualquer fase de sua vida. Da
mesma forma, a função da inteligência, que é encontrar soluções que o
levam a se lançar na compreensão do novo, do real, são invariantes du-
rante todo o processo de evolução e de desenvolvimento de qualquer in-
divíduo.
7. As estruturas lógicas que o educando utiliza ao interagir com o
novo, com o real a ser conhecido, são diferentes, dependendo da fase da
vida que ele se encontra. Cada fase ou estágio apresenta uma forma pecu-
liar de compreender o real. Assim o que difere um estágio do outro é a
possibilidade de operar mentalmente: a operação ou a capacidade de es-
tabelecer relações.
8. O que impulsiona o desenvolvimento cognitivo do aluno é, sem-
pre, a busca da compreensão. E conhecer é atribuir significado ao objetà,
inserindo-o, encaixando-o, em um todo lógico e organizado.

VOLWvfE 16 ••NÚMERO 1 e ANO 2001 61


ARTIGOS----------------.-----------------

9. Nesta concepção de aprendizagem o conhecimento se apresenta


em dois níveis: a) empírico - extrair as informações do próprio objeto; b)
reflexivo - através do estabelecimento de relações entre as informações
extraídas, implicando em operações e reorganizações mentais. Cabe à es-
cola atuar com estes dois níveis a fim de favorecer uma aprendizagem
significativa do objeto e sua posterior superação.
10. Na perspectiva do objeto e do conhecimento nele existente, é evi-
dente que as soluções apresentadas a partir das hipóteses inconsistentes
elaboradas ao longo do processo se apresentam como um erro. Assim o
erro, na dinâmica construtivista de aprendizagem, é a representação ou a
concretização da hipótese do educando naquele momento específico de
sua evolução.

Metodologia
Considerando-se que o educando é agente ativo no processo educa-
cional, dar-se-á prioridade aos métodos que favoreçam o envolvimento e
a participação do mesmo. Ao se escolherem os métodos, leva-se em conta
aqueles que conduzem o educando a:
1. Aprender a conhecer. Considerando as rápidas transformações cau-
sadas pelo progresso científico e as novas formas de atividade econômi-
ca e social, é importante conciliar uma cultura geral suficientemente
ampla com a possibilidade de aprofundamento em um pequeno núme-
ro de matérias, Essa cultura constitui a passagem para a educação per-
manente, na medida em que desperta o gosto e fornece as bases para se
aprender ao longo de toda a vida; despertar o gosto e o prazer de apren-
der, a capacidade de aprender a aprender. Fazer do educando um curio-
so intelectual.
2. Aprender afazer. É necessário a aquisição de aptidões que possibili-
tem o educando a enfrentar novas situações e facilite o trabalho em equi-
pe. Essa competência e essas qualificações tornam-se acessíveis quando o
educando tem possibilidade de se testar e se enriquecer, participando de
atividades que orientam o recriar do conhecimento.
3. Aprender a ser. A chegada do século XXI traz consigo a exigência de
uma educação que conduz o educando a uma maior autonomia e julga-
mento, o que implica no fortalecimento da responsabilidade pessoal na
realizaçã.o do destino coletivo.

62 Vox CONCORDIANA
-----------EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ LUTERANA

4. Aprender a viver junto. Desenvolver a capacidade de auto conheci-


mento, bem como do hetero-conhecimento e a partir daÍ; perceber a inter-
dependência existente entre os seres humanos cada vez maior. Há neces~
sidade da criação de projetos comuns na escola bem como preparar os
educandos para a gestão inteligente e pacífica dos conflitos que surgem
nos seus diversos níveis.
A proposta metodológica deve valorizar as alternativas de ensino-
aprendizagem que conduzem à exploração, à descoberta e/ ou recriação
dos conhecimentos acumulados pela humanidade.

V. As MÍDIAS DA EDUCAÇÃO

Quais são as mídias adequadas para o desenvolvimento da educação


numa perspectiva cristã? Pelo fato do ser humano estar dotado de razão e
ser capaz de discernir as coisas desta vida, conclui-se que a educação pode
e precisa desenvolver e adotar para o ensino-aprendizagem todas as mí-
dias que sejam adequadas à formação intelectual, moral e espiritual, des-
de que respeitem os princípios da filosofia de educação cristã. Na medida
em que a ciência descobre e a tecnologia constrói novas mídias, também
estas serão aproveitadas sempre que possível.
Quanto ao desenvolvimento da fé cristã, o próprio senhor Jesus esco-
lheu e determinou as mídias: sua palavra expressa nas Escrituras Sagra-
das (sob lei e evangelho) e os sacramentos do batismo e da santa ceia.

VI. Os CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO

o que convém aprender e ensinar? Quais são os conteúdos da educa-


ção numa perspectiva cristã? São adequados todos os conteúdos que for-
mam o ser humano como pessoa racional e moral, capaz de gerir-se e
gerir. Para issol observem-se os seguintes princípios:
1. Todos os conteúdos serão trabalhados na perspectiva bíblico-cristã
como elementos dispostos por Deus para o bem da vida.
2. Teorias, filosofias e ideologias cujo conteúdo se opõe à Palavra de
Deus também necessitam ser abordadas visto que o educando esfá inseri-
do no mundo e, mais cedo ou mais tarde, se deparará com elas. Porém,

VOLUME 16 " NíL\iERO 1 o; ANO 2001 63


ARTIGOS-----------------------------

esses conteÚdos serão comparados e confrontados com a Palavra de Deus


para discernir a sua validade.
3. ConteÚdos de ordem moral receberão ênfase para que o educando
seja formado a conduzir-se honradamente em todas as suas ocupações,
em todos os meios de convívio e todas as situações em que se requer a
tomada de decisões.
4. Conteúdos gerais e específicos que habilitam para o trabalho e à
obtenção honesta e justa do sustento/ com atenção especial às necessida-
des, oportunidades e exigências do mercado de trabalho atual e futuro.
5. Conteúdos que levam à compreensão e organização da sociedade,
com as diversas ordens e instituições que a compõem.
6. Os conteÚdos das Escrituras Sagradas - particularmente os que
expressam as palavras e os feitos de Deus para a salvação da humanida-
de, que convergem na manifestação, morte, ressurreição e governo de
Cristo - receberão tempo e destaque especiais para que o educando seja
conduzido à fé cristã e à participação ativa no reino de Cristo.
7. A seleção e aplicação de conteÚdos levarão em conta o corpo, a
alma, o intelecto e os senti-mentos do educando, e manter-se-á um enfo-
que equilibrado.

VII. Os AGENTES DA EDUCAÇÃO

Quais são os agentes da educação numa perspectiva cristã? São os


mesmos que o Senhor usa para reger os seres humanos em geral.
1. Os pais e a família. Os pais são, por necessidade natural e vontade
divina, os primeiros educadores. É por meio dos pais que nascem os fi-
lhos. Estes sã.oconfiados aos pais para criá-Ias e educá-Ias no meio famili-
ar. Verifica-se, porém/ que há pais que, por várias razões, deixam muito a
desejar como educadores. E, em muitos casos, a família atual está deses-
truturada e não apresenta um ambiente adequado para a educação. Por
isso, acentua-se cada vez mais a transferência do dever paterno a tercei-
ros, entre os quais a escola.
A família necessita de preparo e ajuda na tarefa educacional. A escola
não pode fechar os olhos para essa necessidade e/ dentro das suas condi-
ções possíveis, deve ir ao encontro dos pais para socorrer bem como bus- '
car parcenêi.

64 Vox CONCORDIANlJ.
----------EQUIPE DOICSP: FILOSOFIA
DAEDUCAÇÃO
CRISTÃLUTERANA

Os pais são a primeira autoridade para educar. Toda e qualquer ou-


tra autoridade para educar emana da autoridade paterna.
2. A igreja. Ela é instrumento de Deus tanto para as pessoas cristãs
como também possui papel educador para com a comunidade social. A
igreja serve-se de vários instrumentos no desempenho de seu papel edu-
cador, sendo a escola o mais significativo.
3. A escola. Tanto o estado como a igreja criam e mantêm escolas. Quan-
do a igreja cria instituições educacionais, ela o faz no propósito de auxiliar
os pais e a comunidade em geral. A educação na fé cristã é o princípio
áureo da escola cristã, integrando a mesma com toda prática pedagógica e
vida escolar.
4. O educador. A escola educa através de todas as pessoas que nela
atuam, independente da sua função, bem como pelo próprio aparelha-
mento do seu ambiente físico. Quem, no entanto, exerce papel de maior
força e influência é o professor-educador. O edtlcador não apenas repre-
senta o pensamento educacional da instiLLliçãomas desenvolve, simulta-
neamente, conteúdos que estão em conformidade com a filosofia da insti-
tuição e vivencia o mesmo. A pessoa, a vida e o desempenho do educador
constituem um referencial para o educando e marcam positiva ou negati-
vamente a sua formação. Por isso é desejável que o educador apresente o
seguinte perfil:

a. Quanto à sua pessoa:


- confie em Deus Pai, Filho e Espírito Santo como fundamento de sua
existência;
- oriente-se pela Palavra de Deus, expressa na Bíblia, nas suas atitu-
des, sua linguagem, seus sentimentos e suas ações;
- seja leal e esteja comprometido com a verdade;
- tenha humildade para reconhecer suas limitações e as virtudes de
seu semelhante, respeitando as diferenças existentes;
- esteja pronto a perdoar a quem ofendeu;
- seja amigo da paz e da concórdia;
- exercite-se continuamente na paciência;
- seja solidário e disposto a servir espontaneamente;
- seja compreensivo, gentil, carinhoso;
- seja responsável em tudo o que fala e pratica;
- mantenha abertura para o diálogo;

VOLUME 16 • Níl1"IERO 1e ANO 2001 65


ARTIGOS---------------------------------

- exercite-se no autodomínio sobre a sua linguagem, os seus senti-


mentos, as suas atitudes e as suas ações;
- não deixe o instinto tomar conta em momentos em que a sabedoria
é a chave da questão.

b. Quanto à sua vocação:


- defenda e desenvolva a filosofia educacional da instituição;
- tenha amor pelo que faz;
- seja justo com o que faz;
- atualize-se em seus conhecimentos e desenvolva suas habilidades
de forma contínual aplicando-os no seu trabalho;
- empenhe-se no preparo e execução de suas tarefas;
- considere-se parte de um grupo e trabalhe em equipe, comparti-
lhando conhecimentos, experiências e mídias;
- respeite e vCllorize o espaço e a função da direção, da equipe técnica,
dos colegas e demais funcionários da instituição;
- assim.ile e respeite as orientações administrativas, pedagógicas, fi-
losóficas, éticas e espirituais da instituição;
- contribua com idéias e sugestões para a melhoria do desempenho
da escola;
- solicite auxílio sempre que necessitar;
- utilize os espaços disponíveis para desenvolver todo o trabalho pe-
dagógico;
- administre o seu tempo e espaço com responsabilidade;
- trate assuntos particulares no momento e local adequados;
- estabeleça interação em sala de aula;
- esteja disposto a aprender com o dia a dia de outrem (alunos, cole-
gas ...);
- saiba ouvir atentamente e falar no momento adequado;
- aceite críticas construtivas a respeito de sua pessoa e vocação;
- seja criativo na pedagogia e solução de problemas;
- seja convicto de seus ideais e democrático.

5. O educilndo. O educando não é recipiente passivo no processo edu-


cacional, pelo contrário, é agente participativo na medida em que educa-
dores o estimulanl, envolvem e desafiam.

66 Vox CONCORDJANA
----------EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIADA EDUCAÇÃOCRISTÃLUTERANA

FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ LUTERANA


(SUMÁRIO)

Equipe técnica do ICSP 1

INTRODUÇÃO

Educar significa, primordialmente, agir para transformar. Ora, toda


ação parte de pressupostos, princípios, convicções, valores quer implíci-
tos, quer expressos. Isso se aplica também à educação.

I. DEFINIÇÃO
Filosofia da educação é o conjunto de princípios e convicções que
fundamentam e regem um sistema educacional. No caso em questão, re-
ferimo-nos à filosofia cristã da educação. A educação emana da fonte do
cristianismo - a Escritura Sagrada - e dela extrai princípios e convicções
que a fundamentam e regem.

lI. FUNDAMENTAÇÃO

A educação cristã está nos propósitos de Deus como instrumento de


que se vale para reger a humanidade. O ser humano toma conhecimento
parcial de Deus a partir do universo e da própria consciência que está
nele. Este conhecimento, porém, é limitado e imperfeito. Deus se revela
primordialmente no texto da Escritura Sagrada - a Bíblia -, inspirada pelo
seu Espírito Santo e, por isso, verdadeira, fiel, confiável como o próprio
Deus.
A Escritura Sagrada é a fonte, o fundamento e o guia supremos para
definir objetivos, conteúdos, métodos, mídias e agentes da educação.

1 o presente texto representa um extrato do artigo que o precede (Filosofia da Educação Cristã
Luterana) e foi elaborado peLl mesma equipe técnica da Escola de Educação Infantil, Ensino Fun-
damental e Médio do Instituto Concórdia de São Paulo.

VOLUME 16 • Nt'lAIEIW 1" ANO 2001 67


ARTlGOS------------------------------

lU. VISÃO CRISTÃ DO UNIVERSO

A. Deus
1. Há um único Deus/ que existe em três pessoas: Pai/ Filho e Espírito
Santo.
2. Deus é: invisível, eterno, todo-poderoso, onipresente, onisciente,
santo, justo, fiel, misericordioso, gracioso, amoroso.
3. O universo e tudo quanto nele existe dependem integralmente de
Deus.

B. O ser humano
1. É a obra máxima do criador, constituído de corpo, alma, intelecto,
sen timen tos.
2. Adão e Eva, os pais da humanidade, foram feitos à imagem e se-
melhança de Deus, isto é: eram santos, puros, eternos; mantinham comu-
nhão perfeita com Deus e estavam plenamente habilitados para corres-
ponder aos propósitos do criador.
3. Porém, Adão e Eva voltaram-se contra Deus pela desobediência,
originando-se o pecado.
4. As principais conseqüências desse ato são: perda da imagem e se-
melhança divinas; rompimento da comunhão com Deus; perda do conhe-
cimento da vontade de Deus e das condições de corresponder aos propó-
sitos do criador; toda sorte de sofrimentos e males; morte física e eterna.
5. Os descendentes dos primeiros seres humanos herdaram as carac-
terísticas dos seus pais e as transmitem de geração para geração.
6. Pecado é viver afastado da relação com Deus; é transgressão da
vontade divina em pensamentos, sentimentos, palavras, atos e omissões.
7. O ser humano é incapaz de restaurar, por si só, a imagem e seme-
lhança de Deus.
8. Deus ama incondicionalmente o ser humano e age em favor da sua
restauração e do seu bem-estar terreno e eterno.
9. A prova maior do amor incondicional de Deus se expressa na vin-
da de seu filho Jesus Cristo ao mundo, que se fez o substituto do ser hu-
mano para conduzi-Ia a Deus.
10. A salvação do ser humano é presente de Deus e acontece gratuita-
mente, mediante a fé em Jesus Cristo.

68 Vox CONCORDIANA
----------EQUIPE DOICSP: FILOSOFIA
DAEDUCAÇÃO
CRISTÃLUTERANA

11. Pelo evangelho, o Espírito Santo gera e sustenta no ser humano a


fé em Cristo e desenvolve nele amor a Deus e ao semelhante.
12. A fé cristã é dinâmica e se exterioriza na vida do cristão.
13. Haverá ressurreição de todos os mortos no último dia; punição
eterna de todos os descrentes em Jesus; salvação e vida eterna no céu para
todos os que crêem em Jesus.
14. A educação cristã é instrumento de Deus que proporciona ao ser
humano conhecimento intra e interpessoal, lhe oferece o amor de Deus e
o desenvolve para uma vida de amor.

c. O universo
1. O universo foi criado no princípio e é mantido por Deus continua-
mente.
2. O universo tem como centro a manifestação, morte e ressurreição
de Jesus Cristo.
3. O universo tem como fim a vinda do Senhor Jesus Cristo para res-
suscitar os mortos e julgar a todos os seres humanos.
4. O universo e tudo quanto ele contém existem em benefício da vida.
5. Deus é a fonte e o doador de todas coisas necessárias à vida.
6. Cabe ao ser humano extrair do universo e adequar para o seu uso
os meios para a procriação e preservação da vida.
7. O ser humano é responsável pela administração e preservação ra-
cional dos meios de vida.
8. O senhor Jesus governa o universo valendo-se dos seres humanos
como seus parceiros administrativos.
9. A educação cristã é um instrumento de Deus para que o ser huma-
no reconheça Jesus Cristo como senhor do universo e o habilite para ad-
ministrá-Io, em parceria com o criador.

IV. A NECESSIDADE E OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO

O ser humano necessita de educação porque:


1. Depende de terceiros para viver e sobreviver.
2. A sua própria natureza exige aperfeiçoamento, adequação, desen-
volvimento para relacionar-se com Deus, consigo, com o semelhante e
como mundo.

VOLUME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 69


ARTIGOS------------------------------

3. Ela é do interesse e da vontade de Deus para realizar os seus pro-


pósitos para com o ser humano.

Os principais objetivos da educação são:


1. Preservar e desenvolver as condições e bens favoráveis à vida hu-
mana em sociedade, tanto naturais como culturais.
2. Formar o ser humano como pessoa moral e racional, que faça uso
da razão para promover o bem próprio e dos outros; gerir a própria vida,
prover o seu sustento pelo trabalho e participar da gestão da sociedade;
conduzir-se honradamente na família, na economia, na política, nas artes
e na comunidade.
3. Consolidar e expandir o reino de Deus.
4. Contribuir para a formação de evangelistas, pastores, mestres, diá-
conos e líderes cristãos.

Perfil do educando

A educação cristã que se propõe alcançar estes objetivos resultará na


formação de um educando que apresenta o seguinte perfil:
- confiar em Deus Pai, Filho e Espírito Santo como fundamento de
sua existência;
- orientar-se pela Palavra de Deus, expressa na Bíblia, nas atitudes,
palavras, sentimentos e ações;
- valorizar a vida e a natureza como preciosos dons de Deus;
- entender a escola como agente indispensável na sua formação e cons-
trução do seu futuro;
- considerar-se um ser valioso que integra o mundo e busca nele, de
maneira responsável, os recursos para sua sobrevivência;
- estar preparado para discernir entre o bem e o mal e para tomar
decisões coerentes, encarando o futuro com esperança;
- participar da realidade social, política, econômica, ideológica e reli-
giosa para questionar os pontos frágeis e contribuir na transformação dos
mesmos;
- ser solidário e disposto a cooperar com o seu semelhante;
- respeitar a propriedade, as opiniões e as diferentes culturas;
- ser responsável por seus atos, procedimentos e palavras;
- ter consciência dos seus direitos e deveres como pessoa que integra
a família, a escola; a comunidade, o país e o mundo;

70 Vox CONCORDIANA

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----------EQUIPE DO ICSP: FILOSOFIADA EDUCAÇÃOCRISTÃLUTERANA

- ser criativo frente a dificuldades e desafios;


- manter-se motivado na escola/ no trabalho/ na sociedade e para a
vida em família;
- desenvolver o raciocínio lógico e ser capaz de expressar-se com cla-
reza e criatividade nas diferentes formas de comunicação;
- desenvolver hábitos que favoreçam o desenvolvimento saudável
do corpo, da alma, da mente e dos sentimentos;
- ser capaz de auto-gerenciar-se no uso do tempo e no aproveitamen-
to de oportunidades de estudo e trabalho;
- ter adquirido um domínio básico de todas as disciplinas cursadas e
assimilado uma cultura geral adequada ao seu nível escolar.

IV. A METODOLOGIA DA EDUCAÇÃO

Considerando-se que o educando é agente ativo no processo educa-


cional; receberão prioridade os métodos que favorecem o envolvimento e
a participação do mesmo. Ao se escolherem os métodos; leva-se em conta
aqueles que conduzem o educando a:
1. aprender a conhecer;
2. aprender a fazer;
3. aprender a ser;
4. aprender a viver junto.
A proposta metodológica deve valorizar as alternativas de ensino-
aprendizagem que conduzem à exploração, à descoberta e/ ou recriação
dos conhecimentos acumulados pela humanidade.

V. As MÍDIAS DA EDUCAÇÃO

A educação pode e precisa desenvolver e adotar todas as mídias que


sejam adequadas à formação intelectual; moral e espiritua!; desde que res-
peitem os princípios da filosofia de educação cristã. Na medida em que a
ciência descobre e a tecnologia constrói novas mídias/ também estas serão
aproveitadas sempre que possível.
Quanto ao desenvolvimento da fé cristã, o próprio senhor Jesus esco-
lheu e determinou as mídias: sua palavra (lei e evangelho) e os sacramen-
tos do batismo e da santa ceia.

VOLUME 16 e NÚMERO 1e ANO 2001 71


ARTIGOS---------------------------

VI. Os CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO

São adequados todos os conteúdos que formam o ser humano como


pessoa racional e moral, capaz de gerir-se e gerir. Para isso, observem-se
os seguintes princípios:
1. Todos os conteúdos serão trabalhados na perspectiva bíblico-cristã
como elementos dispostos por Deus para o bem da vida.
2. Teorias, filosofias e ideologias cujo conteúdo se opõe à Palavra de
Deus também necessitam ser abordadas visto que o educando está inseri-
do no mundo e, mais cedo ou mais tarde, se deparará com elas. Porém,
esses conteúdos serão comparados e confrontados com a Palavra de Deus
para discernir a sua validade,
3. Conteúdos de ordem moral receberão ênfase para que o educando
seja formado a conduzir-se honradamente em suas ocupações, nos meios
de convívio e nas situações em que se requer a tomada de decisões.
4. Conteúdos gerais e específicos que habilitam para o trabalho e à
obtenção honesta e justa do sustento, com atenção especial às necessida-
des, oportunidades e exigências do mercado de trabalho atual e futuro.
5. Conteúdos que levam à compreensão e organização da sociedade,
com as diversas ordens e instituições que a compõem.
6. Os conteúdos das Escrituras Sagradas - particularmente os que
expressam as palavras e os feitos de Deus para a salvação da humanidade
- receberão tempo e destaque especiais para que o educando seja condu-
zido à fé cristã e à participação ativa no reino de Cristo.
7. A seleção e aplicação de conteúdos levarão em conta o corpo, a
alma, o intelecto e os sentimentos do educando, e manter-se-á um enfo-
que equilibrado.

VII. Os AGENTES DA EDUCAÇÃO

1. Os pais e a família. Os pais são, por necessidade natural e vontade


divina, os primeiros educadores. Toda e qualquer outra autoridade para
educar emana da autoridade paterna.
2. A igreja. Ela é instrumento de Deus tanto para as pessoas cristãs
como também possui papel educador para com a comunidade social. A
igreja serve-se da escola como instrumento no desempenho de seu papel
educador.

72 Vox CONCORDIANA
---------EQUIPE DOICSP: FILOSOFIA
DAEDUCAÇÃO
CRISTÃLUTERANA

3. A escola. Quando a igreja cria instituições educacionais, ela o faz no


propósito de auxiliar os pais e a comunidade em geral. A educação na fé
cristã é o princípio áureo da escola cristã, integrando a mesma com a prá-
tica pedagógica e vida escolar.
4.0 educador. A escola educa através de todas as pessoas que nela atu-
am e pelo próprio aparelhamento do seu ambiente físico. Quem, no en-
tanto, exerce papel de maior força e influência é o professor-educador.
Por isso é desejável que o educador apresente o seguinte perfil:

a. Quanto à sua pessoa:


- confie em Deus Pai, Filho e Espírito Santo como fundamento de sua
existência;
- oriente-se pela Palavra de Deus, expressa na Bíblia, nas suas atitu-
des, sua linguagem, seus sentimentos e suas ações;
- seja leal e esteja comprometido com a verdade;
- tenha humildade para reconhecer suas limitações e as virtudes de
seu semelhante, respeitando as diferenças existentes;
- esteja pronto a perdoar a quem ofendeu;
- seja amigo da paz e da concórdia;
- exercite-se continuamente na paciência;
- seja solidário e disposto a servir espontaneamente;
- seja compreensivo, gentil, carinhoso;
- seja responsável em tudo o que fala e pratica;
- mantenha abertura para o diálogo;
- exercite-se no autodomínio sobre a sua linguagem, os seus senti-
mentos, as suas atitudes e as suas ações.
- não deixe o instinto tomar conta em momentos em que a sabedoria
é a chave da questão.

b. Quanto à sua vocação:


- defenda e desenvolva a filosofia educacional da instituição;
- tenha amor pelo que faz;
- seja justo com o que faz;
- atualize-se em seus conhecimentos e desenvolva suas habilidades
de forma contínua, aplicando-os no seu trabalho;
- empenhe-se no preparo e execução de suas tarefas;
- considere-se parte de um grupo e trabalhe em equipe, comparti-
lhando conhecimentos, experiências e mídias;

VOHIME 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 73


ARTIGOS--------------------------------

- respeite e valorize o espaço e a função da direção, da equipe técnica,


dos colegas e demais funcionários da instituição;
- assimile e respeite as orientações administrativas, pedagógicas, fi-
losóficas, éticas e espirituais da instituição;
- contribua com idéias e sugestões para a melhoria do desempenho
da escola;
- solicite auxílio sempre que necessitar;
- utilize os espaços disponíveis para desenvolver todo o trabalho pe-
dagógico;
- administre o seu tempo e espaço com responsabilidade;
- trate assuntos particulares no momento e local adequados;
- estabeleça interação em sala de aula;
- esteja disposto a aprender com o dia a dia de outrem (alunos, cole-
gas ...);
- saiba ouvir atentamente e falar no momento adequado;
- aceite críticas construtivas a respeito de sua pessoa e vocação;
- seja criativo na pedagogia e solução de problemas;
- seja convicto de seus ideais e democrático.

5. O educando. É agente participativo na medida em que educadores o


estimulam, envolvem e desafiam.

74 Vox CONCORDIANA
DOMINGO DE CRISTO PARA TODAS AS NAÇÕES

No dia 6 de abril de 1947, domingo de Páscoa, dez emissoras trans-


mitiram o programa Hora Luterana na voz do pastor Rodolpho Hasse, do
Rio de Janeiro. Assim começou oficialmente a organização que hoje se
denomina Cristo Para Todas As Nações. Esta missão se dedica à evangeli-
zação a,través do rádio, do telefoneI da literatura, da internet, e por meio
de filmes para televisão e de fitas de áudio.
CPTN é uma organização auxiliar da Igreja Evangélica Luterana do
Brasil que também oficializou o último domingo do mês de abril como
domingo de CPTN. Todas as congregações da IELB são convidadas a rea-
lizarem cultos e programações especiais nesse domingo ou em uma data
próxima a ele.
A Congregação Concórdia, de Moema, São Paulo, realizou o seu cul-
to no Domingo de CPTN, dia 29 de abril de 2001. Nessa ocasião foi prega-
dor o pastor de CPTN, Paulo Kerte Jung que, baseado em Mt 16.15-16
mostrou aos seus ouvintes como esta missão vem cumprindo a ordem de
evangelização dada pelo mestre, Jesus Cristo. Durante todo o culto esti-
veram expostos no interior da igreja, à frente dos bancos, todo o material
literário produzido por CPTN, bem como as fitas de vídeo e de áudio, um
aparelho de televisão, um monitor de computador e um aparelho telefô-
nico para ilustrar de forma visível e física, os meios e as formas como o
"ide!// de Cristo pode ser realizado. Através desses meios de comunicação
se faz ouvir a voz do bom Pastor Jesus.
Segue abaixo a transcrição tanto da liturgia como do sermão proferi-
do no domingo de CPTN de 2001 na Congregação Concórdia, de Moema,
São Paulo.

Rev. Paulo K Jung .

VOLUME 16 • NÜMERO 1 • ANO 2001 75


LITURGIA-------------------------------

CULTO FESTIVO DE AÇÃO DE


GRAÇAS A DEUS PELA ORGANIZAÇÃO
CRISTO PARA TODAS AS NAÇÕES

Saudação

Jogral de abertura

Hino de abertura

1. Ao findar o labor desta vida, quando a morte à tua porta bater,


que destino há ter a tua alma? Vida ou morte, qual vais receber?
Meu amigo, hoje Cristo te chama: vida ou morte, qual vais receber?
Amanhã pode ser l1luito tarde. Hoje, Cristo te quer absolver.

2. Tu procuras a paz, neste mundo, em prazeres que passam em vão,


mas na hora final desta vida Tais prazeres valor não terão.
Meu amigo, hoje Cristo te chama: vida ou morte, qual vais receber?
Amanhã pode ser l1lllitO tarde. Hoje, Cristo te quer absolver.

3. Muitas vezes, amigo, tu riste, Ao ouvires falar de Jesus!


Mas só Cristo Jesus pode dar-te Salvação pela morte na cruz.
Meu amigo, hoje Cristo te chama: vida ou morte, qual vais receber?
Amanhã pode ser lIluito tarde. Hoje, Cristo te quer absolver.

Invocação

Oficiante (O): Em. nome do Pai que tudo criou e preserva!


Congregação (C) (canta): Pai, eu te adoro, minha vida te entrego, cOlno eu te
amo!
O: Em nome de Deus Filho, sacrificado em nosso lugar!
C (canta): Jesus, ell te adoro, 1I1inha vida te entrego, como eu te amo!
O: Em nome de Deus Espírito Santo, que nos orienta e consola!
C (canta): Espírito, eu te adoro, minha vida te entrego, como eu te amo!

76 Vox CONCORDIANA
-----------------------CULTO DEAçÃo DEGRAÇAS

Confissão e anúncio do perdão

o: Diz a palavra de Deus: I'Todos os que não obedecem a lei de Deus são
malditos. 11

C: Diz também a palavra de Deus: "Cristo, tornando-se maldição por nós,


nos livrou da maldição imposta pela lei ... Maldito aquele que for pendu-
rado na cruz ..." (GI3.10-11)
C (canta): 1. Rude cruz se erigiu, dela o dia fugiu como emblema de ver~
gonha e dor.
Mas eu amo essa cruz, porque nela Jesus deu a vida por mim, pecador.
Sim, eu amo a mensagem da cruz; até morrer eu a vou proclamar.
Levarei eu tanlbém minha cruz até por uma coroa trocar.

2. Nesta cruz padeceu e por mim já morreu, meu Jesus para dar-me o
perdão.
E eu me alegro na cruz, dela vem graça e luz para minha santificação.
Sim, eu amo a mensagem da cruz; até morrer eu a vou proclamar.
Levarei eu também minha cruz até por uma coroa trocar.

o: Só ama quem conhece a Deus, porque Deus é amor. Só ama aquela cruz
onde o nosso Jesus morreu quem um dia reconheceu seus pecados, e en-
controu na cruz o consolo de que alguém pagou a nossa dívida, suportou
as nossas iniqüidades.
C (canta): Oh! quão cego eu andei e perdido vaguei longe, longe do meu
salvador.
Mas da glória desceu e seu sangue verteu, prá salvar um tão pobre peca-
dor.
O: E como é marérvilhoso perceber que a cruz está vazia, pois Cristo pa-
gou a nossa culpa com sua própria morte, e venceu a morte ao ressuscitar,
sendo para nós a garantia de que também ressuscitaremos por ocasião de
sua segunda vinda.
C (canta): Mas um dia senti meus pecados, e vi sobre mim o castigo da lei.
Mas Jesus me buscou, no evangelho eu cri, e refúgio seguro encontrei.
Foi na cruz, foi na cruz onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus;
foi ali, pela fé, que meus olhos abri, e eu agora me alegro em sua luz.

o: Irmãos e irmãs em Cristo Jesus. Deus aceita a nós e ao nosso culto não
pelo que somos, fazemos ou deixamos de fazer, mas unicamente pela sua
misericórdia, pois ele não nos deu o que merecemos: a condenação eterna.
VOUI1\IE 16 • NÜMEIW 1 • ANO 2001 77
LITURGIA------------------------------

Mas pela sua graça ele nos deu o que não merecemos: o perdão dos peca-
dos e a vida eterna por intermédio de nosso senhor Jesus Cristo. Para que
fortaleçam ainda mais essa confiança, como ministro da palavra/ chama-
do e ordenado, anuncio a vocês que todos os seus pecados estão perdoa-
dos. Ern nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
C (canta): Amém.

Adorando ao nosso Deus

C (canta):! Ao revelares que na cruz maldita; por teu amor/ Jesus ali mor-
reu
e me livrou do jugo do pecado, e a morte e as hostes infernais venceu!
Então minha alma canta a ti Senhor: grandioso és tu, grandioso és tu!
Então minha alnla canta a ti, Senhor: grandiosos és tu! Grandioso és tu!

o (canta):2 Cante o povo perdoado


C (canta): Glória a Deus! nosso Senhor,
O (canta): Resgatou-nos do -pecado -pois é grande o seu amor.
C (canta): Ele sempre nos renova/ cada dia nos transforma,
O (canta): É Senhor Consolador!
C (canta): Louvem todos nosso Deus! Toda terra e os aitos céus cantem
sempre glória a Deus!
C (canta):3 Santo! Santo! Santo! Deus onipotente, cedo de manhã, cantare-
mos teu louvor.
Santo! Santo! Santo! Trino Deus, clemente/ és um só Deus, excelso criador.
(Ap 15.3-4; Is 6.3)

Leitura do salmo: SalnlO 23

C (canta):" Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no prin~


cípio/ agora é e para sempre será! De eternidade a eternidade. Amém!
Aleluia!

1 Hinário Lutcrmw: nu. 220.


2 HiniÍrio Lulemuo. 11(), 25,
3 HilliÍrio Lulernllo. n(). 146.
4 Texto e meio dia ela Ordem das Matinas no Hinário Luterano.

78 Vox CONCORDIANA
CULTO DE AçÃo DE GR\CA5

Kyrie5

Senhor, tenl piedade de nós.


Cristo tem piedade de nós.
Senhor, tem piedade de nós.

Louvor ao Senhor

o (canta):6 Ccmtai alegremente; cantai a Deus louvor!


C (canta): Trazemos nosso canto de júbilo e de amor.
O (canta): Prostrai-vos diante dele humildes com louvor;
C (canta): e, sempre em nossas vidas louvenlOs ao Senhor!

Oração

OFÍCIO DA PALAVRA

o: Pergunto a vocês: O que querem ouvir?


C: Agora, pois estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para
/I

ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor!/I (Atos 10.33)


O (canta):! Jesus mandou-me proclamar a nova que é sem par.
Mensagem linda de meu Deus a todos vou falar!
C (canta): Oh! Vem a mim, meu bom Jesus, meu coração darei,
e descansando em tua luz, jamais te esquecerei.

Leituras bíblicas: Atos 13.15-16a,26-33 e Apocalipse 7.9-17

Evangelho: João 10.22-30

Hino em preparação à mensagem8

1. Sou cordeiro de Jesus, e alegria em mim reluz. Pois o meu Pastor que-
rido tem-me sempre concedido sua graça e seu favor, e me chama com
amor.

5 Texto e melodia da Ordem das Matinas no Hinário Luterano.


6 Hinário Luternno, no. 210.
7 Hinário LlItcm;lO, no. 219.
8 HiniÍrio LlItcn7ll0, no. 292.

VOLUME 16 e NÚMERO 1 & ANO 2001 79


LITURGIA-------------------------------

2. Seu cajado me conduz mansamente em sua luz. Guia-me por verde


prado,
sem temor ando ao seu lado; se com sede eu estiver, água fresca irei beber.

3. Não devia me alegrar e ao meu Salvador amar? Ao findar a breve lida,


acharei eterna vida nos teus braços, bom Pastor. Canto alegre o teu louvor.

Mensagem: /lIde e pregai o evangelho!/I (/lEis que se ouve a voz do bom


Pastor/l)

Mc 16.15-16: /lE disse-lhes (Jesus): /lIde por todo o mundo e pregai o evan-
gelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém,
não crer, será condenado./I

Em Cristo, estimados irmãos e irmãs:

Estas foram as últimas palavras de Jesus. Depois disso, ele foi eleva-
do às alturas, para o céu. Ele foi e
- não deixou nada escrito;
- não deixou nenhuma instrução sobre estrutura ou organização de uma
Igreja;
- não deixou nenhum estatuto ou regimento interno;
- não nomeou nenhuma comissão incumbida de organizar uma igreja.
- Ele só disse: /lIde por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
Nos primeiros 3 anos, os discípulos ficaram em Jerusalém. Com o
apóstolo Paulo, o /lide/l começou a se cumprir. Paulo foi e pregou o Evan-
gelho em quase todo o mundo civilizado conhecido então. Ele foi e usou
os meios de que dispunha naquela época:
- As suas pernas, para caminhar. Não consta que ele tivesse usado cavalos
ou outros animais de montaria, embora pareça óbvio que tivesse monta-
do jumentos em suas longas viagens.
- A rota romana de estradas que ligavam as nações do império entre si.
Até em solo português, no extremo ocidental do Império, há vestígios de
uma estrada romana.
- A língua comum no império romano - o grego - para escrever as suas
cartas.
- A moeda comum - o denário - para comercializar as tendas que ele fa-
bricava e com que se sustentava. Se hoje admiramos o euro como novida-
de no mercado comum europeu, já no tempo de Paulo havia a moeda
comum na Europa, o denário.

80 Vox CONCORDIANA
-----------------------CULTO DEAçAO
DEGRAÇAS

Esta é a primeira lição sobre o "ide": usar os meios disponíveis para


que a pregação chegue mais rápido e melhor até às pessoas. Desde o tem-
po do apóstolo Paulo, surgiram muitos outros meios para pregar a Pala~
vra de Deus:
- Em 1450, Guttenberg inventou a imprensa com tipos ou letras móveis. O
sistema evoluiu até chegar hoje à impressão Iaser, pelo computador.
- Em 1876 foi inventado o telefone, que evolui até chegar ao celular.
- Em 1890 foi inventado o rádio.
- En:l1920 começaram os primeiros passos da televisão.
E CPTN usa todos esses meios para pregar o evangelho a toda cria-
tura:
- A imprensa e o computador para a edição de livretes. CPTN já tem mais
de 30 títulos diferentes de livretes. Distribui mais de 100 millivretes por
ano, um a um ao ouvintes ou em nÚmero maior às congregações que, por
sua vez, distribuem um a um em sua atividade missionário..
- O rádio para transmitir mensagens diárias de 5 Minutos e 30 segundos.
CPTN mantém programas de 5 minutos em cerca de 30 emissoras espa-
lhadas pelo Brasil e mais de 100 emissoras pagas por congregações ou
grupos que transmitem programas criados por CPTN.
- O telefone para anunciar mensagens de 2 minutos, para aconselhamento
espiritual, e para atender pedidos de literatura. São 300 a 400 ligações
telefônicas por dia que recebemos de pessoas pedindo ajuda. Todas as
ligações passam pela Karin, que as distribui entre os demais atendentes.
O grande volume de ligações obrigou a adoção de um aparelho que per-
mite a atendente ter as mãos livres para digitar os dados do interlocutor
no computador ao mesmo tempo em que fala com ele.
- A televisão para apresentação de fitas com histórias instrutivas sobre a
Palavra de Deus. Filmes e desenhos animados produzidos pela Lutheran
Television.
- O computador para, via internet, informar e transmitir mensagens por
escrito e também a viva voz.
Assim o evangelho vem sendo pregado por todos os meios de comu-
nicação disponíveis. O apóstolo Paulo, como os demais apóstolos, não
dispunham de todos esses recursos que permitem chegar instantaneamente
a todos os recantos do mundo como temos hoje. Mas ele dispunha de urna
outra força: é que cada convertido se tornava um anunciador do evange-
lho. Assim, nos primeiros 30 anos da história do cristianismo, entre a as-
censão de Jesus, no ano 33, e a morte de Paulo, no ano 64/ foi crescendo

VOLUME 16 e NÚMERO 1e ANO 2001 81


LITURGIA----------------------------------

um exército de pessoas falando de Cristo para a família, para os vizinhos


e para quem encontrassem na estrada. Nesses anos a semente do evange-
lho chegou a toda Europa e a Ásia Menor. Nunca mais a igreja cresceu
tanto em tão pouco tempo.
A segunda lição que o "ide" ensina é a mobilização da igreja. Quando
nós falamos que CPTN usa os meios disponíveis para anunciar o evange-
lho, não estamos querendo dizer que CPTN é um organização que fica de
um lado e que a igreja, vocês, ficam do outro lado. Não. O evangelho nos
mobiliza a todos nós. CPTN e os luteranos estão todos do mesmo lado,
empenhados na mesma luta, na mesma tarefa de ir. Nós todos nos deve-
mos sentir juntos nesta tarefa de fazer soar a voz do bom pastor Jesus no
meio confuso de mensagens que se ouvem hoje em dia!
É isto o que o cartaz comemorativo do domingo de CPTN divulgado
em toda IELE quer dizer: No meio da superstição, no meio da confusão de
vozes e de religiões que existem à nossa volta, nós todos devemos fazer
com que soe mais alto, mais claro e mais viva, a voz do bom pastor Jesus.
Como a igreja e CPTN, como esta congregação e CPTN, como vocês e
CPTN podem canlÍnhar juntos? Como vocês podem se posicionar do mes-
mo lado de CPTN para fazer soar sempre mais clara e mais forte a voz do
bom pastor Jesus?
Vocês o podem fazer orando por CPTN. Nós aprendemos desde crian-
ças em casa, e pelo exemplo desta congregação, que a oração a Deus em
favor de pessoas e instituições é uma parte da nossa vida cristã, é uma
forma de demonstrar solidariedade, interesse e responsabilidade pela vida
dos outros. Como organização empenhada na divulgação da Palavra de
Deus, CPTN não pode dispensar as orações de todos os luteranos, para
que Deus abençoe todos os esforços e todo empenho de CPTN. Orem pelo
projeto Seguimento que consiste em encaminhar ouvintes para a nossa igre-
ja mais próxima de onde eles residem. Orem pelo projeto representantes
que são as pessoas que representam CPTN diretamente nas congregações
da IELB.
Vocês podem caminhar ao lado de CPTN envolvendo-se nos projetos
que visam obter recursos para manter e continuar mantendo esta obra.
CPTN criou alguns projetos e continua criando outros, pelos quais as pes-
soas podem ofertar diretamente para temas de seu interesse. O projeto Leia
e Creia permite ofertar para ajudar a manter a produção de literatura. O
projeto Amigo do Aluno permite ofertar para ajudar a manter alunos a cur-
sar um dos cursos bíblicos por correspondência. O projeto Conselho permi-

82 Vox CONCORDIANA
------------------------CULTO DEAçÃo DEGRAÇAS

te ofertar para ajudar a manter o programa de atendimento espiritual fei-


to pelos pastores junto aos ouvintes por telefone, carta e internet. O projeto
Transfor771lIllâo Vidas permite ofertar para a manutenção da pregação do
evangelho transformador pelo rádio.
Vocês podem caminhar junto com CPTN envolvendo-se no trabalho
de volzl7ltariado e ajudar no atendimento de mais de 300 ligações telefôni-
cas por dia, para envelopar o mesmo número de cartas por dia ou mais de
1000 quando é expedido o livre te Cinco Minutos com Jesus contendo men-
sagens diárias.
Mas, para que tudo isso? Esta é a Última lição do "ide"! Tudo isso é
para que "quem crer e for batizado será salvo!" Pode haver motivo mais
justificável do que esse? É a salvação eterna que está em jogo! É a salvação
eterna que resulta da fé de quem ouve a voz do bom pastor Jesus. Mas,
como poderão ouvir se não formos pregar? Como poderão ouvir se não
formos pregar? Amém.

NOSSA RESPOSTA AO AMOR DE DEUS

Ofertando-nos a nós mesmos a Deus

C (canta): Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espí-


rito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu
Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação e sustém-me com
um voluntário espírito. Amém.

Confissão de fé

Creio em ti, Senhor, criador todo-poderoso. Do nada tudo trouxeste à


existência. Todos os seres te louvam, e eu também entre eles me incluo. A
vida que me deste é mui bela. Quão sábio tu és! Extasiado diante de ti me
inclino com reverência. Contudo te chamo de Pai.
Creio em ti, Jesus Cristo, filho do Pai, eterno, que por terno amor
desceste de tua glória vindo revestir-te de nossa frágil e mortal natureza,
para assinl te glorificares ao vencer diabo, morte e inferno. Senhor te tor-
naste, senhor tu és, senhor serás sobre tudo e sobre todos. A ti engrande-
cem anjos, potestades e poderes. E eu, agraciado com tua santa morte e
ressurreição, me junto a eles e te chamo meu pastor e salvador.

VOUL\JE 16 • NÚMERO 1 • ANO 2001 83


LnURGIA-------------------------------

Creio em ti, Santo Espírito, consolador, que a fé me deste e assim em


Jesus me santificaste e a ele me guias noite e dia. Sei que sem tua interven-
ção jamais teria conhecido meu querido Deus, triÚno, em quem confio e
em quem deposito a minha esperança e alegria. Â ti chamo de meu mestre
e ensina dor.
Ó Deus Triúno, és o Único Deus, não duvido. Creio em ti e por isso
vivo feliz. Amém.

Testemunhos CPTN

CPTN a serviço da Igreja

Recolhimento das ofertas: Canto do hin.o que segue durante o recolhi-


mento.

1. Chuvas de bênçãos teremos; é a promessa de Deus.


Tempos benditos veremos. Chuvas de bênçãos dos céus.
Chuvas de bênçãos, chuvas de bênçãos dos céus;
Gotas somente nós temos. Chuvas rogamos a Deus

2. Chuvas de bênçãos teremos vida de paz e perdã.o.


Os pecadores indignos graça dos céus obterão.
Chuvas de bênçãos, chuvas de bênçãos dos céus,
Gotas somente nós temos. Chuvas rogamos a Deus

Oração

Saudação: Todos os presentes ao culto e; em especial, os visitantes são


saudados.

Celebração da Santa Ceia: Compartilhamos do corpo e do sangue de Cristo


sob o pão e o vinho.

Consagraçã_o dos elementos para a Ceia do Senhor

Distribuição: Canto dos hinos 324, 293, 289 e 260 do Hinário Luterano du-
rante a distribuição.

84 Vox CONCORDIANA
----------------------------CULTO DE AçÃo DE GRAÇAS

EXALTAÇÃO (após a distribuição)

o: Agradeçam ao Deus eterno, anunciem a sua grandeza


e conten:l aos seus amigos, vizinhos, colegas e familiares o que ele fez!
C: '/Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos!" (At
4.20)
O: Da mesma forma, nós também queremos ir:
C: Vamos! Divulguemos a Boa Notícia de Jesus!
Vamos! Convidemos outros para virem adorar o Salvador conosco!
Vamos! Vivamos na presença constante de nosso Deus!
Cantemos louvores a ele, falemos das coisas maravilhosas que ele tem
feito.
O: Tenham orgulho do seu norne!
C: Que todos os que adoram fiquem contentes e exuItem ao Deus Eterno!
C (canta):9 Exultantes te adoramos, Deus da glória, Deus do amor.
De Jesus o amor divino demonstrou-nos teu favor.
Este culto abençoado, confortado nos deixou.
Todos nós, os resgatados, proclamemos seu amor!

Bênção

Hino final

1. Mestre! O mar se revolta, as ondas nos dão pavor!


O céu se reveste de trevas. Não temos UIll. Salvador!
Não se te dá que morramos? Podes assim dormir,
se a cada momento nos vemos, sim, prestes a submergir?
As ondas atendem ao meu mandar: Sossegai!
Seja o encapelado mar, a ira dos homens, o gênio do mal,
tais águas não podem a nautragar, que leva o Senhor, Rei dos céu e mar!
Pois todos ouvem. o meu mandar: sossegai! sossegai!
Convosco estou para vos salvar; sim, sossegai!

9 Hilllirio Luiemilo, no. 189.

O~
VOLUME 16 ••NÍlMERO 1 e ANO 2001 o~
LITURGIA-----------------------------------

2. Mestre, na minha tristeza, estou quase a sucumbir;


a dor que perturba minha alma, eu peço-te, vem banir!
De ondas do mal que me encobrem, quem me fará sair?
Pereço, sem ti, Ó meu Mestre! Vem logo, vem me acudir!
As ondas atendem ao meu mandar: Sossegai!
Seja o encapelado mar, a ira dos homens, o gênio do mal,
tais águas não podem a nautragar, que leva o Senhor, Rei dos céu e mar!
Pois todos ouvem o meu mandar: sossegai! sossegai!
Convosco estou para vos salvar; sim, sossegai!

3. Mestre, chegou a bonança, em paz vejo o céu e o mar!


O meu coração goza calma que não poderá findar.
Fica comigo, ó meu Mestre, dono da terra e céu,
e assim chegarei bem seguro ao porto; destino meu.
As ondas atendem ao meu mandar: Sossegai!
Seja o encapelado mar, a ira dos homens, o gênio do mal,
tais águas não podem a nautragar, que leva o Senhor, Rei dos céu e mar!
Pois todos ouvem o meu mandar: sossegai! sossegai!
Convosco estou para vos salvar; sim, sossegai!

86 Vox CONCORDIANA
MÚSICAS PARA CORAIS

Neste número da Vox Concordiana oferecemos duas músicas para coro


com formações diferentes.
A música "Vem Jesus" é para coro nústo a quatro vozes, sendo a maior
parte para apenas duas vozes. É uma música fácil para os coros de con-
gregações. Pode ser acompanhada por violão, contrabaixo e teclado. Agra-
decemos ao rev. Romildo Wrasse pelo arranjo e por permitir a sua publi-
cação.
A música "Sê Fiel" é para coro a três vozes (coro feminino, masculino
ou infantil). A parte inicial é em uníssono, e só o estribilho é a três vozes, o
que torna este arranjo muito fácil de ser cantado. A parte escrita do violão
pode ser omitida, e em seu lugar podem ser tocadas as cifras anotadas
acima da melodia. Ou podem ser utilizados dois violões: um toca as cifras
e outro toca as notas escritas para este instrumento. Também podem ser
acrescentados um contrabaixo, teclado e percussão.

Raul Blum

VOW,,,"fE 16 • NtTMERO 1 • ANO 2001 87


MÚSICA---------------- _

Vem Jesus

N
Vaido Weber, i991 Valdo Weber,1991

j !: ,Ti 'nj:; !í
~ ' 'i " '.'--', ;: ; : l :" ' I

s/c ~ ~ . J+~~j+ F D G", F Rl'F""" JW,=. 1994

T/E -1

~ Vem, Je - sus San -to Deus, m; -nha vi - d:a- ben - ço - ar,


~
Vem, .Te - sus, - to Deus, ffil ilha vi -da a -:;-en - ç-O ar>

ri Am

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~ - '
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me gU! - ar.
ar. Se - gu -ro_es- tüu~ pro - mes - 58
me gUi- ;
;9-
~)li: 1
·1 ,<o;:
:-j!E

ho - Je t; sem pre Se - gu -fO es -tou ..

Dm I\m G F G

sus me faz:"Mi -nha paz te doü. "Gra - to sou. ó meu

,.que Je sus me faz. Hpaz te dou" ..sou, Ó meu bom Se-

Dm c F
;
~ j
...
;-1' .. ..: ",. li<!

ce -les -tiai. me gua- da do mal e fa -zemeus pes an-

~:-~----'
,
! ~ 11 J

ahor. o Pai, me guar - da do ma!. ...an -

~i C F G

ti0.:::::
.' t#., ••
--'- .. ..
i

~
I', aar em
- ,
l.U - a iuz. Em no -me de Jc - sus. .À. - mém.

-I ~): J r~'r' .~. s'


dar em tu - a luz.

88 Vox CONCORDIANA
--------------------------------MÚSICA

Sê Fiel
(Para três vozes iguais)
Valdo Weber,I991
Letra: Autor Desconhecido iv1úslca: Amor Desconhecido
1: Arr. Rl:;'Tlildo Wrasse, 1994
Arr .. Raul Bium, i991
F
~•• ~ J I ~ Jt-~ aI/to uníssol/o F C7

Vozes ~ ~ ~ t ;;. • ,r:. li .:: ~~ J -::- •• :: # fi:


~ i~ r~~
vi -da a -bén - - ço . Sê fi-el,

Ao fin-dar
meua-rrll
. Se o mun - do qUi-Séf
sor.{c ouna dor, sê fi ·e!
-3 ai - ma ten {ar,
es-ta '.! ~ da. não te-nhas te-mor,
a Je- sus
es-ta- íás
a Jc-sus, teu Se-
é que de - YeSbus-
com o teu Saj ..va-
ar,

v;,,," (~
mes - 53 F F

;-~
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_ gu -[O es -tou ...

F G

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Ó meu bom Se - = ~ - """": ~
Três vozes T~--'íf
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VOLUME 16 e NúMERO 1 e ANO 2001 89
Vox CONCORDIflNA
Rega, Lourenço Stelio. Dando um Jeito no Jeitinho. São Paulo, Editora
Mundo Cristão, 2000, 244 pp.

o autor. O professor Lourenço Stelio Rega, amigo pessoal, é admira-


do especialmente pelo seu trabalho como escritor, diretor de seminário
teológico e participante colaborador da ASTE. Dando um Jeito no Jeitinho é
fruto de sua tese de mestrado em ética. Sua questão norteadora está ex-
pressa no complemento do título de sua obra: como ser ético sem deixar de
ser brasileiro. Nesta resenha pretendemos realçar alguns pensamentos de
sua obra ..

O que é o jeitinho. Rega, desenvolvendo vasta e profunda pesquisa


do tema, reÚne depoimentos de diversos escolásticos na área da ética.
Com base nos mesmos, afirma que o jeitinho é uma resposta ou reação
a uma situação que não se queira ou não se possa enfrentar. É um tipo
de código, modo de vida, palavra-chave, "abre-te Sésamo" para situa-
ções difíceis ou incontornáveis por caminhos legítimos: "Ê se livrar de
uma situação; é fazer com que as coisas andem de acordo com os dese-
jos de alguém; é fechar os olhos para as situações que podem prejudi-
car o indivíduo; é contornar as normas; é tirar vantagem de uma sitdu-
ação; enfim, é abrir caminho para que as coisas aconteçam como se
gostaria." (p. 48)
O jeitinho está em quase todas as dimensões da vida do brasileiro. Ê
um ato inconsciente, um modo de navegação social diante do autoritaris-
mo "não pode" (Da Matta); "é a imposição do eu contra as normas ou
situações desagradáveis" (p. 59). "Ê tanto uma força integradora como
desintegradora da nação brasileira" (p. 193).

Como se manifesta o jeitinho na cultura brasileira. O jeito é criativo, tem


aspectos positivos, negativos e conciliatórios que precisam ser claramente
distinguidos. Cria hábitos, e esses se manifestam das mais diferentes ma-

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RESENHA BIBLIOGRÁFICA -------------------------

neiras nos relacionamentos sociais. Rega apresenta quatro formas negati-


vas do jeito. Primeiro, ele é um meio ilícito de resolver problemas. Para o
brasileiro, parece que leis são criadas não para serem obedecidas. Segun-
do, o jeito é individualist: "ê o culto à autonomia hl.:Imana que não se do-
bra à imposição da lei; o homem é dono de sua própria sorte e crê que até
Deus o perdoará" (p. 81). Terceiro, o jeito só pensa no aqui e agora, é ime-
diatista. Quarto, o jeito e a corrupção andam de mãos dadas. Embora res-
peitando a pessoa do despachante brasileiro, Rega afirma que, por causa
da inconsistência das leis, o mesmo torna-se uma espécie de sacerdote,
mediador entre as temíveis autoridades e o indefeso cidadão (p. 89). Atra-
vés do despachante o povo brasileiro se vê no direito de usar o jeito. Este
se institucionalizou na cultura brasileira. O jeito está no centro de um aro
de uma roda, e íntimamente ligado a quatro segmentos. Procura dar-se
um jeito em tudo por causa do descaso das autoridades públicas com res-
peito às necessidades humanas básicas. Esse descaso leva o cidadão ao
direito de transgredir normas. Transgressão gera corrupção e esta leva à
impunidade.

É possível dar 11m jeito no jeitinho brasileiro? Na segunda parte de sua


obra Rega apresenta algumas alternativas para se lidar com o jeitinho.
Estas alternativas podem ser encontradas em três níveis: igreja, vida pes-
soal e relacionamento social. O papel do evangelho e da igreja, a busca de
um modelo pessoal de conduta ética e o papel do cristão na sociedade são
elementos fundamentais e determinantes no tratamento do jeitinho. Afir-
ma Rega: "O recurso do jeitinho quando é produto do individualismo, do
egoísmo, do 'levar vantagem' sobre os outros, do comodismo, da trans-
gressão à lei, deve ser considerado um ato que desagrada ao Criador. Na
linguagem teológica isso é chamado de pecado. A fonte deste diagnóstico
é a Bíblia; em que se encontram os ideais de Deus para o viver cristão. É o
ideal ético divino. fi (p. 133)
Somente o evangelho pode mudar o coração e a vida da pessoa. A
igreja - através da instrução, da mutualidade e voluntariedade, da comu-
nhão e da evangelização - é o lugar por excelência para se sobrevier às
demandas do jeito e de preparo da pessoa para tornar-se o bom fermento
na sociedade.
Rega apresenta três modelos bíblicos para lidar-se com o jeitinho:
estabelecimento de liderança para tratar com as gerações futuras; o "jeiti-
nho" do concílio de Jerusalém (At 15) com preceitos éticos provisórios

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-------------------------- RESENHA BIBLIOGRÁFICA

para atender a uma situação temporária, sem perder o ideal divino, vol~
tando-se depois à normalidade; e, dando-se um jeito na escravidão (lCo
7.22; G13.28).
Finalmente Rega propõe o que ele denonÜna ética temporal ascen-
dente (ETA). Esta se localiza entre o ideal ético divino e a realidade moral
vivida. Trata~se de uma ética intermediária, temporária; provisória, que
não pode perder de vista o ideal divino. A ETA não deve ser incentivada
ou encorajada, uma vez que ela mesma é transitória e desvanece quando
o ideal divino é alcançado. Numa comparação entre a ETA e o jeito, assim
se expressa Rega: "O jeito tende a acomodar~se a uma situação sem mirar
os ideais elevados, como a ETA. A motivação do jeito tende a ser o indivi-
dualismo, a motivação da ETA é servir a Deus. A ETA é uma ética de com~
promisso con1 o Evangelho, o jeito é uma conduta de compromisso com a
pessoa. A ETi\ é fruto do caráter cristão desejoso de concretizar a vontade
de Deus, o jeito pode ser fruto do caráter egoísta que quer concretizar a
vontade própria da pessoa. o jeito perpetua o pecado, a ETA reaje contra o
pecado." (p. 157)
A ETA seria como que uma saída de emergência, uma alternativa
possíveL mas que não ofenda a Deus, corrompa a ética cristã ou leve o
cristão ao comodismo e conforto ou à busca de soluções fáceis em negli~
gência à fé ativa no amor. Segundo Rega, o estágio transitório da ETA não
pode se tornar permanente. ETA não é moeda corrente, mas alternativa
para uma última instância.

Conclusão. Rega nos traz profundas reflexões em torno do tema pro-


posto. Incentiva os cristãos na busca e vivência dos paradigmas éticos
bíblicos para a vida atual em sociedade. Talvez maior ênfase devesse ser
dada ainda à radicalidade do evangelho de Cristo. Com Cristo não há
meio termo, não há ética intermediária. É por causa da pecaminosidade
do homem e não por causa de Cristo que propostas de éticas intermediá~
rias são oferecidas. Não se está fazendo favores a Cristo quando caminhos
éticos alternativos são procurados. Pelo contrário, isto mostra ainda mais
a pecaminosidade do homem, seu afastamento de Deus. O homem natu-
ral está sob a maldição da lei, não há meio termo. Ao tratar com os fari-
seus sobre a ETA do divórcio (Mt 19) Jesus é radical: 'Tor causa da dureza
do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres;
entretanto, não foi assim desde o princípio" (v. 8). Jesus ainda afirma: "Seja,
porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar; verrt do ma-

VOLWvIE 16 ••NÜtvIERO 1 ••ANO 2001 93


RESENHA BIBLIOGRÁFICA -------------------------

ligno" (Mt 5.37). Ênfase também se faz necessária no amor e perdão de


Deus garantido ao pecador através de Cristo. Esse amor e perdão são ofe-
recidos gratuitamente e motivam o cristão a viver vida ética digna na so-
ciedade. A ética bíblica cristã é produzida unicamente pelo Espírito Santo
através da Palavra de Deus. Esta pode oferecer ao cristão padrões éticos
dignos. Está disponível a todos e orienta no tratamento do jeitinho brasi-
leiro.
Na introdução e conclusão Rega convida internautas para continua-
rem escrevendo a sua obra, sintonizados com o desenvolvimento de sua
pesquisa e se atualizando quanto ao tema. Isto pode ser feito através de
visita e envio de mensagens para os seguintes sites: <http:/ /
www.etica.pro.br/jeitinho> ou <http://jeitinho.webjump.com>.

Leonardo Neitzel

94 Vox CONCORDIANA
Editora Concórdia:

Meus Amigos na Bíblia - Histórias Selecionadas do Antigo Testamento - Atividades


e Desenhos para Colorir. 2000. Porto Alegre, Concórdia, vaI. 1.

Meus Amigos na B{blia - Histórias Selecionadas no Novo Testamento - Atividades


e Desenhos para Colorir, 2000. Porto Alegre, Concórdia, vaI. 2.

Com Jesus: Auxtlios para a Escola Dominical: 2001- Agosto a Novembro: Missão
de Deus - Desafio da Igreja. 2001. Porto Alegre, Concórdia.

Sonho Feito Realidade - Livro de Poesias. 2001. Porto Alegre, Concórdia.

Aadsen, Lori Hayes e Sonnenberg, Roger. 2000. O Toque do Mestre - Vivendo


com Pouco Tempo. Porto Alegre, Concórdia.

Harre, Alan F. 2001. Feche a Porta dos Fundos: Bases e Meios para Uma Vida
Congregacional Efetiva e Acolhedora. Porto Alegre, Concórdia.

Juventude Evangélica Luterana do Brasil, ed .. 2000. Liderança: Dicas para


Trabalho em Grupo Eficaz e Particípativo. Porto Alegre, Concórdia.

Juventude Evangélica Luterana do Brasil. 2001. Celebrai. Porto Alegre,


Concórdia.

Juventude Evangélica Luterana do Brasil. 2001. Forte em Santa União:


Caderno de Estudos - Julho a Novembro. Porto Alegre, Concórdia.

Mathers, Debra. 2001. O Toque de Mestre: Livrando da Culpa. Porto Alegre,


Concórdia.

Editoras Concórdia e Sinodal:


Lutero, Martim. 2001. Como Reconhecer a Igreja: Dos Condlios e da Igreja -
Terceira Parte, coleção Lutero para Hoje. São Leopoldo e Porto Alegre,
Sinodal e Concórdia.

VOLUME 16 • NCrMERo 1 • ANO 2001 95


LIVROS RECEBIDOS --------------------------.--

Lutero, Martim. 2001. Economia e Ética: Comércio e Usura, Primeira Parte,


coleçào Lutero para Hoje. São Leopoldo e Porto Alegre, Sinoelal e
Concórdia.

Concordia Publishing Rouse:


Bouman, Herbert J. A. 2001. Las Iglesias de Nuestms Dias. Saint Louis,
Editorial Concordia.

Editora Sinodal:
Frederico, Denise Cordeiro de Souza. 2001. Cantos para o Culto Cristão:
Critérios de Seleção a Partir da Tensão entre Tradição e Contemporaneidade.
Sào Leopoldo, Sinodal e lEPG.
Junghans, HeImar. 2001. Temas da Teologia de Lutem. São Leopoldo, Sinodal
e lEPG.

Editora da ULBRA:
Histórias da Bíblia. Porto Alegre, Ulbra.
Histórias da Bfblia: Auxílios Didáticos. Porto Alegre, VIbra.
Histórias da Brblia: Auxílios Didáticos. Porto Alegre, UIbra. '101. 2.

Editora Paulus:
Eusébio, Bispo de Cesaréia. 2000. História Eclesiástica, série Patrística 15.
São Paulo, Paulus.
'Iv. AA. 2000. Curso de Verão, Ano XIV: Construir e Celebrar a Justiça e a Paz
em Tempos de Exclusão e Violência, coleção Teologia Popular. São Paulo,
Paulus,

96 Vox CONCORDIANA
--------------------------LIVROS RECEBIDOS

Edições Vida Nova:


Collins, Gary R. 2000. Ajudando Uns aos Outros pelo Aconselhamento. São
Paulo, Vida Nova.

Edições Independentes:
Ação Diaconal: uma reflexão no contexto nordestino, série Ler para Servir. 2000.
Recife, Paadi.

Bergesch, Karen. 2000. Poder e Saber em Michel Foucault. São Bernardo do


Campo, IEPG.
Bunkowske, Eugene W. ed. 2000. The Lutherans In Mission: Essays in Honor
of Won Youn Ji. Fort Wayne, Lutheran Society for Missiology.

Kich, Bruno Canísio. 1998. Isto é São Leopoldo: A História e Muitas Histórias.
Porto Alegre, Renascença.
Kich, Bruno Canísio. 2001. Pensando em Deus como Amigo. Campinas, Agá
Juris Editora.
Matthews, Dale A. e Clark, Connie. 1998. The Faith Factor: Proof of the Healing
Power of Prayer. New York, Viking Penguin. (Com gratidão ao Rev.
Gilvan de Azevedo pela doação.)
Wille, Leopoldo. 2000. Igreja Evangélica Luterana "São João": Um Pouco de
História. Pelotas, Gráfica Pinto.

VOLUME 16 • NÍlMERO 1 • ANO 2001 97


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