Você está na página 1de 17

1

CAPÍTULO

Eddie Dangerous/Acervo do fotógrafo


Grafite de Banksy. Foto de 2008.

Neste capítulo
vamos discutir:

E
1 A construção scolhemos iniciar esta unidade por um fato que
do pensamento marcou a História: o encontro, a partir do século XVI,
antropológico entre os europeus e as sociedades das Américas,
2 Parentesco e da África e da Ásia, que os europeus até então
propriedade: desconheciam.
modos de Por que escolhemos esse momento? Porque o contato
organização entre essas civilizações possibilitou a construção do siste-
social ma social que predomina no mundo atual. Muito mais tarde,
3 Sociedades no século XIX, o próprio nascimento das Ciências Sociais
indígenas e teve origem na reflexão sobre o encontro entre diferentes
o mundo culturas e suas consequências.
contemporâneo Inicialmente, vamos tomar como base os modelos que
4 Mitos, narrativas os europeus utilizaram para pensar os nativos daqueles lu-
e estruturalismo gares que consideravam “distantes”. A partir dessa visão
5 Populações de mundo, vamos refletir sobre as diferenças — sociais,
indígenas no culturais, étnicas, políticas, entre outras —, um tema funda-
Brasil mental para entender as sociedades de um ponto de vista
antropológico.

28
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 28 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

1. A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO LÉXICO


O avanço colonialista europeu sobre as Américas, grande parte da África,
Ásia e Oceania, empreendido a partir do século XVI, não resultou apenas em colonialismo: sistema
dominações. Esses encontros geraram relatos de viagem, narrativas descriti- ou orientação política
de que uma nação
vas, investigações e todo tipo de documentos históricos sobre as populações
lança mão para manter
nativas até então desconhecidas pelos dominadores. Essas informações fo-
sob seu domínio os
ram produzidas desde o começo das explorações europeias, mas só no sécu-
destinos de outra,
lo XIX, com o avanço do imperialismo europeu, foram sistematizadas por
procurando submetê-la
meio de estudos científicos.
nos setores econômico,
Essa documentação sobre populações nativas diversas, somada ao interesse
político e cultural.
das sociedades colonialistas em ampliar suas formas de dominação, gerou a pro-
imperialismo:
dução de um conhecimento que hoje chamamos de antropológico. A busca des- política de expansão
se conhecimento revela a necessidade de um novo olhar sobre aquelas popula- e domínio territorial e/
ções a fim de conhecê-las melhor. E conhecê-las melhor para quê? A resposta a ou econômico de uma
essa questão tem dois lados: um prático e um científico. nação sobre outras.
De um lado, administradores coloniais, missionários religiosos e comerciantes
(agentes das conquistas realizadas entre os séculos XVI e XIX) tinham interesse
prático em conhecer melhor os “primitivos”. Para os administradores coloniais,
isso ajudava a dominá-los; para os missionários, ajudava a convertê-los; e para os
comerciantes, ajudava a produzir riquezas em benefício próprio a partir do en-
contro com os “selvagens”.

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO?


Você consegue imaginar como é possível lucrar com o conhecimento sobre populações nativas? Uma
forma muito comum de produzir riqueza a partir do encontro é simplesmente obrigar os nativos a tra-
balhar para o colonizador. A avidez dos colonizadores espanhóis na América produziu o extermínio de
milhares de indígenas, que, forçados a trabalhar em minas de prata, não tinham mais como se dedicar
a lavouras, o que gerou fome e a morte de milhares de pessoas.

Por outro lado, os cientistas que passaram a estudar essas populações a par-
tir do século XIX pretendiam entender a história da humanidade. Para eles, co-
nhecer as sociedades que chamavam de primitivas funcionava como um labora-
tório: quando olhavam para o presente daquelas populações, acreditavam estar
desvendando o passado da humanidade.
Os cientistas tentaram sistematizar o conhecimento das populações ditas sel-
vagens em narrativas que podem ser consideradas histórias de evolução: imagi-
ne uma escada na qual as sociedades são organizadas da “mais simples” para a
“mais complexa”. Aqueles intelectuais olhavam para os dados coletados pela em-
preitada colonial, determinavam quais sociedades consideravam mais simples e
quais seriam mais complexas e as distribuíam em uma escada evolutiva. A ilus-
tração da página seguinte mostra uma dessas narrativas de evolução, criada
pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan (1818-1881), que divide
a história da humanidade em três etapas: selvageria, barbárie e civilização.
Morgan foi um dos principais teóricos desse momento do conhecimento an-
tropológico. Entre outros intelectuais fundamentais, podemos citar o inglês Veja na seção
Edward B. Tylor (1832-1917) e o escocês James G. Frazer (1854-1941). Cada um BIOGRAFIAS quem
narrou à sua maneira a história de evolução, sem chegar a um acordo sobre a po- são Lewis Henry
sição de cada sociedade nos degraus da escada evolutiva e sobre as linhas evo- Morgan (1818-1881),
lutivas da humanidade. Edward B. Tylor
Entretanto, apesar das discordâncias, todos esses autores partiam da ideia de (1832-1917) e James
progresso. Ou seja, pressupunham que as diferentes sociedades sempre avança- G. Frazer (1854-1941).
vam em direção à civilização.

29
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 29 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

A evolução da humanidade segundo L. H. Morgan (século XIX)

Reprodução/Arquivo da editora
SELVAGERIA BARBÁRIE CIVILIZAÇÃO
Fonte: Organizado pelos autores para fins didáticos.

� ASSIM FALOU... JAMES FRAZER


[...] um selvagem está para um homem civili-
zado assim como uma criança está para um
ra, é claro, não exatamente —, o caminho que os
ancestrais das raças mais elevadas devem ter
adulto; e, exatamente como o crescimento gra- trilhado em seu progresso ascendente, através
dual da inteligência de uma criança correspon- da barbárie até a civilização. Em suma, a selva-
de ao crescimento gradual da inteligência da geria é a condição primitiva da humanidade, e,
espécie […], assim também um estudo da socie- se quisermos entender o que era o homem pri-
dade selvagem em vários estágios de evolução mitivo, temos de saber o que é o homem selva-
permite-nos seguir, aproximadamente — embo- gem hoje. 1

1
FRAZER, James George. O escopo da antropologia social. In: CASTRO, Celso (Org.). Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 107-108.

30
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 30 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO?


Um estudo das sociedades orientado pela noção de progresso implica diver-
sas conclusões hoje repudiadas pelas Ciências Sociais:
� Se toda sociedade evolui da mesma forma, a diferença entre umas e ou-
tras poderia ser explicada pela “dedicação à evolução”. Algumas teriam
andado mais rápido, outras teriam preferido, “preguiçosamente”, deixar a
evolução seguir mais lentamente.
� Se todas as sociedades seguiram os mesmos passos, olhar para qualquer
sociedade diferente da ocidental seria olhar para o passado da humanida-
de. As sociedades ditas selvagens apareceriam como autênticos “museus
vivos”.
� Se todas as sociedades seguirão pelos mesmos caminhos, caberia às
“mais avançadas” adiantar o processo das “mais atrasadas”. Isso faz com
que o colonialismo seja visto como uma ação de solidariedade aos po-
vos “atrasados”, que poderiam atingir estágios mais adiantados justa-
mente por meio da dominação ocidental.

Aqui surge uma questão que deve nos acompanhar por todo o livro: para que
serve o conhecimento produzido pelas Ciências Sociais? Entre muitas respostas
possíveis, vamos começar pela mais dura: para dominar. Veremos, por outro lado,
que esse mesmo conhecimento também gerou, por exemplo, defensores dos di-
reitos de populações em risco, como as indígenas.
O evolucionismo social (nome dado às teorias que se apoiam em narrativas de
evolução) funcionava ao mesmo tempo como explicação da evolução da huma- Veja na seção
nidade e como justificativa para a dominação exercida pelos europeus. Para mui- BIOGRAFIAS quem
tos, as teorias do evolucionismo social não passam de ironia, como se o domina- é Herbert Spencer
dor dissesse ao dominado: “Não é bem uma dominação; estamos apenas (1820-1903).
civilizando, e isso é um favor”.

+ PARA SABER MAIS � Evolucionismo × darwinismo social


O evolucionismo social é comumente asso- cionando heranças fisiológicas a distintas ca-
ciado ao evolucionismo biológico, proposto pacidades intelectuais e qualidades morais.
por Charles Darwin (1809-1882), que defen- A miscigenação deveria ser evitada, já que a
dia uma evolução pela melhor adaptação mistura traria decadência racial e social.
ao ambiente. Os evolucionistas sociais de- Sempre privilegiando a “raça” branca, essas
fendiam a ideia de progresso, inspirados teorias serviram de justificativa para a domi-
pelo filósofo inglês H erber t Spencer nação colonial, da mesma forma que o evolu-
(1820-1903). Um conjunto de teorias elabo-
cionismo social.
radas na Inglaterra e nos Estados Unidos na
O darwinismo social também deu origem à
década de 1870 se tornou conhecido como
eugenia, teoria que busca produzir uma sele-
darwinismo social. Essas teorias defendiam
ção nos grupos humanos, com base em leis
a existência de diferenças fundamentais nos
grupos humanos, que se expressavam em genéticas. Essa teoria defende a ideia de se-
raças distintas. parar as raças e até mesmo eliminar aquelas
A noção de raça foi introduzida no século consideradas inferiores. Com base nesses
XIX pelo naturalista francês Georges Cuvier princípios, políticas eugênicas foram instau-
(1769-1832), que dividiu a humanidade em radas em vários países, incentivando a sepa-
três raças: caucasiana, etíope e mongólica ração entre as raças, proibindo casamentos
(branca, negra e amarela). Outros autores te- inter-raciais e incitando todo tipo de exclu-
ceram variações dessa teoria, sempre rela- são racial.

31
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 31 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

Fotos: Hergé/IPRESS
Capa da primeira edição
brasileira, Editora
Record, 1970.

Nesta imagem da história em quadrinhos Tintim na África, do cartunista belga Hergé (1907-1983),
vemos o final da narrativa, quando Tintim parte do país africano após “ensinar” muito aos congoleses.
Observe que há até um totem ou altar erigido a Tintim e ao seu cão, Milu.
A figura é representativa do evolucionismo social, pois coloca no centro aquele que criou essa teoria:
o europeu branco.

Os adeptos das teorias evolucionistas estavam convictos de que a escalada


para o progresso só poderia se dar em um sentido: os europeus eram os civiliza-
dos e todos os demais eram atrasados.
Essa teoria depende da ideia de progresso, mas o que define o progresso? Do
ponto de vista dos intelectuais do século XIX, um dos critérios seria o progresso
tecnológico. Embora pareça justo, esse critério é tão arbitrário como qualquer
outro. Foi adotado porque parecia evidente, mas veremos neste livro que nada é
“evidente”, sempre podemos questionar supostas evidências.

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO?


O progresso tecnológico é central nas teorias evo- aquela que se organiza de modo a continuar exis-
lutivas justamente porque favorece quem as cons- tindo ao longo do tempo e cujo modo de vida não
truiu: os intelectuais europeus e norte-americanos. esgota os recursos naturais necessários para a
Mas como seria essa escala se fossem adotados sobrevivência de gerações futuras. Segundo esse
outros critérios? Vamos pensar, por exemplo, em critério, a sociedade ocidental capitalista não fica-
uma escala organizada pela ideia de “sustenta- ria no topo da escada e sociedades consideradas
bilidade”. Nessa escala, sociedade evoluída seria “atrasadas” passariam a ser avançadas.

32
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 32 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

O encontro com populações não europeias resultou tanto em LÉXICO


uma teoria sobre a história da humanidade como em justificativa
para a dominação pelos europeus. O que sustenta essa teoria e essa sociedades ocidentais:
justificativa é uma ideia de progresso que favorece as sociedades denominação geralmente atribuída a
ocidentais, por colocar no ápice da evolução aquilo que elas pró- um conjunto de sociedades europeias
prias consideram mais evoluído. Essa forma de pensar tem um (Inglaterra, França, Alemanha, por
nome: etnocentrismo. exemplo) mais Estados Unidos e
Canadá. É um termo muito flexível e
2. PARENTESCO E PROPRIEDADE: sua amplitude depende do contexto
MODOS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL histórico. Para muitos, trata-se das
sociedades derivadas da colonização
Vimos que as sociedades ocidentais construíram uma hierarquia
europeia (nesse caso, as sociedades
dos povos humanos, colocando-se no topo da escala. Além do pro-
latino-americanas seriam ocidentais).
gresso tecnológico, outro critério que fundamentou essa hierarqui-
Mas quando um intelectual
zação tem especial importância para as sociedades ocidentais.
europeu fala de “Ocidente” pode
Quem primeiro explicitou esse critério foi Lewis Henry Morgan,
não incluir nessa ideia a América
para quem a passagem da barbárie para a civilização se dava pela
Latina. Em outros momentos, fala-se
adoção da propriedade como modo de organização da vida de uma
população. Assim, desde o século XIX (Morgan publicou suas teo- em Ocidente em termos muito
rias por volta de 1877), o que definia uma sociedade avançada para gerais, contrastando-o com países
as sociedades ocidentais era a existência da propriedade privada. muçulmanos ou do “Oriente”. Neste
Mas que organização social possibilitou a propriedade privada? livro adotamos a concepção referente
Ao olhar para as sociedades ditas “primitivas”, os estudiosos eu- aos países hegemônicos da Europa
ropeus e estadunidenses do século XIX observaram que elas não desde o século XV somados a Estados
possuíam uma organização burocrática que centralizasse decisões. Unidos e Canadá.
Em outras palavras, não tinham algo parecido com o Estado. Como etnocentrismo: forma de pensar os
veremos na Unidade 3, o Estado é um elemento fundamental na or- “outros” (populações, povos, minorias)
ganização moderna do mundo. Para aqueles intelectuais, as socie- a partir de normas e valores de nossa
dades “primitivas” pareciam “desorganizadas”. própria sociedade ou cultura. Na
Intelectuais como Lewis Henry Morgan e o jurista britânico medida em que esses “outros” não
Henry Sumner Maine (1822-1888) elaboraram uma resposta a essa se encaixam em nossos valores, a
questão: o que possibilitava à sociedade “primitiva” se organizar era tendência é rejeitá-los como inferiores,
o parentesco. Mas o que seria o parentesco? Todas as sociedades primitivos, selvagens, excêntricos,
humanas estabelecem formas regulares de relações entre seus indi- etc. Ao adotar valores da própria
víduos. Tome seu próprio caso como exemplo: faça uma relação sociedade como parâmetro para
dos seus parentes. Eles serão categorizados como “primos”, “tios”, medir todas as demais, o pensamento
“pais”, “avós”, “cunhados”, “primos distantes”, e assim por diante. Es- etnocêntrico resulta em racismo e
sas são categorias de parentesco, elas traduzem um tipo específico preconceito de várias ordens (de
de relação entre as pessoas. gênero, étnico, etc.).
Nicole Stotzer/Arquivo da editora

Veja na seção
BIOGRAFIAS
quem é Henry
Sumner Maine
(1822-1888).

A árvore genealógica
é um recurso utilizado
em algumas sociedades
para expor um conjunto
de relações entre
pessoas: pais e filhos,
casamentos, irmãos,
primos, etc. Uma árvore
como esta (de 1955)
é um documento das
relações e também uma
forma de pensar essas
relações.

33
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 33 6/21/14 9:07 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

O que costumamos chamar de “família” nada mais é que um nome para um


sistema de parentesco. Nos sistemas de parentesco, além das categorias há tam-
bém papéis estabelecidos. Quando dizemos “mãe”, não nos referimos só a uma
posição em um sistema de relações, mas também a um papel específico. Ou seja,
atribuímos uma série de valores, obrigações e sensações a cada categoria de pa-
rentesco. Em determinadas sociedades, “mãe” significa não só a progenitora de
LÉXICO alguém, mas também uma pessoa a quem se deve respeito e de quem se espera
determinado comportamento.
matrilinear: relativo Qualquer sociedade no mundo produz algum tipo de parentesco. Porém, as
a, ou que envolve sociedades constroem o parentesco de formas diferentes entre si — e, portanto,
descendência pela linha diferentes daquela que a nossa sociedade escolheu (ou daquelas que a nossa so-
materna. ciedade escolheu, já que podemos ver vários modelos de família no Brasil). Há,
por exemplo, sociedades matrilineares, como a trobriandesa, localizada em Tro-
briand, um conjunto de ilhas próximo à Papua-Nova Guiné. Nessa sociedade, es-
tudada pelo antropólogo polonês Bronislaw Malinowski (Perfil no capítulo 3) na
década de 1910, as relações mais importantes se dão entre um filho e o irmão de
sua mãe (o que chamamos de tio materno), pois os filhos pertencem à “família”
do irmão da mãe. Em sociedades como essa, o pai pode não aparecer como che-
fe de família, papel que tradicionalmente desempenha em sociedades ocidentais.
No capítulo 3 veremos em detalhe o trabalho de Malinowski.

As ilhas Trobriand
150º L

0 410
km
Portal de Mapas/Arquivo da editora

PAPUA- ILHAS
-NOVA GUINÉ SALOMÃO

Biblioteca LSE/Arquivo da editora


Port Moresby
Honiara 10º S
Ilhas
AUSTRÁLIA Trobriand

Nesta foto de 1918, vemos


Malinowski entre os nativos
das ilhas Trobriand.

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO?


Por que seria importante pensar em parentesco relações que a princípio nos parecem “fugir da
se todo mundo já sabe como é sua família? É sim- normalidade”. Se existem tantos tipos de paren-
ples: quando pensamos em nossas relações fami- tesco, por que seria um problema um arranjo fa-
liares como apenas um entre vários tipos possí- miliar composto de um casal de homossexuais e
veis, podemos encarar com menos preconceito um filho, por exemplo?

34
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 34 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

Vimos que todas as sociedades têm algum sistema de parentesco, mas ape-
nas algumas estruturam seu modo de vida a partir desse sistema. Essas socieda-
des não têm Estado, mas seguem regras estipuladas nos sistemas de parentesco.
Em uma sociedade com Estado, diversas questões são resolvidas por um sistema
jurídico criado para regular a vida social. O Estado determina leis, as executa e
julga os que tentam burlá-las. Em sociedades sem Estado, não há sistemas jurídi-
cos separados; há conjuntos de regras relativas à ordem do parentesco e são elas
que permitem a vida em sociedade.
Para os intelectuais do século XIX, as sociedades organizadas pelo parentesco
representavam um estágio anterior de desenvolvimento; seriam mais simples,
mais primitivas. Para autores como Morgan e Frazer, a presença do Estado seria
definidora da passagem para a civilização. E essa passagem seria marcada, antes
de tudo, pela invenção da propriedade privada.
Nas sociedades organizadas pelo parentesco, não há a propriedade privada da
terra. As terras são de uso coletivo, também regulado pelas regras de parentesco.
A distribuição do que é produzido segue essas regras, que determinam com quem
se deve compartilhar algo e com quem não se deve. Quando alguém cerca um ter-
reno e afirma que aquele espaço lhe pertence, estabelece outro tipo de relação
com a terra e necessita garantir a existência dessa propriedade. Segundo os auto-
res do século XIX, a única forma de garantir a propriedade seria um poder central
com força para mantê-la.

Angeli/Jornal Folha de S.Paulo, 8.1.2008.


Assim, as teorias antropológicas
delimitaram a linha de evolução e a no-
ção de progresso a partir da existência
da propriedade privada da terra e da
presença do Estado.
Para sintetizar o pensamento dos in-
telectuais do século XIX, as sociedades
não ocidentais eram vistas como mais
simples, e quanto mais se organizassem
pelo parentesco, mais simples seriam
consideradas. Essa perspectiva impli-
cava uma série de preconceitos e es-
tereótipos: aquelas populações eram
vistas como atrasadas, inferiores e inte-
lectualmente incapazes. Paralelamente
a essa sistematização teórica, as práti-
cas colonialistas se basearam em um
imaginário sobre as sociedades “primi-
tivas” que legitimava o papel “civiliza-
dor” dos europeus. Para grande parte
dos agentes coloniais, a distinção entre
civilizados e primitivos também era de-
finida pela presença ou não da proprie-
dade e do Estado.
Nesta charge de 2008,
O neocolonialismo estabelecido ao longo do século XIX e início do século XX o cartunista Angeli trata
foi influenciado e legitimado pelas teorias evolutivas. As potências capitalistas (es- com ironia o conceito de
propriedade ao representar
pecialmente Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e Bélgica) avançaram
a terra já toda retalhada
por quase toda a África, por grandes porções da Ásia, como os territórios que hoje em lotes, inacessíveis à
chamamos de Índia, Paquistão, Bangladesh, Indonésia, e até por porções da China. família de agricultores que
supostamente deveria tirar
O discurso das nações imperialistas baseava-se na crença de uma “missão civiliza-
da terra o seu sustento.
tória”, adotando desde visões otimistas, que diziam ser possível levar os selvagens
diretamente para o estágio da civilização, até as mais pessimistas, que afirmavam
ser impossível “elevar” os selvagens, e que portanto a dominação seria sempre ne-
cessária a fim de que eles não degenerassem para estágios mais inferiores. Parte
dessas teorias adquiriu teor explicitamente racial, atribuindo capacidades cogniti-
vas distintas ao que consideravam raças humanas diferentes.

35
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 35 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

3. SOCIEDADES INDÍGENAS E O MUNDO CONTEMPORÂNEO


Desde o fim do século XIX, a própria Antropologia se dedicou a questionar os
LÉXICO modelos evolucionistas. O principal recurso para a construção dessa crítica foi o
cultura: conjunto conceito de cultura. No capítulo 2 veremos como esse conceito possibilitou o com-
de práticas e hábitos bate às hierarquias e preconceitos étnicos originados das teorias evolucionistas.
produzido por qualquer Por ora, vamos conhecer um “mecanismo” intelectual importante no entendimento
sociedade, desde as de experiências de vida muito distintas das nossas: o combate ao etnocentrismo.
técnicas de subsistência A partir do século XX, as teorias evolucionistas passaram a ser vistas pelos an-
até as preferências tropólogos como etnocêntricas, isto é, construídas com base em critérios válidos
estéticas, passando para quem as formulou. Afirmar que a evolução tecnológica é um parâmetro para
por religião, economia, avaliar a evolução das sociedades só poderia ocorrer em uma sociedade cuja
medicina, etc. Veremos evolução tecnológica é muito valorizada. Dificilmente uma sociedade organizada
no capítulo 2 várias em outros termos escolheria esse critério. Ou seja, quando analisamos outras so-
definições do conceito ciedades por meio de critérios próprios da nossa, estamos sendo etnocêntricos.
de cultura ao longo dos E isso significa que não estamos realmente olhando para outras sociedades, mas
séculos XX e XXI. apenas procurando nelas aquilo que reconhecemos em nós como fundamental.
Para desfazer a ideia do suposto primitivismo das populações não ocidentais, é
necessário um olhar não etnocêntrico, que reconheça uma complexidade que te-
nha sentido e significado no interior dessas sociedades.
Do final do século XIX até meados do século XX, antropólogos se dedicaram
a documentar a vida indígena em vários lugares do mundo com uma preocupa-
ção generalizada: a de que os povos indígenas estavam “acabando”. Havia a con-
vicção de que o avanço do sistema capitalista levaria à extinção dessas popula-
ções. Alguns acreditavam que isso aconteceria inevitavelmente, como um fator
natural da evolução social. Outros simplesmente constatavam que o capitalismo
impedia aquelas sociedades de continuar a se reproduzir como vinham fazendo
tradicionalmente.
E como isso acontecia? Com a expansão gradual do controle e invasão de ter-
Veja na seção ras indígenas. Para tomar um exemplo brasileiro, o interesse pelas terras tradicio-
BIOGRAFIAS quem nalmente ocupadas pelos indígenas levou aos maiores abusos. O antropólogo
é Mércio Pereira brasileiro Mércio Pereira Gomes (1950-), em seu livro Os índios e o Brasil (Vozes,
Gomes (1950-). 1988), cita o caso dos índios Canela Fina, na Vila de Caxias, no sul do Maranhão,
que por volta de 1816 receberam como “presente” de fazendeiros interessados
em suas terras roupas infectadas com varíola, que causaram o espalhamento do
contágio e grande morticínio.
Apesar dos números e relatos que demonstram a dizimação de grupos indí-
genas durante os séculos pós-conquista colonial, as nações indígenas praticaram
ações e estratégias de resistência física e cultural. Ao longo do século XX, muitas
delas se mobilizaram para defen-
Antônio Cruz/ABr/Radiobrás

der seus direitos. O fim do século


XX testemunhou uma revitaliza-
ção das populações indígenas,
embora em muitos lugares do
mundo os processos de opressão
permaneçam.

Em 6/11/2012, em frente ao Palácio


do Planalto, indígenas de nove etnias
vindos do Maranhão e do Amazonas
pediram a revogação da Portaria 303 da
Advocacia-Geral da União. Essa portaria
estendeu a todas as terras indígenas
do país as condicionantes definidas
pelo Supremo Tribunal Federal (STF)
no julgamento da demarcação da Terra
Indígena Raposa Serra do Sol, em 2009,
consideradas inconstitucionais por grupos
indígenas e vários especialistas.

36
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 36 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

Uma questão crucial para as populações indígenas da atualidade é sua rela-


ção com a sociedade capitalista. Essas populações não recusam o que chama-
mos de tecnologia, e em muitos casos se valem dela para expressar seus pontos
de vista. Muitos indígenas produzem vídeos para registrar suas cerimônias, gravar
suas narrativas, expressar seus modos de ver o mundo. O uso de tecnologia não
os torna menos indígenas, ao contrário do que alguns imaginam.

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO?


Você já ouviu dizer que “índio de verdade” não usa roupas nem tecno- LÉXICO
logias ou coisas semelhantes? Provavelmente sim, pois esse discurso é
muito comum, já que legitima a retirada de direitos desses indígenas. ideologia: conjunto de
Quando por exemplo um fazendeiro quer desqualificar reivindicações ideias próprias de um
dos indígenas sobre terras que ocupa, afirma que eles não são mais in- grupo, de uma época,
dígenas porque usam roupas, ferramentas, etc. Talvez você não perce- e que traduzem um
ba quanto essa afirmação é ideológica: as sociedades capitalistas criam contexto histórico. No
imagens dos indígenas como primitivos, se apressam em tentar civilizá- capítulo 3 estudaremos
-los e, assim que eles adotam práticas ocidentais, argumentam que eles esse conceito em
não são mais indígenas e portanto não têm direito à terra, por exemplo. detalhe.

O uso de tecnologias não impede que os indígenas reproduzam seus modos


Veja na seção
de viver. Alguns antropólogos, como o norte-americano Marshall Sahlins (1930-),
BIOGRAFIAS quem
afirmam justamente o contrário: que populações indígenas se utilizam de “coisas”
é Marshall Sahlins
da sociedade ocidental conforme suas próprias regras e de forma a fortalecer
(1930-).
seus próprios meios de ver o mundo. Nós também “emprestamos” práticas, há-
bitos e ideias produzidos em outros lugares do mundo e nem por isso deixamos
de ser brasileiros. Quando assistimos a um filme de Hollywood, por exemplo,
apreciamos uma série de práticas, hábitos e ideias que são estrangeiros para nós.
Mas isso não nos faz menos brasileiros. Quando assistimos a uma partida de fu-
tebol, estamos vendo um jogo inventado na Inglaterra, o que não im-
pediu a criação de um futebol brasileiro. Por que, então, usar roupas
e motores de popa tornaria os indígenas menos indígenas?
Pedro Biondi/ABr/Radiobrás

Na aldeia Ipatse, no
Parque Indígena do Xingu,
integrantes do Coletivo
Kuikuro de Cinema
entrevistam visitante.
Foto de 2007.

37
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 37 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

4. MITOS, NARRATIVAS E ESTRUTURALISMO


Vimos que nossa ideia das sociedades indígenas é bastante deturpada porque
elas são diferentes demais da nossa própria sociedade e essa diferença parece
uma barreira intransponível. Mas a Antropologia, desde o começo do século XX,
vem procurando construir uma ponte, dando sentido à experiência das
Fotos: Fabio Colombini/Acervo do fotógrafo

populações indígenas (e de outras populações, como as camponesas, as


tribos urbanas, as elites, os grupos religiosos, os imigrantes, etc.). Quan-
do “atravessamos a ponte”, deparamos com mundos cujas complexidade
e sofisticação estavam como que escondidas por nossos preconceitos.
Ajudar a enxergar essa complexidade é uma das tarefas da Antropolo-
gia, e um dos efeitos dela é desestabilizar aquelas certezas evolutivas
produzidas no século XIX e até hoje presentes em nossa vida.

Curare, cipó venenoso para


flecha, Floresta Amazônica,
Manaus (AM), 2008.

Indígena com zarabatana na


Aldeia Rouxinol, habitada
por grupos Barasano e
Tuiuca, às margens do
igarapé Tarumã-Açu.
Manaus (AM), 2008.

Invariavelmente, diante da riqueza de uma narrativa mitológica indígena, que


nada deve ao pensamento mitológico grego, por exemplo, ou diante da sofistica-
ção artística de muitos artefatos indígenas, ou ainda diante de sistemas de paren-
tesco tão complexos que seria preciso construir algoritmos para entendê-los,
chegamos a uma única conclusão: qualquer tentativa de estabelecer uma linha
de evolução entre sociedades é equivocada.
Tomemos como exemplo o trabalho do francês Claude Lévi-Strauss (1908-
-2009), o mais célebre antropólogo do século XX, cuja obra influenciou e conti-
nua a influenciar o pensamento social contemporâneo.
Lévi-Strauss desenvolveu um método de análise que chamou de estruturalis-
ta e fez um mergulho pela enorme complexidade dos mitos provenientes de di-
versas populações, do sul até o norte das Américas, revelando por meio deles o
que denominava pensamento ameríndio.
Para esse autor, os mitos demonstram um pensamento sofisticado e comple-
xo. Tratam de oposições recorrentes — entre o nu e o vestido, entre o cru e o co-
zido, entre discrição e excesso, entre respeito e desrespeito, etc. — e promovem
formas de lidar com a passagem de um estado de natureza para o de cultura. Se-
gundo Lévi-Strauss, os mitos traduzem preocupações fundamentais das popula-
ções que os criam e fazem uma distinção entre natureza e cultura. Essas popula-
ções estariam empenhadas em se separar da natureza, aspecto que o olhar
etnocêntrico tem dificuldade de entender.
A essência de uma teoria complexa como o estruturalismo, que pretende de-
monstrar que o pensamento humano se organiza em torno de oposições (alto e bai-
xo, fora e dentro, quente e frio, etc.) deve muito ao próprio pensamento ameríndio.
É como se Lévi-Strauss pensasse o mito a partir do pensamento dos nativos das
Américas. O estruturalismo, um método quase matemático, foi aplicado também

38
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 38 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

PERFIL
Arquivo/UCS/MUN, Canadá. Foto de 1965.

CLAUDE LÉVI�STRAUSS
Nascido em 1908 na Bél- Sua obra é considerada de enorme importância,
gica, de família judia, es- tanto pela criação da chamada Antropologia estru-
tudou em Paris, graduan- turalista quanto pela riqueza e erudição de suas aná-
do-se em Filosofia em lises. Vários de seus livros são clássicos da Antropo-
1931. Depois de lecionar logia e das Ciências Humanas, tais como: Estruturas
por dois anos na França, integrou a missão francesa elementares do parentesco (1949), Tristes trópicos
na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), (1955), Antropologia estrutural (1958), O pensamen-
onde lecionou Sociologia. Entre 1935 e 1939 viveu to selvagem (1962) e Totemismo hoje (1962). Lévi-
no Brasil, realizando expedições etnográficas que vi- -Strauss produziu ainda um trabalho monumental de
riam a influenciar toda a sua carreira, assim como a análise dos mitos das populações indígenas das
de muitos intelectuais brasileiros. Américas, dedicando-lhes mais de duas décadas de
Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda pesquisa (entre 1964 e 1991). O resultado foi publica-
Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse do como as “grandes mitológicas” em quatro volu-
país nos anos 1950, estabelecendo laços com ou- mes: O cru e o cozido, Do mel às cinzas, Origem dos
tros antropólogos, entre eles Franz Boas e Robert modos à mesa e O homem nu. Em seguida, publicou
Lowie. De volta à França, assumiu, em 1959, a cadei- as “pequenas mitológicas”: A via das máscaras, Oleira
ra de Antropologia Social no Collège de France, ciumenta e Histórias de lince. Faleceu em Paris, em
onde permaneceu até se aposentar, em 1982. 2009, alguns meses antes de completar 101 anos.

ao estudo do parentesco, buscando reduzir a multiplicidade de sistemas e chegar


a um conjunto de sistemas genéricos, que serviriam de modelos ou padrões para
todas as variedades de parentesco.
Também a arte foi objeto da reflexão sistemática de Lévi-Strauss, e, nesse caso,
a sensibilidade artística das populações ameríndias foi fundamental para sua aná-
lise. Para saber mais sobre a arte indígena, acesse o OED indicado ao lado.

5. POPULAÇÕES INDÍGENAS NO BRASIL


LÉXICO
Para concluir este capítulo, dedicado a apresentar um pouco do pensa-
mento sobre as populações consideradas “diferentes”, desde o evolucionismo remanescentes: neste
do século XIX até uma visão antropológica atual, vamos rever um pouco da contexto, membros de
história dos indígenas no Brasil. Antes da chegada dos portugueses, o que vi- populações indígenas que
ria a ser o Brasil era uma área densamente povoada por uma enorme diversi- viram suas sociedades quase
dade de populações indígenas. Os processos levados a cabo por esse contato completamente dizimadas.
resultaram em grandes mudanças, como o avanço da mortalidade, a deses- O termo também é utilizado
truturação de sociedades e sua dispersão, grandes deslocamentos, que por para designar os quilombolas,
sua vez produziram também conflitos entre populações indígenas, ajuntamen- descendentes de africanos
tos de remanescentes de diferentes etnias. escravizados que se
A história das populações indígenas no Brasil desmente a imagem fanta- refugiaram em quilombos.
siosa de povos cujo modo de vida permaneceu o mesmo desde a chegada etnia: população ou
dos europeus ao continente americano. Estudos antropológicos, arqueológi- grupo social distinto de
cos e linguísticos indicam intensos processos de transformação, adaptação e outros grupos por sua
mudança entre as populações indígenas, processos dos quais temos apenas especificidade cultural e
alguns vislumbres, já que as fontes para o estudo são raras ou inexistentes. linguística e por compartilhar
Segundo a antropóloga luso-brasileira Manuela Carneiro da Cunha (1943-), história e origem comuns.
à época da chegada (que podemos qualificar como invasão) dos portugueses
ao território que viria a ser o Brasil, havia aqui algo entre 1 e 8,5 milhões de
indígenas (as estimativas são muito imprecisas). Em 150 anos, acredita-se que Veja na seção
até 95% dessa população tenha sido dizimada, seja por doenças espalhadas BIOGRAFIAS quem é
pelos europeus, seja pelo confronto direto, seja por guerras decorrentes dos Manuela Carneiro da
deslocamentos provocados pela colonização ou ainda pelos rigores do tra- Cunha (1943-).
balho forçado.

39
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 39 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

No início da colonização, os portugueses mantiveram contatos relativamente


Veja na seção
amigáveis com os indígenas, mas logo passaram a escravizá-los, obrigando-os a
BIOGRAFIAS quem é
trabalhar. Entretanto, os indígenas foram também aliados dos colonizadores nas
Nádia Farage (1959-).
lutas para conter ou expulsar franceses, holandeses e espanhóis, como uma
“fronteira viva”, segundo afirma a antropóloga brasileira Nádia Farage (1959-).
Entre os séculos XVII e XVIII, prevaleceu o modelo de catequização jesuítica, o
que gerou conflitos em torno do trabalho forçado e disputas políticas com a Co-
roa portuguesa. Após a expulsão dos jesuítas em 1759, não havia vozes em defe-
LÉXICO sa dos indígenas nem contrários à ocupação de suas terras.
No século XIX, com o avanço da escravidão africana, o foco mudou: nesse
catequizar: instruir em momento interessavam mais as terras do que o trabalho dos indígenas. Após sé-
uma doutrina religiosa, culos de opressão, em 1910 foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que
ensinar um conjunto em 1967 foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai). O Estado im-
de valores relativos a plantou uma política indigenista voltada para o “progresso”, pela qual os índios
alguma religião. eram vistos como empecilho. Indígenas eram contatados para serem realocados,
aldeamento: povoação e a seguir vinha o “progresso” com estradas, tratores, cidades. Ao mesmo tempo,
de indígenas dirigida grandes empreendimentos de catequização, como o dos religiosos salesianos no
por missionários ou por alto Rio Negro, continuaram a atuar, com base em aldeamentos, abandono de
autoridades leigas. Em crenças tradicionais, estudo formal e catequese.
geral, os aldeamentos Na década de 1980 consolidou-se um discurso militarista contra os indígenas,
eram formados por vistos como ameaça à segurança nacional por estarem em zonas fronteiriças. En-
indígenas de etnias tretanto, a Constituição de 1988 marcou uma virada na percepção dos indígenas:
diferentes. foram deixadas de lado as iniciativas de “civilizá-los” e formulados artigos que re-
Instituto conhecem o direito de suas populações à posse da terra e à conservação de seus
Socioambiental (ISA): costumes e tradições. Hoje, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há no Bra-
organização sem fins sil cerca de 240 povos indígenas, falantes de mais de 180 línguas diferentes. De
lucrativos, fundada acordo com dados do Censo 2010 do IBGE, somam 817 963 pessoas, das quais
em 1994, dedicada a 502 783 vivem em áreas rurais. Correspondem a 0,42% da população brasileira.
“defender bens e direitos

Solano José/Agência Estado


sociais, coletivos e
difusos relativos ao meio
ambiente, ao patrimônio
cultural, aos direitos
humanos e dos povos”.

Em fotografia de 1972,
construção da rodovia
Transamazônica no trecho
iniciado em Altamira, Pará.

+ PARA SABER MAIS � Companhia de Jesus


A história da Companhia de Jesus no Brasil teve Marquês de Pombal, ministro do rei dom José I.
início em 1549, com a chegada dos primeiros je- Além de confiscar as propriedades da Igreja na
suítas a Salvador, Bahia, onde fundaram um co- colônia, Pombal pretendia ganhar o controle
légio e iniciaram a catequese dos índios. Na se- político-econômico das regiões administradas
gunda metade do século XVIII, os jesuítas foram pelos jesuítas. Hoje, a ordem mantém colégios e
expulsos de Portugal e de suas colônias pelo universidades em várias regiões do país.

40
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 40 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

Observe no mapa a seguir a situação das terras indígenas no Brasil atual. Con-
siderando
SOCIOLOGIA que esse mapa representa
HOJE (ática) apenas as terras pertencentes a um conjun-
to de fragmentos de toda a diversidade indígena que já povoou o território, po-
demos ter uma ideia de quanto essas populações sofreram com o processo de
Mapa das populações indígenas brasileiras
modernização da sociedade brasileira. Não é para menos que os indígenas vêm
se organizando, reivindicando direitos com base em sua presença ancestral no
território que hoje chamamos de Brasil.
01_01_m018_SOCImg15A
Terras indígenas no Brasil

Portal de Mapas/Arquivo da editora


55º O
VENEZUELA

GUIANA Guiana
Francesa
SURINAME (FRA)

COLÔMBIA Boa Vista


AP
RR
Equador Macapá
R io Negro 0º

azo
nas Belém
m
Ri o A

o X i ngu
Manaus
São Luís
Ri

So Fortaleza
o

Ri
li m
õe s
s
MA

pa

AM PA
Ta

CE
ir a

io

e R
ad

be
Ri
oM Teresina RN Natal

ari
gu
Ja
io

R
João
PB Pessoa
ntins
PI
PE
Recife
ca

AC Porto
Rio To

Velho AL
Portal de Mapas / Arquivo da editora.

Palmas Maceió
Rio Branco RO SE
Aracaju

o
TO
Francisc
BA
PERU
São

Salvador
a ia

Rio

MT
gu

Cuiabá a
Ar

DF
Rio
uai

Brasília
Parag

nh a
GO nho
uiti
Rio

BOLÍVIA eq
J

aquari N o
vo Goiânia
o

MG
Ri

oT
Ri

Belo Horizonte ce
ES
Do

Campo
Rio

OCEANO Grande MS
Rio
Vitória
PACÍFICO
T ie
SP

RJ
PARAGUAI São Paulo
Rio de Janeiro
ricórnio
de Cap
Trópico
PR
Rio Iguaçu
CHILE ARGENTINA Curitiba

Terras indígenas no Brasil SC


OCEANO
Classificadas segundo situação jurídico-administrativa em 31/7/2011
Quantidade % do total
Florianópolis ATLÂNTICO
Situação jurídico-administrativa
de terras no Brasil RS
Em identificação 134 Porto Alegre
Com restrição de uso a não índios 5
Total 139 20,53

Identificada 16 2,36
URUGUAI
Declarada 69 10,19

Reservada 23
Homologada 30
Registrada no CRI e/ou SPU 400
Total 453 66,91

Total no Brasil 677 100,00

Fonte: Povos indígenas no Brasil: 2006/2010. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2011.

Fonte: ref. site da ISA: www.socioambiental.org.br 41


SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 41 03/04/2013 12:37
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

VOCÊ APRENDEU QUE:


4 As sociedades ocidentais se preocuparam em estudar as populações não europeias
principalmente a partir do avanço do imperialismo do século XIX.
4 Desses estudos resultaram teorias evolucionistas, que tratavam de escalonar as sociedades
não europeias em graus de evolução.
4 O ápice dessa escala era sempre ocupado pelos europeus.
4 Os critérios usados para construir as classificações favoreciam os europeus.
4 A existência da propriedade privada da terra era um elemento fundamental para determinar a
evolução de um povo, assim como seu grau tecnológico.
4 No século XX, os estudiosos começaram a questionar os pressupostos dessas teorias
evolucionistas.
4 As populações indígenas podem ser vistas como muito complexas, dependendo do ponto de
vista.
4 As mitologias ameríndias, por exemplo, podem dar uma ideia dessa complexidade.
4 A história das populações indígenas no Brasil demonstra a grande variedade e a riqueza
cultural dessas populações.

ATIVIDADES
REVENDO
1. Qual é a relação entre o colonialismo e a teoria do evolucionismo social?
2. Por que o conceito de progresso tecnológico é tão importante para os cien-
tistas do século XIX?
3. O conhecimento acumulado sobre sociedades não ocidentais gerou a possi-
bilidade de uma teoria mais abrangente sobre a história da humanidade.
Esse objetivo foi atingido pelo evolucionismo social?
4. Nas teorias evolucionistas, qual é o papel da propriedade? Explique por que,
segundo essas teorias, é importante a passagem de uma sociedade organi-
zada em parentesco para uma sociedade baseada em propriedade.
5. Neste capítulo procuramos contrapor a imagem das sociedades indígenas
como “primitivas” à riqueza de seus mitos e de sua arte. Ao estabelecer esse
confronto, podemos fazer certas críticas ao evolucionismo. Você poderia
pensar em pelo menos uma crítica?

INTERAGINDO
1. Observe a imagem a seguir.
Sara Plaza/Arquivo da editora

� Você já deve ter visto ade-


sivos como este em veícu-
los. Você consegue imagi-
nar uma explicação para o
sucesso desse tipo de ade-
sivos? Pense sobre o que
eles dizem a respeito do
que entendemos por “fa-
mília”.

Adesivo de carro representando uma família. Foto de 2012.

42
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 42 4/1/13 9:40 AM
UNIDADE 1 | CAPÍTULO 1

2. Uma das consequências do

Laerte/Acervo do artista
evolucionismo social é o pre-
conceito étnico. Veja o car-
tum ao lado, publicado por
Laerte em 2011.

� Estabeleça uma relação en-


tre o evolucionismo social e
o desenvolvimento de pre-
conceitos étnicos ou raciais.
Observe o cartum para re-
fletir sobre a relação entre a
teoria e a realidade social.

CONTRAPONTO
1. Considere os trechos do poema a seguir, do escritor inglês Rudyard Kipling
(1865-1936).

O fardo do homem branco LÉXICO


Tomai o fardo do homem branco – Mas, sim, servir e limpar – fardo: carga, volume
Envia teus melhores filhos A história dos comuns. pesado; no contexto do
Vão, condenem seus filhos ao exílio As portas que não deves entrar poema, o que custa a
Para servirem aos seus cativos; As estradas que não deves passar suportar, o que impõe
Para esperar, com arreios Vá, construa-as com a sua vida responsabilidades.
arreios: conjunto
Com agitadores e selváticos E marque-as com a sua morte.
de peças usado para
Seus cativos, servos obstinados, […]
montaria do cavalo.
Metade demônio, metade criança. Tomai o fardo do homem branco –
selvático: selvagem.
[…] Vós, não tenteis impedir –
Tomai o fardo do homem branco – Não clamem alto pela Liberdade
As guerras selvagens pela paz – Para esconderem sua fadiga
Encha a boca dos famintos, Porque tudo que desejem ou sussurrem,
E proclama, das doenças, o cessar; Porque serão levados ou farão,
E quando seu objetivo estiver perto Os povos silenciosos e calados
(O fim que todos procuram) Seu Deus e tu, medirão.
Olha a indolência e loucura pagã […]
Levando sua esperança ao chão.
Disponível em: <http://pt.wikisource.org/
Tomai o fardo do homem branco – wiki/O_fardo_do_Homem_Branco>.
Sem a mão de ferro dos reis, Acesso em 19 fev. 2013.

� Você consegue estabelecer uma relação entre esse poema e o colonialis-


mo? Como a ideia de “civilizar” pode ser relacionada ao que vimos neste
capítulo?

43
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 43 4/1/13 9:40 AM
EVOLUCIONISMO E DIFERENÇA

2. Leia a letra desta canção dos Titãs:

Família
Família! Família! Mas quando o nenê
Papai, mamãe, titia Fica doente
Família! Família! Procura uma farmácia de plantão
Almoça junto todo dia O choro do nenêm é estridente
Nunca perde essa mania... Assim não dá pra ver televisão...

Mas quando a filha Família êh! Família ah!


Quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão Família! Família!
Filha de família se não casa Cachorro, gato, galinha
Papai, mamãe Família! Família!
Não dão nem um tostão... Vive junto todo dia
Nunca perde essa mania...
Família êh! Família ah!
A mãe morre de medo de barata
Família! Família! O pai vive com medo de ladrão
Vovô, vovó, sobrinha Jogaram inseticida pela casa
Família! Família! Botaram cadeado no portão...

Janta junto todo dia TITÃS. Cabeça Dinossauro, WEA, 1986.


Nunca perde essa mania...

� Aqui a ideia de família aparece atrelada a alguns comportamentos, que po-


deríamos chamar de “morais”. Os autores certamente estão criticando al-
guns desses pressupostos morais que deveriam acompanhar a família.
Você consegue identificar um valor criticado? Por outro lado, ao imaginar
a família, os autores criam a cena em que “cachorro, gato e galinha” fazem
parte do núcleo familiar. O que podemos pensar dessa ideia?

SUGESTÕES DE LEITURA
Evolucionismo cultural, de Celso Castro
Reprodução/Ed. Martins Fontes

Reprodução/Ed. Jorge Zahar

A conquista da América, a questão do


outro, de Tzvetan Todorov. São Paulo: (Org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Martins Fontes, 1999. Esta coletânea reúne três textos clássi-
O encontro entre o “civilizado” velho cos da Antropologia escritos pelos prin-
mundo cristão europeu e o “selvagem” cipais nomes da corrente evolucionista
novo mundo pagão é, para Todorov, o que prevaleceu nos primeiros anos da
fato mais importante de toda a história disciplina. Lewis H. Morgan, Edward B.
ocidental. A partir desse paradigma, o Tylor e James G. Frazer representam a
autor trabalha a complexa questão do tradição antropológica contra a qual lu-
“outro” entre o choque de culturas. taram autores como Franz Boas, em de-
fesa do relativismo cultural.
Coração das trevas, de Joseph Conrad.
Reprodução/Ed. Companhia de Bolso

São Paulo: Companhia de Bolso, 2008. Grafismo indígena: estudos de antropolo-


Reprodução/Ed. Studio Nobel/
Fapesp/Edusp

Um clássico da literatura do século XX gia estética, de Lux Vidal (Org.). São Paulo:
narra a viagem do protagonista Marlo- Edusp, Studio Nobel e Fapesp, 2007.
we pelo coração da selva africana, com a Com destaque para o artigo “Iconografia
missão de trazer de volta Kurtz, um mer- e grafismo indígenas, uma introdução”,
cador de marfim cujos métodos passam este livro mostra a riqueza das artes dos
a desagradar a companhia que o contra- povos indígenas do Brasil, abordando
tou. Dividido entre o fascínio e a repulsa tanto questões gráficas e de forma como
por Kurtz, Marlowe aos poucos descobre simbólicas e teóricas. Trata-se de uma
a natureza desses métodos. rica iconografia aplicada em vários supor-
tes: pedra, cerâmica, entrecasca, papel e,
com maior frequência, corpo humano.

44
SociologiaHoje_vU_PLND2015_026a045_U1_C1.indd 44 4/1/13 9:40 AM

Você também pode gostar