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ANTÔNIO MARCOS FELICIANO

ÉTICA E CIDADANIA
ÉTICA E CIDADANIA
Antônio Marcos Feliciano

2020
CASA NOSSA SENHORA DA PAZ – AÇÃO SOCIAL FRANCISCANA, PROVÍNCIA
FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL –
ORDEM DOS FRADES MENORES

PRESIDENTE
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM
DIRETOR GERAL
Jorge Apóstolos Siarcos
REITOR
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VICE-REITOR
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM
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GESTOR DO CENTRO DE SOLUÇÕES EDUCACIONAIS - CSE
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DESIGNER INSTRUCIONAL
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PROJETO GRÁFICO
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Ariane Soares
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CAPA
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© 2020 Universidade São Francisco


Avenida São Francisco de Assis, 218
CEP 12916-900 – Bragança Paulista/SP
O AUTOR
ANTÔNIO MARCOS FELICIANO
Doutor e Mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo Programa de Pós-gra-
duação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC (PPEGC/UFSC).
SUMÁRIO
UNIDADE 01: Moral e Ética na Sociedade.................................................................. ..6

1. Abordagem Conceitual.......................................................................................... ..6

UNIDADE 02: Ética Profissional................................................................................... 24

1. O Ser Humano nas Organizações........................................................................ 24

2. Ética e Profissão................................................................................................... 28

3. Valores, Responsabilidades e Deveres Individuais e Coletivos nas Organizações 30

4. Valor Social das Profissões e Virtudes Profissionais............................................ 33

5. Ética nas Organizações........................................................................................ 36

6. Tendências da Ética Profissional........................................................................... 40

UNIDADE 03: Ética e Cidadania Aplicada................................................................... 44

1. Ética Aplicada aos Âmbitos Sociais e ao Cotidiano.............................................. 44

2. O Individualismo Ético x a Ética Coletiva.............................................................. 49

3. Ética na Ciência.................................................................................................... 54

UNIDADE 04: Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica................ 62

1. Mudanças na Contemporaneidade....................................................................... 62

2. Diferentes Momentos da Sociedade Tecnológica................................................. 67

3. Os Limites da Ética no Mundo Virtual................................................................... 70


significado das
CAIXAS DE DESTAQUE
Importante entender!
É um espaço dedicado a entender os conceitos centrais do
conteúdo.

Para refletir
Espaço para questionamento sobre o assunto. Situação
hipotética para reflexão e compreensão sobre o tema estudado.

Exemplo
Momento para se apresentar uma situação real do assunto
trabalhado.

Pesquise
Apresentação de fontes para que o aluno explore mais
o conteúdo abordado. Serão apresentados: livros, sites,
reportagens, dissertações, vídeos, revistas, etc.

Glossário
Termos e siglas específicas sobre o tema tratado na unidade.

Leis
Lei ou artigo de extrema importância para o aprofundamento
do aluno.

Leitura fundamental
Livros e textos imprescindíveis para o desenvolvimento da
aprendizagem do aluno.

Sugestão de leitura
Apresentação de leituras interessantes para o aluno,
relacionadas ao tema.

Relembre
Pontos fundamentais que guiarão o aluno. São nortes que
o ajudarão a interpretar o texto.

Curiosidades
Fato, acontecimento histórico ou ponto curioso relacionado
ao tema abordado.

Saiba mais
Livros e textos imprescindíveis para o desenvolvimento
da aprendizagem do aluno.
Moral e Ética na Sociedade

1 UNIDADE 1

MORAL E ÉTICA NA SOCIEDADE

1. ABORDAGEM CONCEITUAL
Uma pequena e inocente fofoca não faz mal a ninguém, aliás, quem nunca fez isso?
Levar uma vantagenzinha no trânsito maluco das cidades e rodovias, quem nunca fez
isso? Usar equipamentos e outros recursos da empresa para realizar um trabalho parti-
cular, quem nunca fez isso? Contar uma mentirinha, quem nunca fez isso? Parece mes-
mo difícil pensar em um mundo perfeito em que todos tenham comportamento ético,
reto, sem verdadeiramente levar vantagens sobre os demais.

As contradições e incertezas apresentadas no contexto da sociedade faz com que a humani-


dade busque explicar cada vez mais sua realidade por meio de atributos éticos e morais, que
fazem parte de qualquer grupo social da vida de qualquer pessoa, em qualquer situação. Os
valores sociais comumente limitam as pessoas em suas ações, pois todo valor social apre-
senta consigo uma sanção, por isso seu caráter limitador ao comportamento humano.

A incerteza acompanha o homem desde os primórdios, fazendo parte da evolução da


espécie e do domínio humano sobre a natureza. Foi por meio da capacidade humana
que os recursos naturais foram gradativamente sendo utilizados para garantir sua so-
brevivência, que ocorreu desde a geração de energia elétrica, passando pela moradia,
alimentação, segurança, criação de medicamentos, entre outros usos.

Não devemos perder de vista que, de fato, o homem travou batalhas homéricas contra
a natureza, pelo menos em um passado recente. Devemos destacar que, durante toda
a sua história, o grande inimigo do homem sempre foi ele mesmo, por isso a incerteza
de continuidade da espécie se mantém presente até os dias atuais.

Até certo período da humanidade, a virtude pessoal significava um verdadeiro atestado


de segurança relativa à honra individual, garantindo prestígio social aos virtuosos. O
resgate da ética para resolver questões sociais que causam grandes incertezas depen-
de de pessoas virtuosas, com ampla capacidade de refletir e agir com espírito coletivo,
isto é, visando o bem-estar comum, estando atento para a pluralidade que é o mundo.

VIRTUDE, MORAL E ÉTICA


Nesse contexto, convém destacar que Passos (2006, p. 22) argumenta que nos dias
atuais, “[...] a palavra virtude está em desuso, enquanto a palavra moral foi substituída
por ética, por ser mais geral e menos identificada com a religião”. Apesar de isso ter
acontecido, você deve compreender que o comportamento humano é constituído pri-

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meiramente pela moral, pois é esta que contém a estrutura de valores que nos afasta 1
das ações animalescas.

A realidade mundial muda rapidamente. Comparando a sociedade mundial e brasileira


na década de 50 com a atual, por exemplo, vemos que, embora diferentes, ambas têm
em comum muitos aspectos da ética. Nesse sentido, podemos afirmar que a evolução
da sociedade tem por base seu código de conduta, que é definido pela ética, a qual
define valores, comportamentos, enfim, está no cerne da virtude social.

No plano conceitual, Sá (2010, p. 3) afirma que “[...] a Ética tem sido entendida como a
ciência da conduta humana perante o ser e seus semelhantes”.

Em momentos de crises, quando a sociedade percebe o potencial risco ao seu equilí-


brio, a ética é resgatada pelos virtuosos. Desse modo, podemos reconhecer seu papel
fundamental para o equilíbrio harmônico nas relações humanas.

A competição é inerente a todas as espécies, fazendo parte do comportamento de cada


indivíduo e, com o ser humano, não é diferente. A virtude e os códigos éticos e morais,
por outro lado, impedem que as competições sejam desleais ao ponto de serem violen-
tas. Portanto, sem esses aspectos, a convivência dos homens seria impossível.

VOCÊ JÁ IMAGINOU O AMBIENTE FAMILIAR, SOCIAL OU DO TRABALHO


SEM CÓDIGOS ÉTICOS?
A disputa violenta pela alimentação e propriedade de qualquer objeto poderia tornar insus-
tentável qualquer espaço ocupado por mais de uma pessoa.

Passos (2006) admite que a virtude não é um elemento relevante para o status social dos
indivíduos. Apesar disso, é possível perceber que as pessoas fundamentam seus projetos
de vida em valores sociais morais. Em outras palavras, o comportamento individual é para-
metrizado pelos valores morais coletivos.

A amplitude dos valores morais é sintetizada por Passos (2006, p. 22), ao considerar que os
valores estão presentes em todas as ações e relações humanas, possuindo aspectos “[...]
estéticos, políticos, jurídicos ou morais”. A materialidade da ética é evidenciada nesse tipo
de relação a partir de vários pontos de vista.

Você pode pensar que é possível haver razoabilidade na taxa de lucro em uma relação
econômica ou que não é ético enganar as pessoas no contexto econômico. Por isso, relem-
bramos Passos (2006) ao considerar que toda ação humana possui algum valor moral que
fundamenta o comportamento.

Nessa direção, Sá (2010, p. 3) aponta que a ética “[...] envolve os estudos de aprovação
e desaprovação da ação dos homens”. O autor ainda complementa que a ética também
envolve a análise da vontade e o desempenho virtuoso das pessoas a partir das suas inten-
ções e atuações, seja do ponto de vista individual, ou sob o prisma das normas coletivas.

Na direção conceitual, Cortina e Martinez (2005, p. 9) evidenciam que a ética “[...] é um tipo de
saber normativo, isto é, um saber que pretende orientar as ações dos seres humanos”. Nesse
sentido, por meio da ética é possível propor soluções concretas para problemas concretos.

Ética e Cidadania 7
Moral e Ética na Sociedade

1 A ética pode ser considerada como um braço operacional da moral, que, por sua vez, na
visão de Cortina e Martinez (2005, p. 9) orienta a ação humana de forma indireta e “[...] no
máximo, pode indicar qual concepção moral é mais razoável para que, a partir dela, possa-
mos orientar nossos comportamentos”

Entenda que ambas, ética e moral, são definidas a partir de modelos teóricos, no entanto, é
na ação prática humana que podemos identificar com maior facilidade os aspectos éticos.

Cortina e Martinez (2005, p. 11) indicam que a ética é:


[...] entendida à maneira aristotélica como saber orientado para o esclareci-
mento da vida boa, com o olhar posto na realização da felicidade individual e
comunitária [...] Se a pergunta ética para Aristóteles era, “quais virtudes morais
temos de praticar para conseguir uma vida feliz, tanto individual como comu-
nitariamente”, na era moderna, em contrapartida, a pergunta ética seria esta
outra: “quais deveres morais básicos têm de reger a vida dos homens para que
seja possível uma convivência justa, em paz e em liberdade, dado o pluralismo
existente quanto às maneiras de ser feliz”.

Essa passagem deixa claro que pode haver múltiplos entendimentos e práticas para
alcançar a felicidade, entretanto, as ações humanas são limitadas para que não se
constituam em práticas desleais que atentem à moral coletiva. Dessa forma, podemos
afirmar que, com a evolução da sociedade surgem novas necessidades, como novos
códigos éticos, os quais visam orientar as ações das pessoas em busca da felicidade.

De acordo com Cunha (2012), a moral tem relação com as decisões humanas – não so-
mente as consequências de uma decisão em relação ao coletivo, mas também no que diz
respeito ao tomador da decisão, pois uma decisão precede uma ação.

Dessa forma, você deve perceber que há limites entre a moral e a ética, os quais podemos
descrever da seguinte forma: posso me beneficiar muito com minha ação que, mesmo sen-
do legal, pode ser imoral e, a partir dessa noção de moralidade/imoralidade, surge a ética
como uma forma de corrigir as distorções morais no plano prático.

Apesar de aparentemente possuir o mesmo significado, e é justamente no emprego dos ter-


mos que se percebe as diferenças, a ética é uma espécie de “examinadora da moral” para
manter o caráter civilizador às nossas ações. Isso ocorre, segundo Passos (2006), porque
a ética permite a reflexão e a teorização da conduta humana, tendo função fundamental nas
nossas atitudes diárias e corriqueiras, pois ela regula o comportamento humano.

Com isso, você aprende que a ética e a moral são mutantes no sentido de alterar conforme
o contexto social. Se o Brasil da década de 1950 era muito diferente do Brasil de hoje, então
a ética e a moral sofreram mudanças. Como se trata de um comportamento associado a
valores culturais e a outros aspectos sociais, você deve pensar que as mudanças não são
estanques, isto é, não há um rompimento definitivo entre os padrões éticos e morais de um
período em relação ao momento subsequente, pois se trata, na verdade, de um processo
permanente de construção.

Dessa forma, é correto afirmar que a ética e a moral se conformam com a função de facilitar
a convivência em sociedade. Assim, Aristóteles e outros pensadores que se debruçaram
sobre o tema ainda estão muito presentes na sociedade atual.

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Por exemplo, um indivíduo pode não perceber que há problemas em usar os recursos da 1
empresa onde trabalha para realizar atividades de caráter particular. E, ainda, outro é ca-
paz de utilizar um veículo público para ir ao supermercado e fazer suas compras pessoais.
Enfim, a partir da materialidade da ética, você pode promover reflexões adaptando o con-
ceito à sua realidade.

Convém lembrar que a coletividade procura, diante das contradições sociais, agir para que
se mantenha harmonia entre as pessoas. Portanto, não se trata de moldar a ética e a moral
a interesses específicos, mas de tornar os níveis de convivência idealmente equilibrados.

1.2. FORMAÇÃO E TRAJETÓRIA EVOLUTIVA DA ÉTICA


Desde os tempos mais remotos, a ética tem sido alvo de estudos e pesquisas, ampliando o
escopo de análise para todos os campos da ciência e da sociedade. Muitos autores inves-
tem esforços sobre o assunto, tecendo contribuições que se complementam aos escritos
de outros, possibilitando o melhor entendimento do comportamento humano. Sem dúvida
alguma, os escritos de filósofos que viveram na Antiguidade, como Aristóteles (384 a. C. –
322 a. C.), Platão (428 a. C – 347 a. C) e Sócrates (470 a. C – 399 a. C) ainda balizam novas
pesquisas, deivido má tamanha influência das teorias elaboradas por esses pensadores.

Na sequência, apresentaremos alguns importantes filósofos, cujas contribuições para a ci-


ência e para o desenvolvimento do tema da ética são reconhecidas em todo o mundo.

Fonte: elaborado pelo autor. Imagens: 123rf e wikipédia.


Aristóteles Sócrates Hans-Georg René Descartes
384 a. C 322 a. C 470 a. C – 399 a. C Gadamer 1596 – 1650
1900 – 2002

Karl Marx Platão Hugo Grotius Immanuel Kant


1818 – 1883 428 a. C – 347 a. C 1583 – 1645 1724 – 1804

David Hume Martin Heidegger Jürgen Habermas Hannah Arent


1711 – 1776 1929 – Ainda vivo 1906 – 1975

Ética e Cidadania 9
Moral e Ética na Sociedade

1 A complexidade da sociedade aumenta quanto mais seu desenvolvimento se acentua.


Após a Segunda Guerra Mundial, a sociedade clamava por paz e justiça social, deman-
dando também um novo modelo de desenvolvimento e padrões inovadores de relacio-
namentos entre pessoas, empresas e países. Surgiram então preocupações ecológicas
e a necessidade de atender as necessidades das minorias, com o entendimento cada
vez mais forte de que a sociedade é plural. Desse modo, a ética é novamente chamada
a fim de trazer uma melhor compreensão desse universo.

Nesse último aspecto, você deve considerar tanto as formas de relação entre os ho-
mens e os recursos naturais como o homem em suas relações no âmbito familiar, no
trabalho, na vida social, enfim, em qualquer espaço da sociedade.

Saiba que mesmo os pensadores contemporâneos que se debruçam sobre a ética


como campo de estudos, partem dos aspectos apontados pelos autores clássicos para
tecer suas análises.

1.3 TIPOLOGIA E CONDUTA ÉTICA


A ética nunca sai de moda, o que ocorre

Fonte: 123rf.
é que, em alguns períodos, a humani-
dade parece esquecê-la ou ignorá-la.
Portanto, em alguns momentos, há a
necessidade em redescobri-la. Essa
necessidade deriva das barbáries que
a espécie humana é capaz de cometer,
gerando grandes incertezas e contradi-
ções sociais, fazendo com que a virtude
moral da sociedade se manifeste para
retomar o curso da história, equilibran-
do as relações, mantendo níveis de
convivência minimamente aceitáveis.

Passos (2006, p. 21) considera que as


situações de contradições sociais não ocorrem ao acaso, elas tomam maiores proporções
quando a “[...] sociedade passa por graves crises de valores, identificada pelo senso co-
mum como falta de decoro, de respeito pelos outros e de limites”.

Existem situações inerentemente inaceitáveis, como a omissão em relação às pessoas


em condição de vulnerabilidade social, a fome, as guerras e situações comumente iden-
tificadas como injustiça social. Esses aspectos comovem, emocionam e fazem a socieda-
de se movimentar em busca da resolução ou mitigação desses tipos de problemas.

O levante social ocorre geralmente pela explícita falta de condições mínimas para a so-
brevivência dos atingidos pelas injustiças sociais. Nesse momento, mais do que coletiva-
mente, é a união dos indivíduos que faz movimentar a sociedade. A ética individual e a
ética coletiva são influenciadas pela injustiça social.

Passos (2006, p. 23) afirma que uma brusca ruptura nas normas sociais influencia o modo
de agir das pessoas, que, “[...] a princípio podem parecer absolutamente individuais, por

10
consistir em uma ação praticada por um sujeito, a partir de um posicionamento no mundo 1
e de uma decisão por ele tomada”. O fato, considera a autora, é que a sociedade possui
níveis de tolerância para atos de injustiça social. No entanto, quando ameaçadas a so-
brevivência da espécie ou as condições mínimas de convivência, a sociedade resgata a
moral e a ética como formas de redirecionar as ações e exigir a resolução dos problemas.

Quando falamos no resgate da ética e da moral, estamos falando claramente que a so-
ciedade evolui, que o conhecimento humano é cumulativo e complementar. Assim, a so-
ciedade se desenvolve de acordo com padrões aceitáveis e, mesmo individualmente ou
coletivamente, a exclusão social e o progresso científico e tecnológico possuem níveis de
aceitação por parte da sociedade.

Dessa forma, podemos falar em liberdade individual e ética individual sob uma configu-
ração social estabelecida, posto que a ética coletiva, impregnada pelos valores morais,
é superior ao desejo individual que, de alguma forma, manifesta algum tipo de injustiça
social. Assim, fica fácil compreender que a ética individual é severamente limitada pela
ética coletiva. No dizer de Passos (2006, p. 25): Os valores morais dominantes não são
decididos voluntariamente por sujeitos individuais; eles emergem da própria experiên-
cia do grupo humano [...]. Ao serem socializados, vão se tornando consenso entre os
membros da sociedade.

Por isso, é possível comparar a ética e a moral ao comportamento das pessoas em


relação ao código penal, em que a ação individual está de acordo com a lei ou fora dela.

A aplicação da ética por meio da ação humana em qualquer ambiente pressupõe a


liberdade, que, de forma geral, pode ser compreendida como o melhor remédio contra
a coação e o poder arbitrário.

O fato é que, atualmente, estamos vivenciando um período no qual o individualismo pa-


rece se configurar em uma tendência para o comportamento humano. Sá (2010) afirma
que a conduta estritamente individualista é pouco recomendável às pessoas, pois os
interesses pessoais não podem, em hipótese alguma, subjugar os coletivos, sob pena
de as pessoas assumirem seus próprios pontos de vista como únicos corretos.

Em um ambiente organizacional, a ética é fundamental para a sustentabilidade do ne-


gócio, pois as empresas dependem das equipes de trabalho e, mesmo havendo níveis
de competição entre os membros de qualquer equipe, as empresas devem buscar o
equilíbrio harmônico entre seus colaboradores. Para isso, instituem-se códigos de con-
duta para os relacionamentos profissionais e institucionais.

Todo código de ética, seja no interior de uma empresa ou de uma categoria profissional,
como advogados, médicos, enfermeiros, entre outros, objetiva aculturar as pessoas
para a consciência de grupo. Atualmente, os gestores organizacionais sabem que pes-
soas motivadas e focadas no negócio, produzem com muita efetividade, são criativas,
proativas, inovadoras e costumam agir dentro das regras éticas.

Ética e Cidadania 11
Moral e Ética na Sociedade

1
Conhecer a história dos códigos de ética possibilita compreender a evolução da
conduta profissional.

Os códigos de ética são importantes instrumentos norteadores e condutores dos com-


portamentos na sociedade. As equipes em que a consciência de grupo predomina, facil-
mente resolvem problemas de convivência e diferenças de visão de mundo.

Para manter os valores organizacionais sempre presentes nas relações no seu ambien-
te, as empresas precisam concentrar muitos esforços, sobretudo quando o contingente
de pessoas é expressivo. Mas não devemos pensar que é fácil manter os indivíduos no
centro dos valores organizacionais quando a empresa possui poucos colaboradores.
Bennett (2014, p. 11), por sua vez, argumenta que “a maioria das pessoas tem uma
noção geral do que é certo ou errado, em especial no ambiente de trabalho”. Por isso,
as empresas devem criar condições para que seus valores e suas práticas éticas se
mantenham presentes entre as pessoas.

As empresas precisam monitorar a conduta ou os relacionamentos internos e externos


de seus colaboradores, afinal, sua imagem está presente no comportamento deles.

Segundo Bennett (2014), as empresas precisam observar alguns aspectos na conduta


de seus colaboradores para se certificar da presença de seus valores no comportamen-
to de quem a representa nas relações com o mercado.

CONFLITO DE INTERESSES
O grande problema existente é quando uma pessoa prioriza seus interesses individuais,
relegando ao segundo plano os interesses ou as necessidades do grupo.

HONESTIDADE E JUSTIÇA
Esse aspecto tem relação com honestidade e transparência nos relacionamentos entre
as pessoas e atos institucionais, que devem priorizar o justo.

COMUNICAÇÃO
Esse aspecto trata da capacidade de informar corretamente os atores que mantêm algum tipo
de relacionamento com a empresa. Uma marca pode ser reconhecida pela honestidade que
transmite ao mercado.

RELACIONAMENTO ORGANIZACIONAL
A ética e a moral podem ser facilmente identificadas nos códigos de conduta de classes. Es-
ses documentos reúnem valores e orientações práticas para as ações profissionais. Apesar
de toda conduta profissional se fundamentar na ética e moral social, devemos destacar que
existem peculiaridades nas profissões que requerem atenção dos conselhos profissionais.

A ética pode ser dividida em campos de análise para melhor entendimento do compor-
tamento humano no seu âmbito profissional. Dessa forma, temos a Ética do trabalho, a

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Ética ecológica, a Ética familiar, a Ética na educação, a Ética nas classes profissionais 1
etc. Se o objeto de análise é a conduta humana, então, onde há ação humana, faz-se
necessário analisar os parâmetros de relacionamentos éticos.

1.4 VALORES E CÓDIGOS DE CONDUTA SOCIAL


Quando estamos em família, partilhamos de valores comuns e aceitos por todos, pois
é com base nesses valores que os indivíduos são educados. Entretanto, na medida
em que as pessoas crescem e ampliam seus relacionamentos com outras pessoas e
grupos sociais, seus valores passam por mudanças – sua visão de mundo se amplia,
sofrendo modificações e, em muitos momentos, acontecem conflitos com os valores
familiares. Por isso, é ainda no âmbito familiar que a pessoa deve ser preparada para
enfrentar diferentes valores sociais.

A família é uma importante unidade social, pois, independentemente do seu tamanho,


incorpora os valores da sociedade, configurando-se, portanto, em um importante meca-
nismo da capilaridade da cultura da sociedade.

Apesar de certos exageros, ao se comparar a empresa com a família, você deve com-
preender que ambas são configuradas em unidades sociais diferentes e que cumprem
papéis distintos na sociedade.

A empresa é, sem qualquer dúvida, uma importante unidade social, pois possui no seu
escopo valores, cultura, crenças, metas, objetivos, visão de mundo, pessoas, enfim, to-
dos os atributos presentes na unidade social denominada família. Podemos afirmar que
as empresas são mais racionais em sua forma de funcionar e em seus relacionamentos
do que as famílias.

Passos (2006, p. 52) informa que “[...] como as organizações em geral, e as empresas
em específico, são microestruturas sociais, partícipes da sociedade, também criam va-
lores, escolhem caminhos, optam por uma forma de ser e de agir consciente ou incons-
cientemente”. De forma geral, os valores orientam a conduta institucional e individual
no âmbito das empresas.

Você sabe que é difícil manter a harmonia familiar, então, imagine o quão complexo
pode ser em um ambiente de trabalho. Na família, comumente uma conversa entre
irmãos ou pais e filhos serve para resolver os problemas de relacionamento, principal-
mente até o final da adolescência.

Como nas empresas há uma gama de pessoas diferentes com objetivos distintos, há
a necessidade de se fazer a gestão dos conflitos, para que o negócio não seja afetado
por disputas internas.

O conflito é inerente às pessoas, por isso as empresas sabem que em algum


momento o conflito entre colaboradores ocorrerá. Na literatura, alguns fatores
geradores de conflito no ambiente corporativo são conhecidos, entre outros,
competição, acomodação, colaboração.

Ética e Cidadania 13
Moral e Ética na Sociedade

1 O conflito de valores é mais comum do que você imagina, por isso, na visão de Bennett
(2014), as pessoas buscam vagas de emprego em empresas cujos valores são conver-
gentes com os seus.

Evidentemente, as pessoas devem ter a clara noção de que o mundo não é perfeito,
portanto, será inevitável haver algumas diferenças entre os valores organizacionais e
individuais, cabendo às pessoas se adaptarem, pois, de outra forma, dificilmente en-
contrarão a vaga de trabalho ideal. Lembre-se que a família deve ter a preocupação em
preparar seus membros para o conflito de valores quando esses mantiverem relações
com outras pessoas ou grupos sociais.

Você se imagina trabalhando em uma empresa cujos valores são completamente opostos
aos seus? Pois é, sabemos que há diferença entre o mundo ideal e o real e em ambos
você pode fazer suas escolhas. Adaptar-se a um ambiente em que há algumas diferenças
entre os valores, não seria nada difícil, pois as pessoas possuem capacidade de adapta-
ção. Porém, ter que sair de casa diariamente para um ambiente que provoca significativo
desconforto, certamente, além de desagradável, leva a pessoa ao limite da tolerância.
Evitar situações como essa é fundamental para ambos. O colaborador, ao perceber a
convergência de valores, atua proativamente com motivação, ajudando a empresa, que
vê seus resultados ampliarem sua capacidade competitiva.

Não se iluda, os valores influenciam a capacidade de trabalho das pessoas e o ambien-


te de trabalho. Por isso as empresas atuam nessa área com o objetivo de evitar fuga de
esforços, conflitos internos e tantos outros malefícios que a distorção ou a interpreta-
ção, ou mesmo o distanciamento entre os valores organizacionais e individuais podem
acarretar no seu ambiente.

Dessa forma, a união entre as pessoas no ambiente de trabalho é muito importante


para os resultados das empresas.

Vamos deixar mais claro: você pode se adaptar aos valores organizacionais, afinal,
dentro do razoável, isso é perfeitamente factível. Difícil e complexo é atuar em empre-
sas que atuam de forma antiética. Nesses casos, Bennett (2014, p. 17) afirma que o
indivíduo tem três opções:


Primeira opção
Aceitar o modo como a empresa faz negócios e tentar se adaptar, sem ficar
pessoalmente envolvido em decisões antiéticas;


Segunda opção
Procurar emprego em outro lugar e deixar a organização;


Terceira opção
Aprender a ficar sozinho significa ser a pessoa que tenta mudar de dentro a
organização antiética. Esse papel é extremamente estressante e, com frequ-
ência, exige uma boa dose de coragem pessoal.

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De forma geral, as escolhas apresentadas por Bennett (2014) podem ser resumidas da 1
seguinte forma:
Figura 01. Escolhas.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Tudo inicia pela satisfação pessoal com o trabalho, em pertencer ao grupo social a partir
de relacionamentos que têm por fundamentos valores.

A questão dos valores, da ética no ambiente de trabalho, não se trata apenas de uma
questão individual, afinal, atualmente as empresas estão atuando no sentido de for-
malizar seus códigos de conduta, isto é, definem diretrizes para os comportamentos
desejáveis no âmbito da empresa e fora dela.

Bennett (2014, p. 21) apresenta alguns valores comumente identificados nas em-
presas que se preocupam com sua imagem no mercado, principalmente em relação
ao seu público-alvo.

Ética e Cidadania 15
Moral e Ética na Sociedade

1
1. Demonstrar honestidade e justiça

 Seguir todas as regras e regulamentos. Procurar orientação sempre que


estiver em dúvida.

 Apresentar as informações com precisão, sem enganos nem exageros.

 Comunicar-se com clareza e honestidade.

 Tratar os outros com justiça e honestidade.

2. Respeitar os outros

 Colocar sempre a segurança em primeiro lugar.

 Proteger o meio ambiente ao fazer seu trabalho.

 Tratar todos com civilidade e respeito.

3. Assumir responsabilidades

 Ser responsável pelo que diz e faz.

 Obter confiança atendendo aos compromissos.

 Seguir políticas, padrões e procedimentos.

 Procurar orientação sempre que estiver inseguro.

Agora chegamos ao ponto de você ter claro que os valores individuais e coletivos po-
dem ser facilmente acompanhados e percebidos na conduta das pessoas, tanto no
ambiente das empresas, como na sociedade.

Afinal, o que é valor? Passos (2006, p. 52) afirma que a palavra valor, “[...] do latim
valore, é a qualidade pela qual nós escolhemos alguma coisa em detrimento de outra”.

Ainda no sentido conceitual, Cortina e Martinez (2005, p. 43) entendem que os valores
estão amplamente inseridos nos costumes dos grupos sociais e “[...] são uma parte
indispensável da identidade de um povo em cada momento de sua história”.

Cunha (2012, p. 53) identifica que, superficialmente ou inicialmente, as pessoas asso-


ciam a palavra valor a uma “[...] qualidade das coisas ou ações [...] percebemos, depois,
que não há coisas (ou ações) que sejam valiosas em si mesmas”.

16
Isso significa que o valor às coisas ou objetivos e ações é atribuído pelas pessoas em 1
graus e de maneiras diferentes. Isso decorre do sentido de ética e do entendimento da
moral social do indivíduo e do grupo social ao qual pertence ou está inserido.

Tamayo e Godin (1996, p. 64 apud PASSOS 2006, p. 53) indicam que “[...] uma das
funções dos valores organizacionais compartilhados entre os membros da empresa
é criar neles modelos mentais semelhantes relativos ao funcionamento e missão da
organização”. O valor pode ser objetivo, entretanto, como elemento que está no plano
de análise do comportamento social das pessoas, gera aprendizados, por isso contribui
com o desenvolvimento do comportamento social, claramente percebido nas famílias,
grupos sociais e empresas.

1.5 ÉTICA INDIVIDUAL E ÉTICA COLETIVA NO AMBIENTE


ORGANIZACIONAL
O que uma empresa é ou pretende ser, o que o mercado pode esperar do comporta-
mento de uma empresa, entre outros aspectos, podem ser visualizados em documentos
institucionais, como o planejamento estratégico e o estatuto da empresa, que apresen-
tam visão, missão, valores e objetivos.

Entre outros pontos, esses aspectos facilitam a identificação de informações relevantes


sobre a empresa, permitindo um melhor posicionamento do mercado sobre o papel que
pretende cumprir.

Mas o que a empresa espera de um colaborador normalmente não está descrito nos
documentos mencionados, mas sim em documentos que tratam do desempenho espe-
rado pelas pessoas, do papel delas na empresa, enfim, que retratam as relações entre
empresa e pessoas.

O código de conduta ou de ética é um dos documentos que identificam as expectativas


da empresa em relação à conduta do colaborador, oferecendo, inclusive, a descrição
de procedimentos adotados em diversas situações, como em reuniões com parceiros,
relações entre líderes e liderados, relacionamentos entre membros de equips e respon-
sabilidades e aspectos que retratam a conduta das pessoas no ambiente de trabalho.

O valor costuma atribuir utilidade ao seu objeto, que pode ser um produto ou serviço,
ou um comportamento. O importante é perceber o sentido de utilidade, isto é, se um
comportamento possui valor por um grupo social possivelmente, isso é útil para manter
a coesão, a harmonia, o desenvolvimento do grupo ou outra utilidade por ele percebida.
Nesse sentido, Cunha (2012, p. 53) se apropria de Kluckhohl (1968) ao afirmar que “[...]
um valor não é somente uma preferência, mas uma preferência que se sente ou que se
considera justificada”.

No âmbito das organizações, sendo compreendidas como um microambiente social,


portanto, uma coletividade de interesses, há necessidade em se definir condutas, com-
portamentos, para que os objetivos organizacionais sejam materializados no sucesso
do seu negócio, isto é, o ambiente organizacional jamais pode ser como um cabo de
guerra em que os interesses são disputados entre grupos.

Ética e Cidadania 17
Moral e Ética na Sociedade

1 Cortina e Martinez (2005, p. 44) observam que as regras de conduta institucionais preci-
sam ser claras para que sua observância seja constante, possibilitando a aproximação de
valores individuais e coletivos em torno de objetivos comuns, “[...] maneiras de se vestir,
de se pentear, de cumprimentar etc., embora, em princípio, sejam assuntos alheios a toda
concepção moral, podem assumir certa ‘carga moral’ em determinadas circunstâncias”.

Os comportamentos das pessoas variam em ambientes diversos, no relacionamento com


pessoas diferentes daquelas em que habitualmente estão acostumadas, em situações de
maior ou menor pressão, entre outros. Para evitar problemas com a sua imagem, as em-
presas criam procedimentos que devem ser seguidos por todos os seus colaboradores.

Dessa forma, ela estabelece padrões na conduta dos seus colaboradores a partir dos
seus objetivos, dos objetivos negociais institucionais. Nesse sentido, Sá (2010) asse-
vera que as organizações ou grupos sociais criam seus códigos de conduta ou de pro-
cedimentos éticos, justamente para evitar com que o individualismo deturpe a ética, e,
portanto, tenhamos relações estabelecidas em interesses momentâneos, fragmentados
pela visão individual, pessoal em detrimento do bem coletivo. Na sociedade e nas em-
presas, o coletivo deve estar permanentemente atento ao individual, para que este são
se sobreponha ao primeiro.

Nesse sentido, Sá (2010, p. 53) destaca alguns aspectos que devem ser de responsabili-
dade de cada um, evitando que práticas individuais se sobreponham ao interesse coletivo:

Para evitar que práticas individuais se sobreponham ao interesse coletivo é preciso:

Compreender a necessidade de limitar a liberdade individual a uma disciplina de


convivência harmoniosa com seus semelhantes.

Ser menos fantasioso e mais prático.

Harmonizar saber, crença, inteligência e sentimento.

Agir racionalmente controlando a emoção, a fé e a crença.

18
1
Considerar que o interesse econômico é relevante, mas não o preponderante sobre
o interesse humano.

Esses aspectos dizem respeito diretamente à ideia de que os valores consagrados pela
coletividade devem ser sistematicamente comunicados para não caírem no esqueci-
mento dos indivíduos ou grupos menores, pois, vieses egoísticos na conduta pessoal
ou de pequenos grupos podem criar desarmonias sociais graves.

Abaixo você confere um código de ética universal, conhecido, reconhecido e legitimado


pela coletividade mundial, contendo ações condenáveis pela sociedade, tanto do ponto
de vista moral como criminal.

1 Amar a Deus sobre todas as coisas. Não pecar contra a castidade. 6

2 Não tomar seu santo nome em vão. Não roubar. 7

3 Guardar domingos e festas. Não levantar falso testemunho. 8

4 Honrar Pai e Mãe. Não desejar a mulher do próximo. 9

5 Não matar. Não cobiçar as coisas alheias. 10


Fonte: Elaborado pelo autor.

Independentemente do credo religioso ou mesmo para o ateu, alguns aspectos aborda-


dos nos 10 mandamentos, quando cometidos, são reprovados pela coletividade e por isso
algumas condutas assumem valores culturais que não necessariamente seriam passíveis
de formalização ou sistematização. Todos nós sabemos que ninguém tem o direito de tirar
a vida de outrem, nem mesmo de roubar ou pegar bens de outra pessoa sem autorização.

Por exemplo, atos de corrupção, que são completamente antiéticos, têm sua legislação
punitiva, além de os códigos morais condenarem esse tipo de ação. Quando se aborda
esse assunto, devemos ter claro que atos de corrupção fazem parte da história huma-

Ética e Cidadania 19
Moral e Ética na Sociedade

1 na, pois as pequenas ou grandes ações de corrupção são desdobramentos da conduta


meramente antiética. Em alguns países, ao serem descobertos, os corruptos cometem
suicídio, pois sabem que a moral coletiva condenará não somente o corrupto, mas
também seus familiares. Em outros locais, os corruptos, mesmo depois de pegos, de-
claram inocência. Nesses casos, certamente a moral social não é rígida e consistente o
suficiente para condenar o corrupto. Também nesses casos a própria legislação criminal
costuma ser branda com os antiéticos.

As regras de conduta têm um papel importante no controle do comportamento indivi-


dual, pois é da natureza humana pensar primeiro no bem-estar pessoal, para depois
agir em benefício comum e por isso as pessoas faltam com a verdade, desrespeitam os
valores sociais estabelecidos, manipulam regras de convivência, estabelecem alianças
por interesses particulares. A capacidade de raciocínio humana pode ser empregada
para ações boas ou más. Dessa forma, o coletivo atua sempre sobre o individual, limi-
tando sua ação.

É bem simples raciocinar sobre o papel do que chamamos de hierarquia ética ou con-
trole da conduta ética coletiva sobre comportamento individual, pois já tivemos muitos
exemplos de indivíduos ou grupos que tentaram fazer com que a sociedade ou a cole-
tividade tornasse legítimas suas práticas. Em resumo, objetivavam subjugar interesses
coletivos, criando um perigoso cenário de ruptura de relacionamentos sociais, portanto,
colocando em risco a harmonia coletiva.

Agora, podemos claramente entender o dito popular “a liberdade de uma pessoa ter-
mina quando começa a liberdade de outra pessoa”. Ultrapassar essa fronteira é muito
perigoso, por isso a sociedade ou a coletividade limita nossas liberdades individuais.

Agora chegamos a mais uma materialidade da ética facilmente percebida no nosso


cotidiano. A liberdade e a conduta das pessoas são definidas formalmente por meio
de regras, normas e leis que são socialmente ou coletivamente aceitas, consagradas,
legítimas, prevendo punições aos que as descumprirem.

1.6 ÉTICA APLICADA: CONDUTA HUMANA EM GRUPOS


Pelo apresentado, você deve perceber no seu cotidiano atos éticos e antiéticos, deve
testemunhar diariamente o desrespeito a valores sociais e organizacionais. Isso ocorre
porque nem o mundo e nem as pessoas são perfeitas. Somos suscetíveis a erros, al-
guns reconhecemos e com outros não fazemos o mesmo.

Certamente, a maioria das pessoas que está em uma fila no trânsito de uma autoestra-
da se indigna com os motoristas que cortam caminho pelo acostamento, que, além de
ser um ato passível de punição no rigor da lei, é imoral. A pessoa que comete tal condu-
ta faz para levar vantagem em relação aos demais, que estão cumprindo com a lei e que
reconhecem a prática da vantagem como antiética, portanto, moralmente condenável.

Mesmo condenável, o exemplo acima é corriqueiro, pelo menos no trânsito brasileiro, e


pode ser em uma autoestrada, em uma metrópole ou mesmo em um pequeno vilarejo. Se
for possível, o motorista brasileiro vai tentar levar vantagem de alguma situação. Há diver-

20
sos fatores que levam as pessoas a cometerem atos antiéticos, mas, o que não devemos 1
pensar é que todas as ações antiéticas são tomadas de forma involuntária, inconsciente.

A seguir, verificaremos um grande problema que a sociedade começa a enfrentar como


um ato que, de involuntário, passou a consciente, pois já dispomos de legislação que
proíbe o uso de aparelhos celulares em certos ambientes ou situações.

Só uma olhadinha! Essa é uma expressão conhecida quando as pessoas fazem uso do
aparelho de celular em situações em que não deveria cometer tal ato. No trabalho, no
lazer, na igreja, na escola, ao volante, no restaurante, enfim, as situações são diversas.
Como dissemos, algumas são proibidas por lei e outras, convenhamos, constrangedo-
ras, isto é, condenadas pela moral, mesmo assim, as pessoas simplesmente fazem.
Quer dizer, a vontade individual suplanta a moral coletiva, entretanto, a condenação não
é somente velada, pois as demais pessoas podem também executar a mesma ação.

Você sabia que empregados norte-americanos perdem cinco horas de trabalho por
semana usando o celular para fins particulares? Usar celular no trabalho pode gerar
demissão, até por justa causa.

Acesse o endereço e confira novidades e curiosidades sobre o assunto: http://


economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2017/08/07/celular-
no-trabalho-pode-gerar-demissao-numero-de-casos-deve-aumentar.htm. Acesso
em: 27 jul. 2019.

No trabalho especificamente, o coletivo não reprova explicitamente, pois todos podem


se deparar com a mesma situação, entretanto, não é desejável pelas empresas que
constantemente seus colaboradores tenham que interromper suas atividades para
atender alguma necessidade familiar.

De fato, todos podem se ver envolvidos em situações imprevistas com a família que,
inevitavelmente, influencia o desempenho no trabalho. Por isso Bennett (2014, p. 29)
destaca alguns aspectos que a pessoa deve atentar para manter o controle das ativida-
des no trabalho, sem descuidar das necessidades familiares, e vice-versa.

VOCÊ TEM O CONTROLE DE SUA VIDA


Se desejar fazer mudanças, você é quem deve efetuá-las.

 Avalie suas prioridades

O que é mais importante – seu trabalho ou a família?

 Seja realista

Seja realista quanto às expectativas que estabelece para si.

Ética e Cidadania 21
Moral e Ética na Sociedade

1
 Converse

Converse com os membros da família a respeito de seus desafios profissionais.

Converse também com seu supervisor, mas tente não transformar os co-
mentários em exigências.

 Foco

Permaneça focado no ambiente em que se encontrar.

Lembre-se de que a empresa e seus colegas de trabalho, as pessoas de convívio, os fa-


miliares, enfim, todos que você se relaciona possuem alguma expectativa em relação à
sua conduta. De fato, apesar de as pessoas desempenharem diferentes papéis, profis-
sional, pai, mãe, estudante, esposo, esposa, entre outros, tudo isso é feito por apenas
uma pessoa que é influenciada por eventos múltiplos que ocorrem em seu cotidiano.

Apesar dessa complexidade, as pessoas interiorizam os valores familiares, profissio-


nais e sociais que definem sua conduta e limitam que seu comportamento se torne com-
pletamente diverso ao dos demais membros da sua família, trabalho ou grupo social.

É importante observar que toda sociedade, por mais rudimentar e simples que seja,
transfere seus valores por meio das suas instituições sociais, como a escola, a família,
a igreja, entre outras. As instituições sociais assumem um papel fundamental na disse-
minação e na configuração do comportamento individual socialmente aceito, por isso
você dificilmente vai perceber grandes discrepâncias entre os valores que você apren-
de na família com os valores existentes em outras instituições sociais, até mesmo nas
empresas privadas.

CONCLUSÃO
Nesta unidade vimos que a ética, a moral e os valores são importantes elementos orde-
nadores do comportamento das pessoas em empresas, grupos sociais, famílias e em
qualquer parte ou setor da sociedade.

Para isso, faz-se uso de instituições sociais como a escola, a igreja, as entidades de
classes, os partidos políticos, as instituições oficiais do Estado ou da sociedade civil.

Vimos também que as empresas possuem valores que visam a facilitar a inserção das
pessoas em seu ambiente, o trabalho em equipe, entre outros elementos que possibi-
litam a identificação ética e moral em um ambiente controlado, como o das empresas.
Por isso, as organizações procuram criar as condições para que as pessoas melhor se
adaptem ao seu ambiente, fazendo a gestão dos inevitáveis conflitos entre pessoas no
seu espaço. Esses conflitos são comumente originados em disputas por espaços ou por
diferenças nas visões de mundo individuais.

Assim, compreendemos que são as pessoas que devem se adaptar aos valores organi-
zacionais, mesmo que esses sofram mudanças ao longo do tempo.

22
Além disso, observamos que há como materializar os valores e o comportamento ético 1
desejado por meio de códigos, leis e normas. Mecanismos sistematizam regras de con-
duta, por isso a ética coletiva limita o comportamento individual.

REFERÊNCIAS
1. BENNET, C. Ética profissional. São Paulo: Senac, 4. FRIEDRICH, T. L.; WEBER, M. A. L. Gestão de
2014. conflitos: transformando conflitos organizacionais
2. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. A história em oportunidades. CRAS-RS, Porto Alegre, 14 jan.
dos códigos de ética médica. Pensar e dizer, Brasí- 2014. Disponível na biblioteca virtual da USF. Acesso
lia, maio-jun. 2009. Disponível na biblioteca virtual da em: 26 jul. 2019.
USF. Acesso em: 26 jul. 2019. 5. PASSOS, E. Ética nas organizações. São Paulo:
3. CORTINA, A.; MARTINEZ, E. Ética. São Paulo: Atlas, 2006.
Loyola, 2005. CUNHA, S. S. Ética. São Paulo: Sa- 6. SÁ, A. L. de. Ética profissional. 9. ed. São Paulo:
raiva, 2012. Atlas, 2010.

Ética e Cidadania 23
Ética Profissional

UNIDADE 2

2
ÉTICA PROFISSIONAL

1. O SER HUMANO NAS ORGANIZAÇÕES


Desde sempre as pessoas são fundamentais para o desenvolvimento das empresas,
pois aprendem, agregam, contribuem com suas competências, habilidades e atitudes,
ampliando as capacidades competitivas das organizações.

Dessa forma, você deve partir da ideia de que, sem as pessoas, as organizações não al-
cançam a almejada sustentabilidade, ou, de forma mais clara, não conseguem sobreviver.

As pessoas devem compreender que ao adentrarem em uma empresa para desen-


volver suas atividades profissionais, devem se comportar conforme o elemento social
(empresa) concebe como necessário e correto. Por isso é que as empresas definem
atividades, procedimentos e processos, para que cada pessoa saiba qual seu papel
nessa estrutura e o que a empresa espera da sua conduta.

Enquanto estrutura social, Sá (2010, p. 169) considera que “[...] todas as capacidades
necessárias ou exigíveis para o desempenho eficaz da profissão são deveres éticos”.
Nesse sentido, surge aqui a combinação entre necessidades individuais e deveres e
responsabilidades institucionais.

Além do conflito de valores, as pessoas precisam compreender que todas as ações


no âmbito organizacional precisam convergir com o negócio, portanto, são racionais,
objetivas e com propósitos definidos. Não queremos dizer com isso que não existe
subjetividade nas tomadas de decisão, mas, convenhamos, se o negócio é que gera
sustentabilidade à organização, então, por que ela agiria distante do seu negócio?

O cérebro nos dá a capacidade de distinguir entre certo e errado, bom e mau, entre
outros aspectos ligados à ética e à moral que são amplamente trabalhados pelas em-
presas, visando manter seus colaboradores focados e contribuindo continuamente para
a expansão do negócio.

Na posição de colaborador de uma empresa, possivelmente você não perceberá mal


algum em usar o computador e a impressora para elaborar e imprimir um trabalho da
faculdade. Mas inverta os papéis e se imagine na figura de proprietário da empresa,
será que a percepção se manteria? Lembre-se de que a ética não deve ser aplicada
convenientemente, mas ela deve estar à frente de todas as ações do cotidiano.

Imprimir um trabalho particular na impressora da empresa, usar o tempo do trabalho


para se dedicar às atividades de foro privado, são ações que podem ser vistas por dife-
rentes atores como éticas ou antiéticas. Isso depende também do papel que se cumpre
na empresa, da sua visão de mundo e outros fatores.

24
Para evitar situações constrangedoras, as empresas costumam elaborar manuais de
procedimentos e condutas, objetivando nivelar o comportamento das pessoas no am-
biente de trabalho, tornando coletivo o conhecimento sobre os valores e as práticas 2
éticas, preservando a empresa.

Dentre as diversas responsabilidades das empresas, uma delas é a de oferecer totais


condições para que seu colaborador desempenhe ao máximo suas atividades. Dessa
forma, disponibiliza computador, impressora, caneta, lápis, veículo, telefone, mesa, en-
tre outros instrumentos usados diariamente nas atividades laborais.

Os colaboradores devem, ou deveriam saber, que tais materiais devem ser utilizados
somente em suas atividades laborais. Bennett (2014, p. 43) considera que “[...] o au-
mento do uso da tecnologia no local de trabalho nos últimos vinte anos trouxe novas
preocupações e exige que decisões éticas sejam tomadas”.

A mesa ou estação de trabalho é reconhecida como o espaço reservado do profissional,


sendo considerada, desde que guardadas as devidas proporções, como o seu espaço
íntimo na organização, o lugar da empresa com o qual ele melhor se identifica. Espera-se
que nenhum colega vasculhe as gavetas a procura de algo, mesmo um documento impor-
tante para a empresa. Nas gavetas, além de materiais relativos ao trabalho, as pessoas
costumam guardar materiais de uso pessoal e, em muitos casos, documentos pessoais.

Isso ilustra bem a noção de ética no ambiente de trabalho. A empresa tem direito de
abrir as gavetas de qualquer mesa em suas dependências, mas é o bom senso, a mo-
ral, a ética, uma regra precípua da boa convivência que faz com que as pessoas não
mexam no espaço dos colegas. Convém destacar que o profissional deve ter a visão
muito clara de que aquele espaço que ocupa, de fato, não é seu, é da empresa.

Veja esse caso de como uma pessoa pode tomar para si algo que não é seu, fazendo
uso incorreto de um instrumento destinado apenas para suas atividades profissionais.
Um deputado federal brasileiro foi flagrado no plenário, em plena sessão legislativa,
com um aparelho celular da Câmara dos Deputados, assistindo um vídeo pornográfico.
Tudo indica um ato, no mínimo, antiético, mas a autoridade parlamentar não sofreu
punição, nem mesmo teve sua atenção chamada pela instituição e, com base no seu
comportamento, não se sentiu constrangido.

Entretanto, sabemos que eticamente sua atitude deveria ser reprovada pela instituição,
cabendo uma advertência formal, para que esse tipo de comportamento não volte a se
repetir, por encontrarse distante dos princípios organizacionais. Além disso, por ser uma
figura pública e estar de posse de um bem público, deveria também pedir desculpas ao
contribuinte pelo erro cometido.

A imagem de uma empresa é influenciada pela conduta de seus colaboradores, por


isso, o uso de instrumentos de comunicação institucional somente pode ser utilizado
para fins laborais, como exemplo, o e-mail institucional, o telefone e todos os demais
instrumentos disponibilizados pela empresa para o exercício da profissão.

O telefone é um dos importantes canais de comunicação para qualquer empresa, por


isso, assim como os demais, deve ficar claro para todos os colaboradores os procedi-

Ética e Cidadania 25
Ética Profissional

mentos de uso. Você vai concordar que alguns procedimentos são básicos ao se usar
um telefone, por exemplo. Ao atender, é importante fazer uma saudação cordial e se
2 identificar pelo nome e local de trabalho. Essa postura deve ser adotada para ligações
externas ou internas, pois, especialmente em empresas de grande porte, em que corri-
queiramente os colaboradores não se conhecem, sendo reconhecidos pelo número da
matrícula e departamento em que atuam, esse tipo de procedimento se faz necessário.

A máxima “respeite para ser respeitado” é fundamental ser seguida nesses casos, afinal,
a chance de um colaborador manter contato, seja por e-mail ou telefone, com alguém
do ambiente interno ou externo que não conheça é grande. Por isso ser cordial, atender
as pessoas com respeito e ética, ser claro e objetivo na informação são essenciais para
qualquer pessoa ou empresa.

Para evitar problemas maiores na comunicação interna e externa, é comum que as em-
presas criem seus planos de comunicação, indicando formas de redigir documentos, pos-
tura em reuniões, uso da internet, e-mail, telefone, uso de documentos institucionais etc.

As regras de conduta nas empresas são importantes para que se evite ao máximo os
efeitos das fofocas, boatos, ou seja, a ação das pessoas que sempre enxergam os
aspectos negativos mais que os positivos em qualquer evento. Você sabe que toda
empresa possui uma “rádio peão”, e é comum também que as empresas ou equipes de
trabalho tenham o que se chama de sabotadores silenciosos, que atuam sempre visan-
do desagregar, confundir e semear a discórdia, fazer oposição a qualquer comunicação
da empresa, boicotar pessoas, entre outros atos.

As empresas se configuram como um ambiente controlável, dinâmico, competitivo, em


que a competição é real e está presente em muitas relações, por isso esse é um am-
biente complexo, como ilustra a figura a seguir.

A complexidade é inerente ao ambiente organizacional, contudo, por vezes se asseve-


ra, principalmente quando a equipe está dividida, insatisfeita com atitudes dos principais
executivos da empresa ou quando há entre os colaboradores os sabotadores. Para
Bennett (2014, p. 63), “[...] um sabotador silencioso é aquele cujos jogos sutis e sub-
versivos podem de fato prejudicar os relacionamentos de trabalho, a produtividade, a
satisfação com o emprego e a confiança nos colegas”.

Bennett (2014) adiciona que os sabotadores silenciosos comumente agem da seguinte forma:

Ações dos sabotadores silenciosos

 Guardam consigo informações úteis ao trabalho.

 Assumem o crédito por algo feito por outra pessoa.

 Não expressam reconhecimento e apreciação aos colegas quando fazem


algum trabalho diferenciado.

 Perdem tempo em atividades não produtivas para os projetos.


Fonte: Elaborado pelo autor.

26
Os sabotadores silenciosos são mais comuns do que se imagina, poucas empresas não
têm os seus. Sob o ponto de vista ético, evidentemente que as ações dos sabotadores
silenciosos são condenáveis, por isso, dependendo do perfil da empresa, não prosperam, 2
e, quando descobertos, são demitidos.

Os planos de comunicação e outros documentos institucionais costumam apresentar di-


versos aspectos das relações entre as pessoas nas empresas, em especial, àquelas que
envolvem os relacionamentos entre líderes e liderados ou supervisores e empregados.
Esses são colaboradores que possuem relações de trabalho, mas estão posicionados
hierarquicamente em níveis diferentes.

Gerentes, chefes e supervisores que praticam atos antiéticos costumam tentar de alguma
forma corromper alguns dos seus comandados. Uma das formas mais comuns de perce-
ber isso tem relação com o tratamento diferenciado do chefe para com seus comandados.
Nesse caso, é possível perceber que com alguns são aplicadas as regras institucionais,
com até certo grau de autoritarismo, enquanto que para outros há regalias.

A pior coisa que pode acontecer a uma equipe de trabalho é ter alguém que atua como
leva e traz para o chefe. Esse tipo de atitude gera desconfiança, chegando à revolta da
equipe. Isso costuma desagregar, desmotivar e comprometer a produtividade da equipe
e da empresa.

Outra prática recorrente, mas absolutamente condenada pelas empresas, é o assédio


sexual. Muitas pessoas investidas em cargos fazem uso da sua posição hierárquica para
se aproveitar desse tipo de situação. Além de fazer parte dos códigos de conduta das
empresas, o assédio sexual é crime, especificado no código penal brasileiro.

A Lei Federal nº 10.224, de 14 de maio de 2001, versa sobre o crime de assédio


sexual, em seu artigo 216 A e dispõe que constranger alguém com o intuito de obter
vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição se
superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo
ou função. Pena: detenção de um a dois anos. A lei nº 10.224 altera o decreto-lei
2.848 de 7 de dezembro de 1940. Leia ambos e observe as alterações, pois elas
refletem a evolução da percepção da sociedade em relação ao tema.

As diferenças entre essas normativas expõem claramente a evolução da sociedade


em relação ao tema, requerendo, no atual momento, novas condutas de empresas
e de seus colaboradores.

Relações íntimas ou romances no local de trabalho são indesejados pelas empresas,


pois, pessoas que mantêm relações afetivas no local de trabalho tendem a se proteger,
podendo esse sentimento de proteção prejudicar o desempenho, alterando negativamen-
te a conduta dos envolvidos.

As empresas investem para que as pessoas tenham no seu local de trabalho relações
positivas, éticas, iguais e capazes de solidificar o ambiente organizacional.

Atualmente, as empresas procuram eliminar problemas como esses, criando processos


institucionais que, dependendo da situação, são tratados somente pela cúpula da em-

Ética e Cidadania 27
Ética Profissional

presa, sem a participação da gerência média. Um exemplo disso são os canais de re-
clamação dos empregados em relação à conduta dos chefes. Após encaminhados, os
2 relatos são apreciados e debatidos entre os principais executivos. Deve-se destacar que
as reclamações dos colaboradores em relação aos seus superiores não se limitam ao
campo do assédio sexual, mas podem estar relacionadas à falta de comprometimento,
atitudes antiéticas, entre outras, que, sob o ponto de vista empresarial, comprometem o
desempenho do negócio.

Bennett (2014, p. 94) argumenta com muita propriedade que, “[...] a mais inocente das
intenções pode dar origem a situações complicadas, que exigem processos legais para
serem resolvidas”.

O que se percebe é que, atualmente, as ações individuais podem de fato comprometer a


imagem organizacional, criar rupturas internas e até influenciar negativamente o compor-
tamento das equipes, afetando o resultado da empresa. Portanto, normatizar o comporta-
mento das pessoas no ambiente organizacional ainda continua a ser uma das estratégias
mais utilizadas para coibir condutas antiéticas..

2. ÉTICA E PROFISSÃO
Antes de evoluirmos no tópico, você deve ter claro que cada profissão requer habilidades
e conhecimentos próprios, pois cada uma possui atividades específicas.

Sá (2010, p. 155) considera que:


A profissão, como a prática habitual de um trabalho, oferece uma relação entre
necessidade e utilidade, no âmbito humano, que exige uma conduta específica
para o sucesso de todas as partes envolvidas, quer sejam os indivíduos dire-
tamente ligados ao trabalho, quer sejam os grupos maiores ou menores onde
tal relação se insere.

As empresas têm em seu escopo ético o padrão de conduta desejado pela sociedade,
por isso alguns comportamentos são considerados e facilmente reconhecidos por toda a
sociedade como éticos ou antiéticos, por possuírem um caráter universal. Apesar disso,
as especificidades dos comportamentos dos profissionais são tipificadas em instrumentos
normativos comumente conhecidos como códigos de ética.

Em uma relação comercial, é preciso ter confiança entre as partes. Essa relação tem iní-
cio quando ocorre uma demanda por parte do consumidor, que, via de regra, deposita fé
no profissional que atende seu chamado.

Segundo Sá (2010, p. 228), no relacionamento comercial ético, especialmente por parte


do profissional, há necessidade da observância de alguns aspectos:

28
Figura 01. Aspectos para o relacionamento comercial ético

2
O uso de franqueza com o cliente.

Ouvir atentamente o cliente, estabelecendo


uma comunicação resolutiva.

Usar de objetividade e transparência nas res-


postas às dúvidas ou demandas do cliente.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A não observância desses aspectos pode levar à dissolução da relação por meio do
rompimento contratual após a constatação de práticas antiéticas, evidentemente.

Ser respeitoso com os colegas de profissão é fundamental para qualquer profissional,


pois é por meio da ética que as equipes de trabalho se mantêm coesas e motivadas,
além de fortalecer as relações profissionais no ambiente de trabalho, é salutar para as
relações pessoais.

Parece óbvio, mas esses são aspectos que as pessoas aprendem desde cedo, pois o
respeito ao outro faz parte da cultura, da moral social, portanto, trata-se de uma prática
ética universal. Mesmo assim, comumente os códigos de ética profissionais reforçam
esses elementos, fazendo o profissional perceber com clareza que não está sozinho em
seu negócio ou em uma empresa, mas sim, que seu trabalho interage com outros ou
mesmo que seus clientes dependem dos serviços prestados e da confiança depositada.

Sá (2010, p. 238) considera que:


objetivamente, perante sua comunidade, o profissional tem deveres diversos, mas
basicamente o de sustentar a estrutura de organização da comunidade à qual se
vincula, protegendo o conceito desta e o mantendo sempre elevado e protegido.

Por isso os códigos de ética e os comitês de ética profissional atuam visando manter os
aspectos legais e éticos dentro dos padrões estabelecidos, mas também para que a classe
profissional tenha uma boa imagem perante a sociedade, merecendo seu respeito.

Havemos de concordar que todo profissional ingressa em uma carreira com expectati-
vas, planos e interesses sociais e esses são aspectos legitimados e reconhecidos pelas
classes, dessa forma, o entendimento geral estampado nos códigos de ética profissional
considera essas possibilidades, não permitindo que apenas os interesses pessoais se
posicionem acima da ética do profissional ou do coletivo.

Ética e Cidadania 29
Ética Profissional

3. VALORES, RESPONSABILIDADES E DEVERES INDIVIDUAIS


2 E COLETIVOS NAS ORGANIZAÇÕES
O local de trabalho é um ambiente social, isto é, não se configura em um espaço em
que as pessoas apenas exercem atividades de produção de bens materiais ou serviços.
Sendo assim, nesse ambiente há múltiplas relações e sentimentos que afloram diaria-
mente, dependendo das situações.
Figura 02. Dicotomias de sentimentos presentes no espaço de trabalho

Frustração x Satisfação

Egoísmo x Solidariedade

Desejo de vingança x Amizade

Medo x Coragem

SENTIMENTOS
Pertencimento x Isolamento

Alegria x Tristeza

Esperança x Descrença

Amor x Ódio

Fonte: Elaborado pelo autor.

A dimensão da complexidade do ambiente social, que é o espaço de trabalho, pode ser


claramente percebida na variação de sentimentos individuais e, por vezes, coletivos,
visto que nesse ambiente há pessoas de origem de diversos ambientes sociais, mas
que precisam manter intensas e continuadas relações, provocando mudanças compor-
tamentais, ampliando a complexidade do ambiente.

O relacionamento entre as pessoas e as organizações ocorre de várias formas sob o


ponto de vista da ética e da moral. Esses ocorrem formal e objetivamente, até informal
e subjetivamente, havendo, sobretudo, uma relação de troca e compartilhamento cons-
tante e continuado.

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A troca ocorre também no ato de compra e venda de um produto ou serviço, ou também
na prestação de serviços de um funcionário que deposita seus esforços e habilidades
na empresa em troca de uma remuneração. 2

O compartilhamento pode ocorrer de várias formas, como elogios aos produtos e servi-
ços feitos pelos clientes, pelo uso comum de logística entre a empresa e um fornecedor,
ou ainda pelo uso de conhecimento dos colaboradores no processo produtivo, consulti-
vo, criador, enfim, em vários processos do negócio da empresa.

Independentemente do tipo de relacionamento que uma empresa tem com as outras


pessoas, todos possuem responsabilidades e deveres. As pessoas que são contrata-
das para atuar em uma empresa devem ter, por dever, conhecimento técnico sobre as
atividades que irá executar, mas deve também ter ciência dos valores que guiarão sua
conduta no ambiente organizacional.

Você sabe que as organizações são diferentes umas das outras e que as profissões
também são. Seria muito simples para qualquer pessoa fazer a escolha por uma profis-
são, seja um engenheiro químico, cientista social, contador, economista, administrador
de empresas, enfim, qualquer uma delas, mas a complexidade reside em que a pessoa
precisa saber que há peculiaridades nas atividades, e é seu dever conhecê-las. As frus-
trações com as profissões se iniciam justamente em função de a pessoa não conhecer
amplamente o escopo de tarefas da profissão escolhida, com isso, não ocorre a relação
prazerosa com o ofício da profissão.

Sá (2010, p. 169), afirma que:


A profissão não deve ser um meio, apenas, de ganhar a vida, mas de ganhar
pela vida que ela proporciona, representando um propósito de fé. Seus de-
veres, nesta acepção, não são imposições, mas vontades espontâneas. Isto
exige, portanto, que a seleção da profissão passe pela vocação, pelo amor ao
que faz, como condição essencial de uma opção.

Essa afirmação de Sá (2010) é relevante, sobretudo do ponto de vista ético à medida em


que ao atuar em uma profissão com vontade, motivação e amor, certamente a pessoa es-
tará atuando com zelo, procurando o conhecimento sobre as tarefas da profissão, evitando
erros nas atividades, que se configuram como o mais pernicioso problema que uma pessoa
ou empresa pode ter. Trabalhos malfeitos mancham a imagem de um profissional ou de
uma empresa, acarretando problemas maiores, como processos judiciais, perda de clien-
tes, perda de espaço no mercado, falta de confiança na marca, entre outros.

Para evitar problemas, as empresas procuram profissionais que demonstram ter capacida-
des básicas para o exercício profissional. Sá (2010) destaca algumas dessas capacidades:
abnegação, aptidão, caráter, coerência, criatividade, determinação, disciplina, eficácia, efici-
ência, empenho, espontaneidade, fidelidade, firmeza, honestidade, lealdade, objetividade,
parcimônia, perseverança, pontualidade, prudência, receptividade, sensibilidade, sincerida-
de, temperança, tolerância e zelo.

Evidentemente que cada uma dessas capacidades requer deveres a serem cumpridos pe-
las pessoas em relação aos seus múltiplos relacionamentos e responsabilidades no âmbito
da vida profissional.

Ética e Cidadania 31
Ética Profissional

Para Cunha (2014, p.138), “[...] só é dever o que aparece como necessitante perante a
consciência pessoal”. Por isso, na visão desse autor existe uma diferença determinante
2 entre dever e obrigação. O dever satisfaz, enquanto a obrigação é executada por força ex-
terna e muitas vezes não satisfaz, nem mesmo motiva, por implicar uma relação de subor-
dinação. Cunha (2017, p. 137) ainda destaca que, “[...] não existe sentimento de obrigação,
enquanto é muito comum falar-se em sentimento de dever”.

A confusão entre dever e obrigação é bastante comum, mas quando você compreende que
existe esferas do dever, percebendo-as em suas práticas diárias, fica mais fácil de entender
as sutis diferenças entre esses termos. Na visão de Cunha (2014, p.140), existem duas
esferas dos deveres, os particulares e os corporativos.

Particulares Corporativos

Os particulares possuem relação com a ex-


Os deveres corporativos estão no plano profis-
pressão “lição de casa”, isto é, são as tarefas
sional, como os relativos ao cargo de presi-
que cumprimos em nossa vida privada, por
dente de uma empresa ou entidade de classe.
exemplo, fazer os trabalhos escolares.

Entender e saber a amplitude e a profundidade, isto é, a complexidade das tarefas de uma


profissão, torna a obrigação menos pesada e o dever mais prazeroso.

Por certo, todas as pessoas que escolhem bem sua profissão, isto é, estão convictos da sua
vocação, tendem a ser felizes, realizadas, e são pessoas mais produtivas do que aquelas
que não souberam explorar suas virtudes.

Cortina e Martinez (2013, p. 60) classificam as virtudes em dois grupos:

Virtudes intelectuais Virtudes éticas

Inteligência Justiça

Ciência Veracidade

Sabedoria Amabilidade

- Magnificência

Fonte: Elaborada pelo autor.

Essas virtudes estão presentes nas pessoas, entretanto, algumas sabem potencializá-las
e isso é possível à medida que cada indivíduo amplia sua visão de mundo, seus relacio-
namentos sociais e até mesmo os conflitos de valores contribuem para que isso aconteça.

Você não deve ter dúvidas de que as pessoas são a verdadeira fonte do conhecimento e da
competitividade de qualquer organização, por isso todos os aspectos que envolvem a ética
no âmbito organizacional devem ser tratados com a maior seriedade, tanto quanto as estra-

32
tégias dos negócios organizacionais. Quando falamos em pessoas, estamos nos referindo
a todas as pessoas que, de alguma forma, mantêm relações com as empresas.
2
Como saber se, ao entrar em uma loja, um cliente efetuará uma compra volumosa, uma
compra modesta, ou sairá apenas com uma informação?

Por desconhecer a potencialidade dos clientes, toda empresa deve ter uma política de ética
no atendimento às pessoas, evitando julgamentos superficiais e aparentes, ou mesmo por
condição econômica e social. Com isso se evitam situações constrangedoras.

Parece inimaginável que uma empresa faça distinção entre seus clientes, mas isso ocor-
re corriqueiramente no comércio, na indústria ou em qualquer ramo empresarial, tanto no
setor privado como no público. Certamente você deve se lembrar de muitas situações em
que esse tipo de coisa tenha ocorrido, trata-se de uma postura antiética da empresa e das
pessoas que cometem essas práticas. Passos (2006) adverte que as empresas devem ter
práticas humanistas em relação às pessoas com quem interage, isso significa conceber seu
negócio tendo por base que seu valor principal é o ser humano. A ética e a moral permeiam
todas as relações estabelecidas no ambiente organizacional, fazendo parte consciente ou
inconscientemente da prática das pessoas, por isso que cada um deve ter clareza do seu
papel nesse ambiente social, para então agir conforme as regras da profissão e da empre-
sa, cumprindo com suas responsabilidades e seus deveres.

4. VALOR SOCIAL DAS PROFISSÕES E VIRTUDES


PROFISSIONAIS
Em ambientes repletos de vícios, em que a desonestidade, a inverdade e o desrespeito im-
peram, a virtude não se faz presente. Se você conhece alguma organização em que esses
elementos estão presentes, então tenha certeza de que se trata de uma organização dis-
tante da moral social, por vezes condenada pela sociedade, portanto tende não prosperar
em seu negócio. A virtude organizacional ou individual tem seus fundamentos no respeito.

Sá (2010, p. 80) afirma que “[...] na conduta ética, a virtude é condição basilar, ou seja, não
se pode conceber o ético sem o virtuoso como princípio, nem deixar de apreciar tal capaci-
dade em relação a terceiros”.

O respeito é essencial à virtude e à ética, portanto, é fundamental às profissões, pois é


ele que parametriza os relacionamentos entre as pessoas, tanto no âmbito profissional
como fora dele.

Você já parou para pensar o que significa profissão? Sá (2010, p. 147) menciona que
“[...] profissão provém do latim professione, do substantivo professio [...] Na atualidade,
representa trabalho que se pratica habitualmente a serviço de terceiros, ou seja, prática
constante de um ofício”.

As profissões têm papel social relevante, pois promovem a relação equilibrada entre as
pessoas, facilitam o compartilhamento de conhecimentos, hábitos culturais, experiências de
vida, criam e fortalecem relações, ampliam o entendimento jurídico, sociológico, psicológico
e econômico do comportamento humano em sociedade.

Ética e Cidadania 33
Ética Profissional

Em seu cotidiano, as pessoas cumprem muitos papéis, como trabalhador, pai, mãe, filho,
esposo, esposa etc., sem mesmo tomar consciência da importância social de cada um de-
2 les. No que se refere às atividades profissionais, Sá (2010, p. 147) toma de Cuvillier (1947)
aspectos relevantes do papel social cumprido pelas profissões, conforme segue:

 É pela profissão que o indivíduo se destaca e se realiza plenamente, provando sua


capacidade, habilidade, sabedoria e inteligência, comprovando sua personalidade
para vencer obstáculos.

 Por meio do exercício profissional, consegue o homem elevar seu nível moral.

 É na profissão que o homem pode ser útil à sua comunidade e nela se eleva e
destaca na prática dessa solidariedade orgânica.

Esses aspectos facilitam a nossa percepção sobre o valor social das profissões, inde-
pendentemente do seu nível de interação com a sociedade, isto é, do tipo de serviço
prestado para satisfazer as necessidades humanas e sociais.

Deixemos de lado o serviço prestado diretamente à sociedade e passemos para o plano


informacional. Você já pensou o quanto de informações as profissões geram para a so-
ciedade e como essas informações podem ser úteis? Por exemplo, com um pouco mais
de atenção e investimentos públicos em campanhas publicitárias, as pessoas podem
vir a saber como proceder em situações críticas, tais como acidentes de trânsito, aten-
dimento inicial a uma pessoa passando por um mal súbito, características de doenças,
eventos climáticos extremos, entre outros.

São os profissionais que reúnem as capacidades para criar produtos ou serviços inten-
sivos em informações como elementos facilitadores das tomadas de decisões das pes-
soas em eventos críticos. Esse tipo de atividade reforça o compromisso das profissões
para com a sociedade, que, por sua vez, reforça o papel social das profissões.

Nesse momento, não estamos destacando nenhuma profissão, mas, como as informa-
ções geradas em decorrências de suas atividades podem ajudar a sociedade, certa-
mente você deve estar vislumbrando as profissões que possuem esse perfil.

Outro aspecto importante, e mesmo determinante para a massificação das informações,


diz respeito ao papel desempenhado pelas novas tecnologias, que, apesar de facilitar
enormemente a difusão de informações, apresenta um já bem conhecido desafio à ética:
a veracidade e credibilidade da informação.

Especialmente nas redes sociais são constatadas facilmente muitas informações falsas,
denegrindo notórios profissionais, pessoas comuns, políticos, autoridades públicas e em-
presas. Em questão de horas, uma informação não verdadeira pode causar problemas
significativamente sérios. Por isso que a fonte da informação também é outro elemento
importante para as pessoas e organizações.

As classes profissionais constituem um importante elemento nesse cenário, afinal, quan-


do o Estado resolve agir por meio dos governos, precisa-se das classes profissionais para

34
mobilizar esforços. As classes representativas têm força para mover seus profissionais
no entorno de ações que, de alguma, maneira contribuem com o desenvolvimento da
sociedade, sendo o bem-estar social um dos princípios que norteiam as ações classistas. 2
Quando requeridas à atuação, mostram seu potencial de conhecimento, atendendo às
necessidades da sociedade. Convém destacar que faz parte do espírito da missão de
toda entidade de classe agir concomitantemente às necessidades da sociedade.

A ética ou a falta dela por parte de profissionais ou classes vem sendo discutida em
muitos fóruns, uma vez que, sobretudo nas últimas três décadas, vivencia-se um inten-
so ritmo na direção do comportamento individualista, que comumente relega a ética ao
segundo plano em qualquer tipo de atividade. Também tomou corpo nos últimos anos a
elevada concorrência por espaço no mercado, e, quando isso ocorre, é comum que algu-
mas pessoas e empresas percam a noção do sentido amplo do significado da ética em
suas atividades profissionais.

Para agravar um pouco a situação, com a globalização, inúmeros países tiveram que
se adequar ao novo cenário, apresentando projetos eticamente duvidosos, cujos desdo-
bramentos promoviam claramente o desmonte de estruturas cujas atividades focavam
diretamente o bem comum, isto é, atendendo a missão precípua das instituições públicas.

Além desses, no Brasil, testemunhamos incursões de dirigentes classistas cujos objeti-


vos nada mais eram do que se projetarem pessoalmente, ou seja, usavam entidades de
classes como trampolim, especialmente para acessar a carreira política.

Esses aspectos influenciam no êxito das políticas públicas, comprometendo o papel de


profissionais. Quando observamos um quadro caótico em um hospital, podemos até
imaginar que a política pública de saúde não está satisfatoriamente sendo executada,
entretanto, entre a política pública e a população que necessita dos serviços, há di-
versos profissionais, como médicos, enfermeiros, assistentes socais, entre outros, que
têm sua imagem prejudicada, primeiro por não conseguir atender toda a demanda e,
segundo, por ver sua imagem questionada pelos pacientes e familiares. Então, no valor
social das profissões, devemos sempre compreender o contexto em que as práticas
profissionais estão em aplicação.

Quando nos deparamos com esse tipo de atitude, não devemos julgar a profissão, mas
sim o profissional, que não possui as virtudes necessárias para o exercício ético e com-
petente da sua profissão.

Dessa forma, a entidade de classe deve julgar o profissional por seus erros, e não dei-
xar com que a sociedade faça seus julgamentos contra a profissão. Atualmente se tor-
naram comuns notícias de escândalos de corrupção em várias esferas do poder público
e do setor privado, entretanto, colocar todos os profissionais no mesmo nível consiste
em um exagero injusto.

A confiança depositada em qualquer profissão decorre do histórico que esta possui em


relação aos serviços prestados à sociedade. É dessa forma que ocorre a construção do
valor social das profissões, sendo de uma forma bastante básica, ou seja, a soma das
práticas individuais fortalece a imagem da profissão.

Ética e Cidadania 35
Ética Profissional

5. ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕES


2 Vivemos um momento conturbado, tanto no Brasil como em outros países, em que os
escândalos envolvendo empresas se avolumam e tomam conta da mídia mundial. Em-
presas gigantescas muitas vezes se envolvem em confusão por manter profissionais
antiéticos ou por deixar com que a ganância pelo lucro ofusque a ética institucional.

Agir auferindo resultados econômicos faz parte das estratégias de qualquer empresa, pois
esse aspecto é inerente ao sistema capitalista e fora dele, pois o fator econômico consiste
em um dos pilares da sustentabilidade organizacional. Entretanto, fazer com que os valores
econômicos definam toda e qualquer estratégia pode significar, em algum momento, riscos
à empresa, pois a busca pelo lucro costuma ofuscar as virtudes éticas e morais.

Por isso os valores éticos precisam sim fazer parte das estratégias organizacionais,
para que o lucro não cubra a organização com o manto da ganância.

Passos (2006, p. 65) argumenta que “[...] o reinado do econômico sobre o social,
apesar de continuar muito forte, está sendo muito questionado, e acredita-se, até
mesmo, estar ameaçado”.

Atualmente, com o uso das novas tecnologias, marcas globais são afetadas por ações
antiéticas praticadas por empregados ou empresas terceirizadas, sofrendo com protes-
tos e, em alguns casos, boicotes sociais sobre os produtos vinculados à marca.

As empresas que não cumprem com suas obrigações para com os consumidores
podem ser alvo de campanhas negativas nas redes sociais. Em 2013, por
exemplo, várias empresas tiveram suas marcas associadas a atos antiéticos
perante os consumidores, tendo suas marcas expostas na internet. Desde
informações erradas no rótulo, passando por boatos de falta de higiene no
processo de produção, até envolvimento de executivos com corrupção. As marcas
que agem de forma antiética pagam o preço de uma exposição negativa na grande
rede. Levantamento da Revista Exame (https://exame.abril.com.br/negocios/9-
empresas-que-suaram-paranao-lesar-sua-reputacao-em-2013/), marcas como a
Barilla, Coca-Cola, Unilever, OGX e as demais empresas do até então bilionário
Eike Batista, sofreram com as sansões feitas pelos consumidores e entidades de
defesa do consumidor.

Se em alguns momentos as empresas perdem a noção da ética e dos valores sociais,


a sociedade ou parte dela as fazem lembrar.

A ética organizacional não está descolada da ética e da moral social, pois, se pensar-
mos bem, as empresas se configuram como microambientes sociais, portanto, estão
inseridas no seio da sociedade. Dessa forma, se por um lado seu escopo ético é in-
fluenciado pela sociedade, por outro, possui aspectos éticos próprios, relacionados à
sua atuação no mercado.

36
Nasch (1993, apud PASSOS, 2006, p. 66) define a ética nas organizações como “[...]
o estudo da forma pela qual normas morais pessoais se aplicam às atividades e aos
objetivos de uma empresa comercial”. 2

Com isso, podemos afirmar que a ética no ambiente organizacional tem como objetivo re-
gular as relações entre as pessoas e entre a instituição e o mercado, posto que há muitos
conflitos entre essas partes. Para tanto, a ética é chamada para impor limites relacionais.

Quando uma empresa é fundada, comumente os parâmetros éticos começam a ser


construídos, e não devemos nos iludir, o fato é que a empresa investe esforços na pros-
peridade do seu negócio, por isso, infelizmente, os aspectos éticos não caminham con-
comitantemente ao desenvolvimento institucional. Como as regras do mercado mudam
rapidamente, a ética organizacional não acompanha na mesma velocidade.

Quando as empresas se veem envolvidas por questões cujo apelo social é muito forte,
então, inevitavelmente, procuram agregar novos elementos ou questões sociais à sua
postura ética.

Como exemplo, podemos usar a questão das condições de trabalho nas


empresas, muito questionadas pela sociedade desde a década de 1960, sendo
um tema sempre em voga por envolver questões de saúde pública e bem-estar
das pessoas. Nesse sentido, as relações evoluíram consideravelmente, tanto
sob o ponto de vista da lei trabalhista, como internamente nas empresas, com
campanhas de prevenção de acidentes de trabalho, criação de comissões de
prevenção de acidentes, entre outras ações, que, apesar de inicialmente terem
uma conotação de respeito à lei, com o passar do tempo foram assimiladas nas
práticas organizacionais.

Como essa prática se tornou uma preocupação da sociedade, facilmente materializada


na legislação trabalhista, as empresas passaram a adotar tais atividades, até porque
perceberam que o retorno desse tipo de investimento é socialmente rentável.

Todavia, o que dizem do tráfico de influências, da espionagem industrial, do uso de


informações privilegiadas, entre outras práticas relativamente comuns em diversos se-
tores do mercado, quando comprovados, resultam em dificuldades legais e morais en-
frentadas pelas empresas.

Ao optar por práticas antiéticas, costuma-se dizer que a instituição está contaminada, e
que, muito provavelmente, no seu ambiente interno as ações antiéticas, como o favo-
ritismo, a espionagem, e tantos atos imorais são relativamente comuns, fazendo parte
do seu cotidiano.

Evidentemente que uma empresa não é antiética sozinha, isto é, as práticas são execu-
tadas por pessoas, que contaminam todo o ambiente institucional por meio do exercício
de ações desrespeitosas. O que em algum momento é considerado inapropriado ou
antiético, os vícios perniciosos das práticas antiéticas os tornam próximos, corriqueiros,
comuns, influenciando os valores e a percepção moral das pessoas.

Ética e Cidadania 37
Ética Profissional

Organizações éticas costumam produzir com qualidade muito superior à média do mer-
cado e são sempre bem avaliadas, interna ou externamente, por isso seus resultados
2 financeiros são comumente positivos, atraindo mais investidores.

Por outro lado, empresas antiéticas, principalmente por atuarem apenas com o viés do
lucro financeiro, costumam ter avaliações negativas por parte da sociedade, sofrem
com a captação de bons profissionais, produzem com qualidade duvidosa, ou seja,
pagam o preço pela imagem negativa que cultivaram.

A falta de ética organizacional influencia o comportamento individual, uma vez que as


pessoas passam a perceber que práticas institucionais antiéticas podem ser prejudi-
ciais, gerando um clima de insegurança que limita a capacidade produtiva.

Reconquistar é sempre muito mais difícil do que conquistar, por isso, confiança e credi-
bilidade não se compra. As empresas que possuem na sua liderança pessoas preocu-
padas com a sustentabilidade organizacional não deixam de monitorar o comportamen-
to dos seus liderados nas negociações e no dia a dia do trabalho, evitando pequenos
erros morais que possam eventualmente se avolumar, criando um clima de desconfian-
ça entre seus parceiros e demais atores com quem se relacionam.

Por esta razão que as empresas devem preparar seus colaboradores para a conduta
ética requerida em diferentes situações. Líderes experientes sabem que toda pessoa
tem ambições e algumas acabam por extrapolar os limites éticos para ver suas expec-
tativas e necessidades atendidas. Para Passos (2006), a ética empresarial é importante
e cada vez mais é requisitada no ambiente de trabalho, sobretudo porque as pessoas
tendem a cometer “deslizes morais” que afetam o negócio da empresa. As empresas
investem em programas de incentivo ao comportamento ético no trabalho, visando inibir
as ações que objetivam o sucesso individual a qualquer preço.

As palavras de Passos (2006) remetem a pensar que, ao adotar a ética empresarial


como um elemento na gestão organizacional, as empresas estão com um propósito
bem definido de investir nas pessoas, partilhar do seu processo de tomada de decisões,
enfim, tornar a empresa mais democrática. As pessoas são o ativo mais importante que
uma empresa pode ter, pois são elas a fonte original do conhecimento, elemento funda-
mental à competitividade organizacional.

No entanto, além dos componentes do caráter, como ira, orgulho e vaidade, há pessoas
que têm sede de poder e que fazem qualquer coisa para alcançá-lo. O egocentrismo é
danoso para qualquer empresa, e, para evitar que ocorra, as organizações implantam
estratégias, alinhando o ambiente de trabalho, incluindo as pessoas, ao negócio, fazen-
do enxergarem a importância da visão, missão e valores institucionais.

38
Figura 03. Visão, missão, valores

VISÃO

MISSÃO VALORES

Fonte: Elaborada pelo autor.

Visão, missão e valores influenciam o comportamento das pessoas no ambiente de


trabalho, pois todas as estratégias organizacionais têm por base esses elementos. As
organizações não são neutras, elas são políticas, econômicas, jurídicas, sociais, enfim,
é um ambiente dinâmico influenciado pelo ambiente externo e interno. Portanto, a neu-
tralidade não existe, é nesse sentido que a ética atua, com o objetivo de estabelecer os
limites da conduta corporative – praticar o respeito para ser respeitado.

A organização não pode em hipótese alguma ter como objetivo principal o lucro acima
de tudo em suas relações comerciais, pois dessa forma estará motivando as pessoas
ao conflito, ao individualismo, às práticas que objetivam apenas a vantage e o egoísmo,
ou seja, elementos que suscitam condutas antiéticas.

A cultura organizacional fundamentada nos princípios da ética facilita a liberdade, a


igualdade, a solidariedade, o bem comum e o respeito, contribuindo significativamente
com o comportamento ético das pessoas e o zelo pela boa imagem institucional.

Mesmo com tantos mecanismos capazes de limitar a conduta antiética, você deve ter
claro que nas organizações há instâncias de poder, e que as pessoas almejam ter po-
der, e mais ainda, a luta pelo poder pode ser travada dentro dos limites da ética, entre-
tanto, comumente isso não ocorre dessa forma, as pessoas acabam por fazer uso de
todos os recursos para chegar ao poder.

Passos (2006, p. 79) afirma que “[...] não é difícil encontrar em empresas o poder sendo
usado para enganar e levar vantagem”. A autora apresenta três estratégias comumente
presentes nas empresas quando há disputas pelo poder:

Ética e Cidadania 39
Ética Profissional


Controle de informações
2
Uso para obstrução de canais de repasse informacional.


Morosidade
Dificulta a fluidez dos processos de trabalho, comprometendo os prazos.


Centralização da tecnologia
Retenção de conhecimento sobre instrumentos tecnológicos que facilitem
o trabalho.

De forma geral, as práticas desses elementos, além de potencialmente prejudicarem


pessoas, comprometem o resultado organizacional, uma vez que direta ou indiretamen-
te afetam as atividades laborais.

Devemos concordar que para as pessoas se manterem permanentemente no caminho


da conduta ética são necessários muitos esforços, e que o mesmo se aplica às organi-
zações. Para ambos, seguir as normas, as leis, as regras, confere conduta ética, mas
sabemos que a ética e a moral são mais amplas, dessa forma, agir de forma socialmen-
te responsável é o caminho a ser trilhado.

6. TENDÊNCIAS DA ÉTICA PROFISSIONAL


A conduta ética está sempre em voga, países, empresas e pessoas são permanente-
mente questionadas por suas práticas. Vivemos em um momento em que a ética e a
moral muitas vezes perecem distantes das atividades humanas.

A manipulação das massas, a formação de grupos economicamente poderosos que


atuam sobre países ou regiões política, jurídica e economicamente frágeis, os conflitos
armados que escondem interesses econômicos, enfim, são muitas as práticas humanas
que constantemente atentam contra a ética.

O clamor pelo respeito, os valores sociais e pela justiça social se fazem presentes em
qualquer parte do mundo.Os embates sociais entre os que desejam um mundo mais
igual e os que querem manter o status quo são constantes, e, muitas vezes, a figura
reguladora do estado é utilizada nos momentos de instabilidades. O problema maior é
que nem sempre o estado age imparcialmente. Vivemos num mundo em que a cultura
do acúmulo de capital parece ter se tornado uma regra, entretanto, a concentração
excessiva do capital provoca graves exclusões sociais, criando imensos bolsões de po-
breza, mantendo as pessoas sob condições degradantes, em que a fome e os demais
reflexos da miséria são claramente percebidos. Entre outros aspectos, esse é o que
mais incômodos traz à população ou à parte dessa que se preocupa com o bem-estar
comum. Problemas sociais com essa gravidade indicam a falência ou o limite dos prin-
cípios éticos, requerendo reflexões e novas abordagens.

40
Por fim, vivemos um momento de intensos conflitos de interesses que acaba por dividir
a sociedade em grupos opostos. Contudo, a mais notória divisão existente ocorre entre
a maioria esmagadora da população pobre e os poucos ricos, criando uma perigosa 2
situação de potencial instabilidade social.

Considerando a evolução do sistema capitalista que apresenta claramente diversas


limitações, como apontado por Passos (2006), ao manter as desigualdades sociais, ao
cultuar o capital e ao proporcionar tranquilidade às consciências de quem age dessa
forma, o capitalismo procura legitimar sua face mais perversa, qual seja a exclusão
social. Diante desse cenário, será inevitável o surgimento de novas abordagens para a
ética na sociedade e também para os códigos de ética profissional.

No âmbito organizacional, há uma prática ainda arraigada, na qual o profissional percebe


o cliente como uma forma de ganhar dinheiro, como um fim derradeiro da relação institu-
cional. Isso significa que o lucro financeiro passa a ser um fato consumado, isto é, se ele
não se materializar, não há como as empresas se manterem vivas, em uma clara visão
positivista da ética.

Refletir sobre esses aspectos nos leva a pensar o que é definido pelo senso comum, de que
a ética coletiva limita a ação individual, mas na ação individual, sob o ponto de vista ético,
tudo é possível.

Essa é uma lógica perigosa, pois, no seu auge, pode legitimar qualquer tipo de ação, incluin-
do as fisicamente violentas, como justificativa para satisfazer as necessidades individuais.

Por isso, como tendência para a ética organizacional, Passos (2006, p. 111 a 112) apon-
ta para a necessidade de “[...] uma reinvenção da ética [...]”, em que deve haver níveis
de tolerância mais flexíveis à subjetividade existente nos relacionamentos. Essa não é
uma proposta que abona o “vale tudo” nas relações, mas sim, no dizer da autora que
“[...] os códigos de ética conseguirão dar o salto, passando de meras regras de orienta-
ção de mercado, para uma prática reflexiva e crítica”.

Dessa forma, podemos afirmar que, no futuro próximo, os códigos de ética profissional
devem ser remodelados, apresentando elementos como o fortalecimento da solidarie-
dade, a necessidade do respeito profissional, a substituição gradativa do individualismo
e da competição pela solidariedade profissional, o arrefecimento do culto ao capital,
entretanto, não como fator determinante dos objetivos da vida profissional, mas como
elemento necessário ao bem-estar individual e coletivo.

Nessa perspectiva, podemos afirmar que há uma tendência para os códigos de ética em
construção, que preveem uma sociedade mais justa, com profissionais mais capazes,
cujas ações serão pautadas pelos valores éticos e morais.

CONCLUSÃO
Nesta unidade, vimos que as empresas precisam criar e constantemente revitalizar
seus códigos de ética e procedimentos, pois eles refletem o seu negócio e direcionam
condutas reconhecidas pela instituição.

Ética e Cidadania 41
Ética Profissional

Vimos também que todas as profissões possuem atividades específicas, e que é funda-
mental para o sucesso e satisfação profissional que a pessoa conheça profundamente
2 as tarefas e as responsabilidades da profissão.

Além do que já foi mencionado, devemos perceber que as empresas são ambientes sociais e
que, como tal, precisam ter regras de conduta, visando potencializar esforços, conhecimentos
e habilidades das pessoas com o objetivo de ampliar as capacidades organizacionais.

Também vimos que todas as profissões têm valor social. Entre elas, algumas alcançam
notoriedade por atuarem em áreas sensíveis, por exemplo, os médicos, os bombeiros,
entre outras. Os profissionais dessas áreas atuam em situações em que as pessoas
estão vulneráveis, por isso o valor atribuído pela sociedade a esses trabalhadores.

Para tanto, a ética organizacional é importante para garantir a boa imagem da marca, da
empresa e das pessoas no mercado. Com isso, observamos que as organizações devem
preparar seus colaboradores para atuarem com ética e que a cultura organizacional influen-
cia e é influenciada pelo comportamento das pessoas no ambiente de trabalho.

Por fim, verificamos que há tendências para a ética organizacional e que essas são pen-
sadas a partir do contexto da sociedade, do mercado, enfim, das mudanças ambientais.
Algumas mudanças são propostas a partir da legislação, entretanto, o escopo moral e
ético é mais amplo do que as leis.

Você sabia que o comportamento dos principais executivos de uma empresa


ou de líderes de equipes de trabalho influenciam na produtividade dos demais
colaboradores da empresa? Líderes de empresas que atuam proativamente
escutam seus colaboradores, incentivam a participação, compartilham
conhecimentos, dividem os créditos das inovações, são éticos, enfim, agem para
que o ambiente de trabalho se mantenha positivo e costumam ter bons resultados
de seus colaboradores. Saiba um pouco mais sobre a Liderança Lean. Disponível
na biblioteca virtual USF. Acesso em: 27 jul.

REFERÊNCIAS
1. BENNET, C. Ética profissional. São Paulo: Senac, Saraiva, 2012.
2014. 5. MELO, L. Nove empresas que suaram para não
2. BRASIL. Lei n. 10.224, de 14 de maio de 2001. manchar a reputação em 2013. EXAME, 13 set.
Altera o Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 2016. Disponível na biblioteca virtual da USF. Acesso
1940 Código Penal, para dispor sobre o crime de as- em: 27 jul. 2019.
sédio sexual e dá outras providências. Brasília, DF: 6. PETENATE, M. Guia definitivo da liderança lean.
Presidência da República, [2001]. Disponível na bi- Escola Edti, 14 mar. 2017.
blioteca virtual da USF. Acesso em: 27 jul. 2019.
7. Disponível na biblioteca virtual da USF. Acesso
3. ______. Decreto-lei 2.848, de 7 de dezembro de em: 27 jul. 2019.
1940. Código Penal. Rio de janeiro, [1991]. Disponí-
vel na biblioteca virtual da USF. Acesso em: 27 jul. 8. PASSOS, E. Ética nas organizações. São Paulo:
2019. Atlas, 2007. SÁ, A. L. de. Ética profissional. 9. ed.
São Paulo: Atlas, 2010.
4. CORTINA, A.; MARTINEZ, E. Ética. São Paulo:
Loyola, 2013. CUNHA, S. S. da. Ética. São Paulo:

42
2

Ética e Cidadania 43
Ética e Cidadania Aplicada

UNIDADE 3

3
ÉTICA E CIDADANIA APLICADA

1. ÉTICA APLICADA AOS ÂMBITOS SOCIAIS E AO COTIDIANO


Por vezes, parece que a ética é assunto apenas para filósofos e, mais ainda, que é com-
pletamente subjetiva, explicando a moral e outros aspectos imateriais da sociedade.

Contudo, engana-se quem pensa dessa forma. Isso porque a ética está presente em
todos os lugares: na economia, na política, na educação, na saúde, na empresa, na
escola e nas nossas casas. Enfim, podemos considerá-la onipresente.

Guerras
A ética está presente até mesmo nas guerras, materializada por meio da honra e do res-
peito, evitando que as batalhas se tornem lutas animalescas, em que tudo vale. Assim,
nas guerras, os derrotados devem tanto respeito aos vencedores como os vencedores
devem aos derrotados.

Dessa forma, presente em qualquer profissão, nos procedimentos de um médico, de um


professor, de um advogado, de um funcionário público, de um militar ou na vida de qual-
quer pessoa, a ética consiste em um ato colaborativo e necessariamente interdisciplinar.

Cortina e Martinez (2013) e Chauí (2011) concordam em afirmar que a ética, aplicada
aos âmbitos sociais próprios de uma sociedade pluralista moderna, precisa levar em
conta a moral cívica, que rege o tipo de sociedade específica, pois nem sempre a ação
ética é passível de generalizações. Fonte: 123RF.

Isso significa que, se pensarmos que


os brasileiros possuem um tipo de có-
digo de ética comum, válido para to-
dos, então podemos entender que há
valores comuns no nosso país, que
não necessariamente se aplicam aos
demais países. Podemos perceber
esse contexto no respeito aos símbo-
los nacionais, como a bandeira, visto
que há países que respeitam mais es-
ses símbolos do que os brasileiros. A
Figura ao lado ilustra as bandeiras do
Brasil e dos Estados Unidos da América como símbolos nacionais, contudo, nos EUA,
esse símbolo é mais respeitado do que nas terras brasileiras.

44
A bandeira de uma nação é um símbolo cívico em que pode estar implícito o código de
ética de cada país. Requer respeito, envolve valores e inspira comportamentos insti-
tucionais, coletivos e individuais. O respeito aos símbolos cívicos não significa que os
cidadãos de um país são mais éticos que outros, mas é um bom indicativo dos valo- 3
res de grupos sociais e seus comportamentos diante de algumas situações. Perante
a bandeira, alguns a ignoram, enquanto outros a reverenciam. A bandeira de um país
sendo queimada por cidadãos de outra nacionalidade pode significar um ato de amplo
desrespeito e de falta de ética.

Nesse contexto, percebemos como a ética está claramente presente em nossas ativi-
dades cotidianas e em nossos comportamentos, sendo, em última instância, algo bem
material, que direciona nossa racionalidade ao definir entre o certo e o errado, o legal e
o ilegal. Afinal, dicotomicamente, fazemos nossas escolhas relacionadas com a moral
e com a ética.

Um exemplo bem prático para identificarmos a existência dessa dicotomia em nosso


cotidiano é o Programa Bolsa Família. Trata-se de um importante Programa Social do
Governo Federal brasileiro. Contudo, apresenta restrições a fim de evitar que os recur-
sos públicos sejam inadequadamente utilizados pelos beneficiários. Assim, uma das
restrições é que o beneficiário do Programa não pode alugar seu imóvel para obter
renda extra, sendo um ato proibido, ilegal, imoral e antiético.

Você conhece o Programa Bolsa Família? Quer saber mais? Acesse outras informações
no link: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagirmps/ferramentas/docs/manual_do_
pesquisador_gestao_ bolsa_familia_semlogo.pdf. Acesso em: 6 ago. 2019.

Com relação ao exemplo supracitado, em se tratando de teoria ética, Cortina e Martinez


(2013, p. 152) afirmam que: “[...] só são válidas aquelas normas de ação com as quais
poderiam estar de acordo todos os possíveis afetados como participantes em um dis-
curso prático”.

De forma geral, quando um beneficiário do Programa Bolsa Família aluga seu imóvel
para obter renda adicional, ele está agindo de má fé para com os demais beneficiários
e não beneficiários. Portanto, está sendo antiético para com seus pares que compar-
tilham da ideia de que vale a pena o esforço coletivo em termos de investimentos de
recursos públicos para que famílias brasileiras tenham acesso à moradia justa e digna
e para que aumentem sua percepção de cidadania.

Aqui, observamos muito bem outra dicotomia que envolve a noção de direito e dever.
Se, por um lado, as pessoas têm direito à moradia, por outro, têm o dever de seguir
as regras ou normas impostas pelo programa. Encontramos, na teoria, elementos que
fundamentam essa relação. A ética da responsabilidade, como aponta Jonas (2006),
confere a um grupo social uma espécie de regra de responsabilidade, pela qual o com-
portamento coletivo deve ser norteado. Nas normas legais, no caso do Programa Bolsa
Família, estão materializadas a gestão da ética da responsabilidade e as ações consi-
deradas irresponsáveis, ou seja, que quebram o pacto ético coletivo.

Ética e Cidadania 45
Ética e Cidadania Aplicada

O mesmo pode ser dito quando pessoas agridem o meio ambiente, pois se entende
que há uma noção ampla sobre a relação entre deterioração dos recursos naturais e a
sustentabilidade da vida humana na Terra.
3
Quem agride o meio ambiente pode ser taxado como irresponsável, quebrando assim
uma regra coletiva que aponta a necessidade de preservação da natureza, sendo, des-
sa forma, exposto às penalidades constantes nos instrumentos legais.

Esses exemplos mostram que, na prática, a ética coletiva se sobrepõe à ética individual,
conforme abordam Cortina e Martinez (2013, p. 155).

Pois bem, como descobrir, em cada campo da ética aplicada, as máximas e os va-
lores que nele são exigidos para o reconhecimento de cada pessoa como um inter-
locutor válido? Diversas respostas são possíveis, mas, em princípio, todas coincidi-
riam em reconhecer que não as consideramos éticas individuais. Uma das razões do
nascimento da ética aplicada é precisamente a descoberta de que a ética individual
é insuficiente, porque a boa vontade pessoal pode, no entanto, ter consequências
ruins para a coletividade.

A interpretação que temos dessa citação é que, em se tratando da ética, a vontade ou


as necessidades individuais não podem prevalecer sobre as necessidades coletivas.

Além disso, Cortina e Martinez (2013, p. 156) entendem que, para compreender a moral
nas atividades sociais, faz-se necessário investigar as pessoas em sua vida ativa em
sociedade. Para eles, são cinco os elementos presentes na estrutura moral das ativi-
dades sociais.

 As metas sociais.

 Os mecanismos aplicados para alcançar as metas sociais.

 O âmbito jurídico-político correspondente à sociedade em questão, expresso na


Constituição e na legislação vigentes.

 As exigências da moral cívica da sociedade.

 As exigências de uma moral crítica, apresentadas pelos princípios da ética que


norteia o comportamento das pessoas.

Na prática, isso significa dizer que as atividades sociais procuram alcançar resultados.
Mesmo que pareçam alcançar as pessoas individualmente, na verdade atendem a aspi-
rações coletivas. Veja nos exemplos a seguir como podem ser materializadas a moral e
a ética coletivas por meio do atendimento dos objetivos internos das atividades sociais,
por intermédio das seguintes perguntas e respostas:

46
Qual o bem maior das atividades da área da saúde?
O bem do paciente.
3
Qual o objetivo social de qualquer organização?
Alcançar a satisfação das necessidades humanas com qualidade.

Qual a principal virtude da política?


Garantir o bem comum dos cidadãos.

O fato é que esses propósitos, para as atividades sociais dessas áreas, são legitimados
pela coletividade de qualquer sociedade. Assim, Jonas (2006) afirma que, para alcançar
os objetivos internos das atividades sociais, atendendo às expectativas ou às necessi-
dades coletivas, surge em cena a ética da responsabilidade.

No entanto, por que a ética da responsabilidade surge como fator determinante para
alcançar os objetivos internos das atividades sociais? Isso acontece porque é por meio
da legitimidade coletiva que se reconhecem as regras do jogo social, que devem ser
iguais para todos os atores envolvidos nas atividades em sociedade. Por exemplo, no
caso das atividades empresariais, os atores podem ser as empresas, as pessoas, o
mercado, entre outros, comumente presentes nessas atividades.

Evidentemente que, por trás da legitimidade de uma sociedade, existe um conjunto


de valores compartilhados por seus membros, configurando o que podemos chamar
de consciência moral coletiva. Por isso a prática coletiva é um forte componente na
sociedade, não somente determinando o comportamento individual, mas, quando ne-
cessário, limitando-o.

Muitos são os fatores que levam as pessoas a pensar na ética e na moral como elemen-
tos amplamente subjetivos, contudo, como estamos mostrando, por meio de atividades
em diferentes áreas da sociedade, é possível perceber a materialidade da ética e da
moral no comportamento individual e coletivo. Segundo Cortina e Martinez (2013, p.
159), para definir a ética aplicada a cada atividade social, seria necessário percorrer os
seguintes passos:

Determinar claramente o fim específico, o bem interno pelo qual se adquire


1 seu sentido e sua legitimidade social.

Averiguar quais são os meios adequados para produzir esse bem em uma
2 sociedade moderna.

Indagar quais virtudes e valores é preciso incorporar para alcançar o bem


3
interno de uma atividade social.

Ética e Cidadania 47
Ética e Cidadania Aplicada

Descobrir quais são os valores da moral cívica da sociedade na qual se


4 inscreve e quais direitos essa sociedade reconhece as pessoas.
3
Averiguar quais valores de justiça exigem a realização no âmbito de uma
5 moral crítica universal, que permite colocar em questão as normas vigentes.

6 Deixar as tomadas de decisão a cargo dos que são afetados por esse processo.

Por meio desses elementos, é possível definir a ética aplicada a cada atividade social,
pois sabemos que um importante valor presente nas relações empresariais ou na ética
empresarial é a confiança.

Tanto no mercado como nas empresas, por exemplo, não há como atuar eticamente em
um mundo paralelo, com ética e moral próprias, pois o mercado ou as relações comer-
ciais estão inseridos na sociedade. Por isso, não podemos afirmar simplesmente que
“negócios são negócios”, em que vale tudo. Pelo contrário, os que se aventuram com a
percepção do “vale tudo” sofrem, de alguma forma, sanções legais, morais e éticas do
próprio mercado e da sociedade. Na vida real, isso pode acontecer por meio da perda
de credibilidade de uma instituição ou de pessoas no mercado.

Nesse contexto, Cortina e Martinez (2013) e Cunha (2012) concordam que, no campo
da denominada “ética empresarial”, as organizações que adotam como estratégia cer-
tos valores éticos, como norteadores dos seus comportamentos, tendem a sobreviver
em épocas de competição mais acirrada.

Isso ocorre pela percepção de um comportamento eticamente reconhecido pelo merca-


do e pela sociedade, em que se confia no comportamento desse tipo de organização.
O fato é que essas empresas não têm estampadas certificações atestando o bom com-
portamento, mas, na realidade, apresentam inúmeros valores e condutas relacionados
à marca.

Dessa forma, percebemos como o campo da ética é amplo e profundo e como é ineren-
te à espécie humana – desde o nascimento até a morte dos indivíduos. Assim, identifi-
camos a ética presente nas pessoas e como as ações antiéticas também fazem parte
desse mesmo contexto.

Na sequência, confira os tipos de normas, suas características e outros aspectos que


têm como fundamento a ética, visando ampliar a percepção da sua presença em todos
os campos da sociedade.

48
Tabela 01. Elementos que configuram a presença da ética na sociedade Fonte: Cortina e Martinez (2013, p. 46).

Destinatários Tribunal último


Características 3
Tipo de norma Fonte das normas das normas diante do qual a
da obrigação
pessoa responde

Todos os definidos
O Estado Externa. pelo sistema legal
Legais e jurídicas. (governantes, Violentamente como cidadãos O Estado
juízes etc.). coercitiva submetidos à juris-
dição estatal.

Sociais ou de A sociedade (vi-


Tradições, cos- Externa. Todos os mem- zinhos, colegas,
convivência
tumes, hábitos Moderadamente bros de uma clientes, forne-
social, cortesia
herdados. coercitiva sociedade. cedores etc.)
ou urbanidade.

Com base em Interna, em Cada pessoa


diversas fontes, consciência. Não considera a si
um código deter- coercitiva. Ultimi- mesma destina- A consciência das
Morais minado de prin- dade (referência tária das normas pessoas.
cípios, valores, última para orien- que reconhece
pessoalmente tar a conduta). em consciência.
assumido.

A fé da pessoa
Interna, em
em que determi-
consciência.
Religiosas nados ensina- Os crentes A divindade
Não coercitiva.
mentos são de
Ultimidade
origem divina.

Com base nesse estudo, verificamos como a ética e a moral fazem parte das nossas
vidas, contudo, mudam continuamente, pois a sociedade se reconfigura, visto que
mudanças ocorrem de forma sistêmica. Por isso, de um período a outro é possível
perceber o surgimento de elementos que fundamentam a crise de valores e, em última
análise, indicam novas mudanças de comportamento na sociedade.

2. O INDIVIDUALISMO ÉTICO X A ÉTICA COLETIVA


Ao assistirmos grandes catástrofes ambientais, notícias sobre o aumento nos índices
de violência urbana, cenas de guerras que privam pessoas do acesso a medica-
mentos e alimentação ou até mesmo do isolamento provocado e possibilitado pelo
uso das novas tecnologias, verificamos que a sociedade está passando por algumas
transformações. Geralmente, transformações ocorridas pela infraestrutura social, que
influenciam o comportamento individual das pessoas, de grupos sociais e até mesmo
de populações de regiões do mundo.

Ética e Cidadania 49
Ética e Cidadania Aplicada

Na Figura 01, vemos as ruínas do Coliseu, construído no século I (70 d. C.), que ainda
tem preservado boa parte da sua estrutura. A cidade de Roma cresceu e se modificou
significativamente, e o comportamento dos seus habitantes em hipótese alguma lem-
3 bra os comportamentos dos romanos do período em que os “jogos mortais” se confi-
guravam como uma das maiores atrações da cidade. Hoje, Roma oferece o Coliseu à
população como uma atração turística.
Figura 01. Coliseu

Fonte: 123RF.

Mesmo tendo crescido significativamente, os romanos preservam o que restou do


Coliseu como uma atração turística e uma memória importante do patrimônio cultural
mundial. O comportamento, os valores, os códigos de ética e moral dos romanos pas-
saram por mudanças que acompanharam o desenvolvimento da sociedade durante os
séculos. O Coliseu e o período na história que ele representa ficaram na memória.

Definitivamente, as mudanças que constatamos na sociedade são fruto de seu ine-


rente desenvolvimento, que aplica os conhecimentos com o objetivo de tornar a vida
coletiva sempre melhor. O fato é que o mundo muda rapidamente e que essas mudan-
ças influenciam no comportamento das pessoas, impactando em uma nova percepção
de padrões éticos e morais.

As mudanças nos padrões de valores de uma sociedade necessitam, inevitavel-


mente, da legitimação coletiva. Portanto, elas ocorreram facilmente, impactando
a mudança comportamental.

Com base nesse contexto, verificamos que a mudança não está correlacionada a uma
crise de valores, mas à evolução natural da sociedade, que deve acompanhar os pa-
drões éticos e morais para dar conta dos novos comportamentos que surgem.

50
O casamento é um bom exemplo dessas mudanças de valores, visto que, juridicamen-
te, mesmo não havendo oficialização em uma eventual separação, a repartição dos
bens deve acontecer pela comprovação da união estável. Outro fato é a união ou o
casamento entre pessoas do mesmo sexo, que já é uma realidade em muitos países, 3
trazendo um novo momento de mudanças nos padrões de valores, da ética e da moral.

A própria evolução, o que chamamos de nova cultura empresarial, também é um fator


que provoca mudanças comportamentais, afinal, cooperar e competir simultaneamente
até bem pouco tempo atrás era impensável.

No campo das organizações, Cortina e Martinez (2013, p. 167) entendem esse recente
momento como o surgimento de um novo ethos empresarial, em que as empresas ado-
tam estratégias baseadas em diretrizes de comportamento politicamente correto, tanto
no ambiente interno como no externo. Vejamos quais são essas estratégias.

Responsabilidade pelo futuro


A necessidade da gestão a longo prazo obriga as empresas a reconciliar o
benefício e o tempo.

Desenvolvimento de capacidade de comunicação


Toda organização precisa de uma legitimação social, que ocorre por meio da
sua capacidade de comunicação com a sociedade de forma geral e com o seu
público-alvo de forma específica.

Personalização e identificação dos indivíduos e das empresas


O fracasso do individualismo torna necessária a inserção dos indivíduos em
grupos e o desenvolvimento do sentido de pertencimento.

Moral e ética
Na cultura de comunicação, a moral impulsiona a criatividade dos especialis-
tas da comunicação e funciona como um meio de diferenciação e personali-
zação da empresa.

Na empresa aberta, a ética faz parte da gestão, construída pela complexidade


apresentada pelo mercado (são as influências do ambiente externo nas empre-
sas), que requer não somente a inovação permanente de produtos e serviços,
mas também a inovação moral na comunicação.

Confiança
As imagens de eficiência foram substituídas pelas de confiança entre as organi-
zações e o público, como se evidencia, por exemplo, na imagem de responsabi-
lidade social e ecológica das empresas, pela qual, com a devida comunicação,
procura-se estabelecer vínculos mais fortes entre as organizações e seu público.

Ética e Cidadania 51
Ética e Cidadania Aplicada

Com isso, todas as empresas sabem que a preservação do meio ambiente, a explora-
ção do trabalho infantil e todo tipo de propaganda negativa tendem, de alguma forma,
a prejudicar sua imagem perante o mercado consumidor, pois são temas sensíveis
3 à sociedade. Historicamente, muitas empresas já cometeram ações que agrediram a
ética e a moral social, contudo, até pouco tempo, muitas dessas ações ficavam comple-
tamente escondidas, isto é, não se tornavam públicas. No entanto, hoje, as empresas
que desrespeitam as pessoas, agindo de forma preconceituosa, podem sofrer boicotes
ou serem alvos de protestos de grandes grupos de pessoas organizadas em torno do
ambiente virtual, especialmente nas redes sociais.

Na perspectiva do meio ambiente, já se sabe o tempo de decomposição de alguns pro-


dutos ou materiais na natureza.
Tabela 02. Produtos e seu tempo de decomposição na natureza.

Produto Tempo de decomposição


Palito de fósforo 4 a 6 meses

Pilhas e baterias 100 a 500 anos

Papel jornal 7 meses

Cigarro 13 a 25 anos

Óculos de plástico 200 a 500 anos

Artigos de couro 40 a 50 anos

Chiclete 5 anos

Isopor 50 a 80 anos

Copo plástico 40 anos

Tecido sintético 100 a 300 anos

Tecido de algodão 10 a 20 anos

Fonte: Elaborada pelo autor.

Assim, a forma que as empresas que trabalham com esses produtos encontraram para
amenizar a situação, mesmo parecendo contraditório, foi apoiar programas de susten-
tabilidade ambiental e informar essa parceria à sociedade. E isso foi fundamental para
manter a boa percepção da sociedade em relação à marca, pois hoje a preocupação
com as próximas gerações é muito significativa. Observamos, portanto, novos valores e
posturas éticas e morais da sociedade, os quais não estavam bem compreendidos até
pouco tempo atrás.

Por isso, as marcas mundiais precisam cuidar dos seus colaboradores, das suas comu-
nicações, da qualidade dos seus produtos ou serviços e das equipes de trabalhadores
terceirizados. Enfim, necessitam cuidar de tudo que envolva a marca no mercado e,
quando necessário, precisam agir rapidamente para evitar polêmicas envolvendo seus
produtos ou serviços.

52
Convém destacar também que algumas dessas marcas, para evitar interpretações equi-
vocadas sobre seus processos produtivos e de trabalho, costumam usar a transparência
para com seus stakeholders, fato esse que fortalece sua imagem no mercado. Por exem-
plo, algumas empresas convidam clientes para conhecer suas instalações. Os supermer- 3
cados isolam o açougue e a padaria apenas por vidro, permitindo que clientes possam
acompanhar a manipulação de produtos, verificar a higiene, entre ouros aspectos.

No caso da ética religiosa, Cunha (2012) aborda a individualidade no plano da crença


e da fé com base em estados de satisfação pessoal com aquilo que se crê. No entan-
to, é um campo da ética reconhecidamente de percepção coletiva, mais que outros
campos, pois está na subjetividade individual o refúgio para os atos ou os eventos que,
por vezes, parecem ferir a noção de bem-estar da coletividade. Por isso, no campo
da religião, os incrédulos simplesmente refutam qualquer tipo de argumento, enquanto
os crentes tomam por verdade argumentos que, na percepção de outros, podem ser
considerados imorais e até mesmo antiéticos, mas não contestados. Isso porque são
legitimados coletivamente por grupos sociais e, talvez, o mais importante, legitimados
pela individualidade.

Além disso, convém destacar que, na origem do termo, o conhecimento, para os gre-
gos, representava uma crença verdadeira e justificada. Assim, mesmo na ciência, berço
da produção do conhecimento, a crença está presente. Nesse sentido, Cunha (2012, p.
402) argumenta que, na crença, devem ser considerados os seguintes aspectos:

Orienta o comportamento humano.


Funda-se na experiência individual e na sensibilidade, mais do que na razão.

 Produz certezas.

 Pode basear-se em proposições científicas.

 Prescreve importantes aspectos da experiência humana, tais como os senti-


mentos, as emoções e os produtos da cultura e da filosofia, a história, a arte
e a religião.

Nessa perspectiva, percebemos que a religião e a igreja são aspectos que fazem parte
das opções ou escolhas individuais. Assim, quando determinada igreja pede contribui-
ções financeiras aos seus fiéis, salvo atos posteriormente ilícitos, cabe destacar que o
pedido em si não caracteriza um ato ilícito, pois tanto o indivíduo como a coletividade
de crentes legitimam tal contribuição como um ato importante para fortalecer a fé, para
robustecer a causa e para oferecer continuidade ao trabalho missionário.

Como já abordado, a ética individual não pode ser maior ou ser colocada como priori-
tária em detrimento da ética coletiva, mas, individualmente, as pessoas são detentoras
de direitos e não igualitariamente de deveres.

Ética e Cidadania 53
Ética e Cidadania Aplicada

Para tanto, entre os direitos e os deveres, ou obrigações, não deve haver diferença, visto
que pode ser aberto um espaço para comportamentos fora dos padrões éticos e morais
e para a inversão de valores. Diante do que foi apresentado, podemos afirmar, mais uma
3 vez, que a ética, a moral e os valores individuais são determinados pela ética, moral e
valores coletivos. Dessa forma, não deveria ser o poder econômico, político ou religioso
os fatores que diferenciam os comportamentos éticos entre as pessoas, pois, no plano
teórico, todos são iguais perante as leis. Então, ao cometerem atos ilegais, imorais ou
antiéticos, deveriam receber o mesmo tratamento pela sociedade e suas instituições.

As mudanças não param, a sociedade é dinâmica e precisa o ser para não cair em
destruição, porque é do rejuvenescimento ou surgimento de novos comportamentos
que a própria sociedade busca, na ética, o necessário equilíbrio do comportamento das
diferentes pessoas e grupos sociais.

Na Figura 02 observamos pessoas que, aparentemente ou fisicamente, são diferentes,


mas, por outro lado, são semelhantes em determinadas características, como na genética e
no comportamento, além da influência da ética coletiva sobre o comportamento individual.

Figura 02. Pessoas diferentes com comportamentos semelhantes

Fonte: 123RF.

3. ÉTICA NA CIÊNCIA
A ciência é movida pelo conhecimento em círculo, cujo uso e reuso são contínuos e
aplicados de forma complementar, determinante para o desenvolvimento.

Segundo Aranha e Martins (2004, p. 21), “o conhecimento é o pensamento que resulta


da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido”.

Para compreendermos melhor o significado de conhecimento, vejamos as definições


sobre esse termo de acordo com diferentes autores.

54
Filósofo Definição

Platão Os seres humanos aspiram a ideias eternas, imutáveis e perfeitas, que não 3
podem conhecer por meio da percepção sensorial, mas sim, apenas por
(427-347 a.C.) meio da razão pura.

Aristóteles
O conhecimento é sempre ocasionado pela percepção sensorial.
(384-322 a.C.)

John Locke Compara a mente a uma tábula rasa, uma folha de papel sem conteúdo.
Somente as experiências podem proporcionar ideias à mente, sendo possí-
(1632-1704) vel adquirir conhecimento por indução a partir de experiências sensoriais.

O conhecimento parte do pensamento lógico do racionalismo e da experiên-


Immanuel Kant
cia sensorial do empirismo em que a mente humana é tabula rasa ativa, que
ordena as experiências sensoriais no tempo e no espaço, suprindo-se de
(1724-1804)
conceitos como ferramenta de compreensão.

Georg W. F. Hegel O conhecimento começa com a percepção sensorial, que, ao se tornar


mais subjetiva e mais racional, por meio da purificação dialética dos senti-
(1770-1831) dos, chega, por fim, ao estágio do conhecimento do espírito absoluto.

Karl Marx
A percepção é uma interação entre o sujeito e o objeto, ambos estão em
processo contínuo de adaptação mútua.
(1818-1883)

Edmund Russerl São colocados de lado o conhecimento factual e os pressupostos analisa-


dos sobre um fenômeno, permitindo assim a análise da intuição pura de
(1859-1938) sua essência.

Martin Heidegger
Rejeitou o dualismo cartesiano, afirmando que se estabeleceu relacionamen-
to íntimo em ter o conhecimento e a ação.
(1889-1976)

Jena-Paul Sartre
O mundo se revela pela nossa conduta, é a escolha intencional do fim que
revela a realidade.
(1905-1980)

Ludwig Wittgenstein A linguagem é um jogo de interação, no qual várias pessoas participam


seguindo determinadas regras, em que o saber é uma ação corporal capaz
(1889-1951) de proporcionar mudança no estado das coisas.

Fonte: Adaptada de Nonakae Takeuchi.

Ética e Cidadania 55
Ética e Cidadania Aplicada

Percebemos até aqui que o conhecimento é fundamental para o desenvolvimento da


sociedade, da ciência e das pessoas. Contudo, sua aplicação deve ser precedida da
ética, evitando que seu uso gere malefícios, pois um dos pressupostos éticos para o uso
3 do conhecimento é gerar benefícios à sociedade.

É importante destacar que, apesar de existirem diferentes tipos de conhecimentos, em


todos eles a sociedade está presente, isto é, esses conhecimentos são criados e aper-
feiçoados por meio de ações das pessoas em suas interações entre si e com o ambien-
te. Sendo assim, a falta de ética e de moral pode ser manifestada em qualquer situação:
na igreja, na escola, na rua, ou qualquer lugar e situação.

TIPO DE
DEFINIÇÃO APLICAÇÃO/EXEMPLO
CONHECIMENTO

Verificar o tipo de medicamento adequado


Declarativo Saber o que fazer.
para determinado tipo de doença.
Procedural Saber como fazer. A forma de utilização do medicamento.
Ter conhecimento da funcionalidade
Causal Saber por que fazer.
do medicamento.
Ter conhecimento sobre o momento de apli-
Condicional Saber quando fazer.
car o medicamento.
Saber como um medicamento interage
Relacional Saber como.
com outro.
Conhecimento útil para Aplicado em estruturas de negócios, projetos,
Pragmático
a organização. desenhos de engenharia.
O volume de dados é tratado com o uso de
Tem relação com a utilização ferramentas tecnológicas. O potencial dos da-
Potencial
de grande volume de dados. dos garante boas informações e geração do
conhecimento relevante.
Conhecimento sobre o fe-
Sua verificação ocorre na prática, no experi-
Científico nômeno e suas relações de
mento, na demonstração.
causa e efeito.
Empírico Com base nas tradições, crenças, mitos e na
Conhecimento popular.
(Senso comum) experiência popular.
O fenômeno ou objeto é in- Fundamentado na criatividade, habilidades,
Artístico terpretado e traduzido em práticas, experiências, expressões e no senti-
obra pelo artista. mento humano.
Apoiado em doutrinas, dogmas, na espiritua-
Religioso ou Teológico Conhecimento originado na fé.
lidade das pessoas e fundamentado pela fé.
Compreensão da realidade
e dos problemas gerais da Conhecimento com base na razão, possui ca-
Filosófico
humanidade e sua presença ráter valorativo, sistemático, exato e infalível.
e relação com o universo.
Fonte: Adaptada de Aranha e Martins (2004), Chauí (2011), Cortina e Martinez (2013) e Jonas (2006).

Por um lado, sabemos que o conhecimento é usado para criar armas e venenos, mas,
ao mesmo tempo, é por meio dele que criamos medicamentos e técnicas de salvamen-
to. O fato aqui é questionar qual a ética envolvida nesses processos de produção de
armas ou outros produtos que prejudicam de alguma forma a sociedade.

56
No âmbito da ciência, há códigos de ética reconhecidos mundialmente pela comuni-
dade científica, a fim de evitar, por exemplo, que cientistas se julguem detentores de
direitos sobre animais, plantas e outros seres vivos. Para tratar do assunto de forma
mais ampla e profunda, na década de 1970 iniciaram as discussões em torno do tema 3
da bioética, procurando limitar a ação de cientistas na área da biotecnologia e áreas
afins, visando evitar ações danosas à ciência e à própria sociedade.

Por isso, Cortina e Martinez (2013) entendem que os debates em torno da bioética são
importantes para prevenir ambições pessoais de cientistas sobre a própria ciência. Des-
sa forma, a bioética discute desde questões ecológicas até clínicas.

Para tanto, os autores resumem três princípios norteadores da conduta de cientistas no


que diz respeito à proteção das pessoas, como objetivos de experimentação em proje-
tos científicos (CORTINA; MARTINEZ, 2013, p. 160):

O respeito pelas pessoas


que incorpora ao menos duas convicções éticas:

 Os indivíduos deveriam ser tratados como seres autônomos.

 As pessoas cuja autonomia está diminuída devem ser objeto de proteção.

O princípio da beneficência
segundo o qual as pessoas são tratadas de forma ética, não só respeitando as
decisões e protegendo-as do dano, mas também fazendo um esforço para as-
segurar o seu bem-estar. A beneficência não é entendida aqui como uma atitude
substitutiva, mas como uma obrigação do médico, e, nesse sentido, é explicada
em duas regras:

 O princípio hipocrático de não maleficência, que é também o segundo dos


deveres jurídicos, resumindo-se na expressão “não cause danos a ninguém”.

 A obrigação de ampliar os possíveis benefícios e minimizar os possíveis riscos.

O princípio da justiça
que tenta responder à pergunta: quem deveria receber os benefícios da pesqui-
sa e suportar seus encargos?

Evidentemente que tais princípios contribuem para a definição e, ao mesmo tempo,


recebem o aporte de inúmeras regras e normas que os ampliam e aprofundam, sendo
constantemente atualizados, com o objetivo de manter a comunidade científica dentro
de padrões aceitáveis de comportamento.

Ética e Cidadania 57
Ética e Cidadania Aplicada

Isso é importante porque, até pouco tempo, o ser humano consumia produtos sem
agrotóxicos, mas não tinha medicamentos para todas as doenças. E agora consomem
alimentos transgênicos, por exemplo, feitos com sementes modificadas geneticamente.
3
Muita polêmica foi criada em torno dos alimentos transgênicos, chegando ao ponto de
questionamentos sobre a sucumbência da ética ao poder econômico. O fato é que, atu-
almente, há animais sendo clonados, e já há notícias de clonagem humana, mas ainda
muito questionada pela comunidade científica internacional.

Os transgênicos são alimentos que tiveram modificações genéticas, com o objetivo,


sobretudo, de aumentar a produtividade, resistindo a pragas da natureza. Para
conhecer um pouco mais, acesse o link: https://cib.org.br/transgenicos/. Acesso em:
7 ago. 2019.

A notícia sobre a clonagem humana caiu como uma bomba na co- munidade
científica internacional, cujos membros julgam perigosos tais experimentos. Acesse
o link: https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2018/11/cientista-chines-
alega-ter-editado-genes-de-bebes-pela-primeira-vez-na-historia.html. Acesso em:
10 ago. 2019.

No caso da ovelha Dolly, primeiro animal clonado no mundo, verificou-se que, com
pouco tempo de vida, ela apresentava inúmeros problemas, como o envelhecimento
precoce e a vulnerabilidade a algumas doenças. No que diz respeito à clonagem hu-
mana, apesar de não ter sido reconhecida cientificamente, o noticiário internacional
divulgou ter ocorrido em 2019 na China. Ambos os casos foram alvos de muitas críticas
pela comunidade científica internacional, que pedia a intervenção de comitês de ética,
objetivando fiscalizar as atividades dos cientistas envolvidos.

Nesse contexto, a genética e a corrida para ser o primeiro em feitos inéditos nessa
área vêm promovendo questionamentos sobre os procedimentos. Apesar de um avan-
ço fantástico, mesmo os cientistas não conhecendo amplamente os desdobramentos
de experimentos como a clonagem humana, muitas hipóteses são levantadas. Como
exemplo, temos a criação de raças superiores.

Porém, se por um lado evidenciamos os benefícios das modificações genéticas em


livrar as gerações futuras de doenças que hoje ainda causam mortes, por outro lado, a
ética precisa entrar em cena para evitar que a vontade individual ou de grupos econô-
micos prevaleça sobre a vontade e necessidade coletiva.

Assim, Cortina e Martinez (2013, p. 163) consideram que ninguém, individualmente,


“[...] tem o direito de decidir se finalmente se leva ou não a cabo uma determinada possi-
bilidade de modificação genética de uma espécie, particularmente, a espécie humana”.
Por isso, os autores concordam que as decisões éticas na ciência ou da ética, em qual-
quer campo, não devem ser centralizadas nas mãos de poucos atores, como políticos,
cientistas ou agentes públicos.

58
As decisões que envolvem diferentes grupos sociais e profissionais, ou grandes grupos
de pessoas, devem ser tomadas por representantes dos potencialmente afetados
pelas consequências das decisões, e jamais concentradas em poucos indivíduos.
3

Por isso, no amplo debate sobre as questões da ética, três aspectos levantados por Cortina e
Martinez (2013, p. 163-164) destacam-se, sobretudo, quando analisamos as decisões éticas.

Comunicação para o grande público


Conseguir fazer com que especialistas comuniquem suas pesquisas à sociedade, que
as aproximem do grande público, de modo que esse possa codecidir de forma autôno-
ma, ou seja, contando com a informação necessária para tanto.

Conscientização do indivíduo
Conscientizar os indivíduos de que são eles que deverão decidir, saindo de sua habitual
apatia nesses assuntos.

Educação moral
Educar moralmente os indivíduos na responsabilidade pelas decisões que podem en-
volver não só indivíduos, mas também a espécie.

Essa educação moral pressupõe identificar e apresentar simultaneamente a responsa-


bilidade que os indivíduos têm em se informar seriamente sobre esses temas e o dever
de decidir, atendendo às expectativas e necessidades da coletividade.

Em alguns países, como no Brasil, as pessoas não costumam compreender teorica-


mente ou praticamente o significado da ética e da cidadania, uma vez que, comumente,
individualizam a ética sob o ponto de vista da cidadania, requerendo ou exigindo direi-
tos, mas se afastando dos deveres.

Em contrapartida, nas sociedades em que as pessoas reconhecem o seu papel, no


âmbito da cidadania, sabem da necessidade do equilíbrio entre os direitos e deveres. É
a partir desse equilíbrio que se tem, por exemplo, a redução das desigualdades sociais
e a ampliação da participação das pessoas nas decisões.

Nesses países, as classes profissionais, como a dos políticos, não possuem papel de-
terminante na condução das questões que envolvem os interesses coletivos, pois a
coletividade reconhece a necessidade do equilíbrio na participação e sabe como a cen-
tralização de decisões pode ser perigosa. Por isso, limitam a delegação de responsabi-
lidades e decisões aos políticos.

Nesse estudo, verificamos que a ética e a cidadania acompanham as mudanças que


ocorrem na sociedade em função de sua natural evolução. Entretanto, essa própria
sociedade precisa perceber o seu nível de desenvolvimento, visto que sociedades cen-
tralizadoras tendem a reservar poucos espaços ao exercício da cidadania, diminuindo
significativamente a importância e até mesmo a ideia da ética e da moral como elemen-
tos fundamentais à liberdade e ao pleno exercício da cidadania.

Ética e Cidadania 59
Ética e Cidadania Aplicada

CONCLUSÃO
Nesta unidade, vimos algumas questões práticas da ética, além de verificar que a ética
3 coletiva determina os valores e comportamentos dos indivíduos. Portanto, nas relações
éticas, os interesses e necessidades da coletividade devem ser mantidos, mesmo que
contrariem interesses individuais.

A ética não subjetiva é inerente ao comportamento das pessoas, guia seus valores e
conduta, norteia as regras e normas da sociedade e dos seus diferentes grupos.

Quando pessoas ou grupos cometem ações que ferem a ética, comumente chamadas
de antiéticas, sofrem as sanções da sociedade de diversas formas, por exemplo, por
meio de reprovação social ou de penalidades constantes em códigos de ética ou códi-
gos de leis.

Na ética, o Eu não é maior que o Nós, afinal, apesar de algumas características dife-
rirem as pessoas, como as físicas, geneticamente e eticamente somos semelhantes.

Assim, durante os estudos desta unidade, identificamos que há valores e comporta-


mentos éticos reconhecidos universalmente, enquanto outros códigos são próprios de
grupos sociais que vivem em espaços geográficos bem delimitados. Mas nem por isso
são opostos aos comportamentos, valores ou códigos de ética que são reconhecidos
e praticados em regiões mais amplas. Isso significa que as nossas leis estaduais não
podem prevalecer sobre as leis da Constituição Federal.

Desse modo, finalizamos a unidade com uma abordagem sobre a ética na ciência,
sobretudo, em tempos de biotecnologia, clonagem de animais, corrida armamentista,
conquistas no espaço, instrumentos, processos, métodos, produtos e técnicas. Com
isso, vimos que a ciência contribui e pode continuar contribuindo para o desenvolvimen-
to da sociedade, mas é uma área que precisa de acompanhamento para evitar que atos
antiéticos se tornem catástrofes de amplitude mundial.

Isso porque a evolução da ciência ocorre em ritmo difícil de ser acompanhado, pois,
enquanto lemos essas linhas, muitos trabalhos científicos estão sendo desenvolvidos
em laboratórios de pesquisas pelo mundo afora.

Para aprofundar seus conhecimentos no tema da Ética e cidadania, assista


à entrevista do Prof. Calvino Vieira Júnior: https://www.youtube.com/
watch?v=jA3LSvN-DCE. Acesso em: 6 ago. 2019.

Assim, para evitar que interesses pessoais, econômicos, ou de outro tipo tomem forma
de comportamentos que possam de alguma maneira prejudicar as pessoas, a ética e a
moral, com seus códigos, devem entrar em cena e contribuir para que as pessoas não
ultrapassem todos os limites da razoabilidade em seus comportamentos.

Desse modo, também, abordamos a relação que melhor materializa a prática da cida-
dania, qual seja a noção individual e coletiva de direitos e deveres sociais. Comumente,
no Brasil, observamos a inadimplência cidadã em relação aos deveres individuais e co-
letivos, bem como a exigência de certos direitos não é realizada de forma contundente.

60
Portanto, para uma sociedade mais justa, a ética e a moral devem estar presentes em
todos os comportamentos das pessoas. É desse cotidiano comportamental que se criam
importantes elementos culturais transferidos de uma geração a outra, fortalecendo a ci-
dadania, os valores morais e a noção de coletividade. Para isso, é preciso ter vontade e 3
disciplina, afinal de contas, exemplos de comportamentos antiéticos não nos faltam.

REFERÊNCIAS
1. ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Filoso- história. Época negócios, 26 nov. 2018. Disponível
fando: introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Mo- em: https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noti-
derna, 2004. cia/2018/11/cientista-chines-alega-ter-editado-ge-
2. BRASIL. Ministério do desenvolvimento social: nes-de-bebes-
Programa Bolsa Família. Disponível em: https://apli- 7. -pela-primeira-vez-na-historia.htm . Acesso em:
cacoes.mds.gov.br/sagirmps/ ferramentas/docs/ma- 10 ago. 2019.
nual_do_pesquisador_gestao_bolsa_familia_semlo- 8.
go.pdf. Acesso em: 6 ago. 2019.
9. JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio
3. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: de uma ética para a civilização tecnológica. Tradu-
Ática, 2011. ção de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Rio de
4. CONSELHO DE INFORMAÇÕES SOBRE BIO- Janeiro: Contraponto: Ed. PUCRio, 2006.
TECNOLOGIA – CIB. Disponível em: https://cib.org. 10. NONAKA I.; TAKEUCHI, H. Criação de conheci-
br/transgenicos/. Acesso em: 7 ago. 2019. mento na empresa. 16. ed. Rio de Janeiro: Elsevier,
5. CORTINA, A.; MARTINEZ, E. Ética. São Paulo: 1997.
Loyola, 2013. CUNHA, S. S. da. Ética. São Paulo: 11. TV PARANAÍBA. A importância da ética e da mo-
Saraiva, 2012. ral na sociedade. YouTube. 18 dez 2017. Disponível
6. ESTADÃO CONTEÚDO. Cientista chinês alega em: https://www.youtube.com/watch?v=jA3LSvN-D-
ter editado genes de bebês pela primeira vez na CE. Acesso em: 10 ago. 2019.

Ética e Cidadania 61
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

UNIDADE 4

ÉTICA E CIDADANIA NA SOCIEDADE


4 GLOBALIZADA E TECNOLÓGICA

1. MUDANÇAS NA CONTEMPORANEIDADE
Quando Cristóvão Colombo chegou ao continente americano em 1492, apesar das
imensas dificuldades de comunicação, o mundo inaugurou novas rotas comerciais com
novas oportunidades de comércio no entorno do globo terrestre.

No início da Revolução Industrial, aproximadamente em 1750, não foi diferente, pois o


mundo experimentou um período de intensas descobertas, invenções e criações que
facilitaram a comunicação e a exploração de terras ainda inexploradas. Além disso,
novos produtos, empresas, padrões de consumo e comportamentos se desenvolveram,
sobretudo com o forte movimento de urbanização ocorrido nos primeiros cem anos
dessa revolução. O modelo de produção criado pelas empresas multinacionais, as duas
guerras mundiais, o telefone, o telex e o fax criaram condições fundamentais para a
explosão da internet.

Então, a partir do ano 2000, o mundo se tornou menor, com novas rotas marítimas e aé-
reas, principalmente devido à capacidade de comunicação ofertada pela internet. Essa
tecnologia veio acompanhada da miniaturização dos dispositivos tecnológicos, como o
aparelho de telefone celular, colocando o mundo na palma da mão.

As tecnologias e os novos mercados tornaram o globo terrestre aparentemente menor,


contudo, significativamente menor se compararmos à época de Cristóvão Colombo.

Além dos avanços tecnológicos, a globalização da economia trouxe a grande necessi-


dade de desregulamentação no trabalho. Isso fez com que as massas trabalhadoras
perdessem direitos e conquistas históricos, tendo os rendimentos achatados e, em mui-
tos casos, promovendo relações contraproducentes no ambiente de trabalho.

Esses fatores, na visão de Valls (2013), mostram que o domínio dos países centrais,
conhecidos como desenvolvidos, ampliou-se por meio do poder econômico em relação
aos países periféricos, conhecidos como subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Para tanto, visando atenuar eventuais fragilidades nas negociações comerciais, muitos
países adotaram como estratégia a união regional em torno de blocos econômicos.

62
O Mercosul
Trata-se de uma organização internacional criada em 1991, cuja constituição tem
na sua formação os seguintes países da América do Sul: Argentina, Brasil, Para-
guai, Uruguai e Venezuela. Além desses, temos como países associados, isto é, 4
não figuram como membros definitivos: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guia-
na, Peru e Suriname. O Mercosul é o bloco econômico que representa o Hemisfé-
rio Sul do continente americano.

Nafta
North American Free Trade Agreement, ou Tratado Norte-americano de Livre Comér-
cio, é um bloco econômico formado pelos seguintes países: Estados Unidos, Canadá
e México. Ratificado em 1993, entrou em operação em 1º de janeiro de 1994. Esse
bloco econômico representa o Hemisfério Norte do continente americano.

Mercado Comum Europeu


Surgiu com a assinatura do Tratado de Roma, em 1957. O Mercado Comum Euro-
peu era uma associação de países com a finalidade de criar uma zona econômica
sem tarifas e taxas e com liberdade de circulação entre os países. Faziam parte
do MCE: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Holanda e Luxemburgo. Posterior-
mente, ocorreu a criação da União Europeia (UE) com a assinatura do Tratado de
Maastricht, em 1992, com a participação de mais países.

É percebida uma fragilidade devido à globalização do mercado, sobretudo pelos


movimentos do mercado financeiro em torno das bolsas de valores. Por exemplo,
quando as bolsas asiáticas estão funcionando, as do continente americano estão
fechadas, porém, o dinheiro virtual continua em operação.

Desse modo, observamos que a reestruturação mundial trouxe reflexos nos com-
portamentos das pessoas e das famílias. No plano individual, Cunha (2012) con-
sidera que o excessivo individualismo leva à competição desenfreada, oferecendo
perigo aos relacionamentos entre as pessoas.

O isolamento ou afastamento das famílias em relação ao espírito comunitário é


outro fator muito presente na sociedade contemporânea, fazendo com que a no-
ção de solidariedade diminua e a ideia de interesse individual pessoal (ou familiar)
se sobressaia em relação à coletividade.

Valls (1975, p. 75) entende que outras inquietações ameaçam o equilíbrio das relações
entre os países.
Também inquietam ao extremo a consciência ética atual as formas políticas
ditatoriais, totalitárias, autoritárias ou, eufemisticamente, militares, que se tor-
naram tão familiares aos homens do final do século XX. O cinismo dos podero-
sos hoje é muito mais explícito do que o dos gregos. As relações internacionais
baseiam-se hoje em quê? Na justiça ou na força? Uma justiça entre as nações
ou os Estados é um conceito que até o momento ainda não se desenvolveu
nem se firmou, nem nas consciências, nem na prática política.

Ética e Cidadania 63
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

É perceptível o desequilíbrio nas negociações entre países desenvolvidos e países em


desenvolvimento, basicamente em função do poder de barganha que o primeiro exerce
sobre a necessidade de negociação do segundo.

Mesmo parecendo distantes, esses aspectos influenciam no comportamento do mercado


4 de trabalho, que, por sua vez, impacta no comportamento das pessoas de várias formas,
tais como: necessidade de emprego, medo do desemprego, aceite em receber salários
menores para se manter no trabalho, limitações nas atividades de lazer, entre outras.

Ainda, podemos citar que, em países como o Brasil, comumente as pessoas de baixa
renda não contam com muitos anos de estudos e, consequentemente, encontram difi-
culdades de acesso a serviços de transporte público, saúde pública e outros serviços
que caracterizam a presença do Estado nas suas vidas.

Esses e outros elementos presentes na sociedade contemporânea contribuem para


caracterizar o que Valls (2013, p. 70) define como os três elementos que fortalecem o
sentido, o significado e a presença da eticidade na sociedade, que são família, socieda-
de civil e Estado, os quais a ética não pode deixar de considerar.
Tabela 01. Três elementos da eticidade (qualidade ou caráter do que é condizente com a moral e com a ética)

ELEMENTOS DA
DESCRIÇÃO
ETICIDADE

Hoje se colocam de maneia muito aguda as questões das exigências éticas


do amor. O amor não tem de ser livre? O que dizer então da noção tradicio-
nal do “amor livre”? Ele é realmente livre?
Como definir, atualmente, o que é a verdadeira fidelidade, sem identificá-la
com formas criticáveis de possessividade masculina ou feminina?

Como fundamentar, após os progressos das ciências humanas, os compro-


missos do amor, como se expressam na resolução (no sim) matrimonial? E
como desenvolver uma nova ética para as novas formas de relacionamento
heterossexual? Como fundamentar hoje as preferências por formas de vida
celibatária, casta ou homossexual?

As transformações histórico-sociais exigem igualmente reformulações nas dou-


trinas tradicionais éticas sobre o relacionamento dos pais com os filhos. Novos
Família
problemas surgiram com a presença maior da escola e dos meios de comuni-
cação na vida diária dos filhos. As figuras tradicionais, paterna e materna, não
exigem uma nova reflexão sobre os direitos e os deveres dos pais e dos filhos?

Em especial, a reflexão sobre a dominação das consideradas minorias sociais


chamou a atenção para a necessidade de novas formas de relacionamento
dentro do próprio casal. O feminismo, a luta pela libertação da mulher, traz em
si exigências éticas que, até agora, ainda não encontraram talvez as formula-
ções adequadas, justas e fortes. A libertação da mulher, como a libertação de
todos os grupos oprimidos, é uma exigência ética das mais atuais.

E, como lembraria Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido, a libertação


não se dá pela simples troca de papéis: a libertação da mulher liberta igual-
mente o homem (FREIRE, 1998).

64
ELEMENTOS DA
DESCRIÇÃO
ETICIDADE

Em relação à sociedade civil, os problemas atuais continuam os mais


urgentes: referem-se ao trabalho e à propriedade. Mas como falar de ética 4
em um país onde a propriedade é um privilégio tão exclusivo de poucos?
E não é um problema ético a própria falta de trabalho, o desemprego,
bem como as formas escravizadoras do trabalho, com salários de fome, a
dificuldade de autorrealização no trabalho, quando a maioria não recebe
as condições mínimas de preparação para ele e depois não encontram, no
sistema capitalista, as mínimas oportunidades para um trabalho criativo e
gratificante? Em um país de analfabetos, falar de ética é sempre pensar em
revolucionar toda a situação vigente. É verdade que as grandes reformas
Sociedade Civil das quais nosso país necessita não são questões apenas éticas, mas
também políticas, o inverso não é menos verdade: não são só políticas, são
questões éticas que desafiam o nosso sentido ético. A ética contemporânea
aprendeu a preocupar-se, ao contrário das tendências privatistas da moral,
com o julgamento do sistema econômico como um todo.

O bem e o mal não existem apenas nas consciências individuais, mas também
nas próprias estruturas institucionalizadas de um sistema. A crítica atual insiste
muito mais sobre a injustiça que reside no fato de só alguns possuírem os
meios da riqueza. A crítica à propriedade se reduz em muito aos meios de
produção, criando evidentemente uma sociedade amplamente desigual.

Os problemas éticos são muito ricos e comple- xos. Na atualidade, a liber-


dade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um Es-
tado livre e de direito. As leis, a Constituição, as declarações de direitos,
a definição dos poderes, a divisão desses poderes para evitar abusos, e
Estado
a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões
éticas fundamentais. Nin- guém é livre em uma ditadura, em governos cujo
sentido ético é particular e ignora qualquer tipo de necessidade da prática
da ética que emana da sociedade.

Fonte: Valls (2013, p. 70).

O tripé família, sociedade civil e Estado configura a estrutura física da ética, isto é, os
atores responsáveis pelo comportamento ético em qualquer sociedade.

Na Figura 4.2 percebemos como os três atores da eticidade estão no campo da socie-
dade e como suas relações são intensas. Observe que estão inseridos no amplo espa-
ço da sociedade, não havendo hierarquização nas relações.
Fonte: Elaborada pelo autor.

SOCIEDADE

FAMÍLIA SOCIEDADE CIVIL ESTADO

Ética e Cidadania 65
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

A escola se configura como uma importante instituição do Estado no que concerne


à disseminação dos padrões éticos de uma sociedade. Acesse este link e estude
um pouco mais sobre a relação entre família, sociedade civil e Estado como atores
da eticidade: https://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/4451_4038.pdf. Acesso em:
4 10 ago. 2019.

Nesse contexto, o tripé da eticidade apresenta relação intensa nas mudanças dos pa-
drões éticos da sociedade e, sobre isso, pode-se falar de diversas áreas sociais, como
relações econômicas, políticas e sociais. Podemos observar essa relação no cotidiano
ao observar o caso do cinto de segurança, que era um acessório de uso não obrigatório.
Contudo, as diversas campanhas públicas, a conscientização nas escolas e o endure-
cimento da fiscalização com multa financeira a quem desrespeita essa norma tornaram
o cinto de segurança um acessório amplamente usado no país. As pessoas compreen-
deram sua necessidade e há reprovação pública para quem não faz uso.

As campanhas para o uso do cinto de segurança ainda continuam, mas agora trazem
outras informações, como a conscientização no trânsito, não dirigir após a ingestão de
bebidas alcoólicas ou de outras drogas.

Além das campanhas de trânsito, contamos com as campanhas para a preservação do


meio ambiente, que apresentam informações amplas, desde os problemas do desmata-
mento, passando pela necessidade da reciclagem de óleo de cozinha e outros produtos
derivados do plástico e dos metais, até a distribuição de sacolas de lixo para carros. Ou-
tros exemplos de campanhas que podemos destacar são aquelas que tratam de assuntos
como a homofobia, o respeito, o combate à violência e à corrupção. O fato é que essas
campanhas podem ocorrer na escola, nas igrejas, nas instituições sociais, nas empresas
públicas, na televisão e em tantos outros meios de comunicação. Essas são instituições
que têm importância como influenciadoras do comportamento das pessoas em socieda-
de, por isso as campanhas podem ganhar notoriedade por meio dessas instituições.

Dessa forma, verificamos que as campanhas tomam força ao ter o tripé da eticidade
como os principais atores irradiadores de novos comportamentos, passando a men-
sagem de que a vida tende a ser melhor com mudanças simples de comportamentos.

Quando as campanhas procuram convencer as pessoas a mudar o seu comportamento


em relação a determinados assuntos que afetam toda a coletividade, de alguma forma
estamos tratando de mudança de postura ética e moral, que são praticadas pela toma-
da de conscientização sobre a importância de mudar o comportamento.

Então, quando uma campanha pública muda o comportamento das pessoas, significa
que a ética e a moral estão em amplo exercício. Isso porque a pessoa se sentiu livre
para mudar, avaliou ou julgou todas as possibilidades e decidiu mudar. Convém desta-
car que esse tipo de decisão também favorece a sensação de exercício da cidadania.

Autores como Chauí (2011), Aranha e Martins (2004) entendem que a liberdade das
pessoas é um elemento fundamental para o fortalecimento dos comportamentos éticos.

66
Devemos ter consciência de que há mudanças na sociedade que fazem parte do seu
natural desenvolvimento, influenciando no comportamento das pessoas, como a ado-
ção de tecnologias nas empresas, as mudanças na legislação trabalhista em muitos
países, o aumento no nível de competitividade no mercado mundial e o aumento no
nível de competição pelo emprego e nas empresas. Mudanças que ocorrem indepen-
4
dentemente da decisão das pessoas, por isso influenciam no comportamento.

2. DIFERENTES MOMENTOS DA SOCIEDADE TECNOLÓGICA


Vivemos em um momento impressionante da evolução humana, pois as tecnologias estão
crescendo em ritmo acelerado, sendo sua onipresença um fator importante ao consumo.

Temos carros, casas e eletrodomésticos inteligentes, canais de comunicação velozes


que cobrem o globo terrestre em frações de segundos. Até parece que as tecnologias
estão presentes em tudo que usamos. Por vezes, brincamos ao dizer que não há mais
como fazer qualquer coisa escondido, porque alguém sempre está filmando, fotografan-
do ou gravando para postar nas redes sociais.

No entanto, a sociedade ainda convive com a miséria, com as guerras, com a fome,
com a violência, com milhões de pessoas morando nas ruas, enfim, com as velhas con-
tradições sociais que existem em todos os cantos do planeta.

Muitas tecnologias à nossa disposição foram criadas há pouco, contudo, a corrida pela
tecnologia se iniciou faz muito tempo. A criação da máquina a vapor, por exemplo, significou
uma revolução para a sociedade mundial, tanto nos transportes, na indústria, como nas
próprias casas. A adoção dessas tecnologias contribui com o aumento na qualidade de vida
das pessoas nas suas casas e no ambiente de trabalho, ou seja, em qualquer lugar.

Máquina a vapor
Foi a máquina a vapor que permitiu a criação dos carros a partir do princípio da queima
de combustível como fator produtor dos gases para movimentar os motores.

Aprofunde seus conhecimentos acessando o link: https://super.abril.com.br/mundo-


estranho/como-foi-inventado-o-automovel/. Acesso em: 13 ago. 2019.

A ética empresarial da época, nas fabricas, após 1750, era muito questionável, pois
homens, mulheres e crianças trabalhavam até 16 horas por dia, e a contratação de
mulheres e crianças acontecia por serem mão de obra mais barata que a masculina.

Nas cidades ainda em crescimento, a pobreza, as doenças, a fome, o alcoolismo e os


altos índices de violência criavam um contexto de inexistência da cidadania, sendo os
atos imorais comuns, desde assassinato a sangue frio nas ruas até a morte pela fome.

Nesse contexto, a Revolução Industrial seguia seu curso ampliando o poder aquisitivo
dos empresários. Porém, a situação social se mostrava completamente caótica, fator
determinante para a necessidade de racionalizar as relações humanas nas ruas, tor-

Ética e Cidadania 67
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

nando-as mais éticas e morais. Afinal de contas, o cenário previa e permitia a extinção
ou a morte de grandes contingentes populacionais.

Com isso, as máquinas passaram a determinar o ritmo de trabalho das pessoas, cuja
vida social quase não existia, pois, além da passagem pela igreja, nenhuma outra ativi-
4 dade social era realizada.

Entretanto, a sociedade se desenvolveu com o passar do tempo e criou outras possibi-


lidades de coexistência de múltiplos interesses em um só ambiente.

A chegada do século XX marcou um intenso movimento armamentista, fazendo a so-


ciedade mundial testemunhar conflitos armados nos primeiros 50 anos desse século
(CORTINA; MARTINEZ, 2013). A Revolução Russa (1917), a Primeira Guerra Mundial
(1914 – 1918), a Segunda Guerra Mundial (1940 – 1944), a Guerra Fria, que dividiu o
mundo em dois blocos – o capitalista e o socialista – tendo como ápice conflituoso a
Guerra do Vietnã (1955 – 1975), além de outros casos em que os lados capitalista e
socialista trocavam acusações, como no episódio da crise dos mísseis em Cuba em
1962. Esse momento tornou o mundo um espaço de muitas contradições morais, uma
vez que milhares de pessoas eram mortas na defesa de interesses de pequenos grupos
disfarçados de ideais patrióticos.

Dessa forma, atos como o uso de armas químicas e tantos outros atos covardes foram
alvo de críticas por todo o mundo. Na visão de Jonas (2006), Chauí (2011) e Cunha
(2012), a brutalidade das guerras, que se viu em boa parte do século XX, fez ofuscar e
praticamente tirar de cena a ética e a moral.

Na segunda metade do século XX, como mostra Cunha (2012), a necessidade de pre-
servação da espécie levou a sociedade mundial normatizar os comportamentos, visan-
do justamente limitar e até punir pessoas ou grupos sociais que viessem atentar contra
a espécie humana. Para viabilizar isso, os países tiveram que celebrar um amplo pacto
de paz e reconstrução.

Um dos países que mais aportou recursos financeiros, com o intuito de financiar
a reconstrução da Alemanha no período do pósSegunda Guerra Mundial, foi os
Estados Unidos da América. Desse ato, surgiu uma estreita parceria entre esses
países que se mantêm fortes atualmente.

A criação de instituições como a Organi-


Fonte: 123RF

zação das Nações Unidas (ONU) (1945)


foi um dos resultados desse pacto, que
mostrava novos tempos e avanços na di-
plomacia internacional. As ações da ONU
ultrapassam a intervenção diplomática em
conflitos e promovem ajuda humanitária
a países e populações atingidas por con-
frontos e desastres naturais, pois objetiva
a paz no mundo, mantendo o equilíbrio so-
cial entre os países.

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Esses eventos mostram claramente a necessidade de códigos de ética mais enérgicos,
uma vez que os interesses unilaterais de alguns países ou de grupos sociais eclodiram
guerras e outros colocaram a estabilidade social mundial em risco.

Após a invenção da máquina a vapor, outra importante inovação do mundo moderno


ocorreu em 1947: a criação do transistor, que permitiu a criação, em 1971, do micro- 4
processador, elemento fundamental à nova geração tecnológica de computadores e
outros dispositivos. O fato é que o desenvolvimento da ciência e das tecnologias foi tão
intenso que a sociedade não conseguiu e não consegue acompanhar essa evolução,
resultando na sensação de que estamos reféns desse processo.

Atrelado a esses eventos, o sistema capitalista evoluiu rapidamente, e a acumulação de


capital (própria do sistema) influenciou o comportamento das pessoas, que passaram a
perceber o seu papel na sociedade de forma individualizada, assegurando o egoísmo.

A inversão de valores se tornou notória entre muitas ações humanas. Visando apenas
o lucro financeiro, as relações passam a acontecer como meio para alcançar tal fim.
Na visão de Jonas (2006), o egoísmo é inseparável das pessoas, mas controlado pela
moral. Desse modo, quando em uma multidão ou na coletividade a pessoa só consegue
se ver, então ela está de alguma forma agindo de forma egoísta.

Diferentemente dessa postura, a ética preza pelo bem-estar coletivo, pela ação de aju-
da mútua ou, na pior das hipóteses, pela razoabilidade nas atividades que envolvem
relações financeiras, desde que a situação razoável mantenha o equilíbrio nessa intera-
ção. Sendo assim, a ética preza pelo espírito coletivo (Figura 4.8).

Nessa perspectiva, no plano da ética, a expressão “construir a própria vida” não é si-
nônimo de individualismo exacerbado ou egoísmo severo, mas uma forma de indicar
para as pessoas que elas possuem responsabilidades sobre suas decisões, visto que
as nossas ações são sempre julgadas ou analisadas pela coletividade.

Por isso percebemos que não somos singulares, únicos, fazemos parte de uma espécie
que para sobreviver depende de recursos naturais e da solidariedade de outros. A ideia
de singularidade trazida com as novas tecnologias é falsa, pois nem mesmo no espaço
virtual mantemos ou conseguimos o anonimato.

As pessoas não conseguem se esconder por muito tempo nas redes sociais ou qual-
quer outro campo do mundo virtual. Possivelmente, as pessoas não estavam e ainda
não estão preparadas para lidar com a quantidade significativa de informações dispo-
nibilizadas, por exemplo, na internet. O que até pouco tempo era um problema, a falta
de informação, hoje sua abundância criou outros problemas. A internet ou rede mundial
de computadores foi uma criação fantástica do ponto de vista do acesso à informação,
tornando-se um meio de comunicação efetivo que permite, entre outras funções, a co-
municação entre pessoas e grupos em qualquer parte do globo.

Essa grande rede que, inicialmente, na década de 1970, teve papel importante na co-
municação militar, logo tomou conta da academia e fascinou o mercado global, viabili-
zando inúmeras oportunidades de novos negócios.

Ética e Cidadania 69
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

Pergunte a si mesmo: o que não é possível fazer pela internet? Em resposta a essa
pergunta, muitas pessoas, especialmente os jovens, poderiam responder “não sei”.

Mais recentemente, tivemos a miniaturização e ao mesmo tempo a multifuncionalidade


de equipamentos, demonstrando que os avanços tecnológicos estão em ampla expan-
4 são. As pessoas adquirem e fazem uso de seus equipamentos diariamente e, em uma
lógica de mercado, sabem que alguns desses equipamentos são criados para manter o
status consumista, em função do prazo de vida curtíssimo que têm.

O telefone é um bom exemplo desse caso, pois, até pouco tempo, além de ter um ele-
vado custo financeiro para a aquisição, era utilizado apenas para comunicação falada
e sem mobilidade.

Porém, o aparelho telefone mudou, ganhou mobilidade, deixou de ser fixo, diminuiu
significativamente em tamanho e ganhou múltiplas funções, como câmera fotográfica e
acesso à internet, à medida que são agregados aplicativos. Além disso, pode ser utiliza-
do no meio familiar, no lazer, no mundo profissional, como computador, televisão, rádio,
dispositivo de localização global, entre outras funcionalidades. A Figura 4.10 apresenta
um moderno aparelho de telefonia móvel.

ANATEL
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), o Brasil regis-
trou 35.650.458 linhas de telefonia fixas no mês de junho de 2019. Em relação
ao mês anterior (maio de 2019), houve uma redução de 214.478 linhas e, nos
últimos 12 meses, foram 3.037.305 linhas fixas a menos.

Com relação à telefonia móvel, o Brasil registrou 228 milhões de linhas móveis
ativas em junho de 2019.

IBGE
É importante destacar que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) estima que a população brasileira seja de 210 milhões de pessoas.

Com base nesse estudo, verificamos que, junto a tantas mudanças, existe a
necessidade de revisar os valores e a moral que envolvem o uso das tecnolo-
gias. Isso porque, apesar de as mudanças estarem inseridas em comunidades
de usuários, cada pessoa possui sua identificação, seu perfil e, por vezes, ma-
nifesta ideias que não convergem com a forma de pensar da coletividade ou
comunidade na qual está inserida.

3. OS LIMITES DA ÉTICA NO MUNDO VIRTUAL


Se no mundo off-line algumas vezes a ética perde o foco, imagine no mundo virtual,
que, aparentemente, é uma “terra de ninguém”, tendo a ética ainda no princípio.

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Certamente você é usuário de redes sociais e/ou deve ser membro de grupos de apli-
cativos, como o WhatsApp. Não importa em qual grupo você esteja ou qual rede social
usa, o que interessa é que todos possuem regras que podem ser complexas, prevendo
a expulsão de quem as desrespeita ou o constrangimento quando envia uma mensa-
gem que não é bem recebida pelo grupo. No campo virtual, conhecer as normas de
4
convivência do seu grupo é fundamental para evitar situações embaraçosas.

Muitas pessoas podem acreditar que, na internet, tudo vale e tudo pode, mas não é
assim que funciona. A internet possui algumas regras de convivência, não basta apenas
estar de acordo, é preciso também agir com respeito a elas.

Se o espaço virtual é democrático e se as pessoas têm liberdade de expressão, qual a


diferença entre esses dois ambientes? Até aqui nenhuma, o que ocorre, por exemplo,
é que as pessoas passam a acreditar que a liberdade é total e irrestrita. Outro aspecto
que limita a visão do usuário sobre a ética no espaço virtual diz respeito à aparente
inexistência de regras punitivas para quem as desrespeita.

Esse fator é importante, considerando a dimensão do espaço virtual, que para muitos
oferece a ilusão da liberdade não vigiada.

No espaço virtual, encontramos o que precisamos: jogos, notícias, serviços, entreteni-


mento, produtos, entre outros. Contudo, ao descuidar de algumas regras de segurança,
poderemos correr alguns riscos pessoais com resultados negativos à vida real, tais como:

1. Acesso a conteúdo impróprio.

2. Contato com pessoas mal-intencionadas.

3. Invasão de dados privados.

4. Uso criminoso ou mal-intencionado de dados pessoais.

Por isso é necessário ficar atento às notícias sobre tecnologia, pois, com certa frequência,
golpes a usuários de internet acontecem, como o furto de documentos ou perdas financeiras.

Assim, é muito importante prestar atenção aos procedimentos de segurança. Conheça as


regras que o seu provedor de internet ou administrador de rede oferece. Entre as regras
de segurança, certamente há a indicação para não responder a mensagens de cadastra-
mento, especialmente quando parecem ter sido enviadas por instituições públicas ou do
mercado financeiro. Esse é o caminho mais comum para os golpes na internet.

Todos os provedores de internet ou os administradores de rede também recomendam


não compartilhar senhas e muito menos disponibilizar dados confidenciais, visto que
isso permite ou facilita a ação dos golpistas, como os crimes cibernéticos.

Como a internet é um espaço social e mercadológico, evidentemente todo tipo de pessoa


que encontramos no ambiente físico, certamente pode ser encontrada no meio digital.

Ética e Cidadania 71
Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

Com isso, os procedimentos de segurança devem ser atentamente percebidos e cuida-


dosamente seguidos pelas empresas, afinal, vários problemas podem ocorrer caso seu
sistema de segurança virtual falhe ou seus computadores sejam invadidos, tais como:

4 1. Exposição negativa da marca no mercado.

2. Invasão de seus bancos de dados.

3. Perda das bases de dados dos clientes.

4. Perdas financeiras.

5. Constrangimento moral perante o mercado.

Dessa forma, o controle sobre as aplicações tecnológicas deve ser foco para todos que
interagem no espaço virtual, pois deslizes, principalmente com a segurança, expõem
qualquer usuário ou empresa, resultando em desgastes e falta de confiança no ambien-
te por longo tempo.

Exemplo de falta de confiança no ambiente virtual.


Muitos idosos preferem enfrentar filas para serem atendidos no caixa das agências
bancárias a ter comodidade de usar as máquinas de autoatendimento.

O problema reside em como acompanhar ou monitorar a enorme quantidade de usuá-


rios de internet em todo o mundo. Instituições governamentais como o IBGE e a Anatel
estimam que o número de usuários de internet cresce cerca de 10 milhões a cada
semestre. Com bilhões de pessoas interagindo no espaço virtual, usando e-mails, apli-
cativos de mensagens, máquinas de autoatendimento, redes sociais e tantas outras
aplicações, fica a dúvida de como se pode controlar tantos acessos ao mesmo tempo.

Essa tarefa é muito difícil!


Apesar de sermos facilmente identificados na internet, a partir do rastreamento dos
registros, ainda é possível identificar o caminho de acesso de qualquer usuário. Porém,
não estamos falando de motoristas de automóveis, cujos números são tão volumosos
quanto os de usuários de internet, que possuem um código nacional de trânsito punitivo.

Assim, o controle das pessoas que acessam a internet não acontece instantaneamente.
Por exemplo, quando ocorre algum tipo de crime cibernético, as autoridades necessi-
tam mapear os registros para identificar o usuário que cometeu o crime, como invasão
e furto de dados em sites pessoais ou sites corporativos.

Isso também acontece para ações pessoais ou entre grupos sociais quando ocorre a
homofobia, o preconceito, o racismo e atos que ferem a moral coletiva, tanto quanto
acontece no mundo real.

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No Brasil, o Comitê Gestor da Internet (CGI.BR) é responsável por diversos aspectos
da internet no país, dos registros à gestão. Entre as atribuições institucionais do CGI,
seguem algumas:
Tabela 02. Atribuições do CGI
4
ATRIBUIÇÕES DO CGI

Estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e ao desenvolvimento da internet no Brasil.


Estabelecer diretrizes para a administração do registro de Nomes de Domínio usando <br> e de alocação
de endereços internet (IPs).
Promover estudos e padrões técnicos para a segurança das redes e serviços de internet.

Recomendar procedimentos, normas e padrões técnicos operacionais para a internet no Brasil.


Promover programas de pesquisa e desenvolvimento relacionados à internet, incluindo indicadores e
estatísticas, estimulando sua disseminação em todo território nacional.
Fonte: Elaborada pelo autor.

Essa é uma importante instituição que discute e delibera assuntos relacionados aos
comportamentos éticos na internet. Em um de seus trabalhos, a cartilha “Internet com
responsa: cuidados e responsabilidades no uso da internet” (CGI, 2017), o CGI focou
como público-alvo dessa publicação crianças e, sobretudo, adolescentes.

Nesse trabalho, o CGI recomendou aos jovens cuidados básicos para evitar problemas
sérios com o uso da internet. Alguns desses elencamos a seguir:

 Não postar informações pessoais como o endereço de casa ou da escola, bem


como os hábitos de passeios e viagens da família ou dos amigos.

 Cuidar na hora de criar e utilizar senhas, não usando dados básicos, como a
data de nascimento.

 Não publicar conteúdos desmoralizantes, constrangedores ou que causem da-


nos a outras pessoas.

 Não fazer comentários que depreciem a imagem dos amigos, ou mesmo pes-
soas que não conhece.

 Criar perfil falso.

A estratégia do CGI com a publicação consiste em esclarecer aos adolescentes que a


internet não é um ambiente sem leis ou regras, e pode vir a ser um ambiente perigoso.
Por isso aborda aspectos que comumente podem oferecer algum risco moral às pesso-
as que cometem descuidos nas redes sociais, tais como:

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Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

a) Exposição excessiva na internet.

b) Liberdade de expressão e danos


à imagem e à reputação.
4
c) Cyberbullying.

RISCO MORAL d) Racismo.

e) Discurso de ódio.

f) Danos e riscos na prática de


nude ou sexting.

g) Direitos autorais, plágio e com-


partilhamento responsável.

Empresas mundiais como Google, Facebook, Microsoft e tantas outras apoiam e contri-
buem para que ações como essas sejam amplamente divulgadas e fortaleçam o escopo
regulatório da internet. Essas marcas são importantes influenciadoras do comporta-
mento dos usuários de aplicativos e sistemas na internet.

As marcas ilustradas na Figura 02 são de Figura 02. Grandes empresas de Informática.


empresas reconhecidas no mundo inteiro

Fonte: 123rf.
como algumas das mais poderosas no es-
paço virtual. Elas percebem claramente
que esse ambiente não pode, em hipó-
tese alguma, tornar-se anárquico. Desse
modo, apoiam a criação de normas para
regular o comportamento das pessoas ou
dos usuários.

Iniciativas como a do CGI.br procuram


conscientizar as pessoas sobre o com-
portamento ético no espaço virtual, sendo
fundamental para a boa convivência. Con-
cordemos que há muitos usuários das re-
des sociais que se julgam donos da razão
e da verdade, postando publicações ofen-
sivas, que atentam contra a moral coleti-
va. Então, limitar a sensação de que cada
indivíduo constrói a sua própria verdade
é um desafio permanente a ser enfrentado por todos, especialmente pelas empresas
privadas e instituições públicas do setor de tecnologia.

Por isso, tanto as empresas privadas do setor de tecnologia como as instituições públi-
cas podem atuar em conjunto, executando ações com dois focos. Vejamos quais são.

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Ações educativas
Educar os usuários da internet, enaltecendo a ética no espaço virtual com:

 Elaboração de cartilhas informacionais. 4

 Ações de marketing.

 Organização de eventos com foco no tema da ética no espaço virtual.

Ações punitivas
 Voltadas aos usuários que cometem crimes cibernéticos.

 Criação de leis mais rígidas para crimes cibernéticos.

 Revisão das leis existentes, aumentando as penas para crimes cibernéticos.

Criação de estratégias de exposição negativa para quem comete crimes


cibernéticos.
As novas tecnologias são criadas para facilitar a vida das pessoas, gerando bem-estar à
coletividade, Com esse objetivo, as redes sociais possibilitam encontros e reencontros,
a livre expressão, a amizade, entre outros aspectos. Portanto, a liberdade de expressão
nas redes sociais ou, de forma geral na internet, não deve ser sinônimo de desrespeito
às pessoas ou grupos sociais por suas origens, raça, cor, credo ou qualquer outro as-
pecto que envolva suas características físicas ou opções ideológicas.

CONCLUSÃO
Nesta unidade, vimos diversas mudanças na sociedade humana, a partir de um dos
seus mais emblemáticos eventos, a Revolução Industrial. Vimos também que algumas
criações tecnológicas ofertaram possibilidades concretas ao desenvolvimento da socie-
dade capitalista, influenciando nas mudanças comportamentais.

Com isso, percebemos que alguns eventos como a Primeira e a Segunda Guerra Mun-
dial, a Revolução Russa, Guerra do Vietnã e a Guerra Fria foram suficientes para que
a ética fosse esquecida. Contudo, diante da barbárie, a sociedade mundial retomou o
debate no entorno da necessidade de regular o comportamento individual e de grupos
sociais, visando limitar ações unilaterais que atentem contra a ética e a moral coletiva.

Nesse contexto, vimos a criação da Organização das Ações Unidas (ONU), que fortale-
ceu a necessidade de reconstrução mundial após a Segunda Guerra Mundial.

Vimo ainda como a globalização da economia promoveu mudanças amplas e profundas


no mundo inteiro, tanto no sistema econômico como no financeiro e trabalhista. Nesse

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Ética e Cidadania na Sociedade Globalizada e Tecnológica

mesmo período, a partir da década de 1980, as novas tecnologias foram gradativamen-


te sendo inseridas no contexto da sociedade, como a internet, que surgiu de um sistema
de comunicação militar, sendo ampliada para a academia e posteriormente alcançando
rapidamente bilhões de pessoas.
4 Abordamos alguns aspectos relacionados aos limites da ética no espaço virtual que preci-
sam de cuidados com o tipo de postagem e os tipos de dados publicados, a fim de não ter
resultados negativos ou que prejudiquem a individualidade de alguém ou a coletividade.

Com isso, verificamos que as pessoas e as empresas podem ser prejudicadas pelos
crimes cibernéticos, com as invasões que comumente têm o objetivo de furtar dados e
causar prejuízos ou estragos à imagem pessoal ou empresarial.

Além disso, vimos que há esforços institucionais cujo objetivo visa instruir as pessoas
ou usuários na tomada de cuidados básicos nas redes sociais com os seguintes temas:
discursos de ódio, desrespeito, plágio e direitos autorais, liberdade de expressão e da-
nos à reputação, cyberbullying, racismo, danos e riscos na prática de nude ou sexting.

Por fim, vimos que há apoio de empresas globais que atuam no espaço virtual com o
propósito de regrar o comportamento dos usuários da internet e das redes sociais. Ter
a noção clara de que o espaço virtual é uma extensão das vidas do mundo real é fun-
damental para que as pessoas ou usuários não percam a noção de ética e de moral.

REFERÊNCIAS
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Ática, 2011. COMITÊ Gestor da Internet Brasil. Inter- de uma ética para a civilização tecnológica. Trad.
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