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Locus SOCI@L 2/2009: 67–80

A política de cuidados domiciliários em


instituições de solidariedade social:
risco ou protecção efectiva?
Maria Irene Lopes B. de Carvalho
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
mariacarvalho21@gmail.com

Resumo
Este artigo pretende analisar a política de cuidados (como risco e como desafio) enquanto resposta à questão da
dependência. Pretende ainda reflectir como é que, em Portugal, essa política, especialmente a de cuidados domicili-
ários prestados em instituições de solidariedade social, promove a participação, a protecção e a saúde das pessoas
mais idosas. Dentro desta ideia geral, considera-se a noção de dependência como um processo multidimensional
a ter em conta na construção da política de cuidados. A partir dos dados recolhidos numa instituição de solida-
riedade social especializada na prestação de cuidados no domicílio, reflecte-se o modo como esta área política
responde à multidimensionalidade das situações de dependência, a partir da identificação das características dos
utilizadores, dos cuidados informais familiares prestados e dos serviços formais que usufruem.

Abstrat
This article intends to analyze the politics of cares (either as a risk and as a challenge) when it’s an answer to the
matter of dependence. It also wants to reflect on how, in Portugal, this politics (specially the ones of domiciliary
care given in institutions of social solidarity), promote the participation, the protection and the health of the most
elderly people. In this general idea, we consider the notion of dependence as a multidimensional process taken into
account in the construction of the politics of cares. Through the data gathered in an institution of social solidarity
specialized in the installment of cares in the residence, we reflect on how this politic area responds to the multiple
dimensions of the dependence situations. To do this, we identify of the characteristics of the users, of the family
cares and of the formal services available.

Introdução
Nas sociedades pós-industriais quando se associa o risco social às pessoas idosas consideram-
se aspectos previsíveis e imprevisíveis (Titterton, 2005) decorrentes dos efeitos da saída do mer-
cado de trabalho e entrada na reforma, do aumento do número de anos de sobrevivência na
velhice, da maior probabilidade de existência de situações de dependência, da necessidade de
cuidados e de cuidadores disponíveis e das mudanças na dinâmica da família. A dependência
é um processo gerador de riscos sociais com múltiplas consequências não só para o indivíduo,
mas para o grupo familiar, para a comunidade e para o estado e são esses riscos que vamos
aqui analisar, considerando as políticas existentes para promover a autonomia dos indivíduos
e famílias com idosos a cargo. Dentro deste enquadramento analítico apresentamos os resul-
tados preliminares de um estudo que estamos a realizar1 onde pretendemos aferir o nível de
protecção e de risco existente nas políticas de cuidados domiciliários organizados e prestadas
por instituições de solidariedade social. Para a concretização desta pretensão aplicou-se um
Palavras Chave
Pessoas idosas; questionário ao coordenador do serviço de apoio domiciliário2. Este questionário pretendia
dependência; aferir o nível de conhecimento do coordenador face ao utilizador de SAD relativamente: à si-
política de cuidados
domiciliários
tuação económica e habitacional; o nível de dependência física e cognitiva; as características
... da família e do suporte informal recebido; o nível de integração na comunidade e o suporte
Key Words formal recebido, e o modo de intervenção do Serviço Social identificando os níveis de risco e de
Elderly people; de-
pendence; politics protecção face ao serviço de apoio domiciliário recebido, tendo em conta as especificidades
of domiciliary cares das situações de dependência nas pessoas idosas que usufruem dos cuidados.

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I – A dependência nas pessoas idosas

A noção de “dependência” surge correntemente associada às pessoas idosas e muito idosas.


Esta relação decorre da maior probabilidade de, a partir dos 65 anos, ocorrerem perdas físicas,
cognitivas e intelectuais que afectam negativamente o processo de autonomia relativamente às
decisões e escolha do modo de vida que se quer prosseguir. Define-se correntemente a depen-
dência na velhice como “um estado em que se encontram as pessoas que por razões ligadas
à falta e/ou perda de autonomia física, psíquica, intelectual, têm necessidade de assistência e
de suportes para realizar as actividades correntes da vida diária” (Cabrero, 2000; Conselho da
Europa, 1999; Decreto de Lei nº 265, 1999; Johnson, 1996. Este “estado” pode ser temporário
ou permanente e impede durante esse período a autonomia das pessoas, isto é o exercício dos
direitos de cidadania, não tanto nas que se encontram dependentes fisicamente mas em maior
grau nas que se encontram com dependência psíquica e intelectual.

Como refere Gough (1998), a dependência remete para um limite de capacidades que o indi-
víduo manifesta para desempenhar o seu papel social, implicando uma certa “desvantagem”3.
Contudo a dependência, em si mesma, não determina o sucesso da participação do indivíduo,
mas pode condicionar a capacidade de efectuar uma escolha informada, designadamente, o
que deve ser feito, como e por quem e condiciona a sua autonomia crítica. Esta está associa-
da ao acesso ao conhecimento, o que permite efectuar uma escolha informada/decisão, e
acesso e efectivação de direitos de cidadania4. A autonomia do indivíduo pode estar em risco
quando a dependência está associada a problemas mentais e cognitivos e intelectuais que
condicionam objectivamente a participação do indivíduo (Doyal e Gough, 1998). Nestes ca-
sos, a autonomia organizacional5, deve accionar mecanismos de defesa da autonomia desses
indivíduos, através da concretização mecanismos para defesa das liberdades e garantias, dos
mesmos, como por exemplo uma lei da dependência que defenda os direitos das pessoas nes-
sas circunstâncias concretizada através de instituições sociais para esse efeito. A autonomia
implica necessariamente a existência de uma sociedade democrática que proteja os direitos
fundamentais dos cidadãos e que, por sua vez, os cidadãos possam exercitar e efectivar os
seus direitos livremente (Doyal e Gough, 1998). Neste enquadramento, a palavra dependência
remete não só para um limite de capacidades físicas, cognitivas e intelectuais, mas também
para outros factores que interferem nesse processo como a perda de rendimento, o baixo nível
de escolaridade e de participação social, a escassez de contactos familiares e de vizinhança, a
inexistência de recursos sociais e de saúde adequados e as consequências negativas que esses
factores podem ter para o exercício da autonomia critica (participação e escolha).

II – Configurações da dependência nas pessoas idosas e dependentes

Geralmente o “estado” de dependência é medido através de indicadores que determinam vários


graus e tipos de dependência6. Estes combinam o índice das limitações pessoais e sociais para
efectuar as actividades da vida diária7 - AVD, e o índice das actividades instrumentais da vida
diária8 - AIVD. Esta tipologia relaciona as necessidades físicas, cognitivas e intelectuais determi-
nando níveis de dependência e necessidade de cuidados por diferentes categorias: a independen-
te, a levemente dependente, a moderadamente dependente e a gravemente dependente. A falta

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de dados relativamente à situação de dependência física, intelectual e cognitiva em Portugal
não nos permite analisar objectivamente esta questão. Contudo a partir dos dados do censo
de 2001, verifica-se de um modo geral, que as taxas de prevalência de incapacidades de tipo
funcional, embora menos elevadas, assumem valores significativos na população portuguesa a
partir dos 50 anos, com especial incidência nas mulheres (Cabral, 2003). Verifica-se também
que a dependência é maior no grupo de 85 e mais anos, com 19,45%, seguindo-se o grupo
entre os 75 e os 84 anos com 14,2% e, por último, o grupo dos 65 aos 74 anos com 10,8%
(Cabral, 2003). Todavia, uma análise global aos dados demográficos relativos ao aumento da
esperança de vida, aos índices de mortalidade e de morbilidade, correlacionados com alguns
tipos de incapacidade física e funcional9, permitem perceber, em relação à população portu-
guesa, que a esperança de vida sem incapacidade aumentou quer para os homens quer para
as mulheres (Cabral, 2003). A esperança de vida feminina é superior à dos homens, traduzin-
do esta, contudo, um maior índice de incapacidade. Isto quer dizer que apesar das mulheres
viverem mais tempo, os homens podem viver mais tempo sem incapacidade física de longa
duração (Cabral, 2003).

Num estudo recente, efectuado pela OCDE (2007), com o objectivo de definir a evolução
dos factores que determinam incapacidade nas pessoas mais idosas e, consequentemente, a
necessidade de cuidados de longo termo em vários países10 conclui que existe uma ligeira di-
minuição da dependência das pessoas idosas em cinco países estudados, a saber, Dinamarca,
Finlândia, Itália, Holanda e EUA. Em três países estudados, Bélgica, Japão e Suécia, verificou-
se um aumento ligeiro da dependência nos idosos. Em dois países, Austrália e Canadá, esse
rácio estabilizou e nos restantes, França e Reino Unido não foi possível chegar a uma conclu-
são, por falta de dados OCDE (2007: 4). O estudo demonstrou também que a dependência
decorrente de situações de doença é mais comum na população com mais de 65 anos de
idade, com clara prevalência para os mais idosos a partir dos 75 e mais anos, mas também
que a dependência está associada ao grau escolar. Quanto maior for o grau escolar, menor é a
dependência e quanto menor for o grau escolar, maior é a dependência. As doenças crónicas11
como artrite, problemas de coração, diabetes, hipertensão e obesidade prevalecem na popu-
lação idosas, existindo contudo diferenças relativamente aos países estudados. Por isso a ideia
de que a dependência é um estado é criticada por aqueles que intervêm nesta área e defendem
uma noção mais integrada e holista da noção de dependência no caso das pessoas idosas já
que esta pode ser modificada. Neste sentido a dependência é entendida como um processo re-
lacionado com as circunstâncias ocorridas na vida quotidiana, com o espaço e o tempo onde
a mesma ocorre, onde estão envolvidos vários factores que vão desde o biológico ao social e
do psicológico ao cultural e ao político (Quaresma, 2004; Rodríguez, 2005).

Em suma, para além dos aspectos funcionais, cognitivos e intelectuais devem ser consideradas
outras variáveis sociais que podem ser determinantes para perceber as situações de depen-
dência, denominadas múltiplas, onde se integram o nível de escolaridade, o tipo de profissão
exercida, a situação na profissão, o nível de participação social e os valores prosseguidos, o
nível de pobreza e exclusão associadas à diminuição de rendimento, ao sentimento de solidão
e índice de isolamento social, ao estilo de vida pessoal e ao nível de desenvolvimento de de-
terminada sociedade, assim como o acesso aos serviços e saúde e o nível de protecção social
disponível, para essas circunstâncias.

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III – A política de cuidados nas situações de dependência

Em Portugal o apoio à dependência para as pessoas idosas ou doentes dependentes e deficien-


tes é efectuado tanto por transferências financeiras, sob a forma de pensões e complementos,
como por recursos sociais e de saúde sob a forma de equipamentos e serviços e também de
isenções fiscais. Na área dos recursos sociais e de saúde a política de cuidados para as pessoas
idosas foi desenvolvida nesta última década com ênfase nos serviços de apoio domiciliário e/
ou serviços de apoio domiciliário integrado (Walker, 2001). Os suportes sociais e de saúde
para as pessoas idosas e dependentes são da responsabilidade do Estado, do mercado, da
sociedade civil e da família. Ao Estado cabe o co-financiamento e a criação de normas legis-
lativas, regras de acesso, fiscalização e à sociedade civil e à família cabe organizar-se no senti-
do de prestar o referido suporte e simultaneamente contribuir para o seu financiamento. Os
cuidados prestados às pessoas idosos e dependentes são predominantemente desenvolvidos
no âmbito familiar e por organizações de solidariedade não lucrativas, quer sejam laicas ou
religiosas. Estas organizações têm tipologias diversas preponderando as IPSS – Instituições
Particulares de Solidariedade Social, as quais têm uma relação de proximidade com o Estado,
sobretudo a nível da tutela e da dependência financeira12. Estas instituições têm estatutos pró-
prios regulados pelo Decreto de Lei 119/83 e desenvolvem suportes para as pessoas idosas em
equipamentos tipo, lares e serviços de apoio domiciliário, centros de dia e convívio e também
cuidados de saúde, especialmente nas irmandades da misericórdia, variando em número e
taxa de cobertura conforme as regiões.

Além destes suportes sociais existem ainda outras respostas denominadas integradas, desen-
volvidas no âmbito da saúde e solidariedade, focalizados na continuidade de cuidados de
saúde e sociais após a alta hospitalar, consubstanciadas no Decreto de Lei 101 de 2006 lei dos
cuidados continuados. Esta lei constitui uma inovação e uma abertura face à política neste do-
mínio13. Esta orienta-se para a responsabilização de todos os actores sociais pelos cuidados,
dirigindo a sua acção para os indivíduos que se encontram com alta hospitalar e necessitam
de continuidade de cuidados de curto prazo, médio prazo, longo prazo e cuidados paliativos.
Pretende tornar mais eficientes e eficazes as respostas para estas novas necessidades construin-
do serviços dirigidos a “novos doentes”, cada vez mais envelhecidos e com patologias diversas
orientando-se para a incapacidade prolongada e para situações de dependência quando esta
já está instalada. Os cuidados desenvolvidos por esta rede são da responsabilidade, dos cen-
tros de saúde e de hospitais em articulação com o sistema de segurança social e coordenados
por equipas especializadas14. Complementarmente a estes suportes, existem ainda as ajudas téc-
nicas, a formação aos cuidadores informais, o Tele-Alarme e vários programas específicos, como
a segurança 65, a prevenção da violência institucional e a certificação da qualidade dos equi-
pamentos e serviços para os idosos. Além destes suportes solidários têm surgido nestes últimos
anos suportes privados principalmente ao nível do apoio domiciliário e das residências assistidas
e/ou medicalizadas, sobretudo para as famílias com grandes possibilidades financeiras.

Em Portugal existe ainda muito a fazer nesta área, que exige não só organização e coordenação,
mas também o aumento e diversificação de respostas sob a forma de complementos de cuida-
dos no sentido da concretização de uma política de cuidados compreensiva para os idosos em si-
tuação de dependência. Esta política pode ser definida como processo de apoio a pessoas idosas
e deficientes em situação de dependência para as AVD15 e AIVD16, e ao cuidador familiar. É um

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processo que requer a integração da área social e da saúde, da responsabilidade das entida-
des estatais e entidades lucrativas ou não lucrativas, formais e/ou informais que coordenam,
organizam e prestam os cuidados, executados por profissionais pagos e/ou não pagos, como
no caso de voluntários, do cuidador familiar e do próprio beneficiário.

IV – A especificidade dos serviços de apoio domiciliário das instituições de


solidariedade social

Quando falamos da política de cuidados no domicílio, reportamo-nos aos cuidados necessá-


rios à manutenção da vida das pessoas idosas e em situação de dependência nesse contexto17.
Estes cuidados, sob a forma de serviços, têm como objectivo a manutenção do quotidiano
familiar (Guerreiro, 2001), tendo em vista a protecção, promoção, e autonomia das pessoas
idosas em situação de dependência e do seu cuidador familiar. Em Portugal as instituições
e associações de solidariedade e irmandades da misericórdia são proprietárias da maioria
dos equipamentos sociais existentes em Portugal18. Estas instituições promovem uma acção
organizada por “valências” com vista à satisfação das necessidades dos utilizadores. A maio-
ria da rede de equipamentos e serviços pertence a entidades lucrativas e não lucrativas, estas
últimas têm um peso substantivo relativamente ao primeiro19. Segundo dados estatísticos da
carta social (MTSS, 2006), existe um universo de 5.596 entidades não lucrativas e lucrativas
em Portugal. O sector não lucrativo é responsável por 72,7% dos equipamentos existentes e a
restante percentagem, 27,3% pertence ao sector lucrativo. Do total da percentagem do sector
não lucrativo 65,8 % corresponde a instituições do tipo IPSS20, 3,0% são equipadas a IPSS, 1,9
% são organizações particulares sem fins lucrativos, mas não são IPSS, 1,7 % são entidades
públicas, 0,2% % são empresas sociais e 0,02% corresponde à acção da SCML21. Ainda segun-
do a mesma fonte, nos últimos oito anos o número destes equipamentos aumentou 80,9%.
Este desenvolvimento relativamente ao surgimento destas organizações tem mais expressão
nas zonas urbanas, nas zonas litorais e nas capitais de Distrito, havendo contudo excepções
(MTSS, 2006)22. A maioria dos equipamentos desenvolve respostas para as pessoas idosas,
para a infância e juventude, na reabilitação integral da pessoa com deficiência, na família e
comunidade, com as pessoas em situação de dependência, na toxicodependência, na doença
mental e com as pessoas infectadas pelo HIV/Sida. Verifica-se também uma desigualdade na
distribuição do número de equipamentos e serviços por essas áreas (MTSS, 2006)23, preva-
lecendo os serviços para os idosos com 51,1 % dos equipamentos existentes, e da infância e
juventude com 36,4%. A restante percentagem corresponde a 5,4% na área da reabilitação e
deficiência, família e comunidade em 3,7%, pessoa em situação de dependência em 1,9 %,
toxicodependência em 0,6 %, saúde mental, 0,4%, e HIV/sida com 0,3%.

Em 2006 existiam em Portugal cerca 2261 valências ou serviços de apoio domiciliário apoiando
cerca de 67,716 indivíduos com 65 e mais anos, correspondendo a uma taxa de cobertura de
3,9% (Martin e Neves, 2007). Esta é a valência, que comparativamente com a taxa de cobertura
dos lares (55,266 indivíduos) 3,5%, e com o centro de dia (41,204 indivíduos) 2,6% apoia o
maior número de pessoas idosas. O serviço de apoio domiciliário tem a função de “assegurar
a prestação de cuidados individualizados no domicílio a indivíduos e famílias que, por motivos
de doença ou incapacidade, não consigam assegurar por si as suas necessidades básicas” (MTS,
2000: 270). Tem como finalidades “proporcionar condições de bem estar, vivência saudável no

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meio e uma participação activa na vida social, de modo a facilitar uma vida normal e integrada
no meio de vida habitual, diminuindo assim as situações de isolamento, visando retardar a ad-
missão noutras respostas destinadas a idosos, como lares e residências. Esta resposta tem como
objectivo principal prevenir situações de dependência, a promoção de autonomia e a prestação
de cuidados de saúde, quer de ordem física quer psicossocial”(MTS, 2000:270).

Os serviços prestados por este suporte visam satisfazer as necessidades básicas como a alimen-
tação, higiene pessoal e cuidados de saúde, higiene do domicílio à modificação do domicílio
adequando-o ao bem-estar do utente e efectuar o acompanhamento ao exterior sempre que
seja necessário. Na carta social (MTS, 2000:275) podemos identificar o tipo de cuidados
prestados pelos serviços domiciliários assim como a sua frequência. Estes dão especial ênfase
à prestação de cuidados de higiene e conforto e igual expressão à confecção, transporte e/ou
distribuição de refeições, seguindo-se o tratamento de roupas e a arrumação e limpeza no do-
micílio. De destacar, em sentido contrário, os cuidados relativos à melhoria da habitação e as
pequenas reparações no domicílio, assim como o acompanhamento psicossocial aos utentes
e familiares, a inexistência de serviços de reabilitação, ainda que os cuidados médicos e de en-
fermagem com 46%, se refiram, a meu ver, maioritariamente a actos médicos e de enfermagem
de transcrição de receitas médicas e à medição da pressão arterial, e não a um acompanha-
mento sistemático da situação de doença no domicílio, estando esta a cargo dos centros de
saúde – médico de família – ou da medicina privada.

V – O apoio domiciliário e os serviços prestados às pessoas idosas em situação


de dependência

Neste estudo24 o serviço de apoio domiciliário começou a funcionar em 1980 decorrente da


transformação social e política do pós-25 de Abril e da abertura face à construção de “novas
políticas sociais” como direitos. Nesta data apoiava 15 utentes e os cuidados que prestava eram
a higiene, alimentação e limpeza do domicílio. Passados 28 anos apoia 75 utentes. Actualmente,
além dos serviços prestados inicialmente, tais como a higiene pessoal, a distribuição de refeições
e a “pequena higiene doméstica”, inclui a manutenção da roupa na instituição, a articulação
com os cuidados continuados, o cuidar de feridas com supervisão, a administração de medica-
mentos em casos pontuais, sobretudo nas saídas ao exterior, que também estão incluídas como
serviços. Este serviço de apoio domiciliário funciona com um coordenador, com formação em
Serviço Social, cujas competências são de coordenar a equipa, planear e supervisionar os serviços
prestados mas também intervir junto dos utentes e família, na análise diagnostica, na elaboração
do plano de cuidados e o acompanhamento e avaliação do mesmo. O serviço funciona com aju-
dantes de acção directa que concretizam os cuidados no domicílio. Os recursos logísticos para
realizar o apoio são duas carrinhas, acrescido do equipamento da cozinha e as funcionárias:
uma cozinheira e auxiliares de cozinha. As principais mudanças identificadas durante os últimos
vinte anos são a diversidade de serviços e qualificação dos profissionais e dos serviços. A quali-
ficação dos profissionais está associada à formação contínua das ajudantes de acção directa e
das assistentes sociais. A qualificação dos serviços prende-se com, a adequação dos serviços às
necessidades dos utilizadores, a construção de instrumentos de registos das tarefas de coorde-
nação e prestação do serviço, a promoção da segurança do utente, a avaliação da satisfação dos
utentes, e o aumento dos recursos humanos e logísticos.

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Características dos utilizadores
Actualmente este serviço apoia 68 indivíduos/processos sociais, a quem foi aplicado o ques-
tionário. Destes, 52,9% são do sexo feminino e 47,1% são do sexo masculino. Neste serviço
de apoio domiciliário a diferença entre o número de mulheres e homens não é significativa. A
idade dos indivíduos varia entre os 25 anos e os 97 anos. A média de idade é de 77,39 anos
e a idade mais frequente é de 80 anos. Quanto ao estado civil 55,2% dos indivíduos são ca-
sados, 37,3% são viúvos, 6% são solteiros e 1,5% são separados. Dos 68 indivíduos sabe-se a
escolaridade em 47 indivíduos. Destes 66% têm o 1 ciclo do ensino básico, 25,5% não sabe ler
nem escrever e 8,5% têm o terceiro ciclo, predominando a escolaridade básica. A escolaridade
está de acordo com a profissão exercida predominantemente não qualificada. De 68 indiví-
duos, sabe-se a profissão em 51 indivíduos. Destes 13,2% têm a profissão de doméstica, 8,8%
empregado fabril, 7,4% o trabalhador da construção civil e 4,4% o trabalhador rural. Excepto
um indivíduo que se encontra incapacitado para o trabalho todos os indivíduos são refor-
mados. O que se encontra incapacitado para o trabalho é um “grande deficiente”. A maioria
dos indivíduos tem como sistema de protecção social a segurança social 83,8% e 7,4% têm a
ADSE25, os restantes não têm dados quanto ao sistema de protecção. Quase todos os indiví-
duos usufruem da pensão de velhice, esta é a mais comum em 77,9% e o seu valor encontra-se
entre os 169,97 euros e 830,24 euros, sendo a média de 324,35 euros. A pensão de invalidez
corresponde a 5,9% dos indivíduos e o seu valor varia entre os 143,43 euros e os 230,16 euros
sendo a média de 204,78 euros e a pensão de sobrevivência corresponde a 4,4% e o seu valor
varia entre 31,43 euros a 140,22 euros. Usufruem do complemento de dependência26 11 in-
divíduos, correspondendo a 16,2%.

As despesas conhecidas neste grupo de idosos são várias e incidem sobretudo nas despesas
com a saúde nomeadamente medicamentos, fraldas e cremes, mas também a renda de casa e
despesas com a manutenção da habitação, água, luz, telefone e condomínio. As despesas que
predominam são a luz, o gás, a água, o telefone e as despesas com a saúde. O tipo de habita-
ção é a vivenda27 em 59,1% e a maioria, 89,2%, tem condições de habitabilidade contudo se
nos debruçarmos relativamente às barreiras arquitectónicas verificamos que só uma pessoa é
que vive numa habitação sem essas barreiras, e para um indivíduo as barreiras impedem gran-
demente a mobilidade. Relativamente à situação de dependência, física, cognitiva e intelectual
para as actividades da vida diária e instrumentais da vida diária esta varia desde gravemente
dependente em 30,9% dos indivíduos, moderadamente dependente em 25% dos indivíduos,
levemente dependente em 25% dos indivíduos e independente em 19,1% dos indivíduos. As
doenças mais frequentes são as sequelas de AVC28 em 50,8%, as demências em 18,5%, os
diabetes em 16,9%, as cardiopatias em 16,9% e outras doenças como a convalescenças pós-
operatória, a amputação dos membros inferiores, as doenças nervosas, as fracturas e a tetra-
plégia em 27,7% dos indivíduos. Em suma são as pessoas idosas e muito idosas, que usufruem
do serviço. Estas não têm na sua maioria nenhum grau escolar, são reformados sendo a média
da pensão inferior ao valor do ordenado mínimo nacional. As despesas destes indivíduos são
basicamente as despesas com a habitação e com a saúde. Metade dos indivíduos encontra-se
gravemente e moderadamente depende e cerca de metade tem sequelas de acidente vascular
cerebral.

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Situação familiar e apoio informal prestado
De 68 indivíduos 67,6 % vivem acompanhados e os restantes não. Os que vivem acompanha-
dos 25% vive com a esposa, e 11 % com o esposo, 7,4% vive com a filha, 4,4% vive com a es-
posa e com pessoa contratada, 2,9% vive com a filha e o genro, 2,9% vive só com o filho, 2,9%
vive com a esposa e com o filho. Alguns indivíduos vivem perto dos familiares numa distância
que pode ser percorrida a pé em 8%, sobretudo perto da filha, sobrinha, amiga vizinhas. As
relações familiares são sobretudo de amizade e de afecto, estas são mais comuns com a espo-
sa em 25%, com a filha em 13,2%, com esposo em 8,8%, e com o filho em 5,9%. Também a
relação entre os familiares de apoio em cuidados básicos é mais comum com a filha em 10,3%
e com a esposa em 7,4%, com o esposo e com a irmã e a nora em 2,9% cada, e por último o
esposo, os filhos em 1,5% cada. Dezassete indivíduos têm apoio emocional. Destes, 52% têm
apoio em situações de stress, 45,6% apoio moral, 36,8% apoio relativamente à escuta e à con-
versa. Quanto ao apoio instrumental, os familiares dos idosos prestam cuidados de higiene
em 38,2%, apoio alimentar em 38,2%, apoio para vestir em 35,8%, na gestão do dinheiro e
apoio económico em 35,3%, tomar a mediação em 44,1% e limpar a casa em 39,7%. Quanto
a apoio de informação e integração social, 4,4% tem apoio familiar no aconselhamento sobre
assuntos do quotidiano, 50% tem apoio para idas ao médico, 8,8% tem apoio familiar para ir
às compras, 5,9% tem apoio para celebrar o aniversário, 30,9% tem apoio familiar para super-
visionar os cuidados.

Os cuidados, emocionais, instrumentais e informativos e de integração social são prestados


pela esposa, pela filha e pela esposo por essa ordem. Verifica-se igualmente que a seguir ao
esposo, em todos os itens, anteriormente identificados, segue-se um conjunto de pessoas que
presta apoio em “grupo” como por exemplo o filho, a filha, os vizinhos, ou amiga, a esposa e
os filhos, ou o esposo e os filhos. Relativamente aos recursos sociais a que têm acesso, a maio-
ria 98,5% frequenta o centro de saúde regularmente sobretudo nas consultas do médico de
família. Destes 25% têm também outros serviços do centro de saúde. Nenhum indivíduo tem
apoio da Câmara Municipal, nem da junta de freguesia nem usufrui do programa segurança
65, nem serviços do supermercado para levar compras, nem apoio do banco alimentar nem
serviços de voluntariado nem fisioterapia. Só um indivíduo tem apoio de outra IPSS e os ou-
tros dois têm às vezes. Apenas um indivíduo usufrui de transporte adaptado e três frequentam
regularmente o cabeleireiro. As pessoas com quem se relacionam com mais frequência são os
vizinhos em 87% e todos se relacionam com as ajudantes de acção directa do serviço de apoio
domiciliário.

Em suma neste grupo de pessoas idosas existem relações familiares privilegiadas que percor-
rem uma linha de género onde predomina o feminino em detrimento do masculino. Prevale-
cem os cuidados femininos sejam instrumentais, emocionais e informativos prestados pelas
esposas e filhas. Contudo verifica-se nalguns itens um conjunto de pessoas que presta apoio
enquanto grupo. Este pode ser constituído pelo esposo, pela filha pelo filho, pelos vizinhos.
Relativamente à integração social estes indivíduos frequentam preferencialmente o centro de
saúde e relacionam-se preferencialmente com os vizinhos.

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Os cuidados recebidos do serviço de apoio domiciliário
Relativamente aos cuidados prestados pelo serviço de apoio domiciliário verifica-se que na
sua maioria são os familiares 62,7%, que se dirigem ao SAD29 para solicitar cuidados para
as pessoas idosas a cargo, seguem-se os próprios indivíduos em 23,9% e o Serviço Social do
hospital e dos centros de saúde em 10,5%, por último os vizinhos e amigos com 3%. Cerca de
metade dos utilizadores 52% foi admitido no serviço por fragilidade social, associado a este
aspecto está a necessidade de apoio para as actividades da vida diária em 27,9% e necessidade
de apoio nas actividades instrumentais da vida diária em 22,1%; segue-se a indisponibilidade
familiar para prestar apoio ao utente em 42,6%, só em 5,9 % foram admitidos por situações
de abandono e isolamento social. Nenhum foi admitido por violência física e psíquica do cui-
dador familiar. A maior parte dos indivíduos são utilizadores destes serviços entre 3 a 5 anos
em 39,7% e entre 1 a 2 anos em 35,3%. Os restantes 23,9% usufruem dos serviços à menos de
um ano. Os serviços prestados são, predominantemente, a alimentação e a higiene pessoal. A
alimentação no domicílio é extensiva a 61,8% dos indivíduos, destes, 54,4% tem esse serviço
cinco vezes por semana e 7,4% tem esse apoio também aos fins-de-semana. São escassos os
que têm o serviço de acompanhamento na refeição. Dos 3 indivíduos em que isso acontece,
um têm apoio diariamente, um tem apoio duas vezes por semana e um tem apoio três vezes
por semana.

O apoio na higiene pessoal e tratamento de ferimentos é prestado a 44,1% dos indivíduos,


sendo este efectuado diariamente em 14,7% dos indivíduos, efectuado uma vez por semana
a 2,9% dos indivíduos, duas vezes por semana em 8,8% dos indivíduos, três vezes por semana
a 16,2% de quatro vezes por semana a 1,5%. Só um indivíduo é que tem apoio para mudar a
roupa de cama duas vezes por semana. Nenhum indivíduo tem apoio na adequação do do-
micílio à dependência, ajudas técnicas, adaptações no domicílio ou apoio na mobilidade em
casa. Nenhum indivíduo tem limpeza da casa e conforto da mesma, nem usufrui do serviço de
lavandaria, nem de apoio passar a ferro no domicílio. Assim como não usufruem de serviço de
cabeleireiro, nem manicura nem pedicura, assim apoio em compra e entregas no domicilio,
acompanhamento em saídas ao exterior, e ou apoio a escolher a ementa, apoio na gestão do
dinheiro, aconselhamento legal, apoio de serviços religiosos. Também não usufruem de apoio
psicossocial, nem participam em grupo de auto ajuda ao próprio e ao cuidador, não tem
terapia da fala nem ocupacional nem terapia com animais. Assim como não tem transporte
adaptado, nem apoio médico nem apoio na administração de medicamentos, nem cuidados
de enfermagem ou reabilitação física. Não participa em actividades de animação no exterior
nem o cuidador tem apoio em tempo de descanso ou formação para cuidar. Na verdade os
serviços de refeição e higiene são predominantemente prestados por profissionais denomina-
dos ajudantes de acção directa.

Relativamente à intervenção do Serviço Social no serviço de apoio domiciliário consideramos


o acolhimento, o acompanhamento e a avaliação do processo. Deste modo foi efectuado o
acolhimento a todos os indivíduos. O acolhimento foi efectuado em 89,7% através da visita
domiciliária e da elaboração do plano de cuidados. Para 8,8% foi efectuado exclusivamente a
visita domiciliária e para um indivíduo, além da visita domiciliária foi efectuado o acolhimento
na instituição e com frequência do centro de dia. O acompanhamento e supervisão dos cui-
dados é efectuado a todos os indivíduos e os procedimentos para este acompanhamento é

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preferencialmente a reunião semanal com as ajudantes de acção directa em 92,6% dos casos.
Em 4,4% a reunião com as ajudantes de acção directa completou-se com visitas domiciliárias
de acompanhamento e em 1,5% dos casos foi a reunião com as ajudantes de acção directa e a
revisão do plano de cuidados e igualmente em 1,5 % dos casos foi a reunião com o familiar e
reunião com as ajudantes de acção directa. Apesar do acompanhamento do processo implicar
avaliação, esta é efectuada só em alguns casos correspondendo a 20%. Os procedimentos de
avaliação para esses casos foram a integração dos utentes noutros serviços do centro, o reajus-
tamento do plano de cuidados e diligências para acesso a outros recursos da comunidade da
área de residência. Em suma verifica-se que a família é o principal actor na procura do serviço
para fazer face às situações de dependência. A maioria das pessoas usufrui de alimentação
e higiene pessoal há mais de uma ano. Os serviços prestados são essencialmente cuidados
básicos, e não são promovidos os serviços complementares e ou alternativos. A intervenção
do Serviço Social privilegia o acolhimento, o diagnóstico da situação problema do utilizador e
familiar, a elaboração de um plano de cuidados e o acompanhamento dos cuidados prestados
pelas ajudantes familiares. Este acompanhamento é efectuado preferencialmente através das
reuniões com as ajudantes de acção directa, não existindo um acompanhamento e avaliação
in locus de cada pessoa e familiar apoiado.

Para concluir

A política de cuidados domiciliários para as pessoas idosas tem tomado forma nestes últimos
cinco anos, decorrente da pressão demográfica, da mudança dos papéis familiares e também
da complexidade de situações de dependência e da pressão das orientações de política da
união europeia na política social em Portugal. Contudo apesar do investimento do estado e de
outras entidades da sociedade civil nesta área, com a lei dos cuidados continuados, a maioria
dos cuidados prestados aos idosos é efectuada por organizações sem fins lucrativos de carác-
ter religioso e ou filantrópico, com claro predomínio para a prestação de cuidados sociais.
Estas organizações estão incluídas no sistema de segurança social como entidades promotoras
dos princípios da universalidade, igualdade, solidariedade, equidade, diferenciação positiva,
subsidiariedade, inserção, coesão, complementaridade, unidade, descentralização, participa-
ção, eficácia entre outros com o Decreto de lei nº 4 de 2007 actual lei de bases da segurança
social, mas também orientam-se tanto por valores associados aos direitos sociais como valo-
res de filantropia e de solidariedade religiosa, prevalecendo estes últimos sobre os primeiros,
na maioria dos casos (Decreto de Lei nº 119 de 1983).

Estas instituições prestam serviços preferencialmente em situações de carência múltiplas e este


caso não é excepção. Se tivermos em conta o tipo de necessidades das populações visadas,
verificamos que as pessoas que recorrem aos serviços para solicitar apoio são na sua maioria
os familiares, por incapacidade de cuidar ou por indisponibilidade para o fazer. As pessoas
idosas que usufruem dos serviços manifestam índices de pobreza relativa sobretudo no que diz
respeito à baixa escolaridade ou à sua inexistência e a rendimentos, de pensão e ou reforma,
inferiores ao valor do ordenado mínimo nacional. Destas cerca de um quarto de pessoas que
vive só metade manifesta situações de dependência total e acentuada. Contudo se tivermos
em conta os serviços que recebem, conferimos em primeiro lugar, que apesar de serem os fa-
miliares que recorrem aos serviços estes não estão incluídos no plano de cuidados nem como

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cuidador nem como sujeito de cuidados. Em segundo lugar para a quase a totalidade das
pessoas idosas a maioria dos serviços que recebe é a refeição em casa seguindo-se os cuidados
com a higiene, predominado essa prestação a uma hora por dia da semana. Apesar de existi-
rem outros projectos e recursos noutras instituições parceiras, nenhuma pessoa idosa usufrui
de serviços complementares como ajudas técnicas ou cuidados continuados de saúde, por
exemplo.

Se a finalidade dos serviços de apoio no domicílio para as pessoas idosas é a prevenção da de-
pendência e a promoção da autonomia, atenuando e agindo em situações concretas de risco
social, verifica-se que estas se centram sobretudo nas actividades de subsistência incidindo nas
actividades de banho, vestir, comer, andar, e não tanto nas actividades instrumentais da vida
diária tais como sair de casa, usar o telefone, limpar a casa, e apoio psicossocial ao utilizador
e cuidador (Cf. Bonfim e Veiga, 1996; Despacho Normativo nº 62, 1999). Deste modo pode
considerar-se que os serviços prestados orientam-se para a sobrevivência das pessoas idosas
associada às necessidades básicas, a alimentação e a higiene e são homogéneos isto é os ser-
viços prestados são idênticos para os que têm família e para os que não têm. Pois parece que
as políticas de cuidados domiciliários não têm atenção, não só, a quem tem familiares mas a
quem não os têm. Significa que quem cuida de um familiar idoso não tem apoio para as suas
necessidades (autonomia) e as pessoas idosas sem familiares também não o tem.

Apesar de tudo pode considerar-se que estas instituições ao prestarem serviços de nível comu-
nitário e de proximidade têm um potencial acrescido na protecção das pessoas idosas, mas
este processo exige no mínimo o complemento de outros serviços, quer sociais quer de saúde,
tais como transporte adaptado, compras, cabeleireiro, suporte voluntário para companhia,
ajudas técnicas e adaptações no domicílio, apoio psicossocial ao utilizador e ao cuidador, as-
sim a integração dos serviços prestados numa rede de outras valências como o centro de dia e
de noite, residências assistidas e de reabilitação e lares com serviços para as pessoas idosas de-
pendentes e serviços de apoio para os familiares cuidadores. O Serviço Social poderia ter neste
processo um papel fundamental na diminuição do risco social substantivo neste grupo, mas
com a escassez de recursos humanos, quer em quantidade quer em qualidade, traduzida na
não diversidade de formações da equipa de prestação de cuidados, não favorece a promoção
de boas práticas neste domínio. Este facto aliado à adopção de um processo de intervenção,
sobretudo centrado na pessoa idosa e baseado no diagnóstico individual e não num proces-
so integrado de análise, planeamento, execução, avaliação continua e reflexiva, dificultam a
promoção da autonomia deste grupo, composto pelas pessoas idosas e pelos familiares com
idosos a cargo.

Bibliografia
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Notas
1 Doutoramento em Serviço Social.
2 Este questionário foi preenchido directamente pelo coordenador a partir da ficha do processo social.
3 A palavra desvantagem foi substituída pela OMS por “restrição da participação” OMS (2003).
4 A palavra cidadania decorre da noção de cidadão e está relacionada com o desenvolvimento e o exercício de
direitos cívicos, políticos e sociais, enquanto direitos humanos fundamentais. A cidadania pode ser definida
como a pertença a uma sociedade comum, mas esta pertença implica participação e escolha, constituindo uma
condição essencial para a satisfação das necessidades). Exercer a cidadania constituiu uma pré-condição para
a satisfação das necessidades humanas (Barbalet, 1989).
5 Concretizada pelas instituições judicial, legislativa e política.
6 Estamos a referir-nos às escalas de Katz; Criceton; Bartel; Easy Care, entre outros.
7 As actividades da vida diária incluem indicadores como a capacidade para efectuar a higiene pessoal, de se
vestir, ir à casa de banho, controlar os esfíncteres, alimentar-se, mover-se no interior e exterior do domicílio e
efectuar escolhas.
8 As actividades instrumentais da vida diária incluem indicadores como a capacidade de limpar e lavar a casa,
preparar refeições, gerir os medicamentos, manusear o dinheiro, utilizar o telefone, os transportes públicos e/
ou particulares e resolver assuntos administrativos.
9 Escala de medição da funcionalidade das pessoas idosas aceite internacionalmente que correlaciona os indica-
dores relativos às actividades da vida diária com os indicadores relativos às actividades instrumentais da vida
diária: 1- indivíduos confinados à cama ou cadeira com incapacidade reveladora de dependência total; 2 - res-
tringidor da actividade, como indivíduos semidependentes ainda com alguma capacidade motora revelador
de semidependência; 3 - sem incapacidade para a locomoção, revelador de independentes com ajuda; 4- sem
nenhum tipo de incapacidade, revelador de independência total.
10 O estudo foi efectuado em 12 países dessa organização: Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia,
França, Itália, Japão, Holanda, Suécia, Reino Unido e EUA.
11 As doenças, no caso dos idosos, ganham importâncias distintas consoante os países. As que prevalecem com
mais frequência em quase todos os países estudados são a hipertensão e a artrite (OCDE, 2007: 7).
12 Estas instituições são tuteladas a nível central, pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social e a nível regio-
nal são pelos Institutos da Segurança localizados nas capitais de distritos, contudo estes executam as directivas
centrais, não existindo autonomia administrativa a nível regional e também porque estas organizações têm uma
gestão autónoma
13 Para a prossecução deste projecto, agora de lei, foram efectuados protocolos entre os Ministérios do Trabalho
e da Segurança Social, da Saúde e as IPSS no sentido de potenciar e melhorar os recursos existentes.
14 As equipas efectuam a avaliação e encaminham os doentes para o domicílio ou para equipamentos como os
lares onde serão acompanhados no sentido da reabilitação, tratamento, ou se for o caso, cuidados paliativos.
15 Actividades da Vida Diária.
16 Actividades Instrumentais da Vida Diária.
17 O domicílio é a residência habitual da pessoa, a sua morada. Domiciliário refere-se a algo que acontece no
domicílio.
18 Estas organizações podem assumir formas diversas como centros sociais paroquiais, centros comunitários,
santas casas da misericórdia, fundações de solidariedade, mutualidades de solidariedade, cooperativas de soli-
dariedade entre outras.
19 A proporção é de 6 equipamentos da rede solidária por 1 equipamento da rede lucrativa
20 Instituições Particulares de Solidariedade Social – Decreto de Lei 119/1983 que define os seus estatutos.
21 Santa Casa da Misericórdia de Lisboa equiparada a Instituto Publico desde 1979
22 As excepções são Bragança, Castelo Banco, Coimbra, Évora, Guarda, Portalegre e Viseu.
23 No caso da distribuição espacial dos serviços de apoio domiciliário verifica-se que esta é maior na região centro,
seguindo-se a região norte e a região de Lisboa, respectivamente. Os distritos da Guarda, Braga e Lisboa são os
que têm maior número destes serviços. Contudo, o distrito com maior capacidade de atendimento domiciliário
é Lisboa, seguida do Porto. Ainda segundo a mesma fonte, as regiões que apresentam o menor número são o
Algarve e o Alentejo, existindo em 2004 um total de 2144 Serviços de Apoio domiciliário em Portugal Continen-
tal com uma capacidade para prestar apoio a 68.092 pessoas idosas.
24 A instituição estudada é uma IPSS, localiza-se na periferia de Lisboa na zona metropolitana. Surgiu no início da
década de oitenta (1980) por iniciativa da população local, ligada à igreja católica (movimento católico).

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25 ADSE – Sistema de Protecção dos funcionários do Estado
26 No segundo grau estão 5 indivíduos e no primeiro grau 6 indivíduos
27 A maioria reside em vivendas porque esta localidade tem vários bairros considerados clandestinos, onde as
próprias pessoas construíram as suas habitações, apesar de actualmente estarem em processo de requalificação
e legalização dos bairros.
28 Acidente Vascular Cerebral
29 Serviço de apoio domiciliário

Peer Review Process


Recepção artigo | 16 • Abril • 2009
Paper reception

Admissão artigo | 7 • Maio • 2009


Paper admission

Arbitragem anónima por pares | 9 • Maio • 2009 / 8 • Julho • 2009


Double blind peer review

Aceitação artigo para publicação | 30 • Setembro • 2009


Paper accepted for publication

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