Você está na página 1de 9

A Histeria masculina

Pierre Bruno

Espero fazer uma exposição simples, mas que estrutura, que entre a neurose histérica e a estrutura.
se inscreva numa pesquisa. Parece-me que é sempre Nesse mesmo texto, é um texto da última parte
necessário promover a pesquisa, no nível da da obra de Lacan, encontramos essa afirmação, sem
transmissão, no Campo Freudiano. nenhuma ambigüidade, ou seja, a histeria é uma
A questão da histeria masculina é, nesse neurose que diz respeito tanto às mulheres quanto
sentido, propícia, pois não é propriamente clássica. aos homens, ela se declina no masculino e no
Vou considerar duas partes: feminino.
De inicio, vou abordar as aquisições que temos Enfim, ainda nesse pequeno artigo, Lacan
sobre a questão da histeria masculina, e numa observa que, na histeria, a identificação se faz sobre
segunda parte, propor elementos de solução. Meu o desejo, quer dizer, sobre a falta tomada como
objetivo é fazer uma investigação que possa nos objeto. Podemos dizer que essa é uma tese
esclarecer sobre a direção da cura na histeria absolutamente freudiana, pois, em “Psicologia das
masculina, pois, parece-me que a direção da cura massas e análise do eu ", encontramos um exemplo
em um histérico homem é especialmente difícil. de identificação, onde a falta é tomada como objeto.
Partirei do primeiro ponto de observação de Quer dizer, uma identificação do tipo imaginário.
Lacan, que encontramos em 1973, em seu artigo Freud fala sobre uma jovem, em um colégio intemo,
“Introdução à edição Alemã dos Escritos Lacan que percebe que uma de suas colegas recebeu uma
diz que os tipos clínicos se destacam da estrutura. carta de seu namorado. Essa carta a deixa com
Podemos escrever, não sem variação, que há ciúmes, pois dava-lhe, sem dúvida, a impressão de
transm issão somente no discurso histérico. A que seu namorado se desligava dela. Então, reage a
observação de Lacan, de uma certa maneira, renova d a com uma crise histérica, etodas as colegas reagem
uma observação antiga de Freud, que não da mesma maneira. Quer dizer que elas se identificam
considerava a neurose obsessiva como uma língua à falta tomada como objeto.
própria, mas um dialeto da histeria. A histeria é a Podemos também citar o exemplo do sonho
única que pretende ser uma língua. Parece-me que da “bela açougueira”. Temos nele o paradigma do
Lacan diz algo no mesmo sentido, ao sublinhar que, desejo histérico e, sem dúvida, do desejo em geral.
no campo da neurose, temos um só discurso, o Ou seja, que o desejo é desejo de um desejo
discurso histérico; não existe discurso da neurose insatisfeito.
obsessiva. Isso quer dizer que é muito mais delicado Num segundo ponto, há, como podemos
estabelecer a ligação entre a neurose obsessiva e a chamar, uma casuística da histeria no homem. Em

PRPMC
Freud temos, de início, o caso do pintor Christoph aproximação da histeria com a figura de Akenaton,
Haizm ann, um artigo de 1923. No título, que conhecemos muito pouco, é o fato de que, com
encontramos a expressão neurose demoníaca, mas, Akenaton, verdadeiramente, iniciou-se a nova arte
no decorrer do artigo, Freud coloca, de maneira muito de figuração egípcia. Essa arte se caracterizou pela
clara, que se trata de uma histeria. femínização dos personagens masculinos, que eram
Temos também o artigo de 1928 sobre representados com mamas. Lacan, principalmente,
Dostoievsky, no qual da mesma maneira, Freud no final do Sem inário 18, aponta que há
sustenta que Dostoievsky era histérico. De minha evidentemente, aí, uma aproximação com o caso de
parte, direi que devemos considerar esses dois casos Haizmann de que falei há pouco. Haizmann também,
como fazendo parte dos paradigmas clínicos de Freud o comenta longamente, representou o diabo
Freud, ao lado de Dora, do Homem dos ratos, etc com mamas
Isso quer dizer que há uma clínica da histeria Em seguida, evidentemente, temos Sócrates,
masculina, em Freud, mesmo se não levarmos em que para Lacan, era, ao mesmo tempo, um histérico
consideração os textos, ditos, de sua juventude. e um mestre. Temos Hegel, bem entendido, o mais
Refiro-me ao primeiro caso clínico que Freud sublime dos histéricos. Não posso continuar, pois,
abordou, foi apresentado em 1885, e tratava-se de não haveria tempo, mas poderíamos fazer o retrato
um caso de histeria traumática de um homem, desses homens, seria algo apaixonante.
fazendo um breve resumo, chamado Auguste Paíx. Enfim, temos Lacan, ele próprio se
Certam ente, no caso de Haizm ann e no de autodiagnosticou como um histérico perfeito. Um
Dostoievsky, não se trata do relato de uma cura histérico perfeito, quer dizer, um histérico sem
analítica, pois, o elemento da transferência não se sintoma. Estou bem de acordo com este diagnóstico!
encontra nessas análises. Mas isso não é razão Há uma certa quantidade de comentários de
suficiente para excluí-los da clínica freudiana. Lacan sobre a existência de uma dimensão histérica
De Lacan, também, temos uma série a respeito em Hamlet, bem como da dimensão histérica em um
da histeria m asculina. Prim eiram ente, seu dos heróis de “D espertar da p rim a vera ” de
comentário, no Seminário 3. de um caso de histeria Wedekind, o personagem que se chama Moritz.
traumática em um homem, tratada psicanalitícamente Evidentemente, como se trata de personagens de
pelo analista húngaro Haisler. Podemos discutir o ficção, Lacan diz que são histéricos e obsessivos, ou
diagnóstico, mas, parece-me que podemos mclui-lo mesmo podem apresentar uma estrutura psicótica,
no de histeria. Há tambem o famoso caso que Lacan talvez, perversa, pois se trata de personagens de
comenta nos Escritos, “O homem dos miolos ficção.
frescos” que foi, como sabem, inicialmente, um Terceiro ponto: para julgar uma histeria, ou
analisante de Berge e, em seguida, de Emest Kns para julgar em geral o que Lacan chama de forma de
Há ainda vários comentános de Lacan sobre assujeitamento - é um termo que prefiro ao de
as figuras históricas de homens que ele considera estrutura - é preciso tomar, como critério, não os
histéricos. Cronologicamente: Akenaton, o marido sintomas, mas o fantasma. O que permite dizer que
de Nefertite e o pai de Tutankamon. Ele introduziu a um homem é histérico e não obsessivo, não é tomar
religião monoteísta no Egito, segundo Freud, em em consideração os sintom as, é tom ar em
“M oisés e o m onoteísm o”. O que autoriza a consideração o fantasma. Isso quer dizer que, na cura
analítica, o diagnóstico pode não ser descoberto Como quarto ponto, falo, agora, sobre a
rapidamente, pois, a forma do fantasma é menos escolha de Dostoievsky. É um texto de 1928, e nele
imediatamente legível que a do sintoma. Parece-me encontramos a análise magistral do sintoma de
que essa é uma tese essencial em Lacan - a epilepsia. Vocês sabem, certamente, que Dostoievsky
necessidade de se julgar a partir do fantasma. Com era acometido de graves crises de epilepsia A
efeito, prender-se ao fato de que o real que há no primeira, parece-me, se desencadeou após a morte
sintoma, quer dizer, a parte de gozo que não é de seu pai, quando ele viu passar o enterro. Então,
decifrável, só pode ser abordado no nivel do Freud não nega que haja um fundamento orgânico
fantasma; esse fantasma que deve ser desmontado na chamada reação epiléptica. Ele considera,
ao final da análise. Podemos considerar que a análise somente, que, no caso de Dostoievsky, essa reação
é a única capaz de obter essa desmontagem do epiléptica se somou à disposição histérica para
fantasma. Se queremos julgar a histena, no nível do formar um sintoma. Este sintoma é o ataque
fantasma, é preciso confiar na fónnula do fantasma epiléptico, enquanto ele possui uma significação.
histérico, tal como a encontramos no Seminário sobre Qual éa significação desses sintomas? Freud propõe
a Transferência. Nesse Seminário, Lacan distingue uma análise em dois níveis.
a fórmula do fantasma histérico da fórmula do No primeiro, esse sintoma significa, cito
fantasma obsessivo. Freud, uma identificação com um morto: uma pessoa
A fórmula é a seguinte efetivamente morta ou uma ainda viva, mas que se
a?-tp o A deseja a morte. O segundo caso é o de Dostoievsky,
Nessa fórmula, como Lacan define o a ? Ele pois, Freud considera que, antes mesmo do
o define como sendo o objeto não da causa de desejo, aparecimento das crises epilépticas, houve, desde a
mas como o objeto do desejo que vem substituir a mais tenra idade de Dostoievsky, ataques que tinham
castração do falo imaginário, quer dizer, ele vem a mesma significação que os sintomas de epilepsia.
substituir - cp. No caso de Dostoievsky, o sintoma, diz Freud, é uma
Pode-se dizer que essa fórmula vai de encontro autopunição pelo desejo de morte contra o pai odiado.
ao que Lacan dirá quinze anos depois, no texto que Portanto, temos uma significação dependente do que
citei anteriormente: a identificação histérica se faz se pode chamar - do que Freud chama - o complexo
sobre a falta, a saber, se faz sobre - cp, sobre a falta de Édipo positivo. Quer dizer, o ódio do menino
tomada como objeto, quer dizer a O que isso quer contra o pai e o amor pela mãe. Mas Freud não se
dizer? Quer dizer que, tomando como objeto do desejo mantém aí.
uma falta, o histérico mascara a radicalidade dessa Num segundo nível, que nos interessa mais,
falta, que permanece escondida - segundo uma ele demonstra que toda tentativa de eliminar o pai
expressão de Lacan- sobre a escolha de objeto que como rival, implica como medida de retorsão, a
ele faz. Por que ela mascara a radicalidade da falta0 castração pelo pai. O menino, para evitar essa
Porque deixa crer que se ela atenuou o objeto de seu retorsão, evitar a castração pelo pai, vai se dirigir à
desejo, quer dizer a, ele poderia mascarar, poderia feminilidade. Quer dizer, vai se identificar com a mãe
preencher essa falta. Assim da não seria irremediável e tom ar o pai como objeto de amor Isso é,
e irreversível. Isso explica que, na parte direita da evidentemente, o que Freud denomina o Édipo
fórmula, nós tenhamos a manutenção de A . negativo ou Édipo invertido. Assinalo que, no texto

-t/in c o n m /*'
sobre Schreber, Lacan afirma que a psicanálise ainda O recalque do ódio pelo pai obedece a dois
não tirou partido da descoberta freudiana do Édipo fatores. O pnmeiro, deve-se à angústia diante da
invertido. Devemos, aliás, considerar que a tese de ameaça de tê-lo como rival. E, o segundo fator e a
Freud, tal como a encontramos no “O ego e o id ”, é angústia diante da posição feminina. Enumero essas
que o complexo de Édipo não pode ser considerado duas angústias. A primeira, é a angústia diante da
como completo se não levarmos em conta o Édipo ameaça de castração que vem do pai como nval, ou
negativo e o Édipo positivo. Essa tese de Freud não seja, que vem no momento em que o menino deve
é verdadeiramente explorada pela psicanálise. ocupar uma posição masculina. A segunda, é a
Então, o que se passa quando o menino, para angústia diante da feminização, implicada pela
evitar ser o rival do pai, o toma como objeto de amor? escolha de objeto, a escolha do pai como objeto de
Bem, ele vai ocupar uma posição feminina. Podemos amor.
dizer que a grande descoberta de Freud, neste artigo D esse modo, proponho uma fórm ula
de 1928, é que essa posição também implica ser relativamente simples no que diz respeito à histeria
castrado pelo pai. Quer dizer, se ele quer ser o objeto masculina. A fórmula não considera somente o
de amor do pai, isso fará também com que ele sintoma, mas toca também o fantasma, como já
consinta com a castração. vimos acerca da histeria. Bem, a fórmula é que, num
No Seminário 6, que é consagrado em parte a caso de histeria masculina, a angústia da feminização
Hamlet, Lacan retoma e desenvolve essa análise, que toma a frente.
Freud fez em 1928. Lacan explica que o sujeito A formula é a seguinte: no caso da histeria, a
masculino, ao querer evitar a castração, recusando angústia, no homem, diante da feminização é
ser o rival do pai, vai encontrar novamente a preponderante em relação à angústia frente a ameaça
castração ao querer ser o objeto de amor do pai. de castração do pai como rival.
Qualquer que seja a escolha, qualquer que seja sua 2> 1
escolha de sexuação, vai encontrar a castração. A Isso não muda a significação do sintoma, mas
partir disso, Freud diz, em seu artigo sobre muda o assentamento fantasmático do sintoma, pois,
Dostoievsky, que a castração é assustadora, tanto este assaito inclui a dimensão do Édipo positivo, e
como punição, quanto como preço do amor. Dito de também a dimensão do Édipo invertido. Podemos,
outra maneira, a angústia de castração que tinha sido para esclarecer a análise que Freud faz de
evitada pela escolha de ser o objeto de amor do pai, Dostoievsky, considerar que o sintoma de epilepsia,
vai ressurgir quando da escolha do pai como objeto em uma mulher histérica, se analisa da mesma
de amor, pois ela implica a castração. Ai está, maneira. Vou me referir a uma vinheta clínica que
verdadeiramente, o cerne da histeria masculina. Freud foi extraída de minha experiência analitica. Trata-se
nos explica que esta é uma situação de impasse. Se de uma mulher que, efetivamente, sofre de graves
ele escolhe a posição masculina, o pai vai puní-to crises de epilepsia e, repentinamente, faz ligação entre
com a castração, se escolhe a posição feminina, isto a apanção de sua pnmeira cnse e o fato de que a
implica também a castração. Eis, pois, a situação de mulher de seu tio. sua tia pelo casamento, ficou
impasse. Nela, a recusa do ódio pelo pai. não obedece gravida Essa tia e a mulher de seu tio patemo, ou
a um só fator, ou seja, a angustia diante da ameaça seja. a mulher do irmão do pai. Vocês vêem que
da castração quando retoma o lugar do pai temos, aí a dimensão do Édipo positivo na mulher.

EBP Mr,
Então, num segundo tempo, ela comete um erro de o lugar de pai. Encontramos, na clínica da histeria,
data no relato que retoma essa cronologia do tanto na clínica do homem quanto na da mulher, a
aparecimento das crises epilépticas. O erro de data manifestação massiva desses efeitos de uma relação
consiste em substituir o mês, no qual ela ficou defeituosa com a identificação simbólica. O que
sabendo da gravidez de sua tia, pelo de seu próprio podemos resumir com a fórmula: a transmissão do
nascimento. Ela interpreta esse erro de data como falo se dá de maneira muito difícil. Podemos observar
um desejo, até inconsciente, de substituir seu pai pelo nisto que chamamos os efeitos terapêuticos da
seu tio, ou seja, de não ser filha de seu pai, mas sim, psicanálise, algumas mutações bem extraordinánas
filha de seu tio. Podemos dizer que, nesse caso, que são ligadas, simplesmente, à emergência dessa
também, não se trata mais do Édipo positivo, mas identificação simbólica. Por exemplo, me lembro de
estamos diante é da questão do parricídio. Uma coisa, um caso, que me foi relatado por um colega, de uma
importante nessa mulher, é criticar o seu pai, que ela mulher que sofria de inibições absolutamente
acha muito severo. Ela faz isso sem que o sintoma dramáticas, uma mulher, podemos dizer, que tinha
epiléptico tenha começado. Outra coisa é substituir medo de tudo, a ponto de se prejudicar na sua vida e
seu pai como objeto de amor por um outro homem. que, após um tempo bem curto de análise, tirou seu
Essa substituição, que ela não ousa sustentar, é o brevet de pilotagem e tomou-se piloto de provas,
que se traduz pelo sintoma epiléptico. Dizendo de nesse caso, como seu avô.
outra maneira, ela recua frente ao fato de assumir o Sexto ponto: Na histeria masculina, há um
parricídio. Encontramo-nos aqui, frente à questão, traço clínico que me parece decisivo, pois condensa
que é central na histeria, tanto do lado do homem esse recuo, do qual eu falava há pouco, diante do
quanto do lado da mulher, a saber, a dificuldade de parricídio. Karl Abraham foi o primeiro a isolar esse
colocação de uma identificação simbólica, à medida traço em seus trabalhos sobre a neurose de guerra.
que essa identificação simbólica implica em que o Ele constata que existe uma certa correlação entre o
pai esteja morto, esteja simbolicamente morto, soldado que sofre de uma neurose traumática e a
implica no parricídio, portanto, e implica também estrutura histérica. E, em relação a esses homens
em que esse parricídio tendo sido aceito, o luto do que ele considera histéricos, ele faz uma pequena
objeto começa. Lembro, aqui, a fórmula do fantasma nota, muito preciosa e atual, a saber: esses homens
histérico. recuam não é diante do fato de morrer, mas diante
a/-(p <> A do fato de matar. Eu lembro a vocês que Lacan
Nessa fórmula, o -cp está escondido, o -cp está explica, dessa maneira,por um recuo diante do
escondido sob o objeto do desejo a, e devido a esse parricídio, a conduta de Hamlet frente a Claudius.
mascaramento, a relação ao falo não imaginário, mas Por que Hamlet coloca, em cena, vários atos antes
ao falo simbólico, que depende dessa relação a -<p é, de se decidir a matar Claudius? Porque há nele um
desta maneira, parasitado devido a uma recusa recuo histérico diante do parricídio. Sobre esse ponto
neurótica, seja de ser filha de, seja de ser filho de . posso trazer uma vinheta clínica de um histérico
Para a mulher, se ela venceu sua recusa neurótica, homem, que confirma a pertinência desse traço
ela poderia aceitar que o marido substitua o pai. E levantado por Abraham. Trata-se de um homem
para o rapaz implica simplesmente, em aceitar ocupar histérico que foi enganado por sua mulher . Mas o

142 EBPMCy
amante dela, parece, estava cansado. Tanto_que a tem razão
mulher desse homem histérico ameaça fazer um 2 °: Na formação do sintoma, como já disse, o
escândalo no local de trabalho de seu amante, que foi decisivo e isso eu ainda não havia dito, foram
escândalo que poderia comprometer o trabalho, o os resultados dos exames radiográficos que
emprego desse amante. Qual a conduta desse provavam que ele não tinha nada. A partir dai, tanto
homem? Não é uma caso clínico meu, é um caso que para Haisler como para Lacan, vai se desenvolver o
me foi relatado - qual é a conduta desse homem, que sintoma de uma dor irradiante, que evoca, na
sem nenhuma hesitação, assinala a histeria? Ele vai variedade e na diversidade de suas manifestações
fazer de tudo, inclusive, intervir junto ao amante e dolorosas, incontestavelmente, a fantasia de uma
junto à mulher para que o escândalo não aconteça. gravidez. Encontramos, aqui, a fantasia de gravidez
Chegamos, agora, ao que lhes falei, há pouco, que está presente no caso do pintor Christoph
sobre o comentário, que Lacan faz no Seminário III Haizmann, descrito por Freud, em seu artigo sobre
- As Psicoses, sobre o artigo do húngaro Haisler. É a neurose diabólica. Para Lacan, trata-se de, por
um artigo de 1920, um relatório da cura de um intermédio dessa fantasia, apresentar de alguma
homem histérico com o título: “(3 fa n ta sm a forma, a questão sobre a posição sexual do sujeito,
inconsciente de gravidez em um homem sob o a saber, se sou homem ou mulher, na sua relação
aspecto de uma histeria traumática". Esse homem simbólica com o Outro. Trata-se, aqui, como o
é um condutor de metrô, que, há 30 anos atrás, foi indiquei, há pouco, da relação do sujeito com o falo
vitima de um acidente relativamente benigno. Mas, simbólico.
curiosamente, ele cai do seu metrô e, na seqüência 3o: Lacan observa que o paciente coloca a
desse traumatismo, que não deixou nenhuma seqüela questão do sexo do lado feminino, do lado do Edipo
física, ele apresentou uma série de sintomas invertido, diria Freud. Isso é alguma coisa de
histéricos, principalmente sob a forma de uma dor constante na histeria masculina, eu o recordei há
irradiante no nível da primeira costela. Os exames instantes, no caso de Haizmann, mas poderíamos
logo demonstram que esta dor não tem nenhum também demonstrá-lo a propósito de Dostoievsky, o
fundamento orgânico ou físico. Estamos na Hungria que prova, aos olhos de Lacan, que esse sujeito coloca
em 1920. A psicanálise conhece sua hora de a questão de sua sexuação do lado feminino. E que
resplandecência, sua idade de ouro, portanto, o ele relatou, em seu tratamento, um fato, que o marcou
paciente é encaminhado a um psicanalista, e nós de forma considerável, a saber a lembrança do parto
achamos o relatório dessa cura, que é bem extenso, de uma vizinha, que, aliás, terminou de maneira
e, desse relatóno Lacan vai assinalar três pontos, no trágica pela morte da criança. Da mesma forma, o
Seminário das Psicoses: paciente relata o que o seu médico havia dito: eu não
1 °: Um dia, durante sua sessão, o paciente se consigo me dar conta do que você tem, me parece
levanta bruscamente do divã e cai de barriga, com que se você fosse uma mulher eu o compreenderia
as pernas dependuradas e abertas, evidentemente bem melhor.
Haisler interpreta esse acontecimento como uma Considerando esses três pontos, acreditamos
atitude de homossexualidade passiva em relação ao que Lacan não faz a mesma análise que Haisler. De
pai, e Lacan sublinha que, nesse este ponto, Haisler fato, eu não posso trazer aqui toda a riqueza dessa
cura, mais Haisler focaliza em seu relatório sobre as propósito desse paciente de Haisler, Lacan vai
preocupações anais do sujeito. E principalmente, ele estabelecer um paralelo com Dora. Ele diz que, como
interpreta, nesse sentido, um grande sonho do sujeito Dora, esse sujeito se interroga sobre a sexuação,
onde ele se questiona muito sobre os excrementos. começando por se perguntar o que é uma mulher,
Mas, Lacan observa que, nesse sonho, há um pequeno mas, em definitivo, o que está no fundo é a questão
elemento que escapa completamente à perspicácia da integração da função paterna, ou seja, o
de Haisler. E que o paciente se pergunta se nos posicionamento do sujeito em relação à transmissão
excrementos que são produzidos depois de termos do falo, enquanto ela comanda a sexuação.
comido frutas - as sementes, que encontramos nos Eu deveria, é um condicional, abordar agora
excrementos - ele se pergunta se, uma vez plantadas, a segunda parte, o que eu chamo de elementos de
essas sementes produziriam árvores. Evidentemente, solução. Mas sou razoável. Portanto, vou,
Lacan conclui que a questão do paciente não é tanto simplesmente, indicar alguns pontos dessa segunda
anal, é, verdadeiramente, a questão: sou homem ou parte e nós poderemos aproveitar a discussão para
sou mulher? Sou capaz de p rocriar e, mais desenvolvê-los. Eu havia reconhecido quatro pontos.
fundamentalmente, trata-se, para o sujeito, de saber O pnmeiro é uma questão que colocamos de tempos
se ele pode exercer a função paterna. Observa-se, em tempos: será que poderíamos traçar o perfil
aliás, que esse sujeito, em questão, casou-se com uma psicanalitico típico do pai do histérico, de tal forma
mulher que já tinha um filho, que, sem dúvida, foi que pudéssemos dizer tal pai, tal filho? O pai de
um elemento muito importante para sua escolha, pois, Dostoievsky, como sabemos, é um crápula, logo, o
suas relações sexuais com essa mulher não eram, filho será histérico. Mesmo se ficamos tentados a
nem um pouco, formidáveis. Encontramos aí, mais proceder dessa maneira, não é a isso que a psicanálise
uma vez, o que pode ser considerado o coração da nos convida, por uma razão muito simples, o sujeito
histeria tanto do lado masculino quanto do lado não é um efeito de sua determinação. Há uma
feminino. E o que Lacan chama, eu cito, “o caráter determinação do sujeito, certamente, mas ele
problemático da sua identificação simbólica ” . responde um pouco de lado dessa determinação. Não
Para resumir, podemos examinar a questão há como deduzir o histérico de um certo tipo de pai.
da histeria, no homem, em relação à seqüência, à Segundo ponto, as referências clínicas que
posição quanto ao parricídio. A posição em relação poderíamos recolher a partir da figura do pai do
ao luto do pai, uma vez que o parricídio foi realizado, histérico masculino não devem, forçosamente, ser
enfim à identificação simbólica ao objeto perdido, rejeitadas. Uma vez que tomamos posição decisiva
exatamente no momento em que o luto pôde começar. em relação ao primeiro ponto, não podemos evitar a
Na histeria masculina, é o próprio processo dessa questão, por que a escolha da histena e não a da
seqüência que está em questão. Lacan observa, a neurose obsessiva em um homem? Por exemplo, no
propósito de Hamlet que, para que o luto possa caso do pequeno Hans, Freud coloca que, num
começar, ou seja,para que a identificação simbólica determinado momento, houve a escolha entre a
possa ter lugar, é necessário que o pai tenha se perversão e a neurose. Lacan explica que, no caso
constituído como objeto. E a tese de Lacan é que o de Joyce, houve também esse momento, a escolha
pai é constituído como objeto no parricídio. A entre a perversão epsicose. Logo, não é uma questão

■4 Á A PRP M C
ilegítima no domínio da psicanálise. Por essa razão, o pai real e o pai simbólico. Para retornar às
vou dar um elemento de resposta. É que, na histeria indicações clínicas, nas quais falei a respeito do pai
no homem, nós temos, o que eu sustentei, há pouco, do histérico masculino, parece-me poder extrair da
uma subordinação da angústia de castração ligada experiência, que o pai do histérico homem é alguém
ao medo do pai como rival; é o que eu escrevi na que não tem conflito com sua virilidade. Quer dizer
fórmula que ele faz, verdadeiramente, a coisa como pai real,
2> 1 como agente da castração. Por outro lado, é um pai
E o que é preponderante em relação à outra, que parece maios dotado para se fazer suporte da
ou seja, a angústia de castração, ligada ao medo do lei, à qual ele próprio está submetido. Dizendo de
pai como rival, está subordinada à angústia de outro modo, me parece poder observar, no que diz
castração, ligada à escolha do pai, como objeto de respeito ao pai do histérico, que, em seu caso, há
amor, que implica a feminização e também a uma preponderância do pai real sobre o pai
castração. A partir daí, pode-se explicar porque, ao simbólico. Essas não são questões estranhas a Lacan.
nivel do fantasma, ou seja dessa encenação da Por exemplo, quando ele fala do pai do pequeno
castração, nós vamos poder encontrar no histérico Hans, o que ele diz ? Que é um pai muito simbólico.
homem a fantasia de gravidez. Por outro lado, E um pai que tem, de certo modo, medo de não ser
podemos considerar a fórmula inversa, a saber: 1 é simbólico, que quer fazer crer a seu filho que não
preponderante em relação ao 2 goza jamais. Isso tem conseqüências sobre o pequeno
1 >2 Hans e, portanto, parece-me que podemos nos
A idéia que lhes proponho para colocar à interrogar, da mesma forma, a respeito do pai do
prova é a de que essa segunda fórm ula, 1 é homem histérico e fazer uma observação, a partir da
preponderante em relação a 2, é encontrada na clínica, da qual dispomos: há uma preponderância
neurose obsessiva. do pai real sobre o pai simbólico.
Terceiro ponto: Parece-me que essa hipótese PR > PS
demonstra, efetivamente, a natureza diferente do Portanto, a questão com a qual termino é saber
fantasma na histeria e na neurose obsessiva no se há uma articulação entre esta fórmula, PR > PS e
homem. A saber que, por exemplo, no “Homem dos esta outra 2 > 1, que expliquei há pouco.
ratos ” pode-se apreender a fantasia, na caia em que
ele se coloca diante do espelho e se convoca a olhar
Transcrição e Tradução: Ludmilla Féres Faria
o pai morto. Temos aí uma fantasia tipicamente
Maria José Gontijo Salum
obsessiva. Por outro lado, no caso da histena no
Revisão: Rosângela Ramos Corgozinho
homem, temos um fantasma que coloca em cena, não
a potência do filho diante do pai morto, mas a
fem inização do filho em relação ao pai. E Nota: “Os enigmas do masculino” e “Histeria
extremamente claro, tanto no caso de Haizmann masculina” fazem parte da série de três conferências
como no de Haisler comentado por Lacan. realizadas por Pierre Bruno, durante a 2a Jornada da
Q uarto ponto: Parece-m e que essa Escola Brasileira de Psicanálise-Minas Gerais. A terceira
diferenciação pode ser articulada na distinção entre conferência está publicada no Curinga n° 8: “O homem
e o declínio do viril".

Você também pode gostar