Você está na página 1de 4

INTRODUÇÃO A ORIGEM DE SATANÁS

Convém que façamos aqui uma reflexão sobre este personagem presente nos dois primeiros capítulos de Jó.

Satanás ( Satã em hebraico) tem sua origem nos tribunais que se reuniam nas portas das aldeias. A palavra significa
“promotor”, ou seja, aquele membro do tribunal encarregado de acusar o réu. Posteriormente passou a significar adversário,
acusador, inimigo. É nesse sentido que ele aparece diante de Deus para acusar a Jó e fazer-lhe mal. Sua figura é semelhante à
de um promotor público ou à de um procurador na corte de Deus.

Desde as origens de Israel até o exílio babilônico, a teologia israelita não era dualista, isto é, que atribuía o bem a Deus e o mal
ao demônio. Pra Israel, tudo vinha de Deus, tanto o bem quanto o mal. A doutrina da retribuição o confirma. Is. 45,7 a Am 3,6 .
Aos poucos, porém, Israel vai incorporando em sua teologia crença de outros povos. É o caso do dualismo persa, para quem os
males vinham dos demônios e as coisas boas procediam das divindades.

O dualismo entrou em Israel e também em todo o Antigo Oriente de cultura semita a partir da dominação persa, quando
foi amplamente difundida a crença dos persa em demônios. A cultura grega e todas as culturas indo européias sempre foram
dualistas. Na Pérsia, havia uma demonologia bem desenvolvida. Segundo essa crença, todos malefícios, desde males psíquicos
e mentais até as doenças, as tentações e as desgraças, eram atribuídos a demônios. Era uma infinidades de demônios ou
espíritos maus. Acreditava-se, inclusive, que havia um que era o chefe desse exército demoníaco. Este chefe era uma figura
suprema do mal como a divindade suprema persa, Ahura Mazda, era a figura suprema do bem.

Um exemplo que deixa bem claro que a crença em demônios em Israel foi introduzida tardiamente é o relato a respeito
do recenseamento feito pelo rei Davi. 2Sm 24,1, um texto mais antigo, diz que foi YHWH quem mandou que o fizesse censo.
Quando a mesma história foi escrita novamente na obra historiográfica cronista, durante o século 4 a.e.C , o censo, considerado
pelo povo um mal que visava a tributação, foi atribuído a uma ordem de Satanás(1Cr 21,1). Desse modo, YHWH foi substituído
por Satanás.

Adotar essas categorias dualistas ajudava Israel a resolver contradições contidas em sua maneira de conceder e
formular a fé. Como compreender que Deus pudesse ser, ao mesmo tempo, o princípio do bem e do mal? Ficava mais fácil
imaginar que a responsabilidade pelo mal era de outro principio, “adversário” de Deus, embora, no final das contas, submetido a
seu poder e a seus propósitos de salvação.

A primeira vez que aparecerem referências a Satanás como sinônimo de demônio no primeiro testamento é em textos
da época de dominação persa em Judá. É o que se pode conferir , além de 1Cr 21,1 e Jó 1-2. Em Lv 16,8ss, o nome de um dos
demônios do deserto é Azazel.

Em textos antigos, satanás é traduzido simplesmente por adversário, traidor ou inimigo. (1Sm 29,4; 1Rs 11,23)

Isso se deve à mudança do conceito de mal. Os deportados tiveram contato com as cortes babilônicas e persas, bem
como sua religião em que as divindades são sempre mais elevadas para cima, para os céus, para longe das pessoas. Quanto
mais alto ficavam as divindades, tanto mais poderosas elas eram. Aqui na terra, tanto mais pequeninas também eram
consideradas as pessoas diante de tanto poder divino. Daí a necessidade de anjos para servirem de intermediários entre o
distante Deus e a humanidade. Essa imagem de Deus também influenciou os judeus repatriados, passando a conceber YHWH
como aquele que é uma presença libertadora em meio aos pobres, ao polemizar com os que defendiam um Deus que mora
somente em lugares sublimes ou altos. (Is 57,15)

É interessante notar que a crença dualista dos persas e a fé em YHWH, como origem tanto da bênção quanto da
maldição, conviviam em Israel desde o exílio. O dogma da retribuição continuava e, ao mesmo tempo, ia-se assimilando
elementos da crença persa em espírito bons ou anjos e em espíritos maus ou demônios. No livro de Jó, as duas crenças estão
claramente presentes. Em Jó 1-2, aparece Satanás como causador dos males. Para os “amigos” de Jó, todo seu sofrimento era
considerado como castigo de Deus.

Por outro lado, Jô questiona essa teologia dos representantes da doutrina oficial defendida pelos sacerdotes do 2º
templo. Sua experiência de Deus e sua vida justa o levam a concluir que não pode ser de Deus que vêm os males sobre ele.
Nem tampouco o atribui a demônios. É o caso da pobreza. Jó vê na exploração a causa principal da pobreza, como se ler em
24,1-12. Jó faz uma nova experiência de Deus, diferente tanto da teologia israelita da retribuição quanto da demonologia persa.
Em Israel, a demonologia somente teve um forte desenvolvimento com a opressão dos gregos a partir de 332 a.C., época do
advento da apocalíptica entre os judeus.

O Helenismo e a crença em demônios

A idéia de Platão (429 – 347 a.C ) a respeito dos demônios é a base da crença dos gregos nessas entidades. Entre os principais
aspectos da crença em demônios no mundo grego, destacamos os seguintes:

* Tinham a idéia de que, entre o mundo das pessoas e o Olimpo, o monte das divindades, havia um asérie de demônios
exercendo a função de guardiões dos templos.

* Acreditavam que o mundo estava também cheio de demônios.

* Achavam que os demônios como seres intermediários entre as divindades e as pessoas.

* Tanto podiam ser bons como maus. Enquanto os bons serviam como guardas das pessoas, os malignos causavam pestes,
guerras, desordem , etc.

* Pensavam que eram imortais como as divindades, de um lado, e, de outro, sujeitos as paixões como a humanidade.

* Sua habitação natural seria o ar.

* Julgavam que os demônios tinham influência sobre as pessoas, por isso elas precisavam recorrer à magia e a bruxaria para
agrada-la ou neutralizar seus ataques.

* Por fim, criam que a alma de quem morria podia vir a ser um demônio.

Essas crenças dos gregos influenciaram também a concepção judaica a respeito dos demônios nos dois séculos que
antecederam o movimento de Jesus de Nazaré.

Especialmente a partir da época altamente conflitiva dos Selêucidas, que veremos logo adiante, os judeus piedosos
passaram a interpretar, cada vez mais, a realidade como uma grande batalha cósmica.

De um lado, estava guerreando Deus com seus anjos, isto é, os judeus que lhe haviam ficado fiéis. De outro, guerreava
Satanás com seus anjos, isto é, os exércitos dos selêucidas e os judeus que aderiram ao Helenismo.

É importante destacar que, para os judeus piedosos, a figura de Satanás foi cada vez sendo mais personificada. Sua
ação acontece nas pessoas inimigas dos fiéis judeus. Ainda mais q eu os governantes gregos diziam que eram descendentes
das divindades, da sua união com mulheres humanas. Não é difícil entender que os judeus fiéis também demonizassem as
classes altas dos judeus, bem como os sumos sacerdotes, responsáveis pela intermediação entre Deus e o povo, quando estes
promoveram a helenização do judaísmo.

Não será por acaso que Jesus verá nos escribas, representantes da ideologia da sinagoga e do templo (cf. Mc 3,22-30),
a ação dos demônios que precisam ser “amarrados “ , tal como fez o anjo Rafael com o Asmodeu no Livro de Tobias. Jesus
verá na dominação romana a ação demoníaca que precisa ser afogada no mar, tal como já acontecera com Faraó e seus
exércitos junto ao Mar dos juncos (Ex 14,15-31(

É provável que na adesão de judeus so modo de vida dos gregos, esteja a origem do mito dos anjos decaídos como se
pode ler no primeiro livro apócrifo de Enoque.
Anjos e Demônios dentro do Judaísmo
O assunto de anjos consta claramente na Torá e no Tanach em várias ocasiões e nossos Sábios
falam de anjos como um fenômeno normal da vida. Os anjos são seres espirituais, compostos
de apenas dois (fogo e ar) dos quatro elementos básicos (fogo, água, ar e terra), em contraste
dos seres físicos que são compostos pelos quatro.

Existem dois tipos de anjos:

1. Os criados por D'us, que se subdividem em 10 grupos (ou hierarquias, para usar seus termos).
Estes anjos são eternos. Maimônides escreve sobre este assunto, dando o nome de cada
grupo. Os anjos são os "ministros" do Rei, (como os chamamos na canção de sexta-feira à
noite na entrada do Shabat - anjos ministrantes).

Os anjos têm cada um sua missão particular e, de fato, o nome anjo em hebraico (mal'ach)
significa mensageiro. Por exemplo, existem os anjos protetores de cada povo, cuja missão é
defender seu povo contra quaisquer acusações no Tribunal Celestial, etc. Existem anjos
encarregados sobre cada parte da Natureza, como sobre a Terra, o Mar e o Deserto. E outras
categorias. D'us criou estes anjos com inteligência superior e eles reconhecem que são apenas
mensageiros, sem poderes autônomos. Cada um conhece seu lugar e não se "empurra" para
ocupar um "espaço" melhor ou mais elevado. Estes anjos podem ser tanto anjos "bons" como
"ruins", pois na verdade bom ou mau está na concepção humana - os anjos em si apenas
obedecem as ordens que lhes são delegadas - às vezes para trazer uma recompensa e outras
para uma conseqüência.

2. O segundo tipo de anjo é aquele criado pelo ser humano. Sim, cada um de nós cria anjos -
"bons" ou "ruins" - com nossos atos e atitudes. Cada pensamento, fala ou ato bom cria um anjo
protetor que nos defende perante o Tribunal Celestial. Cada pensamento, fala ou ato negativo
cria um anjo contrário que nos acusa no Tribunal Celestial. Estes anjos estão sempre a nosso
lado - do lado direito, os anjos da bondade; e do lado esquerdo, os anjos da severidade. Estes
anjos não necessariamente são eternos, pois é possível aumentar ou diminuir a quantidade de
cada lado conforme a pessoa melhora seu comportamento e se arrepende de qualquer ato etc.
negativo (ou o contrário).

De passagem podemos aprender daqui que é errado dizer que D'us nos castiga; na verdade o
nosso próprio ato traz a conseqüência, como uma pessoa não pode gritar que o fogo queimou
seu dedo se ela própria colocou o dedo no fogo.

Nossos Sábios nos contam que quando D'us Se revelou a Seu povo para falar os Dez
Mandamentos, os Céus se abriram e todos podiam ver o que acontecia lá em Cima. Uma das
coisas que mais impressionou o povo foi a perfeita ordem dos anjos.

Embora você não pergunte sobre outros seres espirituais, existem também seres espirituais
negativos chamados de demônios. Estes já são diferentes dos anjos em vários pontos. Estes
também foram originalmente criados por D'us, no último instante do sexto dia da Criação antes
da entrada do Shabat e portanto são criaturas "incompletas" por assim dizer. Diferente dos
anjos, estes vivem e morrem, procriam e precisam de comida e bebida para existir. São
emissários do Criador, mas sua missão é praticamente só de destruição. Entretanto,
encontramos muitas histórias onde vieram ajudar e salvar os sábios e os justos.

Embora um anjo é um ser espiritual, não podemos conferir a ele nenhum poder ou acreditar nele
ou rezar a ele, etc. Na comparação acima como ministros de um rei, poderia-se argumentar
que assim como um rei ficaria satisfeito se seus súditos honrassem os ministros, também D'us
deveria ficar contente que os seres humanos honram os anjos. Porém há uma grande diferença
nos dois casos: se você está na presença de um rei e em vez de honrá-lo, você vira-se para
seus ministro, torna-se uma grande ofensa e mais, a pessoa é vista como um traidor!

Estamos constantemente na presença de D'us. Não há um momento na vida quando não estamos
na presença do Criador. Por isso não se pode adorar nenhum outro tipo de ser - nem anjos nem
ídolos, etc. Como já mencionei, os próprios anjos reconhecem que eles não têm poder próprio -
são apenas "office-boys" Divinos.

Esta dialética e muito bem vista na poesia de Moshe, quando escreveu JÓ (YOV)