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SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA

POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO


ACADEMIA DE POLÍCIA MILITAR DO BARRO BRANCO
PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM CIÊNCIAS
POLICIAIS DE SEGURANÇA E ORDEM PÚBLICA –II/2013

Cap PM Luiz Fernando Alves

TREINAMENTO DE TIRO (ELASTÔMERO E REAL) E USO DE GRANADAS POR


POLICIAIS QUE ATUAM EM PELOTÕES DE FORÇA TÁTICA/CDC –
PADRONIZAÇÃO DE TÉCNICAS DE ATUAÇÃO EM GRUPO E PROPOSTA DE
CRIAÇÃO DE PPE (PISTA POLICIAL ESPECIAL) COMPLEMENTAR AO
MÉTODO GIRALDI

São Paulo
2014
Cap PM Luiz Fernando Alves

TREINAMENTO DE TIRO (ELASTÔMERO E REAL) E USO DE GRANADAS POR


POLICIAIS QUE ATUAM EM PELOTÕES DE FORÇA TÁTICA/CDC –
PADRONIZAÇÃO DE TÉCNICAS DE ATUAÇÃO EM GRUPO E PROPOSTA DE
CRIAÇÃO DE PPE (PISTA POLICIAL ESPECIAL) COMPLEMENTAR AO
MÉTODO GIRALDI

Dissertação apresentada no Centro de


Altos Estudos de Segurança da Polícia
Militar do Estado de São Paulo, como
exigência para a conclusão do Programa
de Mestrado Profissional em Ciências
Policiais de Segurança e Ordem Pública.

Orientador: Coronel PM Nivaldo César Restivo

São Paulo
2014
Cap PM Luiz Fernando Alves

TREINAMENTO DE TIRO (ELASTÔMERO E REAL) E USO DE GRANADAS POR


POLICIAIS QUE ATUAM EM PELOTÕES DE FORÇA TÁTICA/CDC –
PADRONIZAÇÃO DE TÉCNICAS DE ATUAÇÃO EM GRUPO E PROPOSTA DE
CRIAÇÃO DE PPE (PISTA POLICIAL ESPECIAL) COMPLEMENTAR AO
MÉTODO GIRALDI

Dissertação apresentada no Centro de


Altos Estudos de Segurança, como parte
dos requisitos para a aprovação no
Programa de Mestrado Profissional em
Ciências Policiais de Segurança e Ordem
Pública.

( ) Recomendamos disponibilizar para pesquisa.


( ) Não recomendamos disponibilizar para pesquisa.
( ) Recomendamos a publicação.
( ) Não recomendamos a publicação.

São Paulo, ___ de _______________ de 2014.

____________________________________
Coronel PM Nivaldo César Restivo

____________________________________
Ten Cel PM Marcello Streifinger

____________________________________
Major PM Alexandre Monclús Romanek
Este trabalho é dedicado:

À minha família, que acompanha e apoia, de forma incondicional, o meu


esforço, dedicação e amor em servir a gloriosa corporação da qual escolhi fazer
parte, a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

À Letícia Tiemi Miyazaki Alves, minha amada filha, carinhosa, paciente,


minha alegria e meu cheirinho, durante a longa caminhada do CAO.

Ao Victor Yukio Miyazaki Alves, meu amado filho, por sua ajuda com a
internet, seu apoio nas horas tensas, e por sempre ser motivo de muito orgulho para
este Pai.

À minha amada esposa, Sandra Yuriko Miyazaki Alves, pelo amor


incondicional, pela paciência nos momentos de dificuldades e privações na busca de
nossos objetivos, pela ajuda na caminhada rumo à conclusão de todos os trabalhos,
e pela presença tão iluminada e inspiradora na minha vida, “Te Amo”.
AGRADECIMENTOS

A Deus, família, amigos e integrantes de um inesquecível pelotão delta do


CAO II/13.

Ao meu orientador, Coronel PM Nivaldo César Restivo, um verdadeiro


exemplo de profissional, comandante, líder e ser humano, por orientar e acreditar na
viabilidade deste estudo para a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Ao Ten Cel PM Marcello Streifinger, meu comandante de batalhão e


integrante da minha banca examinadora, por sua inteligência, educação, sabedoria e
paciência. Um grande incentivador do meu trabalho e o primeiro a acreditar que eu
passaria no concurso do CAO.

Ao Major PM Alexandre Monclús Romanek um incentivador incansável da


minha ascensão profissional, por autorizar o uso de seu trabalho de dissertação
como base da minha monografia, por sua competência, experiência profissional e
liderança operacional, que muito contribuíram para a conclusão do meu trabalho.

Aos amigos do 3º Batalhão de Polícia de Choque e 4° Batalhão de Polícia de


Choque, pelo apoio e ajuda providencial.

Aos Tenentes Tarifa, Galhardo, Mádio, Casabona, Perez e Kiyota, pela


união e desprendimento na ajuda das tarefas árduas de pesquisa e conclusão da
monografia. Vocês são grandes e respeitados amigos!

E ao meu grande amigo, meu irmão de turma de CFO e CAO, Cap PM


Junior, por sua tranquilidade e desprendimento em auxiliar à concluir minha
dissertação.

Meu muito obrigado a todos.


“Quanto mais suor derramado em treinamento,
menos sangue será derramado em batalha.”
(Dale Carnegie)
RESUMO

A Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) é uma organização destinada a


manter a ordem e a paz social, inclusive, quando necessário, com a autorização
estatal, de fazer o uso da força de forma legítima, com a finalidade de manter,
restabelecer a ordem e garantir a sobrevivência da própria sociedade em que está
inserida. Neste contexto o policial militar é o Estado presente e fisicamente
identificado nas ruas, próximo ao cidadão e de todos os problemas que ocorrem no
cotidiano das pessoas. É o policial que está equipado e autorizado para lidar com
toda emergência policial que aflige a vida em sociedade. Considerando a
legitimidade e proporcionalidade, aspectos imprescindíveis no equilíbrio para o uso
da força legal, existe a necessidade de propor um treinamento de tiro com munições
de impacto controlado, específico para determinadas ações de controle civil, nas
quais ocorra um cenário de quebra da ordem pública por um número grande de
pessoas. Em tal situação existe a necessidade de o policial militar atuar em conjunto
no seu pelotão utilizando técnicas e táticas de controle de multidão. A hipótese
levantada é de uma construção da proposta de treinamento com base na PPE, e
dessa forma preparar o policial para que atue de forma técnica, profissional e
participe de ocorrência mais grave obtendo um resultado satisfatório e sem dano à
imagem da PMESP. O trabalho foi formulado através de pesquisa de campo com o
efetivo operacional de força tática. Também foi realizada pesquisa em fontes
bibliográficas, documentais, manuais da PMESP e internet. Através da análise de
situação e baseado no tiro defensivo na preservação da Vida “Método Giraldi”
entende-se como necessária a complementação do treinamento para os policiais
que atuam na força tática e pelotão de choque, com a criação, padronização de
técnica de atuação em grupo e proposta de criação de Pista Policial Especial (PPE)
complementar ao Método Giraldi na PMESP.

Palavras-chave: Polícia Militar. Treinamento de tiro. Criação. PPE. Método Giraldi.


ABSTRACT

The military police in the state of São Paulo (PMESP) is an organization designed to
maintain order and social peace, even when it is necessary, to use legitimately force
with the state authorization in order to keep the order and guarantee the survival of
society. In this context the military police is the state present and physically identified
in the streets, next to the citizens and all the problems that happen in people’s daily
life. It is the officer who is equipped and authorized to handle with all kinds of police
emergencies that affects the life in society. Considering the legitimacy and
proportionality essential aspects in the balance for the legal force, there is a need to
propose a training shot with munitions of controlled impact. It is specific for
determined actions of civil control where may happen the scenery of broken public
order by a huge number of people. In this situation the military police must act with
their squad using the techniques and tactics of crowd control. The hypothesis is a
proposal for construction of training based on PPE, and thus prepare the police for
acting technical, professional manner and participate in more serious occurrence
obtaining a satisfactory and no damage to the image of PMESP result. The study
was formulated through fieldwork with the operating effective tactical force. Was also
conducted research in bibliographical, documentary, manuals PMESP sources and
internet. Through the analysis of the situation and based on the defensive shot for
preservation of life "Giraldi Method", is understood as the necessary completion of
training for the officers that work in the tactic force and squad shock, with the
creation, standardization of acting technique in group and proposal to build a special
police track (PPE) complementary to Giraldi method in PMESP.

Keywords: Military Police. Marksmanship training. Creation. PPE. Giraldi Method.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido ....................... 23


Figura 2 FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido ....................... 23
Figura 3 Cartucho AM-403/P - projétil de borracha do tipo Precision ..................... 34
Figura 4 Cartucho AM-403/P – Short Range .......................................................... 36
Figura 5 MIC para FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido ........ 37
Figura 6 Granada explosiva GL-304 ....................................................................... 38
Figura 7 Granada explosiva GL-307 ....................................................................... 39
Figura 8 Granada mista GL-305 ............................................................................. 40
Figura 9 Granada mista GL-308 ............................................................................. 40
Figura 10 Granada fumigena lacrimogênea GL-300T .............................................. 41
Figura 11 Granada fumigena lacrimogênea GL-300TH ............................................ 42
Figura 12 Artefato de lançamento AM-640 ............................................................... 42
Figura 13 Granada GL-201....................................................................................... 43
Figura 14 Granada GL-202....................................................................................... 43
Figura 15 Granada GL-203/L.................................................................................... 44
Figura 16 AM-470 SOFT PUNCH ............................................................................. 44
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 Posto ou graduação do efetivo pesquisado............................................ 83


Gráfico 2 Efetivo com curso de CDC ..................................................................... 84
Gráfico 3 Efetivo com curso de força tática ........................................................... 85
Gráfico 4 Efetivo que recebeu instrução de CDC .................................................. 86
Gráfico 5 Tipo de treinamento de CDC .................................................................. 87

Gráfico 6 Segurança em operar material de CDC ................................................. 88


Gráfico 7 Necessidade de treinamento envolvendo tática de CDC ....................... 89
Gráfico 8 Manuseio da espingarda cal. 12............................................................. 90
Gráfico 9 Dificuldade com o manuseio da espingarda cal. 12 ............................... 91
Gráfico 10 Necessidade de treino com munição de elastômero .............................. 92
Gráfico 11 Disparo de elastômero em treinamento por trimestre ............................ 93
Gráfico 12 PPE utilizando espingarda cal. 12 com MIC ........................................... 94
Gráfico 13 Efetivo de FT com curso de CDC e/ou curso de FT ............................... 95
LISTA DE FOTOS

Foto 1 Equipe de tomada de cela - atirador de MIC - visão da retaguarda .......... 63


Foto 2 Equipe de tomada de cela - atirador de MIC - visão lateral. ....................... 64
Foto 3 Equipe de tomada de cela - atirador de MIC - visão frontal. ....................... 65
Foto 4 Equipe de tomada de cela - atirador com pistola - visão da retaguarda. .... 66
Foto 5 Equipe de tomada de cela - atirador com pistola - visão lateral. ................ 67
Foto 6 Formação em linha - atirador de MIC e o lançador de granada. ................ 68
Foto 7 Formação em linha - atirador de MIC - visão frontal. .................................. 69
Foto 8 Formação em linha - atirador de MIC - visão lateral. .................................. 69
Foto 9 Formação em guarda baixa - atirador de MIC - visão da retaguarda. ........ 70
Foto 10 Formação em guarda baixa - atirador de MIC - visão frontal. ..................... 70
Foto 11 Formação em guarda baixa - atirador com pistola - visão frontal. .............. 71
Foto 12 Formação em guarda baixa - atirador com pistola – visão da retaguarda. . 72
Foto 13 Formação do pelotão para atuação em escadas - visão frontal. ................ 75
Foto 14 Formação do pelotão para atuação em escadas - visão da retaguarda. .... 76
Foto 15 Atuação em escadas - visão do atirador de MIC e cano da espingarda. .... 77
Foto 16 Formação do pelotão para atuação em corredores ou local estreito. ........ 78
Foto 17 Atuação em corredores ou local estrito - visão do cano da espingarda...... 79
Foto 18 Atuação em corredores - atirador de MIC - visão da retaguarda. ............... 79
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

APMBB Academia de Polícia Militar do Barro Branco


Bol G PM Boletim Geral da Polícia Militar
CAES Centro de Altos Estudos em Segurança
CAO Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais
Cal Calibre
CAT Calendário Anual de Treinamento
Cb PM Cabo Policial Militar
CDC Controle de Distúrbio Civil
CDP Centro de Detenção Provisória
Cia PM Companhia Policial Militar
CPChq Comando de Policiamento de Choque
Cel Coronel
DGE Diretriz Geral de Ensino
EAP Estágio de Aperfeiçoamento Profissional
EEP Estágio de Especialização Profissional
GESPOL Sistema de Gestão da Polícia Militar do Estado de São Paulo
ICC Instrução Continuada do Comando
MIC Munição de Impacto Controlado
M-19 PM Manual de Tiro Defensivo da Polícia Militar
Of Oficial
OPM Organização Policial Militar
Pel Pelotão
PMESP Polícia Militar do Estado de São Paulo
POP Procedimento Operacional Padrão
PPE Pista Policial Especial
Pro AP Programa de Atualização Profissional
SENASP Secretaria Nacional de Segurança Pública
Sd Soldado
Sgt Sargento
TAF Teste de Aptidão Física
TAT Teste de Aptidão ao Tiro
TDS Treinamento Durante o Serviço
TPOP Treinamento de Procedimento Operacional Padrão
TTDPV Treinamento de Tiro Defensivo na Preservação da Vida
VT Vídeo Treinamento
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 15

2 AS AÇÕES DE CONTROLE DE DISTÚRBIO CIVIL ......................................... 21

2.1 Ação em estabelecimento prisional ................................................................ 22


2.1.1 Revista em estabelecimento prisional .......................................................... 25
2.1.2 Rebelião em estabelecimento prisional ........................................................ 26
2.2 Reintegração de posse ................................................................................... 27
2.3 Desobstrução de via pública ........................................................................... 29

3 PRINCIPAIS MUNIÇÕES E ARMAMENTO PARA A PPE DE CDC ................. 33

3.1 A munição de impacto controlado (MIC) AM-403/P ........................................ 34


3.2 A munição de impacto controlado (MIC) AM-403/P SHORT RANGE ............. 35
3.3 A munição de impacto controlado (MIC) para a FN-303 (lançador de munição
não-letal a ar comprimido) .............................................................................. 36
3.4 Granada .......................................................................................................... 38
3.4.1 Granada explosiva (GL-304 e GL-307) ......................................................... 38
3.4.2 Granada mista (GL-305 e GL-308) ............................................................... 39
3.4.3 Granada fumígena lacrimogênea (GL-300T, GL-308TH) ............................. 41
3.4.4 Artefato de lançamento AM-640 e suas munições (GL-201, GL-202, GL-
203L, AM-470 SOFT PUNCH) ...................................................................... 42
3.5 Pistola .40 ....................................................................................................... 45
3.6 Espingarda calibre 12 gauge .......................................................................... 46

4 PADRONIZAÇÃO TÉCNICA ............................................................................. 47

4.1 A necessidade de padronização de procedimentos ....................................... 47


4.2 Do treinamento ............................................................................................... 49
4.2.1 Treinar aquilo que se vai fazer...................................................................... 49
4.2.2 Do treinamento conjunto de tiro .................................................................... 52
4.2.3 Do treinamento com MIC, granada e munição real ...................................... 53
4.3 Do estágio....................................................................................................... 57
4.3.1 Do EEP para usuários de munição de impacto controlado – Cb/Sd ............. 58
4.3.2 Do EEP para multiplicadores de munição de impacto controlado – Of/Sgt .. 59
4.3.3 Diferenças entre o estágio de usuário e multiplicador .................................. 60
5 PPE DE CDC COMPLEMENTAR AO “MÉTODO GIRALDI”............................ 61

5.1 PPE para o uso de MIC em estabelecimento prisional – “tomada de cela” .... 63
5.2 PPE para o uso de MIC em formações ofensivas, defensivas para utilização
em via pública e em invasão de estabelecimento prisional rebelado. ............ 67
5.3 PPE para o uso de MIC em reintegração de posse urbana vertical –
“escadas”. ....................................................................................................... 74
5.4 Súmula para avaliação da PPE de CDC......................................................... 81

6 PESQUISA ......................................................................................................... 82

6.1 Pesquisa com perguntas direcionadas ao efetivo da força tática ................... 83


6.1.1 Pergunta 1: Qual é o seu posto ou graduação? ........................................... 83
6.1.2 Pergunta 2: Você possui o curso de CDC? .................................................. 84
6.1.3 Pergunta 3: Você possui o curso de força tática?......................................... 85
6.1.4 Pergunta 4: Você já participou de alguma instrução de CDC? ..................... 86
6.1.5 Pergunta 5: Qual tipo de treinamento de CDC você tem em sua OPM? ...... 87
6.1.6 Pergunta 6: Você se sente seguro em operar material de CDC? ................. 88
6.1.7 Pergunta 7: Você acha necessário treinamento completo envolvendo tática
de CDC? ....................................................................................................... 89
6.1.8 Pergunta 8: Você sabe manusear com facilidade a espingarda Cal. 12,
independente da munição?........................................................................... 90
6.1.9 Pergunta 9: Quais suas dificuldades em manusear a espingarda Cal. 12? .. 91
6.1.10 Pergunta 10: Você sente necessidade de treinar disparos de munição de
elastômero de Cal. 12? ................................................................................. 92
6.1.11 Pergunta 11: Quantos disparos de munição de elastômero você efetua, em
um trimestre, em treinamentos na sua OPM? .............................................. 93
6.1.12 Pergunta 12: Você já passou por uma PPE utilizando Cal. 12 com munição
de elastômero? ............................................................................................. 94
6.2 Pesquisa com a OPM a respeito do policial que trabalha na força tática e
possui o curso de CDC e/ou Força Tática ...................................................... 95

PROPOSTA ............................................................................................................. 96

CONCLUSÃO ........................................................................................................... 98

REFÊNCIAS ........................................................................................................... 100

APÊNDICE A – Questionário direcionado ao efetivo de força tática ................ 102


ANEXO A – Bol PM 143 de 1 de Agosto de 2013. ............................................... 104
15

1 INTRODUÇÃO

A Polícia Militar do Estado de São Paulo é uma instituição que, desde a sua
criação, prima pela busca de ações legítimas, repassadas ao seu efetivo, através de
intensa e constante instrução, na tentativa de uma atuação padronizada do árduo
trabalho policial, esteja o policial atuando em batalhões da capital, interior, em
unidade de policiamento de área ou em unidade especializada.
No campo institucional, são inúmeras tentativas de repassar, fixar e
consolidar o aprendizado ao nosso efetivo, com destaque para os cursos de
formação de soldados, sargentos e oficiais. Quando formado, esse efetivo sempre é
instruído de forma sistêmica e constante, através de treinamento de ICC (instrução
continuada do comando), TAT (teste de aptidão de tiro), TAF (teste de aptidão
física), VT (vídeo treinamento), TDS (treinamento durante o serviço), TPOP
(treinamento de procedimento operacional padrão) e a preleção ao efetivo policial.
Além desses, são importantes fontes de difusão de conhecimento e aperfeiçoamento
profissional a realização do EAP (estágio de aperfeiçoamento profissional), dos
cursos e dos estágios nos centros de ensino de nossa instituição.
A I-22-PM, estabelece princípios e normas para o treinamento policial militar
no âmbito da PMESP:
[...]
Artigo 1° -Estas instruções, parte integrante da Educação Profissional, têm
por finalidade estabelecer princípios e normas para o Treinamento Policial-
Militar no âmbito da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), por
meio do Programa de Atualização Profissional (ProAP).
§ 1° -O ProAP destina-se a congregar e transmitir as atividades de ensino e
as formas de treinamento policial-militar, ao mesmo tempo em que
estabelece as tarefas mínimas a serem cumpridas pelo policial militar no
transcorrer de cada ano, com o objetivo de mantê-lo atualizado para o
desempenho de cargos e funções.
§ 2° -As atividades e os assuntos que fazem parte dos treinamentos,
integrantes do ProAP, podem ser desenvolvidos isolada ou conjuntamente
com a especialização profissional e devem ser planejados de modo a
contemplar as matérias de maior interesse Institucional, cuja apresentação,
conforme estabelecido na Diretriz Geral de Ensino (DGE), será efetuada no
Calendário Anual de Treinamento (CAT).
Artigo 2° -São formas de treinamento do ProAP que podem ser realizadas
isolada ou conjuntamente, pelos processos presencial ou a distância, e que
seguem planejamentos próprios:(grifo nosso)
I -Estágio de Atualização Profissional (EAP);
11 -Treinamento Físico (TF);
111 -Treinamento de Tiro Defensivo na Preservação da Vida -Método
Giraldi (TTDPV);(grifo nosso)
IV -Treinamento dos Procedimentos Operacionais Padrão (TPOP);
V -Instrução Continuada do Comando (ICC);
16

VI -Vídeo Treinamento (VT);


VII -Treinamento Durante o Serviço (TDS);
VIII -Preleção;
IX -outras atividades de ensino, voltadas ao treinamento, e que atendam às
necessidades de atualização profissional.
[...] (PMESP, I-22 PM 2012, p. 6).

Quanto ao treinamento especializado para a utilização de munição de


impacto controlado, é importante destacar a necessidade de atender à previsão do
Boletim Geral PM 143, de 1 de agosto de 2013:
[...]
O Comandante Geral da PMESP, no uso de suas atribuições legais,
previstas no Decreto Estadual 7.290, de 15DEZ75, que aprova o
Regulamento Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, considerando
o permanente objetivo institucional de preservar, ao máximo, a vida e a
integridade física de todos os que estejam presentes em locais onde haja a
necessidade de realização de intervenções policiais, determina as seguintes
normas referentes à munição d e elastômero:
Artigo 1° - O efetivo policial-militar somente poderá fazer uso de munição de
elastômero em ações de controle de distúrbios civis e nas hipóteses de
restabelecimento da ordem pública, ficando vedado o seu uso em outras
ocorrências policiais.
Parágrafo Único – A munição de elastômero não deve ser empregada para
a dispersão ou movimentação de pessoas, sendo o seu uso restrito à
incapacitação ou à inibição de agressor(es) ativo(s) identificado(s) no meio
da ação policial-militar.
Artigo 2° - Estão autorizados a fazer uso deste tipo de munição somente os
policiais militares habilitados que tenham concluído, com aproveitamento, o
Estágio de Especialização Profissional (EEP) para o Uso de Munição de
Impacto Controlado ou o Curso de Especialização Profissional (CEP) –
Controle de Distúrbios Civis ou CEP – Força Tática.
§ 1° - Aos Oficiais, Subtenentes e Sargentos será destinado o EEP –
MULTIPLICADOR AO USO DE MUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO,
sendo a OPM Gestora de Conhecimento (OGC) o 3° BPChq – Batalhão
Humaitá.
§ 2° - Aos Cabos e Soldados será destinado o EEP – USUÁRIO DE
MUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO, a ser realizado pelos
multiplicadores em suas respectivas OPM, sob coordenação dos Gabinetes
de Treinamento (GT).
§ 3° - Poderão fazer uso deste tipo de munição, desde que devidamente
habilitados:
o Comandante de Força Patrulha (Cmt F Ptr) ou equivalente, o Comandante
de Grupo de Patrulha (CGP) ou equivalente e as equipes de ambos.
os policiais militares pertencentes ao efetivo da tropa de choque ou da
Força Tática.
Artigo 3° - O uso deste tipo de munição, de menor potencial ofensivo, fica
vinculado ao cumprimento dos Procedimentos Operacionais Padrão (POP)
que regulamentam o assunto, a serem disponibilizados na Intranet da
Instituição.
Artigo 4° - Deverão ser utilizadas as munições de elastômero do modelo
AM-403/P-Precision ou similar, desde que esta última seja aprovada por
comissão técnica a ser instituída pelo Comando da Instituição.
Artigo 5° - As OPM detentoras deste tipo de munição deverão observar o
prescrito pelo(s) fabricante(s) no que diz respeito ao seu armazenamento e
validade[...](PMESP, Bol G PM 143, 2013).
17

O treinamento é a busca da evolução contínua em qualquer profissão, e é


imprescindível em qualquer área de atuação e a PMESP está empenhada em
aprimorar suas técnicas, principalmente na área de tiro policial, através do
treinamento de tiro defensivo na preservação da vida – Método Giraldi, um método
inovador, passou a preparar o policial, preocupado não só com o disparo em si, mas
com tudo que antecede ao disparo. É um treinamento em que o policial é levado o
mais próximo da situação real, na qual ele estará em uma ocorrência policial,
conforme esclarece o M-19 PM:
Como a base do “Método Giraldi” são os reflexos condicionados positivos, a
serem adquiridos pelo policial em treinamentos imitativos da realidade, com
eliminação dos negativos, antes de se ver envolvido pelo fato verdadeiro,
toda a instrução deverá se desenvolver de forma prática, pois “O que eu
ouço, eu esqueço; o que eu vejo, eu lembro; o que eu faço, eu aprendo”.
“Tiro é como futebol, natação, ciclismo, etc., só se aprende praticando”.
[...](GIRALDI, 2013a, p. 50).

A proposta de produzir um trabalho de “Treinamento de tiro (elastômero e


real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC –
padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE (pista
policial especial) complementar ao Método Giraldi”, título da dissertação, tem por
finalidade procurar aliar a necessidade de treinamento prevista na I-22 PM (Instrução
do Sistema Integrado de Treinamento Policial Militar, 2012), ao Boletim Geral
PMESP 143 (Instrução – Munição de elastômero – Normas e procedimentos de
utilização, 2013) e uma proposta de complementação do Método Giraldi, com a
criação de pista policial especial, voltada a situações em que o policial esteja
inserido no contexto de pelotão de Força Tática ou CDC.
É a tentativa de inserir o policial de força tática em um treinamento
simulando ações reais, pensando em atuações e situações que apresentem um
grande número de pessoas, seja em manifestações em vias públicas, reintegração
de posse, ou em estabelecimentos prisionais, previsto no M-19 PM:
1. TREINAMENTO ESPECIALIZADO:
1.1. Finalidade: Preparar tropas especiais, para atuações especiais, em
ocorrências também especiais, que fogem da rotina do serviço comum da
Corporação.
2. CARACTERÍSTICAS:
2.1 - A instrução especializada será dividida de acordo com os seus
objetivos e finalidades, desde a parte teórica; manejo de armas; munição;
materiais; técnicas e táticas especiais; gerenciamento de crises; serviço
velado, escolta de autoridades; reintegração de posse; etc.; até a montagem
e atuação do policial militar em “Pistas Policiais Especiais”, com ou sem
disparos;
2.2 - Sua preparação, execução e constante aperfeiçoamento, estarão sob
a responsabilidade das Unidades especializadas (e dos setores
18

especializados de outras Unidades), as quais desenvolverão manuais


próprios para a sua instrução, obedecendo, sempre, todos os princípios do
“Método Giraldi”, e o determinado neste capítulo;
2.3 - Além das armas, munições e materiais comuns da Corporação,
utilizará, também, os especializados, próprios para o cumprimento de suas
missões;
2.4 - Os Policiais Militares atuarão sempre em equipe.
[...](GIRALDI, 2013a, p. 132)

É urgente a necessidade de aliar esse treinamento de tiro voltado à atuação


do policial quando atuando em um pelotão, em face do momento em que emergem
da sociedade diversas manifestações. São manifestações sociais legítimas,
previstas na Constituição Federal do Brasil, no artigo 5º inciso XVI, porém que, em
alguns casos, migram para atos violentos e de depredação de patrimônio público e
privado e necessitam de intervenção de força policial especializada:
[...]
XVI todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao
público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra
reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas
exigido prévio aviso à autoridade competente;
[...] (Brasil, 1988, sem paginação)

No momento atual, urge a necessidade interna da PMESP de regulamentar


o uso de munição impacto controlado (MIC), pois é uma necessária forma de uso
proporcional da força legítima do Estado para controlar manifestações quando essas
perdem o seu cunho legítimo e migram para o vandalismo, desordem, caos social, e
os integrantes dessas manifestações sociais violentas passam a gerar atos de
depredação ao patrimônio público ou privado, a realizar furtos e a praticar ato de
violência generalizada.
A PMESP tem a preocupação de ser uma instituição legalista, profissional,
técnica e protetora da sociedade, através do respeito aos direitos humanos e à
dignidade da pessoa humana, comprometida em atender a todos os tratados e leis
firmados pelo governo brasileiro, como previsto na Portaria Interministerial nº 4226,
de 31 de Dezembro de 2010:
[...] Os órgãos de segurança pública deverão editar atos normativos
disciplinando o uso da força por seus agentes, definindo objetivamente:
a. os tipos de instrumentos e técnicas autorizadas;
b. as circunstâncias técnicas adequadas à sua utilização, ao
ambiente/entorno e ao risco potencial a terceiros não envolvidos no evento;
c. o conteúdo e a carga horária mínima para habilitação e atualização
periódica ao uso de cada tipo de instrumento;
[...](BRASIL, 2010, g.n).

É preciso uma padronização de técnica de uso de MIC, porém necessita ser


algo que seja repassado de forma simples, aplicável e prática, que busque atender à
19

necessidade operacional do policial militar operador de espingarda calibre 12 com


MIC e do policial militar multiplicador de espingarda calibre 12 com MIC. É
importante condicionar o policial para que ele esteja preparado a realizar um
treinamento conjunto de MIC, de munição real e de uso de granada, principalmente
em caso específico de atuação conjunta do policial em um pelotão. É preciso
preparar o policial para que obtenha condição técnica de atuar corretamente em
situação mais grave e especial, que fuja da sua rotina operacional, como exemplo:
ocorrência em estabelecimento prisional, reintegração de posse e manifestação em
via pública.
Surgem algumas questões que necessitam ser respondidas, tais como: 1)
Qual a importância do treinamento de PPE com MIC, munição real e granada, para o
efetivo de FT e pelotões de Choque?; 2) Como evitar o uso inadequado de MIC em
ação de CDC para a preservação da imagem da Corporação?; 3) Todo policial pode
utilizar MIC em ação de CDC?; e 4) O uso de MIC de elastômero AM 403-P é
adequado em ação de CDC?
Na tentativa de buscar respostas para as questões formuladas, buscamos
respaldo no que já é proposto pela PMESP através da I-22-PM (Instrução do
Sistema Integrado de Treinamento Policial Militar, 2012), do Boletim Geral PMESP
143 (Instrução – Munição de elastômero – Normas e procedimentos de utilização,
2013), no Método Giraldi, e aliado à citação da Portaria Interministerial nº 4226, de
31 de Dezembro de 2010:
[...] Deverá ser estimulado e priorizado, sempre que possível, o uso de
técnicas e instrumentos de menor potencial ofensivo pelos agentes de
segurança pública, de acordo com a especificidade da função operacional e
sem se restringir às unidades especializadas. (grifo nosso).
20. Deverão ser incluídos nos currículos dos cursos de formação e
programas de educação continuada conteúdos sobre técnicas e
instrumentos de menor potencial ofensivo.
21. As armas de menor potencial ofensivo deverão ser separadas e
identificadas de forma diferenciada, conforme a necessidade operacional.
22. O uso de técnicas de menor potencial ofensivo deve ser constantemente
avaliado. (BRASIL, 2010, g.n).

Finalizando, conforme expõe ROMANEK (2011, p.13) em seu trabalho de


dissertação, exaltando a necessidade de aprimorar e padronizar a técnica policial
para o uso da MIC:
O problema estudado pelo trabalho é a necessidade de aprimoramento do
policial militar, e padronização técnica no uso de munições de elastômero
de impacto controlado, durante eventos ou crises sociais em que ocorra a
quebra da ordem pública.
Durante o restabelecimento da ordem pública em cumprimento de sua
20

missão constitucional, que a PMESP utilizando seu efetivo, não faça uso
inapropriado das munições de elastômero, diminuindo sobremaneira as
probabilidades de danos colaterais e de não conformidades, respeitando a
dignidade da pessoa humana e os direitos humanos, prestando serviço de
qualidade e preservando assim, a integridade da imagem institucional.
A justificativa para escolha deste tema baseia-se no homem como ser
social que está sujeito a regramento do Estado, invariavelmente podendo
ocorrer conflito nesta relação, cabendo às Polícias Militares garantir e
restabelecer a ordem pública.

A hipótese levantada é de uma construção da proposta de treinamento com


base na PPE, para as ações descritas, com o intuito de diminuir, consideravelmente,
os atos cometidos por policiais em não conformidade com o que a PMESP preconiza
em suas ações, ou seja, legalidade e proporcionalidade das ações, e dessa forma
preparar o policial para que atue de forma técnica, profissional e participe de
ocorrência mais grave obtendo um resultado satisfatório e sem dano à imagem da
PMESP.
O trabalho foi formulado através de pesquisa de campo com o efetivo
operacional de força tática (PMESP), onde participaram de forma aleatória, oficiais e
praças, totalizando um retorno relativo a 515 (quinhentos e quinze) policiais que
responderam a 12 (doze) questões, as quais foram tabuladas em gráficos e
porcentagem, e uma pesquisa com pergunta direcionada para as OPM (PMESP)
com um retorno relativo à situação de 2072 (dois mil, setenta e dois) policiais da
força tática. Também foi realizada pesquisa em fontes bibliográficas, documentais,
manuais da PMESP, internet e a experiência profissional ao longo de 15 (quinze)
anos como instrutor de tiro na PMESP e SENASP.
21

2 AS AÇÕES DE CONTROLE DE DISTÚRBIO CIVIL

O assunto relativo a “As Ações de Controle de Distúrbio Civil”, pode


apresentar uma gama de possibilidades e variantes para uma mesma atuação,
desde conflito em vias públicas, reintegração de posse urbana e rural, conflitos em
locais fechados, rebeliões em estabelecimentos prisionais, enfim, situações onde há
determinado número de pessoas, que por razões diversas, perdem o controle de
suas ações e quebram a ordem pública.
O M-8-PM apresenta algumas definições relativas aos grupamentos
humanos, formas de expressão e principais causas de quebra da ordem:
[...]
1. Grupamentos humanos
1.1. Aglomeração: Grande número de pessoas reunidas temporariamente.
Geralmente, os membros de uma aglomeração pensam e agem como
elementos isolados e não organizados. A aglomeração poderá resultar da
reunião acidental e transitória de pessoas, tal como acontece na área
comercial da grande cidade em seu horário de trabalho ou nas estações
ferroviárias em determinados momentos.
1.2. Multidão: Aglomeração psicologicamente unificada por interesse
comum. A formação da multidão caracteriza-se pelo aparecimento do
pronome "nós" entre os seus membros, assim, quando um membro de uma
aglomeração afirma: "nós estamos aqui por cultura", "nós estamos aqui para
prestar solidariedade", ou "nós estamos aqui para protestar" podemos
também afirmar que a multidão está constituída e não se trata mais de uma
aglomeração.
1.3 Turba: Multidão em desordem. Reunião de pessoas que, sob estímulo
de intensa excitação ou agitação, perdem o senso da razão e respeito à lei,
e passam a obedecer a indivíduos que tomam a iniciativa de chefiar ações
desatinadas.
[...]
2. Formas de expressões do Coletivo Social
2.1. Manifestação: Demonstração, por pessoas reunidas, de sentimento
hostil ou simpático à determinada autoridade ou a alguma condição,
movimento econômico ou social. Podem ser pacíficas ou violentas.
2.2. Tumulto: Desrespeito à ordem, levado a efeito por várias pessoas, em
apoio a um desígnio comum de realizar certo empreendimento, por meio de
ação planejada contra quem a elas possa-se opor. (O desrespeito à ordem
é uma perturbação promovida por meio de ações ilegais, traduzidas numa
demonstração de natureza violenta ou turbulenta).
[....]
3.2. Distúrbios civis: são as Inquietações ou tensões que tomam a forma de
manifestações violentas. Situações que surgem dentro do país decorrentes
de atos de violência ou desordens prejudiciais à manutenção da Lei e da
ordem.
[...]
4. Causas de distúrbios civis
4.1. Sociais e ou Culturais: Os distúrbios de natureza social poderão ser
resultantes de conflitos raciais, religiosos, de exaltação provocada por uma
comemoração, por um acontecimento esportivo ou por outra atividade
social/cultural.
4.2. Econômicas: Os distúrbios de origem econômica provêm de desnível
entre classes sociais, desequilíbrio econômico entre regiões, divergências
22

entre empregados e empregadores ou resultam de condições sociais de


extrema privação ou pobreza, as quais poderão induzir o povo à violência
para obter utilidades necessárias à satisfação, das suas necessidades
essenciais.
4.3. Políticas: Os distúrbios poderão originar-se de lutas político-partidárias,
divergências ideológicas estimuladas ou não por países estrangeiros ou da
tentativa de atingir o poder político por meios não legais.
4.4. Calamidades públicas: Determinadas condições resultantes de
catástrofes poderão gerar violentos distúrbios entre o povo, pelo temor de
sua repetição, pela falta de alimento, de vestuário ou de abrigo ou mesmo
em conseqüência de ações de desordem e pilhagem, levadas a efeito por
elementos marginais.
4.5. Omissão ou falência da autoridade constituída: A omissão da
autoridade no exercício das suas atribuições poderá originar distúrbios,
levados a efeito por grupos de indivíduos induzidos à crença de que
poderão violar a lei impunemente.
[...] (PMESP, M-8 PM, 2011, pp.10-11).

Considerando a necessidade de delimitar o treinamento de tiro a ser


proposto, como forma de complementação do Método Giraldi, através do uso da
PPE específico para situações pontuais de emprego de efetivo da força tática ou
pelotão de choque, indicam-se para o treinamento três tipos de PPE que são: a PPE
para a ação em estabelecimento prisional, a PPE para a reintegração de posse e a
PPE para a desobstrução de via pública.
Também existe a necessidade de disciplinar o treinamento e o emprego do
material bélico utilizado pela tropa de força tática (FT) e de controle de distúrbio civil
(CDC), particularmente da munição de impacto controlado, da granada explosiva, da
granada mista, da granada fumígena e lacrimogênea, e até mesmo do disparo com
munição real, de acordo com a PPE proposta.

2.1 Ação em estabelecimento prisional

A atuação em estabelecimento prisional é uma situação atípica e


excepcional, para fins de proposta de treinamento e execução da PPE.
A execução desse treinamento, da PPE e da efetiva atuação do policial, no
caso de uma situação real de confronto com um indivíduo dentro do sistema
prisional, dificilmente atenderá à distância de segurança estipulada pelo próprio
fornecedor da MIC AM-403/P, que é de 20 metros, ou da MIC AM-403/P SHORT
RANGE, que é de 05 metros a 20 metros, conforme previsão em manuais do
fabricante “CONDOR S.A. INDÚSTRIA QUÍMICA”, pois o ambiente da ação é um
23

local de espaço reduzido pela própria arquitetura, sendo que, em confronto com o
preso na cela, esse espaço não ultrapassa a distância de 5 metros.
Hoje existe a possibilidade de uso da FN-303 (lançador de munição não-letal
a ar comprimido) apresentado na figura 1 e figura 2, que é apresentado pelo
fabricante com a possibilidade de disparo de 01 metro a 50 metros, porém sem
afirmar categoricamente que tal armamento não produzirá efeito lesivo danoso ao
oponente, ou seja, não suprime o treinamento e técnica adequada ao seu uso.

Figura 1 – FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido

Fonte: .http://www.fnherstal.com

Figura 2 – FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido

Fonte: .http://www.fnherstal.com

Embora sabendo que existe a possibilidade de lesão causada pelo uso da


munição AM-403/P, AM-403/P SHORT RANGE e da FN-303 (lançador de munição
não-letal a ar comprimido), é necessário atentar para a preservação do bem maior,
24

nesse caso, a manutenção da vida do próprio detento em confronto com as forças


policiais. Nessa situação tais munições são adequadas e proporcionais, quando
utilizadas de forma técnica e correta. Dentro da prioridade de emprego de meios,
observaremos que, embora exista risco no uso da MIC, esses riscos podem ser
diminuídos ou anulados com técnicas e treinamento adequados ao policial que
estiver operando o armamento espingarda gauge calibre 12 com a MIC AM-403/P, a
AM-403/P SHORT RANGE, a FN-303 (Lançador de Munição não-letal a ar
comprimido) ou qualquer outra MIC similar.
O M-8 PM, descreve no Capítulo III, a possibilidade de uso das MIC, em
estabelecimento prisional, conforme segue:
[...]
3.8. As munições de impacto controlado produzidas em elastômero poderão
ser utilizadas tanto em situação de Rebelião (neste caso, recomenda-se
munições que possuam mais de um corpo de elastômero, para potencializar
os disparos) quanto em situação de Revista (neste caso, deve-se utilizar
munições com corpo único de elastômero, já que o disparo deve ser
preciso) em Estabelecimento Prisional. Devemos destacar que estas
munições devem ser utilizadas respeitando-se a distância de segurança
preconizada pelo fabricante.
3.10. Nas situações em que o preso oferecer resistência ativa na cela, os
Policiais Militares poderão adotar uma série de alternativas táticas em
legítima defesa como, por exemplo: uso do cão em guia longa (com o
objetivo de direcionar o preso até o fundo da cela, facilitando sua
imobilização), equipe de intervenção (01 escudeiro, 01 atirador, 03 PM com
luvas de procedimento e cassetetes, com o objetivo de aplicar imobilização
tática nos pontos sensíveis do preso, facilitando sua remoção da cela),
disparo de elastômero e utilização de granadas explosivas (nos casos em
que o preso estiver portando arma branca ou objetos que ofereçam risco de
produzir lesões contundentes ou perfuro-contundentes aos policiais
militares) ou, no caso do preso possuir arma de fogo, a utilização de
munição real em caso de legítima defesa dos próprios policiais militares.
[...] (PMESP, M-8 PM, 2011, p.48)

Na possibilidade de uso e alternativa tática da MIC, é necessário, mesmo


que essa ainda represente um grau de risco pequeno, que se leve em consideração
o escalonamento e uso proporcional da força, conforme mencionado no Manual de
Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário para forças policiais e de
segurança, 3ª edição (2010, pp. 285-286):
[...]
No artigo 3o do CCEAL está estipulado que os encarregados da aplicação
da lei só podem empregar a força quando estritamente necessária e na
medida exigida para o cumprimento de seu dever.
As disposições enfatizam que o uso da força pelos encarregados da
aplicação da lei deve ser excepcional e nunca ultrapassar o nível
razoavelmente necessário para se atingir os objetivos legítimos de aplicação
da lei. O uso da arma de fogo neste sentido deve ser visto como uma
medida extrema.
25

As frações de FT e CDC poderão ser requisitadas para apoiar os


estabelecimentos prisionais quando houver a necessidade de proceder à revista dos
presos, de seu local de confinamento (cela) e de seus objetos, uma vez que tais
efetivos garantirão a segurança dos Agentes de Segurança Penitenciários (ASP).
Também existe a possibilidade de acionar a força policial para atuar em rebeliões
que possam vir a ocorrer.
Não cabe, no momento, especificar onde essa ação policial ocorrerá, pois
para fins de treinamento e execução da PPE proposta, não nos interessará se o
local físico (cela) é para confinamento do preso ou do menor em situação de medida
sócio-educativa.
Portanto para fins do padrão de treinamento a ser proposto, o local, seja ele
CDP (Centro de Detenção Provisória), Penitenciaria, Cadeia Pública, Fundação
Casa, ou qualquer outra unidade destinada ao confinamento de pessoas presas por
ordem judicial, as medidas técnicas para o procedimento da PPE e execução da
missão serão as mesmas.
Trataremos para ação do policial em atuação em presídio de duas situações
distintas: revista em estabelecimento prisional e rebelião em estabelecimento
prisional.

2.1.1 Revista em estabelecimento prisional

Um dos momentos mais críticos de uma ação de revista em estabelecimento


prisional é aquele em que se procede à retirada do preso da cela. Nesse instante há
sempre o perigo de os policiais militares serem atingidos por objetos que possam
causar risco à integridade física ou à vida, uma tentativa de fuga, resistência dos
presos à ordem de desocupar a cela, razão pela qual o efetivo utilizará
equipamentos, armamentos específicos, buscando-se assim a proteção e emprego
gradual, escalonado e proporcional ao uso da força.
A atuação deve ser realizada por uma equipe denominada de “equipe de
tomada de cela”. Essa equipe será formada por três policiais militares da FT ou do
Choque, e estarão todos equipados com EPI próprio (capacete antitumulto ou
balístico, perneira e colete balístico) e terão as seguintes funções: Sgt PM
comandante da equipe, Sd ou Cd PM escudeiro e Sd ou Cb PM atirador.
26

Caberá ao Sgt PM, comandante da equipe, verbalizar com os presos para


realizar os procedimentos da revista, e ele estará empunhando uma pistola ou uma
submetralhadora com munição real, com a finalidade de proporcionar a todos da
equipe a segurança necessária em caso de confronto com uso de munição real por
parte dos detentos. O Sd ou Cb PM escudeiro estará munido de escudo de proteção
balístico e a ele caberá a função de garantir a proteção da equipe e o Sd ou Cb PM
atirador caberá o uso de uma espingarda Cal. 12 Gauge municiada com MIC para
qualquer intervenção imediata contra os presos, caso ocorra resistência e haja risco
à integridade da equipe, exceto em casos de reação do preso com uso de arma com
munição real.
Caberá ao policial na função de atirador garantir o emprego de técnica de
baixa letalidade e efetuar o disparo com a MIC, caso haja risco aos policiais militares
durante o procedimento da revista.

2.1.2 Rebelião em estabelecimento prisional

A PMESP poderá ser acionada a fim de conter rebelião em estabelecimento


prisional e restabelecer a Ordem Pública quebrada dentro do presídio. É uma
atuação extremamente complexa e arriscada, considerando a atuação do policial em
um ambiente hostil, com risco à integridade física e possibilidade variada de ocorrer
ataque contra o efetivo policial. São características desse tipo de crise a ameaça à
vida de reféns (funcionários do estabelecimento prisional, familiares dos presos, e
até mesmo de preso jurado de morte), grande dano ao patrimônio público (presídio)
pela depredação das celas e dos raios do presídio, construção de barricadas e
existência de incêndio iniciado pelos presos rebelados.
As frações de FT e CDC serão empregadas como alternativa tática
denominada de “invasão tática” no gerenciamento de crises, e atuarão, quando
houver necessidade de usar essa alternativa, após a negociação real não ter obtido
êxito em acabar com a rebelião e principalmente existir o risco iminente à vida de
reféns.
O que pretendemos com a PPE, para o treinamento nesse tipo de ação, é
dar condições técnicas e táticas de o policial da FT ou CDC atuar de forma
padronizada e sincronizada, com conhecimento de invasão tática, uso de granada,
disparo de MIC e uso de armamento com munição real. O uso de MIC, granada e
27

disparo de munição real (quando extremamente necessário) deve estar aliado e


sincronizado ao deslocamento do pelotão no momento da invasão da área em que
os presos estiverem confinados e rebelados.
É oportuno dizer que tais procedimentos devem atender a uma progressão
do uso da força. Em treinamento, a PPE deve ser completa, com a preocupação de
levar o conhecimento da técnica e da tática para a realização da invasão,
demonstrando em todas as etapas da invasão as possibilidades de uso do
equipamento disponível para auxiliar o policial nessa ação de rebelião em presídio.
É através do completo desenvolvimento da ação na PPE que o policial a observará
as suas dificuldades perante uma situação programada, próximo da realidade que
ele irá encontrar quando atuar dentro de um presídio rebelado, conforme o descreve
Giraldi, no M-19-PM, esclarecendo os fundamentos do “Método Giraldi”:
Neurociências e Principais fundamentos do “Método Giraldi”
Todo o “Método Giraldi” está baseado nas neurociências. Tem como
principais fundamentos os reflexos condicionados positivos, a serem obtidos
pelo policial em treinamentos imitativos da realidade, com eliminação dos
negativos, antes de se ver envolvido pelo fato verdadeiro.
E esse condicionamento se dará ensinando o policial a atuar,
simuladamente, diante de todos os possíveis problemas, com necessidade
do uso de arma de fogo (com ou sem disparos), que possa encontrar na
vida real.
Leva em consideração que “não basta o policial saber o que tem que fazer;
tem que estar condicionado a fazer”. “Não basta saber atirar; tem que saber
quando atirar e saber executar procedimentos, isto porque, na quase
totalidade das vezes procedimentos, e não tiros, é que preservam vidas e
solucionam problemas”.
O policial não avançará na instrução enquanto não ficar condicionado a
executar o exercício anterior de forma correta e sem dificuldades. Repetirá o
exercício quantas vezes forem necessárias até atingir esse objetivo. O
“Método Giraldi” trabalha em cima do erro do aluno. O erro não pode ficar
na sua cabeça; só o acerto.
No “Método Giraldi” o aluno aprende ou... aprende
(GIRALDI, 2013a, p. 24).

Dessa forma, a proposta é preparar o policial, de forma condicionada, a


trabalhar nesse gravíssimo campo de atuação, onde o treinamento e o preparo
levará ao sucesso da missão, diminuição dos impactos negativos, e, com certeza, ao
salvamento de vidas, tanto dos presos rebelados, funcionários reféns e dos próprios
policiais.

2.2 Reintegração de posse

A reintegração de posse é uma ação executada pela polícia militar, por força
de uma decisão judicial, em que cabe à polícia acompanhar o Oficial de justiça, a fim
28

de que possa fazer a leitura do Mandado de reintegração de posse. Para fins do


trabalho a ser desenvolvido para a PPE, não entraremos na discussão do mérito e
nem nos problemas (social, cultural, de saúde, político, humanitário, habitacional,
etc.) da tomada de decisão de se reintegrar uma posse, pois a nossa necessidade é
focar, nesse momento, a aplicação operacional do efetivo que atuará nessa missão
de difícil resolução e, como já foi dito, com vários complicadores para o sucesso da
sua execução.
É necessário realizar o treinamento do efetivo operacional na PPE com as
dificuldades que ele irá encontrar no caso de reintegração de posse, para que ele
atue dentro dos limites legais, sem excessos, a fim de que esteja preparado de
forma técnica para agir de forma proporcional e não cause impacto negativo à
imagem institucional da Corporação.
Pensando em sistematizar o treinamento, propomos que ele seja executado
a fim de atender às necessidades de realizar uma reintegração de posse em área
urbana ou rural.
A reintegração de uma área urbana poderá ocorrer em ambiente com
edificação plana (casas, bairros, cortiços) com características de edificações
estruturais baixas, ou em área com edificação alta, dividida em vários pisos
(andares).
Levando-se em consideração a diferença apresentada, a reintegração de
posse urbana pode ser dividida em uma área horizontal ou vertical, e tal diferença
será preponderante durante a preparação, execução e treinamento da PPE para o
efetivo policial, pois deverá prever a necessidade de o policial atuar em campo
aberto e amplo ou em campo fechado, com escada e área restrita.
Quando a reintegração de posse ocorrer em área rural, existe uma
característica preponderante e que deve ser levada em consideração, que é a
grande extensão de área e com possibilidade de apresentar inúmeros obstáculos à
ação da polícia.
Enfim, a fase mais crítica de uma reintegração de posse, seja ela urbana
(horizontal ou vertical) ou rural, é a ocorrência de resistência das pessoas que
tomaram ilegalmente a posse de uma área. Essa resistência pode ser através da
existência de barricadas nas entradas da edificação, ao longo dos corredores, pelo
arremesso de objetos contra os policiais militares, de rojões ou a colocação de fogo
em objetos. Em alguns casos extremos podem ocorrer disparo de arma de fogo
29

contra os policiais e normalmente acontece quando ocorre a reintegração de posse


em áreas de interesse de segurança pública (AISP), onde se sabe que existem
infratores da lei, nas vulgarmente denominadas “favelas".
Para atuar em uma reintegração de posse, os pelotões de FT ou Choque
deverão adotar as técnicas mais apropriadas para realizar um deslocamento em
segurança, considerando as dimensões do ambiente operacional, e, como princípio
basilar, sempre atuar abrigados pelos escudos balísticos e com a varredura dos
atiradores, que, a todo instante, estarão atentos a ameaças ativas, tais como
arremesso de pedras, de rojões, de garrafas, de esferas de aço com uso de
estilingue e disparo de arma de fogo.
Discorre Giraldi sobre a proteção durante a atuação policial, no M-19-PM:
5. REALIDADE - PROTEÇÃO À VIDA - OBEDIÊNCIA À LEI:
A instrução deverá prever atuações as mais próximas possíveis da
realidade. Destaque especial para a proteção à vida do policial militar e de
terceiros, quando dessas atuações; assim como, a preservação da
integridade da Corporação; o respeito à Lei; à Ordem e à Política Policial
Brasileira. (GIRALDI, 2013a, p. 132).

É importante frisar e fixar para o policial, durante o treinamento, que é uma


atuação conjunta, na qual estará protegido, abrigado, apoiado por seu companheiro.
É com procedimentos corretos que muitas ocorrências de reintegração de
posse serão resolvidas naturalmente e sem a necessidade de se efetuar um único
disparo, e a PMESP cumprirá essa ingrata ordem judicial visando ao menor impacto
possível à vida das pessoas envolvidas nessa operação.

2.3 Desobstrução de via pública

Para discorrer sobre a necessidade de desobstrução de via pública, antes


vamos buscar a definição de via pública e o que prevê a Constituição Federal do
Brasil de 1988 a respeito de reunião de pessoas em vias públicas.
A via pública é por definição do art 2º, Capítulo do CTB:
[...]
Art 2º São vias terrestres urbanas e rurais as ruas, as avenidas, os
logradouros, os caminhos, as passagens, as estradas e as rodovias, que
terão seu uso regulamentado pelo órgão ou entidade com circunscrição
sobre elas, de acordo com as peculiaridades locais e as circunstâncias
especiais.
Parágrafo único. Para os efeitos deste Código, são consideradas vias
terrestres as praias abertas à circulação pública e as vias internas
pertencentes aos condomínios[...] (BRASIL, 1997, sem paginação)
30

Na Constituição Federal, podemos observar o que prevê o artigo 5º, inciso


XVI, que:
[...] todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao
público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra
reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas
exigido prévio aviso à autoridade competente.[...].(BRASIL, 1988, sem
paginação, grifo nosso).

Complementando cabe ressaltar o que discorre Romanek em sua


dissertação a respeito de intervenção policial quando frente a manifestações
violentas:
[...] o homem em toda sua história sempre demonstrou insatisfação com
algum contexto social, político ou econômico, algumas formas de protesto
começam e terminam pacíficas, entretanto grande maioria torna-se violenta,
ou desrespeita o direito alheio, sendo necessária a intervenção policial, tais
movimentos ocorrem em todo o mundo.
No Brasil, cabe às Polícias Militares, por força da Constituição Federal em
seu artigo 144 § 5º, a preservação da ordem pública, em seu trabalho
monográfico PRADO (2008, p.138) aduz a respeito da ordem pública:
Ordem Pública está definida nas Normas para o Sistema Operacional de
Policiamento como uma situação de tranquilidade e normalidade, que o
Estado deve assegurar às instituições e a todos os membros da sociedade,
consoante as normas jurídicas legalmente estabelecidas.
A ordem pública existe quando estão garantidos os direitos individuais, a
estabilidade das instituições, o regular funcionamento dos serviços públicos
e a moralidade pública, afastando-se os prejuízos a toda sociedade, isto é,
atos de violência, de qualquer espécie, contra a pessoa, o patrimônio ou o
próprio Estado.
Cabe às Polícias Militares a preservação da ordem pública, consoante
previsão legal, que se dá em duas frentes, ou seja, situação de
normalidade, quando é assegurada mediante ações preventivas com
atitudes dissuasivas, através do policiamento; situação de anormalidade,
onde a ordem pública foi violada, com a perpetração do ilícito penal,
devendo ser restabelecida mediante ações repressivas imediatas, com
atitudes de contenção.
PRADO complementa o raciocínio através do doutrinador Dr. Álvaro
Lazzarini:
Falar sobre segurança pública exige do doutrinador cauteloso a atitude de
sempre reportar-se à ordem pública, face à inter-relação existente entre
esses conceitos. Igualmente a festejados administrativistas pátrios e
europeus, entendo que a segurança pública é um dos aspectos da ordem
pública, concordo até que seja um dos seus elementos, formando a tríade
ao lado da tranquilidade pública e salubridade pública, como partes
essenciais de algo composto (ROMANEK, 2011a, p. 16).

É indiscutível o direito de uso das vias públicas para realização de


manifestação social, conforme analisado, porém cabe ressaltar que, por diversas
vezes, atos oriundos de manifestações quebram a ordem, ou ferem outros direitos
constitucionais, ou mesmo as vias públicas são ocupadas de forma ilegal,
necessitando de intervenção de força policial, com a finalidade de desobstruir a via
pública, reestabelecer a ordem e garantir a manutenção de outros direitos
31

constitucionais. É oportuno observar o que discorre em sua decisão o Juiz Federal


Fernando Henrique Corrêa Custódio:
[...] Já quanto ao segundo requisito legal, que no artigo 932, do CPC, é
colocado sob a expressão “justo”, e que em outras palavras representa a
verossimilhança das alegações formuladas, sob o aspecto jurídico, é
inegável que o direito de reunião, de manifestação e de livre expressão de
pensamento são garantias constitucionais, prescritas de forma expressa
pelo artigo 5°, incisos IV e XVI, da Constituição Federal de 1988.
Assim, não se pode simplesmente impedir que as pessoas se organizem, se
reúnam, manifestem-se e expressem suas posições, ainda mais dentro do
atual Estado Democrático de Direito no qual vivemos.
Isso inegável, indiscutível e os próprios autores reconhecem na petição
inicial.
Agora também é inegável que não existem direitos e garantias absolutas,
devendo todas ser exercidas dentro de limites de razoabilidade e
proporcionalidade, além de observarem os outros direitos e garantias
assegurados na Constituição Federal.
E, dentre estes outros direitos fundamentais, encontra-se expressamente
assegurado o direito à livre locomoção em todo o território nacional,
conforme prescrito pelo artigo 5°, inciso XV, da CF/88.
Ou seja, não se pode, prima facie, impedir que as pessoas se locomovam
dentro de território nacional, seja de que forma for, inclusive, por meio de
veículos que trafeguem em rodovias federais.
Mas, como compatibilizar estes direitos e garantias, aparentemente
contraditórios?
Na verdade o direito à livre locomoção importa em limite ao exercício do
direito de livre reunião e manifestação de pensamento.
Ou, em outras palavras os cidadãos possuem o legítimo direito de se
manifestar e se reunir, desde que observem o direito dos cidadãos de se
locomover pelo território nacional.
Aliás, aqueles primeiros direitos não são exercidos sem o gozo deste
último.[...](CUSTÓDIO, 2013, sem paginação)

Diante da necessidade de atuação e cercada por um momento político


conturbado, perante as diversas manifestações em via pública, está a força policial
presente através da policia militar. É com um treinamento adequado, com técnica e
táticas apropriadas que iremos preparar o policial para atuar de forma imparcial,
proporcional e dentro dos limites legais para reestabelecer a ordem, manter
inabalado o Estado de Direito Democrático e diminuir o desgaste da imagem
institucional, diante de uma impecável atuação policial.
Neste contexto, a PMESP se preocupa com as questões das garantias
individuais e dos direitos humanos, para tanto adotou e distribuiu para todas
as unidades PM, o Manual de Direitos Humanos e Direito Internacional
Humanitário para Forças Policiais e de Segurança. (Romanek, 2011, p. 18).

Para Rover:
Os encarregados da aplicação da lei devem não só conhecer os poderes e
a autoridade concedidos a eles por lei, mas também devem compreender
seus efeitos potencialmente prejudiciais [...] Não obstante, suas ações
deverão estar dentro da lei e não podem ser arbitrárias. (ROVER, 2010, p.
161 apud ROMANEK, 2011, p. 18).
32

A manifestação social em via pública é uma realidade, é uma previsão


constitucional o direito da livre manifestação e o uso de vias públicas, porém cabe à
polícia garantir os demais direitos das pessoas que não participam desses atos
públicos, garantir os direitos individuais e coletivos, preservando a ordem pública.
33

3 PRINCIPAIS MUNIÇÕES E ARMAMENTO PARA A PPE DE CDC

Inicialmente cabe ressalvar que, respeitadas as características operacionais


de cada batalhão da policia militar, poderemos ter variadas armas e munições (real e
não letal) à disposição do efetivo, para o seu uso nas mais diversas áreas de
atuação e ocorrências. O mais importante é que o preparo, treinamento e
operacionalidade do material que o policial tenha a sua disposição seja executado
de forma padrão, que esse treinamento seja simples, possível de ser repetido em
todas as unidades da PMESP, ou seja, conforme o M-19-PM:
Praticidade, baixo custo, fácil aprendizado
O “Método Giraldi” é extremamente simples, prático, barato, objetivo, lógico,
de fácil aprendizado; ao gosto e respeito dos policiais. Pode ser feito em
qualquer parte da mesma forma. Não exige local nem materiais sofisticados
para a sua realização. Realista, sem demagogia; não deixa margem para
qualquer tipo de acusação. Está à altura das necessidades da polícia, e do
policial para servir e proteger a sociedade e a si próprio.
Apresenta extraordinária economia de munição, alvos e outros materiais,
pois em torno de 90% dos exercícios são procedimentos; 10% disparos;
existindo fases em que nenhum disparo é efetuado, apenas procedimentos,
isto porque, na quase totalidade das vezes “procedimentos”, e não tiros, é
que preservam vidas, a começar pela vida do policial, e solucionam
problemas. Quando da instrução sob forma de “teatro”, que é o melhor, mais
moderno e avançado sistema de instrução com arma de fogo para o policial,
não há consumo de munição, alvos e outros materiais (GIRALDI, 2013a, p.
5, grifo nosso).

É importante frisar, conforme apresentado, que mais importante que a arma


ou o disparo realizado, é o procedimento que será executado, que resultará em uma
boa atuação do policial em operação, como trata Giraldi, no M-19-PM:
Leva em consideração que: “Não basta o policial saber o que tem que
fazer; tem que estar condicionado a fazer”.
“Não basta saber atirar; tem que saber quando atirar e saber executar
procedimentos, isto porque na quase totalidade das vezes procedimentos, e
não tiros, é que preservam vidas, a começar pela do policial, e solucionam
problemas”. Esses são os motivos pelos quais, quando da instrução, mais
de 95% dos exercícios são procedimentos; menos de 5% são disparos,
portanto, procedimento é regra disparo é exceção.
“Quanto mais bem preparado o policial estiver para usar sua arma menos
necessidade sentirá em fazê-lo mal preparado verá nela a solução para
todos os problemas” (GIRALDI, 2013a, p. 16, grifo nosso).

Portanto não daremos ênfase aos materiais, armamentos e munições, e sim


elencaremos, de forma suscinta, alguns equipamentos, armamentos, munições que
a PMESP tem a sua disposição, mostrando algumas características que auxiliarão a
entender o seu uso na formatação das PPE de “Treinamento de tiro (elastômero e
real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC –
34

padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE (pista


policial especial) complementar ao Método Giraldi”.
Cabe destacar as seguintes munições, granadas e equipamentos que
ajudarão a preparar as PPE propostas, que são: MIC (AM-403/P e AM-403/P
SHORT RANGE), MIC para a FN-303 (lançador de munição não-letal a ar
comprimido), granadas (GL-304, GL-305, GL-307, GL-300T, GL-300TH), o artefato
próprio para lançamento AM-640 e suas munições (GL-201, GL-202, GL-203L, AM-
470 SOFT PUNCH), arma com munição real (pistola de calibre .40) e a espingarda
calibre 12 Gauge.
As MIC, granadas e equipamentos que foram destacadas são possíveis de
encontrar à disposição do policial de FT e Choque da PMESP e são as que serão
utilizadas para a preparação das PPE.

3.1 A munição de impacto controlado (MIC) AM-403/P


A AM-403/P, conforme figura 3, é uma munição de impacto controlado,
considerada uma munição de emprego não letal, ou seja, quando a sua utilização é
feita de forma correta, atinge o oponente com menor potencial lesivo.

Figura 3 – Cartucho AM-403/P - projétil de borracha do tipo Precision

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br

Sua destinação principal é a de não causar letalidade, porém pode gerar


lesão no oponente e, em caso extremo, levar a um resultado negativo de morte, e
isso ocorre quando é utilizada de forma inadequada pelo operador.
35

O operador pode controlar os efeitos causados no oponente, por meio da


distância de emprego e local de disparo no corpo da pessoa atingida.
Contém um único projétil na cor amarela, conforme os dados do fabricante, e
a distância de segurança (faixa de utilização) a ser empregada é uma distância
superior a 20 metros em relação à pessoa, sendo que o disparo deve ser feito na
região das pernas.
Tal munição mostra-se de extrema importância em ação de controle de
distúrbio civil (desobstrução de via, controle de tumulto, reintegração de posse,
rebelião em estabelecimento prisional). A MIC AM-403/P deve ser utilizada não
como forma de dispersão ou movimentação da multidão em desordem, mas como
forma de proteção ao efetivo de policiais militares de possíveis ataques pontuais,
como, por exemplo, o lançamento de coquetel molotov, pedras, esferas de metal
arremessadas com estilingue, impactando de forma pontual o oponente agressor do
policial.

3.2 A munição de impacto controlado (MIC) AM-403/P SHORT RANGE

A AM-403/P SHORT RANGE, conforme figura 4, é uma munição de impacto


controlado, considerada de emprego não letal, ou seja, quando a sua utilização é
feita de forma correta, atinge o oponente, com menor potencial lesivo. Sua
destinação principal é a de não causar letalidade, porém pode gerar lesão no
oponente e em caso extremo levar a um resultado negativo de morte, e isso ocorre
quando é utilizada de forma inadequada pelo operador. A duas grandes diferenças
entre a AM-403/P Short Range e a AM-403/P, é que a AM-403/P Short Range
contém um único projétil na cor verde (conforme os dados do fabricante) e a
distância de segurança (faixa de utilização) a ser empregada é seu grande
diferencial, pois pode ser utilizada a partir de 5 metros a 20 metros em relação à
pessoa. A menor distância da faixa de utilização possibilita a atuação do policial
muito mais próximo do oponente e com menor possibilidade de causar uma lesão
indesejada. Também é uma munição de importante utilização em ação de controle
de distúrbio civil (desobstrução de via, controle de tumulto, reintegração de posse,
rebelião em estabelecimento prisional), e, semelhante à AM-403/P, não deve ser
utilizada como forma de dispersão ou movimentação da multidão em desordem, mas
36

para proteção ao efetivo de policiais militares de possíveis ataques pontuais, como,


por exemplo, o lançamento de coquetel molotov, pedras, esferas de metal
arremessadas com estilingue, impactando de forma pontual o oponente agressor do
policial.

Figura 4 - Cartucho AM-403/P – Short Range

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br

Embora exista a possibilidade de uma menor distância de atuação, não


exime o policial de efetuar o disparo em qualquer região do corpo, sendo indicado
que o disparo deve ser feito na região das pernas.

3.3 A munição de impacto controlado (MIC) para a FN-303 (lançador de


munição não-letal a ar comprimido)

A MIC para a FN-303 é uma munição de impacto controlado, considerada


uma munição de emprego não letal, ou seja, quando a sua utilização é feita de forma
correta, atinge o oponente com menor potencial lesivo.
As características dessa munição que mais chamam a atenção é que ela
pode ser de diferentes tipos, quanto a sua ação no oponente, variando de uma MIC
somente com característica de impacto (100% glicol atóxico), para uma MIC
37

marcadora não-lavável (tinta polimérica à base de látex), para uma MIC marcadora
lavável (pigmento fluorescente de glicol atóxico) e uma MIC de pimenta OC
(Oleoresim Capsicum – glicol atóxico laranja + 5% OC concentrado), Conforme
apresentado na figura 5.

Figura 5 – MIC para FN-303 - lançador de munição não-letal a ar comprimido

Fonte: .http://www.fnherstal.com

Conforme os dados do fabricante, a distância de segurança (faixa de


utilização) a ser empregada é superior a 1 metro em relação à pessoa. A
possibilidade de efetuar disparo à distância de 1 metro confere à munição do tipo
MIC para a FN-303 muito mais segurança e diminui consideravelmente o risco de
causar lesões indesejáveis ou um resultado de morte do oponente.
É de extrema importância o seu uso em ação de controle de distúrbio civil
(desobstrução de via, controle de tumulto, reintegração de posse, rebelião em
estabelecimento prisional), principalmente quando comparamos a sua faixa de
utilização de 1 metro a 50 metros com as demais MIC existentes. Essa menor
distância de utilização é ideal para ação em ambientes confinados e com pouca
distância entre o oponente e o policial militar.
Também não deve ser utilizada como forma de dispersão ou movimentação
da multidão em desordem, mas para a proteção ao efetivo de policiais militares de
possíveis ataques pontuais, como por exemplo, o lançamento de coquetel molotov,
pedras, esferas de metal arremessadas com estilingue, impactando de forma pontual
o oponente agressor do policial.
38

3.4 Granada

Pretendemos estudar neste tópico algumas granadas a fim de agrupá-las de


acordo com sua ação (explosiva, fumígena, mista, etc) para o seu uso no
treinamento da PPE. É lógico que, para cada tipo de granada, existe toda uma
característica técnica específica, princípio ativo, tempo de retardo do EOT (espoleta
ogival de tempo), enfim, todo um estudo aprofundado que pode ser feito de forma
individual, porém, para o momento, resolvemos agrupá-las nas seguintes
conformidades: explosiva (GL-304 e GL-307), mista (GL-305) e fumígena
lacrimogênea (GL-300T, GL-300TH), pois com a necessidade de padronizar um
treinamento de PPE elas representam os três tipos indicados conforme a sua ação
no ambiente.

3.4.1 Granada explosiva (GL-304 e GL-307)

A granada explosiva é utilizada para diminuir a capacidade combativa e


operativa do oponente, por seu efeito psicológico causado em sua deflagração.
Como exemplo de granadas convencionais mais usadas, temos a GL-304 (conforme
a figura 6) e a GL-307 (conforme a figura7).

Figura 6 – Granada explosiva GL-304

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br
39

A GL-304 (popularmente conhecida como de “efeito moral”) contém em seu


interior um talco inerte com o objetivo de dar peso ao corpo da granada, facilitar a
visualização de sua deflagração e direção do vento.
A granada GL-307 (popularmente conhecida como de “luz e som”) possui
grande efeito atordoante provocado pela deflagração da carga explosiva associado à
luminosidade intensa que ofusca a visão dos agressores por alguns segundos,
permitindo uma eficiente ação policial. A sua potência explosiva é em média quatro
vezes maior do que a potência de explosão da granada GL-304.

Figura 7 – Granada explosiva GL-307

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br

3.4.2 Granada mista (GL-305 e GL-308)

A granada mista é utilizada para diminuir a capacidade combativa e


operativa do oponente por seu efeito psicológico e fisiológico causados pela
dispersão no ambiente de “cs” (ortoclorobenzilmalononitrilo) ou da capsaicina,
ambos agentes químicos em seu estado sólido na forma de micro cristais.
O agente químico lacrimogêneo no estado sólido permanecerá mais tempo
no ambiente pela dificuldade em se dispersar, diferentemente do que ocorre com o
agente químico presente na granada fumígena.
40

A granada mista GL-305, mostrada na figura 8, possui em seu interior o


agente químico “cs” (ortoclorobenzilmalononitrilo) que entrará em suspensão no ar
quando ocorrer a deflagração da granada.

Figura 8 – Granada mista GL-305

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br

A granada mista GL-308, mostrada na figura 9, possui no seu interior o


agente químico capsaicina que entrará em suspensão no ar quando acorrer a
explosão da granada. Essa granada possui corpo cilíndrico de borracha flexível e é
apresentada na coloração verde.

Figura 9 – Granada mista GL-308

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br
41

Finalmente salienta-se que o agente químico lacrimogêneo no estado sólido


permanecendo no ambiente pela dificuldade em se dispersar, representa uma
desvantagem para a força policial que necessitará passar pelo local da deflagração,
fazendo com que o policial militar também seja afetado pelo efeito do agente
lacrimogêneo.

3.4.3 Granada fumígena lacrimogênea (GL-300T, GL-308TH)

É a granada utilizada com o objetivo de causar um desconforto fisiológico no


oponente, diminuindo sua capacidade combativa e operativa, causando irritação da
derme, ocular e nas vias aéreas superiores. É composta à base de
ortoclorobenzilmalononitrilo (“cs”), e mostram-se como uma excelente alternativa de
dispersão da multidão pela ação dos gases que ela emite em sua combustão.
O policial lançador da granada deve observar a topografia do terreno bem
como a direção do vento ao realizar o lançamento da granada, para que o efeito da
ação da granada não atinja a força policial.
Por não ser explosiva, essa granada não possui distância de segurança na
sua faixa de utilização, porém não pode ser usada em local fechado devido ao seu
processo de combustão. Dois exemplos desse tipo de granada são: GL-300T,
mostrada na figura 10 e a GL-300TH , mostrada na figura 11.

Figura 10 – Granada fumigena lacrimogênea GL-300T

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br
42

Figura 11 – Granada fumigena lacrimogênea GL-300TH

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br

3.4.4 Artefato de lançamento AM-640 e suas munições (GL-201, GL-202, GL-203L,


AM-470 SOFT PUNCH)

O artefato de lançamento AM-640, conforme figura 12, é utilizado para a


projeção a médio e longo alcance de granada de queima com liberação de agente
químico.

Figura 12 – Artefato de lançamento AM-640

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br
43

A distância de alcance da granada irá depender da destreza e técnica do


operador em executar um bom disparo, e do tipo de granada que for utilizada. Entre
as granadas de projeção mais comuns, temos as seguintes: a GL-201 (lacrimogênea
de médio alcance), mostrado na figura 13, que pode atingir a distância de 60 metros
a 120 metros, a GL-202 (lacrimogênea de longo alcance), mostrada na figura 14,
que pode atingir a distância de 90 metros a 150 metros e a GL-203/L (lacrimogênea
de carga múltipla) com capacidade de lançar no ambiente cinco canisters contendo
“cs” que são dispersos após o disparo e que podem atingir uma distância de 70
metros a 90 metros.

Figura 13 – Granada GL-201

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br

Figura 14 – Granada GL-202

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br
44

Para a execução de um disparo de qualidade da GL-203/L, mostrada na


figura 15, é importante observar o terreno em que será utilizada a munição, pois
cada canister tem abertura de afastamento de aproximadamente 05 metros um do
outro, alcançando entre eles a distância de abertura de aproximadamente 25 metros
horizontalmente da primeira à última pastilha.

Figura 15 – Granada GL-203/L

Fonte: . http://www.condornaoletal.com.br

Figura 16 – AM-470 SOFT PUNCH

Fonte: http://www.condornaoletal.com.br

Finalmente o uso da munição AM-470 SOFT PUNCH, conforme figura 16,


que foi desenvolvida para o uso em operações sem provocar lesões permanentes no
45

oponente e que pode ser disparada com faixa de utilização de 5 metros a 30 metros
do alvo a ser atingido.

3.5 Pistola .40

O uso de um armamento com munição real para a atuação de pelotão de


Força Tática e Choque, em situação de controle de distúrbio civil, é de extrema
importância, pois cabe lembrar que o uso da força policial deve priorizar critério de
legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência à ação que
está combatendo. Cabe neste momento citar a Portaria Interministerial nº 4.226/10,
que estabelece diretrizes sobre o uso de força pelos agentes de Segurança Pública
Federal, incentivando os Estados membros para que também a coloquem em
prática:
[...]
1. O uso da força pelos agentes de segurança pública deverá se pautar nos
documentos internacionais de proteção aos direitos humanos e deverá
considerar, primordialmente:
a. ao Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela
Aplicação da Lei, adotado pela Assembléia Geral das Nações Unidas na
sua Resolução 34/169, de 17 de dezembro de 1979;
b. os Princípios orientadores para a Aplicação Efetiva do Código de
Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei,
adotados pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas na sua
resolução 1989/61, de 24 de maio de 1989;
c. os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, adotados pelo Oitavo
Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tratamento
dos Delinqüentes, realizado em Havana, Cuba, de 27 de Agosto a 7 de
setembro de 1999;
d. a Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos ou penas Cruéis,
Desumanos ou Degradantes, adotada pela Assembléia Geral das Nações
Unidas, em sua XL Sessão, realizada em Nova York em 10 de dezembro de
1984 e promulgada pelo Decreto n.º 40, de 15 de fevereiro de 1991.
2. O uso da força por agentes de segurança pública deverá obedecer aos
princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e
conveniência. (BRASIL, 2010, g.n, grifo nosso).
[...]

Também é importante frisar que se tenha exato controle de quais policiais


estarão encarregados de executar a segurança do efetivo, fazendo uso de
armamento com munição real, com a finalidade de coibir eventuais abusos,
excessos e ações desproporcionais àquela praticada contra o efetivo policial. É justo
e legal que a força polical reaja a uma agressão de arma de fogo do seu oponente,
porém observando que seja dentro de um parâmetro legal.
46

Normalmente o armamento com munição real estará em posse do oficial,


sargentos e atiradores do pelotão, sendo que tal alternativa tática será utilizada em
casos extremos, como excludentes de ilicitude (legítima defesa, estado de
necessidade e estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito),
todos previstos no ordenamento jurídico brasileiro.

3.6 Espingarda calibre 12 gauge

É uma arma versátil, pois pode ser utilizada tanto para munição real, como
para uma MIC em casos de ação de CDC (exemplo da AM-403/P e AM-403/P
SHORT RANGE que são disparadas por ação da espingarda cal. 12). É uma arma
extremamente importante para o policiamento e ação de CDC, devido ao seu
impacto psicológico e versatilidade.
Embora versátil, há a necessidade de cautela quanto ao seu uso para que
não ocorra a confusão de que tipo de munição o armamento está carregado
(munição real ou MIC). O ideal é que se acompanhe a proposta operacional para
uso de espingarda calibre 12 gauge, de Romanek (2011, p.79):
6.4 Coronha da Cal. 12 em cor diferenciada para ações de CDC
Importantíssimo prever na PMESP a diferenciação entre os armamentos
alimentados com munições letais, daqueles alimentados com munições
menos que letais utilizados em ações de restauração da ordem pública.
A imediata identificação do armamento com munição de elastômero no
teatro de operações em muito facilitará a atuação do Comandante da
Operação, que terá condições de visualizá-la e diferenciá-la das demais,
aprimorando seu raciocínio tático para o devido posicionamento estratégico
do atirador e do segurança real da tropa.
O operador da cal. 12 também terá seu serviço facilitado, pois diminuirá a
possibilidade de alimentar o armamento com munições letais, tendo em
vista que a cor laranja será associada às munições de elastômero, e quando
da necessidade de revezamento de operadores também será fácil associar
que tipo de munição a arma possui sem a necessidade de verificação, isto
se a tropa estiver bem treinada para essas missões.

O policial indicado a ser o atirador do pelotão, deve, além de saber


manusear tecnicamente o armamento, estar também preparado psicologicamente
para não cometer excessos durante a operação, sendo que é importante haver a
junção do Homem, Equipamento e Treinamento.
47

4 PADRONIZAÇÃO TÉCNICA

A padronização técnica de procedimentos para o treinamento de tiro de


PPE, para a atuação de força tática e choque é necessária e urgente, pois, quando
existem padrões de atuação, as ações são executadas seguindo parâmetros que
anteriormente foram testados e aprovados, diminuindo com isso os riscos de falhas
operacionais e desgaste da imagem da PMESP. E comenta Romanek (2011, p. 27):
Na prioridade de emprego de meios, observa-se que a carga de cassetete é
uma das últimas alternativas táticas, então, se houver treinamento correto
para a utilização das munições de elastômero, e em consequência, das
próprias munições químicas, teremos menor possibilidade de lesão corporal
nos manifestantes, e maior probabilidade de dispersão rápida da massa,
inibindo desgaste de imagem institucional.

A correta atuação de policias que atuam em situações de CDC diminui o


desgaste da imagem da Corporação perante a opinião pública, portanto a seguinte
proposta de criar padrão de treinamento do policial que atua em FT e Choque,
conforme segue:

4.1 A necessidade de padronização de procedimentos

A Polícia Militar do Estado de São Paulo possui aproximadamente 100 mil


homens; formar e manter o treinamento desse efetivo ao longo do tempo é tarefa
muito difícil e necessita de investimento constante. A área de ensino na Polícia
Militar é muito grande, e a ela cabe a árdua função de formar, especializar e treinar
todos os integrantes da instituição.
Apesar do grande trabalho executado pela DEC, às vezes a Polícia Militar é
surpreendida com situações em que o treinamento deve ser feito de forma rápida e
emergencial para um grande número de policiais.
Como exemplo dessa necessidade emergencial, citamos o que vem
ocorrendo com a área de atuação do policiamento de choque, pois o curso de
especialização de controle de distúrbio civil, que antes era restrito aos batalhões de
choque e força tática, hoje é primordial a todo o efetivo da Corporação a fim de
terem noções básicas de controle de distúrbios civis, face aos últimos
acontecimentos que eclodiram no mês de junho de 2013 e com forte tendência a
serem intensificados nos próximos anos, pois o Brasil é foco da atenção mundial em
48

virtude de sediar a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em


2016.
Como já foi dito, desde junho de 2013, a PMESP tem-se defrontado com um
problema que, se não é novo, pelo menos, nos últimos anos, nunca ocorreu com
tamanha intensidade e amplitude: são as inúmeras manifestações públicas ocorridas
em várias cidades do estado, mas, principalmente, na capital.
Esses acontecimentos recentes trouxeram à tona algumas deficiências da
Polícia Militar, entre elas a de que nem todos os policiais estão efetivamente
preparados para lidar com manifestações públicas, o que tem feito com que alguns
policiais excedam em suas atitudes ou acabem sendo feridos nesses confrontos.
Nenhuma das duas possibilidades, excessos ou ferimentos de policiais, é aceitável
para um profissional de Segurança Pública, pois não queremos o excesso por parte
do policial, mas também não podemos nos conformar com os ferimentos sofridos no
nosso efetivo.
Entre as cenas mais marcantes mostradas pela mídia estão filmagens de
pessoas feridas por MIC e granadas. Algumas pessoas são mostradas com
ferimentos na cabeça, outras com olho perfurado e consequente perda da visão.
Vale lembrar que tais equipamentos possuem manual técnico informando que não é
permitido o disparo de uma MIC acima da linha da cintura, e que as granadas devem
ser lançadas a uma distância mínima de 10 metros de qualquer pessoa.
São cenas fortes que maculam e desgastam a polícia militar, pois
transmitem para a população a imagem errônea da nossa corporação, deixando as
portas abertas para críticas levianas de que nossa polícia é truculenta, despreparada
e mal treinada. Sabemos que nosso compromisso é com o cidadão e o bem servir,
uma polícia legalista, e não podemos deixar que uma recorrente falha operacional
continue a manchar a nossa Corporação. Logo, é necessário e urgente que sejam
criados e publicados manuais de padronização técnica que tratem desse assunto.
Ficamos, por isso, com perguntas que precisam ser respondidas: Como
treinar tanta gente em tão pouco tempo?; Quem será o responsável por esse
treinamento?; O que passar de conhecimento?; Em quantos dias?; Realizar o
aprendizado em forma de estágio ou curso?. São questões que devem ser
respondidas a fim de que se possa tentar resolver esse problema.
Uma questão que primeiramente deve ser respondida é “O que ensinar?”; e
por ser nossa instituição tão grande e com atuação nos mais variados locais do
49

estado, o conhecimento a ser passado deverá ser simples e aplicável, conforme


exposto no M-19PM:
Praticidade, baixo custo e fácil aprendizado.
O “Método Giraldi” é extremamente simples, prático, barato, objetivo, lógico,
de fácil aprendizado; ao gosto e respeito dos policiais.
Realista, sem demagogia; não deixa margem para qualquer tipo de
acusação. Está à altura das necessidades da polícia e do policial para servir
e proteger a sociedade e a si próprio. (GIRALDI, 2013a, p. 25)

Portanto temos que realizar o treinamento desse efetivo de forma rápida,


emergencial, com a necessidade de padronização de procedimentos, porém
atendendo à realidade da nossa instituição: que atenda tanto aos policiais que hoje
eventualmente trabalham em batalhões especializados, bem como os policiais que
estejam no mais distante destacamento do Estado de São Paulo; que tenhamos
padrões que possam ser treinados e aplicados de forma simples, que possam ser
repetidos por todos os policiais, após passarem pelo treinamento adequado de PPE
para habilitação em uso de MIC.
A formatação do “Treinamento de tiro (elastômero e real) e uso de granadas
por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC – padronização de
técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE complementar ao
Método Giraldi” tem a esperança de complementar o Método Giraldi, também
atendendo a esse importante critério da simplicidade, levando o conhecimento
técnico ao máximo de policiais possíveis, com o intuito de ser utilizado por todos que
o necessitem, evitando-se, por exemplo, a adoção de equipamentos que não
estejam acessíveis a todos os policias.
Todo policial deve ter a capacidade de agir dentro dos mesmos princípios,
esteja ele em qualquer cidade do estado de São Paulo. Isso nos leva a concluir que
deve haver então uma “Padronização Técnica” daquilo que se pretende ensinar.

4.2 Do treinamento

4.2.1 Treinar aquilo que se vai fazer

É uma necessidade a realização do “Treinamento de tiro (elastômero e real)


e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC –
padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE
complementar ao Método Giraldi”. É ensinar um procedimento que mostre ao policial
50

na situação de discente, um teatro de operação próximo do daquele encontrado na


prática. Como exemplo: o treinamento de defesa pessoal é quase sempre executado
entre dois alunos, sendo que um terá a função de aplicar o golpe e o outro o de ser o
agressor que será imobilizado. Só de saber que será o agressor, normalmente o
aluno já toma uma atitude passiva, não impondo resistência ao aluno que irá
imobilizá-lo. Sabemos que tal situação dificilmente acontecerá na prática, sendo o
mais comum haver muita resistência por parte daquele que será imobilizado. Por
que então não se treina dessa forma? Giraldi esclarece no M-19 PM que a pessoa
só repetirá na situação real aquilo que efetivamente treinou!
Como as bases do “Método Giraldi” são os “reflexos condicionados
positivos, a serem adquiridos pelo policial em treinamentos imitativos da
realidade, com eliminação dos negativos”, isso deverá ser buscado desde o
início da instrução.
O professor trabalhará, intensamente, em cima do erro do aluno; enquanto
ele não estiver condicionado a executar o exercício corretamente e sem
dificuldades, não avançará na instrução. (GIRALDI, 2013a, p. 25)

Fato semelhante ocorre com as aulas de treinamento de tiro voltado ao


controle de distúrbio civil, pois não existe a possibilidade de o policial obter sucesso
na operação policial, se ele não for treinado com PPE que simule a característica de
uma operação diferente da realidade policial rotineira.
Para uma ação policial em situação de presídio, reintegração de posse e
atuação em via pública, o policial deve ser preparado para esse cenário de crise,
não podendo o seu treinamento ficar restrito somente ao estande de tiro
convencional, utilizando-se de alvo de papel para treinar o disparo com uma MIC.
Quando treinado para executar um disparo convencional em que busca o acerto no
centro do alvo de papel, o policial, em situação de confronto de CDC, não
responderá corretamente à necessidade de efetuar um disparo na região abaixo da
linha da cintura (local recomendado pelo fabricante das MIC adquiridas pela
PMESP), pois ele nunca treinou para atuar nessa situação, conforme assevera
Giraldi no M-19-PM:
O treinamento é feito com o policial usando o mesmo uniforme; armamento;
munição; equipamentos, incluindo os de proteção; e circunstâncias idênticas
às que poderá encontrar na vida real.
O policial treina da mesma forma como trabalha ou irá trabalhar. Treinar de
um jeito e atuar de outro é tragédia na certa. (grifo nosso)
Esses são, conforme já foi retro esclarecido, alguns dos motivos pelos quais
o “treinamento virtual”; também com “paint ball”; etc., não serve para
preparar o policial com a finalidade de usar sua arma de fogo para servir e
proteger a sociedade e a si próprio. (GIRALDI, 2013a, p. 43)
51

Exceto no 3º Batalhão de Polícia de Choque, não existe padronização,


treinamento e preparação técnica do policial que atuará em situações descritas
acima (presídio, reintegração de posse e atuação em via pública), para que ele atue
de forma conjunta com seu pelotão e em um mesmo teatro de operações, onde
exista a possibilidade de que o policial seja submetido ao treinamento de
lançamento de granadas, como manuseá-las, transportá-las, como executar um
disparo com munição real com a pistola .40, como se posicionar junto ao seu grupo
de atuação ou pelotão, como efetuar disparo com a MIC, ou seja, aproximando o
seu treinamento da realidade que ele vivenciará nas ocorrências de controle de
distúrbios civis.
Na ocorrência de CDC, o policial envolvido utilizará todos esses materiais de
forma conjunta ou estará próximo a outro policial, que estará fazendo uso dessas
munições e armamentos de menor potencial lesivo, e precisa estar condicionado a
essa situação, e o treinamento na PPE é a melhor forma de prepará-lo.
É preciso condicionar o policial a essa atuação em grupo, para que ele não
atue de forma isolada, condicionar o policial a agir corretamente diante de tal
situação. É válido treinar o policial para cada procedimento em separado (tiro policial
com munição real, lançamento de granada e disparo com MIC), porém é
imprescindível que ele seja treinado para executá-lo dentro das formações de um
pelotão de choque. A melhor forma de resolver esse problema é treinar o mais
próximo possível do que ele irá encontrar quando estiver atuando nas ruas. É um
tipo de treinamento mais difícil de ser realizado, mas com resultado muito mais
efetivo, capacitando o policial a trabalhar perante essa nova realidade operacional,
treinando-o para evitar falhas, conforme descrito no M-19 PM:
Ensinar o policial a atuar, com técnica, com tática, com psicologia, com
profissionalismo, com segurança, dentro dos limites das Leis e dos Direitos
Humanos no caso de ter que usar sua arma de fogo em defesa própria e
para servir e proteger a Sociedade.
Que o policial não tem posição fixa de tiro. Que a melhor posição de tiro,
para o policial, é aquela que e o auxilia na solução dos problemas; preserva
a sua vida e a sua integridade física; a vida e a integridade física de
pessoas inocentes, ou de pessoas contra as quais não há necessidade de
disparos (agressoras).
Administrar o estresse. Na quase totalidade das vezes o estresse é o maior
inimigo do policial durante um confronto armado. As pistas ensinam-no a
administrá-lo.
Usar a “razão” e não a “emoção”. (GIRALDI, 2013a, p. 48)

É com a junção efetiva do aprendizado de tudo que o policial tem a sua


disposição (disparo de munição real, granada, MIC) em uma atuação de CDC, com a
52

simulação de uma PPE, conforme cita Giraldi inúmeras vezes em sua obra, que
poderemos atingir o sucesso nas missões complexas de atuações em presídio,
reintegração de posse e atuação em via pública.

4.2.2 Do treinamento conjunto de tiro

O treinamento do policial para controle de distúrbios civis, utilizando


equipamento, armamento e munições de menor potencial lesivo, bem como de
armas e munições reais, deve sempre ser feito em conjunto com outros policiais,
pois é isso que ele vivenciará na prática.
O correto posicionamento do policial no pelotão para a ação de controle de
distúrbio civil, esteja ele empenhado na função de escudeiro, atirador, lançador,
segurança, etc, é um dos pontos fortes da doutrina e formação de um policial apto a
atuar em situações de CDC, pois é através desse correto posicionamento que o
treinamento conjunto de tiro deve ser realizado, estando todos os policiais inseridos
nesse teatro de operações. O treinamento da PPE para o CDC deve ser realizado
considerando a inserção do policial nas formações de choque prevista no M-8 PM,
(2011, p.15):
Subseção II
DAS FORMAÇÕES ADOTADAS PELO PELOTÃO DE CHOQUE
1. Divisão didática: As formações serão adotadas de acordo com a
necessidade e levando-se em consideração: o terreno, o formato da massa,
seu tamanho e a direção que se quer dar à mesma. São elas:
1.1. básicas: em coluna por três; em coluna por dois;
1.2. ofensivas: em linha; em cunha; em escalão à direita; em escalão à
esquerda;
1.3. defensivas:
1.4. dinâmicas: guarda alta; guarda alta emassada; escudos ao alto;
escudos acima;
1.5. estáticas: guarda baixa; guarda baixa emassada;
1.6. ataque: carga de cassetetes
1.7. de invasão de estabelecimentos prisionais: formação “meia lua”;
formação em “L”, formação “Diagonal”; e outras formações adequadas a
estabelecimentos específicos [...]

Como já escreveu Giraldi (2013, p.63), que o policial tem que treinar aquilo
que vai executar, com o equipamento, fardamento, arma que ele usa no seu
cotidiano, ou seja, quando não treinamos de forma adequada ao nosso trabalho, e
atuamos de qualquer forma, é tragédia na certa!
Enfim, treinar dentro das formações de CDC previstas no M-8 PM, torna-se
condição primordial para uma boa atuação em condições reais, pois como esperar
53

um bom resultado e a execução correta na ação, de algo em que o policial


executante nunca foi treinado, preparado, corrigido e orientado, fixando na sua
mente a ação correta? É impossível esperar que o sucesso ocorra, e o mais
provável é que o policial cometa erros operacionais, que poderiam ser evitados
simplesmente com treinamento adequado.
Quanto à estrutura física do local de treinamento, podemos variar,
incrementar, inovar, pois as ações de CDC acontecem em uma gama variada de
local, desde áreas estreitas e confinadas (presídio, reintegração de posse em
edifícios), até áreas abertas e amplas (grandes avenidas, rodovias, reintegração de
posse rural), e esse fator inovador facilita a aplicação da PPE para o “Treinamento
de tiro (elastômero e real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de
força tática e CDC – padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de
criação de PPE complementar ao Método Giraldi”, pois poderemos treinar esse
efetivo com MIC, granadas e outros meios de menor potencial lesivo, sem ter a
necessidade de deslocamento a um estande de tiro, pois não há a obrigatoriedade
de execução do disparo com munição real.
Vale lembrar que o policial também deverá estar portando todo o
equipamento de proteção individual regulamentar (EPI) de seu uso rotineiro. Dessa
forma irá perceber, já no treinamento, como o uso de coletes, luvas, capacete e
perneira podem limitar seus movimentos e, antecipadamente, acostumar-se a tais
situações. Seguindo esses preceitos, o policial irá encontrar, no treinamento, todas
as limitações e dificuldades que irão ocorrer na situação real, podendo assim,
preparar-se antecipadamente para elas.

4.2.3 Do treinamento com MIC, granada e munição real

Antes de partir para o treinamento conjunto da PPE “Treinamento de tiro


(elastômero e real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força
tática e CDC – padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação
de PPE complementar ao Método Giraldi”, como citado acima, o policial deverá
conhecer todo o equipamento que será colocado a sua disposição. Para isso ele terá
instruções individuais sobre cada artefato. Deverá também efetuar lançamentos e
disparos com todo o equipamento disponível.
54

Nessa fase do treinamento, o policial efetua os procedimentos isoladamente,


devidamente orientado e acompanhado pelo professor, realizando lançamento de
granada, disparo com a MIC e disparo com munição real, e, após sanar suas
dúvidas, realizará o treinamento conjunto aplicado às PPE que serão preparadas.
Somente após este treinamento individual é que o policial partirá para o treinamento
em conjunto com os demais policiais do pelotão. Basicamente o policial deverá
treinar e ser preparado para o uso de MIC, granada e munição real em atuação
conjunto com seu pelotão.
É importante frisar, nesse momento, que existe a necessidade de que todo
policial apresentado para ser submetido à PPE, anteriormente esteja habilitado no
Método Giraldi, para o uso de pistola, ou seja, já tenha vivenciado a instrução da PPI
e PPA implantadas na PMESP para habilitação no referido método.
Para o treinamento com MIC deverá ser realizado de forma a contemplar a
utilização de todas as armas destinadas ao disparo de uma MIC, disponíveis na
instituição para tal fim, como exemplo, a espingarda cal. 12, o lançador AM-640 e a
FN-303 (adquirida recentemente na PMESP).
Especialmente por se tratar de uma MIC, não é obrigatório que a instrução
seja realizada em estande de tiro convencional, podendo o local escolhido ser
edificações, áreas abertas, e até mesmo sedes de pelotões, companhias, batalhões
ou outra OPM, porém com cautela na observação da dispersão de gases e outros
agentes químicos expelidos através da queima, das munições para o uso do AM-
640, pois nesse caso trata-se de um armamento com possibilidade de projeção da
munição a aproximadamente uma distância de 150 metros.
Esse primeiro contato do policial com todo o armamento disponível e as MIC
é importante e indispensável, pois será o momento em que receberá as orientações
quanto à munição e à dinâmica de cada disparo. É também o momento em que
receberá toda a instrução teórica constante no manual do fabricante e nas diversas
normas internas que tratam do assunto.
A instrução sempre deve ser encarada como um investimento, com a
finalidade de garantir ajustado suporte legal ao preparo e desenvolvimento dos
policiais militares.
A Instituição encontra-se num estágio evolutivo, avançado e consolidado na
Gestão do Conhecimento e Inovação por considerar que a evolução e a
inteligência aplicada à polícia ostensiva é o maior investimento para
assegurar que a ação policial seja eficaz, eficiente e efetiva. (PMESP, 2010,
p. 47).
55

Afinado com o que encontramos na GESPOL, recomendamos que o policial


realize disparos com cada tipo de munição para que seja considerado habilitado
como usuário.
Para a aferição do disparo realizado com a MIC em treinamento, o alvo
deverá ser colocado rente ao chão, representando a silhueta das pernas de uma
pessoa, pois é uma previsão do fabricante das MIC (CONDOR) e das normas
internas da PMESP que seja realizado o disparo visando a linha abaixo da cintura. O
alvo para a MIC pode ser montado em conjunto com o alvo da silhueta da parte
superior do corpo, que normalmente é utilizado em treinamento para disparo de tiro
real.
O resultado aferido do disparo será transcrito em uma planilha, semelhante à
utilizada hoje pelo curso básico do Método Giraldi, para fins de conceito, publicação
em nota para boletim interno (NBI) e controle junto ao registro individual de tiro (RIT)
do policial.
Para o treinamento com granada, não é o intuito desse trabalho ser definido
como um único método de habilitação, entretanto tal assunto deve ser abordado,
uma vez que a granada é utilizada em conjunto com a MIC, e é parte integrante de
uma ação de CDC, sendo um dos meios utilizados, dentro da possibilidade de uso
proporcional da força, para combater uma ação ofensiva contra os policiais ou
mesmo restabelecer a ordem. Considerando a prioridade de emprego de meios, o
M-8 PM estabelece como uma opção o uso da granada para ações de CDC:
2.2.5. Emprego de Agentes Químicos, munições explosivas e munições
de impacto controlado: o emprego de agentes químicos tem se revelado
extremamente eficaz na dispersão de uma turba. Alguns cuidados, no
entanto, devem ser tomados, como, por exemplo a verificação da direção do
vento (favorável à tropa) ou o uso de máscaras de proteção contra gases.
2.2.5.1. Conforme o grau de intensidade e da concentração de agentes
químicos varia seu efeito. Baixas concentrações farão com que a multidão
se ponha em fuga enquanto altas concentrações causam temporariamente
cegueira e outros transtornos, como o pânico, deixando indefesos os
membros da multidão.
2.2.5.2. A concentração do agente químico ideal irá variar de acordo com a
conformação física do terreno, a área útil e as condições climáticas. O gás
tende a se dispersar mais na parte matutina e a permanecer em ação maior
na vespertina.
2.2.5.3. Os distúrbios podem ser controlados a uma distância segura, por
meio de projéteis disparados por armas especiais. Em distúrbios menores
ou quando a distância seja suficiente, a utilização combinada de granadas
fumígenas com petrechos de gás provocam grande efeito psicológico e tem
se mostrado altamente eficaz. (PMESP, 2011, p.47).

Podemos verificar que o uso de granada precede o uso de MIC, pois é uma
questão de atingir fisiologicamente o oponente: quando usamos o emprego de
56

agentes químicos, eles ocasionam a diminuição momentânea de visão, irritabilidade


de mucosa, diminuição da capacidade respiratória, ardência e desconforto no
oponente; quando usamos as munições explosivas, elas ocasionam a diminuição da
sensação de equilíbrio, desorientação momentânea, dores devido a impacto de
estilhaços; quando usamos as munições de impacto controlado, elas ocasionam
uma sensação de dor localizada intensa. Usar de forma sincronizada e racional as
munições químicas, munições explosivas e munições de impacto controlado, ou
seja, em uma sequência lógica e proporcional, servirá para desestimular a
continuidade de uma ofensiva contra os policiais, restabelecer a ordem e controlar a
multidão violenta.
Não há necessidade de que o policial em treinamento efetue o lançamento
de todo tipo de granada existente na PMESP, mas é importante e imperativo que o
policial domine as técnicas de lançamentos, que são semelhantes a todas as
granadas. É importante que ele conheça e domine o uso com segurança da
granada.
Quanto ao efeito da ação química, essa poderá variar de acordo com o
agente químico específico de cada granada (CS, OC), e não irá interferir no
procedimento executado no ato do lançamento.
É importante que a formação e informação técnica do policial usuário da
granada sejam realizadas de forma primordial, essencial no uso desse meio
disponível para a ação de CDC. É de suma importância que o policial saiba operar
corretamente o uso da granada.
O policial em treinamento deverá receber toda a instrução teórica sobre
granadas, constantes nos manuais do fabricante e nas diversas normas internas que
tratam do assunto, sendo indicado que realize pelo menos dois lançamentos de
granadas: deve ser realizado um lançamento utilizando-se de granada do modelo
explosiva e outro lançamento utilizando-se de granada do modelo fumígena
lacrimogênea, para que, após todo o conhecimento teórico adquirido, possa aplicar,
na prática e em conjunto, outras técnicas de CDC.
No resultado final da avaliação do policial, deverá constar o conceito apto ou
inapto ao uso de granada da PMESP, com publicação em NBI e juntada ao RIT.
Finalmente para o treinamento com munição real do estágio de habilitação
para o uso de MIC, é necessário que o policial aluno já seja habilitado para uso da
pistola .40 através do “Tiro Defensivo na Preservação da Vida – Método Giraldi”,
57

pois já terá o aprendizado de ter sido submetido a uma PPI e PPA, e à aplicação do
“Treinamento de tiro (elastômero e real) e uso de granadas por policiais que atuam
em pelotões de força tática e CDC – padronização de técnicas de atuação em grupo
e proposta de criação de PPE complementar ao Método Giraldi”, que será realizado
de forma continuada do já aprendido anteriormente na PPI e PPA, aproveitando o
seu conhecimento e bagagem anteriores adquiridos.
O disparo de arma de fogo com tiro real da pistola também entrará como
uma possibilidade de atuação do policial quando em ações de CDC, desde que
observados os critérios legais já citados. É uma ação extremamente criteriosa, pois
devemos atentar para o uso progressivo da força, a legalidade da ação e considerar
o que preceitua Giraldi como doutrina, no M-19-PM:
O “Tiro Defensivo na Preservação da Vida”, “Método Giraldi”, e sua
“Doutrina”, para a atuação armada da polícia, com a finalidade de “servir” e
“proteger” a Sociedade, estabelece que tudo aquilo que for possível
solucionar sem disparos, sem bombas, sem “invasão” (entrada), sem
necessidade do uso da força, assim o será. Mas, se a “força” e/ou a arma
de fogo, como últimas alternativas, tiverem que ser usadas, não haverá
nenhuma dúvida sobre seu emprego. A Justiça garante esse emprego. A
arma, por exemplo, não é enfeite; é ferramenta de trabalho. O instituto da
“legítima defesa” é universal. (GIRALDI, 2013a, p. 105)

Durante o treinamento da PPE, devemos também tratar sobre a


transposição de arma, principalmente a troca de posição do policial com a
espingarda cal.12 pelo policial com a pistola .40, e vice versa, durante execução da
operação de CDC, pois o disparo com munição real, geralmente nas ações de CDC
é precedido de uma ação em que já está em uso a espingarda cal. 12 com MIC.
O resultado aferido do disparo com munição real será transcrito em uma
planilha, semelhante à utilizada pelo curso básico do Método Giraldi no M-19-PM,
para fins de conceito, publicação em nota para boletim interno e controle junto ao
registro individual de tiro do policial.

4.3 Do estágio

Conforme já explanado neste trabalho, a Polícia Militar do Estado de São


Paulo, face aos últimos acontecimentos, viu-se diante do desafio de como treinar de
forma rápida e eficaz o maior número possível de policiais para atuarem junto às
manifestações públicas. Num primeiro momento, o público que mais necessita
passar por esse treinamento são os integrantes das forças táticas e dos batalhões
58

de choque, pois estão na linha de frente dos confrontos com manifestações sociais
violentas, reintegram posse por ordem judicial e podem ser usados em ações em
presídios.
A fim de atender a essa grande demanda, o BG 143 de 01Ago13
estabeleceu que seriam criados dois estágios distintos, sendo um para a formação
dos usuários de munição de impacto controlado, a ser feito pelos cabos e soldados;
e outro para a formação dos multiplicadores ao uso de munição de impacto
controlado. Esse estágio de multiplicador ficou a cargo do 3ºBPChq – Batalhão
Humaitá como a OPM gestora do conhecimento.
Entretanto o BG 143 não definiu como deve ser esse estágio, qual conteúdo
a ser ministrado nem quantos dias deve durar o EEP. A fim de suprir essa lacuna,
este trabalho propõe a seguinte estrutura aos respectivos estágios.

4.3.1 Do EEP para usuários de munição de impacto controlado – Cb/Sd

Terá a duração de três dias, totalizando 30 horas aula, e deverá ser


realizado na seguinte conformidade: as primeiras 5 horas aula serão em sala de aula
onde será passada toda a parte teórica envolvendo MIC e granada (parte básica); as
10 horas aula seguintes serão para a realização da parte prática individual de
disparos de MIC, de lançamento de granada e de tiro real; as 15 últimas horas aula
serão para a realização da parte prática coletiva, na qual os alunos efetuarão
lançamentos e disparos estando na formação de pelotão de choque ou FT. Nessa
fase, cada policial deverá ser submetido a todas as funções de um pelotão de
choque treinando na posição de escudeiro, de atirador com espingarda calibre 12
com MIC, de lançador de granada (manual ou com arma de projeção) e de atirador
com pistola .40.
Sugere-se a apresentação de 24 alunos por turma, pois é adequado a
formar um pelotão completo de CDC, ou dois grupos de 12 policiais, que seria um
mínimo necessário a um grupo de FT para atuar em condição de CDC. Cabe
ressaltar que esse número de 12 policiais representa, nas normas que regulam o
uso de FT, o equivalente a quatro equipes formadas de três policiais por equipe.
Dentro dessa necessidade é que as propostas de PPE foram estruturadas.
59

Para o controle, treinamento, segurança e correta correção dos policiais que


realizarão o EEP/usuário, sugerimos a destinação de dois instrutores para que a
aula transcorra de forma segura.

4.3.2 Do EEP para multiplicadores de munição de impacto controlado – Of/Sgt

Terá a duração de cinco dias, totalizando 50 horas aula, e deverá ser


realizado na seguinte conformidade: as primeiras 10 horas aula serão em sala de
aula, onde será passada toda a parte teórica envolvendo MIC, granada, estudo de
caso baseado em ocorrências anteriores, nas quais houve a utilização de MIC e
granadas, tanto com resultados positivos como negativos; as 10 horas aula
seguintes serão para a realização da parte prática individual de disparos de MIC, de
lançamento de granada e de tiro real; as próximas 20 horas aula serão para a
realização da parte prática coletiva, na qual os alunos efetuarão lançamentos e
disparos estando na formação de pelotão de choque ou FT. Nessa fase, cada
policial deverá ser submetido a todas as funções de um pelotão de choque,
treinando na posição de escudeiro, de atirador com espingarda calibre 12 com MIC,
de lançador de granada (manual ou com arma de projeção) e de atirador com pistola
.40.
As últimas 10 horas aula seguintes serão para a realização da parte prática
individual de disparos de elastômero, de lançamento de granadas e tiro real, e cada
policial (Sgt ou Of) deve, ao final desse módulo, guiar outro aluno na instrução,
assim como já é feito no Método Giraldi, usando a planilha de avaliador para
mensurar o desempenho do policial aluno na função de instrutor. Nessa fase
também caberá ao policial (Sgt ou Of), a incumbência de preparar a instrução dos
demais policiais alunos, pois a finalidade é que ele desempenhe a função de
multiplicador de MIC para os policiais da sua unidade, tão logo esteja habilitado para
tal.
Sugere-se a apresentação de 24 alunos por turma, pois é adequado formar
um pelotão completo de CDC, ou dois grupos de 12 policiais, que seria um mínimo
necessário a um grupo de FT para atuar em condição de CDC. Cabe ressaltar que
esse número de 12 policiais representa, nas normas que regulam o uso de FT, o
equivalente a quatro equipes formadas de três policiais por equipe. Dentro dessa
necessidade é que as propostas de PPE foram estruturadas.
60

Para o controle, treinamento, segurança e correta correção dos policiais que


realizarão o EEP/multiplicador, sugerimos a destinação de dois instrutores para que
a aula transcorra de forma segura.

4.3.3 Diferenças entre o estágio de usuário e multiplicador

O estágio de usuário foca o aspecto operacional, primando principalmente


pelo “como” e “onde” atirar uma MIC ou lançar uma granada. Já o estágio de
multiplicador foca, além de “como” e “onde”, também o “quando” atirar, uma vez que
o oficial e, eventualmente, o sargento, estão no comando da fração da tropa e serão
os responsáveis por dar a ordem de disparo da MIC ou de lançamento de granada.
As 20 horas aula a mais no estágio de multiplicador são para que o Of ou
Sgt sane todas as dúvidas que possa ter sobre como proceder ao estágio de
usuário, uma vez que ele será o responsável pela multiplicação do conhecimento
aos cabos e soldados. Esse período a mais também será utilizado para a realização
de estudos de caso. Nesse contexto, o multiplicador deve sempre ter em mente as
técnicas, materiais, equipamentos de proteção individual, munições químicas e
armamentos disponíveis para o uso, refletir sobre sua missão e seus objetivos,
estudar o teatro de operações e os envolvidos, para então formular a tática que será
utilizada na operação.
61

5 PPE DE CDC COMPLEMENTAR AO “MÉTODO GIRALDI”

O M-19-PM, manual de “Tiro Defensivo na Preservação da Vida” – “Método


Giraldi”, prevê, no capítulo 11, a instrução especializada, ou seja, a chamada pista
policial especial (PPE), que tem por finalidade preparar o policial militar para as
ações especializadas, não só aquelas que fogem da rotina, mas também as que são
de alto risco, como por exemplo, entrada em estabelecimento prisional rebelado com
reféns. O M-19-PM trata como serviços especializados, entre os diversos citados no
manual, o policiamento especializado de choque, que podemos dividir para fins
didáticos da proposta de criação da PPE em: ações de desobstrução de via (urbana
ou rodoviária), ações em estabelecimentos prisionais (revista, contenção de presos e
controle de rebeliões) e ações de reintegração de posse (urbana e rural).
As instruções especializadas deverão ser montadas de acordo com seus
objetivos e finalidades, desde a parte teórica até a montagem e atuação do policial
militar na PPE, representando sempre situações que simulem a realidade, devendo,
as chamadas instruções especializadas serem elaboradas, preparadas e executadas
sob a responsabilidade das unidades especializadas, com a finalidade de atender ao
previsto no Boletim Geral PM nº 143 (PMESP, 2013), conforme citamos:
[...]
Artigo 2° - Estão autorizados a fazer uso deste tipo de munição somente os
policiais militares habilitados que tenham concluído, com aproveitamento, o
Estágio de Especialização Profissional (EEP) para o Uso de Munição de
Impacto Controlado ou o Curso de Especialização Profissional (CEP) –
Controle de Distúrbios Civis ou CEP – Força Tática.
§ 1° - Aos Oficiais, Subtenentes e Sargentos será destinado o EEP –
MULTIPLICADOR AO USO DE MUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO,
sendo a OPM Gestora de Conhecimento (OGC) o 3° BPChq – Batalhão
Humaitá. (grifo nosso).
§ 2° - Aos Cabos e Soldados será destinado o EEP – USUÁRIO DE
MUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO, a ser realizado pelos
multiplicadores em suas respectivas OPM, sob coordenação dos Gabinetes
de Treinamento (GT).
[...]

É objetivo elaborar proposta de PPE para o uso de MIC, formar


multiplicadores e usuários habilitados ao uso da MIC, pela OPM gestora de
conhecimento (OGC) o 3º BPChq – Batalhão Humaitá, principalmente de uma forma
que possa atender às demandas nessa área de atuação da PMESP.
O manual de “Tiro Defensivo na Preservação da Vida” – “Método Giraldi”
atenta para que apenas poderá ser instruído na PPE, o policial militar que tenha sido
aprovado no “Curso Básico”, nas “Pistas Policiais de Instrução” (PPI) e nas “Pistas
62

Policiais de Aplicação” (PPA), individual e em equipe, pois são condições básicas de


preparação e de suporte, para que o policial execute a PPE.
Para que se possa realizar um correto treinamento, principalmente quanto
ao posicionamento do armamento em relação ao oponente, considerando que o
local de disparo indicado pelo fabricante da MIC e prevista em normas da PMESP é
em direção à região das pernas, deve-se propor um novo modelo de alvo para o
emprego de munição de impacto controlado, pois nos alvos que são utilizados
atualmente, não existe a preocupação latente de colocação de pernas.
É justamente com essa fixação do correto posicionamento da arma e de
eventual disparo na região das pernas do alvo, que devemos trabalhar no
treinamento da PPE. E, atualmente, como treinar, orientar, cobrar, e até mesmo
responsabilizar o policial atirador de MIC, se não o preparamos corretamente em
PPE, com alvos adequados e, em muitos casos, sem que o policial nunca tenha
efetuado um único disparo de MIC?
Sobre o tema aprendizado no M-19 PM, Giraldi assevera:
[...] A única forma de aprender o “Método Giraldi” é fazendo o curso. Não há
apostila, teoria, livros, projeções, salas de aulas que o ensine. É totalmente
prático. É como futebol, natação, ciclismo, etc., só se aprende praticando.
Parte do princípio de que “o que eu ouço eu esqueço; o que eu vejo eu
lembro; o que eu faço eu aprendo.”. (GIRALDI, 2013a, p. 15)

Dessa forma, o alvo deverá ter, além da silueta contendo tronco, braços e
cabeça, também, e principalmente, os membros inferiores.
Nas três propostas de PPE, a súmula deverá ser corretamente preenchida
atentando, como nas súmulas da PPA e PPI do Método Giraldi, para os
procedimentos de segurança, pois a PPE proposta poderá ser executada usando,
separadamente, como munição, as MIC, as granadas, o uso do AM-640 para
projeção de granadas de queima e as munições reais da pistola .40. É desejado que
após receber o treinamento de forma isolada com as munições e armamentos
citados, o ideal para uma completa preparação do policial de FT e Choque seja o
treinamento executado em conjunto, utilizando todas as munições, equipamentos e
armamentos.
Em todas as PPE, poderão ser treinados diversos procedimentos adotados
pelo “Método Giraldi”, como mudança de posicionamento do policial militar no
terreno, troca de funções, recargas (emergenciais e táticas), além dos específicos
63

em relação às munições de impacto controlado e granadas, observando e seguindo


os critérios propostos e descritos na súmula para avaliação da PPE.

5.1 PPE para o uso de MIC em estabelecimento prisional – “tomada de cela”

A ação de tomada de cela em uma atuação em estabelecimento prisional é


uma situação em que os presos ou menores infratores são retirados das celas para
que seja feita a revista e conferência do local, em regra, pelo agente de segurança
penitenciário (ASP). É um momento crítico, pois os policiais militares da “equipe de
tomada de cela” ou “equipe de extração”, conforme foto 1, que atuam posicionados
junto à porta da cela, ficam parcialmente expostos e próximos aos presos.

Foto 1 – Equipe de tomada de cela – atirador de MIC - visão da retaguarda

Fonte: 3º BPChq

A composição da “equipe de tomada de cela” ou da “equipe de extração”,


conforme já citada no capitulo 2.1, será de 01 Sgt comandante da equipe, 01 Cb ou
Sd na função de escudeiro e Cb ou Sd na função de atirador de MIC, conforme foto
2.
64

Foto 2 – Equipe de tomada de cela – atirador de MIC –visão lateral.

Fonte: 3º BPChq

O M-8-PM, Manual de Controle de Distúrbios Civis, Seção III, “Da Tática de


Controle de Distúrbios Civis”, Item 3, descreve sobre o emprego da tropa de CDC
em atuação em estabelecimento prisional e atenta para o uso de munição de
impacto controlado quando o preso oferecer resistência ativa na cela:[...]” nos casos
em que o preso estiver portando arma branca ou objetos que ofereçam risco de
produzir lesões contundentes ou pérfuro contundentes” [...].(PMESP, 2011).
Na PPE de tomada de cela, serão analisados os procedimentos em relação
ao manuseio do armamento, checagem e manuseio de munição, procedimentos de
segurança, posicionamento do policial militar atirador, além dos disparos efetuados.
Esses procedimentos estão descritos no POP nº 5.12.01 de checagem da arma e
munição de elastômero e no POP nº 5.12.02 de utilização da espingarda 12 gauge
com munição de elastômero. (PMESP, 2013).
A análise e avaliação do policial militar atirador será conforme a proposta de
súmula de PPE para a habilitação de usuário de MIC.
A PPE de tomada de cela simulará uma cela de um estabelecimento
prisional, devendo possuir um anteparo (tapume, tablado, ou algo que imite uma
parede), no meio do estande de tiro e a uma distância que varie em até 10 metros
65

do anteparo de retenção balística, conforme foto 3. A equipe de tomada de cela ou


equipe de extração poderá posicionar-se, tanto do lado direito como do lado
esquerdo desse anteparo, simulando a parede, e realizar o posicionamento para
iniciar a verbalização para a saída dos presos. Cabe salientar que a distância
proposta da equipe de tomada de cela ou equipe de extração para o alvo, é de até
10 metros, pois estamos simulando uma situação de ambiente confinado,
reproduzindo a visão que o policial encontrará ao atuar diante de uma cela, ou seja,
a distância não será superior à que está sendo proposta. Diante desse fato,
devemos observar a distância de segurança indicada pelo fabricante de MIC,
optando por fazer uso de uma MIC do tipo AM-403/P SHORT RANGE ou da FN-303
e suas MIC.

Foto 3 – Equipe de tomada de cela- atirador de MIC – visão frontal.

Fonte: 3º BPChq

Em último caso, e não havendo a possibilidade de usar as MIC aqui


indicadas, o uso da MIC AM-403/P pode ser realizado com extrema cautela, pois
embora não seja a MIC mais apropriada, é aceitável utilizá-la, dentro da prioridade
de uso progressivo da força, em detrimento ao uso de uma munição real.
66

Na proposta dessa PPE, o objetivo é fazer com que o policial militar atirador
de MIC treine o correto posicionamento em relação aos demais integrantes da
equipe de extração, bem como o escudeiro e o comandante da equipe. É a
simulação do posicionamento da equipe em relação aos presos que estão pelo
interior da cela, e, após ser fixado o correto posicionamento e os procedimentos para
atuação, passamos a realizar o treinamento dos disparos com o atirador de MIC.
Em casos em que houver a simulação de alvos agressores com arma de
fogo ou outro meio que atentem contra a vida dos policiais, mediante ordem do
instrutor ou outro ato programado, efetua-se a inversão dos atiradores, deixando de
atuar o atirador com MIC, e passando a atuar e a realizar os disparos com munição
real o comandante da equipe que estava exercendo a segurança com a pistola .40 e
munição real, conforme fotos 4 e 5.

Foto 4 – Equipe de tomada de cela – atirador com pistola – visão da retaguarda.

Fonte: 3º BPChq

Durante a instrução, o ideal e indicado para efeito de completo treinamento é


que ocorra uma mudança de todas as funções, ou seja, que os três policiais militares
integrantes da equipe passem pelas três posições: escudeiro, comandante de
equipe com armamento com munição real e atirador de espingarda cal. 12 Gauge
67

com a MIC. Com isso, todos os policiais serão avaliados em todas as funções,
podendo treinar e assimilar o correto posicionamento de toda a equipe.
Foto 5 – Equipe de tomada de cela – atirador com pistola – visão lateral.

Fonte: 3º BPChq

Os procedimentos descritos e treinados na PPE para o uso de munição de


impacto controlado em revista em estabelecimento prisional – “tomada de cela”,
poderão ser utilizados também para simular um treinamento de entrada coberta e
protegida em um ambiente fechado, onde seja necessário realizar uma varredura ou
onde haja algum agressor com objeto que possa gerar lesão em integrante da
equipe.
A PPE proposta baseia-se em procedimentos, posicionamento do efetivo e a
correta utilização do equipamento disponibilizado, e pode ser adaptada para outras
situações em que ocorra o confronto a uma curta distância, não ficando o seu
emprego restrito somente à atuação em situação de estabelecimento prisional.

5.2 PPE para o uso de MIC em formações ofensivas, defensivas para


utilização em via pública e em invasão de estabelecimento prisional
rebelado.
68

A PPE para o uso de MIC em formações ofensivas, defensivas e de invasão


de estabelecimento prisional é a pista que trata sobre o tiro em ações de controle de
distúrbios civis, e é mais utilizada e mais complexa, ou seja, quando existe a
formação completa do pelotão (escudeiros, lançadores, atiradores, comandantes de
grupo e demais funções do pelotão), sendo que, em tal situação, temos que
programar e planejar o uso de todo o efetivo do pelotão, equipamento e emprego de
todos os armamentos e munições, realizando de forma sincronizada a junção do
homem, do equipamento e do treinamento, conforme foto 6

Foto 6 – Formação em linha – atirador de MIC e o lançador de granada.

Fonte: 3º BPChq

Para a situação proposta da PPE, o policial militar atirador fará a função de


segurança do pelotão, fazendo a varredura nos dois flancos do pelotão,
independente da formação executada, atentando para uma possível agressão que
possa vir a ocorrer ou que esteja ocorrendo contra o pelotão, conforme mostra a foto
7 e foto 8. Essa PPE poderá ser executada partindo de qualquer formação de ação
de choque prevista no M-8-PM, porém o ideal é que seja realizada a partir da
formação em linha, guarda baixa, conforme foto 9 e 10, ou guarda baixa emassada,
pois são as formações ofensivas e defensivas mais utilizadas e que, didaticamente,
69

têm melhor resultado de aprendizado para o policial que estiver participando do


treinamento.
Foto 7 – Formação em linha – atirador de MIC - visão frontal.

Fonte: 3º BPChq

Foto 8 – Formação em linha – atirador de MIC - visão lateral.

Fonte: 3º BPChq
70

Foto 9 – Formação em guarda baixa – atirador de MIC – visão da retaguarda.

Fonte: 3º BPChq

Foto 10 – Formação em guarda baixa - atirador de MIC – visão frontal.

Fonte: 3º BPChq
71

O treinamento de tiro direcionado ao uso de MIC disparada pelos atiradores


com espingarda cal. 12 gauge pode ser aproveitado para treinar e realizar também
disparo com munição real pelos policiais militares nas funções de comandante de
grupo, quando houver a presença de alvos simulando ataques com armas de fogo
ou outro meio que coloque em risco a vida dos policiais. Geralmente são efetuados
os disparos com munição real nas formações de guardas baixas, devendo optar,
nesse caso por alvos atiráveis convencionais do “Método Giraldi”. Os disparos
deverão ser feitos, na guarda baixa, por cima dos escudeiros e, na guarda baixa
emassada, pelas laterais, tomando o atirador de pistola, com munição real, a
posição do policial militar atirador de MIC com espingarda calibre 12 gauge . Tal
situação de ataque com arma de fogo contra o pelotão é possível de acontecer, e a
guarda baixa e a guarda baixa emassada são as mais eficientes na defesa do
pelotão, conforme foto 11 e foto 12.

Foto 11 – Formação em guarda baixa – atirador com pistola - visão frontal.

Fonte: 3º BPChq
72

Foto 12 – Formação em guarda baixa – atirador com pistola - visão da retaguarda.

Fonte: 3º BPChq

A resposta ao ataque de oponente com arma de fogo contra o pelotão deve


ser treinada e preparar o policial na função de atirador de pistola com munição real
para executar o disparo, e essa situação equipara-se ao disparo barricado previsto
no Método Giraldi, porém com a diferença que agora a barricada ou proteção do
policial é realizada pela linha de escudos. Também é uma possibilidade viável o
treinamento do lançamento de granadas pelos que estiverem na função de
lançadores de granadas, aproveitando-se da formação do pelotão em linha, guarda
baixa ou guarda baixa emassada.
É uma PPE completa que possibilita a atuação de todos os integrantes do
pelotão, é uma pista de atuação conjunta onde o correto posicionamento de todos é
de suma importância para o sucesso do treinamento. Mais uma vez é priorizado o
procedimento adotado por todos durante o treinamento. É uma PPE que requer
instrutores capacitados, que tenham conhecimento tanto do Método Giraldi bem
como de CDC. Giraldi descreve no M-19 PM:
11. PROFESSORES
11.1 A instrução especializada exige professores altamente especializados,
atualizados, experientes e extraordinariamente competentes, com domínio
absoluto das técnicas, das táticas e da psicologia aplicada às atuações que
fogem, completamente, à normalidade do serviço comum da Corporação;
73

11.2 Deverão estar em constante busca do aperfeiçoamento, precisam


pesquisar, com intensidade, o surgimento e a aplicação de novos
armamentos, munições, materiais, etc., assim como, de novas técnicas e
táticas de atuação em situações especiais; (GIRALDI, 2013a, p. 133)

É uma PPE dinâmica, pois o pelotão poderá não só treinar os disparos de


munição de impacto controlado (objetivo principal), realizando também
deslocamentos e, como já dito anteriormente, executar lançamento de granadas e
disparo com munição real.
Porém, para tal, é necessário que o local escolhido para o treinamento
(estande de tiro ou outra área adequada) seja aberto e que possua espaço
adequado, para poder respeitar as distâncias de segurança para uso das granadas.
Mesmo que não exista possibilidade momentânea de lançamento de granada ou
disparo com o lançador de granada AM-640, todo o procedimento pode ser realizado
e treinado em qualquer local, transferindo para o momento e local oportuno o
treinamento do disparo com munição real e lançamento da granada. Novamente e
para total fixação, essa PPE é baseada em procedimento.
O posicionamento do policial militar atirador de MIC sempre será ao lado do
escudeiro que estiver na extremidade da formação do pelotão, devendo atentar para
que o cano do armamento permaneça à frente da linha do escudo, evitando que,
acidentalmente, disparo incorreto possa atingir o escudo e ou policial militar
escudeiro.
Na situação em que a formação designada para o pelotão for de guarda
baixa, o policial militar atirador poderá treinar o disparo por cima da linha de
escudos, atentando sempre para o posicionamento do cano da arma, que passará a
frente da linha do escudo, como já citado anteriormente.
O treinamento deve ser realizado no mínimo com 02 policiais militares
exercendo a função de atirador de MIC nessa PPE, posicionando um atirador para
cada flanco do pelotão. Para reforço em ação e em treinamento, o ideal é
acrescentar mais 02 atiradores de MIC em cada flanco do pelotão, sendo que esses
deverão permanecer atrás dos policiais com a função de atiradores de MIC e já
posicionados para efetuar os disparos. Nessa situação poderemos simular uma
recarga emergencial ou pane do armamento e realizar a troca dos atiradores, sem
que ocorra uma interrupção na operacionalidade do pelotão. Esses atiradores de
MIC secundários também podem exercer a função de segurança com uso de MIC da
74

retaguarda do pelotão até que sejam acionados para assumirem o lugar dos
atiradores de MIC principais
Conforme descrito para a PPE do capítulo 5.1, o policial também poderá
atuar com distância inferior a 10 metros, pois muitas ações acontecerão em uma
situação de ambiente confinado, reproduzindo a visão que o policial encontrará ao
atuar diante de um estabelecimento prisional rebelado, ou seja, a distância não será
superior à que está sendo proposta.
Diante desse fato, devemos observar a distância de segurança indicada pelo
fabricante de MIC, optando por fazer uso de uma MIC do tipo AM-403/P SHORT
RANGE ou da FN-303 e suas MIC.
Em último caso, e não havendo a possibilidade de usar as MIC aqui
indicadas, o uso da MIC AM-403/P pode ser realizado com extrema cautela, pois
embora não seja a MIC mais apropriada, é aceitável utilizá-la, dentro da prioridade
de uso progressivo da força, em detrimento ao uso de uma munição real.
Durante a instrução, o ideal e indicado para efeito de completo treinamento é
que ocorra uma mudança de todas as funções, ou seja, que todos os policiais
militares integrantes do pelotão passem por todas as posições do pelotão; com isso
serão avaliados em todas as funções, podendo treinar e assimilar o correto
posicionamento do pelotão.
Finalmente salientamos que a PPE aqui proposta pode servir e ser
adequada para treinamento de situações em que o pelotão utilize formações
ofensivas, defensivas e de invasão em estabelecimento prisional rebelado, podendo
ser adequado o seu uso a deslocamento com o pelotão em vias públicas, rodovias,
reintegração de posse em áreas planas ou rurais, local de evento e aglomerações
de pessoas, e também em presídios, pois é a fixação do procedimento e técnica de
atuação de CDC que estará sendo transmitida.

5.3 PPE para o uso de MIC em reintegração de posse urbana vertical –


“escadas”.

Uma reintegração de posse, por si só, é considerada uma ação delicada e


complexa, e em locais verticais (construção com mais de um pavimento), onde
exista a necessidade de uma invasão do local, utilizando-se as escadas para
75

acessar os demais pavimentos, a atenção passa a ser redobrada quanto ao


emprego da tropa, devido à dificuldade de acesso, diferença no deslocamento por
obstáculo natural do local (degrau) e ocupação do terreno devido a grande área a
ser tomada, conforme foto 13.

Foto 13 – Formação do pelotão para atuação em escadas – visão frontal.

Fonte: 3º BPChq

Para treinar uma ocupação de área para ser reintegrada onde existam
pavimentos e simular uma ação de subida em escadas, o melhor emprego da tropa
se dá em uma formação com dois policiais militares na função de escudeiros, dois
policiais militares atiradores com espingarda cal.12 gauge atuando nos flancos
desses dois escudeiros, um policial militar lançador e um comandante da equipe
portando armamento com munição real, em deslocamento, à frente do restante do
pelotão, conforme foto 14.
O emprego da tropa poderá ocorrer em edificação residencial ou comercial
com diversos andares, o que necessitará um trabalho com um efetivo maior e
empregado de forma simultânea, pois, além das tomadas das escadas, haverá a
76

necessidade de ocupação dos andares e corredores que foram vistoriados, para


realizar a varredura física de todos os ambientes.
O treinamento proposto para essa PPE deverá ser executado, em especial,
em alguma edificação que contenha escadas de alvenaria e com corredores, para
simular o deslocamento do efetivo operacional durante o acesso às escadas,
tomada de ângulo e ocupação dos pavimentos. Durante o deslocamento na subida
da escada, não necessariamente precisará ser realizado disparo com munição de
impacto controlado, efetuar lançamento de granada ou disparo de munição real, mas
sim, atentar para o correto deslocamento e posicionamento da equipe durante o
percurso na escada, com fundamental prioridade ao procedimento técnico de todos
os integrantes do pelotão. Lembrando, o que destacou Giraldi,no M-19:
A experiência mostra que, na totalidade das vezes, procedimentos e não
tiros é que preservam vidas, a começar pela do policial militar, e solucionam
problemas.
Na instrução de tiro da nossa Corporação o importante não é a quantidade
de tiros, mas a sua qualidade; que, uma instrução de tiro não é o simples
disparar contra alvos descobertos, mas, enfrentar situações semelhantes à
realidade, condicionando o Policial Militar a atuar, no caso de um confronto
armado com os infratores com a razão, dentro da Lei, da ordem e da
realidade brasileira. (GIRALDI, 2013a, p. 8)

Foto 14 – Formação do pelotão para atuação em escadas – visão da retaguarda.

Fonte: 3º BPChq
77

Os dois escudeiros permanecerão lado a lado (desde que o local tenha


espaço físico para tal ação), bem como os dois atiradores de espingarda cal. 12
gauge com a MIC tomarão as posições nos dois flancos dos escudeiros, realizando
a segurança da equipe durante a subida das escadas. O deslocamento deve ser
realizado com cautela, porém, evitando ser muito lento, pois em situações como
essa, as escadarias são locais onde o policial militar permanece muito exposto
devido a sua posição desfavorável no local da operação. Durante a subida e tomada
da escada, o atirador deverá verificar seu posicionamento em relação ao possível
agressor, mantendo sempre a visada para realizar o disparo na região das pernas e
sempre com o cano da arma ultrapassando a linha de escudo, conforme foto 15.

Foto 15 – Atuação em escadas – visão do atirador de MIC e cano da espingarda.

Fonte: 3º BPChq

Em um estande convencional, poderá ser treinado o posicionamento dos


escudeiros quando da tomada de um corredor, com dois atiradores nas laterais,
mantendo a mesma formação da equipe como se tivesse subindo as escadarias.
É necessário realizar o treinamento em conjunto, com especial atenção para
que os disparos efetuados com uso de MIC, munição real e lançamento de granadas
sejam executados de forma integrada e que os policiais inseridos no pelotão atuem
78

com total prioridade aos procedimentos técnicos que a PPE requer. O sucesso da
realização da PPE e de eventual necessidade de atuação em caso real, está muito
mais no procedimento técnico realizado, do que na simples execução do uso das
munições.
Conforme descrito para as PPE anteriores, o policial também poderá atuar
com distância inferior a 10 metros, pois muitas ações acontecerão em uma situação
de ambiente confinado (escadas, corredores, apartamentos) reproduzindo a visão
que o policial encontrará ao atuar diante de um agressor extremamente próximo, ou
seja, a distância não será superior à que está sendo proposta, conforme foto 16, foto
17 e foto 18. Diante desse fato, devemos observar a distância de segurança
indicada pelo fabricante de MIC, optando por fazer uso de uma MIC do tipo AM-
403/P SHORT RANGE ou da FN-303 e suas MIC.

Foto 16 – Formação do pelotão para atuação em corredores ou local estreito.

Fonte: 3º BPChq
79

Foto 17 – Atuação em corredores ou local estreito – visão do cano da espingarda.

Fonte: 3º BPChq

Foto 18 – Atuação em corredores – atirador de MIC – visão da retaguarda.

Fonte: 3º BPChq
80

Em último caso, e não havendo a possibilidade de usar as MIC aqui


indicadas, o uso da MIC AM-403/P pode ser realizado com extrema cautela, pois
embora não seja a MIC mais apropriada, é aceitável utilizá-la, dentro da prioridade
de uso progressivo da força, em detrimento ao uso de uma munição real.
Durante a instrução, o ideal e indicado para efeito de completo treinamento é
que ocorra uma mudança de todas as funções, ou seja, que todos os policiais
militares integrantes do pelotão passem por todas as posições do pelotão; com isso
serão avaliados em todas as funções, podendo treinar e assimilar o correto
posicionamento do pelotão.
A PPE aqui proposta pode servir e ser adequada para treinamento de
situações em que o pelotão necessite avançar dentro de corredores estreitos em
invasão de estabelecimento prisional rebelado.
Conforme assevera Romanek (2011, p. 36) quando comenta sobre
instrução:
Portanto, através da instrução contínua e dos regulamentos,
ou procedimentos operacionais padrão, haverá maior probabilidade
de vitória, ou seja, a missão será desempenhada conforme o
planejado, diminuindo-se as não conformidades que acabam por
arranhar a imagem da instituição nos diversos órgãos de imprensa.

A PPE proposta baseia-se em procedimentos, posicionamento do efetivo e a


correta utilização do equipamento disponibilizado, e pode ser adaptada para outras
situações em que ocorra o confronto a uma curta distância, não ficando o seu
emprego restrito somente à atuação em situação de escadas, podendo ser
facilmente adaptada a uso em corredores e locais com larguras restritas à passagem
do pelotão em formação em linha.
81

5.4 Súmula para avaliação da PPE de CDC


82

6 PESQUISA

A pesquisa para apurar a necessidade de efetuar uma adequação da pista


policial especial de tiro, através de “Treinamento de tiro (elastômero e real) e uso de
granadas por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC – padronização
de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE complementar ao
Método Giraldi”, teve enfoque em duas situações principais: a primeira parte constou
de perguntas direcionadas ao efetivo de força tática diretamente, com doze
perguntas que foram transformadas em gráficos e porcentagem, com a finalidade de
realizarmos algumas comparações técnicas; a segunda parte foi direcionada à OPM,
para saber do efetivo de força tática que atualmente trabalha nessa área, quantos
policiais estavam habilitados no curso de CDC e/ou Força Tática. Nas duas
pesquisas buscou-se o caráter de anonimato, para que o resultado estivesse o mais
próximo da nossa realidade atual, sem qualquer tipo de constrangimento ao
responder às perguntas formuladas.
Na primeira pesquisa, direcionada ao efetivo da força tática (interior e
capital), obtivemos um retorno relativo a 515 (quinhentos e quinze) policiais que
responderam a 12 (doze) questões, as quais foram tabuladas em gráficos e
porcentagem. Dos policias que responderam, tivemos o retorno de 34 (trinta e
quatro) oficiais (capitães/tenentes), 108 (cento e oito) subtenentes/sargentos e 373
(trezentos e setenta e três) cabos/soldados.
Na segunda pesquisa com pergunta para as OPM (interior e capital),
obtivemos um retorno relativo à situação de 2072 (dois mil, setenta e dois) policiais
da força tática.
83

6.1 Pesquisa com perguntas direcionadas ao efetivo da força tática

6.1.1 Pergunta 1: Qual é o seu posto ou graduação?


A maioria do grupo que respondeu ao questionário, 72% são Cb / Sd,
seguidos por 21% de Sub Ten / Sgt e o restante, 7%, Cap / Ten.

Gráfico 1 – Posto ou graduação do efetivo pesquisado.

Cap/Ten
34
7%

SubTen / Sgt
108
Capitão/Tenente
21%
SubTen / Sgt
Cb/Sd

Cb/Sd
373
72%

Fonte: O autor
84

6.1.2 Pergunta 2: Você possui o curso de CDC?


Do efetivo que respondeu à pergunta, 8% dos pesquisados possuem curso
de CDC, porém a maioria de 92% não possui o curso, e é um dado estatístico
importante para avaliar o grau de especialização do efetivo de força tática em
relação às técnicas de CDC.

Gráfico 2 – Efetivo com curso de CDC

Sim
40
8%

Sim
Não

Não
475
92%

Fonte: O autor
85

6.1.3 Pergunta 3: Você possui o curso de força tática?


Do efetivo que respondeu à pergunta, 18% dos pesquisados possuem curso
de força tática, porém a maioria de 82% não possui o curso, e é um dado estatístico
importante para avaliar o grau de especialização do efetivo de força tática em
relação às técnicas de força tática.

Gráfico 3 – Efetivo com curso de força tática.

Sim
91
18%

Sim
Não

Não
424
82%

Fonte: O autor
86

6.1.4 Pergunta 4: Você já participou de alguma instrução de CDC?


Analisando a resposta, um efetivo considerável de 12% nunca participou de
instrução de CDC.

Gráfico 4 – Efetivo que recebeu instrução de CDC.

Não
62
12%

Sim
Não

Sim
453
88%

Fonte: O autor
87

6.1.5 Pergunta 5: Qual tipo de treinamento de CDC você tem em sua OPM?
Observamos que o treinamento menos executado é o disparo com
elastômero, e uma parcela considerável não realiza treinamento de CDC.

Gráfico 5 – Tipo de treinamento de CDC.

165

a) formações e
61 movimentações de pelotão
b) lançamento de granada

10 c) disparo de munição de
elastômero
d) todas as anteriores
268
e) não realiza treinamento de
CDC

71

0 50 100 150 200 250 300

Fonte: O autor
88

6.1.6 Pergunta 6: Você se sente seguro em operar material de CDC?


Embora a maioria de 79% aponte que sente segurança em operar material
de CDC, 21% do efetivo de força tática pesquisado não têm segurança.

Gráfico 6 – Segurança em operar material de CDC.

Não
106
21%

Sim
Não

Sim
409
79%

Fonte: O autor
89

6.1.7 Pergunta 7: Você acha necessário treinamento completo envolvendo tática de


CDC?
A maioria, quase que a totalidade de 97% dos pesquisados, entende ser
necessário o treinamento completo com as táticas de CDC.

Gráfico 7 – Necessidade de treinamento envolvendo tática de CDC.

Não
18
3%

Sim


o

Sim
497
97%

Fonte: O autor
90

6.1.8 Pergunta 8: Você sabe manusear com facilidade a espingarda Cal. 12,
independente da munição?
Embora a grande maioria responda que sabe manusear com facilidade a
espingarda cal. 12, é preocupante que 12% do efetivo da força tática pesquisado
não tenham facilidade em tal manuseio, pois é o armamento usado tanto para
disparos de munição real, bem como de MIC, sendo imprescindível em ações de
CDC.

Gráfico 8 – Manuseio da espingarda cal. 12.

Não
62
12%

Sim
Não

Sim
453
88%

Fonte: O autor
91

6.1.9 Pergunta 9: Quais suas dificuldades em manusear a espingarda Cal. 12?


Com relação às dificuldades com o manuseio do armamento, a que mais foi
citada e nos chama a atenção é a falta de treinamento com munição de elastômero.

Gráfico 9 – Dificuldade com o manuseio da espingarda cal. 12.

122
a) Falta de treinamento com
munição de elastômero
86
b) Falta de treinamento com
munição real
2
c) Desconhece o armamento
Espingarda Cal. 12
12
d) Desconhece o mecanismo
26 de funcionamento da
Espingara Cal. 12
e) Não utiliza o armamento
14 em sua unidade

f) Existe o armamento em sua


29 unidade, mas nunca recebeu
treinamento para o uso
g) Não é habilitado a operar o
345 armamento

h) Não tenho dificuldade

0 100 200 300 400

Fonte: O autor
92

6.1.10 Pergunta 10: Você sente necessidade de treinar disparos de munição de


elastômero de Cal. 12?
Um grande número do efetivo pesquisado (85% do total) afirma sentir
necessidade de treinar com a munição de elastômero, demonstrando a carência da
nossa tropa em relação ao treinamento especializado.

Gráfico 10 – Necessidade de treino com munição de elastômero.

Não
76
15%

Sim

Não

Sim
439
85%

Fonte: O autor
93

6.1.11 Pergunta 11: Quantos disparos de munição de elastômero você efetua, em


um trimestre, em treinamentos na sua OPM?
A maioria absoluta de 345 policiais, do total pesquisado, afirma não efetuar
nenhum disparo de elastômero em um trimestre de treinamento na OPM.

Gráfico 11 – Disparo de elastômero em treinamento por trimestre.

54

39 acima de 10 disparos
de 6 a 10 disparos
1 a 5 disparos
77
nenhum

345

0 100 200 300 400

Fonte: O autor
94

6.1.12 Pergunta 12: Você já passou por uma PPE utilizando Cal. 12 com munição de
elastômero?
A resposta demonstra a necessidade de programar um treinamento de PPE
uniforme para espingarda cal. 12 com munição de elastômero, que alcance mais
policiais que atuam na FT, pois é impressionante a porcentagem de 75% de policiais
que responderam à pergunta e nunca foram submetidos a tal treinamento.

Gráfico 12 – PPE utilizando espingarda cal. 12 com MIC.

Sim
127
25%

Sim
Não

Não
388
75%

Fonte: O autor
95

6.2 Pesquisa com a OPM a respeito do policial que trabalha na força tática e
possui o curso de CDC e/ou Força Tática
A pesquisa foi direcionada à OPM e tentou, de forma direta e quantitativa,
saber quantos policiais que trabalham atualmente na força tática possuem o curso
de força tática e/ou curso de CDC.
De forma quantitativa, podemos analisar as respostas relativas a 2072
policiais, dos quais 136 policiais (6% do total) possuem curso de CDC, 240 policiais
(12% do total) possuem curso de FT e 1696 policiais (82% do total) não possuem
curso nem de FT e nem de CDC.

Gráfico 13 – Efetivo de FT com curso de CDC e/ou curso de FT

136
6%
240
12%

Com CDC

Com CFT

Sem nenhum
dos dois Curso

1696
82%

Fonte: O autor
96

PROPOSTA

Inicialmente analisando a previsão do Boletim Geral PM 143, de 1 Agosto de


2013, verifica-se a necessidade de atender à determinação de desenvolver o EEP
para multiplicador e usuário de munição de impacto controlado com a finalidade de
suprir as demandas operacionais do policial militar operador de espingarda calibre
12 com MIC (soldado e cabo) e do policial militar multiplicador de espingarda calibre
12 com MIC (oficial, subtenente e sargento).
A proposta para atingir o objetivo de habilitar o efetivo da PMESP é que seja
programado o EEP - multiplicador ao uso de munições de impacto controlado,
destinado aos oficiais, subtenentes e sargentos, sendo a unidade gestora do
conhecimento o 3º BPChq – Batalhão Humaitá. Após estar formado, de imediato, o
multiplicador pode promover a difusão do conhecimento para habilitar os demais
policiais usuários da MIC, realizando em suas respectivas unidades o EEP para
habilitação ao uso da MIC destinado a cabos e soldados, publicando essa
habilitação em NBI.
Para a realização do EEP, estabelecer como forma padrão de multiplicação
do conhecimento para habilitação de uso da MIC o “Treinamento de tiro (elastômero
e real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força tática e CDC
– padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação de PPE
(pista policial especial) complementar ao Método Giraldi” que foram apresentadas no
transcorrer deste trabalho.
Estabelecer como padrão para habilitação e treinamento de PPE com uso de
MIC o alvo que possua expressamente a imagem de pernas, com destaque no alvo
da região a ser atingida pelo policial atirador de MIC quando em treinamento, ou
seja, a direção da linha da cintura para baixo.
Acreditando que as pistas policiais especiais que foram descritas e
apresentadas no presente trabalho estão totalmente alinhadas à PMESP, ao Tiro
Defensivo na Preservação da Vida “Método Giraldi”, à I-22-PM (Instrução do Sistema
Integrado de Treinamento Policial Militar, 2012), ao Boletim Geral PMESP 143
(Instrução – Munição de elastômero – Normas e procedimentos de utilização, 2013),
à Portaria Interministerial nº 4226, de 31 de Dezembro de 2010 e consequentemente
aos Direitos Humanos, proponho a inserção e aplicação das PPE nos cursos de
formação e especialização hoje existentes na PMESP, pois tal medida acarretará em
97

economia de recursos financeiros, diminuição de tempo para repassar o


conhecimento a todos os policiais e padronização de técnica do uso da MIC.
Conforme o trabalho apresentado, acredito ser possível e necessário
complementar o M-19-PM, Manual do Tiro Defensivo na Preservação da Vida
“Método Giraldi" com a implantação da PPE para ação de CDC, nas situações de
PPE para o uso de MIC em invasão em estabelecimento prisional – “tomada de
cela”, PPE para o uso de MIC em formações ofensivas, defensivas para utilização
em via pública e em invasão em estabelecimento prisional rebelado, PPE para o uso
de MIC em reintegração de posse urbana vertical – escadas e da súmula para
avaliação da PPE de CDC.
É necessário definir em boletim geral PM o escalonamento do uso da MIC
conforme a indicação do próprio fabricante, sendo o uso da AM-403/P para distância
acima de 20 metros, a AM-403/P Short Range para distância de 5 metros a 20
metros e a MIC para FN-303 para uso a partir de 01 metro de distância do oponente.
Dessa forma, buscar a adequação do uso das MIC disponíveis à situação
operacional do policial.
Finalmente proponho a aquisição para as OPM da PMESP do lançador de
munição não letal de ar comprimido - FN-303 e suas MIC, pois demonstram ser, em
grau de escalonamento com as demais MIC, menos lesiva e de menor risco quando
empregada em ação policial de CDC.
98

CONCLUSÃO

É preciso uma padronização de forma simples, aplicável e prática, que


atenda às necessidades operacionais do policial militar operador de MIC. Preparar o
policial para que ele esteja apto a realizar um treinamento conjunto de MIC, com
munição real e uso de granada, principalmente visando a alguns casos específicos
de atuação conjunta do policial em um pelotão de força tática ou choque,
habilitando-o para atuar em ocorrências em estabelecimento prisional, reintegração
de posse e manifestação em via pública.
Não basta que o policial militar receba o equipamento adequado para
atender a ocorrências complexas, é necessária e imprescindível a padronização de
treinamento daqueles que utilizarão esse equipamento diferenciado. Por tratar-se de
utilização de MIC, granada e munição real, é adequado que o treinamento em uma
pista policial especial englobe a possibilidade de uso conjunto durante a execução
da PPE, simulando ações próximas da realidade operacional do policial da força
tática e do choque.
Após compilar os dados da pesquisa realizada com o efetivo de força tática,
ficou clara a deficiência em treinamento especializado. Independente de posto ou
graduação, ficou também explícito que muitos policiais trabalham na força tática sem
possuir curso de força tática ou curso de CDC, mostrando uma falta de preparo
técnico específico para a área de atuação profissional. Muitos policiais da força tática
não efetuam disparos com MIC em treinamento de tiro, alguns nunca participaram
de instrução de CDC e a maioria esmagadora nunca realizou um treinamento de
PPE utilizando MIC, ou seja, não são treinados e preparados para as condições em
que irão atuar.
Embora ocorra essa deficiência em treinamento, a grande maioria que
respondeu à pesquisa entende ser necessário realizar treinamento especializado
com MIC.
É com treinamento adequado e constante, preparando o profissional para
uma atuação mais complexa, que evitaremos o uso inadequado de MIC em ação de
CDC, e, consequentemente, diminuiremos o desgaste da imagem institucional da
PMESP. Porém é importante frisar que nem todo policial pode utilizar uma MIC em
ação de CDC de forma indiscriminada, e, para que isso não ocorra, é indispensável
99

aplicar de forma emergencial a habilitação do efetivo ao uso de MIC, atendendo à


previsão do Boletim Geral PM 143, de 1 Agosto de 2013.
A força policial deve atentar sempre em ser moderna e acompanhar as
mudanças positivas que acontecem quanto à segurança, e é viável nesse momento
critico de constantes manifestações sociais em via pública, a adequação do uso de
MIC, adquirindo para uso em operação a MIC AM-403/P Short Range e as MIC para
a FN-303, pois são menos lesivas e podem ser disparadas a distância menor em
relação ao oponente.
Finalmente devemos almejar um policial profissional e preparado, buscar
equipamento adequado para atender à demanda policial da sociedade, treinar
adequadamente nosso efetivo com o equipamento destinado à operação policial,
pois a polícia não pode omitir-se, atuar indevidamente ou ser derrotada. Cabe à
força policial manter o Estado Democrático de Direito, observando as primícias
fundamentais dos Direitos Humanos e fazer valer a Constituição Federal do Brasil,
mantendo a ordem pública.
100

REFÊNCIAS

BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponivel em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm> Acesso em 12 fev 2014,
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<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503.htm> Acesso em 17 fev 2014,
20:30:50

CONDOR S/A INDÚSTRIA QUÍMICA. Condor Tecnologias Não Letais Catálogo


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COUTO, M. Proposta de Doutrina De Uso Proporcional de Força pela PMESP. São


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DICIONÁRIO MICHAELIS. [S.l.], 2013. [on-line]. Disponível em:


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São Paulo: PMESP, 2003.

______. POP nº 5.12.00. Emprego de munição de elastômero em espingarda. São


Paulo: PMESP, 2003.

______. POP nº 5.12.01. Checagem da arma e munição de elastômero São Paulo:


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______. POP nº 5.12.02. Utilização da espingarda 12 gauge com munição de


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POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO. Diretriz Geral de Ensino (D-5-


PM) São Paulo: CSM/M Int, 2010.
101

POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO. Estágio de Atualização


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POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO. Instrução do Sistema Integrado


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PRADO, M. Segurança pública e o estudo de indicadores urbanos: diagnóstico para


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ROMANEK, Alexandre. Análise de Parâmetros Específicos do Uso Operacional,


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ROVER, Cess de. Manual de Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário


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LANÇADOR DE MUNIÇÕES NÃO-LETAIS A AR COMPRIMIDO [Folheto de
apresentação]. RIO DE JANEIRO: [s.n.], [2013?]
102

APÊNDICE A – Questionário direcionado ao efetivo de força tática.

O presente questionário tem por finalidade subsidiar a dissertação, para o


CAO II/13, do Cap PM ALVES, do 3º BPChq, cujo tema é: “Treinamento de tiro
(elastômero e real) e uso de granadas por policiais que atuam em pelotões de força
tática/CDC – Padronização de técnicas de atuação em grupo e proposta de criação
de PPE complementar ao Método Giraldi”.

1) Qual é o seu posto ou graduação?


( ) Capitão / Tenente
( ) SubTen / Sgt
(..) Cb / Sd

2) Você possui o curso “Controle de Distúrbio Civil (CDC)”?


( ) sim
( ) não

3) Você possui o curso “Força Tática (FT)”?


( ) sim
( ) não

4) Você já participou de alguma instrução de CDC?


( ) sim
( ) não

5) Qual o tipo de treinamento de CDC você tem em sua OPM? (Caso necessário
assinale mais de uma opção)
( ) formações e movimentações de pelotão
( ) lançamento de granada
( ) disparo de munição de elastômero
( ) todas as anteriores
( ) não realiza treinamento de CDC

6) Você sente seguro em operar o material de CDC, que tem a sua disposição em
uma possível atuação, principalmente granadas e munições de elastômero?
( ) sim
( ) não
103

7) Você acha necessário o treinamento completo envolvendo a tática de CDC, ou


seja, formações e movimentações do pelotão, lançamento de granadas e disparos
de elastômero?
( ) sim
( ) não

8) Você sabe manusear com facilidade a espingarda Cal. 12 (Municiar, alimentar,


carregar, descarregar, colocar em condição de uso e em condição de segurança)
independente da munição.
( ) sim
( ) não

9) Quais suas dificuldades em manusear a espingarda cal. 12. (Caso necessário


assinale mais de uma opção).
( ) Falta de treinamento com munição de elastômero (munição de borracha)
( ) Falta de treinamento com munição real
( ) Desconhece o armamento Espingarda Cal.12
( ) Desconhece o mecanismo de funcionamento da Espingarda Cal.12
( ) Não utiliza o armamento em sua unidade
( ) Existe o armamento em sua unidade, mas nunca recebeu treinamento para o uso
( ) Não é habilitado a operar o armamento
( ) Não tenho dificuldade

10) Você sente necessidade de treinar disparos de munição de elastômero de Cal


12, devido a peculiaridade do material empregado (munição de “borracha”)?
( ) não
( ) sim

11) Quantos disparos de munição de elastômero que você efetua, em um trimestre,


em treinamentos na sua OPM?
( ) nenhum
( ) 1 a 5 disparos
( ) de 6 a 10 disparos
( ) acima de 10 disparos

12) Você já passou por uma PPE (Pista Policial Especial) utilizando Cal 12 com
munição de elastômero?
( ) sim
( ) não
104

ANEXO A – Bol PM 143 de 1 de Agosto de 2013.

POLICIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO


NORMAS E PROCEDIMENTOS PARA A UTILZAÇÃO
DA MUNIÇÃO DE ELASTÔMERO
(Item 35 do BOL G PM 143, DE 1 DE AGOSTO DE 2013)

O Comandante Geral da PMESP, no uso de suas atribuições legais,


previstas no Decreto Estadual 7.290, de 15DEZ75, que aprova o Regulamento Geral
da Polícia Militar do Estado de São Paulo, considerando o permanente objetivo
institucional de preservar, ao máximo, a vida e a integridade física de todos os que
estejam presentes em locais onde haja a necessidade de realização de intervenções
policiais, determina as seguintes normas referentes à munição de elastômero:
Artigo 1º - O efetivo policial-militar somente poderá fazer uso de munição de
elastômero em ações de controle de distúrbios civis e nas hipóteses de
restabelecimento da ordem pública, ficando vedado o seu uso em outras ocorrências
policiais.
Parágrafo Único - A munição de elastômero não deve ser empregada para a
dispersão ou movimentação de pessoas, sendo o seu uso restrito à incapacitação ou
à inibição de agressor(es) ativo(s) identificado(s) no meio da ação policial-militar.
Artigo 2º - Estão autorizados a fazer uso deste tipo de munição somente os
policiais militares habilitados que tenham concluído, com aproveitamento, o Estágio
de Especialização Profissional (EEP) para o Uso de Munição de Impacto Controlado
ou o Curso de Especialização Profissional (CEP) - Controle de Distúrbios Civis ou
CEP - Força Tática.
§ 1º - Aos Oficiais, Subtenentes e Sargentos será destinado o EEP -
MULTIPLICADOR AO USO DEMUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO, sendo a
OPM Gestora de Conhecimento (OGC) o 3° BPChq - Batalhão Humaitá.
§ 2º - Aos Cabos e Soldados será destinado o EEP - USUÁRIO DE
MUNIÇÕES DE IMPACTO CONTROLADO, a ser realizado pelos multiplicadores em
suas respectivas OPM, sob coordenação dos Gabinetes de Treinamento (GT).
§ 3º - Poderão fazer uso deste tipo de munição, desde que devidamente
habilitados:
105

a) o Comandante de Força Patrulha (Cmt F Ptr) ou equivalente, o


Comandante de Grupo de Patrulha (CGP) ou equivalente e as equipes de ambos.
b) os policiais militares pertencentes ao efetivo da tropa de choque ou da
Força Tática.
Artigo 3° - O uso deste tipo de munição, de menor potencial ofensivo, fica
vinculado ao cumprimento dos Procedimentos Operacionais Padrão (POP) que
regulamentam o assunto, a serem disponibilizados na Intranet da Instituição.
Artigo 4° - Deverão ser utilizadas as munições de elastômero do modelo AM-
403/P-Precision ou similar, desde que esta última seja aprovada por comissão
técnica a ser instituída pelo Comando da Instituição.
Artigo 5° - As OPM detentoras deste tipo de munição deverão observar o
prescrito pelo (s) fabricante(s) no que diz respeito ao seu armazenamento e
validade.
Artigo 6° - Estas normas entrarão em vigor na data de sua publicação,
revogando-se as determinações contrárias e, especificamente, o disposto no item 25
do Bol G PM 211, de 08NOV99.
(NOTA PM3-1/03/13).

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