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II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: 06 a 08 de outubro de 2010

Diversidade, Ensino e Linguagem UNIOESTE - Cascavel / PR

A PERSONAGEM FEMININA EM SARAMAGO

SILVA, Luís Cláudio Ferreira (PG-UEM)


SILVA, Marisa Corrêa (UEM)

RESUMO: Durante séculos a mulher foi vista como ―o outro‖, contra o qual o homem
impunha seu poder, devendo ser subserviente nas sociedades patriarcais e falocêntricas,
o que descreve a nossa e as sociedades de modelo eurocêntrico em geral. Simone de
Beauvoir, em Segundo Sexo, teoriza sobre as origens desse fenômeno, numa
obra fundamental para entender a situação feminina. E sua estereotipação se transfere
também para o campo literário, onde podemos ver personagens femininas que são
dominadas pelas prerrogativas masculinas. Far-se-á uma pequena explanação dessas
representações femininas no campo literário. Em seguida, focaremos três romances de
José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Jangada de Pedra e Memorial do Convento,
centrando o foco em personagens que, no universo desse autor, são representadas de
forma pouco convencional em seus fazeres e poderes e saber se elas mantém a imagem
cristalizada de mulher ou se, ao contrário, elas rompem com tais estereótipos.

PALAVRAS-CHAVE: Crítica Feminista, Personagem Feminina, Gênero, José


Saramago.

1 - A condição feminina e crítica feminista

É comum mesmo em uma época que se auto-intitula moderna ouvir frases como
― lugar de mulher é na cozinha‖, ―ser mãe é padecer no paraíso‖, ―tem coisas que só os
homens podem fazer‖ etc. O rompimento de muitas barreiras nos campos econômico,
tecnológico e medicinal – só para citar alguns – parece não ter tido muito reflexo no que
tange à condição feminina.
Claro está que nos tempos atuais as mulheres conseguiram uma certa
independência financeira: hoje podem trabalhar, serem bem remuneradas e serem as
responsáveis por manter financeiramente um lar. Contudo, há um eco que não cessa de
incomodar os ouvidos, herança de um legado patriarcal que assolou as mulheres durante
séculos. A mulher sempre foi tida como ―o outro‖ e ainda o é.
Há tempos que a mulher luta pela melhoria de suas condições, e por muito tempo não
conseguiram muito avanço. De fato, a questão feminista passou a ter uma voz - talvez
―rouca‖, no entanto uma voz - nos últimos dois séculos. Vem em busca do direito de
igualdade de remuneração salarial, direto a voto, entre outros. na segunda metade do
século XIX o feminismo político começou a se organizar como movimento, mais

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especificamente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Através de documentos e petições,


esse movimento foi em busca da igualdade legislativa, ou seja, do voto, já que o mesmo
significava a maior bandeira feminista, pois, a partir dele, outros objetivos poderiam ser
alcançados. Contudo, foi exatamente nesta época que, na Inglaterra, durante a Era
Vitoriana, a mulher foi majoritariamente discriminada, como se vê nas palavras de
Zolin:

A mulher que tentasse usar seu intelecto, ao invés de explorar sua


delicadeza, compreensão, submissão, afeição ao lar, inocência e
ausência de ambição, estaria violando a ordem natural das coisas,
bem como a tradição religiosa [...] a condição de subjugada da
mulher deve ser tomada como sendo de vontade divina (ZOLIN in
BONICCI & ZOLIN, p. 164).

Vê-se que se utilizou ao longo da história, e porque não dizer, utiliza-se até os
dias de hoje, vários meios para manter a mulher como submissa, e um dos mais fortes é
a tradição religiosa, que ―obriga‖ a mulher a manter-se como subjugada em relação ao
sexo masculino dominante. Segundo Pierre Bourdieu, o estado e o clero seriam os
responsáveis pela perpetuação desses valores, como ele diz em seu livro A Dominação
Masculina (2005):

Teríamos que levar em consideração o papel do estado, que veio


ratificar e reforçar as prescrições e proscrições do patriarcado privado
[...] Sem falar no caso extremo dos estados paternalistas, realizações
acabadas da visão ultraconservadora que faz da família patriarcal o
principio e o modelo da ordem social como moral, fundamentada na
preeminência absoluta dos homens em relação às mulheres [...]
(BOURDIEU, 2005, p. 105).

A perpetuação de todos esses valores foi feita por meio de fortes estruturas, que,
por conta de seus próprios interesses fixaram a mulher como submissa e inferior. Tanto
a sociedade quanto a igreja, fixavam suas justificavas em um ponto principal: família.
Segundo o autor, essas instituições pregavam a ―pureza‖ feminina em prol da
constituição da família. Uma mulher revolucionária, que fugisse aos padrões, tanto de
esposa fiel quanto na utilização de trajes mais ousados atingiria a moral e os bons
costumes, não sendo apta, assim, a constituir família.

É, sem dúvida, à família que cabe o papel principal na reprodução da


dominação e da visão masculinas; é na família que se impõe a

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experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação


legítima dessa divisão [...] Quanto à Igreja, marcada pelo
antifeminismo profundo de um clero pronto a condenar todas as faltas
femininas à decência, sobretudo em matéria de trajes, e a reproduzir,
do alto de sua sabedoria, uma visão pessimista das mulheres e da
feminilidade (BOURDIEU, 2005, p. 103).

Em outras palavras, perpetuando a família baseada na religião, perpetuava-se,


então, a submissão feminina. Inclusive criam-se mitos. Vê-se o exemplo da gênese
bíblica judaico/cristã que conta o nascimento de Eva, a primeira mulher, a partir de uma
parte da costela de Adão, seu homem. Ela não foi criada juntamente com Adão, foi
moldada a partir de uma parte do seu corpo. Deus não a criou por sua vontade
simplesmente, mas por ver Adão solitário e triste, ou seja, criou-a com um único
propósito: destiná-la ao homem.
Nem só sua criação é um mito de subserviência, mas também sua atitude que
causou a expulsão do paraíso é também um mito que a enquadra como a megera, algo
que vêm das trevas para afastar o homem de seu contato com Deus. Ao comer a maçã e
a ―ludibriar‖ o homem para que esse também comesse do fruto, Eva passa a ser a
culpada do desligamento com o divino. Além de serva, ela é aquela que também não se
pode confiar, que tem pensamentos divergentes, que leva o homem para longe do seu
verdadeiro caminho.
Simone de Beauvoir, grande referência na crítica feminista diz que nas
sociedades mais primitivas, o homem tinha que sair à caça, visto que a mulher tinha que
cuidar da prole. Sua inferioridade física em relação aos homens, que tinham que
empenhar pedras e armas, pode até ter ajudado na construção da dicotomia de gênero,
mas não foi um dos principais fatores, já que suas tarefas domésticas – fabricação de
vasilhames, tecelagem, jardinagem e colheita – eram de fundamental importância na
vida econômica dessas sociedades.
Porém, quando um povo passou a conquistar outro, a fazer escravos, a se impor
em relação a outras tribos é que a mulher sucumbe. Ao menos é o que afirma Beauvoir
em seus estudos:

Um trabalho intensivo é exigido para desbravar florestas, tornar os


campos produtivos. O homem recorre, então, ao serviço de outros
homens que reduz à escravidão. A propriedade privada aparece:
senhor dos escravos e da terra, o homem torna-se também

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proprietário da mulher. Nisso consiste a grande derrota do sexo


feminino (BEAUVOIR, 1949, pg. 74).

Sua submissão, segundo Beauvoir, se inicia, então, com o advento da posse e da


propriedade privada. Ela já não é mais aquela com quem se divide igualmente o
trabalho. Mas se torna também posse do conquistador, escrava do dominador.
Anteriormente, o outro, o ser contra o qual o homem de sua tribo se impunha era um
mero animal que serviria de alimento ou os outros homens de outras tribos quando essas
se punham em batalha. A partir do momento em que o conceito de posse emerge, ela
passa a ser o outro contra o qual o homem se impõe. Lá fora do lar, ele se impõe na
guerra para suas conquistas, e essa imposição reflete dentro do lar, relegando a mulher
ao seu papel de objeto-posse. A partir daí o homem reivindica a colheita, bem como os
filhos: é o aparecimento da sociedade patriarcal e falocêntrica baseada na propriedade
privada. Quando casada, liberta-se do pai, mas passa então a ser propriedade do marido,
não tem voz, não faz suas leis, não impõe seus pensamentos.
Diz-se que a mulher acaba por tornar-se inconscientemente submissa por várias
razões. Uma delas é sua passividade na relação sexual. Ela espera, passiva, a entrada
―triunfante‖ do homem, o ser ativo na relação. Logo, pode-se entender que possuir um
pênis é possuir o poder dentro das relações. Se o homem impõe-se socialmente,
intimamente o instrumento que o leva a permanecer com esse poder é o falo. Lê-se
Beauvoir ―O homem exalta o falo na medida em que o apreende como transcendência e
atividade, como modo de apropriação do outro‖ (IBIDEM, 205).

2 - A mulher na literatura

A mulher também ficou, por longas décadas e séculos, com um papel secundário
nas obras literárias. Aos homens eram dedicadas as principais personagens, as
discussões, aventuras e reflexões. Lucia Zolin discute a respeito do estereótipo feminino
nas obras literárias. Segundo ela, nas narrativas de autores masculinos, tudo tem uma
perspectiva e um direcionamento totalmente masculinos, como se todos os seus leitores
também o fossem. Logo, as personagens femininas ficam deixadas em um segundo
plano, seguindo paradigmas de estereótipos e papéis.

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[...] as críticas feministas mostram como é recorrente o fato de as


obras literárias canônicas representarem a mulher a partir de
repetições de estereótipos culturais, como, por exemplo, o da mulher
sedutora, perigosa e imoral, o da mulher como megera, o da mulher
indefesa e incapaz, e entre outros, o da mulher como anjo capaz de se
sacrificar pelos que a cercam. (ZOLIN, p. 170).

Podemos enquadrar, segundo as definições dadas acima, algumas das


personagens mais importantes das Literaturas Brasileira e Portuguesa. A mulher descrita
somente como corpo, feita para o sexo, aquela dedicada aos delírios da carne, sedutora e
perigosa pode ser representada pela personagem. Lúcia do romance Lucíola de José de
Alencar.
Lúcia saltava sobre a mesa. Arrancando uma palma de um dos jarros
de flores, trançou–a nos cabelos, coroando–se de verbena, como as
virgens gregas. Depois agitando as longas tranças negras, que se
enroscaram quais serpes vivas, retraiu os rins num requebro sensual,
arqueou os braços e começou a imitar uma a uma as lascivas pinturas;
mas a imitar com a posição, com o gesto, com a sensação do gozo
voluptuoso que lhe estremecia o corpo (ALENCAR, 1985, p. 42-43).

Vemos também muito fortemente na literatura o estereótipo de mulher pura,


incapaz de maldade, sendo sempre representada com adjetivos alvos, elevada ao estado
de anjo ou divindade:

Descansar nesses teus braços


Fora angélica ventura:
Fora morrer — nos teus lábios
Aspirar tua alma pura!
Fora ser Deus dar-te um beijo
Na divina formosura! (AZEVEDO, 1996, p. 51)

Como a mulher que vive para o trabalho, servindo o homem, podemos ver
Bertoleza, de O Cortiço. Sofrida, sem ter a quem recorrer, vê como único caminho
trabalhar sol a sol para João Romão, português que lhe mandava e desmandava.

Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a deitar-se; de


manhã escamando peixe, à noite vendendo-o à porta, para descansar
da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo nem dia
santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, imunda, repugnante,
com o coração eternamente emprenhado de desgostos que nunca
vinham à luz. Afinal, convencendo-se de que ela, sem ter ainda
morrido, já não vivia para ninguém, nem tampouco para si, desabou
num fundo entorpecimento apático, estagnado como um charco podre
que causa nojo (AZEVEDO, 1997, p. 133).

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Resumidamente, a mulher ou é vista como angelical, submissa e fiel ou é


megera, objeto de sexo e semeadora da discórdia. É claro no exemplo a seguir, retirado
da obra Inocência, de Visconde de Taunay:

Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!.. Se não tomam


estado, ficam juradas e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos
de algum marido malvado... E depois, as histórias! Ih meu Deus,
mulheres numa casa, é coisa de meter medo... (TAUNAY, 1998, p.
27).

Ou seja, há certo modelo de mulher e ―feminilidade‖, que se traduz quase como


―passividade‖, ou mesmo ―sexualidade‖ ou é demonizada como no trecho acima. São
dois pólos opostos que as representam, estereotipando-se nos dois, petrificando-a em
uma imagem inautêntica.

A mulher representada na literatura, entrando num circuito,


produzindo efeitos de leitura, muitas vezes acaba por se tornar um
estereótipo que circula como verdade feminina. Presa de
representações confunde significante e significado e busca
estabelecer uma continuidade do signo com a realidade (BRANDÃO,
2006, p. 33).

3 - A mulher em Saramago

As narrativas não foram escolhidas por acaso. Há nelas personagens femininas


que são marcantes por sua força de atuação. Mulher do Médico, de Ensaio sobre a
Cegueira, sacrifica-se, logo no início da obra, em prol do marido. Ela o acompanha até
ao manicômio onde os cegos estão sendo alojados, fingindo estar também cega para,
assim, estar junto dele. A partir dessa atitude, outros fatos importantes se desencadeiam
e tornam sua participação na fábula de extrema importância. A sua imunidade acaba se
tornando um peso para ela mesma. Enquanto os outros estão cegos e jogados à barbárie,
ela, com os seus olhos literalmente abertos, acaba por testemunhar toda a decadência
humana, física e moral. No entanto, ela não se entrega, sacrifica-se novamente, desta
vez em prol dos cegos de sua camarata: reivindica medicamentos para os feridos,

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demanda mais comida para a ala que passa fome, dá banho nas outras mulheres e ajuda
os feridos.
Sua pureza, ou se preferirmos, sua não altivez, faz com que ela sequer considere
a hipótese de tirar proveito da visão intacta, por exemplo, pegando mais comida para si.
Ela compartilha os horrores da situação, seguindo com outras mulheres voluntárias até a
ala vizinha para servirem, com seus corpos, como moeda de troca por comida para os
habitantes da sua ala. E essa ―superioridade‖ que ela tem sobre os outros, ou seja, o fato
de enxergar em meio a cegos, ao invés de trazer vantagens, leva-a ao perigo. Após
assassinar com uma tesourada o líder da camarata que fazia das mulheres objeto de
estupro e/ou prostituição, ela correu o risco de ser entregue por sua própria ala ao covil
dos lobos da camarata três. Correu o risco, também, de se tornar escrava dos próprios
cegos, guiando-os aos banheiros, lavando suas roupas, etc. Portanto, sua imunidade, ao
mesmo tempo em que fortalece sua condição de mulher-sujeito, que se coloca como
uma líder, também a coloca em perigo.
Sua força de tutora dos cegos leva-a ao encontro do abuso, recordando-nos de
uma figura da mitologia celta: o rei casado com a terra, soberano cuja vida seria
oferecida em sacrifício na eventualidade de seca e fome. O ditado ―em terra de cego,
quem tem um olho é rei‖ é assumido por ela, mas não no sentido que normalmente se
imagina: ser rei nesse contexto significa responsabilidade, cumplicidade e sacrifício, em
vez de vantagens, imunidade e ócio.
Tentando fazer uma leitura e tentando encaixá-la nos estereótipos femininos
encontrados na literatura escrita por homens, ela bem se aproxima daquela cuja função é
se anular perante aos outros, sendo pura e compreensiva (mesmo diante da traição do
marido com a amiga), já que ela realmente se sacrifica pelos outros. Porém, ela é uma
personagem que foge desses estereótipos. A Mulher do Médico age, faz com que as
coisas aconteçam, fortalece-se e lidera todos em meio a uma sociedade patriarcal e
imunda. Ela se rebela, enfrenta o perigo ao entrar na camarata dos bandidos para
assassinar seu líder. Vê-se que sua imunidade não é a razão que a faz líder, apenas
reforça sua liderança dentro do manicômio e fora dele. Desde o início da obra, pode-se
perceber sua determinação e convicção, ao se proclamar cega, mesmo não estando cega
verdadeiramente, para acompanhar o marido até o manicômio.

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Blimunda, protagonista de Memorial do Convento é filha de uma condenada à


fogueira, ela conhece Baltazar justamente durante a execução de sua mãe. A sua
primeira manifestação de independência ocorre aí: sem conhecê-lo, leva-o para morar
consigo.
Nota-se, também, que no casal Baltazar/Blimunda há uma igualdade de papéis.
Não há, entre eles, dominador e dominado. Ao contrário, no casal da nobreza, ou seja,
na relação entre o Rei e a Rainha, fica evidente a condição da mulher em relação ao
patriarca: a soberana serve apenas para a reprodução; em outras palavras, para dar um
herdeiro varão ao trono. A esterilidade da soberana pode desgraçá-la, uma vez que
transferiria a coroa para um parente próximo do rei. Em meio à nobreza, a relação de
poder existente na esfera social se transfere para a esfera matrimonial. Na pobreza,
percebe-se, como dito acima, que o casal se coloca no mesmo nível hierárquico: outro
ponto importante na leitura de Blimunda. Vê-se que nas classes populares a mulher tem
maior liberdade e nem mesmo a virgindade, dentro dessas classes, é considerada um
bem tão precioso. Essa liberdade de ação é bem explorada por Saramago, em
contraposição à mulher anulada socialmente e sem força de ação, ou seja, a Rainha.
Enquanto uma leva um homem para morar consigo e estabelece dentro do seu
relacionamento uma igualdade hierárquica de papéis, a outra é anulada pela
configuração de poder existente dentro do casamento entre nobres.
Por força de sua ―estranheza‖, ou seja, seu poder de visão (Blimunda podia ver
as pessoas por dentro, tanto seu interior físico quanto suas vontades, se estivesse em
jejum) ela se torna imprescindível para o vôo da Passarola. . Ora, se o vôo pode ser lido,
no romance, como metáfora da liberdade, o papel de Blimunda como a única
personagem que pode reunir os elementos (vontades) imponderáveis, etéreos, que serão
necessários na engenharia renascentista dessa liberdade, ganha um significado
inequívoco.
Depois do sumiço de seu companheiro, que fez um vôo com a Passarola e nunca
mais foi visto, Blimunda peregrina todo o chão de Portugal em busca de seu amado.
Procura-o por nove anos, indo de terra em terra, povoado em povoado, cidade em
cidade. Tal atitude poderia ser considerada, por um lado, como uma atitude de
submissão e fidelidade ao seu marido; por outro, pode-se considerar essa posição de
Blimunda como força de mulher-sujeito, por ser fiel a si, ao seu amor, aos seus

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princípios, enfrentando as convenções sociais de sua época, recebendo o rótulo de louca


que vem não se sabe de onde e vai não se sabe para onde. Chega até mesmo a enfrentar
um apedrejamento nessa sua peregrinação. Contudo, ela não esmorece, vai até o fim, e
encontra seu amado a arder na fogueira da Santa Inquisição.
Para finalizar a respeito de Blimunda, ela também não se encaixa nos
paradigmas preconceituosos enraizados na literatura. De indefesa Blimunda nada tem.
Como classificar como indefesa alguém que, ao sofrer tentativa de estupro por um
frade, tem força para matá-lo e fugir. Megera ela é tampouco. Sabe-se que Blimunda, na
busca por Baltazar, é perseguida por esse frade, e só comete o crime em legítima defesa.
Sua busca incansável por seu amor e a resistência ao apedrejamento mostram sua força,
a de uma mulher que consegue se destacar em um universo falocêntrico e patriarcal,
fugindo aos padrões de representação feminina.
Para ambas as personagens, os efeitos e acontecimentos inexplicáveis ajudam no
fortalecimento de suas personalidades. Porém, tais fenômenos apenas acrescentam força
à já firme personalidade dessas mulheres, são apenas uma força que as leva emergirem
de um mar dominado pelo masculino. Tanto a Mulher do Médico quanto Blimunda
fogem dos estereótipos femininos arraigados na Literatura. Em se tratando da primeira,
desde o início da obra ela toma sua posição de líder e enfrenta todos os problemas que
lhe atravessam o caminho. Quando a situação está se encaminhando para uma
dominação total, tanto moral e física, por parte dos bandidos da ala três, ela toma uma
decisão: assassinar seu líder. E o faz apesar de sua consciência acusá-la de que acabara
de matar um homem. Sua ―não altivez‖ em não se aproveitar da sua imunidade para
tornar-se uma tirana também reforça seu caráter. É mulher que atua em meio a uma
sociedade onde os homens ditam as regras.
Em Jangada de Pedra, livro do mesmo escritor, Joana Carda, que acabara de
perder do marido, encontra quatro pessoas com as quais se passaram fenômenos
inexplicáveis durante o desprendimento da Península Ibérica do resto da Europa. Joana
Carda é única figura feminina em meio a três homens, e mesmo assim ela se sobressai
tomando atitudes, dizendo coisas que só uma mulher de forte caráter pode fazer. Ao se
apaixonar por José Anaiço, Carda (que curiosamente significa ―um tipo de máquina que
desembaraça as fibras têxteis‖ e ao mesmo tempo ―máquina que dilacera carnes‖) não

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hesita, toma a atitude de beijá-lo, mesmo correndo o risco de ser considerada fútil
perante aos outros:

Disse Joana adeus até amanhã, e no último instante, quando já tinha


um pé no chão, virou-se para trás e beijou José Anaiço, na boca, pois
então, não esse disfarce de face ou comissura, foram dois relâmpagos,
um de rapidez, outro de choque, mas deste prolongaram-se o efeito, o
que não seria o contato dos lábios, tão doce, se tivesse prolongado
(SARAMAGO, 2006: 134 - 135).

Se a atitude de Joana Carda fosse atribuída a um homem, este estaria seguindo a


ordem natural das coisas. Entretanto, atribuída a uma mulher, essa atitude poderia ser
vista com ―maus olhos‖. Mas Carda não teme tais preconceitos, sua vida já estava
desintegrada com a perda do casamento, ela arrisca amar e não se arrepende. Toma
outras iniciativas como aquela que quando se estava por decidir quem dormiria aqui ou
ali na casa de Joaquim Sassa, tendo apenas uma cama de casal, Joana Carda decide e
põe fim ao impasse:

Mas dois minutos ainda não tinha passado e aí estava Joana Carda a
dizer em voz clara, Nós ficamos juntos, em verdade está o mundo
perdido se as mulheres tomam iniciativas deste alcance, antigamente
havia regras [..] mas nunca por nunca ser este despautério, esta falta
de respeito diante de um homem de idade, e ainda dizem que as
andaluzas têm o sangue quente, vejam esta portuguesa, a Pedro Orce
que aqui vai nunca nenhuma disse assim cara a cara, Nós ficamos
juntos (SARAMAGO, 2006: 148, 149).

Este irônico comentário do narrador só reafirma sua posição de mulher-sujeito,


definição dada pela crítica feminista àquela personagem que age e toma decisões no
universo patriarcal e falocêntrico. Joana Carda decide passar a noite com José Anaiço.
Isto não a torna vulgar, e em muitos pontos da obra vê-se em Joana Carda uma mulher
que, apesar do sofrimento, é decidida e se mostra, por vezes, caridosa e de bom coração.
O próprio narrador afirma seu brio, vê que Joana Carda é uma mulher que decide reagir,
que não espera pelos outros. Vê-se o que ele pensa da personagem no trecho em que os
quatro amigos estão ficando sem dinheiro e se preocupam em como consegui- lo:

Mas talvez não venha a ser preciso chegar a tais extremos de


ilegalidade, aqui no Porto irá também José Anaiço à agência do
banco onde guarda as economias, Pedro Orce trouxe todas as suas
pesetas, de Joana Carda é que nada sabemos quanto ao particular dos

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recursos, pelo menos já vimos que não parece mulher para viver de
caridades ou expensas de macho (SARAMAGO, 2006: 152).

Joana Carda é daquelas pessoas que não esperam, já sendo redundante, agem.
No trecho em que o cão aparece, é ela que entende que o cão quer que eles o sigam. E
nas indefinições de ir ou não com ele, ela decreta: Estou pronta a ir para onde ele nos
levar, se foi para isso que veio, quando chegarmos ao destino saberemos (Ibidem: 133).
Ela torna-se, pode-se assim interpretar, um ícone a ser seguido. Sua liberdade e
determinação a levam ao encontro dos três amigos, e a fazem decidir seguir viagem com
eles, atitude de extremo enfrentamento em se tratando de uma sociedade patriarcal e
falocêntrica. Isso se torna claro quando, ao regressar a casa dos parentes para passar a
noite, Joana Carda, no entrar da noite, conta que decidira ir viajar com os três homens:

[...] Quando todos já dormirem na Figueira da Foz, ainda duas


mulheres estarão a conversar numa casa de Ereira, no segredo da
noite, Quem me dera ir contigo, diz a prima de Joana, casada e mal-
maridada (SARAMAGO, 2006: 135).

A prima, que tem como impedimento para uma viagem deste tipo o mau
casamento, e que provavelmente não se separa devido aos valores da sociedade
patriarcal, lança em Joana, desquitada e valente, seus anseios, eis a razão do: ―Quem me
dera ir contigo‖.

4 - Considerações finais

Em guisa de conclusão, todas as personagens analisadas contribuem, através de


suas atitudes, para uma desconstrução dos estereótipos femininos mais conhecidos (a
megera, a santa e sedutora/perigosa), contribuindo também para uma desconstrução da
ideologia de diferença de gêneros: a dicotomia homem/mulher, em que um sempre é
dominante e o outro dominado. É importante, ao fim, frisar que não há um ―super-
heroísmo‖ nas mesmas, e nem esse é o norte da crítica feminista. Elas sofrem, passam
por tribulações, e são pessoas absolutamente comuns, mas com uma diferença: agem. O
que se quer é mostrar mulheres normais que podem, sim, ser ativas, tomarem decisões e

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ter um nível de igualdade em relação aos homens. Nota-se nas três personagens que elas
dividem os papéis com seus companheiros, tomando decisões, participando ativamente
da fábula.
Quanto à Blimunda, seus poderes a fortalecem como mulher que atua, porém,
mesmo sem eles, ela continua sendo agente, tomando iniciativas sempre que mudanças
sejam necessárias, tomando decisões quando os outros não fazem. Ela também não se
submete à dominação masculina e falocêntrica, adota uma postura, juntamente com
Baltazar, de igualdade dentro de um ―casamento‖. Vê-se uma nítida diferença de valores
em comparação com o casal da nobreza, em que se tem o Rei como centro e dominador
e a Rainha como mero objeto para reprodução e com vontades e atuações praticamente
nulos. Em se tratando de Blimunda, sua independência contribui para sua força de ação
e realização de suas vontades.
Entende-se, por fim, que a Mulher do Médico contém muito dos aspectos que
tanto a crítica feminista reivindica: uma igualdade de papéis entre homem/mulher, uma
mulher com características fortes e força de mudança, que seja determinada, espirituosa
e líder e mesmo assim continue sendo uma mulher, com todas as suas peculiaridades
femininas. Ela não pode ser julgada como indefesa ou pacífica só porque ―entende‖ a
traição do marido, bem como não há nada de mulher megera ou perigosa só pelo
assassinato que ela cometeu. Outras características dizem justamente o contrário: a força
de lutar por pessoas que não conhece, enfrentando situações perigosas, entrando no
covil do inimigo e assassinando o líder rival. Pode-se dizer que a personagem Mulher
do Médico é um exemplo para a desconstrução da dicotomia que tanto a crítica
feminista luta para desfazer.
E sobre Joana Carda, coloca-se aqui a fala do narrador relatando o espanto dos
homens em relação à inteligência e força desta personagem: ―Vê-se na cara de José
Anaiço e de Joaquim Sassa que vão desorientados, a mulher que desceu à cidade de pau
a proclamar impossíveis actos de agrimensora saiu-lhes filósofa nos campos do
Mondego‖ (SARAMAGO, 2006: 127).

Referências bibliográficas

ISSN 2178-8200
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: 06 a 08 de outubro de 2010
Diversidade, Ensino e Linguagem UNIOESTE - Cascavel / PR

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