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PESQUISA SOCIAL

Fernanda Picinin Moreira


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1 FUNDAMENTOS DA PESQUISA SOCIAL

Bem-vindo(a) ao estudo de fundamentos da pesquisa social!

Neste bloco, iremos realizar uma aproximação à pesquisa científica, percorrendo um


caminho histórico que começa na curiosidade humana e termina em desenvolvimento
científico. Neste percurso, entraremos em contato com o processo de construção de
conhecimento através da pesquisa social, de suas etapas de investigação, protocolos e
metodologias.

Bons estudos!

1.1 Pesquisas no âmbito do Serviço Social

No cotidiano nos parece costumeiro o processo de buscar informações, sobre algo ou


sobre alguém, com o objetivo de obter um conhecimento qualificado a respeito do
nosso objeto de curiosidade, seja ele físico ou abstrato. É a partir desta curiosidade
que o ser humano civilizado estabelece sua relação com os fenômenos sociais de sua
época, e ao mesmo tempo é capaz de resgatar e reconhecer, através da investigação,
seu processo histórico enquanto indivíduo e sua relação com o todo, no que diz
respeito a suas interações e subjetividade.

Este movimento intelectual de questionamento, de busca e de produção de


conhecimento, contribuiu, ao longo da história para o desenvolvimento dos mais
variados conhecimentos, formais ou informais, a partir de conteúdos de transmissão
oral, de textos verbais e visuais, de modo que, ao buscarmos compreender qualquer
fato, precisamos recorrer aos procedimentos de pesquisa.

O termo ‘pesquisa’, do latim perquirere, que significa procurar com afinco, consta nos
dicionários etimológicos, logo, podemos deduzir que a curiosidade humana remonta
aos mais remotos registros da civilização, sobretudo seu aparato filosófico.

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Aprofundaremos mais adiante essa discussão. Por enquanto, buscaremos identificar os


elementos de pesquisas diante da relação com o cotidiano.

Para ilustrar este processo, podemos utilizar inúmeros segmentos de pesquisa:


pesquisas de mercado, de satisfação ao cliente, de moda, comportamento ou mesmo
sites de busca online como Google e Wikipedia, nos quais o ícone de uma lupa,
representa a palavra em questão: pesquisar.

A partir dos exemplos citados acima, podemos concluir, de uma maneira geral, que a
pesquisa diz respeito ao processo de levantamento de dados e investigação sobre
determinado tema ou objeto. Umberto Eco, em seu livro, Como se faz uma tese (1977)
sintetiza quatro pontos principais para atribuir cientificidade a uma pesquisa, são eles:

O estudo debruça-se sobre um objeto reconhecível e definido de tal


maneira que seja reconhecível igualmente pelos outros.
O estudo deve dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma
óptica diferente do que já se disse.
O estudo deve ser útil aos demais, ou seja, o grau de indispensabilidade que
a contribuição estabelece.
O estudo deve fornecer elementos para a verificação e contestação das
hipóteses apresentadas e, portanto, para uma continuidade pública (ECO,
1977, p.21).

Vemos, portanto, que dentre as características de uma pesquisa científica, no caso das
ciências humanas, temos o fato de ela ser subsidiada por critérios de verificabilidade,
conforme veremos ao longo deste capítulo, em que serão abordados os
procedimentos de pesquisas científicas, classificadas por métodos e categorias de
análise no âmbito do Serviço Social.

No que diz respeito ao Serviço Social, a pesquisa tem profunda relevância tanto no
âmbito da formação profissional, quanto na atuação de um Assistente Social, como
aponta Iamamoto (2013, p.273-274):

A pesquisa ocupa um papel fundamental no processo de formação


profissional do assistente social, atividade privilegiada para a solidificação
dos laços entre o ensino universitário e a realidade social e para a soldagem
das dimensões teórico-metodológicas e prático-operativas do Serviço Social,
indissociáveis de seus componentes ético-políticos.

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Ao indicar as dimensões teórico-metodológicas, ético-políticas e prático-operativas, a


autora explicita a transformação da experiência profissional, que a partir da década de
1980, passou a atuar sob a concepção de trabalho interventivo dentro de um contexto
sócio-histórico, ou seja, não apenas como prática tecnicista e politicista da ação
profissional.

Tendo a profissão de Serviço Social, um perfil interventivo, no qual se busca não só


atuar junto as expressões da questão social, como também elaborar alternativas para
superá-las, a pesquisa se estabelece como ponte de conexão entre a teoria e a prática.

Como exemplo, suponhamos que um determinado assistente social que atue na área
da saúde desconheça as mais recentes orientações técnicas, produções acadêmicas e
demais informações oriundas de pesquisas relacionadas ao seu segmento profissional,
território e campo de atuação. Não seria semelhante a um advogado que desconheça
as portarias mais recentes, ou até mesmo um médico cirurgião que não tenha se
atualizado em relação a novos procedimentos cirúrgicos?

Para evitar que sua prática recaia em um contexto moralista e de senso comum,
defende-se a pesquisa em Serviço Social tanto para compreender os fenômenos como
para formular respostas profissionais enraizadas na realidade, além disso, é necessário
que a formação profissional sofra um

[...] “encharcamento” de informações históricas sobre a sociedade


brasileira, em suas faces rural e urbana, tendo como foco a produção e
reprodução da questão social em suas expressões nacionais, regionais e
municipais, construindo-se uma indissolúvel aliança entre teoria e realidade,
necessariamente alimentada pela pesquisa. (IAMAMOTO, 2013, p.275).

1.2 Pesquisa Social e construção do conhecimento

Após compreendermos as características de uma pesquisa científica, sobretudo com


ênfase na formação e exercício profissional no âmbito do Serviço Social, faz-se
necessário elaborar a seguinte reflexão: O que determina uma pesquisa social?

Naturalmente, podemos concluir que a pesquisa social se debruça em objetos frutos


da interação humana, de seu comportamento coletivo, sua estrutura econômica e
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contexto histórico. Contudo, para além desta investigação a respeito da sociabilidade,


a pesquisa social se propõe a oferecer uma leitura da realidade, com vistas a superar a
opinião do senso comum, a partir da construção de um conhecimento a respeito de
determinado assunto.

A medida em que as pesquisas sociais têm como objeto principal de estudo a


experiência humana, sua produção de conhecimento está apoiada no conjunto de
disciplinas das ciências sociais, ou seja: antropologia, sociologia, psicologia, história e
artes criativas, conforme sistematiza Lewin e Somekh, no livro Teoria e Métodos de
Pesquisa Social:

A antropologia contribui com uma tradição de observação participativa e


entrevistas, anotações em campo e interpretação heurística da cultura. Da
sociologia aprendemos de que maneira as relações sociais se formam ou
reproduzem. A psicologia fornece-nos uma compreensão do
comportamento humano. A história contribui com uma tradição de análise
de documentos e confere importância a registros contemporâneos, inclusive
testemunhos pessoais em cartas e livros de anotações. As artes criativas
oferecem uma tradição da estética e dão importância a criatividade e
imaginação na interpretação (LEWIN e SOMEKH, 2015, p.27).

É a partir deste conjunto de disciplinas que a pesquisa social se propõe a explicar a


realidade concreta, com o apoio de teorias e metodologias que categorizam diferentes
interpretações possíveis diante de um mesmo fenômeno social. Neste caso, convém
utilizar o conceito de teoria proposto por Minayo (2015, p.13): “o conhecimento de
que nos servimos no processo de investigação como um sistema organizado de
proposições que orientam a obtenção de dados e análise dos mesmos.”
Ao realizar este apontamento, a autora propõe que utilizemos a teoria como um
conhecimento anterior, que se relaciona com o objeto pesquisado, conhecimento este,
que contribui com análises a respeito das questões a serem aprofundadas ao longo de
uma determinada pesquisa.
Para ilustrar a discussão acima, podemos considerar como exemplo a seguinte
sugestão: Ao sermos convidados a elaborar uma narrativa histórica a respeito da
colonização brasileira, certamente iremos recorrer a livros de história, artigos
científicos dentre outras produções intelectuais fundadas a partir de registros e
documentos comprobatórios. Contudo, este mesmo fato histórico possui diferentes
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perspectivas analíticas que contribuem para a produção de conhecimento a respeito


deste tema.
Estamos na era da informação, em que muitos dados e indicadores de pesquisas
encontram-se disponíveis através da internet, no entanto, ao pesquisador social, cabe,
não apenas o levantamento das informações como também um posicionamento
político a respeito da maneira com a qual irá defender seu objeto de estudo.
Com isso, pretende-se ressaltar que a pesquisa social, fundamentada nas categorias de
análise das ciências sociais, é em sua gênese, dotada de um determinado nível de
consciência histórica social, uma vez que também é “intrínseca e extrinsecamente
ideológica” como explica Minayo (2015, p.13).

Ela veicula interesses e visões de mundo historicamente construídas,


embora suas contribuições e seus efeitos teóricos e técnicos ultrapassem as
intenções de seu desenvolvimento. No entanto, as ciências físicas e
biológicas participam de forma diferente do comprometimento social (...) na
investigação social, a relação entre o pesquisador e seu campo de estudo se
estabelecem definitivamente. A visão de mundo está implicada em todo o
processo de conhecimento, desde a concepção do objeto, aos resultados do
trabalho e à sua aplicação.

Em consonância com esta argumentação, podemos concluir que todo o repertório de


conhecimento científico, seja na sua produção, na divulgação e acesso, pode ser
utilizado como instrumento de poder, que por sua vez, pode se desdobrar em
impactos sociais positivos como a criação e aperfeiçoamento de políticas públicas, bem
como impactos negativos, com o controle de informação, tendo em vista suas
determinações políticas.

É importante acrescentar que o processo de construção do conhecimento científico,


em que se pesem todo o rol de fundamentos teóricos e metodológicos, abarca em sua
gênese as questões filosóficas relacionadas a natureza do conhecimento e da verdade
(epistemologia), dos valores (axiologia) e do ser (ontologia). Questões estas que serão
discutidas no próximo capítulo.

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1.3 Protocolos para o desenvolvimento de pesquisas científicas

A partir da leitura dos itens anteriores, podemos elaborar o seguinte raciocínio a


respeito da pesquisa social: Sua gênese é fruto da curiosidade humana, quando
subsidiada por fundamentos teóricos e metodológicos de teorias advindas das
disciplinas de ciências sociais; seu objeto de estudo é o próprio ser humano e suas
expressões sociais dentro de determinado contexto histórico; a visão de mundo
proposta pela análise da pesquisa encontra-se igualmente impregnada pela visão de
mundo do(a) pesquisador(a) que a analisa.

A definição de critérios para a elaboração de um projeto de pesquisa e sua


correspondência com as normativas para sistematização de pesquisas científicas, como
no caso brasileiro, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), assim como
elementos lógicos capazes de serem constatados a partir de algum nível de
experiência, garantem o princípio de verificabilidade.

Tais suportes contribuem para o registro histórico das pesquisas sociais, uma vez que
estas acompanham a dinâmica de relações sociais e sua consequente transformação
política e tecnológica. É a partir destas mudanças que o conhecimento científico pode
ser concebido como falível, pois uma determinada ideia ou teoria pode ser superada
por outra, a medida em que se desenvolvam novas comprovações e se aperfeiçoem as
experimentações científicas.

Para aprofundar a discussão, consideramos necessário trazer ao texto informações a


respeito das etapas de uma pesquisa, bem como suas normativas e estruturas de
pesquisa. O livro Pesquisa científica – da teoria à prática, aborda as seguintes etapas,
como explanadas na tabela abaixo:

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Tabela 1.1 – Etapas de Pesquisa

Etapa 01 Definir ou estabelecer um problema


Etapa 02 Realizar um levantamento bibliográfico sobre o tema
Etapa 03 Formular uma hipótese
Etapa 04 Estabelecer um método para a realização do trabalho
Etapa 05 Definir os instrumentos utilizados no desenvolvimento da
pesquisa
Etapa 06 Realizar a coleta de dados da pesquisa
Etapa 07 Analisar crítica, científica e rigorosamente os resultados
obtidos
Etapa 08 Delinear conclusões
Fonte: CASARIN e CASARIN, 2012, p.63. Adaptado.

Inicialmente, uma pesquisa parte de um problema, ou seja, uma questão não


resolvida. Em se tratando das pesquisas sociais, a pesquisa se inicia ao identificar ou
definir um problema. Para buscar a definição de um tema, propõe que inicialmente
seja consultada a produção científica da área a ser investigada, de modo que a
literatura específica possa oferecer conclusões, limites e ainda dúvidas em relação aos
resultados obtidos.

Ainda neste processo de iniciação em pesquisa científica, cabe ao pesquisador realizar


um levantamento do máximo de materiais produzidos na área de abrangência do
assunto, para ponderar sobre a própria possibilidade de a pergunta/problema já ter
sido respondida anteriormente, a este procedimento denominamos levantamento
bibliográfico.

Em seguida, faz-se necessária a elaboração de uma hipótese, (CASARIN e CASARIN,


2012, p.63) afirmam que esta etapa pode ser entendida como “a solução ou resposta
preliminar a um problema existente. Ela pode e deve ser formulada com base no que
se observou na fase anterior da pesquisa, ou seja: nas conclusões obtidas no
levantamento bibliográfico”.
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Seguindo os procedimentos de pesquisa, a partir da hipótese, o pesquisador precisa


definir seu modo de atuação para alcançar as respostas e resultados planejados, ou
seja, sua metodologia de trabalho. A esta etapa, cabe, a partir da natureza do
problema, bem como do próprio objeto pesquisado, a concepção da maneira com a
qual serão levantados os dados e indicadores, que por sua vez podem ser
denominados como quantitativos, qualitativos ou ambos (pesquisas mistas), que serão
discutidos nos próximos itens.

Após ter identificado a metodologia de trabalho, é preciso planejar com quais


instrumentos o pesquisador irá coletar os dados, portanto, o instrumental é a fase
conseguinte de um processo de pesquisa científico, este pode ser elaborado por
diferentes suportes, como questionários, roteiro de entrevistas abertas ou fechadas,
que variam também a partir do objeto de pesquisa.

A próxima etapa, conforme sintetizado na Tabela 1.1, (CASARIN e CASARIN, 2012,


p.63), é classificada como análise dos resultados obtidos, momento no qual cabe ao
pesquisador uma análise comparativa, para verificar compatibilidades ou diferenças
em relação aos resultados, com o intuito de verificar se as informações coletadas são
satisfatórias ou carecem de eventual revisão de instrumentos e de metodologias.

Por fim, a respeito do processo de construção de uma pesquisa científica, é necessário


que seja apresentada uma conclusão, em que, embasada nos resultados coletados e
após meticulosa análise destes, o pesquisador poderá responder sua pergunta inicial.

De acordo com o conteúdo acima, observamos que o processo de investigação de uma


pesquisa científica possui critérios normativos para seu desenvolvimento. Levando em
consideração o sistema de etapas exposto, os leitores deste conteúdo provavelmente
conseguirão minimamente vislumbrar um vestígio de seu projeto de pesquisa, tendo
em vista o conteúdo apresentado ao longo de seu processo de formação e
naturalmente, interesse por determinado tema.

Neste sentido, o Serviço Social abarca um repertório inimaginável de temas, contudo,


em sua maioria, fundamentado a partir de uma leitura crítica da sociedade e da
própria reprodução social, de tal modo que é consideravelmente relevante a produção
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de conhecimento em Serviço Social, especialmente pesquisas, cuja ambientação e


objeto possuem como pano de fundo um questionamento e por vezes, enfrentamento
da cultura dominante, seja ele baseado no repertório das demais ciências sociais, bem
como também dentro da própria literatura produzida pelo Serviço Social. Esta
inclinação provém, da própria trajetória da profissão, em que se pesem os documentos
históricos que norteiam a profissão a partir da década de 1980, a citar a Proposta
Básica para o Projeto de Formação Profissional e os Princípios e Diretrizes Curriculares
da Formação Profissional.

Para além destas motivações pessoais, profissionais e políticas que determinam o


objeto de pesquisa e seu delineamento, observaremos no próximo item, parâmetros
que definirão as possibilidades de coleta e análise dos dados investigados a partir dos
seguintes direcionamentos metodológicos: Pesquisas qualitativas; Pesquisas
quantitativas e Pesquisas mistas.

1.4 Pesquisas qualitativas

Diante da sequência de assuntos abordados no presente conteúdo, podemos chegar


neste momento à conclusão de que a pesquisa científica, para além de carecer de
critérios de verificabilidade, fundamentos e métodos bem definidos, expressa
também, sobretudo a pesquisa social, uma perspectiva que parte de um diálogo entre
o pesquisador e o objeto de pesquisa, em que se pesem todas as interferências
subjetivas, sistema de valores individuais e coletivos durante a produção e análise das
informações coletadas.

A pesquisa qualitativa se ocupa exatamente deste ambiente, “uma vez que o


pesquisador coleta os dados diretamente no contexto em que os atores vivem e
participam” (PEROVANO, 2016, p. 151), para tanto, as técnicas mais recorrentes
utilizadas são: entrevista, história oral, estudo de caso e estudos etnográficos.

Portanto, no âmbito da pesquisa qualitativa, é correto afirmar, como destaca Perovano


(2016) que cabe ao pesquisador determinar os pontos relevantes das pesquisas,

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baseadas nas suas próprias observações e vivências. Para apreender toda esta gama
subjetiva e produzir a partir dela a composição de amostras, os sistemas de
classificação, instrumentos de coleta de dados para análises e elaborações de
interpretações a respeito da construção social, destacamos aqui as principais
características da pesquisa qualitativa, explicitadas por Baptista (2012, p. 37):

Deixam a verificação das regularidades para se dedicarem à análise dos


significados que os indivíduos dão às suas ações, no espaço que constroem
as suas vidas e suas relações, ou seja à compreensão do sentido dos atos e
das decisões dos atores sociais, assim como dos vínculos das ações
particulares com o contexto social mais amplo em que estas se dão. Há uma
relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, entre o sujeito e o objeto,
entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito.

Embasados nestes elementos, podemos concluir então, que a pesquisa qualitativa é


uma metodologia que se propõe a definir não apenas a maneira com a qual os dados
da investigação serão coletados e tratados, mas também é uma metodologia que se
propõe a capturar, ao longo da pesquisa, as experiências sociais adensadas na própria
trajetória de vida dos participantes da pesquisa, de modo que sua motivação final
acaba se tornando também uma experiência social, uma vez que as conclusões de suas
análises deverá retornar aos objetos de pesquisa, contribuindo deste modo para a
leitura crítica da própria dinâmica social, tanto do pesquisador quanto do que está
sendo pesquisado. Por exemplo, uma investigação científica que vise compreender
como os(as) assistentes sociais constroem sua identidade profissional ao longo da sua
trajetória.

Neste sentido, ilustramos aqui a síntese proposta pela Maria Lucia Martinelli, que
sistematiza três considerações sobre a pesquisa qualitativa no texto: O uso de
abordagens qualitativas na pesquisa em serviço social:

1) Quanto a seu caráter inovador, como pesquisa que se insere na busca de


significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências sociais;

2) Quanto à dimensão política desse tipo de pesquisa que, como construção


coletiva, parte da realidade dos sujeitos e a eles retorna de forma crítica e
criativa;

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3) Exatamente por ser um exercício político, uma construção coletiva, não se


coloca como algo excludente ou hermético, é uma pesquisa que se realiza
pela via da complementariedade, não da exclusão (MARTINELLI, 2012, p.29).

1.5 Pesquisas quantitativas

Dentre os caminhos possíveis para o desenvolvimento de uma pesquisa científica, a


escolha de uma metodologia para coleta e análise de dados, como discutimos ao longo
do item anterior, é também uma escolha com intenções políticas, contudo, no caso
entre as pesquisas qualitativas e quantitativas, tal escolha não é concebida como uma
atitude excludente, como ressalta (MARTINELLI, 2012, p. 29):

É muito importante que possamos perceber com clareza e afirmar com


convicção que a relação entre a pesquisa quantitativa e qualitativa não é de
oposição, mas de complementaridade e de articulação. O uso de uma ou
outra metodologia, ou de ambas, depende essencialmente da opção do
pesquisador em função da natureza e dos objetivos da pesquisa,
relacionando-se, portanto, de modo iniludível com seu projeto político, com
seu viver histórico.

Ao ressaltarmos a complementariedade de ambos os métodos, buscamos também


pontuar as diferenças de abordagens, conforme se verá no decorrer do texto. No caso
das pesquisas quantitativas, ilustremos o seguinte exemplo de contribuição utilizando
como caso, o banco de dados de instituições como IBGE, que reúnem informações a
respeito da própria dimensão territorial brasileira, assim como expressam a
desigualdade social do país, em informações como: “Em relação ao mercado de
trabalho, pesquisa realizada em 2018, indica que 68,6% dos cargos gerenciais são
ocupados por brancos enquanto 29,9% são ocupados por pretos ou pardos (IBGE,
2019).

Ao contrário da pesquisa qualitativa, as pesquisas quantitativas possuem tradição na


composição das ciências naturais e biológicas, as quais fundamentam-se avaliações e
leituras objetivas a partir de dados numéricos e estatísticos que representam,
indicadores de análise pautados na lógica matemática. A pesquisadora Figueiredo
(2008, p. 96), indica que a pesquisa quantitativa é um método indicado para as
seguintes situações de pesquisa: “Quando é exigido um estudo exploratório para um

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conhecimento mais profundo do problema ou objeto de pesquisa; quando é


necessário um diagnóstico inicial da situação; dentre outros”.

1.6 Pesquisas mistas

Como os leitores já devem supor, a pesquisa mista tem como característica principal a
possibilidade de integração entre a pesquisa qualitativa e quantitativa, ou seja, de
elementos subjetivos e objetivos. Convém, contudo, ressaltar que para estes casos, a
integração pode ser tanto na produção do instrumental de coleta de dados, quanto ao
que se refere a análises realizadas.

Como exemplo de pesquisa mista, podemos citar uma pesquisa cujo objetivo é
conhecer o perfil profissional dos assistentes sociais trabalhadores da política de
assistência social da cidade de São Paulo. Nesse caso, podemos fazer em um primeiro
momento o levantamento do número de profissionais atuantes nessa área, dentro de
uma perspectiva quantitativa e, em um segundo momento, uma entrevista com uma
amostra desses profissionais com perguntas relacionadas a formação e dinâmica de
trabalho cotidiano, já nos utilizando de uma perspectiva qualitativa.

É importante ressaltar que, para todos os casos, os pesquisadores precisam trazer


também para a pesquisa, suas motivações de escolha por determinado método, assim
como também é necessário justificar de que forma os dados serão tratados.

Conclusão

Diante do conteúdo apresentado, observamos que os fundamentos da pesquisa social,


contribuem para o desenvolvimento de leituras de mundo, imprescindíveis para a
construção do pensamento crítico de nossa realidade social. Percebemos as
possibilidades de análises e os diferentes critérios para a elaboração de um projeto de
pesquisa, em suas características mais relevantes. Buscamos também aproximar os
leitores do processo de construção de conhecimento dentro do Serviço Social e

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constatamos a relevância da tradição de pensamento das ciências sociais em suas


diferentes disciplinas. Por fim, refletimos sobre as escolhas de metodologias de
pesquisa e sua repercussão na coleta e análise de dados científicos.

Concluímos, deste modo, que a pesquisa social é fruto da curiosidade humana e seu
processo científico é composto por elementos filosóficos, teóricos e metodológicos e
sobretudo de dimensões políticas, capazes de oferecer ao sujeito, um elo do sujeito e a
sua história, através das transformações sociais da totalidade.

REFERÊNCIAS

BAPTISTA, Dulce Maria Tourinho. O debate sobre o uso de técnicas qualitativas e


quantitativas de pesquisa. In: MARTINELLI, Maria Lucia. Pesquisa qualitativa: um
instigante desafio. São Paulo: Veras, 2012.

CASARIN, Helen de Castro Silva e CASARIN, Samuel José. Pesquisa Científica: Da teoria
à prática. Edição digital. Curitiba: Editora Intersaberes, 2012.

ECO, Uberto. Como se faz uma tese. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

FIGUEIREDO, Nébia Maria Almeida de. Método e metodologia na pesquisa científica.


São Caetano do Sul, SP: Yends Editora, 2008.

IAMAMOTO, Marilda Vilella. O Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e


Formação Profissional. São Paulo: Cortez Editora, 2013.

IBGE. Estudos e Pesquisas. Informação Demográfica e Socioeconômica. n.41. 2019.


Disponível em: <https://bit.ly/3bbuoSp>. Acesso em: ago. 2020.

LEWIN, Cathy e SOMEKH, Bridget. Teorias e métodos de Pesquisa Social. Edição


digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.

MARTINELLI, Maria Lucia. Pesquisa qualitativa: um instigante desafio. São Paulo:


Veras, 2012.

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MINAYO, Maria Cecilia de Souza (organizadora). Pesquisa Social: Teoria, método e


criatividade. Edição Digital. Petrópolis: Editora Vozes, 1993.

PEROVANO, Dalton Gean. Manual de metodologia da pesquisa científica. Edição


digital. Editora Intersaberes, 2016.

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