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NORMAS PARA A PRÁTICA DIDÁTICO-CIENTÍFICA DA VIVISSECÇÃO DE ANIMAIS

BRASIL
Lei 6638, de 08 de maio de 1979
Art. 1 – Fica permitida, em todo território nacional, a vivissecção de animais, nos termos desta Lei.
Art. 2 – Os biotérios e os centros de experimentação e demonstrações com animais vivos deverão ser registrados em
órgãos competentes e por ele autorizados a funcionar
Art. 3 – A vivissecção não será permitida:
I – sem o emprego de anestesia;
II – em centros de pesquisa e estudos não registrados em órgão competente;
III – sem supervisão de técnico especializado;
IV – com animais que não tenham permanecido mais de 15 (quinze) dias em biotérios legalmente autorizados;V –
em estabelecimento de ensino de 1º e 2º graus e em e em quaisquer locais freqüentados por menores de idade.
Art. 4 – O animal só poderá ser submetido às intervenções recomendadas nos protocolos das experiências que
constituem a pesquisa ou os programas de aprendizagem cirúrgico, quando, durante ou após a vivissecção, receber
cuidados especiais.
§ 1 – Quando houver indicação, o animal poderá ser sacrificado sob estrita obediência às prescrições científicas;
§ 2 – Caso não sejam sacrificados, os animais utilizados em experiência ou demonstrações somente poderão sair do
biotério 30 (trinta) dias após a intervenção, desde que destinados a pessoas ou entidades idôneas que por eles
queiram responsabilizar-se.
Art. 5 – Os infratores desta Lei estarão sujeitos:
I – às penalidades cominadas no artigo 64, caput, do decreto – lei 3.688, de 03/10/41, no caso de ser a primeira
infração;
II – à interdição e cancelamento do registro do biotério ou do centro de pesquisas, no caso de reincidência.
Art. 6 – O Poder Executivo, no prazo de 90 (noventa) dias, regulamentará a presente Lei, Especificando:
I – o órgão competente para o registro e a expedição de autorização dos biotérios e centros de experiências e
demonstrações com animais vivos;
II – as condições gerais exigíveis para o registro e o funcionamento dos biotérios;
III – órgão e autoridades competentes para a fiscalização dos biotérios e centros mencionados no inciso I.
Art. 7 – Esta Lei entra em vigor na data da publicação.
Art. 8 – Revogam-se as disposições em contrario.

http://medicinal.terra.com.br/bioetica/

Bioética é a disciplina que se preocupa em refletir sobre que conseqüências as ações de


saúde têm sobre aqueles que estão sujeitos a elas. Um exemplo é a pesquisa: a Bioética
quer saber se, de fato, os seres humanos se beneficiarão de certas pesquisas, ou se certos
procedimentos que ainda não foram testados podem ou não causar algum malefício. Num
site como o Medicinal, a Bioética é importante para que possamos refletir sobre que tipo de
informação será levada até você. Em nenhum momento, por exemplo, a informação
veiculada aqui pretende substituir o seu médico. Palavras importantes no conceito de
Bioética são: ampla abrangência, pluralismo, abertura, interdisciplinariedade e incorporação
crítica de novos conhecimentos.

http://www.portalmedico.org.br/revista/411996/index1.htm

Revista publicada pelo Conselho Federal de Medicina - Vol.4 N.1 - 1996

Distanásia: Até quando investir sem agredir?


Léo Pessini

Este trabalho procura refletir sobre uma questão contemporânea sempre mais polêmica, qual seja, a distanásia
(obstinação terapêutica). Iniciamos definindo o que se entende por distanásia, analisando a combinação
tecnociência e medicina. Avançamos identificando dois paradigmas básicos, o do curar e cuidar. Neste contexto,
fazemos algumas pontualizações sobre alguns conceitos fundamentais no processo: vida - sacralidade e qualidade;
sofrimento: que sentido? ; filosofia dos cuidados paliativos. Finalizando, vemos o que a ética médica brasileira
codificada diz a respeito da distanásia e sinalizamos para a árdua tarefa: de por um lado não matar: por de outro,
não procrastinar ou adiar pura e simplesmente a morte. Ao não matar e ao não maltratar terapeuticamente, está o
amarás, o cuidar do sofrimento. A perspectiva proposta é a de morrer com dignidade.
UNITERMOS - Distanásia, hospice, futilidade médica.

"É melhor a morte do que uma vida cruel, o repouso eterno do que uma doença constante"
(Eclo 30,17)

Introdução

O termo "distanásia" é pouco conhecido e utilizado na área da saúde. Ao contrário do que ocorre com seu antônimo
"eutanásia", freqüentemente discutido e estampado nas manchetes de noticiários e jornais, apesar de sem dúvida, ser
opção bem menos praticada do que a "distanásia" em nossas instituições de saúde, notadamente nas unidades de
terapia intensiva, as modernas catedrais do sofrimento humano. Isso tudo é no mínimo curioso e nos exige uma
reflexão aprofundada que atinja as razões subjacentes , que vá além do simplismo ético de querer compreender e
resolver questões tão difíceis e polêmicas quanto esta da distanásia, na base do reducionismo ético de ser a favor ou
contra.
O que entender por distanásia? O Dicionário Aurélio traz a seguinte conceituação: "Morte lenta, ansiosa e com
muito sofrimento". Trata-se, assim, de um neologismo, uma palavra nova, de origem grega. O prefixo grego dis tem
o significado de "afastamento", portanto a distanásia significa prolongamento exagerado da morte de um paciente. O
termo também pode ser empregado como sinônimo de tratamento inútil. Trata-se da atitude médica que, visando
salvar a vida do paciente terminal, submete-o a grande sofrimento. Nesta conduta não se prolonga a vida
propriamente dita, mas o processo de morrer. No mundo europeu fala-se de "obstinação terapêutica", nos Estados
Unidos de "futilidade médica" (medical futility). Em termos mais populares a questão seria colocada da seguinte
forma: até que ponto se deve prolongar o processo do morrer quando não há mais esperança de reverter o quadro?
Manter a pessoa "morta-viva" interessa a quem?
A opinião pública mundial já discutiu amplamente os casos de pacientes famosos que foram mantidos "vivos" além
dos limites naturais, tais como Truman, Franco, Tito, Hirohito e, no Brasil, Tancredo Neves, classificando estas
situações como distanásicas.
Na busca de precisão conceitual, existem muitos bioeticistas, entre os quais Gafo (Espanha), que utilizam o termo
ortotanásia para falar da "morte no seu tempo certo". Como o prefixo grego orto significa "correto", ortotanásia tem
o sentido de morte "no seu tempo", sem abreviação nem prolongamentos desproporcionados do processo de morrer.
A ortotanásia, diferentemente da eutanásia, é sensível ao processo de humanização da morte e alívio das dores e não
incorre em prolongamentos abusivos com a aplicação de meios desproporcionados que imporiam sofrimentos
adicionais (1).
A expressão "obstinação terapêutica" (l'acharnement thérapeutique) foi introduzida na linguagem médica francesa
por Jean-Robert Debray, no início dos anos 50, e foi definida como sendo "o comportamento médico que consiste
em utilizar processos terapêuticos cujo efeito é mais nocivo do que os efeitos do mal a curar, ou inútil, porque a cura
é impossível e o benefício esperado, é menor que os inconvenientes previsíveis"(2).
Num artigo publicado no Washington Post, em maio de 1991, intitulado "Escolhendo morte ou mamba em UTI", o
Dr. John Hansen conta uma interessante história, que resumidamente apresentamos a seguir.
Três missionários foram aprisionados por uma tribo de canibais, cujo chefe lhes ofereceu escolherem entre morte ou
mamba (mamba é uma serpente africana peçonhenta. Sua picada inflige grande sofrimento antes da morte certa ou
quase certa). Dois deles, sem saber do que se tratava, escolheram mamba e aprenderam da maneira mais cruel que
mamba significava uma longa e torturante agonia, para só então morrer. Diante disso o terceiro missionário rogou
pela morte logo, ao que o chefe respondeu-lhe: "Morte você terá, mas primeiro um pouquinho de mamba".
Não seria isso o que vem ocorrendo nos hospitais da modernidade? Como o missionário não sabia o que era mamba,
por sua vez o público em geral e os profissionais da saúde em particular, desconhecem a existência e o significado
do termo distanásia, praxe nos hospitais de hoje. Quanto mais de ponta for a instituição de saúde, tanto mais possível
e sofisticada pode ser a distanásia.
Uma postura assim dita "mais humana", mais sensata, que não prescreva mamba para o paciente, pode ser cunhada
pela sociedade e ou família como sendo uma prática de eutanásia, ou então confundida com omissão de socorro.
É importante assinalar que nos hospitais dos países mais desenvolvidos existe uma consciência bem mais lúcida de
limite, em nível de investimento tecnológico na fase final da vida. Na cabeceira dos leitos dos doentes irrecuperáveis
constam indicações tais como DNR (do not ressuscitate), NTBR (not to be ressuscitated), no code, code 4, etc.
Como vemos, a distanásia (obstinação terapêutica), tornou-se problema ético de primeira grandeza na medida em
que o progresso técnico-científico passou a interferir de forma decisiva nas fases finais da vida humana. O que
ontem era atribuído aos processos aleatórios da natureza ou a "Deus", hoje o ser humano assume essa
responsabilidade e inicia o chamado "oitavo dia da criação". A presença da ciência e tecnologia começa a intervir
decisivamente na vida humana, e essa novidade exige reflexão ética.
Neste trabalho abordaremos, ainda que em nível introdutório, sete elementos fundamentais para a compreensão da
problemática relacionada com a possibilidade de complicação terapêutica (= distanásia). Iniciamos com a inter-
relação medicina com tecnociência e integração da morte como ponto final dos cuidados médicos; os paradigmas de
curar e cuidar, o relacionamento médico-paciente; alguns apontamentos sobre o que entender por vida (sacralidade e
qualidade), a questão da dor e sofrimento; a filosofia dos cuidados paliativos; e, finalmente, algumas indicações a
respeito de como a ética médica brasileira codificada aborda distanásia.

1 - Medicina e tecnologia de mãos dadas

A primeira vista, poderíamos ingenuamente pensar que a morte nas mãos da moderna tecnologia médica seria um
evento menos sofrido, mais benigno, enfim mais digno do que o foi na antigüidade. Podemos, então, fazer as
seguintes perguntas:
Não temos maior conhecimento biológico, que nos capacita a prognósticos precisos da morte? Não temos
analgésicos poderosos, que aumentam a possibilidade de controlar a dor? Não temos máquinas mais sofisticadas,
capazes de substituir e controlar órgãos que entram em disfuncionamento? Não temos maior conhecimento
psicológico, que é um instrumental precioso no sentido de aliviar as ansiedades e sofrimento de uma morte
antecipada? Não temos tudo nas mãos, exatamente o que necessitamos para tornar realidade a possibilidade de uma
morte digna, em paz?
A resposta para cada caso pode ser sim e não. Sim, temos muito mais conhecimento que tínhamos anteriormente.
Mas não, este conhecimento não tornou a morte um evento digno. O conhecimento biológico e as destrezas
tecnológicas serviram para tornar nosso morrer mais problemático; difícil de prever, mais difícil ainda de lidar, fonte
de complicados dilemas éticos e escolhas dificílimas, geradoras de angústia, ambivalência e incertezas.
Não se trata de cultivar uma postura contra a medicina tecnológica, o que seria uma ingenuidade. Questionamos sim
a "tecnolatria", e o desafio emergente é refletir como o binômio tecnologia-medicina se relaciona com a mortalidade
humana e como pode ajudar, em tornando realidade, o morrer em paz.
É nesta perspectiva que Callaham propõe algo que a primeira vista pode até ser visto como estranho: deveria a morte
ser integrada nos objetivos da medicina, como ponto final dos cuidados médicos e não ser considerada como uma
falha da atuação médica?(3).
Atualmente, a medicina trabalha com vistas ao futuro, procurando promover uma vida boa, saudável, aumentar o
tempo de vida e sua qualidade. A morte é admitida com relutância no âmbito da medicina, como o limite para atingir
tais objetivos. É sentida como falha...
O que aconteceria se começássemos a perguntar como a medicina deveria se portar para promover uma vida
saudável e uma morte digna, em paz? Se a medicina aceitasse a morte como um limite que não pode ser vencido e
usasse esse limite como um ponto focal indispensável para pensar a respeito da doença? Caso isto ocorresse, a
realidade da morte como parte de nossa vida biológica seria vista não como uma nota discordante na busca da saúde
e bem-estar, mas como um ponto final previsível de sua atuação. Que tal se a medicina científica não fosse uma luta
sem fim contra a morte e nos ajudasse a viver a vida mortal e não imortal? Sob este enfoque a morte não seria
tratada somente como um mal necessário e uma falha científica a ser corrigida em questão de tempo. A aceitação e a
compreensão da morte seriam parte integrante do objetivo principal da medicina: a busca da saúde.
Se o objetivo primeiro da medicina é a preservação e restauração da saúde, a morte deveria ser entendida e esperada
como o último resultado deste esforço, implícito e inerente desde o começo. Por outro lado, ressalte-se que o
empenho da medicina em impedir ou retardar a morte é conseqüência lógica do seu legítimo esforço da medicina em
lutar em favor da vida.
A única questão a ser colocada é quando e como, e não se, vamos morrer. Se a morte é parte do ciclo da vida
humana, então cuidar do corpo que está morrendo deve ser parte integral dos objetivos da medicina. A morte é o
foco em torno do qual os cuidados médicos deveriam ser direcionados desde o início no caso de doença grave ou
declínio das capaciddes físicas e mentais, como resultado da idade ou doença.
Frente a cada doença grave - especialmente com idosos - uma questão deveria ser feita e uma possibilidade
entrevista: esta doença é fatal, pode tornar-se fatal, deveríamos permitir que se torne fatal?. Nesta ótica uma
estratégia diferente deveria entrar em ação, um esforço para trabalhar em direção a uma morte de paz antes que lutar
pela cura.
A medicina, hoje, elege como objetivo somente a busca da saúde, encarando a morte como umresultado acidental de
doenças previstas como evitáveis e contingentes. A morte é o que acontece quando a medicina falha, e portanto está
fora de seu escopo científico. Nesta perspectiva ocorrem deformações do processo do morrer.(3).
É o que lucidamente se pergunta Horta :"A medicina e a sociedade brasileira têm hoje diante de si um desafio ético,
ao qual é mister responder com urgência - o de humanizar a vida no seu ocaso, devolvendo-lhe a dignidade perdida.
Centenas ou talvez milhares de doentes estão hoje jogados a um sofrimento sem perspectivas em hospitais,
sobretudo nas suas UTIs e emergências. Não raramente, acham-se submetidos a uma parafernália tecnológica, que
não só não consegue minorar-lhes a dor e o sofrer, como ainda os prolonga e os acrescenta inutilmente. Quando a
vida física é considerada o bem supremo e absoluto, acima da liberdade e da dignidade, o amor natural pela vida se
transforma em idolatria. A medicina promove implicitamente esse culto idólatra da vida, organizando a fase terminal
como uma luta a todo custo contra a morte" (4).
Uma compreensão mais aprofundada desta problemática torna-se interessante a partir da visão de dois paradigmas: o
paradigma da cura e do cuidado.

2 - Os paradigmas de curar e cuidar

As ações de saúde são hoje sempre mais marcadas pelo "paradigma da cura", governado por uma inclinação em
direção a cuidados críticos, medicina de alta tecnologia. A existência sempre mais numerosa de UTIs em nossos
hospitais exemplifica essa realidade(5).
É bom lembrar que a presença massiva da tecnologia é um fato necessário na medicina moderna. À medida que a
prestação de serviço do sistema de saúde tornam-se sempre mais dependente da tecnologia, foram deixadas de lado
práticas humanistas, tais como manifestação de apreço, preocupação e presença solidária com os doentes. O "cuidar"
surge no mundo tecnológico da medicina moderna simplesmente como prêmio de consolação quando o
conhecimento e as habilidades técnicas não vencem.
O paradigma de curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da medicina moderna. Se algo pode
ser feito, logo deve ser feito. Também idolatra a vida física e alimenta a tendência de usar o poder da medicina para
prolongar a vida em condições inaceitáveis. Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que a inabilidade
para curar ou evitar a morte é uma falha da medicina moderna. A falácia desta lógica é que a responsabilidade de
curar termina quando os tratamentos se esgotam.
Um outro eixo de leitura e compreensão começa a ganhar força. É o paradigma do cuidado. Vejamos algumas de
suas características.
O crescente interesse público em torno da eutanásia e suicídio assistido chama nossa atenção para os limites de
"curar" da medicina moderna. Cuidados de saúde, sob o paradigma do cuidar (caring), aceitam o declínio e a morte
como parte da condição do ser humano, uma vez que todos sofremos de uma condição que não pode ser "curada",
isto é, somos criaturas mortais.
A medicina não pode afastar a morte indefinidamente. A morte finalmente acaba chegando e vencendo. Quando a
terapia médica não consegue mais atingir os objetivos de preservar a saúde ou aliviar o sofrimento, novos
tratamentos tornam-se uma futilidade ou peso. Surge então a obrigação moral de parar o que é medicamente inútil e
intensificar os esforços no sentido de amenizar o desconforto do morrer.
O paradigma do cuidar (care) nos permite realisticamente enfrentar os limites de nossa mortalidade e do poder
médico com uma atitude de serenidade. A medicina orientada para o alívio do sofrimento estará mais preocupada
com a pessoa doente do que com a doença da pessoa. Nesse sentido cuidar não é o prêmio de consolação pela cura
não obtida, mas sim parte integral do estilo e projeto de tratamento da pessoa a partir de uma visão integral. A
relação médico-paciente adquire, sob tal foco, grande importância.

3 - Relacionamento médico- paciente: terapia e benefício


A situação limite experienciada na relação médico-paciente é aquela marcada pela impossibilidadede curar. Mas
precisamente o que a situação terminal traz de novo é a relativização da função de curar e sua inserção numa visão
mais global da interação médico-paciente. O limite da possibilidade terapêutica não significa o fim da relação
médico-paciente. Esta situação traz à tona a essência da ética da relação.
Childress e Ziegler, ao refletirem sobre o relacionamento médico-paciente, falam de uma medicina entre estranhos e
de uma medicina entre próximos.
No relacionamento com estranhos, as regras e os procedimentos tornam-se muito importantes, e o controle, antes
que a confiança, domina. Os estranhos não se conhecem o suficiente para terem confiança mútua.
Conseqüentemente, na falta de um conhecimento mais profundo ou de valores comuns, os estranhos se apóiam em
regras e procedimentos para estabelecer controle.
Por contraste, em relações entre próximos, todas as partes se conhecem muito bem e freqüentemente partilham
valores ou pelo menos sabem quais são os valores que não são partilhados. Em tais relações, regras formais e
procedimentos, apoiados por sanções, podem não ser necessários, e até ser prejudiciais para a relação.
Perguntam-se Childress e Ziegler se muito do que se falou ultimamente de ética médica não foi a partir do modelo
da prática com estranhos em que o controle, as normas legais e os procedimentos substituíram a confiança e a
confidência que norteavam anteriormente o relacionamento médico (6).
É verdade que os avanços tecnológicos na área da medicina tornam impreciso o limite das possibilidades
terapêuticas. Criam-se possibilidades terapêuticas de retardar indefinidamente o momento em que se pode
reconhecer o limite da ciência e da tecnologia na manutenção da vida. Assim sendo, o problema não é somente de
diagnóstico e de prognóstico. O problema é muito mais amplo e envolve a própria definição de vida, para que se
possa determinar o momento do seu término ou então a característica irreversível do processo de finalização da vida
(7).
Por sua pertinência e importância na discussão do tema em tela, teceremos a seguir algumas breves considerações a
respeito do que entender por vida.

4 - A vida como um bem fundamental

É importante desde já detectar que tipo de discurso ético é utilizado para falar da vida. Podemos ter dois tipos de
discursos éticos no âmbito da ética da vida: o parenético e o científico(8). Ao se falar de sacralidade da vida, utiliza-
se a explicação parenética e ao se falar em qualidade de vida, o discurso científico.
O discurso parenético exorta para algo que já é conhecido e intelectualmente claro. Pressupõe um acordo básico
entre os que falam e discutem sobre a questão. Não busca justificar ou explicar um conteúdo mas visa a eficácia de
sua concretização. Enfatiza, sobretudo, a responsabilidade pessoal e a ação coerente, antes que a coerência lógica do
discurso.
O discurso científico, por outro lado, visa explicar e justificar um conteúdo não claro. Busca proceder com rigor e
método, almeja ser um discurso coerente e orgânico. E repensa continuamente seus conteúdos e afirmações à luz das
experiências e conquistas humanas.
A ética da sacralidade da vida utiliza um discurso parenético. A vida é considerada como propriedade de Deus, dada
ao homem para administrá-la. É um valor absoluto que só a Deus pertence. O ser humano não tem nenhum direito
sobre a vida própria e alheia. As exceções no respeito à vida são concessões de Deus. O princípio fundamental é a
inviolabilidade da vida.
O segundo tipo de ética da vida utiliza uma abordagem científica. A vida é um dom recebido, mas que fica à
disposição daquele que o recebe, com a tarefa de valorizá-lo qualitativamente. O ser humano é protagonista e o
princípio fundamental é o valor qualitativo da vida (9).
Qual o discurso mais adequado para defender a vida na sua integralidade?
No debate hodierno a questão se polarizou em dois campos ou seja,os que se definem como pró-vida (pro life), que
defendem a sacralidade da vida e os pró-liberdade de escolha (pro choice), que empunham a bandeira da qualidade
de vida.
O processo da secularização levou a uma dessacralização da vida. A formulação da inviolabilidade da vida alude a
uma visão sacral, em que a vida é vista como propriedade de Deus e o homem como seu mero administrador. Esta
tese encerra um conceito tacanho de Deus e uma visão mesquinha e desconfiada do homem. É necessário superar a
visão do ser humano como mero administrador e entendê-lo como protagonista da vida.
O moderno pensamento teológico defende que o próprio Deus delega o governo da vida à autodeterminação do ser
humano, e isto não fere e muito menos se traduz numa afronta à sua soberania. Dispor da vida humana e intervir
nela não fere o senhorio de Deus, se esta ação não for arbitrária. A perspectiva é responsabilizar o ser humano de
uma maneira mais forte diante da qualidade da vida.
Facilmente o princípio da intangibilidade da vida pode ser ideologicamente utilizado na interpretação da vida de
modo estático, centrado na dimensão biológico-fisicista pura e simplesmente. Prega-se sua intocabilidade sem se
preocupar com as condições de sua vivência digna. Neste contexto "a luta terapêutica feita em nome do caráter
sagrado da vida parece negar a própria vida humana naquilo que ela tem de melhor: um organismo biológico, mais
que um ser humano, é às vezes prolongado"(10).
Os partidários da sacralidade da vida acusam os que defendem a qualidade de usarem este argumento para atentar
contra a vida. No mundo desenvolvido, o princípio da qualidade é usado para defender a bandeira de que uma vida
sem qualidade não vale a pena ser vivida e isto é uma forte justificação para a eutanásia . É importante ressaltar que
esta é uma perspectiva profundamente negativa da qualidade. A falta de qualidade pode levar a uma conclusão bem
diferente. Em nossa realidade latino-americana, milhões de pessoas não têm as mínimas condições de viver uma
vida dita digna, que tenha "qualidade", quer seja no início, no seu desenvolvimento ou mesmo no fim. Isto não nos
leva a concluir que estas vidas não têm mais valor. A perspectiva positiva é de lutar para que estas vidas adquiram
qualidade. Os defensores da sacralidade esquecem facilmente este importante aspecto. A interpretação vitalista do
conceito de sacralidade de vida acaba não respeitando o sentido profundo e original - que é um sentido religioso.
A sacralidade e a qualidade de vida não precisam ser dois princípios oponentes. A intangilibidade é um forte
princípio na defesa da vida, mas não precisa opor-se ao princípio da autodeterminação do ser humano sobre a vida.
É necessário conjugar as duas abordagens. Como muito bem se posiciona Doucet: "O caráter sagrado da vida não se
opõe necessariamente à qualidade de vida. Na tradição judaico-cristã as duas dimensões se comunicam. Em nossas
sociedades ocidentais, saídas dessa tradição, a preservação da vida humana é um valor fundamental mas não
absoluto. A presunção em favor da vida deve ser temperada, se não o absolutismo do princípio poderia conduzir ao
desrespeito de certos doentes"(11).
A vida, por ser um bem fundamental, se apresenta como algo pré-moral. Tal assertiva justifica-se pela existência de
conflitos entre a vida e outros bens ou valores. A possibilidade de a vida ser um valor moral absoluto só ocorreria se
a vida nunca entrasse em conflito com outros bens e valores, e superasse sempre em valor a todo bem ou conjunto
de bens que com ela conflitassem.
Hoje, o princípio da sacralidade é postulada como sendo o equilíbrio entre os dois extremos: de um lado está o
vitalismo físico, que defende o valor absoluto de manter a vida biológica, independentemente de outros valores, tais
como a independência, a autonomia, a perda de dignidade, prevenção de dor ou economia de recursos. O vitalismo
físico abre o caminho para tratamentos abusivos. De outro lado está o utilitarismo pessimista, que valoriza a vida a
partir de seu uso social e defende seu término quando ela se torna frustrante, ou um peso. Este extremo pode levar ao
abuso de não utilizar tratamentos, especialmente em situações de deficiências.
Entre estes dois extremos, o principio da sacralidade da vida afirma que a vida física é um bem básico, fundamental,
mas não absoluto, que deve ser preservado a todo custo. Sob este enfoque, ao lidarmos com pacientes terminais a
"morte física" não é um mal absoluto e a vida física não é um "valor absoluto"(12). São realidades que precisam ser
matizadas, principalmente neste contexto de final de vida, onde a presença da dor e sofrimento são uma constante.
5 - Dor e sofrimento no contexto clínico

A cura da doença e o alivio do sofrimento são desde muito são aceitas como objetivos da medicina. A doença destroi
a integridade do corpo, e a dor e o sofrimento podem destruir a integridade global da pessoa. Enquanto a medicina
está relativamente bem equipada para combater a dor, em relação ao sofrimento estamos frente a uma categoria mais
complexa, que pode, mas não necessariamente envolve a presença da dor.
A distinção entre dor e sofrimento ganha sempre mais importância e até uma certa popularidade nos meios
científicos que lidam com pacientes terminais. Resulta disso a necessidade de termos bem claras as definições e
distinções necessárias, ao tratarmos da problemática. Em relação à dor, constata-se que a grande maioria dos
profissionais da saúdenão sabem o que significa "dor" quando falam de dor(13).
A dor tem duas características importantes: a primeira é que estamos frente a um fenômeno dual - de um lado a
percepção da sensação e de outro a resposta emocional do paciente a ela. A segunda característica é que a dor pode
ser experienciada como aguda, e portanto passageira, ou crônica, e conseqüentemente persistente. Dor aguda tem um
momento definido de início, sinais físicos objetivos e subjetivos e atividade exagerada do sistema nervoso. A dor
crônica, em contraste, continua além de um período de seis meses, com o sistema nervoso se adaptando a ela. Nos
pacientes com dor crônica não existem sinais objetivos, mesmo quando eles apresentam mudanças visíveis em sua
personalidade, estilo de vida e habilidade funcional. Uma tal dor exige uma abordagem que contemple não somente
o tratamento de suas causas mas, também, tratamento das conseqüências psicológicas e sociais(14).
Existem, pelo menos, mais duas definições de dor que valem a pena ser lembradas. Em 1979, a Associação
Internacional de Estudo da Dor assim definiu a dor como: "uma experiência emocional e sensorial desagradável,
associada com dano potencial ou atual de tecidos, descrita em termos de tais mudanças". Dame Cicely Saunders, a
fundadora do moderno hospice, tomando esta descrição como base cunhou a expressão dor total, que inclui, além da
dor física, a dor mental, social e espiritual. Deixar de em considerar esta apreciação mais abrangente de dor é uma
das principais razões de os pacientes não receberem adequado alívio de sintomas dolorosos.
Existe um momento na doença crônica, quando a impotência torna-se mais intolerável que a dor, em que aparece a
diferença entre dor e sofrimento. Nem sempre quem está com dor sofre. O sofrimento é uma questão pessoal. Está
ligado aos valores da pessoa. Por exemplo, duas pessoas podem ter a mesma condição física, mas somente uma
delas pode estar sofrendo com isso. A palavra dor deve ser usada para a percepção de um estímulo doloroso na
periferia ou no sistema nervoso central, associada a uma resposta efetiva.
Daniel Callaham definiu sofrimento como sendo a experiência de impotência com o prospecto de dor não aliviada,
situação de doença que leva a interpretar a vida vazia de sentido. Portanto, o sofrimento é mais global que a dor e,
essencialmente, é sinônimo de qualidade de vida diminuída.
A diferença entre dor e sofrimento tem um grande significado quando temos que lidar com a dor em pacientes
terminais. Um dos principais perigos em negligenciar esta distinção no contexto clínico é a tendência dos
tratamentos se concentrarem somente nos sintomas físicos, como se apenas estes fossem a única fonte de angústia
para o paciente. Além disso, nos permite continuar agressivamente com tratamentos médicos fúteis, na crença de
que enquanto o tratamento protege os pacientes da dor física igualmente os protege de todos os outros aspectos. Em
outras palavras, a distinção nos obriga a perceber que a disponibilidade de tratamento da dor em si não justifica a
continuação de cuidados médicos fúteis. A continuação de tais cuidados pode simplesmente impor mais sofrimentos
para o paciente terminal.
Ouvimos, com freqüência, confidências de pacientes terminais que não têm tanto medo de morrer, mas temem o
sofrimento relacionado com o processo do morrer. Isto ocorre especialmente quando esta experiência é marcada pela
dependência mutilante, impotência e dor não cuidados, que tão freqüentemente acompanham a doença terminal,
ameaçando a integridade pessoal e cortando a perspectiva de um futuro (15).
Um dos primeiros objetivos da medicina, ao cuidar dos que morrem, deveria ser o de aliviar a dor e sofrimento
causados pela doença. Embora a dor física seja a fonte mais comum de sofrimento, a dor no processo do morrer vai
além do físico, tendo conotações culturais, subjetivas, sociais, psíquicas e éticas, como vimos anteriormente.
Portanto, lidar efetivamente com a dor em todas as suas formas é algo crítico para um cuidado digno dos que estão
morrendo. A dor tem pelo menos quatro distintos componentes: físico, psíquico ou psicológico, social e espiritual.
Passemos a algumas considerações a respeito de cada dimensão (5).

Dor física
É a mais óbvia e a maior causadora de sofrimento. Surge de um ferimento, doença, ou da deterioração progressiva
do corpo, no idoso e no doente terminal; impede o funcionamento físico e a interação social. No nível físico, a dor
funciona como um alarme de que algo está errado no funcionamento do corpo. Como a dor afeta o todo da pessoa,
ela pode facilmente ir além de sua função como sinal de alarme. Dor intensa pode levar a pessoa urgentemente a
solicitar sua a própria morte.
Dor psíquica
Freqüentemente, surge do enfrentar a inevitabilidade da morte, perdendo controle sobre o processo de morrer, perda
das esperanças e sonhos, ou ter que redefinir o mundo. Causa inevitável de humor.

Dor social
É a dor do isolamento. A dificuldade de comunicação que se experimenta justamente quando o morrer cria o senso
de solidão num momento em que desfrutar de uma companhia é muito importante. A perda do papel social familiar
é também bastante dura. Por exemplo, um pai doente torna-se dependente dos filhos e aceita ser cuidado por eles.

Dor espiritual
Surge da perda de significado, sentido e esperança. Apesar da aparente indiferença da sociedade em relação ao
"mundo além deste", a dor espiritual está aí. Todos necessitamos de um sentido – uma razão para viver e uma razão
para morrer. Em recentes pesquisas nos Estados Unidos, ficou evidenciado que o aconselhamento em questões
espirituais situa-se entre as três necessidades mais solicitadas pelos que estão morrendo (e seus familiares).
Estes aspectos da dor estão todos inter-relacionados e, por vezes, não é tão fácil distinguir um do outro. Se os
esforços para lidar com a dor enfocam somente um aspecto e negligenciam os outros, o paciente não experimentará
alivio da dor e sofrerá mais. Vale lembrar a Sauders, que afirma: "o sofrimento somente é intolerável se ninguém
cuidar" (16). É na filosofia do hospice que vemos a viabilização de uma medicina paliativa, que honra a
integralidade do ser humano. Vejamos, a seguir, algumas perspectivas deste enfoque.
6 - Cuidados Paliativos
Morrer em casa ou no hospital? Hoje se fala de hospices, de medicina (cuidados paliativos). Antes (ontem) se morria
em casa. Era a morte domada. O ser humano sabe quando vai morrer pela presença de avisos, sinais ou convicções
internas. A morte era esperada no leito, e era autorizada pela presença de parentes, vizinhos, amigos e até crianças.
Havia uma aceitação dos ritos, que eram cumpridos sem dramatização. Era algo familiar, próximo. Hoje,
praticamente a morte ocorre no hospital em (80% dos casos, nos Estados Unidos), é a chamada morte invertida. Ela
é escondida, vergonhosa, como fora o sexo na era vitoriana. A boa morte atual é a que era mais temida na
Antigüidade, a morte repentina.
Há necessidade de uma compreensão filosófica do cuidado às pessoas nas fases finais de uma doença terminal. O
hospice afirma a vida e encara o "estar morrendo"(dying) como um processo normal. Hospice enfatiza o controle da
dor e dos sintomas objetivando melhorar a qualidade de vida, antes que tentar curar uma doença ou estender a"vida".
O objetivo do hospice é permitir, aos pacientes e suas famílias, viver cada dia plena e confortavelmente tanto quanto
possível ao lidar com o estresse causado pela doença, morte e dor da perda (grief). Nos cuidados de hospice utiliza-
se uma abordagem multidisciplinar que enfoca as necessidades físicas, emocionais, espirituais e sociais dos
pacientes e familiares. A equipe de saúde consiste de médicos, enfermeiras, assistentes sociais, voluntários treinados
e conselheiros pastorais que articuladamente trabalham provendo coordenação e continuação dos cuidados
envolvendo o paciente e sua família. Também fazem o seguimento (follow-up) da família e aconselhamento aos
enlutados após a morte do ente querido.
O movimento do hospice moderno começou em 1967, quando a Drª. Cicelly Saunders abriu o hoje famoso St.
Christopher's Hospice, em Londres. O movimento hospice surge nos EUA em 1974, em New Haven, CT, e desse
ano para cá cresceu bastante, contando, hoje, com quase dois mil programas. Não obstante isso, o hospice ainda não
é muito conhecido e freqüentemente utilizado, em parte por causa do estigma social relacionado com a morte e pela
percepção pública e profissional de que o hospice significa falha, ao entregar os pontos na luta para manter uma
vida.
Algumas implicações tornam-se evidentes. Cuidar dignamente de uma pessoa que está morrendo num contexto
clínico significa respeitar a integridade da pessoa. Portanto, um cuidado clínico apropriado busca garantir, pelo
menos: 1. Que o paciente seja mantido livre de dor tanto quanto possível, de modo que possa morrer
confortavelmente e com dignidade. 2. Que o paciente receberá continuidade de cuidados e não será abandonado ou
sofrerá perda de sua identidade pessoal. 3. Que o paciente terá tanto controle quanto possível no que se refere às
decisões a respeito de seu cuidado e lhe será dada a possibilidade de recusar qualquer intervenção tecnológica
prolongadora de "vida". 4. Que o paciente será ouvido como uma pessoa em seus medos, pensamentos, sentimentos,
valores e esperanças. 5. Que o paciente será capaz de morrer onde queira morrer.
Neste momento de nossa reflexão voltemos nosso olhar para o que os códigos brasileiros de ética médica dizem a
respeito de nosso objeto de estudo, a distanásia.
7 - Os códigos brasileiros de ética médica e a distanásia
Uma das características marcantes da tradição da ética médica brasileira codificada é a de ser uma tradição secular,
imbuída de valores humanitários, mas sem a preocupação de fundamentar os princípios éticos na religião (17).
No universo secular, a própria morte e a dor são muitas vezes percebidas como sem sentido e, na medida em que
escapam do seu controle, são vistas como fracasso pelo médico. A ênfase recai sobre a luta para garantir a máxima
prolongação da vida, sobre a quantidade de vida, e há pouca preocupação com a qualidade desta vida prolongada.
Uma conseqüência disso é o eclipse da solicitude pela boa morte cultivada e resistência à eutanásia provocada como
derrota frente ao inimigo morte.
A partir da publicação dos Códigos de Ética Médica 1984 e 1988 a abordagem dos direitos do paciente terminal a
não ter seu tratamento complicado, ao alívio da dor e a não ser morto pelo médico, entra numa nova fase com o
surgimento de novos elementos, em grande parte trazidos pelo progresso da tecnociência.
No Código de 1984 percebe-se a existência das tensões inerentes à aliança entre a benignidade humanitária, o
modelo científico-tecnológico e o medicocentrismo autoritário. Sua benignidade humanitária insiste sobre o
"absoluto respeito pela vida humana", já exigido pelos Códigos de 1953 1965, e reforçado pelo princípio 9º do
Código de 1984 com o seguinte acréscimo ao texto da frase: "desde a concepção até a morte". A dificuldade é que
esta valorização da vida tende a se traduzirnuma preocupação com a máxima prolongação da quantidade de vida
biológica e no desvio de atenção da questão da qualidade da vida prolongada.
Como enfatiza Leonard Martin: "Com a ênfase sobre o biológico, o sofrimento, a dor e a própria morte se tornam
problemas técnicos a serem resolvidos, mais do que experiências vividas por pessoas humanas. O preço que se paga
pelo bom êxito da tecnologia é a despersonalização da dor e da morte nas unidades de terapia intensiva, com todo o
seu maquinário impressionante. Consegue-se prolongar a vida, mas diante destas intervenções bem sucedidas
começam a surgir novas indagações: quando se pode abandonar o uso de suportes vitais artificiais? Quando é que se
morre mesmo? Pode-se falar de eutanásia ativa e de eutanásia passiva?".
Há um passo rumo à recuperação da valorização da boa morte cultivada no artigo 6º do Código de 1988 que diz ser
antiético para o médico utilizar "seus conhecimentos para gerar sofrimento físico ou moral". Mais significativo
ainda, porém, é o art. 61, parágrafo 2º, que incentiva o médico a não abandonar seu paciente "por ser este portador
de moléstia crônica ou incurável" e a "continuar a assisti-lo ainda que apenas para mitigar o sofrimento físico ou
psíquico". Este cuidado em mitigar não apenas o sofrimento físico mas também o psíquico é sintomático de uma
nova preocupação com integralidade da pessoa, que vai além da dor física.
Este novo cuidado se reflete no reconhecimento do direito do paciente terminal a não ter seu tratamento complicado.
Como no art. 23 do Código de 1984, há, no art. 60 do Código de 1988, a proibição de "complicar a terapêutica".
Fica também claro no Código de 1988 a obrigação de o médico "utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e
tratamento a seu alcance", mas a medida do seu uso não é sua eficácia em resolver o problema técnico de como
controlar o sofrimento e a morte, mas sim o benefício do paciente. Isto nos permite questionar se a gestão técnica do
sofrimento e o adiar o momento do morrer são sempre do interesse do paciente, situação hoje muito freqüente na
fase final da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS).
Um outro aspecto importante no Código de 1988, no que se refere ao direito do paciente de não ter seu tratamento
complicado, é a preocupação em regulamentar pesquisas médicas em pacientes terminais. O art. 130 proíbe ao
médico "Realizar experiências com novos tratamentos clínicos ou cirúrgicos em paciente com afecção incurável ou
terminal sem que haja esperança razoável de utilidade para o mesmo, não lhe impondo sofrimentos adicionais".
Aqui não se trata de uma rejeição da ciência e tecnologia, reconhece-se a legitimidade de recorrer a tratamentos
experimentais, mas a partir de um critério bem definido: existência de uma esperança razoável de que o tratamento
será útil para o próprio doente e que este não sofrerá desnecessariamente.
8 - À guisa de conclusão
O não enfrentamento da questão da distanásia faz com que convivamos com situações no mínimo contraditórias, em
que se investe pesadamente em situações de pacientes terminais cujas perspectivas reais de recuperação são nulas.
Os parcos recursos disponíveis poderiam muito bem ser utilizados em contextos de salvar vidas que têm chances de
recuperação. Dificilmente podemos passar ao largo sem levantarmos sérios questionamentos em relação à utilização
das UTIs, conscientização a respeito do conceito de morte cerebral, doação de órgãos, transplantes e investimentos
de recursos na área.
Hellegers, um dos fundadores do Instituto Kennedy de Bioética, a respeito de nossa questão em estudo afirma:
"Perto do fim da vida, uma pretensa cura significa simplesmente a troca de uma maneira de morrer por outra... Cada
vez mais, nossas tarefas serão de acrescentar vida aos anos a serem vividos e não acrescentar anos à nossa vida...
mais atenção ao doente e menos à cura em si mesma ( ..). À medida que os ramos da medicina que versam sobre
curas dominaram sobre os que se preocupavam mais com o doente, as virtudes judaico-cristãs perderam
progressivamente seu interesse (...). Nossos doentes (e velhos) precisarão mais de uma mão caridosa do que um
escalpelo prestativo. Não é o momento de pôr de lado estamedicina da atenção, que não exige muita tecnologia. (...)
Nossos problemas serão cada vez mais éticos e menos técnicos" (18).
Nesta circunstância convém sentar-se junto ao leito de um paciente terminal que, numa prolongada agonia, luta
contra o sofrimento, na expressão dos olhos angustiadas que buscam, sem encontrar, um alívio libertador. Convém a
todos - porém especialmente aos médicos, enfermeiros, assistentes religiosos, capelães, teólogos - refletir sobre o
sofrimento que inutilmente, não poucas vezes, se acrescenta a uma agonia programada por uma terapêutica já inútil
e somente utilizada para cumprir o dogma médico de "fazer tudo o que for possível para conservar a vida" - o qual,
interiorizado de maneira acrítica por alguns, é aceito como princípio ético que não exige maior discussão e
normatização.
A questão da dor e sofrimento humano adquire uma relevância toda particular neste contexto de tecnologização do
cuidado. É preciso prestar atenção, a dor física não é efetivamente tratada numa percentagem significativa de
pacientes (os especialistas falam em torno de 75% dos casos). O que estamos fazendo para conhecer mais sobre a
natureza da dor, suas múltiplas dimensões e sobre o uso de técnicas para lidar com ela?
Sabendo que a dor é mais que física e inclui aspectos psicossócio-espirituais, que passos específicos estamos dando
para apoiar relacionamentos entre pacientes e profissionais, entre pacientes e familiares, e entre pacientes e suas
crenças e práticas religiosas visando ir ao encontro das necessidades de apoio emocional, sentir-se parte da
comunidade e de significado?
Como diz Ruben Alves, num intrigante texto sobre a morte como conselheira: "houve um tempo em que nosso
poder perante a morte era muito pequeno, e de fato ela se apresentava elegantemente. E, por isso, os homens e as
mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a
morte foi definida como a inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu
toque. O empreendimento tecnológico em grande parte nos seduz porque encarna hoje o sonho da imortalidade.
Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que,
quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...), mais tolos nos tornamos na arte
de viver. E, quando isso acontece, a morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos
devora por detrás. Acho que, para recuperar um pouco da sabedoria de viver, seria preciso que nos tornássemos
discípulos e não inimigos da morte. Mas, para isso, seria preciso abrir espaço em nossas vidas para ouvir a sua
voz...A morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos
aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver. Quem não pensa, não reflete sobre a
morte, acaba por esquecer da vida. Morre antes, sem perceber" (19).
Não somos nem vítimas, nem doentes de morte. É saudável sermos peregrinos. Podemos ser, sim, curados de uma
doença classificada como sendo mortal, mas não de nossa mortalidade. Quando esquecemos isso, acabamos caindo
na tecnolatria e na absolutização da vida biológica pura e simplesmente. É a obstinação terapêutica adiando o
inevitável, que acrescenta somente sofrimento e vida quantitativa, sacrificando a dignidade.
Nasce uma sabedoria a partir da reflexão, aceitação e assimilação do cuidado da vida humana no sofrimento do
adeus final. Entre dois limites opostos, de um lado a convicção profunda de não matar, de outro, a visão para não
encompridar ou adiar pura e simplesmente a morte. Ao não matar e ao não maltratar terapeuticamente, está o
amarás... Desafio difícil este de aprender a amar o paciente terminal sem exigir retorno, num contexto social em que
tudo é medido pelo mérito, com a gratuidade com que se ama um bebê (20)! Concluimos com as palavras de Oliver
ao falar da missão do médico, que é "curar às vezes, aliviar freqüentemente, confortar sempre".

Léo Pessini é Camiliano Diretor do Instituto de Pastoral da Saúde e Bioética, Vice-Diretor Geral das Faculdades
Integradas São Camilo e Capelão no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2. Cuyas M. L'accanimento terapeutico e l 'eutanasia. Dolentium Hominum 1987;(23):30.
3. Callahan D. The troubled dream of life: living with mortality. New York: Simon & Schuster, 1993: 188-91
4. Horta MP. Paciente crônico, paciente terminal, eutanásia: problemas éticos da morte e do morrer. In:
Assad JE, coordenador. Desafios éticos. Brasilia: Conselho Federal de Medicina, 1992: 219-28.
5. Catholic Health Association. Care of the dying: a catholic perspective. Saint Louis: C.H.A.,1993.
6. Childress J: Ziegler M. A medicine of strangers or a medicine of intimates: the two legacies of Karen Ann
Quinlan. Second opinion health-faith-ethics 1992;4:68.
7. Silva FL. Direitos e deveres do paciente terminal. Bioética 1993;1:139-43.
8. Junges JR. A vida como um bem fundamental. Perspectiva Teológica 1993; 25:339-45.
9. Walter J; Shannon TA, editors. Quality of life: the new medical dilema. New York: Paulist Press, 1990.
10. Doucet H. Morrer: abordagens bioéticas. São Paulo: Ave Maria, 1993: 23.
11. Doucet H. Op.cit. 1993: 26.
12. Tuohey JF. Caring for persons with aids and cancer: ethical reflections on palliative care for the terminall
ill. Saint Louis: C.H.A, 1988: 27-39.
13. Cassel EJ. The nature of suffering and the goals of medicine. N Engl J Med 1982;306:639-45.
14. Pessini L. Eutanásia e América Latina. Aparecida: Santuário 1990.
15. Lepargneur H. Antropologia do sofrimento. Aparecida: Santuário, 1985.
16. Saunders C. Caring to the end. Nursing Mirror 1980;150:4.
17. Martin LM. A ética médica diante do paciente terminal: leitura ético-teológica da relação médico-paciente
terminal nos códigos brasileiros de Ética Médica. Aparecida: Santuário, 1993.
18. Hellegers AC citado por Geusau V. Biologie, ethique e societé: questions et enjeux. Bruxellas: Prospective
International, 1979.
19. Alves R. Prefácio: a morte como conselheira. In: Cassorla RMS, coordenador. Da morte: estudos
brasileiros. Campinas: Papirus 1991: 11-5.
20. Pessini L. Morrer com dignidade: como ajudar o paciente terminal. 2nd. Aparecida: Santuário 1995.
Endereço para correspondência:
Faculdades Integradas São Camilo
Av. Nazaré 1501
Ipiranga
04263-200 São Paulo - SP

http://www.geocities.com/Petsburgh/8205/
A FRENTE BRASILEIRA PARA ABOLIÇÃO DA VIVISSECÇÃO é uma organização sem fins
lucrativos que tem por objetivo promover a abolição TOTAL da experimentação animal.
Lutamos pelo fim desta prática fraudulenta e extremamente perigosa à saúde humana,
divulgando e denunciando as barbáries e tragédias que esta prática tem causado ao longo
destes anos. Tudo o que divulgamos são frutos de estudos e informações de ex-pesquisadores
e autoridades médicas mundiais que assim como nós lutam por uma ciência verdadeira e
segura.
A nossa linha de pensamento segue os ensinamentos de Hans Ruesch (CIVIS) e Javier Burgos
(SUPRESS), os quais a FBAV é eternamente grata pelos conselhos e orientação.

PEQUENA LISTA DOS AVANÇOS MÉDICOS-CIENTÍFICOS SEM A EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL

1. Descoberta da relação entre colesterol e doenças cardíacas.


2. Descoberta da relação entre o hábito de fumar e o câncer, e a nutrição e câncer.
3. Descoberta da relação entre hipertensão e ataques cardíacos.
4. Descoberta das causas de traumatismos e os meios de prevenção.
5. Elucidação das muitas formas de doenças respiratórias.
6. Isolamento do vírus da AIDS.
7. Descoberta dos mecanismos de transmissão da AIDS.
8. Descoberta da penicilina e seus efeitos terapêuticos em várias doenças.
9. Descoberta do Raio-X.
10. Desenvolvimento de drogas anti-depressivas e anti-psicóticas.
11. Desenvolvimento de vacinas, como a febre amarela.
12. Descobrimento da relação entre exposição química e seus efeitos nocivos.
13. Descoberta do Fator RH humano.
14. Descoberta do mecanismo de proteína química nas células, incluindo substâncias
nuclêicas.
15. Desenvolvimento do tratamento hormonal para o câncer de próstata.
16. Descoberta dos processos químicos e fisiológicos do olho.
17. Interpretação do código genético e sua função na síntese de proteínas.
18. Descoberta do mecanismo de ação dos hormônios.
19. Entendimento da bioquímica do colesterol e "hipercolesterolemia" familiar.
20. Produção de "humulina", cópia sintética da insulina humana, que causa menos
reações alérgicas.
21. Entendimento da anatomia e fisiologia humana.

( fonte: "Physicians Committee for Responsible Medicine" )

Há alternativas suficientes que substituem plenamente os testes com animais. Basta boa vontade para acabarmos
definitivamente com a VIVISSECÇÃO.

PESQUISA CLÍNICA E EPIDEMIOLÓGICA São métodos de pesquisas simples, mas muito importantes. É o
estudo das doenças humanas em indivíduos e em populações específicas. A pesquisa clínica usa voluntários
humanos, estudo de casos clínicos, autópsia, análise estatística com observação clínica da doença. Para ajudar os
seres humanos, é necessário estudar as doenças que afetam os humanos, e não doenças inoculadas artificialmente em
animais.
CULTURA CELULAR E TISSULAR Células isoladas de humanos e tecido animal (para uso na medicina
veterinária), são cultivadas fora do corpo, após a separação de seu tecido original ou órgão. Com este procedimento,
não há o problema de diferença de espécies. Estes testes são extremamente eficientes para testar toxidade e teste de
irritação. As culturas orgânicas podem ser usadas na área de bioquímica, pesquisa de câncer, genética, imunologia,
farmacologia, radiação, tóxologia, e pesquisas de vírus.
TÉCNICAS DE IMAGENS NÃO INVASIVAS O desenvolvimento de técnicas não invasivas como:
CAT - utiliza computadores na reconstrução de imagens tridimensionais do corpo humano através do Raio-X.
MRI (Magnetic Resonance Imaging) - permite a visualização de imagens detalhadas do interior do corpo humano,
sem injeção de substâncias radioativas.
PET (Positron Emission Tomograph) e SPECT (Single Photon Emission Computerized Tomograph) - usados em
estudos de doenças cérebrovasculares e distúrbios psiquiátricos.
Estes métodos têm revolucionado a pesquisa clínica. São equipamentos que permitem a avaliação de doenças
humanas nos pacientes. Por exemplo, estes equipamentos escaneadores têm validado o diagnóstico precoce e
avaliação da doença de Alzheimer, doença de Huntington, tumores "musculoesqueletais", mal de Parkison, doenças
"cérebrovasculares", e têm contribuindo no conhecimento do corpo em ciências básicas.
TESTE "AMES" Criado pelo Dr. Bruce Ames, da Universidade da Califórnia em Bekerley, este teste "in vitro"
checa substâncias cancerígenas usando a "bactéria salmonella", a qual produz câncer nos seres humanos e outros
mamíferos. O teste dura cerca de 2-3 dias e o custo é muito menor que o custo com a utilização do modelo animal.
PLACENTA A placenta humana, que geralmente é descartada após o nascimento de uma criança, pode ser usada na
prática de cirurgia microvascular, e no teste de toxidade de químicas, drogas e poluentes. Não tem custo e o material
é 100% humano.
FARMACOLOGIA QUANTA É uma técnica computadorizada usada na química teorética do estudo da estrutura
molecular de drogas e seus receptores no organismo. Usando o conhecimento existente é possível predizer através
da estrutura da droga qual o efeito no órgão humano em epígrafe.
EYETEX Em substituição ao "Draize Eye Irritancy Test" (feito nos olhos dos coelhos), é o uso de uma proteína
líquida que imita a reação do olho humano.
CROMATOGRAFIA E ESPECTROSCOPIA Para separar drogas no nível molecular para identificar suas
propriedades, podendo detectar a trajetória de drogas e seus danos aos humanos.
AUTOPSIAS E ESTUDOS "POST-MORTEM" A autopsia humana é o exame após a morte de tecidos e órgãos do
corpo humano para determinar a causa da morte ou existência das condições patológicas. Estudo que tem sido
responsável pela descoberta e descrição de muitas doenças.
ESTUDOS MICROBIOLÓGICOS Microorganismos como bactéria, são apropriados para visualização de um
grande número de toxinas, pois se reproduzem rapidamente.
AUDIO-VISUAL Utilizado no treinamento de médicos de medicina humana e veterinária e também no ensino
médio, em lugar da "dissecação".
ADM (Agarose Diffusion Method) Criado em 1960 para determinar a toxidade de plásticos e outros materiais
sintéticos usados na medicina em válvulas cardíacas, etc.
CORROSITEX É um teste "in vitro" para avaliação do potencial de corrosividade dérmica de químicas diversas.
Desenvolvido pelo "In Vitro International, Inc.", a técnica possibilita testar uma substância química ou várias
(drogas) em uma barreira de pele artifical feita de colágeno. Abaixo daquela camada tem um líquido contendo um
corrante indicador de PH que muda a cor quando entra em contato com a química a ser testada. A corrosividade da
química é determinada pelo tempo que leva para penetrar na pele artificial e provocar a mudança de coloração.
KITS DIVERSOS Dispomos de kits para todas as finalidades, como técnicas de sutura e laparoscopia, treinamento
cirúrgico e dissecação (incluindo modelos anatômicos). Principalmente para dissecação, temos várias opções com
modelos perfeitos de animais.

A VIVISSECÇÃO É UM CRIME CONTRA A HUMANIDADE

A experimentação animal é diretamente responsável pelo aumento do câncer, doenças do coração, defeitos físicos,
AIDS, etc... Estas doenças estão causando uma massiva e sistemática destruição da saúde humana. A razão
fundamental é que: "hoje a pesquisa está baseada quase que totalmente na experimentação animal", a qual é uma
fraude médica e científica. É impossível "re-criar" uma doença adquirida naturalmente por um animal ,
simplesmente por que desde que seja "re-criada", não é mais a doença original. O resultado do estudo em amimais
artificialmente doentes é o de uma informação não aplicável aos seres humanos e, sendo assim, tragicamente
enganador.

Após anos de intensa pesquisa com animais, laboratórios alemães e britânicos lançaram a Talidomida no mercado,
com a clara afirmação de que "pode ser dado sem qualquer risco às mulheres grávidas, já que não causa nenhum
efeito adverso na mãe ou na criança". A Talidomida foi então o primeiro grande desastre terapêutico demonstrando
os efeitos da experimentação animal. Mas ao invés de abandonar estes falsos testes e argumentos, os fabricantes de
drogas multiplicaram os investimentos na experimentação animal - resultando na má formação e multiplicação de
outros desastres terapêuticos. Esta droga possui alto potencial de teratogenicidade e em muitos foi banida. Assim
como a Talidomida, a DES também causa má formação física, câncer e morte quando usadas em humanos, e estas
drogas foram seguramente defendidas pelos pesquisadores que as experimentaram extensivamente em animais.

A vivissecção continua em parte por que oferece prêmios lucrativos e perpetua a tradicional filosofia médica. E
sabemos que péssimos profissionais se edificam na ignorância alheia. Experimentação animal é parte da indústria
multi-milionária a qual inclui suprimentos diversos, gaiolas, fabricantes de equipamentos, criadores de animais,
empresas de ração, imprensa especializada, e outros interessados. Outro fator é a falta de informação pública.
Muitas pessoas não estão a par da crueldade que ocorre em pesquisas laboratoriais, ou são induzidas com a crença
de que os experimentos são necessários para o avanço da ciência. Em verdade, os grandes avanços médico-
científicos não são oriundos da experimentação animal ( vide "AVANÇOS MÉDICOS" ).

VIVISSECÇÃO = EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL E HUMANA

Animais são utilizados em testes laboratoriais (testes de drogas, cosméticos, produtos de limpeza e higiene),
práticas médicas (treinamento cirúrgico, transplante de orgãos), experimentos na área de
psicologia (privação materna, indução de estresse), experimentos armamentistas/militares (testes de armas
químicas) , testes de toxidade alcoólica e tabaco, dissecação, e muitos outros.

Engana-se quem pensa que existe uma escolha entre HOMENS x ANIMAIS, pois para ciência qualquer ser vivo é
um modelo experimental, e NÓS somos também VÍTIMAS !

As grandes catástrofes farmacológicas foram PREVIAMENTE testadas em animais, erros médicos gravíssimos e
irreversíveis, uma infinidade de drogas inócuas e perigosas à saúde humana são encontradas sob rótulos de
medicamentos, isso e muito mais são provas de que a experimentação animal é uma fraude médica e científica.

Testes IN VITRO com tecido humano têm oferecido resultados mais precisos que experimentos com animais.
Phenylbutazone, Chloranphenicol, e Thalidomida, são exemplos de drogas, as quais os efeitos nocivos podem ser
vistos em testes de cultura tissular, mas com efeito contrário utilizando o modelo animal.

Ao longo destes anos temos visto que o modelo animal continua sendo amplamente utilizado, mas ao contrário do
que se pensa, temos um aumento de "antigas doenças" como cólera, peste pneumônica, tuberculose, febre amarela,
malária,câncer, etc e "novas doenças" como dengue, rotavírus, hantavírus, ebola, AIDS, hepatitis G entre outras.

A vivissecção é uma fraude médica e científica, simplesmente por que é uma PESQUISA EXPERIMENTAL. É
óbvio que ninguém pode recriar uma doença expontânea em um corpo sadio, mas apenas alguns de seus sintomas, e
a informação obtida não é válida, pois não oferece nenhuma segurança em seus resultados.
Logo, se a pesquisa experimental não pode trabalhar com seres humanos, é fácil imaginar que a fraude científica
está conectada com a alegação de que uma doença expontânea humana pode ser reproduzida em animal. Esta
simples premissa, destrói a base científica de toda pesquisa biomédica envolvendo animais, pois estes não
desenvolvem doenças humanas.

Prof. Pietro Croce MD, do Instituto de Milão e autor de livros médicos e artigos científicos, faz uma interessante
observação quando diz que todas as verdades seguem 3 estágios:
1º. é ridicularizada
2º. é violentamente rejeitada e
3º. finalmente aceita como evidente por si mesma.

A experimentação animal continua em parte pelos subsídios ($) lucrativos e perpetua a tradicional filosofia
médico-científica, fraudando os verdadeiros resultados e tornando a população a verdadeira cobaia.

Animais não são "pequenos humanos", os modelos animais são desnecessários e perigosos pelos resultados
contraditórios dos experimentos.

Os "vivissectores" e seus defensores costuman usar muitas vezes o seguinte argumento: "preferem experimentar
em crianças do que em animais?" Mas em verdade, a vivissecção oferece informações enganosas e falhas, a
verdadeira escolha não está entre animais e pessoas, mas entre uma boa e má ciência. Sem dúvida a vivissecção
sempre custou muitas vidas animais e humanas, oferendo resultados imprecisos e enganosos.

Os experimentadores esperam que o público relacione a experimentação animal com o progresso médico-
científico, mas um número cada vez maior de cientistas, ex-experimentadores e autoridades médicas têm criticado
está prática medieval e cruel.

A atitude dos vivissectores com relação aos animais é claramente contraditória. O vivissector alega que:
1) Animais são fundamentalmente similares aos seres humanos
2) Animais são fundamentalmente diferentes dos seres humanos

De acordo com o que consideram conveniente para suas teses:


1) Animais são similares aos seres humanos quando é conveniente alegar que podem obter através deles
conhecimentos humanos (?)
2) Animais são diferentes dos seres humanos quando é conveniente acreditar que eles não sofrem, não têm
consciência, não pensam e sendo assim podem fazer qualquer coisa com eles.

Analisando a questão, a palavra "similar" usada como justificativa de experimentos no mundo da ciência , é
totalmente sem sentido, Se alguém diz que em um quarto fechado não existe "oxigênio", mas um "gás muito
similar", você entraria?! Se precisa de uma transfusão de sangue e o médico diz que não tem sangue humano
disponível, mas uma substância "muito similar", você aceitaria?!

É possível algumas vezes recriar sintomas de uma doença, mas nunca a doença em si. Os vivissectores não podem
infectar um animal com doenças humanas, por exemplo, a AIDS, embora os esforços massivos de
criar um "modelo humano-animal" de AIDS. Um "modelo animal não humano" não pode ter doenças humanas,
pois cada espécie é morfologicamente, fisicamente e bioquimicamente diferentes.

A medicina humana não pode em hipótese alguma ser baseada na medicina veterinária. Animais reagem
diferentemente as drogas, vacinas e outras químicas não apenas dos seres humanos, mas entre eles mesmos.

A experimentação animal causa sérios danos à saúde humana, por ser uma fraude ocultando seus verdadeiros
resultados, por ser uma verdadeira fábrica de doenças sem cura e disseminando vírus, por não aceitar que a
verdadeira saída de qualquer mal é a prevenção, e por ser responsável por grandes catástrofes farmacológicas ao
longo destes anos.

Médicos e cientistas têm ocultado ao público os malditos resultados de seus estudos e relatórios que provam os
riscos de reações graves da experimentação animal, que são maiores do que o público é informado.
Como exemplo, qualquer farmaco ou produto de uso humano na área médica-farmacológica antes de lançado no
mercado, segue exigências dos orgãos competentes (no Brasil, do Ministério da Saúde), e entre estas
está a "fase 1" que é o "teste com animais". Sendo assim, mesmo que um "pesquisador" obtenha um resultado de
pesquisa satisfatório sem o modelo animal, a "fase 1" deve ser "encomendada", para que a sua
pesquisa tenha validade científica. Entretanto no Brasil, temos várias "drogas" banidas em seu país de origem e que
aqui são comercializadas livremente sob vários rótulos diferentes ( vide "DROGAS E REMÉDIOS -
PERIGO À SAÚDE HUMANA" )

Fotos 1 e 2: Esta é um típica (e altamente ilegal) "fazenda de cães" no interior da


Coréia. Na cidade, as pessoas criam cães em pequeno número, como animais de
estimação, e os vendem para negociantes de carne de cães. É fácil enganar os cães e
ganhar sua confiança, para traí-los no final. Estas fotos foram obtidas com uma
câmera escondida. Apesar de, pela lei, as fazendas de cães serem ilegais, o governo
não toma nenhuma providência para fazer com que a lei seja cumprida.

Foto 3: Alguns comerciantes Foto 4: Um São Bernardo


criam uns poucos cães por vez e roubado ou abandonado fica
podem vender todos em um único sozinho entre as jaulas
dia no mercado. A quantia abarrotadas com outros cães. O
arrecadada nestas operações animal mostra sinais de maus
ilegais é difícil ser determinada. tratos. Este é o Mercado Moran
Há freqüentemente alguns na cidade de Sungnam. É
moradores na vizinhança que considerado o maior mercado de
criam ou roubam cães, ou ainda cães da Coréia. Existem os dias
envenenam cães de outras da semana que são considerados
pessoas para obter lucro fácil. como "dias de cão", é quando
você pode sentir a extensão
deste comércio ilegal. Esta foto
foi tirada com uma câmera
escondida. Desde as Olimpíadas
de Seul em 1988, foi espalhada a
notícia de que grupos de
proteção animal estavam fazendo
campanhas contra estas
indústrias, e os negociantes de
carne de cães se tornaram hostis
contra aqueles que os
desaprovavam. De fato, você vai
encontrar guardas bem vestidos,
postados nos mercados para
evitar a aproximação de
estranhos.

Foto 5: Os cães são aprisionados Foto 6: Os negociantes de cães


de forma tão apertada nas jaulas geralmente transportam os
que não há como serem animais de caminhão das
alimentados ou tomarem água, "fazendas de cães" para os
como as leis de proteção e a mercados da cidade. Note o aviso
dignidade exigem. abaixo no caminhão. Anuncia
gatos à venda. Entretanto, estes
gatos não são de estimação. São
gatos que serão massacrados e
preparados em grandes panelas
de pressão para elaboração de
um elixir que supostamente cura
reumatismo.

Foto7: Cães de
grande porte e
pelagem bege são
considerados os
melhores para a
alimentação.

Fotos 8 e 9: Olhe atentamente. O cão na primeira foto está sendo


vendido como alimento. Parece extraordinariamente com o cão na
segunda foto, o "chindo gae". O chindo (ou jindo) é tido como
"tesouro nacional", e é protegido por lei e não deveria ser usado
como alimento. Enquanto os coreanos estão muito orgulhosos do
chindo, na verdade, eles irão comê-lo também, assim como qualquer
outro cão independentemente de pedigree. A imagem do chindo
acima foi emprestada do website Docunet que pode ser acessado no
endereço:
http://www.docunet.org/magazin_1/jindo/photo/ep12.html.

Foto 10: Este cão não é Foto 11: Aqui mais uma
definitivamente amarelado, da evidência de que os animais são
forma como os coreanos vendidos como alimento. Parece
preferem. De fato não parece um "Pug" nesta jaula (o da
com qualquer outro cachorro direita) e ainda está usando uma
típicamente criado para coleira. Foi persuadido a sair da
alimentação. Concluímos que jaula, seu crânio foi esmagado e
este cão foi outro que seu pêlo foi queimado. Este é o
infelizmente foi abandonado ou procedimento padrão, apesar da
roubado. Não se amedrontou nem negativa taxativa dos oficiais
fugiu quando nos aproximamos. coreanos de que animais com
Nós pedimos suporte para ajudar- pedigree nunca são comidos.
nos a identificar esta raça e
várias pessoas disseram se tratar
de um "Pointer Purebred".

http://www.falabicho.org.br/experimentacao.htm

A VERDADEIRA FACE DA EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL


Desde 1995, um projeto sobre o uso científico de animais está nas mãos da Comissão do Meio
Ambiente do Congresso, única tribuna possível para discussão do assunto, conforme a Constituição
brasileira.
Na mesma ocasião, nós, da Sociedade Educacional Fala Bicho, juntamente com a Frente Brasileira de
Abolição da Vivissecção e a Liga de Prevenção Contra Crueldade aos Animais, entregamos ao
deputado federal Fernando Gabeira um projeto de lei abolindo totalmente o uso de animais em
pesquisas científicas, tendo por base, entre tantos argumentos, que:
1. A medicina humana não pode ser baseada em medicina veterinária. Isto porque animais são
diferentes histológica, anatômica, genética, imunológica e fisiologicamente;
2. Animais e humanos reagem diferentemente a substâncias. Por exemplo, algumas drogas são
cancerígenas em homens mas não em animais; e o arsênico pode ser aplicado em enormes doses em
cabritos e não causariam nenhum mal a estes e, no entanto, no homem apenas uma gota o levaria à
morte;
3. Doenças que ocorrem naturalmente e doenças artificialmente induzidas diferem com freqüência e
substancialmente;
4. Noventa por ce?^^^^nto dos canceres no ser humano são devidos a medicamentos, pesticidas,
aditivos alimentares, todos "testados com êxito" em animais;
5. Muitos vivissectores ainda afirmam que o que eles fazem ajuda a salvar vidas. Eles mentem. A
verdade é que experimentos com animais matam pessoas, e pesquisadores que usam animais são
responsáveis pela morte de milhares de homens, mulheres e crianças a cada ano;
6. As práticas experimentais como LD50, draize eye, de toxidade alcoólica e tabaco, experimentos
armamentistas/militares, na área de psicologia, pesquisas dentárias, testes de colisão, dissecação,
práticas médico-cirúrgicas e outros experimentos diversos podem ser prontamente abolidos, por
métodos realmente seguros já são conhecidos, tais como simulador por computador, manipulação e
estudos de modelos anatômicos, cultura-celular e tissular, autópsias e estudos post mortem,
técnicas não invasivas como PET, CAT e MRI, técnicas de cromatografia e espectografia de massas,
realidade virtual e inúmeras outras.
As mais respeitadas entidades de proteção animal do mundo inteiro, aliadas a comunidades
científicas contra o uso de animais em pesquisas, vêm alertando há anos sobre o mal que isto provoca
à Humanidade. A Associação de Defesa dos Direitos do Animal (Adda), em janeiro de 1996,
juntamente com a Buav - Campaining to End Animal Experiments, publicou uma revista totalmente
dedicada ao perigo provocado pelo descontrole biotecnológico para os animais e os seres humanos.
Achamos que, devido às grandes pressões das verdadeiras comunidades de cientistas e das
sociedades européias, esta revelação da "clonagem" foi a última cartada jogada por estes
"cientistas" para manterem seus postos de senhores do conhecimento. Mas parece que o tiro está
saindo pela culatra, como é o grande desejo de pessoas conhecedoras do assunto mas que, por causa
do grande marketing mobilizado pela indústria farmacológica, raramente conseguem espaço na mídia
para conscientizar a população. Foi preciso que a Humanidade se sentisse instrumento nas mãos
destes "loucos" para reconhecer que algo estaria errado. O Governo americano suspendeu o
financiamento de tais pesquisas e na Europa são poucos os governos que ainda as estimulam.
O nosso pedido de abolição da vivissecção no Brasil seria também uma maneira de não deixar nosso
país ser invadido por estes "pseudocientistas", pois lá fora eles terão seu espaço significativamente
fechado ou bem policiado. Para identificarmos estes, é fácil… São exatamente aqueles que
perguntam à sociedade: o que é preferível, a experimentação animal ou um filho morto?
A pergunta é tão ameaçadora que as pessoas não conseguem perceber que o que está em discussão é
a boa e a má ciência, pois precisamos de informações sobre "doenças humanas" e não sobre "doenças
humanas falsamente implantadas em animais".
Em vídeo produzido pela Fundação Brigite Bardot, o Dr. Cristian Barnard alega que pesquisou
durante nove anos, em macacos, o transplante de coração. Tal comentário foi feito com base em que
somente após a primeira centena de transplantes em seres humanos foi possível chegar à técnica
correta, completamente diferente daquela realizada em animais.
A maior prova de nossa afirmativa está ao alcance de qualquer cidadão que quiser ler as bulas dos
medicamentos vendidos livremente em nossas farmácias. Quem nunca se assustou com aquelas
"contra-indicações, efeitos colaterais, precauções etc." ao ter que tomar uma droga receitada por
um médico? Se foi testado incansavelmente em diversos tipos de cobaias, porque tantos efeitos
colaterais? Será que é para continuar doente e então mais tarde vir a ser consumidor de outro
medicamento do mesmo laboratório para curar o mal provocado pelo primeiro? Acorda, pacato
cidadão, a informação está ao seu alcance.
Como este pacato cidadão reagiria ao ver de perto um laboratório de "pesquisas científicas" com um
carneiro com cabeça de cabra, com gatos contidos por aparelhos esperando cortarem seus rabos
para testarem o novo lote de analgésico, com uma cadela parindo filhotes imediatamente retalhados
somente para analisar se defenderia sua cria ou continuaria seu processo de parto, um chimpanzé
que traz nos olhos o desespero dos inúmeros choques provocados pelas ferragens implantadas em
seu cérebro apenas para medirem seus impulsos cerebrais…
Nos falta estômago forte para narrar a quantidade de experimentação animal em nome do "bem-
estar da Humanidade".
Esta farsa/fraude precisa ser desmascarada e só precisamos de espaço na imprensa para que este
teatro encenado nos palcos da incompetência/loucura desça para a realidade da platéia, que até
agora não percebeu o engodo financeiro que tal espetáculo cobra para sua produção.
A talidomida, nos anos 60, proporcionou a primeira grande prova de que a utilização da
experimentação animal conduz a ciência a erros irreparáveis. Seus autores alegaram que era preciso
mais experimentação animal para se obter o sucesso do medicamento.
Eles jamais admitirão, embora seja a pura realidade, que as autênticas descobertas médicas não
foram feitas através do uso da experiência com animais, como fartamente documentado nos livros
"Massacre dos inocentes" e "Mil médicos contra a vivissecção", do historiador médico suíço Hans
Reech, fundador da Civis, e "Holocausto", de Mily Shar Manzoli, doutora PhD em ciência, presidente
da Cimav, jornalista científica que já recebeu a Medalha Albert Schweitzer por sua luta contra o uso
de animais em pesquisas científicas.
O massacre dos animais em laboratórios não acontece pelo bem-estar da Humanidade e sim para
alimentar, com seus altos financiamentos, a carreira destes "pseudocientistas", a indústria química,
as universidades, criações de animais, tráfico, indústria de aparelhos de contenção, alianças políticas
e governamentais, marketing e a mídia.
Só desejamos que a deputada Vanessa Felipe, relatora do Projeto de Uso Científico de Animais,
tenha a coragem do jovem político e a força da mulher para, definitivamente, acabar com a
possibilidade de estes loucos procurarem nosso país para continuar delirando. Os "nossos loucos",
graças a Deus, por natureza até da índole de nosso povo, são mansos e tentam evoluir… Exceto uns
poucos. Nós vamos chegar lá.

http://www.internichebrasil.org/ LER

http://www.internichebrasil.org/literatura/caso_ufsc.htm

As finalidades do uso didático de animais e as vantagens das alternativas


São várias as finalidades dos experimentos realizados com animais nas universidades brasileiras:
- Observação de fenômenos fisiológicos e comportamentais a partir da administração de drogas e outras substâncias,
- Estudos comportamentais de animais em cativeiro,
- Conhecimento da anatomia interna,
- Desenvolvimento de habilidades e técnicas cirúrgicas.
Estes experimentos são comuns em cursos de Medicina Humana e Veterinária, Odontologia, Psicologia, Educação
Física, Biologia, Química, Enfermagem, Farmácia e Bioquímica, e eventualmente em outras áreas das ciências
biológicas e da saúde.
Abaixo estão descrições breves de alguns dos experimentos mais encontrados nas universidades.
1. Miografia: um músculo esquelético, geralmente o zigomático, na perna, é retirado da rã, onde estuda-se a resposta
fisiológica deste músculo à estímulos elétricos. As respostas são registradas em gráficos. O músculo é retirado da rã
ainda viva, anestesiada com éter.
2. Sistema nervoso: uma rã é decapitada, e um instrumento pontiagudo é introduzido repetidamente na espinha
dorsal do animal, observando-se o movimento dos músculos esqueléticos do restante do corpo.
3. Sistema cardiorespiratório: um cão é anestesiado, tem seu tórax aberto, e observa-se os movimentos pulmonares e
cardíacos. Em seguida aplica-se drogas, como adrenalina e acetilcolina, para análise da resposta dos movimentos
cardíacos. Outras diversas intervenções ainda podem ser realizadas. O experimento termina com a aplicação de uma
dose elevada de anestésico, ou de acetilcolina (o que causará parada cardíaca).
4. Anatomia interna: diversos animais podem ser utilizados para tal finalidade. Geralmente os animais já estão
mortos, ou são sacrificados como parte do exercício, com éter ou aplicação intravenosa de substâncias letais.
5. Estudos psicológicos: animais como ratos, porcos-da-índia, ou pequenos macacos, podem ser utilizados como
instrumentos de estudo. São vários os experimentos que podem ser realizados: privação de alimentos ou água, para
estudos diversos (caixa de Skinner, por exemplo); experimentos com cuidado materno, onde a prole é separada dos
genitores; indução de estresse, utilizando-se métodos como choques elétricos, por exemplo; comportamento social
em indivíduos artificialmente debilitados ou caracterizados. Alguns animais são mantidos durante toda sua vida em
condições de experimentos, outros são sacrificados devido à condições extremas de estresse ou quando não podem
mais ser reutilizados.
6. Habilidades cirúrgicas: muitos animais podem ser utilizados para estas práticas. Os animais geralmente estão
vivos e anestesiados, enquanto as práticas se procedem. Os exercícios de técnica operatória são comuns em
faculdades de medicina veterinária e humana, e exigem uma grande quantidade de animais.
7. Farmacologia: geralmente pequenos mamíferos, como ratos ou camundongos. Drogas são injetadas intravenosa,
intramuscular ou diretamente no estômago (via trato digestivo por catéter, ou por meio de injeção). Os efeitos são
visualizados e registrados. O “diabetes” também pode ser induzido em animais, de modo a verificar-se os efeitos de
substâncias no organismos destes animais, como a glicose, por exemplo.
A Crítica
Estas práticas didáticas vem sendo severamente criticadas por muitos educadores e profissionais, onde argumentos
de ordem ética e, em alguns casos, técnica, são levantados em favor de uma educação mais ética e responsável.
A grande maioria destes experimentos podem ser substituídas por alternativas tecnológicas que envolvem
simulações em computadores (CD Roms), modelos anatômicos e vídeos interativos. Existe um crescente número de
artigos científicos que comprovam que estudantes que passaram por estas técnicas aprendem igualmente, e em
alguns casos melhor, do que estudantes que passaram pelo uso tradicional da vivissecção. As vantagens destas
alternativas são muitas:
- Economizam tempo: gasta-se muito tempo com a preparação da experimentação animal. É comum que
experimentos práticos com animais não dêem certo, ou dão margem à interpretações confusas de certos fenômenos
biológicos.
- Possibilitam melhor aprendizado: simulações interativas permitem que o estudante volte atrás em algum passo
ou estágio do experimento, o que não é possível em muitos experimentos in vivo. Cada estudante pode, desta forma,
aprender de acordo com seu ritmo, e repetir todo o experimento, se necessário. Além do que, esta tecnologia não cria
a dependência do laboratório e de pessoal especializado para o estudo, permitindo que o estudo seja realizado até
mesmo em casa. Outras muitas informações e recursos ainda podem ser acessados, dependendo da alternativa
utilizada
- São econômicas: ao contrário do que muita gente pensa, as alternativas são financeiramente viáveis. Isto porque o
uso de animais implica em grandes gastos com manutenção (cuidados, alimentação, instalações, etc.) e pessoal
especializado (técnicos e veterinários), e as alternativas possuem um tempo de vida muitas vezes indeterminado, não
sendo descartáveis como os animais utilizados.
- São éticas: o oferecimento de alternativas respeita os princípios éticos, morais ou religiosos de estudantes que se
opõem ao uso de animais para estas finalidades.
- São possíveis: muitas universidades de muitos países vêm substituindo o uso de animais nos currículos de diversos
cursos e oferecendo alternativas para os estudantes. As experiências destas universidades comprovam que a
aplicação de alternativas são possíveis e viáveis.
Mais do que soluções hi-tech
Não podemos pensar nas alternativas apenas como recursos tecnológicos ou softwares. Muitas alternativas
envolvem a experiência clínica real em clínicas e hospitais, onde estudam-se em pacientes reais, por exemplo, o
efeito de drogas administradas clinicamente, e acompanha-se o tratamento destes pacientes até sua recuperação.
Outra alternativa, neste caso para o estudo de anatomia e técnica operatória em animais, é o convênio de faculdades
com fazendas ou clínicas veterinárias, onde animais mortos podem ser adquiridos para posterior estudo.
No caso da técnica operatória humana, médicos cirurgiões e educadores questionam o uso de cães para o ensino de
cirurgia. Os principais motivos que levam à este questionamento são as discrepâncias entre a anatomia humana e a
canina, assim como a elasticidade da pele, o coeficiente de vazão sangüínea epidérmica e outras características que
não se aplicam na cirurgia humana. Outro ponto importante que se salienta é a dessensibilização que os estudantes
sofrem ao terem que passar por práticas que contrariam princípios médicos como o de salvar vidas. As alternativas
para tais práticas são o acompanhamento de cirurgias humanas em hospitais e clínicas, primeiramente com
observação, seguida de estágios de intervenções simples severamente supervisionadas por cirurgiões experientes,
passando para intervenções sucessivamente mais complexas. Assim se aprende cirurgia em muitos países, como
Inglaterra e Estados Unidos.
As alternativas também possuem a vantagem de serem combinadas. As práticas e experiências clínicas podem ser
acompanhadas de reforço por alternativas e metodologias diversas, aumentando a experiência do estudante, e
contribuindo para formação de um profissional sensível e responsável.

Cadê o cachorro?
Desde que entrei na biologia, temia pelas aulas práticas que necessitassem do sacrifício de animais. Sempre me
posicionei contra a prática de tais metodologias dentro da biologia. Animais são mortos inutilmente, em práticas
didáticas desnecessárias e anti-pedagógicas.
O episódio aconteceu quando cursava a disciplina de Fisiologia Humana. Deveríamos anestesiar um cão, observar
que seus pulmões são vermelhos e que realmente inflam e se esvaziam, e finalmente sacrificá-lo. Uma semana antes
da aula de laboratório, levantei a discussão dentro da sala de aula. Muitos não queriam participar da prática, mas
sempre tem aqueles que querem, pois consideram seu interesse em aprender (?) maior que o interesse do animal em
viver. Bom, no final, a prática se procederia, e seria dado o direito de abstenção aqueles que não quisessem
participar desta (que até então era obrigatória). O fato de termos conseguido a opção de participar ou não de tal
prática não me satisfez, pois sabia que dentro de uma semana, um cão iria morrer inutilmente.
Conversei com duas amigas, e combinamos de tirar o cachorro do laboratório. Era 17 de novembro de 1997, 10
horas da manhã. A aula seria neste horário. Enquanto as duas amigas olhavam por fora, entrei no laboratório e não
encontrei ninguém, a não ser um cão preto e magro, que me olhava assustado e cabisbaixo. O que se procedeu foi
algo que qualquer pessoa, com um mínimo de sensibilidade, um pouco de coragem e conhecimento do fim daquele
cão, teria feito. Entrei correndo no laboratório, peguei a corrente do animal e saí "arrastando" o animal pelos
corredores da fisiologia. Escutava alguns "ei, ei, ei" de funcionários, mas não olhei para trás. Estava desesperado,
mas convicto do que estava fazendo. Levei o cão à um lugar seguro, onde pude acalmá-lo até que pudesse pegar o
carro e levá-lo em casa.
Na Universidade, a fisiologia chamou a polícia e fez um Boletim de Ocorrência. Acusação: "roubo de patrimônio
público" e "invasão". A situação estava ficando ruim...
Sem querer, levantamos uma polêmica que estava há muito tempo enterrada. A verdade é que a maioria dos
estudantes de biologia não gostam de tais práticas. A maioria simpatizante com a ação. No semestre anterior, na
mesma disciplina, uma aluna foi "puxada" para dentro da aula prática, pois estava se sentindo mal com os gritos do
cachorro que acordara no meio do experimento, com seu tórax aberto. Um debate foi realizado, no sentido de avaliar
tal metodologia dentro do currículo de biologia. Nunca um debate dentro da biologia, num final de semestre,
conseguiu reunir tanta gente. Estudantes e professores de outros cursos apareceram.
Na reunião de colegiado de curso, que iria definir a sentença à nós três, exigiam a devolução da corrente e do cão,
em troca de uma punição menos severa. Prometemos devolver somente a corrente, mas o cão seria impossível.
Tínhamos argumentos éticos bastante palpáveis para justificar nosso "crime". Questionávamos o termo
"propriedade", "patrimônio público", "roubo", quando estes estavam sendo aplicados a um ser vivo. Aliás, um ser
vivo que foi "sequestrado" das ruas, onde vivia livremente, para ser confinado em um biotério onde teria um fim, na
pior das hipóteses, semelhante à infelicidade do cão do semestre anterior. A acusação de "invasão" era infundada,
pois estava devidamente matriculado na disciplina, e entrei no laboratório em horário de aula.
Fomos sentenciados em uma simples advertência, com a condição de promovermos, no semestre seguinte, mais três
discussões acerca do tema. Conseguimos acabar com a utilização de animais na fisiologia destinados à biologia, que
foram substituídos pela alta tecnologia de um vídeo! A disciplina de Zoologia de Vertebrados, que pratica a
vivisecção em pombos e sapos, abandonou o uso deste último, mas persiste no pombo. Algumas disciplinas ainda
insistem em tais práticas desnecessárias e ultrapassadas.
Muitas vezes as leis existem injustamente, e se a transgressão à estas implica em mais benefícios do que prejuízos,
elas devem ser desobedecidas. Isto se chama desobediência civil. Neste caso, a lei foi transgredida, e os frutos desta
transgressão agora são colhidos. Muitos alunos não terão mais que passar por esta didática embrutecedora e
insensibilizadora, e muitas vidas animais serão poupadas. Cabe aos estudantes exigir a substituição de tais práticas,
uma vez ferido qualquer princípio moral ou ético. Alternativas existem, é tudo uma questão de força de vontade. É
neste clima que a biologia deve seguir, respeitando a vida.
Bom, o cão...ele se chama krieger, e está passando muito bem por aí.
* Membro do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis, aluno do Laboratório de Ética Prática, na
Filosofia.
Artigo publicado no jornal AN Capital de 5.2.99

Medicina humana e o ensino de cirurgia com cães


A utilização de animais na medicina para o ensino de técnicas operatórias é comum em todas universidades
brasileiras que ofereçam o curso de medicina humana ou veterinária. É tida, também, como uma prática comum e
aceitável pela grande maioria dos professores, e que tem se perpetuado através da falta de debate e questionamentos
acerca de tais práticas. A mudança deste aspecto educacional na medicina é uma mudança de paradigma, de um
velho e arcaico modelo de medicina humana baseada na medicina veterinária, para um novo conceito de medicina
baseado no respeito à vida, na prevenção, nas pesquisas clínicas e no bom senso.
As práticas de vivissecção, como são conhecidas, são regulamentadas pela lei 6368 de 1979. Mas com a publicação
da Nova Lei de Crimes Ambientais de 1998 (Art 32, § 2), toda prática de cunho científico ou educacional, que cause
sofrimento ao animal, constitui crime caso existam alternativas. A pena é aumentada se o animal é morto ao final do
experimento.
Preocupações com o tratamento humano de animais de laboratório, o grande número de animais utilizados a cada
ano nos programas de práticas cirúrgicas, e o custo elevado de manutenção destes animais levaram a muitas
instituições a reavaliar seus métodos de ensino. A tendência é se diminuir o número de animais usados para
propósitos de ensino e substituí-los por alternativas aceitáveis.
Segundo Jane Smith, do Departamento de Ciência e Ética Biomédica da Universidade de Birmingham, na Inglaterra,
de acordo com os termos da lei de 1986, animais vivos não podem ser utilizados por cirurgiões ou outros para
aprender ou aperfeiçoar suas técnicas. A única exceção para esta regra é a prática de microcirurgia, e esta só pode
ser realizada por cirurgiões qualificados. Estudantes de medicina e veterinária devem aprender cirurgia através do
aprendizado, trabalhando sob supervisão em pacientes animais (humanos ou não) que necessitem de tais
procedimentos. O Prof. David B. Morton, do Head Centre for Biomedical Ethics, da University of Birmingham,
afirma: “ todos cirurgiões britânicos aprendem cirurgia sem o uso de animais vivos.”
Nos EUA, o treinamento em animais na graduação e pós graduação não é requerida, mas usualmente existe uma
opção para aqueles que desejam realizá-la. Mesmo no treinamento cirúrgico, é uma opção estritamente de pesquisa
orientada, e não é obrigatória. Apenas nas escolas de medicina das forças armadas existe a exigência de dissecção no
currículo. Enfim, os estudantes não são exigidos na prática de dissecção em estágios mais avançados. Ainda segundo
o cirurgião: “Os animais não somente são desnecessários e raramente usados na educação médica nos EUA, como a
ausência da matança de indivíduos saudáveis propicia o ensino da compaixão e preocupação nos jovens médicos. Eu
estive viajando pela Europa oriental, onde as técnicas não-animais são adotadas com entusiasmo, e novas simulações
de computadores foram apreciadas. O uso de animais não-humanos para ensinar medicina humana é um conceito do
passado, e está sendo substituído por alternativas mais eficazes e humanas.”
Direitos Estudantis
Os estudantes de medicina também são assegurados de direitos. Segundo a AMSA (American Medical Students
Association - 1993), “o uso de animais na medicina é justificado se tal uso salvar ou beneficiar vidas humanas
(1986), e reconhece o fato de que os avanços no conhecimento científico tem sido realizado através de métodos que
não requerem o uso de animais (1993)”. Segue ainda: “Sobre a obrigatoriedade da participação em práticas de
vivissecção: EXIGE que todas aulas e laboratórios que envolvam o uso de animais vivos sejam opcionais para os
estudantes que, por razões morais ou pedagógicas, acreditam que tal uso é injustificado ou desnecessário(1993);
CONDENA a prática de intimidação aos estudantes de medicina, forçando-os à aulas e laboratórios que utilizem
animais vivos(1986); Sobre as alternativas à animais de laboratório: EXIGE que materiais educativos alternativos,
como vídeos e simulações por computadores, sejam providas para os estudantes que não optem por aulas e
laboratórios que utilizem animais vivos (1986); EXIGE a produção de um catálogo de tais materiais educacionais
alternativos (1986); ENCORAJA a utilização de materiais e métodos didáticos que não requeiram a utilização de
animais na educação médica (1993).”
Muitos acreditam que a totalidade dos estudantes de medicina concordam com tais práticas. Porém, resultados de
pesquisas mostram que os estudantes tendem a não expor seus questionamentos devido ao medo de repreensão,
reprovação e humilhação por parte dos colegas e professores. O ambiente criado pelos professores muitas vezes não
é aberto para preocupações éticas de estudantes em relação ao uso de animais para a educação. Parece haver um
desestímulo ao estudante de expor abertamente suas objeções à um exercício que requeira o uso de animais. O que
se espera de um estudante neste ambiente é que passe pela utilização de animais sem reclamar, mesmo que vá contra
suas convicções éticas.
O biólogo conceituado George Russell não acredita que a vivissecção possa tornar a pessoa mais capaz ou humana.
A cada vez que ele mata um animal, este estudante se torna cada vez mais insensível. Tais práticas levam a danos
sistemáticos e progressivos na capacidade de sensibilidade e produz mudanças de personalidade que, na sua opinião,
são perceptíveis para quem tem conhecimento sobre psicologia e psiquiatria. Uma pessoa que pode inflingir
sofrimento em seres indefesos pode fazer o mesmo com seres humanos.
Segundo a médica veterinária alemã, Dra Corina Gericke, “os estudantes de tornam insensíveis e duros quando usam
animais para seu estudo. Estudantes de medicina e doutores deveriam ter respeito pela vida, incluindo a vida de
animais”.
Tais procedimentos podem acarretar em danos psicológicos ao estudante. O simples fato do estudante se submeter à
uma prática obrigatória que vai contra seus princípios morais (quando existentes) é algo de grande relevância.
Muitos estudantes simplesmente não expressam seu desconforto ou oposição à tais procedimentos com medo de
alguma repercussão ou repreensão acadêmica. Logicamente, comparado ao tédio de leituras em salas de aula, os
estudantes gostam da oportunidade de estar no meio de equipamentos cirúrgicos e participam de tais práticas.
Porém, eles podem obter tais oportunidades observando procedimentos necessários em salas de operações humanas.
Os estudantes podem gostar de tais práticas em laboratórios, uma vez que são seus primeiros contatos com
experiências médicas, mas eles podem experimentar esta excitação observando uma cirurgia humana.
Um estudo recente feito nos Estados Unidos mostrou que aproximadamente 25% dos estudantes de medicina se
opõem ao “cão de laboratório”, e que o número de estudantes descontentes com o uso de animais “tende a ser maior
que o número de estudantes que expressam seus sentimentos”. Outra pesquisa mostrou que “apenas um pequeno
número de estudantes inequivocadamente afirmaram não terem nenhum problema com a utilização de animais”.
Através da vivissecção, muitas coisas são ensinadas além da técnica operatória em si. Valores pessoais do professor
são transmitidos, além de uma carga pedagógica que cultiva a submissão, obediência e o não-questionamento.
Valores estes que contribuem para a rigidez das condutas humanas (no sentido mais negativo possível) e para a
estagnação de conceitos e idéias.
O Sacrifício
A morte dos animais ao final do experimento (por “eutanásia” – que significa morte sem sofrimento) pode ser o
menos pior do que as práticas de “surgical survival”, onde os animais são observados após intervenções cirúrgicas
para se observar a recuperação, que costumam ser dolorosas em agonizantes.
Depoimentos de estudantes de medicina registram a superficialização dos animais durante os procedimentos
cirúrgicos. O anestésico não tem uma ação constante no organismo do animal, e seu efeito vai passando com o
tempo da experiência. A nova aplicação de anestésico deve ser realizada quando o animal começa a demonstrar este
efeito, ou seja, quando começa a recobrir a consciência. Uma dose muito elevada de anestésico poderia matar o
animal, como é feita ao final dos experimentos. Um dos depoimentos registra a “agonia” que a estudante sentia
tendo que realizar os procedimentos cirúrgicos em animais que não paravam de gritar. Já o estudante cita como
“tragicômica” a cena em que presenciou um animal se levantando ao meio do experimento, com seu abdômen
aberto, mas dizendo que em seguida a situação fora contornada.
A primeira experiência clínica de um paciente não deveria valorizar a vida? Lidar com pacientes envolve muito mais
que apenas fisiologia, farmacologia e cirurgia. Envolve aconselhamentos, escutar as necessidades e, acima de tudo,
ajudar ao invés de prejudicar. Estas são uma das razões do porque universidades médicas de ponta expõem o
estudante em clínicas e salas de operação no seu treinamento, e eliminaram o uso de animais de laboratório.
O famoso médico francês Dr. Albert Schweitzer, disse: “O homem pensante deve se opor a qualquer costume cruel,
não importando o quanto esteja enraizado na tradição ou envolto em um halo... Precisamos de uma ética ilimitada
em que se inclua os animais também”.
A Justificativa
A pergunta mais comum que se faz por parte dos defensores da vivissecção é a seguinte: “você preferiria utilizar um
cão ou a sua mãe?”. Se quisermos manter a discussão num nível sério, tal pergunta não deve ser considerada. Ela
remete mais a apelos sentimentalistas do que a fatos morais e científicos.
É provável que muitas pessoas “não entregariam suas mães para serem operadas por um cirurgião treinado na
realidade virtual”, mas parece muito mais ameaçador entregar a mãe, ou quem quer que seja, à um cirurgião que até
então tinha em sua frente um cão. A anatomia dos cães diferem bastante da humana. Aspectos inumeráveis sobre o
cão – da quantidade de pressão necessária para promover uma incisão na pele até o tamanho e localização dos
órgãos internos - são diferentes em humanos. Certamente, menos cuidado é tomado na prevenção de efeitos
colaterais em procedimentos feitos em cães do que seriam tomados em pacientes humanos. A medicina humana,
baseada na medicina veterinária oferece uma série de riscos à saúde humana.
Uma das considerações importantes que devem ser analisadas para se verificar o sucesso de uma intervenção
cirúrgica é a recuperação do paciente. A técnica em si é importante, mas ela inevitavelmente depende da observação
pós-operatória do paciente, que dirá se a técnica foi bem aplicada ou não. O que dizer dos animais que, após
sofrerem intervenção na Técnica Operatória, são mortos? Como avaliar o sucesso da intervenção? Como avaliar o
aprendizado do estudante.
O Objeto de Estudo
Como já foi dito antes, a medicina humana que se baseia na medicina veterinária é perigosa. Um dia será melhor
irmos para um veterinário quando ficarmos doentes, pois os animais tem sido os principais modelos biomédicos para
se compreender e combater as enfermidades humanas.
Cada espécie de animal são entidades biomecânica e bioquimicamente diferentes. Cada espécie difere não somente
dos humanos, mas também entre os indivíduos, anatomicamente, fisiologicamente, geneticamente e
histologicamente. O cão é diferente do gato e o gato é diferente do rato. O rato também é diferente do camundongo.
E todos são diferentes dos humanos.
Cães tem uma disposição de órgãos diferente da encontrada nos humanos (obviamente), e a textura e elasticidade
dos tecidos vivos são diferentes, assim como o coeficiente de vazão sanguínea. A dose de anestésico utilizada para
manter os cães anestesiados também não é a mesma que para se manter humanos na mesma condição. Assim como
não podemos aprender sobre anatomia felina utilizando cadáveres humanos, não podemos aprender anatomia
humana utilizando cães saudáveis.
O Conflito
Como lidar com esta situação conflitante? Estudantes que estão se formando para que possam cuidar de pessoas
doentes estão matando animais sadios. Segundo o sociólogo Arnold Arluke “eles são treinados para reduzir ou
eliminar o sofrimento, promover a saúde, e cuidar dos doentes compassivamente, mas são exigidos à realizarem
ações que questionam estes objetivos e desafiam suas identidades profissionais emergentes.”
“Embora o cão de laboratório seja uma breve experiência na educação médica, ela pode servir como um poderoso
lembrete de que habilidades técnicas podem ser aguçadas se se reprimir ou suspender questões morais. Embora seja
verdade que muitos estudantes declarem algum conflito ético quando se encontram próximos às práticas, eles não
são encorajados pelos instrutores a expressarem ou examinarem suas preocupações. Se morais ou emocionais, estas
preocupações são definidas pela medicina institucional como questões pessoais para cada estudante lidar com elas e
transcendê-las. Os poucos estudantes que articulam suas preocupações acabam vendo estas questões sendo
facilmente resolvidas com a ajuda de definições “competitivas” oferecidas prontamente pela faculdade e amigos, de
forma que não apresentam nenhum conflito sério ou causem reflexões prolongadas. Em resumo, eles aprendem que
é aceitável, realmente necessário, suspender questões “fortes” de maneira a continuar com seu aprendizado “real”,
que fazem mais com excitação e admiração do que temores morais. A fascinação e excitação dos estudantes de
medicina são talvez um reflexo não somente de transformações na sua forma de ver os animais, mas em como eles
vêem a si mesmos”.
As Alternativas:
Não existe uma alternativa milagrosa para que se substitua os animais no ensino de técnica operatória. Existe uma
interação de alternativas, umas que atuarão como principais, e outras como auxiliares. Como principal, poder-se-ia
afirmar que ela se daria da seguinte forma:
O estudante de medicina tem um período de residência maior que o usual. Neste período, realizado em hospitais ou
pronto-socorros, o estudante vai tendo contato com a realidade destes estabelecimentos e inicialmente observando as
cirurgias feitas em pacientes que realmente necessitam de cirurgia. Com o tempo, este estudante vai realizando
intervenções cirúrgicas simples e gradualmente, mais complexas. Tudo isso sob a condição de estar sendo
supervisionado severamente por um cirurgião responsável, que o orientará cuidadosamente. Além de ensinar ao
estudante a técnica de cirurgias gradativamente, e em pacientes reais, o estudante tem contato com o paciente
humano, e aprende também a lidar com os sentimentos que envolvem qualquer intervenção cirúrgica, como medo,
insegurança, desconforto. Tudo isso possibilita a sensibilização do estudante diante de todo o quadro clínico que
cerceia uma cirurgia. Este método também possibilita a observação da recuperação do paciente, expondo o estudante
aos seus estados psicológicos e fisiológicos, humanizando-o. É importante salientar que estes pacientes não são
cobaias, como procuram se defender retoricamente os que defendem a utilização de animais. Todo este
procedimento é realizado com respeito a vida, e procurando ajudar o paciente – isto não é anti-ético. Outra vantagem
deste método é o essencial contato com o tecido vivo que o estudante deve ter – um tecido humano, e não de outro
animal.
Na Alemanha, segundo a médica veterinária Dra. Corina Gericke, “depois de 6 anos na universidade, os estudantes
alemães de medicina devem fazer um ‘ano prático’, que é dividido em 3 partes: medicina interna, cirurgia e uma
parte optativa. É aí que começa a se aprender cirurgia. Leva diversos anos de prática e experiência para se tornar um
bom cirurgião. Não se espera aprender tudo isso em um curto período na universidade.” Segundo ela, “você não
pode ser um bom cirurgião quando aprende com animais. ”
Nos EUA, o cirurgião Dr. Jerry Vlasak também demonstra como é este período: “temos um período de 5 a 7 anos de
residência em cirurgia nos EUA. Começando no primeiro ano, os residentes são conduzidos através de operações
simples, como reparos de hérnia e biópsias de mama, com um cirurgião mais experiente supervisionando
atentamente. Desta forma se ensina as técnicas de tecido corretamente, e é combinado com o ensino didático da sala
de operação e enfermarias. A medida em que o período de residência avança, o residente vai tendo contato com
operações cada vez mais complexas, sempre sob supervisão de um cirurgião experiente.”
Todo este conhecimento é reforçado paralelamente com a utilização de métodos não-animais que chamarei de
“auxiliares” de aprendizado, como a realidade virtual, microcirurgia em placentas, cultivo de tecidos e órgãos
humanos, técnicas de imageamento não-invasivas, simulações em computadores, modelos matemáticos, maquetes
humanas, estudos em cadáveres, etc.
Muitos artigos publicados tem comprovado a eficiência de tais métodos alternativos, comprovando que muitas vezes
ele poder ser mais eficiente do que as práticas tradicionais de vivissecção.
Thales Trez, Biólogo e Coordenador InterNICHE (1999)

A Utilização de Cães como Recurso Didático na Medicina


Debate realizado no dia 18 de junho de 1999 o Auditório da Reitoria - UFSC
Palestrantes:
- Joanésia Rothstein – Diretora do Biotério Central da UFSC
- Sônia Felipe – Filósofa e professora de ética e filosofia política na UFSC
- Armando d’Acâmpora – Cirurgião geral, professor da disciplina de Técnica Operatória no CCS
- Paula Cals Brugger – Bióloga e doutora em Sociedade e Meio Ambiente
- Rogério Gallego – Cirurgião e professor de Técnica Operatória no CCS
- Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho – Etólogo e chefe de departamento de Zootecnia do CCA
Sobre a mediação de João de Deus Medeiros, Diretor do Centro de Ciências Biológicas, o debate se iniciou.
A fala inicial foi de Joanésia Rothstein, que falou sobre as atividades do Biotério Central, que é um laboratório de
produção de modelos biológicos para a utilização de animais para o progresso da ciência. Os cães são recolhidos
pela vigilância sanitária das prefeituras de Itapema e Curitiba, onde aguardam pela reclamação dos donos e depois
ficam sob a custódia da prefeitura. Esses cães são então comprados pela UFSC – o Biotério Central não produz
animais para fins didáticos. Os cães recebem uma alimentação balanceada e de qualidade e ficam sob observação
para se detectar alguma zoonose. Estes cães são, então, disponibilizados ao ensino e a pesquisa. O Biotério segue os
princípios éticos para animais de utilização ditados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA).
Falou que a legislação no Brasil é muito carente no que diz respeito a regulação de animais para usos científicos.
Segundo ela, o Biotério tem se preocupado em querer reduzir os animais em experimentos, através de novas
tecnologias, padronização de linhagens, instalações apropriadas e controle genético. Informou que menos de 5% dos
animais utilizados estão relacionados com o progresso da ciência.
Em seguida a filósofa Sônia Felipe seguiu denotando a importância deste tema que tem sido deixado em segundo
plano nesta universidade, algo que desde 1930 vem sendo discutido exaustivamente em muitos países,
principalmente no que diz respeito à critérios éticos da relação médico/paciente e aprendiz de medicina/“recursos
didáticos”. Aqui, sequer estudamos as teorias éticas para que possamos orientar este tipo de prática. Temos seguido
uma tradição ética racionalista antropocêntrica e, acrescenta, hierarquizante. Segundo a filósofa, o problema não se
encontra tanto no caráter antropocêntrico da ética, no sentido de que ela só pode ser discutida entre seres humanos.
A fundação atual contemporânea de uma das correntes mais adotadas no eixo anglo-saxão, o utilitarismo, com
Jeremy Bentham que, há 300 anos atrás surpreendeu a corrente racionalista (a qual nos filiamos de modo a-crítico)
com um parágrafo que diz que a razão e a linguagem não são critérios éticos para orientar nossas considerações
éticas, e sim a capacidade de sofrer. A partir daí, a ciência volta seus esforços para a minimização da dor. Os
hedonistas e epicurianos, antes de Bentham, também afirmavam que a busca da felicidade estava relacionada com a
diminuição da dor e sofrimento.
Peter Singer, um filósofo contemporâneo e neo-utilitarista, defende o princípio da “igual consideração de
interesses”, quando estes são semelhantes. Estes interesses devem ser considerados igualmente entre as espécies que
compartilham conosco uma característica em comum – a capacidade de sentir prazer ou sofrimento, independente da
presença de razão ou linguagem. Kant, com o princípio do “imperativo categórico”, contribuiu com a reflexão que
devemos fazer ao realizar ações que impliquem na perda da condição de dignidade de outros indivíduos, sendo estes
tratados como meros meios para a satisfação de necessidades individuais. O princípio ético de Kant está baseado no
conceito de dignidade, e no princípio da liberdade e autonomia moral, que nós não pretendemos estender aos
animais. Mas ficamos ainda a responder, para conseguir aplicar este princípio neste momento da ciência, se as
demais espécies animais realmente não possuem razão. Este preceito vem sendo abalado, e vamos observando que
existem formas e formas de expressão da razão. Experiências confirmam que muitas espécies são capazes de cuidar
de seus próprios interesses de sobrevivência muito bem, e melhor sem a nossa interferência.
Os gregos fizeram uma distinção entre os seres viventes (zoo) e os que eram donos da vida (bio). Esta classificação
não tinha qualquer finalidade ética. Aristóteles utiliza estes termos politicamente, na polis, uma vez que os animais
(zoos) não podem fazer contratos políticos com o ser humano, pois estes não podem assumir responsabilidades
conosco. A interpretação errônea destes fatos podem acarretar em consequências sérias, e é preciso ter cuidado.
Citou também que muitas práticas didáticas foram abolidas em muitas universidades de vários países.
Finalizou convidando o público presente a participarem da uma disciplina de ética que ela ministra (Ética III), onde
este assunto é tratado com mais profundidade.
O professor Armando d’Acâmpora, em uma breve exposição, citou os objetivos da disciplina de Técnica Operatória,
dentre eles, o de ensinar ao aluno como se comportar frente a um paciente real antes, durante e após a cirurgia. Os
alunos precisam ter este comportamento com ética e profissionalismo. Ensinar o manuseio de tecidos vivos é
indispensável, pois apresentam situações adversas e inesperadas – principalmente ao cirurgião – no caso de lesões
acidentais de veias e consequente sangramento intenso. Outro objetivo fundamental é ensinar método ao aluno, já
que as cirurgias são metódicas e padronizadas, salvo condições excepcionais.
A professora Paula Brugger iniciou em um enfoque ambiental, salientando a relação homem X animal como sendo
muito importante, e fazendo parte da relação sociedade X meio ambiente. Em nossa cultura ocidental
industrializada, o homem desenvolveu uma relação de objeto com a natureza e, consequentemente, com os animais.
O termo recurso é utilizado, inclusive, para nós, seres humanos – sendo reforçado pela nova onda de globalização.
Esse tipo de visão sobre a natureza é bastante pragmática. Paula faz uma crítica a ética conservacionista, uma vez
que ela se preocupa apenas em salvar espécies em extinção, ou seja, bancos genéticos, se esquecendo de outras
espécies. Não estaríamos preservando a vida pelo direito à vida.
Essa visão pragmática e anti-ética faz parte da raiz do que se chama hoje de crise ambiental – que é uma crise de
sociedade, da cultura cientificista e ocidental.
Sobre a utilização de animais em específico, Paula acredita que é uma prática cruel e que envolve sofrimento. Por
mais que se diga que se obedeça as normas do COBEA, o processo de sofrimento começa com a captura do animal,
transporte, confinamento, etc.
Sobre a pesquisa, ela acredita que os resultados provindos da utilização de animais podem ser extremamente
enganosos quando extrapolados aos seres humanos. A experimentação animal é responsável pela produção de
produtos tóxicos ao meio ambiente e a saúde humana, uma vez que poluem a biosfera e produzem não raramente
efeitos colaterais sérios ao ser humano. Citou também como absurdo os testes realizados para produtos de limpeza e
higiene.
Mesmo com as objeções feitas à utilização de animais, milhões destes morrem em experimentos e, um absurdo,
como excedente de pesquisa.
Na opinião dela, deve-se investir em alternativas imediatamente, e não se acomodar com a situação. Citou a
realidade virtual, que aumenta a precisão de acerto quando aplicada em animais e evita a morte desnecessária de
milhares de animais.
Afirma que a experimentação animal é uma faceta doentia da relação sociedade e meio ambiente, e que deve mudar.
Numa reflexão sobre a ciência, Paula pergunta se tudo o que é científico é sempre o justo. Afirma que, como a
ciência está atrelada a ganância que consome o planeta, e como ela é uma realidade construída pelos homens, ela
não é neutra, tampouco boa em si.
O paradigma mecanicista é muito presente na relação sociedade e meio ambiente, e representa o modelo mecanicista
também adotado pela medicina alopática e cartesiana.
A ciência não questionada se transforma em fundamentalismo, e devemos prestar muita atenção à isto.
Finalizou salientado que muitas vezes criticamos outras culturas, dizendo que não refletem sobre sua realidade, e
esquecemos de olhar para a nossa.
O professor Luiz Carlos “Pinheirinho”, zootecnista e etólogo, fez uma exposição em cima de três questionamentos.
A primeira é: os animais sofrem? Isso pode parecer óbvio em primeira instância, porém nem todos acreditam que
sim. Se todos tivessem esta certeza, o uso de animais pela sociedade humana não seria da maneira como é utilizada
hoje. Questionaríamos se é justo, por exemplo, que para que possamos comer um ovo a 10 centavos uma galinha
viva durante toda sua vida num espaço de 360 cm2 (menos da metade de uma folha de papel A4). Primeiro é preciso
definir o que é sofrimento. Segundo ele, é um desconforto físico e/ou psocológico agudo e continuado. Não há
nenhuma evidência de que os animais não sintam a mesma dor que nós sentimos , e é exatamente por isso que o
animal é utilizado em experimentação – é porque suas estruturas neurofisiológicas são exatamente as mesmas dos
humanos, com a diferença de que nós possuímos um cérebro e um intelecto mais desenvolvido. Do ponto de vista
psicológico, o animal sofre? A resposta é sim. O animal, considerado durante muito tempo como uma máquina viva,
um objeto, hoje é considerado pela própria zootecnia moderna como um sujeito – uma entidade psicológica. Toma
como exemplo 2 argumentos que revelam o sofrimento animal do ponto de vista psicológico. Um recente trabalho
da revista Nature (17/6/99) compilou um estudo de 151 anos de observações de macacos e chimpanzés em vários
locais do mundo. Este trabalho concluiu que estes animais tem cultura – algo como sendo característica exclusiva
dos humanos. Um exemplo claro disso é o ato de lavar batatas em macacos japoneses (Macaca alouatta). Uma
macaca jovem começou a lavar batatas e esse comportamento foi aprendido por todos os outros macacos, e é
transmitido de geração à geração. Outro exemplo é o ato de comer nozes – a mãe ensina ao filho o complexo ato de
quebrar e comer uma noz. Alguém poderia dizer que os macacos são animais mais desenvolvidos, mas qual será a
linha que delimita a cultura nos animais e a inteligência animal? O professor citou o exemplo do cachorro que mora
em sua casa. Ele colhe os abacates em determinado momento, agrupa-os em um local do jardim com sol, e come-os
quando amadurecem.
Do ponto de vista do racionalismo antropomórfico, os animais sentem dor e demonstram sofrimento tanto físico
quanto psicológico.
A segunda pergunta - O uso de animais implica em sofrimento? Depende do uso. O uso de animais é aceitável
eticamente? Depende da moral e ética de cada indivíduo. Por exemplo – o uso de vacas leiteiras criados em campo
para extração de leite basicamente não implica em sofrimento para o animal, acredita. Alguém que defende
radicalmente os direitos animais pode dizer que nenhum ser humano tem o direito de usar qualquer animal em
benefício próprio – o animal tem a sua vida e o direito de decidir sobre o seu destino independentemente. Alguém
que sustente uma visão mais produtivista do assunto diria que o sofrimento animal não importa, confinando o animal
e achando que produzirá mais leite (neste momento ele afirma que isso é um engano, pois ele não produzirá mais
leite).
O debate sobre o bem-estar animal começou de fora para dentro – não foi o cientista, o produtor de ovos e leite ou o
médico que começaram com estes questionamentos, foi a sociedade. Estes questionamentos sempre vem de fora
para dentro. Apresentou 3 teorias básicas, a saber:
Produtivista – O resultado econômico é o que importa, e isso justifica o sofrimento ou a argumentação de que o
animal não sofre.
Utilitarianista – Os benefícios devem ser superiores aos prejuízos. O cuidado com o bem estar animal não pode
resultar, por exemplo, em queda da lucratividade, e que o uso de animais e algum sofrimento é justificável se os
benefícios são maiores que os danos.
Direitos Animais – estes direitos devem ser análogos aos do homem. Esta teoria defende que os animais não podem
ser utilizados como meios, pois eles tem o direito de decidir sobre suas próprias vidas. Geralmente que defende esta
teoria é adepto ao vegetarianismo.
A terceira pergunta é: é necessário o uso de animais? Ele afirma que a indução de dor desnecessária ou calculada é
eticamente reprovável – não há justificativa para isso.
Mas esta pergunta deve passar por reflexões
O resultado da pesquisa médica com animais resulta num maior bem-estar humano?
Ele cita os resultados da pesquisa com mapeamento genético, onde várias doenças (mal de Alzheimer, calvície,
câncer de cérebro, asma, envelhecimento precoce, etc.) estão patenteadas por indústrias farmacêuticas,
universidades, etc. Ou seja, existe um interesse maior por detrás de toda esta pesquisa.
“Enquanto isso, triplica a fome no mundo e o número de pobres, segundo a ONU”, questiona.
Ele reflete: “Assim como na experimentação animal, eu ouvia na agronomia que era preciso produzir para alimentar
o mundo, e que isso justificava envenenar o meio ambiente, impor tecnologias que os agricultores acabavam por
perder suas terras devido ao endividamento, e tudo isso para acabar com a fome no mundo!”. Segundo a FAU, de
1980 à 1995, a população humana no globo aumentou em 25%. No mesmo período, a produção de alimentos
aumentou 30%. Ou seja, a produção de alimentos aumentou mais que a população humana e os resultados são estes
– o aumento do número de pobres no mundo. Quem se beneficia com isso tudo? Provavelmente não é a maioria da
sociedade humana.
Apesar de tudo, nossa decisão pertence somente à nós,... além, é claro, da legislação, que é uma imposição da
sociedade para quem faz pesquisa (ela vem de fora para dentro – não foram os cientistas que criaram a legislação).
Conclui que não há neutralidade científica, que a adesão a princípios éticos não compromete o uso de métodos e
critérios científicos rigorosos. Isso é uma falácia que tentaram nos impor aqueles que advogam uma a-criticidade
com relação ao uso da ciência. Todo cientista, como qualquer ser-humano, tem uma responsabilidade social e ética
com seu trabalho. “Quando a bomba explodiu, abrindo o universo e revelou a perspectiva do infinitamente
extraordinário, também revelou o fato mais antigo, mais simples, mais comum, mais negligenciado e mais
importante de que cada homem é eternamente acima de tudo responsável por sua própria alma”, cita de um cientista.
Gilberto Galego cita que durante anos as pesquisas que se utilizaram de modelos animais não foram discutidas
porque os resultados desta pesquisa tinham um alto impacto social. Exemplos: vacina rubéola, varicela, caxumba,
etc. Quem de vocês até hoje não foi vacinado quando criança?
A Comissão de Pesquisa e Ética em Saúde – credenciada junto ao Conselho Nacional de Ética na Pesquisa do
Ministério da Saúde - foi criada objetivando estabelecer normas referentes à utilização de animais em projetos de
pesquisa submetidos à apreciação desta mesma comissão, que dispõe de critérios. Por exemplo, “A utilização de
animais em pesquisa científica deve ocorrer somente após ser provada sua relevância para o avanço do
conhecimento científico – considerando-se a impossibilidade de métodos alternativos como modelos matemáticos,
simulação computadorizada, sistemas biológicos in vitro ou outro modelo adequado. A espécie a ser utilizada e o
cálculo do tamanho amostral devem ser adequados para a obtenção de resultados válidos. Deve ser oferecido
alojamento, transporte, alimentação e cuidados adequados à espécie através de assistência qualificada.
Procedimentos que possam causar dor ou angústia devem ser desenvolvidos com sedação, analgesia ou anestesia.
Quando for necessário ao estudo, ou após o mesmo, se indicado que os animais devam ser sacrificados, esse
procedimento deve ser realizado de forma rápida, indolor e irreversível”. O grupo de pesquisa do qual Gilberto faz
parte segue estes critérios. Ele lamenta que os órgãos e tecidos são estruturas tão complexas e bem construídas que
nenhum cientista conseguiu até hoje conseguiu inventar até hoje alguma máquina ou estrutura semelhante para que
possamos fazer pesquisa ou até mesmo para que possamos fazer docência. Segundo Gilberto, sua equipe procura
substituir os animais de experimentação para a docência para que possam treinar bem seus alunos para a prática
cirúrgica, mas infelizmente não existe nenhum material não-vivo que possa substituir um tecido vivo, acredita.
Eles tem aprovado pelo FUNGRAD um projeto para aquisição de modelos experimentais para a redução do número
de animais que utilizam na docência. Infelizmente nem aqui nesta escola nem em qualquer outra do mundo, por
mais desenvolvido que seja o país, se consegue ensinar cirurgia ou manuseio de tecidos vivos sem a presença destes.
“Deus foi o único que conseguiu criar um tecido ou um órgão ou uma estrutura tão bem feita até hoje”, afirma.
Ele teve a oportunidade de conhecer um padre reitor da Universidade de Paul e consultor para pesquisa junto à
NASA, John Mainghi, que participou de um evento internacional de pesquisa e medicina, numa mesa exclusiva para
o debate de ética em pesquisa. Nessa ocasião perguntou à ele o que ele pensava sobre a pesquisa com animais, e ele
respondeu com 3 visões: como reitor ele deveria autorizar as pesquisas; como consultor, deveria viabilizar as
pesquisas, e como padre, deveria vigiar as pesquisas.
Ele finaliza lendo o artigo 2o do COBEA:
“O experimentador é moralmente responsável por suas escolhas e por seus atos na experimentação animal”. Ele está
ciente disso quando faz pesquisa ou quando utiliza animais para a docência.
O debate seguiu com vários depoimentos, dos mais expositivos aos mais arrogantes, passando por momentos de
emoção e raiva. Para quem tem interesse no assunto, vale a pena conferir a gravação em K7 deste debate – são
3 horas e 40 minutos!
Quem quiser tê-lo na íntegra, e tiver a paciência de escutar tudo o que foi falado, entre em contato com a Rede.
COMENTÁRIOS
Gostaria de levantar algumas considerações sobre este tema que foram referidos no debate de forma que me
pareceram inconclusivas e passíveis de contra-argumentação:
1) Uma das considerações importantes que devem ser analisadas para se verificar o sucesso de uma intervenção
cirúrgica é a recuperação do paciente, levantada pelo professor Luiz Carlos Pinheiro Filho. A técnica em si é
importante, mas ela inevitavelmente depende da observação pós-operatória do paciente, que dirá se a técnica foi
bem aplicada ou não. O que dizer dos animais que, após sofrerem intervenção na Técnica Operatória, são mortos?
Como avaliar o sucesso da intervenção?
2) O professor d’Acâmpora afirmou, em sua fala inicial, que um dos objetivos da técnica operatória era o de ensinar
ao aluno como se comportar frente a um paciente real antes, durante e após a cirurgia. O detalhe é que o “paciente
real”, na maioria das vezes, acaba morto. Na universidade de Miami, EUA, em 98 houve uma campanha que, por
ironia do destino, se chamava “Save your First Patient” (Salve seu primeiro paciente) – parece bastante familiar,
não? Hoje, a universidade de Miami não utiliza mais animais na educação médica.
3) Realmente o estudante deve ter contato com tecido vivo, e todas situações cirúrgicas que possam decorrer deste
tipo de recurso. Muitos recursos didáticos alternativos a utilização de animais não oferecem este tipo de informação.
Um depoimento de uma estudante de medicina sobre a carência de conhecimento prático observado em estudantes
intercambistas também foi importante neste sentido. Mas é importante salientar algumas considerações sobre esses
fatos:
- Nas universidades em que as práticas com animais foram abolidas, foi devido majoritariamente a ação dos próprios
estudantes de medicina, que não concordavam com este tipo de didática. Em outras universidades dos Estados
Unidos, a utilização de animais se tornou optativa – a própria American Medical Student Association garante aos
estudantes de medicina a não obrigatoriedade à estas práticas, e exige-se da universidade que se apliquem técnicas
alternativas à estes alunos que se recusam a participar de tais aulas (ver anexo)
- Os estudantes devem ter contato com material vivo, mas humano, e não animal. Estas universidades que optaram
por não utilizarem animais na formação dos médicos, adotaram a seguinte alternativa. O estudante de medicina tem
um período de residência maior que o usual. Neste período, realizado em hospitais ou pronto-socorros, o estudante
vai tendo contato com a realidade destes estabelecimentos e inicialmente observando as cirurgias feitas em pacientes
que realmente necessitam de cirurgia. Com o tempo, este estudante vai realizando intervenções cirúrgicas simples e
gradualmente, mais complexas. Tudo isso sob a condição de estar sendo supervisionado severamente por um
cirurgião responsável, que o orientará cuidadosamente. Além de ensinar ao estudante a técnica de cirurgias
gradativamente, e em pacientes reais, o estudante tem contato com o paciente humano, e aprende também a lidar
com os sentimentos que envolvem qualquer intervenção cirúrgica, como medo, insegurança, desconforto. Tudo isso
possibilita a sensibilização do estudante diante de todo o quadro clínico que cerceia uma cirurgia. Este método,
desenvolvido na universidade de Harvard, também possibilita a observação da recuperação do paciente. É
importante salientar que estes pacientes não são cobaias, como procuram se defender retoricamente os que defendem
a utilização de animais. Todo este procedimento é realizado com respeito a vida, e procurando ajudar o paciente –
isto não é anti-ético.
Todo este conhecimento é reforçado paralelamente com a utilização de métodos não-animais auxiliares de
aprendizado, como a realidade virtual, microcirurgia em placentas, cultivo de tecidos e órgãos humanos, técnicas de
imageamento não-invasivas, simulações em computadores, modelos matemáticos, maquetes humanas, estudos em
cadáveres, etc.
- Os entraves burocráticos não devem servir de pretexto para que a utilização de animais siga. O fato de que a
Técnica Operatória é um pré-requisito para a residência em hospitais e pronto-socorros é um caso excepcional de
universidades que acreditam que a utilização de animais é necessária. Tal situação pode ser facilmente contornada se
chegar a conclusão de que estes métodos convencionais podem ser abandonados e substituídos.
4) A experimentação animal se dá em dois níveis – pesquisa e ensino. A intenção do debate não era discutir o papel
da pesquisa para a medicina, e sim o papel da utilização de animais durante a formação do médico – um tema claro
de educação. Porém, em muitas ocasiões, alguns estudantes de medicina, e mesmo os professores palestrantes,
alegavam que a experimentação animal era importante para o progresso da medicina – citando exemplos para isso.
Em paralelo à isso, houveram depoimentos e falações que também usavam exemplos de como a experimentação
animal, à nível de pesquisa, não trazia benefícios à humanidade, causando sérios problemas à saúde humana. Atento
que a utilização de animais na educação médica era o que estava sendo discutido – apesar de ser muito difícil não
entrar nestes aspectos que acabam por complementar determinadas argumentações e levantar questionamentos
acerca de determinada formas de pensamento.
5) Uma fala de uma estudante de Engenharia de Alimentos foi muito interessante e, com certa razão, apropriada. A
condição social à que a maioria (a maioria!) dos estudantes de medicina estão sujeitos não propicia o
questionamento. Isso é evidente e uma das características de pessoas provenientes destas posições sociais.
6) Uma questão não foi respondida: como seria se os estudantes tivessem que levar os cães que moram em seus lares
para aprenderem técnica cirúrgica? Essa questão é, na minha opinião, importante, uma vez que revela o caráter de
propriedade e egoísmo que se tem diante da vida – valores que para um médico são contraditórios.
7) Muitos cirurgiões famosos passaram pela utilização de animais. Isso não significa necessariamente que cirurgiões
que não passaram pela mesma didática não sejam um bons cirurgiões - isso é um fato, e não uma hipótese!
8) A questão do “currículo oculto” levantado pela professora Paula é muito importante. Através deste tipo de
didática, muitas coisas são ensinadas além da técnica operatória em si. Valores pessoais do professor são
transmitidos, além de uma carga pedagógica que cultiva a submissão, obediência e o não-questionamento. Valores
estes que contribuem para a rigidez das condutas humanas (no sentido mais negativo possível) e para a estagnação
de conceitos e idéias. Quem viu o vídeo contendo o depoimento dos estudantes de medicina também pode ter uma
idéia do que se trata esta questão – a passividade e insensibilidade que determinadas ocasiões inesperadas são
exigidas diante do sofrimento animal, quando este superficializa antes de uma dose de manutenção e fica de pé em
uma mesa de cirurgia (relatado como “tragicômico” pelo estudante), ou quando os estudantes tem que ignorar os
gritos de dor que este animal dá e continuar com a cirurgia (relatado como “angustiante” pela estudante).
Bom, foram 4 longas horas de debate. Momentos de seriedade e emoção marcaram este debate através dos
depoimentos oferecidos. Poder-se-ia dizer que o mais difícil tenha sido manter uma linearidade de argumentações,
uma vez que o tema lida com aspectos inevitavelmente emocionais – afinal, tratam-se de vidas que sofrem, para
aqueles(as) que defendem os direitos animais.
Uma coisa fica clara: este é apenas o início. Esse foi o primeiro de uma série de debates que se sucederão. Das
próximas vezes, espero que possamos contar com um número cada vez maior de pessoas preocupadas com este tipo
de discussão.
Thales Tréz

Vítimas da Ciência
Sacrifício de animais abre debate na Universidade
Por Elaine Tavares*
O envelope chegou sem eu saber como. Tinha o meu nome estampado.
Dentro dele, um poema, fotos e uma denúncia: cachorros usados em aulas da medicina são mortos e viram lixo. As
fotos revelavam os bichinhos, dentro de sacos pretos, jogados atrás do HU, junto com o lixo hospitalar. Um deles,
com as patas e focinho amarrado, outro com a barriga cortada e suturada, outro, sujo de sangue, com uma expressão
quase humana, na rigidez da morte. Junto das fotos a pergunta gritante: " Porque? Seres vivos viram lixo. Como
tudo o que consumimos e descartamos. Queria entender como alguém consegue sair de uma aula assim, e almoçar,
namorar. Isso me dá medo e me entristece. É como se fosse uma guerra covarde em que de um lado está o homem
com suas máscaras, seus equipamentos, sua ciência e do outro seres indefesos, ora presos e vivos, ora mortos e lixo".
Impossível ficar impassível diante das fotos. O melhor amigo do homem e sua doçura, seu companheirismo.
O melhor amigo do homem que beija a mão de quem lhe bate e olha para o dono com olhos leais.
Volta a cena uma briga nova: os direitos dos animais. Até onde o homem tem direito de dispor da vida de outro ser,
ainda que diferente de si? Qual é o limite? Só o próprio humano pode estabelecer. Por isso é hora de discutir mais,
refletir, encontrar caminhos. Chocada com as fotos fui onde deveria ir. Na sala da disciplina de Técnicas Operatório,
aos fundos do HU. Lá, o professor Armando d'Acâmpora, responsável pela cadeira, conta que realmente a disciplina
depende destes animais para acontecer. "Como vou treinar um cirurgião sem que ele aprenda a manusear tecidos
vivos?", pergunta. Segundo ele é impossível ensinar o manejo do bisturi e todas as técnicas cirúrgicas através de
realidade virtual ou programas de computador. "Tu entregarias a tua mãe para ser operada por um cirurgião treinado
na realidade virtual?", provoca. o professor Armando explica que os alunos passam por várias etapas de treinamento.
Primeiro com laranjas, luvas de borracha e só depois de muito treino, começam a trabalhar com animais. "Os erros
técnicos não podem ser cometidos nos seres humanos. O treinamento tem que ser assim. Mas tudo é feito dentro de
conceitos éticos universais. Nenhum animal passa por qualquer sofrimento. Eles são anestesiados e depois do
trabalho são submetidos a eutanásia. Tudo sem sofrimento ou dor".
Durante um semestre são aproximadamente 300 cachorros que passam pelas mãos dos alunos da medicina. São cães
de rua da cidade de Curitiba, comprados especialmente para servirem de cobaias. Destes, 50% permanecem vivos,
desde que estejam servindo a alguma experiência. Os demais viram lixo. "Mas eles vão acondicionados em sacos
especiais, são lixo hospitalar", argumenta o professor. "Não temos condições de sepultar os animais. Se fosse assim,
quando um médico amputa uma perna, também deveria sepultá-la?". Sobre manter vivos os cachorros, Armando diz
ser impossível. "Pra teres uma idéia, qualquer pesquisa aqui tem que ser mantida com dinheiro do próprio
pesquisador. Não há dinheiro para cuidar destes animais. Para tê-los já gastamos 500 reais por animal. Mantê-los
seria inviável".
O estudante Huang Hee Lee, da 11º fase, acredita que as pessoas não devem olhar radicalmente para um lado só. Há
que ver os dois lados. Para ele, o trabalho com os animais é uma maneira de garantir uma ação mais eficaz no trato
com o humano. Huang Lee não acha que este tipo de prática torne o médico mais frio diante da vida, ao contrário,
"dá mais equilíbrio". Ele defende o uso dos animais porque "não há outro jeito e usá-los como experimentação faz
com que a probabilidade de erro num corpo humano seja bem menor".
A professora do Departamento de Ecologia e Zoologia , Paula Brugger, diz que não tem dúvida de que todos os
procedimentos éticos são utilizados no trato com os animais dentro da UFSC. Mas para ela, é necessário transcender
a esta ética. "O que acontece é que a nossa cultura legitimou separar o homem da natureza, considerando os demais
seres vivos como objetos a seu serviço, meros recursos, prontos para o uso. Isso tem que mudar. Se a gente se
horrorizar diante destas práticas, as alternativas surgem", argumenta. Ela lembra que existem culturas chamadas de
primitivas que vêm os animais como seres sagrados, tão sagrados como a vida humana. "E eles são os primitivos",
ironiza.
A questão talvez seja abrir o debate, mudar a visão de mundo. Encontrar um ser humano integrado à natureza, que
entenda que não só é parte da natureza, como é a própria natureza. Um só corpo, vibrando. Planeta Terra, Universo,
uma coisa só. Olhar o mun do assim nos faz ínfimos, insignificantes e, ao mesmo tempo, sagrados, tal qual qualquer
outra forma de vida. Que venha um tempo em que a vida não seja mais lixo. Que venha...
* Elaine Tavares é jornalista da Agecom/UFSC
Artigo Publicado no Jornal Universitário
Saiba mais pelo link: www.geocities.com/RainForest/Vines/5011/vivisseccao.html

UFSC pode alterar uso de animais em pesquisa


Procurador da Republica recomenda a normalização na pratica da vivissecção

MARCO AURÉLIO SILVA - Diário Catarinense


FLORIANÓPOLIS

O procurador da Republica Marco Aurélio Dutra Aydos encaminhou a reitoria Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC) uma recomendação para que seja normatizada a prática da vivissecção, a utilização de animais em
experiências cientificas.
Depois de ter ouvido os responsáveis pelo procedimento na UFSC, Aydos determinou que a própria universidade
deve controlar a vivissecção, estabelecendo normas que não firam as leis que
versam sobre o assunto. Uma das recomendações e a não utilização de animais domésticos nas experiências. A
disciplina de Técnica Operatória da Medicina utiliza cachorros na simulação de
cirurgias.

O procurador entendeu a posição do professor Armando d'Acâmpora, do Laboratório de Técnica Cirúrgica da


UFSC, que considera imprescindível a utilização dos animais na formação dos
futuros médicos. Mas entende que a concepção, em que o mundo e um objeto para uso e disposição do homem, na
busca pelo progresso da ciência, faz parte do século 19. "O homem não e mais dono e senhor de todas as formas de
vida. Privilegia-se agora uma concepção de convivência harmonica entre as espécies habitantes do planeta", acredita
Aydos. Os casos de sacrifício do animal, depois do processo de vivissecção, como acontece na UFSC, devem se
tornar a exceção e não a regra.

Baseado na situação que encontrou na universidade Marco Aurélio Dutra Aydos encaminhou ao reitor Rodolfo Pinto
da Luz uma serie de recomendações para que, em 90 dias, providencias
sejam tomadas sobre a pratica da vivissecção. A universidade deverá proibir que os animais utilizados na pesquisa
não venham de prefeituras, já que está se vinculando o ensino as medidas de ordem sanitária para a redução de
animais nas ruas. Os 200 cães utilizados em cada semestre na Medicina são comprados das prefeituras de Curitiba
(PR) e Itapema, no litoral Norte catarinense, possuidoras do sistema da carrocinha. Outras determinações são a
proibição da vivissecção com animais domésticos, como cães e gatos, que possuem convívio maior com a espécie
humana e, assim como o homem, não tem como finalidade servir de alimento e não são predadores, sujeitos a
extermínio por medidas sanitárias.

A utilização de cães só devera ser mantida em algumas raças que têm semelhança fisiológica com o homem, em
casos restritos. Mesmo assim, os animais utilizados serão criados pelo Bioterio Central da UFSC, que tem agora 180
dias para se adaptar as novas exigências. As aulas em que a vivissecção e praticada devera ser acompanhada por
medico veterinário que vai garantir os preceitos da legislação. E, ao final dos procedimentos, deverão ser esgotadas
todas as possibilidades de restauração da vida do animal. Ou seja, o sacrifício será permitido apenas em ultimo caso
e sob o aval de um técnico responsável.

http://www.arcabrasil.org.br/uso_animais.htm

CAMPANHA ENSINO SEM DOR


Materiais Alternativos
Perda da Qualidade de Ensino?
Resistência ao Novo
Relação entre o custo e o benefício dos métodos alternativos
Financiamento para Pesquisa
Legislação Brasileira e Objeção de Consciência
Questionário Medicina Veterinária
Questionário Biologia
No Brasil, os cursos de medicina, medicina veterinária, biologia, psicologia, odontologia, dentre outros possuem
aulas práticas onde são utilizados animais vivos (vivissecção) - ou mortos especificamente para fins didáticos. Na
Europa e Estados Unidos da América, muitas faculdades não utilizam animais, nem mesmo nas matérias prática
como técnica cirúrgica e cirurgia, oferecendo substitutivos em todos os setores. Somente nos EUA, mais de 100
escolas de medicina (quase 70%) incluindo Harvard, Columbia, Standford e Yale, não mais utilizam animais. Na
prestigiada Harvard Medical School, de acordo com o Dr. Michael D’Ambra, anestesiologista cardíaco que dirige o
programa de Harvard, onde não mais se utiliza cães ou quaisquer animais, "A única coisa que um estudante pode
fazer num cão de laboratório e que nós não ensinamos como fazer numa sala de cirurgia é matar o cão". Em toda a
Inglaterra e Alemanha, a utilização de animais na educação médica foi abolida. Também o está sendo em países da
América Latina, como a Argentina. Em março de 2001, a Western University of Health Sciences na Califórnia,
anunciou a aprovação da construção de sua primeira escola de medicina veterinária onde não serão utilizados
animais nas aulas (será a primeira nova escola de medicina veterinária dos EUA nos últimos 20 anos). No Brasil, a
Faculdade de Medicina Veterinária da USP já não utiliza animais vivos em suas aulas de técnica cirúrgica. Em vez
disso, utiliza cadáveres, especialmente preparados, de animais que tiveram morte natural em clínicas e hospitais
veterinários. E os alunos também praticam cirurgias de castração em cães e gatos levados pelos proprietários. De
2000 a 2001, mais de um terço da universidades italianas abandonaram a utilização de animais para fins didáticos.
Professores de faculdades de farmácia, como a de Pavia, e de veterinária, como as de Pisa, Parma, Messina, Milano,
Padova e Teramo, já declararam a validade ou mesmo a possibilidade de utilizarem métodos alternativos no ensino.
Mais e mais estudantes, em todo o mundo, estão alegando "objeção de consciência" e muitos dele já se formam sem
utilizar a vivissecção; ao invés disso, aprendem auxiliando cirurgiões experientes. Na Grã-Bretanha, é contra a lei
estudantes de medicina praticarem cirurgia em animais, e médicos britânicos são tão competentes quanto aqueles
educados em qualquer outro lugar.
Materiais Alternativos
Hoje, já há milhares de recursos que substituem o uso didático de animais nas salas de aula. Para as matérias básicas
de fisiologia, farmacologia e toxicologia existem substitutivos para todos os temas não sendo necessária a utilização
de animais.
Os recursos substitutivos envolvem modelos e manequins simuladores, filmes e videotapes interativos, simulação
computadorizada e realidade virtual; auto-experimentação e estudo em humanos; uso responsável de animais;
estudos in vitro e experimentos com plantas e observação e estudo em campo.
Os cadáveres de animais que morrem naturalmente nos hospitais universitários, abrigos ou clínicas veterinárias e são
utilizados em aulas de anatomia, patologia, parasitologia, técnica cirúrgica entre outras, são exemplos de recursos
didáticos substitutivos, bem como a prática cirúrgica de castração em cães e gatos de entidades de proteção animal
que são posteriormente doados.
Perda da Qualidade de Ensino?
Existem dados comprovando que os alunos que aprendem farmacologia, fisiologia e toxicologia sem ferir animais,
têm desempenho tão bom nas clínicas e nas provas quanto os alunos que aprendem com o uso de animais. As
vantagens pedagógicas específicas no uso dessas alternativas são muitas: elas são práticas, permitem que os alunos
as utilizem no seu próprio ritmo sem o estresse do exercício com os animais vivos. Os alunos podem treinar fora das
aulas, não precisam ficar presos naquela aula específica, podem fazer mais repetições e variações, o que não é
possível nas aulas tradicionais. Os alunos podem se concentrar nos princípios que estão tentando aprender.
No ensino que envolve habilidades manipulativas ou psicomotoras, há muitas alternativas como por exemplo a
venopunção e cateterização em modelos, pranchas para treinar a realização de nós e suturas que podem ser
realizadas nas aulas práticas e nas horas vagas dos alunos. Procedimentos ortopédicos também podem ser ensinados
sem utilizar animais vivos por meio de diferentes modelos de osso ou ossos artificiais. Simuladores podem ser
usados para o ensino de entubação e ressuscitação cardiopulmonar sem causar dor ao animal. Os alunos aprendem
sua primeira intervenção cirúrgica em cadáveres, abordagem e técnicas e depois disso podem aplicar as técnicas em
animais vivos que irão sobreviver à cirurgia.
Há alguns estudos que foram feitos avaliando a eficácia de métodos tradicionais e métodos alternativos e nesses
estudos foi demonstrado que em todos os casos, os alunos que estudaram cirurgia em métodos alternativos tornaram-
se tão competentes e hábeis quanto aqueles que aprenderam em métodos tradicionais.
Resistência ao Novo
A resistência existe não só por parte dos professores como também dos alunos. Porém, os alunos se inspiram e
sofrem influência do sistema de ensino ao qual estão inseridos e de onde recebem o conhecimento. Logo, uma
atitude coerente e firme dos professores e diretores irá influenciar esses alunos.
Entretanto, o desenvolvimento de alternativas para o uso de animais, ligado ao bem-estar animal, tanto no ensino
como na experimentação, já faz parte da realidade brasileira. Basta tomar como exemplo o último Exame Nacional
de Cursos (Provão) que incluiu em seu programa de prova, para os alunos das faculdades de medicina veterinária do
país, o assunto Bem-Estar Animal. No exame, houve uma questão sobre bem-estar animal (experimentação) e o
assunto foi mencionado em outra (produção animal). Isso significa que o MEC vem reconhecendo a importância do
assunto.
Relação entre o custo e o benefício dos métodos alternativos
Defende-se a utilização de animais no ensino baseando-se nas vantagens econômicas do seu custo sobre as
alternativas. Ao contrário, o uso de animais implica gastos com alimentação, medicação, instalações, pessoal
especializado (técnicos e veterinários) ao mesmo tempo que a maior parte dos materiais alternativos possuem um
tempo de vida indeterminado. Há, atualmente, alternativas com os preços mais variáveis, algumas praticamente sem
custo ou com custo bem baixo. Outras, como alguns programas de computador para as aulas de fisiologia,
toxicologia e farmacologia e que já são utilizados há alguns anos em algumas faculdades do Brasil, possuem um
preço acessível. Quanto às alternativas mais caras, como alguns manequins importados, podem tornar-se mais
baratos à medida que forem fabricados por empresas brasileiras.
Além disso, muitos outros aspectos da substituição são economicamente vantajosos, como por exemplo, quando
utiliza-se cadáveres no ensino, doados com consentimento por clínicas veterinárias sem os riscos das zoonoses.
Financiamento para a pesquisa
De modo crescente, os institutos de apoio à pesquisa analisam ou levam em consideração a existência de comitês de
ética e a maneira como os animais são utilizados.
Legislação Brasileira e Objeção de Consciência
Mais e mais estudantes, em todo o mundo, estão alegando "objeção de consciência" e muitos deles já se formam sem
utilizar a vivissecção. No Brasil, também já existem estudantes que se recusam a praticar a vivissecção alegando
objeção de consciência, protegidos pela Constituição do Brasil, na parte dos Direitos e Garantias Fundamentais –
cap. I Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, art. 5 o, II, III, VI, respectivamente (Ninguém será obrigado a
fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei, -- Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento
desumano ou degradante; - É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício
dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias).
E na lei 6.638, de 8 de maio de 1979 – Estabelece normas para a prática didático – científica da vivissecção de
animais e determina outras providências.
Complementada pela lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Meio ambiente e ecologia) – Dos crimes contra o meio
ambiente – Seção I – Dos crimes contra a fauna art. 32 parágrafo 1o e 2o , principalmente em seu parágrafo 1o que
diz: Incorre nas mesmas penas ( detenção de 3 meses a um ano, e multa) quem realiza experiências dolorosas ou
cruéis em animais vivos, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
Os alunos das áreas de medicina, medicina veterinária, biologia, dentre outras, podem se informar no início de cada
ano / semestre, sobre o conteúdo das aulas práticas / demonstrativas e quais utilizarão animais. Tanto professores
como alunos podem, juntos, redesenhar as aulas sem prejudicar o aprendizado e a formação profissional, utilizando
métodos alternativos.
MALTRATAR ANIMAIS É CRIME !!!!!!
Este cão foi "pintado" com piche, quente naturalmente, e abandonado numa rodovia próxima a
Porto Alegre.
Quando encontrado, estava quase completamente sem movimentos e já apresentava outros
comprometimentos físicos e fisiológicos graves.
Confiado ao IMEPA, conseguimos recuperá-lo. Hoje, apesar de ter ficado com sequelas, leva
vida normal. Como, em razão das sequelas, não pode ser oferecido à adoção, é o mascote do
Instituto. Chama-se EDU. Esta foto foi tirada logo após seu recolhimento e bem revela o
sofrimento do animal e a perversidade de quem o agrediu .

MAUS TRATOS E CRUELDADE CONTRA ANIMAIS NOS CENTROS DE


CONTROLE DE ZOONOSES: ASPECTOS JURÍDICOS E LEGITIMIDADE ATIVA DO
MINISTÉRIO PUBLICO PARA PROPOR AÇÃO CIVIL PÚBLICA
Luciano Rocha Santana
Promotor de Justiça do Meio Ambiente
Marcone Rodrigues Marques
Estagiário do Ministério Público
Este artigo originou-se no Inquérito Civil nº 025/98, instaurado pelo Ministério Público do Estado da Bahia, através
da Primeira Promotoria de Justiça do Meio Ambiente de Salvador, para apurar denúncia das associações protetoras
dos animais a respeito dos maus tratos e sacrifício sistemático e indiscriminado de cães realizado pelo Centro de
Controle de Zoonoses da Secretaria de Saúde do Município do Salvador – CCZ/SMS, veiculada pelos periódicos A
Tarde e Tribuna da Bahia.
I. Introdução
Um problema atual que vem requisitando a atenção dos operadores do Direito faz referência aos milhares de animais
sacrificados todos os anos no mundo, sob a justificativa de erradicar determinadas zoonoses, doenças como a raiva,
a sarna, a leishmaniose, a leptospirose etc. No Brasil, em particular, as autoridades sanitárias estão alarmadas com o
crescente número de animais abandonados, em especial, os cães que perambulam nas ruas das grandes cidades. O
Centro de Controle de Zoonoses de Salvador, por exemplo, promove por mês milhares de apreensões de cães e
gatos. Segundo estimativa da Secretaria Municipal de Saúde, a população canina que circula solta pelas ruas desse
município e que pode transmitir doenças, deve chegar ao expressivo número de trinta mil animais somente nessa
Capital. Estes números crescem no período do Natal e das férias escolares, quando muitos animais são simplesmente
abandonados ou entregues por seus proprietários diretamente ao órgão municipal responsável pelo controle de
zoonoses.
Este fenômeno da procriação desordenada, com aumento do número de animais abandonados, é conseqüência da
ignorância e falta de responsabilidade da população em relação ao problema, da omissão das autoridades e má
distribuição dos recursos públicos necessários ao tratamento específico dos animais, além da verticalização da
cidade, pois a grande maioria dos condomínios de apartamentos não permite a presença de cães e gatos.
Esse quadro se agrava a cada dia, pois são milhares de cadelas e gatas parindo, aproximadamente, a cada três meses
de gestação, dificultando o controle, porquanto o aumento da procriação, na população abandonada destes animais, é
grande e acelerado, situação esta que se agrava com a ausência de uma política pública adequada para a
administração do problema, vez que, atualmente, o Poder Público gasta consideráveis somas de recursos para
sacrificar cães e gatos errantes, que, soltos nas vias públicas, estão sujeitos a contrair doenças, serem atropelados ou
invariavelmente estão expostos a maus tratos.
De igual sorte, se observa, com o surgimento dos movimentos pró meio ambiente, principalmente nas últimas
décadas do século passado, a consolidação do entendimento de que os animais devem ser protegidos. Essa tomada
de consciência permitiu o surgimento, no campo da Ciência do Direito, de uma legislação específica, no sentido de
coibir maus tratos aos animais. A Declaração Universal dos Direitos dos Animais, da UNESCO, celebrada na
Bélgica em 1978, e subscrita pelo Brasil, é um exemplo, a qual elenca entre os direitos dos animais o de ”não ser
submetido a sofrimentos físicos ou comportamentos antinaturais". Nesse sentido, a Humanidade tem se
sensibilizado contra ações que importem em maus tratos e crueldade contra os animais, procurando, em diversas
partes do mundo, promulgar e implementar normas que garantam o respeito à vida, ao bem estar e à dignidade
destes seres vivos, com a proibição de atos que impinjam aos animais desnecessários sofrimentos.
Movimentos, campanhas e até ações judiciais com a ampla repercussão da temática ambiental na mídia como um
todo e o trabalho de educação ambiental promovido por diversas entidades ambientalistas, políticas e jurídicas,
dentre elas o Ministério Público, acompanharam essa conscientização ambiental. No entanto, o problema dos maus
tratos contra os animais persiste e, mais, em nosso país, tal violência se encontra institucionalizada, haja vista a
política de saúde ultrapassada e não humanitária amplamente adotada pelo Poder Público para conter a população de
animais errantes, através de seu sacrifício sistemático e indiscriminado, política pública esta cruel e que não se
mostra eficaz sequer ao seu motivo justificador que seria o de controlar as zoonoses.

II. Os Centros de Controle de Zoonoses –


CCZ’s
1. A Realidade nos CCZ’s
Os grandes centros urbanos vivem hoje as conseqüências da superpopulação de animais errantes e é nessa
conjuntura que surgem os Centros de Controle de Zoonoses – CCZ’s, com os seus métodos, na maioria das vezes,
“nazi-fascistas” de captura, confinamento e extermínio de cães e gatos, após dias de constrangimento em irritantes e
exacerbadas situações de cativeiro em cubículos fétidos e imundos, sem comida e sem qualquer avaliação médico-
sanitária, sofrendo maus tratos, violando a lei natural – física, química, biológica e psíquica -, da qual o animal é
portador.
Esses métodos de extermínio são divididos em físicos, como, por exemplo, tiro de pistola com êmbolo cativo,
eletrocussão (causa a morte imediata por depressão do sistema nervoso central), câmara de descompressão rápida
(câmara hermeticamente fechada em que o ar é retirado rapidamente, provocando a morte do animal) e químicos –
aqueles onde se usam drogas inalantes ou não inalantes, como, por exemplo, monóxido de carbono produzido por
motor a explosão de gasolina e filtrado em tanque de água, éter e clorofórmio em câmara de vapor, dióxido de
carbono, nitrogênio (estes inalantes), pentobarbital sódico (provoca parada cardíaca e respiratória), thionembutal
(via endovenosa), acepromazina (produz narcose), cloreto de Potássio, sulfato de magnésio (estes não inalantes).
É também, nesse contexto, que a sociedade questiona, em nome do direito à vida e ao bem estar dos animais e em
favor da decência humana e do respeito entre todas as espécies, a razão do sacrifício sistemático e indiscriminado de
cães errantes nos CCZ’s e sua real eficácia em relação ao controle das zoonoses, e qual deve ser o papel
desempenhado pelo Ministério Público nessa conjuntura.
Os CCZ’s deveriam fiscalizar e garantir a saúde e o bem estar dos animais e estimular a fiel aplicação dos preceitos
constitucionais e legais que preconizam a posse responsável destes seres vivos por seus proprietários, contudo, são
os primeiros a violarem a norma legal e darem maus exemplos, estimulando a impunidade e a barbárie, ao pôr em
prática, em relação aos animais que captura, mantém em confinamento e extermina, procedimentos e atitudes que
afrontam diversos diplomas normativos, a Constituição da República e a legislação infraconstitucional.
Em verdade, os CCZ’s, responsáveis pela captura de animais soltos nas ruas, atualmente, em virtude das políticas
administrativas adotadas, não possuem infra-estrutura nem pessoal qualificado suficiente sequer para atender as
solicitações da comunidade; não existem, por exemplo, como no Município do Salvador, critérios para separação
dos animais apreendidos, pois cães sadios são confinados com doentes, animais grandes com pequenos, cães de
guarda com cães de companhia, sendo que o único critério adotado para a separação dos cães é o local da cidade (ou
bairro) onde foram apreendidos. Tal modus operandi, em vez de conter os casos de zoonoses, acabam por
transformar estes centros em verdadeiros difusores destas doenças.
O sacrifício sistemático de cães e gatos, por meio de injeções letais, câmara de gás, câmara de compressão a vácuo,
espancamentos etc. - métodos considerados não humanitários -, ocorre há mais de 20 (vinte) anos nos CCZ’s das
grandes cidades. Enquanto não se enfrentar as reais causas da superpopulação animal, oriunda de uma procriação
descontrolada de cães e gatos, a Administração Pública continuará matando diariamente milhares de animais, que
são entregues pelos próprios proprietários ou apreendidos pela carrocinha.
Nota-se o descaso da Administração Pública, no que tange à situação dos animais de rua, não havendo demonstração
de interesse político na solução deste grave problema. Pelo contrário, constata-se a elaboração e implementação
efetiva de métodos cruéis e desumanos de controle de zoonoses, através da eliminação sistemática e indiscriminada
de animais errantes e mesmo domiciliados, sendo a sua grande maioria cães. Talvez, esse descaso das autoridades se
justifique pelo fato de que a maioria dos cães apreendida pertence a comunidades carentes. Não se pode deixar de
constatar que se trata de um problema de natureza nitidamente social e cultural.
Voltando à realidade atroz do CCZ de Salvador, em relatórios por ele apresentados, verifica-se a enorme quantidade
de animais sacrificados no curto período de apenas 03 (três) anos, perfazendo um total aproximado de 7.484 (sete
mil, quatrocentos e oitenta e quatro) cães e gatos, contudo, sem que a raiva deixe de ser uma realidade nesta cidade,
demonstrando o criminoso equívoco desta “política de saúde pública” e a péssima atuação do órgão municipal
encarregado de executá-la. Segundo laudo técnico da Fundação José Silveira, requerido pelo Ministério Público do
Estado da Bahia, o sacrifício sistemático e indiscriminado dos animais, posto em prática pelo CCZ, é feito com
sofrimento e dor física destes seres vivos, pois o cloridrato de xylasina, utilizado por ocasião do sacrifício dos
animais, não tem qualquer efeito anestésico, deixando o animal consciente por ocasião da aplicação da injeção letal
de cloreto de potássio. Agregue-se a esta política equivocada de extermínio, as denúncias comprovadas de maus
tratos e abusos praticados no CCZ por ocasião da captura e do confinamento destes animais.
Os responsáveis pelo CCZ da Cidade do Salvador justificam o sacrifício sistemático de cães errantes no artigo 192,
parágrafo 6º, da Lei Municipal 5.504, de 1º de março de 1999, que preceitua que “os animais apreendidos e não
sacrificados como medida de prevenção e controle de zoonoses, poderão ser resgatados ou doados se, a critério da
Autoridade Sanitária Municipal, não apresentarem perigo à saúde humana ou à de outros animais” (omissis) “§ 6º - a
doação a terceiros só poderá ocorrer quando a raiva estiver devidamente controlada no Município do Salvador,
ficando a regulamentação deste ato a critério da Secretaria Municipal de Saúde”. Todavia, este único dispositivo
legal, invocado pelo CCZ para justificar o sacrifício de animais, mostra-se eivado de vício, pois, contraria a
Constituição Federal e a outros dispositivos legais, além das recentes recomendações técnicas da Organização
Mundial de Saúde - OMS.
Ademais, evidencia-se a flagrante inconstitucionalidade deste dispositivo da Lei Municipal 5.504/99. Neste caso, o
Município do Salvador legislou como se constituinte fosse, descaracterizando um preceito constitucional, pois a
própria Carta Magna restringe à competência concorrente da União, Estados e Distrito Federal legislar sobre a
fauna; assim, o artigo 24 e o respectivo inciso VI, afirmam: “Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal
legislar sobre” (artigo 24): “florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos
naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição” (inciso VI). O escopo essencial e basilar de uma
Constituição é a manutenção do Estado de Direito. De modo que, apenas e somente a Carta Maior distribui poderes
e competências, sendo certo que todos os poderes são limitados, expressa ou implicitamente, pelas normas positivas
da lei fundamental. Portanto, somente as leis que se conformarem com a Constituição Federal terão validade. Não
justificando os métodos ora empregados pelos CCZ.
2. Ineficácia da Política de Extermínio.
A política de captura e eliminação de animais errantes adotada pelos CCZ’s até os dias atuais, além de não controlar
a população de cães e gatos, não é econômica, racional ou humanitária. Levando-se em consideração que uma
fêmea canina pode gerar em alguns poucos anos milhares de descendentes, não é necessário um grande
esforço intelectual para concluir que matar não oferece solução ao problema da superpopulação animal. O
extermínio sistemático adotado pelos CCZ’s é irracional, cruel e indigno da condição de seres racionais, não
sendo mais este método considerado eficaz ao controle das zoonoses.
A meta principal e prioritária dos CCZ’s é erradicar as doenças infecciosas transmissíveis naturalmente entre
animais vertebrados – zoonoses. Para alcançar esse fim, utilizam uma maneira simplista e nada humanitária,
eliminando todo e qualquer animal encontrado nas ruas não reclamado por seu dono. Encontram-se, ainda,
vinculados ao 6º Informe Técnico da Organização Mundial de Saúde – OMS, de 1973, em desuso na maior parte do
mundo pela crueldade e falta de resultados satisfatórios; em síntese, esse informe determinava que os animais de
ruas apreendidos e não reclamados em curto prazo de tempo deveriam ser sacrificados, buscando-se com tal medida
erradicar algumas zoonoses.
Além do informe citado, existe uma outra justificativa utilizada pelos CCZ’s para sacrificar animais sadios,
afirmam, através de seu corpo técnico, que é impossível saber se um determinado animal está ou não infectado pelo
vírus rábico, pois, no caso da raiva, não há possibilidade de diagnóstico em animais vivos, vez que o vírus rábico só
é identificado após a morte do animal, por encontrar-se instalado dentro do cérebro, no encéfalo, mais precisamente,
no Corno de Amon; assim, os CCZ’s racionalizam o sofrimento e o sacrifício de milhares de animais sadios.
Terminam, destarte, por ignorar as novas recomendações feitas pela OMS, através do seu 8º Informe Técnico, no
sentido de minimizar os danos e maus tratos aos cães errantes e/ou doentes, o qual aponta como o mais eficaz
método de domínio das zoonoses o controle da reprodução dos animais, seja através de injeções de hormônios ou
esterilização, seja através da restrição da liberdade de movimento das cadelas no cio, de modo que a captura e
eliminação sistemática e indiscriminada de animais não são mais consideradas como métodos eficazes. Segundo este
informe técnico, ainda que se possa obter apenas benefícios indiretos através da eliminação seletiva de cães não
vacinados, que não estejam em conformidade com as normas de controle e costumam se amontoar nos restos de
mercados, matadouros e fábricas de alimentos, a eliminação desses animais deve ser considerada somente se puder
impedir que outros cães ocupem seu lugar ecológico
Relatos de experiências similares em áreas de foco no México e Colômbia indicaram que a apreensão e eliminação
de animais não preveniram novos focos da doença (raiva). Neste sentido, existem estudos científicos da Organização
Mundial de Saúde que comprovam a ineficácia dos métodos arcaicos de sacrifício sistemático dos animais, pois
estes não foram aptos a controlar a superpopulação de cães nem, por conseguinte, eliminaram a propagação da raiva,
de forma definitiva, além dos enormes gastos que proporcionaram aos Estados. Em relação à prevenção da raiva,
particularmente, a OMS recomenda o controle de natalidade de cães e gatos, controle ambiental e educação da
comunidade. Por esse motivo, alguns países, como a França e a Itália, e cidades como a de Buenos Aires e Rosário,
na Argentina, condenaram o sacrifício de animais errantes como política pública de saúde e passaram a adotar o
método de controle da reprodução dos animais.

III. O Direito Comparado


A Itália, através da Lei 281/1991, trouxe grande inovação à política de controle da população errante de animais
domésticos ao abolir o triste e funesto serviço do "accalappiacani" (agente do serviço municipal encarregado da
apreensão e extermínio de cães e gatos). Desde a promulgação dessa lei, não é mais permitido, em território italiano,
a morte dos cães e gatos errantes. Com efeito, diz essa lei, em seu artigo 2°, § 2°, que os cães vagantes descobertos,
capturados e abrigados nos canis municipais não poderão ser mortos; o § 3° afirma que os cães capturados ou
provenientes dos canis municipais não podem ser destinados à experimentação, proibindo o envio dos animais
abandonados à vivissecção. Ainda, o parágrafo § 5° do aludido artigo 2º da referida lei aduz que os cães de rua não
tatuados capturados devem ser tatuados, assim como os cães recolhidos nos canis municipais e nos refúgios para
cães; se não reclamados no prazo de sessenta dias, poderão ser cedidos a particulares (adoção) que dêem
garantia de bom tratamento ou a associações protetoras, depois de prévio tratamento profilático contra a
raiva, a equinococose e outras doenças transmissíveis.
Percebe-se que o sacrifício sistemático de animais como método de controle de zoonoses foi erradicado desse país.
A única forma admitida pela lei italiana para sacrifício de cães recolhidos nos canis municipais e nos refúgios para
cães é através da eutanásia, por intervenção de médicos veterinários, e somente se os animais estiverem
gravemente doentes, acometidos por doença incurável ou de comprovada periculosidade (artigo 2º, § 6º, da
Lei 281/1991).
Em relação à população errante de gatos, a lei italiana é ainda mais específica, vez que, em seu artigo 2º, § 7º,
proíbe a quem quer que seja maltratar os gatos que vivem em liberdade e, segundo o seu parágrafo 8º, os gatos
que vivem em liberdade, depois de serem esterilizados pela autoridade sanitária competente do local, serão
readmitidos em seu grupo, somente sendo sacrificados quando acometidos por doença grave ou incurável
(artigo 2º, § 9°).
A lei francesa de n° 99-5, de 5 de janeiro de 1999, em seu artigo 8º, prevê de igual modo, a esterilização de animais,
além de permitir expressamente a existência dos "gatos livres" ("chats libres"). De acordo com o referido artigo, o
Prefeito pode, por meio de decisão de sua iniciativa ou por requisição de uma associação de proteção dos animais,
proceder à captura de gatos não identificados, sem proprietário ou guardião, que vivam em grupo nos lugares
públicos do município, a fim de providenciar sua esterilização e sua identificação, antes de os devolver aos
mesmos lugares em que foram encontrados.
Dessa forma, nesses países, a captura dos cães e gatos errantes é feita, não com o intuito de exterminá-los. Os cães
capturados passam por um programa de esterilização e ficam esperando o resgate ou a adoção em canis municipais
ou nos denominados refúgios para cães.
A nível internacional, ainda podemos citar a experiência bem sucedida do Instituto de Salud Animal (IMUSA) da
cidade de Rosário na Argentina, demonstrando que o atual posicionamento da OMS – controle da reprodução - é o
mais viável ao controle das zoonoses transmitidas por animais domésticos. A adoção da esterilização e a educação
comunitária permitiu que há mais de dezesseis anos não exista registros de nenhum caso de raiva na cidade de
Rosário, além de permitir o controle da população de animais de rua e permitir o equilíbrio do meio ambiente, com
respeito ao direito à vida e ao bem-estar do animal.
O mesmo se pode dizer da recente promulgação da Ordenança 8876, de 12 de dezembro de 2000, do Município de
Quilmes, Província de Buenos Aires, que, em seu artigo 1º, determina o seguinte: “Transfórmase la División Centro
Antirrábico Municipal en Instituto Municipal de Sanidad Animal”. A referida ordenança pontifica, ainda, em seu
artigo 2º, que o Município de Quilmes deve proteger a vida dos animais domésticos e prevenir atos de crueldade e
maus tratos contra estes animais. Muda, assim, radicalmente o conceito do que se deve entender por política pública
de promoção da saúde dos animais e de prevenção das zoonoses, ao prever como missões do referido instituto a
esterilização em massa e a assistência médica integral dos animais domésticos, a implementação de campanhas
educativas a toda população da necessidade da castração cirúrgica, do estímulo à adoção dos animais abandonados e
do cuidado sanitário com seus animais domésticos (artigo 3º), ao tempo que promove a posse responsável, ao
estabelecer penas de multa para os responsáveis por abandono, maus tratos e crueldade contra os animais domésticos
(artigo 4º). Importantes iniciativas neste sentido também estão ocorrendo no Brasil, nos Municípios do Rio de
Janeiro e em Guarujá – São Paulo. Ressalva-se a importância dessas experiências pelo fato de estarem acontecendo
em países do cone sul americano, do dito bloco do terceiro mundo.

IV. O Direito Nacional


1. Tendência Legislativa
Atualmente a evolução da legislação protetiva dos animais domésticos tem sido em relação à esterilização e à posse
responsável. Tem-se a Constituição Federal, em seu artigo 225, § 1º, VII, tratando do meio ambiente; o Código
Civil, em seus arts. 47 (por interpretação), 588, § 2º, 594 a 598, 1.416 a 1.423 e 1.527; o Decreto Federal 24.645, de
10 de julho de 1934, estabelecendo medidas de proteção aos animais; a Lei 5.197, de 3 de janeiro de 1967, alterada
pela Lei 7.653, de 12 de fevereiro de 1988 - Lei de Proteção à Fauna; a Lei 6.638, de 8 de maio de 1979 - Lei da
Vivissecção; a Lei 7.173, de 14 de dezembro de 1983 - Lei dos Zoológicos; a Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 -
Lei de Crimes Ambientais.
A Constituição da República prevê, expressamente, que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e as futuras gerações” (artigo 225), dando a
incumbência, entre outros, ao Poder Público, de “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”
(inciso VII).
Portanto, dentre a variegada gama de interesses relativos ao meio ambiente, destaca-se a defesa da fauna, que
abrange, inclusive, os animais domésticos ou domesticados. O meio ambiente “tendo em vista o seu uso coletivo,
deve ser protegido e assegurado, pois, trata-se de um patrimônio público” (artigo 2º, inciso I, da Lei Federal 6.938,
de 31 de agosto de 1981).
É, assim, que o artigo 3º, inciso V, da supracitada lei, considera como bens necessariamente integrantes do meio
ambiente a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o
subsolo, os elementos da biosfera, a flora e a fauna. De modo que toda vida animal de uma determinada área, sem
levar em conta sua categoria – silvestre, exótica, migratória ou doméstica, além dos microorganismos -, fazem parte
do meio ambiente, seja sob o enfoque cientifico ou legal.
Tal Lei Federal 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de
formulação e aplicação -, estabelece, ainda, em seu artigo 3º, incisos I a IV, os conceitos de meio ambiente e
poluição, como a seguir descritos: “Artigo 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: I - meio ambiente: o
conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege
a vida em todas as suas formas; II - degradação ambiental: a alteração adversa das características do meio ambiente;
(...) IV - poluidor: a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por
atividade causadora de degradação ambiental”.
Tomando em consideração as características e destinação naturais dos cães e gatos capturados pelos Centros de
Controle de Zoonoses, verifica-se as alterações adversas de ordem física, psíquica e moral, decorrentes do
tratamento cruel a que são submetidos tais animais nos procedimentos de captura, confinamento e sacrifício,
configurando, deste modo, a crueldade e maus tratos tipificados como crime ambiental.
2. A Crueldade Contra os Animais nos CCZ’s
É, como dito, a prática da crueldade uma forma grave de degradação ambiental. Antônio Houaiss e Mauro Sales
Vilar afirmam que crueldade em sentido jurídico é “todo ato bárbaro praticado pelo agente que produza
padecimentos físicos e impiedosos” (In Dicionário Houaiss da Literatura Portuguesa, Editora Objetiva, Rio de
Janeiro, 2001, pág.879). Segundo Nelson Hungria “é o meio bárbaro, martirizante, denotando, da parte do agente,
ausência de elementar sentimento de piedade. Matar com crueldade é matar a moda de Calígula. São as sevícias
reiteradas, o impedimento do sono, a privação de alimento ou água” (In Comentários ao Código Penal – Volume V,
artigos 121 a 136, Revista Forense, Rio de Janeiro, 1942). Heleno Fragoso a descreve como sendo todo ato “que
acarreta padecimentos desnecessários para a vítima, ou como se diz na exposição dos motivos do CP, brutalidade
fora do comum ou em contraste com o mais elementar sentimento de piedade”(In Direito Penal - Parte Especial,
artigos 121 a 160, 6ª edição, Forense: Rio de Janeiro, 1981).
Desta maneira, pode ser definida como toda ação ou omissão dolosa ou culposa, desumana, despiedosa, nociva,
prejudicial, que produz padecimento inútil, mais grave do que o necessário, contrário à justiça e à razão, à virtude e
ao dever, de quem se compraz em ver ou causar sofrimento, afligir ou torturar. Assim, é a matança pela caça nociva,
por desmatamento ou incêndios criminosos, por poluição ambiental ou mediante dolorosas experiências diversas que
venham a causar aflição ou dor, os abates atrozes, os castigos violentos e tiranos, os adestramentos por meio de
instrumentos torturantes e perversos, ou quaisquer outras condutas impiedosas, resultantes em maus tratos contra
animais vivos submetidos a injustificáveis e inadmissíveis angústias, dores, torturas, dentre outros atrozes
sofrimentos causadores de danosas lesões corporais de invalidez, de excessiva fadiga ou exaustão que venham
agravar as dores, os efeitos ou as lesões, até a morte desumana da vítima animal.
Ante o quadro apresentado pelos CCZ’s, os conceitos expostos e visando uma conduta ética e humanitária com
relação aos demais seres vivos e em respeito à Lei dos Crimes Ambientais (Lei Federal 9.605/98), no seu artigo 32,
faz-se necessária a mudança de paradigma dos CCZ’s, transformando-os em centros de promoção da saúde e bem
estar dos animais, com a implantação de um programa humanitário e eficiente de controle de zoonoses.
No caso de Salvador, mostra-se, destarte, paradoxal que seja justamente a Pública Administração Municipal, através
de seus agentes encarregados de executar a política de saúde pública e de promover a defesa da saúde e do bem estar
dos animais - “contribuir para prevenir, reduzir ou eliminar as causas de sofrimento dos animais” (artigo 177, inciso
IV, da Lei Municipal 5.504/99) e “impedir maus tratos aos animais ou permitir que estes sejam mantidos com sua
saúde comprometida sem a atenção profissional adequada” (artigo 177, inciso VIII, da Lei Municipal 5.504/99) -, a
responsável pelo elenco infindável de atrocidades contra os animais postos em prática no seu Centro de Controle de
Zoonoses, conforme reiteradamente noticiado e provado nos autos do aludido inquérito civil.
Por esses motivos, o Ministério Público, através da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente de Salvador, vem
propondo à reestruturação do CCZ, com o objetivo de promover mudanças efetivas na política de controle
populacional de cães e gatos nos grandes centros urbanos, tais como: a) a afirmação do direito à vida dos animais,
com a proibição de morte daqueles que não estejam em fase de doença terminal que lhes imponha desnecessários
sofrimentos ou de comprovada periculosidade (eutanásia humanitária); b) proibição de eutanásia de animais
através de qualquer meio que lhes possa causar demora ou sofrimento; c) implantação de campanhas periódicas,
informando a população a respeito da necessidade da posse responsável de animais, da adoção, de vacinação
periódica e controle de zoonoses através de castração; d) implantação de serviço de identificação e registro de
animais; e) implementação de programas de adoção; e) higienização de ambientes, celas e veículos dos CCZ; f)
treinamento de todos os funcionários do CCZ, de forma didática, para que adquiram técnica e conhecimento
adequado ao exercício de suas funções, de modo a evitar a prática de crimes de maus tratos e prevenir a ocorrência
de sofrimento desnecessário a animais apreendidos e sob a sua guarda, entre outras tantas medidas que visam
adequar a atuação deste órgão municipal, transformando-o em verdadeiro centro de saúde e bem estar e não em
fonte de sofrimentos desnecessários aos animais, de difusão de doenças e incitador da violência gratuita.
Principalmente, efetuar o controle da superpopulação canina e felina do município através de implantação de
programas de controle da reprodução animal - esterilizar é hoje a bandeira das entidades de proteção animal e
das secretarias de saúde no mundo inteiro.
2. A Legislação Protetiva Brasileira e o Crime de Maus Tratos Contra os Animais
Diante da preocupante realidade e da tendência crescente de práticas causadoras de um padecimento físico inútil e
mais grave do que o necessário para o controle da população canina, em particular, praticada pelos CCZ's, agravadas
pela ausência de elementar sentimento de piedade da parte dos seus agentes, com a adoção de meios bárbaros e
martirizantes, tornou-se inevitável a reação contra tal fenômeno por parte da sociedade.
A legislação brasileira infraconstitucional é farta ao proibir a utilização de métodos cruéis que causem sofrimentos
atrozes e desnecessários a qualquer espécie animal. Em consonância com o já citado artigo 225, da Constituição
Federal, as atrocidades cometidas contra os animais nos CCZ’s, dotadas de notável selvajaria humana, incidem em
norma penal incriminadora, pelo que devem responder os infratores a título de dolo.
Vê-se, portanto, que a lei erigiu à categoria de crime as práticas abusivas em relação aos animais, punindo qualquer
conduta que implique em maus tratos, lesão ou mutilação.
Com efeito, recentemente, foi promulgada a Lei Federal 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que dispõe sobre as
sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente e dá outras
providências e que prevê, no capítulo V, destinado aos “Crimes Contra o Meio Ambiente”, em sua Seção I, que
define os “Crimes Contra a Fauna”, o artigo 32, que tipifica: “Praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar
animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos: Pena – detenção, de três meses a um ano, e
multa” (grifo nosso).
“Maus tratos, em qualquer de suas modalidades, é crime de perigo: necessário e suficiente para a sua existência é o
perigo de dano a incolumidade da vítima” (In Comentários ao Código Penal – Volume V, artigos 121 a 136, Revista
Forense, Rio de Janeiro, 1942, p. 408 e 409). É, também, crime de conteúdo variável, porque são várias as condutas
tipicamente previstas - golpear, ferir ou mutilar, voluntariamente, qualquer órgão ou tecido de economia, realizar ou
promover lutas entre animais da mesma espécie ou espécie diferente, touradas e simulação de touradas, ainda
mesmo em lugar privado. Pode ser cometido por várias modalidades de ações. Consiste em por em perigo a vida ou
a saúde da vítima, através de uma das formas indicadas na lei. São considerados maus tratos a privação de
alimentação ou cuidados indispensáveis e os abusos dos meios de correção ou disciplina. O elemento subjetivo ou
dolo específico do crime em questão é a vontade consciente de maltratar o sujeito passivo de modo a expor-lhe a
perigo a vida ou a saúde. O dolo, quanto ao conteúdo de perigo, pode ser direto ou eventual, consumando-se quando
da realização das condutas, não se admitindo tentativa, exceto na modalidade comissiva.
Nesse sentido, sob a égide da legislação anterior, “crueldade contra animais – exposição da saúde do animal a
perigo direto – desnecessidade de prova de lesão – caracterização – “no mero fato de arremessar animal ao
ar, assim, provocando queda de altura perigosa – vale dizer, pondo em risco sua integridade corporal –
estampa-se por inteiro voluntário ato de crueldade, que a civilidade repele e os bons costumes (bem jurídico
tutelado) proscrevem; sendo que a manifestação de crueldade é por si só punível, significando dizer que a
configuração do ilícito contravencional em exame não exige a efetiva produção de lesão” (TACRIM-SP – AC
867.557-1 – Rel. Corrêa de Moraes – RDA 3/383).
3. O Decreto Federal 24.645/34
Ainda que revogado em parte, merece referência, por sua grande importância histórica, o Decreto Federal 24.645/34,
onde vê-se assegurada a tutela aos mais variados representantes da fauna brasileira, entre eles cães e gatos. Trata o
decreto das medidas de proteção aos animais, coibindo a banalização e a comercialização da brutalidade e da tortura,
em respeito a todas as formas de vida. Dispunha o referido decreto que “todos os animais existentes no país são
tutelados pelo Estado” (artigo 1º) e que “aquele que, em lugar público ou privado, aplicar maus tratos aos animais,
incorrerá em multa de $ 20,00 a $ 500,00 e na pena de prisão celular de 2 a 15 dias, quer o delinqüente seja ou não o
respectivo proprietário, sem prejuízo da ação civil que possa caber” (artigo 2º).
Em seu artigo 2º, parágrafo terceiro, este Decreto aduz que “os animais serão assistidos em juízo pelos
representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras de animais”.
Assim considera maus tratos (artigo 3.º): “I - Praticar ato de abuso ou crueldade em qualquer animal; II - Manter
animais em lugares anti-higiênicos ou que lhes impeçam a respiração, o movimento ou o descanso, ou os privem de
ar ou de luz; (omissis) IV – golpear, ferir ou mutilar, voluntariamente, qualquer órgão ou tecido de economia, exceto
de castração, só para animais domésticos, ou operações outras praticadas em benefício exclusivo do animal e as
exigidas para defesa do homem, ou no interesse da ciência; V – abandonar animal doente, ferido, extenuado ou
mutilado, bem como deixar de ministrar-lhe tudo o que humanitariamente lhe possa prover, inclusive assistência
veterinária; VI – Não dar morte rápida, livre de sofrimentos desnecessários a todo animal cujo sacrifício seja
necessário para consumo ou não; (omissis) XXII – ter animais encerrados juntamente com outros que os aterrorizem
ou molestem”. O mesmo decreto enuncia que “a palavra animal, da presente lei, compreende todo ser irracional,
quadrúpede ou bípede, doméstico ou selvagem, exceto os daninhos” (artigo 17).
Reitere-se, ainda, que o Decreto Federal 24.645/34, que ainda está em vigor quanto ao que se pode considerar
maltratar, elenca nos artigos 3º e 8º os atos assim considerados. Existe, ainda, legislação específica que disciplina a
utilização de animais em experiências científicas, e que o direito ambiental é regido, entre outros princípios, pelo da
precaução, sendo certo que a todos, e ao poder público especialmente, compete prever e prevenir condutas que
sejam lesivas ao meio ambiente, bem como atuar no sentido de ser reparado o dano eventualmente causado.
Pois bem, na medida em que este atuar puder ser considerado eficiente e eficaz, estará o Poder Público, por suas
entidades, órgãos e agentes, cumprindo o princípio constitucional inserido através da Emenda Constitucional 19, de
04 de junho de 1998. Com efeito, lê-se no caput do artigo 37: “A administração pública direta e indireta de qualquer
dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (...)”.
Partindo então desses princípios - precaução em matéria ambiental e eficiência da administração -, deve o legislador
e o administrador público pátrio pautar sua conduta pela otimização, ou seja, legislar e agir, buscando atingir, em
cada caso, a escolha da opção ótima, isto é, daquela que realize superiormente o interesse público, o que, pelo que se
pode constatar, não está a ocorrer no tocante à implementação da política pública de promoção da saúde e bem estar
do animal e controle de zoonoses.
4. A Declaração Universal dos Direitos dos Animais
Em apoio às leis já analisadas, vale mencionar que o Brasil é subscritor da "Declaração Universal dos Direitos dos
Animais", que conferiu a todos os bichos o mesmo direito à vida e à existência, o direito à consideração, à cura e à
proteção do homem e o direito ao respeito. Declara o repúdio à tortura para com os animais, impedindo a destruição
ou violação da integridade de um ser vivo. Vale destacar, aqui, algumas disposições importantes: “Todos os animais
nascem iguais diante da vida e tem o mesmo direito a existência” (artigo 1º); “Cada animal tem o direito a respeito“
(artigo 2º-A); “O homem, enquanto espécie animal, não pode atribuir-se o direito de exterminar os outros animais ou
explorá-los, violando esse direito. Ele tem o dever de colocar sua consciência a serviço dos outros animais” (artigo
2º-B); “Cada animal tem o direito à consideração, à cura e à proteção do homem” (artigo 2º-C) ; “Nenhum animal
será submetido a maus tratos e a atos cruéis” (artigo 3°-A); “Se a morte de um animal for necessária, deve ser
instantânea, sem dor nem angústia” (artigo 3°-B); “Cada animal pertencente a uma espécie que vive habitualmente
no ambiente do homem, tem direito de viver e crescer segundo o ritmo e as condições de vida e de liberdade que são
próprios de sua espécie” (artigo 5°-A); “Toda modificação deste ritmo e dessas condições, imposta pelo homem para
fins mercantis, é contrário a esse direito” (artigo 5°-B); “Nenhum animal deve ser usado para divertimento do
homem. A exibição dos animais e os espetáculos que utilizam animais são incompatíveis com a dignidade do
animal” (artigo 10); “o animal morto deve ser tratado com respeito” (artigo 13-A); “As cenas de violência de que os
animais são vítimas devem ser proibidas no cinema e na televisão, a menos que tenham como fim mostrar um
atentado aos direitos do animal” (artigo 13-B); “os direitos do animal devem ser defendidos por leis, como os
direitos do homem” (artigo 14-B).
V. O Papel Institucional do Ministério Público
O artigo 127 da CF define o Ministério Público como instituição permanente e essencial à função jurisdicional do
Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais
indisponíveis. O dispositivo constitucional supra, combinado com o artigo 129, caput, inciso III, da CF, confere ao
Parquet, na condição de substituto processual da sociedade, a função institucional de promover o inquérito civil e a
ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e
coletivos. Assim é função do Ministério Público a proteção a fauna e, conseqüentemente, dos animais abandonados,
apreendidos e sacrificados pelos CCZ’s.
Na composição do Estado, foi pensado o Ministério Público como uma instituição que não se inclui entre nenhum
dos três poderes, mas que, ao lado destes, se constitui no defensor da lei e sua participação é irrenunciável. No caso
in comento, particularmente, tem-se o Ministério Público, como provável signatário da inicial de uma ação civil
pública, cujo poder - dever à propositura lhe advém da própria Carta Magna, in verbis: “São funções institucionais
do Ministério Público” (artigo 129): “promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do
patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos” (inciso III);
Vale, também, registrar que cabe privativamente ao Ministério Público promover, privativamente, a ação penal
pública (artigo 129, inciso I, da Constituição Federal).
Como enfatizado, a Lei Maior, em seu Capítulo VI – Do Meio Ambiente, artigo 225, caput, e parágrafo 1.º, inciso
VII – já mencionados, em especial seu parágrafo 3º, estabelece que “todos tem direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder
público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (artigo225, caput);
“Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público (§ 1º): proteger a fauna e a flora, vedadas na
forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou
submetam os animais a crueldade” (inciso VII) e que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio
ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente
da obrigação de reparar os danos” (§ 3º).
A Lei Federal 7.804, de 18 de junho de 1989, introduziu, no inciso V do artigo 3º da Lei Federal 6.938/81, a fauna
como recurso ambiental, ipsis litteris: “(omissis) entende-se por: (omissis) recursos ambientais: (omissis) a fauna e a
flora”. Esta mesma lei considera “o meio ambiente como patrimônio público a ser necessariamente assegurado e
protegido, tendo em vista o uso coletivo” (artigo 2º, inciso I). E define que “O Ministério Público da União e dos
Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio
ambiente” (artigo 14, § 1º). Destarte, tem o Ministério Público legitimidade para propor as ações civis e penais
públicas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade
ambiental.
E o Código de Processo Civil: – “Compete ao Ministério Público intervir” (artigo 82): “em todas as demais causas
em que há interesse público, evidenciado pela natureza da lide ou qualidade da parte” (inciso III).
Desta forma, diante da gravidade e extensão das atividades perpetradas de forma ilegal pelos responsáveis por
muitos Centros de Controle de Zoonoses, configurando ilícito civil - além de penal e administrativo - indispensável
se torna que seja obstada esta atividade ilícita contra o ordenamento jurídico, a sociedade e os animais.
In casu, Caracterizado encontra-se o interesse difuso, indisponível, público e social, a exigir a firme e adequada
atuação do Ministério Público, pois, como demonstrado, ele está presente todas as vezes que o meio ambiente e os
entes que o integram forem atingidos ilegal e injustamente, sempre que valores básicos, fundamentais da sociedade,
permanentes, superiores, sofrerem lesão ou ameaça de lesão, como, hodiernamente, está a ocorrer em muitos
Centros de Controle de Zoonoses deste país, que continuam a praticar maus tratos e crueldades contra os animais
apreendidos.
VI. Conclusão
Com essas considerações conclui-se que:
1. Os estudos científicos da Organização Mundial de Saúde (OMS) comprovaram que o método de sacrifício
sistemático e indiscriminado de cães e gatos errantes é ineficaz ao controle da superpopulação destes animais, por
conseguinte, inapto ao controle das zoonoses;
2. Hodiernamente, o método mais simples e mais amplamente empregado para o controle da população errante de
cães e gatos, por recomendação da OMS, insculpida no seu 8º Informe Técnico, consiste no controle da natalidade,
através da restrição da liberdade de movimento ou do confinamento das cadelas no cio, injeções de hormônios e
esterilização, complementado com a educação ambiental e participação da comunidade, com estímulo à posse
responsável.
3. No Direito Comparado, países como a França e a Itália, e cidades como as de Rosário e Buenos Aires, na
Argentina, passaram a adotar, no plano legislativo e administrativo, os novos métodos de erradicação de zoonoses
através do controle populacional de cães e gatos errantes que não importam no sacrifício sistemático e
indiscriminado de animais, em consonância com as novas recomendações da OMS.
4. A Constituição Federal e a legislação infraconstitucional, em harmonia com as normas do Direito Internacional
Ambiental, dentre as quais se destaca a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, vedam quaisquer atos que
importem em maus tratos contra os animais, estando tal conduta tipificada como crime de perigo e de conteúdo
variável, comissivo, plurissubsistente, material e de ação múltipla. É crime doloso que consiste em expor a perigo a
vida ou a saúde da vítima.
5. O Ministério Público tem legitimidade para instaurar inquérito civil e propor a respectiva ação civil pública, assim
como para promover a responsabilização penal das pessoas físicas e jurídicas causadoras de maus tratos contra os
animais, em especial, na hipótese de captura, confinamento e sacrifício sistemático e indiscriminado de cães e gatos
sadios errantes pelos CCZ’s, por aí encontrar-se sobejamente caracterizada a lesão a interesse difuso, indisponível,
público e social.

http://www.freezone.co.uk/vivabsurd/menu.html
http://apasfa.org/quem/estudan.html

Estudantes de Veterinária e Bio-Médicas

1) Na Faculdade onde estudo tenho presenciado diversos abusos por parte dos professores no
tratamento com animais. Alguns cães acordam no meio da cirurgia, uivando de dor e eles não dão bola,
nem mesmo uma injeção de analgésico! Vocês podem me ajudar? O que eu faço?

2) Estudo psicologia e na Universidade tem um laboratório onde os animais ficam em gaiolas pequenas,
nunca tomam sol e o pessoal que fica lá não tem o menor cuidado. Isso pode ser denunciado?
Laboratório é assim mesmo?

3) Na Universidade onde estudo, os animais que são usados nas aulas são recolhidos das ruas pelos
próprios funcionários de lá. Eles nem verificam se os bichinhos têm dono! Isso está de acordo com a
Lei?

4) Sou estudante de medicina e fico indignada com a quantidade de cães que são usados em aulas
práticas. Eles usam e depois sacrificam, mesmo quando é alguma coisa de fácil recuperação.Existem
recursos alternativos para a vivissecção?

5) O biotério da faculdade onde estudo é um horror! Sujo, os animais tremem de frio no inverno, às vezes
ficam sem comida e quando há pós operatório nem sempre dão analgésicos. O que eu faço? Morro de
pena, mas tenho medo de ser perseguida se denunciar e não poder terminar meu curso.
A nova Lei de Crimes de Ambientais, a Lei Federal 9.605/98 prevê penas de multa e detenção para
quem maltratar animais Médicos e universidades não estão imunes à Lei! Negar anestesia e remédios
para a dor aos animais que estão sendo usados em aulas é inadmissível.

Diz a Lei :

"Art.32. Praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou
domesticados, nativos ou exóticos:
Pena - detenção de três meses a um ano e multa.

§ Primeiro - Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animais vivos,
ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

§ Segundo - pena é aumentada de um terço a um sexto, se ocorre morte do animal."

Sabemos que a grande maioria das universidades está agindo fora da Lei e o que é pior, formando
indivíduos sem princípios básicos de ética e humanitarismo. Vejam, por exemplo, como era a UFSC, no
link abaixo. Isso mesmo, ERA, pois graças à coragem de um aluno, que denunciou e agüentou firme a
perseguição até mesmo de alguns colegas, o Promotor de Justiça Marco Aurélio Dutra Aydos, do
Ministério Público Federal, entrou com uma ação impedindo a utilização de animais na UFSC, está
sendo substituída por métodos alternativos.

Publico abaixo a opinião de um médico-veterinário


sobre o assunto:

"Gostaria de manifestar um profundo ar de lamento quanto à


essa questão. Que tentasse buscar uma alternativa em relação
ao fim da aula, que é o sacrifício, ou melhor, um nome bem
mais bonito e menos cruel, a eutanásia, mas que tem o mesmo
peso, o final de uma vida! Porque eutanásia? Porque não deixar
o animal vivo e libertá-lo depois ou enviá-lo à um abrigo? Será
que o que foi feito na aula é incompatível com a vida depois?
Quais os procedimentos na aula? Retirada de órgãos? Se os
animais são anestesiados e "operados", porque MATÁ-LOS? São
VIDAS !!! Isso não é aula. É tortura seguida de morte !!! É
crime ! Se não tiver outro jeito de dar aulas, que ao menos
deixem vivos os cães !! Mas não deixem com amputações, nem
com sequelas ! Pelo que sei, um paciente tem que estar vivo e
bem no final de uma cirurgia, e não ser sacrificado, ou melhor,
ser feita a EUTANÁSIA...para ficar mais bonitinho... É melhor
deixá-los nas ruas soltos que matá-los. Contra a vida não há
argumento !! A eutanásia é coisa do século passado...é pura
falta de inteligência e interesse. Dr. Victor de Oliveira -
CRMV/RJ 5007 "

http://www.ib.usp.br/etica/artigo.ab43.1992.html
Textos Selecionados

LINHAS BÁSICAS PARA A UTILIZAÇÃO DE ANIMAIS EM PESQUISA


Cynthia Schuck-Paim
Departamento de Ecologia/ IB/USP

espaçoEste é um texto que foi traduzido a partir do periódico Animal Behaviour 43: 185-188,
1992. Representa não apenas um esforço no sentido da criação de diretrizes que direcionem as
decisões éticas relativas à utilização de animais em pesquisas científicas, mas também reflete a
tendência crescente adotada pelos periódicos científicos de considerar os procedimentos éticos
utilizados nos trabalhos submetidos.

ÍNDICE
• Introdução

• Legislação

• Escolha da Espécie

• Número de Indivíduos

• Dor ou Desconforto

• Espécies Ameaçadas

• Obtenção dos Animais

• Manutenção e Cuidado Animal

• Disposição Final

• Referências

Introdução
espaçoA utilização de animais em pesquisa levanta uma série de importantes questões éticas.
Estudos em ambiente de laboratório envolvem necessariamente a manutenção dos animais em
tanques, aquários e gaiolas. Procedimentos manipulativos e cirúrgicos podem ser necessários
para se atingir o objetivo da pesquisa. A observação dos animais em condição de liberdade pode
resultar em perturbação, principalmente se faz-se necessária sua alimentação, captura ou
marcação. Enquanto o avanço do conhecimento científico é um objetivo legítimo - e pode por si
próprio contribuir para a conscientização da responsabilidade humana sobre a vida animal - o
pesquisador deve sempre pesar qualquer potencial ganho em conhecimento contra as
conseqüências adversas para os animais utilizados como objetos de estudo, e adicionalmente
para outros animais no caso de estudos de campo. Com o objetivo de ajudar seus membros a
fazer o que são algumas vezes julgamentos éticos complicados, a Associação para o Estudo do
Comportamento Animal (Association for the Study of Animal Behaviour) e a Sociedade de
Comportamento Animal (Animal Behaviour Society) criaram os comitês de Ética e de Cuidado
Animal, respectivamente. Conjuntamente, estes comitês formularam as seguintes linhas básicas
para o uso de todos aqueles que estejam planejando e conduzindo estudos sobre o
comportamento animal. Tais diretrizes serão usadas pelos Editores do periódico Animal
Behaviour. Os artigos submetidos os quais violarem a essência destas linhas básicas serão
indicados à um dos comitês mencionados, e a avaliação do comitê será utilizada pelo Editor na
decisão da aceitação do artigo.

Legislação
espaçoOs pesquisadores devem cumprir o espírito bem como as diretrizes da legislação
pertinente. Para aqueles residentes na Inglaterra, as referências às leis dirigidas à proteção animal
são encontradas no livro da Universities’ Federation for Animal Welfare (UFAW, 1987). Nos
Estados Unidos, tanto a legislação federal como a Estadual se aplicam: orientação pode ser
obtida a partir do Code of Federal Regulations (1979) e do National Research Council (1985).
No Canadá, orientação pode ser obtida a partir das publicações "Guide do the Care and Use of
Experimental Animals, Vols 1 e 2" do Canadian Council on Animal Care (1980-1984).
Pesquisadores de outras regiões devem se familiarizar com os requerimentos locais.

Escolha da Espécie
espaçoA espécie escolhida para o estudo deve ser apropriada para responder as questões
formuladas. Quando a pesquisa envolver o uso de procedimentos que provavelmente causarão
dor inevitável ou desconforto ao animal, e quando espécies alternativas puderem ser utilizadas, o
pesquisador deve utilizar espécies as quais, na sua própria opinião e na opinião de colegas
qualificados, são menos prováveis de sofrer. A escolha da espécie apropriada geralmente requer
o conhecimento de sua história natural e sua complexidade. O conhecimento da experiência
prévia do animal (por exemplo, saber se ele passou a vida em cativeiro), também pode ser de
profunda importância. Embora geralmente não sejam apropriadas para estudos de
comportamento, alternativas para experimentos com animais algumas vezes podem ser possíveis
(Smyth, 1978).

Número de Indivíduos
espaçoEm estudos de campo ou laboratório os quais envolvam manipulações potencialmente
detrimentais para o animal ou para a população, o pesquisador deve utilizar o menor número de
animais possível e suficiente para se atingir os objetivos da pesquisa. O número de animais
usados em um experimento freqüentemente pode ser drasticamente reduzido pela realização de
um bom delineamento experimental e pelo uso de testes estatísticos que permitam examinar
vários fatores de uma só vez. Still (1982) e Hunt (1980) discutem formas de reduzir o número de
animais utilizados em um experimento através de delineamentos alternativos. Referências úteis
podem ser encontradas em Cox (1958) e Cochram & Cox (1966).
Dor ou Desconforto
espaçoSe os procedimentos utilizados na pesquisa envolvem dor ou desconforto, o pesquisador
deve ponderar se o conhecimento que possivelmente seja adquirido justifique o stress e dor
provocados nos animais. De forma geral, é extremamente necessário que os pesquisadores
considerem procedimentos alternativos previamente ao emprego de técnicas que causem dor ou
desconforto psicológico ao animal. Dor ou desconforto, mesmo quando inevitáveis, devem ser
minimizados o máximo possível sob os requerimentos do delineamento experimental. Também
deve ser dispensada atenção para os cuidados pré e pós-operatórios de forma a minimizar o stress
preparatório e os efeitos residuais. A menos que rigorosamente contra-indicados em função do
delineamento experimental, os procedimentos prováveis de causar dor ou desconforto devem ser
empregados apenas nos animais que tenham sido adequadamente anestesiados. Adicionalmente,
os pesquisadores devem fomentar discussões com os colegas sobre o valor científico dos
propósitos de suas pesquisas bem como possíveis considerações éticas. É provável que os
colegas de áreas distintas sejam especialmente úteis dado que podem possuir perspectivas
diferentes das do pesquisador. Os pontos seguintes, mais específicos, podem ser úteis.
(a) Trabalho de Campo. A observação dos animais em condição de liberdade pode resultar em
perturbação, principalmente se faz-se necessária sua alimentação, captura ou marcação.
Enquanto os estudos de campo podem contribuir para o avanço do conhecimento científico e
para a conscientização da responsabilidade humana sobre a vida animal, o pesquisador deve
sempre pesar qualquer potencial ganho em conhecimento contra as conseqüências adversas de
perturbação para os animais utilizados como objetos de estudo, e adicionalmente para outros
animais e plantas do ecossistema. Duas fontes úteis de informação são os livros editados por
Stonehouse (1978) e por Amlaner & Macdonald (1980).
(b) Agressão, predação e morte intra-específica. O fato de o agente causador de injúrias poder ser
outro animal não isenta o pesquisador das obrigações normais com os animais do experimento.
Huntingford (1984) discute as questões éticas envolvidas e recomenda que, sempre que possível,
estudos de campo com encontros naturais devem ser preferidos à encontros induzidos. Quando
estes últimos forem necessários, deve ser considerado o uso de modelos ou delineamentos
experimentais alternativos, o número de indivíduos deve ser mantido no menor nível possível
para que sejam atingidos os objetivos do experimento e os experimentos devem ser tão curtos
quanto possível.
(c) Estímulo aversivo e deprivação. Tais procedimentos podem causar dor e stress aos animais.
Para minimizar o possível sofrimento do animal, o pesquisador deve estar certo de que não existe
forma alternativa de motivar o animal, e que os níveis de deprivação e estímulo aversivo
utilizados não são maiores do que o necessário para se atingir os objetivos do experimento.
Alternativas para a deprivação incluem o uso de comidas altamente preferidas e outros ganhos
que podem estimular mesmo os animais mais saciados. O uso de níveis mínimos requer o
conhecimento da literatura técnica da área relevante: estudos quantitativos sobre estimulação
aversiva são revistos por Church (1971) e o comportamento de animais saciados é considerado
por Morgan (1974). Comentários adicionais para a redução do stress proveniente de
procedimentos motivacionais podem ser encontrados em Lea (1979) e Moran (1975).
(d) Deprivação social, isolamento e aglomeração. Os delineamentos experimentais nos quais é
necessária a manutenção de animais em condições de elevada densidade, ou os quais envolvam
deprivação social ou isolamento, devem ser extremamente estressantes para os animais. Dado
que o grau de stress varia consideravelmente com a espécie, sexo, condição reprodutiva e status
social dos indivíduos, a biologia dos animais e sua experiência social prévia devem ser
consideradas, e situações de stress devem ser evitadas tanto quanto possível.
(e) Condições Deletérias. Estudos objetivando a indução de condições deletérias nos animais são
muitas vezes direcionados à aquisição de conhecimento científicos de valores associados à
problemas humanos. Entretanto, o tratamento aos animais envolvidos na pesquisa deve ainda ser
considerado pelo pesquisador. Modelos de animais podem ser apropriados para o problema
investigado. Quando viável, estudos que induzam condições deletérias nos animais devem
também o possível tratamento, prevenção e alívio de tal condição. Adicionalmente, se os
objetivos da pesquisa permitirem, o pesquisador deve considerar a utilização de instâncias de
ocorrência natural de tais condições em animal em liberdade ou populações domésticas como
uma alternativa à indução das condições deletérias.

Espécies Ameaçadas
espaçoOs membros de espécies ameaçadas ou localmente raras não devem ser coletados ou
manipulados em campo a não ser em caso de ações sérias ligadas à conservação. Informações
sobre as espécies ameaçadas podem ser encontradas no International Union for the Conservation
of Nature, Species Conservation Monitoring Unit, 219C Huntingdon road, Cambridge CB3 0DL,
U.K. Nos Estados Unidos, as regras e regulamentos pertencentes ao Endangered Species Act de
1973 podem ser encontradas no Code of Federal Regulations (1973). Listas de espécies
ameaçadas podem ser obtidas escrevendo para o Office for Endangered Species, U.S.
Department of Interior, Fish and Wildlife Service, Washington D.C. 20240, ou para o Committee
on the Status of Endangered Wildlife no Canada, Ontario, K1A 0E7. Pesquisadores de outras
regiões devem se familiarizar com a informação local sobre espécies ameaçadas.

Obtenção dos Animais


espaçoOs animais devem ser obtidos apenas de fontes confiáveis. Para aqueles que trabalham no
Reino Unido, uma consulta pode ser obtida no Laboratory Animals Breeders Association,
Charles River (U.K.) Ltd., Manston Research Centre, Manston road, Margate, Kent CT9 4LP.
Nos Estados Unidos, informações sobre comerciantes licenciados de animais podem ser obtidas
a partir do escritório local do U.S. Department of Agriculture (U.S.D.A.). Tanto quanto seja
possível, o pesquisador deve garantir que o responsável pelo manejo do animal, até que este
esteja disponível para a pesquisa, proporcione comida adequada, água, ventilação e espaço, e que
não imponha tais itens sob condição de stress. Se os animais forem capturados e mortos em
campo, isto deve ser feito da maneira menos dolorosa possível.

Manutenção e Cuidado Animal


espaçoA responsabilidade do pesquisador se estende também às condições sob as quais o animal
é mantido quando não em uso. As condições dos tanques, terrários, aquários e gaiolas devem
cumprir requerimentos mínimos recomendados. Orientação pode ser obtida a partir do livro da
UFAW (1987) do guia do National Research Council (1985) e do "Guide do the Care and Use of
Experimental Animals, Vols 1 e 2" do Canadian Council on Animal Care (1980-1984). Embora
estas publicações contenham linhas gerais sobre o que pode ser aplicado à animais silvestres,
atenção especial deve ser dispensada para aumentar o conforto e segurança das espécies. A
manutenção normal deve incorporar, tanto quanto seja possível, aspectos das condições naturais
de vida considerados importantes para o bem-estar e sobrevivência dos animais. Atenção deve
ser dispensada de forma a proporcionar aos animais características como materiais naturais,
refúgios, puleiros, umidade e bacias d’água. A freqüência de limpeza do local onde se encontram
os animais deve representar um compromisso entre o nível de limpeza necessário para prevenir
doenças e a quantidade de stress resultante do frequente manejo e exposição dos animais à
ambientes e odores não familiares.

Disposição Final
espaçoSempre que possível, os pesquisadores devem procurar distribuir seus animais para
colegas para estudos adicionais. Entretanto, se os animais forem distribuídos para a utilização em
experimentos adicionais, deve-se tomar cuidado para que os mesmos animais não sejam usados
de forma repetida em experimentos que envolvam procedimentos cirúrgicos ou outros
tratamentos que possam ser estressantes ou dolorosos. Exceto se proibido por leis nacionais,
federais, estaduais, provinciais ou locais, os pesquisadores devem libertar os animais capturados
em campo se isto for viável e auxiliar os esforços de conservação. Entretanto, o pesquisador deve
considerar que a libertação em campo pode ser detrimental para as populações existentes na área,
e que os animais devem ser libertados apenas no mesmo local onde foram capturados (a menos
que as diretrizes conservacionistas providenciem outra orientação) e apenas se a habilidade de
sobrevivência na natureza não tenha sido prejudicada. Se houver necessidade de sacrifício dos
animais subseqüentemente ao estudo, isto deve ser feito da forma menos doloroso e mais
humana possível; a morte dos animais deve ser confirmada previamente à liberação dos corpos.
Estas linhas básicas suplementam mas não suplantam os requerimentos legais no país e/ou estado
ou província na qual o trabalho é conduzido. Elas não devem ser consideradas como uma
imposição sobre a liberdade científica dos pesquisadores, mas como um auxílio e uma referência
ética sobre a qual cada pesquisador poderá se basear para tomar decisões relacionadas com o
bem-estar animal.

Referências
AMLANER, C.L.J. & MACDONALD, D.Q. 1980. A Handbook on Biotelemetry and Radio
Tracking. Oxford: Pergamon.
CANADIAN COUNCIL ON ANIMAL CARE. 1980-1984. Guide do the Care and Use of
Experimental Animals. Vols. 1 espaçoand 2. Ottawa, Ontario: Canadian Council on Animal
Care.
CHURCH, R.M. 1972. Aversive behaviour. In Woodworth and Schleosberg’s Experimental
Psychology. 3rd edn. (Ed. By espaçoJ.W. Kling & L.A. Riggs), pp. 703-741. London: Methuen.
COCHRAN, W.G. & COX, G.M. 1966. Experimental Designs. 2nd edn. New York: John Wiley.
CODE OF FEDERAL REGULATIONS 1973. Wildlife and Fisheries (Title 50) Chapter 1
(Bureau of Sports Fisheries & espaçoWildlife Service, Fish & Wildlife Service, Department of
Interior), Washington D.C.: U.S. Government Printing Office.
CODE OF FEDERAL REGULATIONS 1979. Animals and Animal Products (Title 9),
Subchapter A: Animal Welfare, Parts espaço1, 2 and 3. Washington D.C.: U.S. Government
Printing Office. COX, D.R. 1958. Planning of Experiments. New espaçoYork: John Wiley.
HUNT, P. 1980. Experimental Choice. In: The Reduction And Prevention f Suffering In Animal
Experiments. Horsham, espaçoSussex: Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals.
HUNTINGFORD, F. 1984. Some ethical issues raised by studies of predation and aggression.
Anim.Behav. 32, 210-215.
LEA, S.E.G. 1979. Alternatives to the use of painful stimuli in physiological psychology and the
study of behavior. espaçoAltern.Lab.Anim.Abstr. 7, 20-21.
MORAN, G. 1975. Severe food deprivation: some thoughts regarding its exclusive use. Psychol.
Bull. 82, 543-557.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL 1985. Guide do the Care and Use of Experimental
Animals. A Report of the Institute espaçoof Laboratory Animal Resource Committee on the Care
and Use of Laboratory Animals. NIH Publication no. 85-23. espaçoWashington D.C.: U.S.
Department of Health and Human Services.
SMYTH, D.H.J. 1978. Alternatives to Animal Experiments. London: Scolar Press, Research
Defense Society.
STILL, A. W. 1982. On the number of subjects used in animal behaviour experiments. Anim.
Behav. 30, 873-880.
STONEHOUSE, B. 1978 (Ed.) Animal Marking: Recognition Marking of Animals in Research.
London: Macmillan.
UNIVERSITIES’ FEDERATION FOR ANIMAL WELFARE 1987. The UFAW Handbook on
the Care and Management espaçoof Laboratory Animals. 6th ed. Edinburgh: Churchill.

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Última atualização em 27/11/97
Cynthia Schuck-Paim
cysp@ib.usp.br

COMISSÃO DE ÉTICA NO USO DE MATERIAL


BIOLÓGICO EM PESQUISA CIENTÍFICA
Uma proposta para o IBUSP
Abrimos aqui um espaço para discussão dessa questão importante e atual, que é a criação de
mecanismos adequados para o debate sobre ética em pesquisa científica e o acompanhamento do
trabalho dos pesquisadores. Essa discussão foi iniciada há algum tempo, inclusive no âmbito
federal, com a elaboração de proposta de regulamentação do trabalho científico norteada por
parâmetros éticos (atualmente parada), e certamente levará à formação de comitês de ética em
diferentes âmbitos, a exemplo da iniciativa recente do ICB. Cabe-nos, portanto, iniciar esse
processo, de modo que conclamamos os colegas a expor aqui suas opiniões acerca de diversos
aspectos, como a própria pertinência da criação de um comitê dessa natureza no IB, sua
composição (p. ex., somente membros do IB versus membros de fora) e atribuições, assim como
a abrangência do foco de tal comitê (p. ex., apenas trabalho de laboratório com organismos vivos
ou incluindo trabalho de campo com coletas).
Notamos que a questão do uso de seres humanos em pesquisa implica em problemas éticos
especiais, de tal modo que têm sido propostos comitês separados para humanos e não-humanos.
Seguindo essa tendência, o IB abre um outro espaço para a discussão referente a um comitê
específico para pesquisa científica envolvendo seres humanos.
Eleonora Trajano
etrajano@ib.usp.br
09 Dec 1997

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