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A doença como caminho de cura

Peregrina escreve "Este trabalho discute questões filosóficas e teóricas relacionadas à prática do
acompanhamento terapêutico a pessoas com doenças físicas graves e/ou terminais dentro de uma
perspectiva não-mecanicista dos novos paradigmas.

Ele é resultado das atividades de um grupo de estudo e pesquisa, baseado na troca de experiências
em torno dos atendimentos que fazemos, e numa ampla discussão que temos tido com profissionais ligados à
área de saúde e áreas afins.

Nesses encontros levantamos questões tais como: O que é doença, saúde e cura? Criariam as pessoas suas
próprias doenças? Seriam as doenças oportunidades de aprendizados? O potencial de cura é inerente ao
humano? Seria o terapeuta um curador ou um acompanhante de um processo de transformação?

Aqui sistematizamos algumas dessas questões, dando-lhes a seguinte ordem: conceitos de saúde numa visão
energética - a polaridade doença/saúde dentro de uma visão energética fala de uma busca mais profunda de
equilíbrio; psicoterapia corporal e psicossomática - a mobilização dos bloqueios energéticos do organismo
possibilita o encontro com sentidos mais profundos da gênese de uma doença; a doença como significado
(claro ou oculto) - as contingências da linguagem na transição para o terceiro milênio - só é possível mudar
atitudes e preconceitos em relação à doença e à morte re-significando a linguagem usada comumente para
designar os processos de adoecimento e de morte; impermanência e consciência - a reorganização da vida
emocional, a mudança dos padrões cotidianos e o encontro com a perspectiva espiritual podem ser vistos como
um caminho de cura verdadeira.

Acreditamos na importância de se aprofundar o estudo e a pesquisa de temas relacionados a essas novas


perspectivas da assistência terapêutica a pessoas que passam pelo processo de adoecimento e de morte, razão
pela qual propomos o diálogo.

Conceitos de Saúde numa Visão Energética

A grande maioria das pessoas procura o consultório do profissional da área de saúde por não se sentir bem com
aqueles sinais e/ou sintomas que estão apresentando há muito ou pouco tempo.

O mal-estar, a sensação do desconforto, a dor mobilizam o indivíduo a fazer algo para recuperar a harmonia, o
bem-estar, o ficar curado; cura esta que, tanto para o terapeuta quanto para o cliente, seria não apresentar mais
aqueles sinais ou sintomas de ordem física, mental ou emocional; isto significa, simplesmente, voltar ao estado
anterior à doença: ficar assintomático.

De uma maneira geral, a saúde é encarada como se fosse um estado de


não-doença, de não mal-estar ou dor, quando o indivíduo pode continuar a levar a sua vida sem grandes
alterações ou questionamentos. É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor de cabeça, do
que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando. Somos muito imediatistas, tratamos apenas
das aparências, não buscamos a origem ou as causas de nossas doenças.

Será que saúde é algo estático? É simplesmente não apresentar qualquer sintoma? Se o homem fosse uma
máquina e todas as suas engrenagens funcionassem perfeitamente, independente de fatores externos ou
internos, provavelmente, a resposta a essas perguntas seria sim. Se assim fosse, uma mesma doença
apresentaria sempre os mesmos sinais e sintomas, o tratamento seria sempre o mesmo, independente do
indivíduo, e, rapidamente, teríamos o restabelecimento das funções normais.

Como podemos analisar saúde-doença, essas duas polaridades, numa


perspectiva energética?

O universo, segundo a visão da medicina chinesa, encontra-se em um estado de equilíbrio dinâmico, com todos
os seus elementos oscilando entre duas forças opostas, interdependentes e complementares, conhecidas como
yin e yang. Dentro dessa abordagem, o corpo humano é um microcosmo do universo, uma célula é um
microcosmo do organismo, portanto, funcionam segundo o mesmo princípio.

No jogo das forças, o yin só existe porque existe o yang e vice-versa; dentro do aspecto yin encontram-se
aspectos yang e não há comover um sem o outro. Melhor dizendo, não existe nada absoluto, nada que não
esteja em interação - em troca. O bom exemplo disso se refere ao fato de que, embora o homem demonstre a
força yang e a mulher a yin, ambos apresentam correspondentemente seus aspectos femininos e masculinos.

O corpo humano possui uma inteligência fisiológica cuja função básica é manter a homeostase do organismo
diante de todos os estímulos do mundo exterior e interior. O equilíbrio é conseguido através da livre circulação
de energia no organismo, assim como através das trocas contínuas entre o corpo e o meio ambiente. Esse fluxo
contínuo de energia nos mantém vivos. Quando a circulação de energia não ocorre de uma maneira adequada
surgem as doenças.

Nosso corpo vai sinalizando, com muita antecedência, o desequilíbrio através de pequenas alterações
funcionais sem substrato físico; isto é, não há nada a nível orgânico que justifique aqueles sinais ou sintomas.
Com a não valorização desses sinais e a manutenção do mesmo padrão de vida, as alterações físico-químicas
vão-se cronificando, se solidificando até atingirem o segmento físico; a doença passa a se expressar em algum
tecido, órgão ou víscera, acompanhada de padrões mentais e emocionais bem determinados.

Saúde e doença são aspectos de um mesmo movimento. Através do desequilíbrio atingimos novo equilíbrio,
uma nova freqüência, um novo patamar energético. No período de transição para esse novo padrão, vivencia-se
a doença. Ela não é considerada como algo estranho mas, sim, a conseqüência de um conjunto de fatores que
culminam em desarmonia e desequilíbrio.

É através da doença que alcançamos saúde. Verifica-se, com uma certa freqüência, em pacientes com doenças
graves ou terminais, relatos acerca de
estarem vivendo melhor ou mais saudavelmente, a partir do momento em que se
conscientizaram de sua doença.

Para vivermos em harmonia, precisamos ter flexibilidade e disposição para um grande número de opções de
interação para com o meio ambiente. Sem flexibilidade não há equilíbrio. Períodos de saúde precária são
estágios naturais na interação contínua entre o indivíduo e o meio onde ele está inserido. Estar em desequilíbrio
significa passar por fases temporárias de doença, nas quais se pode aprender a crescer.

A doença é uma oportunidade para a introspecção, de modo que o problema original e as razões para a escolha
de uma certa via de fuga possam ser levadas a um nível consciente onde o problema possa ser resolvido.

A função básica do terapeuta está em espelhar a verdade para o paciente, ajudá-lo a desenvolver uma
consciência do processo de vida e dos mecanismos (obstáculos e ilusões) que se criam para gerar a doença; e,
também, poder ajudá-lo a entrar em sintonia com seus próprios recursos de cura, possibilitando o resgate da
auto-estima, da aceitação e do perdão.

Como diz a música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, "o que importa é ouvir a voz que vem do
coração", curar-se é abrir o canal de comunicação, é fazer-se entrar em contato com a própria essência, é
despertar para a capacidade de ser, estar, criar e descriar, sonhar e realizar. Essa auto-descoberta é o caminho da
auto-cura, que nada mais é do que resgatar o amor próprio.

Psicoterapia Corporal e Psicossomática

A doença não é um acontecimento que atinge um indivíduo, o qual passa, então, a estar a ela submetido. O
organismo doente está envolvido no aparecimento, no desenvolvimento e na cura de sua doença. O ser humano
pode-se instalar na doença, pode obter com ela benefícios, mas pode, principalmente, pela doença, exprimir
tendências profundas.

Existe, então, um fenômeno psique-soma no processo de adoecimento físico do ser humano, e seu estudo,
dentro de uma perspectiva moderna, a psicossomática, foi iniciado por Freud, a partir de seus estudos sobre a
"histeria de conversão". No acontecimento histérico, o corpo relata, fala, descarrega e protesta através do seu
próprio adoecimento. É sempre, uma forma de o organismo expressar conflitos profundos. Como os distúrbios
digestivos, por exemplo, que são, muitas vezes, expressão de conflitos entre o reter e o expelir, entre o desejo e
a necessidade.

A doença, portanto, não é algo que vem de fora ou já está lá antecipada, é, sim, um modo peculiar de a pessoa
se comunicar em circunstâncias adversas. É, pois, em suas várias formas, um modo de ser no mundo, um modo
de se relacionar com as pessoas em volta.

O conhecimento atual sobre o sistema imunológico, visto como um sistema intermediário entre o indivíduo,
seus outros sistemas e o meio exterior e, também, como mantenedor da integridade corporal - portanto, um
sistema auto-regulável, adaptativo e da vida de relação, estando, pois, em íntima interação com o sistema
nervoso e com o sistema endócrino -, tem sido uma enorme contribuição na compreensão do tênue limite
existente entre o que é propriamente somático e o que é propriamente psíquico.

Isto nos leva a ter que encarar o limite do conhecimento técnico na compreensão dos mecanismos de formação
das doenças; e, em função desses princípios, colocamo-nos a refletir sobre a importância de se mudar o foco da
ação terapêutica da doença para a interação com alguém doente, de quem, na verdade, podem advir os recursos
realmente curadores de uma doença.

Uma das mais importantes fórmulas acerca do encontro entre o psíquico e o somático é a fórmula da energia.
No conceito de "Unidade Funcional" ou "Identidade Básica", criado por William Reich, considera-se que a
fonte de todos os acontecimentos humanos é a bionergia, ou orgon, o que significa que as atitudes corporais e
as atitudes mentais-emocionais se correspondem, podendo substituir-se e influenciar-se mutuamente.
Cada região do corpo, além de prestar-se a uma determinada função vivente, pode emprestar-se para
representar uma zona específica de conflito, conflito energético entre o psíquico e o somático. Esses conflitos
são cargas emocionais relacionadas a acontecimentos vitais do passado, os quais, mal "metabolizados",
permanecem e atualizam-se, criando obstáculos diversos à vida. Quando mobilizados, podem liberar ou
distribuir energia, facilitando a consciência das circunstâncias vividas, a expressão emocional, antes contida, e
a organização de um novo modus vivendi psico/corporal.

Todo o stress ocorrido durante as fases primitivas do desenvolvimento somato-emocional do indivíduo geram,
em cada organismo humano, reações energéticas específicas, que servem de base para o desenvolvimento de
doenças, no futuro, desse organismo. É Federico Navarro quem diz que as biopatias primárias, que
correspondem às bases energéticas das doenças graves e geralmente "incuráveis", estariam relacionadas ao
stress vivido em períodos mais tenros da vida humana (uterinos). As biopatias secundárias, bases de doenças
graves e geralmente "curáveis", estariam também ligadas ao stress ocorrido em períodos iniciais (uterinos) e em
torno do nascimento. As doenças somato-psicológicas conhecidas como "subclínicas" (ex.: gastrites, úlceras
não instaladas, etc) corresponderiam ao stress ocorrido no período da infância. As somatizações ligadas a fortes
acontecimentos emocionais (como paralisias histéricas diversas), corresponderiam ao stress advindo da
puberdade em diante.

Diante dessa concepção de interação mente/corpo/energia, podemos criar relações entre as diversas regiões do
corpo afetado e a expressão de conteúdos subjetivos. E assim, podemos observar que, mobilizando o
movimento respiratório irregular, o silêncio peristáltico, a contração ocular e as diversas disfunções
organísmicas, possibilitaremos o encontro com os sentidos mais profundos da gênese da doença de uma pessoa.
E restabelecendo o ritmo respiratório espontâneo, os sons peristálticos rítmicos, o contato ocular descontraído,
em síntese, o estado natural do organismo humano, estaria a pessoa ambientando um novo campo energético
onde basear a sua saúde.

Um acompanhamento terapêutico baseado numa visão da integração do organismo pode, pois, propiciar uma
busca mais profunda do sentido da cura.

Outra maneira de olhar para o acontecimento doença/grave e a possibilidade/da/morte é a que pretende integrar
o somático, o psíquico e o
espiritual. Nessas visões, como na de David Boadella, dá-se uma grande ênfase ao grounding espiritual e aos
estados transpessoais, reconhecendo-se que o trabalho psicossomático abre conexões para além do físico. O
trabalho terapêutico, dentro de perspectivas que consideram a questão "espiritual", requer uma profunda
reflexão sobre a relação entre o terapeuta e seu cliente. Ressonância, empatia, amor de transferência, estes são
conceitos diversos para falar da mesma e necessária humanidade dessa relação.
Conceitos como o de inner-ground, self, eu superior e outros fazem referência a uma realidade essencial,
relacionada à presença e ao ser mais profundo em cada um de nós.

Haveria, pois, na experiência de estar doente e/ou de morrer, um sentido espiritual de contínuo aprendizado.
Nesse sentido, poderia haver um grande amparo no processo de adoecimento e de morte de uma pessoa se ela
experimentasse a presença de um outro corpo/espelho/apoio/contato a estimular-lhe a vida. Como terapeutas
precisamos encontrar vias em nós mesmos e nos prepararmos para exercer essa forma de ajuda.

Segundo Susan Sontag, "a doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as
pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiramos
usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um
curto período, a identificar-se como cidadão do outro país. (...) Meu ponto de vista é que a doença não é uma
metáfora e que a maneira mais honesta de encará-la - e a mais saudável de ficar doente - é aquela que esteja
mais depurada de pensamentos metafóricos..."

Atendendo Alice, muito refletimos sobre essa questão.

Alice teve que fazer uma cirurgia cardíaca para instalar uma válvula-prótese. Era a consequência de anos de um
longo curso de uma febre reumática, que tinha sido bem tratada. Evidentemente, passara uma infância limitada
em seus movimentos e possibilidades, já que quaisquer esforços agudizavam a sua doença. A família, estóica,
ensinou-a a lidar, bastante naturalmente, com as suas condições de saúde, mas "esqueceu-se" de valorizar os
aspectos emocionais vividos por uma criança diante de experiência tão limitadora. E, provavelmente, também,
não pôde valorizar os aspectos emocionais ligados às suas próprias vivências diante de tarefa tão árdua como a
de cuidar, ininterruptamente, de uma criança com febre reumática.

Tudo bem "coitadinha", Alice construiu-se, sempre, objetivamente natural. Perto da cirurgia, sentiu medo - mas
tranqüilizou-se e cuidou-se muito bem: fisicamente. Teve uma boa cirurgia, excelente recuperação, exímios
cuidados médicos e familiares.

E agora, passado o pós-operatório, sozinha, sem a proximidade de sua família, sente-se machucada no seu
peito: deprime-se. Luta consigo própria: "que é isso?, eu, sentindo essas coisas incontroláveis...?"

É preciso "convencê-la" a emocionar-se. Permitir-se sofrer por suas próprias dores. É verdade, é "natural" a sua
doença; é "apenas uma doença", que "dói aqui, dói ali..." -Mas chore, Alice! Seu peito foi aberto.
Lamente-se. É só ser humana! Alice "atende". Transforma-se, agora, em
lágrimas e estoicismo. -Bravo, Alice! Bravo!

Haveria como aplicar essa visão não-preconceituosa da naturalidade da doença para com as concepções acerca
da morte?

A Doença como Significado (claro ou oculto) - As contingências da linguagem na transição para o terceiro
milênio

Nossa proposta é de re-significar. Em muitos casos, os significados tornaram-se obsoletos e inapropriados. A


mudança de paradigmas se reflete profundamente na linguagem. Só é possível mudar comportamentos e
atitudes, se os conceitos em que se baseiam estão claramente expressos nas palavras que representam uma
língua. Mas os significados da época em que vivemos são ambíguos e, freqüentemente, não nos ajudam no
confronto com as questões contemporâneas.

A doença, por exemplo, exceto quando hereditária, é vista, em nossa sociedade, como algo que é o resultado de
uma interferência externa: um vírus, uma bactéria, má nutrição, etc..., algo que nos atinge e que, portanto
também deve ser erradicado através de uma interferência externa.
Freqüentemente, este seria efetivamente um lado da questão. Mas, se somos
organismos com aspectos que vão além do físico e fisiológico, e se somos criaturas inseridas num contexto
mais amplo e que dependemos de tudo o que
nos cerca, então o que nos acontece é algo pelo qual podemos ser responsáveis por um lado, enquanto que por
outro, é tão vasto o mundo que habitamos e tão imprevisíveis e insondáveis as interações e influências, que, no
mínimo, o que poderíamos dizer é que a doença - como a suposta cura - constituem-se em mistérios. Como
misteriosa é a própria vida.

Poderíamos, entre outras coisas, dizer que a doença é passagem, é comunicação, é transformação. E, acima de
tudo, poderíamos dizer que ela tem
um sentido muito pessoal para cada um, a cada momento de indagação. A doença seria, então, uma entrada em
outra realidade. Como o sonho, ela pode ter
inúmeras leituras para cada pessoa.

A doença, assim como a dificuldade emocional - e elas podem ser complementares -, freqüentemente,
proporcionam um contato com outras
dimensões do ser talvez negligenciadas, trazendo um confronto com a "sombra"
do indivíduo em questão. E só o conhecimento em si dessas dimensões, o estreitamento da relação entre
aspectos conhecidos e desconhecidos pode trazer a integração com a essência, que é a fusão harmoniosa do ser
como um todo.

Nesse sentido, poderíamos argumentar que a doença é um instrumento introduzido por outro aspecto de nosso
ser que quer nos dizer algo a respeito de nossas relações conosco mesmos, com a natureza e com os seres
animados e inanimados, com a vida, com o divino, em última análise.

Com freqüência, nos revoltamos com as doenças ou, então, nos acomodamos e seguimos passivos, entregues a
algum tratamento ou alguma direção imposta, deprimidos e sem mais indagar ou buscar formas próprias de
entender ou conviver com o que nos acontece. Passivamente, aceitamos o que nos dizem os meios médicos,
terapêuticos, religiosos e espirituais, familiares e de amigos.

Mas, enquanto nossos limites assim se manifestam, alguma reflexão sobre o que se passa conosco poderá estar
se realizando em níveis menos conscientes.

Nesse contexto, é importante também registrar que o atual momento de transição planetária traz, à luz, outras
vias antes ocultas, restritas a meios específicos, ou simplesmente, mais lentas e difíceis de contactar.

Hoje, o acesso a outros planos ou aspectos nossos e/ou da realidade em que vivemos se torna possível, às
vezes, sem grande esforço da nossa parte. Exemplo disso são os debates e eventos públicos como esse, onde
temos a oportunidade de trocar idéias, sonhos e desejos, e também confirmar trajetórias escolhidas, reforçando,
assim, a auto-confiança existente em cada um de nós.

Essa troca faz parte da busca do "caminho do meio", do equilíbrio e da harmonia. E ela abre o caminho para o
conhecimento de outras escolhas possíveis.

Em uma transição de vida, por exemplo, podemos harmonizar o tratamento tradicional com o alternativo, a
visão médica com a terapêutica e a espiritual para obter uma visão mais ampla e mais integrada do nosso
processo individual, e para poder assumir com mais serenidade uma administração mais própria dos caminhos
a seguir nas decisões exigidas por tal transição.

Assim, enquanto nos tratamos através da medicina tradicional, podemos também suavizar nossa atitude para
com a doença, permitir-lhe o espaço para que sua mensagem se expresse com clareza, nos comunicando as
necessidades do nosso organismo que antes não podiam ser acolhidas. E podemos, também, expressar
conscientemente a nossa intenção com referência aos medicamentos que tomamos e aos tratamentos aos quais
nos submetemos.
Essas atitudes, que imprimem de nossa parte uma qualidade positiva em um
tratamento prescrito, fazem parte de práticas meditativas comumente utilizadas em certas tradições
espiritualistas.

A meditação e a oração são práticas que podem nos ajudar nesse processo. Como também podem ser úteis os
trabalhos energéticos, as visualizações, os relaxamentos, e, em certos casos, as massagens. Tais práticas e
técnicas abrem o caminho para uma outra relação com a doença.
Uma relação em que não nos apegamos a ela e nem a rejeitamos. Apenas permitimos a sua presença e ouvimos
o que tem a dizer, já que pode nos ensinar a ter uma nova relação com tudo o que nos cerca e com a vida.

Essa linha de pensamento faz parte do trabalho de re-significação.


Refletir sobre os sentidos da linguagem, buscar a coerência entre estes e os
conceitos, valores e comportamentos que representam um momento cultural, mas
que atravessam também um processo de revisão, é buscar ser consciente na
linguagem e no comportamento, e inteiro quanto à nossa manifestação na vida.
A mudança de paradigmas que está acontecendo também na expressão linguística, continuará se fazendo ao
longo do tempo, quer através de uma
profunda transformação nas línguas existentes - acompanhada, é claro, do
surgimento de novas palavras e expressões -, quer através da permanência de
palavras com novos sentidos e novas cargas energéticas.

Acima de tudo é possível compreender que nem sempre conseguiremos explicar o que nos acontece. Há muitas
coisas misteriosas na vida e o decifrar delas permanecerá além do nosso alcance a despeito de qualquer esforço
de nossa parte. Entretanto, se formos humildes e confiantes, a nossa essência sempre nos mostrará o que é
possível, e com referência ao que permanecer além disso, nos guiará e ajudará a acolher e reverenciar o
desígnio divino.

Impermanência e Consciência

"Morte na Primeira Pessoa

Sou aluna de enfermagem. Estou morrendo. Escrevo para vocês, que são ou serão enfermeiras, na esperança de
que o ato de compartilhar meus sentimentos, faça com que algum dia sejam mais capazes de ajudar àqueles que
partilham da minha experiência.

No momento, não estou internada. Estou fora talvez por um mês, por seis meses, talvez por um ano. Mas
ninguém gosta de falar dessas coisas. Na verdade, ninguém gosta de falar muito sobre coisa alguma. A
enfermagem deve estar evoluindo, mas eu gostaria que se apressasse. Ensinam-nos, atualmente, a não exagerar
na alegria, a omitir a rotina do "está tudo bem", e temos cumprido bem a nossa tarefa. Mas acabamos ficando
num vazio silencioso e solitário. Uma vez retirada a rotina do está tudo bem", à equipe só resta a sua própria
vulnerabilidade e seu próprio medo. O paciente que está morrendo ainda não é visto como pessoa e, assim
sendo, não se pode comunicar com ele como tal. Ele é o símbolo do que cada ser humano teme e do que cada
um de nós sabe, pelo menos academicamente, que terá que enfrentar algum dia.O que é que diziam na
enfermagem psiquiátrica do confronto da patologia com a patologia em detrimento tanto do paciente como do
enfermeiro? E também se falava muito sobre o fato de que antes de poder ajudar a alguém em relação a seus
sentimentos, era necessário conhecer os próprios. Quão verdadeiro é esse ensinamento.

Mas, no meu caso, o medo é hoje e morrer é agora. Vocês entram e saem rapidinho do meu quarto, me dão os
remédios e tiram a minha pressão.
Será que é por eu mesma ser estudante de enfermagem, ou, simplesmente,
porque sou um ser humano que percebo o seu temor? Mas seus medos aumentam o meu. Por que vocês estão
com medo? Sou eu que estou morrendo!

Eu sei que vocês se sentem inseguros, não sabem o que dizer, não sabem o que fazer. Mas, por favor, creiam
em mim, se têm afeto, não há erro possível. Apenas assumam o afeto. É isso que buscamos. Pode ser que
perguntemos sobre os porquês e os quandos, mas na realidade não esperamos respostas. Não fujam - esperem -
só quero saber se haverá alguém segurando a minha mão quando eu precisar. Tenho medo. Talvez a morte se
transforme em rotina para vocês, mas ela é nova para mim. Talvez para vocês eu não seja especial, mas eu
nunca morri antes. Para mim uma vez é muito especial!

Vocês sussurram sobre a minha juventude, mas quando alguém está morrendo será que ainda é tão jovem?
Tenho muitas coisas sobre as quais gostaria de conversar. Mas isso não tomaria muito mais do seu tempo,
porque, afinal, vocês já passam um tempão aqui dentro.

Se pelo menos pudéssemos ser francos, de ambos os lados assumir nossos medos, tocar-nos uns aos outros. Se
realmente se preocupam, será que perderiam tanto do seu profissionalismo se chorassem comigo? Apenas de
pessoa para pessoa? Se assim fosse, não seria tão difícil morrer - num hospital - tendo amigos do lado."

(carta anônima datada de fevereiro de 1970 no livro


Death:The Final Stage of Growth de Elizabeth Kübler-Ross)

Na carta da jovem enfermeira, prestes a morrer, há um depoimento tocante de alguém que, ao defrontar-se com
essa experiência crucial, levanta um questionamento tão importante quanto inquietante sobre como os
profissionais que estão em contato direto com os processos do adoecimento e do morrer mostram-se
despreparados para lidar com os sentimentos e emoções evocados, não só nos que estão vivendo essa
experiência, como em si próprios.

Podemos nos indagar se a sujeição à rotina a que ela se refere, a infantilização do paciente, que o priva dos
sinais e símbolos de sua condição autônoma de adulta, não se destinam à conveniência e conforto moral da
equipe, mantendo-os numa preservada redoma onde o desespero, o pânico, a revolta e a dor são excluídas da
percepção e conseqüentemente ignorados.

Ainda como herança da tradição cartesiana, temos um modelo bio-médico que opera com a crença básica de
que as pessoas doentes são como máquinas avariadas: em caso de mau funcionamento de suas partes
constituintes, devem ser consertadas - por um mecânico, certamente! Naturalmente, espera-se da máquina que
ela fique totalmente passiva, enquanto o mecânico faz o trabalho, e que não apresente reações indesejáveis.
Obviamente estamos, talvez, incorrendo numa simplificação e, talvez mesmo, numa injustiça com relação aos
treinamentos dos profissionais da área de saúde, mas é muito freqüente encontrarmos profissionais que
parecem perfeitamente aptos a tratarem de doenças, mas não com doentes que são pessoas singulares, únicas e
que podem ser reduzidas a categorias e quadros clínicos.

Diferentemente de nossos modelos de assistência terapêutica, temos informações de procedimentos de outras


culturas em que xamãs, "healers", curandeiros, médicos levavam em consideração o meio ambiente
social/espiritual do doente bem como suas necessidades emocionais, em que corpo e alma não estão
dissociadas e que a forma de dar suporte, conforto e interferências que facilitem a cura não se resumem a
intervenções cirúrgicas/químicas/fisiológicas.

Além dos pressupostos cartesianos que norteiam nossa percepção do


ser humano, temos ainda, de quebra, uma orientação narcisista que determina
que vivamos voltados para a criação de uma auto-imagem em que status
econômico, perfil de uma personalidade bem sucedida socialmente, beleza e
tentativa de prorrogar a juventude indefinidamente são imperativo a que dificilmente nos esquivamos...
Envelhecer, morrer... ah!, pecado narcísico
que derrota nossa onipotência e nossa tentativa de impor à natureza nossas
aspirações de poder e imortalidade!

Mas as leis que regem nossa realidade física são inexoráveis. Todos os elementos que um dia se agregam para
compor a forma um dia, nunca se sabe
quando, se desagregam. É a entropia, a tendência universal para o rompimento
da ordem coexistindo com a sintropia, a criação.

Nossa insegurança básica faz com que evitemos, neguemos a finitude de nossa existência física e, assim, nos
furtemos a preparar-nos tanto emocionalmente quanto espiritualmente para a mais certa entre todas as
incertezas que permeiam a nossa existência.

Na ilusão de um "eu" isolado nos envoltórios da experiência física, confinados nas dimensões do tempo e
espaço, não nos damos conta de que nossa consciência não tem os mesmos limites. Deepak Chopra, falando da
experiência de se perceber como um ser que se experimenta além das dimensões físicas, na não-física, dá-nos
um depoimento que, talvez, nos auxilie a re-significar nossa percepção de nós mesmos. "Meu espírito
experimenta o mundo material através das lentes da percepção, mas mesmo que nada consiga ver e ouvir, ainda
assim sou eu, uma eterna presença de consciência. Em termos práticos, esta realização torna-se genuína quando
nenhum evento externo pode abalar o sentido do self. Uma pessoa que se conhece como espírito nunca perde a
visão de experimentador no meio da experiência. Sua verdade interior afirma 'carrego comigo a consciência da
imortalidade em meio mortalidade".

Quando essa mudança de paradigma, essa re-significação do sentido de ser permear nossa visão
científica/filosófica/social do indivíduo - mudança essa que já está seguramente em curso - certamente
criaremos práticas mais compassivas, mais confortadoras para assistir, acompanhar, cuidar de todos nós que
estivermos vivendo nossos ritos de passagem, nossos trânsitos no continuum vida/morte.

Não nos esqueçamos do que diz a jovem enfermeira: antes de poder ajudar alguém em relação aos seus
sentimentos, é necessário conhecer os próprios..."

Trabalho apresentado no II Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia,


em 28 de abril de 1996, em Salvador, Bahia, Brasil
Humbertho Oliveira, Mauricio Tatar
Susana Hertelendy e Vania Didier"