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Marcelo Firmino de Oliveira

Neste artigo, uma breve introdução à área de Química Forense é realizada, bem como busca-se mostrar a
importância da Química na elucidação de crimes. Neste contexto, são descritos como exemplos dois
procedimentos experimentais realizados nos laboratórios de Química Forense, compreendendo as reações
químicas empregadas nas análises de disparos de armas de fogo e na identificação de adulterações em
veículos.


Química Forense, Química Legal, exames periciais

Recebido em 10/3/06; aceito em 10/10/06

A
atuação das forças policiais A análise da cena de crime podem ser citados: a pesagem de pe- 17
no combate ao crime no Bra- ças e amostras, a determinação de
Os locais de crime, bem como os
sil dá-se de um modo geral ponto de fusão de substâncias sólidas,
elementos de interesse pericial nele
em três vias concomitantes: 1) o visualização de elementos ocultos
contidos devem ser fotografados do
policiamento ostensivo, realizado pe- utilizando-se lentes de aumento (lupas
modo como foram encontrados pelo
las forças policiais militares de cada e microscópios óticos) e fontes de
perito ou levantados por meio de
Estado, o qual compreende o con- luzes especiais (ultravioleta e polari-
desenhos esquemáticos, plantas que
fronto físico direto com os criminosos; zada), dentre outros.
são previstas no código de processo
2) a investigação policial, realizada pe- Quando a determinação da natu-
penal.
la polícia civil; 3) a pesquisa de vestí- reza de uma substância química tor-
Os vestígios encontrados na cena
gios em cenas de crime, realizada na-se necessária, ou quando existe
do crime (peças, instrumentos de cri-
pela polícia científica. a necessidade de detecção de traços
me, substâncias químicas etc.)
Neste terceiro setor, a coleta e de determinadas substâncias quími-
devem ser analisados e interpretados
análise de vestígios encontrados em cas de interesse forense, torna-se
pelo perito e reportados de modo
cenas de crime é de responsabilidade imprescindível a utilização de méto-
descritivo em um relatório denomina-
do perito criminal, um policial atuante dos químicos de análise, sendo tais
do laudo técnico-pericial. Assim,
junto ao instituto de criminalística de análises químicas o tema principal
entende-se por levantamento técnico-
cada Estado. Em locais de crimes deste trabalho.
pericial do local do fato a reprodução
contra a pessoa, onde existe a pre- fiel e minuciosa do espaço físico onde Química Forense
sença de cadáveres (homicídio, sui- ocorreu um evento de interesse judi-
cídio etc.), cabe também ao perito cri- ciário, bem como da importância de Conceito
minal a análise superficial dos corpos, cada vestígio coletado e sua relação Segundo Zarzuela (1995), denomi-
visando a coleta de possíveis elemen- com o fato criminoso (Block, 1979; na-se Química Forense o ramo da
tos que forneçam correlação com o Else, 1934). Química que se ocupa da investiga-
fato criminoso, sendo tais exames co- ção forense no campo da química
nhecidos por perinecroscópicos. A Os exames laboratoriais especializada, a fim de atender as-
causa mortis, bem como a descrição Após a etapa de coleta de vestí- pectos de interesse judiciário. Tal
detalhada dos ferimentos internos gios, cabe ao perito criminal proceder ramo da Química atende basicamen-
presentes no cadáver, é de responsa- à análise laboratorial dos mesmos. Tais te as áreas de estudos da Criminalís-
bilidade do médico legista, o qual é análises podem ser realizadas utili- tica e da Medicina Forense.
subordinado ao Instituto Médico Le- zando-se métodos físicos e químicos. São exemplos de análises quími-
gal. Como exemplos de métodos físicos, cas de interesse forense possíveis as

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reações empregadas nas análises de cátions de metais como chumbo e Identificação de adulterações em
disparos de armas de fogo (Zarzuela, antimônio e particulados metálicos veículos
1995; Reis et al., 2004), identificação oriundos do atrito e da subseqüente Os veículos envolvidos em episó-
de adulterações em veículos (Stum- fragmentação dos projéteis metálicos dios de furto ou roubo (automóveis,
voll e Quintela, 1995), revelação de disparados. Quando o fluxo gasoso motocicletas, caminhões etc.) apre-
impressões digitais (Ho, 1990), iden- emitido pela região traseira da arma sentam comumente duas opções de
tificação de sangue em locais de atinge a superfície da mão do atirador, destino: 1) desmanche ilegal e subse-
crime e peças relacionadas a estes tais partículas sólidas aderem à qüente comercialização de peças; 2)
(Zarzuela, 1995; Ho, 1990), bem superfície da pele. Um teste comu- remarcação de seus sinais de identi-
como constatação de substâncias mente utilizado para a detecção de ficação (placas, numeração de chas-
entorpecentes como maconha e vestígios de disparo de arma de fogo si, de motor etc.) para utilização dos
cocaína (Ho, 1990; CEBRID, 2005; nas mãos de um possível suspeito mesmos como clones.
Gaensslen, 1983a e 1983b). Destas, consiste na pesquisa de íons ou frag- Considerando-se o fato de que as
constituem objeto de estudo deste mentos metálicos de chumbo, em numerações de chassi e motor apre-
trabalho os exames de análise de decorrência da maior quantidade sentam-se gravadas para a maioria
disparo de arma de fogo e exames desta espécie metálica em relação a dos modelos nacionais em baixo rele-
de verificação de adulteração de veí- outras. vo nas superfícies metálicas dos auto-
culos. O chumbo presente nos vestígios móveis, por cunhagem a frio (salvo
de disparo pode ser proveniente do os casos em que estas se apresen-
Disparos de armas de fogo agente detonador da espoleta, na tam na forma de plaquetas metálicas
Na utilização de armas de fogo em qual encontra-se presente na forma afixadas por rebites), constitui-se co-
episódios de crime, são produzidos de trinitroresorcinato de chumbo; da mo um tipo muito comum de adulte-
vestígios de disparo, os quais são ex- carga de espoleteamento, na forma ração a remoção da numeração origi-
pelidos pela expansão gasosa oriun- de estifinato de chumbo; bem como nal da peça, mediante desgaste
da da combustão da carga explosiva pode ser gerado pelo atritamento do
18 mecânico e polimento, e subseqüente
presente nos cartuchos que com- corpo dos projéteis de chumbo com aplicação de nova numeração por
põem a munição dessas armas. Tal as paredes internas do cano da arma. punção, obviamente diferente da ori-
expansão gasosa dá-se preferencial- A análise química de chumbo con- ginal.
mente através da região anterior do siste na coleta prévia de amostra das O processo de gravação dos ca-
cano da arma, orientada para a frente; mãos do suspeito, mediante aplica- racteres originais dos veículos, pro-
porém, uma parcela desse fluxo de ção de tiras de fita adesiva do tipo duzidos ainda na linha de montagem,
massa gasosa é também expelida esparadrapo nas mesmas e subse- produz uma compactação diferencia-
pela região posterior da arma, em qüente imobilização dessas tiras em da na região da estrutura cristalina
decorrência da presença de orifícios superfície de papel de filtro. As referi- abaixo e adjacente aos referidos ca-
da culatra (para revólveres) ou do das tiras, ao serem borrifadas com racteres. Após a remoção da numera-
extrator (no caso de pistolas), confor- solução acidificada de rodizonato de ção original por desgaste mecânico
me visualizado na Figura 1. sódio, se apresentarem um espalha- do tipo lixa, tais imperfeições produzi-
Tal fluxo gasoso carrega em sua mento de pontos de coloração aver- das na estrutura cristalina da peça
composição os gases oriundos da melhada, indicam resultado positivo metálica, decorrentes da gravação
combustão (CO2 e SO2), bem como para o disparo. Tal exame é conheci- original, permanecem na mesma,
uma ampla gama de compostos do como residuográfico (Figura 2). porem são invisíveis à vista desarma-
inorgânicos, tais como nitrito, nitrato, A reação química envolvida no da.
processo consiste na complexação Neste caso, a identificação da pre-
de íons chumbo pelos íons rodizona- sença de sinais de adulteração pode
to:

O complexo resultante apresenta


coloração avermelhada intensa, dife-
rentemente da solução inicial de
Figura 2: No exame residuográfico, após
rodizonato de sódio, a qual apresen-
Figura 1: Durante um disparo, gases são fixação em tiras de papel, vestígios de
expelidos também para a região poste-
ta-se amarelada, nas concentrações chumbo na mão do atirador podem ser
rior da arma, depositando resíduos na utilizadas pelos laboratórios de Quí- revelados como solução ácida de rodizo-
mão do atirador. mica Forense. nato de sódio.

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tricas e de fácil reprodutibilidade, bem
como de fácil preparo das soluções
dos reagentes empregados, tais exa-
mes podem culminar em possíveis
atividades de laboratório de Química
Figura 3: A adulteração na numeração original de uma peça de automóvel pode ser junto aos alunos do nível médio.
constatada com o uso de agentes reveladores. Para a realização dos exames me-
talográficos de revelação de caracte-
ser feita realizando-se um ataque quí- 2Fe0 + 3O2 → Fe2O3 res, pode-se utilizar como peça de
mico na referida superfície metálica, exame a superfície de lâminas de
utilizando agentes reveladores apro- 2K3[Fe(CN)6] + Fe2O3 → 2Fe[Fe(CN)6] facas de cozinha, as quais freqüen-
priados (Figura 3). Um reagente solução alaranjada precipitado azul intenso
temente apresentam inscrições em
amplamente empregado no estudo baixo relevo referentes à marca e ao
de revelações de numerações em Por se tratar de um exame destru- fabricante. Tais superfícies podem ser
chassi constitui-se de uma solução tivo, em decorrência do processo de previamente desgastadas na região
aquosa alcalina de hexacianoferrato corrosão empregado na referida das inscrições, podendo ser realiza-
de potássio, denominado reagente de superfície, as revelações de caracte- dos posteriormente os exames meta-
Murikami. Nessas condições, a apli- res originais presentes nas superfícies lográficos descritos neste trabalho.
cação da referida solução à superfície metálicas estudadas apresentam-se
metálica adulterada possibilita a reve- visíveis por um intervalo de tempo
Agradecimentos
lação da numeração original previa- limitado, devendo ser prontamente O autor agradece o suporte finan-
mente removida. fotografadas. ceiro da FAPESP, bem como o apoio
A explicação para o contraste vi- logístico da EPC de São Carlos e do
sual observado consiste na diferença Considerações finais CEIC - Departamento de Química da
de reatividade dos sítios da referida Conforme se pôde observar no FFCLRP-USP.
superfície metálica, sendo observada presente trabalho, as reações quími- 19
Marcelo Firmino de Oliveira (marcelex@posgrad.iq.
uma maior velocidade de reação (no cas constituem importantes ferramen- unesp.br), bacharel, licenciado em Química e mestre
caso, precipitação de hexacianofer- tas utilizadas no campo das ciências em Ciências (Química) pela USP, doutor em Química
pela Unesp, é perito criminal do Instituto de
rato de ferro III, ou Azul da Prússia) forenses, na elucidação de crimes.
Criminalística “Perito Criminal Dr. Octávio de Brito
na região da numeração original re- Em decorrência dos exames reporta- Alvarenga” – Equipe de Perícias Criminalísticas de
movida. dos constituírem reações colorimé- São Carlos, SP.

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tional Institute of Justice, 1983a. p. 47-52. so em 18/9/2006).

Abstract: Forensic Chemistry: The Use of Chemistry in The Research of Crime Vestiges – In this paper, a brief introduction to the area of forensic chemistry is given, as well as to show the importance
of chemistry in the elucidation of crimes. In this context, two experimental procedures carried out in forensic-chemistry laboratories are described as examples, involving the chemical reactions used
in the analysis of gunshot residues and in the identification of vehicle adulterations.
Keywords: forensic chemistry, legal chemistry, forensic exam

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