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INSTITUTO FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO - IFES

LICENCIATURA EM QUÍMICA

Relatório da Aula Prática nº 7

OBTENÇÃO DE BIODIESEL

AMANDA ALMERINDO RANGEL


DEBORAH DA SILVA PIMENTEL
MILENA AMORIM LANGAMI
QUÉZIA COSTA ROCHA

Disciplina: ​Química Orgânica Experimental I


Professora: ​Ana Brígida Soares

VILA VELHA
2020
1. INTRODUÇÃO
A busca por combustíveis alternativos vem ganhando destaque nas últimas décadas. A
substituição dos combustíveis fósseis tem sido motivada por fatores ambientais, econômicos
e sociais, uma vez que toda a sociedade depende de seu uso. Nesse contexto, uma alternativa
que se tem destacado é o uso de biocombustíveis.
Pode-se definir biocombustível como todo produto útil para a geração de energia,
obtido total ou parcialmente de biomassa (TOLMASQUIM, 2003). Na ​Tabela 1​, são
apresentados os principais exemplos de biocombustíveis, dentre os quais está o biodiesel, um
dos principais combustíveis obtidos a partir de óleos vegetais e gorduras.
Tabela 1.​ Principais exemplos de biocombustíveis.

Fonte: ​Química Nova, n° 28, MAIO 2008.

Óleos e gorduras são substâncias classificadas como lipídeos, sendo encontradas em


tecidos animais ou vegetais. São constituídas por uma mistura de diversos compostos
químicos, sendo os mais importantes os ácidos graxos e seus derivados, tais como mono-; di-
ou tri-acilglicerídeos; e fosfatídios ​de cadeia longa ligados na forma de ésteres a uma
molécula de glicerol. Os tri-acilglicerídeos são largamente majoritários na constituição dessa
mistura, podendo chegar a valores superiores a 95% em massa (MORETTO E FETT, 1989).
Os ácidos graxos são ácidos orgânicos lineares, que diferem no número de carbonos que
constitui a sua cadeia e também pela presença de insaturações. Existem diversos ácidos
graxos conhecidos, sendo os mais importantes listados na ​Tabela 2​.
Tabela 2.​ Principais ácidos graxos conhecidos na natureza.

Fonte:​ (MORETTO E FETT, 1989).

Na ​Tabela 3​, são mostradas composições típicas em ácidos graxos para diversos
óleos e gorduras de origem vegetal. O grau de insaturação e o tamanho da cadeia estão
diretamente relacionados com as propriedades físicas e químicas desses compostos. Um bom
exemplo é o ponto de fusão (ver Tabela 2), que diminui drasticamente com o aumento do
número de duplas ligações. Assim, os tri-acilglicerídeos saturados são sólidos à temperatura
ambiente, como aqueles que compõem o sebo animal; já os insaturados ou polinsaturados são
líquidos à temperatura ambiente, como os que compõem o óleo de soja. A diferença entre
gorduras e óleos é apenas a sua aparência sólida ou líquida, respectivamente, na temperatura
de 20 ºC.
Tabela 3.​ Composição em ácidos graxos de alguns óleos e gorduras de origem vegetal.

Fonte:​ (Adaptado de O´Brian, 2000).

Segundo Engel (2012), o biodiesel é uma mistura de ésteres de ácidos graxos com
monoálcoois de cadeia curta, como o metanol ou o etanol. Essa mistura é produzida a partir
da reação de transesterificação catalisada por uma base. ​A Transesterificação é um termo
geral usado para descrever uma importante classe de reações orgânicas onde um éster é
transformado em outro através da troca do resíduo alcoxila. Quando o éster original reage
com um álcool, o processo de transesterificação é denominado alcoólise (​Figura 1a​). Esta
reação é reversível e prossegue essencialmente misturando os reagentes. Contudo, a presença
de um catalisador (ácido ou base) acelera consideravelmente esta conversão, como também
contribui para aumentar o rendimento da mesma.
Figura 1​. a) Equação geral para uma reação de transesterificação; b) equação geral da
transesterificação de um triacilglicerídeo.

Fonte: ​(MORETTO E FETT, 1989).

Na transesterificação de óleos vegetais, um triacilglicerídeo reage com um álcool na


presença de uma base ou ácido forte, produzindo uma mistura de ésteres de ácidos graxos e
glicerol, conforme esquematizado na (​Figura 1b​).
O biodiesel tem propriedades similares às do combustível diesel que é produzido a
partir do petróleo e pode ser utilizado em motores de combustão interna de ignição por
compressão (ciclo diesel), sendo utilizado em diversas aplicações: ônibus, caminhões, entre
outras. É preciso notar que o óleo vegetal também pode ser queimado como um combustível,
mas como a viscosidade do óleo vegetal é um pouco maior que a do combustível diesel, os
motores devem ser modificados para queimarem óleo vegetal (ENGEL, 2012).

2. OBJETIVO
Obtenção do biodiesel a partir do óleo de soja​ (in natura).

3. MATERIAIS E REAGENTES
● Balança analítica; ● Condensador de bolas;
● Espátula; ● Agitador magnético;
● Haste universal; ● Erlenmeyer;
● Garra para funil de separação; ● Solução saturada de Cloreto de
● Funil de separação; Sódio (NaCl);
● Béquer; ● Óleo de soja;
● Balão de fundo redondo; ● Hidróxido de potássio (KOH);
● Chapa de aquecimento; ● Sulfato de Sódio Anidro (​Na​2​SO​4​).
● Proveta;

4. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

Inicialmente, com o auxílio de uma balança análitica, pesou-se 30,405g de óleo de


soja e a partir da estequiometria da reação, determinou-se a quantidade de álcool a ser
adicionado (utilizando uma proveta), cerca de 26mL de metanol. Em seguida, essas duas
alíquotas foram misturadas em um balão de fundo redondo, juntamente com 1% de
hidróxido de potássio (catalisador), que corresponde a 0,3g, essa quantidade é uma relação
com o reagente limitante da reação, nesse caso, o óleo de soja. Dentro do balão foi colocado
um agitador magnético e em sua boca foi acoplado um condensador de bolas. Esse sistema
foi levado até um chapa de aquecimento a 60ºC durante 1 hora.
Posteriormente, transferiu-se a mistura para um funil de separação e adicionou-se 10
ml de uma solução saturada de cloreto de sódio, agitou-se uma vez, para evitar a formação de
emulsão e então a pressão foi liberada abrindo a torneira do funil virada para cima. Após
alguns minutos em repouso para permitir a separação das fases (superior contendo biodiesel e
inferior composta por glicerina), a mistura dividiu-se e a glicerina foi retirada. Repetiu-se
esse processo por mais duas vezes e na última o biodiesel também foi retirado do funil de
separação. Por fim, adicionou-se uma certa quantidade de sulfato de sódio anidro (agente
secante) e filtrou-se para que fosse pesado e calculado o percentual de rendimento na
obtenção do biodiesel.
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Uma série de metodologias para obtenção de biodiesel encontra-se disponível na


literatura. Nelas são discutidas as variáveis que influenciam a eficiência do processo, bem
como a qualidade do produto formado, como por ex., a quantidade de material catalítico, a
razão molar álcool/óleo vegetal, a intensidade da agitação mecânica, a pureza dos reagentes,
o teor de ácidos graxos livres no material de partida e o tempo reacional (VOLLHARDT,
2004). O método utilizado na prática em questão envolveu a transesterificação do óleo de
soja (​in natura)​ utilizando como agente transesterificante o metanol (catalisador homogêneo)
em condições básicas com hidróxido de potássio (KOH), que corresponde a 1% em relação
ao agente limitante (óleo vegetal). Como sabido, o ponto de ebulição do metanol é de 68ºC,
valendo-se desta informação, levou-se a mistura para um sistema de condensador de bolas
(​Figura 2​), montado a 60ºC. Essa mistura adquire um aspecto leitoso, mas como o biodiesel
é produto da transesterificação do óleo vegetal com álcool, na presença de um catalisador
básico ou ácido (nesse experimento utilizou-se um catalisador básico), ele possui aspecto
límpido, isento de impurezas de coloração amarela, essa mudança ocorre pois após a
viscosidade diminui.

​Figura 2.​ Condensador de bolas.

Fonte: ​Google Imagens.

O processo geral da prática em questão, é uma seqüência de três principais reações de


transesterificação do óleo vegetal catalisada por base, como apresentada na (​Figura 3​). O
primeiro passo é a reação da base com metanol, produzindo alcóxido (base conjugada) e água
(ácido conjugado). O alcóxido, agindo como nucleófilo, ataca o átomo de carbono deficiente
em elétrons do grupo carbonila do triacilglicerídeo, conduzindo à formação do intermediário
tetraédrico; a ruptura da ligação entre carbono e oxigênio do glicerídeo no intermediário
tetraédrico conduz ao produto carbonila do (éster metílico) e ao diacilglicerídeo, este último
formado após a remoção do átomo de hidrogênio do metanol, obtendo o ânion metóxido,
permitindo a continuidade do processo reacional. Diacilglicerídeos e monoacilglicerídeos são
convertidos pelo mesmo mecanismo para a mistura de ésteres metílicos e glicerol. Por isso,
após 1 hora de reação a substância muda seu aspecto, indo de um ponto leitoso para uma
coloração mais límpida e menos viscosa.
Figura 3. Equações da reação de transesterificação de um triacilglicerídeo com metanol catalisada por
hidróxido de potássio.

Fonte: ​Google Imagens

Para uma transesterificação estequiometricamente completa, uma proporção molar


1:3 de álcool por triacilglicerídeo é necessária. Entretanto, devido ao caráter reversível da
reação, o agente transesterificante (álcool) geralmente é adicionado em excesso contribuindo,
assim, para aumentar o rendimento do éster, bem como permitir a sua separação do glicerol
formado. Por isso, usou-se a proporção 1:6 e através dos cálculos apresentados abaixo foi
possível achar a quantidade de álcool necessário para reagir com 30,405 g de óleo pesado
para a obtenção do biodiesel.

M assa molar do óleo –––– 3 · massa molar metanol


282 g/mol –––– 3 . 32,04 g/mol
30, 405 g –––– Xg de metanol
X = 10, 363 g de metanol → para ser 1:6 basta multiplicar por 2
1 : 6 = 20, 726 g de metanol

m 20,726g
densidade do metanol = v
→ 0, 79 g/mL = v de metanol
→ 26, 23 mL de metanol

Vale ressaltar que a reação do hidróxido de potássio com o álcool leva à formação de
água e, na presença do catalisador básico, poderá levar à hidrólise de algum éster produzido,
com conseqüente formação de sabão (​Figura 4​). Esta saponificação indesejável reduz o
rendimento do éster e dificulta consideravelmente a recuperação do glicerol, devido à
formação de emulsão. Além disso, o consumo do catalisador reduz a eficiência da reação.
Portanto, para uma transesterificação catalisada por bases, ambos os óleos e álcool devem ser
isentos de água. Um baixo teor de ácidos graxos livres no óleo também é necessário se o
processo de alcoólise ocorrer por catálise básica. Óleos vegetais que contenham alto teor de
ácidos graxos livres ou água devem ser processados via catálise ácida (​SCHUCHARDT,
1998)​.
Figura 4.​ Principal reação secundária durante a transesterificação: Reação de saponificação.

Fonte: ​Google Imagens

​ subproduto da reação de transesterificação é o glicerol (​C​3​H​8​O​3​) também


O
conhecido como glicerina, como mostra a (​Figura 5​). A glicerina apresenta um elevado valor
comercial, caso esteja na forma purificada, constituindo assim uma mais valia em termos
ambientais e econômicos, ajudando a rentabilizar o processo da produção do biocombustível.
Figura 5.​ Estrutura química do glicerol..

Fonte:​ Google Imagens.

Em seguida, a solução foi transferida para um funil de separação e lavada 3 vezes com
10mL de uma solução saturada de cloreto de sódio (NaCl), sem muita agitação para evitar a
formação de uma emulsão, a fim de extrair a glicerina da solução.
A utilização de uma solução salina provoca a desestabilização da emulsão, uma vez
que a presença dos íons da solução competem pela água de hidratação da parte apolar do
surfactante, o que desestabiliza energeticamente a emulsão, favorecendo a coalescência da
fase de óleo dispersa. A adição de um eletrólito diminui a solubilidade de sabões em soluções
aquosas; este fenômeno é comumente conhecido como "salting-out". Na produção de
biodiesel, substâncias como sais de ácidos graxos (sabões), mono- e diglicerídeos e
fosfolipídeos podem atuar como surfactantes, o que resulta em problemas como o maior
tempo de espera para a separação de fases, conforme discutido na seqüência (RINALDI et al,
2007).
Tabela 4.​ Teor de óleo de oleaginosas e gordura animal com potencial de uso energético.

Fonte: ​KRAUSE (2008).


Após a retirada da glicerina, o biodiesel foi separado e adicionou-se sulfato de sódio
anidro ​(N
​ a​2​SO​4​)​, usado como agente secante, esse sal inorgânico retira o excesso de água
pois apresenta alta capacidade de adsorver a hidratação das soluções (ENGEL, 2012). O teor
encontrado na literatura para outras oleaginosas, pode ser observado na ​Tabela 4​, estes
valores indicam o teor de rendimento de um bom potencial de uso energético, o que valida a
produção de biodiesel. Nesse experimento, achamos o rendimento através do cálculo a seguir:
massa do biodiesel×100
Rendimento do biodiesel em % = massa do óleo de soja empregada

5,6587 g ×100
Rendimento do biodiesel em % = 30,405 g
= ​18,61%

Ao final do processo, temos que, nessas condições a transesterificação do óleo de soja


foi satisfatória, chegando ao rendimento de 18,61% em biodiesel, se aproximando do valor
citado na literatura para essa oleaginosa.

6. CONCLUSÃO

O fato do biodiesel ser proveniente de uma fonte renovável, matéria prima abundante
no Brasil, torna seu estudo interessante, desde a consideração do aspecto social, como
principalmente o aspecto econômico. O resultado desse experimento se mostra satisfatório,
com um rendimento de aproximadamente 18% e em comparação com a literatura usada, se
prova a boa utilização do óleo de soja como matéria prima na transesterificação básica para
obtenção de diesel. O valor da taxa de conversão depende diretamente da maneira que a
reação de transesterificação é conduzida, bem como das condições do processo e a possível
presença de glicerina livre, glicerídeos não reagidos, sabões, álcool residual, resíduos de
catalisadores e água.

7. ANEXOS

O objetivo do experimento foi realizar a cristalização do sal de cozinha (NaCl), deste


modo, pesou-se 50 g de NaCl com auxílio de uma balança de cozinha e transferiu para um
copo contendo 100 mL de água até a formação de um de corpo de fundo na solução (​Figura
1​)​. A formação de um precipitado ou corpo de fundo na solução é um indicativo de que a
solução está saturada, ou seja, atingiu o coeficiente de solubilidade naquela temperatura.
Então, não é possível dissolver mais nenhuma quantidade de sal nessa quantidade de
solvente.
Figura 1.​ Solução saturada de NaCl.

Fonte:​ Autoral

Em seguida, separou a solução do corpo de fundo, passando-a para outro copo. Após
três semanas de espera, foi possível observar a formação de cristais no fundo do copo, como
mostra a (​Figura 2​).

Figura 2​. Recristalização.

Fonte:​ Autoral.

A explicação desse fenômeno é simples. I​nicialmente a solução estava saturada, a


medida que água foi evaporando com o tempo e, portanto, diminuindo a quantidade de água
no copo, o NaCl vai se precipitar na forma de um ou mais cristais cúbicos microscópicos.
Com a evaporação contínua da água, mais NaCl irá se precipitar. Mas a precipitação ocorrerá
preferencialmente sobre o NaCl que já estiver cristalizado e portanto atuando como se fosse
uma semente para que mais NaCl se cristalize.
A tendência natural do NaCl é cristalizar-se na forma cúbica. Se lhe é oferecida uma
superfície ou material com o mesmo arranjo atômico cúbico, ele vai encontrar mais facilidade
de se depositar sobre este material e não sobre outro lugar qualquer. Entretanto, como
observado na ​figura 2​, os cristais obtiveram diferentes formas e tamanhos, tal fato está
relacionado a alguns fatores como a temperatura e agitação.

REFERÊNCIAS
1. ENGEL, Randall G. et al. ​Química orgânica experimental: técnicas de escala
pequena​. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
2. KRAUSE, L. C. ​Desenvolvimento do Processo de Produção de Biodiesel de
Origem Animal. 2008. f. 147 tese (Doutorado em Química) – Universidade Federal
de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, 2008
3. MORETTO, E. e FETT, R. ​Tecnologia dos óleos e gorduras vegetais. Rio de
Janeiro: Varela, 1989.
4. QUESSADA, Talita P. ​Obtenção de biocombustíveis a partir de óleo vegetal
utilizando diversos catalisadores. 2007. Relatório (Graduação em Química –
Habilitação Bacharelado – opção em Química Tecnológica) – Universidade Estadual
de Londrina.
5. QUÍMICA NOVA. ​Biodiesel: Possibilidades e Desafios​. Disponível em:
http://zeus.qui.ufmg.br/~qgeral/downloads/material/biodiesel.pdf. ​n° 28, MAIO 2008.
Acesso em: 20 nov. 2020.
6. RINALDI, R. et al. Síntese de Biodiesel: Uma proposta contextualizada de
experimento para laboratório de química geral. Quim. Nova, Vol. 30, No. 5,
1374-1380, 2007. Disponível em Acesso em 16 nov. 2020.
7. SCHUCHARDT, U.; SERCHELI, R.; VARGAS, R. M.; ​J. BRAZ. Chem. Soc.​ ​1998​,
9​, 199
8. TOLMASQUIM, M.T. Fontes renováveis de energia no Brasil. Rio de Janeiro:
Interciência, 2003.
9. VOLLHARDT, K. P. C.; SCHORE, N. E.; ​Química Orgânica: Estrutura e Função​,
Bookman: Porto Alegre, 2004.

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