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PRELIMINARES

§1 ° INTRODUÇÃO

1. O Direito da banca e do dinheiro

I. O Direito bancário abrange normas e princípios jurídicos conexio­


nados com a banca. E em paralelo, a expressão designa ainda a correspon­
dente disciplina teórica e prática.
Por seu turno, “banca” , “bancos” ou “banqueiros” têm um alcance
envolvente: abarcam o universo relativo aos bancos, às instituições de cré­
dito, às sociedades financeiras e, em geral, à atividade desenvolvida por
essas entidades, entre si e com os seus clientes.
A noção perde clareza quando se atente na matéria em jogo. Depara­
mos com um conglomerado de regras organizatórias e de regulação, infle-
tidas por exigências europeias e de institutos privados tradicionais, postos
ao serviço da realidade financeirari Como apresentar o fator que, a esse
conjunto heterogéneo, dá coesão e sentido?
Vamos antecipar. Em termos formais, o Direito bancário ocupa-se da
organização financeira, das instituições de crédito e sociedades financeiras
e da atividade desenvolvida por essas entidades^. Em termos funcionais, o
Direito bancário é o Direito do dinheiro^.*

* Herbert Schimansky/Hermann-Josef Bunte/Hans-Jürgen Lwowski, Bankrechts-


-Handbuch 1,4.“ ed. (2011), XCIV + 2928 pp., VIII.
^ Carsten Peter Claussen, Bank- und Börsenrecht/Für Studium und Praxis, 4.“ ed.
(2008), 1; Arne Wittig, em Siegfried Kümpel/Arne Wittig, Bank- und Kapitalmarktrecht,
4.“ ed. (2011), Nr. 1.1 (2).
^ Hans-Peter Schwintowski/Frank A. Schäfer, Bankrecht!Commercial Banking -
Investment Banking, 2.“ ed. (2004), 4; Hans-Peter Schwintowski,5an/trechf, 3.“ ed. (2011),
52 Direito bancário § 1 f Introdução 53

II. Principiemos pelas entidades envolvidas na ideia de banca. III. As instituições de crédito e as sociedades financeiras subme­
O Direito positivo portugués dá algumas noções precisas. Vale o Regime tem-se a regras de densidade crescente. Fala-se, a tal propósito, em sistema
Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, aprovado pelo financeiro. O Direito bancário regula e estuda duas grandes áreas’ :
Decreto-Lei n.° 298/92, de 31 de dezembro e designado pela sigla RGIC^.
Pois bem; segundo o artigo 2.° do RGIC^: - a da organização do sistema financeiro;
- a da atividade das instituições de crédito e sociedades financeiras.
1. São instituições de crédito as em presas cuja atividade consiste em
receb er do público depósitos ou outros fundos reem bolsáveis, a fim de os A primeira área debruça-se sobre os bancos e demais instituições,
aplicarem por conta própria m ediante a concessão de crédito. as condições de acesso à sua atividade, a regulação ou supervisão, a fis­
calização e as diversas regras conexas. A segunda área prende-se às rela­
As instituições de crédito comportam diversas espécies: desde os ções interbancárias e às relações que se estabeleçam entre a banca e os
bancos às entidades enumeradas no artigo 3.° do RGIC. Os bancos efe­ particulares.
tuam a generalidade das operações reservadas às instituições de crédito, Ao Direito da organização do sistema financeiro chamaremos Direito
como se infere do artigo 4.°. As restantes instituições de crédito só cabe bancário institucional. Paralelamente, o Direito bancário material será o
realizar as operações permitidas pelas normas legais ou regulamentares Direito da atividade das instituições de crédito e sociedades financeiras ou,
que se lhes apliquem - idem, n.° 2. As sociedades financeiras podem, tam­ se se quiser, o Direito da atividade bancária, latamente entendida.________
bém, realizar apenas operações que lhes sejam especialmente facultadas
e não são instituições de crédito - artigo 5.° do RGIC. Compreende-se, à IV. Ainda a nível de noção preliminar, parece claro que a apresenta­
partida, o melindre da sua distinção perante as instituições de crédito que ção acima realizada é, como se disse, puramente formal: quiçá tautológica.
não sejam bancos; o legislador acabou por superar o problema, através de O legislador pode, por razões de oportunidade momentânea, incluir ou
uma enumeração de sociedades financeiras - artigo 6.71 e 2, do RGIC. retirar entidades do universo “banca” sem, por isso, modificar a realidade
A luz destas considerações, fica claro que uma noção - ou uma delimitação material em jogo. Consideramos este fenómeno como habitual e útil, ainda
- mais precisa de Direito bancário deva ser levada a cabo em cada ordem que pouco assumido pela doutrina: a precisão conceptual implica a forma­
jurídica concretamente ponderada®: apenas a esse nível poderemos deter­ lização das noções.
minar se estamos em face de uma instituição de crédito ou uma sociedade
financeira. O Direito bancário atinge, neste campo, um plano elevado de
formalização.
’ O modo por que os Autores articulam ambas as áreas é muito variável; a sua
presença é, contudo, uma constante; vide como exemplos contemporâneos da 1.“ ed. desta
Nr. 1 (1), insistindo na primazia de uma noção funcional, por oposição à de Kiimpel, que obra, Jean-Louis Rives-Lange/Monique Contamine-Raynaud, Droit bancaire, 6,“ ed.
considera institucional. (1995), 26 ss. e 94 ss. e Françoise Dekeuwer-Défossez, Droit bancaire, 5.“ ed. (1995), 5
O RGIC foi alterado por diversos diplomas; neste momento, por último, pelo ss. e 14 ss., quanto à França, Giacomo Molle/Luigi Desiderio, Manuale di diritto bancario
Decreto-Lei n.° 63-A/2013, de 10 de maio. e dell’ intermediazione financiaria, 5.“ ed. (1997), 15 ss., 67 ss. e 123 ss., quanto a Itália
^ Na redação dada pelo artigo 1.“ do Decreto-Lei n.° 201/2002, de 26 de setembro, e Carsten Peter Claussen/Roland Erne, Bank- und Borsenrecht, 2.“ ed. (2000), 18 ss. e 61
surgia um n.° 2, assim redigido; ss. e Reinfrid Fischer/Thomas Klanten, Bankrecht, 3.“ ed. (2000), 1 ss. e 113 ss., quanto à
Alemanha. Entre nós, é possível apontar Augusto de Athayde/Luís Branco, Direito bancá­
São também instituições de crédito as empresas que tenham por objeto a emissão de
rio, 1 (1989), 4-5, que definem o Direito bancário como o conjunto de normas que têm por
meios de pagamento sob a forma de moeda eletrónica.
objeto específico a organização e o funcionamento das instituições financeiras e Fernando
Este n.° 2 foi revogado pelo Decreto-Lei n.° 242/2012, de 7 de novembro, que, toda­ Conceição Nunes, Direito bancário, 1 (1990), 21-22, que se fixa na ideia de um conjunto
via, manteve formalmente a referência a um número 1. estruturado de normas especificamente aplicáveis às instituições que constituem o regime
®Vide Augusto de Athayde/Augusto Albuquerque de Athayde/Duarte de Atliayde, financeiro e à atividade por elas desenvolvida. Vide, ainda, João Calvão da Silva, Direito
Curso de Direito bancário, 1 (1999), 33 ss. (36). bancário¡Relatório (2001).
54 Direito bancário §1.”Introdução 55

Procurando materializar a disciplina, adiantámos já que o Direito - absorção institucional;


bancário é o Direito especializado no tratamento do dinheiro ou, mais deti­ - absorção linguística;
damente: da criação e da destruição do dinheiro, da sua circulação, da sua - absorção histórico-cultural.
preservação e dos estabelecimentos que dele se ocupam^.
Qualquer sociedade humana, dotada de separação de funções, postula II. Na absorção estrutural, o fenómeno considerado é arrastado para
pessoas e instituições vocacionadas para atuar no domínio da moeda ou, o sistema, por implicar situações jurídicas estruturalmente semelhantes às,
mais latamente, do dinheiro. Este, por seu turno, requer regras próprias. nele, dominantes; é o caso clássico da responsabilidade civil, inserida no
Numa abordagem substancial, o Direito bancário é o Direito do dinheiro, Direito das obrigações por se concretizar através de vínculos obrigacio-
seja das instituições vocacionadas para lidar com ele - Direito bancário ins­ nais: os deveres de indemnizar. Em rigor, a responsabilidade civil deveria
titucional - seja das operações a ele relativas - Direito bancário material. respeitar à parte geral, já que acompanha todas as áreas jurídicas.
Sob este pano de fundo, o manuseio dogmático do Direito bancário Na absorção teleológica, o sistema acolhe elementos à partida a ele
exige, muitas vezes, o recurso a ângulos formais. Os valores e os interesses alheios, mas que se mostram ao serviço de fatores nele inseridos; tal a
subjacentes postulam, porém, sempre a ideia de dinheiro. situação do penhor e da hipoteca, levados para o Direito das obrigações,
por garantirem créditos quando, dogmaticamente, são direitos reais.
Na absorção institucional, o sistema atrai elementos relacionados
2. Sistema de exposição com institutos que lhe caibam. Assim, as obrigações de vizinhança, de
estrutura obrigacional e não necessariamente ao serviço da propriedade'
I. O Direito bancário, sedimentado nas duas áreas - a institucional vêm a cair em Direitos Reais".
e a material - é, hoje, um dado adquirido. A sua apresentação impõe, no Na absorção linguística, assiste-se a uma atração, pelo sistema, de
entanto, algumas reflexões. dados que apresentem similitudes vocabulares com elementos nele incluí­
Quando se considera uma qualquer disciplina jurídica e, para mais, dos. Por exemplo, a boa-fé subjetiva tende a ser examinada, em Direito das
com pretensões de autonomia, tem-se em vista não um somatório de nor­ obrigações, apenas por osmose com a boa-fé objetiva. Qualquer dos outros
mas ou de princípios mas, antes, um sistema. Sistema ocorre, aqui, na critérios levá-la-ia para Direitos Reais.
acepção kantiana, divulgada por Canaris®, como conjunto de proposições Na absorção histórico-cultural - porventura a mais relevante no
ordenadas em função de pontos de vista unitários. Aplicado ao Direito, o Direito privado - o sistema inclui elementos por razões acidentais, acolhi­
sistema ganha um sentido figurativo e valorativo próprio, de tal modo que das na tradição jurídica. Assim: a locação surge em Direito das obrigações
arrasta, para a sua órbita, fatores que, à partida, não lhe diriam respeito. por, no Direito romano, dar azo à actio locati e à actio conducti: ambas
Assim, perante um sistema - ou subsistema - jurídico, poder-lhe-ão ser in personam. Logicamente, estando em causa o aproveitamento de coisas
reconduzidos fatores em função de algum dos seguintes cinco fenómenos: corpóreas, ela deveria caber aos Direitos Reais.

- absorção estrutural; III. Os fenómenos de absorção acima apontados atuam num fundo de
- absorção teleológica; materialidade próprio dos sistemas continentais, de base codificada. Em
princípio, a matéria ordena-se em sistema por via da sua realidade dog­
* Palavras de Schwintowski/Schafer, Bankrecht/Commercial Banking - Investment mática. Há uma coerência de valores, de regime e de soluções que dão
Banking, 2.“ ed. cit., 4 (Nr. 2), na sua abordagem pioneira e fundamental. A mesma ideia
é prosseguida por diversos autores da atualidade, ainda que sob expressões menos claras;
assim, Francesco Giorgianni/Carlo-Maria Tardivo, Manuale di diritto bancario, 3.“ ed. Podem corresponder, por exemplo, a concretizações dos direitos de personalidade.
(2012), XXVII + 708 pp., 4 ss.. Usamos Direitos Reais com maiusculas para exprimir o Direito das coisas ou
^ Claus-Wilhelm Canaris, Pensamento sistemàtico e conceito de sistema na Ciência Direito objetivo relativo às coisas corpóreas; direitos reais com minúsculas equivale aos
do Direito, trad. port, de nossa autoria, pubi. Fundação Calouste Gulbenkian (1989), 9 ss.. direitos subjetivos dotados de natureza real.
56 Direito bancário § 1 ° Introdução 57

corpo às disciplinas. Esta realidade substancial vem, depois - isto é, num Até onde vai a autonomia da Ciência do Direito, nessa sua atividade
momento logicamente subsequente de análise racional - a ser recortada ordenadora e qual o destino das áreas de sobreposição, isto é, de áreas que
pelos aludidos fenómenos de absorção. sejam, em simultâneo referidas por diversas disciplinas?
Tais fenómenos, mesmo quando acidentais, nunca são inóquos. O
sistema tem um papel funcional e interfere diretamente nas normas, nas II. Uma posição de certo modo tradicional e, à partida, mais convin­
construções e nas soluções: qualquer realidade nele inserida vem, depois, cente, apelava, neste domínio, para a própria materialidade das normas em
apresentar um regime diverso, próprio do sistema (ou subsistema) em jogo. jogo^^. A regra a incluir no Direito bancário teria de conter uma solução
Na definição do âmbito de uma disciplina, para além dos pontos de específica, substancialmente bancária. Assim, a liberdade contratual não
vista materiais que tenham sido eleitos para a sua substancialidade sistemá­ pertenceria ao Direito bancário, por ser uma regra geral; já a norma que
tica, há, pois, que contar com os fenómenos de absorção, acima descritos. permite às sociedades d&factoring a celebração dos contratos de cessão
Temos ainda de lidar com a bilateralidade de tais fenómenos. Isto é: eles financeira, teria natureza bancária.
tanto jogam a favor de determinado sistema, arrastando, para a sua órbita, O pensamento sistemático e o relevo substantivo do sistema obrigam
elementos exteriores, como contra ele: conduzindo, para outras áreas, ele­ a repensar essa solução.
mentos que, à partida, lhe deveriam competir. Os fenómenos de absorção A inclusão, num sistema, de um princípio ou de uma norma não é ino­
podem, assim, ter eficácias positivas ou negativas, conforme incluam, ou cente. Consumada a adesão, a proposição ganha uma valoração específica:
excluam, elementos sistemáticos.__________________________________ -estabelece-conexões-novas-eom-elementos-que-a-rodeiemi-faculta a-defini-—
ção de saídas especiais e excecionais, descobre repetições e contradições e
V. Regressando, com estes elementos, ao Direito bancário, podere­ permite novas e - como apetência tendencial - melhores soluções. Assim,
mos considerar possível - pelo menos teoricamente - a confeção de um o dizer-se que, no Direito das obrigações, rege o princípio da autonomia
sistema de normas e de princípios ordenados em função da realidade finan­ privada, não equivale à asserção de que os bancos disfratam dessa auto­
ceira e isso de acordo com dois eixos fundamentais: nomia. As implicações são diferentes, tais como diversas são as múltiplas
- o da organização financeira, traduzindo um Direito institucional da delimitações que, depois, serão traçadas.
banca, em sentido amplo; A própria definição de regimes especiais e excecionais implica a
—o das relações da banca com os particulares. inclusão, no sistema considerado e, pelo menos, como proposição referen-
ciadora e ordenadora, da norma ou do princípio desviados ou excecionados.
Ambos os sectores exerceriam, depois, um papel centrípeto, em fun­
ção de tensões estruturais, teleológicas, institucionais, linguísticas e histó­ III. A Ciência jurídica fica com uma grande autonomia. Hipotetica­
rico-culturais, sobre os tecidos jurídicos circundantes. mente, ela poderia multiplicar os sistemas - portanto: as disciplinas autó­
nomas - utilizando, para tanto, normas e princípios pertencentes a outras
disciplinas. Porém, a verdadeira autonomia pressuporá, sempre, uma dife­
renciação de soluções. Estas advirão do sistema; contudo, o sistema só pro­
3. A Ciência jurídico-bancária moverá a novidade se, ele próprio, contiver (algumas) normas e princípios
diferenciados. De resto, será essa a especificidade que facultará a adoção
I. Na autonomização do Direito bancário, o papel da Ciência jurí­ de, pelo menos, alguns pontos de vista ordenadores próprios.
dica é determinante. Falta, neste domínio, seja uma tradição consagrada,
seja uma unidade de fontes que nos permitam acolher um Direito bancá­
rio pré-dado. Os estudiosos do sector, através da construção, aproximando
fontes, problemas e soluções e ordenando-os em função de critérios razoá­
Adotada, por exemplo, por Conceição Nunes, Direito bancário, I - Introdução e
veis e unitários, irão levando a cabo um sistema jurídico-bancário.
sistema financeiro (1994), 24-25.
58 Direito bancário §1." Introdução 59

Assim e sem, com isso, pretender instilar simetrias irreais, podemos Teríamos, então, um sistema - ou subsistema - caracterizado por um
considerar que, numa disciplina jurídica cuja autonomização esteja em núcleo, explicitamente especial ou, mesmo, excecional e que constituiria a
curso, haverá que apontar: caracterização básica da disciplina a autonomizar, rodeado por um halo de
regras comuns, centripetadas em função de fatores figurativos, pragmáti­
- normas e princípios específicos, próprios dessa disciplina, que tra­
cos ou regulativos.
duzam soluções jurídicas diferenciadas, especialmente aderentes
A prática jurídica não permite, contudo, detetar disciplinas de conce­
aos problemas particulares que justificam o novo sector normativo
ção tão racional e linear.
em causa;
- normas e princípios de ordem mais vasta, à partida indiferenciados,
II. Se ponderarmos sectores cuja autonomia esteja hoje conquistada,
mas cuja inclusão no sistema seja conveniente para ordenar ou para
como o Direito comercial ou o Direito do trabalho, verificaremos que não
dar sentido a outras proposições ou, simplesmente, cujo concurso
há, neles, um núcleo duro mas, antes, vários pólos problemáticos rele­
seja necessário para, em conjunto com regras específicas, propor­
vantes. O Direito comercial vai abranger matérias como a do regime dos
cionar soluções diferenciadas.
comerciantes, a dos atos comerciais, a dos estabelecimentos, a das socie­
dades comerciais, a da concorrência, a dos títulos de crédito e a do comér­
IV. As tais normas e princípios de ordem mais geral, que se vejam
cio marítimo^^. Por seu turno, o Direito do trabalho ocupa-se das relações
arrastados para um sistema parcelar, dão azo a áreas de sobreposição, isto
coletivas, das condições de trabalho, do contrato individual de trabalho e
é: áreas que pertencem, em simultâneo, a duas ou mais disciplinas. Por
dos acidentes de trabalho'"^. Em ambos os casos temos vários núcleos ou
exemplo: a matéria relativa aos contratos bancários obedece a regras pro­
pólos, todos com os seus temas circundantes e com áreas de sobreposição,
priamente bancárias e a regras gerais de Direito das obrigações. Destas
intra e extradisciplinares.
últimas, algumas terão, forçosamente, que enformar o sistema “Direito
Nalguns casos, a aproximação entre os diversos pólos parece, ainda,
bancário” , até por razões de inteligibilidade. Não há, nisso, qualquer obs­
impor-se, em termos racionais. Assim, os vários núcleos laborais têm a ver
táculo: na formação de um contrato bancário, repetir-se-ão, por hipótese,
com o trabalho subordinado. Noutros casos, a aproximação é mais discutí­
as regras gerais da formação dos negócios, chamando a atenção para as
vel: o Direito comercial tem disciplinas remotamente relacionáveis: socie­
especificidades existentes ou - sendo esse o caso! - para a total falta de
dades e títulos de crédito, por exemplo. Elas tendem, de resto e cada vez
particularidades: qualquer das duas hipóteses é fundamental, para o conhe­
mais, a apresentar-se como ramos jurídicos autónomos.
cimento do sistema.
Uma vez construído, o sistema ganha peso próprio, como foi dito:
III. A heterogeneidade denotada tem a ver com a essência cultural do
ele tende a excluir quanto não reconheça. Quando, no Direito bancário,
jurídico. Criação humana, de base histórica, o Direito sofre uma comple­
tomado já como disciplina autónoma, não se diga, com maior ou menor
xidade causal que confere uma dimensão existencial aos seus fenómenos.
desenvolvimento, que vigora o princípio da autonomia privada, este ten­
Há dados jurídicos - e dos mais relevantes - que nos chegam prontos,
derá a ser ignorado. O peso da regulação ou da supervisão levará a melhor.
por via histórico-cultural, sem que o intérprete mais possa fazer do que
atribuir-lhes um lugar no sistema. Na apontada complexidade surgem-nos
4. Núcleo central e halos culturais situações históricas impressivas - p. ex., uma Revolução Francesa que
proscreva os ónus reais - , e exemplos marcantes de outras ordens jurídicas
I. O pensamento sistemático deixa incólume - e, mesmo, reforçada - - p. ex., a criação alemã, em 1892, das sociedades por quotas - ou, até.
a necessidade de localizar, numa disciplina jurídica candidata à autonomia,
um núcleo de proposições ou saídas autónomas. Para manter a autonomia
das áreas suscetíveis de sobreposição com as de outras matérias, podere­ Direito comercial, 3.“ ed., 149 ss..
mos falar em núcleo duro ou núcleo central da disciplina. Manual de Direito do trabalho, 21-22.
60 Direito bancário § 1 ° Introdução 61

meros acidentes universitários - p. ex., o ensino de Guilherme Moreira que firmou-se, nas sociedades humanas, como bitola geral do valor das coisas e
arrastou o Direito privado português para a órbita germânica. como meio universal de troca. Para tanto, foram necessárias normas jurídi­
Temos, assim, disciplinas jurídicas que se impõem, apesar de apresen­ cas: hoje, encontramos nas leis o que seja dinheiro, qual a sua origem, qual
tarem uma manifesta falta de coerência interna - p. ex., o Direito comercial 0 seu valor e qual o seu regime.
—enquanto outras, aparentemente mais consistentes, nunca lograram uma O dinheiro está na base de diversos atos e contratos relativos ao seu
verdadeira afirmação - p. ex., o Direito das empresas. manuseio: principal ou instrumental. Muitas vezes, tais atos implicam a
intervenção de entidades especializadas, que agrapamos sob a designa­
IV. A ponderação cultural das disciplinas coloca um particular desa­ ção tradicional “banca” . Por isso, tais atos e contratos são, correntemente,
fio, à sua autonomia. Para que uma disciplina se possa afirmar como tal, é considerados como o produto da atividade das instituições de crédito e
necessário que ela obtenha acolhimento, por parte dos operadores jurídicos sociedades financeiras, no seu relacionamento com os particulares, quando
e dos estudiosos. Ela terá de apresentar quadros de comunicação que sejam atuem no seu papel de intermediação^^.
compartilhados. Não basta a presença de soluções particulares: a disciplina
põe-se a nível de sistema e não de solução. II. Quer pela lógica, quer pela substância, o Direito bancário material
O facto de uma disciplina desfrutar de autonomia universitária é deci­ precede o institucional. A banca existe porque a Humanidade inventou o
sivo, por todas as razões: desde o aprofundamento dos temas, à formação dinheiro como elemento central das sociedades com diferenciação de fun-
_dos_quadros_mentais_dos_jovens juristas.-O nível de especialização que ela- -ções-Mas-a-partir-de-um-Gerto grau de-desenvolvimento,^ o dinheiro exige—
faculta também releva. Mas há outros. instituições especializadas. Não o inverso. Hoje, tal como opera, o dinheiro
requer uma intervenção quase permanente da banca^*, podendo falar-se
V. O domínio do cultural, também neste ponto, não deve soçobrar em intermediação financeira^^. Assim se entende que o Direito bancário
num fatalismo que libere, das suas funções, a Ciência do Direito. Embora material acabe por dar corpo a situações que, em regra, têm um banqueiro
dado pela cultura e pela História, o Direito tem exigências de racionalidade num dos seus pólos ou que, pelo menos, só podem considerar-se completas
e de equilíbrio que exigem uma ponderação cuidada das soluções e das com a intervenção da banca.
regras. Assim, sobre a base existencial irá, depois, incidir a ponderação
criativa dos juristas, fruto de novas sínteses e de uma melhorada cultura. III. Com esta dupla especificidade objetiva (o dinheiro) e subjetiva (a
Estes, mesmo imperativamente, reconhecem, pelos frutos e pela função, banca), o Direito bancário material é, à partida, um Direito contratual. Ele
qualquer nova disciplina jurídica. reporta-se a determinados contratos comerciais - ditos bancários - subme-
tendo-se ao Direito das obrigações, com as particularidades ditadas pela
sua natureza comercial e com as especificidades propriamente bancárias,
5. O Direito bancário material que se manifestem.
Preferimos esta terminologia a uma outra, mais radicalmente auto­
I. A profunda razão de ser do Direito bancário reside na especialidade nomista e que fala em operações bancárias. Como veremos, o estudo do
do dinheiro'^. Após uma evolução histórica abaixo referida’^®, o dinheiro Direito bancário material tem tudo a ganhar com a sua inclusão no grande
Continente do Direito privado. Isolar noções e cortar pontes - como já
sucedeu, historicamente, com o Direito comercial - acaba por traduzir-se
Trata-se da asserção, aparentemente simples, que se deve a Schwintowski citado
supra, nota 3 (a 1.“ ed. é de 1997) e que tem sido retomada; cf. a 1.“ ed. deste Manual
(1998), 15, bem como Peter Bülow, em Peter Derleder/Kai-Oliver Knops/Heinz Georg Paula Ponces Camanho, Do contrato de depósito bancário, 2.“ ed. (2005), 51 e
Bamberger, Handbuch zum deutschen und europäischen Bankrecht, 2.“ ed. (2009) Nr 7 passim.
(6-7). Em especial: José Simões Patrício, Direito bancário privado (2004), 62-63.
Infra 85 s s .. Simões Patrício, Direito bancário privado cit., 9 ss..

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