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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR PROCURADOR DA PROCURADORIA-GERAL ELEITORAL DO

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL/MPF

ASSOCIAÇÃO DE EX-CONSELHEIROS E CONSELHEIROS DA INFÂNCIA, inscrita sob o


CNPJ nº 15.600.285/0001-79, com sede na Rua Araújo Porto Alegre, nº 71, sala 309, CEP 20030-
012, Centro, Rio de Janeiro, vem, respeitosamente, com fulcro no art. 36 da Lei 9.504/1997 e no
art. 5º da Resolução nº 23.193/2009, oferecer

REPRESENTAÇÃO POR PROPAGANDA ELEITORAL ANTECIPADA

pelas razões de fato e de direito a seguir aduzidas.

I – DA SITUAÇÃO FÁTICA

1. Como se constata em análise ao Ofício em anexo, que instrui a presente, infere-se clara
antecipação de campanha eleitoral por parte do Governo Federal, mediante distribuição
de Veículos, Computadores, Refrigeradores e demais equipamentos aos Conselhos
Tutelares do Município, apresentando tais ações em filme intitulado “Pátria Acolhedora –
CONSELHO TUTELAR”, por intermédio da Secretaria Especial de Comunicação Social e
com supervisão e apoio de Agências de Propaganda e Produtora.
2. No respectivo documento, dirigido aos Conselhos Tutelares e Secretaria de Comunicação
das Prefeituras do Estado de São Paulo, é afirmado pelo Ministério das Comunicações
que o filme produzido será veiculado nacionalmente nas principais mídias, fazendo parte
da comunicação oficial do Governo Federal.

Associação de Ex-Conselheiros e Conselheiros da Infância – AECCI


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II – DO DIREITO

3. Tal conjuntura fática representa, de forma clara, propaganda eleitoral antecipada, o que
é taxativamente vedado nos termos do art. 36 da Lei nº 9.504/97 – esta que estabelece
normativas para as eleições:

Art. 36. A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 15 de agosto


do ano da eleição.

4. A violação do respectivo dispositivo enseja multa no valor de R$5.000,00 (cinco mil reais)
a R$25.000,00 (vinte e cinco mil reais) por parte do responsável, ou mesmo o equivalente
ao custo da propaganda, quando maior:

§3º A violação do disposto neste artigo sujeitará o responsável pela divulgação


da propaganda e, quando comprovado o seu prévio conhecimento, o
beneficiário à multa no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) a R$ 25.000,00
(vinte e cinco mil reais), ou ao equivalente ao custo da propaganda, se este for
maior.

5. Sendo certo que a produção midiática tem alto alcance popular e a fim de se aproveitar
desse instrumento de comunicação, o Governo Federal, atualmente representado pelo
Chefe do Executivo, sr. Presidente da República Jair Bolsonaro, apresenta de forma
explícita sua pré-campanha para candidatura.

6. Não é admissível que haja desrespeito aos princípios legais e democráticos, com
propósito único de promoção eleitoral antecipada, enaltecendo o postulante ao cargo
eletivo, devendo prevalecer, no atual momento, a neutralidade eleitoral.

7. A propagando institucional, com alusão a “Pátria Acolhedora – CONSELHO TUTELAR”, vale


dizer, ainda viola o princípio da impessoalidade.

8. Ademais, a propaganda eleitoral antecipada vem sendo, no ordenamento jurídico


eleitoral, amplamente rechaçada pela coerente e lógica jurisprudência, senão vejamos:

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REPRESENTAÇÃO. PROPAGANDA ELEITORAL ANTECIPADA. PROGRAMA DE
RÁDIO. DIVULGAÇÃO DE CANDIDATURA A REELEIÇÃO. ENALTECIMENTO DE
CARACTERÍSTICAS PESSOAIS DO REPRESENTADO. VEICULAÇÃO DE
PROPAGANDA ELEITORAL NEGATIVA EM DESFAVOR DE PRETENSO CANDIDATO
A REELEIÇÃO PARA GOVERNADOR APELO A SIMPATIA DO ELEITORADO
PROVOCAÇÃO DE SENTIMENTO DE COMPAIXÃO NO ELEITORADO.
PROCEDÊNCIA PARCIAL DA REPRESENTAÇÃO. DETERMINAÇÃO AO PRIMEIRO
REPRESENTADO PARA NÃO MAIS VEICULAR PROPAGANDA ELEITORAL
EXTEMPORÂNEA E SUA CONDENAÇÃO EM CINQUENTA MIL UFIRS.
CONDENAÇÃO DA SEGUNDA REPRESENTADA NO PAGAMENTO DA MULTA DE
VINTE MIL UFIRS E NA SUSPENSÃO DE SUA PROGRAMAÇÃO POR TRINTA E SEIS
HORAS. 1. Caracterizada a propaganda eleitoral extemporânea quando é ela
promovida por pretenso candidato antes do dia previsto no art. 36 da Lei
9.504/97. 2. É lícita a propaganda promovida através de veículo de
comunicação social – rádio – enaltecendo qualidades do postulante ao cargo
eletivo. (...) 4. É, ainda, irregular a propaganda eleitora intempestiva, que busca
apoio e sentimento de compaixão junto ao eleitorado, através de programa de
rádio. 5. Proibição ao primeiro representado ao pagamento de multa de
cinquenta mil UFIRS. 7. Condenação da segunda representada ao pagamento
de vinte mil UFRIS e suspensão de sua programação por trinta e seis horas.
ACÓRDÃO Nº 249/2006 – Espécie: Representação nº 335 – Classe 29 TER/SE

9. Ademais, vale destacar o que diz o art. 36-A, introduzido pela Lei 13.165/15:

Art. 36-A. Não configuram propaganda eleitoral antecipada, desde que não
envolvam pedido explícito de voto, a menção à pretensa candidatura, a
exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos e os seguintes atos, que
poderão ter cobertura dos meios de comunicação social, inclusive via internet.

10. Neste ponto, cumpre registrar que o chamado pedido explícito de voto pode ser textual
ou não textual. Este pode empregar um conjunto de frases, expressões, símbolos,
números e outros elementos de referência que guardam pertinência com o ato de votar,
até mesmo contextual ou instrumental, como é o caso em tela, inclusive ao mencionar,
no respetivo Ofício, termos e expressões com fins subententidos como “solicita apoio”,
“contamos com a sua colaboração” – já reconhecidos como pedido explícito de votos
(AgRg-Resp nª 2931/RJ – j.30.10.2018) –, e, sobretudo, o título da obra publicitária “Pátria
Acolhedora – CONSELHO TUTELAR”, apelando para uma ideia de compaixão e
colaboração social e nacional.

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11. De tal forma, ainda que o princípio norteador interpretado da propaganda eleitoral seja o
princípio da liberdade, não é admissível que o ato de pré-campanha possa ser praticado
em desacordo com as normas legais e os princípios democráticos de direito.

12. Nesse sentido está a postura do TSE quando das eleições de 2018, a entender
incompatível a realização de atos de pré-campanha que extrapolem os limites de forma e
meio impostos aos atos de campanha eleitoral, sob pena de se permitir desequilíbrio
entre os competidores em razão do início precoce da campanha ou em virtude de
majorada exposição em razão do uso desmedido de meios de comunicação vedados no
período crítico (Resp nº 0600227-31/PE, Rel. Min. Edson Fachin, DJe de 1º.7.2019).

13. No voto, entendeu-se também que, a despeito da licitude da exaltação de qualidades


próprias para o exercício de mandato ou a divulgação de plataformas de campanha ou
planos de governo, resta caracterizado o ilícito eleitoral quando o veículo de
manifestação se dá pela utilização de formas proscritas durante o período oficial de
propaganda.

14. Cabe observar que a propaganda realizada tem caráter extemporâneo e dissimulado,
uma vez que a propaganda é realizada por obra cinematográfica com veiculação midiática
confeccionadas de forma profissional, a serem colocadas a disposição do meio público.
No que tange à propaganda eleitoral dissimulada, destaca-se entendimento
jurisprudencial:

Recurso. Representação. Propaganda eleitoral extemporânea. Eleições 2010.


Resolução TSE 23.193/2009. Faixas de felicitação. Propaganda Eleitoral
Dissimulada. 1. Diversas faixas que veiculam cargo eletivo, imagem e nome dos
representados, a menos de seis meses do pleito eleitoral, difundindo tais
elementos juntos aos eleitores a elas expostos, constitui fato apto a caracterizar
propaganda eleitoral antecipada, quando há quebra da isonomia no pleito,
tendo em vista configuração de propaganda eleitoral dissimulada, beneficiando
determinados candidatos em detrimento daqueles que respeitam o comando
normativo do artigo 36 da Lei 9.504/97. 2. Organicidade e sistematicidade na
divulgação de nome, imagem e cargo dos representados, de formas
dissimuladas de saudação, podem atrair o comando do artigo 40-B da Lei
9.504/97, fazendo com que o prévio conhecimento do beneficiário da
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propaganda seja concluído através das circunstâncias e peculiaridades do caso,
sendo que a retirada do material impugnado não gera elisão automática de
responsabilidade. Voto pelo conhecimento e desprovimento dos recursos.
(Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro TER-RJ – RECURSO EM
REPRESENTAÇÃO: T-Tp 2993 RJ).

RECURSO ELEITORAL. VEREADOR CANDIDATO À REELEIÇÃO. OUTDOORS


CONTENDO FOTO E TEXTO ALUSIVO À APROVAÇÃO DE PROJETO DE SUA
AUTORIA. ALEGAÇÃO DE NÃO CONHECIMENTO. PROPAGANDA ELEITORAL
DISSIMULADA. IRREGULARIDADE. ART. 36 §3º DA LEI 9.504/97 C/C ART.
21610/04. IMPROVIMENTO. Caracteriza propaganda eleitoral dissimulada a
divulgação de foto e texto alusivo a projeto de autoria de vereador em ano
eleitoral, do que se deduz a intenção de reeleição para continuidade de sua
ação política, apontando razões que induzam a concluir que o beneficiário é o
mais apto ao exercício da função pública (...) (Tribunal Regional Eleitoral de
Mato Grosso do Sul TER-MS – RECURSO ELEITORAL: RE 601 MS)

15. Além disso, a propaganda dissimulada também se dá através da distribuição de objetos e


equipamentos com objetivo ilegal de captação de eleitorado, senão vejamos:

RECURSO ELEITORAL. PROPAGANDA ELEITORAL EXTEMPORÂNEA ATRAVÉS DA


DISTRIBUIÇÃO DE CALENDÁRIOS. PROPAGANDA DISSIMULADA. MENSAGEM
SUBLIMINAR. CARACTERIZAÇÃO. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. 1. A
distribuição de calendário por Político de forte atuação eleitoral no Município,
detentor de mandato eletivo, veiculando foto e mensagem eminentemente
eleitoral, configura-se propaganda eleitoral dissimulada, com mensagem
subliminar destinada a captação de simpatia do eleitorado. 2. A quantidade de
calendários confessadamente confeccionados e distribuídos não recomenda a
aplicação do princípio da insignificância, pelo alcance da mensagem junto ao
eleitorado. (...) (Tribunal Regional Eleitoral de Pará TER-PA – RECURSO
ELEITORAL: RE 2289 PA)

16. Vale mencionar, por fim, o Princípio do Controle Judicial da Propaganda, apontado pela
doutrina, que consiste na máxima segundo a qual a Justiça Eleitoral, exclusivamente,
incube a aplicação das regras jurídicas sobre a propaganda e, inclusive, o exercício de seu
Poder de Polícia.

17. Assim, portanto, resta demonstrado fortes indícios de busca ilícita de apoio eleitoral
comandada pela Governo Federal brasileiro.

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III – DOS PEDIDOS

18. Face ao exposto, REQUER:

a) Sejam adotadas as medidas administrativas no âmbito da Justiça Eleitoral e, entendendo


este Douto Procurador, pela existência de indícios de improbidade administrativa, seja
remetido à Procuradoria competente para que se apurem tais fatos.

Termos em que
Pede Deferimento.

Rio de Janeiro, 08 de fevereiro de 2022.


Assinado de forma
CARLOS digital por CARLOS
NICODEMOS NICODEMOS
SILVA
OLIVEIRA

OLIVEIRA SILVA Dados: 2022.02.08


13:54:41 -03'00'

CARLOS NICODEMOS
OAB/RJ 75.208

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