Você está na página 1de 24

CENTRO UNIVERSITÁRIO HERMINIO OMETTO

NÚCLEO DE AVALIAÇÃO

SISTEMA PROGRAMADO DE AVALIAÇÃO - SPA

QUESTÕES DE FORMAÇÃO GERAL


TEXTOS NORTEADORES

BULLYING: Uma forma de violência mais presente do que se supõe.

ABRIL DE 2011
Prezado leitor;

Nesse semestre, as questões de formação geral visam proporcionar um espaço de


reflexão sobre um problema social que afeta uma parcela considerável de crianças e
adolescentes em idade escolar. Trata-se do fenômeno que comporta uma série de agressões
cotidianas, “brincadeiras” de mau gosto e atitudes de segregação e exclusão enfeixadas sob a
designação de bullying - nome novo atribuído a um mal não tão recente assim.
Ora, é próprio de grupos sociais o exercício de relações de poder que selecionam
aqueles com o perfil mais “adequado” à maioria, preservam a hegemonia do mais forte,
relegam a segundo plano e à periferia do convívio social aqueles considerados diferentes e,
muitas vezes, despejam sobre os ombros dos mais vulneráveis, na forma de escárnios, insultos
e ameaças, as frustrações e a descarga da violência dos grupos dominantes. O bullying, por
seu turno, acaba por ser uma das faces dessa injusta forma de relacionamento social.
Depois de os especialistas conceberem um termo que definisse tal fenômeno, não
foram poucos os adultos que teceram analogias entre o bullying e experiências vividas por
eles na infância; com efeito, o bullying não é algo recente e, se agora ganha relevo tanto junto
aos especialistas de múltiplas áreas, quanto ao senso comum, comum, isso se dá,
possivelmente, tendo em vistas reverberações por vezes altamente danosas de sua prática e
algumas necessidades sociais que hoje se tornaram prementes.
Hoje, por exemplo, um dos grandes desafios da educação é proporcionar a inclusão
daquela parcela da sociedade que historicamente sempre esteve à margem do meio social
mais comum - pessoas representantes de minorias étnicas, de orientações sexuais diversas,
de classes sociais desfavorecidas, portadores de necessidades especiais, entre outros,
precisam ter seu lugar assegurado na educação, visto que, é através dela que se habilita o
cidadão para participação ativa na sociedade. Resta, contudo, o seguinte questionamento: o
bullying, sempre pronto para separar violentamente aqueles indivíduos distintos da parcela
considerada regular e “normal”, não seria um obstáculo constante à inclusão? Como
promover a igualdade no meio escolar quando aquele aluno com roupas mais humildes,
maneirismos singulares, ou com algum traço físico marcante é motivo de chacotas e
agressões?
Como se pode notar, o desafio da inclusão esbarra na questão do bullying, a qual está
arraigada a hábitos sociais mais profundos e de reverberações de extensa difusão. Agressores
e agredidos são produtos de condições sociais específicas e, eventualmente, suas ações
podem repercutir em catástrofes que tornam o problema impossível de ser ignorado.
O valentão do grupo pode ser produto tanto de um meio que tem a violência como
forma de determinação do poder, como de um lar em que mimos e regalos superficiais
mascaram a incompreensão, a desatenção e o desprezo às necessidades do indivíduo em
questão. Agressão e indiferença são formas de violência bastante similares – uma arde como
fogo, outra é fria como o ferro e ambas ferem da mesma forma. Curiosamente tais aspectos
da vida doméstica encerram as formas que o bullying tende a assumir no convívio escolar, ora,
como violência ostensiva, ora, como ostracismo e segregação.
Aliás, os mesmos lares que geram valentões, podem gerar as vítimas potenciais do
bullying. A maneira como os indivíduos reagem à violência doméstica, por vezes, varia de
acordo com o temperamento individual. Uns se endurecem, brutalizam-se ante os golpes,
outros, curvam-se, aprendem a dura lição da submissão e da resignação.
E as reverberações... recentemente o Brasil ficou chocado com o caso do “Assassino de
Realengo”. No bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, um jovem, de 24 anos,
Wellington Menezes de Oliveira, entra na Escola Municipal Tasso da Silveira – em que
estudara na infância e adolescência – e abre fogo contra os alunos, matando 12 crianças,
sendo morto, posteriormente, pela polícia. Entre seus pertences, uma carta de suicídio com
laivos de obsessão religiosa e evidencias de um histórico de exclusão e incompreensão. As
investigações constataram que o jovem, durante a infância e adolescência, teria sofrido
chacotas constantes, tendo se alienado aos poucos da vida comum, vítima da inadequação.
Adulto, tendo suas fantasias de perseguição alimentadas na solidão, perpetrou uma vingança
sem propósito contra um inimigo que não existia mais. O diagnóstico dos especialistas que
acompanharam o caso foi de que Wellington teria sido, durante a infância, vítima de buylling.
Olhando o quadro superficialmente, fica difícil encontrar justificativa no buylling
(“afinal, quantos de nós não sofremos tais agressões e nem por isso nos tornamos
assassinos?” – é o que se costuma dizer) para algo das proporções dos assassinatos de
Realengo. Todavia, quando se considera o bullying como uma forma de violência, geralmente
sofrida na época de formação e afirmação da personalidade do indivíduo (infância e
adolescência), encontra-se justificativas para tragédias dessa natureza - ora, toda ação é
sucedida por uma reação; as reações são sempre imprevisíveis. Ora, a lição que buylling
transmite é a de que a violência é o meio de relacionamento entre indivíduos, e violência é
violência, independentemente das proporções. O caso de Wellignton é uma reação
extremada.
O que se chama de bullying está circunscrito à vida escolar e aos meios frequentados
por crianças e adolescentes (sejam efetivos ou virtuais), o que explica o fato de muitos o
verem como “coisa de criança”. Com efeito, o é, mas como as crianças desenvolvem suas
estruturas de convivência e de sociabilização tomando como exemplo os modelos oferecidos
pela sociedade adulta, não é difícil tecer analogias entre o bullying e outras práticas violentas,
bem como rastrear sua origem até elas. Algumas delas, são mais cotidianas e aparentemente
inocentes, do que supomos: O “cidadão de bem” que trata prestadores de serviços mais
humildes como pessoas de segunda classe; as humilhações veladas e silenciosas dos
ambientes de trabalho; as panelinhas de fofocas dos meios sociais ditos adultos; os
elevadores de serviço; as listas Vips, os empregos que exigem “boa aparência” e tantos outros
aspectos da vida adulta com o qual convivemos passivamente, oferecem referências para a
ação dos valentões nas escolas. São formas de violência como o bullying e violência é
violência, não importa a proporção. É difícil, pois, ensinar um garoto de 8 anos de idade que
tomar à força o lanche do coleguinha franzino é errado, quando se vive em uma sociedade
que recompensa os que “podem mais”, não importando os meios pelos quais eles “possam.”
Esse paralelo pode parecer exagerado, como também é exagerada a atitude de um
rapaz que entra abrindo fogo contra crianças em uma escola, julgando-se agente de uma
cruzada divina, simplesmente por ter sido alvo de certas “brincadeiras” na infância. Em se
tratando de violência, toda reação exagerada é possível e naturalmente perigosa.
O bullying – curiosamente, um fenômeno presente na escola – também guarda suas
lições: ele ensina desde cedo que a sociedade está dividida entre exploradores e explorados.
Ensina também que não existem graus inocentes para a violência e que violência não é
brincadeira.
Para se combater o bullying seria necessário que se combatesse todo o quadro que o
envolve, sustenta e estimula – o quadro oferecido por uma sociedade desigual e violenta.
Aventaram-se vários caminhos: a educação como meio de conscientização é um deles. O
primeiro passo para resolução do problema, todavia, é o simples reconhecimento de sua
existência. É nesse sentido que abrimos espaço para tais reflexões abordando tal tema na
avaliação do 1º Semestre de 2011.
Orientações
Os textos e links que seguem são meros pontos de diálogo; estão aqui dispostos
apenas como pontos de referência e interlocutores de sua pesquisa. Ora, é válido lembrar que
todo processo de descoberta tem muito a ganhar com a dinâmica do diálogo; portanto,
investigue o assunto que propomos sempre orientado pela tentativa de avaliar todos os lados
da questão. Afinal, não é seguro formar opinião a partir de poucas referências.
Desejamos a todos bons estudos e nos colocar a disposição para o esclarecimento de
eventuais dúvidas.

Atenciosamente,

Câmara Gestora:
Prof. Dr. Fabiano Rodrigo da Silva Santos;
Prof. Ms. Carlos Eduardo Signorini;
Profª. Esp. Juliana Aparecida de B. Valverde;
Assistente de Avaliação - NAV: Alessandra Avelino Pereira.

Violência escolar e o fenômeno 'bullying'. A responsabilidade social diante do comportamento


agressivo entre estudantes por Janaína Rosa Guimarães1

Tem-se por princípios norteadores do caráter e formação do ser humano àqueles conhecidos e
esculpidos em sua personalidade desde tenra idade. Para isto, família e escola são pilares
fundamentais de sustentação de valores aptos a basear conceitos morais e sociais que seguirão por
toda uma vida.
Para que se preserve a harmonia de uma vida em sociedade, importante uma noção clara de princípios
morais e sociais basilares. Em linhas gerais, a educação de uma criança, sobretudo à noção de respeito
ao próximo, é tarefa dos pais. Quem pariu Mateus, que o embale! Contudo, no papel de fortalecer
conceitos de civilidade e convivência social, estão, secundariamente, as cadeiras escolares.
Neste cenário, temerário quando cabe ao Judiciário, como força estatal, intervir na tentativa
de resgatar conceitos básicos de vida em sociedade, acendendo um sinal de alerta a todos nós quanto
à necessidade de se resgatar princípios básicos não só do direito, mas da condição humana.

1
Advogada pós-graduada em Direito Civil e Processo Civil - Coordenadora editorial do site ADV Online - Redatora
e membro da Equipe Técnica Advocacia Dinâmica, da COAD - Membro honorário da ABDPC/Associação Brasileira
de Direito Processual Civil – Colunista da seção “Jurisprudência Comentada” da revista Visão Jurídica.
Em decisão inédita proferida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, os desembargadores,
por unanimidade, condenaram uma instituição de ensino a indenizar moralmente uma criança pelos
abalos psicológicos decorrentes de violência escolar praticada por outros alunos, tendo em vista a
ofensa ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.
Não obstante outras decisões envolvendo violência escolar, têm-se como decisão pioneira eis
que relatou abertamente um fenômeno estudado por médicos e educadores em todo mundo - o
bullying.

Da decisão, extraímos a ementa:

ABALOS PSICOLÓGICOS DECORRENTES DE VIOLÊNCIA ESCOLAR - BULLYING - OFENSA AO PRINCÍPIO DA


DIGNIDADE DA PESSOA. (...) Na espécie, restou demonstrado nos autos que o recorrente sofreu
agressões físicas e verbais de alguns colegas de turma que iam muito além de pequenos atritos entre
crianças daquela idade, no interior do estabelecimento réu, durante todo o ano letivo de 2005. É certo
que tais agressões, por si só, configuram dano moral cuja responsabilidade de indenização seria do
Colégio em razão de sua responsabilidade objetiva. Com efeito, o Colégio réu tomou algumas medidas
na tentativa de contornar a situação, contudo, tais providências foram inócuas para solucionar o
problema, tendo em vista que as agressões se perpetuaram pelo ano letivo. Talvez porque o
estabelecimento de ensino apelado não atentou para o papel da escola como instrumento de inclusão
social, sobretudo no caso de crianças tidas como “diferentes”. Nesse ponto, vale registrar que o
ingresso no mundo adulto requer a apropriação de conhecimentos socialmente produzidos. A
interiorização de tais conhecimentos e experiências vividas se processa, primeiro, no interior da família
e do grupo em que este indivíduo se insere, e, depois, em instituições como a escola. No dizer de Helder
Baruffi, “Neste processo de socialização ou de inserção do indivíduo na sociedade, a educação tem
papel estratégico, principalmente na construção da cidadania.” (TJ-DFT - Ap. Civ. 2006.03.1.008331-2 -
Rel. Des. Waldir Leôncio Júnior - Julg. em 7-8-2008)

O termo bullying

Ainda pouco estudado no Brasil e quase totalmente desconhecido pela comunidade jurídica, o
fenômeno bullying começa a ganhar espaço nos estudos desenvolvidos por pedagogos e psicólogos
ligados às instituições de ensino, ganhando destaque em meados da década de 90.
Brincadeiras de mau gosto, gozações, rixas e brigas escolares sempre existiram. Entretanto,
para tudo, existem limites. Ações e comportamentos excessivos de crianças e adolescentes no
ambiente escolar, ainda ignorados ou tratados como “normais” por pais e professores, tornou-se um
grande problema do século XXI.
O bullying, palavra derivada do verbo inglês bully (termo utilizado para designar pessoa cruel,
intimidadora, muitas vezes agressiva) significa usar a superioridade física ou moral para intimidar
alguém. O termo, adotado em vários países, vem definir todo tipo de comportamento agressivo,
intencional e repetido inerente às relações interpessoais. Ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear,
humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar,
tiranizar, dominar, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar e quebrar pertences são comportamentos
típicos do fenômeno.
Em um primeiro momento, podem parecer comportamentos agressivos que ocorrem nas
escolas e que são tradicionalmente admitidos como naturais. Para alguns, atitudes inerentes ao
“amadurecimento” de crianças e adolescentes; para outros, ações de profundo desrespeito ao
próximo e que carecem de análise.
Não obstante o estrangeirismo, a adoção universal do termo bullying se deu em razão da
dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional
Online School Bullying and Violence, ocorrida em 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado
à palavra dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha,
França, Espalha, Portugal, Brasil, e muitos outros.

A responsabilidade da escola

O bullying é um problema mundial, sendo encontrado em toda e qualquer escola, não estando
restrito a nenhum tipo específico de instituição: primária ou secundária, pública ou privada. As escolas
que não admitem a ocorrência do fenômeno entre seus alunos, ou desconhecem o problema ou se
negam a enfrentá-lo.
A escola é o primeiro contato da criança com o âmbito público, sendo um espaço plural por
natureza. Justificando-se na agitação da vida moderna, onde as famílias têm um, no máximo dois
filhos, sendo deixados em creches e escolas cada vez mais cedo, os pais, indiretamente, transferem a
responsabilidade pela educação dos filhos às escolas.
É neste ambiente que crianças e adolescentes entram em contato com um conjunto de valores
diferentes daqueles de sua família. É aqui que, via de regra, deverão aprender a viver em sociedade,
tendo noções do coletivo, da convivência harmônica e democrática.
Na decisão proferida pelo TJ-DFT, nos termos do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor, a
responsabilidade civil das escolas por defeito na prestação de serviço é objetiva.
Nestes termos, importante considerar que a entidade de ensino é investida no dever de
guarda e preservação da integridade física e psicológica do aluno, com a obrigação de empregar a mais
diligente vigilância, objetivando prevenir e evitar qualquer ofensa ou dano decorrente do convívio
escolar.
Para o relator, as agressões físicas e verbais de alguns alunos foram muito além de pequenos
atritos entre crianças. Assim, considerando que o estabelecimento de ensino não atentou para o papel
da escola como instrumento de inclusão social, a condenação foi de rigor.
Sobre a responsabilidade da escola, destacamos outro julgado, agora do Tribunal de Justiça de
São Paulo:

A responsabilidade do Estado

O Município é responsável por danos sofridos por aluno, decorrentes de mau comportamento de outro
aluno, durante o período de aulas de escola municipal. O descaso com que atendido o autor quando
procurou receber tratamento para sua filha se constitui em dano moral que deve ser indenizado. (TJ-SP
– Ap. 7109185000 – Rel. Des. Barreto Fonseca – Julg. em 11-8-2008)

A responsabilidade dos pais

Nesse ponto, vale registrar que o ingresso no mundo adulto requer a apropriação de
conhecimentos socialmente produzidos. Para tanto, sabe-se que a natureza humana não é
espontaneamente generosa, respeitosa e solidária. Virtudes como essas devem ser rotineiramente
aprendidas e exercitadas.
A interiorização de tais conhecimentos e experiências vividas se processa, em primeiro lugar,
no interior da família e do grupo em que este indivíduo se insere. Neste sentido, cabe aos pais e
responsáveis zelar pela condução de princípios básicos, eis que, neste processo de socialização ou de
inserção do indivíduo na sociedade, a educação tem papel estratégico, principalmente na construção
da cidadania.
É no seio familiar que são construídos os primeiros conceitos de moralidade, civilismo e ética.
Neste sentido, compete aos pais a responsabilidade pelos abusos e atitudes violentas praticadas pelos
seus filhos.
O comportamento agressivo vem ganhando mais força com a internet. O cyberbullying – a
versão on-line da prática – tem potencial para fazer ainda mais vítimas que o bullying tradicional. A
versão virtual do fenômeno, através de e-mails, páginas na web, sites de relacionamento, programas
de bate-papo, mensagens via celular, favorecidos na maioria das vezes pela facilidade do anonimato,
vem tomando proporções geométricas.
Também em decisão de vanguarda na Justiça brasileira, o Tribunal de Justiça de Rondônia
condenou os pais de um grupo de alunos que, utilizando de um ambiente virtual, agrediram
moralmente um professor.
Vê-se, pois, que o comportamento agressivo de crianças e adolescentes não estão limitados
apenas aos colegas. Infelizmente, o desrespeito e humilhação vêm atingindo os próprios educadores.

Assim se destaca da ementa:

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - COMUNIDADE VIRTUAL DO ORKUT - MENSAGENS DEPRECIATIVAS A


PROFESSOR - RESPONSABILIDADE DOS PAIS. Os danos morais causados por divulgação, em
comunidade virtual – orkut – de mensagens depreciativas, denegrindo a imagem de professor –
identificado por nome –, mediante linguagem chula e de baixo calão, e com ameaças de depredação a
seu patrimônio, devem ser ressarcidos. Incumbe aos pais, por dever legal de vigilância, a
responsabilidade pelos ilícitos cometidos por filhos incapazes sob sua guarda. (TJ-RO – Acórdão COAD
126721 - Ap. Civ. 100.007.2006.011349-2 – Rel. Convocado Juiz Edenir Sebastião Albuquerque da Rosa
– Public. em 19-9-2008)

Em seu voto, o relator fez as seguintes considerações:

“A meu ver, tais condutas ultrapassam, em muito, o que pode ser considerado brincadeira, pois não é a
pretexto de brincadeira que se justifica ofender a honra alheia ou se ameaça depredar o patrimônio
alheio. Caso não saibam os apelantes, a brincadeira, quando ocorre, tem o consentimento e a empatia
das partes envolvidas, e não foi assim que os fatos se deram. Quanto à função punitiva da reparação,
esta se dirige diretamente aos pais, que têm o dever de vigilância e educação, de forma que o
cumprimento de medida socioeducativa pelos filhos não tem o condão de, por si só, afastá-la. Saliento
que o dever de vigilância é uma incumbência legal dos pais, enquanto responsáveis pelos filhos. Trata-
se de um dever legal objetivo do qual não pode o responsável se escusar, ao argumento de ser
impossível a vigilância do filho por vinte e quatro horas ao dia. Noutras palavras, o argumento trazido
pelos apelantes é por demais frágil e não afasta os consectários do descumprimento do dever legal.
Quanto à repercussão dos comentários lesivos, é fato notório que as comunidades virtuais do orkut
têm ampla divulgação aos cadastrados via internet, não sendo crível que os dados ali postados
tenham-se restringido aos vinte e nove membros participantes do grupo. Portanto, não há como
afastar a responsabilidade dos apelantes, sendo devida a reparação pelos danos deflagrados.”

As conseqüências no ambiente escolar e na sociedade

Ao aprofundarmos nossa reflexão, veremos claramente que o bullying, fenômeno cruel e


silencioso, não traz somente consequências negativas para o ambiente escolar.
Para o Promotor de Justiça de Minas Gerais Lélio Braga Calhau, o fenômeno estimula a
delinquência, induzindo a outras formas de violência explícita, aptas a produzir, em larga escala,
“cidadãos estressados, deprimidos e com baixa auto-estima, capacidade de auto-afirmação e de auto-
expressão, além de propiciar o desenvolvimento de sintomatologias de estresse, de doenças
psicossomáticas, de transtornos mentais e de psicopatologias graves”.
Neste contexto, válido relembrar o caso do adolescente sul-coreano Cho Seung-Hui
responsável pelo massacre em uma Universidade Estadual da Virgínia, nos Estados Unidos da América,
em abril de 2007. Vítima de bullying pelos colegas de turma, o estudante invadiu a universidade
matando 32 pessoas, deixando mais de 15 feridas e, em seguida, suicidando-se.
As estatísticas vindas dos estudos realizados por pediatras, pedagogos e psicólogos mostram
números cada vez mais preocupantes de tal prática em nossas instituições de ensino.
Não obstante a iniciativa de alguns Estados e municípios em adotar uma política para adoção
de um programa de combate ao bullying, não existe uma legislação específica tratando do tema,
cabendo ao Judiciário aplicar as regras e sanções previstas na Constituição Federal, no Estatuto da
Criança e do Adolescente, no Código Penal, por exemplo.
Após um caso ocorrido com um estudante na Paraíba, a Câmara Municipal de João Pessoa
aprovou projeto, dando origem à Lei municipal 11.381/08 que dispõe sobre o combate ao fenômeno.
Recentemente, o Governador do Estado de Santa Catarina sancionou a Lei estadual 14.651/09 para
instituição do programa de combate ao bullying, de ação interdisciplinar e de participação comunitária
nas escolas públicas e privadas do Estado.
Em Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, a iniciativa ainda está sendo analisada pelo Poder
Legislativo, através dos respectivos projetos de lei 350/07 e 683/07.
Na lição do educador Içami Tiba, “o enfrentamento do bullying, além de ser uma medida
disciplinar, também é um gesto cidadão tremendamente educativo, pois prepara os alunos para a
aceitação, o respeito e a convivência com as diferenças”.
Destarte, é tempo de reflexão de toda a sociedade, em especial pais, professores, pedagogos,
psicólogos e, agora, juristas. O bullying não pode ser entendido como mero banalizador para o nível de
tolerância da sociedade com relação à violência. Infelizmente, enquanto a sociedade não estiver
preparada para lidar com o bullying, serão mínimas as chances de reduzir as outras formas de
comportamentos agressivos e destrutivos.
Reduzir a prevalência de bullying nas escolas pode ser uma medida de saúde pública
altamente efetiva para o século XXI. A sua prevalência e gravidade compelem os pesquisadores a
investigar os riscos e os fatores de proteção, associados com a iniciação, manutenção e interrupção
desse tipo de comportamento agressivo. Os conhecimentos adquiridos com os estudos devem ser
utilizados como fundamentação para orientar e direcionar a formulação de políticas públicas e para
delinear as técnicas multidisciplinares de intervenção que possam reduzir esse problema de forma
eficaz.
Para o tema, não há que se discutir aqui a quem compete à responsabilidade na educação de
crianças e adolescentes. Diante do desrespeito flagrante e a ausência de noções básicas de civilidade,
todos devem “ficar de castigo”, pais e professores.
Em um país como o Brasil, onde o incentivo à melhoria da educação de seu povo se tornou um
instrumento socializador e de desenvolvimento, onde grande parte das políticas sociais é voltada para
a inclusão escolar, as escolas passaram a ser espaço próprio e mais adequado para a construção
coletiva e permanente das condições favoráveis para o pleno exercício da cidadania.

Revista Jus Vigilantibus, Sexta-feira, 24 de julho de 2009

Bullying - comportamento agressivo entre estudantes - Aramis A. Lopes Neto2

Artigo disponível em:


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S002175572005000700006%20&script=sci_arttext

Introdução

A violência é um problema de saúde pública importante e crescente no mundo, com sérias


1-4
conseqüências individuais e sociais , particularmente para os jovens, que aparecem nas estatísticas
como os que mais morrem e os que mais matam 5.
Hoje em dia, é consenso que a violência pode ser evitada, seu impacto minimizado e os fatores que
contribuem para respostas violentas mudados. Segundo Debarbieux & Blaya 6, não se trata de uma
questão de fé, mas de uma afirmação baseada em evidências. Exemplos bem sucedidos podem ser
encontrados em todo o mundo, desde trabalhos individuais e comunitários em pequena escala, até
políticas nacionais e iniciativas legislativas.
Uma das formas mais visíveis da violência na sociedade é a chamada violência juvenil, assim
7,8
denominada por ser cometida por pessoas com idades entre 10 e 21 anos . Grupos em que o
comportamento violento é percebido antes da puberdade tendem a adotar atitudes cada vez mais
agressivas, culminando em graves ações na adolescência e na persistência da violência na fase adulta 4,
7, 9,10
.
Quando abordamos a violência contra crianças e adolescentes e a vinculamos aos ambientes onde ela
ocorre, a escola surge como um espaço ainda pouco explorado, principalmente com relação ao
comportamento agressivo existente entre os próprios estudantes. A violência nas escolas é um

2
Sócio Fundador Associação da Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA).
Coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes. Diretor da Diretoria dos
Direitos da Criança da SOPERJ. Médico da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
problema social grave e complexo e, provavelmente, o tipo mais freqüente e visível da violência
juvenil9, 11-13.
O termo "violência escolar" diz respeito a todos os comportamentos agressivos e anti-sociais,
incluindo os conflitos interpessoais, danos ao patrimônio, atos criminosos, etc. Muitas dessas
situações dependem de fatores externos, cujas intervenções podem estar além da competência e
capacidade das entidades de ensino e de seus funcionários. Porém, para um sem número delas, a
solução possível pode ser obtida no próprio ambiente escolar.
O comportamento violento, que causa tanta preocupação e temor, resulta da interação entre o
desenvolvimento individual e os contextos sociais, como a família, a escola e a comunidade.
Infelizmente, o modelo do mundo exterior é reproduzido nas escolas, fazendo com que essas
instituições deixem de ser ambientes seguros, modulados pela disciplina, amizade e cooperação3, e
se transformem em espaços onde há violência, sofrimento e medo.

Bullying

Estudos sobre as influências do ambiente escolar e dos sistemas educacionais sobre o


desenvolvimento acadêmico do jovem já vêm sendo realizados, mas é necessário também que tais
influências sejam observadas pela ótica da saúde.
A escola é de grande significância para as crianças e adolescentes, e os que não gostam dela têm
maior probabilidade de apresentar desempenhos insatisfatórios, comprometimentos físicos e
emocionais à sua saúde ou sentimentos de insatisfação com a vida. Os relacionamentos interpessoais
positivos e o desenvolvimento acadêmico estabelecem uma relação direta, onde os estudantes que
perceberem esse apoio terão maiores possibilidades de alcançar um melhor nível de aprendizado14.
Portanto, a aceitação pelos companheiros é fundamental para o desenvolvimento da saúde de
crianças e adolescentes, aprimorando suas habilidades sociais e fortalecendo a capacidade de reação
diante de situações de tensão15.
3,9
A agressividade nas escolas é um problema universal . O bullying e a vitimização representam
diferentes tipos de envolvimento em situações de violência durante a infância e adolescência. O
bullying diz respeito a uma forma de afirmação de poder interpessoal através da agressão. A
vitimização ocorre quando uma pessoa é feita de receptor do comportamento agressivo de uma
outra mais poderosa. Tanto o bullying como a vitimização têm conseqüências negativas imediatas e
tardias sobre todos os envolvidos: agressores, vítimas e observadores16.
Por definição, bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que
ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor
e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder 3,11. Essa assimetria de poder
associada ao bullying pode ser conseqüente da diferença de idade, tamanho, desenvolvimento físico
ou emocional, ou do maior apoio dos demais estudantes 3, 11,17.
Trata-se de comportamentos agressivos que ocorrem nas escolas e que são tradicionalmente
admitidos como naturais, sendo habitualmente ignorados ou não valorizados, tanto por professores
quanto pelos pais.
A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas
línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de
maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a
identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha,
Portugal e Brasil, entre outros18.
As pesquisas sobre bullying são recentes e ganharam destaque a partir dos anos 1990,
principalmente com Olweus, 1993; Smith & Sharp, 1994; Ross, 1996; Rigby, 19963. Estudos indicam
que a prevalência de estudantes vitimizados varia de 8 a 46%, e de agressores, de 5 a 30% 3,19.
A escola é vista, tradicionalmente, como um local de aprendizado, avaliando-se o desempenho dos
alunos com base nas notas dos testes de conhecimento e no cumprimento de tarefas acadêmicas. No
entanto, três documentos legais formam a base de entendimento com relação ao desenvolvimento e
educação de crianças e adolescentes: a Constituição da República Federativa do Brasil, o Estatuto da
Criança e do Adolescente e a Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações
Unidas. Em todos esses documentos, estão previstos os direitos ao respeito e à dignidade, sendo a
educação entendida como um meio de prover o pleno desenvolvimento da pessoa e seu preparo
para o exercício da cidadania.
Todos desejamos que as escolas sejam ambientes seguros e saudáveis, onde crianças e adolescentes
possam desenvolver, ao máximo, os seus potenciais intelectuais e sociais. Portanto, não se pode
admitir que sofram violências que lhes tragam danos físicos e/ou psicológicos, que testemunhem tais
fatos e se calem para que não sejam também agredidos e acabem por achá-los banais ou, pior ainda,
que diante da omissão e tolerância dos adultos, adotem comportamentos agressivos.
A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA)
desenvolveu o Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, objetivando
investigar as características desses atos entre 5.500 alunos de quinta à oitava série do ensino
fundamental e sistematizar estratégias de intervenção capazes de prevenir a sua ocorrência.
Apesar de o estudo ter sido realizado em pouco mais de 1 ano, de setembro de 2002 a outubro de
2003, foi possível reduzir a agressividade entre os estudantes, favorecendo o ambiente escolar, o
nível de aprendizado, a preservação do patrimônio e, principalmente, as relações humanas (Tabela 1
e 2).
Classificação

O bullying é classificado como direto, quando as vítimas são atacadas diretamente, ou indireto,
quando estão ausentes. São considerados bullying direto os apelidos, agressões físicas, ameaças,
roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal estar aos alvos. São atos utilizados
com uma freqüência quatro vezes maior entre os meninos. O bullying indireto compreende atitudes
de indiferença, isolamento, difamação e negação aos desejos, sendo mais adotados pelas meninas
3,11,19-21
.
Uma nova forma de bullying, conhecida como cyberbullying, tem sido observada com uma
freqüência cada vez maior no mundo. Segundo Bill Belsey, trata-se do uso da tecnologia da
informação e comunicação (e-mails, telefones celulares, mensagens por pagers ou celulares, fotos
digitais, sites pessoais difamatórios, ações difamatórias online) como recurso para a adoção de
comportamentos deliberados, repetidos e hostis, de um indivíduo ou grupo, que pretende causar
danos a outro(s)22. A vitimização através de telefones celulares foi admitida por 14 a 23% dos
adolescentes entrevistados em três pesquisas23-25.

Fatores de risco

Fatores econômicos, sociais e culturais, aspectos inatos de temperamento e influências


familiares, de amigos, da escola e da comunidade, constituem riscos para a manifestação do bullying
e causam impacto na saúde e desenvolvimento de crianças e adolescentes9,21.
O bullying é mais prevalente entre alunos com idades entre 11 e 13 anos, sendo menos
freqüente na educação infantil e ensino médio 14, 17,26.
Entre os agressores, observa-se um predomínio do sexo masculino, enquanto que, no papel de
vítima, não há diferenças entre gêneros. O fato de os meninos envolverem-se em atos de bullying
mais comumente não indica necessariamente que sejam mais agressivos, mas sim que têm maior
possibilidade de adotar esse tipo de comportamento. Já a dificuldade em identificar-se o bullying
entre as meninas pode estar relacionada ao uso de formas mais sutis3, 14.
Considerando-se que a maioria dos atos de bullying ocorre fora da visão dos adultos, que grande
parte das vítimas não reage ou fala sobre a agressão sofrida22, pode-se entender por que professores
e pais têm pouca percepção do bullying, subestimam a sua prevalência e atuam de forma insuficiente
para a redução e interrupção dessas situações19, 27. A ABRAPIA identificou que 51,8% dos autores de
bullying admitiram não terem sido advertidos3. A aparente aceitação dos adultos e a conseqüente
sensação de impunidade favorecem a perpetuação do comportamento agressivo.
A redução dos fatores de risco pode prevenir o comportamento agressivo entre crianças e
adolescentes. Os esforços devem ser direcionados para a diminuição da exposição à violência no
ambiente escolar, doméstico e comunitário, além daquela divulgada pela mídia28.

Formas de envolvimento dos estudantes

As crianças e adolescentes podem ser identificados como vítimas, agressores ou testemunhas


de acordo com sua atitude diante de situações de bullying. Não há evidências que permitam prever
qual papel adotará cada aluno, uma vez que pode ser alterado de acordo com as circunstâncias27.
A forma de classificação utilizada pela ABRAPIA teve o cuidado de não rotular os estudantes,
evitando que estes fossem estigmatizados pela comunidade escolar. Adotaram-se, então, os termos
autor de bullying (agressor), alvo de bullying (vítima), alvo/autor de bullying (agressor/vítima) e
testemunha de bullying3, 29.

Alvos de bullying
Considera-se alvo o aluno exposto, de forma repetida e durante algum tempo, às ações
negativas perpetradas por um ou mais alunos. Entende-se por ações negativas as situações em que
alguém, de forma intencional e repetida, causa dano, fere ou incomoda outra pessoa.
Em geral, não dispõe de recursos, status ou habilidade para reagir ou cessar o bullying.
Geralmente, é pouco sociável, inseguro e desesperançado quanto à possibilidade de adequação ao
grupo. Sua baixa auto-estima é agravada por críticas dos adultos sobre a sua vida ou
comportamento, dificultando a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos, é passivo, retraído,
infeliz e sofre com a vergonha, medo, depressão e ansiedade. Sua auto-estima pode estar tão
comprometida que acredita ser merecedor dos maus-tratos sofridos3, 9, 11, 14, 22, 27,30.
O tempo e a regularidade das agressões contribuem fortemente para o agravamento dos
efeitos. O medo, a tensão e a preocupação com sua imagem podem comprometer o
desenvolvimento acadêmico, além de aumentar a ansiedade, insegurança e o conceito negativo de si
mesmo8. Pode evitar a escola e o convívio social, prevenindo-se contra novas agressões. Mais
raramente, pode apresentar atitudes de autodestruição ou intenções suicidas ou se sentir compelido
a adotar medidas drásticas, como atos de vingança, reações violentas, portar armas ou cometer
suicídio25, 27,31.
Algumas características físicas, comportamentais ou emocionais podem torná-lo mais vulnerável
às ações dos autores e dificultar a sua aceitação pelo grupo. A rejeição às diferenças é um fato
descrito como de grande importância na ocorrência de bullying. No entanto, é provável que os
autores escolham e utilizem possíveis diferenças como motivação para as agressões, sem que elas
sejam, efetivamente, as causas do assédio26, 29, 32,33.
Embora não haja estudos precisos sobre métodos educativos familiares que incitem ao
desenvolvimento de alvos de bullying, alguns deles são identificados como facilitadores: proteção
excessiva, gerando dificuldades para enfrentar os desafios e para se defender; tratamento
infantilizado, causando desenvolvimento psíquico e emocional aquém do aceito pelo grupo; e o
papel de "bode expiatório" da família, sofrendo críticas sistemáticas e sendo responsabilizado pelas
frustrações dos pais.
Nos casos em que alunos armados invadiram as escolas e atiraram contra colegas e professores,
cerca de dois terços desses jovens eram vítimas de bullying e recorreram às armas para combater o
poder que os sucumbia. As agressões não tiveram alvos específicos, sugerindo que o desejo era o de
"matar a Escola", local onde diariamente todos os viam sofrer e nada faziam para protegê-los3.
É pouco comum que a vítima revele espontaneamente o bullying sofrido, seja por vergonha, por
temer retaliações, por descrer nas atitudes favoráveis da escola ou por recear possíveis críticas. Na
pesquisa da ABRAPIA, 41,6% dos alunos alvos admitiram não ter falado a ninguém sobre seu
sofrimento3. O silêncio só é rompido quando os alvos sentem que serão ouvidos, respeitados e
valorizados. Conscientizar as crianças e adolescentes que o bullying é inaceitável e que não será
tolerado permite o enfrentamento do problema com mais firmeza, transparência e liberdade11.

Autores de bullying

Algumas condições familiares adversas parecem favorecer o desenvolvimento da agressividade


nas crianças. Pode-se identificar a desestruturação familiar, o relacionamento afetivo pobre, o
excesso de tolerância ou de permissividade e a prática de maus-tratos físicos ou explosões
emocionais como forma de afirmação de poder dos pais 3, 8, 21,26,27.
Fatores individuais também influem na adoção de comportamentos agressivos: hiperatividade,
impulsividade, distúrbios comportamentais, dificuldades de atenção, baixa inteligência e
desempenho escolar deficiente.
O autor de bullying é tipicamente popular; tende a envolver-se em uma variedade de
comportamentos anti-sociais; pode mostrar-se agressivo inclusive com os adultos; é impulsivo; vê
sua agressividade como qualidade; tem opiniões positivas sobre si mesmo; é geralmente mais forte
que seu alvo; sente prazer e satisfação em dominar, controlar e causar danos e sofrimentos a outros.
Além disso, pode existir um "componente benefício" em sua conduta, como ganhos sociais e
materiais 11, 21, 29,34. São menos satisfeitos com a escola e a família, mais propensos ao absenteísmo e
à evasão escolar e têm uma tendência maior para apresentarem comportamentos de risco (consumir
tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar, etc) 3, 8,35-37. As possibilidades são maiores em
crianças ou adolescentes que adotam atitudes anti-sociais antes da puberdade e por longo tempo 9,
27,37
.
Pode manter um pequeno grupo em torno de si, que atua como auxiliar em suas agressões ou é
indicado para agredir o alvo. Dessa forma, o autor dilui a responsabilidade por todos ou a transfere
para os seus liderados. Esses alunos, identificados como assistentes ou seguidores, raramente
tomam a iniciativa da agressão, são inseguros ou ansiosos e se subordinam à liderança do autor para
se proteger ou pelo prazer de pertencer ao grupo dominante11.

Testemunhas de bullying

A maioria dos alunos não se envolve diretamente em atos de bullying e geralmente se cala por
medo de ser a "próxima vítima", por não saberem como agir e por descrerem nas atitudes da escola.
Esse clima de silêncio pode ser interpretado pelos autores como afirmação de seu poder, o que ajuda
a acobertar a prevalência desses atos, transmitindo uma falsa tranqüilidade aos adultos 3,27.
Grande parte das testemunhas sente simpatia pelos alvos, tende a não culpá-los pelo ocorrido,
condena o comportamento dos autores e deseja que os professores intervenham mais efetivamente
38,39
. Cerca de 80% dos alunos não aprovam os atos de bullying3.
A forma como reagem ao bullying permite classificá-los como auxiliares (participam ativamente
da agressão), incentivadores (incitam e estimulam o autor), observadores (só observam ou se
afastam) ou defensores (protegem o alvo ou chamam um adulto para interromper a agressão)19.
Muitas testemunhas acabam acreditando que o uso de comportamentos agressivos contra os
colegas é o melhor caminho para alcançarem a popularidade e o poder e, por isso, tornam-se autores
de bullying19. Outros podem apresentar prejuízo no aprendizado; receiam ser relacionados à figura
do alvo, perdendo seu status e tornando-se alvos também; ou aderem ao bullying por pressão dos
colegas9.
Quando as testemunhas interferem e tentam cessar o bullying, essas ações são efetivas na
maioria dos casos. Portanto, é importante incentivar o uso desse poder advindo do grupo, fazendo
com que os autores se sintam sem o apoio social necessário3, 8.

Alvos/autores de bullying
Aproximadamente 20% dos alunos autores também sofrem bullying, sendo denominados
alvos/autores. A combinação da baixa auto-estima e atitudes agressivas e provocativas é indicativa
de uma criança ou adolescente que tem, como razão para a prática de bullying, prováveis alterações
psicológicas, devendo merecer atenção especial. Podem ser depressivos, inseguros e inoportunos,
procurando humilhar os colegas para encobrir suas limitações. Diferenciam-se dos alvos típicos por
serem impopulares e pelo alto índice de rejeição entre seus colegas e, por vezes, pela turma toda 11,
17,21
. Sintomas depressivos, pensamentos suicidas e distúrbios psiquiátricos são mais freqüentes
nesse grupo 40,41.

Conseqüências
Alvos, autores e testemunhas enfrentam conseqüências físicas e emocionais de curto e longo
prazo 8, as quais podem causar dificuldades acadêmicas, sociais, emocionais e legais 12,17.
Evidentemente, as crianças e adolescentes não são acometidas de maneira uniforme, mas existe
uma relação direta com a freqüência, duração e severidade dos atos de bullying 14.
Pessoas que sofrem bullying quando crianças são mais propensas a sofrerem depressão e baixa
auto-estima quando adultos. Da mesma forma, quanto mais jovem for a criança freqüentemente
agressiva, maior será o risco de apresentar problemas associados a comportamentos anti-sociais em
adultos e à perda de oportunidades, como a instabilidade no trabalho e relacionamentos afetivos
pouco duradouros14,22,35.
O simples testemunho de atos de bullying já é suficiente para causar descontentamento com a
escola e comprometimento do desenvolvimento acadêmico e social11.
Prejuízos financeiros e sociais causados pelo bullying atingem também as famílias, as escolas e a
sociedade em geral. As crianças e adolescentes que sofrem e/ou praticam bullying podem vir a
necessitar de múltiplos serviços, como saúde mental, justiça da infância e adolescência, educação
especial e programas sociais.
O comportamento dos pais dos alunos alvo pode variar da descrença ou indiferença a reações
de ira ou inconformismo contra si mesmos e a escola. O sentimento de culpa e incapacidade para
debelar o bullying contra seus filhos passa a ser a preocupação principal em suas vidas, surgindo
sintomas depressivos e influenciando seu desempenho no trabalho e nas relações pessoais. A
negação ou indiferença da direção e professores pode gerar desestímulo e a sensação de que não há
preocupação pela segurança dos alunos42.
A relação familiar também pode ser seriamente comprometida. A criança ou adolescente pode
sentir-se traído, caso entenda que seus pais não estejam acreditando em seus relatos ou quando
suas ações não se mostram efetivas43.

(...)

Conclusão
As conseqüências geradas pelo bullying são tão graves que crianças norte-americanas, com
idades entre 8 e 15 anos, identificam esse tipo de violência como um problema maior que o racismo
e as pressões para fazer sexo ou consumir álcool e drogas47.
A inexistência de políticas públicas que indiquem a necessidade de priorização das ações de
prevenção ao bullying nas escolas, objetivando a garantia da saúde e da qualidade da educação,
significa que inúmeras crianças e adolescentes estão expostos ao risco de sofrerem abusos regulares
de seus pares. Além disso, aqueles mais agressivos não estão recebendo o apoio necessário para
demovê-los de caminhos que possam vir a causar danos por toda a vida.
Reduzir a prevalência de bullying nas escolas pode ser uma medida de saúde pública altamente
efetiva para o século XXI. A sua prevalência e gravidade compelem os pesquisadores a investigar os
riscos e os fatores de proteção, associados com a iniciação, manutenção e interrupção desse tipo de
comportamento agressivo. Os conhecimentos adquiridos com os estudos devem ser utilizados como
fundamentação para orientar e direcionar a formulação de políticas públicas e para delinear as
técnicas multidisciplinares de intervenção que possam reduzir esse problema de forma eficaz.
Em um país como o Brasil, onde o incentivo à melhoria da educação de seu povo se tornou um
instrumento socializador e de desenvolvimento, onde grande parte das políticas sociais é voltada
para a inclusão escolar, as escolas passaram a ser o espaço próprio e mais adequado para a
construção coletiva e permanente das condições favoráveis para o pleno exercício da cidadania.
As instituições de saúde e educação, assim como seus profissionais, devem reconhecer a
extensão e o impacto gerado pela prática de bullying entre estudantes e desenvolver medidas para
reduzi-la rapidamente. Aos profissionais de saúde, particularmente aos pediatras, é recomendável
que sejam competentes para prevenir, investigar, diagnosticar e adotar as condutas adequadas
diante de situações de violências que envolvam crianças e adolescentes, tanto na figura de autor,
como na de alvo ou testemunha.
Mesmo admitindo que os atos agressivos derivem de influências sociais e afetivas, construídas
historicamente e justificadas por questões familiares e/ou comunitárias, é possível considerar a
possibilidade infinita de pessoas descobrirem formas de vida mais felizes, produtivas e seguras.
Todas as crianças e adolescentes têm, individual e coletivamente, uma prerrogativa humana de
mudança, de transformação e de reconstrução, ainda que em situações muito adversas, podendo vir
a protagonizar uma vida apoiada na paz, na segurança possível e na felicidade. Mas esse desafio não
é simples e, em geral, depende de uma intervenção interdisciplinar firme e competente,
principalmente pelos profissionais das áreas de educação e saúde.
O bullying pode ser entendido como um balizador para o nível de tolerância da sociedade com
relação à violência. Portanto, enquanto a sociedade não estiver preparada para lidar com o bullying,
serão mínimas as chances de reduzir as outras formas de comportamentos agressivos e destrutivos11.

Referências

1. Krug EG, Dahlberg LL, Mercy JA, Zwi AB, Lozano R. Introduction. World report on violence and
health. Geneva: WHO; 2002:ixx-xxii
2. Conselho Nacional de Saúde. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e
Violência. 2001 Maio 18. Ministério da Saúde.
http://conselho.saude.gov.br/comissao/acidentes_violencias2.htm. [ Links ]
3. Neto AA, Saavedra LH. Diga NÃO para o Bullying. Rio de Janeiro: ABRAPI; 2004. [ Links ]
4. Health Link - Medical College of Wisconsin. Understanding and preventing youth violence.
http://healthlink.mcw.edu/article/984090068.html. Acesso: 09/09/2005. [ Links ]
5. United States Department of Health and Human Services. Youth violence: A report of the Surgeon
General. www.surgeongeneral.gov/library/ youthviolence/report.html. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
6. Debarbieux E, Blaya C. Violência nas escolas e políticas públicas. Brasília: UNESCO;
2002. [ Links ]
7. American Academy of Pediatrics. Task Force on Violence. The Role of the Pediatrician in Youth
Violence Prevention in Clinical Practice and at the Community Level. Pediatrics. 1999;103:173-
81. [ Links ]
8. American Medical Association. Commission for the prevention of youth violence. Youth and
violence. www.ama-assn.org/ama/upload/mm/386/fullreport.pdf. [ Links ]
9. LD Online. Bullying: Peer abuse in schools. Source: Preventing Bullying - A Manual for Schools and
Communities US Department of Education 11/3/1998. www.ldonline.org/ld_indepth/social_skills/
preventing_bullying.html. [ Links ]
10. Kids Health. Medical Research News for Parents. Addressing aggression in early childhood.
www.kidshealth.org/research/aggression_childhood.html. Acesso: 09/09/2005. [ Links ]
11. Pearce JB, Thompson AC. Practical approaches to reduce the impact of bullying. Arch Dis Child.
1998;79:528-31. [ Links ]
12. Medem, Inc. News from AMA: Report finds young patients often have no one to confide in when
they are being bullied. www.medem.com/medlb/
article_detaillb.cfm?article_ID=ZZZY56ZBP2D&sub_cat=609. Acesso: 09/09/2005. [ Links ]
13. Elinoff MJ, Chafouleas SM, Sassu KA. Bullying: considerations for defining and intervening in
school settings. Psychol Sch. 2004;41:887-897. [ Links ]
14. Ravens-Sieberer U, Kökönyei G, Thomas C. School and health. In: Currie C, Roberts C, Morgan A,
Smith R, Settertobulte W, Samdal O, et al. (editors). Young people's health in context. Health
Behavior in School-aged Children (HBSC) study: international report from the 2001/2002 survey.
Health Policy for Children and Adolescents; N° 4. World Health Organization. 2004. p. 184-
195. [ Links ]
15. Samdal O, Dür W, Freeman J. School. In: Currie C, Roberts C, Morgan A, Smith R, Settertobulte W,
Samdal O, et al. (editors). Young people's health in context. Health Behavior in School-aged Children
(HBSC) study: international report from the 2001/2002 survey. Health Policy for Children and
Adolescents; N° 4. World Health Organization. 2004. p. 42-51. [ Links ]
16. Craig WM, Harel Y. Bullying, physical fighting and victimization. In: Currie C, Roberts C, Morgan A,
Smith R, Settertobulte W, Samdal O, et al. (editors). Young people's health in context. Health
Behavior in School-aged Children (HBSC) study: international report from the 2001/2002 survey.
Health Policy for Children and Adolescents; N° 4. World Health Organization. 2004. p. 133-144.
17. Lyznicki JM, McCaffree MA, Rabinowitz CB, American Medical Association, Chicago, Illinois.
Childhood bullying: implications for physicians. Am Fam Physician. 2004;70:1723-8.
18. Visionary-.net. School Bullying and violence. 2005 may 4 — jun 3. www.conference.bullying-in-
school.info
19. Fekkes M, Pijpers FI, Verloove-Vanhorick SP. Bullying: who does what, when and where?
Involvement of children, teachers and parents in bullying behavior. Health Educ Res. 2005;20:81-
91.
20. Kidscape. You can beat bullying — A guide for young people, 2005.
www.kidscape.org.uk/assets/downloads/ksbeatbullying.pdf.
21. University of Colorado. Center of Study and Prevention of Violence — Institute of Behavioral
Science at University of Colorado at Bouder. Blueprints for violence prevention — Training and
technical assistance. www.colorado.edu/cspv/ blueprints/model/programs/BPP.html.
22. Shroff Pendley JS. Bullying and your child. www.kidshealth.org/
parent/emotions/behavior/bullies.html. Acesso: 09/09/2005.
23. NetSafe.org. The text generation — Mobile phones and New Zealand youth. A report of results
from the Internet Safety Group's survey of teenage mobile phone use.
www.netsafe.org.nz/Doc_Library/publications/text_generation_v2.pdf. Acesso: 09/09/2005.
24. BBC News. Warning over ‘bullying by mobile'. BBC News. 2005 Jun 7.
news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/education/4614515.stm.
25. NCH.org. Putting U in the picture — Mobile bullying survey 2005. www.nch.org.uk/uploads/
documents/Mobile_bullying_%20report.pdf. Acesso: 09/09/2005.
26. Eslea M, Rees J. At what age are children most likely to be bullied at school?. Aggr. Behav.
2001;27:419-29.
27. Dawkins J. Bullying in school: doctor's responsibilities. BMJ 1995;310:274-5. [ Links ]
28. American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. Understanding violent behavior in children
and adolescents. Washington DC. American Academy of Child & Adolescent Psychiatry; AACAP Facts
for Families nº 55. www.aacap.org/publications/factsfam/behavior.htm. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
29. Chesson R. Bullying: the need for an interagency response — bullying is a social as well as an
individual problem. BMJ. 1999 Aug 7;319:330-31. bmj.com/cgi/content/full/319/7206/330. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
30. Smith PK, Talamelli L, Cowie H, Naylor P, Chauhan P. Profiles of non-victims, escaped victims,
continuing victims and new victims of school bullying. Br J Educ Psychol. 2004 Dec;74:565-581.
www.ingentaconnect.com/content/ bpsoc/bjep/2004/00000074/00000004/art00005. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
31. Anderson M, Kaufman J, Simon TR, Barrios L, Paulozzi L, Ryan G, et al. School-Associated Violent
Deaths in the United States, 1994-1999. JAMA. 2001;286:2695-702. [ Links ]
32. Salmivalli C, Karhunen J, Lagerspetz KMJ. How do the victims respond to bullying? Aggr Behav.
1998 Dec 6;22:99-109. www3.interscience.wiley.com/ cgi-bin/abstract/64138/ABSTRACT. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
33. Substance Abuse and Mental Health Services Administration; US Department of Health and
Human Services, Center for Mental Health Services. Bullying is not a Fact of Life, 2003. Washington
DC .Center for Mental Health Services (CMHS). [ Links ]
34. KidsHealth. Dealing with bullies. www.kidshealth.org/kid/feeling/emotion/bullies.html. Acesso:
09/09/2005. [ Links ]
35. Due EP, Holstein BE, Jorgesen OS. Bullying as health hazard among school children. Ugeskr
Laeger. 1999;161:2201-6 [ Links ]
36. Sudermann M, Jaffe PG, Schieck E. Bullying: information for parents and teachers. Center for
Children and Families in the Justice System. 1996. www.lfcc.on.ca/bully.htm. [ Links ]
37. National Institutes of Health, National Institute of Child Health and Human Development. Bullies,
victims at risk for violence and other problem behaviors. NIH News Release. April 14, 2003.
www.nichd.nih.gov/new/releases/bullies.cfm. Acesso: 12/09/2005. [ Links ]
38. Menesini E, Eslea M, Smith PK, Genta ML, Giannetti E, Fonzi A, Costabile A. Cross-national
comparison of children's attitudes towards bully/victim problems in school. Aggr Behav. 1998 Dec
6;23. www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/fulltext/46367/PDFSTART. Acesso:
12/09/2005. [ Links ]
39. Baldry AC. 'What about bullying?' An experimental field study to understand students' attitudes
towards bullying and victimization in Italian middle schools. Br J Educ Psychol. 2004;74(Pt 4):583-98.
www.ingentaconnect.com/search/article?title=bullying&title_type=tka&year_
from=1997&year_to=2004&database=1&pageSize=20&index=44. [ Links ]
40. Kaltiala-Heino R, Rimpelä M, Marttunen M, Rimpelä A, Rantanen P. Bullying, depression, and
suicidal ideation in Finnish adolescents: school survey. BMJ. 1999 Aug;319(7206).
http://bmj.bmjjournals.com/cgi/content/full/319/7206/348. Acesso: 12/09/2005 [ Links ]
41. Kumpulainen K, Räsänen E, Puura K. Psychiatric disorders and the use of mental health services
among children involved in bullying. Aggr Behav. 2001 Mar 30; 27. www3.interscience.wiley.com/cgi-
bin/fulltext/78504095/PDFSTART. Acesso: 12/09/2005. [ Links ]
42. Anonyme Foreldre Av Mobbeofre. Dag Oulie psychiatrist.
www.afam.no/cgi/nyheter.pl?id=37&lang=1. Acesso: 12/09/2005.
43. American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. Bullying. AACAP facts for families nº 80; c.
2004. www.aacap.org/publications/factsfam/80.htm. Acesso: 12/09/2005. [ Links ]
44. American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. Conduct disorder. AACAP Facts for Families
nº 33; c. 2004. www.aacap.org/publications/factsfam/conduct.htm. Acesso: 12/09/2005. [ Links ]
45. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. A Cultura da Paz em Resposta à Violência. Suplemento Rio
Estudos. Diário Oficial do Município, 2001 Aug 13. [ Links ]
46. Mihalic S, Irwin K, Elliott D, Fagan A, Hansen D. Blueprints for violence prevention: U.S.
Department of Justice, Office of Justice Programs, Office of Juvenile Justice and Delinquency
Prevention. Juvenile Justice Bulletin; 2001 Jul.
www.ncjrs.org/pdffiles1/ojjdp/187079.pdf. [ Links ]
47. Bond L, Carlin JB, Thomas L, Rubin K, Patton G. Does bullying cause emotional problems? A
prospective study of young teenagers. BMJ. 2001;323:480-4. [ Links ] Incluído em 24/05/2005

Maldade da Infância e Adolescência: Bullying

Disponível em: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=372&sec=20

Um dos grandes equívocos de nossa sociedade está em acreditar que basta ser criança para ser uma
pessoa boazinha. Costumava causar impacto ao afirmar, politicamente incorreto, que as crianças são
naturalmente más (parodiando Hobbes e seu Estado Natural). São elas que agridem os menores,
pisam em formiguinhas, tocam fogo no rabo do gato, são egoístas ao extremo, querem tudo para
elas próprias, judiam dos mais fracos e participam do fenômeno conhecido por Bullying. De fato, isso
não é ser bonzinho (veja Violência e Agressão da Criança e Adolescente).

O termo Bullying, que não existe na língua portuguesa. Ele significa formas de agressões intencionais
repetidas por estudantes, que causam angústia ou humilhação a outro. Compreende, pois, todas as
formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivações evidentes,
adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro
de uma relação desigual de poder. O Bullying se encontra presente, possivelmente, em variadíssimas
situações, tais como, colocar apelidos, ofender, zoar, gozar, sacanear, humilhar, discriminar, excluir,
isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir,
bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, quebrar pertences, etc.
Segundo artigo de Aramis Antônio Lopes Neto e Lauro Monteiro Filho o Bullying pode se manifestar
de quatro formas diferentes: verbal, físico, psicológico e sexual. Referem pesquisas onde a maioria
dos alunos vitimados por Bullying destaca como a situação mais freqüente a identificação por apelido
com maldade e com propósitos de humilhação, seguido do roubo de pertences (39%), a indução ao
uso de drogas (30%) e os ataques violentos (25%).
Normalmente existem três tipos de pessoas envolvidas nessa situação de violência: o expectador, a
vítima e o agressor. O espectador é aquele que presencia as situações de Bullying e não interfere.
Sua omissão deve-se por duas razões principais: por tornar-se inseguro e temeroso e por isso sentir
medo de sofrer represálias ou, ao contrário, por estar sentindo prazer com o sofrimento da vítima e
não tem coragem de assumir a identidade de agressor. Os expectadores do primeiro tipo (os mais
medrosos), apesar de não sofrerem as agressões diretamente, podem se sentir incomodados com a
situação e com a incapacidade de agirem.
A vítima, por outro lado, costuma ser a pessoa mais frágil, com algum traço ligeiramente destoante
do modelinho culturalmente imposto ao grupo etário em questão, traço este que pode ser físico (uso
de óculos, alguma deficiência, não ser tão bonitinho...) ou emocional, como é o caso da timidez, do
retraimento...
Vítima costuma ser uma pessoa que não dispõe de habilidades físicas e emocionais para reagir, tem
um forte sentimento de insegurança e um retraimento social suficiente para impedí-la de solicitar
ajuda. Normalmente é uma pessoa retraída e com dificuldades para novas amizades ou para se
adequar ao grupo. A vítima é freqüentemente ameaçada, intimidada, isolada, ofendida,
discriminada, agredida, recebe apelidos e provocações, tem os objetos pessoais furtados ou
quebrados. No ambiente familiar a vítima apresenta sinais de evitação, medo ou receio de ir para
escola, mas, não obstante, como dissemos, não procura ajuda dos familiares, professores ou
funcionários da escola.
Tudo isso acaba fazendo com que a vítima troque de escola freqüentemente, ou pior, que abandone
os estudos. Nos casos mais graves a vítima contumaz acaba desenvolvendo uma severa depressão,
podendo chegar a tentar ou cometer o suicídio.

Os agressores no Bullying são, comumente, pessoas antipáticas, arrogantes e desagradáveis. Alguns


trabalhos sugerem que essas pessoas vêm de famílias pouco estruturadas, com pobre
relacionamento afetivo entre seus membros, são debilmente supervisionados pelos pais e vivem em
ambientes onde o modelo para solucionar problemas recomenda o uso de comportamento agressivo
ou explosivo.
Há fortes suspeitas de que as crianças ou jovens que praticam o Bullying têm grande probabilidade
de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais, psicopáticos e/ou violentos, tornando-se,
inclusive, delinqüentes ou criminosos. Normalmente o agressor acha que todos devem atender seus
desejos de imediato e demonstra dificuldade de colocar-se no lugar do outro.
O Bullying é um problema mundial, é um problema do ser humano imaturo, logo, deve acompanhar
a humanidade desde a pré-história. É um fenômeno encontrado em toda e qualquer escola, não
estando restrito a nenhum tipo específico de instituição: primária ou secundária, pública ou privada,
rural ou urbana, em qualquer país.

Os meninos estão mais envolvidos com o Bullying com uma


freqüência muito maior, tanto como autores quanto como alvos. Já
entre as meninas, embora com menor freqüência, o Bullying também
ocorre e se caracteriza, principalmente, como prática de exclusão ou
difamação.

De acordo com Rosana Del Picchia de Araújo Nogueira e Kátia A Kühn Chedid (veja), o conceito de
Bullying pode também ser aplicado na relação de pais e filhos e entre professor e aluno, citando
como exemplos, aqueles adultos que ironizam, ofendem, expõe as dificuldades perante o grupo,
excluem, fazem chantagens, colocam apelidos preconceituosos e têm a intenção de mostrar sua
superioridade e poder, usando deste comportamento freqüentemente.
De acordo ainda com artigo Bullying na Escola e na Vida, de Nogueira e Chedid, citado acima, em
Portugal um em cada cinco alunos (22%), de 6 a 16 anos, já foi vítima de Bullying na escola, sendo o
local mais comum de ocorrência de maus-tratos os pátios de recreio (78% dos casos) e os corredores
(31,5% dos casos). Na Espanha a incidência do Bullying se situa em torno de 15% a 20% nas pessoas
em idade escolar, quase o mesmo observado em Portugal e em outros países da Comunidade
Européia.
Muitas crianças, vítimas de Bullying, desenvolvem medo, pânico, depressão, distúrbios
psicossomáticos e geralmente evitam retornar à escola. A fobia escolar geralmente tem como causa
algum tipo dessa violência. Outras crianças que sofrem Bullying, dependendo das características de
suas personalidade e das relações com os meios onde vivem, em especial entre suas famílias,
poderão não superar totalmente os traumas sofridos na escola. Elas poderão crescer com
sentimentos negativos e com baixa autoestima, apresentando sérios problemas de relacionamento
no futuro. Poderão, outrossim, assumir um comportamento agressivo, vindo a praticar o Bullying no
ambiente sócio-cupacional adulto e em casos extremos, poderão tentar ou a cometer suicídio.
Raymundo de Lima, citando Lopes Neto (veja), observa que os casos de suicídio acontecem, em geral,
nas pessoas que não suportaram a grande pressão psicológica do Bullying. Observa ainda o pior
efeito da pressão sofrida nos casos de Bullying seja, talvez, fazer a vítima se sentir absolutamente
inexpressiva, insignificante, abjeta, desprezível, enfim, uma agressão que combina fazer de conta que
a vítima não existe, aniquilando totalmente a autoestima, suprimindo, inclusive, as condições para
ela desabafar com alguém.

Para referir:
Ballone GJ - Maldade da Infância e Adolescência: Bullying - in. PsiqWeb, Internet, disponível em
www.psiqweb.med.br , revisto em 2005.