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Goldman, Marcio. Segmentaridades e Movimentos Negros nas Eleiçõ es de Ilheus.

Comentá rios a respeito do artigo “Segmentaridades e Movimentos Negros nas


Eleições de Ilhéus” de Marcio Goldman.

“Esse material resulta de uma pesquisa, desenvolvida desde 1996, que tenta,
basicamente, estudar a política (no sentido de política partidá ria e de Estado) em
Ilhéus, encarando-a do ponto de vista do movimento negro da cidade.” [p.58]

“Isso significa que nã o pretendo realizar um estudo antropoló gico do movimento


negro de Ilhéus (para o qual deve-se consultar Silva 1998, cap. 3), mas da política
na cidade, orientando essa investigaçã o pela perspectiva cética e descentrada
que o movimento negro tem a seu respeito.” [p.59]

“No caso da política, tratar-se-ia de encarar as representaçõ es nativas sobre os


processos políticos dominantes como verdadeiras teorias políticas, produzidas
por observadores suficientemente deslocados em relaçã o ao objeto para que
possam produzir visõ es realmente alternativas, e de usar tais representaçõ es e
teorias como guias para a aná lise antropoló gica.” [pp.58-59]
Marcio fala um pouco mais sobre “teoria política”:
“Em primeiro lugar, trata-se de recusar a falsa dicotomia entre “ideologia” e
“açã o” (ou princípio ideal e organizaçã o real, ou como se quiser denominar). Se
aceitarmos a hipó tese de Lienhardt, e encararmos a segmentaridade como uma
“teoria política”, seremos capazes de compreender que ela informa e dá sentido à
açã o sem que tenha que corresponder ponto por ponto ao que agentes e
antropó logos creem observar empiricamente.” [p.77]

Nã o estou analisando observadores “suficientemente deslocados”. Nã o estou


fazendo antropologia nem etnografia. No entanto, estou procurando encarar as
opiniõ es dos autores que estudo como portadoras de mú ltiplas teorias políticas.
Desconfio que estas, por sua vez, sejam arranjadas em distintos projetos
políticos.

Nã o tenho mais tempo para verificar isso. Minhas hipó teses, portanto, nã o
passariam de hipó teses. Posso, contudo, apontar para esta direçã o: fazer o
trabalho prévio.

Marcio dá mais pistas de como procedeu:


“Isto passa, creio, pela elaboraçã o de uma perspectiva que leve a sério o que os
agentes sociais efetivamente fazem e dizem, e, ao mesmo tempo, seja capaz de
conferir aos dados um tipo de organizaçã o que acrescente algo à s apreensõ es
necessariamente parciais a que a vida social nos condena.” [p.60]
“Habituados a noçõ es como “partidos”, “programas”, “ideologias”, somos levados
a recorrer a modelos puramente negativos que costumam sustentar que
instituiçõ es centrais nas democracias ocidentais apresentariam, no Brasil, um
cará ter flutuante, incerto e duvidoso. Assim, os partidos políticos brasileiros nã o
teriam a consistência ideoló gica e programá tica que os caracterizaria nas
democracias mais tradicionais e consolidadas. Do mesmo modo, a constante e
irregular circulaçã o de políticos entre partidos aparentemente distintos, os
inesperados realinhamentos de alianças e lealdades, as flutuaçõ es ideoló gicas e
mudanças programá ticas seriam tributá rios do cará ter incipiente da democracia
brasileira, onde os partidos ainda nã o estariam bem enraizados, de forma que
posicionamentos e ideologias permaneceriam ao sabor de idiossincrasias e
conveniências mais ou menos pessoais. Se tivermos alguma inclinaçã o pela
antropologia, podemos acrescentar a isso algumas características de nossa
“cultura”, que tornariam difícil o estabelecimento, entre nó s, de sistemas e ideais
derivados da modernidade individualista e universalista.” [p.66]

“Como se sabe, foram antropó logos britâ nicos estudando “sistemas políticos
africanos” sem Estado, nas décadas de 30 e 40, que introduziram a noçã o de
segmentaridade no pensamento antropoló gico.” [p.67]

“Lienhardt também embaralha a clá ssica questã o acerca do grau de


materialidade da segmentaridade — princípio ideal ou forma efetiva de
comportamento —, sustentando que a segmentaridade dinka seria, antes de
tudo, uma teoria, no sentido forte do termo: uma “teoria política dinka” que
serviria, simultaneamente, para explicar e orientar a “prá tica política” dessa
sociedade.” [p.69]

“Se a “fissã o” representa uma efetiva separaçã o de grupos (ou seja, um grupo se
converte em dois ou mais), a “segmentaçã o” é um processo reversível, e o que é
apenas um grupo em determinado nível segmentar se divide em dois em outro,
sem deixar de ser um no anterior.” [p.69]

“A segmentaçã o é, portanto, universal, e isso basta para nos livrar de toda
tentaçã o tipoló gica: a segmentaçã o “até recentemente era tratada como um tipo
exó tico em vez de um aspecto universal da vida política”. (...) Na verdade, a
segmentaçã o representa um dos modelos de “relatividade social” acionados em
qualquer sociedade: “a segmentaçã o é o arranjo relativo das alianças políticas de
acordo com critérios genealó gicos, ou outros, de distâ ncia social entre grupos em
disputa”. [pp.75-76]

“Ainda que a estrutura segmentar do Estado seja em geral “dissimulada”, ela


existe; ao mesmo tempo, unidades claramente segmentares sã o continuamente
cooptadas pelo aparelho de Estado, passando a obedecer a uma ló gica da
centralizaçã o. Entre segmentaridade e Estado as relaçõ es sã o de oposicã o e de
composiçã o, e se o “cará ter necessariamente segmentar de, virtualmente,
qualquer Estado-naçã o” tende a ser desconsiderado pelos antropó logos, é
preciso reconhecer que “a segmentaçã o permanece — ao menos
conceitualmente — um componente paradoxalmente necessá rio do
nacionalismo estatal” [p.76]
“Ora, liberar a segmentaridade desse viés sociologizante significa igualmente
liberá -la do “tipologismo” — no caso, da “grande divisã o” que aprisiona o
conceito, a oposiçã o entre sistemas segmentares e siste- mas estatais. Como
vimos, os segundos sã o tã o segmentares quanto os primeiros, ao menos a partir
do momento em que passamos a nos inte- ressar mais pelos processos e funçõ es
ou funcionamentos do que pelas formas.” [p.77]

A noçã o de segmentaridade como algo pertencente a qualquer sociedade nã o


enfraquece a ideia de teoria política nativa?

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