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A filosofia é um luxo?  –   Pierre H adot  1


 

A filosofia é um luxo? O que é um luxo é dispendioso e inútil. [....] É


evidentemente sobre o problema da inutilidade da filosofia que nos deteremos. Parece-
nos, portanto, que a questão posta nos obriga a nos interrogar necessariamente sobre a
 própria  definição  de  filosofia.  E,  finalmente,  para  além  até  mesmo  da  natureza  da
filosofia, é ao drama da condição humana que nossa reflexão nos conduzirá.
Em geral, os não filósofos consideram a filosofia uma linguagem abstrusa, um
discurso abstrato, que um pequeno grupo de especialistas, único a poder compreendê-lo,
desenvolve indefinidamente acerca de questões incompreensíveis e sem interesse, uma
ocupação reservada a alguns privilegiados que, graças a seu dinheiro ou a uma feliz
confluência de circunstâncias, têm o ócio para se dedicar a ela; um luxo portanto. [...]
 No nosso mundo moderno no qual reina a técnica científica e industrial, no qual tudo é
avaliado em função da rentabilidade e do lucro comercial, para que pode servir discutir
as relações entre verdade e subjetividade, mediato e imediato, contingência e
necessidade, ou a dúvida metódica em Descartes? [...]
A glória da filosofia, responderão alguns filósofos, é precisamente ser um luxo e
um discurso inútil. Primeiramente, se não houvesse senão o útil no mundo, o mundo
seria irrespirável. A poesia, a música, a pintura, elas também são inúteis. Elas não
melhoram a produtividade. Mas são, todavia, indispensáveis à vida. Elas nos libertam
da urgência utilitária. É, igualmente, o caso da filosofia. Sócrates, nos diálogos de
Platão, ressalta a seus interlocutores que eles têm todo o tempo deles para discutir, que
nada os apressa. E é bem verdadeiro que, para isso, é preciso ócio, como é preciso ócio
 para pintar, para compor música e poesia.
E é precisamente o papel da filosofia revelar aos homens a utilidade do inútil ou,
caso se preferia, de lhes ensinar a distinguir entre dois sentidos da palavra útil. Há o que
é útil para um fim particular: a calefação, a iluminação ou os transportes, e há o que é
útil ao homem enquanto homem, enquanto sernsante. pe O discurso da filosofia é “útil”
nesse último sentido, mas é um luxo, caso se considere como útil apenas o que serve a
fins particulares e materiais.
[...]
Se a maior parte dos homens considera a filosofia um luxo, é sobretudo porque
ela lhes parece infinitamente afastada do que constitui a substância de suas vidas: suas
 preocupações, seus sofrimentos, suas angústias, a perspectiva da morte que os espera e
que espera os que eles amam. Em face dessa realidade esmagadora da vida, o discurso
filosófico não pode lhes parecer senão uma vã tagarelice e um luxo irrisório... “Palavras,
 palavras, palavras”, dizia  Hamlet. O que é, em última instância, o mais útil ao homem
enquanto homem? É discorrer sobre a linguagem ou sobre o ser e o não ser? Não é,
antes, aprender a viver uma vida humana?
Evocamos há pouco os discursos de Sócrates, discursos sobre o discurso dos
outros. Eles não eram destinados, todavia, a construir um edifício conceitual, um
1
  Texto publicado pela primeira vez no  Le  Monde  de  L’Éducation , nº 191, março 1992, p. 90-93.
Utilizamos a versão brasileira, publicada pela É Realizações, referência completa ao final

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