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ESCOLA TÉCNICA VENCER

CURSO TÉCNICO EM FARMÁCIA

APOSTILAS

Duque de Caxias,
Janeiro/ 2021

Rua Mariano Sendra dos Santos, 88 – sala 308 – Duque de Caxias – Rio de Janeiro – CEP: 25010-080
Site: https://escolatecnicavencer.com.br/ Telefones: 4114-3835 / 97010-0713
ESCOLA TÉCNICA VENCER

CURSO TÉCNICO EM FARMÁCIA

SAÚDE COLETIVA

Duque de Caxias,
Janeiro/2021

Rua Mariano Sendra dos Santos, 88 – sala 308 – Duque de Caxias – Rio de Janeiro – CEP: 25010-080
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APOSTILA DE SAÚDE COLETIVA

Sumário

1. Introdução ........................................................................................................................................ 5
2. O processo saúde-doença ................................................................................................................ 5
3.1 Princípio do SUS ............................................................................................................................. 8
3.2 Financiamento do SUS ................................................................................................................... 9
3.3 Controle Social do SUS ................................................................................................................. 10
3.4 Ações do SUS ................................................................................................................................ 10
3.5 Competências............................................................................................................................... 11
4. Educação em saúde........................................................................................................................ 31
4.1 Introdução .................................................................................................................................... 31
4.2 De que trata a Educação em Saúde ............................................................................................. 32
4.3 Tópicos Emergentes em Educação em Saúde ............................................................................. 33
5. O ambiente e os processos de restauração ................................................................................... 34
5.1 Introdução .................................................................................................................................... 34
5.2 O processo de desajustamento do organismo e as doenças transmissíveis ............................... 35
5.3 Características dos microorganismos na produção da doença ................................................... 35
5.4 Peculiaridades das doenças transmissíveis.................................................................................. 36
6. Implementação de medidas........................................................................................................... 37
6.1 Removendo Obstáculos ............................................................................................................... 39
7. Níveis de atenção à saúde.............................................................................................................. 40
7.1 Níveis de Prevenção de Doenças ................................................................................................. 41
7.2 Período Pré-Patológico ................................................................................................................ 41
7.3 Período Patológico ....................................................................................................................... 42
7.4 Níveis de Prevenção ..................................................................................................................... 42
8. Programas de atenção à saúde ...................................................................................................... 45
8.1 Programa de Atenção Integral à Saúde do Adulto ...................................................................... 45
8.2 Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher...................................................................... 45
8.3 Programa de Atenção Integral à Saúde da Criança ..................................................................... 46
8.4 Programa de Atenção à Saúde do Trabalhador ........................................................................... 47
8.5 Programa de Assistência Integral à Saúde do Idoso .................................................................... 47
8.6 Programa Saúde da Família (PSF) ................................................................................................ 48
8.7 Programa de Saúde Bucal ............................................................................................................ 49
8.8 Programa Nacional de Imunização .............................................................................................. 49

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9. Programa Saúde da Família........................................................................................ 51


10. Anexos .......................................................................................................................................... 54
10.1 Aquisição de Medicamentos pelo SUS....................................................................................... 54
10.2 Aquisição no Componente Básico.............................................................................................. 54
10.3 Aquisição no Componente Especializado .................................................................................. 55
10.4 Aquisição no Componente Estratégico ...................................................................................... 55
10.5 Formas de aquisição dos medicamentos ................................................................................... 56
10.6 Judicialização da saúde .............................................................................................................. 56
10.7 Rupturas no processo licitatório ................................................................................................ 57
10.8 Por que faltam medicamentos no SUS? .................................................................................... 58
10.9 Papel do farmacêutico ............................................................................................................... 58
10.10 Irregularidades e corrupção ..................................................................................................... 59
11 Referências .................................................................................................................................... 60

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1. Introdução
Um olhar sobre a Saúde Pública deve levar em conta o novo paradigma que pressupõe
atitudes e hábitos de vida saudáveis; que considera a prevenção como a melhor maneira de garantir
a saúde; que incentiva pesquisas em que a assistência à saúde se faça por meio de abordagens
alternativas para atuar junto à assistência usual, medida por uma abordagem puramente biomédica
e pouco preocupada com a satisfação humana pouco gratificante e bem menos desafiadora.

A Saúde Pública é a ciência e a arte de prevenir as doenças, de prolongar a vida e melhorar


a saúde e a eficiência mental e física dos indivíduos, por meio da intervenção técnica e política do
Estado na assistência, que irá intervir no processo saúde-doença quebrando sua cadeia causal
mediante o tratamento e a reabilitação do indivíduo doente, ou evitando seus riscos e danos por
intermédio da prevenção e promoção da saúde, além do controle dos sadios com base no
conhecimento científico, ancorado nas técnicas de investigação empíricas que voltam-se tanto para
o individual (ações preventivas e de promoção à saúde com atividades de assistência médica e
reabilitação) como para o coletivo (através de ações governamentais das políticas de saúde dirigidas
ao coletivo).

2. O processo saúde-doença
A saúde e doença são processos íntimos e limítrofes, que se manifestam continuamente
durante a vida das pessoas, de forma individual ou coletiva, em determinado espaço físico e tempo.

Observamos que, ao longo de nossa história de vida e da vida de nossos antepassados, as


formas de atendimento das necessidades de saúde mudam. Essas mudanças não acontecem por
acaso. A limitação ou o avanço do conhecimento, as culturas dos povos, a forma do homem se
relacionar com o meio em que vive, sua visão sobre o processo de ter saúde e de adoecer, são os
principais fatores que definem os caminhos para o desenvolvimento de políticas públicas de saúde,
que visam atender às pessoas em seus estados de saúde e de doença.

A partir da década de 1970, os movimentos políticos mundiais orientam-se para uma política
de saúde para todos, de forma a atender de fato às necessidades da população, considerando, saúde
e doença como um processo determinado pelas condições socioeconômicas e políticas nas quais as
pessoas vivem e trabalham, ampliando, assim, o conceito de saúde para além da simples ausência
de doenças.

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Passou-se a apontar as constantes mudanças na relação do homem com o meio


ambiente por causa da exploração ambiental, do crescimento demográfico, das relações com o
mundo do trabalho e do avanço da tecnologia como interferências diretas no modo de viver da
população e, consequentemente, no estado de saúde das pessoas e no perfil epidemiológico. A
forma com que o homem evolui e sua interação com o meio em que vive, por meio do acesso à
renda que possibilita o consumo de bens e serviços e do exercício da cidadania, definem os
determinantes do processo saúde-doença de uma geração ou um momento histórico. Os problemas
de saúde são, então, resultados de um processo complexo e dinâmico que se produz no interior da

sociedade.

São determinantes do processo saúde-doença os modos de viver da população,


considerando o estilo de vida resultante de acesso à moradia, aos meios de transporte, à educação,
à assistência à saúde, à alimentação, ao lazer, ao saneamento; o meio ambiente, destacando-se a
relação com a sociedade e com o trabalho; e as características particulares de cada pessoa,
compreendendo os fatores genéticos, imunológicos e psicológicos.

É nessa lógica que percebemos mudanças consideráveis no perfil epidemiológico, quando


passamos a conviver com uma alteração no quadro de doenças da população, com a inclusão de
moléstias relacionadas ao trabalho, a acidentes de trânsito, à violência urbana, ao êxodo rural
desgovernado, à poluição ambiental, entre outras.

É preciso compreender o que determina o processo de saúde e de doença para que as


atividades/ações propostas pelas políticas de saúde/serviços de saúde venham a atender as
necessidades das pessoas, com resultados voltados para a melhoria da qualidade de vida.
Desenvolver o processo de trabalho em saúde é hoje um dos grandes desafios par os profissionais
da área, tanto nas atividades individuais como nas coletivas. É preciso incorporar novos olhares para

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fora e para dentro das Unidades de Saúde, atrelando a esses olhares a noção de saúde
como processo de movimento instável, de ordem biológica, de vivências, de condições de vida e de
trabalho dos indivíduos, da família e da sociedade.

Desenvolver ações de promoção da saúde e prevenção de agravos, nos espaços de saúde


coletiva, exige da equipe de enfermagem um agir profissional dentro desse contexto, rompendo
com a prática dos serviços, viciada na atuação curativa, cujas ações estão voltadas somente para a
solução de queixas específicas e pontuais.

Essa nova forma de atuação pressupõe um trabalho consciente, criativo, solidário,


construído pelos gestores, pelo conjunto de trabalhadores das equipes de saúde e pelos usuários
do serviço, promovendo, ainda, a integração da saúde com as demais áreas de gestão pública, para
a consolidação das propostas e apropriação do direito à saúde e à cidadania.

Conhecer os determinantes de saúde da população do município/bairro/território de


atuação dos profissionais da saúde e buscar dentro das políticas públicas de saúde, estratégias ou
meios para atender às demandas oriundas das necessidades das pessoas, famílias ou grupos sociais
são formas de ampliar a possibilidade da atenção à saúde, cujas ações devam contemplar o
atendimento ampliado de saúde, propiciando à população espaços para troca de conhecimento
sobre o processo saúde-doença, passo decisório para a formulação de conceitos e mudanças no
estilo de vida.

3. O Sistema Único de Saúde


O atendimento à saúde antes da constituição de 1988, sempre foi garantido para quem era
registrado no emprego e tinha aquele desconto no salário para aposentadoria e assistência
médica. A outra parte da população ficava com o que sobrava.
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado para melhorar a saúde do povo e significa uma
conquista de várias pessoas isoladas ou em grupos, institucionalizadas ou não que lutaram por mais
de 10 anos para que isso acontecesse. O que está na Constituição e nas Leis da saúde é uma vitória
da sociedade unida e organizada que lutou por seus direitos. Agora, é a mesma sociedade que deve
fazer cumprir o que está definido na lei.

O Sistema Único de Saúde é uma nova formulação política e organizacional para o reordena
mento dos serviços e ações de saúde, estabelecida pela Constituição de 1988. O SUS não se
pretende um novo serviço ou instituição, mas um sistema sob responsabilidade dos três setores

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autônomos de Governo – federal, estadual e municipal – e significa um conjunto de


unidades, serviços e ações integradas para uma ação comum. Responsabiliza-se pelas atividades de
promoção, proteção e recuperação da saúde seguindo a mesma doutrina e princípios em todo
território nacional.

As premissas desse novo sistema estão dispostas na Lei nº 8080, de 19/09/90 ou Lei Orgânica
da Saúde, conforme o estabelecido nos artigos 196 a 200 da Constituição Federal, que
explicitamente reconhece a saúde como direito de todos e dever do Estado e determina sua
implantação.

• Universalidade – É a garantia de atenção à saúde, por parte do sistema, a todo e qualquer cidadão
em todos os níveis devendo, o poder público, proverem o pleno gozo desse direito, inclusive em
serviços contratados.

• Equidade - É assegurar que todo cidadão é igual perante o SUS, devendo ser atendido conforme
suas necessidades, de acordo com a complexidade que cada caso exija, até o limite que o sistema
possa oferecer a todos.

• Integridade – É o reconhecimento de que cada pessoa é um todo individual e integrante de uma


comunidade e que, por isso, deve ser atendida integralmente por um sistema de saúde também
integral, voltado a promover, proteger e recuperar a saúde.

3.1 Princípio do SUS


1 – Os serviços devem ser organizadas de forma REGIONALIZADA e HIERARQUIZADA em níveis
crescentes e complexidade, dispostos numa área geográfica delimitada, com sua população definida
para atendimento. O acesso da população à rede de saúde ocorreria através dos serviços de nível
primário, qualificados para resolver as principais demandas. A partir daí, conforme a necessidade
de cada caso seriam referenciados para serviços de maior complexidade tecnológica até a solução
de seus problemas e, quando possível, contra referenciados para sua unidade primária de origem.
Dessa forma ter-se-ia um conhecimento maior dos problemas de saúde daquela região delimitada,
possibilitando ações específicas de vigilância epidemiológica, sanitária, controle de vetores,
educação em saúde, além das atenções ambulatoriais e hospitalares.

2 – Os serviços, até o nível de sua competência, estariam capacitados para enfrentar com
RESOLUBILIDADE o atendimento individual ou um problema de impacto coletivo sobre a saúde.

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3 – A responsabilidade e o comando das ações e serviços de saúde seria


DESCENTRALIZADA entre os vários níveis de governo, entendendo quanto mais próximo do fato for
tomada a decisão, mais chance de acerto haverá. Portanto, deverá ocorrer uma profunda
redefinição das atribuições dos vários níveis do Governo, reforçado e poder municipal que teria uma
responsabilidade maior na promoção das ações de saúde diretamente voltadas aos seus cidadãos.
É o que denominamos MUNICIPALIZAÇÃO DA SAÚDE.

4 – A garantia da PARTICIPAÇÃO DA POPULAÇÃO, através de suas entidades representativas no


processo de formulação das políticas de saúde e do controle da sua execução, em todas as esferas,
desde a federal até a local. Essa participação se dá nos CONSELHOS DE SAÚDE que têm
representação partidária de usuários – governo, profissionais de saúde e de prestadores de saúde
–, quando necessário. A participação deveria ocorrer ainda nas conferências de saúde, para definir
prioridades e linhas de ação. Nesse processo é dever das instituições oferecerem informações e
conhecimentos necessários para que a população se posicione livremente sobre as questões de
saúde.

5 – Como princípio geral fica estabelecido que o SETOR PRIVADO só possa participar do SUS quando
for provada a insuficiência do setor público.

3.2 Financiamento do SUS


Antes da Constituição, os recursos para financiar a assistência médica eram provenientes da
Previdência Social e os recursos para financiar as ações coletivas eram provenientes do Ministério
da Saúde. Com a criação do SUS, a Constituição de 88 determinou que as ações de saúde, tanto a
assistência médica como as ações coletivas, deveriam ser financiadas com recursos provenientes do
Orçamento da Seguridade Social, do Orçamento da União, do Distrito Federal, dos Estados, dos
municípios e das contribuições sociais (dos empregadores, incidentes sobre a folha de salário, o
faturamento e o lucro; dos trabalhadores; sobre a receita de concursos e prognósticos – Loterias,
Sena, Super Sena), além de outras fontes.

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3.3 Controle Social do SUS


O controle social e a participação da população são os pilares do SUS. Isto acontece através
de dois instrumentos básicos:

a) Conselho Municipal de Saúde: Reúne representantes de diferentes setores da sociedade. Ele tem
caráter permanente e deliberativo, isto é, deve existir e se reunir sempre e resolver, após discussão,
o que, e como, será feito na área da saúde em determinada localidade. Deve também controlar e
fiscalizar a execução da política de saúde, inclusive quanto aos aspectos econômicos e financeiros,
lutando junto às diferentes instâncias de poder para que mais recursos sejam garantidos.

b) Conferência de Saúde (municipais, estaduais e nacionais): Onde se discute o que é importante


para cada município, para cada localidade. É um momento de consulta ampliada à sociedade, a cada
comunidade. Elas têm a função de avaliar a situação de saúde e propor diretrizes para a política de
saúde, quer dizer, o que é decidido nas conferências deve ser seguido pelo dirigente ou secretário
da saúde nas diferentes esferas do Governo. Elas devem ser convocadas a cada quatro anos, mas
sempre que se achar necessário pode ser criado mecanismos como assembleias e plenários para
discutir os problemas de saúde de uma localidade.

Para exercer efetivamente o controle social, o cidadão, seja ele conselheiro ou não, precisa estar
bem informado. A informação é uma ferramenta básica para melhorar a saúde da população.

3.4 Ações do SUS


Como exemplos das ações que devem ser desenvolvidas pelo SUS, no campo da promoção
da saúde, citam a educação em saúde, bons padrões de nutrição e alimentação, estímulo à prática
de exercícios físicos, hábitos de higiene pessoal, domiciliar e ambiental, desestímulo ao
sedentarismo, ao tabagismo, ao alcoolismo, ao consumo de drogas e à promiscuidade sexual. Já no
campo da proteção da saúde, as ações seriam as inerentes à vigilância epidemiológica e sanitária,
vacinação, saneamento básico, exames médicos e odontológicos periódicos. Quanto às ações de
recuperação da saúde temos as consultas médicas e odontológicas, o ato de vacinar, o atendimento
de enfermagem, os exames, diagnósticos e tratamentos, inclusive em regime de internação e em
todos os níveis de complexidade, e a reabilitação. Estas devem corresponder às necessidades
básicas, transparecendo tanto pela procura aos serviços, como pelos estudos epidemiológicos e
sociais de cada região.

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3.5 Competências
1. Ao nível Federal

• Formulação e condução de política nacional de saúde;

• Regulamentação das normas, acompanhamento e avaliação das ações de saúde e relacionamento


entre os setores públicos e privados;

• Execução de programas emergenciais;

• Administração do Fundo Nacional de Saúde com transferência para as unidades descentralizadas;

• Vigilância sanitária adequada ao controle e fiscalização da qualidade e comercialização dos


insumos, equipamentos, medicamentos e alimentos;

• Estímulo ao desenvolvimento e controle dos imunobiológicos, do sangue e derivados e da


pesquisa.

2. Ao nível Estadual

• Formulação e condução das atividades do Sistema Regional de Saúde;

• Prestação de serviços em coordenação com os sistemas municipais;

• Transferência dos municípios, dos serviços básicos de saúde;

• Administração do Fundo Regional de Saúde, com transferência para as unidades locais;

3. Ao nível municipal

• Planejamento, coordenação do sistema municipal ou distrital;

• Compatibilização das normas com as peculiaridades locais;

• Prestação de serviços básicos de saúde e serviços de maior complexidade quando houver recursos;
• Administração do Fundo Municipal de Saúde.

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Lei Federal 8.080, de 19 de Setembro de 1990 (Lei Orgânica da Saúde)

Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o


funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte lei:

DISPOSIÇÃO PRELIMINAR

Art. 1º Esta lei regula, em todo o território nacional, as ações e serviços de saúde, executados isolada
ou conjuntamente, em caráter permanente ou eventual, por pessoas naturais ou jurídicas de direito
Público ou privado.

TÍTULO I

DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições
indispensáveis ao seu pleno exercício.

§ 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políticas


econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no
estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços
para a sua promoção, proteção e recuperação.

§ 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade. Art. 3º A
saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia,
o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o
acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização
social e econômica do País.

Parágrafo único. Dizem respeito também à saúde as ações que, por força do disposto no artigo
anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e
social.

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TÍTULO II

DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE DISPOSIÇÃO PRELIMINAR

Art. 4º O conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas
federais, estaduais e municipais, da Administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo
Poder Público, constitui o Sistema Único de Saúde (SUS).

§ 1º Estão incluídas no disposto neste artigo as instituições públicas federais, estaduais e municipais
de controle de qualidade, pesquisa e produção de insumos, medicamentos, inclusive de sangue e
hemoderivados, e de equipamentos para saúde.

§ 2º A iniciativa privada poderá participar do Sistema Único de Saúde (SUS), em caráter


complementar.

CAPÍTULO I

Dos Objetivos e Atribuições

Art. 5º São objetivos do Sistema Único de Saúde SUS:

I - a identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determinantes da saúde;

II - a formulação de política de saúde destinada a promover, nos campos econômico e social, a


observância do disposto no § 1º do art. 2º desta lei;

III - a assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da


saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas.

Art. 6º Estão incluídas ainda no campo de atuação do Sistema Único de Saúde (SUS): I - a execução
de ações:

a) de vigilância sanitária;

b) de vigilância epidemiológica;

c) de saúde do trabalhador; e

d) de assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica;

II - a participação na formulação da política e na execução de ações de saneamento básico;

III - a ordenação da formação de recursos humanos na área de saúde;

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IV - a vigilância nutricional e a orientação alimentar;

V - a colaboração na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho;

VI - a formulação da política de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos e outros insumos


de interesse para a saúde e a participação na sua produção;

VII - o controle e a fiscalização de serviços, produtos e substâncias de interesse para a saúde;

VIII - a fiscalização e a inspeção de alimentos, água e bebidas para consumo humano;

IX - a participação no controle e na fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de


substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos;

X - o incremento, em sua área de atuação, do desenvolvimento científico e tecnológico;

XI - a formulação e execução da política de sangue e seus derivados.

§ 1º Entende-se por vigilância sanitária um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou


prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da
produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo:

I - o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde,


compreendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo; e

II - o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde.

§ 2º Entende-se por vigilância epidemiológica um conjunto de ações que proporcionam o


conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e
condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as
medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos.

§ 3º Entende-se por saúde do trabalhador, para fins desta lei, um conjunto de atividades que se
destina, através das ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção
da saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da saúde dos
trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho, abrangendo: I -
assistência ao trabalhador vítima de acidentes de trabalho ou portador de doença profissional e do
trabalho; II - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), em estudos,
pesquisas, avaliação e controle dos riscos e agravos potenciais à saúde existentes no processo de
trabalho; III - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), da

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normatização, fiscalização e controle das condições de produção, extração,


armazenamento, transporte, distribuição e manuseio de substâncias, de produtos, de máquinas e
de equipamentos que apresentam riscos à saúde do trabalhador;

IV - avaliação do impacto que as tecnologias provocam à saúde;

V - informação ao trabalhador e à sua respectiva entidade sindical e às empresas sobre os riscos de


acidentes de trabalho, doença profissional e do trabalho, bem como os resultados de fiscalizações,
avaliações ambientais e exames de saúde, de admissão, periódicos e de demissão, respeitados os
preceitos da ética profissional;

VI - participação na normatização, fiscalização e controle dos serviços de saúde do trabalhador nas


instituições e empresas públicas e privadas;

VII - revisão periódica da listagem oficial de doenças originadas no processo de trabalho, tendo na
sua elaboração a colaboração das entidades sindicais; e

VIII - a garantia ao sindicato dos trabalhadores de requerer ao órgão competente a interdição de


máquina, de setor de serviço ou de todo ambiente de trabalho, quando houver exposição a risco
iminente para a vida ou saúde dos trabalhadores.

CAPÍTULO II

Dos Princípios e Diretrizes

Art. 7º As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que
integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas
no art. 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios:

I - universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência;

II - integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços
preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de
complexidade do sistema;

III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;

IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie;

V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;

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VI - divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua


utilização pelo usuário;

VII - utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de recursos e a


orientação programática;

VIII - participação da comunidade;

IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo:

a) ênfase na descentralização dos serviços para os municípios;

b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde;

X - integração em nível executivo das ações de saúde, meio ambiente e saneamento básico;

XI - conjugação dos recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios na prestação de serviços de assistência à saúde da população;

XII - capacidade de resolução dos serviços em todos os níveis de assistência; e XIII - organização dos
serviços públicos de modo a evitar duplicidade de meios para fins idênticos.

CAPÍTULO III

Da Organização, da Direção e da Gestão.

Art. 8º As ações e serviços de saúde, executados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja
diretamente ou mediante participação complementar da iniciativa privada, serão organizados de
forma regionalizada e hierarquizada em níveis de complexidade crescente.

Art. 9º A direção do Sistema Único de Saúde (SUS) é única, de acordo com o inciso I do art. 198 da
Constituição Federal, sendo exercida em cada esfera de governo pelos seguintes órgãos:

I - no âmbito da União, pelo Ministério da Saúde;

II - no âmbito dos Estados e do Distrito Federal, pela respectiva Secretaria de Saúde ou órgão
equivalente; e

III - no âmbito dos Municípios, pela respectiva Secretaria de Saúde ou órgão equivalente. Art. 10. Os
municípios poderão constituir consórcios para desenvolver em conjunto as ações e os serviços de
saúde que lhes correspondam.

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§ 1º Aplica-se aos consórcios administrativos intermunicipais o princípio da direção


única, e os respectivos atos constitutivos disporão sobre sua observância.

§ 2º No nível municipal, o Sistema Único de Saúde (SUS), poderá organizar-se em distritos de forma
a integrar e articular recursos, técnicas e práticas voltadas para a cobertura total das ações de saúde.

Art. 11. (Vetado).

Art. 12. Serão criadas comissões intersetoriais de âmbito nacional, subordinadas ao Conselho
Nacional de Saúde, integradas pelos Ministérios e órgãos competentes e por entidades
representativas da sociedade civil.

Parágrafo único. As comissões intersetoriais terão a finalidade de articular políticas e programas de


interesse para a saúde, cuja execução envolva áreas não compreendidas no âmbito do Sistema
Único de Saúde (SUS).

Art. 13. A articulação das políticas e programas, a cargo das comissões intersetoriais, abrangerá, em
especial, as seguintes atividades:

I - alimentação e nutrição;

II - saneamento e meio ambiente;

III - vigilância sanitária e farmacoepidemiologia;

IV - recursos humanos; V - ciência e tecnologia; e

VI - saúde do trabalhador.

Art. 14. Deverão ser criadas Comissões Permanentes de integração entre os serviços de saúde e as
instituições de ensino profissional e superior. Parágrafo único. Cada uma dessas comissões terá por
finalidade propor prioridades, métodos e estratégias para a formação e educação continuada dos
recursos humanos do Sistema Único de Saúde (SUS), na esfera correspondente, assim como em
relação à pesquisa e à cooperação técnica entre essas instituições.

CAPÍTULO IV

Da Competência e das Atribuições

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Seção I

Das Atribuições Comuns

Art. 15. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios exercerão, em seu âmbito
administrativo, as seguintes atribuições:

I - definição das instâncias e mecanismos de controle, avaliação e de fiscalização das ações e serviços
de saúde;

II - administração dos recursos orçamentários e financeiros destinados, em cada ano, à saúde;

III - acompanhamento, avaliação e divulgação do nível de saúde da população e das condições


ambientais;

IV - organização e coordenação do sistema de informação de saúde;

V - elaboração de normas técnicas e estabelecimento de padrões de qualidade e parâmetros de


custos que caracterizam a assistência à saúde;

VI - elaboração de normas técnicas e estabelecimento de padrões de qualidade para promoção da


saúde do trabalhador;

VII - participação de formulação da política e da execução das ações de saneamento básico e


colaboração na proteção e recuperação do meio ambiente;

VIII - elaboração e atualização periódica do plano de saúde;

IX - participação na formulação e na execução da política de formação e desenvolvimento de


recursos humanos para a saúde;

X - elaboração da proposta orçamentária do Sistema Único de Saúde (SUS), de conformidade com o


plano de saúde;

XI - elaboração de normas para regular as atividades de serviços privados de saúde, tendo em vista
a sua relevância pública;

XII - realização de operações externas de natureza financeira de interesse da saúde, autorizadas


pelo Senado Federal;

XIII - para atendimento de necessidades coletivas, urgentes e transitórias, decorrentes de situações


de perigo iminente, de calamidade pública ou de irrupção de epidemias, a autoridade competente

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da esfera administrativa correspondente poderá requisitar bens e serviços, tanto de


pessoas naturais como de jurídicas, sendo-lhes assegurada justa indenização;

XIV - implementar o Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Derivados;

XV - propor a celebração de convênios, acordos e protocolos internacionais relativos à saúde,


saneamento e meio ambiente;

XVI - elaborar normas técnico-científicas de promoção, proteção e recuperação da saúde;

XVII - promover articulação com os órgãos de fiscalização do exercício profissional e outras


entidades representativas da sociedade civil para a definição e controle dos padrões éticos para
pesquisa, ações e serviços de saúde;

XVIII - promover a articulação da política e dos planos de saúde;

XIX - realizar pesquisas e estudos na área de saúde;

XX - definir as instâncias e mecanismos de controle e fiscalização inerentes ao poder de polícia


sanitária;

XXI - fomentar, coordenar e executar programas e projetos estratégicos e de atendimento


emergencial.

Seção II

Da Competência

Art. 16. A direção nacional do Sistema Único da Saúde (SUS) compete: I - formular, avaliar e apoiar
políticas de alimentação e nutrição;

II - participar na formulação e na implementação das políticas:

a) de controle das agressões ao meio ambiente;

b) de saneamento básico; e

c) relativas às condições e aos ambientes de trabalho;

III - definir e coordenar os sistemas:

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a) de redes integradas de assistência de alta complexidade;

b) de rede de laboratórios de saúde pública;

c) de vigilância epidemiológica; e

d) vigilância sanitária;

IV - participar da definição de normas e mecanismos de controle, com órgãos afins, de agravo sobre
o meio ambiente ou dele decorrentes, que tenham repercussão na saúde humana;

V - participar da definição de normas, critérios e padrões para o controle das condições e dos
ambientes de trabalho e coordenar a política de saúde do trabalhador;

VI - coordenar e participar na execução das ações de vigilância epidemiológica;

VII - estabelecer normas e executar a vigilância sanitária de portos, aeroportos e fronteiras, podendo
a execução ser complementada pelos Estados, Distrito Federal e Municípios;

VIII - estabelecer critérios, parâmetros e métodos para o controle da qualidade sanitária de


produtos, substâncias e serviços de consumo e uso humano;

IX - promover articulação com os órgãos educacionais e de fiscalização do exercício profissional,


bem como com entidades representativas de formação de recursos humanos na área de saúde;

X - formular, avaliar, elaborar normas e participar na execução da política nacional e produção de


insumos e equipamentos para a saúde, em articulação com os demais órgãos governamentais;

XI - identificar os serviços estaduais e municipais de referência nacional para o estabelecimento de


padrões técnicos de assistência à saúde;

XII - controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde; XIII -
prestar cooperação técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para o
aperfeiçoamento da sua atuação institucional;

XIV - elaborar normas para regular as relações entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e os serviços
privados contratados de assistência à saúde;

XV - promover a descentralização para as Unidades Federadas e para os Municípios, dos serviços e


ações de saúde, respectivamente, de abrangência estadual e municipal;

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XVI - normatizar e coordenar nacionalmente o Sistema Nacional de Sangue,


Componentes e Derivados;

XVII - acompanhar, controlar e avaliar as ações e os serviços de saúde, respeitadas as competências


estaduais e municipais;

XVIII - elaborar o Planejamento Estratégico Nacional no âmbito do SUS, em cooperação técnica com
os Estados, Municípios e Distrito Federal;

XIX - estabelecer o Sistema Nacional de Auditoria e coordenar a avaliação técnica e financeira do


SUS em todo o Território Nacional em cooperação técnica com os Estados, Municípios e Distrito
Federal. Parágrafo único. A União poderá executar ações de vigilância epidemiológica e sanitária em
circunstâncias especiais, como na ocorrência de agravos inusitados à saúde, que possam escapar do
controle da direção estadual do Sistema Único de Saúde (SUS) ou que representem risco de
disseminação nacional.

Art. 17. À direção estadual do Sistema Único de Saúde (SUS) compete:

I - promover a descentralização para os Municípios dos serviços e das ações de saúde;

II - acompanhar, controlar e avaliar as redes hierarquizadas do Sistema Único de Saúde (SUS);

III - prestar apoio técnico e financeiro aos Municípios e executar supletivamente ações e serviços de
saúde;

IV - coordenar e, em caráter complementar, executar ações e serviços: a) de vigilância


epidemiológica;

b) de vigilância sanitária;

c) de alimentação e nutrição; e

d) de saúde do trabalhador;

V - participar, junto com os órgãos afins, do controle dos agravos do meio ambiente que tenham
repercussão na saúde humana;

VI - participar da formulação da política e da execução de ações de saneamento básico;

VII - participar das ações de controle e avaliação das condições e dos ambientes de trabalho;

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VIII - em caráter suplementar, formular, executar, acompanhar e avaliar a política de


insumos e equipamentos para a saúde;

IX - identificar estabelecimentos hospitalares de referência e gerir sistemas públicos de alta


complexidade, de referência estadual e regional;

X - coordenar a rede estadual de laboratórios de saúde pública e hemocentros, e gerir as unidades


que permaneçam em sua organização administrativa;

XI - estabelecer normas, em caráter suplementar, para o controle e avaliação das ações e serviços
de saúde;

XII - formular normas e estabelecer padrões, em caráter suplementar, de procedimentos de controle


de qualidade para produtos e substâncias de consumo humano;

XIII - colaborar com a União na execução da vigilância sanitária de portos, aeroportos e fronteiras;

XIV - o acompanhamento, a avaliação e divulgação dos indicadores de morbidade e mortalidade no


âmbito da unidade federada.

Art. 18. À direção municipal do Sistema de Saúde (SUS) compete:

I - planejar, organizar, controlar e avaliar as ações e os serviços de saúde e gerir e executar os


serviços públicos de saúde;

II - participar do planejamento, programação e organização da rede regionalizada e hierarquizada


do Sistema Único de Saúde (SUS), em articulação com sua direção estadual;

III - participar da execução, controle e avaliação das ações referentes às condições e aos ambientes
de trabalho;

IV - executar serviços:

a) de vigilância epidemiológica;

b) vigilância sanitária;

c) de alimentação e nutrição;

d) de saneamento básico; e

e) de saúde do trabalhador;

22
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V - dar execução, no âmbito municipal, à política de insumos e equipamentos para a


saúde;

VI - colaborar na fiscalização das agressões ao meio ambiente que tenham repercussão sobre a
saúde humana e atuar, junto aos órgãos municipais, estaduais e federais competentes, para
controlá-las;

VII - formar consórcios administrativos intermunicipais;

VIII - gerir laboratórios públicos de saúde e hemocentros;

IX - colaborar com a União e os Estados na execução da vigilância sanitária de portos, aeroportos e


fronteiras;

X - observado o disposto no art. 26 desta Lei, celebrar contratos e convênios com entidades
prestadoras de serviços privados de saúde, bem como controlar e avaliar sua execução;

XI - controlar e fiscalizar os procedimentos dos serviços privados de saúde;

XII - normatizar complementarmente as ações e serviços públicos de saúde no seu âmbito de


atuação.

Art. 19. Ao Distrito Federal competem as atribuições reservadas aos Estados e aos Municípios.

DOS SERVIÇOS PRIVADOS DE ASSISTÊNCIA à SAÚDE

CAPÍTULO I

Do Funcionamento

Art. 20. Os serviços privados de assistência à saúde caracterizam-se pela atuação, por iniciativa
própria, de profissionais liberais, legalmente habilitados, e de pessoas jurídicas de direito privado
na promoção, proteção e recuperação da saúde.

Art. 21. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada.

Art. 22. Na prestação de serviços privados de assistência à saúde, serão observados os princípios
éticos e as normas expedidas pelo órgão de direção do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto às
condições para seu funcionamento.

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Art. 23. É vedada a participação direta ou indireta de empresas ou de capitais


estrangeiros na assistência à saúde, salvo através de doações de organismos internacionais
vinculados à Organização das Nações Unidas, de entidades de cooperação técnica e de
financiamento e empréstimos.

§ 1° Em qualquer caso é obrigatória a autorização do órgão de direção nacional do Sistema Único


de Saúde (SUS), submetendo-se a seu controle as atividades que forem desenvolvidas e os
instrumentos que forem firmados.

§ 2° Excetuam-se do disposto neste artigo os serviços de saúde mantidos, em finalidade lucrativa,


por empresas, para atendimento de seus empregados e dependentes, sem qualquer ônus para a
seguridade social.

CAPÍTULO II

Da Participação Complementar

Art. 24. Quando as suas disponibilidades forem insuficientes para garantir a cobertura assistencial
à população de uma determinada área, o Sistema Único de Saúde (SUS) poderá recorrer aos serviços
ofertados pela iniciativa privada. Parágrafo único. A participação complementar dos serviços
privados será formalizada mediante contrato ou convênio, observadas, a respeito, as normas de
direito público.

Art. 25. Na hipótese do artigo anterior, as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos terão
preferência para participar do Sistema Único de Saúde (SUS).

Art. 26. Os critérios e valores para a remuneração de serviços e os parâmetros de cobertura


assistencial serão estabelecidos pela direção nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), aprovados
no Conselho Nacional de Saúde.

§ 1° Na fixação dos critérios, valores, formas de reajuste e de pagamento da remuneração aludida


neste artigo, a direção nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) deverá fundamentar seu ato em
demonstrativo econômico-financeiro que garanta a efetiva qualidade de execução dos serviços
contratados.

§ 2° Os serviços contratados submeter-se-ão às normas técnicas e administrativas e aos princípios


e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), mantido o equilíbrio econômico e financeiro do
contrato.

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§ 3° (Vetado).

§ 4° Aos proprietários, administradores e dirigentes de entidades ou serviços contratados é vedado


exercer cargo de chefia ou função de confiança no Sistema Único de Saúde (SUS).

TÍTULO IV

DOS RECURSOS HUMANOS

Art.27. A política de recursos humanos na área da saúde será formalizada e executada,


articuladamente, pelas diferentes esferas de governo, em cumprimento dos seguintes objetivos:

I - organização de um sistema de formação de recursos humanos em todos os níveis de ensino,


inclusive de pós-graduação, além da elaboração de programas de permanente aperfeiçoamento de
pessoal;

II - (Vetado)

III - (Vetado)

IV - valorização da dedicação exclusiva aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Parágrafo
único. Os serviços públicos que integram o Sistema Único de Saúde (SUS) constituem campo de
prática para ensino e pesquisa, mediante normas específicas, elaboradas conjuntamente com o
sistema educacional.

Art. 28. Os cargos e funções de chefia, direção e assessoramento, no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS), só poderão ser exercidos em regime de tempo integral.

§ 1° Os servidores que legalmente acumulam dois cargos ou empregos poderão exercer suas
atividades em mais de um estabelecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

§ 2° O disposto no parágrafo anterior aplica-se também aos servidores em regime de tempo integral,
com exceção dos ocupantes de cargos ou função de chefia, direção ou assessoramento.

Art. 29. (Vetado).

Art. 30. As especializações na forma de treinamento em serviço sob supervisão serão


regulamentadas por Comissão Nacional, instituída de acordo com o art. 12 desta Lei, garantida a
participação das entidades profissionais correspondentes.

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TÍTULO V

DO FINANCIAMENTO

CAPÍTULO I

Dos Recursos

Art. 31. O orçamento da seguridade social destinará ao Sistema Único de Saúde (SUS) de acordo
com a receita estimada, os recursos necessários à realização de suas finalidades, previstos em
proposta elaborada pela sua direção nacional, com a participação dos órgãos da Previdência Social
e da Assistência Social, tendo em vista as metas e prioridades estabelecidas na Lei de Diretrizes
Orçamentárias.

Art. 32. São considerados de outras fontes os recursos provenientes de:

I - (Vetado)

II - Serviços que possam ser prestados sem prejuízo da assistência à saúde;

III - ajuda, contribuições, doações e donativos;

IV - alienações patrimoniais e rendimentos de capital; V - taxas, multas, emolumentos e preços


públicos arrecadados no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS); e

VI - rendas eventuais, inclusive comerciais e industriais. § 1° Ao Sistema Único de Saúde (SUS) caberá
metade da receita de que trata o inciso I deste artigo, apurada mensalmente, a qual será destinada
à recuperação de viciados.

§ 2° As receitas geradas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) serão creditadas diretamente
em contas especiais, movimentadas pela sua direção, na esfera de poder onde forem arrecadadas.

§ 3º As ações de saneamento que venham a ser executadas supletivamente pelo Sistema Único de
Saúde (SUS), serão financiadas por recursos tarifários específicos e outros da União, Estados, Distrito
Federal, Municípios e, em particular, do Sistema Financeiro da Habitação (SFH).

§ 4º (Vetado).

§ 5º As atividades de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico em saúde serão


cofinanciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pelas universidades e pelo orçamento fiscal, além
de recursos de instituições de fomento e financiamento ou de origem externa e receita própria das
instituições executoras.
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§ 6º (Vetado).

CAPÍTULO II

Da Gestão Financeira

Art. 33. Os recursos financeiros do Sistema Único de Saúde (SUS) serão depositados em conta
especial, em cada esfera de sua atuação, e movimentados sob fiscalização dos respectivos
Conselhos de Saúde.

§ 1º Na esfera federal, os recursos financeiros, originários do Orçamento da Seguridade Social, de


outros Orçamentos da União, além de outras fontes, serão administrados pelo Ministério da Saúde,
através do Fundo Nacional de Saúde.

§ 2º (Vetado).

§ 3º (Vetado).

§ 4º O Ministério da Saúde acompanhará, através de seu sistema de auditoria, a conformidade à


programação aprovada da aplicação dos recursos repassados a Estados e Municípios. Constatada a
malversação, desvio ou não aplicação dos recursos, caberá ao Ministério da Saúde aplicar as
medidas previstas em lei.

Art. 34. As autoridades responsáveis pela distribuição da receita efetivamente arrecadada


transferirão automaticamente ao Fundo Nacionais de Saúde (FNS), observado o critério do
parágrafo único deste artigo, os recursos financeiros correspondentes às dotações consignadas no
Orçamento da Seguridade Social, a projetos e atividades a serem executados no âmbito do Sistema
Único de Saúde (SUS). Parágrafo único. Na distribuição dos recursos financeiros da Seguridade Social
será observada a mesma proporção da despesa prevista de cada área, no Orçamento da Seguridade
Social.

Art. 35. Para o estabelecimento de valores a serem transferidos a Estados, Distrito Federal e
Municípios, será utilizada a combinação dos seguintes critérios, segundo análise técnica de
programas e projetos:

I - perfil demográfico da região;

II - perfil epidemiológico da população a ser coberta;

III - características quantitativas e qualitativas da rede de saúde na área;

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IV - desempenho técnico, econômico e financeiro no período anterior;

V - níveis de participação do setor saúde nos orçamentos estaduais e municipais;

VI - previsão do plano quinquenal de investimentos da rede;

VII - ressarcimento do atendimento a serviços prestados para outras esferas de governo.

§ 1º Metade dos recursos destinados a Estados e Municípios será distribuída segundo o quociente
de sua divisão pelo número de habitantes, independentemente de qualquer procedimento prévio.

§ 2º Nos casos de Estados e Municípios sujeitos a notório processo de migração, os critérios


demográficos mencionados nesta lei serão ponderados por outros indicadores de crescimento
populacional, em especial o número de eleitores registrados.

§ 3º (Vetado).

§ 4º (Vetado).

§ 5º (Vetado).

§ 6º O disposto no parágrafo anterior não prejudica a atuação dos órgãos de controle interno e
externo e nem a aplicação de penalidades previstas em lei, em caso de irregularidades verificadas
na gestão dos recursos transferidos.

CAPÍTULO III

Do Planejamento e do Orçamento

Art. 36. O processo de planejamento e orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS) será
ascendente, do nível local até o federal, ouvidos seus órgãos deliberativos, compatibilizando-se as
necessidades da política de saúde com a disponibilidade de recursos em planos de saúde dos
Municípios, dos Estados, do Distrito Federal e da União.

§ 1º Os planos de saúde serão à base das atividades e programações de cada nível de direção do
Sistema Único de Saúde (SUS), e seu financiamento será previsto na respectiva proposta
orçamentária.

§ 2º É vedada a transferência de recursos para o financiamento de ações não previstas nos planos
de saúde, exceto em situações emergenciais ou de calamidade pública, na área de saúde.

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Art. 37. O Conselho Nacional de Saúde estabelecerá as diretrizes a serem observadas na


elaboração dos planos de saúde, em função das características epidemiológicas e da organização
dos serviços em cada jurisdição administrativa.

Art. 38. Não será permitida a destinação de subvenções e auxílios a instituições prestadoras de
serviços de saúde com finalidade lucrativa.

DAS DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS

Art. 39. (Vetado).

§ 1º (Vetado).

§ 2º (Vetado).

§ 3º (Vetado).

§ 4º (Vetado).

§ 5º A cessão de uso dos imóveis de propriedade do Inamps para órgãos integrantes do Sistema
Único de Saúde (SUS) será feita de modo a preservá-los como patrimônio da Seguridade Social.

§ 6º Os imóveis de que trata o parágrafo anterior serão inventariados com todos os seus acessórios,
equipamentos e outros bens móveis e ficarão disponíveis para utilização pelo órgão de direção
municipal do Sistema Único de Saúde (SUS) ou, eventualmente, pelo estadual, em cuja circunscrição
administrativa se encontrem, mediante simples termo de recebimento.

§ 7º (Vetado).

§ 8º O acesso aos serviços de informática e bases de dados, mantidos pelo Ministério da Saúde e
pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social, será assegurado às Secretarias Estaduais e
Municipais de Saúde ou órgãos congêneres, como suporte ao processo de gestão, de forma a
permitir a gerência informatizada das contas e a disseminação de estatísticas sanitárias e
epidemiológicas médico-hospitalares.

Art. 40. (Vetado).

Art. 41. As ações desenvolvidas pela Fundação das Pioneiras Sociais e pelo Instituto Nacional do
Câncer, supervisionadas pela direção nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), permanecerão
como referencial de prestação de serviços, formação de recursos humanos e para transferência de
tecnologia.
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Art. 42. (Vetado).

Art. 43. A gratuidade das ações e serviços de saúde fica preservada nos serviços públicos
contratados, ressalvando-se as cláusulas dos contratos ou convênios estabelecidos com as
entidades privadas.

Art. 44. (Vetado).

Art. 45. Os serviços de saúde dos hospitais universitários e de ensino integram-se ao Sistema Único
de Saúde (SUS), mediante convênio, preservada a sua autonomia administrativa, em relação ao
patrimônio, aos recursos humanos e financeiros, ensino, pesquisa e extensão nos limites conferidos
pelas instituições a que estejam vinculados.

§ 1º Os serviços de saúde de sistemas estaduais e municipais de previdência social deverão integrar-


se à direção correspondente do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme seu âmbito de atuação,
bem como quaisquer outros órgãos e serviços de saúde.

§ 2º Em tempo de paz e havendo interesse recíproco, os serviços de saúde das Forças Armadas
poderão integrar-se ao Sistema Único de Saúde (SUS), conforme se dispuser em convênio que, para
esse fim, for firmado.

Art. 46. o Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecerá mecanismos de incentivos à participação do
setor privado no investimento em ciência e tecnologia e estimulará a transferência de tecnologia
das universidades e institutos de pesquisa aos serviços de saúde nos Estados, Distrito Federal e
Municípios, e às empresas nacionais.

Art. 47. O Ministério da Saúde, em articulação com os níveis estaduais e municipais do Sistema Único
de Saúde (SUS), organizará, no prazo de dois anos, um sistema nacional de informações em saúde,
integrado em todo o território nacional, abrangendo questões epidemiológicas e de prestação de
serviços.

Art. 48. (Vetado).

Art. 49. (Vetado).

Art. 50. Os convênios entre a União, os Estados e os Municípios, celebrados para implantação dos
Sistemas Unificados e Descentralizados de Saúde, ficarão rescindidos à proporção que seu objeto
for sendo absorvido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Art. 51. (Vetado).


30
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Art. 52. Sem prejuízo de outras sanções cabíveis, constitui crime de emprego irregular
de verbas ou rendas públicas (Código Penal, art. 315) a utilização de recursos financeiros do Sistema
Único de Saúde (SUS) em finalidades diversas das previstas nesta lei.

Art. 53. (Vetado).

Art. 54. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 55. São revogadas a Lei nº. 2.312, de 3 de setembro de 1954, a Lei nº. 6.229, de 17 de julho de
1975, e demais disposições em contrário. Brasília, 19 de setembro de 1990; 169º da Independência
e 102º da República.

FERNANDO COLLOR

4. Educação em saúde
4.1 Introdução

Certamente você já estudou alguns conceitos de saúde, mas podemos lhe apresentar mais
um. Saúde é o resultado das condições de vida, logo do acesso ao trabalho, à escola, à moradia e à
alimentação. Com isso, ter ou não estas condições implica saúde ou adoecimento.

Com base nesse conceito de saúde, podemos discutir o que é educação em saúde. Ao longo
de sua vida, você certamente ouvirá: “Você é um educador em potencial!” Já que saúde é um
“direito de todos” e uma “conquista social” chamamos atenção para o fato de a educação em saúde
não ser de competência exclusiva de uma única categoria profissional; ela deve contar com uma
participação multiprofissional. O papel educativo do profissional de saúde, como um dos
componentes das ações básicas de saúde, é tarefa de toda a equipe na unidade de saúde.

Passamos a ideia de que as pessoas não têm saúde porque não querem, porque não se
esforçam, porque não tem vontade de ter saúde. As pessoas que trabalham com educação em saúde
muitas vezes acham que uma grande parte da população tem problemas porque é ignorante. Faltam
condições de viver e saúde para a maioria da população brasileira, não porque ela ou eu nos
descuidamos, mas porque as autoridades não usam o dinheiro público de acordo com os nossos
interesses.

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Ao realizar uma atividade educativa, devemos considerar:

• Para quem se destina a ação educativa;

• Conteúdos, objetivos e metodologia;

• A participação ativa, crítica e reflexiva das pessoas envolvidas no processo educativo; A atividade
educativa pode acontecer individualmente ou para um grupo, e vários recursos podem ser utilizados
– por exemplo, dramatização, álbuns, cartazes, folders, vídeos, músicas, dinâmicas etc.

4.2 De que trata a Educação em Saúde


Trata-se de uma tarefa que depende, no caso da saúde, de profissionais com habilidade e
competências para orientar as pessoas a:

• Promover a saúde;

• Evitar riscos à saúde;

• Restaurar a saúde;

• Prevenir doenças.

Seus desafios são trazer o sujeito da Unidade em Saúde Pública/Coletiva para a


reaproximação da natureza e das coisas naturais, afetadas pelos males da modernidade; orientar as
pessoas para a tomada de decisões em suas vidas no sentido da promoção à saúde; e conseguir, por
meio da educação em saúde, que as pessoas possam ter uma melhor qualidade de vida.

No mundo de hoje, as pessoas vivem tensas, excessivamente preocupadas e não se sentem


motivadas a cuidar devidamente de sua própria saúde. O homem e a mulher modernos têm hábitos
que causam mais danos que benefícios a sua saúde:

• Vida sedentária;

• Irritação no trânsito;

• Perigo e inalação do ar poluído;

• Superalimentação de carboidratos e gorduras saturadas;

• Automedicação, componentes de cafeína e nicotina;

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• Falta de atividades de lazer;

• Aquisição de produtos anti-higiênicos e nocivos à saúde;

• Ansiedade provocada pela mídia, cheia de notícias desagradáveis;

• Falta de tempo para cuidar da saúde – comer, dormir e divertir-se.

• E tantos outros que você mesmo é capaz de citar. Que tal o desafio?

Como saúde não dói nem causa mal estar, as pessoas não se dão conta de que ela existe, de
que é um bem valioso e que só será “sentido” quando faltar. As práticas educativas devem
possibilitar aos indivíduos a aquisição de habilidades para a tomada de decisões na busca de uma
melhor qualidade de vida. É dentro dessas concepções de educação, saúde e educação em saúde
que acreditamos caber ao profissional de saúde (aí incluído o profissional da área da enfermagem)
o papel de defensor/facilitador para os grupos sociais com os quais interagem e que necessitam de
mudanças sociais. É fazer com que os indivíduos resgatem a sua cidadania, colocando-a em
evidência na promoção da saúde.

Educação em saúde pressupõe uma combinação de oportunidades que favoreçam a


promoção e manutenção da saúde. Sendo assim, não podemos entendê-la somente como a
transmissão de conteúdo, comportamentos e hábitos de higiene do corpo e do ambiente, mas
também como a adoção de práticas educativas que busquem a autonomia dos sujeitos na condução
da sua vida.

Educação em saúde nada mais é que o exercício de construção da cidadania.

4.3 Tópicos Emergentes em Educação em Saúde


Alguns assuntos, que agora consideramos emergentes, historicamente não eram tidos como
questões do campo da saúde. A modernidade, com suas mudanças nos valores e nos modos de vida,
fez emergir problemas sociais ainda não contemplados pela área da saúde pública:

• Prevenção do uso de drogas;

• Acidentes domésticos;

• Violência contra crianças e adolescentes;

• Violência contra a mulher;


33
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• Entre outros.

Nota: Sugerimos que vocês façam uma pesquisa sobre esses assuntos e outros de interesse da classe
e do professor. Na apresentação, como vocês realizariam atividades educativas dos temas
desenvolvidos?

5. O ambiente e os processos de restauração


5.1 Introdução
Trataremos de uma relação especial: a relação que os seres vivos estabelecem entre si e com
o meio ambiente. Por isso falar de saúde é falar da nossa vida, do nosso trabalho e das nossas
relações.

A coexistência entre os seres vivos se dá de forma pacífica?

Nem sempre. Quando os seres convivem harmonicamente, o equilíbrio pode gerar


benefícios para todos; quando há desarmonia, essas relações podem gerar adoecimento, uma vez
que uma das partes perde mais do que recebe. As doenças transmissíveis representam um bom
exemplo de uma relação desarmônica entre homens e micro-organismos.

Contato requer interação, troca. Da mesma forma que as pessoas podem ser contagiadas
por sentimentos de felicidade, prazer, sofrimento, dor, alegria, também podem ser contagiadas por
micro-organismos que se escondem no corpo infectado. As permutas entre seres (corpos) muitas
vezes ocorrem sem que percebamos; trata-se de um processo complexo que independe do estado
de saúde atual daquele que transmite. Mesmo estando saudáveis, podemos transmitir micro-
organismos a outros seres/corpos. Como o próprio verbo revela, transmitir significa “fazer passar
de um ponto ou de um possuidor para outro”. Para transmitir uma doença infecciosa, é necessário
que três elementos interajam:

• O agente (micro-organismo causador);

• O receptor (se vivo sujeito ao adoecimento);

• O ambiente. (interno – organismo humano e externo – ambiente propriamente dito)

34
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5.2 O processo de desajustamento do organismo e as doenças transmissíveis


O ser humano passa por muitas situações que exigem o desenvolvimento de mecanismos de
compensação e adaptação, tanto por parte do ambiente interno quanto do externo. O adoecimento
de um órgão ou sistema pode ser visto como um dos mecanismos de adaptação do corpo a uma
condição adversa (de agressão) que ameaça o equilíbrio do todo. Esses mecanismos, no entanto,
nem sempre são capazes de conter e reverter todos os desequilíbrios presentes interna e
externamente ao indivíduo.

A doença infecciosa é a “doença, clinicamente manifesta, do homem ou dos animais,


resultante de uma infecção”. A compreensão dos processos de transmissão de doenças dessa
natureza requer respostas a algumas perguntas:

• O que é transmitido? – Um agente infeccioso específico (vírus, bactéria, fungo, protozoário, etc.)
ou produtos tóxicos.

• De onde? – De uma fonte.

• Para onde? – Para um ser vivo sujeito ao adoecimento (receptor).

• Por que meios? – Através de alimentos, água utilizada como bebidas, ar atmosférico, fômites
(refere-se aos objetos de uso que podem estar contaminados).

Estas respostas fazem toda a diferença em relação às ações e aos cuidados a serem
implementados.

Sabemos que as doenças transmissíveis resultam da associação de múltiplos fatores, dentre


eles a presença de um agente indispensável ou de produtos do seu metabolismo. Dois fatores
influenciam fortemente a produção de doenças de origem infecciosa: as características dos micro-
organismos e as características do hospedeiro.

5.3 Características dos microorganismos na produção da doença


Os micro-organismos apresentam características que dirigem sua relação com o hospedeiro
e contribuem para o aparecimento de doença.

• Infectividade: capacidade que certos organismos apresentam de penetrar, se desenvolver ou se


multiplicar no novo hospedeiro, ocasionando infecção.

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• Patogenicidade: capacidade de um agente infeccioso de causar enfermidade em um


organismo.

• Virulência: capacidade de um agente infeccioso de produzir casos graves ou fatais. Está associada
à capacidade de multiplicação no organismo do hospedeiro e à produção de substâncias tóxicas.

• Poder invasor: capacidade de invadir os tecidos do organismo do hospedeiro. Características do


hospedeiro de resistência à doença.

Vários fatores encontram-se associados à capacidade de resistência às doenças:

• Fatores genéticos;

• Estresse;

• Estado nutricional;

• Consumo de álcool, narcóticos e fumo;

• Integridade da pele e mucosas;

• Capacidade de reação e adaptação aos estímulos do meio;

• Estado atual de saúde;

• Imunidade específica.

5.4 Peculiaridades das doenças transmissíveis


Se por um lado o corpo age e reage às agressões dos agentes biopatogênicos, por outro
medidas terapêuticas podem (e devem) ser implementadas, algumas delas antes mesmo do
aparecimento da doença propriamente dita. Conhecendo os agentes infecciosos, sua ação
patogênica, seu ciclo de vida (dentro e fora do corpo humano) e seus mecanismos de penetração
(ingestão, inalação através das vias respiratórias, penetração através das mucosas e de solução de
continuidade, transmissão por via placentária, etc.), podemos atuar de forma preventiva.

Quando falamos de doenças de natureza infecciosa, interessa-nos conhecer não apenas seu
comportamento entre os indivíduos, mas também entre as coletividades. Doenças que surgiram
recentemente (emergentes) ou que já se encontravam controladas e retornaram (reemergentes)

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podem produzir um grande impacto negativo em determinados grupos da população,


trazendo como consequência inclusive o aumento do número de complicações e mortes.

Isso porque a suscetibilidade (resistência contra determinado agente patogênico) não é um


atributo que depende exclusivamente de características individuais. Neste caso, o coletivo pode
fazer toda a diferença, quer protegendo, quer aumentando a chance de exposição. Sabendo disso,
nós, profissionais de enfermagem, precisamos conhecer mais do que os aspectos referentes às
manifestações das doenças a fim de lidar com a diversidade e a adversidade. Para tanto,
individualidade e coletividade devem ser tratadas como faces de uma mesma moeda.

6. Implementação de medidas
As medidas a serem tomadas dependerão do agente, das características e condições do
suscetível e do contexto. As ações necessárias só poderão ser definidas depois de saber qual é o
problema, quem é afetado, onde, quando e como ele ocorre.

Qual é o problema

Conhecer o agravo e suas características é fundamental. Ainda que todas as doenças


transmissíveis sejam causadas por agentes infecciosos específicos ou por seus produtos tóxicos,
cada uma delas manifesta-se de maneira muito particular. É necessário ficar atento aos seguintes
aspectos:

• Agente etiológico

• Modo de transmissão

• Período de incubação

• Período de transmissibilidade

• Suscetibilidade e resistência

• Diagnóstico diferencial

• Sinais

• Sintomas

• Complicações
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• Tratamento

• Medidas de Controle

Nem sempre é fácil romper os elos que compõem a cadeia de transmissão, ainda que a
estrutura dessa cadeia já esteja amplamente estudada. Nesse aspecto, o ambiente desempenha
papel fundamental, contribuindo ou não para a manutenção das doenças. A definição, por exemplo,
de medidas de isolamento (de contato, respiratório, gotículas e aerossóis e precauções padrão)
podem ser decisivas em alguns casos.

Como você pode concluir, trata-se de uma tarefa complexa que requer profissionais
comprometidos com a qualidade da assistência prestada em âmbito tanto individual quanto
coletivo. Para isso é necessário estar sempre se atualizando, pois novas descobertas implicam novos
procedimentos a serem adotados. Felizmente trabalhamos com pessoas e não com receitas de bolo.

Quem é afetado

Quais os grupos da população mais atingidos? Quais as características desses grupos (idade,
sexo, grupo étnico, classe social, ocupação, etc) É importante compreender que há um conjunto de
características que interagem, tornando-nos mais ou menos vulneráveis a certos tipos de agravos à
saúde. Essas características podem ser genéticas, biológicas, ambientais, socioeconômicas,
culturais, etc.

A faixa etária, por exemplo, é um fator que pode conferir maior gravidade ao caso. O
sarampo, por exemplo, pode levar a óbito principalmente lactentes e crianças menores de dois
anos. Entre as complicações mais frequentes decorrentes do sarampo estão pneumonia, otite
média, laringite, encefalite e gastroenterite.

Onde

Conhecendo a distribuição do agravo e as características do local (bairro, município, estado,


país) onde as pessoas foram afetadas ou expostas, é possível identificar áreas de risco, realizar o
acompanhamento dessas áreas e propor as melhores soluções. A letalidade do cólera, por exemplo,
varia muito entre os países; enquanto na Índia trata-se de uma doença endêmica, na Europa a ação
de uma epidemia pode ser devastadora.

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Quando

Por meio do acompanhamento da distribuição de um evento durante um período de tempo


(horas, dias, semanas, meses ou anos), podemos conhecer os riscos a que as pessoas estão sujeitas,
prever acontecimentos e, principalmente, propor soluções. O tempo de observação dependerá do
agravo à saúde a ser estudado. Podem ser necessários alguns anos ou dias.

Como

Qual a magnitude do agravo? Há associação com alguma condição específica? Que fatores
encontram-se relacionados à sua ocorrência? Como se distribui o agravo? Agravos infecciosos
podem assumir comportamentos “normais” ou “anormais” quanto a sua frequência e distribuição.
Por isso, sempre que falamos na concentração de casos (ou de mortes) em um período de tempo e
espaço, quatro conceitos são fundamentais: endemia, epidemia, surto, pandemia.

• Endemia – é definida como uma variação no número de casos novos dentro dos padrões regulares
e esperados em um determinado período de tempo. Pode representar o “comportamento normal”
de um agravo à saúde.

• Epidemia – define o “comportamento anormal” de um agravo, uma alteração além dos valores
esperados. Ela não significa, necessariamente, a ocorrência de um grande número de casos.
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (1992), há situações em que dois casos de uma
dada doença infecciosa podem caracterizar uma epidemia, desde que representem uma elevação
brusca que exceda os padrões considerados “normais” e estejam associados no tempo e no espaço.

• Surto e Pandemia – constituem formas particulares de epidemia. Enquanto a pandemia destaca-


se pelas suas proporções, atingindo um elevado número de pessoas em mais de um continente, o
surto é mais restrito e apresenta proporções reduzidas ( uma cidade, um bairro, um colégio).

6.1 Removendo Obstáculos


A compreensão do processo saúde, nos níveis individual e coletivo, e a identificação dos
fatores capazes de influir positiva ou negativamente no estado de saúde nos permitem encontrar
alternativas de intervenção ou controle.

No passado, o alvo das ações mais tradicionais na área de saúde pública eram as doenças
que se apresentavam sob forma de epidemias (cólera, peste, etc). A ênfase estava no verbo

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transmitir e o objetivo dos que trabalhavam com a área era romper um ou mais elos da
cadeia de transmissão das doenças infecciosas. Bastaria conhecer os mecanismos de transmissão
dessas doenças e os elementos nele envolvidos (agentes infecciosos, hospedeiro, ambiente) para
que o problema estivesse resolvido.

É bem verdade que as grandes epidemias que dizimavam populações inteiras deixaram de
fazer parte do perfil de morbi-mortalidade (adoecimento e morte) das populações residentes nos
países desenvolvidos. No entanto, a interação entre o homem e o ambiente mostrou-se muito mais
complexa e apesar de muitas descobertas científicas (antibióticos, vacinas, compostos químicos de
combate aos vetores, entre outras medidas específicas), as doenças infecciosas permanecem como
um desafio.

Infelizmente esses agravos, apesar de evitáveis através de medidas como imunização e


saneamento básico, permanecem compondo um quadro perverso relacionado à pobreza e ao
subdesenvolvimento.

Diríamos que os elos mais frágeis dessa cadeia de transmissão de doenças foram rompidos.
Os elos mais difíceis de contornar têm sido: a resistência de algumas bactérias aos antibióticos
disponíveis, o surgimento de novas doenças infecciosas em todo o mundo ( a pandemia da AIDS,
febres hemorrágicas provocadas pelo vírus Ebola e pelo antavírus) e a reemergência de algumas
doenças infecciosas. Três bons exemplos desse fenômeno de recrudescimento de doenças
infecciosas já conhecidas são a tuberculose, dengue e hepatite B. Em comum estas doenças só têm
o fato de serem transmissíveis.

7. Níveis de atenção à saúde


Adoecer ou não adoecer, mais uma vez eis a questão. Determinar sinais, sintomas e
características de adoecimento tem sido tema constante na prática e nas pesquisas realizadas pelos
vários profissionais que trabalham na área da saúde. Construir quadros clínicos capazes de agrupar
semelhanças e diferenças no modo de adoecer dos indivíduos é tentar de alguma forma descrever
e ordenar acontecimentos, resgatando assim a história natural da doença ou construir um discurso
sobre a história natural da saúde.

A expressão “história natural da doença” refere-se a um conjunto de relações específicas


existentes entre três elementos:

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• O agente causador de doença;

• O suscetível ao adoecimento (indivíduo);

• O meio ambiente repleto de interações.

7.1 Níveis de Prevenção de Doenças


A história natural da doença compreende “as interrelações do agente, do suscetível e do
meio ambiente que afetam o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que
criam o estímulo patológico no meio ambiente, ou em qualquer outro lugar. Passando pela resposta
do homem ao estímulo, até as alterações que levam a defeitos, invalidez, recuperação ou morte”.

É possível estabelecer medidas de prevenção voltadas tanto para a fase anterior ao


adoecimento (período pré-patológico) como para a fase posterior (período patológico).

7.2 Período Pré-Patológico


É a fase inicial, em que há apenas condições favoráveis ao aparecimento da doença. A
doença ainda não existe de fato, só existe a suscetibilidade. Em outras palavras, é na fase inicial que
encontramos os fatores determinantes do processo saúde doença.

São característicos do período pré-patológico os primeiros estímulos ao adoecimento,


presentes no meio ambiente ou em outro lugar. Por exemplo:

• Falta de saneamento básico;

• Poluição atmosférica;

• Contaminação de produtos diversos;

• Ingestão de água contaminada;

• Exposição a altas doses de radiação;

• Capacidade de resposta do organismo humano à agressão sofrida.

Nessa interação entre o estímulo ao adoecimento e o indivíduo suscetível, temos algumas


condições fundamentais para o surgimento da doença - fatores como idade, estado nutricional e
situação vacinal.

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7.3 Período Patológico


Compreende o desenvolvimento do processo de adoecimento, a instalação da doença, sua
evolução, as alterações provocadas no organismo afetado e os seus possíveis “desfechos” ( de
recuperação a invalidez, cronicidade e morte). Nesse período, três fases distintas podem ser
identificadas.

A primeira fase, em que a doença já existe, mas o organismo ainda não manifesta seus
sintomas.

A segunda fase, marcada pelo aparecimento dos sinais e sintomas característicos da doença.
O grau de acometimento da doença dependerá de fatores como:

• Características da própria doença;

• Condições do doente;

• Assistência pretada.

E uma terceira fase, em que o desfecho da doença não é a cura completa ou a morte; é
possível que não haja reabilitação completa do doente. Nesse caso, é necessário promover medidas
de reabilitação capazes de melhorar o funcionamento da parte afetada e reduzir incapacidades.

7.4 Níveis de Prevenção


Prevenir significa atuar antecipadamente, impedir determinados desfechos indesejados, que
seriam: o adoecimento, a invalidez, a cronicidade de uma doença ou a morte. De acordo com a
situação, os níveis de prevenção podem ser três:

Prevenção Primária

Conjunto de ações voltadas para a prevenção da ocorrência. Engloba medidas que têm como
objetivo atuar sobre o período que antecede a ocorrência da doença, destinadas a evitar o
desencadeamento de fatores que podem causá-la. Visa à promoção da saúde por meio do
atendimento às necessidades básicas do homem e por meio da prevenção de doenças, ou seja, da
proteção específica.

As ações de promoção da saúde incluem o conjunto de medidas que não se dirigem a uma
doença específica, mas à manutenção do bem estar geral. Podemos citar como exemplos de
medidas de promoção da saúde:

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• Saneamento básico;

• Habitação em condições adequadas;

• Recreação e lazer;

• Remuneração adequada e condições de trabalho favoráveis e seguras;

• Educação sexual;

• Planejamento familiar.

As ações de proteção específica incluem o conjunto de medidas voltadas para o combate de uma
doença ou de um conjunto de doenças específicas. São exemplos:

• Acompanhamento pré-natal;

• Vacinação contra doenças imunopreveníveis ( poliomielite, tétano, sarampo, difteria e


coqueluche);

• Controle de vetores;

• Desinfecção concorrente e terminal;

• Proteção contra riscos ocupacionais;

• Cloração da água.

Prevenção Secundária

Conjunto de medidas voltadas para o período em que a doença já existe, visando impedir
sua evolução e suas complicações. As ações voltadas para o diagnóstico e tratamento precoce
englobam medidas que têm por objetivo identificar o processo patológico antes mesmo do
aparecimento dos sintomas.

Enquadram-se:

• Descoberta de casos em levantamentos e exames seletivos – por exemplo, exame de mamas


(mamografia) e exame ginecológico (Papanicolau);

• Notificação dos casos e, se necessário, tratamento dos contatos;

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• Emprego dos recursos laboratoriais disponíveis no diagnóstico e tratamento


adequado com o objetivo de prevenir complicações e sequelas;

• Uso de serviço de enfermagem domiciliar ou hospitalização, se necessário.

Prevenção Terciária

Nessa etapa a doença já se instalou e o seu desenvolvimento deixou algum tipo de sequela.
As medidas relacionadas englobam ações voltadas para a limitação do dano e a reabilitação do
indivíduo após a cura da doença. Destina-se também ao controle da doença e a reintegração do
trabalhador e cidadão a uma nova vida.

As ações voltadas para limitação do dano incluem medidas que visam prevenir ou limitar a
extensão das sequelas e as complicações causadas por doenças clinicamente avançadas. Já a
reabilitação engloba medidas que objetivam readaptar uma pessoa com deficiência a uma nova
condição em que possa manter uma vida útil e produtiva. Entre as ações estão:

• Terapia ocupacional;

• Dietas especiais;

• Reintegração social;

• Emprego selecionado;

• Proporcionar à família instrução e supervisão no cuidado a doentes portadores de deficiência;

• Educação do público para a integração do reabilitado à comunidade e aos locais de trabalho.

É importante conhecer a história natural das doenças porque, a partir do estudo dos
elementos que fazem parte dessa história, é possível identificar os fatores que predispõem à
ocorrência de doenças. Uma vez detectados esses fatores, é possível avaliar o grau de risco a que
os grupos estão submetidos, e assim proceder o acompanhamento e planejar estratégias de
intervenção.

Nos dias atuais fica mais claro que a lógica que concebia a saúde como resultado de uma
intervenção médica por meio de medicamentos está ultrapassada. Hoje já se pensa em saúde como
um projeto não só de recuperação, mas de manutenção do bem estar físico, psíquico, social e
ambiental.
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8. Programas de atenção à saúde


Podemos dizer que política pública é a materialização da ação do Estado. Por exemplo, temos
política econômica, política de segurança, política de educação, política de saúde e outras áreas de
atuação. Obviamente essas políticas não são dissociadas umas das outras, ou não deveriam ser. No
caso da saúde, temos políticas públicas que se materializam na forma de Programas de Atenção à
Saúde.

8.1 Programa de Atenção Integral à Saúde do Adulto


As práticas ou ações programáticas configuram-se como forma de organização do trabalho
coletivo. A preocupação com a necessidade de
saúde da população – principalmente com
agravos de grande magnitude, implicou, no
decorrer da década de 1980, uma reorganização
da assistência à saúde, até então voltada apenas
para o pronto atendimento e a demanda
espontânea.

A priorização de alguns agravos específicos como hipertensão arterial, diabetes mellitus,


tuberculose, hanseníase, pautada no perfil epidemiológico da população, veio articular ações de
caráter individual e coletivo.

8.2 Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher


As proposições básicas de ação formuladas
pelo Ministério da Saúde para a assistência integral à
saúde da mulher devem ser situadas no contexto da
política de expansão e consolidação dos serviços
básicos de saúde. Esse programa específico foi
oficializado na década de 1980 e configura-se como
uma estratégia de destinação seletiva de recursos que
permitam a operacionalização de conteúdos de
grande prioridade vinculados à população feminina.

O programa nasceu com o objetivo de:

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• Aumentar a cobertura e a concentração do atendimento pré-natal, proporcionando


iguais oportunidades de utilização do serviço para toda a população;

• Melhorar a qualidade da assistência ao parto, ampliando a cobertura do atendimento prestado


por pessoal treinado e diminuindo os índices de cesáreas desnecessárias;

• Aumentar os índices de aleitamento materno, fornecendo as condições para implantação do


alojamento conjunto;

• Implantar ou ampliar as atividades de identificação e controle do câncer cervico uterino e de


mamas;

• Implantar ou ampliar as atividades de identificação e controle de doenças sexualmente


transmissíveis;

• Implantar ou ampliar as atividades de identificação e controle de outras patologias de maior


prevalência no grupo;

• Desenvolver atividades de regulação da fertilidade humana, implementando métodos e técnicas


de planejamento familiar, diagnosticando e corrigindo estados de infertilidade;

• Evitar aborto provocado, mediante prevenção da gravidez indesejada.

Os conteúdos da assistência integral à saúde da mulher serão desenvolvidos através de


atividades de assistência clínico ginecológica, assistência pré-natal e assistência ao parto e puerpério
imediato.

8.3 Programa de Atenção Integral à Saúde da Criança


Este programa também da década de 1980, está voltado
para a maximização do alcance da assistência à saúde infantil, o
que significa tanto estender a cobertura dos serviços de saúde
quanto aperfeiçoar seu poder de resolução diante dos
problemas de saúde mais prevalentes e relevantes. As ações
básicas na assistência integral à saúde da criança envolvem:

• Acompanhamento do crescimento e desenvolvimento;

• Aleitamento materno e orientação para o desmame;

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• Controle de doenças diarreicas;

• Controle de infecções respiratórias agudas;

• Controle de doenças que se podem prevenir por imunização.

Considera-se prioritário o grupo de menores de cinco anos. 8.4 Programa de Atenção à Saúde
do Adolescente Criado em 1988 pelo Ministério da Saúde. Seus objetivos são:

• Promover a saúde integral do adolescente, favorecendo o processo geral de seu crescimento e


desenvolvimento, buscando reduzir a morbimortalidade e os desajustes individuais e sociais;

• Promoção da saúde, identificação de grupos de risco, detecção precoce de agravos, tratamento


adequado e reabilitação nas áreas prioritárias de: crescimento e desenvolvimento, sexualidade,
saúde bucal, saúde mental, saúde escolar, prevenção de acidentes, trabalho cultural, lazer e
esporte.

8.4 Programa de Atenção à Saúde do Trabalhador


A saúde do trabalhador é a mais moderna
forma de se estudar, discutir e pensar o binômio
trabalho-saúde, já que traz uma visão mais
ampliada do que a estabelecida inicialmente a
partir da saúde ocupacional. É uma área do
conhecimento científico que tem como objeto de
estudo a relação entre o trabalho e o processo
saúde-doença nos grupos humanos.

A saúde do trabalhador busca estabelecer vínculos e explicações acerca do adoecimento e


da morte de trabalhadores a partir do estudo dos processos de trabalho. A saúde do trabalhador
engloba ações destinadas à promoção, proteção, recuperação e reabilitação de todos os
trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho.

8.5 Programa de Assistência Integral à Saúde do Idoso


Apenas recentemente começaram a se delinear no Brasil políticas de saúde voltadas
especificamente para a população idosa. As mudanças verificadas não ocorreram por acaso. Foram
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motivadas, de um lado, pelo visível crescimento desse grupo etário e pela mudança do
perfil de adoecimento e morte da população; de outro lado, foram pautadas em avanços verificados
no sistema de atenção – o SUS.

É o Ministério da Saúde, através da Secretaria de Políticas de Saúde, em articulação com as


Secretarias de Saúde dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, e em consonância com a Lei
Orgânica da Saúde e com a lei 8.842 de janeiro de 1994, que dispõe sobre a política nacional. Assim,
a partir dessa lei são estabelecidos os objetivos e as estratégias do Programa de Atenção Integral à
Saúde do Idoso, que envolve um conjunto de ações voltadas para:

• Promoção; - Informações sobre o idoso para o próprio idoso, sua família, seus cuidadores e a
sociedade em geral.

• Prevenção; - Protocolo de prevenção a agravos da saúde na terceira idade; vacinação para idosos
(antitetânica, antipneumocócica e antigripal).

• Recuperação da saúde ou manutenção de uma qualidade de vida a mais digna possível. -


Assistência ambulatorial através das unidades básicas de saúde; assistência domiciliar através do
Programa de Saúde da Família; política de medicamentos voltadas para o idoso, garantindo assim
medicamentos adequados de uso contínuo; internação domiciliar para doentes crônicos.

8.6 Programa Saúde da Família (PSF)


O Programa Saúde da Família (PSF) tem como principal objetivo contribuir para a
reorientação do modelo assistencial a partir da atenção básica, em conformidade com os princípios
do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso imprimiria uma nova dinâmica de atuação nas unidades
básicas de saúde, com definição de responsabilidades entre os serviços de saúde e a população.

O PSF visa tanto prestar assistência na unidade de saúde quanto desenvolver


tradicionalmente as ações de saúde no domicílio, numa perspectiva de ação integral em que todos
os membros de uma família são acompanhados. O programa intervém sobre os fatores de risco aos
quais a população está exposta e ainda estimula a organização da comunidade para o efetivo
exercício do controle social.

A proposta do PSF nasceu em 1994, quando foi sugerida a descentralização e a


municipalização dos serviços de saúde em que era um desafio a implementação efetiva do SUS. A

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adesão dos secretários municipais de saúde também foi expressiva e significante. O


programa do Ministério da Saúde tenta valorizar os princípios de:

• Territorialização;

• Vinculação com a população;

• Garantia de integridade na atenção;

• Trabalho em equipe com o enfoque interdisciplinar;

• Ênfase na promoção da saúde, com fortalecimento das ações intersetoriais.

A enfermagem, por exemplo, como categoria profissional que vida à saúde individual e
coletiva, sempre buscou a interface entre a comunidade e os serviços de saúde. De imediato,
incorporou as estratégias do PSF, contribuindo de forma significativa nos processos de
planejamento, coordenação, implantação e avaliação dessa nova proposta.

8.7 Programa de Saúde Bucal


O Brasil Sorridente é uma política do governo federal com o objetivo de ampliar o
atendimento e melhorar as condições de saúde bucal da população brasileira. É a primeira vez que
o governo federal desenvolve uma política nacional de saúde bucal, ou seja, um programa
estruturado, não apenas incentivos isolados à saúde bucal.

O Brasil Sorridente foi lançado pelo Ministério da Saúde em 17 de março de 2004 para
ampliar o acesso ao tratamento odontológico. Grande parte dos brasileiros não sabe que podem
receber tratamento odontológico gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Nota: Pesquise os programas de saúde existentes em sua cidade, desenvolvendo um trabalho para
ser apresentado e discutido em sala de aula.

8.8 Programa Nacional de Imunização


O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil é uma referência internacional de
política pública de saúde. O país já erradicou, por meio da vacinação, doenças de alcance mundial
como a varíola e a poliomielite (paralisia infantil). A população brasileira tem acesso gratuito a todas
as vacinas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

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Desde que foi criado, em 1973, o programa busca a inclusão social, assistindo
todas as pessoas, em todos o país, sem distinção de qualquer natureza. As vacinas do programa
estão à disposição de todos nos postos de saúde ou com as equipes de vacinação, cujo empenho
permite levar a imunização mesmo aos locais de difícil acesso.

Há mais de 100 anos foi realizada a primeira campanha de vacinação em massa feita no
Brasil. Idealizada por Oswaldo Cruz, o fundador da saúde pública no país, a campanha tinha o
objetivo de controlar a varíola, que então dizimava boa parte da população do Rio de Janeiro.

O êxito das Campanhas de Vacinação contra a varíola na década dos anos sessenta mostrou
que a vacinação em massa tinha o poder de erradicar a doença. O último caso de varíola notificado
no Brasil foi em 1971, e no mundo em 1977, na Somália.

Em 1980 aconteceu a 1ª Campanha Nacional de Vacinação Contra Poliomlite, com a meta de


vacinar todas as crianças menores de 5 anos em um só dia. O último caso de poliomielite no Brasil
ocorreu na Paraíba em março de 1989. Em setembro de 1994 o Brasil recebeu, junto com os demais
países da região das Américas, o certificado que a doença e o vírus foram eliminados do continente.

Ao longo dos anos, a atuação do PNI apresentou consideráveis avanços. As metas mais
recentes contemplam a erradicação do sarampo, a eliminação tétano neonatal e o controle de
outras doenças imunopreviníveis como Difteria, Coqueluche e Tétano acidental, Hepatite B,
Meningites, Febre Amarela, formas graves da Tuberculose, Rubéola e Caxumba, bem como, a
manutenção da erradicação da Poliomielite.

Ana Goretti Kalumi, coordenadora-substituta do Programa Nacional de Imunização do


Ministério da Saúde, conta que a participação da sociedade é fundamental para o sucesso da
imunização no Brasil. “O PNI é um programa que tem uma participação muito grande da sociedade.
Sem o comparecimento das pessoas aos postos de vacinação não teríamos o sucesso que temos. E,
é claro que não podemos esquecer a participação de todos os profissionais de saúde que levam a
vacina para cada cidade, cada bairro”, disse ela.

O Brasil conta atualmente com mais de 36 mil salas de vacinação espalhadas por todo
território nacional, que aplicam por ano 300 mil imunobiológicos. Entre eles estão 27 vacinas, 13
soros e 4 imunoglobulinas, todos distribuídos gratuitamente com materiais seguros e de qualidade.

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Há ainda vacinas especiais para grupos em


condições clínicas específicas, como portadores
de HIV, disponíveis nos Centros de Referência
para Imunobiológicos Especiais (CRIE).

Desde sua criação, o PNI é uma das


prioridades do Governo Federal. Para 2015, o
programa conta com um orçamento previsto de
três bilhões de reais.

Apesar da maioria das pessoas acreditar que a vacina é somente para crianças, é importante

manter a carteira de vacinação em dia em todas as idades, para evitar o retorno de doenças já

erradicadas. Os adultos devem ficar atentos às campanhas e manter caderneta atualizada.

Ainda assim, muitas pessoas deixam de comparecer aos postos de saúde para atualizar a

carteira de vacinação, e também de levar os filhos no tempo correto de aplicação das vacinas. “Umas

das coisas que nós temos nos preocupado muito é o receio das pessoas quanto à seguridade das

vacinas. Como não temos doenças como pólio há mais de 20 anos e profissionais de saúde nunca

viram surtos destas doenças, isso faz com que a população não tenha um olhar tão importante para

este momento. Com a diminuição dos riscos de transmissão de algumas doenças, as pessoas

passam a se preocupar mais com notícias equivocadas do que com a importância da vacinação. Só

vamos conseguir de fato a garantia da imunização da população se tivermos altíssimas coberturas

vacinais em todos os municípios brasileiros. Por isso, é fundamental que a população tome

consciência de que é preciso acompanhar as campanhas e ir regularmente às unidades de saúde

para a vacinação”, disse a coordenadora.

9. Programa Saúde da Família


A Atenção Primária à Saúde (APS) está sendo desenvolvida e reconhecida no mundo, por
mais de três décadas, como uma estratégia capaz de estruturar redes integradas de atenção à
saúde, estas como círculos virtuosos na construção de sistemas de saúde efetivos. Ao longo desse
período, as experiências, tanto em países mais desenvolvidos a exemplo da Inglaterra, Canadá,
Espanha, Portugal e Cuba, quanto em países em seus cursos de desenvolvimentos evidenciam que
a APS, melhora a eficiência e efetividade da Atenção à Saúde, com racionalização de custos,

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satisfação dos indivíduos, famílias e comunidades, vinculação e corresponsabilidade


entre estas, profissionais, gestores e gerentes dos serviços e sistemas de saúde.

Portanto, um sistema de saúde estruturado, segundo os valores, princípios e bases


organizativas da APS, tem como objetivo superior a melhoria da qualidade de vida e saúde das
famílias a ele vinculadas, onde a equidade, a integralidade e a participação social representam
imperativos éticos, morais e científicos para a realização do direito à saúde e à solidariedade social.
Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem defendido a Atenção Primária à Saúde (APS),
desde a Declaração da Alma Ata "Saúde para Todos" em 1978, como potencial estratégia para
alcançar a equidade e ganhos equitativos em saúde e no desenvolvimento humano.

O Brasil adotou o Programa de Agentes Comunitários de Saúde-PACS (1991) e o Programa


de Saúde da Família-PSF (1994) como estratégias para contribuir na construção de um novo modelo
de atenção integral à saúde das famílias. Logo, são estratégias voltadas para a reorganização das
ações de ABS, que se fundamentam em uma nova ética política institucional, cujos princípios e bases
organizativas revelam-se nos seguintes objetivos:

• · Prestar, na unidade de saúde e no domicílio, assistência integral, contínua, com resolubilidade e


boa qualidade às necessidades de saúde da população adstrita;

• · Intervir sobre os fatores de risco em que a população está exposta;

• · Eleger a família e o seu espaço social como núcleo básico de abordagem no atendimento à saúde;
• · Humanizar as práticas de saúde através do estabelecimento de um vínculo entre os profissionais
de saúde e a população;

• · Proporcionar o estabelecimento de parcerias através do desenvolvimento de ações Inter


setoriais;

• · Contribuir para a democratização do conhecimento do processo saúde/doença, da organização


dos serviços e da produção social da saúde;

• Fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e, portanto, expressão da
qualidade de vida e;

• · Estimular a organização da comunidade para o efetivo exercício social. (Brasil, 1998).

Para que essa nova prática se concretize, faz-se necessária a presença de um profissional
com visão sistêmica e integral do indivíduo, família e comunidade, um profissional capaz de atuar
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com criatividade e senso crítico, mediante uma prática humanizada, competente e


resolutiva, que envolve ações de promoção, de proteção específica, assistencial e de reabilitação.
Um profissional capacitado para planejar, organizar, desenvolver e avaliar ações que respondam às
reais necessidades da comunidade, articulando os diversos setores envolvidos na promoção da
saúde. Para tanto, deve realizar uma permanente interação com a comunidade, no sentido de
mobilizá-la, estimular sua participação e envolvê-la nas atividades ¾ todas essas atribuições deverão
ser desenvolvidas de forma dinâmica, com avaliação permanente, pelo acompanhamento de
indicadores de saúde da área de abrangência.

Um dos caracteres de diferenciação desse processo é que os profissionais das equipes de


saúde devem residir no município onde atuam, trabalhando em regime de dedicação integral. Por
sua vez, para garantir a vinculação e identidade cultural com as famílias sob sua responsabilidade,
os agentes comunitários de saúde (ACS) também devem residir nas respectivas áreas de atuação.

Responsabilidades da equipe do PSF As atribuições básicas de uma equipe de Saúde da


Família são:

• conhecer a realidade das famílias pelas quais são responsáveis e identificar os problemas de saúde
mais comuns e situações de risco aos quais a população está exposta;

• executar, de acordo com a qualificação de cada profissional, os procedimentos de vigilância à


saúde e de vigilância epidemiológica, nos diversos ciclos da vida;

• garantir a continuidade do tratamento, pela adequada referência do caso;

• prestar assistência integral, respondendo de forma contínua e racionalizada à demanda, buscando


contatos com indivíduos sadios ou doentes, visando promover a saúde por meio da educação
sanitária;

• promover ações Inter setoriais e parcerias com organizações formais e informais existentes na
comunidade para o enfrentamento conjunto dos problemas;

• discutir, de forma permanente, junto à equipe e à comunidade, o conceito de cidadania,


enfatizando os direitos de saúde e as bases legais que os legitimam; • incentivar a formação e/ou
participação ativa nos conselhos locais de saúde e no Conselho Municipal de Saúde. Por seus
princípios, o Programa Saúde da Família é, nos últimos anos, a mais importante mudança estrutural
já realizada na saúde pública no Brasil. Junto ao Programa dos Agentes Comunitários de Saúde ¾
com o qual se identifica cada vez mais ¾ permite a inversão da lógica anterior, que sempre
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privilegiou o tratamento da doença nos hospitais. Ao contrário, promove a saúde da


população por meio de ações básicas, para evitar que as pessoas fiquem doentes. Porém, se o
programa se restringir apenas à atenção básica, fracassará. A aposta do Brasil é no SUS, na atenção
integral e em todos os níveis de complexidade.

10. Anexos
10.1 Aquisição de Medicamentos pelo SUS
Resumidamente, o sistema de aquisição de compras de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde
(SUS) é organizado em três componentes: Básico, Estratégico e Especializado, além do Programa
Farmácia Popular. Os medicamentos disponibilizados pelo SUS estão listados na Relação Nacional
de Medicamentos Essenciais (Rename). E cada novo medicamento ou tecnologia em saúde a ser
incorporado na Rename é, antes, analisado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias
(Conitec).

10.2 Aquisição no Componente Básico


No Componente Básico da Assistência Farmacêutica (CBAF), estão os medicamentos que
fazem parte da atenção básica à saúde, como ácido acetilsalicílico, amoxicilina, dipirona sódica,
ibuprofeno, loratadina, paracetamol, propranolol, entre muitos outros, previstos na Rename e
dispensados pelos municípios.

O Programa Farmácia Popular do Brasil é um braço da assistência farmacêutica do SUS e faz


parte do Componente Básico. Segundo o presidente-executivo da Interfarma, Pedro Bernardo,
trata-se de um modelo de gestão bastante eficiente, pois retira do governo o ônus da compra, do
estoque, da logística e de todo o gerenciamento dos medicamentos até a dispensação ao paciente.
“O programa elimina tudo isso. É pago apenas um valor por produto dispensado, enquanto a
iniciativa privada, num ambiente concorrencial, assume os riscos”, avalia.

Em geral, o financiamento do CBAF é compartilhado entre Ministério da Saúde, estados e


municípios. De acordo com o Ministério da Saúde, a partida federal é de R$ 5,58/habitante/ano, e
as contrapartidas estadual e municipal devem ser de, no mínimo, R$ 2,36/habitante/ano cada.

Além do repasse financeiro, o Ministério da Saúde é responsável pela aquisição e distribuição


das insulinas humanas NPH e regular (frascos de 10 ml) e dos contraceptivos orais e injetáveis, além
do DIU e diafragma. As insulinas e os contraceptivos são entregues nos almoxarifados de

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medicamentos dos estados, a quem compete distribuí-los aos municípios. Os


municípios das capitais e os grandes municípios brasileiros, com população maior que 500 mil
habitantes, recebem os contraceptivos diretamente dos fornecedores contratados pelo Ministério
da Saúde.

10.3 Aquisição no Componente Especializado


No Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), os medicamentos estão
divididos em três grupos para fins de financiamento. No Grupo 1, o financiamento está sob a
responsabilidade exclusiva da União. Em geral, é constituído por medicamentos que representam
elevado impacto financeiro para o Componente e por aqueles indicados para doenças mais
complexas. No Grupo 2, encontram-se os medicamentos cuja responsabilidade pelo financiamento
é das Secretarias Estaduais de Saúde. Por fim, no Grupo 3, estão aqueles cujo financiamento é
tripartite, sendo a aquisição e a dispensação de responsabilidade dos municípios.

Entre as doenças tratadas pelo Componente Especializado estão artrite reumatoide, asma,
Alzheimer, Parkinson, epilepsia, esclerose múltipla, glaucoma, hepatite, lúpus, entre muitas outras,
inclusive doenças raras como Doença de Gaucher, Espondilopatia Inflamatória e Síndrome de
Guillain-Barré. Pacientes transplantados, que precisam de medicamentos caros, também estão
incluídos nesse componente.

10.4 Aquisição no Componente Estratégico


Por fim, vem o Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica (CESAF), que engloba
medicamentos e insumos para prevenção, diagnóstico, tratamento e controle de doenças e agravos
de perfil endêmico, com importância epidemiológica, impacto socioeconômico ou que acometem
populações vulneráveis, contemplados em programas estratégicos de saúde do SUS.

As doenças tratadas por esse componente são tuberculose, hanseníase, malária,


leishmaniose, Doença de Chagas, cólera, esquistossomose, leishmaniose, filariose, meningite,
oncocercose, peste, tracoma, micoses sistêmicas e outras doenças decorrentes e perpetuadoras da
pobreza. São garantidos ainda medicamentos para influenza, doenças hematológicas, tabagismo e
deficiências nutricionais, além de vacinas, soros e imunoglobulinas.

O financiamento dos medicamentos do Componente Estratégico fica por conta do Ministério


da Saúde, que distribui aos estados, que, por sua vez, são responsáveis por armazenar e enviar aos
municípios.

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10.5 Formas de aquisição dos medicamentos


Via de regra, os medicamentos são adquiridos por meio das licitações, onde são identificados
pelo princípio ativo. Os processos licitatórios seguem os critérios estabelecidos pela Lei Federal
8.666/1993, variando as modalidades em carta convite, tomada de preços e concorrência. Em
alguns casos, poderá haver dispensa de licitação ou inexigibilidade dela. Já a Lei Federal 10.520/2002
instituiu a modalidade de licitação denominada pregão.

De acordo com o diretor de Mercado e Assuntos Jurídicos do Sindusfarma, Bruno Abreu,


geralmente, a indústria não vende diretamente para o governo, utilizando-se de intermediários, ou
seja, distribuidores especializados nesse tipo de transação comercial. No Brasil, existe uma
associação que reúne as principais empresas desse segmento, a Associação Brasileira dos
Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (Abradimex).

“Algumas indústrias fornecem diretamente, mas nem sempre é assim. A maior incidência é
por meio de um distribuidor, que também participa das licitações, principalmente para atender ao
componente da atenção básica. Quando falamos de doenças raras, aquelas do componente
especializado, como um medicamento oncológico, por exemplo, em que a compra é centralizada
pelo Ministério da Saúde, a indústria participa mais diretamente do processo de licitação”, detalha
Abreu.

Mesmo quando há apenas um fabricante para determinado medicamento, o governo tem o


direito de optar pela licitação, pois alguns distribuidores podem ter preços melhores que os da
indústria em função de descontos ou incentivos fiscais. Por isso, conseguem concorrer oferecendo
melhores condições comerciais.

O faturamento da indústria brasileira com medicamentos gira em torno de R$ 60 bilhões


anuais. Desses, cerca de 30% vêm de compras públicas e 70%, do varejo farmacêutico. “Para a
indústria, pode ser mais vantajoso utilizar intermediários para fornecer aos órgãos públicos, pois a
taxa de inadimplência é alta. O Governo Federal e os estados costumam pagar em dia, mas os
municípios atrasam o pagamento com frequência, principalmente em tempos de crise fiscal”,
comenta o diretor do Sindusfarma.

10.6 Judicialização da saúde


Um capítulo à parte é a aquisição de medicamentos pelo SUS por determinação judicial. Ela
chegou a representar R$ 1,32 bilhão em 2016 e, embora tenha caído 22% em 2017, para R$ 1,03
bilhão, ainda se mantém alta. “Existem muitos medicamentos sendo judicializados porque não
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foram incorporados pelo SUS. O governo deveria olhar para os casos com judicialização
muito alta, verificar a efetividade do medicamento e incorporar, negociando para obter preços
melhores nas negociações de compra”, comenta o presidente-executivo da Interfarma.

Um levantamento recente da Interfarma mostra que um medicamento chega a ser 300%


mais caro quando comprado por decisão judicial, em comparação ao medicamento incorporado.
“Isso acontece porque o medicamento incorporado ao SUS sofre descontos obrigatórios e, como a
negociação é para compras em grande volume e com bastante antecedência, o desconto acaba
sendo maior. Já o medicamento judicializado, além de ser uma compra pontual, é adquirido em
caráter de urgência, o que encarece o valor”, explica Pedro Bernardo.

Para um medicamento ser incorporado ao SUS, ele precisa ser aprovado pela Conitec. “A
judicialização é, em grande parte, uma deficiência do sistema, que não está absorvendo os novos
medicamentos. Existem pacientes que precisam de tratamentos e eles buscam os seus direitos na
justiça, quando há deficiências no SUS”, acrescenta o presidente-executivo da Interfarma.

10.7 Rupturas no processo licitatório


Rupturas significam interrupção no fornecimento de determinado medicamento. Isso pode
acontecer por diversas razões, entre elas, editais malfeitos, que não são claros e específicos o
suficiente. “A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) determina um
percentual de desconto obrigatório que incide sobre o preço de fábrica de alguns medicamentos.
Em 2017, ele foi atualizado para 18%. Se o governo esquecer de colocar esse percentual na licitação
e exigir o desconto depois, a indústria pode se negar a concedê-lo, provocando ruptura na licitação”,
explica Bruno Abreu.

Esse percentual de desconto se chama Coeficiente de Adequação de Preços (CAP) e é


calculado a partir da média da razão entre o índice do PIB per capita do Brasil e os índices do PIB per
capita da Austrália, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Itália, Nova Zelândia e
Portugal, ponderada pelo PIB. Esse índice foi extraído do Relatório do Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), das Nações Unidas, e é atualizado anualmente.

Outro exemplo bem comum é a ruptura em função de preço. O distribuidor ganha o processo
licitatório por ter a melhor condição comercial, mas não consegue mantê-la por muito tempo,
justamente porque a indústria começa a praticar novos valores”, acrescenta o diretor do
Sindusfarma.
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10.8 Por que faltam medicamentos no SUS?


Em consequência das rupturas, faltam medicamentos para pacientes. Mas não apenas em
função disso. Essa falta está relacionada a diversos outros fatores, sendo um dos principais a má
gestão dos governos, que não se programam, ocasionando lentidão nas compras. “Também
podemos citar atraso no pagamento a fornecedores, compra em grande quantidade de
medicamentos com baixo fluxo de saída, fim da validade pela falta de organização e perdas por erro
de armazenamento”, acrescenta Fernando Messias Vieira dos Santos, diretor técnico da Consuldoc,
empresa de assessoria farmacêutica e sanitária.

Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), publicado em 2017, mostrou que 11


Estados e o Distrito Federal jogaram medicamentos fora em 2014 e 2015. As causas do desperdício,
que chega a R$ 16 milhões, foram validade vencida e armazenamento incorreto.

Para uma farmacêutica que trabalha no setor de compra de medicamentos de uma


instituição pública, que não quis se identificar, na maioria das vezes, as faltas estão relacionadas à
gestão inadequada dos recursos financeiros, à ausência de bons técnicos para redigir o termo de
referência – documento que detalha a compra, mencionando os medicamentos a serem comprados,
as estimativas de custo, o local da entrega, entre outros dados – e à omissão do gestor em relação
às empresas que não cumprem os prazos de entrega.

Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), um problema identificado é que muitos


municípios ainda não constituíram uma Comissão de Farmácia e Terapêutica (CFT), que tem como
objetivo formular e implementar políticas municipais relacionadas à seleção, à prescrição e ao uso
racional de medicamentos.

“Com a inexistência de uma CFT, o município apresentará uma Relação Municipal de


Medicamentos (REMUME) inadequada, muitas vezes, com o número de itens exagerado ou
repetido e com outros itens faltando, em desacordo com o perfil epidemiológico de sua população.
A consequência será o impacto no orçamento da saúde, possível direcionamento para a
judicialização frente às faltas de medicamentos e, principalmente, o impacto na saúde das pessoas”,
aponta Everton Borges, integrante do Grupo de Trabalho sobre Judicialização do CFF.

10.9 Papel do farmacêutico


A estrutura pública para a assistência farmacêutica é bastante complexa. São vários setores,
departamentos e áreas onde se podem encontrar farmacêuticos envolvidos com a aquisição de

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medicamentos para serem dispensados em unidades básicas de saúde, unidades de


pronto-atendimento, farmácias, ambulatórios e hospitais.

O farmacêutico devidamente capacitado é capaz realizar uma série de atividades, entre elas,
elaborar especificações adequadas e termos de referência que blindam a instituição de maus
fornecedores; auxiliar na redação de editais bem específicos para os medicamentos; viabilizar o
sucesso da pesquisa de preços de produtos mais específicos; realizar com segurança e celeridade as
fases de aceitação e qualificação; e fiscalizar as entregas e a qualidade dos produtos recebidos.

De acordo Fernando Santos, da Consuldoc, o farmacêutico possui grande relevância em todo


o processo de aquisição de medicamentos pelo SUS, podendo atuar no levantamento das
demandas, na realização de orçamentos, no cadastramento de fornecedores, na elaboração do
cronograma de compras, no controle de estoque, no levantamento de faltas, no suporte da
dispensação, entre outras atividades.

Além de tudo isso, o farmacêutico pode atuar também como um agente fiscalizador, sendo
rigoroso nos processos e exigindo o cumprimento da legislação vigente. A atuação dele pode
contribuir para evitar licitações fraudulentas e rupturas no fornecimento.

O Portal da Transparência, criado em atendimento à Lei Federal 12.527/2011, é um grande


avanço e elucida muitos dados, mas não é detalhista na prestação de contas, principalmente a nível
municipal. Por isso, o comprometimento do profissional farmacêutico com a ética e as normas é
fundamental. “Vejo os municípios como os principais descumpridores da Lei da Transparência, haja
vista que, em muitos, o acesso à internet é ainda precário, faltam profissionais qualificados e não
há gestão contínua das contas públicas”, avalia Fernando Santos.

10.10 Irregularidades e corrupção


Mais comum do que se pensa são as interrupções no fornecimento de medicamentos em função
de investigações e operações deflagradas pelas Polícias Federal e Civil, a maioria a partir de denúncias
feitas pelos Ministérios Públicos Federal e Estaduais. Um rápido levantamento, na internet, apurou
algumas investigações deflagradas em 2017 e 2018.

Operação Alto Custo (2017) – para investigar irregularidades na aquisição de medicamentos para as
unidades Ceilândia e Asa Sul da Farmácia Ambulatorial Especializada. A ação fez parte das
investigações de inquérito civil público aberto para investigar irregularidades nas farmácias de alto custo
do Distrito Federal.

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Operação Medicar (2017) – deflagrada para apurar fraude na compra de medicamentos e


material médico-hospitalar pela Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa) entre os anos de 2015 e
2017. A estimativa é de que as empresas investigadas tenham recebido do Estado a quantia aproximada
de R$ 48 milhões em dois anos. Entre as irregularidades investigadas estão troca de materiais,
pagamento de fornecedores antes da entrega da mercadoria, recebimento de materiais sem registro nos
órgãos de vigilância sanitária e superfaturamento de preços.

Operação Cálice de Hígia (2017) – para investigar fraude na compra de medicamento de alto custo em
Campinas e na capital paulista. No interior, funcionava uma associação responsável por ajuizar medidas,
solicitando, em caráter liminar, o fornecimento do medicamento Soliris. Somente na Justiça Federal do
Distrito Federal foram identificados 900 pedidos desse tipo. Desde 2010, a aquisição desse
medicamento custou R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos.

Operação Placebo (2018) – para desmontar uma organização criminosa formada por 27 pessoas e por
três empresas farmacêuticas, denunciados por crimes de falsidade ideológica, fraudes societárias,
falsificação de documentos públicos e privados, lavagem de bens e corrupção de agente público. Eles
teriam causado um prejuízo ao Estado de Alagoas de cerca de R$ 200 milhões. Mais de cinco mil tipos
de medicamentos foram apreendidos.

Operação Asclépio (2018) – para apurar a existência de um suposto esquema de cobrança de vantagens
indevidas e fraudes em licitações para compra de produtos hospitalares, entre eles, medicamentos, pela
Marinha Brasileira. Profissionais do hospital estão sendo investigados pelos crimes de corrupção, fraude
à licitação, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Operação Hipócrates (2018) – para investigar fraude em licitações feitas pelas prefeituras de nove
municípios do sul da Bahia para a compra de medicamentos e insumos hospitalares. O rombo para os
cofres públicos ultrapassou os R$ 15 milhões.

11 Referências
ENKINS, C. D. Construindo uma saúde melhor: um guia para a mudança de comportamento. Porto
Alegre: Artmed, 2007;
SENAC. Fundamentos da Saúde. 3. ed. Rio de Janeiro: SENAC, 2007;

CAMPOS, G. W. S. et al. (org.). Tratado de saúde coletiva. São Paulo: HUCITEC, 2006.

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