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Robert Graves
Eu, Cláudio
COM BASE NA AUTOBIOGRAFIA DE TIBÉRIO CLÁUDIO
IMPERADOR DOS ROMANOS
NASCIDO EM 10 A.C.
ASSASSINADO E DEIFICADO
EM 54 D.C.
LYON EDIÇÕES
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Título original: Claudius


Tradução de Maria de Lourdes Medeiros
Revisão de Sérgio Coelho
© Penguin Books
Direitos reservados por Lyon Multimédia Edições, Lda.
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passíveis de procedimento judicial.
Execução técnica: Gráfica Europam Lda., Mem Martins
Editores: Francisco Pedro Lyon de Castro e Nuno Lyon de Castro
LYON MULTIMÉDIA EDIÇÕES, LDA.
Apartado 7
2726 Mem Martins Codex Portugal
Depósito Legal n° 203728/03 Edição publicada em Dezembro de 2003
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Ao Sr. A. K. Smith, do I.C.S., agradeço a versão latina dos versos sibilinos mencionados no
primeiro capítulo. Foram aqui impressos pela primeira vez:
Púnica centenas durabit poena per annos:
Rés Romana viro parebit caesariato:
Calvus caesarie dominus dominabitur urbi:
Omnibus ille viris mulier mas ille puellis:
Rex equitabit equo bifidis equus unguibus ibit:
Filius imbelli fictus mactaverit ictu.
Imperium hinc alterfido patre caesariato
Caesariae crinitus habet, qui mármore Romae
Mutabit lateres. Nin visis vinciet Urbem
Compedibus. Fictae secreto coniugis astu
Occidet ut fictus bonafilius occupet heres.
Tertius hinc sumetficto patre caesariato
Calvus caesarie regnum cui sanguine limus
Commixtus. Victrix penes ilium et vicia vicissim
Roma erit. Ille instar gladii pulvinar habebit,
Filius et fictus regni potietur iniqui.
Quartus habet soliumficto patre caesariato
Calvus caesarie invenis, cui Roma ministrae est.
Feta venefiáis Urbs ímpia serviet uni.
Quo puer ibat equo vectus calcatus eodem
Se iuvenem ferro cecidisse fatetur equino
Caesariatus ad hoc quintus numerabitur hirtus
Caesarie, toti genti contemptus avitae.
Imbecillus iners, aestivas addere Romae
Aptus aquas populo frumenta hiemalia praebet.
Ille tamenfictae secreto coniugis astu
Occidet ut fictus bonafilius occupet heres.
Sextus habet regnum fido patre caesariato.
Flamma pavor citharoedus eunt tria monstra per urbem.
Sanguine dextra rubet materno. Septimus heres
Nemo erit, ai sexti busto cruor ibit ab imo.
R.G.
Galmpton, Brixham
1941
A versão original destes versos, em inglês, poderá ser consultada na nota de rodapé da pg. 18 (N. do T.)
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”... Uma história que originou toda a espécie de ideias falsas, tanto por parte daqueles que
viveram na altura como em tempos subsequentes: tão verdadeira que todas as transacções
de maior importância estão envoltas em dúvida e obscuridade; enquanto alguns tomam
como factos seguros os rumores mais precários, outros transformam os factos em
falsidade; e ambos são exagerados pela posteridade.”
TÁCITO
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Nota Biográfica
Robert Graves nasceu em 1895 em Wimbledon, sendo filho de Alfred Percival Graves, escritor
irlandês, e de Amália von Ranke. Saiu da escola para a primeira Guerra Mundial, onde se tornou
capitão dos Reais Fuzileiros Galeses. A sua principal vocação era a poesia e os seus Selected Poems
foram publicados pela Penguin. Aparte o ano em que foi professor de Literatura Inglesa na
Universidade do Cairo, em 1926, ganhou a vida a escrever, sobretudo romances históricos. Entre
eles, contam-se: Claudius (Eu, Cláudio); Claudius the God (Cláudio o Deus); Sergeant Lamb ofthe
Ninth (O Sargento Lamb da Nona); Count Belisarius (O Conde Belisário); Wife to Mr. Milton
(Uma Esposa para o Sr. Milton); Proceed, Sergeant Lamb (Continue, Sargento Lamb); The Golden
Fleece (O Veio de Ouro); They HangedMy Saintly Billy (Enforcaram o Meu Santo Billy); The Isles
of Unwisdom (As Ilhas da Insensatez). Escreveu a sua autobiografia, Goodbye To Ali That (Adeus a
Tudo Isto), em 1929, que rapidamente se afirmou como um clássico moderno. O suplemento
literário do Times aclamou-o como ”um dos mais cândidos auto-retratos de um poeta, com
verrugas e tudo, que alguma vez foi pintado”, além de ser de um valor excepcional como
documento de guerra. Os seus dois livros de não-ficção mais discutidos são The White Goddess (A
Deusa Branca), que apresenta uma visão nova do impulso poético, e The Nazarine Gospel Restored
(O Evangelho do Nazareno Recuperado) com Joshua Podro, que consiste numa análise renovada da
cristandade primitiva. Traduziu Apuleio, Lucan e Suetónio para os Clássicos da Penguin e compilou
o primeiro dicionário moderno da mitologia grega, The GreekMyths (Os Mitos Gregos). A sua
tradução de The Rubáiyát of Ornar Khayyám (com Ornar Ali-Shah) foi também publicada pela
Penguin. Foi eleito professor de Poesia em Oxford em 1961 e tornou-se Membro Honorário do St.
John’s College, Oxford, em 1971.
Robert Graves morreu a 7 de Dezembro de 1985, em Maiorca, onde vivia desde 1929. Por altura da
sua morte, o Times escreveu a seu respeito: ”Ele será lembrado pelos seus sucessos como prosador,
autor de romances históricos e de memórias, mas, acima de tudo, como o grande paradigma do
poeta dedicado, o maior poeta do amor em língua inglesa desde Dorme.”
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Nota do Autor
A moeda de ouro usada aqui como unidade monetária corrente é o aureus latino, que vale
100 sestércios ou vinte e cinco denários (moedas de prata): pode atribuir-se-lhe o valor
aproximado de uma libra esterlina ou cinco dólares americanos, ao valor de antes da guerra.
A milha é a milha romana, cerca de trinta passos mais curta que a milha inglesa. Por uma
questão de conveniência, as datas foram indicadas de acordo com o cálculo cristão: o
cálculo grego usado por Cláudio contava os anos a partir da primeira Olimpíada, que teve
lugar em 776 AC. Também por uma questão de conveniência, foram usados os nomes
geográficos mais familiares: assim França e não Gália Transalpina, porque a França cobre
mais ou menos a mesma área territorial e seria inconsistente chamar cidades como Nimes,
Bologne e Lyon pelos seus nomes modernos os clássicos não seriam reconhecidos pela
generalidade dos leitores ao mesmo tempo que eram colocadas na Gália Transalpina ou,
como era designada pelos gregos, a Galatia (a terminologia geográfica grega é muito
confusa: a Germânia era o país dos celtas). Da mesma forma, foram usadas as formas mais
familiares dos nomes próprios Lívio para Titus Lívius, Cimbelino para Cunobelinus, Marco
António para Marcus Antonius.
Foi difícil por vezes encontrar correspondentes adequados para termos técnicos militares,
legais e outros. Para dar um único exemplo, temos a palavra azagaia. O aviador T. E. Shaw
(a quem aproveito a oportunidade para agradecer a leitura cuidadosa destas provas) põe em
causa o meu uso de azagaia para o germânico framea ou pfreim. Sugere antes javelina. Mas
eu não adoptei a sugestão, como adoptei com gratidão outras que me fez, porque precisava
de javelina para pilum, a arma de arremesso utilizada pela disciplinada infantaria romana; e
azagaia tem uma ressonância mais violenta. A palavra azagaia é usada há 300 anos e
adquiriu um vigor renovado no século xix, com as guerras contra os Zulus. A framea de
haste longa e cabeça de ferro era usada, segundo Tácito, como arma de arremesso e como
arma branca. O mesmo acontecia com as azagaias
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dos guerreiros Ama-Zulu, com quem os germanos do tempo de Cláudio tinham muito em
comum culturalmente. Para conciliar as afirmações de Tácito, primeiro quanto ao fácil
manejo daframea na luta corpo a corpo e depois quanto à sua inutilidade no meio das
árvores, o mais provável é que os germanos tenham feito o mesmo que os Zulus partiam a
ponta da longa haste daframea quando entravam na luta corpo a corpo. Mas isso raramente
acontecia, porque os germanos preferiam sempre uma táctica de ataque e fuga quando se
defrontavam com a infantaria romana, que dispunha de armas melhores.
Suetónio, nos seus Doze Césares, refere-se às histórias de Cláudio como tendo sido escritas
com inépcia, mais do que com deselegância. No entanto, se certas passagens do presente
trabalho estão escritas não apenas com inépcia mas também com uma certa falta de
elegância, isso não entra em desacordo com o estilo literário de Cláudio, tal como o
podemos encontrar no seu discurso em latim sobre a Aeduan, do qual ainda nos restam
fragmentos. Na verdade, o discurso abunda em deselegâncias deste tipo, mas também não
esqueçamos que se trata provavelmente de uma transcrição do registo estenografado oficial
das palavras exactas de Cláudio ao Senado o discurso de um homem cansado, numa
oratória conscenciosamente improvisada a partir de algumas notas simples.
Eu, Cláudio é uma escrita de tom coloquial; tal como o grego é, na verdade, uma língua
muito mais coloquial que o latim. A recém-descoberta carta de Cláudio aos Alexandrinos,
em grego, que pode no entanto ser em parte obra de um secretário imperial, é de leitura
muito mais fácil que o citado discurso.
Tenho a agradecer a Miss Eirlys Roberts a sua ajuda na exactidão clássica e a Miss Laura
Riding a sua crítica quanto à congruência do inglês.
RG. 1934
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CAPÍTULO I
Eu, Tibério Cláudio Druso Nero Germânico, Isto-aquilo-e-aqueloutro (pois não pretendo
aborrecer-vos para já com todos os meus títulos), que fui em tempos, e não há muito,
conhecido pelos meus amigos, parentes e associados como Cláudio o Idiota, ou Esse
Cláudio ou Cláudio o Gago ou Clau-Clau-Cláudio, ou ainda, na melhor das hipóteses, como
Pobre Tio Cláudio, estou agora a escrever esta estranha história da minha vida; começando
com a minha primeira infância e continuando, ano após ano, até atingir o fatal ponto de
mudança em que, há cerca de oito anos, com cinquenta e um de idade, me encontrei
repentinamente apanhado por aquilo a que posso chamar de predestinação dourada, da qual
nunca mais consegui libertar-me.
Este não é de forma alguma o meu primeiro livro: na verdade, a literatura, e em especial a
escrita sobre a história que em jovem estudei aqui em Roma, com os melhores mestres
contemporâneos, foi, até que se deu a mudança, a minha única profissão e interesse ao
longo de mais de vinte e cinco anos. Os meus leitores não devem portanto ficar
surpreendidos com o meu estilo trabalhado: é realmente o próprio Cláudio que está a
escrever este livro e não um mero secretário seu, nem um desses analistas oficiais a quem
os homens públicos têm o hábito de comunicar as suas lembranças, na esperança de que
uma escrita elegante disfarce a escassez do assunto e de que a lisonja atenue os vícios. Na
presente obra, juro por todos os Deuses que sou o meu único secretário e o meu próprio
analista oficial: escrevo pelo meu próprio punho. E que favores poderia esperar alcançar de
mim mesmo através da lisonja? Posso acrescentar que esta não é a primeira história da
minha vida que escrevo. Em tempos escrevi outra, em oito volumes, como contribuição
para os arquivos da Cidade. Foi uma tarefa monótona, à qual dei pouco valor, e apenas o fiz
para corresponder a um pedido público. Para ser franco, durante a sua composição, que teve
lugar há dois anos, encontrava-me extremamente ocupado com outras questões. Ditei a
maior parte dos primeiros quatro volumes a um secretário grego e disse-lhe que não
alterasse nada enquanto escrevia (excepto, quando necessário, para melhorar o equilíbrio
das frases ou para evitar contradições ou repetições). Mas admito que quase toda a segunda
metade do trabalho, e pelo menos alguns capítulos da primeira,
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foram compostos por este mesmo indivíduo, Políbio (a quem eu próprio baptizara, sendo
ele ainda rapaz e escravo, pensando no famoso historiador), a partir de material fornecido
por mim. Ele modelou com tanta exactidão o seu estilo pelo meu que, na realidade, quando
terminou, ninguém teria conseguido distinguir a parte que fora feita por mim da que tinha
sido feita por ele.
Repito que era um livro monótono. Eu não estava em posição de criticar o Imperador
Augusto, que era meu tio-avô pelo lado materno, ou a sua terceira e última esposa, Lívia
Augusta, que era minha avó, porque ambos tinham sido deificados e, na qualidade de
sacerdote, encontrava-me ligado aos seus cultos; embora pudesse ter criticado acerbamente
os dois imprestáveis sucessores imperiais de Augusto, não o fiz por uma questão de
decência. Teria sido injusto absolver Lívia, e mesmo o próprio Augusto, na medida em que
ele se submeteu a essa mulher notável e deixai-me que o diga de imediato abominável, ao
mesmo tempo que dizia a verdade sobre os outros dois, cujas memórias não estavam
protegidas da mesma forma pelo respeito religioso.
Deixei que fosse um livro monótono, registando apenas factos incontroversos, tais como,
por exemplo, Fulano-de-Tal casou com Fulana-de-Tal, filha Daquele e da Outra que tinha
este ou aquele número de honras públicas a seu favor, mas sem falar nas razões políticas
por trás do casamento ou das negociações secretas entre as famílias. Ou então, escrevia que
Fulano-de-Tal morrera de repente, depois de comer um prato de figos africanos, mas sem
falar em veneno, ou a quem a morte aproveitava, a menos que os factos estivessem
apoiados por um veredicto do Tribunal Criminal. Não contei mentiras, mas também não
disse a verdade no sentido em que tenciono fazê-lo aqui. Quando hoje consultei esse livro,
que está na Biblioteca de Apolo, no Monte Palatino, para refrescar a minha memória sobre
alguns detalhes quanto a datas, senti-me interessado ao depararem-se-me passagens nos
capítulos públicos que teria jurado não ter escrito ou ditado. Se eram da autoria de Políbio,
constituíam uma peça de mímica extremamente hábil (ele tinha as minhas outras histórias
para estudar, admito), mas se eram realmente da minha autoria, então a minha memória está
ainda pior do que o afirmam os meus inimigos. Relendo aquilo que acabei de escrever, vejo
que devo estar a suscitar e não a desarmar a suspeita, em primeiro lugar quanto à minha
autoria exclusiva daquilo que se segue, depois, quanto à minha integridade enquanto
historiador, e finalmente, quanto à minha memória dos factos. Mas vou deixar que fique
assim: sou eu próprio a escrever aquilo que sinto e, à medida que a história avançar, o leitor
estará mais preparado para constatar que nada escondo por mais que isso contribua para o
meu descrédito.
Esta é uma história confidencial. Mas quem, poderão perguntar, são os meus confidentes? A minha
resposta é: aqueles que hão de vir, a posteridade.
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Não me refiro aos meus bisnetos, nem aos meus tetranetos. Falo de uma posteridade
extremamente remota. No entanto, a minha esperança é que vós, os meus leitores eventuais,
daqui a uma centena de gerações ou mais, sintais que vos falo directamente, como um
contemporâneo: como muitas vezes Heródoto e Tucídides, mortos há muito, parecem falar
comigo. E porque especifico uma posteridade tão remota como essa? Passo a explicar.
Fui a Cumas, na Campânia, há pouco menos de dezoito anos e visitei a Sibila na sua gruta
rochosa no Monte Gauro. Há sempre uma Sibila em Cumas, porque, assim que morre uma,
sucede-lhe a sua noviça-assistente; mas nem todas são igualmente famosas. A algumas
delas, em todos os seus longos anos de serviço, nunca Apolo concede a profecia. Outras
profetizam de facto, mas parecem mais inspiradas por Baco do que por Apolo, a julgar
pelos despropósitos ébrios que debitam. E tudo isto tem trazido descrédito ao oráculo.
Antes da sucessão de Deífobe, que Augusto consultava com frequência, e de Amalteia, que
ainda está viva e é muito famosa, tinha havido uma série de Sibilas muito fracas durante
quase
300 anos. A gruta fica por trás de um pequeno templo grego de grande beleza, consagrado a
Apolo e a Artémis Cumas era uma colónia grega eólica. Há um frizo antigo dourado sobre
o pórtico, atribuído a Dédalo, embora isto seja nitidamente absurdo, dado que não tem mais
de 500 anos e, mesmo que os tenha, Dédalo viveu pelo menos há 1.100 anos. O frizo
representa a história de Teseu e do Minotauro, que ele matou no Labirinto de Creta. Antes
de ser autorizado a visitar a Sibila, tive que sacrificar ali um boi e uma ovelha,
respectivamente, a Apolo e a Artémis. Fazia um tempo frio de Dezembro. A gruta era um
lugar aterrador, cavado na rocha maciça; o acesso era íngreme, tortuoso, escuro como breu
e cheio de morcegos. Fui disfarçado, mas a Sibila reconheceu-me. Deve ter sido a gaguez
que me traiu. Em criança eu gaguejava muito, embora, seguindo os conselhos de
especialistas da fala, tivesse aprendido gradualmente a controlar esse defeito em ocasiões
públicas determinadas; mesmo assim, em privado e em situações não premeditadas, ainda
me acontece, embora em menor escala, enrolar-se-me a língua nervosamente. E foi
exactamente o que se passou em Cumas.
Cheguei à caverna interior depois de ter tacteado penosamente o meu caminho escada
acima, a quatro; vi a Sibila, mais parecida com um macaco do que com uma mulher,
sentada numa cadeira dentro de uma gaiola suspensa do tecto. Estava vestida de vermelho;
por entre um único raio de luz vermelha, que descia não sei bem de onde, vislumbravam-se
os seus olhos fixos e brilhantes. A boca sem dentes sorria. À minha volta havia um cheiro a
morte. Mas consegui arrancar de mim mesmo a saudação que tinha preparado. Ela não me
respondeu. Só algum tempo depois fiquei a saber que aquele era o corpo mumificado de
Deífobe, a Sibila anterior, que morrera recentemente com a idade de 110 anos; as pálpebras
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eram sustidas por bolas de vidro, prateadas na parte de trás para as fazer brilhar. A Sibila
reinante sempre vivera com a sua predecessora. Bom, eu devo ter ficado alguns minutos
diante de Deífobe, a tremer e a fazer caretas propiciatórias. Pareceu-me uma eternidade.
Finalmente, a Sibila viva, cujo nome era Amalteia, uma mulher bastante jovem, fez a sua
aparição. O raio de luz vermelha deixou de ser visível e Deífobe desapareceu, alguém,
provavelmente a noviça, tinha tapado a minúscula janela de vidro vermelho e um novo raio,
branco, desceu e iluminou Amalteia, sentada sobre um trono de marfim, no meio das
sombras do fundo da gruta. Tinha um rosto belo e de aspecto louco, com a testa alta, e
estava sentada tão imóvel como Deífobe. Mas tinha os olhos fechados. Os joelhos tremiam-
me e pus-me a gaguejar, sem conseguir parar.
Oh Sib... Sib... Sib... Sib... Sib... Comecei. Ela abriu os olhos, franziu a testa e imitou-me.
OhClau...Clau... Clau...
Aquilo deixou-me envergonhado e lá consegui lembrar-me do que tinha vindo perguntar.
Com grande esforço, disse-lhe:
Oh, Sibila: vim interrogar-te sobre o destino de Roma e sobre o meu.
Gradualmente o seu rosto modificou-se; o poder profético apoderou-se dela, debateu-se,
arquejou. Ouviu-se um ruído, precipitando-se em todas as galerias; as portas batiam, asas
roçavam-me a face, a luz desapareceu e ela pronunciou um verso grego na voz do Deus:
Quem sob a Maldição Púnica geme
E da bolsa os cordões sufoca
Antes de recuperar, muito terá de piorar.
A sua boca viva, moscas azuis gerará,
E em volta dos seus olhos as larvas rastejarão
Nenhum homem poderá prever o dia em que ela morrerá.
Depois, lançando os braços por cima da cabeça, recomeçou:
Dez dias, cinquenta dias e três,
Clau-Clau-Clau receberá
Uma dádiva que todos desejam menos ele.
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Perante companhia bajuladora Há-de gaguejar, cacarejar, engasgar-se, Com a baba do


lábio a pingar-lhe.
Mas quando emudecer e aqui não mais estiver, Dentro de mil e novecentos anos ou perto,
Clau-Clau-Cláudio com clareza falará.
O Deus riu-se de novo pela boca dela; um som magnífico mas terrível Ho! ho! ho!
Eu obedeci; voltei-me rapidamente e saí aos tropeções, estatelando-me ao comprido no
primeiro lanço de escadas partido, ferindo a cabeça e os joelhos. Foi uma saída penosa, com
aquele riso tremendo a perseguir-me.
Falando agora como adivinho experimentado, historiador profissional e sacerdote que teve
oportunidades de estudar os livros sibilinos tal como foram regularizados por Augusto,
posso interpretar os versos com alguma confiança. Ao falar na Maldição Púnica, a Sibila
referia-se nitidamente à destruição de Cartago por nós, os romanos. Há muito que estamos
sob uma maldição divina por causa disso. Jurámos amizade e protecção a Cartago em nome
dos nossos Deuses mais importantes, incluindo Apolo; e depois, invejosos da sua rápida
recuperação dos estragos da Segunda Guerra Púnica, levámo-la a entrar na Terceira Guerra
Púnica e destruímo-la completamente, massacrando os seus habitantes e cobrindo-lhe os
campos de sal. Os cordões da bolsa são os principais instrumentos desta maldição uma
loucura pelo dinheiro que sufocou Roma desde que ela destruiu o seu principal rival no
comércio, tornando-se senhora de todas as riquezas do Mediterrâneo. Com a riqueza veio o
desleixo, a cobiça, a crueldade, a desonestidade, a cobardia, o efeminamento e todos os
outros vícios impróprios dos romanos. Qual era a dádiva que todos desejavam excepto eu e
ela, chegou exactamente dez anos e cinquenta e três dias mais tarde é o que haveis de ler na
devida altura. As linhas que se referiam a Cláudio, falando com clareza, intrigaram-me
durante anos, mas finalmente acho que as entendo. São, estou convencido, uma
recomendação para que escreva o presente trabalho. Quando estiver terminado, vou tratá-lo
com um fluído de preservação, selá-lo num cofre de chumbo e enterrá-lo bem fundo,
algures, para que a posteridade o encontre e leia. Se a minha interpretação estiver correcta,
ele virá a ser encontrado daqui a uns 1900 anos. Nessa altura, quando todos os outros
autores deste tempo cujas obras tiverem sobrevivido parecerem estar a arrastar os pés e a
gaguejar, por terem escrito com cautelas e apenas para o momento presente,
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a minha história soará com clareza e ousadia. Talvez, pensando melhor, não me dê ao
trabalho de a selar num cofre. Vou deixá-la por aí. Na realidade, a minha experiência como
historiador diz-me sobretudo que os documentos sobrevivem devido ao acaso e não tanto à
intenção. Apolo fez a profecia; portanto, deixarei que Apolo tome conta do manuscrito.
Como vedes, decidi escrever em grego, porque essa língua, estou convencido, há-de ser
sempre a principal língua literária do mundo. E se Roma entrar em decomposição, como a
Sibila indicou, não se decomporá com ela a sua língua? Além disso, o grego é a língua do
próprio Apolo.
Serei cuidadoso com as datas (que, como vedes, ponho à margem) e com os nomes
próprios. Ao compilar as minhas histórias da Etrúria e de Cartago passei mais horas
conturbadas do que me é grato recordar, tentando descobrir em que ano este ou aquele
acontecimento tiveram lugar e se Fulano-de-Tal era realmente Fulano-de-Tal e se era filho
ou neto ou bisneto ou se não tinha qualquer parentesco. Tenciono poupar os meus
sucessores a esta espécie de irritação. Assim, por exemplo, os vários personagens desta
história que têm o nome de Druso o meu pai, eu próprio, um filho meu, o meu primo em
primeiro grau, o meu sobrinho, cada um deles será cuidadosamente identificado sempre que
referido. E, ainda como exemplo, ao falar do meu tutor, Marco Pórcio Catão, é necessário
esclarecer que não se tratava de Marco Pórcio Catão, o Censor, instigador da terceira
Guerra Púnica; nem do seu filho com o mesmo nome, o famoso jurista; nem do seu neto, o
Cônsul do mesmo nome; nem do bisneto com o mesmo nome, inimigo de Júlio César; nem
do quadrineto do mesmo nome, que morreu na batalha de Filipos; mas de um tetraneto
totalmente obscuro, também com o mesmo nome, mas que nunca teve qualquer cargo
público nem mereceu tê-lo. Augusto fez dele meu tutor e depois mestre-escola de outros
jovens nobres romanos e filhos de reis estrangeiros. Porque, embora o seu nome lhe
pudesse dar acesso a uma posição da mais alta dignidade, a sua natureza severa, estúpida e
pedante não lhe permitia ser mais do que um elementar mestre-escola.
Para fixar a data à qual pertencem estes acontecimentos, penso que o melhor que posso
fazer é mencionar que o meu nascimento ocorreu no
744° ano após a fundação de Roma por Rómulo, e no 767° ano
10 a.C. depois da primeira Olimpíada; e que o Imperador Augusto, cujo
nome é pouco provável que se apague mesmo passados 1900 anos de história, governava
então havia vinte anos.
Antes de concluir este capítulo introdutório, tenho ainda alguma coisa a acrescentar sobre a
Sibila e as suas profecias. Já referi que, em Cumas, quando uma Sibila morre outra lhe
sucede. Contudo, há algumas que se
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tornam mais famosas que outras. Houve uma muito famosa, Demófila, que Eneias
consultou antes da sua descida ao Inferno. E houve uma outra mais tarde, Herófila, que
procurou o rei Tarquínio e lhe ofereceu uma colecção de profecias por um preço mais alto
do que ele desejava pagar. Como ele recusasse, diz a história, ela queimou uma parte e
ofereceu-lhe o restante pelo mesmo preço, o que ele voltou a recusar. Depois, queimou
outra parte e ofereceu-lhe o que restava, sempre pelo mesmo preço que ele, por curiosidade,
pagou. Os oráculos de Herófila eram de dois tipos: avisos ou profecias esperançosas para o
futuro e indicações quanto aos sacrifícios propiciatórios adequados que deviam ser feitos
quando tais portentos ocorressem. A estes foram acrescentados, com o tempo, todos os
oráculos notáveis e comprovados anunciados a pessoas privadas. Assim, sempre que Roma
parece estar sendo ameaçada por estranhos presságios ou por desastres, o Senado ordena
que os livros sejam consultados pelos sacerdotes encarregados dos mesmos, encontrando-se
sempre um remédio. Duas vezes os livros foram parcialmente destruídos pelo fogo e as
profecias perdidas reconstituídas a partir das memórias conjuntas dos sacerdotes
encarregados. Em muitos casos, as memórias parecem ter sido extremamente deficientes:
essa é a razão porque Augusto decidiu criar um cânon fiável das profecias, rejeitando
aditamentos ou reconstituições nitidamente não inspiradas. Também recolheu e destruiu
todas as colecções particulares não autorizadas de oráculos sibilinos, bem como todos os
outros livros de profecias públicas a que conseguiu deitar mão e cujo número total ascendeu
a mais de 2000. Quanto aos livros sibilinos revistos, colocou-os numa arrecadação fechada
à chave, situada sob o pedestal da estátua de Apolo, no templo que ele construiu para o
Deus perto do seu palácio do Monte Palatino. Um único livro da biblioteca histórica
privada de Augusto veio parar ás minhas mãos, algum tempo após a sua morte. Chamava-
se: Curiosidades Sibilinas: profecias que foram encontradas incorporadas no cânon
original e rejeitadas como apócrifas pelos sacerdotes de Apoio. Os versos foram copiados
na bela caligrafia do próprio Augusto, com os erros de ortografia característicos que,
originariamente nascidos da ignorância, ele posteriormente adoptou por uma questão de
orgulho. Era evidente que a maior parte destes versos nunca foram pronunciados pela
Sibila, quer durante o êxtase quer fora dele, mas sim compostos por pessoas irresponsáveis
que desejavam glorificar-se a si próprios ou às suas casas ou amaldiçoar as casas de rivais,
proclamando a autoria divina das fantasiosas previsões contra eles. A família Claudiana
tinha estado particularmente activa, segundo me apercebi, nestas falsificações. No entanto,
encontrei uma ou duas peças cuja linguagem comprovou serem respeitavelmente arcaicas,
cuja inspiração parecia divina e cujo sentido, claro e alarmante, fizera evidentemente com
que
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Augusto - a palavra dele era lei entre os sacerdotes de Apolo - não as incluísse no seu cânon. Este
pequeno livro já não está na minha posse. Mas recordo praticamente cada palavra da mais
memorável destas profecias, aparentemente genuína, que foi registada no grego original e também
(como a maior parte das peças mais antigas do cânone) em ásperos versos latinos. Dizia assim: Cem
anos após a Maldição Púnica
Roma será escrava de um homem cabeludo, Um homem cabeludo com falta de cabelo,
A mulher de todos os homens e o homem de todas as mulheres. O garanhão que ele monta terá pés
em vez de cascos.
Ele morrera pela mão do seu filho-não filho, E não no campo de batalha.
O cabeludo seguinte que há-de escravizar o Estado Será filho-não filho, deste último cabeludo,
O seu cabelo será uma esfregona generosa. Ele dará a Roma mármore em vez de argila E
acorrentá-la-á com correntes invisíveis, E morrerá à mão de sua esposa-não esposa, Para
benefício do seu filho-não filho.
Optámos por apresentar aqui uma tradução literal (não poética), no sentido de não desvirtuarmos o
sentido original destes versos. Exceptuamos aqui a expressão son, no son, que resolvemos equivaler
a filho-não filho, na medida em que o autor pretende insinuar, no estilo irónico que percorre todos
estes versos, que aquele que era designado por filho do imperador em causa não o seria
efectivamente ou, em outros casos, pelos seus actos e atitudes, não parecia sê-lo.
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O terceiro cabeludo a escravizar o Estado


Seráfilho-não filho deste último cabeludo.
Será lama bem misturada com sangue,
Um homem cabeludo com falta de cabelo.
Ele dará a Roma vitórias e derrotas
E morrerá para benefício do seu filho-não filho
Uma almofada será a sua espada.
O quarto cabeludo a escravizar o Estado Será filho-não filho, deste último cabeludo. Um
homem cabeludo que tem falta de cabelo, Ele dará a Roma venenos e blasfémias E
morrerá de um coice do velho cavalo Que o transportou em criança.
O quinto cabeludo a escravizar o Estado,
A escravizar o Estado, embora contra sua vontade,
Será aquele idiota que todos desprezavam.
Ele terá cabelo, qual esfregona generosa.
Ele dará a Roma água e pão para o Inverno
E morrerá à mão de sua esposa-não esposa,
Para benefício de seu filho-não filho.
O sexto cabeludo a escravizar o Estado
Será filho-não filho, deste último cabeludo.
Ele dará a Roma músicos, medo e fogo.
A sua mão estará vermelha do sangue de um parente.
Nenhum sétimo cabeludo lhe sucederá
E o sangue jorrará do seu túmulo.
Ora bem, deve ter sido evidente para Augusto que o primeiro dos cabeludos, isto é, dos
Césares (porque César significa cabeça de cabelo), era o seu tio-avô Júlio, que o adoptou.
Júlio era careca e famoso pelos seus deboches com ambos os sexos; e o seu cavalo de
guerra, como consta dos registos públicos, era um monstro que tinha dedos nos pés em vez
de cascos. Júlio escapou vivo de muitas batalhas renhidas para acabar por ser assassinado,
no Senado, por Brutus. E Brutus, embora filho de outro, era, dizia-se, filho natural de Júlio.
”Também tu, meu filho!”, disse Júlio, quando Brutus foi direito a ele com um punhal.
Sobre a maldição Púnica já eu escrevi. Augusto deve ter reconhecido em si próprio o
segundo dos Césares. Na verdade, ele próprio no fim da vida se gabou, olhando para os
templos e edifícios públicos que reedificara de forma esplêndida, e pensando também no
esforço da sua vida para fortalecer e
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glorificar o Império, que tinha encontrado uma Roma de argila e a deixara em mármore. Mas no
que diz respeito à forma como morreu, ele deve ter achado a profecia ininteligível ou incrível: no
entanto, o escrúpulo impediu-o de a destruir. Quem eram o terceiro, o quarto e o quinto cabeludos,
esta história o mostrará claramente; e eu sou na realidade um idiota se, dada a infalível exactidão do
oráculo em todos os aspectos, até ao presente, não reconhecer o sexto cabeludo, regozijando-me em
nome de Roma por não haver nenhum sétimo cabeludo que lhe suceda.
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CAPíTULO 1
Não me recordo do meu pai, que morreu quando eu era criança. Contudo, em jovem, nunca perdi a
oportunidade de reunir informações, o mais detalhadas possível, sobre a sua vida e personalidade
junto de todas as pessoas - senadores, soldados ou escravos - que o tivessem conhecido. Comecei a
escrever a sua biografia, enquanto trabalho de aprendiz de historiador. E, embora tivesse sido
interrompido pela minha avó, Lívia, continuei a reunir material, na esperança de um dia vir a
conseguir acabá-lo. Acabei-o na realidade, mas apenas há pouco tempo. Mesmo agora, não faz
sentido tentar pô-lo em circulação. O sentimento que dele emana é tão republicano que, no
momento em que Agripina - minha presente esposa - viesse a saber da sua publicação, todos os
exemplares seriam suprimidos e os meus pobres escribas-copistas sofreriam pelas minhas
indiscrições. Teriam sorte se escapassem sem os braços partidos e os polegares e indicadores
cortados, o que seria uma indicação típica da satisfação de Agripina. Como essa mulher me detesta!
O exemplo do meu pai guiou-me ao longo da vida mais fortemente que o de qualquer outra pessoa,
à excepção do meu irmão Germânico. E Germânico era, todos concordam, a imagem viva do meu
pai nas feições, no corpo (à excepção das pernas finas), na coragem, intelecto e nobreza; assim,
combino-os facilmente no meu espírito como uma figura única. Se eu pudesse com justiça começar
esta história com um relato da minha infância, sem retroceder mais atrás do que a meus pais,
certamente o faria, porque as genealogias e as histórias de família são entediantes. Mas não posso
deixar de escrever com certo detalhe sobre a minha avó Lívia (a única dos meus quatro avós que
estava viva quando nasci) porque, infelizmente, ela é uma figura principal na primeira parte da
minha história e, a menos que eu faça um bom relato dos primeiros anos da sua vida, as suas acções
posteriores não serão inteligíveis. Referi que ela foi casada com o Imperador Augusto: este foi o seu
segundo casamento, depois de se ter divorciado do meu avô. Após a morte do meu pai, tornou-se a
chefe virtual da família, suplantando a minha mãe Antónia, o meu tio Tibério (o chefe legal) e o
próprio Augusto - sob cuja custódia poderosa o meu pai nos colocara no seu testamento.
Lívia, tal como meu avô, pertencia à família Claudiana, uma das mais antigas de Roma. Há uma
balada popular, que por vezes ainda é cantada
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pelas pessoas mais antigas, cujo refrão diz que a árvore Claudiana produz dois tipos de frutos: a
maçã doce e a azeda; mas diz também que as maçãs azedas são em maior número. Dentro do tipo
azedo, o autor da balada coloca: Ápio Cláudio o Altivo, que pôs Roma inteira em tumulto por ter
tentado escravizar e seduzir uma rapariga nascida livre chamada Virgínia; Cláudio Druso, que nos
tempos da República se tentou proclamar a si próprio Rei de toda a Itália; e Cláudio o Formoso que,
quando as galinhas sagradas se recusaram a comer, as atirou ao mar, gritando ”Pois então que
bebam”, perdendo assim uma importante batalha naval. Entre a primeira espécie, o autor da balada
menciona; Ápio o Cego, que dissuadiu Roma de formar uma aliança perigosa com o Rei Pirro;
Cláudio o Tronco, que expulsou os cartagineses da Sicília; Cláudio Nero (que, no dialecto sabino
significa O Forte), que derrotou Asdrúbal quando ele deixou a Espanha para se juntar ao irmão, o
grande Aníbal. Estes três eram todos eles homens virtuosos, além de ousados e sensatos. O autor diz
ainda que também as mulheres Claudianas são, algumas delas, pêras doces, havendo outras que são
mais to tipos azedo. Contudo, uma vez mais, as azedas são mais numerosas que as doces.
O meu avô era um dos melhores entre os Claudianos. Acreditando que Júlio César era um homem
suficientemente poderoso para dar a Roma paz e segurança naqueles tempos difíceis, juntou-se à
sua causa e lutou com bravura do lado de Júlio na Guerra do Egipto. Quando suspeitou que Júlio
tinha em mira a tirania pessoal, o meu avô não esteve disposto a apoiar as suas ambições em Roma,
embora não pudesse arriscar-se a uma ruptura declarada. Consequentemente, pediu e obteve a
dignidade de pontífice e, como tal, foi enviado para França para fundar ali colónias de soldados
veteranos. Quando regressou, depois do assassinato de Júlio conquistou a inimizade do jovem
Augusto, filho adoptivo de Júlio, então conhecido como Octaviano, e do seu aliado, o grande Marco
António, propondo arrojadamente honras para os tiranicidas. Foi obrigado a fugir de Roma. Nos
tempos conturbados que se seguiram, aliou-se ora com um partido ora com outro, conforme a razão
parecia estar de um ou de outro lado. Tão depressa estava com o jovem Pompeu, como com
o irmão de Marco António lutando contra Augusto, em Perúsia, na Etrúria. Mas, convencendo-se
finalmente de que Augusto,
ainda que obrigado por uma questão de lealdade a vingar o assassinato de Júlio, seu pai adoptivo -
dever que ele executou implacavelmente -, não tinha alma de tirano e pretendia restabelecer as
antigas liberdades do povo, colocou-se do seu lado e instalou-se em Roma com a minha avó Lívia e
o meu tio Tibério, ao tempo apenas com dois anos de idade. Deixou de tomar parte das Guerras
Civis, contentando-se com os seus deveres pontificais.
A minha avó Lívia era uma das piores Claudianas. É bem possível, que tenha sido uma
reencarnação daquela outra Cláudia, irmã de Cláudio
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o Formoso, que foi acusada de alta traição porque, certa vez em que a carruagem dela foi detida
pela multidão na rua, terá gritado:
- Ah, se o meu irmão estivesse vivo! Ele saberia como afastar as multidões usando o chicote.
Quando um dos tribunos da plebe se aproximou e lhe ordenou irado que se calasse, recordando-lhe
que o irmão, com a sua desumanidade, perdera uma frota romana, replicou:
- Mais uma razão para desejar que estivesse vivo. Assim, poderia perder mais uma frota e depois
outra, com a vontade dos Deuses, diminuindo um pouco esta malfadada multidão. - E acrescentou. -
Vejo que sois um Protector do Povo e que a vossa pessoa é legalmente inviolável, mas não
esqueçais que nós, Claudianos, já demos boas tareias em alguns de vós, sem nos ralarmos com a
vossa inviolabilidade.
Era exactamente assim que, naquela altura, a minha avó Lívia falava do povo romano.
- Ralé e escravos! A República sempre foi um embuste. Do que Roma precisa realmente é de ter
novamente um rei.
Pelo menos, foi assim que ela falou com o meu avô, insistindo que Marco António e Augusto (ou
Octaviano, deveria dizer) e Lépido (um nobre rico mas frouxo), que entre si governavam agora o
mundo romano, acabariam por cair; e que, se ele fizesse bem o seu jogo, poderia usar a dignidade
de pontífice e a reputação de integridade que lhe era atribuída por todas as facções para se tornar ele
próprio rei. O meu avô replicou com severidade que, se ela voltasse a falar daquela maneira, se
divorciaria dela; pois, segundo os moldes antigos do casamento romano, o marido poderia afastar a
mulher sem qualquer explicação pública, devolvendo-lhe o dote mas conservando os filhos. Ao
ouvir isto, a minha avó ficou silenciosa e fingiu submissão, mas todo o amor entre ambos morreu
naquele momento. Sem que o meu avô soubesse, ela começou imediatamente a trabalhar para
despertar as paixões de Augusto.
Não era coisa difícil, pois Augusto era jovem e impressionável e ela fizera um estudo cuidadoso dos
gostos dele: além disso, ela era por veredicto popular uma das três mulheres mais belas do seu
tempo. Escolhera Augusto por o achar melhor instrumento para as suas ambições do que António -
Lépido não contava - e que nada o deteria na obtenção dos seus fins e proscrições; tinha-o
demonstrado dois anos antes, quando
2.000 cavaleiros e 300 senadores pertencentes à facção oposta tinham sido sumariamente
executados, de longe o maior número que caíra às mãos de Augusto. Quando se sentiu segura de
Augusto, instigou-o a repudiar Escribónia - uma mulher mais velha do que ele, com quem se casara
por razões políticas - dizendo-lhe que tinha conhecimento do adultério de Escribónia com um amigo
próximo do meu avô. Augusto apressou-se a acreditar, sem pedir que lhe fossem fornecidas provas.
Divorciou-se de
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Escribónia, embora ela estivesse inocente, no próprio dia em que deu à luz a filha dele, Júlia, que
ele retirou imediatamente do quarto sem que
Escribónia tivesse sequer olhado a pequena criatura, entregando-a à mulher de um dos seus
escravos libertos para a criar. A minha avó - então apenas com dezassete anos, sendo nove anos
mais nova que Augusto - foi ter com o meu avô e disse:
- Agora divorcia-te de mim. Estou grávida de cinco meses e não és tu o pai da criança. Fiz a
promessa de não voltar a gerar mais nenhum filho de um cobarde e tenciono cumpri-la.
O meu avô, independentemente do que possa ter sentido quando ouviu tal confissão, limitou-se a
dizer:
- Chama aqui o adúltero, para discutirmos a questão em privado. O filho na realidade era dele, mas
isso não o podia saber e, quando a minha avó lhe disse que era de outro, ele acreditou.
O meu avô ficou espantado ao descobrir que fora o seu suposto amigo Augusto que o traíra, mas
concluiu que Lívia o tentara e que ele não tinha resistido à beleza dela; e que talvez Augusto ainda
sentisse algum ressentimento por causa da infeliz moção que ele em tempos apresentara no Senado,
em que recompensou os assassinos de Júlio César. Fosse como fosse, não censurou Augusto.
Limitou-se a dizer:
- Se amas esta mulher e tencionas desposá-la honradamente, fica com ela; respeita apenas as
conveniências.
Augusto jurou que casaria imediatamente com ela e nunca a repudiaria enquanto ela lhe fosse fiel;
comprometeu-se com os mais terríveis juramentos. E o meu avô divorciou-se dela. Foi-me dito que
ele considerou que esta paixão de Lívia era um castigo divino contra ele próprio por, uma vez na
Sicília e instigado pela minha avó, ter armado escravos para lutarem contra cidadãos romanos; além
disso, ela era uma Claudiana, pertencente à sua própria família. Por estas duas razões, ele não
desejava que incorresse em desonra pública. Não foi certamente por medo de Augusto que ele
assistiu pessoalmente ao casamento de minha avó algumas semanas mais tarde, levando-a ao altar
como um pai faria à própria filha e acompanhando o hino do seu casamento. Quando penso que ele
a amava profundamente e que através da sua generosidade se arriscou a ser chamado cobarde e
perverso, encho-me de admiração pelo seu comportamento.
Mas Lívia era ingrata - ficou furiosa e envergonhada por ele parecer aceitar a situação com tanta
calma, deixando-a ir como se se tratasse de uma coisa de pouco valor. E quando o filho dela, meu
pai, nasceu, três meses mais tarde, ficou profundamente vexada com a irmã de Augusto, Octávia,
mulher de Marco António - estes eram os meus outros dois avós -, por causa de um epigrama em
grego dizendo que felizes eram os pais que tinham filhos de três meses: uma gestação tão curta fora
até
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ali apanágio das gatas e das cadelas. Ignoro se Octávia foi realmente a autora do epigrama, mas, se
o foi, Lívia fê-la pagar caro por isso. Era pouco provável que o fosse, pois ela própria se casara com
Marco António estando grávida do filho de um marido que tinha morrido; e, como diz o provérbio,
os coxos não troçam dos coxos. No entanto, o casamento de Octávia era assumidamente político,
legalizado por um decreto especial do Senado: não fora provocado pela paixão por um lado e pela
ambição por outro. Se perguntarem como foi que o Colégio dos Altos Pontífices consentiu em
admitir a validade do casamento de Augusto com Lívia, a resposta é que o meu avô e Augusto eram
ambos pontífices e que o Alto Pontífice era Lépido, que fazia exactamente o que Augusto lhe dizia.
Logo que o meu pai foi desmamado, Augusto mandou-o de volta para casa do meu avô, onde foi
criado com meu tio Tibério, quatro anos mais velho. O meu avô, logo que as crianças chegaram à
idade do entendimento, passou ele próprio a ocupar-se da sua educação, em vez de a confiar a um
tutor, como era já o costume generalizado. Nunca deixou de lhes instilar o ódio à tirania e a devoção
aos velhos ideais de justiça, liberdade e virtude. A minha avó queixava-se havia muito por os dois
rapazes não estarem a seu cargo - embora na realidade a visitassem diariamente no palácio de
Augusto, muito próximo da sua casa no Monte Palatino -; quando descobriu os moldes em que
estavam a ser educados ficou muito contrariada. O meu avô morreu de repente enquanto
jantava com alguns amigos e suspeitou-se que tivesse sido envenenado, mas a questão foi abafada
porque Augusto e Lívia encontravam-se entre os convidados. Segundo o seu testamento, os rapazes
ficaram à guarda de Augusto. O meu tio Tibério, apenas com nove anos, fez a oração fúnebre no
funeral do meu avô.
Augusto amava ternamente a irmã Octávia e ficara muito desgostoso por ela quando, pouco depois
de ela casar, soube que António, tendo partido para Leste por causa de uma guerra na Pártia, parara
no caminho para reatar a sua intimidade com Cleópatra, rainha do Egipto; e ainda mais desgostoso
ficou com a carta cheia de desprezo que Octávia recebera de António quando ela se pôs a caminho
para o ajudar no ano seguinte com homens e dinheiro para a campanha. A carta que lhe chegou às
mãos, quando já ia a meio caminho, ordenava-lhe friamente que voltasse para casa e se ocupasse
dos assuntos domésticos; no entanto, aceitava o dinheiro e os homens. Lívia ficou secretamente
encantada com o incidente, pois há muito que se dedicava insistentemente a criar malentendidos e
invejas entre Augusto e António, situações que por sua vez Octávia era igualmente insistente em
minimizar. Quando Octávia regressou a Roma, Lívia pediu a Augusto que a convidasse a deixar a
casa de António e ir viver com eles. Ela recusou-se a fazê-lo, em parte porque não confiava em
Lívia e também porque não queria tornar-se na causa da guerra iminente. Finalmente
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António, incitado por Cleópatra, enviou a Octávia um pedido de divórcio e declarou guerra a
Augusto. Esta foi a última das guerras civis, um duelo de morte entre os dois únicos homens que
continuavam de pé
- se é que posso usar tal metáfora - depois de um duelo sem tréguas no anfiteatro universal. Lépido
continuava vivo, claro, mas prisioneiro em tudo excepto no nome e totalmente inofensivo - tinha
sido obrigado a lançar-se aos pés de Augusto e suplicar que lhe poupasse a vida. Também o jovem
Pompeu, a única outra pessoa com importância, cuja frota havia muito tempo comandava o
Mediterrâneo, tinha entretanto sido capturado por Augusto e morto por António. O duelo entre
Augusto e António foi breve. António foi totalmente derrotado na batalha naval em frente da costa
de Áccio, na Grécia. Fugiu para Alexandria e aí pôs fim à
própria vida - como o fez também Cleópatra. Augusto assumiu como suas as conquistas de António
no Leste e tornou-se, tal como Lívia planeara, o único governante do mundo romano. Octávia
permaneceu fiel aos interesses dos filhos de António - não apenas do filho dele por uma esposa
anterior mas, na verdade, dos seus três filhos com Cleópatra: uma rapariga e dois rapazes -
educando-os com as suas duas filhas. A mais nova delas, Antónia, viria a ser minha mãe. Esta
nobreza de espírito suscitou a admiração geral de Roma.
Augusto dirigiu o mundo, mas Lívia dirigiu Augusto. E eu tenho que explicar aqui a influência
notável que teve sobre ele. Foi sempre causa de espanto não haver filhos do casamento, uma vez
que a minha avó não se tinha revelado estéril e que Augusto era pai de quatro filhos naturais, além
da filha Júlia, que não há razões para duvidar que fosse filha dele. Além disso, sabia-se que era
apaixonadamente dedicado à minha avó. A verdade não é fácil de acreditar. A verdade é que o
casamento nunca foi consumado. Augusto, embora suficientemente apto com outras mulheres,
ficava impotente como uma criança quando tentava ter relações com a minha avó. A única
explicação razoável é que Augusto era, no fundo, um homem piedoso, embora a crueldade e mesmo
a má fé lhe tivessem sido impostas pelos perigos que se seguiram ao assassinato do tio-avô Júlio
César. Ele sabia que o casamento era ímpio: este pensamento, ao que parece, afectava-o, deixando-o
nervoso e pondo-lhe na carne uma contenção interior.
A minha avó, que quisera Augusto como um instrumento da sua ambição mais do que como
amante, estava mais satisfeita do que triste com a impotência dele. Achava que podia usá-la como
uma arma para submeter a vontade dele à sua. A atitude dela consistia em censurá-lo
constantemente por a ter seduzido, afastando-a do meu avô, a quem afirmava ter amado, com
protestos de paixão profunda e com ameaças secretas dirigidas a ele de que, se não a libertasse, ela
o faria deter como inimigo público (esta última parte era totalmente falsa). E agora bastava ver,
dizia
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ela, como tinha sido enganada! O amante apaixonado não era homem nenhum; qualquer pobre
carvoeiro ou escravo era mais homem do que ele! Até mesmo Júlia não era sua filha verdadeira e
ele sabia-o. Tudo aquilo para que ele servia, dizia, era para acariciar, tocar, beijar e fazer olhinhos
como qualquer eunuco cantor. Augusto protestava em vão que, com outras mulheres, era um
verdadeiro Hércules. Ela ou se recusava a acreditar ou o acusava de esbanjar com essas outras
mulheres aquilo que lhe negava a ela. Mas para que não viesse a público nenhum escândalo
relacionado com tudo isto, ela fingiu a dada altura que estava grávida dele e, depois, que tinha
abortado. A vergonha e a paixão insaciada ligavam Augusto mais fortemente a ela do que se os seus
anseios mútuos tivessem sido satisfeitos todas as noites ou se ela lhe tivesse dado uma dúzia de
filhos sãos e escorreitos. Como Lívia se ocupava bem da sua saúde e conforto e lhe era fiel, pois a
sua concupiscência apenas almejava o poder, sentia-se de tal forma grato que a deixava guiá-lo e
dirigi-lo em todos os actos públicos e privados. Ouvi afirmar com segurança pelos velhos
funcionários do palácio que, depois de casar com a minha avó, Augusto nunca mais olhou para
outra mulher. No entanto, corriam em Roma toda a espécie de histórias sobre as suas aventuras com
mulheres e filhas de notáveis; e depois da sua morte, ao explicar como era possível que tivesse tido
um domínio tão completo sobre as afeições dele, Lívia costumava dizer que não era apenas por lhe
ter sido fiel, mas também por nunca ter interferido com as suas aventuras amorosas passageiras.
Estou convencido de que ela punha todos estes escândalos à sua volta para ter alguma coisa a
censurar-lhe.
Caso seja interrogado sobre as minhas fontes para esta curiosa história, citá-las-ei. A primeira parte,
relativa ao divórcio, soube-a pela própria Lívia no ano em que ela morreu, O restante, sobre a
impotência de Augusto, ouvi-o a uma mulher chamada Brises, camareira da minha mãe, que servira
anteriormente como aia de minha avó e que, tendo então apenas sete anos de idade, era autorizada a
ouvir conversas que todos pensavam que ela era demasiado jovem para entender. Acredito que o
meu relato é verdadeiro e continuarei a acreditar nele até que seja suplantado por outro que se ajuste
igualmente bem aos factos. Segundo a minha maneira de pensar, o verso da Sibila que refere
esposa, não-esposa confirma a questão. Não posso concluir aqui este assunto. Ao escrever esta
passagem, com a ideia, suponho, de proteger o bom-nome de Augusto, tenho estado a esconder uma
coisa que afinal vou revelar agora. É que, como diz o provérbio, a verdade ajuda a consolidar a
história. É o seguinte. A minha avó Lívia consolidou engenhosamente o seu ascendente sobre
Augusto dando-lhe em segredo, por sua iniciativa, belas jovens para dormirem com ele sempre que
notava que a paixão o deixava inquieto. O facto de ela lhe proporcionar tal coisa, e sem dizer uma
palavra antes ou depois,
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refreando o ciúme que, como esposa, estava convencido que ela devia sentir; tudo feito com muita
decência e discrição, as jovens (escolhidas pela própria Lívia no mercado de escravos sírio - ele
preferia as sírias) eram introduzidas no quarto de Augusto durante a noite com uma pancada e um
tilintar de corrente como sinal, e chamadas para se irem embora de manhã com uma pancada e um
tilintar iguais; o facto delas se manterem silenciosas na sua presença como se fossem súcubos que
aparecessem em sonhos - o facto dela executar tudo isto com tanto cuidado ao mesmo tempo que
lhe permanecia fiel apesar da sua impotência em relação a ela, deve ter-lhe surgido como a prova
perfeita do amor mais sincero. Podeis contrapor que Augusto, na posição que ocupava, podia ter
tido as mulheres mais belas do mundo, escravas ou livres, casadas ou solteiras, para satisfazer o seu
apetite, sem a assistência de Lívia como alcoviteira. Isso é verdade, mas também é verdade que
depois do seu casamento com Lívia ele não tocava em carnes como ele próprio disse uma vez
embora talvez noutro contexto; que ela não tivesse declarado adequadas para serem consumidas.
Das mulheres, portanto, Lívia não tinha razões para sentir ciúme, à excepção da cunhada, a minha
outra avó, Octávia, cuja beleza suscitava tanta admiração como a sua virtude. Lívia sentira um
prazer malicioso em lhe manifestar a sua simpatia por causa da infidelidade de António. Tinha
chegado ao ponto de sugerir que fora em grande parte culpa da própria Octávia, por se vestir com
tanta modéstia e se comportar com tanto decoro. Marco António, fez-lhe notar, era um homem de
paixões fortes e, para uma mulher o reter com êxito, tinha que temperar a castidade de matrona
romana com as artes e extravagâncias de uma cortesã oriental. Octávia devia ter retirado uma folha
do livro de Cleópatra, pois a egípcia, embora inferior a Octávia no aspecto físico e mais velha oito
ou nove anos, sabia bem como alimentar o apetite sexual de António.
- Os homens como ele, os verdadeiros homens, preferem o estranho ao saudável, - concluiu Lívia
com ar sentencioso. - Para eles, o queijo verde com lagarta é mais saboroso que a coalhada fresca.
- Guardai para vós as vossas lagartas, - ripostou Octávia furiosa. Lívia vestia-se ricamente e usava
os mais dispendiosos perfumes asiáticos; mas não permitia a menor extravagância na sua casa, que
se gabava de dirigir à velha moda romana. As suas regras eram: comida simples mas abundante,
devoções familiares com regularidade, nada de banhos quentes depois das refeições, trabalho
constante para todos e nada de desperdícios. Todos não se referia apenas aos escravos e libertos,
mas a todos os membros da família. Sobre a infeliz Júlia recaíam as expectativas de um exemplo de
diligência. Levava uma vida muito cansativa. Tinha uma tarefa diária de cardar lã e fiar, tecer e
coser, era obrigada a levantar-se da cama dura ao amanhecer e mesmo antes do
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amanhecer nos meses de Inverno, para dar conta do recado. E como a madrasta acreditava numa
educação liberal para as raparigas, cabia-lhe, entre outras tarefas, aprender de cor toda a Ilíada e a
Odísseia de Homero.
Júlia tinha ainda que manter um diário pormenorizado, para benefício de Lívia, do trabalho que
fazia, dos livros que lia, das conversações que tinha e assim por diante; o que era um fardo enorme
para ela. Não lhe eram permitidas amizades com homens, embora a sua beleza fosse muito
celebrada. Um jovem de uma família antiga e de moral irrepreensível, filho de um Cônsul, foi
suficientemente ousado para se lhe apresentar um dia em Baiae sob um pretexto cortês, quando ela
dava o passeio de meia hora à beira mar que lhe era permitido, acompanhada apenas pela sua aia.
Lívia, que sentia inveja da beleza de Júlia e da afeição de Augusto por ela, mandou que enviassem
ao jovem uma carta muito ríspida, dizendo-lhe que nunca poderia aspirar a um cargo público sob os
auspícios do pai da rapariga cujo bom nome ele tentara manchar com esta insuportável
familiaridade. A própria Júlia foi punida com a proibição de dar os seus passeios fora dos terrenos
da villa. Por esta altura Júlia ficou careca. Não sei se Lívia teve alguma coisa a ver com isso: não
me parece impossível, embora sem dúvida a calvície fosse uma característica da família César. De
qualquer forma, Augusto arranjou um fabricante de perucas egípcio que lhe fez uma das mais
esplêndidas cabeleiras louras que alguma vez foi vista e os encantos da jovem foram desta forma
aumentados e não diminuídos por aquele infortúnio; o seu cabelo natural nada tinha de notável. Diz-
se que a cabeleira não foi armada, à maneira habitual, sobre uma rede de cabelo, mas que se tratava
do escalpe completo da filha de um chefe germânico que foi encolhido para tomar a dimensão
exacta da cabeça de Júlia e que era mantido vivo e flexível com a aplicação ocasional de um
unguento especial. No entanto, devo dizer que não acredito nisso.
Todos sabiam que Lívia mantinha Augusto sob uma disciplina estrita e que, embora não se pudesse
dizer que tivesse realmente medo dela, tomava de qualquer forma o maior cuidado em não a
ofender. Um dia, na sua qualidade de Censor, fazia uma prelecção a alguns homens ricos por
deixarem as respectivas mulheres encherem-se de jóias.
- O adorno excessivo não é apropriado para uma mulher, - disse.
- É dever do marido afastá-la da luxúria. - Deixando-se transportar pela própria eloquência,
acrescentou infelizmente, - Por vezes, tenho a oportunidade de admoestar a minha própria esposa
neste sentido.
Ouviu-se uma exclamação de deleite vinda dos culpados.
- Oh, Augusto, - disseram, - conta-nos por favor com que palavras admoestas Lívia. Isso servir-nos-
á de modelo.
Augusto ficou alarmado e sobressaltado.
- Ouvistes mal, - atalhou, - eu não disse que alguma vez tivesse tido ocasião de repreender Lívia.
Como bem sabeis, ela é um modelo de
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modéstia feminina. Mas eu certamente não teria qualquer hesitação em a admoestar caso ela
esquecesse a sua dignidade no vestir, como acontece com algumas das vossas esposas, como uma
dançarina de Alexandria que por alguma estranha reviravolta da sorte se tornasse rainha-mãe da
Arménia.
Nessa mesma noite, Lívia tentou amesquinhar Augusto aparecendo à mesa do jantar com os atavios
mais fantasticamente espampanantes que conseguiu arranjar, baseados num dos trajos de cerimónia
de Cleópatra. Mas ele saiu-se bem da situação embaraçosa, elogiando-a pela sua humorística e
oportuna caricatura do exacto defeito que ele tinha estado a condenar.
Lívia tornara-se mais sensata desde o tempo em que aconselhara o meu avô a pôr um diadema na
cabeça e proclamar-se a si mesmo rei. O título de rei continuava a ser execrado em Roma por causa
da impopular dinastia de Tarquínio à qual, segundo a lenda, o primeiro Brutus (chamo-lhe assim
para o distinguir do segundo Brutus, que assassinou Júlio César) tinha posto fim - expulsando a
família real da Cidade e tornando-se um dos primeiros dois Cônsules da República Romana. Lívia
compreendia agora que o título de rei podia ser adiado desde que Augusto conseguisse controlar os
poderes substanciais da realeza. Seguindo o conselho dela, ele concentrou gradualmente na sua
pessoa todas as dignidades republicanas importantes. Foi Cônsul em Roma e, quando passou o
cargo para um amigo de confiança, assumiu em troca o Alto Comando - que, embora nominalmente
estivesse ao nível do consulado, na prática estava acima deste ou de qualquer outra magistratura.
Tinha também controlo absoluto sobre as províncias e poder para designar os governadores-gerais
das mesmas, além do comando de todos os exércitos e o direito de reunir tropas e fazer a guerra ou
a paz. Em Roma votaram-lhe o cargo vitalício de Protector do Povo, que lhe servia de garantia
contra toda e qualquer interferência na sua autoridade, lhe dava o poder de vetar as decisões de
outros dignitários, e tinha implícita a inviolabilidade da sua pessoa. O título de Imperador, que
anteriormente significava apenas marechal de campo, mas que acabou por adquirir recentemente o
significado de monarca supremo, partilhava-o com outros generais de sucesso. Tinha também o
cargo de Censor, que lhe dava autoridade sobre duas das principais ordens sociais: a dos Senadores
e a dos Cavaleiros; sob o pretexto de falhas de ordem moral, ele podia destituir qualquer membro de
uma dessas ordens das suas dignidades e privilégios - uma desgraça que se fazia sentir com
agudeza. Tinha controlo do Tesouro Público: era seu dever apresentar contas periodicamente, mas
nunca ninguém ousou pedir uma auditoria, embora se soubesse que havia malabarismos constantes
entre o Tesouro e o Erário Privado.
Desta forma, ele tinha o comando dos exércitos, o controlo das leis a sua influência no Senado era
de tal ordem que votavam o que quer que
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fosse que ele sugerisse -, o controlo das finanças públicas, o controlo do comportamento social e a
inviolabilidade pessoal. Tinha mesmo o direito de condenar sumariamente qualquer cidadão
romano, desde o camponês ao senador, à morte ou ao desterro perpétuo. A última dignidade que
assumiu foi a de Alto Pontífice, que lhe deu o controlo de todo o sistema religioso. O Senado estava
ansioso por lhe votar qualquer cargo que ele quisesse aceitar, excepto o de Rei: receavam votar-lhe
a realeza, com medo do povo. O seu verdadeiro desejo era ser chamado Rómulo, mas Lívia
desaconselhou-o de promover tal coisa. O argumento dela era que Rómulo tinha sido rei e que o
nome era portanto perigoso; além disso, ele era uma das divindades tutelares romanas e, portanto,
tomar-lhe o nome poderia parecer blasfémia. Mas o que ela sentia no fundo era que esse título não
seria suficientemente grandioso. Rómulo fora um simples chefe de bandidos e não se encontrava
entre os deuses de primeira grandeza. A conselho dela, deu a entender ao Senado que o título de
Augusto lhe seria agradável. E o Senado votou-lho. Augusto tinha uma conotação semi-divina e o
vulgar título de Rei não era nada em comparação.
Quantos simples reis pagaram tributo a Augusto! Quantos foram feitos desfilar acorrentados nos
triunfos romanos! Não tinha o próprio Alto Rei da remota índia, ao ouvir falar da fama de Augusto,
enviado embaixadores a Roma, pedindo a protecção da sua amizade, com presentes propiciatórios
de sedas e especiarias notáveis; e rubis, esmeraldas e sardonix; e tigres, então a serem vistos pela
primeira vez na Europa; e o Hermes indiano, o famoso rapaz sem braços que conseguia fazer as
coisas mais extraordinárias com os pés? Não tinha Augusto posto fim àquela linhagem de reis no
Egipto, que datava de pelo menos 5.000 anos antes da fundação de Roma? E nessa fatal interrupção
da história, que monstruosos portentos não tinham sido vistos? Não tinha havido faiscar de
armaduras nas nuvens e queda de chuva ensanguentada? Não tinha aparecido na rua principal de
Alexandria uma serpente gigantesca que produzia um sibilar incrivelmente forte? Não tinham
também aparecido os fantasmas de faraós mortos? As suas estátuas não tinham franzido as testas
com severidade? Ápis, o boi sagrado de Mênfis, não tinha soltado um mugido lamentoso e choroso?
Era assim que a minha avó raciocinava para consigo mesma.
A maior parte das mulheres tem tendência para estabelecer limites modestos para as suas ambições:
algumas, raras, estabelecem limites ousados. Mas Lívia era única em não pôr qualquer limite à sua,
ao mesmo tempo que permanecia perfeitamente lúcida e controlada naquilo que seria considerado
em qualquer outra mulher como loucura furiosa. Só gradualmente, com todas as excelentes
oportunidades que tinha de a observar, acabei por descobrir de uma maneira geral quais as intenções
dela. Mas mesmo assim, quando chegou o momento da revelação final,
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ela veio como um choque de surpresa. Talvez seja melhor registar aqui vários actos na sua
sequência histórica, em vez de me alongar sobre os seus motivos escondidos.
A conselho seu, Augusto convenceu o senado a criar duas novas divindades, designadamente, a
Deusa Roma, que representava a alma feminina do Império Romano, e o Semi-deus Júlio, o herói
guerreiro que era Júlio César em apoteose (honras divinas tinham sido oferecidas a Júlio, no
Oriente, quando ainda estava vivo; o facto de não as ter recusado fora uma das razões do seu
assassinato). Augusto conhecia o valor de um laço religioso para unir a província à Cidade, um laço
muito mais forte que aquele que se baseava apenas no medo ou na gratidão. Acontecia por vezes
que, depois de um longo período de residência no Egipto ou na Ásia Menor, mesmo os romanos da
melhor água passavam a adorar os deuses que encontravam por lá e esqueciam os seus, tornando-se
assim estrangeiros, em tudo excepto no nome. Por outro lado, Roma tinha importado tantas
religiões das cidades que conquistara, dando às divindades estrangeiras, tais como ísis e Cibele,
templos nobres na cidade - e não apenas para conveniência dos visitantes -, que era razoável que
resolvesse agora, numa troca justa, implantar deuses seus nessas cidades. Roma e Júlio, portanto,
deviam ser adorados pelos provincianos, que eram cidadãos romanos e desejavam ser recordados da
sua herança nacional.
O passo que Lívia tomou a seguir foi arranjar delegações de provincianos, não suficientemente
afortunados para terem a cidadania completa, que visitassem Roma para pedir que lhes fosse dado
um Deus romano, a quem pudessem adorar com lealdade e sem presunção. A conselho de Lívia,
Augusto disse ao Senado, meio a brincar, que a estes pobres diabos, embora não fosse possível
permitír-lhes que adorassem as divindades superiores, Roma e Júlio, não devia ser-lhes negada uma
qualquer espécie de Deus, por mais humilde que fosse. Neste ponto, Mecenas, um dos ministros de
Augusto, com quem este já discutira se seria ou não aconselhável adoptar o nome de Rómulo, disse:
- Dêmos-lhes um Deus que tomará bem conta deles. Demos-lhes o próprio Augusto.
Augusto mostrou-se um tanto embaraçado, mas admitiu que a sugestão de Mecenas era razoável.
Era um costume enraizado entre os orientais, e que podia muito bem ser aproveitado a favor dos
romanos, prestar honras divinas aos seus governantes; mas visto que era nitidamente impraticável
para as cidades orientais adorar todo o Senado de uma vez, pondo 600 estátuas em cada um dos
seus santuários, uma maneira de sair dessa dificuldade era certamente que eles adorassem o chefe
do executivo do senado, que, por coincidência, era ele próprio. Assim o Senado, sentindo-se
gratificado, na medida em que cada um dos seus
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membros tinha em si pelo menos uma seiscentésima parte de divindade, votou com agrado a
moção de Mecenas e, na Ásia Menor, imediatamente foram erigidos santuários dedicados a
Augusto. O culto espalhou-se mas, de início, apenas nas províncias fronteíríças, que estavam sob o
controlo directo de Augusto, não nas províncias do próprio país, que estavam nominalmente sob o
controlo do Senado, nem na Cidade em si.
Augusto aprovava os métodos educativos de Lívia em relação a júlia e as suas disposições e
economias domésticas. Ele, pessoalmente, tinha gostos simples. O seu palato era tão insensível que
não notava a diferença entre o azeite virgem e o produto de qualidade inferior obtido depois da
pasta de azeitona ter passado na prensa pela terceira vez. Usava roupas de tecido grosseiro. Dizia-se
com razão que, embora Lívia fosse uma megera, se não fosse a sua incansável actividade, Augusto
nunca teria conseguido empreender a imensa tarefa que impôs a si próprio: a de devolver a Roma a
paz e a segurança depois dos estragos prolongados das Guerras Civis - nas quais ele próprio, claro,
tivera um papel tão destrutivo. O trabalho de Augusto ocupava-o catorze horas por dia, mas o de
Lívia, dizia-se, ocupava vinte e quatro. Não só dirigia da maneira eficiente que descrevi a sua
enorme casa, mas suportava com ele, em partes iguais, os negócios públicos. Um relato completo de
todas as reformas legais, sociais, administrativas, religiosas e militares que levaram a cabo entre
ambos, para não falar das obras públicas que empreenderam, dos templos que reedificaram, das
colónias que implementaram, encheria muitos volumes. No entanto, havia muitos romanos distintos
da geração mais antiga que não conseguiam esquecer que esta reconstituição aparentemente
admirável do Estado só tinha sido viabilizada pela derrota militar, pelo assassínio secreto ou pela
execução pública de praticamente todas as pessoas que tinham desafiado o poder daquele casal
enérgico. Se o seu poderio único e arbitrário não tivesse aparecido disfarçado sob as formas da
liberdade antiga, eles nunca o teriam conseguido manter por muito tempo. Mesmo assim, houve
nada menos de quatro conspirações contra a vida de Augusto por aspirantes a Brutus.
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CAPíTULO III
O nome Lívia está relacionado com a palavra latina que significa Malignidade. A minha avó era
uma actriz consumada e a pureza exterior da sua conduta, a agudeza do seu espírito e a graciosidade
dos seus modos enganavam praticamente todos. Mas, na realidade, ninguém gostava dela: a
malignidade suscita respeito, mas não afeição. Ela tinha a capacidade de fazer com que pessoas
vulgares e despreocupadas se sentissem, na sua presença, fortemente conscientes das suas falhas
intelectuais e morais. Sinto-me na obrigação de pedir desculpa por continuar a escrever sobre Lívia,
mas é inevitável: como todas as histórias romanas honestas, esta é escrita de fio a pavio. Prefiro a
meticulosidade romana ao método de Homero e dos gregos em geral, que adoram saltar para o meio
das coisas e depois recuar ou avançar, conforme a inclinação do momento. Sim, tive muitas vezes a
ideia de reescrever a história de Tróia em prosa latina, para benefício dos nossos cidadãos mais
pobres, que não sabem ler grego; começando com o nascimento de Helena e continuando, capítulo
após capítulo, seguindo o fio dos acontecimentos, até que os pavios se acendessem para iluminar a
grande festa em celebração do regresso de Ulisses e da sua vitória sobre os pretendentes da própria
esposa. Nos pontos em que Homero é obscuro ou silencioso sobre qualquer aspecto, eu consultaria
naturalmente os poetas posteriores ou do anterior Dares, cujo relato, embora cheio de divagações
poéticas, me parece mais fiável que o de Homero, pois ele participou realmente na guerra, primeiro
com os troianos, depois com os gregos.
Vi uma vez uma estranha pintura no interior de uma velha arca de cedro, vinda, julgo, de algum
lugar no norte da Síria. A inscrição, em grego, era Veneno é Rainha e o rosto de Veneno, embora
executado mais de cem anos antes do nascimento de Lívia, era, sem sombra de dúvida o da própria
Lívia. Neste contexto, tenho que escrever acerca de Marcelo, filho de Octávia com um marido
anterior. Augusto, que sentia grande estima por Marcelo, adoptara-o como filho, confiando-lhe
tarefas administrativas muito para além da sua idade; e casara-o com Júlia. A opinião corrente em
Roma era que ele tencionava fazer de Marcelo seu herdeiro. Lívia não se opôs à adopção e, na
realidade, pareceu aceitá-la como uma maneira mais fácil de conquistar a afeição e a confiança de
Marcelo. A
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sua afeição por ele parecia inquestionável. Foi a conselho seu que Augusto lhe proporcionou um
progresso tão rápido; e Marcelo, que sabia disto, sentia para com ela uma forte gratidão.
O motivo de Lívia em favorecer Marcelo era visto por alguns observadores astutos como sendo o de
provocar o ciúme de Agripa. Agripa era o homem mais importante de Roma a seguir a Augusto: um
homem de baixa condição, mas o mais antigo amigo de Augusto e o general e almirante de maior
sucesso. Até então, Lívia fizera tudo para manter a amizade de Agripa por Augusto. Ele era um
homem ambicioso, mas só até certo ponto. Nunca teria a presunção de disputar a soberania de
Augusto, a quem admirava excessivamente e não desejava maior glória que a de ser o ministro em
quem ele mais confiava. Tinha, além disso, uma forte consciência das suas origens humildes e
Lívia, no seu papel de grande dama patrícia, sempre o dominou. A importância dele para Lívia e
Augusto não residia, no entanto, apenas nos seus serviços, lealdade e popularidade junto do povo e
do Senado. Era assim: por uma ficção que a própria Lívia criara originariamente, incumbia-lhe
manter uma posição de vigilância, em nome da nação, sobre a conduta política de Augusto. No
famoso debate simulado ocorrido no Senado, após a queda de António, entre Augusto e os seus dois
amigos, Agripa e Mecenas, o papel de Agripa consistira em aconselhá-lo contra a tomada do poder
de soberania; apenas para permitir que as suas objecções fossem contrariadas pelos argumentos de
Mecenas e pelos pedidos entusiásticos do senado. Agripa declarara então que serviria fielmente
Augusto enquanto a soberania fosse benéfica e não se tratasse de uma tirania arbitrária. A partir daí,
ganhou o respeito e a confiança populares, como um baluarte contra possíveis infiltrações da
tirania; e aquilo que Agripa deixava passar, a nação deixava passar. Pensavam agora os mesmos
observadores argutos que Lívia estava a jogar um jogo muito perigoso, ao suscitar em Agripa
sentimentos de inveja em relação a Marcelo. Os acontecimentos eram observados com grande
interesse. Talvez a devoção dela para com Marcelo fosse falsa e a sua verdadeira intenção fosse
levar Agripa a afastá-lo do caminho. Havia rumores em como um membro dedicado da família de
Agripa se teria oferecido para provocar uma desavença com Marcelo e matá-lo: mas que Agripa,
embora não sentisse menos inveja do que Lívia desejava, era demasiado nobre para aceitar uma
sugestão tão baixa.
Era ponto assente, de uma maneira geral, que Augusto tinha feito Marcelo seu herdeiro principal e
que Marcelo herdaria não apenas a sua imensa riqueza, mas a monarquia, tudo no mesmo pacote -
pois de que outra forma posso eu escrever sobre isso a não ser assim? Agripa, portanto, fez saber
que, embora fosse dedicado a Augusto e nunca tivesse lamentado a decisão de apoiar a sua
autoridade, havia uma coisa que nunca iria permitir: designadamente, que a monarquia se tornasse
hereditária.
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Mas Marcelo era agora quase tão popular como Agripa e muitos jovens de posição e de família, a
quem a pergunta Monarquia ou República? parecia já uma questão acadêmica, tentavam ganhar-lhe
as boas graças, esperando alcançar dele honras importantes quando sucedesse a Augusto. Esta
prontidão generalizada para acolher a continuação da monarquia parecia agradar a Lívia, mas ela
anunciou em privado que, na eventualidade lamentável da morte ou incapacidade de Augusto, a
condução imediata dos negócios do Estado, enquanto outras disposições não fossem tomadas por
decreto do senado, devia ser confiada a mãos mais experientes que as de Marcelo. No entanto,
Marcelo gozava de tal favoritismo junto de Augusto que, embora as declarações de Lívia em
privado acabassem geralmente como éditos públicos, ninguém lhe prestou muita atenção naquele
momento: e cada vez mais pessoas cortejavam Marcelo.
os observadores argutos perguntavam a si mesmos como é que Lívia encararia esta nova situação;
mas a sorte parecia estar do lado dela. Augusto apanhou uma ligeira constipação, que teve uma
evolução inesperada, com febres e vómitos: Lívia preparava-lhe a comida com as suas próprias
mãos enquanto esteve doente, mas o estômago dele estava tão delicado que não conseguia guardar a
comida. Ele foi ficando cada vez mais fraco e sentiu, por fim, que estava à beira da morte. Muitas
vezes lhe tinha sido pedido que nomeasse o seu sucessor,
mas não o fizera com medo das consequências políticas e também porque o pensamento da própria
morte lhe era extremamente desagradável. Agora, sentia que era seu dever nomear alguém e pediu a
Lívia que o aconselhasse. Disse que a doença lhe tinha roubado toda a capacidade de raciocínio;
escolheria qualquer sucessor que, dentro dos limites do razoável, lhe fosse sugerido por ela. Assim,
Lívia tomou a decisão por ele e Augusto aceitou. chamou então à cabeceira do doente o seu colega
Cônsul, os magistrados da cidade e certos senadores e cavaleiros representativos. Ele estava
demasiado fraco para dizer o que quer que fosse, mas entregou ao Cônsul um registo das forças
militares e navais e uma declaração dos rendimentos públicos; depois, chamou Agripa com um
aceno e deu-lhe o seu anel de sinete; o que equivalia a dizer que Agripa lhe sucederia, embora com
a co-operação estreita dos Cônsules. Isto surgiu como uma grande surpresa. Todos esperavam que
Marcelo fosse o escolhido.
A partir daquele momento, Augusto começou a melhorar misteriosamente: a febre baixou e o
estômago passou a aceitar a comida. No entanto, o crédito pela sua cura não foi para Lívia, que
continuava a ocupar-se dele pessoalmente, mas para um certo médico chamado Musa, que tinha a
mania inofensiva de recorrer às loções e poções frias. Augusto ficou tão grato a Musa pelos seus
supostos serviços, que lhe ofertou o seu próprio peso em moedas de ouro, o que o Senado duplicou.
Musa, embora fosse um escravo liberto, recebeu o grau de cavaleiro, o que lhe dava o direito
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de usar um anel de ouro e de se candidatar ao serviço público; e um decreto ainda mais


extravagante foi promulgado pelo Senado, concedendo isenção de impostos a toda a classe médica.
Marcelo ficou nitidamente mortificado por não ter sido declarado herdeiro de Augusto. Com os seus
20 anos, era ainda muito jovem. Os favores anteriores de Augusto tinham-lhe dado uma noção
exagerada, tanto dos seus talentos como da sua importância política. Tentou enfrentar a situação
sendo abertamente mal-educado para com Augusto, num banquete público. Agripa controlou com
dificuldade a irritação, mas o facto do incidente não ter tido consequências levou os apoiantes de
Marcelo a convencerem-se que Agripa tinha medo dele. Disseram mesmo uns aos outros que, se
Augusto não mudasse de opinião dentro de um ou dois anos, Marcelo usurparia o poder Imperial.
Tornaram-se tão desordeiros e fanfarrões, sem que Marcelo fizesse grande coisa para os controlar,
que houve conflitos frequentes entre eles e o partido de Agripa. Agripa estava profundamente
incomodado com a insolência daquele cachorrinho, como lhe chamava - ele, que detivera a maior
parte dos principais cargos públicos e ganhara uma série de campanhas. Mas a sua decepção estava
misturada com alarme. A impressão criada por estes incidentes era de que Marcelo e ele estavam
disputando de maneira indecente quem deveria usar o anel de sinete de Augusto depois da morte
deste.
Ele estava pronto a fazer praticamente qualquer sacrifício para evitar parecer que fazia tal papel.
Marcelo era o ofensor e Agripa desejava pôr o fardo completo nos ombros dele. Decidiu retirar-se
de Roma. Foi procurar Augusto e pediu para ser nomeado Governador da Síria. Quando Augusto
lhe perguntou as razões daquele pedido inesperado, ele explicou que pensava poder, uma vez
detentor daquele cargo, fazer um acordo valioso com o rei da Pártia. Poderia persuadir o Rei a
devolver as Águias regimentais e os prisioneiros capturados aos romanos trinta anos antes, em troca
pelo filho do rei, que Augusto detinha cativo em Roma. Não disse nada sobre o desentendimento
com Marcelo. Augusto, que ficara ele próprio bastante incomodado com o caso, dividido entre uma
amizade antiga por Agripa e um indulgente amor paternal por Marcelo, não se permitiu reconhecer
até que ponto o comportamento de Agripa era generoso, pois isso teria sido uma confissão de
fraqueza; por conseguinte, também não fez qualquer referência a essa questão. Acedeu com
entusiasmo ao pedido de Agripa, afirmando como era importante recuperar as Águias e os cativos -
se é que alguns ainda continuavam vivos, ao fim de tanto tempo - e perguntou quando é que ele
estaria pronto para começar. Agripa ficou magoado, interpretando mal a atitude de Augusto. Pensou
que este se queria ver livre dele, acreditando de facto que estava em disputa com Marcelo por causa
da sucessão. Agradeceu-lhe ter acedido
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ao pedido, protestando friamente a sua lealdade e amizade, e disse que estava pronto para embarcar
no dia seguinte.
Não foi para a Síria. Não passou da ilha de Lesbos, mandando à frente o seu lugar-tenente para
administrar a província por ele. Sabia que a sua estada em Lesbos seria interpretada como uma
espécie de desterro, em que incorrera por causa de Marcelo, Não visitou a província, porque, se o
tivesse feito, isso teria dado aos partidários de Marcelo um pretexto contra ele: certamente teriam
dito que ele fora para o Oriente a fim de reunir um exército para marchar contra Roma. Mas
lisonjeava-o saber que Augusto não tardaria a precisar dos seus serviços; e estava totalmente
convencido de que Marcelo planeava usurpar a monarquia. Lesbos gozava de uma proximidade de
Roma bastante conveniente. Nao esqueceu a sua incumbência e abriu as negociações, através de
intermediários, com o rei da Pártia, mas não esperava conclui-las tão depressa. É preciso bastante
tempo e paciência para conseguir um acordo vantajoso com um monarca oriental.
Marcelo foi eleito magistrado da cidade, o seu primeiro cargo público, e fez disso a ocasião para
uma demonstração magnífica de jogos Públicos. Não só ergueu tendas nos próprios teatros, contra o
sol e a chuva, decorando-os com tapeçarias esplêndidas, como transformou toda a Praça do
Mercado num gigantesco pavilhão em várias cores. O efeito era deslumbrante, particularmente no
interior, quando atravessado pelo sol. Para fazer as tendas, usou uma quantidade fabulosa de tecido
vermelho, amarelo e verde que, uma vez os jogos terminados, foi cortado em pedaços e distribuído
pelos cidadãos para fazerem vestuário e roupa de cama. Um grande número de animais selvagens
fora importado de África para os combates no anfiteatro, incluindo numerosos leões, e houve uma
luta entre cinquenta cativos germanos e igual número de guerreiros negros de Marrocos. O próprio
Augusto contribuiu largamente para as despesas; assim como Octávia, como mãe de Marcelo.
Quando Octávia apareceu na procissão cerimonial, foi saudada com um aplauso tão vibrante que
Lívia mal conseguiu conter as lágrimas de raiva e inveja. Dois dias mais tarde, Marcelo adoeceu. Os
sintomas eram precisamente os mesmos que Augusto revelara durante a sua doença recente e, como
é natural, Musa foi novamente requisitado. O médico tinha-se tornado imensamente rico e famoso,
cobrando 1.000 moedas de ouro por uma simples visita profissional; e tudo como se fosse um favor.
Em todos os casos em que a doença não se apoderara dos doentes com demasiada força, a simples
menção do seu nome era o suficiente para provocar a cura imediata. O crédito ia para as loções e
poções frias, as prescrições secretas que recusava comunicar a quem quer que fosse. A confiança de
Augusto nos poderes de Musa era tão grande que não prestou muita atenção à doença de Marcelo e
os Jogos continuaram. Mas, de alguma forma, apesar
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da atenção constante de Lívia e das loções e poções mais frias que Musa podia receitar, Marcelo
morreu. O desgosto, tanto de Octávia como de Augusto, foi imenso, e a morte foi considerada uma
calamidade pública. Havia, no entanto, numerosas pessoas de bom-senso que não lamentaram o
desaparecimento de Marcelo. Teria certamente havido uma nova guerra civil entre ele e Agripa, se
Augusto morresse e ele tentasse tomar o seu lugar: agora, Agripa era o único sucessor possível.
Mas isto era um cálculo feito sem Lívia, cuja ideia fixa era, quando Augusto morresse - Cláudio,
Cláudio, disseste que não referirias os motivos de Lívia, mas apenas os seus actos - continuar a
governar o Império através do meu tio Tibério, com o apoio do meu pai. Arranjaria maneira de eles
serem adoptados como herdeiros de Augusto.
A morte de Marcelo deixou Júlia livre para casar com Tibério e tudo teria corrido bem para os
planos de Lívia, se não tivesse havido um surto perigoso de desassossego político em Roma,
enquanto as multidões clamavam pela restauração da República. Quando Lívia tentou dirigir-lhes a
palavra das escadas do Palácio, bombardearam-na com ovos podres e lixo. Augusto estava ausente,
de visita às províncias orientais, na companhia de Mecenas, e tinha chegado a Atenas quando
recebeu a notícia. Lívia escreveu-lhe numa nota breve e apressada que a situação na Cidade não
podia ser pior e que era preciso conseguir a ajuda de Agripa por qualquer preço. Augusto fê-lo vir
imediatamente de Lesbos e suplicou-lhe, em nome da amizade, que voltasse com ele para Roma e
restabelecesse a confiança pública. Mas Agripa nutria a sua mágoa havia tempo demais para que
pudesse agora ficar agradecido por este chamamento. Ficou-se na sua dignidade. Em três anos,
Augusto sescrevera-lhe apenas três cartas, qualquer delas num rígido tom oficial. Depois da morte
de Marcelo, sem dúvida, era seu dever tê-lo chamado. Porque havia de ir agora em seu auxílio? Era
Lívia, na realidade, a responsável por este afastamento; calculara mal a situação política ao deixar
cair Agripa cedo demais. Tinha mesmo sugerido a Augusto que Agripa, embora ausente em Lesbos,
sabia mais do que a maior parte das pessoas acerca da misteriosa e fatal doença de Marcelo;
alguém, disse ela, tinha-lhe dito que Agripa, ao ouvir a notícia, não mostrara qualquer surpresa e
sim uma forte complacência. Agripa informou Augusto que ficara longe de Roma havia tanto tempo
que não estava ao corrente da política da Cidade e não se sentia capaz de empreender a tarefa que
lhe era pedida. Augusto, receando que Agripa, se fosse para Roma naquele estado de espírito, se
sentisse mais inclinado a apresentar-se como campeão das liberdades populares do que a apoiar o
governo Imperial, deixou-o ficar de fora, com palavras que exprimiam graciosamente o seu pesar.
Apressadamente, convocou Mecenas, para lhe pedir conselho. Mecenas desejava permissão para
falar livremente com Agripa em nome de Augusto e procurou saber por ele exactamente
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em que termos estaria disposto a fazer o que lhe era pedido. Augusto suplicou a Mecenas que, pelo
amor aos Deuses, o fizesse ”tão rapidamente como espargos cozidos” (uma das suas expressões
favoritas). Assim, Mecenas chamou Agripa à parte e disse:
- Ora bem, meu velho amigo, o que é que tu queres? Compreendo que sentes que te trataram mal,
mas garanto-te que Augusto tem o direito de se sentir igualmente injuriado por ti. Não consegues
entender até que ponto te portaste mal para com ele por não teres sido franco? Foi um insulto, tanto
para a sua justiça como para a sua amizade para contigo. Se tivesses explicado que a facção de
Marcelo te colocou numa posição muito desconfortável, e que o próprio Marcelo te tinha insultado -
garanto-te que Augusto nunca soube disso até há pouco tempo -, ele teria feito tudo o que estivesse
no seu poder para remediar as coisas. A minha opinião sincera é que te portaste como uma criança
amuada; e ele tratou-te como um pai, que não se deixa dominar por esse tipo de comportamento.
Dizes que ele te escreveu cartas muito frias? E as tuas, nessa altura, foram escritas em termos
afectuosos? E que espécie de despedida lhe tinhas feito? Agora, quero ser o mediador entre ambos,
porque, se esta ruptura se mantiver, será a ruína de todos nós. Qualquer dos dois tem uma profunda
estima pelo outro, como seria de esperar dos dois maiores romanos vivos. Augusto dísse-me que
está pronto, logo que lhe mostres a abertura de antigamente, a renovar a amizade nos mesmos
termos de então, ou mesmo ainda mais íntimos.
- Ele disse isso?
- As palavras são dele. Posso dizer-lhe como estás desgostoso por o ter ofendido e posso explicar
que se tratou de um malentendido; que saíste de Roma pensando que ele estava ao corrente do
insulto de Marcelo para contigo no banquete? E que agora estás ansioso, pelo teu lado, por
compensar as falhas de amizade do passado e que confias nele para vir ao teu encontro?
Agripa disse:
- Mecenas, tu és um indivíduo como deve ser e um verdadeiro amigo. Diz a Augusto que estou às
suas ordens como sempre.
Mecenas replicou:
- Dir-lho-ei com o maior prazer. Acrescentarei, como opinião minha, que não seria seguro
mandar-te agora de volta à Cidade, para restabelecer a ordem, sem uma marca notória de confiança
pessoal.
Então, Mecenas foi procurar Augusto.
- Consegui acalmá-lo. Fará tudo o que desejares. Mas quer estar certo de que o amas realmente,
como um filho que sente ciúme do amor do pai por outro filho. Acho que a única coisa que o
satisfaria realmente seria que o deixasses casar-se com Júlia.
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Augusto teve que pensar rapidamente. Lembrava-se de que o relacionamento de Agripa com a
mulher, que era irmã de Marcelo, não estava lá muito bem desde a disputa com Marcelo e que
Agripa, ao que parecia, estava apaixonado por Júlia. Desejou que Lívia estivesse presente para o
aconselhar, mas não tinha como escapar a uma decisão imediata: se ofendesse Agripa agora, nunca
mais poderia contar com o seu apoio. Lívia tinha escrito por qualquer preço: portanto, estava livre
de tomar as disposições que lhe aprouvessem. Mandou de novo chamar Agripa e Mecenas encenou
uma cena de reconciliação cheia de dignidade. Augusto disse que, se Agripa consentisse em casar
com a filha, isso seria para ele a prova de que a amizade, que prezava acima de qualquer outra no
mundo, estava firmada numa base segura. Agripa chorou lágrimas de alegria e pediu perdão pelas
suas faltas. Tentaria ser digno da amorosa generosidade de Augusto.
Agripa regressou a Roma com Augusto e imediatamente se divorciou da mulher, para casar com
Júlia. O casamento foi tão popular e a celebração tão magnífica e pródiga, que os distúrbios
políticos imediatamente se apagaram. Agripa conquistou também grande crédito para
Augusto, levando a cabo as negociações para o regresso dos estandartes com a Águia, que foram
formalmente entregues a Tibério,
como representante pessoal de Augusto. As Águias eram objectos sagrados; mais genuinamente
sagrados para os corações romanos do que quaisquer estátuas de mármore dos Deuses. Alguns
cativos regressaram também, mas, depois de trinta e dois anos de ausência, não estavam em estado
de receber grandes manifestações. A maior parte deles preferiram ficar na Pártia, onde se tinham
instalado e casado com mulheres nativas.
A minha avó Lívia ficou tudo menos satisfeita com o acordo feito com Agripa - o único aspecto que
lhe agradava era a desonra que representava para Octávia o divórcio da filha. Mas disfarçou os seus
sentimentos. Passaram nove anos antes que os serviços de Agripa
pudessem ser dispensados. Depois, ele morreu de repente, na sua casa de campo. Augusto estava na
Grécia na altura; por isso,
não houve qualquer inspecção ao cadáver. Agripa deixou um grande número de filhos, três rapazes
e duas raparigas, como herdeiros de Augusto, por afinidade. Seria difícil para Lívia pôr de lado as
suas pretensões a favor dos próprios filhos.
No entanto, Tibério casou com Júlia, que tinha tornado as coisas mais fáceis para Lívia ao
apaixonar-se por ele e ao pedir a Augusto que usasse a sua influência junto de Tibério, a favor dela.
Augusto consentiu apenas porque Júlia ameaçou suicidar-se se ele se recusasse ajudá-la. O próprio
Tibério detestava ter que se casar com Júlia, mas não ousou recusar. Foi obrigado a divorciar-se da
mulher, Vipsânia, filha de Agripa por um casamento anterior, que ele amava apaixonadamente.
Mais tarde, encontrou-a
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acidentalmente uma vez na rua e seguiu-a com os olhos com uma expressão de tal forma
desesperada que Augusto, quando ouviu falar nisso, deu ordens para que, por uma questão
de decência, aquilo não voltasse a acontecer. Uma vigilância especial devia ser exercida
pelos funcionários de ambas as casas, para evitar um encontro. Vipsânia casou, não muito
tempo depois, com um nobre jovem e ambicioso de nome Caio. E antes que me esqueça,
tenho que referir o casamento de meu pai com minha mãe, Antónia, a filha mais nova de
Marco António e Octávia. Teve lugar no ano da doença de Augusto e da morte de Marcelo.
o meu tio Tibério era um dos maus claudianos. Era taciturno, reservado e cruel, mas tinha
havido três pessoas que controlavam estes elementos na sua natureza. Primeiro havia o meu
pai, um dos melhores claudianos, alegre, aberto e generoso; em seguida, havia Augusto, um
homem muito honesto, alegre, bondoso, que não gostava de Tibério mas que o tratava
generosamente por causa da mãe; e por fim, havia Vipsânia. A influência do meu pai foi
afastada, ou diminuída, quando ambos atingiram a idade de fazer o serviço militar e foram
enviados em campanha para diferentes pontos do Império. Depois, veio a separação de
Vipsânia e, a esta, seguiu-se uma frieza com Augusto, que se sentia ofendido com o
desagrado, mal disfarçado, do meu tio em relação a Júlia. Uma vez perdidas estas três
influências, passou-se gradualmente para o lado mau.
Creio que devia, neste ponto, descrever o seu aspecto físico. Era um homem alto, de
cabelos escuros e pele clara, bem constituído, com um magnífico par de omoplatas e umas
mãos tão fortes que conseguia partir uma noz ou perfurar uma maçã de casca verde e rija
entre o polegar e o indicador. Se não fosse tão lento nos seus movimentos, teria dado um
campeão de boxe: uma vez, matou um camarada numa luta amigável com as mãos livres,
sem as habituais luvas em metal -, dando-lhe um golpe num dos lados da cabeça que lhe fez
estalar o crânio. Caminhava com o pescoço ligeiramente atirado para a frente e com os
olhos virados para o chão. O seu rosto teria sido belo, se não estivesse desfigurado por
tantas borbulhas, se não tivesse os olhos tão salientes e se não andasse sempre de testa
franzida. As suas estátuas fazem-no parecer extremamente belo, porque deixam de fora
estes defeitos. Falava pouco e muito devagar, de forma que, ao conversar com ele, as
pessoas sempre se sentiam tentadas a terminar as suas frases e a responder-lhes de seguida.
Mas, quando queria, era um brilhante orador público. Ficou careca muito novo, excepto na
parte de trás da cabeça, onde deixou o cabelo crescer e ficar comprido, à maneira da antiga
nobreza. Nunca estava doente.
Tibério, apesar da sua pouca popularidade na sociedade romana, era, mesmo assim, um
general de grande sucesso. Fez reviver vários rigores disciplinares antigos, mas, como não
se poupava a si próprio em campanha,
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r
aramente dormindo numa tenda, comendo e bebendo o mesmo que os seus homens e atacando
sempre na frente de batalha, eles preferiam servir sob as suas ordens do que com outro comandante
bem-humorado e descontraído, em cuja capacidade de chefia não tivessem a mesma confiança.
Tibério nunca dirigia aos homens um sorriso ou uma palavra de louvor e, muitas vezes, obrigava-os
a marchas exageradas e a trabalhos excessivos.
- Não faz mal que me odeiem, - disse uma vez, - desde que me obedeçam.
Mantinha os coronéis e oficiais do regimento numa ordem tão estrita como os soldados; por isso,
não havia queixas quanto à sua parcialidade. Servir sob as ordens de Tibério não deixava de ter
vantagens; normalmente, conseguia capturar e saquear os acampamentos e cidades do inimigo. Fez
a guerra com êxito na Arménia, Pártia, Germânia, Hispânia, Dalmácia, Alpes e França.
O meu pai era, como disse, um dos melhores claudianos. Era tão forte como o irmão, muito mais
bem-parecido, mais rápido no falar e nos movimentos e de maneira alguma com menos êxito como
general. Tratava todos os soldados como cidadãos romanos e, portanto, como seus iguais, excepto
na patente e na educação. Detestava ter que lhes infligir castigos. Dava ordens para que, na medida
do possível, todas as ofensas contra a disciplina fossem tratadas pelos próprios camaradas do
ofensor, que partia do princípio serem zelosos do bom-nome da sua secção ou companhia. Deu a
saber que, se achassem que qualquer ofensa estava além dos seus poderes de correcção, - pois não
permitia que matassem um culpado ou que o incapacitassem para os seus deveres militares diários
- deviam submeter o caso ao coronel dos respectivos regimentos, mas, na medida do possível
desejava que os seus homens fossem juízes de si próprios. Os capitães podiam chicotear, com
autorização dos coronéis dos regimentos, mas apenas nos casos em que o delito, tal como cobardia
em batalha ou o roubo a um camarada, mostrasse uma baixeza de carácter que tornasse o
açoitamento apropriado; mas também ordenava que um homem, uma vez açoitado, nunca mais
servisse como combatente; tinha que ser despromovido para os transportes ou serviço
administrativo. Qualquer soldado que considerasse que tinha sido injustamente condenado pelos
camaradas ou pelo seu capitão podia apelar para ele; mas parecia-lhe pouco provável que tais
sentenças necessitassem de ser revistas. Este sistema funcionava admiravelmente, porque o meu pai
era tão bom soldado que inspirava as tropas a agirem dentro de um padrão de virtude, da qual os
outros comandantes não os julgavam capazes. Mas é fácil de compreender até que ponto era
perigoso para soldados que tinham sido tratados desta forma serem depois comandados por um
general vulgar. A dádiva da independência, uma vez concedida, não pode
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ser retirada de ânimo leve. Havia sempre problemas quando os soldados que tinham servido sob as
ordens do meu pai acabavam por ser recrutados para serem comandados pelo meu tio. O contrário
era também verdade: os soldados que tinham servido sob o meu tio reagiam com desprezo e
suspeita ao sistema de disciplina do meu pai. Tinha sido seu hábito ocultarem os crimes uns dos
outros e orgulharem-se da sua astúcia em evitar a detecção e, uma vez que, sob o comando do meu
tio, um homem podia ser chicoteado, por exemplo, por se dirigir a um oficial sem que ele se
dirigisse a ele primeiro, ou por falar com excessiva franqueza, ou por se comportar com
independência em qualquer situação, era uma honra e não uma desgraça para um soldado poder
mostrar as marcas do chicote nas costas.
As maiores vitórias do meu pai foram nos Alpes, em França, nos Países Baixos, mas especialmente
na Germânia, onde o seu nome, creio, nunca será esquecido. Ele estava sempre no ponto mais
renhido da batalha. A sua ambição era realizar um feito que só tivesse sido realizado duas vezes na
história de Roma: designadamente, como general, matar o general inimigo com as suas próprias
mãos e despojá-lo das armas. Esteve muitas vezes à beira do sucesso, mas a sua presa sempre lhe
escapou. Ou o indivíduo galopava para fora do campo, ou se rendia em vez de lutar, ou um qualquer
soldado raso se intrometia e recebia o golpe primeiro. Os veteranos, ao contarem-me histórias do
meu pai, muitas vezes soltaram risadas de admiração:
- Fazia-nos bem ao coração ver o vosso pai no seu cavalo negro, a jogar às escondidas no campo de
batalha com um desses chefes germânicos. Às vezes, era obrigado a abater nove ou dez dos seus
guarda-costas, homens valentes também, antes de conseguir chegar junto do estandarte e, nessa
altura, já o pássaro manhoso tinha voado.
O maior orgulho dos homens que tinham servido sob as ordens de meu pai era o facto dele ter sido
o primeiro general romano a marchar de uma ponta à outra do Reno, desde a Suiça ao Mar do
Norte.
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CAPíTULO IV
O meu pai nunca esquecera os ensinamentos do meu avô sobre a liberdade. Ainda rapazinho, tinha-
se atirado a Marcelo, cinco anos mais velho que ele, a quem Augusto deu o título de Chefe de
Cadetes. Tinha dito a Marcelo que o título lhe fora concedido apenas para uma ocasião específica
(uma luta simulada chamada Gregos e Troianos, realizada no Campo de Marte entre duas forças de
cadetes de cavalaria, filhos de cavaleiros e senadores) e que o mesmo não implicava nenhum dos
poderes judiciais gerais que Marcelo assumira desde então; e que ele, pela sua parte, romano
nascido livre, não iria submeter-se a tal tirania. Recordou a Marcelo que o grupo adversário da luta
simulada tinha sido chefiado por Tibério e que este tinha ganho as honras do recontro. Por fim,
desafiou Marcelo para um duelo. Augusto ficou muito divertido quando soube da história e, durante
muito tempo, não se referia ao meu pai a não ser, brincando, como o romano nascido livre.
Sempre que se encontrava em Roma, o meu pai irritava-se com o crescente espírito de subserviência
em relação a Augusto que encontrava por toda a parte, ansiando sempre por voltar para a vida
militar. Enquanto desempenhou o cargo de um dos magistrados principais da Cidade, durante a
ausência em França de Augusto e de Tibério, desagradou-lhe profundamente a preponderância da
caça ao posto e dos favoritismos políticos. Disse em privado a um amigo, por quem vim a sabê-lo
anos mais tarde, que se podia encontrar mais do velho espírito romano de liberdade numa só
companhia dos seus soldados do que em toda a classe dos senadores. Pouco antes de morrer,
escreveu a Tibério, de um acampamento no interior da Germânia, uma carta amarga nesse sentido.
Dizia que desejava, por tudo o que havia de mais alto, que Augusto seguisse o exemplo glorioso do
Ditador Sula que, senhor absoluto de Roma depois das primeiras Guerras Civis, quando todos os
seus inimigos estavam pacificados ou subjugados, só se detivera para resolver a seu gosto alguns
assuntos de Estado, antes de depor as insígnias do ofício e tornar-se de novo um cidadão comum. Se
Augusto não fizesse o mesmo muito em breve, - e ele sempre dera a entender que essa era a sua
finalidade última
- seria tarde demais. As fileiras da velha nobreza estavam tristemente enfraquecidas: as proscrições
e as guerras civis tinham levado os mais
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ousados e os melhores; os sobreviventes, perdidos no meio da nova nobreza, mostravam-se


inclinados a comportar-se cada vez mais como escravos de família de Augusto e Lívia. Em breve,
Roma teria esquecido o que significava a liberdade e cairia finalmente sob uma tirania tão bárbara e
arbitrária como as do leste. Não era para promover uma calamidade dessas que ele fizera tantas
campanhas esgotantes sob o comando supremo de Augusto. Mesmo o seu amor e profunda
admiração pessoal por Augusto, que fora para ele um segundo pai, não o impediam de expressar
estes sentimentos. Pediu a opinião de Tibério: não poderiam os dois, em conjunto, persuadir,
mesmo obrigar, Augusto a retirar-se?
- Se ele consentir, o meu amor e admiração por ele tornar-se-ão mil vezes superiores ao que antes
eram; mas lamento dizer que o orgulho secreto e ilegítimo que a nossa mãe Lívia retira do seu
exercício de poder supremo através de Augusto será o maior empecilho que iremos provavelmente
encontrar nesta questão.
Por infelicidade, a carta foi entregue a Tibério enquanto ele estava na presença de Augusto e Lívia.
- Uma missiva do vosso nobre irmão! - gritou o correio imperial, entregando-lha.
Tibério, não suspeitando que houvesse alguma coisa na carta que não devesse ser comunicada a
Lívia e a Augusto, pediu permissão para a abrir e ler de imediato. Augusto disse:
- Claro que sim, Tibério, mas na condição que a leias em voz alta para nós.
Fez sinal aos criados para que saíssem da sala: - Vamos, não percamos tempo. Quais foram as suas
últimas vitórias? Estou impaciente por saber. As cartas dele são sempre bem escritas e interessantes,
muito mais que as tuas, meu caro, se me desculpas a comparação.
Tibério leu em voz alta as primeiras palavras e, depois, pôs-se muito vermelho, Tentou saltar a parte
perigosa, mas descobriu que havia pouco mais que perigo por toda a carta, excepto mesmo no fim,
quando meu pai se queixava de vertigens por causa de um ferimento na cabeça e falava da sua
marcha difícil até ao Elba. Curiosos portentos tinham ocorrido ultimamente, escrevia. Um
espectáculo extraordinário de estrelas cadentes, noite após noite; sons semelhantes a um lamento de
mulheres vindos da floresta; e dois jovens divinais montados em cavalos brancos e vestindo trajos
gregos, não germânicos, tinham atravessado de repente o acampamento ao alvorecer. Finalmente,
uma mulher germânica, de uma estatura superior à dos mortais, tinha aparecido à porta da sua tenda
e falado com ele em grego, dizendo-lhe que não fosse mais longe, porque o destino era contra isso.
Tibério lia uma palavra aqui, outra ali, tropeçava, dizia que a escrita estava ilegível, recomeçava,
tropeçava de novo e, finalmente, pediu para parar.
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- O que é isto? - disse Augusto. Com certeza consegues decifrar mais do que isso.
Tibério controlou-se
- Para falar verdade, senhor, consigo, mas a carta não merece ser lida. É evidente que o meu irmão
não estava bem quando a escreveu. Augusto ficou alarmado.
- Não está gravemente doente, espero? - Mas a minha avó Lívia, como se a sua ansiedade de mãe,
por uma vez, se sobrepusesse às boas maneiras, - embora, claro, tivesse compreendido
imediatamente que havia alguma coisa na carta que Tibério receava ler, porque se reflectia quer em
Augusto, quer nela própria - arrancou-lha da mão. Leu-a do princípio ao fim, franzindo a testa
sombriamente e passou-a a Augusto, dizendo:
- Esta é uma questão que só vos diz respeito a vós. Não me compete a mim punir um filho, por mais
natural que isso seja; isso compete-vos a vós, como seu tutor e chefe do Estado.
Augusto ficou alarmado, perguntando a si mesmo o que poderia estar a acontecer? Leu a carta, mas
ela parecia merecer reprovação, mais por ter escandalizado a minha avó do que por qualquer coisa
escrita contra ele. Na realidade, à parte a chocante palavra forçar, ele concordava secretamente com
os sentimentos expressos na carta, embora o insulto à minha avó se reflectisse nele, por se ter
deixado persuadir mesmo contra as suas convicções. O Senado estava, sem dúvida, a tornar-se
vergonhosamente obsequioso nos seus modos para com ele, a sua família e o seu pessoal. A
situação desagradava-lhe tanto como ao meu pai e era verdade que, havia bastante tempo, antes da
derrota e morte de António, ele tinha prometido publicamente retirar-se quando já não houvesse
nenhum inimigo público em campo contra ele. Depois disso, referira-se várias vezes nos seus
discursos ao dia feliz em que a sua tarefa estaria concluída. Estava fatigado dos constantes negócios
do estado e das honras constantes; desejava repouso e anonimato. Mas a minha avó nunca lhe
permitiria que desistisse; havia de dizer sempre que a tarefa dele ainda nem chegara a meio, que não
havia outra coisa a esperar, a não ser a desordem civil, se ele se retirasse agora. Sim, ele trabalhava
muito, admitia, mas ela trabalhava ainda mais e sem qualquer recompensa pública directa. E ele não
podia ser simplista: logo que deixasse as suas funções e se tornasse um mero cidadão privado,
ficava sujeito a ser acusado por traição e mesmo exilado, ou pior ainda; para não falar nas raivas
secretas dos parentes dos homens que ele tinha morto ou desonrado. Como cidadão privado, teria
que abdicar dos guarda-costas, assim como dos seus exércitos. Seria melhor continuar por mais dez
anos e, ao fim desse tempo, talvez as coisas tivessem mudado para melhor. Assim, ele cedia sempre
e continuava a governar. Aceitou os privilégios monárquicos em prestações.
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Foi votado para mais cinco anos ou dez, mas mais provavelmente dez.
A minha avó olhou com dureza para Augusto quando ele acabou de ler a malfadada carta:
- Então? - perguntou.
- Concordo com Tibério, - disse ele brandamente. - O jovem deve estar doente. É uma perturbação
causada pelo excessivo estado de tensão. Vê-se no parágrafo final, quando fala nos resultados do
ferimento que tem na cabeça e das visões que está a ter; bom, isso prova-o. Ele precisa descansar. A
generosidade natural do seu espírito foi pervertida pelas ansiedades da campanha. Essas florestas
germânicas não são o lugar indicado para um homem doente de espírito, pois não, Tibério? O uivar
dos lobos deve ser o pior que há para os nervos: o lamento das mulheres de que ele fala eram
certamente lobos. Que tal mandá-lo regressar, agora que já deu a esses germânicos uma sacudidela
que eles nunca hão-de esquecer? Seria bom para mim tê-lo de volta aqui a Roma. Sim, temos que o
mandar vir. Vós ficareis feliz, minha querida Lívia, por terdes de novo o vosso menino, não é
verdade?
A minha avó não respondeu directamente. Disse, ainda com a testa franzida:
- E vós, Tibério?
O meu tio era mais político que Augusto. Conhecia melhor a natureza da mãe. Replicou:
- O meu irmão sem dúvida parece doente, mas mesmo a doença não consegue explicar um
comportamento tão indigno de um filho e uma loucura tão grosseira. Concordo que ele devia ser
chamado para lhe ser recordada a infâmia de ter acalentado pensamentos tão baixos sobre a mais
dedicada e incansável das mães e da enormidade de os ter posto no papel e enviado pelo correio
através de um país hostil. Além disso, o argumento sobre o caso de Sula é infantil. Logo que Sula
deixou o poder, as Guerras Civis começaram de novo e a nova constituição foi derrubada.
Assim, Tibério saiu-se bastante bem do incidente, mas uma boa parte da sua severidade contra o
meu pai foi genuína, por o ter colocado numa posição bastante embaraçosa,
Lívia estava sufocada de raiva contra Augusto, por permitir que insultos à sua pessoa fossem
deixados passar com tanta ligeireza e, ainda por cima, na presença do filho. A sua raiva contra o
meu pai era igualmente violenta. Sabia que, quando ele voltasse, era muito provável que pusesse em
prática o seu plano para forçar Augusto a retirar-se. Também compreendeu que, agora, nunca
conseguiria governar através de Tibério
- mesmo que conseguisse garantir-lhe a sucessão -, enquanto meu pai, um homem com uma enorme
popularidade em Roma e com todos os regimentos ocidentais a apoiá-lo, estivesse à espera para
forçar o restabelecimento
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das liberdades populares. E o poder supremo acabara por se tornar para ela mais importante que a
vida ou a honra; já lhe tinha sacrificado muita coisa. No entanto, conseguia disfarçar os seus
sentimentos. Fingiu aceitar o ponto de vista de Augusto (que o meu pai estava apenas doente) e
disse a Tibério que achava a censura dele demasiado severa. Concordou, no entanto, que o meu pai
devia ser chamado imediatamente. Agradeceu mesmo a Augusto a generosidade com que atenuou a
falha do pobre filho e disse que lhe enviaria o seu próprio médico confidencial com uma porção de
heléboro, de Anticira, na Tessália, que era um famoso medicamento específico para casos de
fraqueza mental.
O médico pÔs-se a caminho no dia seguinte, na companhia do correio que levou a carta de
Augusto. A carta continha as suas felicitações calorosas pelas vitórias que alcançara e lamentava o
ferimento na cabeça; permitia-lhe também que regressasse a Roma, mas numa linguagem que dava
a entender que tinha que regressar, quer quisesse quer não.
O meu pai respondeu alguns dias mais tarde, expressando o seu agradecimento pela generosidade
de Augusto. Disse que regressaria logo que a saúde lho permitisse, mas que a carta lhe chegara às
mãos no dia a seguir a um ligeiro acidente: o cavalo que montava caíra debaixo dele em pleno
galope, rolara-lhe sobre a perna e comprimira-a de encontro a uma pedra afiada. Agradecia à mãe a
sua solicitude, a oferta do heléboro e o facto de lhe ter enviado o seu médico, de cujos serviços se
servira imediatamente. Mas receava que mesmo a sua reconhecida habilidade não tivesse impedido
que a ferida se tivesse tornado grave. Dizia por fim que teria preferido continuar no seu posto, mas
que os desejos de Augusto eram ordens para ele; e repetia que, logo que estivesse novamente bem,
regressaria à Cidade. Estava presentemente acampado perto do Saal Turíngeo.
Ao ouvir tais notícias, Tibério, que estava com Augusto e Lívia em Pavia, pediu de imediato
permissão para ir dar assistência ao irmão no leito da doença. Augusto concedeu-lha e ele montou
no seu cavalo e galopou em direcção ao norte, com uma pequena escolta, procurando o caminho
mais rápido para atravessar os Alpes. Tinha diante dele uma viagem de 500 milhas, mas podia
contar com mudanças frequentes de cavalos nos postos da mala-posta e, quando se sentisse
demasiado cansado para continuar em cima da sela, poderia sempre pedir um carro de duas rodas e
dormir nele algumas horas, sem retardar a marcha. O tempo favoreceu-o. Atravessou os Alpes e
desceu para a Helvécia; depois, seguiu a rota principal do Reno e chegou a um lugar chamado
Manheim, sem ter sequer parado para tomar uma refeição quente. Aí, atravessou o rio e rumou a
nordeste por estradas inóspitas, através de um país agreste. Estava sozinho, quando chegou ao seu
destino na noite do terceiro dia, quando a sua escolta original há muito desistira e a nova escolta,
que
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reunira em Manheim, também não conseguira acompanhá-lo. Afirma-se que, no segundo dia e
noite, viajou quase 200 milhas entre o meio-dia de um dia e o meio-dia do seguinte. Chegou a
tempo de saudar o meu pai, mas não a tempo de lhe salvar a vida, porque, entretanto, a perna
gangrenara até à coxa. O meu pai, embora às portas da morte, ainda teve a presença de espírito
necessária para ordenar ao acampamento que prestasse a meu tio Tibério as honras devidas a um
comandante do exército. Os irmãos abraçaram-se e o meu pai sussurrou: -Ela leu a minha carta?
- Antes que eu próprio a lesse, - gemeu o meu tio Tibério. Nada mais foi dito a não ser pelo meu
pai, que suspirou:
- Roma tem uma mãe severa: Lúcio e Caio têm uma madrasta perigosa. - Estas foram as suas
últimas palavras e o meu tio Tibério não tardou a fechar-lhe os olhos.
Ouvi este relato a Xenofonte, um grego da ilha de Cos, que era na altura um homem ainda jovem.
Era o médico do meu pai e ficara muito desgostoso por o médico do meu avô lhe ter tirado o caso
das mãos. Caio e Lúcio, devo explicar, eram os netos de Augusto, filhos de Júlio e Agripa.
Adoptara-os como seus próprios filhos quando ainda eram crianças. Havia um terceiro rapaz,
Póstumo, assim chamado por ter nascido após a morte do pai; Augusto não o adoptou como aos
outros, mas deixou que ele adoptasse o nome de Agripa.
O acampamento onde morreu meu pai foi baptizado de Amaldiçoado e o seu corpo foi levado em
procissão militar para o quartel de Inverno do exército, em Mairiz, sobre o Reno, acompanhado por
meu tio Tibério durante todo o caminho como principal lamentador. O exército desejava enterrar ali
o corpo, mas ele levou-o de volta a Roma para aí fazer o funeral, tendo sido queimado sobre uma
pira monstruosa nos Campos de Marte. O próprio Augusto pronunciou a oração fúnebre, no
decorrer da qual disse:
- Peço aos Deuses que façam meus filhos Caio e Lúcio homens tão nobres e virtuosos como este
Druso, e que me concedam a mim uma morte tão honrosa como a sua.
Lívia não estava certa até que ponto podia confiar em Tibério. Quando ele regressou com o corpo
de meu pai, a simpatia dele parecera-lhe forçada e pouco sincera e, quando Augusto formulou o
desejo de ter uma morte tão honrosa como a de meu pai, ela viu um breve meio-sorriso atravessar-
lhe o rosto.
Tibério que, ao que parece, há muito suspeitava que o meu avô não morrera de morte natural, estava
decidido agora a não contrariar de forma alguma a vontade da mãe. Jantando tantas vezes à mesa
dela, sentia-se completamente à sua mercê. Esforçou-se muito para ganhar o seu favor. Lívia
compreendia o que se passava no espírito dele e isso não lhe desagradava.
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Ele era o único que suspeitava da sua ligação com venenos e, certamente, iria guardar para si essas
suspeitas. Ela tinha sobrevivido ao escândalo do casamento com Augusto e era agora citada na
Cidade como um exemplo de virtude, na sua forma mais estrita e desagradável. O Senado votou que
quatro estátuas suas fossem erigidas em vários locais públicos; isto era uma forma de a consolar
pela sua perda. Também a inscreveram por uma ficção legal entre as Mães de Três Filhos (segundo
a legislação de Augusto, as mães de três ou mais filhos tinham privilégios especiais, especialmente
como legatárias - as solteironas e as mulheres estéreis não eram autorizadas a beneficiar de
testamentos e a sua perda era o ganho das suas irmãs fecundas).
Cláudio, meu velho maçador, aqui estás, a poucos centímetros do final do quarto rolo da tua
autobiografia, e ainda nem sequer chegaste ao sítio onde nasceste. Escreve-o de imediato ou nunca
chegarás sequer a meio da tua história. Escreve: ”O meu nascimento ocorreu em Lião, na França, no
dia 1 de Agosto, um ano antes da morte de meu pai.” Pronto. Os meus pais tinham tido seis filhos
antes de mim, mas, como a minha mãe acompanhava sempre o meu pai nas suas campanhas, uma
criança tinha que ser muito resistente para sobreviver. Apenas o meu irmão Germânico, cinco anos
mais velho que eu, e a minha irmã Livila, um ano mais velha, estavam vivos: ambos herdaram a
magnífica constituição de meu pai. Eu não. Quase morri em três ocasiões antes do meu segundo ano
e, se a morte do meu pai não tivesse trazido a família de regresso a Roma, é pouco provável que
esta história alguma vez tivesse sido escrita.
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CAPíTULO V
Em Roma, vivíamos na grande casa que pertencera ao meu avô e que ele deixara em testamento a
minha avó. Ficava no Monte Palatino, perto do palácio de Augusto e do templo de Apolo construído
por Augusto, onde se encontrava a biblioteca. O Monte Palatino ficava sobranceiro à Praça do
Mercado. Sob a parte mais íngreme do penhasco havia o Templo dos Deuses Gémeos, Castor e
Pólux (este era o templo antigo, construído com madeira e blocos de terra, que dezasseis anos mais
tarde Tibério substituiu, às suas custas, por uma magnífica estrutura de mármore, com o interior
pintado e dourado e tão sumptuosamente mobilado como o boudoir de uma dama nobre e rica. A
minha avó Lívia obrigou-o a fazer isto para agradar a Augusto, posso dizer. Tibério não tinha um
espírito religioso e era muito parcimonioso com o dinheiro). O ambiente era mais saudável na
colina do que cá em baixo, na cova junto ao rio; a maior parte das casas que lá havia pertenciam a
senadores. Eu era uma criança enfermiça - ”um verdadeiro campo de batalha de doenças”, diziam
os médicos - e talvez só tivesse vivido porque as doenças não conseguiam pôr-se de acordo sobre
qual deveria ter a honra de me levar. Para começar, nasci prematuramente, apenas de sete meses e,
ainda por cima, o leite da minha ama de criação não me caía bem, de forma que a minha pele
cobriu-se com uma erupção grave, acrescida depois de malária e sarampo, que me deixou
ligeiramente surdo de um ouvido; sofri ainda de erisipela, colite e, finalmente, paralisia infantil, que
me encurtou a perna, condenando-me a um coxear permanente. Devido a uma ou outra destas
doenças, tenho tido durante toda a minha vida uma tal fraqueza nas pernas que nunca me foi
possível correr ou caminhar longas distâncias: uma grande parte das minhas viagens teve que ser
feita numa liteira. E há ainda a dor insuportável, que me ataca frequentemente o estômago depois de
comer. É algo de tão doloroso que, em duas ou três ocasiões, se não fosse a intervenção dos meus
amigos, eu teria enterrado uma faca de cortar carne (que agarrei desvairado) no sítio do tormento. já
ouvi dizer que esta dor, a que chamam paixão cardíaca, é pior do que qualquer
1 Boudoir: Palavra de origem francesa, que se poderá traduzir por sala-de-estar. (N. do R.)
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outra dor conhecida do homem, se exceptuarmos a estrangúria. Bom, acho que devo sentir-me grato
por nunca ter tido estrangúria.
Hão-de pensar que minha mãe Antónia, uma nobre e bela mulher criada na mais estrita virtude por
sua mãe Octávia, a paixão da vida do meu pai, se teria ocupado de mim com todo o amor, sendo eu
o seu filho mais velho, e que teria mesmo tido grande preferência por mim, com pena dos meus
infortúnios. Mas não foi isso que aconteceu. Fez por mim tudo o que se podia esperar dela como um
dever; nada mais. Não me tinha amor. Não, tinha mesmo uma grande aversão por mim, não só por
causa do meu estado enfermiço, mas também por ter tido comigo uma gravidez extremamente
difícil, seguida de um parto doloroso, do qual mal escapou com vida e que a deixou mais ou menos
inválida durante anos. O meu nascimento prematuro foi devido a um choque que ela recebeu na
festa dada em honra de Augusto, quando ele visitou o meu pai em Lyon, para inaugurar ali o Altar
de Roma e Augusto: o meu pai era Governador das Três Províncias de França e Lyon era o seu
quartel-general. Um escravo siciliano louco, que estava a trabalhar como criado na festa, puxou
repentinamente de um punhal e brandiu-o no ar atrás do pescoço do meu pai. Só a minha mãe viu o
que aconteceu. Cruzou o olhar com o do escravo e teve a presença de espírito suficiente para lhe
sorrir e sacudir a cabeça num gesto de reprovação, fazendo-lhe sinal para que guardasse o punhal.
Enquanto ele hesitava, dois outros criados seguiram o olhar da minha mãe e chegaram a tempo para
o dominar e desarmar. Então, ela desmaiou e começou imediatamente com as dores. Pode muito
bem ser por causa disto que eu sempre tive um receio mórbido do assassinato; diz-se que um
choque pré-natal pode ser herdado. Mas claro que não há qualquer razão séria para se falar de uma
influência pré-natal. Quantos membros da família imperial morreram de morte natural?
Como eu era uma criança afectuosa, a atitude da minha mãe causava-me muito desgosto. Soube por
minha irmã Livila, uma rapariga bela mas cruel, fútil e ambiciosa - numa palavra, uma Claudiana
típica da variedade má -, que a minha mãe me tinha chamado ”um mau presságio humano”, dizendo
que, quando eu nasci, os livros sibilinos deveriam ter sido consultados. Disse também que a
natureza me tinha começado, mas nunca me acabara, atirando-me para o lado como uma
inutilidade. E ainda que os antigos eram mais sensatos e mais nobres que nos: expunham as crianças
débeis numa colina inóspita, para o bem da raça. Lívila pode ter empolado alguns comentários
menos severos - pois as crianças de sete meses são objectos horríveis -, mas eu sei que, uma vez,
quando a
1 Doença originada por uma inflamação da uretra, traduzindo-se em dificuldade de urinar. (N. do
R.)
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minha mãe se zangou ao saber que um senador qualquer tinha introduzido uma moção tola no
Senado, exclamou:
- Esse homem devia ser afastado! É estúpido que nem um burro! O que estou eu a dizer?! Em
comparação, os burros são animais sensíveis; ele é tão estúpido como... como ... Céus, ele é tão
estúpido como o meu filho Cláudio!
Germânico era o seu favorito, tal como era o favorito de toda a gente, mas, longe de o invejar pelo
amor e admiração que conquistava para onde quer que fosse, regozijava-me por ele. Germânico
tinha pena de mim e fazia o máximo que lhe era possível para tornar a minha vida mais feliz,
recomendando-me aos mais velhos como uma criança de bom coração, que recompensaria um
tratamento generoso e cuidado. A severidade apenas servia para me assustar, dizia, e tornar-me
mais nervoso do que eu normalmente era. Ele estava certo. O tique nervoso das minhas mãos, as
sacudidelas nervosas da cabeça, a gaguez, os problemas de enjoo e má digestão, a baba que me
escorria constantemente da boca, deviam-se sobretudo aos terrores a que era submetido, em nome
da disciplina. Quando Germânico se erguia em minha defesa, a minha mãe costumava rir-se com
indulgência e dizer:
- Nobre coração, arranja um sujeito melhor para os teus transportes! Mas a maneira de falar da
minha avó Lívia era:
- Não sejas pateta, Germânico. Se ele reagir favoravelmente à disciplina, tratá-lo-emos com a
gentileza que merece. Estás a pÔr o carro diante dos bois.
A minha avó raramente falava comigo e, quando falava, fazía-o com ar de desprezo e sem olhar
para mim; na maior parte dos casos, para dizer:
- Sai desta sala, pequeno, que eu quero ficar aqui.
Quando tinha a oportunidade de me repreender, nunca o fazia por palavras, mas enviando-me uma
nota breve e fria. Por exemplo: ”Chegou ao conhecimento de Dona Lívia que o rapaz Cláudio tem
andado a esbanjar o seu tempo a deambular na Biblioteca de Apolo. Até que consiga tirar partido
dos manuais elementares que lhe foram fornecidos pelos seus professores, é absurdo que ele se
intrometa com as obras mais sérias que se encontram nas prateleiras da biblioteca. Além do mais, as
suas andanças perturbam os verdadeiros estudantes. Essa prática tem que acabar.”
Quanto a Augusto, embora nunca me tratasse com uma crueldade calculada, detestava estar na
mesma sala comigo, tal como acontecia com a minha avó. Ele gostava imenso de rapazitos
pequenos (tendo sido ele próprio, até ao fim da vida, um rapaz crescido), mas apenas do género que
ele designava como ”rapazinhos varonis e impecáveis”, como o meu irmão Germânico e os seus
netos, Gaio e Lúcio, todos eles extremamente
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bem parecidos. Havia vários filhos de reis ou de chefes confederados mantidos como reféns, para
assegurar o bom comportamento dos pais
- havia-os de França, da Germânia, da Pártia, Norte de África e Síria -, que eram educados com os
netos dele e com os filhos dos senadores principais no Colégio dos Rapazes. Ele aparecia muitas
vezes nos claustros para jogar com bolinhas, ossinhos ou à apanhada. Os seus grandes favoritos
eram os rapazinhos escuros, mouros, partos e sírios: e aqueles que conseguiam falar
descontraidamente com ele, na sua linguagem infantil, tratando-o como se fosse um deles. Uma
única vez, ele tentou dominar a enorme repugnância que sentia por mim e deixou-me participar num
jogo de bolinhas com os seus favoritos: mas foi um esforço tão antinatural, que me deixou mais
nervoso do que de costume - e pus-me a gaguejar e a tremer como um louco. Ele não voltou a
tentar. Detestava anões, aleijados e deformidades de uma maneira geral, dizendo que davam azar e
deviam ser mantidos fora das vistas. No entanto, no fundo do meu coração, nunca consegui odiar
Augusto como acabei por odiar a minha avó, pois o desagrado que sentia por mim não continha
malícia e ele fazia os possíveis por o dominar. Na verdade, eu devia ser uma coisinha estranha e
miserável; uma calamidade para um pai tão forte e magnífico e uma mãe tão bela e majestosa. O
próprio Augusto era um indivíduo bem-parecido, ainda que um pouco baixo, com cabelos claros e
encaracolados (que só se tornaram grisalhos numa fase adiantada da sua vida), olhos vivos, um
rosto alegre e um carácter gracioso e recto.
Recordo-me de ter ouvido uma vez um epigrama elegíaco que ele fez sobre mim, em grego, para
apresentar a Atenodoro, um filósofo estóico de Tarso na Cilícia, cujos conselhos simples e sérios
ele procurava muitas vezes. Eu tinha cerca de sete anos e eles chegaram perto de mim, junto ao lago
das carpas, no jardim da casa de minha mãe. Não me recordo exactamente de como era o epigrama,
mas o sentido era o seguinte: ”Antónia é uma pessoa antiquada: não compra um sagui de estimação
por alto preço a um negociante oriental. E porquê? Ela própria faz criação deles.” Atenodoro ficou
um momento a pensar e respondeu com severidade na mesma métrica: ”Antónia, que está longe de
comprar um sagüi de estimação aos negociantes orientais, nem sequer mima e alimenta com
ameixas e compota o pobre filho, que teve com o seu nobre marido.” Augusto ficou um tanto
desconcertado. Devo esclarecer que nem ele nem Atenodoro, a quem eu sempre fora apresentado
como um tonto, suspeitavam de que eu pudesse entender aquilo que diziam. Assim, Atenodoro
puxou-me para ele e disse em tom de brincadeira, em latim:
- E o que é que o jovem Tibério Cláudio pensa desta questão?
1 género de pequeno macaco, de cauda longa e fina e comum no oriente e em algumas regiões
tropicais. (N. do R.)
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Eu estava escondido de Augusto pelo corpo volumoso de Atenodoro e, de alguma forma, esqueci
a minha gaguez. Disse-lhe de imediato, em grego:
- A minha mãe Antónia não me dá mimos, mas fez-me aprender grego com alguém que o aprendeu
directamente com Apolo.
O que eu queria dar a entender era que compreendia o que eles diziam. A pessoa que me tinha
ensinado grego era uma mulher que fora sacerdotisa de Apolo numa das ilhas gregas, mas fora
capturada por piratas e vendida ao dono de um bordel em Tiro. Tinha conseguido escapar, mas não
lhe era permitido voltar a ser sacerdotisa, por ter sido prostituta. Minha mãe Antónia,
reconhecendo-lhe os dons, aceitou-a na família como preceptora. Esta mulher costumava dizer-me
que aprendera directamente de Apolo, e eu estava apenas a repetir-lhe as palavras. Mas como Apolo
era o Deus do conhecimento e da poesia, o meu comentário apresentou-se mais inteligente que a
minha intenção. Augusto teve um sobressalto e Atenodoro disse:
- Falaste bem, pequeno Cláudio: os saguis não entendem uma palavra de grego, pois não?
Eu respondi:
- Não, e têm longas caudas e roubam maçãs da mesa,
No entanto, quando Augusto começou a interrogar-me ansiosamente, afastando-me de Atenodoro,
senti-me de novo intimidado e a gaguez voltou, mais forte que nunca. Mas a partir daí, Atenodoro
tornou-se meu amigo.
Há uma história acerca de Atenodoro e de Augusto que é muito lisonjeira para ambos. Um dia,
Atenodoro disse a Augusto que ele não tomava a mínima precaução ao admitir visitantes à sua
presença; um dia, seria trespassado por algum punhal. Augusto replicou que ele estava a dizer
disparates. No dia seguinte, dia do aniversário da morte do pai, Augusto foi informado de que a
irmã, Octávia, estava lá fora e desejava saudá-lo. Ele deu ordens para que a fizessem entrar
imediatamente. Ela era uma inválida crónica quando isto aconteceu - foi no ano da sua morte - e era
sempre transportada de um lado para o outro numa liteira fechada. Quando a liteira foi trazida, as
cortinas afastaram-se e do seu interior saltou Atenodoro, empunhando uma espada, que apontou ao
coração de Augusto. Este, longe de ficar zangado, agradeceu a Atenodoro, e confessou que tinha
sido um grande erro tratar com tanta ligeireza a advertência que lhe tinha feito.
Há um acontecimento extraordinário da minha infância que não posso esquecer-me de registar. Um
Verão, quando eu tinha apenas oito anos de idade, o meu irmão Germânico, minha irmã Livila e eu
estávamos de visita a minha tia Júlia, numa bela casa de campo perto do mar, em Âncio.
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Eram cerca das seis horas da tarde e nós estávamos no exterior, saboreando a brisa numa vinha.
Júlia não estava connosco, mas o filho de Tibério esse Tibério Druso a quem mais tarde
chamávamos sempre deCastor
- e Póstumo e Agripina, filhos de Júlia, faziam parte do grupo. De repente, ouvimos um barulho de
guinchos por cima de nós. Olhámos para o ar e vimos várias águias a lutar. Penas caíam flutuando
no ar. Tentámos apanhá-las. Germânico e Castor apanharam uma cada um, antes delas caírem, e
enfiaram-nas no cabelo, Castor tinha uma pena pequena, da asa, mas Germânico apanhou uma
esplêndida, da cauda. Ambas estavam manchadas de sangue. Salpicos de sangue caíram no rosto de
Póstumo, voltado para cima, e nos vestidos de Livila e Agripina. Depois, uma coisa escura caiu dos
ares. Não sei porque o fiz, mas estendi uma dobra da minha túnica e apanhei-a. Era uma pequena
cria de lobo, ferida e aterrorizada. As águias desceram em voo picado para recuperar o animal, mas
eu tinha-o bem escondido e, quando gritámos e atirámos paus, as águias levantaram voo assustadas
e afastaram-se aos guinchos, Eu sentia-me embaraçado. Não queria o pequeno lobo. Livila agarrou-
o, mas a minha mãe, com um ar muito sério, obrigou-a a devolver-mo.
- Caiu nas mãos do Cláudio, - disse. - Ele tem que ficar com ele. Perguntou a um velho nobre,
membro do Colégio dos Augures, que estava connosco: - Dizei-me qual é o presságio,
O velho nobre respondeu:
- Como posso dizê-lo? Pode ter um grande significado ou nenhum.
- Não receeis. Dizei o que parece significar para vós.
- Primeiro, afastai as crianças - disse ele.
Não sei se ele lhe deu a interpretação que, depois de lerdes a minha história, vos há-de aparecer
como a única possível. Tudo O que sei é que, enquanto nos mantínhamos à distância - o meu
querido Germânico tinha encontrado outra pena da cauda para mim, enterrada num espinheiro, e eu
punha-a orgulhoso no cabelo -, Livila trepou curiosa por trás de uma roseira alta e escutou qualquer
coisa. Largou a rir, ruidosamente:
- Pobre Roma, tendo-o a ele como protector! Pelos Deuses, espero morrer antes disso!
O Augure voltou-se para ela e apontou-lhe o dedo...
- Rapariga insensata, - disse, - Deus vai sem dúvida conceder-te o que desejas, e de uma forma que
não vais gostar!
- Vais ser fechada num quarto sem teres que comer, - disse a minha mãe. Agora que as recordo,
essas palavras também foram agourentas. Livila passou o resto das férias na região fronteiriça.
Vingava-se em mim de variadas maneiras, engenhosas e malévolas. Mas não podia dizer-nos
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o que ouvira ao Augure, porque fizera um juramento a Vestal e aos Lares, que nunca se referiria ao
presságio, quer directa quer indirectamente, durante a vida de qualquer dos presentes. Fomos todos
obrigados a fazer esse juramento. Uma vez que há muitos anos sou o único sobrevivente daquele
grupo - a minha mãe e o Augure, embora muito mais velhos, sobreviveram a todos os outros -, já
não estou ligado ao voto de silêncio. Durante algum tempo depois do sucedido, dei muitas vezes
com a minha mãe a olhar-me curiosa, quase com respeito, mas não me tratava melhor do que antes.
Não me foi permitido ir para o Colégio dos Rapazes, porque a fraqueza das pernas não me deixaria
participar nos exercícios de ginástica, que eram uma parte importante da educação, além de que as
doenças me tinham atrasado muito nas lições e a minha surdez e gaguez eram um obstáculo. Assim,
estava raramente na companhia dos rapazes da minha idade e classe e os filhos dos escravos da casa
é que eram chamados para brincar comigo: dois destes, Calon e Palas, ambos gregos, viriam a ser
mais tarde meus secretários, sendo-lhes confiados assuntos da mais alta importância. Calon foi pai
de dois outros secretários meus, Narciso e Políbio. Passei também grande parte do meu tempo com
as mulheres de minha mãe, escutando-lhes as conversas enquanto fiavam, cardavam ou teciam.
Muitas delas, tal como a minha preceptora, eram mulheres com uma educação liberal e devo
confessar que tinha mais prazer na sua companhia do que na de qualquer grupo de homens, entre os
quais me colocaram desde então: elas tinham espíritos abertos, eram astutas, modestas e generosas.
O meu preceptor já o mencionei, Marco Pórcio Catão, que era, pelo menos segundo os seus
próprios cálculos, a encarnação viva da antiga virtude romana que os seus antepassados tinham
demonstrado, um a seguir ao outro. Estava sempre a gabar-se dos seus antepassados, como é hábito
das pessoas estúpidas que têm consciência de que não têm nada de pessoal para se gabarem.
Gabava-se principalmente de Catão o Censor, que, de todas as figuras da história romana, é talvez o
mais odioso para mim, por
1 Divindade adorada pelos romanos, considerada protectora das mulheres. As vestais eram as suas
sacerdotisas, normalmente, gozavam de grande prestígio social Contudo, para poderem ambicionar
a essa posição, tinham de ser, à partida, formosas e castas (N do R)
2 culto aos Lares remonta aos primeiros tempos de Roma Entidades consideradas menos poderosas

que os Deuses, garantiam contudo a protecção do lar e das zonas habitacionais (por exemplo, contra
incêndios, inundações ou outras calamidades). Por essa mesma razão, em muitos cruzamentos da
antiga Roma, apareciam pequenas estátuas a eles referentes Para além dos Lares, existiam outras
divindades da mesma categoria, destinadas à protecção de outros aspectos sociais, como sejam os
Manes (almas dos antepassados, que Supervisionavam pelo destino e boa fortuna dos familiares
vivos) ou os Penates (assistência na morte). (N do R)
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ter defendido persistentemente a causa da antiga virtude, tornando-a idêntica no espírito do povo a
grosseria, pedantismo e rudeza. Fui obrigado a ler as obras auto-glorificadoras de Catão o Censor, à
guisa de livros de texto, e o relato que ele fez numa delas da sua campanha na Hispânia, onde
destruiu mais cidades do que os dias que passou naquele país, causou-me mais repulsa pela sua
desumanidade do que admiração pelas artes militares ou pelo patriotismo que desejava transmitir. O
poeta Virgílio disse que a missão dos romanos é governar: ”Poupar os conquistados e, pela guerra,
dominar os orgulhosos.” Catão dominou os orgulhosos, sem dúvida, mas menos pela guerra
verdadeira do que através da gestão inteligente das invejas inter-tribais na Hispânia: chegou mesmo
a empregar assassinos para afastar inimigos temíveis. Quanto a poupar os vencidos, passou à espada
multidões de homens desarmados, mesmo quando rendiam incondicionalmente as suas cidades;
regista orgulhosamente que muitas centenas de iberos preferiam cometer suicídio, com todas as suas
famílias, de preferência a conhecerem a vingança romana. Seria para admirar que as tribos se
rebelassem de novo logo que conseguiam reunir algumas armas e que continuassem a ser, desde
então, um espinho constantemente cravado na nossa carne? Tudo o que Catão queria era saque e um
triunfo: um triunfo não era concedido, a menos que se pudessem contar uns tantos cadáveres - acho
que nessa altura eram
5.000 -, e ele estava a certificar-se de que ninguém o pudesse contestar, tal como ele contestara por
inveja vários rivais por terem fingido um triunfo sobre uma colheita insuficiente de cadáveres.
Os triunfos, a propósito, têm sido uma praga para Roma, Quantas guerras desnecessárias foram
travadas porque os generais queriam a glória de serem transportados, coroados, pelas ruas de Roma,
com cativos inimigos acorrentados atrás deles e os despojos de guerra amontoados em carros de
desfile? Augusto compreendeu isto: a conselho de Agripa, decretou que, a partir dali, nenhum
general, a menos que se tratasse de um membro da família imperial, teria direito ao triunfo público.
Este decreto, publicado no ano em que nasci, dava a impressão de que Augusto sentia inveja dos
seus generais, pois nessa altura já ele pessoalmente acabara com a vida activa de campanha e
nenhum membro da sua família tinha idade suficiente para conquistar triunfos. Mas o que o decreto
realmente significava era que ele não desejava que alargassem mais os limites do Império e que
compreendia que os seus generais não levariam as tribos da fronteira a cometer actos de guerra, se
não pudessem alimentar esperanças de lhes serem concedidos triunfos por causa da sua vitória
sobre eles, Mesmo assim, permitia que ornamentos triunfais - uma túnica bordada, uma estátua,
uma grinalda e assim por diante - fossem concedidos àqueles que, de outra forma, teriam ganho um
triunfo; isto devia ser incentivo suficiente para que qualquer bom soldado fizesse
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uma guerra necessária. Além disso, os triunfos são muito maus para a disciplina militar. Os
soldados embebedam-se e ficam incontroláveis e, geralmente, acabam o dia a destruir tabernas, a
lançar fogo às lojas dos azeiteiros e a insultar as mulheres, comportando-se, de uma maneira geral,
como se Roma fosse a cidade que tinham conquistado, não um qualquer miserável acampamento de
cabanas de madeira na Germânia ou uma aldeia marroquina enterrada na areia. Após um triunfo
celebrado por um sobrinho meu, de quem vos falarei em breve, 400 soldados e perto de
4.000 simples cidadãos perderam a vida, de uma maneira ou de outra cinco grandes blocos de
habitações no bairro das prostitutas da cidade foram totalmente destruídos pelo fogo e trezentas
tabernas foram saqueadas, além de muitos outros estragos.
Mas eu estava a falar de Catão o Censor. O seu manual de economia doméstica foi transformado no
meu livro de leitura obrigatório e, cada vez que me enganava numa palavra, costumava receber dois
tabefes: um na orelha esquerda, pela minha estupidez; outro na direita, por ter insultado o nobre
Catão. Recordo-me de uma passagem no livro, que retratava muito bem a mesquínhês do indivíduo:
”O senhor de uma casa deve vender os seus bois velhos e todo o gado com cornos que seja de
constituição delicada; todos os seus carneiros que não sejam robustos, a sua lã e até mesmo a sua
pele; deve vender os carros velhos e os seus velhos instrumentos de lavoura; deve vender os
escravos que estejam velhos e enfermos e tudo o mais que esteja gasto ou que seja inútil,” Pela
minha parte, quando vivia como um senhor da terra na minha pequena propriedade de Cápua, fazia
questão de pôr os meus animais mais enfraquecidos em trabalhos ligeiros e, depois, apenas na
pastagem, até que a idade parecia tornar-se um fardo demasiado pesado para eles; nessa altura,
mandava dar-lhes uma pancada na cabeça. Nunca me rebaixei a vendê-los por uma ninharia a um
qualquer camponês, que os obrigasse a trabalhar cruelmente até ao último alento. Quanto aos meus
escravos, sempre os tratei generosamente, tanto na doença como na saúde, tanto na juventude como
na idade avançada. Em troca, esperava deles o mais alto grau de devoção. Raras vezes me
decepcionei, embora, quando abusaram da minha generosidade, não tenha tido piedade deles. Não
tenho dúvidas que os velhos escravos de Catão estavam sempre a cair doentes, na esperança de
serem vendidos para um senhor mais humano e também me parece provável que, de uma maneira
geral, ele recebesse deles trabalho e serviços menos honestos que eu dos meus. É loucura tratar os
escravos como gado. Eles são mais inteligentes que o gado; além disso são capazes de causar numa
semana mais estragos numa propriedade com o seu descuido voluntário e a sua estupidez, do que o
preço que a mesma custou. Catão gaba-se de nunca gastar mais do que algumas libras num escravo:
qualquer indivíduo com mau aspecto e olhos tortos
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que parecesse ter bons músculos e bons dentes lhe servia. Como é que ele conseguia arranjar
compradores para essas belezas, quando já não as queria, não sei dizer. Por aquilo que conheço do
carácter do seu descendente, que se diz ser muito parecido com ele no aspecto físico cabelos de um
louro desbotado, olhos verdes, voz áspera e corpulento e no carácter, acho que ele obrigava os
pobres dos vizinhos a aceitar, pelo preço de novo, tudo o que ele rejeitava.
O meu querido amigo Póstumo, que era um pouco menos de dois anos mais velho que eu - o amigo
mais verdadeiro, à excepção de Germânico, que alguma vez tive - disse-me que tinha lido num livro
contemporâneo que o velho Catão era um verdadeiro escroque, além de sovina: era responsável por
algumas manobras desonestas no comércio de navegação, mas evitou cair publicamente em
desgraça fazendo de um dos seus ex-escravos comerciante nominal. Como Censor, encarregado da
moral pública, fez algumas coisas bastante estranhas: alegou que agia em nome da decência pública
mas, na realidade, ao que parece, satisfazia os seus rancores pessoais. Por iniciativa própria,
expulsou um homem da ordem dos senadores por que demonstrara ”falta de seriedade romana” -
tinha beijado a mulher à luz do dia na presença da filha! Quando questionado por um amigo do
homem expulso, outro senador, quanto à justiça da sua decisão e interrogado sobre se ele próprio e
a mulher nunca se abraçavam a não ser durante o acto marital, Catão respondeu, acalorado:
- Nunca! O quê, nunca? Bom, há uns dois anos, para ser franco, a minha mulher pôs-me os braços
em volta do corpo durante uma trovoada que estava a assustá-la, mas, felizmente não havia
ninguém por perto e eu garanto-vos que há-de passar muito tempo antes que ela volte a fazê-lo.
- Ah, - disse o senador, fingindo não o compreender, pois Catão queria dizer, suponho, que fizera à
mulher uma prelecção terrível sobre a sua falta de seriedade. - Lamento ouvir isso. Algumas
mulheres não são muito carinhosas com os maridos menos belos, por mais rectos e virtuosos que
eles sejam. Mas deixai, talvez Júpiter seja suficientemente bondoso para mandar em breve outra
trovoada.
Catão não perdoou a esse senador, que era um parente distante. Um ano mais tarde, passava em
revista as actas dos senadores, o que era seu dever como Censor, perguntando a cada um por sua
vez se era casado. Havia uma lei, que entretanto foi revogada, segundo a qual todos os senadores
deviam ser honrosamente casados. Chegou a vez do tal parente ser examinado e Catão perguntou,
usando a fórmula habitual, que exortava o senador a responderna sua confiança e honestidade:
- Se tens uma esposa, na tua confiança e honestidade, responde!” entoou Catão, na sua voz rouca.
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O homem sentiu-se um tanto ridículo, porque, depois de ter gracejado sobre a afeição da mulher de
Catão pelo mesmo, descobrira que a sua própria mulher perdera a tal ponto a afeição por ele, que se
via agora forçado a divorciar-se. Assim, para mostrar boa vontade e voltar o gracejo decentemente
contra si próprio, replicou:
- Sim, na verdade, tenho uma esposa, mas ela já não está na minha confiança e também não dou
grande coisa pela sua honestidade. - Catão expulsou-o da ordem por irreverência,
E quem fez cair a Maldição Púnica sobre Roma? Esse mesmo velho Catão que, sempre que lhe
perguntavam a opinião no Senado sobre um dado assunto, fosse ele qual fosse, terminava o seu
discurso dizendo: ”Esta é a minha opinião; além disso, é minha opinião que Cartago devia ser
destruída, pois constitui uma ameaça para Roma.” Insistindo sempre nessa mesma nota da ameaça
de Cartago, provocou um tal nervosismo público que, como eu já disse, os romanos acabaram por
violar os seus compromissos mais solenes e arrasaram Cartago, não deixando pedra sobre pedra.
Escrevi mais do que tencionava sobre o velho Catão, mas não o fiz de ânimo leve. No meu espírito,
ele está associado tanto com a ruína de Roma, pela qual é tão responsável como os homens cuja
”luxúria efeminada”, como ele dizia, ”enervavam o Estado”, como com a recordação da minha
infância infeliz, em que era dominado por aquele almocreve, o seu tetraneto. Agora sou um velho, e
o meu preceptor está morto há cinquenta anos. No entanto, o meu coração ainda se enche de
indignação e ódio quando penso nele.
Cermânico defendia-me perante os mais velhos de uma forma amável e persuasiva, mas Póstumo
era um campeão com garras leoninas. Parecia não ligar a ninguém. Ousava mesmo falar sem
rodeios à minha avó Lívia. Augusto fez de Póstumo o seu favorito; por isso, durante algum tempo,
Lívia fingiu ficar divertida com aquilo a que chamava a sua impulsividade juvenil. A princípio,
Póstumo confiava nela, sendo ele próprio incapaz de fingimento. Um dia, quando eu tinha doze
anos e ele catorze, calhou passar em frente da sala onde Catão me estava a dar as lições. Ouviu o
som de pancadas e os meus pedidos de compaixão e irrompeu pela sala, furioso.
- Pára imediatamente de lhe bater! - gritou.
Catão olhou-o com ar surpreendido e cheio de desprezo e desferiu-me novo golpe, que me fez cair
do banco.
Póstumo disse:
- Aqueles que não conseguem bater no asno batem na sela - é um provérbio romano.
- Descaramento. O que queres dizer com isso? - berrou Catão,
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- Quero dizer, - replicou Póstumo - que te estás a vingar em Cláudio daquilo que consideras ser uma
conspiração generalizada para não te deixar subir. Tu és na verdade bom demais para estares aqui a ensiná-lo,
não é? - Póstumo era inteligente: sabia que isto iria enfurecer Catão, a ponto de o deixar fora de si. E Catão
mordeu a isca, gritando no meio de uma enfiada de velhos impropérios que, nos tempos do seu antepassado,
para cuja memória aquele fedelho gago era um insulto, ai da criança que se mostrasse irreverente para com os
mais velhos; pois nesse tempo a disciplina era imposta com mão pesada. Enquanto que nestes tempos
degenerados os chefes de Roma dão todas as liberdades a qualquer imbecil (esta era para Póstumo) ou a
qualquer criaturinha insignificante, débil de espírito e com um corpo decrépito (esta era para mim)...
Póstumo interrompeu-o com um sorriso de advertência:
- Quer dizer que eu tinha razão. O degenerado Augusto insulta o grande Censor ao dar-lhe emprego na sua
família de degenerados. Imagino que tenhas dito a Dona Lívia como te sentes em relação a isso?
Catão teria arrancado a língua, de tal forma se sentiu vexado e inquieto. Se Lívia viesse a saber o que ele tinha
dito, seria o fim; até ali, sempre expressara a sua mais profunda gratidão pela honra de lhe ter confiado a
educação do neto, para não falar na devolução gratuita dos bens da família
- confiscados na batalha de Filipos, onde o pai morrera a lutar contra Augusto. Catão era suficientemente
prudente ou suficientemente cobarde para captar a mensagem e, a partir daí, os meus tormentos diários foram
consideravelmente reduzidos. Três ou quatro meses mais tarde, para meu grande deleite, ele deixou de ser
meu preceptor, por ter sido nomeado director do Colégio dos Rapazes. Póstumo foi seu educando aí.
Póstumo era muito forte. Ainda com menos de catorze anos conseguia dobrar uma vara de ferro da grossura
do meu polegar de encontro aos joelhos e, além disso, vi-o passear-se no recreio com dois rapazes sobre os
ombros, um nas costas e outro apoiando um pé em cada uma das mãos de Póstumo. Não era estudioso, mas
tinha um intelecto muito superior ao de Catão, o que é o mínimo que se pode dizer e, nos dois últimos anos
em que frequentou o Colégio, os rapazes elegeram-no seu chefe. Em todos os jogos da escola, ele era O Rei -
é estranho como a palavra rei sobreviveu entre os estudantes - e mantinha uma disciplina rígida entre os
colegas. Catão tinha que ser muito delicado com Póstumo, se queria que os outros rapazes fizessem o que ele
queria; todos eles seguiam as indicações de Póstumo.
Catão tinha agora que apresentar a Lívia relatórios semestrais sobre os seus alunos; entretanto, ela
comunicou-lhe que, se achasse que eles eram de interesse para Augusto, lho daria a saber. Catão compreendeu
por esse comentário que os seus relatórios deviam ser isentos de opiniões pessoais, a menos que recebesse
alguma indicação dela para que louvasse
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ou censurasse alguém em especial. Muitos casamentos eram arranjados enquanto os rapazes ainda
estavam no Colégio e um relatório podia ser útil para Lívia, como argumento a favor ou contra
alguma ligação em vista. Os casamentos da nobreza em Roma tinham que ser aprovados por
Augusto como Alto Pontífice e eram, na maior parte dos casos, ditados por Lívia. Aconteceu um dia
que Lívia visitou os claustros do Colégio e encontrou Póstumo sentado numa cadeira a ditar
decretos como Rei. Catão notou que ela franziu o sobrolho ao ver a cena. Isso deu-lhe coragem para
escrever no relatório seguinte: ”Muito contra vontade, mas no interesse da virtude e da justiça, sou
obrigado a registar que o jovem Agripa póstumo tende a revelar um carácter selvático, dominador e
intratável.” Depois disto, Lívia tratou-o com tal amabilidade que o relatório seguinte foi ainda mais
forte. Lívia não mostrou os relatórios a Augusto, mas guardou-os de reserva e o próprio Póstumo
não teve conhecimento de nada.
Sob o reinado de Póstumo, tive os dois anos mais felizes da minha juventude; posso mesmo dizer da
minha vida. Ele deu ordens aos outros rapazes para que eu fosse admitido sem reservas nos jogos
dos claustros, embora não fosse membro do colégio, e fez saber que consideraria qualquer
indelicadeza ou insulto para com a minha pessoa como uma indelicadeza ou insulto à sua pessoa.
Assim, tomava parte em todos os desportos quando a minha saúde o permitia e só quando Augusto
ou Lívia apareciam é que eu desaparecia. Em lugar de Catão, tinha agora o bom velho Atenodoro
como preceptor. Aprendi mais com ele em seis meses do que aprendera com Catão em seis anos.
Atenodoro nunca me batia e usava da maior paciência. Costumava encorajar-me, dizendo que o
facto de eu ser coxo devia ser um incentivo para a minha inteligência. Vulcano, o Deus de todos os
artífices inteligentes, também era coxo. Quanto à minha gaguez, Demóstenes, o mais nobre orador
de todos os tempos, nascera gago, mas tinha-se corrigido com paciência e concentração.
Demóstenes utilizara precisamente o mesmo método que ele agora me estava a ensinar. Na verdade,
Atenodoro fazia-me declamar com a boca cheia de seixos: ao tentar ultrapassar a obstrução dos
seixos, esqueci a gaguez e, depois, os seixos foram sendo retirados um de cada vez, até não restar
nenhum; e eu descobri, para minha surpresa, que conseguia falar tão bem como qualquer pessoa.
Mas apenas quando declamava. Numa conversa normal gaguejava fortemente. Atenodoro fez do
facto de eu conseguir declamar tão bem um segredo entre ele e mim.
- Um dia, Cercopithecion, havemos de surpreender Augusto, dizia. - mas espera um pouco mais.
Quando me chamava Cercopithecion (pequeno sagüi) fazia-o com afeição e não por desprezo e eu
sentia-me orgulhoso do nome. Quando eu me portava mal, ele despejava:
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- Tibério Cláudio Druso Nero Germânico, lembrai-vos de quem sois e do que estais fazendo.
Com Póstumo, Atenodoro e Germânico como amigos, comecei gradualmente a ganhar auto-confiança.
Atenodoro disse-me, logo no primeiro dia a seguir a ter-se tornado meu preceptor, que se propunha ensinar-
me não os factos, que eu podia recolher por mim mesmo em qualquer lado, mas a apresentação correcta dos
factos. E foi o que ele fez. Um dia, por exemplo, perguntou-me, com simpatia, porque é que eu estava tão
excitado; parecia incapaz de me concentrar na minha tarefa. Eu disse-lhe que acabava de ver um grande
destacamento de recrutas em parada nos Campos de Marte, a serem inspeccionados por Augusto antes de
serem enviados para a Germânia, onde a guerra recomeçara havia pouco,
- Bom, - disse Atenodoro, sempre no mesmo tom de simpatia,
- uma vez que estás tão preocupado com isso que não consegues apreciar as belezas de Hesíodo, Hesíodo
pode esperar até amanhã. Afinal, ele já esperou setecentos anos ou mais; portanto, não nos vai levar a mal
mais um dia. E entretanto, se te sentasses, pegasses nas tuas tabuinhas e me escrevesses uma carta, um breve
relato de tudo o que viste nos Campos de Marte; como se eu estivesse ausente de Roma há cinco anos e tu me
mandasses uma carta para o outro lado do mar, digamos para a minha cidade de Tarso. Isso ocuparia as tuas
mãos inquietas e seria bom para praticares.
Assim, pus-me a escrever alegremente sobre a cera e, seguidamente, lemos a carta, para corrigir os erros de
ortografia e de sintaxe. Fui forçado a admitir que relatara ao mesmo tempo coisas a mais e coisas a menos e
que pusera os factos pela ordem errada. A passagem que descrevia as lamentações das mães e das namoradas
dos jovens soldados, e como a multidão se precipitara para a cabeça da ponte para dirigir uma saudação final
à coluna que partia, devia ter aparecido em último lugar, não em primeiro. E não precisava ter mencionado
que a cavalaria tinha cavalos: as pessoas partiam do princípio que sim. E tinha mencionado duas vezes o
incidente em que o cavalo de Augusto tropeçava: uma vez era o bastante, se o cavalo só tinha tropeçado uma
vez. E o que Póstumo me contara, quando íamos a caminho de casa, sobre as práticas religiosas dos judeus,
era interessante mas não tinha cabimento ali, porque os recrutas eram italianos e não judeus. Além disso, em
Tarso, ele teria provavelmente mais oportunidades de estudar os costumes judeus do que Póstumo tinha em
Roma. Por outro lado, eu não mencionara várias coisas que ele estaria interessado em saber - quantos recrutas
havia na parada, até que ponto estavam adiantados no seu treino militar, para que cidade estavam a ser
enviados, se pareciam satisfeitos ou desgostosos por irem, o que Augusto lhes dissera no seu discurso.
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Três dias mais tarde, Atenodoro fez-me escrever uma descrição de uma rixa entre um marinheiro e
um negociante de roupas que tínhamos presenciado juntos naquele dia, quando caminhávamos no
mercado de roupa; e eu saí-me muito melhor. Ele aplicou primeiro esta disciplina à minha escrita,
depois à declamação e, finalmente, de uma maneira geral, às minhas conversas com ele. Trabalhava
incansavelmente comigo e, pouco a pouco, tornei-me menos distraído, pois ele nunca deixava
passar sem um comentário qualquer frase minha que fosse descuidada, irrelevante ou inexacta.
Ele tinha tentado interessar-me na filosofia especulativa, mas, quando viu que eu não tinha
inclinação para isso, não me forçou a exceder os limites habituais de uma boa educação sobre o
assunto. Foi ele o primeiro a despertar o meu interesse pela história. Possuia os primeiros vinte
volumes da história de Roma de Lívio, que me deu a ler como exemplo de uma escrita lúcida e
agradável. As histórias de Lívio encantavam-me e Atenodoro prometeu-me que, logo que eu tivesse
dominado a minha gaguez, me seria dado conhecer Lívio, que era seu amigo pessoal. E cumpriu o
prometido. Seis meses mais tarde, levou-me à biblioteca de Apolo e apresentou-me a um homem
encurvado e de barba, com cerca de sessenta anos, um rosto amarelado, olhar feliz e uma maneira
precisa de falar, que me saudou cordialmente como o filho de um homem que ele admirara tanto.
Lívio ia nessa altura ainda não exactamente a meio da sua história, que viria a ser completada em
cento e cinquenta volumes, indo dos mais recuados tempos lendários, até à morte do meu pai, havia
cerca de doze anos. Era nesta data que ele tinha começado a publicar a sua obra, ao ritmo de cinco
volumes por ano, tendo chegado agora à data em que Júlio César nascera. Lívio felicitou-me por ter
Atenodoro como preceptor. Atenodoro disse que eu o compensava bem do trabalho que tinha
comigo. Depois, transmiti a Lívio todo o prazer que sentia com a leitura dos seus livros, desde que
Atenodoro mos recomendara como modelo de escrita. Assim, toda a gente ficou satisfeita,
especialmente Lívio.
- O quê! Também vais ser historiador, meu caro jovem? - perguntou.
- Bem gostaria de ser merecedor desse nome honroso, - repliquei
- embora na verdade nunca tivesse considerado seriamente tal possibilidade. Depois, sugeriu que eu
escrevesse uma biografia do meu pai e ofereceu-se para me ajudar, pondo-me em contacto com as
fontes históricas mais confiáveis. Senti-me muito lisonjeado e decidido a começar o livro no dia
seguinte. Mas Lívio disse que a escrita era a última tarefa do historiador: primeiro, ele tinha que
reunir o seu material e aguçar a pena. Atenodoro emprestar-me-ia o seu pequeno canivete bem
afiado, gracejou.
Atenodoro era um ancião majestoso, com uns meigos olhos escuros, nariz aquilino e a barba mais
maravilhosa que alguma vez cresceu num queixo humano. Espalhava-se-lhe em ondas até à cintura
e era branca como as asas de um cisne. Havia alguns cisnes domesticados num lago artificial nos
Jardins de Salusto, onde Atenodoro e eu uma vez lhes atirámos
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pão de um barco; recordo-me de ter reparado que a barba dele e as asas daquelas aves, enquanto ele
se debruçava da amurada, eram exactamente da mesma cor. Atenodoro costumava cofiar a barba
lenta e ritmicamente enquanto falava; uma vez, disse-me que era isso que a fazia crescer tão
luxuriante. Disse que sementes de fogo invisíveis brotavam dos seus dedos e eram um alimento para
os cabelos. Esta era uma piada estóica típica, às custas da filosofia especulativa epicúrea.
Por falar na barba de Atenodoro, lembrei-me agora de Sulpício que, quando eu tinha treze anos, foi
escolhido por Lívia para meu preceptor especial de história. Sulpício tinha, penso eu, a barba mais
miserável que eu alguma vez vi: era branca, mas do branco da neve nas ruas de Roma, depois de um
degelo - de um cinzento encarniçado e muito irregular. Costumava enrolá-la nos dedos quando
estava preocupado e chegava mesmo a pôr as pontas na boca, que mascava. Lívia escolhera-o,
penso, porque o achava o homem mais aborrecido de Roma e esperava, tornando-o, meu preceptor,
desencorajar as minhas ambições históricas, pois não tardou a ouvir falar delas. Lívia tinha razão:
Sulpício era um génio em fazer as coisas mais interessantes parecerem totalmente insípidas e
mortas. Mas mesmo a falta de interesse de Sulpício não conseguiu desviar-me do meu trabalho e
havia nele uma vantagem: a de ter a memória mais excepcionalmente exacta para as datas. Se eu
alguma vez precisava da informação mais remota, como por exemplo as leis da sucessão à chefia
entre uma das tribos alpinas contra as quais o meu pai tinha lutado, ou o significado e etimologia do
seu estranho grito de batalha, Sulpício sabia qual a autoridade que tratara essas questões, em que
livro e qual a prateleira de que estante e em que sala de qual biblioteca se podiam encontrar. Não
tinha qualquer sentido crítico e escrevia pessimamente, com os factos a abafarem-se uns aos outros
como flores num viveiro que não foi desbastado. Mas mostrou-se um assistente valioso quando,
mais tarde, aprendi a usá-lo como tal, e não como preceptor; e assim trabalhou para mim até morrer,
com a idade de oitenta e sete anos, quase trinta anos depois, com uma memória que se manteve
intacta até ao fim e com uma barba tão desbotada, fraca e desarranjada como sempre.
1 estoicismo é uma corrente filosófica que remonta à Grécia antiga, cuja criação é normalmente
atribuída ao sofista Zenão. Caracteriza-se pela austeridade de comportamentos dos seus seguidores
e pela defesa do relativismo com que todas as coisas deverão ser encaradas. Por outro lado, esta
filosofia aconselha também a indiferença e o desprezo pelos males físicos e morais, procurando
aniquilar os nossos desejos e paixões, no sentido destes darem lugar à razão e à virtude. Em Roma,
o imperador-filósofo Marco Aurélio revelar-se ia como um dos mais acérrimos defensores do
estoicismo.
2 O epicurismo, introduzido no universo da filosofia por Epicuro, defende que o indivíduo deverá

guiar a sua vida pela procura do prazer, dando predominância ao de cariz intelectual ou moral.
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CAPíTULO VI
Tenho agora que recuar alguns anos para escrever sobre meu tio Tibério, cuja sorte não é de forma
alguma irrelevante para esta história. Ele encontrava-se numa posição infeliz, forçado contra sua
vontade a manter-se continuamente sob os olhares públicos, ora como
general nalguma campanha de fronteira, ora como Cônsul em 6 a.C. Roma ou comissário especial
nas províncias, quando tudo o que
ele queria era um descanso prolongado e privacidade. Honrarias públicas pouco significavam para
ele, quanto mais não fosse porque lhe eram concedidas, como ele uma vez se queixou a meu pai,
mais por ser o principal moço de recados de Augusto e Lívia, do que por actuar por direito próprio e
à sua própria responsabilidade. Além disso, com a dignidade da família imperial a manter e Lívia a
espiá-lo constantemente, tinha que tomar o maior cuidado com a sua moral privada. Tinha poucos
amigos, pois era, como creio que já disse, de temperamento desconfiado, ciumento, reservado e
melancólico; aos que eram mais interesseiros do que realmente amigos, tratava-os com o desprezo
cínico que mereciam. E, por fim, as coisas tinham ido de mal a pior entre ele e Júlia, desde que a
desposara havia cinco anos. Tinham tido um filho que morrera e, a parti daí, Tibério recusara-se a
voltar a dormir com ela; por três razões. A primeira era que Júlia estava agora a entrar na meia-
idade e a perder a figura esbelta - Tibério preferia mulheres imaturas, quanto mais arrapazadas
melhor, e Vipsânia era uma criaturinha minúscula. A segunda era que Júlia lhe fazia exigências
apaixonadas, às quais ele era incapaz de corresponder, ficando histérica quando ele a repelia. A
terceira foi que ele descobriu, depois de a ter repelido, que ela se vingava arranjando galanteadores
que lhe davam o que ele negava.
Infelizmente, ele não conseguiu arranjar provas das infidelidades de Júlia, aparte as declarações dos
escravos, pois ela fazia as coisas com todo o cuidado; e as declarações dos escravos não eram
suficientes para apresentar a Augusto como motivo para ele fazer o divórcio da sua única filha bem-
amada. Contudo, de preferência a falar no caso a Lívia, pois na realidade odiava-a tanto quanto
desconfiava dela, preferiu sofrer em silêncio. Ocorreu-lhe que, se conseguisse afastar-se de Roma e
de Júlia, era bem provável que ela baixasse as defesas e que Augusto viesse a descobrir
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por si próprio qual o comportamento dela. A sua única possibilidade de fuga seria que outra guerra
estalasse algures, numa das fronteiras que eram suficientemente importantes para que o mandassem
para lá como comandante de operações. Mas não havia sinais de guerra em qualquer dos quadrantes
e, além disso, ele estava farto de lutar. Sucedera ao meu pai no comando dos exércitos da Germânia
(júlia insistira em o acompanhar ao Reno) e havia agora alguns meses que estava de regresso a
Roma. Mas Augusto fizera-o trabalhar como um escravo desde o seu regresso, dando-lhe a tarefa,
difícil e desagradável, de investigar a administração das casas de trabalho e, de uma maneira geral,
as condições de trabalho nos bairros mais pobres de Roma. Um dia, num momento de
descontracção, dissera de repente para Lívia:
- Oh mãe, gostaria de estar livre, nem que fosse por alguns meses, desta vida intolerável.
Ela assustou-o, não lhe dando resposta e saindo da sala com ar altivo. Mais tarde, no mesmo dia,
chamou-o à sua presença e surpreendeu-o dizendo que decidira conceder-lhe o seu desejo e
conseguir-lhe uma licença temporária junto de Augusto. Ela tomou essa decisão, em parte porque
desejava criar-lhe uma dívida de gratidão para com ela e porque sabia agora dos casos amorosos de
Júlia, partilhando a mesma ideia de Tibério quanto a dar-lhe a corda com que se enforcaria a si
própria. Mas a sua razão principal era que os irmãos mais velhos de Póstumo, Caio e Lúcio,
estavam a crescer, e as relações entre eles e o padrasto Tibério eram tensas. Caio, que no fundo não
era mau tipo (tal como Lúcio também não o era), acabara por preencher, até certo ponto, o lugar que
Marcelo ocupara nas afeições de Augusto. Mas ele estragava-os a ambos de forma tão descarada,
apesar das advertências de Lívia, que era de admirar não se terem tornado piores do que eram.
Tinham o hábito de tratar com insolência os mais velhos, particularmente aqueles para com quem
sabiam que Augusto desejaria secretamente que se comportassem dessa forma, e viviam com
grande extravagância. Quando Lívia viu que era inútil tentar controlar o nepotismo de Augusto,
mudou de atitude e passou a encorajá-lo e a favorecê-los mais do que nunca. Ao fazê-lo e ao deixá-
los a eles saber que ela o fazia, esperava ganhar-lhes a confiança. Calculava também que, se a sua
presunção aumentasse um pouco mais, eles acabariam por perder a cabeça e tentar apoderar-se da
monarquia. O seu sistema de espionagem era excelente e ela não deixaria de ser informada de um
tal plano a tempo de os mandar prender. Encorajou Augusto a mandar eleger Caio para Cônsul
durante quatro anos, quando ele tinha apenas quinze (embora a idade mínima com que um homem
se podia tornar Cônsul tivesse sido fixada por Sula nos quarenta e três anos e, para além disso, com
a condição de ter anteriormente preenchido três cargos de magistratura diferentes e de importância
ascendente). Mais tarde, Lúcio recebeu a mesma honra.
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Lívia sugeriu também que Augusto os apresentasse ao Senado como Chefes dos Cadetes. O título
não lhes era concedido, como acontecera com Marcelo, apenas para uma ocasião específica, mas
deixava-os numa posição de permanente autoridade sobre todos os seus iguais em idade e posição.
Parecia agora perfeitamente claro que Augusto tencionava fazer de Caio seu sucessor; por isso, não
era de admirar que o mesmo tipo de jovens nobres que tinham alardeado as capacidades ainda não
experimentadas do jovem Marcelo contra a reputação ministerial e militar do veterano Agripa,
fizessem agora o mesmo pelo filho de Agripa, Caio, contra a reputação de veterano de Tibério, que
submetiam a muitas injúrias. Lívia tencionava que Tibério seguisse o exemplo de Agripa. Se ele se
retirasse agora, com tantas vitórias e honras públicas a seu favor, para qualquer ilha grega próxima e
deixasse a arena política livre para Caio e Lúcio, isto causaria melhor impressão e ganhar-lhe-ia de
longe maior simpatia popular do que se se deixasse ficar para a disputar (o paralelismo histórico
tornar-se-ia ainda mais próximo, se Caio e Lúcio morressem durante o afastamento de Tibério e se
Augusto sentisse de novo necessidade dos serviços dele). Assim, ela prometeu instar com Augusto
para que lhe concedesse permissão para se ausentar indefinidamente de Roma e demitir-se de todos
os seus cargos oficiais, mas dando-lhe o cargo honorífico de Protector do Povo - que o garantiria
contra a eventualidade de vir a ser assassinado por Caio, caso este viesse a pensar em se
desembaraçar dele.
Lívia teve grande dificuldade em manter a sua promessa, pois Tibério era o mais útil e experiente
dos ministros de Augusto, bem como o seu general com maior sucesso; durante muito tempo,
Augusto recusou-se a tomar o pedido a sério. Mas Tibério invocou Problemas de saúde e insistiu
em que a sua ausência pouparia a Caio e a Lúcio grande constrangimento, admitindo que não se
dava muito bem com eles. Mesmo assim, Augusto não lhe deu ouvidos. Caio e Lúcio não passavam
de dois rapazes, ainda totalmente inexperientes na guerra ou nos assuntos de estado, e não lhe
serviriam de nada se surgisse algum problema sério na cidade, nas províncias ou na fronteira.
Compreendia, talvez pela primeira vez, que Tibério era agora o seu único apoio numa emergência
desse tipo. Mas irritava-o que essa compreensão tivesse sido forçada. Recusou o pedido de Tibério
e disse que não ia escutar quaisquer argumentos. Portanto, como não havia nada a fazer, Tibério foi
ter com Júlia e disse-lhe com uma brutalidade estudada que o seu casamento se tinha tornado uma
farsa tal que já não conseguia ficar na mesma casa com ela um dia mais que fosse. Sugeria-lhe que
fosse procurar Augusto e se queixasse de ter sido maltratada pelo seu rufião de marido e que não se
sentiria feliz enquanto não tivesse o divórcio. Augusto, disse ele, era pouco provável, por razões
familiares, que concedesse o divórcio, mas, provavelmente, bani-lo-ia de
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Roma. Estava preparado até para suportar o exílio, de preferência a continuar a viver com ela.
Júlia decidiu esquecer que alguma vez tivesse amado Tibério. Sofrera muito com ele. Tibério não só
a tratava com o maior desprezo sempre que estavam a sós, como começara ultimamente a
experimentar cautelosamente essas práticas ridiculamente imundas que mais tarde tornaram o seu
nome tão detestável a todas as pessoas decentes; e ela já descobrira isso. Assim, tomou-o à letra e
queixou-se a Augusto em termos bem mais violentos do que Tibério (que era suficientemente
vaidoso para acreditar que, apesar de tudo, ela ainda o amava) poderia ter imaginado. Augusto
sempre tivera grande dificuldade em esconder a sua antipatia por Tibério como Genro - o que, como
é evidente, encorajara a facção de Caio - e agora caminhava furioso de um lado para o outro no seu
gabinete, chamando a Tibério todos os nomes que lhe vinham à cabeça. Mesmo assim, ainda
recordou a Júlia que só se podia queixar de si própria pela decepção sofrida com um marido sobre
cujo carácter ele nunca deixara de a prevenir. E, por muito que a amasse e sentisse pena dela, não
podia dissolver o casamento. Era impensável que a filha e o enteado se separassem depois de uma
união à qual tinha sido dada tanta importância política e, estava certo, Lívia veria a questão da
mesma forma que ele. Assim, Júlia suplicou que Tibério fosse enviado para qualquer lugar durante
um ano ou dois, porque de momento ela não podia suportar a sua presença a menos de cem milhas
dela. Ele acabou por concordar com isto e, alguns dias mais tarde, ia a caminho da ilha de Rodes,
que ele próprio escolhera, muito antes disto, como o sítio ideal para se retirar. Mas Augusto, embora
lhe concedesse o posto de Protector, sob a insistência premente de Lívia, deixou bem claro que não
sentiria qualquer desgosto se nunca mais o visse na sua frente.
Ninguém, a não ser os principais implicados neste curioso drama, sabiam a razão por que Tibério
estava deixando Roma e Lívia usou a má vontade de Augusto em discutir o assunto publicamente a
favor de Tibério. Disse às suas amigas, em confidência, que Tibério tinha decidido retirar-se como
protesto contra o comportamento escandaloso do partido de Caio e Lúcio. Disse também que
Augusto tinha mostrado uma enorme compreensão para com ele e que, de início, recusara a sua
demissão, prometendo silenciar os ofensores; Tibério insistira então que não desejava criar maior
desentendimento entre ele próprio e os filhos da mulher, e demonstrara firmeza do seu propósito,
ficando sem comer durante quatro dias. Lívia manteve a farsa acompanhando Tibério ao seu navio
em óstia, o porto de Roma, e suplicando-lhe, em nome de Augusto e no seu próprio, que
reconsiderasse aquela decisão. Fez também com que todos os membros da sua família mais chegada
- o filho mais novo de Tibério, Castor, a minha mãe, Germânico, Livila e eu próprio - fôssemos com
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ela e tornássemos a ocasião mais comovente, juntando às dela as nossas súplicas. Júlia não
apareceu e a sua ausência encaixava bem na impressão que Lívia estava a tentar criar - que ela
tomara o partido dos filhos contra o marido. Foi uma cena ridícula mas bem encenada. A minha
mãe fez bem a sua parte e as três crianças, que tinham sido cuidadosamente ensinadas,
representaram realmente os seus papéis como se os sentissem. Eu fiquei estupefacto e mudo até que
Livila me deu um beliscão que me fez largar a chorar, saindo-me assim ainda melhor do que eles.
Tinha eu quatro anos de idade quando tudo isto aconteceu, mas já tinha feito doze, antes de Augusto
ter sido forçado, apesar de relutante, a chamar meu tio de regresso a Roma, pois a situação política
tinha-se alterado profundamente. Mas Júlia merece muito mais simpatia do que aquele que
conquistou junto do público, Estou convencido de que era, naturalmente, uma mulher decente e de
bom coração, ainda que amante dos prazeres e da excitação e a única entre as minhas parentes
femininas que tinha uma palavra bondosa para me dizer. Também estava convencido de que não
havia fundamento para as acusações feitas contra ela muitos anos mais tarde, de infidelidade para
com Agripa, quando estava casada com ele. Sem dúvida, todos os seus filhos se pareciam muito
com ele. A verdadeira história é como se segue. Na sua viuvez, como relatei, apaixonou-se por
Tibério e persuadiu Augusto a deixá-la casar com ele. Tibério, furioso por ter que se divorciar da
mulher por causa dela, tratou-a com grande frieza. Ela foi então suficientemente imprudente para ir
falar com Lívia, a quem receava mas em quem confiava, pedindo-lhe conselho. Lívia deu-lhe um
filtro de amor, que ela devia beber, dizendo que, no espaço de um ano, isso a tornaria irresistível
para o marido, mas que teria que o tomar uma vez por mês, com a lua cheia e fazer certas orações a
Vénus, sem dizer nada a esse respeito a quem quer que fosse; senão, a droga perdia o efeito e faria
muito mal. O que Lívia lhe deu, com toda a crueldade, foi uma destilação dos corpos esmagados de
umas certas pequenas moscas verdes vindas da Hispânia, que lhe estimulavam de tal forma o apetite
sexual que ela se tornou como que demente (explicarei mais adiante como vim a saber de tudo isto).
Na realidade, durante algum tempo, ela conseguiu incendiar o apetite de Tibério com o abandono
lascivo que a droga lhe provocou, ao contrário da sua modéstia natural; mas em breve o cansou e
ele recusou-se a continuar a ter relações com ela. Assim, foi obrigada, sob o efeito da droga, que
suponho se tenha tornado num hábito para ela, a satisfazer os seus desejos sexuais através de
ligações adúlteras com qualquer cortesão em quem pudesse confiar para se comportar com
discrição. Quero dizer que procedeu assim em Roma, na Germânia e em França, seduzindo
soldados rasos da guarda pessoal de Tibério e mesmo escravos germanos, ameaçando, se eles
hesitavam, acusá-los de lhe oferecerem
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familiaridades e mandá-los chicotear até à morte. Como ela ainda era uma mulher bonita, eles, ao
que parecia, não hesitavam muito.
Depois do afastamento de Tibério, Júlia tornou-se descuidada e toda Roma não tardou a saber das
suas infidelidades. Lívia nunca disse uma palavra a Augusto, confiante que, a seu tempo, ele viria a
saber por qualquer outra fonte. Mas o amor cego de Augusto por Júlia era proverbial e ninguém
ousava dizer-lhe nada. Passado algum tempo, era do consenso geral que ele não podia continuar na
ignorância e que o seu perdão tácito perante o comportamento dela era mais uma advertência a
favor do silêncio. As orgias nocturnas de Júlia na Praça do Mercado e na própria Plataforma de
Oratória tinham-se tornado causa de um grave escândalo público. No entanto, passaram-se quatro
anos antes que um leve rumor chegasse aos ouvidos de Augusto. Depois, viria a ouvir a história
completa, justamente pela boca dos filhos, Caio e Lúcio, que se apresentaram juntos diante dele e
lhe perguntaram com irritação durante quanto tempo ia permitir que ele próprio e os seus netos
fossem envergonhados. Compreendiam, disseram, que a preocupação com o bom-nome da família o
tivesse tornado muito paciente em relação à mãe, mas certamente havia um limite para aquele
sofrimento prolongado. Seria que deviam esperar até que ela os presenteasse com uma ninhada de
irmãos bastardos, filhos de diversos pais, antes que tomasse conhecimento oficial das proezas dela?
Augusto escutou-os com horror e espanto, e durante um bom bocado, não conseguiu fazer outra
coisa senão ficar de boca aberta e mexer os lábios. Quando conseguiu recuperar a voz, foi para
chamar por Lívia, num tom meio estrangulado. Eles repetiram a história na presença da mãe e ela
fingiu soluçar, dizendo que aqueles três anos em que Augusto deliberadamente fechara os ouvidos à
verdade tinham sido o seu maior desgosto. Por várias vezes, disse, arranjara coragem para falar com
ele, mas tinha-se-lhe tornado evidente que ele não queria escutar uma palavra do que ela tinha para
dizer.
- Estava confiante de que sabíeis tudo sobre o assunto, mas que era uma questão demasiado
dolorosa para que a pudésseis discutir mesmo comigo.
Augusto, chorando, com a cabeça entre as mãos, murmurava que nunca tinha ouvido o mais ligeiro
rumor ou alimentado a mais leve suspeita de que a filha não fosse a mulher mais casta de Roma.
Lívia perguntou-lhe então porque achava que o filho Tibério tinha ido para o exílio. Por amor ao
exílio? Não; era por não ter conseguido controlar os excessos da mulher, sentindo-se ao mesmo
tempo magoado por Augusto os acobertar, pois era isso que pensava; e, como não desejava entrar
em conflito com Caio e Lúcio, os filhos dela, pedindo a Augusto permissão para se divorciar, não
lhe restava outra solução a não ser desaparecer de cena com toda a decência.
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A conversa relativamente a Tibério não teve qualquer efeito em Augusto, que lançou uma das
dobras da túnica sobre a cabeça e saíu a tatear em direcção à passagem que levava ao seu quarto,
onde se fechou; não foi visto por ninguém, nem mesmo por Lívia, durante quatro dias, no decorrer
dos quais não comeu nem bebeu nada, não dormiu e, o que seria uma prova ainda mais forte - caso
ela fosse necessária - da violência do seu desgosto, ficou todo esse tempo sem se barbear.
Finalmente, puxou o fio que atravessava um orifício na parede e fez soar uma pequena campainha
de prata no quarto de Lívia. Lívia apareceu a correr, com um ar de preocupação amorosa e Augusto,
ainda não muito seguro da própria voz, escreveu numa tabuinha de argila uma só frase em grego:
”Que ela seja banida para sempre, mas digam-me para onde.” Entregou a Lívia o seu anel de sinete,
para ela poder escrever cartas ao Senado em seu nome, recomendando a expulsão (a propósito, este
sinete era a grande esmeralda talhada com a cabeça de Alexandre o Grande, de elmo, de cujo
túmulo tinha sido roubada, juntamente com uma espada, um peitoral e outros ornamentos pessoais
do herói. Lívia insistiu em que ele a usasse, apesar dos seus escrúpulos - ele tinha a noção do que
isso tinha de presunçoso -, até que uma noite teve um sonho no qual Alexandre, com uma expressão
zangada, cortou com a sua espada o dedo que a usava. Nessa altura, Augusto mandou fazer o seu
próprio sinete, um rubi da índia, cortado pelo famoso ourives Dioscurides; desde aí, todos os seus
sucessores o têm usado, como sinal de soberania).
Lívia escreveu a recomendação de exílio em termos muito fortes. Foi composta no estilo literário de
Augusto, que era fácil de imitar, porque sacrificava sempre a elegância à clareza - por exemplo,
através da repetição voluntária da mesma palavra, quando ela ocorria várias vezes numa dada
passagem, em vez de procurar um sinónimo ou uma paráfrase (o que é a prática literária corrente).
Tinha também uma tendência para exagerar o uso de preposições. Lívia não mostrou a carta a
Augusto e enviou-a directamente para o Senado, que votou de imediato um decreto de exílio
perpétuo. Ela fizera uma lista dos crimes de Júlia de tal forma detalhada e atribuíra a Augusto
expressões de repúdio de tal forma calmas que lhe tornava impossível vir a mudar de opinião e
pedir ao Senado que cancelasse a decisão. Fez ainda um bom trabalho por acréscimo, escolhendo
para uma referência especial como parceiros de Júlia nos seus actos de adultério três ou quatro
homens que estava interessada em destruir. Entre eles, encontrava-se um tio meu, lulo, filho de
António, a quem Augusto mostrara grande benevolência por causa de Octávia, fazendo-o ascender
ao Consulado. Lívia, ao nomeá-lo na sua carta para o Senado, acentuou fortemente a ingratidão que
mostrara para com o seu benfeitor e sugeriu que ele e Júlia estariam a conspirar em conjunto para
lançar mão do poder supremo. lulo suicidou-se. Creio que a acusação de conspirador não tinha
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fundamento mas, como único filho vivo de António, por parte da mulher Fúlvia - Augusto mandara
matar Antilo, o mais velho, logo após o suicídio do pai, os outros dois, Ptolomeu e Alexandre,
filhos de Cleópatra, tinham morrido novos - e, como ex-Cônsul e marido da irmã de Marcelo, de
quem Agripa se divorciara, ele parecia perigoso. O descontentamento popular em relação a Augusto
exprimia-se muitas vezes por um desejo de que tivesse sido António a ganhar a batalha de Áccío.
Os outros homens que Lívia acusou de adultério foram banidos.
Uma semana depois, Augusto perguntou a Lívia se um certo decreto tinha sido devidamente
promulgado - pois nunca mais voltou a pronunciar o nome de Júlia e raramente se referia a ela,
mesmo indirectamente, embora fosse evidente que a tinha bem presente nos seus pensamentos.
Lívia disse-lhe que uma certa pessoa tinha sido sentenciada à reclusão perpétua numa ilha e que ia a
caminho. Perante isto, ele pareceu ficar ainda mais abatido por Júlia não ter tomado a única atitude
honrosa que ainda lhe restava: designadamente, pôr fim à própria vida. Lívia mencionou que
Phoebe, aia de Júlia e sua principal confidente, se enforcara logo que o decreto do exílio tinha sido
publicado. Augusto disse:
- Prouvera a Deus que eu fosse o pai de Phoebe.
Retardou a sua aparição em público por mais quinze dias; recordo-me bem desse mês horrível. Nós,
as crianças, fomos obrigadas, por ordem de Lívia, a usar luto, não nos sendo permitido brincar,
fazer qualquer ruído ou mesmo sorrir. Quando voltámos a ver Augusto, ele parecia dez anos mais
velho; passaram-se meses antes que ele tivesse coragem para visitar o recreio no Colégio dos
Rapazes ou mesmo retomar o seu exercício matinal diário, que consistia num passeio em passo vivo
à volta dos terrenos do palácio, com uma corrida final sobre alguns obstáculos baixos.
Tibério soube de imediato por Lívia a notícia relativa a Júlia. Instado por ela, escreveu duas ou três
cartas a Augusto, suplicando-lhe que perdoasse a Júlia, como ele próprio perdoava e dizendo que,
por pior que ela se tivesse portado como esposa, desejava que ela guardasse todas as propriedades
que alguma vez transferira para ela. Augusto não respondeu. Estava firmemente convencido de que
a frieza inicial de Tibério e a sua crueldade para com Júlia, além dos exemplos de imoralidade que
lhe dera, eram responsáveis pela sua degradação moral. Longe de o chamar de regresso a Roma,
recusou-se mesmo a renovar o seu Protectorado, quando este chegou ao fim no ano seguinte.
Há uma balada de marcha de soldados chamada Os Três Desgostos de Augusto, composta no estilo
tragicómico primitivo de acampamento e que foi cantada muitos anos mais tarde pelos regimentos
estacionados na Germânia. O tema afirma que Augusto sofreu primeiro por causa de Marcelo,
depois por causa de Júlia e uma terceira vez por causa das Águias perdidas de Varo. Sofreu
profundamente com a morte de Marcelo, mais
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profundamente com a desgraça de Júlia, mas mais profundamente ainda por causa das Águias,
porque, com cada uma das Águias, tinha desaparecido um regimento inteiro dos homens mais
valorosos de Roma. A balada lamenta em alguns versos o malogrado destino do Décimo Sétimo,
Décimo Oitavo e Décimo Nono Regimentos que, quando eu tinha dezanove anos, foram vítimas de
uma emboscada e massacrados pelos germanos numa floresta pantanosa distante; conta como,
depois das notícias deste desastre sem igual lhe terem chegado, Augusto não parava de bater com a
cabeça na parede:
O Grande Augusto não parava de gritar Enquanto partia a própria cabeça,
Varo, Varo, General Varo,
Dá-me de volta as minhas três dguias!
O Grande Augusto rasgou as roupas da cama, Cobertores, lençol e colcha,
Varo, Varo, general Varo,
Dá-me de volta os meus Regimentos!
Os versos seguintes dizem que, após esse incidente, ele nunca mais formou novos regimentos com
os números dos três que tinham sido destruídos, mantendo-os em aberto na Lista do Exército. É
obrigado a jurar que a vida de Marcelo e a honra de Júlia nada tinham sido para ele em comparação
com a vida e a honra dos seus soldados, e que o seu espírito ”não teria mais descanso que uma
pulga numa fogueira”, até as três Aguias serem recuperadas e postas em segurança no Capitólio.
Mas, embora depois disso os germanos tenham sido batidos uma vez e outra em batalha, ninguém
tinha conseguido descobrir onde as Águias perdidas tinham feito o ninho - os cobardes mantinham-
nas bem escondidas. Foi desta maneira que os soldados desvalorizaram o sofrimento de Augusto
por Júlia; mas, na minha opinião, por cada hora que ele sofreu pelas Águias, deve ter sofrido um
mês inteiro por ela.
Não quis saber para onde a tinham mandado, porque isso teria significado que o seu espírito estaria
continuamente a voltar-se para lá e ele mal conseguiria controlar-se para não apanhar um barco e ir
visitá-la. Por isso, foi fácil para Lívia tratar Júlia da forma mais vingativa. Não lhe era permitido o
acesso a vinho, cosméticos, roupas elegantes ou qualquer espécie de luxos e a sua guarda era
composta por eunucos e homens muito idosos. Não tinha autorização de receber visitas e era mesmo
obrigada a trabalhar diariamente numa roca de fiar, como nos seus tempos de escola. A ilha ficava
em frente da costa da Campânia. Era muito pequena e Lívia aumentava-lhe deliberadamente o
sofrimento, mantendo lá os mesmos
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guardas ano após ano sem serem rendidos e eles, naturalmente, culpavam-na a ela pelo seu exílio
naquele lugar apertado e insalubre. A única pessoa que se sai bem desta história desagradável é a
mãe de Júlia, Escribónia, de quem, estarão recordados, Augusto se divorciara para poder casar com
Lívia. Agora uma mulher já idosa, que tinha vivido retirada por vários anos, apresentou-se
ousadamente diante de Augusto e pediu permissão para partilhar o exílio da filha. Disse-lhe na
presença de Lívia que a filha lhe tinha sido roubada logo que nasceu, mas que ela sempre a adorara
à distância e, agora que o mundo inteiro estava contra a sua querida filha, desejava mostrar o que
era o verdadeiro amor de mãe. Na sua opinião, a pobrezita não tinha culpa de nada: tinham-lhe
tornado as coisas muito difíceis. Lívia riu-se com desprezo, mas deve ter-se sentido bastante
desconfortável. Augusto, controlando a própria emoção, assinou em como o pedido estava
concedido.
Cinco anos mais tarde, no dia do aniversário de Júlia, Augusto perguntou repentinamente a Lívia:
- De que tamanho é a ilha?
- Qual ilha? - inquiriu Lívia.
- A ilha... onde está vivendo uma infeliz.
- Oh, chega-se de uma ponta à outra em poucos minutos, creio,
- disse Lívia com uma indiferença afectada.
- Alguns minutos! Estás a brincar? - Imaginara-a no exílio numa ilha grande, como Chipre, Lesbos
ou Corfu. Passado um bocado, perguntou: - Como é que se chama?
- Chama-se Pandatária!
- O quê? Oh, Deuses, esse lugar desolado? Oh, crueldade! Cinco anos em Pandatária!
Lívia olhou-o com severidade e disse:
- Suponho que a queirais de volta a Roma?
Augusto pôs-se então a estudar o mapa de Itália, gravado numa fina folha de ouro com pequenas
jóias cravadas a marcarem as cidades, que estava suspenso na parede do quarto onde se
encontravam. Ele foi incapaz de falar, mas apontou para Reggio, uma agradável cidade grega no
estreito de Messina.
Assim Júlia foi enviada para Reggio, onde lhe foi concedido um pouco mais de liberdade, sendo-lhe
mesmo permitido receber visitas - mas qualquer visitante tinha que solicitar primeiro a permissão de
Lívia. Tinha que explicar a razão porque queria avistar-se com Júlia e preencher um passaporte
detalhado para Lívia assinar, indicando a cor do cabelo e dos olhos e enumerando os sinais e marcas
particulares, para que só ele o pudesse usar. Poucos estavam interessados em se submeter a esses
preliminares. A filha de Júlia, Agripina, pediu autorização para ir, mas Lívia recusou, por uma
questão de consideração, disse ela, pela moral de
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Agripina. Júlia continuava sob uma disciplina severa e não tinha nenhuma pessoa amiga a viver
com ela, uma vez que a mãe morrera de febre na ilha.
Uma ou duas vezes, quando Augusto caminhava pelas ruas de Roma, ouviram-se gritos dos
cidadãos: ”Traz a tua filha de volta! Ela já sofreu bastante! Traz a tua filha de volta!” Isso era muito
doloroso para Augusto. Um dia, mandou a sua guarda policial apanhar no meio da multidão dois
homens que gritavam estas palavras a plenos pulmões e disse-lhes, com o seu ar mais grave, que
Júpiter certamente puniria a sua loucura, fazendo com que fossem enganados e desgraçados pelas
suas mulheres e filhas. Estas demonstrações não tinham tanto a ver com um sentimento de piedade
por Júlia, como de hostilidade por Lívia, a quem todos, com justiça, culpavam pela severidade do
exílio de Júlia e por ter mexido de tal forma com o orgulho de Augusto, que ele não se podia
permitir um sentimento de piedade.
Quanto a Tibério, na sua ilha confortavelmente espaçosa, sentiu-se bem durante um ano ou dois. O
clima era excelente, a comida era boa e tinha bastante tempo livre para retomar os seus estudos
literários. O seu estilo de prosa grega não era de todo mau e escreveu vários poemas elegíacos
gregos, elegantes e tolos, imitando poetas como Euphorion e Parténio. Tenho um livro deles
algures. Tibério passava uma boa parte do seu tempo a discutir com os professores na universidade.
O estudo da mitologia clássica divertia-o e fez uma enorme carta genealógica, em forma circular,
com os braços irradiando do nosso mais antigo antepassado Caos, o pai do Pai Tempo, e
espalhando-se num perímetro confuso, densamente povoado de ninfas, reis e heróis. Ele costumava
deleitar-se a confundir os peritos em mitologia, enquanto construía a sua carta, fazendo-lhes
perguntas como: ”Qual era o nome da avó materna de Heitor?” e ”A Quimera teve alguma
descendência masculina?”: depois, desafiava-os a recitarem o verso dos poetas antigos que
confirmava a sua resposta. Foi, a propósito, pensando nesta tabela, agora em meu poder, que muitos
anos mais tarde o meu sobrinho Calígula disse a sua famosa piada contra Augusto: ”Ah, sim, ele era
meu tio-avô. Tinha precisamente a mesma relação para comigo que o Cão Cerebero tinha com
Apolo.” De facto, agora que penso nisso, Calígula cometeu um erro aqui, não foi? O tio-avô de
Apolo era certamente o monstro Tifon que, segundo algumas autoridades, era o pai e, segundo
outras, o avô de Cerebero. Mas a única árvore genealógica dos Deuses é tão confusa e cheia de
ligações incestuosas - filho com mãe, irmão com irmã -, que é possível que Calígula tivesse
conseguido provar o seu caso.
Como Protector do Povo, Tibério era tido com muito respeito pelos habitantes de Rodes; e os
funcionários provinciais que partiam para ocupar os seus postos no Leste ou que regressavam de lá,
faziam sempre
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questão de se desviarem da sua rota para lhe apresentar os seus respeitos. Mas ele insistia em que
não passava de um mero cidadão privado e protestava contra as honras públicas que lhe dirigiam.
Em geral, dispensava a sua escolta oficial de criados. Só uma vez exerceu os poderes judiciais
inerentes ao seu Protectorado: prendeu e condenou sumariamente a um mês de prisão um jovem
grego que, num debate gramatical ao qual ele presidia, tentou desafiar a sua autoridade para o
cargo. Mantinha-se em boa forma montando a cavalo e tomando parte nos desportos no ginásio, e
estava ao corrente do que se passava em Roma - recebia mensalmente boletins informativos de
Lívia. Além da sua casa na capital da ilha, possuía uma pequenavilla a uma certa distância,
construída num alto promontório com vista para o mar. Havia um caminho secreto que subia o
rochedo até à casa, pelo qual um liberto da sua confiança, um homem com grande força física,
conduzia as figuras menos respeitáveis - prostitutas, adivinhos e mágicos -, com quem costumava
passar os serões. Diz-se que muitas vezes essas criaturas, se acaso tinham desagradado a Tibério, de
alguma forma escorregavam no caminho da volta e caíam no mar, muitos metros mais abaixo.
Já referi que Augusto se recusou a renovar o Protectorado de Tibério quando expiraram os cinco
anos. É fácil imaginar que isto o colocou numa posição muito ingrata em Rodes, onde a sua pessoa
era muito impopular: os rodienses, ao vê-lo destituído da sua escolta de criados, dos poderes
magisteriais e da inviolabilidade da sua pessoa, começaram a tratá-lo primeiro com familiaridade,
depois com insolência. Por exemplo, um famoso professor de filosofia grego a quem solicitou
permissão para assistir às suas aulas, disse-lhe que não tinha vagas, mas que podia voltar daí a uma
semana para ver se já havia alguma. Depois, vieram notícias de Lívia, informando que Caio tinha
sido enviado para o Leste como Governador da Ásia Menor. Mas, embora não se encontrasse longe,
em Quios, Caio não fez a Tibério a visita esperada. Tibério soube por um amigo que Caio
acreditava nos falsos relatos que circulavam em Roma, que ele e Lívia estavam a planear uma
revolta militar e que um membro da comitiva de Caio se tinha mesmo oferecido, num banquete
público em que toda a gente estava um bocado bebida, para tomar um barco até Rodes e trazer a
cabeça do Exilado. Caio dissera ao indivíduo que não tinha medo do Exilado. Ele que conservasse a
cabeça inútil em cima dos ombros inúteis. Tibério engoliu o seu orgulho e, uma vez, tomou o barco
para Quios, para fazer as pazes com o enteado, a quem tratou com uma humildade que foi muito
comentada. Tibério, o romano vivo mais distinto depois de Augusto, a adular um rapaz, ainda na
adolescência, e filho da sua própria mulher caída em desgraça! Caio recebeu-o com frieza, mas
ficou muito lisonjeado. Tibério pedíu-lhe que não tivesse receios, pois os rumores que tinham
chegado até ele eram tão infundados quanto
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maliciosos. Disse que não tencionava retomar a carreira política que interrompera por consideração
para com o próprio Caio e seu irmão Lúcio; tudo o que queria agora era que lhe fosse permitido
passar o resto da sua vida na paz e privacidade que aprendera a valorizar acima de todas as
honrarias públicas.
Caio, lisonjeado com a possibilidade de ser magnânimo, encarregou-se de mandar uma carta para
Roma, pedindo a permissão de Augusto para o regresso de Tibério, carta que ele endossou com a
sua própria recomendação pessoal. Nesta carta, Tibério dizia que deixara Roma apenas para não
embaraçar os jovens príncipes, seus enteados, mas que agora, como eles tinham crescido e estavam
firmemente estabelecidos, os obstáculos para que ele vivesse tranquilamente em Roma já não
existiam; acrescentou que estava cansado de Rodes e ansiava por voltar a ver os seus amigos e
parentes. Caio enviou a carta com o endosso prometido. Augusto respondeu, a Caio e não a Tibério,
que Tibério se tinha afastado, apesar das súplicas veementes dos seus amigos e parentes, quando o
Estado mais precisava dele; não podia agora criar as condições para o seu próprio regresso. O
conteúdo desta carta tornou-se do conhecimento público e a ansiedade de Tibério aumentou. Ouvira
dizer que o povo de Nímes, em França, tinha derrubado as estátuas ali erigidas em memória das
suas vitórias e que Lúcio também recebera agora informações falsas contra ele, que estava inclinado
a acreditar, Retirou-se da cidade e passou a viver numa pequena casa numa parte remota da ilha,
visitando apenas ocasionalmente a villa do promontório. Deixou de se preocupar com a sua
condição física e mesmo com o seu aspecto pessoal; raramente se barbeava e andava de um lado
para o outro em camisa de dormir e pantufas. Finalmente, escreveu uma carta particular a Lívia,
explicando-lhe a situação perigosa em que se encontrava. Comprometia-se, se ela conseguisse
arranjar-lhe autorização para voltar, a ser guiado unicamente por ela em todas as situações,
enquanto os dois vivessem. Disse que se dirigia a ela não tanto como sua mãe dedicada, mas como
verdadeira, embora até então não reconhecida, timoneira do Barco do Estado.
Isto era precisamente o que Lívia desejava; abstivera-se propositadamente até ali de persuadir
Augusto a fazer regressar Tibério. Pretendia que este ficasse tão cansado da inacção e dos insultos
públicos, como o estava anteriormente da acção e das honras públicas. Ela respondeu-lhe com uma
mensagem breve, dizendo que tinha a carta em segurança
e que o assunto se resolveria sem dificuldade. Alguns meses mais tarde, Lúcio morreu
misteriosamente em Marselha, quando se dirigia para a Híspânia. Enquanto Augusto estava ainda
sob o efeito do choque, Lívia começou a trabalhar-lhe os sentimentos, dizendo quanto tinha sentido
durante todos aqueles anos a falta do apoio do seu querido filho Tibério, por cujo regresso não
ousara até ali suplicar. Ele sem dúvida
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procedera mal, mas certamente já aprendera a sua lição e, de todas as cartas pessoais que ele lhe
escrevia, transpirava a maior devoção e lealdade para com Augusto. Gaio, que endossara a petição
pelo seu regresso, insistiu, iria precisar, agora que o irmão estava morto, de um colega em quem
pudesse confiar.
Uma noite, um adivinho chamado Trasilo, árabe de nascimento, visitou Tibério na sua casa do
promontório. já aí tinha estado duas ou três vezes antes e fizera algumas previsões muito
encorajadoras, mas nenhuma delas se tinha ainda realizado. Tibério, que começava a ficar céptico,
disse ao seu liberto que, se Trasilo não o satisfizesse inteiramente desta vez, iria perder o equilíbrio
ao descer a escarpa no caminho de volta. Quando Trasilo chegou, a primeira coisa que Tibério disse
foi:
- Qual o aspecto das minhas estrelas hoje?
Trasilo sentou-se e fez cálculos astrológicos muito complicados com um pedaço de carvão sobre
uma mesa de pedra. Finalmente, declarou:
- Estão numa conjuntura invulgarmente favorável. A difícil crise da tua vida está agora finalmente a
chegar ao fim. A partir daqui, não gozarás senão de boa sorte.
- Excelente, - disse Tibério com secura. - E agora vejamos a tua. Trasilo fez mais uma série de
cálculos e, depois, levantou os olhos, acometido de um terror verdadeiro ou fingido.
- Céus! - exclamou.
- Ameaça-me um perigo terrível, vindo do ar e das águas.
- Alguma probabilidade de o evitar? - perguntou Tibério.
- Não sei dizê-lo. Se conseguir sobreviver nas próximas doze horas, a minha sorte será, à sua
medida, tão feliz como a vossa; mas quase todos os planetas maléficos estão em conjunção contra
mim e o perigo parece realmente inevitável. Só Vénus me pode salvar.
- O que foi que acabaste de dizer acerca dela? Esqueci-me.
- Que ela está a entrar em Escorpião, que é o teu signo, pressagiando uma mudança
maravilhosamente propícia nos teus destinos. Deixa-me tentar mais uma dedução deste
importantíssimo movimento: em breve entrarás na casa Juliana que, não preciso de to recordar,
descende directamente de Vénus, a mãe de Eneias. Tibério, o meu humilde destino está
curiosamente ligado ao teu destino ilustre. Se te chegarem boas notícias antes do amanhecer, é sinal
de que eu tenho quase tantos anos de felicidade diante de mim como tu próprio.
Estavam sentados na varanda e, de repente, uma carriça ou outra pequena ave parecida saltou para o
joelho de Trasilo e, inclinando a cabeça para um lado, pôs-se a pipilar para ele. Trasilo disse para a
ave:
- Obrigado irmã! Foi mesmo a tempo. - Depois, voltou-se para Tibério, - O céu seja louvado! O
pássaro disse que aquele navio traz boas notícias para ti e eu estou salvo. O perigo foi evitado.
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Tibério levantou-se de um salto e abraçou Trasilo, confessando quais eram as suas intenções. E,
claro, o navio trazia despachos imperiais de Augusto, informando Tibério da morte de Lúcio e
dizendo que, dadas as circunstâncias, lhe era graciosamente permitido que regressasse a Roma,
embora de momento apenas como cidadão privado.
Quanto a Caio, Augusto teve o maior cuidado em garantir que não lhe fosse atribuída nenhuma
tarefa para a qual não tivesse aptidão e que o Leste se mantivesse tranquilo enquanto ele fosse
governador. Infelizmente, o Rei da Arménia revoltou-se e o rei de Pártia ameaçou unir as suas
forças às dele, o que deixou Augusto num dilema. Embora Caio se tivesse mostrado um governador
competente em tempos de paz, Augusto não o julgava capaz de conduzir uma guerra como aquela; e
ele próprio estava demasiado velho para ir combater, além de que tinha numerosas questões a que
atender em Roma. No entanto, não podia enviar mais ninguém para tomar a Caio os regimentos de
Leste, porque Caio era Cônsul e nunca lhe deveria ter sido permitido tomar conta do cargo sendo
incapaz de assumir o alto comando militar. Não havia nada a fazer, a não ser deixar ficar Caio e
esperar que tudo corresse pelo melhor.
A princípio, Caio teve sorte. O perigo por parte dos Arménios foi afastado pela invasão da sua
fronteira oriental por uma tribo de bárbaros. O Rei da Arménia foi morto enquanto tentava expulsá-
los. O Rei da Pártia, ao saber disto e também do grande exército que Caio estava a reunir, entrou em
negociações com ele, para grande alívio de Augusto. Mas Augusto acabava de nomear um Medo
para o trono da Arménia, o que não era aceitável para a nobreza arménia; quando Caio já tinha
reenviado para Roma as tropas extra, por as considerar desnecessárias, eles acabaram por lhe
declarar a guerra. Caio reuniu de novo o exército e marchou sobre a Arménia, onde, alguns meses
mais tarde, foi ferido à traição por um dos generais inimigos, que o convidara para conferenciarem.
Não foi um ferimento grave. Na altura, pouca atenção lhe deu e concluiu a campanha com êxito.
Mas, de alguma forma, deram-lhe o tratamento errado e a sua saúde, que, sem que se percebesse
porquê, lhe tinha dado problemas nos últimos dois anos, foi seriamente afectada: perdeu todo o
poder de concentração mental. Por fim, escreveu a Augusto, pedindo-lhe permissão para se retirar
para a vida privada. Augusto ficou desgostoso,
mas acedeu ao seu pedido, Caio morreu no caminho para casa. Assim, dos filhos de Júlia, só restava
agora Póstumo, de quinze anos de idade, e Augusto estava de tal forma reconciliado com Tibério
que, tal como Trasilo previra, o fez entrar na casa Juliana adoptando-o, juntamente com Póstumo,
como seu filho e herdeiro.
O oriente ficou tranquilo por algum tempo, mas quando a guerra, que voltara a estalar na Germânia
- mencionei o facto em ligação com a minha composição escolar para Atenodoro -, tomou uma
feição grave.
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Augusto elegeu Tibério comandante do exército e mostrou a sua confiança renovada, concedendo-
lhe o Protectorado por dez anos. A campanha foi séria e Tibério conduziu-a com a sua antiga força
e habilidade. Lívia, no entanto, insistiu que ele fizesse visitas frequentes a Roma, para não perder o
contacto com os acontecimentos políticos que decorriam ali. Tibério mantinha a sua parte do acordo
que fizera com ela e permitia-lhe que o orientasse em tudo.
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CAPíTULO VII
Recuei alguns anos no tempo para falar de meu Tio Tibério, mas, ao seguir essa história até à sua
adopção por Augusto, acabei por avançar em relação à minha própria história. Tentarei dedicar os
próximos capítulos exclusivamente aos acontecimentos que ocorreram entre os meus nove e
dezasseis anos. Trata-se na sua maior parte do registo dos noivados e casamentos dos jovens nobres
como eu. O primeiro a atingir a idade foi Germânico - o seu décimo quarto aniversário foi a trinta
de Dezembro, mas as celebrações davam-se sempre em Março. Como era costume, ele saíu da
nossa casa no Palatino de manhã cedo, engrinaldado e vestindo pela última vez o seu traje de rapaz
orlado a púrpura. Multidões de crianças corriam à frente, cantando e espalhando flores; uma escolta
dos amigos nobres caminhava com ele e uma onda imensa de cidadãos seguia atrás, alinhados
conforme a sua condição. A procissão desceu lentamente a encosta do Monte e atravessou a Praça
do Mercado, onde Germânico foi saudado ruidosamente. Retribuiu a saudação com um discurso
breve. Por fim, a procissão começou a subir a encosta do Monte Capitolino. No Capitólio, Augusto
e Lívia aguardavam para o saudar e ele sacrificou um touro branco no templo ali existente, dedicado
a Júpiter Capitolino, o Que-Faz-Trovejar, vestindo pela primeira vez a sua túnica branca de homem
adulto. Com grande desapontamento da minha parte, não me foi permitido ir também. A caminhada
teria sido demasiado árdua para mim e teria causado má impressão se fosse transportado numa
liteira. Tudo o que presenciei das cerimónias foi a oferenda que ele fez aos deuses do lar do seu
traje e ornamentos de rapaz, quando regressou; e a distribuição de bolos e dinheiro à multidão, dos
degraus da casa.
Germânico casou um ano depois. Augusto fazia tudo o que lhe era permitido pela legislação para
encorajar os casamentos entre homens de família. O Império era muito grande e precisava de mais
funcionários e oficiais superiores do exército do que a nobreza e a plebe conseguiam arranjar,
apesar do recrutamento constante entre a populaça para as suas fileiras. Quando havia queixas por
parte de homens de família sobre a rudeza desses recém-chegados, Augusto costumava responder
secamente que escolhia os menos rudes que conseguia encontrar, O remédio estava nas mãos deles,
disse: todos os homens e mulheres de posição deviam
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casar novos e iniciar uma família tão grande quanto possível. A diminuição regular do número de
nascimentos e casamentos nas classes governantes tornou-se uma obsessão para Augusto.
Numa ocasião em que a Nobre Ordem dos Cavaleiros, no seio da qual os senadores eram
escolhidos, se queixou da severidade das suas regras contra os celibatários, convocou toda a ordem
a comparecer na Praça do Mercado para uma prelecção. Quando já ali estavam reunidos, dividiu-os
em dois grupos, os casados e os solteiros. Os solteiros formavam um grupo muito maior que o dos
casados e ele dirigiu discursos diferentes a cada grupo. Entrou numa grande excitação enquanto
falava para os solteiros, chamando-lhes animais e rufiões e, usando de uma estranha metáfora,
assassinos da sua posteridade. Nessa altura, Augusto era já um homem idoso, com toda a petulância
e mau humor de um velho que, durante toda a vida, esteve à frente dos acontecimentos. Perguntou-
lhes se tinham tido alguma alucinação de que eram Virgens Vestais. Pelo menos uma Virgem
Vestal dormia sozinha, o que era mais do que qualquer deles fazia. Seria que lhe podiam explicar
por que razão, em vez de partilharem as suas camas com mulheres decentes da sua classe, gerando
nelas filhos saudáveis, desperdiçavam toda a sua energia viril com escravas sebosas e prostitutas
sórdidas asiático-gregas? E, a acreditar naquilo que ouvia, a companhia que levavam para a cama
para as suas diversões nocturnas era, na maior parte dos casos, uma dessas criaturas com uma
profissão repelente que ele nem iria nomear, para que o facto de admitir a sua existência na Cidade
não pudesse ser tomado como aceitação. Por sua vontade, um homem que se esquivasse às suas
obrigações sociais e, simultaneamente, vivesse uma vida de deboche sexual, deveria ser submetido
às mesmas severas punições que uma Vestal que esquecia os seus votos ser enterrado vivo.
Em relação aos homens casados, na altura eu fazia parte desse número, fez-nos o mais esplêndido
elogio, abrindo os braços como se nos quisesse abraçar.
Sois muito poucos, em comparação com o número de habitantes da Cidade. Sois bem menos
numerosos do que os vossos companheiros daquele lado, que não se mostram dispostos a cumprir
os seus deveres sociais naturais. No entanto, por esta mesma razão, o meu louvor para vós é ainda
maior e estou-vos duplamente grato por vos terdes mostrado obedientes aos meus desejos e por
terdes feito tudo o que podíeis para dar homens a esta Cidade. É através de vidas vividas desta
maneira que os romanos do futuro se tornarão uma grande nação. A princípio, éramos um mero
punhado, como sabeis, mas quando começámos a casar-nos e a gerar filhos, conseguimos rivalizar
com os estados vizinhos, não apenas na masculinidade dos nossos cidadãos, mas na quantidade da
nossa população. Temos que nos lembrar sempre disto. Temos que consolar a parte
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mortal da nossa natureza com uma interminável sucessão de gerações, como portadores de archotes
numa corrida, para que, através uns dos outros, possamos imortalizar o lado da nossa natureza em
que não alcançamos a felicidade divina. Foi principalmente por esta razão que o primeiro Deus que
nos criou dividiu a raça humana em duas partes: Fez uma das metades masculina e a outra feminina,
implantando nessas metades o desejo uma pela outra, tornando as suas relações frutíferas para que,
através da procriação contínua, ele possa, de certa forma, tornar a própria mortalidade imortal. Na
verdade, a tradição diz que alguns dos próprios Deuses são machos e outros fêmeas e que estão
todos ligados por laços sexuais de parentesco. Portanto, como vedes, mesmo entre esses seres, que
na realidade não necessitam de tal estratagema, o casamento e a gestação de filhos foram aprovados
como um costume nobre.
Eu tinha vontade de rir, não só porque estava a ser elogiado por aquilo que me tinha sido imposto
bem contra minha vontade - em breve vos falarei de Urgulanila, com quem estava casado na altura
-, mas porque toda aquela questão era uma farsa total. De que servia Augusto dirigir-se a nós
daquela forma, quando ele sabia muito bem que não eram os homens que estavam a esquivar-se,
como ele dizia, mas as mulheres? Se ele tivesse convocado as mulheres, talvez tivesse conseguido
alguma coisa, falando com elas da maneira certa.
Lembro-me de ter ouvido uma vez duas das libertas de minha mãe discutirem o casamento moderno
do ponto de vista de uma mãe de família. O que é que a mulher ganhava com isso? - perguntavam.
A moral era agora tão permissiva que já ninguém tomava o casamento a sério. É certo que alguns
homens antiquados respeitavam-no o suficiente para terem preconceitos contra o facto dos seus
amigos ou criados fazerem filhos nas mulheres deles; é também certo que algumas mulheres
antiquadas respeitavam suficientemente os sentimentos dos maridos e tinham o maior cuidado em
não se deixar engravidar por nenhum dos amantes. Mas, em regra, qualquer mulher bonita hoje em
dia podia dormir com qualquer homem que quisesse. Se se casasse e depois se cansasse do marido,
como geralmente acontecia, e quisesse outra pessoa com quem se pudesse divertir, podia vir a ter
que enfrentar o orgulho ou o ciúme do marido. E, de uma maneira geral, também não ficava em
melhor situação financeira depois de casar. O seu dote passava para as mãos do marido, ou do sogro
como chefe da família, caso ainda estivesse vivo; e um marido, ou sogro, era habitualmente uma
pessoa mais difícil de manobrar do que um pai ou um irmão mais velho, cujos pontos fracos ela já
conhecia há muito. Estar casada, apenas representava o assumir de tremendas responsabilidades.
Quanto aos filhos, quem é que queria tê-los? Interferiam com a saúde e os divertimentos da mulher
durante vários meses antes do nascimento e, mesmo que arranjasse uma ama para eles logo a seguir,
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precisava de tempo para recuperar da situação desgraçada do parto; acontecia muitas vezes, depois
de ter tido mais de dois filhos, que isso lhe arruinava a figura. Basta ver como a bela Júlia tinha
mudado depois de satisfazer obedientemente o desejo de Augusto de ter descendentes. E o marido
de uma dama, caso ela gostasse dele, não podia comprometer-se a manter à distância as outras
mulheres durante todo o período de gravidez dela e, de qualquer forma, ele pouco ligava à criança
depois dela nascer. Ainda por cima, como se isso não bastasse, as amas eram terrivelmente
descuidadas e era frequente o bebé morrer. Era uma bênção os médicos gregos serem tão
habilidosos, se a coisa não tivesse ido longe demais - eles eram capazes de desembaraçar uma dama
de uma criança não desejada em dois ou três dias, e ninguém tinha que se preocupar ou que saber.
Claro que algumas mulheres, mesmo as mais modernas, ansiavam por crianças de uma forma
antiquada, mas podiam sempre comprar uma criança para adopção para entrar na família do marido,
de alguém com um nascimento decente mas a quem os credores faziam a vida negra...
Augusto deu à Nobre Ordem dos Cavaleiros a permissão de casar com mulheres do povo, mesmo
com libertas, mas isto não melhorou muito as coisas. Os cavaleiros, mesmo que se casassem,
casavam por causa dos dotes, não pelos filhos ou por amor, e uma liberta não era um grande
partido; além disso, os cavaleiros, especialmente aqueles que tinham ascendido recentemente à
ordem, tinham fortes objecções a casar com alguém de condição inferior. Nas famílias da antiga
nobreza a dificuldade era ainda maior. Não só havia menos mulheres entre as quais escolher dentro
do grau de parentesco correcto, como a cerimónia do casamento era mais estrita. A mulher ficava de
forma mais absoluta sob o poder do chefe da família para a qual entrava. Qualquer mulher sensata
pensava duas vezes antes de se comprometer com tal contrato, para o qual não havia outra saída
além do divórcio; e, depois do divórcio, tornava-se difícil recuperar a propriedade que tinha trazido
como dote. Nas famílias que não eram propriamente as antigas famílias nobres, no entanto, uma
mulher podia casar legalmente com um homem e, mesmo assim, manter-se independente e ter o
controlo das suas propriedades - se ela desejasse, poderia estipular que dormiria três noites do ano
fora da casa do marido, pois esta condição interrompia o direito do marido sobre ela como um bem
permanente. As mulheres gostavam desta forma de casamento por razões óbvias, as mesmas pelas
quais ela desagradava aos maridos. A prática começou entre as famílias mais baixas da Cidade, mas
foi subindo gradualmente e, em breve, tornou-se regra em todas as famílias, com excepção das da
antiga nobreza. Aqui, havia uma razão religiosa que se lhe opunha. Os sacerdotes do Estado eram
escolhidos nestas famílias e, pela lei religiosa, um sacerdote tinha que ser um homem casado, da
forma
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mais rigorosa, e filho igualmente de um casamento que obedecesse aos mais rigorosos preceitos.
Com o passar do tempo, candidatos adequados para o sacerdócio tornaram-se cada vez mais difíceis
de encontrar. Por fim, havia vagas nos colégios de sacerdotes que não se conseguiam preencher e
era preciso fazer alguma coisa; portanto, os legistas arranjaram uma solução. As mulheres de
posição foram autorizadas, ao contrair casamentos na forma antiga, a estipular que a entrega
completa delas próprias e da sua propriedade ”era coisa sagrada” e que, de outra forma, gozavam de
todos os benefícios do casamento livre.
Mas isso foi mais tarde. Entretanto, o melhor que Augusto podia fazer, além da penalização legal
dos celibatários e homens casados sem filhos, era pressionar os chefes de família para casarem os
seus jovens (com instruções para que crescessem e se multiplicassem) enquanto eram ainda
demasiado jovens para compreender aquilo a que se comprometiam ou para fazer qualquer coisa
além de obedecer. Portanto, para dar um bom exemplo, todos nós, os membros mais jovens das
famílias de Augusto e Lívia, ficámos noivos e casámos o mais cedo possível. Pode parecer estranho,
mas Augusto foi bisavô com a idade de cinquenta e quatro anos e foi trisavô antes de morrer, com a
idade de setenta e seis; Júlia, também em consequência do seu segundo casamento, teve uma neta
com idade casadoira antes dela própria ultrapassar a idade em que podia ter filhos. As gerações
sobrepunham-se um tanto desta forma e a árvore genealógica da família imperial rivalizava em
complexidade com a do Olimpo. Isto não apenas por causa das adopções frequentes e do casamento
de membros com um grau de parentesco mais próximo do que o costume religioso na verdade
permitia - na verdade, a família Imperial estava entretanto a tornar-se superior à lei -, mas porque,
logo que um homem morria, a sua viúva era levada a casar de novo, sempre no mesmo pequeno
círculo de relações. Farei agora os possíveis para aclarar as coisas neste ponto, sem me alongar
demasiado.
Mencionei os filhos de Júlia (os principais herdeiros de Augusto, agora que a própria Júlia tinha
sido exilada e cortada do seu testamento), designadamente, Caio, Lúcio e Póstumo, e as duas filhas,
Júlia e Agripina. Os membros mais jovens da família de Lívia eram o filho de Tibério, Castor, e os
seus três primos directos, a saber, o meu irmão Germânico, a minha irmã Livila e eu próprio. Mas
não posso esquecer a neta de Júlia
- na ausência de qualquer marido possível saído da família de Lívia, Julila casou com um senador
abastado chamado Emílio (seu primo em primeiro grau por um casamento anterior de Escribónia) e
tinha-lhe dado uma filha chamada Emília. O casamento de Julila foi infeliz, pois Lívia levava a mal
que uma neta de Augusto casasse com alguém que não fosse seu neto; mas, como não tardareis a
ver, isso não a incomodou por muito tempo. Entretanto, Germânico casou com Agripina, uma
rapariga
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séria e bonita de quem ele aliás já gostava havia muito. Caio casou com a minha irmã Livila, mas
morreu pouco depois, sem deixar filhos. Lúcio, que estivera noivo de Emília sem ter chegado a
casar, já tinha morrido.
Com a morte de Lúcio, pôs-se a questão de encontrar um casamento adequado para Emília. Augusto
tinha a noção perspicaz de que Lívia tencionava escolher como marido para Emília nem mais nem
menos do que eu próprio, mas ele tinha uma grande ternura pela pequena e não podia suportar a
ideia de a casar com uma criatura enfermiça como eu. Resolveu opor-se a essa ligação: por uma
vez, prometeu a si mesmo que Lívia não levaria a sua avante. Aconteceu pouco depois da morte de
Lúcio que Augusto estava a jantar com Medulino, um dos seus generais mais idosos, cuja
descendência datava do ditador Camilo. Medulino disse-lhe, sorrindo, depois das taças de vinho
terem sido cheias várias vezes, que tinha uma jovem neta de quem gostava muito. Ela mostrara de
repente um progresso surpreendente nos seus estudos literários e tinha conhecimento de que devia
agradecer esse facto a um jovem parente do seu muito ilustre conviva. Augusto ficou admirado.
- Quem poderá ser? Não ouvi falar em nada. O que é que se passa? Trata-se de um caso amoroso
com tempero de literatura?
-Sim, uma coisa desse género. - disse Medulino, sorrindo - Falei com o jovem e, apesar dos seus
infortúnios e incapacidades de ordem física, não posso deixar de gostar dele. É de uma natureza
franca e nobre e, como jovem estudante, causou-me uma impressão profunda.
Augusto perguntou, incrédulo:
- O quê, não estás a falar do jovem Tibério Cláudio?
- Sim, esse mesmo, - disse Medulino.
O rosto de Augusto iluminou-se com uma resolução repentina e ele perguntou de forma mais
apressada do que era permitido pela decência:
- Escuta, Medulino, meu velho amigo, terias alguma objecção a que
ele se tornasse marido da tua neta? Se concordares com essa união, terei todo o prazer em a
proporcionar. O jovem Germânico é agora nominalmente o chefe da família, mas, em questões
como esta, ele recebe o conselho dos mais velhos. Bom, não é qualquer rapariga que consegue
ultrapassar a repugnância física por esse pobre aleijado, surdo e gago, e Lívia e eu próprio temos
um sentimento de delicadeza natural em o tornar noivo de qualquer jovem. Mas se a tua neta, de sua
própria vontade... Medulino disse:
- Foi ela própria que me falou deste casamento e pesou a questão muito cuidadosamente. Ela diz-me
que o jovem Tibério Cláudio é modesto, sincero e bondoso; e que o facto de ser coxo nunca lhe
permitirá ir para a guerra e ser morto...
- Ou correr atrás de outras mulheres, - acrescentou Augusto, rindo.
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- E que a surdez é apenas de um lado e, quanto à sua saúde, de uma maneira geral...
- Suponho que a pequena atrevida já percebeu que ele não é aleijado naquela parte do corpo pela
qual as esposas honestas mostram a maior solicitude? Sim; porque não seria ele capaz de lhe dar
filhos perfeitamente saudáveis?! O meu velho garanhão coxo e sibilante, Bucéfalo, foi pai de mais
triunfadores de corridas de carros do que qualquer outro cavalo de Roma. Mas, brincadeiras aparte,
Medulino, a tua é uma casa muito ilustre e a família de minha mulher terá todo o orgulho em se
ligar a ela pelo casamento. Falas sério ao dizer que aprovas essa união?
Medulino disse que a rapariga podia fazer um casamento muito pior; mesmo pondo de parte a
honraria inesperada de se ligar dessa forma ao Pai da Pátria.
Ora Medulina, a neta, foi o meu primeiro amor, e nunca, juro, se viu uma criança tão bela no mundo
inteiro. Conheci-a numa tarde de Verão no Jardim de Salusto, onde fui levado por Sulpício na
ausência de Atenodoro, que não estava a sentir-se bem. A filha de Sulpício era casada com o tio de
Medulina, Fúrio Camilo, um soldado distinto que foi Cônsul seis anos mais tarde. Quando a vi pela
primeira vez, senti um choque de surpresa, não apenas pela sua beleza, mas pela aparição repentina,
pois ela surgiu do lado em que eu era surdo, enquanto lia um livro; quando levantei os olhos, ela
estava ali inclinada sobre mim, rindo da minha preocupação. Era esbelta, com cabelos negros e
abundantes, pele branca e os olhos de um azul muito escuro. Todos os seus movimentos eram
rápidos como os de um pássaro.
- Como te chamas? - perguntou em tom cordial.
- Tibério Cláudio Druso Nero Germânico.
-Deuses, tudo isso! O meu é Medulina Camila. Que idade tens?
- Treze, - respondi, dominando bem a minha gaguez.
- Eu só tenho onze, mas aposto que sou capaz de correr mais depressa que tu até àquele cedro e
voltar.
- Então és campeã de corridas?
- Corro mais que qualquer rapariga em Roma e até mesmo que os meus irmãos mais velhos.
- Bom, aqui acho que vais ganhar por defeito. Eu não posso correr, sou COXO.
- Oh, coitado. Mas como foi que vieste até aqui? A coxear todo o caminho?
- Não, Camila, vim numa liteira, como um velho preguiçoso.
- Porque me chamas pelo meu segundo nome?
- Porque é o mais apropriado.
- Como é que chegaste a essa ideia, espertinho?
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- Porque, entre os etruscos, Camila é o nome que eles dão às jovens sacerdotisas caçadoras
dedicadas a Diana. Com um nome como Camila, só se pode ser campeã de corridas.
- É interessante. Nunca tinha ouvido isso. A partir de agora, vou fazer com que todos os meus
amigos me tratem por Camila.
- E a mim, trata-me por Cláudio, está bem? Esse é o nome indicado para mim. Significa aleijado. A
minha família geralmente trata-me por Tibério e isso não está certo, porque o Tibre corre muito
rápido.
Ela riu-se.
- Está bem, Cláudio. Agora, diz-me o que fazes durante todo o dia, se não podes andar por aí a
correr com os outros rapazes?
- Passo a maior parte do tempo a ler e a escrever. já li dezenas de livros este ano e só estamos em
junho. Este é em grego.
- Ainda não sei ler grego. Apenas conheço o alfabeto. O meu avô está aborrecido comigo - eu não
tenho pai, sabes -, diz que sou preguiçosa. Claro que compreendo o grego quando ouço alguém
falar: temos sempre que falar grego às refeições e quando temos visitas. Que livro é esse?
- É parte da história de Túcídides. Esta passagem conta como um político, um espirituoso chamado
Cléon, começou a criticar os generais que estavam a bloquear OS espartanos numa ilha. Disse que
não estavam a dar tudo por tudo e que, se ele fosse general, traria consigo toda a força espartana,
como cativos, em vinte dias. Os atenienses estavam tão fartos de o ouvir que o nomearam para
comandar as tropas.
- Que ideia tão engraçada. E o que aconteceu?
- Ele manteve a sua promessa. Escolheu um bom oficial do estado-maior e disse-lhe que lutasse da
maneira que quisesse, desde que ganhasse a batalha; o homem sabia o que estava a fazer e, por isso,
no espaço de vinte dias, Cléon trouxe de volta para Atenas cento e vinte espartanos da mais alta
posição.
Camila disse:
- Ouvi o meu tio Fúrio dizer que o chefe mais inteligente é aquele que escolhe pessoas inteligentes
para pensarem por ele. - Depois, acrescentou, - Tu deves ser muito sensato, Cláudio.
- A opinião geral é que eu sou um perfeito tolo e, quanto mais leio, mais tolo eles pensam que sou.
- Eu acho que és muito ajuizado. Contas as coisas de uma maneira tão interessante!
- Mas gaguejo. A minha língua também é claudiana.
- Talvez seja só uma questão nervosa. Tu não conheces muitas raparigas, pois não?
- Não, - disse eu, - e tu és a primeira que conheço que não se riu de mim. Não poderíamos
encontrar-nos de vez em quando, Camila? Tu
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não podes ensinar-me a correr, mas eu posso ensinar-te a ler grego. Gostavas?
- Sim, gostava muito. Mas ensinas-me a ler em livros interessantes?
- Em qualquer livro que tu queiras. Gostas de história?
- Acho que o que eu gosto mais é de poesia; na história, há muitas datas e nomes para recordar. A
minha irmã mais velha adora os poemas de amor de Parténio. já leste alguns?
-Alguns, mas não gosto. É tudo muito artificial. Eu gosto de livros reais.
- Eu também. Mas há algum livro grego de poemas de amor que não seja artificial?
- Há Teócrito. Gosto muito dele. Pede à tua tia que te traga aqui amanhã à mesma hora, que eu trago
o Teócrito e podemos começar imediatamente.
- Garantes que não é aborrecido?
- Não, é muito bom.
Depois disto, passámos a encontrar-nos no jardim quase todos os dias, sentávamo-nos juntos à
sombra, líamos Teócrito e conversávamos. Obriguei Sulpício a prometer-me que não falaria naquilo
a ninguém, com medo que Lívia viesse a saber e me impedisse de continuar a ir. Camila disse um
dia que eu era o rapaz mais gentil que ela conhecia e que gostava mais de mim do que de todos os
amigos do irmão. Então, eu disse-lhe que gostava muito dela; tendo ficado muito satisfeita, beijou-
me timidamente. Perguntou-me se haveria alguma possibilidade de virmos a casar um com o outro.
Disse-me que o avô faria qualquer coisa por ela e que, um dia, o ia trazer aos jardins para nos
apresentar; mas estaria Augusto de acordo? Quando lhe disse que não tinha pai e que tudo dependia
de Augusto e Lívia, ela ficou deprimida. Até aí, não tínhamos falado muito sobre famílias. Ela
nunca ouvira nada de bom acerca de Lívia, mas eu dísse-lhe que era possível que ela consentisse,
porque a minha pessoa lhe era de tal modo desagradável que não me parecia que se importasse
muito com o que eu pudesse fazer, desde que não a envergonhasse,
Medulino era um homem directo e digno e tinha qualquer coisa de historiador, o que tornava a
conversação entre nós muito fácil. Ele fora oficial superior do meu pai na sua primeira campanha e
sabia muitas histórias sobre ele, muitas das quais anotei, agradecido, para a minha biografia. Um
dia, começámos a falar do antepassado de Camila, Camilo, e, quando me perguntou qual a acção de
Camilo que eu mais admirava, disse-lhe:
- Quando o mestre-escola traiçoeiro de Faléria atraiu as crianças que tinha à sua guarda para os
muros de Roma, dizendo que os Falerienses aceitariam quaisquer condições para as ter de volta,
Camilo desdenhou a oferta. Mandou que o despissem e lhe amarrassem as mãos atrás das costas e
deu aos rapazes varas e açoites para fustigarem o traidor e obrigá-lo a regressar. Não foi magnífico?
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Ao ler esta história, eu tinha imaginado o mestre-escola como Catão, os rapazes como Póstumo e
eu próprio e, por isso, o meu entusiasmo por Camilo era um pouco confuso. Mas Medulino ficou
satisfeito.
Quando foi pedida a Germânico a sua aprovação para o nosso casamento, ele deu-a com satisfação,
pois eu tinha-lhe contado do meu amor por Camila; e o meu tio Tibério não levantou objecções; a
minha avó Lívia escondeu a irritação, como de costume, e felicitou Augusto por ter sido tão rápido
a pegar na palavra de Medulino - ele devia estar bêbedo, disse, para ter aprovado tal ligação,
embora o dote fosse pequeno e a aliança grande para um homem da sua família. A casa de Camilo
não tinha gerado homens com capacidades ou reputação notáveis havia muitas gerações.
Germânico disse-me que tudo tinha sido arranjado e que a cerimónia do noivado teria lugar no
próximo
dia fasto. Nós, os romanos, somos muito supersticiosos quanto aos dias; ninguém nem sequer
sonharia, por exemplo, fazer uma batalha, casar ou comprar uma casa no dia 16 de Julho, o dia do
desastre de Ália, no tempo de Camilo. Mal conseguia acreditar na minha boa sorte. Também eu
receara que me obrigassem a casar com Emília, uma rapariguinha mal-humorada e afectada, que
imitava a minha irmã Livila a arreliar-me e a fazer de mim parvo sempre que vinha a nossa casa de
visita, o que acontecia muitas vezes. A cerimónia do noivado, insistiu Lívia, devia ser tão discreta
quanto possível, porque não podia ter confiança em que eu não fizesse figuras tristes se me
encontrasse perante uma multidão. Eu também preferia que assim fosse: odiava cerimónias. Apenas
as necessárias testemunhas estariam presentes e não haveria festa; unicamente, seria efectuado o
sacrifício ritual habitual de um carneiro, cujas entranhas seriam depois examinadas, para averiguar
se os auspícios eram favoráveis. Claro que iam ser; Augusto, oficiando como sacerdote, em honra
de Lívia, ocupar-se-ia disso. Depois, seria assinado um contrato para a segunda cerimónia, que teria
lugar logo que eu atingisse a idade, com estipulações para o dote. Camila e eu daríamos as mãos,
beijar-nos-íamos e, depois, eu dar-lhe-ia um anel de ouro e ela regressaria à casa do avô -
tranquilamente, como tinha vindo, sem qualquer séquito de acompanhantes a cantar.
Ainda agora me dói escrever sobre esse dia. Eu estava muito nervoso, com a minha grinalda e uma
túnica limpa, ao lado de Germânico, junto do altar da família, esperando que Camila aparecesse. Ela
estava atrasada. Estava muito atrasada. As testemunhas começavam a impacientar-se e a criticar a
falta de cortesia do velho Medulino, deixando-os à espera numa ocasião cerimonial como aquela.
Finalmente, o porteiro anunciou o tio de Camila, Fúrio, e este entrou, com o rosto lívido e vestido
de luto. Após um breve discurso de saudação e desculpas, dirigido a Augusto e ao resto da
companhia pelo seu atraso e aparição agourenta, disse:
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Aconteceu uma grande calamidade. A minha sobrinha está morta. Morta! - exclamou Augusto. -
Que brincadeira é esta? Recebemos uma mensagem há apenas meia hora que ela já vinha a
caminho.
- Morreu envenenada. Uma multidão reuniu-se em frente da porta, como acontece com as
multidões, quando ouviram dizer que a filha da casa ia sair para o seu noivado. Quando a minha
sobrinha apareceu, todas as mulheres se comprimiram cheias de admiração à volta dela. A dada
altura, soltou um pequeno grito, como se alguém a tivesse pisado, mas ninguém ligou importância e
ela entrou para a liteira. Ainda não tínhamos chegado ao fim da rua quando minha mulher, Sulpícia,
que a acompanhava, a viu empalidecer e lhe perguntou se estava assustada, ao que respondeu: ”Oh,
tia, aquela mulher espetou-me uma agulha no braço e eu sinto-me fraca.” Essas foram as suas
últimas palavras, meus amigos. Morreu poucos minutos depois, Apressei-me a vir para cá logo que
mudei de fato. Desculpar-me-ão.
Eu larguei a chorar e comecei a soluçar histericamente. A minha mãe, furiosa com a minha conduta
deselegante, disse a um dos libertos que me levasse para o meu quarto, onde fiquei dias a fio, com
uma febre nervosa e incapaz de comer ou dormir. Se não fosse o conforto que esse querido
Póstumo me deu, acho que teria enlouquecido. A assassina nunca foi encontrada e ninguém
conseguia explicar que motivo ela podia ter tido. Lívia informou Augusto alguns dias mais tarde
que, segundo relatos que pareciam fiáveis, uma das mulheres que se encontravam na multidão era
uma rapariga grega que considerava, sem dúvida infundadamente, ter sido lesada pelo tio da jovem
e que, provavelmente, teria decidido vingar-se daquela forma monstruosa.
Quando já me encontrava de novo bem, ou não mais doente que o habitual, Lívia queixou-se a
Augusto que a morte da jovem Medulina Camila tinha sido um acontecimento muito infeliz. Apesar
do perdoável sentimento de Augusto contra tal casamento, ela receava que a jovem Emília tivesse
agora que acabar por ficar noiva daquele seu impossível neto: toda a gente, disse, tinha ficado
surpreendida por essa ligação não ter sido efectivada antes. Assim, como de costume, Lívia levou a
sua avante. Algumas semanas mais tarde, fiquei noivo de Emília e vivi a cerimónia sem desonra,
porque o desgosto da morte de Camila me tornara completamente indiferente. Os olhos de Emília
estavam vermelhos quando ela chegou, mas as lágrimas eram de raiva, não de desgosto.
Agora, falando de Póstumo, pobre criatura, ele estava apaixonado por minha irmã Livila, que via
com frequência porque ela tinha ido viver para o palácio quando casara com seu irmão Caio,
continuando por lá. Era ideia corrente, de uma maneira geral, que acabariam por casar, para reatar a
ligação entre as famílias, rompida pela morte do irmão. Livila sentia-se lisonjeada com a devoção
apaixonada que ele lhe mostrava.
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Desafiava-o constantemente, mas não sentia amor por ele. A sua escolha era Castor - um indivíduo
cruel, dissoluto, bem parecido, que parecia feito para ela. Eu sabia do entendimento entre Livila e
Castor, que tinha descoberto por acidente; e isto deixava-me muito infeliz por causa de Póstumo,
tanto mais que este não tinha suspeitas sobre o carácter dela e eu não ousava dizer-lhe nada. Sempre
que Livila, eu e ele estávamos juntos, ela costumava mostrar-me uma afeição fingida, que parecia
tão tocante a Póstumo, quanto me irritava a mim. Sabia bem que, logo que ele se afastasse, ela
retomaria as suas brincadeiras malévolas. Lívia teve conhecimento da intriga entre Livila e Castor e
passou a vigiá-los cuidadosamente: uma noite, foi recompensada com uma mensagem de um criado
de confiança, segundo a qual Castor acabava de trepar a janela de Livila pela varanda. Ela pôs um
guarda armado na varanda e, depois, bateu à porta de Livila, chamando-a pelo nome. Passado um
minuto, mais ou menos, Livila abriu a porta, fingindo que estava a dormir profundamente; mas
Lívia entrou e foi encontrar Castor atrás do reposteiro. Falou-lhes abertamente e parece ter-lhes
dado a entender que o assunto não seria transmitido aAugusto, que certamente os enviaria para o
exílio, mas apenas sob certas condições; e, se essas condições fossem estritamente observadas, ela
arranjaria mesmo com que eles se casassem. Não muito tempo depois do meu noivado com Emília,
Lívia arranjou as coisas de tal forma com Augusto que Póstumo ficou noivo, com grande desgosto
seu, de uma rapariga chamada Domícia, minha prima em primeiro grau pelo
lado de minha mãe; e Castor casou com Livila. Este foi o ano em que Tibério e Póstumo foram
adoptados como filhos por Augusto.
Lívia considerava Julila e o marido Emílio como um possível obstáculo aos seus desígnios.
Entretanto, teve a sorte de arranjar provas de que Emílio e Cornélio, neto de Pompeu o Grande,
estavam a conspirar para retirar o poder a Augusto e dividir os seus cargos entre eles próprios e
alguns ex-Cônsules, entre eles Tibério, embora este ainda não tivesse sido consultado. A
conspiração não foi muito longe, porque o primeiro ex-CÔnsul que Emílio e Cornélio contactaram
recusou-se a ter que ver com o assunto. Augusto não puniu Emílio nem Cornélio com a morte ou o
exílio. O facto deles terem conseguido tão pouco apoio para a conspiração fora uma boa prova da
força dele e, ao poupá-los, mostrou-se ainda mais forte. Limitou-se a chamá-los à sua presença e a
repreendê-los pela sua loucura e ingratidão. Cornélio caíu-lhe aos pés e agradeceu-lhe de forma
abjecta a clemência que demonstrara, o que levara Augusto a pedír-lhe que não continuasse a fazer
de tolo. Ele não era nenhum tirano, disse, para que conspirassem contra ele ou para que o adorassem
por mostrar a clemência de um tirano; era simplesmente um funcionário estatal da República
Romana, a quem tinham sido temporariamente concedidos amplos poderes para a melhor
manutenção da ordem. Era evidente que Emílio o tinha
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desencaminhado com ideias erróneas. A melhor cura para tal disparate seria que Cornélio se
tornasse Cônsul no ano seguinte, satisfazendo assim a sua ambição de alcançar um poder igual ao
seu; pois não havia posto mais elevado que o de Cônsul em Roma (teoricamente, isso era verdade).
Emílio era orgulhoso e manteve-se de pé; Augusto disse-lhe que, como seu parente pelo casamento,
devia ter mostrado mais decência, e que, como ex-Cônsul, devia ter mostrado maior sensatez. Por
isso lhe retirava todas as honras.
O lado divertido deste caso foi Lívia ter alcançado todos os créditos pela clemência de Augusto,
afirmando que tinha suplicado, com ternura de mulher, pelas vidas dos dois conspiradores, os quais,
disse, Augusto decidira praticamente transformar num exemplo. Obteve o consentimento dele para
a publicação de um pequeno livro que escrevera chamado Debate de Almofada sobre a Força e a
Gentileza, cheio de toques íntimos. Augusto é apresentado como inquieto e preocupado e incapaz
de dormir. Lívia pede-lhe com doçura que fale abertamente e, juntos, analisam a questão do
tratamento adequado para Emílio e Cornélio.
Augusto explica que não deseja condená-los à morte; no entanto, receia ter que o fazer, porque, se
os deixar impunes, irão pensar que tem medo deles e outros se sentirão tentados a conspirar contra
ele.
- Encontrar-se permanentemente sob a necessidade de exercer vingança e infligir castigos é uma
posição muito dolorosa para qualquer homem de honra, minha querida esposa.
Lívia responde:
- Estais absolutamente certo e eu tenho um conselho para vos dar; isto é, se estíverdes disposto a
aceitá-lo e se não levardes a mal que ouse, embora seja mulher, sugerir-vos qualquer coisa que mais
ninguém, nem mesmo os vossos amigos mais íntimos, ousariam sugerir.
- Falai, seja o que for. Lívia responde:
- Dir-vos-ei sem hesitação, pois tenho igual quinhão da vossa boa ou má sorte e, enquanto
estiverdes em segurança, também tenho a minha parte no vosso reinado; enquanto que, se algo de
mal vos acontecer, o que Deus não permita, isso será igualmente o meu fim... - E aconselha o
perdão. - Palavras brandas afastam a ira, da mesma forma que palavras ásperas excitam a raiva,
mesmo num espírito bondoso. O perdão fará derreter o coração mais arrogante, como o castigo fará
endurecer mesmo o mais humilde... Não quero dizer com isto que tenhamos que poupar todos os
criminosos sem distinção, pois existe aquilo que se chama depravação incurável e persistente,
perante a qual a bondade é desperdício. Um homem que ofende desta forma deve ser retirado
imediatamente, como um cancro no corpo político. Mas no caso dos restantes, cujos erros,
cometidos, intencionalmente ou não, são devidos à juventude, à
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ignorância ou a ideias erróneas, devemos, na minha opinião, limitar-nos a repreendê-los ou


castigá-los da forma mais branda possível. Portanto, façamos essa experiência começando
com estes mesmos homens.
Augusto aplaude a sensatez dela e confessa-se persuadido. Mas notem o comentário
tranquilizador para o mundo que, com a morte de Augusto, terminará o governo de Lívia; e
notem também, e não esqueçam, a expressão ”depravação incurável e persistente.” A minha
avó Lívia era astuta.
Depois, Lívia disse a Augusto que o casamento proposto entre Emília e a minha pessoa
tinha que ser cancelado, como sinal de desagrado Imperial com os pais dela. Augusto ficou
encantado em concordar com isto, porque Emília tinha-se-lhe queixado amargamente da
sua pouca sorte em ter que casar comigo. Lívia não tinha agora grande coisa a recear de
Julila, que Augusto suspeitava de ser cúmplice nos esquemas do marido. Mas, antes de
terminar, tinha também que se certificar em relação a ela. Entretanto, tinha que pagar uma
dívida de honra à sua amiga Urgulanila, uma mulher que ainda não mencionei, mas que é
uma das figuras mais desagradáveis da minha história.
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CAPíTULO VIII
Urgulanila era a única confidente de Lívia e estava ligada a ela pelos mais fortes laços de interesse e
gratidão. Tinha perdido o marido, partidário do Jovem Pompeu, nas Guerras Civis e, com o filho
ainda criança, fora abrigada por Lívia, então casada com o meu avô, da brutalidade dos soldados de
Augusto. Lívia, ao casar com Augusto, insistira em que ele restituísse a Urgulanila as propriedades
do marido que tinham sido confiscadas e a convidasse a ir viver com eles, como um membro da
família. Por influência de Lívia - porque, em nome de Augusto, Lívia podia forçar Lépido, o Alto
Pontífice, a fazer as nomeações que desejasse -, ela foi colocada numa posição de autoridade
espiritual sobre todas as mulheres nobres casadas de Roma, Tenho que explicar isto. Todos os anos,
nos princípios de Dezembro, estas mulheres tinham que estar presentes num importante sacrifício à
Boa Deusa, presidido pelas Virgens Vestais, e de cuja boa execução dependeria a riqueza e
segurança de Roma nos doze meses seguintes. Nenhum homem estava autorizado a profanar estes
mistérios, sob pena de morte. Lívia, que se pusera nas boas graças das Vestais ao reconstruir o seu
Convento, decorando-o num estilo luxuoso e conseguindo-lhes, através de Augusto, muitos
privilégios do Senado, sugeriu à Vestal principal que a castidade de algumas das mulheres que
assistiam aos sacrifícios não estava acima de suspeitas. Ela disse que os problemas de Roma durante
as Guerras Civis podiam muito bem dever-se à ira da Boa Deusa, perante a lascívia daqueles que
assistiam aos seus mistérios. Sugeriu ainda que, se fosse feito um juramento solene a qualquer
mulher que confessasse ter cometido um lapso contra a austeridade moral, que a sua confissão não
seria repetida a qualquer ouvido humano, não sendo ela assim envolvida em desgraça pública;
haveria assim uma maior probabilidade da Deusa ser servida apenas por mulheres castas,
apaziguando assim a sua ira.
A Chefe das Vestais, uma mulher de espírito religioso, aprovou a ideia, mas inquiriu da autoridade
de Lívia para esta inovação. Lívia disse-lhe que vira a Deusa num sonho na noite anterior e que ela
lhe pedira que, uma vez que as próprias Vestais não tinham qualquer experiência em questões de
sexo, uma viúva de boa família devia ser nomeada Madre Confessora para esse mesmo efeito. A
Chefe das Vestais perguntou se os
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pecados confessados deviam ficar Impunes. Lívia replicou que não poderia ter exprimido uma
opinião se, por sorte, a Deusa não tivesse feito uma declaração sobre este ponto no mesmo sonho:
que à Madre Confessora devia ser conferido o poder de prescrever castigos expiatórios e que os
castigos deviam ser uma questão de confiança sagrada entre a acusada e a Madre Confessora. A
Chefe das Vestais, disse ela, seria informada apenas de que tal mulher não estava em condições de
tomar parte nos mistérios daquele ano; ou que tal mulher acabava de cumprir o seu castigo. Isto
convinha perfeitamente à Chefe das Vestais, mas ela receava sugerir um nome, com medo que Lívia
o recusasse. Lívia disse então que o Alto Pontífice era, evidentemente, o homem que devia fazer a
nomeação e que, se a Chefe das Vestais autorizasse, ela lhe explicaria a questão e lhe pediria que
nomeasse uma pessoa adequada, depois de realizar as cerimónias necessárias para garantir uma
escolha favorável à Deusa. Assim, Urgulanila foi escolhida e, claro, Lívia não contou a Lépido ou a
Augusto os poderes inerentes à nomeação. Falou no assunto ocasionalmente, como de um lugar de
conselheira assistente da Chefe das Vestais em questões morais, pois ”a Chefe das Vestais,
pobrezita, conhecia tão pouco do mundo.”
O sacrifício realizava-se em geral na casa de um Cônsul, mas nem sempre no palácio de Augusto,
porque ele tinha uma posição superior à dos Cônsules. Isto era conveniente para Urgulanila, que
fazia as mulheres irem ao quarto dela no palácio (que estava arranjado de maneira a inspirar receio
e lealdade), obrigava-as a dizer a verdade por meio de juramentos assustadores e, quando elas
tinham confessado, mandava-as embora, enquanto pensava no castigo apropriado. Lívia, que estava
no quarto escondida atrás de um reposteiro, sugeria-lhe um. As duas divertiam-se bastante com este
jogo, que proporcionava a Lívia muitas informações úteis e que muito a ajudava nos seus planos.
Como Madre Confessora ao serviço da Boa Deusa, Urgulanila considerava-se acima da lei. Mais
adiante, contarei como uma vez, quando intimada por um senador a quem devia uma grande soma
de dinheiro a comparecer perante o magistrado no Tribunal dos Devedores, ela recusou obedecer à
intimação; e como, para evitar o escândalo, Lívia pagou a dívida. Noutra ocasião, foi citada como
testemunha num inquérito senatorial; não tendo qualquer intenção de ser interrogada, desculpou-se
de comparecer e um magistrado foi-lhe enviado para receber por escrito o depoimento dela. Era
uma velha horrenda, com o queixo fendido e o cabelo pintado de negro com fuligem de candeeiro
(o cinzento era bem visível nas raízes), e viveu até uma idade avançada. O filho, Silvano, fora
cônsul havia pouco tempo e era um daqueles que Emílio contactara na altura da conspiração.
Silvano foi direito a Urgulanila e informou-a das intenções de Emílio. Ela passou a notícia para
Lívia e esta prometeu recompensá-los
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por esta valiosa informação, casando a filha de Silvano, Urgulanila, comigo, e aliando-os dessa
forma à família imperial. Urgulanila gozava da confiança de Lívia e tinha a certeza de que meu tio
Tibério - não Póstumo, embora este fosse o herdeiro mais próximo de Augusto -, seria o Imperador
seguinte: portanto, este casamento era ainda mais honroso do que parecia.
Eu nunca tinha visto Urgulanila. Ninguém a vira. Sabíamos que vivia com uma tia em Herculano,
uma cidade nas encostas do Vesúvio, onde a velha Urgulanila tinha propriedades, mas nunca ia a
Roma, nem mesmo de visita. Concluíamos que devia ser delicada. Mas, quando Lívia me escreveu
uma das suas notas secas e cruéis, dando-me a conhecer que tinha sido decidido num conselho de
Família que eu devia casar com a filha de Silvano Pláucio e que esta era uma união mais apropriada
para mim, considerando as minhas enfermidades, do que as duas anteriormente projectadas,
suspeitei de que havia alguma coisa mais seriamente errada com esta Urgulanila do que a simples
falta de saúde. O palato fendido, talvez, ou uma mancha cor de vinho que lhe cobria metade do
rosto? Fosse como fosse, uma coisa que a tornava inapresentável. Talvez fosse aleijada como eu.
Não me importaria com isso. Talvez fosse mesmo uma boa rapariga, mas incompreendida. Podia
até ser que tivéssemos muita coisa em comum. Claro que não seria a mesma coisa que casar com
Camila, mas podia, pelo menos, ser melhor do que casar com Emília.
Foi escolhido o dia para o noivado. Interroguei Germânico sobre Urgulanila, mas ele estava tão às
escuras como eu e parecia um tanto envergonhado por ter consentido no casamento sem fazer uma
cuidadosa investigação prévia. Ele estava muito feliz com Agripina e desejava que eu fosse
igualmente feliz. Bom, chegou o dia, um diafasto, e ali estava eu de novo com a minha grinalda e a
túnica limpa, aguardando junto do altar da família que a noiva chegasse.
- A terceira vez é a da sorte, - disse Germânico. - Tenho a certeza que ela é uma beleza, a sério, e
bondosa e sensível; mesmo a pessoa certa para ti.
Mas seria que o era? Bom, na minha vida já tive que suportar muitos gracejos cruéis e de mau
gosto, mas este acho que foi o mais cruel e o pior de todos. Urgulanila era... bom, resumindo, ela
estava à altura do nome que lhe tinham dado e que é a forma latina de Herculanila. Ela era, na
verdade, uma jovem Hércules feminina. Embora apenas com quinze anos de idade, tinha mais de
um metro e oitenta e cinco de altura e ainda estava a crescer, sendo proporcionalmente larga e forte,
com os maiores pés e mãos que alguma vez vi num ser humano em toda a minha vida, com uma
única excepção: o gigantesco refém parto que desfilou num cortejo triunfal, muitos anos mais tarde.
As feições dela eram regulares mas pesadas e apresentava permanentemente uma expressão
carrancuda.
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Tinha o corpo inclinado para a frente, Falava tão lentamente como o meu tio Tibério (com quem, a
propósito, ela se parecia muito - falava-se mesmo que talvez fosse sua filha). Urgulanila não tinha
conhecimentos, espírito, dotes ou quaisquer qualidades atraentes. E é estranho, mas os primeiros
pensamentos que me ocorreram quando a vi foram: ”Esta mulher é capaz de me matar num acesso
de violência” e ”Vou ter muito cuidado desde o início em esconder a minha repugnância por ela e
não lhe dar motivos para que sinta qualquer ressentimento contra mim. Porque, se alguma vez ela
chegar a odiar-me, a minha vida não estará segura.” Sou bastante bom como actor e, embora a
solenidade da cerimónia fosse quebrada por risos maliciosos, piadas sussurradas e expressões
trocistas por parte da assistência, Urgulanila não teve qualquer razão para me culpar por aquela falta
de decoro. Depois de terminada a cerimónia, fomos ambos chamados à presença de Lívia e
Urgulanila. Quando a porta se fechou e ficámos os dois diante delas - eu próprio nervoso e
desassossegado, Urgulanila maciça e inexpressiva, abrindo e fechando os punhos enormes -, a
solenidade daquelas duas velhas avós maléficas evaporou-se e ambas largaram num riso
incontrolável. Eu nunca tinha ouvido qualquer das duas rir daquela forma e o efeito era assustador.
Não se tratava de um riso decente e saudável, mas de um soluçar e guinchar demoníaco, como o de
duas velhas prostitutas ébrias, a assistirem a uma tortura ou crucificação.
- Oh, minhas duas belezas! - soluçou Lívia por fim, limpando os olhos. - O que eu não daria para
ver os dois na cama juntos na vossa noite de núpcias! Seria a cena mais cómica depois do Dilúvio
de Deucalion!
- E o que aconteceu de particularmente engraçado nessa famosa ocasião, minha cara? - perguntou
Urgulanila.
- O quê, não sabes? Deus destruiu o mundo inteiro com um dilúvio, excepto Deucalion e a família e
alguns animais, que se refugiaram no cimo das montanhas. Não leste O Dilúvio, de Aristófanes? É a
minha preferida entre as peças dele. A cena tem lugar no Monte Parnasso. Vários animais estão
reunidos; infelizmente, apenas um de cada espécie e cada um deles se considera o único
sobrevivente da sua espécie. Por isso, para de alguma forma repovoar a terra com animais, eles têm
que acasalar uns com os outros e, apesar dos escrúpulos morais e das dificuldades óbvias, o Camelo
é prometido, por Deucalion, à Elefanta.
- Camelo e Elefanta! Essa é boa! - exclamou Urgulanila com uma risada. - Olha para o pescoço
comprido de Tibério Cláudio, o corpo magro e a cara idiota e alongada. E os pés grandes da minha
Urgulanila e as enormes orelhas de abano e os olhos pequeninos, como os de um porco! Ha, Ha,
Ha, Ha! E qual foi a descendência deles? Uma girafa? Ha, Ha, Ha, Ha!
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- A peça não vai tão longe. Iris aparece no palco para fazer o discurso do mensageiro e informa que
existe outro refúgio de animais no Monte Atlas. Iris interrompe o noivado mesmo a tempo.
- E o Camelo ficou decepcionado?
- Muito!
- E a Elefanta?
- A Elefanta limitou-se a fazer cara feia.
- Beijaram-se quando se separaram?
- Aristófanes não o diz. Mas tenho a certeza que sim. Vamos, Animais. Beijai-vos!
Eu fiz um sorriso idiota. Urgulanila fez cara feia.
- Beijai-vos, já disse, - insistiu Lívia, num tom que deixava claro que tínhamos que obedecer.
Portanto beijámo-nos, e pusemos as duas velhas outras vez a rir histericamente. Quando já
estávamos de novo fora do quarto, sussurrei para Urgulanila:
- Desculpa. Não é culpa minha.
Mas ela não respondeu; apenas me deitou um olhar mais furioso do que antes.
Ainda faltava um ano para que o casamento se realizasse, porque a família decidira que eu só
atingiria a idade aos quinze anos e meio e muita coisa podia acontecer entretanto. Se ao menos Iris
entrasse em cena!
Mas não entrou. Póstumo também estava com problemas: já atingira a idade e, agora, só faltavam
alguns meses para que Domícia tivesse também idade para casar. Meu pobre Póstumo... continuava
apaixonado por Livila, embora ela estivesse casada. Mas, antes de continuar com a história de
Póstumo, tenho que contar o meu encontro com o último dos Romanos.
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CAPÍTULO IX
O nome dele era Pólio e vou recordar exactamente as circunstâncias em que nos conhecemos, o que
aconteceu precisamente uma semana depois do meu noivado com Urgulanila. Eu estava a ler na
Biblioteca de Apolo, quando apareceram Lívio e um homenzinho idoso todo despachado, com uma
túnica de senador. Lívio dizia:
- Parece portanto que mais vale abandonarmos todas as esperanças de o encontrar, a menos talvez...
Bom, ali está Sulpício! Se alguém sabe, é ele! Bom dia, Sulpício! Preciso que faças um favor a
Asínio Pólio e a mim. Há um livro em que queremos dar uma vista de olhos, um comentário de um
grego chamado Polemocles às Tácticas Militares de Políbio. Acho que me lembro de o ter
encontrado aqui uma vez, mas não está mencionado no catálogo e os bibliotecários são
verdadeiramente incapazes.
Sulpício ficou um momento a mordiscar a barba e depois disse:
- Tendes o nome errado. Polemócrates é o nome e ele não era grego, apesar do nome, mas judeu. Há
uns quinze anos, recordo-me de o ter visto ali em cima, naquela prateleira, o quarto a contar da
janela, atrás, e na etiqueta do título lia-se apenas Dissertação sobre Táctica. Eu vou buscá-lo. Não
creio que, entretanto, o tenham mudado.
Nessa altura, Lívio viu-me.
- Olá, meu amigo, como vai isso? Conheces o famoso Asínio Pólio? Saudei-os e Pólio disse:
- O que estás a ler rapaz? Lixo, com certeza, pelo ar envergonhado com que o escondes. Hoje em
dia, os jovens só lêem porcarias. - Voltou-se para Lívio, - Aposto dez moedas em como é uma
porcaria do género A Arte do Amor, ou qualquer patetice pastoral arcádica ou outra coisa do
género.
- Aceito a aposta, - disse Lívio. - O jovem Cláudio não é de todo esse tipo de jovem. Bom, Cláudio,
qual de nós dois é que ganha? Respondi, gaguejando, e dirigindo-me a Pólio:
- Alegra-me dizer, senhor, que sois vós a perder. Pólio olhou-me de testa franzida, furioso:
- O que é que dizes? Alegra-te que seja eu a perder? Isso é maneira de falar a um velho como eu e,
ainda por cima, senador?
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- Bom, eu disse-o com todo o respeito, senhor. Alegra-me que sejais vós a perder. Não gostaria de
ouvir chamar lixo a este livro. É a vossa própria história das Guerras Civis e, se posso permitir-me
elogiá-lo, é um belo livro.
A expressão de Pólio mudou. Abriu-se num grande sorriso, soltou uma risada e puxou da bolsa,
empurrando as moedas para Lívio. Lívio, com quem parecia manter uma animosidade amistosa - se
é que sabeis o que quero dizer -, recusou-as com uma insistência cheia de falsa gravidade.
- Meu caro Pólio, não posso aceitar esse dinheiro. Tu estavas absolutamente certo: estes jovens hoje
em dia lêem as coisas mais vis. Nem mais uma palavra, por favor: eu concordo que perdi a aposta.
Aqui estão as minhas dez moedas de ouro e pago-as com todo o prazer.
Pólio apelou para mim.
- Vamos senhor, eu não sei quem sois, mas pareceis-me um rapaz com bom senso; já lestes as
obras do nosso amigo Lívio?
Sorri.
- Bom, pelo menos são mais fáceis de ler.
- Mais fáceis, einh? Como é isso?
- Ele faz o povo da Antiga Roma comportar-se e falar como se estivessem vivos agora.
Pólio estava deliciado.
- Ele apanhou-te, Lívio, no teu ponto mais fraco. Tu atribuis aos romanos de há sete séculos,
motivos, hábitos e falas impossivelmente modernos. Sim, é muito fácil de ler, mas não é história.
Antes de continuar a registar a sequência desta conversa, tenho que dizer algumas palavras sobre o
velho Pólio, talvez o homem mais dotado do seu tempo, mesmo mais do que Augusto. Tinha agora
quase oitenta anos, mas estava na posse plena das suas faculdades mentais e, aparentemente, com
melhor saúde física que muitos homens de sessenta. Tinha atravessado o Rubicão com Júlio César e
lutado com ele contra Pompeu; servira sob o comando do meu avô António, antes da sua disputa
com Augusto, tendo sido Cônsul e Governador da Hispânia Ocidental e da Lombardia e tendo
ganho um triunfo por uma vitória nos Balcãs. Fora amigo pessoal de Cícero, até que se decepcionou
com ele, e patrono dos poetas Virgílio e Horácio. Além de tudo isto, era um orador distinto e
escritor de tragédias. Mas era melhor historiador do que autor de tragédias ou orador, porque tinha o
amor da verdade literal, chegando mesmo ao campo do pedantismo, o que não conseguia conciliar
dentro das convenções destas outras formas literárias. Com os despojos da campanha dos Balcãs
tinha fundado uma biblioteca pública, a primeira biblioteca pública de Roma. Havia agora mais
duas: aquela onde nos encontrávamos e outra denominada de Octávia, em honra da minha avó;
mas a de Pólio
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estava muito melhor organizada para fins de leitura do que qualquer das outras.
Entretanto, Sulpício tinha encontrado o livro e, depois de lhe agradecerem, eles retomaram a
discussão.
Lívio disse:
- O problema de Pólio é que, quando ele escreve história, se sente obrigado a suprimir todos os
sentimentos mais belos e mais poéticos e fazer os seus personagens agirem com uma insipidez
conscienciosa e, quando põe palavras na sua boca, nega-lhes a mínima habilidade oratória. Pólio
disse:
- Sim, Poesia é Poesia, Oratória é Oratória e História é História; não se pode misturá-las.
- Não pode? Na verdade eu posso, - atalhou Lívio. - Pretendes dizer-me que eu não posso escrever
História com um tema épico, porque isso é uma prerrogativa da Poesia, ou pôr belos discursos de
vésperas de campanha na boca dos meus generais, porque compor tais discursos é prerrogativa da
Oratória?
- É precisamente isso que quero dizer. A história é o registo verdadeiro daquilo que aconteceu,
como as pessoas viveram e morreram, aquilo que fizeram e disseram; um tema épico apenas serve
para distorcer esse registo. Quanto aos discursos dos generais, eles são admiráveis como oratória,
mas terrivelmente dissociados da história: não só não há neles nada de factual, como são
inadequados. Ouvi mais discursos de véspera de campanha do que a maior parte dos homens e,
embora os generais que os faziam, especialmente César e António, fossem notáveis oradores
públicos, eram também demasiadamente bons soldados para tentarem fazer jogos de oratória com as
tropas. Falavam com eles num tom coloquial, não oratório. Que espécie de discurso fez César antes
da Batalha de Farsália? Acaso nos pediu para pensarmos nas nossas mulheres e filhos e nos templos
sagrados de Roma, nas glórias das nossas campanhas anteriores? Céus, não! Trepou ao tronco
cortado de um pinheiro, com um desses rabanetes gigantes numa mão e um naco de pão duro na
outra, gracejando entre duas mastigadelas. Nada de gracejos delicados, mas a realidade, dita da
forma mais directa: sobre quão casta era a vida de Pompeu comparada com a sua própria vida de
réprobo. As coisas que ele fez com aquele rabanete teriam feito rir um boi. Lembro-me de uma
anedota licenciosa sobre como Pompeu ganhou o seu cognome de O Grande Ah, aquele rabanete! -,
e outra ainda pior, sobre como ele próprio perdera o cabelo no Bazar de Alexandria. Contava-te
agora qualquer delas, se não estivesse aqui este rapaz, e também porque estou certo que não
entenderias bem a intenção, já que não foste educado no acampamento de César. Nem uma palavra
sobre a batalha que se avizinhava, a não ser
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no fim: ”Pobre velho Pompeu! Tomar armas contra Júlio César e os seus homens! Que
oportunidade pode ter!”
- Não puseste nada disso na tua história, - disse Lívio.
-Não nas edições para o público, - disse Pólio. - Não sou doido. Mesmo assim, se quiseres consultar
o Suplemento particular que acabei de escrever, encontrarás tudo isso lá. Mas talvez não te dês a
esse trabalho. Eu conto-te o resto: César era um mimo espantoso e reproduziu-lhes o discurso de
Pompeu à hora da morte, quando se preparava para cair sobre a sua espada (o rabanete de novo -
com a extremidade arrancada com os dentes). Invectivou os Deuses Imortais, em nome de Pompeu,
por sempre permitirem que o vício triunfasse sobre a virtude. Como eles se riam! E depois berrou:
”E não é verdade, embora Pompeu o diga? Negai se sois capazes, malditos cães fornicadores!” E
atirou-lhes o meio rabanete. O riso redobrou! Nunca houve soldados como os de César. Lembras-te
da canção que eles cantaram no seu triunfo sobre os gauleses?
Trazemos de volta o careca aproveitador de putas,
Romanos, trancai em casa as vossas mulheres.
Lívio disse:
- Pólio, meu caro, não estávamos a discutir a moral de César, mas a maneira correcta de escrever a
história.
Pólio replicou:
- Sim, é verdade. O nosso jovem amigo inteligente estava a criticar o teu método, sob o disfarce
respeitoso de louvar a tua clareza. Rapaz, tens mais algumas acusações a fazer a este nobre Lívio?
Eu disse:
- Por favor, senhor, não me façais corar. Admiro enormemente a obra de Lívio.
- A verdade, rapaz! lá alguma vez o apanhaste em algumas inexactidões históricas? Pareces-me um
indivíduo que lê bastante.
- Prefiro não tentar...
- Vamos, deita isso cá para fora. Tem que haver alguma coisa, Então eu disse:
- Há uma coisa que me confunde, confesso. É a história de Porsena. Segundo Lívio, Portela não
conseguiu capturar Roma, tendo sido impedido, em primeiro lugar, pelo comportamento heróico de
Horácio na ponte e, depois, desencorajado pela espantosa ousadia de Sabela; Lívio relata que
Sabela, capturado depois de uma tentativa para assassinar
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Porsena, enfiou a mão nas chamas do altar e jurou que trezentos romanos como ele se tinham unido
por um juramento para tirar a vida a Portela. E assim Lars Porsena fez a paz. Mas eu vi o túmulo
labiríntico de Lars Porsena em Oclusivo e há nele um friso de romanos a emergirem dos portões da
Cidade, sendo conduzidos sob um jugo. Há um sacerdote etrusco com uma tesoura a cortar as
barbas dos Senadores. E mesmo Dióniso de Halicarnasso, cuja disposição nos era muito favorável,
afirma que o Senado votou para Porsena um trono de marfim, um ceptro, uma coroa de ouro e uma
túnica triunfal; o que só pode querer dizer que lhe prestavam honras de soberano. Assim, talvez
Lars Porsena tenha capturado Roma, apesar de Horácio e Scaevola. E Aruns, o sacerdote de Cápua
(diz-se que ele é o último homem que sabe ler inscrições etruscas), disse-me no Verão passado que,
segundo os registos etruscos, o homem que expulsou os Tarquínios de Roma não foi Brutus, mas
Porsena, e que Brutus e Colatino, os primeiros dois Cônsules de Roma, eram apenas funcionários da
cidade nomeados para receber os impostos.
Lívio ficou muito zangado.
- Estou surpreendido contigo, Cláudio. Não tens respeito pela tradição romana, para dares ouvidos
dessa maneira às mentiras contadas pelos nossos inimigos antigos, para diminuir a nossa grandeza?
- Eu só perguntei, - respondi humildemente, - o que foi que aconteceu na realidade.
- Vamos, Lívio, - disse Pólio, - responde ao jovem estudante. O que aconteceu na realidade?
Lívio respondeu:
- Noutra altura. Agora, não nos afastemos do assunto em causa, que é uma discussão sobre a
maneira correcta de escrever a história. Cláudio, meu amigo, tu tens ambições nesse sentido. Qual
de nós dois, velhos consagrados, escolherás como modelo?
- Estão a tornar a situação muito difícil para o rapaz, seus invejosos,
- entrepôs Sulpício. - O que esperais que ele vos responda?
- A verdade não ofenderá nenhum de nós, - replicou Pólio. Olhei de um para o outro. Finalmente,
disse:
-Acho que escolheria Pólio. Como tenho a certeza que não posso ter esperanças de atingir a
inspirada elegância literária de Lívio, farei tudo o que puder para imitar a exactidão e diligência de
Pólio.
Lívio soltou um grunhido e preparava-se para se ir embora, mas Pólio deteve-o. Contendo a alegria,
tanto quanto lhe era possível, disse:
- Vamos, Lívio, não me vais regatear um pequeno discípulo, pois não, quando tu os tens em
regimentos por todo o mundo? Olha rapaz, já alguma vez ouviste falar no velho de Cádiz? Não, não
é uma história porca. Aliás, é um bocado triste. Ele veio a pé até Roma, para ver o quê? Não os
templos ou os teatros, nem as multidões, as lojas ou o edifício do
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Senado. Mas um homem. Que homem? O homem cuja cabeça está nas moedas? Não, não. Um
maior que ele. Ele veio ver nem mais nem menos que o nosso amigo Lívio, cujos trabalhos, ao que
parece, ele conhecia de cor. Viu-o, saudou-o e voltou directamente para Cádiz - onde morreu
imediatamente; a desilusão e a longa caminhada tinham sido demais para ele.
Lívio disse:
- De qualquer forma, os meus leitores são leitores genuínos. Rapaz, sabes como foi que Pólio
construiu a sua reputação? Bom, ele é rico e tem uma casa muito grande e bonita e um cozinheiro
espantosamente bom. Convida uma grande multidão de gente de letras para jantar, dá-lhes uma
refeição perfeita e, depois, com toda a naturalidade, pega no seu último volume de história. Diz
humildemente: ”Meus Senhores, há algumas passagens aqui das quais não estou muito seguro. Já as
trabalhei muito a sério, mas ainda precisam do polimento final para o qual conto convosco. Com
vossa licença...” Depois, começa a ler. Ninguém escuta com muita atenção. Todos estão de barriga
cheia. ”O cozinheiro é UM génio”, pensam todos eles. ”A mugem com molho picante, aqueles
tordos gordos recheados e o javali selvagem com trufas... quando foi a última vez em que eu comi
assim tão bem? Não desde a última leitura de Pólio, parece-me. Ah, aqui vem outra vez o escravo
com o vinho. Esse excelente vinho de Chipre. Pólio tem razão: é melhor do que qualquer vinho
grego que há no mercado.” Entretanto, a voz de Pólio - uma voz muito agradável de ouvir, como a
de um sacerdote no sacrifício da tarde durante o Verão -, continua com suavidade e, de vez em
quando, pergunta humildemente: ”Isto está bem, acham?” E todos respondem, pensando outra vez
nos tordos ou, talvez, nos pequenos bolinhos com fruta: ”Admirável. Admirável, Pólio.” De vez em
quando, faz uma pausa e pergunta: ”Bom, qual é a palavra certa para usar aqui? Devo dizer que os
enviados que regressavam persuadiram ou excitaram esta tribo à revolta? Ou devo antes dizer que o
relato que fizeram da situação influenciou a tribo na sua decisão de ir para a revolta? Na verdade,
penso, eles fizeram um relato imparcial daquilo que tinham visto.” Depois, um murmúrio ergue-se
dos leitos de repouso: ”Influenciou, Pólio. Usa influenciou!”. ”Obrigado, meus amigos”, diz ele,
”sois muito amáveis. Escravo, a minha faca e a pena! Se me desculpam, vou alterar imediatamente
a frase.” Depois, publica o livro e envia a cada um dos convivas um exemplar gratuito. Eles dizem
para os seus amigos, enquanto conversam nos Banhos Públicos: ”Livro admirável, este. já o leste?
Pólio é o maior historiador da nossa época, o que não o impede de pedir conselho em pequenas
questões de estilo a homens de bom gosto. Esta palavra influenciou fui eu mesmo que lha indiquei.”
Pólio retorquiu:
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- Isso é verdade. O meu cozinheiro é excelente. Da próxima vez, peço-te que me emprestes o teu e
algumas garrafas do chamado vinho de Falerno, e então terei algumas críticas sinceras.
Sulpício fez um gesto de súplica:
- Meus senhores, meus senhores, isto está a tornar-se pessoal. Lívio ia já a afastar-se. Mas Pólio
sorriu em direcção a ele e disse em voz alta, para que o ouvisse:
- Um tipo decente, esse Lívio, mas tem uma coisa má. Uma doença chamada Paduanidade.
Isto fez com que Lívio estacasse e desse meia volta.
- O que é que há de mal em Pádua? Não vou permitir que digam mal desse lugar.
Pólio explicou-me.
- Foi onde ele nasceu, sabes. Algures nas Províncias do Norte. Têm lá uma nascente de águas
termais com propriedades extraordinárias. Consegue-se sempre distinguir um paduano. Banhando-
se na água da nascente ou bebendo-a - e, segundo me dizem, fazem ambas as coisas ao mesmo
tempo -, os paduanos são capazes de acreditar naquilo que lhes apetece e fazem-no com tal força
que obrigam qualquer outra pessoa a acreditar também. É por isso que a cidade tem uma tão
maravilhosa reputação comercial. Os cobertores e tapetes que eles fazem não são na realidade
melhores do que os de qualquer outro lado; de facto, são até inferiores, porque os carneiros locais
são amarelos e têm uma lã grosseira, mas, para o paduano, são macios e brancos como penas de
pato. E persuadiram o resto do mundo de que assim é.
Eu disse, entrando no jogo dele:
- Carneiros amarelos! Isso é uma raridade. Como é que eles tomam essa cor?
- Ora, bebendo a água da nascente. Tem enxofre. Todos os paduanos são amarelos. Olha para Lívio.
Lívio encaminhou-se lentamente em direcção a nós.
- Uma graça é uma graça, Pólio, e eu sei aceitar uma graça. Mas está também em causa uma questão
séria, que é a maneira adequada de escrever história. Pode ser que eu tenha cometido erros. Qual o
historiador que está livre disso? Pelo menos, não contei falsidades deliberadamente: não me
acusareis disso. Qualquer episódio lendário contido em escritos históricos antigos e que tenha a ver
com o meu tema da antiga grandeza de Roma, terei todo o prazer em o incorporar na história.
Embora possa não ser verdadeiro quanto aos detalhes factuais, é verdadeiro no seu espírito. Se se
me deparam duas versões do mesmo episódio, escolho a que estiver mais próxima do meu tema e
não me encontrareis a fossar nos cemitérios etruscos à procura de um terceiro relato que possa
contradizer os outros dois. De que serviria isso?
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- Serviria a causa da verdade, - disse Pólio suavemente. - Isso não seria importante?
- E se, ao servir a causa da verdade, admitirmos que os nossos veneráveis antepassados foram
cobardes, mentirosos e traidores? Como é então?
- Vou deixar que seja este rapaz a responder a essa pergunta. Ele está a dar os primeiros passos.
Vamos, rapaz, responde!
Eu disse ao acaso:
- Lívio começa a sua história lamentando a maldade moderna e prometendo acompanhar o declínio
gradual da antiga virtude, à medida que as conquistas proporcionavam riqueza a Roma. Ele diz que
terá o maior prazer em escrever os capítulos iniciais porque, ao fazê-lo, conseguirá fechar os olhos à
maldade dos tempos modernos. Mas, ao fechar os olhos à maldade dos tempos modernos, não terá
ele por vezes fechado igualmente os olhos à maldade antiga?
- Então? - perguntou Lívio, semicerrando os olhos.
- Então, - fiquei à procura. - Talvez não haja muita diferença realmente entre a maldade deles e a
nossa. Pode ser apenas uma questão de lugar e oportunidade.
Pólio disse:
- Na realidade, rapaz, o paduano não conseguiu fazer-te ver as suas peles cor de enxofre como
brancas de neve?
Eu sentía-me muito constrangido.
- Tenho mais prazer na leitura de Lívio do que na de qualquer outro autor, - repeti.
- Sim, claro, - Pólio sorriu, - foi precisamente isso que disse o velho de Cádiz. Mas, tal como o
homem de Cádiz, sentes-te agora um pouco decepcionado, não é? Lars Porsena, Scaevola, Brutus e
companhia estão-te entalados na garganta?
- Não é decepção, senhor. Vejo agora, embora não tivesse pensado nisso antes, que há duas
maneiras distintas de escrever a história: uma, é levar os homens à virtude pela persuasão; a outra,
consiste em forçá-los a ver a verdade. A primeira é a maneira de Lívio; a outra é a vossa: e talvez as
duas não sejam irreconciliáveis.
- Bom, meu rapaz, tu és um orador, - disse Pólio maravilhado. Sulpício que estava apoiado numa
perna, segurando o pé com a mão, como era seu hábito quando estava excitado ou impaciente, e a
retorcer a barba formando nós, entrepôs:
- Sim, Lívio nunca terá falta de leitores. As pessoas adoram ser levadas à antiga virtude pela
persuasão e por um escritor cheio de encanto, particularmente quando lhes dizem ao mesmo tempo
que a civilização moderna tornou essa virtude inatingível. Mas os meros contadores de verdades -
”cangalheiros que expõem o cadáver da história”, para citar
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o epigrama do pobre Catulo sobre o nobre Pólio -, pessoas que não registam nada além daquilo que
realmente aconteceu, tais homens só conseguem ter quem os escute enquanto dispuserem de um
bom cozinheiro e de uma garrafeira de vinho cipriota
Isto deixou Lívio realmente furioso Declarou
- Pólio, esta conversa é inútil. Aqui o jovem Cláudio sempre foi considerado imbecil pela família e
pelos amigos, mas, até hoje, eu não tinha concordado com o veredicto geral. Podes ficar com o teu
discípulo E Sulpício pode aperfeiçoar-lhe a imbecilidade não há melhor professor para a
imbecilidade em Roma. - E deu-nos o seu golpe de parto: Et apud Apollinem istum Polhonis
Pollinctorem diutissime polleat O que quer dizer, embora o jogo de palavras se perca em grego: ”E
possa ele brilhar por muito tempo no santuário daquele Cangalheiro Apolo de Pólio.” Depois,
afastou-se com uma risada
Pólio gritou-lhe, alegremente
- Quod certe pollicitur Pollio. Pollucibiliter pollebit puer (”Pólio promete que o fará. O rapaz há-de
brilhar a grande altura”).
Quando ficámos sozinhos os dois, depois de Sulpício se ter afastado para procurar um livro, Pólio
começou a interrogar-me
- Quem és tu, rapaz? O teu nome é Cláudio, não é? É óbvio que vens de uma boa família, mas eu
não te conheço
- Sou Tibério Cláudio Druso Nero Germânico
- Meu Deus! Mas Lívio está certo A opinião geral é que és um imbecil
- Sim A minha família tem vergonha de mim porque gaguejo e sou coxo e estou muitas vezes
doente, por isso apareço pouco em sociedade
- Mas imbecil? És um dos jovens mais inteligentes que conheci de há muitos anos a esta parte
- Sois muito amável, senhor
- De maneira nenhuma Pelos Deuses, foi um grande golpe para o velho Lívio, aquela do Lars
Porsena. Lívio não tem consciência, essa é que é a verdade. Estou sempre a apanhá-lo. Perguntei-
lhe uma vez se tinha sempre a mesma dificuldade em encontrar as placas de latão que queria no
meio do lixo do Gabinete dos Registos Públicos. Ele respondeu ”Não, não tenho qualquer
dificuldade” E veio-se a saber que ele nunca tinha lá estado uma única vez, a confirmar o que quer
que fosse. Diz-me, porque estavas a ler a minha história?
- Estava a ler a vossa narrativa do cerco de Perúsia. O meu avô primeiro marido de Lívia, como
sabeis - esteve lá. Estou interessado naquela época e estou a reunir material para escrever a vida do
meu pai. O meu tutor, Atenodoro, indicou-me o vosso livro, disse que era verdadeiro. O meu antigo
tutor, Marco Pórcio Catão, dissera-me uma vez que era uma colecção de mentiras Por isso, senti-me
mais inclinado a acreditar em Atenodoro
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- Sim, Catão não havia de gostar do livro. Os da família dele lutaram do lado errado. Eu ajudei a
expulsar o avô dele da Sicília. Mas penso que és o primeiro historiador jovem que alguma vez
conheci. A história é um jogo de velhos. Quando vais ganhar batalhas como o teu pai e o teu avô?
- Talvez na minha velhice.
Ele riu-se.
- Não vejo razão para que um historiador que passou a vida a estudar tácticas militares não seja
invencível como comandante, se dispuser de boas tropas e de coragem...
- E de bons oficiais, - acrescentei, recordando Cléon.
- E de bons oficiais, sem dúvida, mesmo que ele nunca tenha realmente manejado uma espada ou
um escudo em toda a sua vida.
Tive a ousadia suficiente para perguntar a Pólio porque lhe chamavam frequentemente O último dos
Romanos. Ele pareceu satisfeito com a pergunta e replicou:
- Augusto deu-me esse nome. Foi na altura em que me convidou para me juntar a ele na sua guerra
contra o teu avô António. Perguntou-me por que espécie de homem ele me tomava: António fora
um dos meus melhores amigos. ”Asínio Pólio”, disse ele, ”acredito que és o último dos romanos. O
título não tem nada a ver com aquele assassino do Cássio.” ”E se eu sou o último dos romanos,”
repliquei, ”quem tem culpa disso? E de quem será a culpa quando tiverdes destruído António, se
ninguém a não ser eu jamais ousara ficar de cabeça erguida na vossa presença ou falar quando lhe
apetece?” ”Minha não, Asínio”, disse, como que a desculpar-se: ”foi António que declarou a guerra,
não eu. E, logo que António tiver sido derrotado, vou evidentemente reinstaurar um governo
republicano.” (se Dona Lívia não interpuser o seu veto, poderia acrescentar-se). Nesta altura, o
velho homem tomou-me pelos ombros.
- A propósito, vou dizer-te uma coisa, Cláudio. Eu já tenho muita idade e, embora o meu espírito
esteja lúcido, já cheguei ao fim. Dentro de três dias estarei morto, eu sei. Pouco antes de uma pessoa
morrer, vem-lhe uma estranha lucidez. Diz palavras proféticas. Agora ouve! Queres viver uma
longa vida activa, com honra no final?
- Sim.
- Então, exagera o teu coxear, gagueja deliberadamente, finge-te doente com frequência, deixa o teu
espírito vaguear, sacode a cabeça e faz movimentos bruscos com as mãos em todas as ocasiões
públicas e semi-públicas. Se pudesses ver aquilo que eu vejo, saberias que esta é a tua única
esperança de salvação e, eventualmente, de glória.
Eu disse:
- A história de Lívio sobre Brutus - refiro-me ao primeiro Brutus pode não ser histórica, mas é
adequada. Brutus também fingiu ser um imbecil, para melhor poder restabelecer a liberdade
popular.
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- O que é isso? Liberdade popular? Acreditas nisso? Julgava que a frase tinha morrido para a
geração mais jovem.
- Meu pai e meu avô ambos acreditavam nela...
- Sim, - interrompeu Pólio com aspereza, - foi por isso que morreram.
- O que quereis dizer?
- Quero dizer que foi por isso que foram envenenados.
- Envenenados! Por quem?
- Hmm! Não tão alto, rapaz. Não, não vou falar em nomes. Mas vou dar-te uma indicação segura de
que não estou apenas a repetir escândalos sem fundamento. Estás a escrever uma biografia do teu
pai, disseste?
- Sim.
- Bom, verás que não te vai ser permitido ir além de um certo ponto nesse trabalho. E a pessoa
que te impedir...
Sulpício voltou a arrastar os pés e nada mais de interesse foi dito, excepto quando me despedi de
Pólio e ele me puxou para o lado e murmurou:
- Pequeno Cláudio, adeus! Mas não sejas tolo sobre essa questão da liberdade popular. Isso não
pode vir ainda. As coisas têm que se tornar muito piores antes de poderem melhorar. - Depois,
levantou a voz, - Mais uma coisa. Se, depois de eu morrer, encontrares algum ponto importante nas
minhas obras que te pareça menos histórico, dou-te permissão e vou estipular que tens autoridade,
para por as correcções num suplemento. Mantém-nas em dia. Os livros, quando perdem a
actualidade, só servem para embrulhar o peixe.
Respondi que esse seria um dever honroso.
Três dias depois, Pólio morreu. Deixou-me no seu testamento uma colecção de histórias latinas
primitivas, mas as mesmas não me foram entregues. Meu tio Tibério disse que era engano: que a
intenção era deixar-lhas a ele, os nossos nomes é que eram muito semelhantes. Quanto à sua
determinação sobre a minha autoridade para fazer correcções, toda a gente achou que se tratava de
uma brincadeira; mas eu cumpri a promessa que fizera a Pólio, uns vinte anos mais tarde. Descobri
que ele escrevera com muita severidade sobre o carácter de Cícero - um indivíduo vaidoso,
vacilante, timorato - e, embora não discordasse deste veredicto, senti a necessidade de assinalar que
ele não era também um traidor, como Pólio o retratara. Pólio baseara-se em alguma correspondência
de Cícero que eu consegui provar ter sido forjada por Clódio Pulcro. Cícero conquistara a inimizade
de Clódio, ao servir de testemunha contra ele quando o acusaram de ter assistido ao sacrifício da
Boa Deusa disfarçado de mulher-música. Este Clódio era outro dos maus Claudianos.
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CAPíTULO X
Quando atingiu a idade, Tibério recebera recentemente ordens de Augusto no sentido de adoptar
Germânico como filho, embora já tivesse Castor como herdeiro, transferindo-o assim da família
Claudiana para a Juliana. Assim me encontrei como chefe do ramo mais velho dos Claudianos e na
posse indisputável do dinheiro e das propriedades herdadas do meu pai. Tornei-me tutor da minha
mãe - entretanto, ela tinha voltado a casar -, o que ela encarou como uma humilhação. Tratava-me
com bastante mais severidade do que antigamente, embora todos os seus documentos de negócios
tivessem que passar por mim primeiro para serem assinados e eu fosse o sacerdote da família. A
cerimónia da minha maioridade contrastou curiosamente com a de Germânico. Vesti a minha túnica
de homem à meia-noite e, sem quaisquer assistentes ou procissão, fui levado para o Capitólio numa
liteira, onde executei o sacrifício, tendo sido levado de volta para a cama, Germânico e Póstumo
teriam comparecido, mas, para chamar o menos possível as atenções sobre mim, Lívia tinha
arranjado nessa noite um banquete no Palácio, ao qual eles não podiam ser dispensados de assistir.
Quando casei com Urgulanila, aconteceu a mesma coisa. Muito poucas pessoas tiveram
conhecimento do nosso casamento até ao dia seguinte à celebração. Não houve nada de irregular na
cerimónia. Os sapatos cor de açafrão de Urgulanila e o véu cor de fogo, a observação dos auspícios,
a ingestão do bolo sagrado, os dois banquinhos cobertos com pele de carneiro, a libação que eu
servi, o unguento que apliquei nela à entrada da porta, as três moedas, o presente que lhe dei de
fogo e água - tudo em boa ordem, excepto a procissão dos archotes, que foi omitida, e o facto de
todo o cerimonial ter sido levado a cabo sem empenhamento, à pressa e sem graça. Para que não
tropece no limiar da casa do noivo, a primeira vez que lá entra, uma noiva romana é sempre erguida
ao passá-lo. Os dois Claudianos encarregados de o fazer eram ambos idosos e não estavam à altura
do peso dela. Um deles escorregou no mármore e Urgulanila caiu com uma pancada seca,
arrastando-os com ela e ficando os três estatelados uns por cima dos outros. Não há pior presságio
para um casamento que uma coisa dessas. No entanto, seria falso se disséssemos que foi um
casamento infeliz; não havia tensão suficiente
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entre nós para justificar o termo infeliz. A princípio, dormíamos juntos, porque parecia ser
isso que esperavam de nós; e tivemos mesmo, ocasionalmente, relações sexuais - a minha
primeira experiência de sexo -, porque isso também parecia fazer parte do casamento e não
por luxúria ou afeição. Fui sempre tão atencioso e delicado com ela quanto possível e ela
recompensava-me com indiferença, que era o melhor que eu podia esperar de uma mulher
com o seu carácter. Ficou grávida três meses depois do casamento e deu-me um filho chamado
Drusilo, em relação a quem me foi impossível nutrir qualquer sentimento paternal. Saíu a
minha irmã Livila na malevolência e ao irmão de Urgulanila, Pláucio, no resto do seu
carácter. Em breve vos falarei de Pláucio, que era o meu exemplo e modelo moral, nomeado
por Augusto.
Augusto e Lívia tinham o hábito metódico de nunca chegarem a qualquer decisão sobre um
assunto importante relacionado com a família ou com o Estado sem a registarem por escrito,
tanto no que dizia respeito a uma decisão como às deliberações que conduziam a ela,
geralmente sob a forma de cartas trocadas entre ambos. Do conjunto da correspondência que
deixaram para trás ao morrer, fiz várias transcrições, que ilustram a atitude de Augusto em
relação a mim nesta altura. O primeiro extracto data de três anos antes do meu casamento.
Minha querida Lívia,
É meu desejo registar algo de estranho que aconteceu hoje. Nem sei como interpretar tal coisa.
Estava a falar com Atenodoro e calhou dizer-lhe: ”Receio que o papel de tutor do jovem Tibério
Cláudio seja uma tarefa muito cansativa. Parece-me que ele toma dia após dia um ar mais infeliz,
nervoso e incapaz.” Atenodoro disse: ”Não julgueis o rapaz com demasiada severidade. Ele sente
profundamente a decepção da família em relação à sua pessoa e as humilhações que encontra por
toda a parte. Mas está muito longe de ser um incapaz e, quer acrediteis quer não, tenho muito prazer
na sua companhia. Nunca o ouvistes declamar, pois não?” ”Declamar!”, exclamei, rindo. ”Sim,
declamar”, repetiu Atenodoro. ”Deixai que vos faça uma sugestão. Escolhei um tema para ele
declamar e, dentro de meia hora, vinde ouvir o que ele fez daí. Mas escondei-vos atrás de uma
cortina, ou não ouvireis nada que valha a pena.” Escolhi o tema Conquistas Romanas na Germânia
e, quando me pus à escuta meia hora mais tarde atrás daquela cortina, nunca me senti tão admirado
em toda a minha vida. Ele tinha os factos na ponta dos dedos, os tópicos principais eram bem
escolhidos e os pormenores colocados na relação correcta e na proporção devida; mais do que isso,
a voz estava sob controlo e ele não gaguejava. Deus me faça cair morto se não foi verdadeiramente
agradável e instrutivo ouvi-lo! Mas como é que um indivíduo cuja conversa diária é tão
desesperadamente tola, consegue fazer um discurso
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113

organizado, e em pouco tempo, num estilo tão perfeitamente racional e mesmo erudito, é uma coisa que eu
não entendo. Afastei-me silenciosamente, pedindo a Atenodoro que não mencionasse o facto de eu ter estado
ali ou como ficara surpreendido; mas sinto-me na obrigação de vos contar o sucedido e mesmo de sugerir que,
a partir de agora, lhe permitíssemos ocasionalmente que jantasse connosco à noite, quando houver poucos
convidados presentes, com a condição dele ficar de boca calada e com os ouvidos bem abertos. Se houver,
como me sinto inclinado a acreditar, alguma esperança de que ele se venha a tornar um membro responsável
da família, devia habituar-se gradualmente a misturar-se com os seus iguais do ponto de vista social. Não
podemos mantê-lo eternamente aferrolhado com os seus professores e libertos. Existe, claro está, uma grande
disparidade de opiniões sobre a questão das suas capacidades mentais. Seu tio Tibério, a mãe Antónia e a irmã
Livila são unânimes em o considerar um idiota. Por outro lado, Atenodoro, Sulpício, Póstumo e Germânico
juram que ele é tão sensato, quando quer, como qualquer homem, mas que é facilmente desestabilizado pelo
nervosismo. Eu, pela minha parte, não consigo ainda chegar a uma conclusão a esse respeito.
Ao que Lívia respondeu:
Meu querido Augusto,
A surpresa que tivestes atrás daquela cortina não foi maior nem inferior à surpresa que tivemos em tempos
quando o Embaixador Indiano tirou o pano de seda que cobria a gaiola dourada que o seu senhor o Grande
Rei nos tinha enviado, e nós vimos a ave Papagaio pela primeira vez, com as suas penas cor de esmeralda e o
colar cor de rubi e o ouvimos dizer ”Avé, César, Pai da Pátria!” Não foi a importância da frase, porque
qualquer criança balbuciante é capaz de a dizer, mas o facto de ser um pássaro a pronunciá-la. E ninguém, a
não ser um tolo, louvaria o Papagaio pela sua esperteza em ter pronunciado as palavras certas, porque ele não
sabia o significado de nenhuma delas. O crédito vai para o homem que treinou a ave, com uma paciência
incrível, a repetir a frase, porque, como sabeis, para outras ocasiões ele está treinado a dizer outras coisas; e,
numa conversa geral, ele diz os disparates mais arrogantes e nós temos que lhe tapar a gaiola para o calar.
Assim acontece com Cláudio, embora não seja muito lisonjeira para o Papagaio, uma ave inegavelmente bela,
compará-lo com o meu neto: aquilo que ouvistes foi, sem sombra de dúvida, um discurso que, por
coincidência, ele tinha aprendido de cor. Afinal, As Conquistas Romanas da Germânia é um assunto muito
óbvio e Atenodoro pode muito bem tê-lo treinado a pronunciar com perfeição meia dúzia ou mais
declamações modelo do mesmo tipo. Mas atenção, eu não estou a dizer que não fiquei satisfeita em saber que
ele é tão permeável ao
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treino: estou extremamente satisfeita. Isso quer dizer, por exemplo, que poderemos treiná-lo para a cerimónia
do seu casamento. Mas a sugestão de o deixarmos jantar connosco é ridícula. Recuso-me a comer na mesma
sala que esse indivíduo: teria uma indigestão.
Quanto ao testemunho a favor da sua sanidade mental, examinai-o. Germânico, ainda criança, jurou ao pai
moribundo amar e proteger o irmão mais novo. Conheceis a nobreza de alma de Germânico e sabeis que, para
não trair essa incumbência sagrada, seria capaz de apresentar sob a melhor luz possível a inteligência do
irmão, na esperança de que um dia ela pudesse melhorar. É igualmente óbvio por que razão Atenodoro e
Sulpício fingem considerá-lo susceptível de melhorar: são bem pagos para isso e as suas funções dão-lhes
uma desculpa para andarem pelo Palácio e darem-se ares de conselheiros privados. Quanto a Póstumo, há
meses que me queixo; é verdade que não consigo de todo entender esse jovem. Considero que a Morte foi
extremamente injusta ao levar os seus dois talentosos irmãos, deixando-o apenas a ele. Ele adora entrar em
discussão com os mais velhos, em situações em que a discussão é desnecessária, pois os factos estão para
além de qualquer discussão, apenas para nos exasperar e mostrar a sua importância como vosso único neto
vivo. A sua defesa da inteligência de Cláudio é um caso agudo. Ele foi absolutamente insolente comigo no
outro dia, quando eu fiz um comentário no sentido de que Sulpício estava a perder o seu tempo a ensinar o
rapaz: disse mesmo que, na sua opinião, Cláudio tinha uma inteligência mais penetrante do que a maior parte
dos seus parentes mais próximos
- o que, suponho, tinha a intenção de me incluir! Mas Póstumo é outro problema. De momento, a questão gira
em volta de Cláudio: não posso, repito, aceitar que jante na minha companhia, por razões de ordem física que
espero compreendais.
Lívia
Augusto escreveu a Lívia um ano mais tarde, quando ela estava ausente por alguns dias no campo:
Quanto ao jovem Cláudio, vou aproveitar a vossa ausência para o convidar para cear comigo todas as noites.
Admito que a presença dele ainda me constrange, mas não acho que seja bom para ele jantar sempre sozinho
com Sulpício e Atenodoro. A conversa que tem com eles é exclusivamente centrada nos livros e, ainda que
ambos sejam pessoas excelentes, não são os companheiros ideais para um rapaz com a idade e posição dele.
Desejaria sinceramente que escolhesse um jovem de posição em cuja postura, maneira de vestir e
comportamento se pudesse inspirar. Mas a sua timidez e falta de confiança em si próprio impedem-no. Adora
o nosso querido Germânico como um herói, mas sente tão profundamente
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as suas próprias limitações que nunca ousaria imitá-lo, da mesma forma que eu próprio não ousaria andar
por aí vestido com uma pele de leão e uma clava e chamar a mim mesmo Hércules. A pobre criatura é infeliz;
pois em questões importantes (quando o seu espírito não está a divagar) a sua nobreza de coração torna-se
bem evidente...
Uma terceira carta, escrita pouco depois do meu casamento, quando eu acabava de ser nomeado sacerdote de
Marte, é também interessante:
Minha querida Lívia,
Tal como me aconselhastes, discuti com o nosso Tibério o que havemos de fazer em relação ao jovem
Cláudio, quando estes Jogos em honra de Marte se realizarem. Agora que ele atingiu a maioridade e foi
nomeado para o lugar vago no Colégio dos Sacerdotes de Marte, não podemos adiar muito mais a nossa
decisão quanto ao seu futuro. Estamos de acordo neste ponto, não é verdade? Se ele é suficientemente são de
espírito e de corpo para ser eventualmente reconhecido como membro respeitável da família - como estou
convencido que é, senão não teria adoptado Tibério e Germânico, deixando-o a ele como chefe do ramo
principal da casa Claudiana -, então é evidente que ele deve ser acompanhado, recebendo as mesmas
oportunidades de progresso que Germânico. Admito que posso continuar enganado - as suas melhorias
recentes não foram espectaculares. Mas, se decidirmos que, afinal, as enfermidades do seu corpo estão ligadas
a uma enfermidade crónica do espírito, não devemos dar às pessoas maliciosas a oportunidade de troçarem
dele e de nós. Repito, temos que decidir rapidamente e de uma vez por todas como encarar o rapaz, quanto
mais não seja porque seria um incómodo e um constrangimento constantes se tivéssemos que decidir de novo
em cada ocasião que se apresentasse se o considerávamos ou não capaz de empreender os deveres de Estado
para os quais o seu nascimento o recomenda.
Bom, a questão imediata é o que fazer com ele nestes Jogos. Eu não teria qualquer objecção a que o
encarregassem da messe dos sacerdotes, mas com a condição dele deixar tudo nas mãos do cunhado, o jovem
Pláucio Silvano, fazendo apenas o que lhe disserem. Ele pode aprender muito desta forma e não há razão para
que caia em desgraça se aprender bem a lição. Mas claro que está fora de questão que ele se sente comigo no
camarote Presidencial, juntamente com a estátua Sagrada, porque toda a gente no teatro estará constantemente
a olhar nessa direcção e qualquer singularidade no seu comportamento seria logo comentada.
Outro problema é o que fazer com ele no Festival Latino. Germânico vai para o Monte Albano com os
Cônsules, para tomar parte no sacrifício, e Cláudio deseja, segundo ouvi dizer, ir com ele. Mas, mais uma vez,
não
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tenho a certeza se podemos confiar em que não faça papel de tolo. Germânico vai estar ocupado
com os seus deveres e será incapaz de tomar conta dele durante todo o tempo. E se ele realmente
for, as pessoas vão querer saber o que está lá a fazer, vão perguntar porque não o nomeámos
Guardião da Cidade em Roma enquanto durar o festival, na ausência dos magistrados - uma honra
que, deveis estar lembrada, atribuímos sucessivamente a Caio, Lúcio, Germânico, ao jovem Tibério
e a Póstumo, logo que atingiram a maioridade, como estreia nas funções oficiais. A melhor maneira
de sair desta dificuldade é anunciar que ele está doente, porque, claro está, nomeá-lo Guardião da
Cidade está fora de questão.
Se desejardes mostrar esta carta a Antónia, não tenho qualquer objecção: garanti-lhe que não
tardaremos a tomar uma decisão sobre o filho, de uma forma ou de outra. É uma posição
incongruente para ela estar legalmente sob a sua tutoria.
Augusto
À parte ter sido o meu primeiro cargo público, não há nada de notável a registar sobre a minha
gestão da messe dos sacerdotes. Pláucio, um homenzinho vaidoso, elegante e presumido, fez todo o
trabalho por mim e nem sequer se deu ao trabalho de me explicar o sistema de aprovisionamento e
as regras de precedência sacerdotal; recusou-se mesmo a responder às minhas perguntas sobre tais
assuntos. Tudo o que fez foi treinar-me em certos gestos e frases formais que eu devia usar ao
receber os sacerdotes e em várias fases da refeição, proibindo-me de voltar a abrir a boca. Isto foi
extremamente desagradável para mim porque, em muitas ocasiões, poderia ter participado na
conversa de forma útil e o meu silêncio e subserviência a Pláucio causaram má impressão. Os jogos
em si não cheguei a vê-los.
Haveis de ter notado os comentários depreciativos de Lívia sobre Póstumo. A partir desta altura,
eles tornaram-se cada vez mais frequentes nas cartas dela e Augusto, embora a princípio tentasse
defender o neto, vem a admitir gradualmente que está decepcionado com ele. Acho que Lívia deve
ter dito a Augusto muito mais do que consta na sua correspondência, para que Póstumo tivesse
perdido tão facilmente a sua protecção, mas certas coisas são notórias. Primeiro, Tibério ter-se-ia
queixado; segundo, as palavras de Lívia, acerca de um comentário atrevido de Póstumo sobre a
Universidade de Rodes. Depois Catão, ainda segundo relato de Lívia, queixa-se das más influências
de Póstumo sobre os estudantes mais novos, desafiando a sua disciplina; depois, Lívia apresenta os
relatórios confidenciais de Catão, dizendo que os reteve todo esse tempo na esperança de que
houvesse uma mudança. A seguir, vêm as referências cheias de preocupação à sua melancolia e
mau humor, esta foi a época em que Póstumo se decepcionou com Livila e sofreu o
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desgosto da morte do irmão Caio. Segue-se uma recomendação, quando ele atinge a maioridade,
para que toda a herança que lhe vem do pai, Agripa, não seja posta em seu nome nos anos mais
próximos, pois isso ”poderia dar-lhe a oportunidade de uma libertinagem ainda maior que aquela a
que já se entrega!” Quando é alistado juntamente com os outros jovens em idade militar, vai para a
Guarda como simples tenente e não recebe qualquer das honras extraordinárias concedidas a Caio e
Lúcio. O próprio Augusto é de opinião que este é o caminho mais seguro, pois Póstumo é
ambicioso: não deve criar-se o mesmo tipo de situação constrangedora ocorrida quando os jovens
nobres apoiaram Marcelo contra Agripa ou Caio contra Tibério. Em breve, Póstumo reagirá mal a
isto, dizendo a Augusto que não deseja as honras pelas honras em si, mas porque o facto de não lhe
terem sido conferidas foi mal interpretado pelos seus amigos, que acreditam que ele está mal visto
no Palácio.
Depois vêm alguns sinais mais graves. Póstumo perdeu a calma com Pláucio - mas nenhum dos
dois dirá a Lívia, mais tarde, quais as circunstâncias que envolveram o desentendimento -, que
levantou e atirou para uma fonte, na presença de vários homens de posição e dos seus lacaios. E
então chamado a prestar contas a Augusto e não mostra arrependimento, insistindo que Pláucio
merecia o mergulho por ter falado comigo de forma insultuosa; simultaneamente, queixa-se a
Augusto de que a sua herança está a ser injustamente retida. Não tarda a ser repreendido por Lívia
pela mudança nas suas maneiras e pelo mau humor contra ela. ”O que foi que te envenenou?”,
pergunta. Ele responde com um sorriso: ”Talvez andeis a pôr alguma coisa na minha sopa.” Quando
ela lhe pede uma explicação para esta brincadeira extraordinária, ele replica, com um sorriso ainda
mais dúbio: ”Pôr coisas na sopa é um velho truque das madrastas.” Pouco depois disto, Augusto
recebe uma queixa do general de Póstumo, pelo facto dele não se misturar com os outros jovens
oficiais e passar todo o tempo livre no mar a pescar. Isso fez-lhe ganhar a alcunha de Neptuno.
Os meus deveres como sacerdote de Marte não eram árduos e Pláucio, que era sacerdote no mesmo
colégio, foi informado de que devia vigiar-me sempre que houvesse alguma cerimónia. Eu
começava a odiar Pláucio. A observação insultuosa pela qual Póstumo o atirara para a fonte era
apenas uma de muitas. Tinha-me chamado lémure e dissera que só a lealdade para com Augusto e
Lívia o impedia de cuspir para cima de mim cada vez que eu lhe fazia perguntas tolas e
supérfluas.
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CAPÍTULO XI
O ano anterior a eu atingir a maioridade e casar, tinha, sido um ano mau para Roma. Houve
uma série de terramotos no sul de Itália, que destruíram várias cidades. Na primavera,
pouca chuva caiu e as culturas tinham um ar miserável por todo o país. Depois, pouco antes
das colheitas, houve chuvas torrenciais que dobraram e estragaram os poucos pés de milho
que chegaram a dar maçarocas. As chuvadas foram tão violentas que o Tibre levou a ponte
e tornou a parte baixa da Cidade navegável por barco durante sete dias. A fome era uma
ameaça e Augusto enviou emissários ao Egipto e a outros lados para comprar grandes
quantidades de trigo. Os celeiros públicos tinham sido esvaziados por causa de uma má
colheita no ano anterior embora não tão má como esta. Os enviados conseguiram comprar
algum trigo, mas por um preço muito alto e não em quantidade suficiente. Houve muita
aflição nesse Inverno, tanto mais que Roma estava superpovoada a população da Cidade
dobrara nos últimos vinte anos; e Óstia, o porto, era de navegação insegura durante o
Inverno, o que fazia com que os comboios marítimos de grão apenas pudessem livrar a sua
carga passado semanas. Augusto fez o possível para restringir a fome. Temporariamente,
baniu de Roma várias famílias, obrigando-as a ir viver para a província, nunca a menos de
100 milhas de Roma, apontando uma comissão de supervisão composta por ex-cônsules.
Proibiu também os banquetes públicos, incluindo no dia do aniversário do próprio. Muito
do grão era importado às suas próprias custas, sendo distribuído sem encargos aos mais
necessitados. Como de costume, a fome trouxe consigo tumultos que, por sua vez,
trouxeram consigo incêndios: ruas inteiras de lojas eram incendiadas à noite por magotes
meio-esfomeados, provenientes dos bairros operários. Augusto organizou uma brigada de
vigilantes nocturnos, composta por sete divisões, no sentido de evitar este tipo de
ocorrências. Essa brigada provou ser tão útil, que nunca seria extinta. Mas foram enormes
os danos provocados pelos tumultuosos. Por esta altura, foi criado um novo imposto, no
sentido de reunir dinheiro para as guerras Germânicas; deste modo, com a fome, os
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incêndios e os impostos, os cidadãos comuns começaram a impacientar-se e a discutir


abertamente a necessidade de uma revolução. Vários manifestos eram pregados à noite na
porta de edifícios públicos. Dizia-se que estava em curso uma grande conspiração. O
senado ofereceu uma recompensa por informações que levassem à captura dos cabecilhas, e
foram muitos os que a tentaram merecer, dando informações contra os seus vizinhos; mas
isto apenas serviu para aumentar a confusão. Ao que parece, não existia nenhuma
conspiração; apenas se falava com esperanças de que houvesse uma. Por fim, o trigo
começou a vir do Egipto, onde a colheita se faz muito mais cedo do que aqui, e a tensão
abrandou.
Entre as pessoas afastadas de Roma durante a fome, estavam os gladiadores. Não eram
numerosos, mas Augusto pensou que, se houvesse distúrbios civis, o mais provável seria
que eles assumissem um papel perigoso. Formavam um bando de desesperados, pois alguns
eram homens de posição que tinham sido vendidos como escravos por causa de dívidas a
compradores que tinham concordado em os deixar ganhar o preço da sua liberdade lutando
enquanto gladiadores. Se um jovem cavalheiro contraía dívidas, como algumas vezes
acontecia, sem que fosse por sua culpa ou por actos impensados da juventude, os parentes
distantes salvavam-no da escravatura; ou então, era o próprio Augusto a intervir. Por isso,
esses cavalheiros lutadores eram homens que ninguém considerara que valessem ser salvos
do seu destino e que, tornando-se os chefes naturais da Guilda do Gladiadores, tinham o
perfil indicado para chefiar uma rebelião armada.
Quando as coisas melhoraram foram chamados de volta e foi decidido pôr toda a gente de
bom humor, exibindo uma grande luta pública de gladiadores e uma caçada aos animais
selvagens nos nomes de Germano e no meu próprio, em memória do nosso pai. Lívia
desejava fazer recordar a Roma os seus grandes feitos, com a intenção de chamar as
atenções para Germano, que se parecia tanto com ele e que, em breve, esperava-se, seria
enviado para a Germânia para ajudar seu tio Tibério, outro soldado famoso, a ganhar ali
novas vitórias. A minha mãe e Lívia contribuíram para as despesas do espectáculo, mas o
fardo maior recaiu sobre mim e Germano. No entanto, considerou-se que Germano, na sua
posição, precisava de mais dinheiro do que eu; por isso, minha mãe explicou-me que seria
normal eu contribuir com o dobro do que ele contribuía. Fiquei muito contente em fazer
tudo o que podia por Germano. Mas quando descobri, depois de tudo terminar, aquilo que
se tinha gasto, fiquei estupefacto; o espectáculo foi planeado sem olhar a custos e, além das
despesas habituais da luta de gladiadores e da caçada aos animais selvagens, lançámos
chuvas de moedas de prata à populaça.
Na procissão até ao anfiteatro, Germano e eu viajámos, por decreto do Senado, no velho
carro de guerra do nosso pai. Acabávamos de oferecer
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um sacrifício em sua memória, no grande túmulo que Augusto construíra para si próprio
quando viesse a morrere onde tinha enterrado as cinzas do nosso pai, juntamente com as de
Marcelo. Descemos a Via Ápia e passámos por baixo do arco dedicado ao nosso pai, sobre
o qual se via a colossal figura equestre que o representava e que fora decorada com ramos
de loureiro em honra da ocasião. Soprava um vento nordeste e os médicos não me
permitiam que saísse sem uma capa; por isso, com uma só excepção, eu era a única pessoa
presente na luta de gladiadores (onde, enquanto co-Presidente, me sentei ao lado de
Germano) que usava capa. A excepção era o próprio Augusto, que se sentava do outro lado
de Germano. Ele era muito sensível ao calor e ao frio extremos e, no Inverno, usava nada
menos que quatro casacos, além duma túnica muito espessa e de um casaco comprido.
Alguns dos presentes viram um augúrio nesta semelhança entre as minhas roupas e as de
Augusto, comentando ainda que eu nascera no primeiro dia do mês que tinha o nome dele e
também na cidade de Lião, no mesmo dia em que ele dedicara ali um altar a si próprio. De
qualquer forma, foi isso que eles disseram que tinham dito, muitos anos depois. Lívia
também estava no camarote uma honra especial que lhe era conferida como mãe de meu
pai. Normalmente, sentava-se com as Virgens Vestais. A regra era que as mulheres e os
homens se sentassem separadamente.
Foi a primeira luta de gladiadores a que me foi permitido assistir e, por essa razão, era
ainda mais embaraçoso para mim encontrar-me no Camarote do Presidente. Germano fez
todo o trabalho, embora fingisse consultar-me quando era preciso tomar alguma decisão, e
levou a tarefa por diante com muita segurança e dignidade. Por sorte minha, esta luta foi a
melhor que alguma vez se exibiu no anfiteatro. No entanto, sendo a primeira para mim, não
consegui apreciar a sua excelência, por não ter outras demonstrações prévias às quais
recorrer para fins comparativos. Mas certamente que nunca vi outra melhor depois e devo
ter visto cerca de um milhar de lutas importantes. Lívia queria que Germano ganhasse
popularidade como filho de seu pai e não se poupara a despesas para contratar os melhores
lutadores de Roma para darem tudo por tudo. Habitualmente, os gladiadores profissionais
eram muito cuidadosos em não se magoarem a si próprios nem aos outros e gastavam a
maior parte das sua energia em ataques simulados, paradas e arremetidas que pareciam e
soavam homéricas mas que, na realidade, eram perfeitamente inofensivas, como os golpes
que os escravos davam uns aos outros com os cacetes de palco em espectáculos de baixa
comédia. Só ocasionalmente, quando se enraiveciam uns com os outros ou se tinham
algumas velhas contas a ajustar, é que valia a pena observá-los. Desta vez, Lívia tinha
reunido os chefes da Guilda dos Gladiadores e disse-lhes que queria ser compensada pelo
dinheiro que gastara. A menos que cada luta fosse real,
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ela faria dissolver a guilda: tinha havido demasiadas lutas combinadas no Verão anterior.
Assim, os lutadores foram prevenidos pelos mestres da guilda que, desta vez, não poderia
haver moleza, ou seriam despedidos.
Nos primeiros seis combates um homem foi morto, outro tão gravemente ferido que morreu
nesse mesmo dia e um terceiro ficou com o braço que envergava o escudo decepado pelo
ombro, o que causou trovoadas de riso. Em cada um dos outros três combates, um dos
homens foi desarmado pelo seu contendor, mas não antes de ter dado tão boa conta de si
próprio que Germano e eu, quando chamados a pronunciar-nos, pudemos confirmar a
aprovação da assistência, erguendo os polegares em sinal de que a sua vida devia ser
poupada. Um dos vencedores tinha sido um cavaleiro rico, um ou dois anos antes. Em todos
estes combates, a regra era que os antagonistas não deviam lutar com o mesmo tipo de
arma. Era espada contra lança, ou espada contra machado, ou lança contra clava. O sétimo
combate foi entre um homem armado com uma espada normal do exército e um escudo
redondo antigo com tiras de latão e um homem armado com uma lança de apanhar trutas,
com três pontas, e uma rede curta. O homem da espada, ou perseguidor, era um soldado da
Guarda que tinha sido recentemente condenado à morte por se ter embriagado e batido no
seu capitão. A pena tinha sido convertida numa luta contra aquele homem de rede e tridente
um profissional da Tessália, muitíssimo bem pago, que tinha morto mais de vinte
opositores nos cinco anos anteriores, segundo me contou Germano.
As minhas simpatias estavam com o soldado, que entrou na arena muito pálido e a tremer
tinha passado vários dias na prisão e a luz forte incomodava-o. Mas toda a sua companhia,
que ao que parece simpatizava muito com ele, porque o capitão era um tirano e um animal,
gritou-lhe em uníssono que ganhasse coragem e defendesse a honra da companhia. Ele
endireitou-se e gritou: ”Farei tudo o que puder, rapazes!” Acontecia que a alcunha dele no
acampamento era Barata e isso bastava para pôr a maior parte da assistência do lado dele,
embora os Guardas não fossem muito populares na Cidade. Se uma barata conseguisse
matar um pescador, seria uma boa piada. Ter o anfiteatro do seu lado é meia batalha ganha,
para um homem que luta pela própria vida. O tessaliano, um indivíduo magro, de pernas e
braços compridos, aproximou-se em passo balançado por trás dele, vestindo apenas uma
túnica e um boné de couro, redondo e duro. Estava de bom humor, trocando piadas com a
bancada da frente, pois o seu adversário era um amador e Lívia pagava-lhe 1.000 moedas
de ouro pela tarde e mais 500 se ele matasse o homem depois de uma boa luta.
Apresentaram-se juntos diante do Camarote e saudaram primeiro Augusto e Lívia e depois
Germano e eu próprio, como presidentes conjuntos, usando a fórmula habitual: ”Saudações,
senhores.
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Nós vos saudamos na sombra da Morte!” Nós retribuímos a saudação com um gesto
formal, mas Germano disse para Augusto:
Mas, senhor, aquele perseguidor é um dos veteranos de meu pai. Conheço-o bem. Usou
uma coroa na Alemanha por ter sido o primeiro a saltar uma paliçada inimiga.
Augusto ficou interessado.
Óptimo, disse isso quer dizer que esta será uma boa luta. Mas, nesse caso, o homem da rede
deve ser dez anos mais novo e os anos contam neste jogo.
Nesta altura, Germano fez sinal para que soassem as trombetas e a luta começou.
O Barata manteve-se firme, enquanto o tessaliano dançava em volta dele. O Barata não era
tão tolo que fosse desperdiçar as forças correndo em volta do adversário com as suas armas
leves ou então deixar-se ficar paralisado. O tessaliano tentou fazê-lo perder a calma
escarnecendo dele, mas o Barata não se deixou levar. Apenas uma vez, quando o tessaliano
chegou à distância de uma estocada, é que ele mostrou disposição para tomar a ofensiva e a
rapidez do seu golpe arrancou um brado de satisfação das bancadas. Mas o tessaliano
afastou-se a tempo. Em breve, a luta tornou-se mais animada; o tessaliano desferia golpes,
altos e baixos, com o tridente comprido, que o Barata aparava facilmente, mas com um olho
na rede, carregada com pequenas bolas de chumbo, que o tessaliano manobrava com a mão
esquerda.
Belo trabalho! ouvi Lívia dizer para Augusto. O homem que melhor maneja a rede em
Roma. Ele está a brincar com o soldado. Reparaste? Podia tê-lo enredado e desferido então
o seu golpe, se quisesse. Mas está a fazer durar a luta.
Sim, disse Augusto. Receio que o soldado esteja arrumado. Devia ter-se mantido longe da
bebida.
Augusto mal acabara de falar, quando o Barata deu uma pancada no tridente e saltou em
direcção ao adversário, rasgando a túnica de couro do tessaliano entre o braço e o corpo.
Este afastou-se como um relâmpago e, ao mesmo tempo que corria, fez girar a rede de
encontro ao rosto do Barata. Por má sorte deste, uma bola de chumbo bateu-lhe no olho,
cegando-o momentaneamente. Ele vacilou e o tessaliano, vendo que estava em vantagem,
voltou-se e fez saltar-lhe a espada da mão. De um salto, o Barata tentou recuperá-la, mas o
tessaliano chegou lá primeiro, correu com ela para a barreira e atirou-a para o outro lado,
para um rico patrono que estava sentado na primeira fila, reservada aos Cavaleiros. Depois,
voltou para a tarefa agradável de espicaçar e arrumar um homem desarmado. A rede
assobiava em volta da cabeça do Barata e o tridente picava aqui e além; mas o Barata ainda
não desanimara e, num gesto
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rápido, quase agarrou o tridente. O tessaliano tinha-o empurrado em direcção ao nosso


Camarote para fazer uma morte espectacular.
Basta! disse Lívia, num tom casual Já chega desta brincadeira. É tempo de acabar com
ele.O tessaliano não precisava que o encorajassem. Ao mesmo tempo que fazia girar a rede
em volta da cabeça do Barata, arremeteu com o tridente de encontro à barriga. E então, que
brado subiu no ar! O Barata tinha agarrado a rede com a mão direita e, atirando o corpo
para trás, deu um pontapé com toda a força no cabo do tridente, a uns cinquenta centímetros
da mão do seu inimigo. A arma voou para cima, passou sobre a cabeça do tessaliano, deu
uma volta no ar e foi enterrar-se, vibrante, na barreira de madeira. O tessaliano deteve-se
um momento, surpreso; depois, deixou a rede nas mãos do Barata e lançou-se em corrida
para ir buscar o tridente. O Barata deu um salto em frente e para o lado e embateu-lhe nas
costelas, em plena corrida, com os espigões que lhe revestiam o escudo. O tessaliano caiu
de gatas, arquejante. O Barata recompôs-se rapidamente e, com um golpe brusco do
escudo, de cima para baixo, apanhou-o pela parte de trás do pescoço.
O golpe-do-coelho! disse Augusto. Nunca o tinha visto aplicado numa arena. E vós, querida
Lívia? Einh? Deve tê-lo morto, aposto.
O tessaliano estava morto. Eu esperava que Lívia ficasse muito aborrecida, mas a única
coisa que disse foi:
Bem feito para ele. É o que acontece quando se subestima o adversário. Estou decepcionada
com esse lutador da rede. Mesmo assim, poupou-me quinhentas moedas de ouro; portanto,
acho que não me posso queixar.
Para coroar o divertimento daquela tarde, houve uma luta entre dois reféns germanos que
calhou pertencerem a dois clãs rivais e que se tinham envolvido voluntariamente num duelo
de morte. Não foi uma luta bonita, mas sim um ataque selvagem com espada comprida e
alabarda; cada um deles usava um pequeno escudo profusamente ornamentado, preso com
correias ao antebraço esquerdo. Era uma maneira invulgar de lutar, porque o soldado
germano normal faz todo o seu trabalho com a azagaia de cabo fino e cabeça estreita: a
alabarda de cabeça larga e a espada comprida são marcas de uma posição elevada. Um dos
combatentes, um homem de cabelos louros com mais de um metro e oitenta, não tardou a
arrumar o outro, fazendo-lhe cortes terríveis antes de desferir um último golpe esmagador
na parte lateral do pescoço. A multidão fez ouvir um aplauso sonoro que lhe subiu à cabeça,
pois começou a fazer um discurso numa mistura de germano e latim de acampamento
militar, dizendo que era um guerreiro famoso no seu país e tinha morto seis romanos em
batalha, incluindo um oficial, antes de ter sido entregue como refém por um tio invejoso, o
chefe tribal. Agora, desafiava qualquer romano de posição para se defrontar com ele,
espada contra espada, e proporcionar-lhe a sorte de matar o sétimo.
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O primeiro campeão que saltou para o ringue foi um jovem oficial do estado-maior de uma
família antiga mas arruinada, chamado Cássio Chaerea. Aproximou-se do Camarote a
correr, pedindo permissão para aceitar o desafio. O pai, disse ele, tinha sido morto na
Germânia sob aquele glorioso general, em cuja memória estava a ser feita aquela
demonstração: ser-lhe-ia permitido sacrificar aquele gabarola ao espírito do seu pai? Cássio
era melhor espadachim. Eu tinha-o visto muitas vezes nos Campos de Marte. Germano
aconselhou-se com Augusto e depois comigo; quando Augusto deu o seu consentimento e
eu murmurei o meu, Cássio recebeu ordens para se armar. Foi aos vestiários e pediu
emprestados a espada, o escudo e a armadura do Barata, para lhe darem sorte e em
homenagem a este.
Não tardou a que começasse uma luta bem mais grandiosa do que qualquer das que tinham
sido mostradas pelos outros lutadores, com o germano a fazer rodar a grande espada e
Cássio a aparar com o escudo e a tentar sempre penetrar na guarda do adversário mas este
era tão ágil como era forte, e por duas vezes obrigou Cássio a ajoelhar. A multidão
guardava no mais perfeito silêncio, como se estivessem a observar uma cerimónia religiosa;
não se ouvia outra coisa além do entrechocar do aço contra aço e do matraquear dos
escudos. Augusto disse:
Receio que o germano seja forte demais para ele. Não devíamos ter permitido isto. Se
Cássio for morto, gerar-se-á uma má impressão na fronteira, quando lá chegar a notícia.
Depois, o pé de Cássio escorregou numa poça de sangue e ele caiu de costas. O germano
pôs-se sobre ele com uma perna de cada lado e um sorriso triunfante no rosto e nessa
altura... nessa altura houve um rugido nos meus ouvidos e um negrume diante dos meus
olhos e eu desmaiei. A emoção de ver homens serem mortos pela primeira vez na minha
vida, o combate entre o Barata e o tessaliano, no qual todas as minhas simpatias iam para o
Barata, e agora esta luta, em que parecia ser eu próprio a lutar desesperadamente pela vida
com o germano tudo isso foi demais para mim. Por isso, não presenciei a maravilhosa
recuperação de Cássio, quando o germano ergueu aquela espada horrível para lhe esmagar
o crânio, o impulso repentino de baixo para cima atirando a orla do escudo às virilhas do
germano, o rolar para o lado e o golpe rápido e decisivo por baixo da axila. Sim, Cássio
matou o seu homem. Não esqueçais este Cássio, pois duas vezes, três vezes, desempenha
um papel importante nesta história. Quanto a mim, durante algum tempo, ninguém reparou
que eu tinha desmaiado e, quando repararam, já estava a voltar a mim. Puseram-me de novo
direito no meu lugar até o espectáculo terminar formalmente. Eu ser levado em braços para
fora teria sido uma vergonha para todos.
No dia seguinte os Jogos continuaram, mas eu não estive presente. Foi anunciado que me
encontrava doente. Perdi um dos combates mais
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espectaculares a que jamais se assistiu no anfiteatro, entre um elefante indiano muito maior
do que a espécie africana e um rinoceronte. Os conhecedores apostaram no rinoceronte,
pois embora fosse de longe o animal mais pequeno, a sua pele era muito mais espessa que a
do elefante e era esperado que desse cabo do elefante com aquele seu longo corno afiado.
Em África, diziam, os elefantes tinham aprendido a evitar as paragens onde havia
rinocerontes, que detêm um domínio incontestado no seu próprio território. Este elefante
indiano, no entanto, tal como Póstumo me descreveu posteriormente, não mostrou qualquer
ansiedade ou medo quando o rinoceronte entrou à carga na arena, recebendo-o todas as
vezes com as suas presas e avançando pesadamente atrás dele com uma velocidade
desajeitada quando se retirava confuso. Mas achando-se incapaz de penetrar a espessa
armadura do pescoço do animal quando atacava, esta criatura fantástica recorreu à astúcia.
Apanhou com a tromba uma vassoura grosseira, feita de espinheiro, que um varredor tinha
deixado sobre a areia e enfiou-a na cara do inimigo quando ele voltou a atacar: conseguiu
cegar-lhe primeiro um dos olhos e depois o outro. O rinoceronte, tomado pela fúria e pela
dor, precipitou-se para um lado e para o outro, perseguindo o elefante, e acabou por se
enfiar em cheio de encontro à barreira de madeira, atravessando-a e esmigalhando o corno,
indo atordoar-se depois na barreira de mármore, do outro lado. Então surgiu o elefante, com
a boca aberta como se estivesse a rir-se e, alargando primeiro a brecha na madeira,
começou a pisar o crânio do inimigo caído, que esmagou. Depois pôs-se a abanar a cabeça,
como que a seguir um ritmo musical, e não tardou a afastar-se tranquilamente. O seu
condutor indiano apareceu a correr com uma enorme taça cheia de doces, que o elefante
despejou para a boca enquanto a assistência rugia o seu aplauso. Depois, o animal ajudou o
guarda a subir-lhe para o pescoço, oferecendo-lhe a tromba como escadote e aproximou-se
de Augusto: aí, fez ouvir a saudação real que estes elefantes são ensinados a dirigir apenas
a monarcas e ajoelhou em homenagem. Mas como, já disse, perdi esta actuação.
Nessa noite, Lívia escreveu a Augusto:
Meu querido Augusto,
O comportamento nada viril de Cláudio no dia de ontem, desmaiando perante a visão de dois
homens em luta, para não falar nos estremecimentos grotescos das mãos e da cabeça, que num
festival solene em comemoração das vitórias do pai foram ainda mais vergonhosos e infelizes, teve
pelo menos uma vantagem, a de podermos finalmente decidir de uma vez por todas que, excepto na
dignidade de sacerdote uma vez que as vagas dos colégios têm que ser preenchidas de alguma
forma e Pláucio conseguiu treiná-lo o suficiente nos seus deveres, Cláudio está
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perfeitamente incapaz de aparecer em público. Temos que nos contentar em pô-lo de lado como
uma oportunidade perdida, excepto talvez para procriação, pois ouvi dizer que ele cumpriu a sua
obrigação com Urgulanila mas não posso ter a certeza disso enquanto não vir a criança, que pode
muito bem ser um monstro como ele.
Antónia surripiou hoje do estúdio dele aquilo que parece ser um livro de notas de material histórico,
que ele tem estado a reunir para uma biografia do pai; com ele, encontrou ainda uma introdução
laboriosamente composta para o trabalho projectado, que junto vos envio. Notareis que Cláudio
escolheu para objecto de louvor a conhecida falha intelectual do seu querido pai aquela cegueira
obstinada perante a marcha do tempo, a ilusão política de que as formas políticas que convinham a
Roma quando não passava de uma pequena cidade em guerra com as pequenas cidades vizinhas
podiam ser restabelecidas depois de Roma se ter tornado o maior reino conhecido desde os tempos
de Alexandre. Veja-se o que aconteceu quando Alexandre morreu e não foi possível encontrar
ninguém que fosse suficientemente forte para lhe suceder como supremo monarca bom, o Império
pura e simplesmente desmembrou-se. Mas não quero desperdiçar o meu tempo e o vosso com
trivialidades políticas.
Atenodoro e Sulpício, com quem acabo de conferenciar, dizem que não tinham visto esta introdução
até que eu lha mostrei e concordam que não é nada recomendável. Juram que nunca puseram
quaisquer ideias subversivas na cabeça dele e sugerem que as deve ter colhido em livros antigos.
Pessoalmente, acho que as herdou o avô tinha a mesma curiosa enfermidade, como estais lembrado
e é mesmo típico de Cláudio ter escolhido essa fraqueza como herança e ter recusado qualquer
legado de saúde física ou moral! Graças a Deus por Tibério e Germano! Esses não defendem tolices
republicanas, tanto quanto sei.
Naturalmente estou a dar instruções a Cláudio no sentido de o fazer desistir das suas tarefas
biográficas, dizendo que, se ele envergonha a memória do pai ao desmaiar durante os Jogos solenes
feitos em sua honra, é evidente que não está preparado para escrever a vida dele: será bom que
arranje outra ocupação para a pena.
Lívia
Desde que Fólio me contara acerca do envenenamento do meu pai e do meu avô, que eu me
sentia fortemente perplexo. Não conseguia chegar a uma conclusão se o velho estaria a
dizer disparates devido à senilidade ou a alguma brincadeira, ou se ele sabia realmente
alguma coisa. Quem, a não ser o próprio Augusto, estaria suficientemente interessado na
monarquia para ter envenenado um nobre apenas porque acreditava num governo
republicano? No entanto, eu não podia acreditar que Augusto fosse um assassino: o veneno
era um modo mesquinho de matar, o modo
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de um escravo, e Augusto nunca teria descido a isso. Além disso, ele não era nenhum hipócrita e,
quando falava do meu pai, era sempre com admiração e afecto. Consultei duas ou três histórias
recentes, mas elas não me disseram nada que eu não tivesse já ouvido a Germano sobre as
circunstâncias da morte do meu pai.
Foi apenas uns dois dias antes dos jogos que calhou estar a conversar com o nosso porteiro, que
tinha sido ordenança de meu pai ao longo das suas campanhas. O honesto homem tinha andado a
beber um pouco demais, porque o nome do meu pai andava nos lábios de todos nessa altura e os
seus veteranos tinham vindo receber o reflexo da sua glória.
- Conta-me o que sabes da morte de meu pai, - disse-lhe abertamente, - Corriam algumas histórias
no acampamento que a morte dele tivesse sido causada por outros meios que não um acidente?
Ele replicou:
- Eu não o diria a ninguém, senhor, a não ser a vós, mas eu posso confiar em vós, senhor. Sois filho
do vosso pai e eu nunca conheci nenhum homem que não confiasse nele. Sim, senhor, corria um
rumor e havia mais alguma coisa por trás dele do que na maior parte dos rumores de acampamento.
Vosso corajoso e nobre pai, senhor, foi envenenado, estou convencido disso. Uma certa pessoa,
cujo nome não vou mencionar, porque já o sabeis mesmo sem que eu o diga, sentia inveja das
vitórias de vosso pai e envíou-lhe uma ordem para que regressasse. Isso não é nenhuma historieta,
nem um boato, mas sim história. A ordem veio quando vosso pai tinha partido uma perna; nada de
grave e estava a correr tudo bem, até que um tal doutor chegou de Roma, ao mesmo tempo que a
mensagem, com o seu saquinho de venenos na mão. Quem enviou esse médico? A mesma pessoa
que enviou a mensagem. Dois e dois são quatro, não é verdade, senhor? Nós, os ordenanças,
queríamos matar o tal doutor, mas ele regressou a Roma são e salvo com uma escolta especial.
Quando li o bilhete de minha avó Lívia dizendo-me que desistisse de escrever a vida de meu pai, a
minha perplexidade aumentou. Pólio não podia ter tido a intenção de apontar a minha avó como a
assassina do antigo marido e do filho? Era impensável. E qual seria o motivo dela? No entanto,
quando considerava a questão, era-me mais fácil acreditar que tivesse sido Lívia do que Augusto.
Nesse Verão, Tibério precisava de homens para a guerra na Germânia do Leste e foram chamados
recrutas da Dalmácia, uma província que ultimamente tinha estado muito tranquila e dócil. Mas
quando o contingente se reuniu, calhou o cobrador de impostos andar a fazer a sua visita anual
àquelas regiões e exigir à província nada mais que a soma fixada por Augusto, mas que era mais do
que eles podiam facilmente pagar. Houve sonoros protestos de miséria. O cobrador de impostos
exerceu o seu direito de se apoderar das crianças bonitas da aldeia e levá-las para
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serem vendidas como escravas. Os pais de algumas das crianças assim apanhadas eram membros
do contingente e, naturalmente, fizeram grande clamor. Toda a força se revoltou. Uma tribo bósnia
sublevou-se por simpatia e, em breve, todas as nossas províncias da fronteira entre a Macedónia e
os Alpes estavam em fogo. Felizmente, Tibério conseguiu fazer a paz com os germanos - a
instâncias deles, não suas - e marchar contra os rebeldes. Os dálmatas recusaram enfrentá-lo numa
luta declarada e dividiram-se em pequenas colunas, levando a cabo uma hábil luta de guerrilha.
Tinham armas leves e conheciam bem o país e, quando chegou o Inverno, ousaram mesmo fazer
incursões na Macedónia.
Augusto, em Roma, não podia compreender as dificuldades que Tibério tinha que enfrentar e
suspeitava que ele atrasasse deliberadamente as operações por razões secretas e privadas, que lhe
escapavam inteiramente. Decidiu enviar Germano com um exército seu, para incitar Tibério à
acção.
Germano, que ia agora nos vinte e três anos, acabava de assumir, cinco anos antes da idade habitual,
a sua primeira magistratura na Cidade. A sua missão militar causou surpresa: todos esperavam que
fosse Póstumo o escolhido. Póstumo não tinha cargos de magistratura, mas estava ocupado nos
Campos de Marte a treinar os recrutas para este novo exército: ele tinha agora o posto de
comandante dos regimentos. Era três anos mais novo que Germano, mas o seu irmão Caio tinha
sido enviado para governar a Ásia com a idade de dezanove anos e tinha-se tornado Cônsul no ano
seguinte. Póstumo não era de forma alguma menos capaz que Caio, isso era ponto assente, e, afinal
de contas, era o único neto vivo de Augusto.
Os meus próprios sentimentos ao ouvir a notícia, que ainda não fora tornada pública, ficaram
divididos entre a alegria por causa de Germano e a tristeza por causa de Póstumo. Fui procurar
Póstumo e cheguei aos seus aposentos no Palácio ao mesmo tempo que Germano. Póstumo saudou-
nos a ambos afectuosamente e felicitou Germano pelo seu posto de comando.
Germano disse:
- Foi por causa disto que vim, caro Póstumo. Sabes muito bem que me sinto orgulhoso e satisfeito
por ter sido escolhido, mas a reputação militar não representa nada para mim, se com isso te fizer
mal. És um soldado tão capaz como eu e, como herdeiro de Augusto, devias evidentemente ter sido
escolhido. Com o teu consentimento, proponho ir procurá-lo agora e oferecer-me para abdicar a teu
favor. Far-lhe-ei notar a má interpretação que a Cidade não deixará de fazer da sua preferência pela
minha pessoa em relação a ti. Ainda não é tarde para fazer a alteração. Póstumo respondeu:
- Caro Germano, és muito generoso e nobre e, por essa razão, vou falar francamente. Tens razão
quando dizes que a Cidade tratará isto como menosprezo pela minha pessoa. O facto dos teus
deveres como
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magistrado estarem a ser interrompidos pela nomeação, enquanto eu estou perfeitamente livre para
partir, agrava a questão. Mas, acredita-me, a decepção que sinto é amplamente recompensada por
mais esta prova que me deste da tua amizade; e desejo-te rápido restabelecimento e todos os êxitos
possíveis.
Depois disse:
- Se me desculpardes ambos por expressar uma opinião, acho que Augusto analisou o caso com
mais cuidado do que aquele que lhe atribuis. A julgar pelo que ouvi a minha mãe esta manhã,
presumo que ele desconfia que Tibério esteja propositadamente a prolongar a guerra. Se ele
enviasse Póstumo com as novas forças, depois dessa velha história do desentendimento entre meu
tio e os irmãos de Póstumo, o meu tio poderia ficar desconfiado e ofendido. Póstumo aparecer-lhe-
ia como um espião e um rival. Mas Germano é seu filho adoptivo e pareceria ter sido enviado
meramente como reforço. Parece-me que não há mais nada a dizer, a não ser que Póstumo terá a sua
oportunidade noutro lugar, sem dúvida, e que isso não tardará.
Ficaram ambos muito satisfeitos com esta nova visão do caso, que fazia crédito a ambos e todos nos
separámos na mais amigável das disposições.
Nessa mesma noite, ou antes, às primeiras horas da manhã seguinte, eu estava a trabalhar tarde no
meu quarto no andar superior da nossa casa, quando ouvi gritos distantes e, daí a pouco, ruídos
abafados na varanda. Fui à porta e vi aparecer uma cabeça na parte superior da varanda e depois um
braço. Era um homem em trajo militar, que atirou uma perna por cima da varanda, impelindo o
corpo para cima. Fiquei paralisado por um momento e o primeiro pensamento desvairado que me
ocorreu foi: ”É um assassino enviado por Lívia.” Preparava-me para gritar por socorro quando ele
disse em voz baixa:
- Shh! Está tudo bem! Sou Póstumo.”
- Oh, Póstumo! Que susto me pregaste. Porque entras assim a esta hora da noite como um
assaltante? E o que é que tens? O teu rosto está a sangrar e tens o casaco rasgado.
- Vim despedir-me, Cláudio.
-Não entendo. Augusto mudou de ideias? julgava que a nomeação já tinha sido tornada pública.
- Dá-me de beber, estou com sede. Não, não vou para as guerras. Longe disso. Mandaram-me ir
pescar.
- Não fales em enigmas. Aqui está o vinho. Bebe depressa e diz-me qual é o problema. Onde vais
pescar?
- Ah, para qualquer pequena ilha. Não creio que já tenham escolhido.
- Queres dizer...? - O meu coração bateu mais forte e senti a cabeça andar à roda.
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- Sim, estou a ser exilado, como a minha pobre mãe.


- Mas porquê? Que crime cometeste?
- Nenhum crime que possa ser oficialmente referido ao Senado. Calculo que a frase seja depravação
incurável e persistente. Lembras-te daquele Debate de Almofada?
- Oh Póstumo! A minha avó...?
- Ouve com atenção, Cláudio, porque o tempo urge. Estou sob prisão apertada, mas agora mesmo
consegui derrubar dois dos meus acompanhantes e fugir. A guarda do Palácio foi chamada e todos
os possíveis meios de fuga estão bloqueados. Eles sabem que estou algures nestes edifícios e vão
revistar cada quarto. Senti que precisava falar-te, porque quero que saibas a verdade e não acredites
nas acusações que eles inventaram a meu respeito. E quero que contes tudo a Germano. Envia-lhe
as minhas mais carinhosas saudações e conta-lhe tudo, exactamente como to estou a dizer agora.
Não me interessa o que os outros pensam de mim, mas quero que Germano e tu saibam a verdade e
pensem bem de mim.
- Não esquecerei uma palavra, Póstumo. Depressa, conta-me tudo desde o princípio.
- Bom, tu sabes que, ultimamente, não tenho estado nas boas graças de Augusto. A princípio não
entendia porquê, mas em breve se tornou evidente que Lívia lhe estava a envenenar o espírito contra
mim. Augusto é extraordinariamente fraco em relação a ela. Imagina viver com ela há quase
cinquenta anos e continuar a acreditar em cada palavra que diz! Mas Lívia não foi a única nesta
conspiração. Livila esteve envolvida também.
- Livila! Oh, lamento muito!
- Sim. Sabes como eu a amava e quanto sofri por causa dela. Uma vez referiste, há cerca de um ano,
que Livila não merecia que me preocupasse com ela e lembras-te de como fiquei zangado contigo.
Não te falei durante vários dias. Lamento agora ter-me zangado, Cláudio. Mas tu sabes como é
quando alguém está desesperadamente apaixonado por uma pessoa. Não te expliquei nessa altura
que, pouco antes de se casar com Castor, ela me disse que Lívia lhe impusera esse casamento e que,
na realidade, ela só me amava a mim. Acreditei nela. Porque não havia de ter acreditado? Tinha
esperança que algum dia alguma coisa acontecesse a Castor e ela e eu pudéssemos ficar livres para
nos casarmos. Desde então, essa ideia tem-me acompanhado noite e dia. Hoje à tarde, logo após ter
falado contigo, estava sentado com ela e Castor debaixo da latada junto do grande lago das carpas.
Ele começou a zombar de mim. Compreendo agora que tudo tinha sido cuidadosamente ensaiado de
antemão entre eles. A primeira coisa que ele disse foi: ”Então, preferiram Germano a ti, einh?” Eu
disse-lhe que considerava a nomeação sensata e que acabava de felicitar Germano. Então, ele
acrescentou num tom irónico: ”Quer dizer que
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a nomeação foi aprovada por ti como príncipe? A propósito, ainda esperas suceder ao teu avô como
Imperador?” Mantive a calma em atenção a Livila, mas disse que não me parecia decente discutir a
sucessão enquanto Augusto estava ainda em vida e de posse de todas as suas faculdades. Depois,
perguntei-lhe ironicamente se estava a oferecer-se como candidato rival. Ele retorquiu, com um
sorriso desagradável: ”Bom, se o fizesse, acho que teria mais possibilidades de sucesso do que tu,
Geralmente, consigo o que quero. Uso a cabeça. Conquistei Livila usando a cabeça. Sinto vontade
de rir quando penso na facilidade com que convenci Augusto de que tu não eras o marido indicado
para ela, Talvez dessa maneira eu consiga também outras coisas que quero. Quem sabe?” Isto
deixou-me realmente a ferver. Perguntei-lhe se queria dizer que tinha andado a contar mentiras a
meu respeito. Ele disse: ”Porque não? Eu queria Livila e foi assim que a consegui.” Voltei-me para
Lívíla e perguntei-lhe se sabia disto. Ela fingiu que estava indignada e disse que não sabia
absolutamente nada, mas que acreditava que Castor era capaz de qualquer atitude desonesta.
Obrigou-se a verter uma ou duas lágrimas e disse que Castor não prestava e que ninguém podia
imaginar como tinha sofrido com ele e que desejaria estar morta.
- Sim, esse é um dos velhos truques dela. Chora quando lhe convém. Leva todos à certa. Se eu te
tivesse contado tudo o que sei dela, talvez me tivesses odiado durante algum tempo, mas ter-te-ia
poupado tudo isto. E depois, o que aconteceu?
- Esta noite, ela mandou-me uma mensagem verbal por uma aia, dizendo que Castor estaria
provavelmente fora toda a noite numa das suas orgias habituais e que, quando eu visse uma luz na
janela, pouco depois da meia-noite, fosse ter com ela. Uma janela seria deixada aberta mesmo por
baixo da luz e eu podia entrar tranquilamente. Queria dizer-me uma coisa muito importante. Claro
que isso só podia significar uma coisa e o meu coração bateu mais forte. Esperei no jardim durante
horas, até que vi a luz aparecer por momentos na janela dela. Depois, encontrei a janela aberta em
baixo e entrei. A criada de Livila estava lá e encaminhou-me para o andar de cima. Indicou-me
como podia entrar no quarto de Livila, saltando de uma janela para outra até alcançar a janela certa;
isto para evitar o guarda que estava colocado no corredor, junto à porta do quarto. Bom, encontrei
Lívíla à minha espera em camisa de noite, com os cabelos soltos, de uma beleza infernal. Disse-me
como Castor se comportara para com ela de forma cruel. Que não lhe devia nada como esposa
porque, como ele próprio confessara, se casara com ela por meio de fraude e a tratara com a maior
brutalidade. Atirou os braços à minha volta, eu peguei-lhe e levei-a até à cama. Estava louco de
desejo por ela. Depois, repentinamente, ela começou a gritar e a socar-me. Por momentos, pensei
que tivesse endoidecido e pus-lhe a mão sobre a boca para a acalmar. Ela
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lutou para se libertar, derrubando uma pequena mesa que tinha em cima um candeeiro e um
jarro de vidro. Depois, pôs-se a gritar ”Estupro! Estupro!”; a porta foi arrombada e a guarda do
Palácio entrou por ali dentro com archotes. Adivinhas quem se encontrava à frente deles?
- Castor?
- Lívia. Levou-nos, tal como estávamos, à presença de Augusto. Castor estava com ele, embora
Livila me tivesse dito que tinha ido jantar do outro lado da cidade. Augusto mandou sair a Guarda e
Lívia, que até aí mal tinha pronunciado uma palavra, começou o seu ataque contra mim. Disse-lhe
que, por sugestão dele, tinha ido aos meus aposentos para me informar em privado das acusações de
Emília e perguntar-me que explicação eu podia dar.
- Emília! Qual Emília?
- A minha sobrinha.
- Não sabia que ela tinha alguma coisa contra ti.
- E não tem. Ela também estava implicada no esquema. Assim, Lívia disse que, não me tendo
encontrado nos meus aposentos, se tinha informado e lhe disseram que a patrulha me tinha visto
sentado no jardim debaixo de uma pereira do lado sul. Ela mandou um soldado procurar-me, mas
ele voltou e disse que eu não estava lá e que tinha uma coisa suspeita a relatar: tinha visto um
homem a trepar de uma das varandas superiores para outra mesmo por cima do relógio solar. Ela
sabia de quem eram aqueles quartos e ficou muito alarmada. Por sorte, chegou mesmo a tempo.
Tinha ouvido os gritos de Livila a pedir socorro: eu introduzira-me no quarto dela através da
varanda e estava a tentar violá-la. Os guardas tinham arrombado a porta e afastaram-me à força ”da
jovem mulher aterrorizada e semi-nua”. Tinha-me levado para lá imediatamente, assim como
Livila, para servir de testemunha. Enquanto Lívia contava a sua história, aquela prostituta da Livila
soluçava e escondia a cara. Tinha a camisa de noite rasgada - deve tê-la rasgado ela mesma de
propósito. Augusto chamou-me besta e sátiro e perguntou-me se tinha endoidecido. Claro que eu
não podia negar que tivesse estado no quarto dela ou mesmo que tivesse feito amor com ela. Disse
que tinha lá ido por convite e tentei explicar tudo desde o princípio, mas Livila pôs-se a gritar: ”É
mentira. É mentira. Eu estava a dormir e ele entrou pela janela e tentou violar-me.” Então, Lívia
disse: ”E suponho que a tua sobrinha Emília te tenha convidado para a violares a ela também?
Pareces ser muito popular junto das mulheres jovens.” Lívia foi muito esperta. Tive que me
justificar em relação a Emília e deixar a história de Livila. Disse a Augusto que tinha jantado com
minha irmã Julila na noite anterior e que Emília estava presente, mas aquela era a primeira vez que
eu via a rapariga nos últimos seis meses. Perguntei em que ocasião é que poderia tê-la violado e
Augusto respondeu que eu sabia muito bem quando - depois do jantar,
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durante a ausência temporária dos pais dela, que foram chamados por um alarme de assalto -, e
que só tinha sido impedido de o fazer pelo regresso dos pais da jovem. A história era tão ridícula
que, embora estivesse furioso, não consegui deixar de me rir; mas isso aumentou a fúria de
Augusto. Esteve quase a levantar-se da cadeira de marfim e a bater-me. Eu interroguei-o:
- Não entendo. Houve realmente algum alarme de assalto?
- Sim, e Emília e eu ficámos sozinhos por minutos, mas a conversa foi inofensiva e a governanta
dela estava presente! Estivemos a discutir árvores de fruto e pestes das plantas até que Julila e
Emílio voltaram e disseram que tinha sido um falso alarme. Julila e Emílio não recebem ordens de
Lívia, podes ter a certeza - eles odeiam-na -, portanto, deve ter sido tudo arranjado por Emília. Pus-
me a pensar rapidamente qual o rancor que poderia ter contra mim, mas não consegui lembrar-me
de nada. De repente, ocorreu-me a explicação. Julila dissera-me em segredo que Emília estava
finalmente a conseguir o que queria: ia casar-se com Ápio Silano. Conheces aquele jovem afectado,
não conheces?
- Sim. Mas não estou a perceber.
- É muito simples. Eu disse para Lívia: ”A recompensa de Emília por esta mentira vai ser o
casamento com Silano, não vai? E o que é que recebe, Lívia? Prometestes-lhe envenenar o actual
marido e arranjar-lhe um mais atraente?” Logo que pronunciei a palavra envenenar, percebi que
estava condenado. Por isso, decidi dizer tudo o que podia enquanto tinha essa oportunidade.
Perguntei a Lívia como é que tinha arranjado o envenenamento de meu pai e irmãos e se preferia os
venenos lentos ou os rápidos. Cláudio, achas que ela os matou? Eu tenho a certeza que sim.
- Ousaste perguntar-lhe isso? É muito provável. Eu também acho que ela envenenou o meu pai e o
meu avô - repliquei, - e não creio que tenham sido as suas únicas vítimas. Mas não tenho provas.
- Nem eu, mas gostei de a acusar. Gritei com todas as minhas forças, de forma que metade do
Palácio deve ter ouvido. Lívia saíu apressada e foi chamar a Guarda. Vi Livila sorrir. Deitei-lhe as
mãos ao pescoço, mas Castor meteu-se de permeio e ela fugiu. Lutei com Castor, parti-lhe o braço e
dois dentes da frente, que caíram sobre o chão de mármore. Mas não lutei com os soldados. Teria
sido aviltante. Além disso, eles estavam armados. Dois deles seguravam cada um dos meus braços,
enquanto Augusto me lançava insultos e ameaças. Disse que serei exilado para o resto dos meus
dias na ilha mais desolada dos seus domínios e que apenas a sua filha desnaturada podia ter-lhe
dado um neto tão desnaturado. Disse-lhe que, de nome, ele era Imperador dos Romanos, mas que,
na realidade, era menos livre que qualquer escrava de um dono de bordel ébrio e que, um dia, os
seus olhos haveriam de se abrir para os crimes e
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embustes desnaturados da sua abominável esposa. Mas entretanto, disse, o meu amor e lealdade
para com ele permaneciam inalterados.
O alarido ressoava agora no andar inferior da nossa casa. Póstumo disse:
- Não quero comprometer-te, meu caro Cláudio. Não devo ser encontrado no teu quarto. Se tivesse
uma espada usava-a agora. É melhor morrer lutando do que apodrecer numa ilha.
- Paciência, Póstumo. Cede agora e a tua oportunidade virá mais tarde. Prometo-te que virá. Quando
Germano souber a verdade, não vai descansar enquanto não estiveres livre de novo e eu também
não. Se fizeres com que te matem, isso será apenas um triunfo barato para Lívia,
- Nem tu nem Germano podem explicar todas as provas reunidas contra mim. Só te metias em
problemas se tentasses.
-A oportunidade há-de chegar, digo-te eu. Lívia tem tido tudo a seu jeito tempo demais e há-de
acabar por se tornar descuidada. Não pode deixar de ter alguma falha em breve. Não seria humana
se isso não acontecesse.
- Não creio que ela seja humana, - disse Póstumo.
- E quando Augusto de repente perceber como tem sido enganado, não achas que vai ser tão
impiedoso para com ela como foi com a tua mãe?
- Ela envenena-o primeiro.
- Germânico e eu velaremos para que não o faça. Preveni-lo-emos. Não desesperes, Póstumo. Tudo
estará bem no fim. Hei-de escrever-te cartas sempre que puder e enviar-te livros para leres. Não
tenho medo de Lívia. Se não receberes as minhas cartas, saberás que estão a ser retidas. Olha
cuidadosamente para a sétima página de qualquer livro cosido que te chegue vindo de mim. Se tiver
alguma mensagem particular para ti, escrevo-a aí com leite. É um truque usado pelos egípcios. A
escrita é invisível, até que a aqueças diante do lume. Ouve as portas a bater. Agora tens que ir.
Estão ao fundo do próximo corredor.
Ele tinha lágrimas nos olhos. Abraçou-me ternamente sem mais uma palavra e encaminhou-se
rápido para a varanda. Trepou para o parapeito, acenou com a mão num gesto de despedida e
deslizou pela velha trepadeira por onde tinha subido. Ouvi-o afastar-se correndo pelo meio do
jardim e, um instante depois, ouvi gritos e brados da guarda.
Não tenho qualquer memória daquilo que aconteceu no mês seguinte ou mesmo mais. Fiquei doente
de novo: tão doente que eles falavam de mim como se já estivesse morto. Quando comecei a
recuperar, Germano
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já andava nas guerras e Póstumo tinha sido deserdado e exilado para o resto da vida. A ilha
escolhida para ele foi Planásia. Ficava a cerca de doze milhas de Elba na direcção da Córsega e
nenhum humano
guardava memória dela ter sido habitada. Mas havia lá algumas cabanas de pedra pré-históricas que
foram convertidas em habitação
para Póstumo e quartel para a guarda. Planásia tinha uma forma aproximadamente triangular, tendo
o lado mais comprido cerca de cinco milhas. Era desprovida de árvores e rochosa e apenas visitada
pelos barqueiros de Elba no Verão, quando vinham preparar as armadilhas para as lagostas. Por
ordem de Augusto, esta prática foi interrompida, com medo de que Póstumo subornasse alguém e
fugisse.
Tibério era agora o único herdeiro de Augusto, com Germano e Castor para continuar a linhagem
depois dele - a linhagem de Lívia.
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CAPíTULO XII
Se limitasse o meu relato dos acontecimentos dos próximos vinte e cinco anos ou mais às minhas próprias
intervenções, não gastaria muito papel e a leitura resultaria bem monótona; mas a parte final desta
autobiografia, na qual figuro com maior proeminência, só será inteligível se continuar aqui com as histórias
pessoais de Lívia, Tibério, Germano, Póstumo, Castor, Livila e o resto, que estão longe de ser monótonas,
isso vos prometo eu.
Póstumo estava no exílio e Germano na guerra; dos meus verdadeiros amigos, apenas restava Atenodoro.
Também ele não tardou a deixar-me para regressar à sua Tarso nativa. Não lhe dificultei a partida, porque ele
foi atender ao chamamento urgente de dois sobrinhos que lá tinha e que lhe suplicaram que os ajudasse a
libertar a cidade da tirania do seu governador. Escreveram-lhe que este governador se insinuara com tanta
esperteza nas boas graças do seu Deus Augusto, que seria necessário o testemunho de um homem como
Atenodoro, em cuja integridade o seu Deus Augusto tinha total confiança, para o persuadir de que a expulsão
daquele indivíduo era justificada. Atenodoro conseguiu libertar a cidade daquele parasita, mas depois
descobriu que lhe era impossível regressar a Roma, como era sua intenção. Os sobrinhos precisavam dele para
os ajudar a reconstruir a administração da cidade em alicerces sólidos. Augusto, a quem escreveu um relato
detalhado dos seus actos, mostrou a sua gratidão e confiança concedendo a Tarso, como um favor pessoal
para ele, uma remissão de cinco anos do tributo imperial. Correspondi-me regularmente com o bom velho até
ao momento da sua morte, dois anos mais tarde, com a idade de oitenta e dois anos. Tarso honrou a sua
memória com um festival e sacrifício anuais, no qual os cidadãos mais proeminentes liam à vez a sua História
Breve de Tarso, de fio a pavio, começando ao nascer do sol e terminando depois do sol-posto.
Germânico escrevia-me ocasionalmente, mas as suas cartas tinham tanto de breve como de afectuosas: o
comandante de verdade não tem tempo para escrever cartas para a família; todo o tempo de que dispõe entre
duas campanhas é dedicado a conhecer os seus homens e os seus oficiais, a estudar o seu conforto, aumentar-
lhes a eficiência militar e reunir informações sobre a disposição e planos do inimigo. Germânico era um
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dos comandantes mais conscienciosos que alguma vez serviram no exército romano - e mais amado
ainda que o nosso pai. Eu sentia-me muito orgulhoso quando ele escrevia a pedir-me que elaborasse
para ele, tão depressa e tão meticulosamente como me fosse possível, um resumo de todos os relatos
confiáveis que conseguisse encontrar nas bibliotecas sobre os hábitos domésticos das várias tribos
balcânicas contra as quais lutava, a força e situação geográfica das suas cidades, as suas tácticas e
artimanhas militares tradicionais, particularmente na guerra de guerrilha. Dizia que não conseguia
reunir localmente um número suficiente de informações confiáveis: Tibério tinha sido pouco
comunicativo. Com a ajuda de Sulpício e de um pequeno grupo de pesquisadores e copistas,
trabalhando dia e noite, consegui reunir exactamente o que ele precisava e enviar-lhe uma cópia
apenas um mês depois do seu pedido. Senti-me mais orgulhoso do que nunca quando ele me
escreveu pouco tempo depois, pedindo uma edição de vinte exemplares do livro para fazer circular
entre os seus oficiais superiores, pois o mesmo já provara ser da maior utilidade para ele. Disse que
cada parágrafo era claro e relevante, sendo as secções mais úteis aquelas que davam pormenores da
irmandade militar secreta extra-tribal contra a qual, e não propriamente contra as próprias tribos, a
guerra estava a ser feita; e também sobre as diversas árvores e arbustos
- uma espécie diferente era venerada por cada tribo -, sob cuja sombra protectora os homens da tribo
costumavam enterrar as suas reservas de trigo, dinheiro e armas, quando tinham que abandonar
precipitadamente as suas aldeias. Prometia falar a Tibério e a Augusto dos meus valiosos serviços.
Não houve qualquer menção pública deste livro, talvez porque, se o inimigo tivesse sabido da sua
existência, teriam alterado as suas tácticas e disposições. Assim, convenceram-se de que estavam a
ser constantemente traídos por informadores. Augusto recompensou-me, sem carácter oficial,
nomeando-me para uma vaga no Colégio dos Augures, mas era evidente que atribuía todo o crédito
da compilação a Sulpício, embora este não tivesse escrito uma só palavra - ele limitou-se a arranjar-
me alguns dos livros. Uma das minhas fontes principais foi Pólio, cuja campanha na Dalmácia tinha
sido um modelo de exactidão militar, combinada com um brilhante trabalho de recolha secreta de
informações. Embora o seu relato dos costumes e condições locais parecesse estar uns cinquenta
anos atrasado, Germânico achou os meus extractos do mesmo bem mais úteis do que qualquer
história de campanhas mais recente. Gostaria que Pólio pudesse estar vivo para ouvir aquilo. No
entanto, contei-o a Lívio, que disse com alguma irritação que nunca negara a Pólio o crédito de ter
escrito manuais militares competentes; apenas lhe negara o título de historiador, no sentido mais
elevado.
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A isto devo acrescentar que, se eu tivesse tido mais tacto, estou certo que Augusto me teria louvado no seu
discurso ao Senado no final da guerra. Mas as minhas referências às suas próprias campanhas nos Balcãs
tinham sido mais reduzidas do que poderiam ter sido no caso dele escrever um relato detalhado das mesmas,
como Pólio fez em relação às suas; ou se os historiadores oficiais estivessem menos preocupados em lisonjear
o seu Imperador e mais em registar os seus sucessos e revezes de uma forma imparcial, técnica. Destes
panegíricos, pouco ou nenhum material útil consegui extrair e Augusto, ao ler o meu livro, deve ter-se sentido
ofendido. Ele identificava-se a tal ponto com o sucesso da guerra que, durante as duas últimas épocas de
combates, se mudou de Roma para uma cidade junto à fronteira nordeste de Itália, para estar o mais perto
possível da luta; e, como Comandante-em-Chefe dos Exércitos Romanos, enviava constantemente a Tibério
conselhos militares que de pouco serviam.
Eu estava agora a trabalhar num relato da participação do meu avô nas Guerras Civis; mas ainda não tinha ido
longe quando, uma vez mais, fui detido por Lívia. Apenas conseguira completar dois volumes. Ela disse-me
que eu era tão incapaz de escrever uma biografia do meu avô como do meu pai e que me comportara de forma
desonesta ao fazê-lo nas suas costas. Se queria um emprego útil para a minha pena, faria melhor em escolher
um assunto que não envolvesse tantas ideias erróneas. E ela oferecia-me um: a reorganização da religião por
Augusto, depois da Pacificação. Não era um assunto que suscitasse grande entusiasmo, mas não tinha sido
tratado anteriormente de forma detalhada e eu estava disposto a empreender essa tarefa. As reformas
religiosas de Augusto tinham sido, quase sem excepção, excelentes: ele tinha feito reviver várias sociedades
antigas de sacerdotes, construído e mantido com as suas doações oitenta e dois novos templos em Roma e
arredores, reconstruido vários templos antigos que estavam a cair em ruínas, introduzido cultos estrangeiros
para benefício dos visitantes das províncias e reinstituído numerosos festivais públicos, antigos e
interessantes, que se tinham perdido uns a seguir aos outros durante os distúrbios civis do meio século
anterior. Mergulhei no assunto com o maior cuidado e completei o meu estudo poucos dias depois da morte
de Augusto, seis anos mais tarde. Fí-lo em quarenta e um volumes, com uma média de cinco mil palavras
cada, mas uma boa parte disto consistia de transcrições de decretos religiosos, listas nominais de sacerdotes,
catálogos de ofertas feitas aos tesouros dos templos, e assim por diante. O volume mais valioso era o da
introdução, que tratava do ritual primitivo em Roma. Aqui, encontrei-me em dificuldades, porque as reformas
de Augusto no campo dos rituais se basearam nas conclusões de uma comissão religiosa que não executara
devidamente o seu trabalho. Ao que parece, não havia nenhum perito em antiguidade entre os
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membros da comissão, de forma que uma série de interpretações grosseiramente erróneas das
antigas fórmulas religiosas tinham sido íncorporadas nas novas liturgia oficiais. Nenhuma pessoa
que não tenha feito um estudo das línguas etrusca e sabina é capaz de interpretar os nossos
encantamentos religiosos mais antigos; e eu dediquei uma boa parte do meu tempo a dominar os
rudimentos de ambas. Nesta altura, havia alguns camponeses que em casa ainda falavam
exclusivamente o sabino e persuadi dois deles a vir a Roma e a fornecer a Palas, que me servia
agora de secretário, o material necessário para um breve dicionário de sabino. Paguei-lhes bem por
isso. Enviei a Cápua o melhor dos meus secretários, Calon, para recolher material para um
dicionário semelhante da língua etrusca junto de Aruns, o sacerdote que me dera a informação sobre
Lars Porsena, que tanto agradara a Pólio e aborrecera Lívio. Estes dois dicionários, que mais tarde
alarguei e publiquei, permitiram-me esclarecer, para minha satisfação, uma série de problemas
importantes dos antigos cultos religiosos; mas eu tinha aprendido a ser cuidadoso e nada do que
escrevi envolvia qualquer crítica aos conhecimentos e opiniões de Augusto.
Não gastarei tempo algum a relatar a Guerra dos Balcãs, para além de dizer que, apesar da
inteligente actuação do meu tio Tibério como general, da competente assistência que lhe deu meu
avô Silvano e dos feitos ousados de Germânico, ela se arrastou ao longo de três anos. No final, todo
o país ficou reduzido e praticamente transformado num deserto, porque estas tribos, homens e
mulheres, lutavam com um desespero extraordinário e só reconheciam a derrota quando o fogo, a
fome e a doença tinham dizimado mais de metade da população. Quando os chefes rebeldes foram
procurar Tibério para tratarem da paz, ele fez-lhes um interrogatório cerrado. Em primeiro lugar,
queria saber porque se lhes metera na cabeça revoltarem-se e, depois, porque se entregaram a uma
resistência tão desesperada. O chefe dos rebeldes, um homem chamado Bato, respondeu:
- A culpa é unicamente vossa. Mandastes para guardiães dos vossos rebanhos nem pastores nem
cães de guarda, mas sim lobos.
Isto não era exactamente verdade. Augusto escolhia pessoalmente os governadores das suas
províncias fronteíríças, pagava-lhes um salário substancial e vigiava para que não desviassem
nenhuma parte dos rendimentos imperiais para o seu próprio bolso. Os impostos eram-lhes pagos
directamente a eles, não mais a empresas de cobrança de impostos sem princípios. Os governadores
de Augusto nunca foram lobos, como tinham sido a maior parte dos governadores republicanos,
cujo único interesse nas províncias era ver aquilo que conseguiam arrancar-lhes. Muitos deles eram
bons cães de guarda e alguns eram mesmo pastores honestos. Mas acontecia muitas vezes que
Augusto fixava inadvertidamente um imposto num valor demasiado alto, não considerando o
prejuízo causado por uma
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má colheita, uma epidemia no gado ou um terramoto; e, em vez de se queixarem a ele que o


cálculo fora demasiado alto, os governadores recolhiam até ao último tostão, mesmo com risco de
provocar uma revolta. Poucos deles sentiam algum interesse pessoal pelo povo que tinham que
governar. O governador instalava-se na capital romanizada onde havia belas casas e teatros,
templos, banhos públicos e mercados e nem sequer pensava em visitar os distritos mais afastados da
sua província. A verdadeira governação era feita por representantes e por representantes dos
representantes e deve ter havido bastante opressão por parte dos pequenos burocratas. E foi talvez a
esses que Bato chamou lobos, embora pulgas tivesse sido uma palavra mais adequada. Não pode
haver dúvidas que, sob a governação de Augusto, as províncias eram infinitamente mais prósperas
do que durante a República; diga-se também que as províncias pátrias, que eram governadas por
indivíduos nomeados pelo Senado, tinham uma situação muito inferior à das províncias de fronteira,
governadas por indivíduos nomeados por Augusto. Esta comparação forneceu um dos raros
argumentos plausíveis que alguma vez ouvi proferir contra o governo republicano, ainda que
baseado na hipótese insustentável de que os padrões de moral pessoal entre as principais figuras de
uma república vulgar tendem a ser inferiores aos da moral pessoal de um monarca absoluto vulgar e
dos subordinados por ele escolhidos; baseia-se também na ideia errónea de que a questão de como
as províncias são governadas é mais importante do que a questão do que acontece na Cidade.
Recomendar uma monarquia por causa da prosperidade que ela dá às províncias parece-me o
mesmo que recomendar que um homem deve ter a liberdade de tratar os filhos como escravos, se ao
mesmo tempo tratar os escravos com razoável consideração.
Por esta guerra dispendiosa e fútil, foi decretado pelo Senado um grande triunfo para Augusto e
Tibério. Deveis estar recordados que, por esta altura, apenas ao próprio Augusto ou a membros da
sua família era permitido um verdadeiro triunfo, enquanto aos outros generais era concedido aquilo
a que chamavam ornamentos triunfais. Germânico,
embora fosse um César, apenas recebeu esses ornamentos por razões técnicas. Augusto podia ter
alargado o âmbito, mas sentia-se tão grato a Tibério pela forma cheia de sucesso como conduzira a
guerra, que não desejava antagonizá-lo dando a Germânico honras iguais às suas. Germânico subiu
também um ponto na escala de magistrado e foi-lhe ainda permitido tornar-se Cônsul vários anos
antes da idade habitual. Castor, embora não tivesse tomado parte na guerra, recebeu o privilégio de
assistir às sessões do Senado antes de se tornar seu membro e subiu também um ponto na escala de
magistrado.
Em Roma, a populaça aguardava o triunfo com o maior entusiasmo, pois ele significaria trigo e
dinheiro com abundância e toda a espécie de
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coisas boas: mas uma grande decepção os aguardava. Um mês antes da data fixada para o triunfo,
foi observado um terrível presságio - nos Campos de Marte, o templo do Deus da Guerra foi
atingido por um raio e quase ficou destruído - e, alguns dias mais tarde, chegaram notícias da
Germânia do mais violento revês militar sofrido pelos exércitos romanos desde Carros, eu diria
mesmo desde Ália, não havia ainda exactamente 400 anos. Três regimentos tinham sido chacinados
e todas as conquistas a leste do Reno se tinham perdido de um só golpe; parecia que nada iria
impedir os germanos de atravessarem o rio e arrasarem as três províncias de França, colonizadas e
prósperas.
já falei do efeito esmagador que esta notícia teve sobre Augusto. Sentiu-a tanto mais fortemente
quanto ele não era apenas oficialmente responsável pelo desastre, como era o homem encarregado
pelo Senado romano e pelo povo da segurança de todas as fronteiras, mas também moralmente
responsável. O desastre devera-se à sua imprudência, ao tentar forçar a civilização sobre os bárbaros
com demasiada rapidez. Os germanos conquistados pelo meu pai tinham-se adaptado gradualmente
à maneira dos romanos, aprendendo o uso da cunhagem de moeda, organizando mercados regulares,
construindo e mobilando casas num estilo civilizado e reunindo-se mesmo em assembleias que não
terminavam, como era costume com as suas assembleias anteriores, em batalhas campais. Eram
aliados de nome e, se lhes tivesse sido permitido esquecer gradualmente as suas velhas maneiras
bárbaras e confiar na guarnição romana, para que os protegesse dos seus vizinhos ainda
incivilizados enquanto eles gozavam os luxos da paz provincial, poderiam talvez, dentro de duas
gerações ou mesmo menos, terem-se tornado tão pacíficos e dóceis como os gauleses da Provença.
Mas Varo, um parente meu, a quem Augusto nomeou Governador da Germânia do Outro Lado do
Reno, começou a tratá-los não como aliados, mas como uma raça subjugada: era um homem com
mau carácter e mostrava pouco respeito pelas convicções extremamente fortes dos Germanos sobre
a castidade das suas mulheres. Depois, Augusto precisava de dinheiro para o tesouro militar, que a
Guerra dos Balcãs tinha esvaziado. Impôs uma série de novos impostos, dos quais os germanos do
Outro-lado-do-Reno não estavam isentos. Varo aconselhou-o quanto à capacidade de pagamento da
província e, com todo o seu zelo, sobrestimou essa capacidade.
Havia no acampamento de Varo dois chefes germanos, Hérmann e Siegmyrgth, que falavam latim
fluentemente e pareciam estar completamente romanizados. Hérmann tinha comandado tropas
auxiliares germânicas na guerra anterior e a sua lealdade era inquestionável. Passara algum tempo
em Roma e fora mesmo incluído entre os nobres cavaleiros. Estes dois tinham muitas vezes comido
à mesa de Varo e encontravam-se nos termos da amizade mais íntima com ele. Encorajaram-no a
admitir que
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os seus compatriotas não eram menos leais e gratos a Roma pelos benefícios da civilização do
que eles próprios. Mas estavam em comunicação constante e secreta com outros chefes
descontentes, que persuadiram a, nos tempos mais próximos, não oferecerem resistência armada ao
poder romano e a pagar os seus impostos com a maior demonstração possível de boa vontade. Em
breve receberiam o sinal para a rebelião em massa. Hermann, cujo nome significa guerreiro, e
Siegmyrgth - ou chamemos-lhe antes Segímero -, cujo nome significa alegre vitória, eram
demasiado espertos para Varo. Membros do seu estado-maior estavam constantemente a preveni-lo
de que os germanos andavam anormalmente bem comportados nos últimos meses e que estavam a
tentar desarmar as suas suspeitas antes de fazerem uma sublevação repentina; mas ele ria-se da
sugestão. Disse que os germanos eram uma raça muito estúpida e incapazes quer de conceber tal
plano, quer de o executar sem traírem o segredo muito antes dele estar maduro. A sua docilidade era
mera cobardia; com quanto mais força se batia num germano, mais ele vos respeitava. Ele era
arrogante na prosperidade e na independência, mas, uma vez derrotado, vinha rastejando até aos
vossos pés como um cão e aí se conservava a partir dessa altura. Recusou-se mesmo a escutar os
avisos que lhe foram feitos por outro chefe germano que tinha rancor a Hermann e via claramente
os seus desígnios. Em vez de manter as tropas concentradas, como deveria ter feito num país apenas
parcialmente subjugado, fraccionou-as.
Seguindo instruções secretas de Hermann e Segímero, comunidades afastadas enviaram a Varo
pedidos de protecção militar contra bandidos e escoltas para transporte de mercadorias de França. A
seguir, veio uma rebelião armada na extremidade leste da província. Um cobrador de impostos e o
seu pessoal foram mortos. Quando Varo reuniu as forças que tinha disponíveis para uma expedição
punitiva, Hermann e Segímero escoltaram-no durante uma parte do caminho e, depois, escusaram-
se a continuar a acompanhá-lo, prometendo reunir as suas tropas auxiliares e vir em sua ajuda, se
necessário, logo que os mandasse chamar. Estas tropas auxiliares já estavam armadas e colocadas
para uma emboscada a alguns dias de viagem à frente de Varo e na sua linha de marcha. Os dois
chefes preveniram então as comunidades afastadas para que caíssem sobre os destacamentos
romanos enviados para as proteger e que não deixassem escapar um só homem.
Não chegou qualquer informação de Varo sobre este massacre, porque não houve sobreviventes. De
qualquer forma, ele não estava em contacto com o seu quartel-general. O caminho que seguia era
um mero trilho da floresta. Mas ele não tomou a precaução de mandar à frente uma guarda
avançada de batedores ou guardas de flanco e, em vez disso, deixou que toda a força - que continha
grande número de não-combatentes desfilasse numa coluna desordenada, com tão pouca precaução
como se
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estivesse a umas cinquenta milhas de Roma. A marcha era muito lenta, porque era
constantemente necessário derrubar árvores e arranjar pontes sobre os cursos de água para permitir
a travessia aos carros com abastecimentos; e isto deu tempo a que um grande número de membros
da tribo se juntassem às tropas que formavam a emboscada. O tempo mudou de repente; uma forte
chuvada, que durou vinte e quatro horas ou mais, ensopou os escudos de couro, tornando-os
demasiado pesados para a luta e pondo os arcos dos arqueiros fora de combate. O trilho barrento
tornou-se de tal forma escorregadio que era difícil para os homens manter o equilíbrio e os carros
estavam constantemente a atolar-se. A distância entre a frente e a retaguarda da coluna aumentou.
Então, um sinal de fumo elevou-se de uma colina vizinha e os germanos atacaram de repente pela
frente, pela retaguarda e pelos dois flancos.
Eles não se podiam comparar com os romanos numa luta leal e Varo não exagerara muito a sua
cobardia. A princípio, apenas ousaram atacar indivíduos isolados e condutores de transportes,
evitando a luta corpo-a-corpo, mas atirando saraivadas de azagaias e dardos, mantendo-se a coberto
e correndo de volta para a floresta mal um romano se punha a sacudir a espada e a gritar. Mas
causaram muitas baixas com esta táctica. Grupos conduzidos por Hermann, Segímero e outros
chefes bloquearam o caminho juntando carros capturados, aos quais quebravam as rodas, e
derrubando árvores que lhes atravessavam por cima. Fizeram vários destes bloqueios e deixaram
membros das tribos atrás deles para importunar os soldados quando eles tentavam abrir caminho.
Isto atrasou de tal forma os homens na cauda da coluna que, receosos de perderem o contacto,
abandonaram todos os carros que estavam ainda na sua posse e precipitaram-se para a dianteira,
esperando que os germânicos estivessem tão ocupados com a pilhagem que não voltassem a atacar
tão depressa.
O regimento que seguia à frente tinha alcançado uma colina onde não havia muitas árvores por
causa de um incêndio recente na floresta e ali formaram em segurança e aguardaram os outros dois.
Eles ainda conservavam o seu transporte e só tinham perdido algumas centenas de homens. Os
outros dois regimentos estavam em muito pior situação. Os homens ficaram separados das suas
companhias e novas unidades foram formadas, tendo entre cinquenta a 200 homens, cada uma com
uma guarda traseira, uma guarda avançada e guardas de flanco. Os guardas de flanco apenas
podiam avançar muito lentamente, porque a floresta era densa e pantanosa e, frequentemente,
perdiam o contacto com as suas pequenas unidades; as guardas avançadas sofriam fortes perdas nas
barricadas e a retaguarda estava constantemente a ser atacada por trás com azagaias. Quando se fez
a chamada nessa noite, Varo descobriu que quase um terço dos seus homens estava morto ou
desaparecido. No dia seguinte, abriu
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caminho até sair da floresta para campo aberto, mas tinha sido obrigado a abandonar o que
restava do seu transporte. A comida era escassa e, no terceiro dia, teve que se embrenhar de novo na
floresta. As baixas no segundo dia não tinham sido numerosas, pois uma grande parte do inimigo
estava ocupada a pilhar os carros e a levar o saque, mas quando foi feita a chamada, ao fim do
terceiro dia, só um quarto da força original estava presente para responder ao chamamento. No
quarto dia, Varo continuava a avançar, pois era demasiado casmurro para admitir a derrota e
abandonar o objectivo inicial, mas o tempo, que tinha melhorado um pouco, tornava-se agora pior
que nunca e os germanos, acostumados a violentas chuvadas, tornavam-se cada vez mais ousados
ao verem a resistência enfraquecer. Aproximaram-se então do adversário.
Por volta do meio-dia, Varo percebeu que tudo estava acabado e matou-se, de preferência a cair
vivo nas mãos do inimigo. A maior parte dos oficiais superiores que tinham sobrevivido seguiram o
seu exemplo, assim como muitos dos soldados. Apenas um oficial manteve a calma o mesmo
Cássio Chaerea que lutou naquele dia no anfiteatro. Ele comandava a retaguarda, composta por
montanheses da Sabóia, que se sentiam mais à vontade na floresta que a maioria; e quando veio a
notícia, por um fugitivo, de que Varo estava morto, as Águias capturadas e que não mais de 300
homens do corpo principal estavam ainda de pé, ele decidiu salvar o que pudesse da carnificina.
Deu meia volta e investiu contra o inimigo num ataque repentino. A grande coragem de Cássio, da
qual conseguiu transmitir um pouco aos seus homens, espantou os germanos. Deixaram sozinho
aquele pequeno corpo de homens resolutos e correram em frente para fazer conquistas mais fáceis.
É talvez um dos maiores feitos de guerra dos tempos modernos que, dos 120 homens que Cássio
tinha com ele quando fez meia volta, tenha conseguido, após uma marcha de oito dias através de um
país hostil, trazer oitenta de volta em segurança, sob o estandarte da companhia, até à fortaleza de
onde tinham partido vinte dias antes.
É difícil transmitir a sensação de pânico que reinava em Roma quando os rumores do desastre
foram confirmados. As pessoas começaram a empacotar os seus pertences e a carregá-los em
carroças, como se os germanos já estivessem às portas da cidade. Na realidade, havia boas razões
para essa ansiedade. As baixas na Guerra dos Balcãs tinham sido tão pesadas que quase todas as
reservas de combatentes disponíveis na Itália tinham sido utilizadas. Augusto estava aflito para
arranjar um exército que pudesse enviar sob o comando de Tibério, para garantir as pontes do Reno
que, ao que parecia, os germanos ainda não tinham ocupado. Dos cidadãos romanos capazes para o
serviço, poucos se apresentaram voluntariamente ao ser publicada a ordem de chamamento;
marchar contra os germanos parecia ser sinónimo de ir ao encontro de uma morte
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certa. Então, Augusto fez sair uma segunda ordem, pela qual, entre aqueles que não se oferecessem
no espaço de três dias, cada quinto homem perderia os direitos civis e seria privado de tudo o que
lhe pertencesse. Muitos ficaram quietos mesmo depois disto; então, mandou executar alguns como
exemplo e obrigou os restantes a irem para as fileiras, onde alguns deles, de facto, se tornaram bons
soldados. Também chamou um grupo de homens com mais de trinta e cinco anos e realistou vários
veteranos que tinham completado os seus dezasseis anos de serviço. Com estes e um regimento ou
dois compostos de libertos, que normalmente não estavam sujeitos a serviço militar (embora os
reforços de Germânico na Guerra dos Balcãs contassem com eles em grande número), reuniu um
exército imponente e enviou cada companhia sozinha para o Norte, logo que ficou armada e
equipada.
Foi para mim a maior das vergonhas e dos desgostos que nesta hora de suprema necessidade de
Roma eu fosse incapaz de servir como soldado em sua defesa. Fui ter com Augusto e supliquei-lhe
que me enviasse numa qualquer missão em que a minha fraqueza física não fosse um impedimento:
sugeri-lhe ir para junto de Tibério como oficial dos serviços secretos e ocupar-me de tarefas tão
úteis como reunir e analisar informações sobre os movimentos do inimigo, interrogar prisioneiros,
fazer mapas e dar instruções especiais a espiões. Tendo falhado esta nomeação (para a qual me
considerava qualificado, porque tinha feito um estudo cuidadoso das campanhas na Germânia e
tinha aprendido a pensar de maneira ordenada e a dirigir o pessoal), apresentei-me como voluntário
para servir de Mestre Quarteleíro Geral a Tibério: pediria a Roma os fornecimentos militares
necessários e, à sua chegada à base, encarregar-me-ia de os verificar e distribuir. Augusto pareceu
satisfeito por eu me ter apresentado de minha livre vontade e disse que falaria a Tibério da minha
oferta. Mas não deu em nada. Talvez Tibério me achasse incapaz de qualquer serviço útil; talvez
ficasse simplesmente aborrecido por eu ter feito aquele pedido, quando o seu filho Castor se deixara
ficar para trás e persuadira Augusto a enviá-lo para o sul de Itália para reunir e treinar soldados. No
entanto, Germânico estava na mesma situação que eu, o que sempre me dava algum conforto.
Oferecera-se como voluntário para servir na Germânia, mas Augusto precisava dele em Roma, onde
era muito popular, para o ajudar a dominar os distúrbios civis que, receava, não tardassem a
rebentar logo que as tropas saíssem da cidade.
Entretanto, os germanos perseguiram todos os fugitivos do exército de Varo e sacrificaram dezenas
deles aos seus deuses da floresta, queimando-os vivos em gaiolas de verga. Aos restantes,
conservaram-nos como cativos (alguns deles foram mais tarde resgatados pelos seus parentes por
um preço extravagantemente elevado, mas Augusto proibiu-os de alguma vez voltarem a por os pés
em Itália). Os germanos também
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estiveram sujeitos a uma longa série de tremendas crises e bebedeira com o vinho capturado e
lutaram de forma sangrenta pela glória e pelo saque. Passou muito tempo até que voltassem a estar
activos e compreendessem a fraca oposição que encontrariam se marchassem sobre o Reno. Mas
logo que o vinho começou a desaparecer, atacaram as fortalezas fronteiriças com a sua fraca
guarnição e, uma a seguir a outra, capturaram-nas e saquearam-nas. Uma única fortaleza ofereceu
uma resistência decente: a que estava nas mãos de Cássio. Os germanos tê-la-iam ocupado tão
facilmente como as outras, porque a guarnição era pequena, mas Hermann e Segimero estavam
noutro lado e nenhum dos restantes entendia a arte romana do cerco com catapultas, a tartaruga e a
escavação de túneis. Cássio tinha na fortaleza um bom fornecimento de arcos e flechas e ensinou
toda a gente, mesmo mulheres e escravos, a usá-los. Derrotou com êxito vários ataques selváticos às
suas portas e tinha sempre grandes caldeirões com água a ferver prontos para despejar sobre
quaisquer germanos que tentassem escalar os muros com escadas. Os germanos estavam tão
ocupados a tentar capturar aquele lugar, onde esperavam encontrar um saque valioso, que não
avançaram para as pontes do Reno, inadequadamente guardadas.
Chegaram notícias da aproximação rápida de Tibério à frente do seu novo exército. Hermann reuniu
imediatamente as suas tropas, decidido a capturar as pontes antes de Tibério lá chegar. Foi deixado
um destacamento para cercar a fortaleza, que se sabia estar mal fornecida de provisões. Cássio, que
teve conhecimento dos planos de Hermann, decidiu fugir enquanto era tempo. Numa noite de
tempestade, conseguiu sair com toda a guarnição e logrou ultrapassar os dois primeiros postos
avançados do inimigo antes que o choro de algumas das crianças que estavam com ele desse o
alarme. No terceiro posto avançado houve uma luta corpo a corpo e, se os germanos não estivessem
tão ansiosos por entrar na cidade e saqueá-la, Cássio e a sua gente não teriam tido hipótese de
sobreviver. Mas, de alguma forma, ele conseguiu safar-se e, meia hora mais tarde, disse aos seus
trombeteiros que fizessem ouvir o toque de avançar em marcha acelerada levando os germanos a
acreditar que estavam a chegar reforços; por isso, não os seguiram. As tropas que estavam na ponte
mais próxima ouviram o som distante das trombetas romanas, pois o vento soprava de leste, e,
adivinhando o que estava a acontecer, enviaram um destacamento para escoltar a guarnição a porto
seguro. Dois dias depois, Cássio defendeu a ponte com êxito contra um ataque em massa dos
homens de Segimero; depois disso, chegou a vanguarda de Tibério e a situação foi salva.
O fim do ano foi marcado pelo exílio de Julila, sob acusação de adultério promíscuo - tal como sua
mãe Júlia -, para Tremero, uma pequena ilha na costa da Apúlia. A verdadeira razão do exílio foi
que ela estava
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quase a ter outro filho que, se fosse rapaz, seria bisneto de Augusto e não aparentado com Lívia;
Lívia não queria correr riscos. Julila já tinha um filho, mas tratava-se de um indivíduo delicado,
timorato e incapaz, que podia ser ignorado, O próprio Emílio forneceu a Lívia motivos para a
acusação. Tinha discutido com Julila e, agora, acusava-a na presença da filha de ambos, Emília, de
tentar fazê-lo passar por pai do filho de outro homem. Citou Décimo, um nobre da Família Silano,
como sendo o adúltero. Emília, que era suficientemente esperta para compreender que a sua própria
vida e segurança dependiam de se manter nas boas graças de Lívia, foi procurá-la e contou-lhe o
que tinha ouvido. Lívia fê-la repetir a história na presença de Augusto. Depois, Augusto convocou
Emílio e perguntou-lhe se era verdade não ser ele o pai do filho de Júlia. Não ocorreu a Emílio que
Emília pudesse tê-lo traído a ele e à mãe e partiu do princípio que a intimidade de que ele
suspeitava entre Júlia e Décimo fosse um escândalo corrente. Manteve portanto a sua acusação,
embora fosse fundada mais no ciúme que no conhecimento. Augusto tomou a criança logo que ela
nasceu e mandou expô-la na montanha. Décimo exilou-se voluntariamente e vários outros homens
acusados de terem sido amantes de Julila, numa altura ou noutra, seguiram-no: entre eles, estava o
poeta Ovídio, de quem Augusto, por mais estranho que pareça, fez o principal bode expiatório, por
ter também escrito (muitos anos antes) A Arte do Amor. Fora este poema, afirmou Augusto, que
tinha debochado o espírito da neta. Ordenou que todos os exemplares fossem procurados para serem
queimados.
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CAPíTULO XIII
Augusto tinha mais de setenta anos de idade. Até há pouco tempo, ninguém pensava nele como um
velho. Mas estas novas calamidades públicas e privadas operaram uma grande mudança nele. O seu
humor tornou-se instável e era-lhe cada vez mais difícil receber visitantes ocasionais com a sua
afabilidade habitual, ou não perder a paciência em banquetes públicos. Tinha mesmo tendência a
mostrar-se irritadiço com Lívia. No entanto, continuava o seu trabalho conscienciosamente como
sempre e aceitou mesmo um novo período de dez anos de monarquia. Tibério e Germânico, quando
estavam na cidade, ocupavam-se de muitas tarefas que normalmente teria sido ele a executar e Lívia
trabalhava mais do que nunca. Durante a Guerra dos Balcãs, ela ficara em Roma enquanto Augusto
estava ausente e, armada com um duplicado do selo dele e em contacto permanente com ele através
de estafetas, tratara ela própria de tudo. Augusto estava cada vez menos favorável à perspectiva da
sucessão por Tibério. Achava-o capaz de governar razoavelmente bem, com a ajuda de Lívia, e de
levar por diante as medidas por ele decretadas, mas também se sentia lisonjeado com a ideia de que
todos sentiriam a falta do Pai da Pátria quando ele morresse e falariam da Era de Augusto como
falavam da Época de Ouro do Rei Numa. Apesar dos serviços notáveis prestados a Roma, Tibério
era pessoalmente impopular e, certamente, não ganharia maior popularidade quando fosse
Imperador. Era uma satisfação para Augusto que Germânico, sendo mais velho que Castor, seu
irmão adoptivo, fosse o sucessor natural de Tibério e que os filhos pequenos de Germânico, Nero e
Druso, fossem seus bisnetos. Embora o Destino decretasse que os seus netos não lhe sucederiam,
ele havia de voltar a reinar um dia, nas pessoas dos bisnetos. Nesta altura, Augusto já tinha
esquecido a República, como quase toda a gente, e aceitado a ideia de que os seus quarenta anos de
serviço duro e cheio de ansiedade em prol de Roma lhe tinham proporcionado o direito de nomear
os seus sucessores imperiais, mesmo até à terceira geração, se lhe aprouvesse.
Quando Germânico estava na Dalmácia, não lhe escrevi a falar de Póstumo com medo que algum
agente de Lívia interceptasse a minha carta, mas contei-lhe tudo logo que ele voltou da guerra.
Ficou muito perturbado e disse que não sabia o que pensar. Tenho que explicar que está na natureza
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de Germânico recusar-se sempre a pensar mal de alguém até que uma prova positiva desse mal
lhe seja imposta e, caso contrário, a atribuir a isso todos os motivos mais elevados. Esta extrema
simplicidade era-lhe geralmente útil. A maior parte das pessoas com quem entrava em contacto
sentiam-se lisonjeadas com a elevada opinião por ele formada do seu carácter moral e, ao tratar com
ele, tentavam estar à altura dessa reputação. Se alguma vez se encontrasse à mercê de uma criatura
verdadeiramente maléfica, esta generosidade de coração seria sem dúvida a sua perda; mas, por
outro lado, se alguém tinha qualquer coisa de bom dentro de si, Germânico parecia sempre
conseguir trazê-la à superfície. Por isso, naquele momento disse-me que não podia espontaneamente
acreditar que quer Livila quer Emília fossem capazes de uma tal baixeza criminosa, embora
ultimamente, admitiu, se sentisse decepcionado com Livila. Também disse que eu não deixara bem
claros os possíveis motivos delas, excepto arrastando para o assunto nossa avó Lívia, o que era
francamente ridículo. Quem no seu juízo perfeito, perguntava, repentinamente indignado, podia
suspeitar que Lívia as incitasse a uma tão grande maldade? Era o mesmo que suspeitar que a Boa
Deusa envenenara os poços da cidade. Mas quando lhe perguntei por minha vez se ele realmente
acreditava que Póstumo fosse culpado de duas tentativas de estupro em noites sucessivas, ambas
extremamente imprudentes, ou que ele fosse capaz de mentir a Augusto e a nós dois sobre esse
assunto, mesmo que fosse culpado, ele ficou silencioso. Sempre amara e confiara em Póstumo.
Aproveitando a minha vantagem, fi-lo jurar pela alma de nosso defunto pai que, se alguma vez se
lhe deparasse a mais ligeira prova de que Póstumo tinha sido injustamente condenado, ele contaria a
Augusto tudo o que sabia sobre o caso e forçá-lo-ia a trazer Póstumo de volta e punir os mentirosos
como eles mereciam.
Na Germânia, não se passava grande coisa. Tibério dominava as pontes mas não tentou atravessar o
Reno, pois ainda não tinha confiança nas suas tropas, que andava ocupado a pôr em forma. Os
germanos também não tentaram atravessar. Augusto impacientou-se de novo com Tibério e insistiu
com ele para que vingasse Varo sem mais demoras e reconquistasse as Águias. Tibério respondeu
que nada estava mais próximo do seu coração, mas que as tropas ainda não estavam preparadas para
tentar esse feito, Augusto enviou Germânico logo que ele terminou o seu mandato na magistratura e
Tibério, então, teve que mostrar alguma actividade; na verdade, ele não era preguiçoso nem
cobarde, mas apenas extremamente cauteloso. Atravessou o Reno e percorreu veloz algumas partes
da província perdida, mas os germanos evitaram entrar em luta; e Tibério e Germânico, ambos
muito cuidadosos para não caírem em nenhuma emboscada, não fizeram muito mais do que
queimar alguns acampamentos
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inimigos perto do Reno e exibir a sua força militar. Houve algumas escaramuças das quais se
saíram bem - e fizeram algumas centenas de prisioneiros. Ficaram naquela região até ao Outono,
quando voltaram a atravessar o Reno; na Primavera seguinte, o muito esperado triunfo sobre os
dálmatas foi celebrado em Roma, ao qual acrescentaram um outro por esta expedição à Germânia,
apenas para restabelecer a confiança. Não posso deixar de dar crédito a Tibério por um acto
generoso ao qual Germânico o persuadiu: depois de exibir Bato, o rebelde dálmata capturado, no
seu triunfo, deu-lhe a liberdade e um grande presente em dinheiro, instalando-o confortavelmente
em Ravena. Bato merecia tudo isso: Tivera em tempos um acto cavalheiresco, deixando Tibério
escapar de um vale onde estava encurralado com o seu exército.
Germânico era cônsul agora e Augusto escreveu uma carta especial recomendando-o ao Senado e o
Senado a Tibério (recomendando assim o Senado a Tibério, e não o contrário, Augusto mostrava ao
mesmo tempo que tencionava ter Tibério como seu sucessor imperial, com autoridade sobre o
Senado, e que não desejava pronunciar um discurso elogioso sobre ele, como fizera com
Germânico). Agripina acompanhava sempre Germânico quando ele ia para as guerras, como minha
mãe tinha acompanhado o meu pai. Fazia-o sobretudo por amor por ele, mas também porque não
queria ficar sozinha em Roma e ser chamada à presença de Augusto por causa de alguma falsa
acusação de adultério, Não tinha a certeza de como era vista por Lívia. Ela era a típica matrona dos
tempos antigos - forte, corajosa, modesta, espirituosa, piedosa, fértil e casta. já dera quatro filhos a
Germânico e ainda havia de lhe dar mais cinco.
Germânico, embora a regra de Lívia contra a minha presença à sua mesa continuasse de pé, e
embora a minha mãe também não evidenciasse qualquer mudança nos seus sentimentos para
comigo, levava-me para junto dos seus nobres amigos sempre que a ocasião se apresentava. Por
causa dele, eu era tratado com um certo respeito, mas a opinião da família sobre as minhas
capacidades era conhecida e sabia-se que Tibério a partilhava; por isso, ninguém se dava ao
trabalho de cultivar uma relação comigo. A conselho de Germânico, fiz saber que iria fazer uma
leitura do meu recente trabalho histórico e convidei um número de figuras literárias proeminentes
para assistirem. O livro que tinha escolhido para ler era um em que trabalhara arduamente e que
deveria ter sido muito interessante para o meu público - por causa das fórmulas usadas durante as
abluções rituais pelos sacerdotes etruscos, em cada caso com uma tradução latina que lançava uma
luz sobre muitos dos nossos ritos lustrais, cujo significado exacto tinha sido obscurecido pelo
tempo. Germânico leu-o de antemão de uma ponta à outra e mostrou-o à minha mãe e a Lívia, que o
aprovaram; depois, foi suficientemente generoso para se sentar a meu lado durante o ensaio da
leitura. Felicitou-me tanto pelo trabalho
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como pela apresentação e acho que deve ter falado muito no assunto, porque a sala na qual eu iria
fazer a leitura estava cheia. Lívia não estava presente, nem Augusto, mas a minha mãe assistiu, tal
como Germânico e Livila.
Eu estava muito bem disposto e nada nervoso. Germânico sugerira que me fortalecesse antes com
uma taça de vinho e achei que era uma boa ideia. Foi posta uma cadeira para Augusto, caso ele
aparecesse, e outra para Lívia, ambas verdadeiramente esplêndidas - as cadeiras que eram sempre
reservadas para eles quando visitavam a nossa casa. Depois de todos terem chegado e se terem
sentado, as portas foram fechadas e comecei a ler, Estava a sair-me lindamente, consciente de que
não estava a ler depressa demais nem com demasiada lentidão, ou demasiado alto ou muito baixo,
mas sim no tom certo, e que a assistência, que não viera com grandes expectativas a meu respeito,
não podia deixar de se sentir interessada, quando ocorreu um incidente muito infeliz. Ouviu-se uma
pancada forte na porta e depois, como ninguém fosse abrir, uma outra. Então, o puxador foi
sacudido violentamente e irrompeu na sala o homem mais gordo que alguma vez vi na minha vida,
em trajo de cavaleiro e trazendo na mão uma grande almofada bordada. Parei de ler porque,
entretanto, tinha chegado a uma passagem difícil e importante e ninguém estava a ouvir - todos os
olhos estavam postos no cavaleiro. Ele reconheceu Lívio e saudou-o numa espécie de cantilena, que
vim a saber mais tarde ser o sotaque característico de Pádua; depois, fez uma saudação geral ao
resto da companhia, o que provocou risos escondidos. Não prestou nenhuma atenção especial a
Germânico como Cônsul, nem à minha mãe ou a mim mesmo, como anfitriões, Depois, olhou em
volta à procura de assento e viu o de Augusto, mas parecia demasiado apertado para ele; por isso,
apoderou-se do de Lívia. Pôs-lhe a almofada em cima, serrou a túnica em volta dos joelhos e
sentou-se com um grunhido. E claro está, a cadeira, que era uma peça antiga vinda do Egipto, parte
do espólio do palácio de Cleópatra, e um trabalho muito delicado, foi-se abaixo com grande
estrondo.
Todos excepto Germânico, Lívio, a minha mãe e os membros mais sérios da assistência riram
ruidosamente; mas depois do cavaleiro se ter levantado gemido, praguejado e de ter sido escoltado
para fora da sala por um liberto, enquanto se esfregava, fez-se um silêncio atento e eu tentei
continuar. Mas fui acometido de um riso quase histérico. Talvez fosse o vinho que tinha bebido ou
talvez fosse porque tinha visto a expressão na cara do indivíduo quando a cadeira começara a ceder
debaixo dele, o que mais ninguém vira porque ele estava na primeira fila e eu era o único que me
encontrava de frente para ele; mas fosse como fosse, a concentração nos ritos lustrais dos etruscos
tornou-se-me impossível. A princípio, o público mostrou-se compreensivo com o meu divertimento
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e chegou mesmo a rir comigo, mas quando, lutando para chegar ao fim de outro parágrafo, com
grande dificuldade, calhou eu ver pelo canto do olho a cadeira que o cavaleiro partira e que estava
equilibrada e insegura sobre as pernas estilhaçadas, fui-me novamente abaixo e a assistência
começou a impacientar-se. Para piorar ainda mais as coisas, depois de ter lutado comigo mesmo e
retomado o fio à meada, com alívio notório por parte de Germânico, as portas abriram-se num
ímpeto e quem havia de entrar senão Augusto e Lívia! Emcaminharam-se com ar grandioso pelo
meio das filas de cadeiras e Augusto sentou-se. Lívia preparava-se para fazer o mesmo quando
reparou que alguma coisa não estava bem. Ela perguntou numa voz bem sonora e vibrante:
- Quem é que esteve sentado na minha cadeira?
Germânico fez o possível por explicar a situação, mas ela decidiu que estava a ser insultada. Foi-se
embora. Augusto, com ar constrangido, seguiu-a. Alguém me pode culpar por ter feito uma
autêntica confusão do resto da minha leitura? O cruel Deus Momo deve ter estado naquela cadeira
porque, cinco minutos depois, as pernas da mesma voltaram a cair e, mais uma vez, ela
desmoronou; uma pequena cabeça de leão em ouro partiu-se de um dos braços, deslizou pelo chão e
foi parar debaixo do meu pé direito, que estava ligeiramente levantado. Descontrolei-me de novo,
engasgando-me, ofegante e soltando gargalhadas.
Germânico veio ter comigo e implorou-me que me controlasse, mas eu apenas consegui apanhar a
cabeça do leão e apontar desesperadamente para a cadeira. Se é que alguma vez vi Germânico
aborrecido comigo foi nessa ocasião. Perturbou-me muito vê-lo aborrecido e acalmei
imediatamente. Mas perdera a confiança em mim mesmo e comecei a gaguejar tão fortemente que a
leitura terminou de forma desastrosa. Germânico fez o possível por conseguir um voto de
agradecimento pelo meu interessante trabalho - lamentando que um acidente inesperado me tivesse
perturbado a meio e que, em consequência desse mesmo acidente, o Pai da Pátria e Dona Lívia sua
esposa se tivessem retirado da nossa presença, esperando que num dia mais auspicioso no futuro
próximo eu pudesse fazer nova leitura. Nunca houve um irmão tão atencioso como Germânico, nem
homem tão nobre. Mas desde então, não voltei a fazer qualquer leitura pública dos meus trabalhos.
Germânico veio procurar-me um dia com um ar muito sério. Levou bastante tempo a decidir-se a
falar, mas finalmente disse:
- Falei com Emílio esta manhã e calhou abordarmos o assunto do pobre Póstumo. Foi ele o primeiro
a abordá-lo, perguntando-me quais tinham sido exactamente as acusações contra Póstumo, e disse,
aparentemente com toda a ingenuidade, que, tanto quanto sabia, Póstumo tinha tentado violar duas
mulheres nobres, mas que ninguém parecia saber quem elas eram. Olhei-o com dureza quando ele
disse isto, mas vi que
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estava a falar verdade. Por isso, ofereci-me para trocar o que eu sabia pelos conhecimentos dele,
mas apenas se prometesse guardar só para ele aquilo que lhe dissesse. Quando lhe disse que fora a
própria filha dele que acusara Póstumo de ter tentado violá-la e na sua própria casa, ele ficou
admirado e recusou-se a acreditar, Ficou muito zangado. Disse que a governanta de Emília
certamente estivera com eles o tempo todo. Queria ir ter com Emília e perguntar-lhe se a história era
verdadeira e, se fosse, porque é que era aquela a primeira vez que ele ouvia falar disso? Detive-o,
recordando-lhe a promessa que me fizera. Eu não tinha confiança em Emília. Em vez disso, sugeri
que devíamos interrogar a governanta, mas não de forma a alarmá-la. Assim, mandámos chamá-la e
perguntámos-lhe qual fora a conversa entre Emília e Póstumo, durante aquele alarme de assalto, da
última vez que jantara com eles. A princípio, ela pareceu vaga, mas quando lhe perguntei: ”Não foi
sobre árvores de fruto?”, ela disse: ”Sim, claro, sobre pragas das árvores de fruto.” Em seguida,
Emílio quis saber se tinha havido alguma outra conversa na sua ausência e ela disse que achava que
não. Lembrava-se que Póstumo tinha estado a explicar novos métodos gregos para tratar a peste
designada por manchas negras e que ela ficara extremamente interessada, porque percebia de
jardins. Disse que não tinha deixado a sala nem por um momento. Assim, fui procurar Castor em
seguida e mencionei Póstumo com toda a naturalidade. Estais lembrados que as propriedades de
Póstumo foram confiscadas e vendidas enquanto eu estava na Dalmácia e que o produto foi
colocado no tesouro militar? Bom, eu perguntei-lhe o que tinha acontecido a umas certas peças de
baixela que me pertenciam e que Póstumo me pedira emprestadas para um banquete; ele disse-me
como podia recuperá-las. Depois, discutimos o seu exílio. Castor falou abertamente e satisfaz-me
dizer que estou agora plenamente convencido no meu íntimo de que ele não fez parte da
maquinação.
- Admites agora que foi uma maquinação? - perguntei ansioso.
- Receio que, ao fim e ao cabo, essa seja a única explicação. Mas o próprio Castor estava inocente,
tenho a certeza. Ele disse-me, sem ser forçado a isso, que, por sugestão de Livila, tinha arreliado
Póstumo no jardim, tal como Póstumo te disse que ele tinha feito. Explicou que o fizera apenas
porque Póstumo andava a dirigir olhares a Livila e ele, como marido, não gostava disso. Mas disse
que não lamentava tê-lo feito
- embora talvez não fosse um gracejo de muito bom gosto -, porque a tentativa de Póstumo para
violar Livila e os danos graves que ele próprio sofrera às mãos daquele louco tornavam qualquer
arrependimento despropositado.
- Ele acreditava que Póstumo tinha tentado violar Lívia?
- Sim. E eu não desfiz o engano. Não quis que Livila soubesse aquilo de que tu e eu suspeitamos.
Porque, se ela soubesse, isso chegaria aos ouvidos de Lívia.
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- Germânico, acreditas agora que Lívia planeou tudo? Ele não respondeu.
- Vais falar com Augusto?
- Dei-te a minha palavra. Eu respeito sempre a minha palavra.
- Quando é que vais?
- Agora.
O que aconteceu na entrevista não sei e nunca o saberei. Mas Germânico parecia muito mais feliz
nessa noite ao jantar e a maneira como evitou as minhas perguntas mais tarde, sugeria que Augusto
acreditara nele e lhe jurara segredo de momento. Passou muito tempo antes que eu soubesse da
sequência dos acontecimentos, aquilo que vos posso contar agora. Augusto escreveu aos corsos, que
havia anos se queixavam de incursões dos piratas nas suas costas, que em breve iria em pessoa
investigar o caso; no caminho, iria parar em Marselha, onde tencionava consagrar um templo.
Pouco depois fez-se ao mar, mas interrompeu a viagem em Elba por dois dias. No primeiro dia,
ordenou que os guardas de Póstumo em Planásia fossem substituídos imediatamente por um grupo
totalmente novo. Assim se fez. Na mesma noite, ele navegou em segredo para o outro lado da ilha
num pequeno barco de pesca, acompanhado apenas por Fábio Máximo, um amigo próximo, e um
tal Clement, que em tempos fora escravo de Póstumo e tinha uma forte semelhança com o seu
antigo senhor. Ouvi dizer que Clement era filho natural de Agripa. Tiveram a sorte de encontrar
Póstumo logo que desembarcaram. Ele tinha andado a armar as linhas de pesca para a noite e vira a
vela do barco à distância, à luz de uma lua forte: estava sozinho. Augusto mostrou-se e estendeu a
mão, gritando:
- Perdoa-me, meu filho! - Póstumo tomou-lhe a mão e beijou-a. Depois os dois afastaram-se,
enquanto Fábio e Clement vigiavam. O que foi falado entre eles ninguém sabe; mas Augusto
chorava quando voltaram juntos. Depois, Fábio e Clement trocaram as roupas e os nomes e
Póstumo voltou a Elba com Augusto e Fábio; Clement tomou o lugar de Póstumo em Planásia, até
chegar a ordem para a sua libertação, que Augusto disse que não demoraria muito. A Clement foi
prometida a liberdade e uma grande quantia em dinheiro se fizesse bem o seu papel. Devia fingir-se
doente nos dias mais próximos e deixar crescer o cabelo e a barba, para que ninguém notasse o
embuste, especialmente porque nessa tarde ele não tinha sido visto pela nova guarda durante mais
de alguns minutos.
Lívia suspeitava que Augusto estivesse a fazer alguma coisa nas suas costas. Conhecia o seu
desagrado pelo mar e sabia que nunca viajava de barco quando podia ir por terra, mesmo que isso
significasse perder um tempo precioso. Era verdade que ele não poderia ter ido até à Córsega a não
ser por mar, mas os piratas não eram uma ameaça séria e ele podia
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facilmente ter enviado Castor ou qualquer um de vários outros subordinados para investigar o
assunto da sua parte. Assim, ela começou a investigar e acabou por saber que, quando Augusto
parou em Elba, tinha ordenado que a guarda de Póstumo fosse trocada e que ele e Fábio tinham
saído a apanhar chocos na mesma noite num barco pequeno, acompanhados apenas por um escravo.
Fábio tinha uma mulher chamada Márcia que partilhava todos os seus segredos, e Lívia, que nunca
lhe dera muita atenção, começou agora a cultivar esse relacionamento. Márcia era uma mulher
simples e fácil de enganar. Quando Lívia ficou com a certeza de ter conquistado totalmente a
confiança de Márcia, chamou-a à parte um dia e perguntou:
- Vamos, minha querida, dizei-me, Augusto ficou muito afectado quando voltou a encontrar
Póstumo, ao cabo de tantos anos? Ele é muito mais sentimental do que aparenta. - Fábio tinha dito a
Márcia que a história da viagem a Planásia era um segredo que ela não podia contar a ninguém
neste mundo, ou as consequências poderiam ser fatais para ele. Por isso, a princípio, ela não quis
responder. Lívia riu-se e disse:
-Ali, vós sois cuidadosa. Sois como a sentinela de Tibério na Dalmácia, que não queria deixar o
próprio Tibério entrar no acampamento uma noite, quando ele voltou de uma cavalgada, porque não
sabia a senha: ”Ordens são ordens, meu General”, disse o idiota. Minha querida Márcia, Augusto
não tem segredos para mim, nem eu para Augusto. Mas louvo a vossa prudência.
Assim, Márcia pediu desculpa e disse:
- Fábio diz que ele se fartou de chorar. Lívia replicou:
- Claro que sim. Mas talvez seja mais sensato não dizer a Fábio que falámos disto - Augusto não
gosta que as pessoas saibam quanto ele confia em mim. Calculo que Fábio vos tenha falado do
escravo?
Isto era um tiro no escuro. O escravo podia não ter tido qualquer importância, mas era uma pergunta
que valia a pena fazer. Márcia respondeu:
- Sim, Fábio disse que ele era extraordinariamente parecido com Póstumo, apenas um pouco mais
baixo.
- Não vos parece que os guardas vão notar a diferença?
- Fábio disse que acha que não. Clement fazia parte do pessoal da casa de Póstumo; portanto, se for
cuidadoso, não se vai trair pela ignorância; e, como sabeis, a guarda foi mudada.
Portanto, agora, Lívia só tinha que descobrir onde estava Póstumo, que calculava estivesse
escondido algures sob o nome de Clement. Pensava que Augusto estivesse a planear restituir-lhe o
seu favor e podia mesmo passar por cima de Tibério e nomeá-lo seu sucessor imediato à monarquia,
à guisa de compensação. Fez Tibério seu confidente, e
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preveniu-o das suas suspeitas. Os problemas tinham recomeçado nos Balcãs e Augusto pensava
enviar Tibério para os reprimir antes que as coisas se tornassem sérias. Germânico estava em França
a recolher impostos. Augusto falava em enviar Castor para fora também, para a Germânia; e tinha
andado a ter conversas frequentes com Fábio, que Lívia concluiu estar a servir de seu intermediário
junto de Póstumo. Logo que o caminho estivesse livre, Augusto sem dúvida enviaria Póstumo
repentinamente para o Senado, faria revogar o decreto contra ele e nomeá-lo-ia seu colega no lugar
de Tibério. Com Póstumo reabilitado, a via dela já não estaria segura: Póstumo tinha-a acusado de
envenenar o pai e os irmãos e Augusto não teria voltado a dar-lhe o seu favor se não estivesse
convencido de que as acusações eram bem fundadas. Pôs os seus agentes de maior confiança a
espiar os movimentos de Fábio com a finalidade de localizar um escravo chamado Clement, mas
eles não conseguiram descobrir nada. De qualquer forma, ela decidiu não perder tempo e
desembaraçar-se de Fábio. Foi assaltado na rua uma noite a caminho do Palácio e recebeu doze
punhaladas: os assaltantes mascarados fugiram. No funeral, aconteceu uma coisa escandalosa.
Márcia atirou-se sobre o corpo do marido e suplicou-lhe que a perdoasse, dizendo que só ela tinha
sido responsável pela sua morte, com o seu próprio descuido e desobediência. No entanto, ninguém
compreendeu do que ela estava a falar e pensaram que o desgosto a tinha enlouquecido.
Lívia disse a Tibério que se mantivesse em comunicação constante com ela no seu caminho para os
Balcãs e que viajasse o mais lentamente possível, pois podia ser mandado chamar a qualquer
momento.
Augusto, que o acompanhara até Nápoles, viajando serenamente ao longo da costa, sentiu-se
doente: tinha o estômago desarranjado. Lívia preparava-se para o tratar, mas ele agradeceu-lhe e
disse-lhe que não era nada; que podia tratar-se a si mesmo. Foi ao seu armário de medicamentos e
escolheu uma purga forte; depois, fez jejum durante um dia. Proibiu-a claramente de se preocupar
com a saúde dele; já tinha bastante com que se preocupar. Rindo, recusou-se a comer outra coisa do
que estava em cima da mesa a não ser pão, beber água de um jarro que ela própria usava e ingerir
uns figos verdes que ele tinha apanhado da árvore com as próprias mãos. Nada nos seus modos para
com Lívia parecia ter mudado, tal como ela não mudara em relação a ele, mas cada um lia o
pensamento do outro.
Apesar de todas as precauções, o estômago dele voltou a piorar. Teve que interromper a viagem em
Nola; daí, Lívia enviou uma mensagem chamando Tibério. Quando este chegou, recebeu a notícia
de que Augusto estava em franco declínio e chamando por ele muito seriamente. já se despedira de
certos ex-cônsules, que tinham vindo apressados de Roma ao saber a notícia da sua doença.
Perguntara-lhes com um sorriso se
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achavam que ele tinha representado bem a farsa; que é a pergunta que os actores de comédia fazem
ao público no final da peça. Retribuindo-lhe o sorriso, embora muitos deles tivessem lágrimas nos
olhos, eles responderam: ”Nunca houve melhor, Augusto.” ”Então, deixai-me ir com o vosso
aplauso”, disse ele. Tibério acorreu à sua cabeceira, onde ficou umas três horas, e depois apareceu
para anunciar cheio de tristeza que o Pai da Pátria acabava de morrer nos braços de Lívia, com uma
última saudação carinhosa para ele próprio, para o Senado e para o povo de Roma. Agradecia aos
deuses ter chegado a tempo para fechar os olhos do seu pai e benfeitor. Na realidade, Augusto já
estava morto havia um dia, mas Lívia escondera esse facto apresentando relatórios tranquilizadores
ou desencorajantes com intervalos de poucas horas. Por uma estranha coincidência, ele morreu no
mesmo quarto em que morrera o pai, setenta e cinco anos antes. Recordo-me bem de como a notícia
me chegou. Foi no dia 20 de Agosto. Eu estava a dormir até mais tarde depois de ter trabalhado
quase toda a noite na minha história; no Verão, era-me mais fácil trabalhar de noite e dormir
durante o dia. Fui acordado pela chegada de dois velhos cavaleiros, que se desculparam por me
incomodarem, mas disseram que o assunto era urgente. Augusto estava morto e a Nobre Ordem dos
Cavaleiros reunira apressadamente e elegeram-me seu representante junto do Senado. Eu devia
pedir que lhes fosse concedida a honra de trazer o corpo de Augusto aos ombros de volta para a
Cidade. Ainda estava meio a dormir e não pensava no que dizia. Gritei:
- Veneno é Rainha! Veneno é Rainha!
Eles entreolharam-se ansiosos e constrangidos e eu recompus-me e pedi desculpa, dizendo que
tivera um sonho terrível e estava a repetir as palavras que ouvira nele. Pedi-lhes que repetissem a
sua mensagem; depois de o terem feito, agradeci-lhes a honra que me davam e apressei-me a fazer o
que me pediam. Não era propriamente uma honra, claro, ser escolhido como um cavaleiro distinto.
Todos os que tinham nascido livres, não tinham de forma nenhuma caído em desgraça e possuíam
propriedades acima de um dado valor, poderiam tornar-se cavaleiros; com as minhas ligações de
família, se eu tivesse mostrado capacidades mesmo médias, já seria nesta altura um membro
respeitado do Senado, como o meu contemporâneo Castor. Fui escolhido de facto por ser o único
membro da família imperial que ainda pertencia a uma ordem inferior e para evitar invejas entre os
outros cavaleiros. Esta foi a primeira vez que visitei o Senado durante uma sessão. Fiz o pedido sem
gaguejar ou esquecer as palavras e sem cair em desgraça por qualquer outra razão.
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CAPíTULO XIV
Embora se tivesse tornado claro que os poderes de Augusto estavam a falhar e que ele não tinha
muitos mais anos de vida, Roma não conseguia habituar-se à ideia da sua morte. Não é uma
comparação gratuita dizer que a Cidade se sentia como um rapazinho que perdeu o pai. Que o pai
tenha sido um homem corajoso ou um cobarde, justo ou injusto, generoso ou mesquinho, pouco
significa: ele era o pai desse rapaz e nenhum tio ou irmão mais velho poderá alguma vez ocupar o
seu lugar. A verdade é que a governação de Augusto tinha sido muito longa e um homem tinha que
ter já passado da meia-idade para se lembrar de como fora para trás. Não era portanto totalmente
anti-natural que o Senado reunisse para deliberar se as honras divinas que lhe tinham sido prestadas,
mesmo em vida, pelas províncias, lhe deviam ser prestadas agora pela própria Cidade. O filho de
Pólio, Caio - odiado por Tibério por ter casado com Vipsânia (primeira mulher de Tibério, como
deveis estar lembrados, de quem ele tinha sido obrigado a divorciar-se por causa de Júlia) e por ele
ter uma língua mordaz e nunca ter feito um desmentido público do boato que fazia dele o
verdadeiro pai de Castor -, foi o único senador que ousou pôr em causa a propriedade da moção.
Levantou-se para perguntar que prodígio divino ocorrera para sugerir que Augusto seria bem
recebido nas Mansões Celestiais - apenas mediante recomendação dos seus amigos e admiradores
mortais?
Seguiu-se um silêncio desconfortável, mas, finalmente, Tibério levantou-se devagar e disse:
- Há cem dias, estareis lembrados, o frontão da estátua de meu pai Augusto foi atingido por um raio.
A primeira letra do seu nome foi apagada, o que deixou as palavras AESAR AUGUSTUS. Qual é o
significado da letra C? É o símbolo de cem. O que significa AESAR? Eu digo-vos. Significa Deus,
na língua etrusca. Nitidamente, cem dias após a queda do raio, Augusto deverá tornar-se um Deus
em Roma. Que prodígio mais evidente que este podereis desejar?
Embora Tibério assumisse sozinho o crédito por esta interpretação, fora eu o primeiro a dar sentido
a AESAR (a estranha palavra tinha sido muito discutida), sendo a única pessoa em Roma que estava
familiarizada com a língua etrusca. Falei nisso a minha mãe e ela chamou-me louco
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fantasista, mas deve ter ficado suficientemente impressionada para repetir a Tibério o que eu
dissera, uma vez que não falei no caso a ninguém a não ser a ela.
Caio perguntou por que é que Júpiter havia de transmitir as suas mensagens em etrusco e não em
grego ou em latim? Alguém podia jurar ter observado qualquer outro augúrio mais conclusivo? Era
muito fácil decretar novos deuses a ignorantes provincianos asiáticos, mas a Ilustre Casa devia fazer
uma pausa antes de ordenar a cidadão educados que adorassem um dos seus próprios membros,
ainda que distinto. É possível que Caio tivesse conseguido bloquear o decreto através deste apelo ao
orgulho e sanidade de Roma, se não fosse um homem chamado Ático, um magistrado superior. Ele
ergueu-se solenemente para dizer que, quando o corpo de Augusto tinha sido queimado nos Campos
de Marte, ele vira uma nuvem descer do céu e o espírito do morto subir para ela, precisamente da
mesma maneira que a tradição relata que os espíritos de Rómulo e Hércules ascenderam. Ele juraria
por todos os Deuses que estava a testemunhar a verdade.
Este discurso foi acolhido com retumbantes aplausos e Tibério, triunfante, perguntou se Caio tinha
mais algum comentário a fazer. Caio disse que sim. Recordava-se, disse, de outra tradição primitiva
sobre a morte repentina e desaparecimento de Rómulo, que aparecia nas obras, mesmo dos
historiadores mais sérios, como uma alternativa à citada pelo seu respeitável e verídico amigo
Ático: designadamente, que Rómulo era de tal forma odiado pela sua tirania sobre um povo livre
que um dia, aproveitando um nevoeiro repentino, o Senado o assassinou, cortou em pedaços e levou
esses mesmos pedaços sob as túnicas.
- E Hércules? - perguntou alguém apressadamente. Caio disse:
- O próprio Tibério, na sua eloquente oração durante o funeral, repudiou a comparação entre
Augusto e Hércules. As suas palavras foram: ”Hércules, na sua infância, só enfrentou serpentes, e
em adulto, apenas um veado ou dois, um javali selvagem que matou e um leão; e mesmo isto fê-lo
com relutância e por ordem de outra pessoa, enquanto que Augusto lutou não apenas com animais,
mas com homens e por sua livre vontade” - e assim por diante. Mas a mínha razão para repudiar a
comparação reside nas circunstâncias da morte de Hércules.
Em seguida, sentou-se. A referência era perfeitamente clara para qualquer pessoa que analisasse a
questão; na verdade, segundo a lenda, Hércules morreu por causa do veneno que lhe foi ministrado
pela própria mulher.
Mas a moção que visava a deificação de Augusto foi levada por diante. Santuários dedicados à sua
pessoa foram construídos em Roma e nas cidades vizinhas. Uma ordem de sacerdotes foi formada
para administrar os seus rituais e Lívia, que ao mesmo tempo recebera os títulos de Júlia e
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Augusta, foi nomeada Sacerdotisa Suprema. Ático foi recompensado por Lívia com uma oferta de
dez mil moedas de ouro e foi nomeado um dos novos sacerdotes de Augusto, tendo-lhe sido mesmo
perdoado o pesado ónus de iniciação. Fui também nomeado sacerdote, mas tive que fazer um
pagamento mais elevado que qualquer um pela iniciação, por ser neto de Lívia. Ninguém ousou
perguntar o motivo porque aquela visão da ascensão de Augusto só fora presenciada por Ático. E o
mais divertido era que, na noite anterior ao funeral, Lívia tinha escondido uma águia numa gaiola
no topo da pira, gaiola que deveria ser aberta logo que a pira estivesse acesa, por alguém que
puxaria um cordão pela parte de baixo. Então, a águia levantaria voo e a ideia era que fosse tomada
pelo espírito de Augusto. Infelizmente, o milagre não se produzira. A porta da gaiola não se abriu.
Em vez de ficar calado e deixar que a águia ardesse, o funcionário encarregado trepou pela pira e
abriu a porta da gaiola por suas próprias mãos. Lívia teve que dizer que a águia tinha sido solta por
ordem sua como um acto simbólico.
Não vou escrever mais nada sobre o funeral de Augusto, embora nunca se tivesse visto nenhum tão
magnífico em Roma, pois tenho que começar agora a omitir todos os pormenores na minha história,
excepto os de primeira importância. já enchi mais de treze rolos do melhor papel - da nova fábrica
que equipei recentemente - e ainda não cheguei a um terço do caminho. Mas não posso deixar de
falar do conteúdo do testamento de Augusto, cuja leitura era aguardada com interesse e impaciência
gerais. Ninguém estava mais ansioso para saber o que ele continha do que eu, e vou explicar
porquê.
Um mês antes da sua morte, Augusto aparecera de repente à porta do meu estúdio - acabava de
visitar a minha mãe, que estava a convalescer de uma longa doença - e, depois de mandar sair os
seus acompanhantes, começara a falar comigo de uma forma desconexa, sem me olhar
directamente, mas comportando-se de um modo tão tímido como se ele fosse Cláudio e eu Augusto.
Pegou num livro da sua história e leu uma passagem.
- Excelente escrita! - disse. - E quando é que o trabalho ficará terminado?
Eu respondi:
- Dentro de um mês ou menos. - Ele felicitou-me e disse que, nessa altura, daria ordens para que
houvesse uma leitura pública às suas custas, convidando os seus amigos para assistirem. Fiquei
perfeitamente espantado com isto, mas ele continuou de uma forma amigável, perguntando-me se
não preferia um declamador profissional para fazer justiça ao trabalho, em vez de ser eu a ler: disse
que a leitura em público do próprio trabalho devia ser muito embaraçosa - embora o velho Pólio
tivesse confessado que ficava sempre nervoso nessas ocasiões. Agradeci-lhe com
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toda a sinceridade e afeição e disse que um profissional seria evidentemente mais adequado, se o
meu trabalho na verdade merecia essa honra. Depois, ele estendeu-me repentinamente a mão:
- Cláudio, tens algum ressentimento contra mim?
Que podia eu responder? As lágrimas inundaram-me os olhos e murmurei que o venerava e que ele
nunca fizera nada para merecer o meu ressentimento. Ele disse com um suspiro:
-Não mas, por outro lado, fiz pouco para ganhar o teu amor. Aguarda mais alguns meses, Cláudio, e
espero ser capaz de ganhar tanto o teu amor como a tua gratidão. Germânico falou-me de ti. Diz que
és leal a três coisas: aos teus amigos, a Roma e à verdade. Eu sentir-me-ia muito orgulhoso se
Germânico pensasse o mesmo de mim.
- O amor de Germânico por vós não está longe de uma verdadeira adoração, - repliquei. -Disse-mo
ele muitas vezes.
O rosto dele iluminou-se.
-Juras? Sinto-me muito feliz. Portanto agora, Cláudio, há um laço forte entre nós, que é a boa
opinião de Germânico. E o que eu vim dizerte é o seguinte: tratei-te muito mal durante todos estes
anos e lamento-o sinceramente e, a partir de agora, verás que as coisas vão mudar. - Fez uma
citação em grego. - Aquele que te feriu é que te há-de curar. - E, dizendo isto, abraçou-me. Quando
se voltou para se ir embora, disse por cima do ombro, - Acabo de fazer uma visita às Virgens
Vestais e fiz algumas importantes alterações num documento meu que lhes foi entregue; visto que
tu próprio és parcialmente responsável por estas alterações, dei maior proeminência ao teu nome do
que ele tinha antes. Mas nem uma palavra! Nem uma palavra!
- Podeis confiar em mim, - disse.
Ele só podia querer dizer uma coisa com aquilo: que tinha acreditado na história de Póstumo tal
como eu a contara a Germânico e estava agora a repô-lo no seu testamento (que estava à guarda das
Vestais) como seu herdeiro; e que eu iria beneficiar também, como recompensa pela minha lealdade
para com ele. Nessa altura, claro, eu não sabia da visita de Augusto a Planásia, mas esperava
confiante que Póstumo havia de ser trazido de volta e tratado com honra. Bom, fiquei decepcionado.
Como Augusto tinha sido tão discreto quanto ao novo testamento, ao qual Fábio Máximo e alguns
velhos sacerdotes decrépitos tinham servido de testemunhas, era fácil suprimi-lo a favor de um que
tinha sido feito seis anos antes, na altura em que Póstumo fora deserdado. A frase de abertura era:
”Na medida em que um destino sinistro me fez perder Caio e Lúcio, meus filhos, é agora meu
desejo que Tibério Cláudio Nero César se torne herdeiro, em primeiro lugar, de dois terços dos
meus bens; e que do terço que resta e também em primeiro lugar, é agora meu desejo que minha
amada esposa Lívia se torne minha herdeira, caso o Senado tenha a
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benevolência de permitir que ela herde tudo isso (pois ultrapassa o que está determinado por
estatuto como legado para uma viúva), fazendo uma excepção no seu caso por se ter tornado tão
merecedora da benevolência do Estado.” Em segundo lugar - isto é, no caso dos beneficiários
mencionados em primeiro lugar morrerem ou ficarem de qualquer outra forma incapacitados de
herdar -, ele pôs aqueles dos seus netos e bisnetos que fossem membros da casa juliana e não
tivessem caído publicamente em desgraça; mas Póstumo tinha sido deserdado. Portanto, isto referia-
se a Germânico, como filho adoptivo de Tibério e marido de Agripina, e à própria Agripina e aos
filhos desta; e a Castor, Livila e seus filhos. Neste segundo lugar, o testamento nomeava diversos
senadores e parentes distantes, mais como uma marca de favor do que como uma probabilidade de
benefício. Augusto não podia ter esperado sobreviver a tantos herdeiros da primeira e segunda
posição. Os herdeiros da terceira posição foram agrupados em três categorias: os dez mais
favorecidos foram inscritos como herdeiros conjuntos de metade dos bens; os cinquenta que vinham
a seguir foram inscritos para partilhar um terço dos bens e o terceiro grupo continha os nomes de
outros cinquenta, que deviam herdar o restante sexto. O último nome nessa lista da última posição
era Tibério Cláudio Druso Nero Germânico, o que queria dizer Clau-Clau-Cláudio, ou Cláudio o
Idiota, ou, como os filhos pequenos de Germânico estavam já aprendendo a chamar-lhe, O pobre tio
Cláudio - na realidade, eu próprio. Não havia qualquer referência a Júlia ou a Julila, excepto uma
cláusula que proibia as suas cinzas de serem enterradas no mausoléu ao lado do seu próprio corpo,
quando viessem a morrer.
Embora Augusto tivesse nos vinte anos anteriores beneficiado dos testamentos dos velhos amigos a
quem sobrevivera, no montante de nada menos que 140 milhões de moedas de ouro, e tivesse vivido
uma vida extremamente frugal, gastara tanto em templos e obras públicas, em donativos e
entretenimentos para a populaça, em guerras de fronteira (quando já não restava dinheiro algum no
tesouro militar) e em despesas oficiais do mesmo género, que daqueles 140 milhões e de um
considerável volume de tesouro privado, proveniente de várias origens, apenas quinze milhões
restavam para o legado, uma boa parte dos quais não era facilmente realizável em dinheiro. No
entanto, isto não incluía certas somas importantes de dinheiro, não incluídas no espólio e prontas e
amarradas em sacos nos cofres do Capitólio; dinheiro esse que tinha sido posto de lado para legados
especiais a reis confederados, aos senadores e cavaleiros, aos seus soldados e aos cidadãos de
Roma. Este, perfazia mais dois milhões. Havia ainda uma soma posta de lado para as despesas do
funeral. Toda a gente ficou surpreendida com a exiguidade do património e toda a espécie de
rumores desagradáveis foram postos a correr, até que as contas de Augusto foram apresentadas e
ficou claro que não havia fraude por parte dos
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executores. Os cidadãos ficaram muito descontentes com os seus magros legados e, quando uma
peça comemorativa foi exibida em honra de Augusto à custa do erário público, houve uma
desordem no teatro: o Senado tinha restringido a tal ponto a doação, que um dos actores da peça se
recusou a aparecer para receber o pagamento que lhe era oferecido. Do descontentamento do
Exército falarei em breve. Mas primeiro vamos a Tibério,
Augusto tinha feito Tibério seu colega e herdeiro, mas não podia legar-lhe a monarquia ou, pelo
menos, não abertamente. Apenas podia recomendá-lo ao Senado, para quem todos os poderes que
ele exercera revertiam agora. O Senado não gostava de Tibério e não desejava que ele fosse
Imperador, mas Germânico, a quem eles teriam escolhido se tivessem tido essa oportunidade, estava
longe. E os direitos de Tibério não podiam ser ignorados.
Assim, ninguém ousou mencionar qualquer nome a não ser o de Tibério e não houve desacordo
quanto à moção, apresentada pelos Cônsules, que o convidava a tomar o trabalho de Augusto no
ponto em que ele o deixara. Ele deu uma resposta evasiva, acentuando a imensa responsabilidade
que estavam a tentar pôr sobre ele e a sua própria ausência de ambição. Disse que só o Deus
Augusto tinha sido capaz daquela poderosa tarefa e que, na sua opinião, seria melhor dividir os
encargos de Augusto em três partes, dividindo assim também a responsabilidade.
Senadores ansiosos por captar as suas boas graças alegaram que o triunvirato, ou a governação de
três homens, já tinha sido tentada mais de uma vez no século precedente e que a monarquia se
apresentara como o único remédio para as consequentes guerras civis. Seguiu-se uma cena infeliz.
Senadores fingiram chorar e lamentar-se e abraçaram os joelhos de Tibério, implorando-lhe que
fizesse o que eles pediam. Tibério, para pôr fim àquilo, disse que não desejava esquivar-se a
qualquer encargo que fosse posto nos seus ombros, mas mantinha a sua afirmação de que não estava
à altura de suportar todo o fardo. Já não era nenhum jovem: tinha cinquenta e seis anos e a sua vista
não estava boa. Mas encarregar-se-ia de qualquer parcela que lhe confiassem, Tudo isto foi feito
para que ninguém pudesse acusá-lo de agarrar o poder com excessiva ansiedade: e especialmente
para que Germânico e Póstumo (onde quer que estivessem) pudessem ficar impressionados com a
força da sua posição na Cidade. Na verdade, ele tinha medo de Germânico, cuja popularidade junto
do exército era infinitamente maior que a sua. Não acreditava que Germânico fosse capaz de tomar
o poder pelos seus próprios objectivos egoístas, mas pensava que, se ele soubesse do testamento
suprimido, podia tentar restituir a Póstumo a herança que lhe cabia de direito e mesmo fazer dele a
terceira figura - Tibério, Germânico e Póstumo no novo triunvirato. Agripina era muito dedicada a
Póstumo e Germânico
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seguia os seus conselhos tão consistentemente como Augusto seguira os de Lívia. Se Germânico
marchasse sobre Roma, o Senado acorreria num só corpo para lhe dar as boas vindas. Tibério sabia-
o. E, na pior das hipóteses, comportando-se agora com modéstia, poderia escapar com vida e viver
tranquila e honradamente.
O Senado compreendeu que Tibério desejava realmente aquilo que recusava com tanta modéstia e
preparavam-se para renovar os seus apelos quando Caio interveio num tom prático:
- Muito bem, Tibério, qual a parte do governo que desejas que te seja atribuída?
Tibério ficou confundido com aquela pergunta incómoda e inesperada. Manteve-se algum tempo
em silêncio e finalmente disse:
- O mesmo homem não pode simultaneamente fazer a divisão e escolher; mesmo que isto fosse
possível, seria falta de modéstia da minha parte escolher ou rejeitar um dado ramo da administração
quando, tal como expliquei, o que realmente desejo é que me dispensem de todos eles.
Caio insistiu de novo:
- A única divisão possível do Império seria: primeiro, Roma e toda a Itália; segundo, os exércitos; e
terceiro, as províncias. Qual escolherias? Como Tibério ficasse silencioso, Caio continuou:
- Bom. Eu sei que não há resposta. Foi por isso que fiz a pergunta. Queria que admitisses com o teu
silêncio que era uma insensatez falar em dividir em três partes um sistema administrativo que foi
construído e coordenado de forma centralizada por um único indivíduo. Ou temos que retomar a
forma de governo republicana, ou continuar com a monarquia. É desperdiçar o tempo da Casa, que
parece ter-se decidido a favor da monarquia, continuar a falar em triunviratos. Foi-te oferecida a
monarquia. É pegar ou largar.
Outro senador, um amigo de Caio, disse:
- Como Protector do Povo, tens o poder de vetar a moção dos Cônsules oferecendo-te a monarquia.
Se realmente não a queres, devias ter usado o teu veto meia hora atrás.
Assim, Tibério foi obrigado a pedir desculpa ao Senado e a dizer que a rapidez e o inesperado de tal
honra o tinham subjugado: pedia permissão para considerar um pouco mais longamente a sua
resposta.
O Senado então suspendeu os trabalhos e, em sessões posteriores, Tibério gradualmente aceitou ser
votado, um por um, para todos os cargos de Augusto. Mas nunca usou o nome de Augusto, que lhe
tinha sido transmitido, excepto quando escrevia cartas a reis estrangeiros; e tinha o cuidado de
desencorajar qualquer tendência para lhe prestarem honras divinas. Havia outra explicação para este
seu comportamento cauteloso, designadamente o facto de Lívia se ter gabado em público de que ele
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estava a receber a monarquia como presente das mãos dela. Fez essa afirmação não só para
fortalecer a sua posição como viúva de Augusto, mas para prevenir Tibério de que, se os seus
crimes alguma vez viessem a ser conhecidos, ele seria olhado como seu cúmplice, sendo a pessoa
que mais beneficiava com eles. Naturalmente, ele desejava aparecer como não tendo qualquer
obrigação para com ela e sim como tendo sido obrigado pelo Senado a aceitar a monarquia, mesmo
contra vontade.
O Senado era prolífico em lisonjas a Lívia e queria conferir-lhe honras em que nunca se ouvira
falar, Mas Lívia, como mulher, não podia assistir aos debates do Senado e estava agora legalmente
sob a tutela de Tibério
- ele tornara-se o chefe da casa Juliana. Assim, depois de ter recusado para si próprio o título de Pai
da Pátria, recusara em nome dela o título de Mãe da Pátria que lhe tinha sido oferecido, alegando
que a modéstia não lhe permitia que o aceitasse. No entanto, ele estava imensamente receoso de
Lívia e, a princípio, totalmente dependente dela para aprender os segredos internos do sistema
imperial. Não se tratava apenas de entender a rotina. Os processos criminais de cada homem com
alguma importância nas duas Ordens e da maioria das mulheres importantes, relatórios dos serviços
secretos de naturezas diversas, a correspondência particular de Augusto com reis confederados e os
seus parentes, cópias de cartas traiçoeiras interceptadas mas devidamente remetidas - tudo isto
estava à guarda de Lívia e escrito em código e Tibério não podia ler nada sem a ajuda dela. Mas, ao
mesmo tempo, sabia que Lívia era extremamente dependente dele. Havia entre ambos um
entendimento de cooperação cautelosa. Ela agradeceu-lhe mesmo ter recusado o título que lhe era
oferecido, dizendo que tivera razão em fazê-lo; em troca, ele prometeu que faria com que lhe
votassem todos os títulos que ela desejasse, logo que as suas posições parecessem asseguradas.
Como prova de boa fé, pôs o nome dela ao lado do seu em todas as cartas oficiais. Lívia, como
prova da sua, deu-lhe a chave da cifra comum, embora não a da cifra extraordinária, o segredo da
qual, alegou, tinha morrido com Augusto. Era na cifra extraordinária que os processos estavam
escritos.
Falemos agora de Germânico. Quando, em Lião, soube da morte de Augusto, dos termos do seu
testamento e da sucessão de Tibério, sentiu que era seu dever acatar lealmente o novo regime. Era
sobrinho e filho adoptivo de Tibério e, embora não houvesse uma verdadeira afeição entre ambos,
tinham conseguido trabalhar juntos e sem fricção, tanto em Roma como em campanha. Não
suspeitava que Tibério tivesse tido qualquer cumplicidade na intriga que resultara no afastamento
de Póstumo e estava convencido de que este continuava em Planásia - Augusto não falara a
ninguém excepto a Fábio, quer da visita quer da substituição. Decidiu, no entanto, regressar a Roma
logo que pudesse e discutir francamente o caso de Póstumo com Tibério. Explicar-lhe-ia que
Augusto lhe dissera
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particularmente que tencionava restabelecer Póstumo em situação de favor, logo que tivesse
provas da sua inocência para oferecer ao Senado; e que, embora a morte o tivesse impedido de pôr
em prática as suas intenções, elas deviam ser respeitadas. Iria insistir no regresso imediato de
Póstumo, na devolução dos bens que lhe tinham sido confiscados e na sua elevação a um cargo
honroso; e por fim, no afastamento compulsivo de Lívia dos negócios do Estado, por ter
injustamente engendrado o exílio dele. Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa nesse sentido
chegaram notícias de Mainz de um motim do exército do Reno. Depois, quando se apressava para ir
debelá-lo, veio a notícia da morte de Póstumo. Póstumo, tal era a informação, tinha sido morto pelo
capitão da guarda, que tinha ordens de Augusto para não deixar que o neto lhe sobrevivesse.
Germânico ficou chocado e desgostoso com a execução de Póstumo mas, no momento, não tinha
tempo para pensar noutra coisa que não fosse o motim. Podeis ter a certeza, no entanto, de que a
notícia causou o mais profundo desgosto ao pobre Cláudio, pois, nesta altura, não lhe faltava tempo
livre. Pelo contrário, o pobre Cláudio tinha muitas vezes dificuldade em encontrar ocupação para o
seu espírito. Ninguém consegue escrever história durante mais de cinco ou seis horas por dia,
especialmente quando há poucas esperanças de que alguém venha alguma vez a lê-la. Assim,
entreguei-me ao meu desespero. Como é que podia saber que a vítima tinha sido Clement e não
Póstumo e que o assassinato não só não fora ordenado por Augusto, mas que Lívia e Tibério
também estavam inocentes neste caso?
O verdadeiro responsável pelo assassinato de Clement tinha sido um velho cavaleiro chamado
Crispo, proprietário dos Jardins de Salusto e amigo íntimo de Augusto. Em Roma, logo que soube
da morte de Augusto, não esperara para consultar Lívia e Tibério em Nola e enviara de imediato a
ordem para a execução de Póstumo, dirigida ao capitão da guarda em Planásia, apondo-lhe o selo de
Tibério. Tibério tinha-lhe confiado um duplicado do selo para que assinasse alguns papéis de
negócios que ele não tinha conseguido arrumar antes de ser enviado para os Balcãs. Crispo sabia
que Tibério ia ficar zangado, ou fingir que o estava, mas explicou a Lívia, cuja protecção reclamou
imediatamente, que se desembaraçara de Póstumo ao ser informado de uma conspiração por parte
de alguns oficiais da Guarda para mandar um navio libertar Júlia e Póstumo e conduzi-los até aos
regimentos de Colónia; aí, Germânico e Agripina não poderiam deixar de os receber e abrigar e os
oficiais forçariam então Germânico e Póstumo a marchar sobre Roma. Tibério ficou furioso por o
seu nome ter sido usado daquela forma, mas Lívia resolveu encaminhar as coisas para o lado
melhor e fingiu que realmente era Póstumo que tinha morrido. Crispo não foi processado e o
Senado foi informado particularmente de que Póstumo morrera por ordem do
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seu avô divinizado, que previra sensatamente que o jovem de temperamento fugaz havia de tentar
usurpar o poder supremo logo que recebesse a notícia da sua morte; como ele realmente fizera. O
motivo de Crispo para mandar matar Póstumo não era o desejo de ganhar favor aos olhos de
Tibério e Lívia, ou de impedir a guerra civil. Estava sim a vingar um insulto. Na verdade, Crispo,
que tinha tanto de preguiçoso como de rico, gabara-se uma vez de nunca ter tido qualquer cargo,
contentando-se em ser um simples cavaleiro romano. Póstumo replicara:
- Um simples cavaleiro romano, Crispo? Então faríeis melhor em receber algumas lições simples de
equitação romana.
Tibério ainda não ouvira falar no motim. Escreveu a Germânico uma carta amistosa, dando-lhe os
pêsames pela perda de Augusto e dizendo que Roma agora contava com ele e com o irmão adoptivo
Castor para a defesa das fronteiras, sendo ele agora demasiado idoso para o serviço no estrangeiro e
solicitado pelo Senado para dirigir os assuntos em Roma. Referindo-se à morte de Póstumo, disse
que deplorava a violência a ela associada, mas que não podia pôr em causa a sensatez de Augusto
quanto a essa questão. Não disse nada sobre Crispo. Germânico só podia concluir que Augusto
tinha uma vez mais mudado de opinião em relação a Póstumo, com base em alguma informação da
qual ele próprio nada sabia; durante algum tempo, contentou-se em deixar o assunto por aí.
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CAPíTULO XV
O motim no Reno tinha estalado por simpatia com um motim entre as forças dos Balcãs. A
decepção dos soldados com os legados previstos no testamento de Augusto - uns meros quatro
meses de soldo como prêmio, três moedas de ouro por cada homem -, agravou algumas queixas
antigas; e eles acharam que a insegurança da posição de Tibério o forçaria a satisfazer quaisquer
pretensões razoáveis que lhe apresentassem para lhes conquistar a boa vontade. Estas pretensões
incluíam um aumento do soldo, tempo de serviço limitado a dezasseis anos, abrandamento da
disciplina no acampamento. O pagamento era sem dúvida insuficiente: os soldados tinham que se
armar e equipar com ele e os preços tinham subido. E, sem dúvida, a exaustão das reservas militares
tinha mantido sob os estandartes de Roma milhares de soldados que deviam ter sido desmobilizados
havia anos e tinham mesmo sido chamados para o serviço veteranos que já não estavam em
condições de combater. Para além disso, os destacamentos formados por escravos recém-libertos
eram uma força de combate de tão má qualidade, que Tibério achara necessário apertar a disciplina,
escolhendo para capitães os militares mais exigentes e dando-lhes instruções para que mantivessem
os homens constantemente ocupados em trabalho duro, mantendo eles por sua vez as varas de
videira nova - distintivas da sua posição - constantemente ocupadas nas costas deles.
Quando a notícia da morte de Augusto chegou às tropas dos Balcãs, três regimentos encontravam-se
juntos num acampamento de Verão e o General deu-lhes alguns dias de férias das revistas e das
faxinas. Esta experiência de descontracção e ociosidade desestabilizou-os e eles recusaram-se a
obedecer aos seus capitães, quando chamados de novo à parada. Formularam certas exigências. O
General disse-lhes que não tinha autoridade para satisfazer tais pedidos e preveniu-os do perigo de
uma atitude de rebeldia. Eles não lhe ofereceram violência, mas recusaram-se a ser forçados a
obedecer e, finalmente, obrigaram-no a enviar o filho a Roma para transmitir as suas exigências a
Tibério. Depois do enviado ter deixado o acampamento para cumprir essa missão, a desordem
cresceu. Os homens menos disciplinados começaram a pilhar o acampamento e as aldeias vizinhas
e, quando o General prendeu os cabecilhas, os outros invadiram
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a sala da guarda e libertaram-nos, acabando por matar um capitão que tentou fazer-lhes frente.
Este capitão tinha a alcunha de Velho dá-cá-Outra porque, depois de quebrar as vergastas nas costas
de um homem, pedia logo outras e outras e outras. Quando o filho do General chegou a Roma,
Tibério enviou Castor para apoiar o General à frente de dois batalhões de Guardas, um esquadrão de
cavalaria da Guarda e quase todo o Batalhão Interno, formado por germanos; um oficial do estado-
maior chamado Sejano, filho do Comandante dos Guardas e um dos poucos amigos íntimos de
Tibério, foi com Castor como seu tenente. Sobre este Sejano, terei outras coisas para escrever mais
tarde. À chegada, Castor dirigiu-se à multidão dos soldados num tom destemido e cheio de
dignidade e leu-lhes uma carta do pai, prometendo tomar conta dos invencíveis regimentos com
quem partilhara os rigores de tantas guerras e negociar com o Senado sobre as suas reivindicações
logo que se tivesse refeito do desgosto pela morte de Augusto. Entretanto, escrevera, o filho vinha
ao encontro deles para fazer quaisquer concessões imediatas que fossem praticáveis - o resto, tinha
que ser reservado ao Senado.
Os amotinados fizeram um dos capitães agir como porta-voz e apresentar as suas exigências, pois
nenhum soldado se arriscaria a fazê-lo com medo de ser apontado mais tarde como agitador. Castor
disse que lamentava muito, mas que o limite de dezasseis anos para o serviço, a desmobilização dos
veteranos e o aumento do soldo para uma moeda de prata por dia eram solicitações que ele não
tinha autoridade para conceder. Só o pai ou o Senado podiam fazer tais concessões.
Isto deixou os homens com uma disposição terrível. Perguntaram-lhe por que diabo viera até ali, se
não tinha poder para fazer nada por eles. O pai, Tibério, disseram, costumava sempre pregar-lhes a
mesma partida quando apresentavam as suas queixas: costumava esconder-se atrás de Augusto e do
Senado. O que era o Senado, afinal? Um bando de preguiçosos ricos e inúteis, a maior parte dos
quais morreria de medo se alguma vez avistasse um escudo inimigo ou se visse uma espada
desembainhada com fúria! Começaram a atirar pedras aos homens de Castor e a situação tornou-se
perigosa. Mas foi salva nessa noite por um acaso feliz. A lua estava em eclipse, o que afectou o
exército - todos os soldados são supersticiosos - de uma forma surpreendente. Tomaram o eclipse
por um sinal de que o Céu estava zangado com eles por terem assassinado o Velho Dá-cá-Outra e
por desafiarem a autoridade. Havia um número de lealistas secretos entre os amotinados e um deles
foi procurar Castor, sugerindo-lhe que se servisse de outros como ele próprio e os enviasse pelas
tendas em grupos de dois ou três, para tentar chamar à razão os descontentes. Isso foi feito. De
manhã, o ambiente no acampamento era muito diferente e Castor, embora consentisse em enviar de
novo o filho do General a Tibério com as mesmas solicitações endossadas por ele
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próprio, prendeu os dois homens que pareciam ter começado o motim e executou-os em
público. Os outros não protestaram e entregaram mesmo voluntariamente os cinco assassinos do
capitão, como prova da sua fidelidade. Mas havia ainda uma recusa firme às revistas e a quaisquer
faxinas, a não ser as mais necessárias, até que viesse uma resposta de Roma. O tempo sofreu um
agravamento e a chuva inundou o acampamento, impossibilitando os homens de se manterem em
comunicação de tenda para tenda. Isso foi tomado como um novo aviso do Céu e, antes que o
mensageiro tivesse tempo de regressar, o motim estava acabado, com os regimentos a marcharem
obedientemente para os quartéis de Inverno, sob o comando dos seus oficiais.
Mas o motim no Reno foi uma coisa muito mais séria. A Germânia romana era agora limitada a
leste pelo Reno e dividida em duas províncias, a Superior e a Inferior. A capital da Província
Superior, que se estendia até à Helvécia, era Mainz, e a da Província Inferior, que chegava a norte
ao Scheldt e a Sambre, era Colónia. Um exército de quatro regimentos guarnecia cada uma das
províncias e Germânico era Comandante-emChefe. As desordens irromperam num acampamento de
Verão do Exército Inferior. Aqui, as queixas eram as mesmas que no exército dos Balcãs mas a
conduta dos amotinados foi mais violenta por causa da maior proporção de libertos da Cidade
recém-recrutados nas suas fileiras. Estes libertos eram ainda escravos por natureza e acostumados a
uma vida muito mais ociosa e envolta em luxos do que os cidadãos nascidos livres, na sua maioria
camponeses pobres, que formavam o grosso do exército. Esses libertos davam soldados
verdadeiramente maus e o que tinham de mau não era controlado por qualquer esprit-de-corp do
regimento. Estes, na realidade, não eram os regimentos que tinham estado sob o comando de
Germânico na recente campanha; eram homens de Tibério.
O General perdeu a cabeça e não conseguiu controlar a insolência dos amotinados, que se
apinharam à volta dele com queixas e ameaças. O seu nervosismo encorajou-os a cair sobre os
capitães mais odiados, cerca de vinte dos quais mataram à vergastada com as suas próprias varas de
videira, atirando os corpos ao Reno. Os restantes foram escarnecidos e insultados e expulsos do
acampamento. Cássio Chaerea foi o único oficial superior que fez alguma tentativa para se opor
àquele comportamento monstruoso e nunca visto. Foi assaltado por um grande grupo, mas, em vez
de fugir ou suplicar misericórdia, correu direito para o meio deles com a espada desembainhada,
acutilando à direita e à esquerda, e abriu caminho até à plataforma sagrada do tribunal, onde sabia
que nenhum soldado ousaria tocar-lhe.
Germânico não tinha batalhões de Guardas para o apoiarem, mas dirigiu-se imediatamente para o
acampamento amotinado, levando
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apenas uma pequena escolta atrás. Ainda não estava ao corrente do massacre. Os homens
reuniram-se à sua volta numa multidão desordenada, tal como tinham feito com o seu General, mas
Germânico recusou calmamente dizer-lhes o que quer que fosse, enquanto não tivessem formado
decentemente em companhias e batalhões sob os respectivos estandartes, para saber a quem se
dirigia. Parecia uma pequena concessão à autoridade e eles queriam ouvir o que tinha para lhes
dizer. Logo que retomaram a formação militar voltou-lhes o sentido de disciplina e, embora através
do assassinato dos seus oficiais se tivessem colocado para além de qualquer esperança de confiança
ou de perdão, os seus corações, de repente, puseram-se do lado dele como um homem corajoso,
humano e respeitável. Um antigo veterano - havia muitos ali que tinham estado a servir na
Germânia vinte e cinco e trinta anos antes - exclamou: ”Como ele se parece com o pai!” E outro:
”Tem que ser tremendamente bom, para ser tão tremendamente bom como ele.” Germânico
começou, no tom de quem conduzia uma conversa normal, para atrair mais a atenção. Primeiro,
falou da morte de Augusto e do grande desgosto que ela inspirara, mas garantiu-lhes que Augusto
deixara para trás uma obra indestrutível e um sucessor capaz de levar por diante o governo e
comandar os exércitos da maneira que ele próprio teria desejado.
- Vós não desconheceis as gloriosas vitórias de meu pai na Germânia. Muitos de vós partilharam
delas.
- Nunca houve um melhor general nem um homem melhor, - gritou um veterano. - Um bravo por
Germânico, pai e filho!
Serve para ilustrar a extrema simplicidade do meu irmão o facto dele não ter compreendido o efeito
que as suas palavras estavam produzindo. Ao falar em pai
ele queria dizer Tibério (que era também muitas vezes chamado Germânico), mas os veteranos
pensaram que se referia ao seu verdadeiro pai; e ao dizer sucessor de Augusto, ele referia-se de
novo a Tibério, mas os veteranos pensaram que estava a falar de si próprio. Sem se aperceber destes
malentendidos, continuou referindo a harmonia que prevalecia em Itália e a fidelidade dos gauleses,
de cujo território acabava de chegar, e disse que não podia compreender o sentimento repentino de
pessimismo que se apoderara deles. O que os afligia? O que tinham feito com os seus capitães, os
seus coronéis e os seus generais? Porque não estavam esses oficiais na parada? Tinham realmente
sido expulsos do acampamento, como lhe haviam dito?
- Alguns de nós estamos ainda vivos e presentes, César, - disse alguém; Cássio atravessou as fileiras
a coxear e fez a continência a Germânico. - Não muitos! Arrancaram-me da plataforma do tribunal
e puseram-me amarrado na sala da guarda, sem comida há quatro dias. Um velho soldado acaba de
ter a bondade de me libertar.
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- A ti, Cássio! Eles fizeram-te isso a ti! O homem que trouxe os oitenta de volta da Floresta de
Teutoburger? O homem que salvou a ponte do Reno?
- Bom, pelo menos pouparam-me a vida, - disse Cássio. Com horror na voz, Germânico perguntou:
- Homens, isto é verdade?
- Eles é que tiveram a culpa, - gritou alguém e depois ergueu-se um burburinho terrível. Alguns
homens despiram-se completamente para mostrar as cicatrizes reluzentes das feridas honrosas que
tinham no peito e as marcas irregulares e descoradas dos açoites sobre as costas. Um velho
decrépito destacou-se das fileiras e, correndo em frente, abriu a boca com os dedos, para mostrar as
gengivas sem dentes. Depois, gritou:
- Sem dentes não posso comer comida sólida, General, e não posso marchar e lutar alimentando-me
de levedura. Servi sob as ordens de vosso pai na sua primeira campanha nos Alpes e, nessa altura, já
tinha completado seis anos de serviço. Tenho dois netos a servir na mesma companhia que eu.
Deixai-me ir embora, meu General; fiz-vos saltar nos meus joelhos quando éreis criança! Olhai,
meu General, tenho uma ruptura e eles esperam que eu marche vinte milhas com cinquenta quilos
de peso às costas.
- Volta para as fileiras, Pompónio - ordenou Germânico, que reconhecera o velho e ficara chocado
por o encontrar ainda no activo.
- Estás fora de ti. Depois vou ver o teu caso. Pelo amor de Deus, dá um bom exemplo aos soldados
jovens!
Pompónio fez a continência e voltou para as fileiras. Germânico levantou a mão a pedir silêncio,
mas os homens continuaram a gritar sobre o seu soldo e as faxinas desnecessárias a que os
obrigavam, de tal forma que não tinham um momento para eles desde a alvorada ao recolher e que a
única maneira que um homem tinha agora de ser dispensado do exército era cair morto de velhice.
Germânico não fez qualquer tentativa para falar até ficarem todos de novo em silêncio. Nessa
altura, disse:
- Em nome de meu pai Tibério prometo-vos justiça. Ele tem o vosso bem-estar no coração, tal como
eu, e tudo o que puder ser feito por vós sem perigo para o Império, ele fá-lo-á. Eu respondo por isso.
- Oh, Tibério que vá para o diabo! - gritou alguém, e o brado foi repetido por todos os lados com
gemidos e gritos. De repente, todos começaram a gritar:
- Viva Germânico! Tu és o nosso Imperador! Atirem Tibério ao Tibre! Viva Germânico! Germânico
a Imperador! Tibério que vá para o inferno! Aquela cabra da Lívia que vá para o inferno! Viva
Germânico! Marchemos sobre Roma! Somos os teus homens! Viva Germânico, filho de
Germânico! Germânico a Imperador!
Germânico estava fulminado. Gritou:
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- Homens, deveis estar loucos para falardes dessa maneira. O que pensais que eu sou? Um traidor?
Um veterano gritou:
- Nada disso, meu General! Dissestes agora mesmo que iríeis assumir o trabalho de Augusto. Não
recueis!
Germânico compreendeu então o seu erro e, quando as aclamações de Viva Germânico
continuaram, saltou da plataforma do tribunal e encaminhou-se apressadamente para o sítio onde
deixara o cavalo amarrado a um poste, com a intenção de montar e galopar a toda a velocidade para
longe daquele acampamento maldito. Mas os homens puxaram das espadas e barraram-lhe o
caminho.
Germânico, fora de si, gritou:
- Deixai-me passar ou, pelos Deuses, eu mato-me.
- Para nós, vós sois o Imperador, - responderam.
Germânico desembainhou a espada, mas alguém lhe agarrou o braço. Era evidente para qualquer
homem decente que Germânico estava a falar a sério, mas muitos dos ex-escravos pensavam que ele
estivesse apenas a fazer um gesto hipócrita de modéstia e virtude. Um deles, riu-se e gritou-lhe:
-Aqui, tomai a minha espada. Está mais afiada!
O velho Pompónio, que estava ao lado deste indivíduo, ergueu-se numa fúria e atingiu-o na boca.
Germânico foi levado à pressa pelos amigos para a tenda do General. O General estava estendido na
cama, meio morto de pavor, com a cabeça escondida debaixo da coberta. Passou-se bastante tempo
antes que ele conseguisse levantar-se e apresentar os seus respeitos a Germânico. A sua vida e a dos
seus oficiais tinha sido salva pela sua guarda pessoal, mercenários da fronteira Helvética.
Um conselho foi convocado à pressa. Cássio disse a Germânico que, por uma conversa que tinha
escutado enquanto estava estendido na casa da guarda, os amotinados preparavam-se para enviar
uma delegação aos regimentos da Província Superior, para assegurar a sua cooperação numa revolta
militar geral. Falava-se em deixar o Reno sem guarda e marchar para França, saqueando cidades,
raptando as mulheres e instaurando um reino militar independente no sudoeste, protegido na
retaguarda pelos Pirinéus. Roma ficaria paralisada com este movimento e eles ficariam à sua
vontade o tempo suficiente para conseguirem tornar o seu reino inexpugnável.
Germânico decidiu ir imediatamente para a Província Superior e fazer os regimentos que lá se
encontravam jurar aliança a Tibério. Estas eram as tropas que tinham havia pouco servido
directamente sob o seu comando e ele acreditava que permaneceriam leais se ele chegasse antes da
delegação dos amotinados. Sabia que tinham as mesmas queixas quanto a pagamento e tempo de
serviço, mas os seus capitães eram gente melhor,
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escolhidos por ele próprio pela sua paciência e qualidades militares, e não pela reputação. Mas
primeiro, alguma coisa tinha que ser feita para acalmar os regimentos amotinados. Havia apenas um
caminho a seguir. E ele cometeu o primeiro e único crime da sua vida: forjou uma carta que
pretensamente vinha de Tibério e fez que lha entregassem à porta da tenda na manhã seguinte. O
correio tinha sido enviado para fora do acampamento em segredo durante a noite, com instruções
para que roubasse um cavalo do próprio acampamento, cavalgasse vinte milhas para sudoeste e
depois regressasse, galopando a toda a velocidade por uma outra estrada.
A carta dizia que Tibério tivera conhecimento de que os regimentos da Germânia tinham feito ouvir
algumas queixas legítimas e que ele estava ansioso por as satisfazer rapidamente. Faria com que o
legado de Augusto lhes fosse pago sem demora e, como penhor da sua confiança na lealdade deles,
dobrá-lo-ia, às suas próprias custas. Iria negociar com o Senado o aumento do soldo. Daria dispensa
imediata e sem restrições a todos os homens com vinte anos de serviço e dispensaria com uma
condição aqueles que tinham completado dezasseis anos - estes, não seriam chamados para qualquer
serviço militar, excepto para o de guarnição.
Germânico não era um mentiroso tão astuto como seu tio Tibério, sua avó Lívia ou a irmã Livila. O
cavalo do correio foi reconhecido pelo seu proprietário, tal como o correio, um dos moços do
próprio Germânico. Correu o rumor de que a carta era forjada. Mas os veteranos foram a favor de a
tratar como autêntica e reclamar imediatamente a dispensa prometida e o legado. Fizeram-no e
Germânico replicou que o Imperador era um homem de palavra e que as dispensas seriam
concedidas nesse mesmo dia. Mas pediu-lhes que tivessem paciência quanto ao legado, que só
poderia ser pago por inteiro quando eles regressassem aos seus quartéis de Inverno. Não havia
dinheiro suficiente no acampamento, disse, para que todos os homens recebessem as suas seis
moedas de ouro, mas ele faria com que o General entregasse o que havia. Isto acalmou-os, embora
as opiniões se tivessem voltado um pouco contra GermâniCO, que não era aquilo que eles tinham
julgado que fosse: tinha medo de Tibério, disseram, e não estava acima de fazer uma falsificação.
Enviaram grupos à procura dos seus capitães e voltaram a obedecer às ordens do seu General.
Germânico dissera ao General que faria com que o Senado o desacreditasse por cobardia, se ele não
se controlasse imediatamente.
Assim, depois de ver que as desmobilizações eram feitas na devida forma e que todo o dinheiro
disponível era distribuído, Germânico dirigiu-se à Província Superior. Encontrou os regimentos à
espera de notícias do que estava a acontecer na Província Inferior; mas ainda não estavam
declaradamente amotinados, pois Sílio, o seu General, era um
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homem de espírito forte. Germânico leu-lhes a carta forjada e fê-los jurar aliança a Tibério, o que
eles fizeram de imediato.
Houve grande emoção em Roma quando chegou a notícia do motim do Reno. Tibério, que tinha
sido fortemente criticado por enviar Castor para o motim dos Balcãs - que ainda não fora debelado
-, em vez de ter ido ele próprio, era agora vaiado nas ruas enquanto lhe perguntavam por que razão
as tropas que se amotinavam eram as que ele comandara pessoalmente, enquanto as outras
permaneciam leais (o regimento que Germânico tinha comandado na Dalmácia também ainda não
se tinha amotinado). Foi chamado para ir imediatamente para a Germânia e resolver a sua própria
embrulhada no Reno, em vez de deixar tudo por conta de Germânico. Portanto, disse ao Senado que
iria para a Germânia e começou lentamente a fazer os preparativos, escolhendo os seus oficiais e
preparando uma pequena frota. Mas quando tudo ficou pronto, a aproximação do Inverno tornava a
navegação perigosa e as notícias da Germânia eram mais esperançosas. Por isso, não chegou a ir.
Também não tencionava fazê-lo.
Entretanto, eu recebera uma carta apressada de Germânico, pedindo-me que retirasse imediatamente
200.000 moedas de ouro do seu espólio, mas debaixo do maior segredo; elas eram necessárias para
a segurança de Roma. Não disse mais nada, mas enviou-me uma autorização assinada que me
permitia agir em seu nome. Fui procurar o administrador principal de Germânico, que disse que
apenas conseguia realizar metade daquela quantia sem vender nenhuma propriedade e que a venda
de alguma propriedade iria causar falatório, que era o que Germânico nitidamente desejava evitar.
Portanto, tive que arranjar eu próprio o resto, 50.000 do meu cofre-forte, o que me deixou apenas
10.000, depois de ter pago a despesa da minha iniciação ao novo sacerdócio - e mais 50.000 da
venda de uma propriedade na Cidade, que o meu pai me deixara - felizmente, já tinha uma oferta
para ela -, e da venda de alguns escravos que podia dispensar, mas apenas os homens e mulheres
que eu considerava como particularmente dedicados ao meu serviço. Enviei-lhe o dinheiro dois dias
depois de ter recebido a carta a pedi-lo. A minha mãe ficou extremamente zangada quando soube
que a propriedade tinha sido vendida, mas eu comprometera-me a não dizer as razões que me
tinham levado a precisar do dinheiro. Por isso, disse que, ultimamente, tinha andado a jogar dados
com apostas excessivamente altas e que, ao tentar recuperar as minhas pesadas perdas, perdera duas
vezes mais. Ela acreditou-me e jogador passou a ser mais um pau para me bater. Mas a ideia de que
não tinha deixado ficar mal nem Germânico nem Roma era compensação suficiente para os insultos
dela.
Devo dizer que, nesta altura, eu jogava bastante, mas nunca ganhava nem perdia muito. Costumava
jogar para me descontrair do meu trabalho.
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Depois de terminar a minha história das reformas religiosas de Augusto, escrevi um pequeno livro
humorístico sobre dados, dedicado à divindade de Augusto, e que serviu para arreliar a minha mãe.
Citava uma carta que Augusto, que gostava muito de dados, escrevera em tempos a meu pai: nela
dizia como lhe tinha agradado o seu jogo da noite anterior, porque o meu pai era o melhor perdedor
que ele alguma vez conhecera. O meu pai, escrevia ele, soltava sempre um brado misturado com
uma gargalhada contra o destino sempre que lhe saía Cão, mas, se outro companheiro de jogo tirava
Vénus, ele parecia tão contente como se a jogada tivesse sido sua.
”É na verdade um prazer ganhar-te, meu caro, e dizer que este é o mais alto elogio que posso
dedicar a um homem, pois geralmente detesto ganhar, por causa da visão que isso me permite do
íntimo dos supostamente meus amigos mais dedicados. Todos, excepto os melhores, têm aversão a
perder para mim porque sou o Imperador e, segundo pensam, imensamente rico e, obviamente, os
deuses não deviam dar mais a um homem quejá tem demais. A minha política, portanto, - talvez já
o tenhas notado, - é fazer sempre um erro nas contas depois de uma ou duas jogadas. Anuncio
menos do que ganhei, como que por engano, ou pago mais do que devo e, praticamente, ninguém a
não seres tu, essa é a minha experiência, é suficientemente honesto para me corrigir (teria gostado
de citar uma outra passagem, na qual havia uma referência à falta de desportivismo de Tibério, mas
claro que não podia).
Nesse livro, comecei com uma investigação pretensamente séria sobre a antiguidade dos dados,
citando um número de autores não existentes e descrevendo várias maneiras fantasiosas de sacudir o
copo de dados. Mas o assunto principal era naturalmente perder e ganhar, e o título era Como
Ganhar aos Dados. Augusto tinha escrito noutra carta que, quanto mais tentava perder, mais
parecia que ganhava e, mesmo fazendo batota contra si próprio nas contas, era raro levantar-se da
mesa mais pobre do que quando se sentava. Citei uma declaração oposta atribuída por Pólio a meu
avô António, no sentido de que, quanto mais tentava ganhar aos dados, mais parecia perder.
juntando as duas afirmações, deduzi que a lei fundamental dos dados era que os deuses, a menos
que tivessem alguma coisa contra ele por outras razões, sempre deixavam ganhar o homem que
menos desejava o lucro. A única maneira de ganhar aos dados, portanto, era cultivar um desejo
genuíno de perder. Escrito num estilo pesado que parodiava o do meu atormentador Catão, esse era,
gabo-me disso, um livro muito engraçado, cujo argumento era tão perfeitamente paradoxal. Citei o
velho provérbio que promete a um homem 1.000 moedas de ouro cada vez que ele encontrar um
desconhecido montado numa mula malhada, mas com a condição dele não pensar na cauda da mula
até receber o dinheiro. Esperava que esta sátira agradasse às pessoas que
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achavam as minhas histórias indigestas. Mas não agradou. Ela não foi lida como uma obra de
humor. Devia ter compreendido que leitores antiquados, que tinham crescido a ler Catão, não eram
propriamente o tipo de pessoas que se iriam divertir com uma paródia do seu herói. Portanto, o livro
foi tratado como uma produção fantasticamente monótona e estúpida, escrita com uma seriedade
lamentável e provando, para além de qualquer dúvida, a minha tão falada incapacidade mental.
Mas isto foi uma digressão mal calculada, em que deixei Germânico esperando ansiosamente o seu
dinheiro, enquanto escrevia um livro sobre dados. O velho Atenodoro criticar-me-ia com bastante
severidade, acho eu, se ainda estivesse vivo.
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CAPíTULO XVI
Uma delegação de senadores enviada por Tibério foi ao encontro de Germânico em Bona. Na
realidade, foram ver se Germânico estivera a exagerar ou a minimizar a gravidade do motim.
Levavam também uma carta particular de Tibério aprovando as promessas feitas aos homens em
seu nome, com excepção da duplicação do legado, que teria agora que ser prometida ao exército
inteiro e não apenas aos regimentos da Germânia. Tibério felicitava Germânico pelo aparente
sucesso da artimanha, mas deplorava a necessidade da falsificação. Acrescentava que, se ele ia ou
não cumprir as promessas, dependia do comportamento dos homens (com isto, ele não queria dizer,
como Germânico supos, que, se os homens regressassem à obediência, ele cumpriria as promessas,
mas exactamente o contrário). Germânico escreveu-lhe imediatamente em resposta, pedindo
desculpa pela despesa envolvida na duplicação do legado, mas explicava que o dinheiro estava a ser
pago as suas próprias custas e que os homens não saberiam que não era Tibério o seu benfeitor; e
que, na carta forjada, ele tornara claro que apenas os regimentos da Germânia beneficiariam,
tornando o pagamento uma recompensa pelo êxito da sua recente campanha do outro lado do Reno.
Quanto às outras promessas específicas, os veteranos com vinte anos de serviço já tinham sido
dispensados e aguardavam apenas a chegada do dinheiro do prêmio.
Cermânico mal podia suportar este pesado ónus sobre o seu património e escreveu a pedir-me que
lhe desse algum tempo para pagar os meus 50.000. Respondi-lhe que não tinha sido um
empréstimo, mas uma oferta que tinha orgulho em ter podido fazer. Mas voltemos à ordem dos
acontecimentos. Dois dos regimentos estavam nos seus quartéis de Inverno, em Bona, quando
chegou a delegação. A sua marcha de regresso, sob as ordens do seu General, tinha sido um triste
espectáculo: os sacos que tinham contido o dinheiro foram amarrados a compridas varas e
transportados com a boca para baixo, entre dois estandartes. Os outros dois regimentos tinham-se
recusado a deixar o acampamento de Verão até que todo o legado lhes fosse pago. Os regimentos de
Bona, o Primeiro e o Vigésimo, suspeitaram que a delegação tivesse sido enviada para cancelar as
concessões e começaram de novo os distúrbios. Alguns, eram a favor de marcharem de imediato
para o seu novo reino e, à meia-noite, um grupo
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irrompeu pelo aquartelamento de Germânico, onde a Águia do Vigésimo regimento estava


guardada num santuário fechado e, arrancando-o da cama, arrancaram a chave do santuário da fina
corrente de ouro que ele usava ao pescoço, abriram o santuário e lançaram mão da Águia. Quando
marchavam aos brados pelas ruas, chamando os seus camaradas para seguirem a Águia,
encontraram os senadores da delegação, que tinham ouvido o barulho e vieram a correr para
proteger Germânico. Os soldados praguejavam e desembainhavam as espadas. Os senadores
mudaram de direcção e precipitaram-se para o quartel-general do Primeiro Regimento, onde se
puseram a guardar a Águia. Mas os seus perseguidores estavam enlouquecidos com a raiva e a
bebida e, se o Porta-Águia não fosse um homem corajoso e, ao mesmo tempo, um bom espadachim,
o chefe da delegação teria ficado com o crânio rachado a meio - um crime que teria inculpado o
regimento para além de qualquer perdão e que teria sido o sinal para a guerra civil em todo o país.
As desordens continuaram ao longo da noite, mas felizmente sem derramamento de sangue, excepto
em resultado de brigas de bêbedos entre soldados de companhias rivais. Quando nasceu o dia,
Germânico disse ao trombeteiro para tocar a reunir e dirigiu-se ao tribunal, deixando o chefe da
delegação senatorial atrás dele. Os homens estavam nervosos e irritáveis e sentiam-se culpados, mas
a coragem de Germânico fascinava-os. Ele pôs-se de pé, ordenou silêncio e depois soltou um
grande bocejo. Cobriu a boca com a mão e pediu desculpa, dizendo que não dormira bem por causa
das corridas dos ratos no seu aquartelamento. Os homens apreciaram a piada e riram-se. Germânico
não se riu com eles.
- O céu seja louvado por ter chegado a aurora. Nunca conheci noite pior. Num dado momento,
sonhei que a Águia do Vigésimo tinha voado para longe. Que alívio vê-la na parada esta manhã!
Havia espíritos destruidores pairando sobre o acampamento, enviados sem dúvida por algum Deus a
quem ofendemos. Todos haveis sentido a loucura e só por milagre fostes impedidos de cometer um
crime sem paralelo na história de Roma: o assassinato gratuito de um embaixador da vossa própria
cidade, que se abrigara das vossas espadas junto das vossas próprias Divindades regimentais!
Explicou então que os delegados tinham vindo apenas para confirmar as promessas originais em
nome do Senado e para verificar se estavam a ser fielmente executadas por ele.
- Bom, e então? Onde está o resto do prêmio? - gritou alguém e o grito foi repetido. -Queremos o
nosso prêmio!
Mas, por um acaso feliz, os carros com o dinheiro foram avistados nesse momento, entrando no
campo acompanhados por um destacamento de auxiliares de cavalaria. Germânico aproveitou a
situação para enviar rapidamente os senadores de regresso a Roma escoltados por esses mesmos
auxiliares; depois, supervisionou a distribuição do dinheiro,
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tendo-lhe sido difícil impedir que alguns dos homens pilhassem a parte que se destinava a outros
regimentos.
Nessa tarde, a desordem aumentou; tanto dinheiro nas bolsas dos homens significava que bebiam
desregradamente e se entregavam desenfreados ao jogo. Germânico decidiu que não era seguro para
Agripina, que estava agora com ele, permanecer no acampamento. Ela encontrava-se de novo
grávida; e embora os seus jovens filhos, os meus sobrinhos Nero e Druso, estivessem aqui em Roma
com a minha mãe e comigo, Agripina tinha com ela o pequeno Caio. Esta bela criança tinha-se
tornado a mascote do exército e alguém lhe fizera, em miniatura, um fardamento militar completo,
com peitoral metálico, espada, elmo e escudo. Todos o mimavam. Quando a mãe o vestia com
roupas normais e sandálias, ele chorava e reclamava a sua espada e as pequenas botas para ir visitar
as tendas. Por isso lhe puseram a alcunha de Calígula, ou Bota Pequena.
Germânico insistiu na partida de Agripina, embora ela jurasse que não tinha medo de nada e que
preferia, de longe, morrer com ele ali, do que receber a notícia de que se livrara de ser assassinada
com ele pelos amotinados. Mas ele perguntou-lhe se achava que Lívia daria uma boa mãe para os
filhos órfãos e isso decidiu-a a fazer o que ele lhe pedia. Com ela foram algumas mulheres de
oficiais com os filhos, todas em pranto e vestidas de luto. Atravessaram lentamente o acampamento
a pé, como fugitivas de uma cidade amaldiçoada. Uma mera carruagem grosseira, puxada por uma
mula, era todo o seu transporte. Cássio Chaerea acompanhou-as como guia e seu único protector.
Calígula ia às costas de Cássio, como se montasse um cavalo de batalha, gritando e desferindo no ar
os golpes de espada e fazendo as paradas da praxe, tal como os soldados de cavalaria lhe tinham
ensinado. Deixaram o acampamento de manhã muito cedo e praticamente ninguém os viu partir;
não havia guardas no portão e ninguém se deu ao trabalho de tocar a despertar, pois a maior parte
dos homens dormiram como porcos até às dez ou onze horas. Alguns velhos soldados, que
acordaram cedo por uma questão de hábito de longa data, andavam fora do acampamento a apanhar
lenha para fazer o pequeno-almoço e gritaram-lhes, perguntando onde iam as senhoras.
- A Treves, - gritou Cássio, - O Comandante-em-Chefe está colocando a mulher e o filho sob a
protecção dos aliados franceses de Treves incivilizados mas leais, de preferência a arriscar que
sejam assassinados pelo famoso primeiro Regimento. Dizei isso aos vossos camaradas.
Os velhos soldados regressaram apressadamente ao acampamento e um deles, o velho Pompónio,
pegou numa trombeta e fez soar o alarme. Os homens saíram das tendas aos tombos, ainda meio
adormecidos, com as espadas na mão.
- O que é que se passa? O que foi que aconteceu?
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-Ele foi mandado para longe de nós. Acabou-se a nossa boa sorte e nunca mais o voltaremos a
ver.
- Quem é esse? Quem é que foi mandado para longe?
- O nosso menino. Bota Pequena. O pai diz que não confia no Primeiro Regimento; por isso o
mandou para os malditos aliados franceses. Só os Deuses sabem o que lhe vai acontecer por lá.
Sabeis como são os franceses. A mãe também foi mandada embora. Grávida de sete meses e a
caminhar a pé, como uma escrava, pobre senhora. Oh, rapaziada! A mulher de Germânico é filha do
velho Agripa, a quem chamávamos de Amigo dos Soldados! E o nosso Bota Pequena!
Os soldados são realmente uma raça extraordinária de homens: rijos como o couro dos seus
escudos, supersticiosos que nem egípcios e sentimentais como avós sabinas. Dez minutos mais
tarde, havia cerca de
2.000 homens em volta da tenda de Germânico, num êxtase ébrio de desgosto e arrependimento,
implorando-lhe que deixasse a mulher voltar com o seu querido menino.
Germânico apareceu-lhes com um rosto pálido e zangado e disse-lhes que não o incomodassem
mais. Tinham-se desgraçado a si próprios e a ele, assim como ao nome de Roma; por isso, não
poderia confiar neles enquanto vivesse; não lhe tinham feito nenhuma gentileza ao arrancar-lhe a
espada da mão, quando estava à beira de a enterrar no peito.
- Diz-nos o que temos a fazer, General. Faremos qualquer coisa que nos digas. Juramos que não
voltaremos a amotinar-nos. Perdoa-nos. Seguir-te-emos até ao fim do mundo. Mas devolve-nos o
nosso pequeno companheiro.
Germânico disse:
- Estas são as minhas condições. Jurai aliança a meu pai Tibério e destacai de entre vós os homens
responsáveis pela morte dos vossos capitães, pelo insulto à delegação e pelo roubo da Águia. Se
fizerdes isto tereis o meu perdão, a ponto de vos deixar ter de volta o vosso pequeno companheiro.
A minha mulher, no entanto, não será trazida de novo para se deitar neste acampamento, enquanto
ele não tiver sido purgado do mal. A hora dela está a chegar e eu não quero que qualquer má
influência possa ensombrar a vida da criança. Mas posso enviá-la para Colónia em vez de Treves, se
não quereis que se diga que a confiei à protecção dos bárbaros. O meu perdão completo só será
concedido quando tiverdes apagado a recordação dos vossos crimes sangrentos com uma vitória
ainda mais sangrenta sobre os inimigos do vosso país, os germanos.
Juraram respeitar as condições dele. Assim, Germânico enviou um mensageiro para alcançar
Agripina e Cássio; ele devia explicar a situação e trazer Calígula de volta. Os homens correram para
as tendas e chamaram todos os camaradas leais para se juntarem a eles e prenderem os instigadores
do motim. Cerca de 100 homens foram apanhados e arrastados até
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ao tribunal, em volta do qual o que restava dos dois regimentos formou um quadrado côncavo
com as espadas desembainhadas. Um coronel fez cada um dos prisioneiros subirem à vez a uma
plataforma grosseira montada ao lado do tribunal e, se os homens da sua companhia o julgavam
culpado, era atirado para baixo e decapitado por eles. Germânico não disse nada ao longo das duas
horas deste julgamento sumário, permanecendo sentado de braços cruzados e rosto impassível.
Todos, à excepção de alguns raros prisioneiros, foram considerados culpados.
Depois de ter rolado a última cabeça e dos corpos terem sido levados para fora do acampamento
para serem queimados, Germânico chamou todos os capitães à vez ao tribunal e pediu pormenores
dos respectivos serviços. Se o indivíduo tinha uma boa folha e era evidente que não fora nomeado
por favoritismo, Germânico apelava para os veteranos da companhia para que lhe dessem a sua
opinião sobre ele. Se lhe dessem um bom-nome e se o coronel do batalhão não tivesse nada contra
ele, o homem era confirmado no seu posto. Mas se a folha fosse má e se houvesse queixas da
companhia, ele era despromovido e Germânico recorria à companhia para que escolhessem o
melhor homem que tivessem entre eles para lhe suceder. Seguidamente, Germânico agradeceu aos
homens a sua colaboração e solicitou-lhes que fizessem o juramento de aliança a Tibério. Fizeram-
no com solenidade e, momentos depois, ouviu-se uma ruidosa aclamação. Viram o mensageiro de
Germânico aproximar-se a galopar; sentado à sua frente vinha Calígula, gritando na sua vozita
aguda e acenando com a espada de brinquedo.
Germânico abraçou o filho e disse que tinha mais uma coisa a acrescentar, Mil e quinhentos
veteranos que já tinham ultrapassado o seu tempo de serviço tinham sido dispensados dos dois
regimentos, segundo as instruções de Tibério. Mas se alguns deles, disse, desejavam o seu perdão
por inteiro, que os companheiros em breve alcançariam atravessando o Reno e vingando a derrota
de Varo, ainda podiam consegui-lo. Ele permitiria aos homens mais activos que voltassem a alistar-
se nas suas antigas companhias; enquanto que aqueles que apenas estavam em condições de fazer
trabalho auxiliar se podiam alistar numa força especial para serviço no Tirol, onde se tinham
registado ultimamente perigosas incursões por parte dos germanos. Custa a acreditar! - todos os
homens deram um passo em frente e mais de metade ofereceu-se para o serviço activo do outro lado
do Reno. Entre estes voluntários activos estava Porapónio, que proclamou que estava em tão boa
forma como qualquer soldado do exército, apesar das gengivas sem dentes e da hérnia. Germânico,
fê-lo sua ordenança e colocou os netos dele na sua guarda pessoal. Assim, tudo ficou de novo em
ordem em Bona e os homens disseram a Calígula que ele tinha debelado o motim sozinho e que, um
dia, haveria de ser
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um grande imperador e de alcançar vitórias maravilhosas; o que foi muito mau para a criança, que
já era, como eu disse, terrivelmente mimada.
Mas ainda restavam os outros dois regimentos, que estavam num local chamado Xanten, para serem
chamados à razão. Tinham continuado a comportar-se como amotinados, mesmo depois do
pagamento do prêmio, e o seu General não conseguia fazer nada deles. Quando veio a notícia da
mudança de atitude dos regimentos de Bona, os chefes do motim ficaram seriamente alarmados
quanto à sua própria segurança e agitaram os seus camaradas a novos actos de violência e
devastação. Germânico mandou informar o seu General de que seguia imediatamente para o Reno à
frente de um poderoso destacamento e que, se os homens leais que ainda continuavam sob o seu
comando não seguissem rapidamente o exemplo dos regimentos de Bona, executando os agitadores,
ele próprio mandaria passar todos à espada, indiscriminadamente. O General leu a carta em privado
aos porta-estandartes, todos eles sargentos, e a alguns velhos soldados dignos de confiança,
dizendo-lhes que não havia tempo a perder, pois Germânico podia cair-lhes em cima a qualquer
momento. Eles prometeram fazer o que pudessem e, partilhando o segredo, que ficou bem
guardado, com mais alguns homens leais, precipitaram-se para as tendas à meia-noite, a um sinal
combinado, e começaram a massacrar os amotinados. Estes defenderam-se o melhor que puderam e
mataram alguns dos homens leais, mas em breve foram subjugados. Quinhentos homens foram
mortos ou feridos nessa noite. Os restantes, deixando apenas sentinelas no acampamento,
marcharam ao encontro de Germânico, suplicando-lhe que os conduzisse imediatamente para o
outro lado do Reno, para enfrentar o inimigo.
Embora a época das campanhas estivesse a chegar ao fim, o tempo continuava favorável e
Germânico prometeu fazer o que eles pediam. Lançou uma ponte flutuante sobre o rio e atravessou-
o à frente de 12.000 soldados da infantaria romana, vinte e seis batalhões de aliados e oito
esquadrões de cavalaria. Pelos seus agentes no território inimigo ficou a saber de uma vasta
concentração de tropas inimigas nas aldeias de Münster, onde estava a realizar-se um festival anual
de Outono em honra do Hércules germano. As notícias do motim tinham chegado aos germanos -
os amotinados tinham mesmo feito um tratado com Hermann e trocado presentes com ele - e
estavam apenas a aguardar que os regimentos partissem para o seu novo reino no sudoeste, para
atravessarem o Reno e marcharem directamente para Itália. Germânico seguiu um caminho da
floresta que raramente era usado e surpreendeu completamente os germanos, apanhando-os a beber
cerveja (cerveja é uma bebida fermentada feita com cereal em infusão; nas suas celebrações,
bebem-na de forma excessiva). Germânico dividiu as tropas em quatro colunas e devastou a região
numa frente de cinquenta milhas, queimando as aldeias e chacinando
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os habitantes, sem respeitar a idade ou o sexo. Ao regressar, encontrou destacamentos de várias


tribos vizinhas preparados para disputar a sua passagem através da floresta; mas ele avançou em
ordem de peleja e estava a conseguir fazer recuar o inimigo, quando houve um alarme repentino por
parte do Vigésimo Regimento, que estava servindo de retaguarda. Germânico descobriu que um
grande destacamento de germanos, sob o comando pessoal de Hermann, estava prestes a cair sobre
eles. Felizmente, as árvores naquele ponto não eram densas e deixavam espaço de manobra.
Germânico recuou até à posição onde o perigo era maior e gritou: ”Rompei a linha deles, Vigésimo,
e tudo será perdoado e esquecido.” Os homens do Vigésimo lutaram como possessos e fizeram
recuar os germanos no meio de grande mortandade, perseguindo-os até ao campo aberto ao fundo
do bosque. Germânico avistou Hermann e desafiou-o para combater, mas os seus homens tinham-se
posto em fuga; podia ter sido a morte dele aceitar o desafio. Afastou-se galopando. Germânico foi
tão desafortunado como o fora nosso pai na perseguição dos chefes inimigos; mas alcançou as suas
vitórias com o mesmo estilo e o nome de Germânico, que herdara, usava-o agora por direito. Fez
marchar o exército exultante em segurança até aos seus acampamentos, do outro lado do Reno.
Tibério nunca compreendeu Germânico, nem Germânico compreendeu Tibério, Tibério, como já
disse, era um dos maus claudianos. No entanto, era por vezes facilmente tentado pela virtude e,
numa época nobre, podia facilmente ter passado por um espírito nobre: na verdade, era um homem
de não poucas capacidades. Mas a época não era nobre e o seu coração tinha-se endurecido e a
principal culpa desse endurecimento, haveis de concordar, cabia a Lívia. Germânico, por outro lado,
era totalmente inclinado para a virtude e, por mais maléfica que fosse a época em que nasceu, nunca
poderia ter agido de maneira diferente daquela como agiu. De tal forma era assim que, quando
recusou a monarquia que lhe foi oferecida pelos regimentos germanos e os fez jurar aliança a
Tibério, este não conseguiu compreender porque ele teria feito tal coisa. Concluiu que Germânico
devia ser ainda mais subtil que ele próprio e estar a jogar um jogo bem profundo. A simples
explicação que Germânico punha a honra acima de todos os outros considerandos e estava ligado a
Tibério por uma aliança militar e por ter sido adoptado como seu filho, nunca lhe ocorreu. Mas
Germânico, tendo em conta que Tibério nunca o insultara ou injuriara (pelo contrário, elogiou-o
fortemente pela maneira como tratou o motim e decretou-lhe um triunfo completo pela sua
campanha em Münster), e uma vez que não suspeitava da sua cumplicidade nos desígnios de Lívia,
considerava as intenções dele tão honrosas como as suas próprias, achando-o apenas um pouco
ingénuo por ainda não se ter apercebido das intenções de Lívia. Decidiu ter uma conversa franca
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com Tibério logo que regressasse do triunfo. Mas a morte de Varo ainda não tinha sido vingada;
passaram-se três anos até que Germânico regressasse. O tom das cartas trocadas entre Germânico e
Tibério durante este período foi fixado por Germânico, que escrevia sempre com a afeição devida.
Tibério respondia-lhe no mesmo tom afectuoso, porque pensava que, ao fazê-lo, estava a derrotar
Germânico no seu próprio jogo de astúcia. Encarregou-se de o reembolsar pela quantia do legado
dobrado e de estender também o prémio aos regimentos dos Balcãs. Por uma questão de estratégia,
pagou aos regimentos dos Balcãs o extra de três moedas de ouro por homem - havia ameaças de
novo motim -, mas adiou o reembolso a Germânico por alguns meses, com base em dificuldades
financeiras. Naturalmente, Germânico não o pressionou por causa do dinheiro e, claro, Tibério
nunca lho restituiu. Germânico escreveu de novo para me perguntar se podia esperar para me pagar
até que Tibério lhe pagasse a ele, e eu escrevi-lhe dizendo que estava a falar a sério quando disse
que o dinheiro era uma oferta.
Pouco depois da tomada de posse de Tibério, escrevi-lhe dizendo que havia algum tempo que
andava a estudar lei e administração - o que era verdade -, na esperança de que me fosse dada
finalmente uma oportunidade de servir o meu país numa posição de alguma responsabilidade. Ele
respondeu dizendo que, sem dúvida, era uma anomalia que um homem que era irmão de Germânico
e seu próprio sobrinho se apresentasse como um simples cavaleiro e que, uma vez que me estava a
tornar agora sacerdote de Augusto, certamente me seria permitido usar a túnica de senador; na
verdade, se eu conseguisse não fazer figuras tristes nessa roupagem, ele pediria autorização para
que eu usasse a túnica de brocado, que era agora usada pelos Cônsules e ex-Cônsules. Escrevi-lhe
imediatamente para dizer que preferiria um cargo sem indumentária a uma indumentária sem cargo;
mas a sua única resposta a isto foi enviar-me um presente de quarenta moedas de ouro ”para
comprar brinquedos no próximo Dia dos Bobos”. O Senado votou-me a túnica de brocado e, em
sinal de deferência para com Germânico, que estava agora no meio de uma nova campanha bem
sucedida na Germânia, propôs consagrar-me um lugar na Casa entre os ex-Cônsules. Mas aqui
Tibério entrepôs o seu veto, dizendo que, na sua opinião, eu era incapaz de fazer um discurso sobre
assuntos de estado que não se tornasse num suplício para a paciência dos outros membros.
Outro decreto foi proposto ao mesmo tempo e igualmente vetado por ele. As circunstâncias eram as
seguintes: Agripina tinha dado à luz, em Colónia, uma rapariga chamada Agripinila; e devo dizer
para já que esta Agripinila veio a ser o pior elemento da família claudiana - na verdade, posso dizer
que ela mostra indícios de ultrapassar todos os seus antepassados, homens ou Mulheres, em
arrogância e vício. Agripina ficou
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alguns meses doente depois do parto e incapaz de controlar devidamente Calígula; por isso, ele foi
enviado de visita a Roma logo que Germânico começou a sua campanha da Primavera. A criança
tornou-se uma espécie de herói nacional. Sempre que saía a passear com os irmãos era aclamado,
admirado e mimado. Ainda não tinha três anos de idade e já era de uma precocidade maravilhosa, o
que o tornava extremamente difícil, apenas agradável quando lisonjeado e somente dócil se tratado
com firmeza. Foi instalado em casa da bisavó Lívia, mas ela não tinha tempo para se ocupar
devidamente dele e, como Calígula estava sempre a meter-se em sarilhos e a guerrear com os
irmãos mais velhos, o pequeno acabou por ir viver com a minha mãe e comigo. A minha mãe nunca
o lisonjeava, mas também não o tratava com a firmeza necessária, até que um dia ele lhe cuspiu em
cima num acesso de raiva e ela lhe deu uma boa tareia.
- Sua germana velha e horrenda, - disse ele, - Hei-de queimar a tua casa germana!
Usava a palavra germano como o pior insulto que conhecia. Nessa tarde, esgueirou-se até uma
arrecadação que ficava ao lado do sótão dos escravos e que estava cheia de velhos móveis e de lixo,
pegando fogo a uma pilha de velhos colchões de palha. O fogo não tardou a alastrar a todo o piso
superior e, como se tratava de uma casa velha, com os madeiramentos podres e respiradouros de
chaminés por toda a parte, não houve maneira de o apagar, mesmo com uma interminável cadeia de
baldes até ao tanque das carpas. Consegui salvar todos os meus papéis e outras coisas de valor e
parte da mobília, não se tendo registado perda de vidas, à excepção de dois velhos escravos que
estavam na cama doentes; mas nada restou da casa, a não serem as paredes nuas e as caves. Calígula
não foi punido, por causa do susto que apanhou com o incêndio. Quase foi apanhado pelo fogo,
escondido com a sua culpa debaixo da cama até que o fumo o fez sair de lá aos gritos.
O Senado queria decretar que a minha casa fosse reconstruída a expensas do Estado, dado que tinha
sido a residência de tantos membros distintos da minha família: mas Tibério não permitiu tal coisa.
Disse que o fogo tinha sido causado por negligência da minha parte e que os estragos podiam
facilmente ter sido confinados às águas-furtadas, se eu não tivesse agido de forma irresponsável; e
que, em vez de deixar o Estado pagar, ele mesmo se encarregaria de reconstruir e voltar a mobilar a
casa. Fortes aplausos do Senado. Isto era totalmente injusto e desonesto, especialmente porque ele
não tinha qualquer intenção de levar por diante esse empreendimento. Fui obrigado a vender a
minha última propriedade importante em Roma, um quarteirão de casas perto do Mercado de Gado
e um grande lote de terreno para construção que lhe ficava ao lado, para reconstruir a casa às
minhas custas. Nunca disse a Germânico que tinha sido Calígula o incendiário, porque ele se teria
sentido obrigado a reparar ele próprio
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o estrago; e estou convencido de que, de certa forma, foi um acidente, porque uma criança tão
pequena não podia ser considerada responsável.
Quando os homens de Germânico partiram a combater de novo, os germanos tinham uma nova
adenda para a balada dos Três Desgostos de Augusto, da qual me recordo de dois ou três versos e de
umas linhas soltas, na sua maioria ridículas:
Seis moedas por homem ele nos deixou Para comprarmos porco efeijões,
Para comprarmos queijo e biscoitos Nas cantinas secas dos germanos.
O Deus Augusto caminha no Céu,
O Fantasma Marcelo nada no Estige,1 Júlia estd morta efoi ter com ele -
É ofim das artimanhas de Júlia.
Mas as nossas Águias continuam perdidas E movidos pela vergonha e pelo desgosto Para o túmulo
do Deus Augusto
Traremos de volta cada ave perdida.
Havia outro que começava:
O germano Hermann perdeu a namorada E a sua canequinha de cerveja...
Mas não me lembro do fim e o verso não é importante, a não ser para me lembrar de falar da
namorada de Hermann. Ela era filha de um chefe chamado, em germano, Siegstoss ou qualquer
coisa parecida; mas o seu nome romano era Segestes. Tinha estado em Roma, tal como Hermann, e
alistara-se entre os cavaleiros, mas, ao contrário de Hermann, sentira-se moralmente ligado pelo
juramento de amizade que fizera a Augusto. Foi este Segestes que preveniu Varo quanto a Hermann
e Segímero e sugeriu que Varo os prendesse durante o banquete para o qual os convidara antes de
começar a sua desastrosa expedição. Segestes tinha uma filha preferida, que Hermann levara
consigo e desposara. Segestes nunca lhe perdoou tal injúria. Não podia, no entanto, sair abertamente
ao lado dos romanos contra Hermann, que era um herói
Nota: Do grego Styx, rio mitológico que conduzia as almas ao reino dos mortos. (N. do T.)
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nacional; tudo o que tinha podido fazer até ali era manter uma correspondência secreta com
Germânico, dando-lhe informações sobre movimentos militares e assegurando-lhe constantemente
que a sua lealdade a Roma continuava inalterável, aguardando apenas uma oportunidade para o
provar. Mas agora escreveu a Germânico que estava a ser cercado por Hermann na sua aldeia
fortificada, que aquele jurara não lhe dar quartel e que não poderia aguentar muito mais. Germânico
fez uma marcha forçada, derrotou os sitiantes, que não eram numerosos - o próprio Hermann estava
ausente, ferido - e libertou Segestes: foi quando descobriu que tinha um prêmio valioso à sua espera
- a mulher de Hermann, que estava de visita ao pai quando a disputa estalou entre eles e o marido e
que estava em adiantado estado de gravidez. Germânico tratou Segestes, bem como os membros da
sua casa, com toda a gentileza, dando-lhes uma propriedade do lado ocidental do Reno. Hermann,
que estava furioso com a captura da mulher, receava que a clemência de Germânico pudesse induzir
outros chefes germanos a fazer aberturas de paz. Construiu uma nova confederação de tribos,
tornando-a forte e incluindo algumas que até então tinham sido favoráveis a Roma. Germânico não
se deixou intimidar. Quantos mais germanos se mostrassem declaradamente contra ele, mais
satisfeito se sentia. Nunca confiara neles como aliados.
Antes de terminar o Verão, tinha-os derrotado numa série de batalhas, forçara Segímero a render-se
e recuperara a primeira das três Águias perdidas, a do décimo Nono Regimento. Visitou também o
local da derrota de Varo e deu aos ossos dos seus camaradas de armas um enterro decente,
colocando com as suas próprias mãos o primeiro punhado de terra no seu túmulo. O General, que se
comportara com tanta moleza por ocasião do motim, lutou com bravura à frente do seu
destacamento e, a dada altura, transformou aquilo que parecia uma derrota inevitável numa vitória
confirmada. Notícias prematuras de que a batalha estava perdida e que os conquistadores germanos
marchavam em direcção ao Reno causaram tal consternação na ponte mais próxima, que o capitão
da guarda deu ordens aos seus homens para que retirassem para o outro lado e depois a destruíssem:
o que teria significado abandonar à sua sorte todos os que estavam do outro lado. Mas Agripina
estava lá e contrariou a ordem. Disse aos homens que, agora, o capitão da guarda era ela, e
continuaria a sê-lo até que o marido regressasse para tomar dela o posto. Quando finalmente as
tropas vitoriosas regressaram, ela estava no seu posto para lhes dar as boas vindas. A sua
popularidade era agora quase comparável à do marido. Tinha organizado um hospital para os
feridos, à medida que Germânico os ia mandando de volta depois de cada batalha, e dera-lhes o
melhor tratamento médico possível. Normalmente, os soldados feridos ficavam junto das suas
unidades até morrerem ou se restabelecerem. O hospital foi pago por ela às suas próprias custas.
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Mas, entretanto, mencionei a morte de Júlia. Quando Tibério se tornou Imperador, o abastecimento
diário de comida fornecido a Júlia em Régio foi reduzido para quatro onças de pão por dia e uma
onça de queijo. Ela já sofria de tuberculose devido à insalubridade do seu alojamento e esta dieta de
fome não tardou a acabar com ela. Mas continuava a não haver notícias de Póstumo, e Lívia, até ter
a certeza de que ele tinha morrido, não conseguia ter sossego.
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CAPíTULO XVII
Tibério continuava a governar com moderação e consultava o Senado antes de tomar qualquer
medida da mais ínfima importância política. Mas o Senado votava havia tanto tempo segundo as
instruções que recebía, que parecia ter perdido o poder de decidir independentemente; e Tibério
nunca tornava claro em que sentido queria que eles votassem, mesmo quando estava ansioso por
que votassem de uma forma ou de outra. Desejava evitar qualquer aparência de tirania e, ao mesmo
tempo, manter a sua posição de chefe dos acontecimentos. O Senado, em breve descobriu que, se
ele falava com uma elegância estudada a favor de uma moção, isso queria dizer que desejava que
votassem contra ela; e se falasse com uma elegância estudada contra ela, era porque queria que a
moção passasse; e que, nas raras ocasiões em que falava sucintamente e sem qualquer retórica,
desejava ser tomado literalmente. Caio e um velho gracejador, chamado Hatério, costumavam
deleitar-se a fazer discursos em calorosa concordância com Tibério, desenvolvendo os seus
argumentos a um ponto que roçavam o absurdo e, depois, votando da maneira que ele realmente
queria que votassem, mostrando assim que compreendiam perfeitamente os seus truques. No debate
sobre a tomada de posse de Tibério, este Hatério tinha gritado:
- Oh, Tibério, por quanto tempo vais deixar que a infeliz Roma fique sem cabeça? - o que o
ofendera, porque ele sabia que Hatério via através dos seus desígnios. No dia seguinte, Hatério
continuou com a sua piada caindo aos pés de Tibério e pedindo-lhe perdão por não ter sido
suficientemente caloroso. Tibério recuou com repulsa, mas Hatério agarrou-o pelos joelhos e
Tibério caiu, batendo com a parte de trás da cabeça no chão de mármore. A guarda germana de
Tibério não entendeu o que se estava a passar e saltaram em frente para matar o atacante do seu
amo; Tibério conseguiu detê-los no último momento.
Hatério era um cómico excelente. Tinha uma voz potente, uma cara cómica e uma grande
fertilidade de invenção. Sempre que Tibério introduzia nos seus discursos alguma frase mais
rebuscada ou arcaica, Hatério pegava nela e tornava-a a chave da sua resposta (Augusto sempre
dissera que as rodas da eloquência de Hatério necessitavam de uma corrente que as travasse, mesmo
quando subia uma encosta). Tibério,
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com o seu espírito lento, não chegava para Hatério. O dom de Caio ia no sentido de um zelo
fingido. Tibério era extremamente cuidadoso em não parecer candidatar-se a quaisquer honras
divinas e recusava-se a permitir que falassem dele como tendo atributos sobre humanos: nem sequer
permitia aos representantes das províncias que lhe construíssem templos. Caio gostava portanto de
se referir a Tibério, como que por acidente, chamando-lhe Sua Sagrada Majestade. Quando Hatério,
que estava sempre pronto a levar por diante a brincadeira, se levantava para o repreender por esta
maneira incorrecta de falar, ele desculpava-se profusamente e afirmava que nada estava mais longe
do seu espírito do que fazer o que quer que fosse em desobediência às ordens de Sua Sagrada... oh,
Deuses, era tão fácil cair nessa maneira errada de falar, mais uma vez mil desculpas... o que ele
queria dizer era contrariamente aos desejos dos seu ilustre amigo e colega-senador Tibério Nero
César Augusto.
- Augusto não, idiota, - dizia Hatério, num sussurro de palco.
- Ele já recusou esse título dúzias de vezes. Só o utiliza quando escreve cartas a outros monarcas.
Tinham ainda um hábito que aborrecia Tibério mais do que qualquer outro. Se ele fazia alguma
demonstração de modéstia quando o Senado lhe prestava agradecimentos por ter executado algum
serviço de interesse nacional - tal como encarregar-se de completar os templos que Augusto deixara
inacabados -, eles elogiavam a sua honestidade em não aceitar os créditos pelo trabalho da mãe e
felicitavam Lívia por ter um filho tão cumpridor. Quando perceberam que não havia nada que
Tibério detestasse tanto como ouvir elogiar Lívia, não pararam mais de o fazer. Hatério sugeriu
mesmo que, tal como os gregos eram chamados pelo nome do pai, Tibério deveria ser chamado pelo
nome da mãe, e que seria um crime chamar-lhe outra coisa que não Tibério Livíades - ou talvez
Livigena fosse a forma latina mais correcta. Caio descobriu outro ponto fraco na armadura de
Tibério, designadamente a maneira como odiava qualquer referência à sua estada em Rodes. A
coisa mais ousada que ele fez foi elogiar Tibério um dia pela sua clemência - precisamente no dia
em que chegou à cidade a notícia da morte de Júlia - e contar a história do professor de retórica em
Rodes, que recusara o pedido modesto de Tibério para assistir às suas aulas, alegando que, de
momento não havia vagas, e dizendo-lhe que devia voltar daí a sete dias. Caio acrescentou:
- E o que pensais que Sua Sagrada... peço desculpa, o que eu devia dizer era, o que pensais que o
meu ilustre amigo e colega-senador Tibério Nero César fez quando da sua recente ascensão a
monarquia, quando o mesmo indivíduo impertinente chegou para apresentar os seus respeitos à
nova divindade? Será que lhe decepou a cabeça sem vergonha e a deu à sua guarda germana, para
com ela jogarem? De maneira nenhuma: com um espírito apenas igualado pela sua clemência,
disse-lhe que, de
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momento, não tinha vagas no seu corpo de bajuladores e que ele tinha que voltar dentro de sete
anos.
Creio que isto foi uma invenção, mas o senado não tinha razões para duvidar e aplaudiu-o tão
entusiasticamente que Tibério teve que deixar passar a história como verdadeira.
Um dia, Tibério conseguiu finalmente fazer calar Hatério, dizendo muito devagar:
- Peço-te que me desculpes, Hatério, se te falo com maior franqueza do que é habitual de um
senador para outro, mas tenho que dizer que te acho terrivelmente enfadonho e nada espirituoso. -
Depois, voltou-se para a Casa, - Peço que me desculpeis, meus senhores, mas sempre disse e hei-de
continuar a dizer que, visto que tivestes a gentileza de me investir de um tal poder absoluto, não
devo envergonhar-me de o usar para o bem comum. Usando-o agora para silenciar os bufões que
vos insultam, a vós e à minha pessoa, com as suas ridículas encenações, tenho confiança de que
conseguirei a vossa aprovação. Sempre haveis sido generosos e pacientes comigo. - Sem Hatério,
Caio ficava limitado a jogar sozinho.
Embora Tibério odiasse a mãe mais do que nunca, continuou a deixar que ela o dirigisse. Todas as
nomeações que fez para Cônsules ou governadores de província vinham realmente dela; e eram
muito sensatas, na medida em que todos os homens eram escolhidos por mérito, não por influência
familiar ou porque a tivessem lisonjeado ou lhe tivessem prestado algum serviço particular. Na
verdade, tenho que deixar bem claro, embora nem sempre o tenha feito, que, por mais criminosos
que tenham sido os meios usados por Lívia para chamar a si a direcção dos acontecimentos,
primeiro através de Augusto e depois através de Tibério, ela era sem dúvida uma governante
excepcionalmente capaz e justa, e só quando ela deixou de dirigir o sistema que construíra é que as
coisas deram para o torto.
lá falei de Sejano, o filho do Comandante da Guarda. Ele sucedera agora ao pai no comando e era
um dos únicos três homens com quem Tibério, de alguma forma, se abria, Trasílio era outro; tinha
vindo para Roma com Tibério e nunca perdera a sua influência sobre ele. O terceiro era um senador
chamado Nerva. Trasílio nunca discutia assuntos de estado com Tibério e nunca lhe pediu qualquer
posto oficial; e quando Tibério lhe dava grandes somas de dinheiro, aceitava-as com naturalidade,
como se o dinheiro fosse uma coisa com pouca importância para ele. Tinha um grande observatório
numa sala abobadada do Palácio, que dispunha de janelas de vidro tão límpidas e transparentes que
praticamente não se dava por elas. Tibério costumava passar uma boa parte do seu tempo ali com
Trasílo, que lhe ensinava os rudimentos da astrologia e muitas outras artes mágicas, incluindo a da
interpretação de sonhos ao estilo caldaico.
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Tibério parecia ter escolhido Sejano e Nerva pelas suas personalidades totalmente opostas. Nerva
nunca fazia um inimigo e nunca perdia um amigo. O seu único defeito, se é que se pode chamar
assim, era o de se manter silencioso na presença do mal quando a palavra não poderia remediá-lo.
Tinha um temperamento suave, generoso e dotado de coragem; era absolutamente verdadeiro e
nunca se lhe conheceu qualquer inclinação para a mais ligeira fraude, mesmo que isso prometesse
bons resultados. Se tivesse estado na posição de Germânico, por exemplo, nunca teria forjado
aquela carta, embora a sua própria segurança e a do Império dependessem dela. Tibério nomeou
Nerva superintendente dos aquedutos da Cidade e mantinha-o constantemente junto dele; suponho
que era uma forma de se prover a si próprio com um conveniente padrão de virtude - tal como
Sejano servia, sem dúvida, como um conveniente padrão de maldade. Quando jovem, Sejano fora
amigo de Caio, tendo servido sob as suas ordens no Leste e tendo sido suficientemente esperto para
prever que Tibério recuperaria a situação de favor; ele próprio contribuíra para isso, garantindo a
Caio que Tibério era sincero quando afirmava não ter qualquer ambição de governar e incitando-o a
escrever essa carta de recomendação a Augusto. Na altura, deu a conhecer a Tibério que fizera isso
e este escreveu-lhe uma carta, que ele ainda guarda, prometendo nunca esquecer os seus serviços.
Sejano era um mentiroso, mas era tão bom comandante das suas mentiras que sabia organizá-las
numa formação vigilante e disciplinada - este foi um comentário inteligente de Caio, não meu -, que
levaria sempre a melhor em qualquer recontro com desconfianças ou num embate geral com a
verdade. Tibério invejava-lhe este talento, tal como invejava a honestidade de Nerva; porque,
embora tivesse progredido bastante no sentido do mal, ainda se sentia constrangido por inúmeros
impulsos na direcção do bem.
Foi Sejano quem começou a envenenar-lhe o espírito contra Germânico, dizendo-lhe que um
homem que era capaz de forjar uma carta do pai, fossem quais fossem as circunstâncias, não
merecia confiança, e que Germânico tinha realmente em mira a monarquia mas agia com precaução
- conquistando primeiro a afeição dos homens através do suborno e certificando-se depois das suas
capacidades para a luta e da sua própria posição de chefia, através desta campanha desnecessária do
outro lado do Reno. Quanto a Agripina, Sejano disse que ela era uma mulher perigosamente
ambiciosa: bastava ver como se tinha comportado - fez-se a si própria capitão da ponte e deu as
boas vindas ao regimento no seu regresso, como se fosse sabem os Deuses quem! Que a ponte
estivesse em perigo de ser destruída, era provavelmente uma invenção sua. Sejano disse também
que sabia por um dos seus libertos, que em tempos fora escravo em casa de Germânico, que
Agripina, de alguma forma, estava convencida que Lívia e Tibério eram responsáveis pela morte
dos seus
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três irmãos e pelo exílio da irmã e jurara que se vingaria. Sejano começou também a descobrir toda
a espécie de conspirações contra Tibério e mantinha-o num receio constante de vir a ser
assassinado, ao mesmo tempo que lhe assegurava que não precisava ter o mais leve traço de
ansiedade, estando ele de guarda. Encorajava Tibério a contrariar Lívia em coisas insignificantes,
para lhe mostrar que ela sobrestimava a solidez da sua posição. Foi ele que, alguns anos mais tarde,
organizou a Guarda, transformando-a num corpo disciplinado. Até ali, os três batalhões
estacionados em Roma tinham estado aquartelados por secções em diferentes partes da cidade, em
estalagens e lugares semelhantes, e eram difíceis de reunir em parada com rapidez, mostrando
desleixo no vestuário e movimentos. Sugeriu a Tibério que se lhes construísse um único
acampamento permanente fora da Cidade: isso dar-lhes-ia um forte sentimento de união,
impedindo-os ao mesmo tempo de serem influenciados pelos boatos e ondas de sentimentos
políticos que atravessavam constantemente a Cidade e ligando-os mais estreitamente à pessoa de
Tibério, como seu Imperador. Tibério aperfeiçoou esta sugestão, chamando os seis batalhões
restantes dos pontos onde se encontravam estacionados em várias partes de Itália e fazendo o novo
acampamento suficientemente grande para os receber a todos 9.000 soldados de infantaria e 2.000
de cavalaria. Aparte os quatro batalhões da Cidade, um dos quais ele enviou para Lião, e várias
colónias de veteranos desmobilizados, estes eram os únicos soldados em Itália. A guarda germana
não contava como soldados, pois eram tecnicamente escravos. Mas eram homens escolhidos e mais
fanaticamente leais ao seu Imperador do que qualquer verdadeiro romano. Não havia nenhum de
entre eles que desejasse realmente regressar à sua terra fria, rude e bárbara, embora estivessem
sempre a cantar baladas tristes sobre ela; mas sentiam-se bem demais aqui.
Quanto aos processos criminais aos quais Tibério, por causa do receio de conspirações contra a sua
vida, estava agora extremamente ansioso por ter acesso, Lívia continuava a fingir que a chave do
código se tinha perdido. Tibério, por sugestão de Sejano, disse-lhe uma vez que eles não tinham
interesse para ninguém e que se encarregaria de os queimar. Ela respondeu que podia fazê-lo se
quisesse, mas não seria melhor guardálos para o caso da chave aparecer? Talvez até ela pudesse de
repente lembrar-se da chave.
- Muito bem, mãe, - replicou. - Até que isso aconteça, eu tomo conta deles; entretanto, vou passar
os meus serões a tentar descobrir a cifra sozinho.
Assim, levou-os para o seu quarto e fechou-os num armário. Tentou com todas as suas forças
encontrar a chave da cifra, mas em vão. A cifra comum estava escrita de forma simples: E latino
para Alpha grego, latino para beta grego, G para Gama, H para Delta e assim por diante.
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A chave da cifra superior era praticamente impossível de descobrir. Estava contida nas primeiras
cem linhas do primeiro livro da Ilíada, que tinham que ser lidas simultaneamente com a escrita da
cifra, em que cada letra que se escrevia era representada pelo número de letras do alfabeto situadas
entre ela e a letra correspondente em Homero. Assim, a primeira letra da primeira palavra da
primeira linha do primeiro livro da Ilíada é
Mu; supondo que a primeira letra da primeira palavra de uma anotação no processo é Upsilon, e que
há sete letras no alfabeto grego entre Mu e Upsilon, portanto, Upsilon seria escrito como 7. Neste
plano, o alfabeto seria considerado circular: Omega, a última letra, precedia Alfa, a primeira, de
forma que a distância entre Upsilon e Alfa seria 4, mas a distância entre Alfa e Upsilon seria 18. Foi
uma invenção de Augusto e deve ter levado bastante tempo a escrever e a descodificar, mas creio
que, com a prática, acabaram por conhecer a distância entre duas letras quaisquer do alfabeto sem
terem que contar, o que era uma grande economia de tempo. E como é que eu sei tudo isto? Porque
muitos, muitos anos mais tarde, quando os processos me chegaram às mãos, eu próprio
descodifiquei a cifra. Encontrei por acaso um rolo do primeiro livro de Homero, escrito numa pele
de carneiro e guardado no meio dos outros rolos. Era evidente que só as primeiras cem linhas
tinham sido estudadas, porque a pele de carneiro estava muito suja e marcada com tinta no princípio
e perfeitamente limpa no fim. Quando olhei com mais atenção e vi algarismos minúsculos 6, 23, 12
- numa escrita fina por baixo das letras da primeira linha, não foi difícil relacioná-los com a cifra.
Fiquei surpreendido por Tibério ter ignorado esta pista.
Falando do alfabeto, eu estava interessado nesta altura num plano simples para tornar o latim
verdadeiramente fonético. Parecia-me que faltavam três letras. Estas três eram: o U consoante
(distinto do U vogal); uma letra que correspondesse ao Upsilon grego (que é uma vogal entre o
1 e o U latinos), para ser usado em palavras gregas que foram latinizadas; e uma letra que
simbolizasse a consoante dupla que agora escrevemos em latim como BS, mas que pronunciamos
como o grego Psi. Era importante, escrevi, para as províncias que aprendiam o latim, aprendê-lo
correctamente; se as letras não correspondessem ao som, como poderiam evitar erros de pronúncia?
Por isso, sugeri para o U consoante o F invertido (que é usado para esse fim em etrusco): assim,
LAFINIA em vez de LAUINIA; e um H quebrado para o Upsilon grego: assim BHBLIOTHECA
em vez de BIBLIOTHECA; e um C invertido para BS: assim ACQUE para ABSQUE. A última
letra não era assim tão importante, mas as outras duas pareciam-me essenciais. Sugeri o H quebrado
e o F e o C invertidos, porque essa seria a maneira de causar menos incómodo aos indivíduos que
usam os moldes das letra para metal ou argila: não teriam que fazer moldes novos. Publiquei o livro
e uma ou duas pessoas disseram que a
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minha sugestão era sensata; mas claro que isso não deu qualquer resultado. A minha mãe disse-me
que havia três coisas impossíveis no mundo: que as lojas se pudessem estender atravessando a baía
de Baiae para Puteoli, que eu dominasse a ilha da Grã-Bretanha e que qualquer uma destas novas
letras absurdas aparecesse alguma vez em inscrições públicas em Roma. Nunca esqueci este
comentário dela, pois teve uma sequência.
A minha mãe andava muito irritadiça comigo nos últimos tempos, porque a reconstrução da nossa
casa estava demorada, porque a mobília nova que eu comprei não era igual à antiga e porque os
seus rendimentos tinham sofrido uma redução significativa por causa da sua participação nestas
despesas - eu não teria conseguido arranjar todo o dinheiro sozinho. Vivemos dois anos nuns
aposentos do Palácio (que não eram muito bons) e ela descarregou a sua irritação sobre mim com
uma tal constância que, por fim, eu já não podia suportá-la mais e saí de Roma para ir viver na
minha villa perto de Cápua, limitando-me a visitar a cidade quando as minhas funções sacerdotais o
exigiam, o que não acontecia muitas vezes. Deveis interrogar-vos sobre Urgulanila. Ela nunca foi a
Cápua; em Roma, tínhamos pouco em comum. Ela mal me saudava quando nos encontrávamos e
não me dava qualquer atenção, excepto quando havia visitas, para salvar as aparências; e
dormíamos sempre separados. Ela parecia gostar bastante do nosso filho, Drusilo, mas, na prática,
não fazia grande coisa por ele. A sua educação era deixada à minha mãe, que governava a casa e
nunca pedia qualquer ajuda a Urgulanila. A minha mãe tratava Drusilo como se fosse seu próprio
filho e, de alguma forma, conseguia esquecer quem eram os pais dele. Eu próprio nunca aprendi a
gostar de Drusilo; era uma criança mal-humorada, pouco viva e insolente e a minha mãe repreendia-
me com tanta frequência na sua presença que ele aprendeu a não sentir qualquer respeito por mim.
Não sei como é que Urgulanila passava os dias. Mas nunca parecia entediada, comia imenso e, tanto
quanto sei, não tinha amantes secretos. No entanto, esta estranha criatura tinha uma paixão -
Numantina, a mulher do meu cunhado Silvano, uma criaturinha minúscula, loura, semelhante a um
elfo, que um dia fizera ou dissera qualquer coisa (não sei o quê) que atravessara aquela pele grossa
e o corpo volumoso e musculado e tocara aquilo que servia de coração a Urgulanila. Urgulanila
tinha na sua sala de estar um retrato de Numantina em tamanho natural. Acho que costumava ficar
sentada a contemplá-lo durante horas sempre que não tinha a oportunidade de contemplar a própria
Numantina. Quando me mudei para Cápua, Urgulanila ficou em Roma com a minha mãe e Drusilo.
O único inconveniente de Cápua como local de residência, era a ausência de uma boa biblioteca. No
entanto, comecei um livro para o
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qual não precisava de biblioteca - uma história da Etrúria. Entretanto, fizera grandes progressos em
Etrusco; Aruns, com quem passava algumas horas todos os dias, foi muito prestável, facultando-me
o acesso aos arquivos do seu templo meio arruinado. Dísse-me que tinha nascido no dia em que
apareceu o cometa que anunciara o começo do décimo e último ciclo da raça etrusca. Um ciclo é
um período calculado pela vida mais longa: quer dizer, não se encerra até à morte de todos os que
estavam vivos na altura do festival que celebrou o encerramento do ciclo anterior. Os etruscos
calculavam-no em 110 anos. O ciclo actual, segundo os etruscos, corresponderia ao último dos
ciclos, prevendo eles que terminaria com o desaparecimento total do etrusco como língua falada. A
profecia estava praticamente realizada, porque ele não tinha sucessores no seu ofício sacerdotal e
porque, agora, as pessoas da região falavam latim mesmo nas suas casas; por isso ele se sentia feliz
em me ajudar a escrever a minha história, dizia, como um mausoléu para as tradições de uma raça
outrora grandiosa. Comecei-a no segundo ano do reinado de Tibério e terminei-a vinte e um anos
mais tarde. Considero-a o meu melhor trabalho: certamente, foi aquele em que trabalhei mais
arduamente. Tanto quanto sei, não há nenhum outro livro sobre os etruscos e eles foram na
realidade uma raça muito interessante. Acho que os historiadores do futuro me ficarão gratos.
Tinha Calon e Palas comigo e vivia uma vida regrada e tranquila. Interessei-me pelo terreno
agrícola ligado à villa e saboreei as visitas ocasionais de amigos de Roma, que vinham passar umas
férias. Havia uma mulher que vivia permanentemente comigo: chamava-se Actê, era prostituta
profissional e uma mulher muito decente. Nunca tive qualquer aborrecimento com ela nos quinze
anos que esteve comigo. A nossa relação era estritamente de negócios. Ela escolhera
deliberadamente a profissão de prostituta e eu pagava-lhe bem; era uma pessoa absolutamente
razoável. De certa forma, gostávamos bastante um do outro. Finalmente, ela disse-me que desejava
reformar-se, com aquilo que já ganhara. Havia de se casar com um homem decente, de preferência
um velho soldado, instalar-se numa das colónias e ter filhos, antes que fosse tarde demais. Ela
sempre quisera ter uma casa cheia de filhos. Beijei-a, disse-lhe adeus e dei-lhe um dote suficiente
para lhe tornar a vida bem fácil. No entanto, ela não se foi embora enquanto não arranjou uma
sucessora em quem pudesse confiar para tratar de mim como devia ser. Arranjou-me Calpúrnia, que
era tão parecida com ela que muitas vezes pensei que devia ser sua filha. Actê mencionou uma vez
que tinha tido uma filha que entregara a uma ama, porque não se podia ser ao mesmo tempo
prostituta e mãe. Bom, Actê casou com um ex-soldado da Guarda que a tratava muito bem e teve
cinco filhos com ela. Sempre acompanhei a vida daquela família. Falei nela apenas porque os meus
leitores deviam
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interrogar-se sobre o tipo de vida sexual que eu levava quando separado de Urgulanila. Não creio
que seja natural para um homem normal viver muito tempo sem uma mulher e, uma vez que
Urgulanila era impossível como esposa, não creio que me possam levar a mal ter vivido com Actê.
Ela e eu tínhamos um tal entendimento que, enquanto estivéssemos juntos, nenhum de nós teria
nada com mais ninguém. Isto não era sentimento, mas uma precaução médica: havia um grande
surto de doenças venéreas em Roma - a propósito, esse foi mais um dos legados fatais das Guerras
Púnicas.
Quero deixar aqui registado que nunca, em qualquer altura da minha vida, tive práticas
homossexuais. Não me sirvo do argumento de Augusto, de que isso impede os homens de terem
filhos para apoiar o Estado, mas sempre pensei que era ao mesmo tempo patético e repulsivo ver um
homem adulto, um magistrado talvez, com uma família, a babar-se de luxúria para cima de um
rapazinho gorducho com a cara pintada e cheio de pulseiras; ou um antigo senador a fazer de
Rainha Vénus diante de um jovem Adónis alto da cavalaria da Guarda, que tolera o velho tolo
apenas porque ele tem dinheiro.
Quando tive que ir a Roma, fiquei lá o menos tempo possível. Sentia qualquer coisa de
desagradável no ar no Monte Palatino, que pode muito bem ter sido a tensão crescente entre Tibério
e Lívia.
Tibério tinha começado a construir um imenso palácio para ele a noroeste da colina e agora mudara-
se para o piso inferior antes da parte de cima estar terminada, deixando-a a ela sozinha de posse do
palácio de Augusto. Lívia, como que para mostrar que a nova construção de Tibério, embora três
vezes maior, nunca teria o prestígio da antiga, colocou uma magnífica estátua de Augusto em ouro
na sua entrada e propos, como Sacerdotisa Suprema do seu culto, convidar todos os senadores e
suas esposas para o banquete inaugural. Mas Tibério fez-lhe notar que, primeiro, ele teria que pedir
ao Senado que votasse sobre isso: era uma ocasião de Estado, não um entretenimento privado.
Conduziu assim o debate de que o banquete tivesse lugar simultaneamente em duas partes: os
senadores na entrada, com ele como anfitrião; as esposas numa grande sala adjacente, com Lívia
como anfitriã. Ela engoliu o insulto não o tratando como tal, mas apenas como se de uma disposição
sensata se tratasse, mais de acordo com o que o próprio Augusto desejaria; mas deu ordens aos
cozinheiros do Palácio para que as mulheres fossem servidas primeiro, com as melhores peças de
carne, doces e vinho. Também reservou os pratos e taças mais valiosos para a sua festa. Levou-o à
certa nessa ocasião e todas as mulheres dos senadores riram bastante à custa de Tibério e dos
maridos.
Outro aspecto desagradável das vindas a Roma era que nunca conseguia deixar de me encontrar
com Sejano. Desagradava-me ter que lidar
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199

com ele, embora fosse sempre deliberadamente delicado comigo e nunca me dirigisse qualquer
injúria directa. Espantava-me que um homem com uma cara e uns modos como os dele, e que não
era nem bem nascido nem um lutador afamado ou mesmo especialmente rico, tivesse conseguido
um tal sucesso na Cidade: ele era agora o homem mais importante a seguir a Tibério, sendo
extremamente popular junto da Guarda. Tinha uma cara que não inspirava a mínima confiança -
dissimulado, cruel e de feições irregulares - e aquilo que lhe dava alguma unidade era uma certa
força e resolução animal. O que me parecia ainda mais estranho era dizer-se que algumas mulheres
de boas famílias rivalizavam pelo seu amor. Ele e Castor não se entendiam bem, o que era natural,
pois havia rumores de que Livila e Sejano tinham uma espécie de entendimento. Mas Tibério
parecia confiar totalmente nele.
Mencionei Briseis, a velha liberta de minha mãe. Quando lhe disse que ia deixar Roma e instalar-
me em Cápua, ela disse que sentiria muito a minha falta, mas que eu fazia bem em ir.
- Tive um sonho estranho a vosso respeito a noite passada, menino Cláudio, se me perdoais. Éreis
um rapazinho coxo e os ladrões entraram-lhe em casa e mataram-lhe o pai e muitos parentes e
amigos; mas ele conseguiu escapar-se pela janela da dispensa e foi a coxear para o bosque vizinho.
Trepou a uma árvore e esperou. Os ladrões saíram da casa e sentaram-se debaixo da árvore onde ele
estava escondido, para dividirem o roubo. Em breve, começaram a discutir sobre quem devia ter o
quê e um dos ladrões foi morto e depois mais dois; então, os restantes começaram a beber vinho e a
fingir que eram grandes amigos; mas o vinho tinha sido envenenado por um dos ladrões mortos e
todos morreram em grande agonia. O rapaz coxo desceu da árvore e apanhou as coisas roubadas,
encontrando também no meio delas muito ouro e jóias que tinham sido roubados a outras famílias;
mas levou tudo para casa com ele e ficou muito rico,
Eu sorri.
- Esse é um sonho estranho, Briseis. Mas ele continuou tão coxo como sempre e toda essa riqueza
não conseguiu restituir a vida ao pai e à restante família, pois não?
- Não, meu querido menino, mas talvez ele tenha casado e arranjado uma família. Portanto escolhei
uma boa árvore e não desçais dela enquanto o último dos ladrões não estiver morto. Era isso que o
meu sonho queria dizer.
- Se eu puder evitar, nem nessa altura desço da árvore. Não quero ser o consignatário de artigos
roubados.
- Podeis sempre devolvê-los, menino Cláudio.
Tudo isto foi bastante notável à luz do que aconteceu posteriormente. Não tenho grande fé nos
sonhos. Certa vez, Atenodoro sonhou que havia
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um tesouro na toca de um texugo, num bosque perto de Roma. Encontrou o caminho para o local
preciso, que ele nunca visitara antes, e ali, num declive, estava a abertura que conduzia à toca.
Chamou alguns camponeses para escavar o declive até alcançarem a toca ao fundo do buraco, onde
encontraram uma velha bolsa apodrecida contendo seis moedas de cobre bolorentas e uma moeda
falsa, o que nem chegou para pagar aos camponeses pelo trabalho que tinham feito. E um dos meus
inquilinos, um comerciante, sonhou uma vez que um bando de águias voava em volta da sua cabeça
e uma lhe pousava no ombro. Tomou isso como um sinal de que um dia havia de ser Imperador,
mas tudo o que aconteceu foi que um piquete da Guarda o visitou na manhã seguinte (eles tinham
águias nos escudos) e o cabo o prendeu por uma transgressão que o colocou sob jurisdição militar.
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CAPíTULO XVIII
Numa tarde de Verão em Cápua, eu estava sentado num banco de pedra atrás dos estábulos da
minha villa, pensando em qualquer problema da história etrusca e lançando os dados ociosamente,
da mão esquerda para a direita, sobre a rude mesa de madeira que tinha diante de mim. Um homem
andrajosamente vestido aproximou-se e perguntou se eu era Tibério Cláudio Druso Nero
Germânico: em Roma, tinham-no dirigido para ali, disse.
- Tenho uma mensagem para vós, senhor. Não sei se vale a pena entregá-la, mas eu sou um velho
soldado vagabundo, um dos veteranos de vosso pai, senhor e vós sabeis como é; fico contente por
ter uma desculpa para tomar um caminho e não outro.
- Quem te deu a mensagem?
- Um indivíduo que encontrei nos bosques, perto do Cabo Cosa. Um indivíduo curioso. Estava
vestido como um escravo, mas falava como um César. Um indivíduo grande e forte que parecia
meio morto de fome.
- Que nome é que ele deu?
-Não deu nome nenhum. Disse que vós saberíeis quem ele era pela mensagem e que ficaríeis
surpreendido por ter notícias suas. Fez-me repetir a mensagem duas vezes para ter a certeza de que
eu a tinha percebido bem. O que eu tinha que dizer é que ele continua a pescar, mas que um homem
não podia viver exclusivamente de peixe e que vós devíeis passar a palavra ao cunhado e que, se o
leite foi enviado, nunca lhe chegou às mãos; e que gostava de ter um livrito para ler, com sete
páginas pelo menos. E que vós não devíeis fazer nada até voltar a ter notícias dele. Isso faz sentido,
senhor, ou seria que o homem estava maluco?
Enquanto ele dizia aquilo, eu nem podia acreditar no que ouvia. Póstumo! Mas Póstumo estava
morto.
- Ele tem o queixo largo, olhos azuis e uma maneira de inclinar a cabeça para um lado quando faz
alguma pergunta?
- É isso mesmo, senhor.
Servi-lhe uma bebida, com a mão a tremer de tal forma que entornei metade. Depois, fazendo-lhe
sinal para que esperasse ali por mim, entrei em casa. Arranjei duas boas túnicas simples e alguma
roupa interior, umas sandálias, um par de navalhas de barbear e sabão. Depois, peguei no
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primeiro livro de folhas cosidas que me veio à mão - calhou ser uma cópia de alguns discursos
recentes de Tibério ao Senado - e, na sétima página, escrevi com leite: Que alegria! Vou escrever
imediatamente a G. Tem cuidado, Manda buscar tudo o que precisares. Onde posso ver-te? Envio-
te os meus mais afectuosos sentimentos. Aqui vão vinte moedas de ouro, tudo o que tenho de
momento, mas as ofertas rápidas são ofertas dobradas, espero.
Aguardei que a página secasse e, depois, dei ao homem uma trouxa com o livro e as roupas e uma
bolsa com as moedas. Disse-lhe:
- Toma estas trinta moedas de ouro. Dez são para ti. Vinte são para o homem dos bosques. Traz-me
de volta uma mensagem dele e receberás mais dez. Mas fica de boca calada e volta depressa.
- Está bem, senhor, - disse. - Não vos vou deixar ficar mal. Mas o que é que me impede de
desaparecer com esta trouxa e o dinheiro todo? Respondi:
- Se fosses um homem desonesto, não fazias essa pergunta. Portanto, vamos lá tomar mais uma
bebida juntos e depois faz-te ao caminho. Resumindo, ele foi-se embora com a trouxa e o dinheiro
e, alguns dias mais tarde, trouxe-me de volta uma resposta verbal de Póstumo, pela qual agradecia o
dinheiro e a roupa, dizendo também que eu não deveria procurá-lo, que a mãe do Crocodilo saberia
onde ele estava, que o seu nome agora era Pantero e pedindo que lhe mandasse a resposta do
cunhado logo que possível. Paguei ao velho soldado as dez moedas que lhe prometera e mais dez
pela sua lealdade. Compreendi a quem Póstumo se referia ao falar na mãe do Crocodilo. O
Crocodilo era um velho liberto de Agripa, a quem tratávamos assim por causa da sua inércia e
voracidade e por ter umas mandíbulas enormes. Tinha a mãe a viver em Perúsia, onde mantinha
uma estalagem. Eu conhecia bem esse lugar. Enviei imediatamente uma carta a Germânico para lhe
contar a novidade; enviei-a para Roma por Palas, dizendo-lhe que a fizesse seguir com o primeiro
correio para a Germânia. Na carta, dizia simplesmente que Póstumo estava vivo e escondido - não
dizia onde - e pedia a Germânico que acusasse de imediato a recepção da carta. Depois, esperei e
tornei a esperar uma resposta, mas não obtive nenhuma. Escrevi de novo, de forma um tanto mais
detalhada; mas continuei a não ter resposta. Enviei uma mensagem à mãe do Crocodilo por um
carreteiro do campo, informando que ainda não tinha chegado nenhuma mensagem para o Pantero
da parte do cunhado.
Não voltei a receber notícias de Póstumo. Ele não desejava comprometer-me mais e, agora que
tinha dinheiro e podia andar de um lado para o outro sem ser preso por suspeita de se tratar de
algum escravo fujão, já não dependia da minha ajuda. Alguém na estalagem o reconheceu e ele teve
que sair de lá por uma questão de segurança. Em breve, o rumor de que ele estava vivo se espalhou
por toda a Itália. Em Roma, toda a
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gente falava nisso. Uma dúzia de pessoas, incluindo três senadores, deixaram a Cidade para me vir
procurar e perguntar-me em privado se era verdade. Disse-lhes que não o tinha visto, mas que tinha
conhecido alguém que o vira e que não havia qualquer dúvida que se tratava de Póstumo. Na volta,
perguntei-lhes o que tencionavam fazer se ele aparecesse em Roma e ganhasse o apoio da populaça.
Mas a franqueza da minha pergunta embaraçou-os e magoou-os, não tendo obtido resposta.
Dizia-se que Póstumo tinha visitado várias cidades nas vizinhanças de Roma, mas, aparentemente,
ele tomava a precaução de não entrar nelas antes do cair da noite e de sair sempre, disfarçado, antes
do nascer do dia. Nunca era visto em público, mas alojava-se numa estalagem qualquer e deixava
para trás uma mensagem de agradecimento pela amabilidade que lhe tinham mostrado - assinada
com o seu nome verdadeiro. Finalmente, um dia, desembarcou em óstia de uma pequena
embarcação costeira. O porto sabia, algumas horas antes, que ele vinha, tendo recebido uma
tremenda ovação no cais assim que pôs os pés em terra. Escolheu desembarcar em óstia porque era
o quartel de Verão da Frota, da qual seu pai Agripa tinha sido Almirante. O seu navio arvorava um
galhardete verde que Augusto dera a Agripa o direito de usar sempre que estava no mar (e aos seus
filhos depois dele), em memória da sua vitória marítima em frente de Áccio. A memória de Agripa
era respeitada em óstia quase mais ainda que a de Augusto.
Por causa da sua reaparição pública em Itália, Póstumo encontrava-se em grande perigo de vida,
estando ainda sob sentença de exílio e, portanto, fora-da-lei. Fez um breve discurso de
agradecimento à multidão pelas boas vindas. Disse que, se a Fortuna fosse generosa para com ele e
se recuperasse a estima do Senado e do povo de Roma, que tinha perdido por causa de certas
acusações mentirosas que os seus inimigos tinham feito contra ele - acusações que o avô, o Deus
Augusto, compreendera demasiado tarde que não eram verdadeiras -, recompensaria os homens e
mulheres de óstia e sem qualquer mesquinhês. Uma companhia de Guardas estava presente com
ordens para o prender, pois, de alguma forma, Lívia e Tibério também tinham sabido da notícia.
Mas os homens não teriam tido qualquer hipótese contra aquela multidão de marinheiros.
Sensatamente, o capitão não fez qualquer tentativa para cumprir a sua missão; ordenou a dois
homens que se vestissem de marinheiros e não perdessem Póstumo de vista. Mas quando acabaram
de mudar de roupa, já ele tinha desaparecido e não conseguiram encontrar-lhe o rasto.
No dia seguinte, Roma estava cheia de marinheiros que faziam piquete nas ruas principais: sempre
que encontravam um cavaleiro, um senador ou um funcionário público, perguntavam-lhe a senha. A
senha era Neptuno e, se ele não a soubesse já, diziam-lha e faziam-no repeti-la três vezes, se não
quisesse levar uma tareia. Ninguém queria uma tareia
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e os sentimentos populares estavam de tal forma imbuídos de simpatia por Póstumo e contra Tibério
e Lívia que, se tivesse chegado uma simples palavra favorável de Germânico, a Cidade inteira,
incluindo a Guarda e os batalhões da Cidade, teriam passado imediatamente para o lado dele. Mas,
sem o apoio de Germânico, qualquer movimentação a favor de Póstumo teria significado uma
guerra civil; e ninguém tinha muita confiança nas hipóteses de Póstumo, se chegasse a haver uma
luta com Germânico.
Nesta crise, o mesmo Crispo que tinha antagonizado Tibério dois anos antes, dando a morte a
Clement na ilha (mas tinha sido perdoado), veio oferecer-se para redimir a sua falta, não errando
desta vez em relação a Póstumo. Tibério deu-lhe pulso livre. Ele descobriu de alguma forma onde
era o quartel general de Póstumo e, indo procurá-lo com uma avultada soma em dinheiro que disse
ser para o pagamento dos seus marinheiros, que já tinham perdido dois dias de trabalho por causa
dos piquetes, tratou de levar a guarda pessoal germânica para junto de Póstumo logo que deu o
sinal. já lhes tinha pago, disse, avultados subornos. Póstumo acreditou nele. Combinaram um
encontro para duas horas depois da meia-noite, à esquina de uma certa rua onde os marinheiros de
Póstumo também se deviam reunir em força. Depois, marchariam para o Palácio de Tibério. Crispo
daria ordens à guarda para que deixassem entrar Póstumo. Tibério, Castor e Lívia seriam presos e
Crispo disse que Sejano, embora não participasse activamente da conspiração, se tinha encarregado
de trazer a Guarda para apoiar o novo regime logo que o primeiro golpe tivesse sido desferido com
êxito: com a condição de manter o comando.
Os marinheiros compareceram pontualmente ao encontro, mas Póstumo não apareceu. A essa hora,
não havia nenhum cidadão nas ruas; por isso quando uma força combinada de Germanos da guarda
pessoal e homens escolhidos por Sejano caíram de repente sobre os marinheiros
- que estavam na sua maioria embriagados e não mantinham qualquer espécie de formação regular -
a senha Neptuno perdeu o seu poder. Muitos deles foram mortos ali mesmo, um número ainda
maior morreu ao tentar fugir e os restantes, diz-se, não pararam enquanto não chegaram de novo a
Ostia. Crispo e mais dois soldados tinham armado uma cilada a Póstumo numa ruela estreita entre o
seu quartel general e o ponto de encontro, atordoaram-no com um saco de areia, amordaçaram-no e
amarraram-no, puseram-no numa liteira coberta e transportaram-no até ao Palácio. No dia seguinte,
Tibério fez uma declaração ao Senado. Um certo escravo de Póstumo Agripa, chamado Clement,
disse, tinha causado um forte e desnecessário alarme na Cidade, fazendo-se passar pelo seu falecido
amo. Aquele indivíduo ousado tinha fugido ao cavaleiro da província que o comprara quando o
espólio de Póstumo foi vendido e
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tinha-se escondido num bosque na costa da Toscana até a barba lhe crescer o suficiente para
esconder o queixo recuado - ponto principal da dissemelhança entre ele e Póstumo. Alguns
marinheiros turbulentos em óstia tinham fingido acreditar nele, mas apenas como uma desculpa
para marcharem até Roma e lá criarem desordem. Tinham-se reunido nos subúrbios nessa manhã
um pouco antes da alvorada, comandados por ele com o objectivo de marcharem até ao centro da
Cidade e saquearem lojas e casas particulares. Quando se defrontaram com um destacamento de
Vigilantes tinham dispersado e desertado do seu chefe, que acabara por ser executado: portanto, a
Casa não precisava albergar qualquer ansiedade quanto a esse assunto.
Ouvi contar mais tarde que Tibério fingira não reconhecer Póstumo quando este foi levado perante
ele no Palácio e lhe perguntou em ar de troça: ”Como foi que conseguiste tornar-te um dos
Césares?” Ao que Póstumo respondeu: ”Da mesma maneira e no mesmo dia que tu. já te
esqueceste?” Tibério mandou um escravo bater na boca de Póstumo por causa da sua insolência e,
de seguida, foi posto na roda e convidado a revelar os nomes dos outros conspiradores. Mas ele
limitava-se a contar anedotas escandalosas sobre a vida privada de Tibério, que eram tão repelentes
e tão circunstanciais que este perdeu o controlo e lhe amassou a cara com os enormes punhos
ossudos. Os soldados acabaram a tarefa sangrenta, decapitando-o e cortando-o em pedaços nas
caves do Palácio.
Que maior desgosto pode haver do que carpir um amigo estimado por ter sido morto - no final de
um longo e imerecido exílio - e depois, a seguir à alegria breve e espantosa, de ouvir que ele de
alguma forma ludibriou os seus executores, ter que o carpir pela segunda vez - agora sem esperança
de erro e sem mesmo o ter visto no intervalo - por ter sido traiçoeiramente recapturado e
vergonhosamente torturado e morto? A minha única consolação era que, quando Germânico
soubesse do que se tinha passado - e eu iria escrever-lhe imediatamente a contar tudo o que sabia
daquela história -, ele deixaria as suas campanhas na Germânia e marcharia de volta a Roma à
frente de todos os regimentos que pudessem ser dispensados do Reno, para vingar a morte de
Póstumo em Lívia e Tibério. Escrevi, mas ele não respondeu; voltei a escrever e continuei a não
obter resposta. Mas finalmente veio uma carta longa e afectuosa, na qual havia uma referência
perplexa ao êxito que Clement tivera ao fazer-se passar por Póstumo - como é que ele tinha
conseguido uma coisa dessas? Esta frase deixava bem claro que nenhuma das minhas importantes
cartas tinha chegado: a única a chegar tinha sido enviada pelo mesmo correio que a segunda. Nesta,
eu dera-lhe apenas detalhes de um assunto de negócios que ele me pedira para tratar em seu nome:
agora, agradecia-me a informação, dizendo ser exactamente aquilo que
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ele queria. Compreendi com um sentimento de medo súbito que Lívia ou Tibério deviam ter
interceptado todas as outras cartas.
A minha digestão sempre tinha sido má e o receio do veneno em cada prato nada fez para a
melhorar. Voltei a gaguejar e a ter ataques de afasia
- brancas repentinas no espírito que me expunham ao ridículo: se me apanhavam no meio de uma
frase, acabava-a de qualquer forma. O resultado mais lamentável desta fraqueza foi ter baralhado os
meus deveres como sacerdote de Augusto, função que até ali tinha desempenhado sem dar razões
para que ninguém se queixasse. Há um costume antigo em Roma que, se algum erro é praticado no
ritual de um sacrifício ou de outro serviço, todo o processo tem que ser repetido desde o princípio.
Agora, acontecía-me frequentemente, quando estava oficiando, perder-me no meio de uma oração
ou repetir a mesma sequência de frases duas ou três vezes, antes de me aperceber do que estava a
fazer; ou então pegava na faca de pederneira para cortar o pescoço da vítima, antes de lhe polvilhar
a cabeça com a farinha e o sal rituais - e esta espécie de coisa significava voltar de novo ao
princípio. Era entediante fazer três ou quatro tentativas para levar por diante um serviço antes de
conseguir executá-lo com perfeição e a congregação costumava impacientar-se. Finalmente, escrevi
a Tibério como Sumo Pontífice e pedi-lhe que me liberasse por um ano de todas as minhas
obrigações religiosas, alegando falta de saúde. Ele concedeu-me o pedido sem comentários.
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CAPÍTULO XIX
O terceiro ano da guerra de Germânico contra os germanos foi ainda mais cheio de êxito que os
dois primeiros. Ele tinha concebido um novo plano de campanha, através do qual apanharia os
germanos de surpresa e pouparia os seus homens a longas marchas perigosas e cansativas. Este
plano consistia em construir no Reno uma frota com perto de mil transportes, embarcar com a
maior parte das suas tropas e navegar rio abaixo, pelo canal que o nosso pai em tempos abrira,
através dos lagos holandeses, seguindo depois por mar até à foz do Ems. Aqui, ele tencionava
ancorar os seus transportes na margem mais próxima, à excepção de alguns poucos que serviriam
para construir um pontão. Então, atacaria as tribos do outro lado do Véser, um rio que se podia
passar a vau nalguns sítios e que corre paralelo ao Ems, cinquenta milhas para lá. O plano resultou
em todos os detalhes.
Quando a guarda-avançada chegou ao Véser, encontraram Hermann e alguns chefes aliados
aguardando na outra margem. Hermann gritou para o outro lado para perguntar se Germânico
estava no comando. Quando lhe responderam que sim, ele perguntou se lhe entregavam uma
mensagem, A mensagem era: ”Corteses saudações de Hermann a Germânico”; perguntava também
se lhe seria permitido chegar à fala com o irmão. Este chamava-se, em germano, qualquer coisa
como Goldkopf, ou, de qualquer forma, um nome tão bárbaro que era de tradução impossível para
latim - tal como Hermann tinha sido transformado em Arminius ou Siegmyrgth em Segímero, o
dele foi traduzido como Flávio, o que significa com a cabeça dourada. Flávio estava há anos no
Exército Romano e, como se encontrava em Lião na altura do desastre de Varo, fizera aí uma
declaração da sua lealdade continuada para com Roma, repudiando todos os laços de família que o
ligavam ao irmão traidor Hermann. Na campanha de Tibério e Germânico, no ano seguinte, ele
tinha lutado corajosamente e perdido um olho.
Germânico perguntou a Flávio se desejava dirigir-se ao irmão. Flávio disse que não estava muito
interessado, mas que poderia tratar-se de uma proposta de rendição. Assim, os dois irmãos
começaram a gritar um para o outro de lados opostos do rio. Hermann começou a falar em germano,
mas Flávio disse que, a menos que ele falasse em latim, a conversa
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terminava ali. Hermann não queria falar latim, que os outros chefes não entendiam, com receio que
pensassem que ele era um traidor e Flávio não queria ser considerado traidor pelos romanos, que
não compreendiam o germano. Por outro lado, Hermann queria causar uma impressão sobre os
romanos e Flávio sobre os germanos. Hermann tentou continuar com o germano e Flávio com o
latim, mas, à medida que a discussão se tornava mais acalorada, caíram numa mistura de tal
maneira horrível de ambas as línguas que, tal como Germânico me escreveu, ouvi-los, era tão bom
como assistir a uma comédia. Cito o relato do diálogo, tal como foi feito por Germânico:
Hermann - Olá, irmão. O que aconteceu à tua cara? Essa cicatriz é uma deformidade horrível.
Perdeste um olho?
Flávio - Sim, irmão. Por acaso apanhaste algum? Perdi-o naquele dia em que fugiste do bosque a
galope, com o escudo coberto de lama, para que Germânico não te reconhecesse.
Hermann - Estás enganado, irmão. Não era eu. Deves ter andado de novo a beber. Eras sempre
assim antes de uma batalha: um bocado nervoso, a menos que tivesses bebido pelo menos meio litro
de cerveja; e tinhas que ser amarrado à sela quando soavam as trombetas de guerra.
Flávio - Isso é mentira, claro, que bebida bárbara de fazer apodrecer os intestinos é a vossa cerveja
germana. Agora já não a bebo, nem mesmo quando chega ao acampamento alguma grande remessa
vinda de uma das vossas aldeias capturadas. Os homens só a bebem quando tem que ser: dizem que
é melhor que a água dos pântanos estragada pelos cadáveres germanos.
Hermann - Sim, eu também gosto do vinho romano. Ainda me restam algumas centenas de jarros
dos que capturei a Varo. Este Verão vou arranjar outro bom fornecimento, se Germânico não tiver
cuidado. A propósito, que recompensa é que ele te deu por perderes o olho?
Flávio (com grande dignidade) - Os agradecimentos pessoais do Comandante-em-Chefe e três
condecorações, incluindo a Coroa e a Corrente.
Hermann - Oh, Oh! A Corrente! Usa-la em volta dos tornozelos, escravo romano?
Flávio - Prefiro ser escravo dos romanos, a traí-los. A propósito, a tua querida Thrusnelda está
muito bem, assim como o teu filho. Quando vens a Roma para os visitar?
Hermann - No final desta campanha, irmão. Oh, Oh!
Flávio - Queres dizer, quando caminhares atrás do carro de Germânico no triunfo dele e a multidão
te atirar ovos podres? Como me vou rir! Hermann - Será melhor que te rias tudo antes, porque, se
dentro de três dias ainda tiveres garganta para te poderes rir eu deixarei de me
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chamar Hermann. Mas chega desta conversa. Tenho uma mensagem da nossa mãe para ti.
Flávio (sério de repente e soltando um profundo suspiro) - Ah, minha querida, querida mãe! Que
mensagem é que a minha mãe me envia? Ainda tenho a sua santa bênção, irmão?
Hermann - Irmão, feriste a alma da nossa sensata, nobre e prolífica mãe. Ela diz que transformará a
sua bênção numa maldição, se continuares a ser um traidor para a tua família, a tua tribo e a tua raça
e se não voltares imediatamente para nós e servires como General, juntamente comigo.
Flávio (em germano, largando a chorar de raiva) - Oh, ela nunca disse isso, Hermann. Ela não
podia ter dito isso. É uma mentira que tu próprio inventaste só para me tornares infeliz. Confessa
que é uma mentira, Hermann.
Hermann - Ela deu-te dois dias para te decidires.
Flávio (para o seu moço) - Eh, tu, oh cara de porco feio, dá-me o meu cavalo e as minhas armas!
Vou para o outro lado do rio lutar com o meu irmão. Hermann, meu velhaco, vou lutar contigo!
Hermann - Então vem, escravo zarolho comedor de feijões!
Flávio saltou para o cavalo e preparava-se para o fazer nadar para o outro lado, quando um coronel
romano o agarrou pela perna e o puxou para fora da sela: ele sabia germano e conhecia a veneração
absurda que os germanos têm pelas suas mulheres e mães. E se Flávio realmente tencionasse
desertar? Por isso, disse-lhe que não se importasse com Hermann nem acreditasse nas suas
mentiras. Mas Flávio não podia resistir a dizer a última palavra. Secou os olhos e gritou para o outro
lado:
-Vi o teu sogro a semana passada. Tem uma bela propriedade perto de Lião. Ele disse-me que
Thrusnelda veio para o pé dele porque não podia suportar a desgraça de estar casada com um
homem que quebrou o seu juramento solene como aliado de Roma e traiu um amigo a cuja mesa
tinha comido. Disse que a única maneira como poderás alguma vez recuperar a sua estima é não
usando as armas que te deu no dia do casamento contra aqueles a quem juraste lealdade. Ainda não
te foi infiel, mas isso não vai durar muito se não caíres em ti imediatamente.
Depois, foi a vez de Hermann chorar, invectivar e acusar Flávio de contar mentiras. Germânico
destacou em segredo um capitão para vigiar cuidadosamente Flávio durante a próxima batalha, com
instruções para o trespassar ao menor sinal de traição.
Germânico raramente escrevia, mas, quando o fazia, as suas cartas eram longas e punha nelas, dizia,
todas as coisas interessantes e divertidas que não lhe pareciam indicadas para a sua correspondência
oficial com Tibério: eu vivia para essas cartas. Nunca me sentia ansioso pela segurança de
Germânico quando ele andava a lutar com os germanos: quando os
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enfrentava, tinha a mesma espécie de confiança com eles que um apicultor experiente tem com as
abelhas, o apicultor consegue entrar ousadamente na colmeia e tirar o mel sem que as abelhas de
alguma forma o piquem, como aconteceria convosco ou comigo se tentássemos fazer o mesmo.
Dois dias depois de ter atravessado o Véser, travou uma batalha decisiva com Hermann. Sempre me
interessei pelos discursos feitos antes de uma batalha: não há nada que seja mais esclarecedor do
carácter de um general. Germânico não saturava os seus homens com um estilo oratório nem
gracejava com eles de forma obscena, como Júlio César. Era sempre muito sério, muito preciso e
muito prático. Nessa ocasião, o seu discurso foi sobre o que ele realmente pensava dos germanos.
Disse que eles não eram soldados. Tinham uma certa coragem e lutavam bem em grupo, como
acontece com o gado selvagem, e tinham também uma certa astúcia animal, que tornava imprudente
negligenciar as precauções normais quando se lutava com eles. Mas, depois do primeiro ataque
furioso, em breve se cansavam e não tinham disciplina no verdadeiro sentido militar, mas apenas
um espírito de rivalidade mútua. Os seus chefes não podiam contar com eles para fazer aquilo que
se desejava: ou faziam demais ou de menos,
- Os germanos, - disse, - são a nação mais insolente e gabarola do mundo quando as coisas lhes
correm bem, mas, quando são derrotados, tornam-se extremamente cobardes e abjectos. Nunca
confieis num germano perdendo-o de vista, mas nunca o receeis quando o tiverdes frente a frente. E
isso é tudo o que é necessário dizer, à excepção de que: a maior parte da luta de amanhã será no
meio destes bosques, onde, tanto quanto se sabe, o inimigo ficará tão apertado que não irá ter
espaço de manobra. Ide direitos a eles sem vos importardes com as suas azagaias e aproximai-vos
bem. Acutilai-os na cara: é a coisa que mais detestam.
Hermann tinha escolhido cuidadosamente o seu campo de batalha: uma planície que estreitava entre
o Véser e uma cordilheira de colinas arborizadas. Ele lutaria na parte estreita da planície, com um
grande carvalho e uma floresta de faias atrás, o rio à direita e as colinas à esquerda. Os germanos
apresentavam-se em três destacamentos. O primeiro deles, constituído por jovens das tribos locais
armados com azagaias, devia avançar para a planície para se defrontar com os regimentos romanos
da frente, que provavelmente seriam auxiliares franceses, e obrígá-los a recuar. Depois, quando
aparecessem os reforços romanos, deviam abandonar a luta e fingir que fugiam em pânico. Os
romanos então avançariam na direcção da floresta e, neste ponto, o segundo destacamento, formado
pela própria tribo de Hermann, atacaria de um ponto de emboscada na colina, apanhando-os pelo
flanco. Isto iria causar grande confusão e o primeiro destacamento devia então regressar, apoiado de
perto pelo terceiro - os homens mais velhos e experientes das tribos locais,
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empurrando os romanos para o rio. A cavalaria germana, nesta altura, teria avançado vinda
do outro lado da colina, apanhando os romanos pela retaguarda.
Teria sido um bom plano, se Hermann estivesse à frente de tropas disciplinadas. Mas as
coisas correram ridiculamente mal. A ordem de batalha de Germânico era como se segue:
primeiro, dois regimentos de infantaria pesada francesa no flanco do rio, e dois de
auxiliares germanos, no flanco da montanha; depois, os arqueiros a pé e quatro regimentos
regulares, seguidos de Germânico, com dois batalhões da Guarda e com a cavalaria regular.
Apareciam seguidamente mais quatro regimentos regulares, arqueiros montados franceses e
infantaria ligeira francesa. Quando os auxiliares germanos avançaram pelos contrafortes da
montanha, Hermann, que observava os acontecimentos do cimo de um pinheiro, gritou
excitado para o sobrinho que se encontrava em baixo à espera de ordens: ”Ali vai o traidor
do meu irmão! Não deve sair com vida desta batalha.” O sobrinho estúpido saltou em
frente, gritando: ”Ordens de Hermann para atacar imediatamente!” Precipitou-se para baixo
para a planície com cerca de metade da tribo. Hermann conseguiu com dificuldade conter
os restantes. Germânico fez sair de imediato a cavalaria regular para atacar o bando de
loucos no flanco antes que conseguissem alcançar os homens de Flávio; os arqueiros
montados franceses cortaram-lhes a retirada.
O destacamento germano de tropas de escaramuça tinha entretanto saído da floresta, mas a
carga da cavalaria romana fez recuar para cima deles os homens comandados pelo sobrinho
de Hermann e os primeiros entraram em pânico e recuaram também. O terceiro
destacamento dos germanos, o corpo principal, saiu então da floresta, esperando que as
tropas de escaramuça parassem e voltassem para trás com eles, como estava combinado.
Mas a única coisa em que os tropas de escaramuça pensavam era em fugir da cavalaria:
fugiram para trás pelo meio do destacamento principal. Neste momento, surgiu o presságio
mais encorajador para os romanos oito águias que se tinham assustado com a
movimentação, afastando-se da montanha e voando em círculos pela planície, soltando
gritos agudos, voaram agora todas juntas na direcção da floresta. Germânico gritou: ”Segui
as Águias! Segui as Águias Romanas!” Todo o exército repetiu o grito: ”Segui as Águias!”
Entretanto, Hermann tinha atacado com o resto dos seus homens e apanhado de surpresa os
arqueiros a pé, matando alguns; mas o regimento da retaguarda de infantaria pesada
francesa deu meia volta para ir em auxílio dos arqueiros. O exército de Hermann, formado
por uns 15.000 homens, ainda podia ter salvo a batalha esmagando a infantaria francesa e,
desta forma, conseguindo uma penetração formidável entre a guarda avançada romana e o
corpo principal. Mas o sol brilhou-lhes nas caras, reflectido pelas armas, peitorais, escudos
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e elmos das longas fileiras de infantaria regular que avançavam para eles; isso fez com que os
germanos perdessem a coragem. A maior parte deles correu a refugiar-se na colina. Hermann reuniu
um ou dois milhares de homens, mas não os suficientes e, entretanto, já dois esquadrões da
cavalaria regular tinham voltado ao ataque pelo meio dos fugitivos, cortando-lhes a retirada para a
colina. Como é que ele conseguiu fugir é um mistério, mas é convicção generalizada que tenha
esporeado o cavalo em direcção ao bosque e alcançado os auxiliares germanos que avançavam para
o atacar. Então gritou:
- Abram passagem, suas bestas! Eu sou Hermann!
Ninguém ousou matá-lo porque era o irmão de Flávio e Flávio sentir-se-ia obrigado, em nome da
honra de família, a vingar a sua morte.
já não era uma batalha, mas sim uma chacina. A principal força germana foi dominada e obrigada a
recuar até ao rio, que muitos conseguiram atravessar a nado, mas não todos. Germânico arrastou a
sua segunda linha de infantaria regular para o bosque e expulsou de lá as tropas de escaramuça que
aguardavam ali, na vaga esperança de que a batalha pudesse de repente virar a seu favor (os
arqueiros ocuparam-se em fazer descer das árvores os germanos que tinham trepado a elas e que
estavam escondidos no cimo, por entre a folhagem). Acabara toda a resistência. Desde as nove da
manhã até às sete da tarde, quando começou a escurecer, a mortandade continuou. Num raio de dez
milhas para lá do campo de batalha, os bosques e as planícies estavam juncados de corpos
germanos. Entre os cativos, encontrava-se a mãe de Hermann e Flávio. Ela suplicou pela própria
vida, dizendo que sempre tentara persuadir Hermann a abandonar a sua resistência fútil aos
conquistadores romanos. Assim, a lealdade de Flávio estava agora assegurada.
Um mês mais tarde travou-se nova batalha, numa floresta densa nas margens do Elba. Herman tinha
escolhido uma emboscada e tomou disposições que podiam ter sido altamente eficazes se
Germânico não tivesse sabido de tudo algumas horas antes, por alguns desertores. Assim, em vez
dos romanos terem sido encaminhados para o rio, os germanos foram obrigados a recuar através da
floresta, na qual se encontraram demasiado apertados para usar a sua táctica habitual de ataque e
fuga alguns milhares foram empurrados para um pântano fervilhante, onde se afundaram e
desapareceram lentamente, gritando de raiva e desespero. Hermann, que tinha ficado incapacitado
com o ferimento de uma seta na batalha anterior, não apareceu muito desta vez. Mas conduziu a luta
no bosque o mais obstinadamente que conseguiu e, encontrando-se por acaso com o irmão Flávio,
trespassou-o com uma azagaia. Ele escapou atravessando o pântano, saltando de moita em moita
com extraordinária destreza e muita sorte.
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Germânico ergueu uma enorme pilha de troféus com armas germanas e pôs sobre ela a seguinte
inscrição: As forças de Tibério César, tendo subjugado as tribos entre o Reno e o Elba, consagram
este memorial da sua vitória a Júpiter, a Marte e a Augusto. Sem qualquer menção a ele próprio. As
baixas que sofreu no total das suas batalhas não ultrapassaram os 2.500 homens, entre mortos e
feridos graves. Os germanos devem ter perdido, pelo menos, 25.000.
Germânico considerou que tinha feito o suficiente naquele ano e enviou alguns dos seus homens de
regresso ao Reno por terra, embarcando os outros em transportes. Mas depois veio a desgraça; uma
tempestade repentina vinda de sudoeste apanhou a frota pouco depois dos barcos terem levantado
âncora, espalhando-os em todas as direcções. Muitos navios foram ao fundo e apenas o navio do
próprio Germânico conseguiu alcançar a foz do Véser, onde se culpou a si mesmo, qual segundo
Varo, pela perda de todo um exército romano. Só com dificuldade foi impedido pelos seus amigos
de saltar para o mar para se juntar aos mortos. No entanto, alguns dias mais tarde, o vento mudou
para norte e, um por um, os navios dispersos voltaram, quase todos sem remos e alguns com capas
esticadas a fazer de velas, enquanto os menos afectados se revezavam para rebocar aqueles que mal
conseguiam flutuar.
Germânico apressou-se a lançar mãos ao trabalho para reparar os cascos danificados e enviou todos
os navios que se encontravam em bom estado para procurarem os sobreviventes nas desoladas ilhas
vizinhas. Muitos foram encontrados aí, mas meio mortos de fome, tendo-se mantido vivos à custa
de crustáceos e das carcaças de cavalos que foram atiradas para a praia. Muitos mais apareceram
vindos de outros pontos mais longínquos da costa; tinham sido tratados com respeito pelos
habitantes, que ultimamente se tinham visto forçados a jurar aliança a Roma. O carregamento de
cerca de vinte navios regressou de sítios tão distantes como a Britânia, que vinha pagando um
tributo nominal desde a sua conquista setenta anos antes por Júlio César, enviado pelos reis menores
do Kent e do Sussex. No final, só se perdeu um quarto dos homens desaparecidos e quase 200
foram encontrados anos mais tarde, na Britânia Central. Foram retirados das minas de chumbo,
onde os tinham posto a fazer trabalhos forçados.
Os germanos do interior, quando souberam deste desastre, pensaram que os seus deuses os tinham
vingado. Derrubaram o troféu do campo de batalha e começaram mesmo a falar de uma marcha até
ao Reno. Mas, repentinamente, Germânico atacou de novo, enviando uma expedição de sessenta
batalhões de infantaria e 100 esquadrões de cavalaria contra as tribos do Véser superior, enquanto
ele próprio marchava com mais oitenta batalhões de infantaria e cem esquadrões de cavalaria contra
as tribos de entre o baixo Reno e o Ems. Ambas as expedições foram totalmente
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coroadas de êxito e, o que foi melhor do que matar milhares de germanos, a Águia do Décimo
Oitavo Regimento foi encontrada num templo subterrâneo na floresta, tendo sido levada em triunfo.
Apenas faltava resgatar a Águia do Décimo Sétimo e Germano prometeu aos seus homens que, no
ano seguinte, se ainda detivesse o comando, resgataríam essa também, Entretanto, conduziu-os de
regresso ao quartel de Inverno.
Nessa altura, Tibério escreveu-lhe pressionando-o a voltar a Roma para o triunfo que lhe tinha sido
decretado, pois ele sem dúvida já fizera o suficiente. Germânico escreveu em resposta que não se
daria por satisfeito enquanto não tivesse derrotado completamente o poder dos germanos, para o qe
não eram necessárias muitas mais batalhas, e recuperado a terceira Águia. Tibério escreveu-lhe de
novo, dizendo que Roma não podia suportar baixas tão numerosas, mesmo com a recompensa de
tão esplêndidas vitórias: ele não estava a criticar as capacidades de Germânico como general, pois
as suas batalhas tinham sido muito económicas em vidas, mas entre as baixas em combate e o
desastre marítimo tinha-se perdido o equivalente a dois regimentos completos, que era mais do que
Roma se podia permitir. Recordou a Germânico que ele próprio tinha sido enviado nove vezes para
a Germânia por Augusto e, portanto, não falava por falta de experiência. A sua opinião era que a
vida de um único romano não era compensada pela morte de dez germanos que fosse. A Germânia
era como uma Hidra: quanto mais cabeças se cortavam, mais cresciam. A melhor maneira de
controlar os germanos era jogar com as suas rivalidades intertribais e fomentar a guerra entre os
chefes vizinhos: encorajá-los a matarem-se uns aos outros sem ajuda externa. Germânico escreveu
uma vez mais pedindo apenas um outro ano para completar o seu trabalho de subjugação. Mas
Tibério disse-lhe que ele era necessário novamente em Roma como Cônsul e tocou-lhe no ponto
mais sensível, dizendo que devia pensar no irmão Castor. A Germânia era agora o único país onde
se travava uma guerra de alguma importância e, se ele insistisse em ser ele a terminá-la, Castor não
teria qualquer oportunidade de ganhar um triunfo ou o título de marechal de campo. Germânico não
insistiu mais, mas disse que os desejos de Tibério eram a sua lei e que regressaria logo que fosse
substituído.
Voltou no princípio da Primavera e celebrou o seu triunfo. Toda a população de Roma se deslocou a
uma distância de vinte milhas da cidade para lhe dar as boas vindas. Um grande arco em
comemoração das Águias recuperadas foi consagrado perto do templo de Saturno. A procissão
triunfal passou por baixo dele. Havia carros empilhados com os despojos dos templos germanos e
com escudos e armas inimigos; outros, carregavam quadros representando batalhas ou deuses
germanos dos rios ou das montanhas dominados pelos soldados
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romanos. Thrusnelda e o filho iam num carro com cordas em volta do pescoço, seguidos por um
enorme cortejo de prisioneiros germanos com os punhos amarrados. Germânico, coroado, ia no seu
carro, com Agripina sentada a seu lado; sentados atrás, iam os seus cinco filhos - Nero, Druso,
Calígula, Agripinila e Drusila. Ele recebeu mais aplausos que qualquer outro general triunfante
alguma vez recebera, desde o triunfo de Augusto em Accio.
Mas eu não estive presente. De todos os lugares do mundo, encontrava-me em Cartago! Apenas um
mês antes do regresso de Germânico, tinha recebido uma nota de Lívia com instruções para que me
preparasse para uma viagem a África. Era necessário um representante da família imperial para
consagrar um novo templo a Augusto em Cartago, e eu era o único que estava disponível para essa
tarefa. Ser-me-iam fornecidos todos os conselhos sobre como me conduzir e como realizar a
cerimónia, e era de esperar que eu não fizesse, uma vez mais, figura de tolo, mesmo perante os
representantes de África. Compreendi imediatamente porque me estavam a mandar para lá. Não
havia qualquer razão para uma partida imediata, pois o templo só estaria concluído daí a uns três
meses. Estavam a desembaraçar-se de mim. Enquanto Germânico estivesse na Cidade não me seria
permitido regressar e todas as cartas que enviasse para Roma seriam abertas. Assim, nunca tive a
oportunidade de dizer a Germânico o que tinha estado a guardar para ele durante tanto tempo. Por
outro lado, Germânico teve a sua conversa com Tibério. Disse-lhe que sabia que o exílio de
Póstumo se tinha devido a uma maquinação cruel por parte de Lívia - tinha provas concludentes
disso. Lívia devia, sem dúvida, ser afastada dos negócios públicos. Os seus actos não podiam ser
justificados por qualquer subsequente mau comportamento por parte de Póstumo. Era apenas
natural que ele tentasse escapar de um exílio indevido. Tibério declarou-se chocado com a
revelação de Germânico; mas disse que não podia criar um escândalo público destituindo
repentinamente a mãe: acusá-la-ia particularmente do crime e, pouco a pouco, retirar-lhe-ia os
poderes.
O que ele realmente fez foi ir ter com Lívia e contar-lhe exactamente o que Germânico lhe tinha
dito, acrescentando que Germânico era um tolo crédulo, mas parecia estar a falar sério; e era de tal
forma popular em Roma e no Exército, que talvez fosse aconselhável para Lívia convencê-lo que
não era culpada daquilo de que ele a acusava, a menos que achasse tal atitude demasiado indigna
para ela. Acrescentou que ia afastar Germânico para qualquer lado logo que possível,
provavelmente para o Leste, e que iria pôr de novo ao Senado a questão dela ser chamada Mãe da
Pátria, um título que bem merecia. Tinha tomado exactamente a atitude certa. Lívia ficou satisfeita
por ele ainda a recear o suficiente para lhe contar tudo aquilo e chamou-lhe filho respeitador. jurou
que não tinha arranjado acusações falsas contra Póstumo: esta história tinha provavelmente
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sido inventada por Agripina, a quem Germânico seguia cegamente e que estava a tentar persuadi-lo
a usurpar a monarquia. O plano de Agripina, disse, era sem dúvida provocar o desentendimento
entre Tibério e a sua extremosa mãe. Tibério, abraçando-a, disse que, apesar dos pequenos
desentendimentos que pudessem ocorrer ocasionalmente, nada quebraria os laços que os unia. Lívia
suspirou; agora estava a ficar velha
- já avançara na casa dos setenta - e começava a achar o seu trabalho demasiado: talvez ele
arranjasse maneira de a libertar da parte mais aborrecida e consultá-la apenas sobre questões
importantes de nomeações e decretos? Nem sequer ficaria ofendida se ele pusesse de lado a sua
prática de pôr o nome dela acima do seu em todos os documentos oficiais: não queria que se
dissesse que ele estava sob a sua tutela. Mas, disse, quanto mais depressa convencesse o Senado a
dar-lhe aquele título, mais satisfeita ficaria. Portanto, houve mostras de reconciliação: mas nenhum
dos dois confiava no outro.
Tibério nomeou Germânico seu colega no Consulado e dísse-lhe que persuadira Lívia a retirar-se
dos assuntos públicos, embora, para manter as aparências, continuasse a fingir que a consultava.
Isto pareceu satisfazer Germânico. Mas Tibério não se sentia de forma alguma confortável.
Agripina mal lhe falava e, sabendo que Germânico e ela eram uma alma só, não conseguia acreditar
na sua lealdade duradoura. Além disso, passavam-se coisas em Roma que um homem com o
carácter de Germânico naturalmente detestava. Em primeiro lugar, os informadores. Uma vez que
Lívia não lhe dava acesso aos processos criminais e não o deixava partilhar do seu eficientíssimo
sistema de espionagem - ela dispunha de um agente pago em quase todas as casas ou instituições
importantes - ele tinha que adoptar outros métodos. Promulgara um decreto pelo qual, se alguém
fosse considerado culpado de conspirar contra o Estado ou de blasfemar contra o Deus Augusto, os
seus bens seriam confiscados e divididos entre os seus leais acusadores. Conspirações contra o
Estado eram menos fáceis de provar que as blasfémias contra Augusto. O primeiro caso de
blasfémia contra Augusto foi o de um gracejador, um jovem lojista, que calhou estar ao lado de
Tibério na Praça do Mercado quando passava um funeral. Saltou em frente e sussurrou qualquer
coisa ao ouvido do cadáver. Tibério ficou curioso de saber do que se tratava. O homem explicou
que estava a pedir ao morto para dizer a Augusto, quando o encontrasse lá em baixo, que os seus
legados ao povo de Roma ainda não tinham sido pagos. Tibério mandou prender e executar o
homem por falar de Augusto como se ele fosse um simples fantasma, não um Deus imortal, e disse
que ia enviá-lo lá para baixo para o convencer do seu erro. Um mês ou dois mais tarde, a propósito,
pagou os legados por inteiro. Num caso como este, Tibério tinha uma certa justificação; mas,
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mais tarde, os mais inofensivos abusos do nome de Augusto eram suficientes para que um homem
fosse condenado à morte.
Surgiu entretanto uma classe de informadores profissionais, com quem se podia contar para criar
um caso contra qualquer homem que lhes fosse indicado, como tendo incorrido no desagrado de
Tibério. Assim,
os processos criminais baseados no registo de uma verdadeira delinquência eram supérfluos. Sejano
era o intermediário de Tibério junto destes patifes. No ano que antecedeu o regresso de Germânico,
Tibério tinha posto os informadores a trabalhar no caso de um jovem que era bisneto de Pompeu e
primo de Agripina, através da avó Escribónia. Sejano tinha prevenido Tibério de que Libo era
perigoso e tinha andado a fazer comentários desrespeitosos sobre ele: mas Tibério teve o cuidado,
naquela fase, de não tomar o desrespeito para com ele próprio uma ofensa imputável; portanto, teve
que inventar outras acusações. Para disfarçar a sua associação com Trasilo, Tibério expulsara de
Roma todos os astrólogos, mágicos, adivinhos e intérpretes de sonhos, proibindo toda e qualquer
pessoa de consultar algum deles que se tivesse deixado ficar em segredo. Alguns permaneceram
com a conivência de Tibério, na condição de apenas realizarem sessões com um agente imperial
escondido na sala. Libo foi persuadido por um senador, que se tinha tornado informador
profissional, a visitar uma destas armadilhas e a deixar que lhe lessem as sortes. As perguntas que
fez foram anotadas pelo agente escondido. Em si mesmas, elas não tinham nada de traiçoeiro, sendo
apenas tolas: queria saber até que ponto iria ficar rico e se alguma vez seria o homem mais
proeminente de Roma, e assim por diante. Mas no seu julgamento foi apresentado um documento
forjado, que se dizia ter sido descoberto por escravos no quarto dele - uma lista, que parecia ter sido
feita na caligrafia dele, com os nomes de todos os membros da família imperial e dos principais
senadores, com curiosos caracteres caldaicos e egípcios em frente de cada um, a margem. O castigo
por consultar um mágico era o exílio, mas o castigo pela prática pessoal de magia era a morte. Libo
negou a autoria do documento e o depoimento de escravos, mesmo sob tortura, não seria suficiente
para o condenar: o testemunho de escravos só era aceite quando a acusação era de incesto. Não
havia o depoimento de nenhum liberto, porque o liberto de Libo não se deixou persuadir a
testemunhar contra ele; por outro lado, não era possível torturar um liberto para o obrigar à
confissão. No entanto, a conselho de Sejano, Tibério criou uma nova disposição legal: quando um
homem era acusado de um crime grave, os seus escravos podiam ser comprados por um preço justo
pelo Procurador Público, sendo-lhes assim permitido prestar declarações sob tortura. Libo, que não
conseguira arranjar um advogado suficientemente corajoso para o defender, viu que estava perdido
e pediu que o julgamento fosse adiado para o dia seguinte. Quando o adiamento foi concedido, foi
para casa e
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matou-se. Ainda assim, a acusação contra ele foi levada por diante pelo Senado com a mesma
formalidade como se ele estivesse vivo, tendo sido declarado culpado de todas as acusações. Tibério
disse que era lamentável que aquele jovem tolo se tivesse suicidado, porque teria intercedido pela
sua vida. O espólio de Libo foi dividido entre os seus acusadores, entre os quais se contavam quatro
membros do senado. Uma farsa ignominiosa como esta nunca teria tido lugar quando Augusto era
Imperador, mas, no tempo de Tibério, isso aconteceu mais que uma vez, com variantes. Apenas um
homem fez um protesto público, um certo Calpúrnio Piso, que se ergueu no Senado para dizer que
estava tão enojado com o ambiente de intriga política na Cidade, a corrupção da justiça e o
espectáculo degradante dos seus colegas senadores que actuavam como informadores pagos, que ia
abandonar Roma de vez e retirar-se para uma aldeia, numa parte remota de Itália. Tendo dito isto,
saiu. O discurso causou uma forte impressão na Casa. Tibério mandou alguém chamar Calpúrnio de
volta e, quando ele estava de novo no seu lugar, disse-lhe que, se havia má administração da justiça,
qualquer senador era livre de chamar a atenção para o facto na hora das perguntas. Disse também
que um certo volume de intriga política era inevitável na capital do maior Império que o mundo
alguma vez conhecera. Estaria Calpúrnio a sugerir que os Senadores não apresentariam as suas
acusações se não tivessem a esperança de uma recompensa? Disse que admirava a seriedade e a
independência de Calpúrnio, e invejava os seus talentos; mas não seria melhor ele empregar estas
nobres qualidades na melhoria da moralidade social e política em Roma, do que enterrá-las em
qualquer lugarejo miserável dos Apeninos, no meio de pastores e bandidos? Assim, Calpúrnio teve
que ficar. Mas, pouco tempo depois, mostrou a sua seriedade e independência citando a velha
Urgulanila para comparecer em tribunal pelo não pagamento de uma avultada soma em dinheiro,
que lhe devia por alguns quadros e estatuária: a irmã de Calpúrnio morrera e tinha havido uma
venda. Quando Urgulanila leu a citação, que pedia a sua comparência imediata no Tribunal de
devedores, disse aos seus transportadores que a levassem directamente ao Palácio de Lívia.
Calpúrnio seguiu-a e foi recebido no vestíbulo por Lívia, que o mandou ir-se embora. Calpúrnio
desculpou-se com cortesia, mas, firmemente, disse que Urgulanila tinha que obedecer sem falta à
citação, a menos que estivesse demasiado doente para o fazer, o que evidentemente não era o caso.
Mesmo as Virgens Vestais não estavam isentas de comparecer em tribunal quando convocadas.
Lívia disse que o comportamento dele era um insulto pessoal para ela e que o filho, o Imperador,
saberia como vingá-la. Tibério foi mandado chamar e tentou acalmar as coisas, dizendo a Calpúrnio
que Urgulanila certamente tencionava comparecer logo que se tivesse recomposto do choque
repentino da convocatória, dizendo a Lívia que, sem dúvida, se tratava de um erro;
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que Calpúrnio certamente não tencionava faltar-lhe ao respeito e que ele próprio assistiria ao
julgamento e faria com que Urgulanila tivesse um advogado competente e um julgamento justo.
Saíu do Palácio caminhando ao lado de Calpúrnio na direcção do tribunal e falando com ele de uma
coisa e outra. Os amigos de Calpúrnio tentaram persuadi-lo a desistir da acusação, mas ele replicou
que era um homem antiquado: gostava que lhe pagassem o dinheiro que lhe deviam. O julgamento
nunca se deu. Lívia enviou um mensageiro a cavalo atrás deles com a soma total da dívida em ouro
nos alforges: o homem alcançou Calpúrnio e Tibério antes deles chegarem à porta do Tribunal.
Mas eu estou a escrever sobre informadores e o efeito desmoralizador que eles tiveram na vida de
Roma, e também sobre a corrupção judicial. Preparava-me para registar que, enquanto Germânico
esteve em Roma, não se ouviu uma única acusação nos tribunais de blasfémia contra Augusto e de
conspiração contra o Estado e os informadores foram avisados para que permanecessem
absolutamente inactivos. Tibério arvorou o seu melhor comportamento e os seus discursos ao
Senado eram modelos de franqueza. Sejano retirou-se do primeiro plano, Trasilo foi deslocado de
Roma para se ir recolher na aldeia de Tibério na ilha de Capri e Tibério parecia não ter outro amigo
íntimo a não ser o honesto Nerva, cujo conselho pedia constantemente.
De Castor, nunca consegui aprender a gostar. Era um indivíduo desbocado, sanguinário, de
temperamento violento, dissoluto. O seu carácter evidenciava-se com a maior clareza numa luta de
espada, em que ele tinha maior prazer em ver o sangue jorrar de uma ferida do que em qualquer
acto de destreza ou de coragem por parte dos combatentes. Mas devo dizer que se comportou muito
bem para com Germânico e parecia sofrer uma verdadeira mudança de atitude na sua companhia.
Facções da Cidade tentaram forçar os dois à desafortunada posição de rivais à sucessão na
monarquia, mas nunca, em qualquer ocasião, eles encorajaram este ponto de vista. Castor tratava
Germânico com a mesma consideração fraterna que Germânico lhe testemunhava. Castor não era
exactamente um cobarde, mas era mais um político que um soldado. Quando foi enviado para o
outro lado do Danúbio, em resposta a um pedido de ajuda por parte das tribos da Germânia do
Leste, que estavam a travar uma luta defensiva e sangrenta contra a confederação ocidental de
Hermann, conseguiu, através de uma intriga astuta, chamar para a guerra as tribos da Boémia e da
Bavária. Ele estava a concretizar a política de Tibério de encorajar os germanos a exterminarem-se
uns aos outros. Marobodo (Aquele que caminha sobre o fundo do lago), o rei-sacerdote dos
Germanos orientais, fugiu para procurar protecção no acampamento de Castor. Foi concedido a
Marobodo um retiro seguro em Itália; e, uma vez que os germanos de leste tinham feito um
juramento de perpétua
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aliança, ficou dezoito anos como refém pelo bom comportamento deles. Estes germanos de leste
eram uma raça mais feroz e poderosa do que os do oeste e Germânico teve sorte em não os ter tido
em guerra com ele também. Mas Hermann tornara-se um herói nacional por causa da derrota de
Varo e Marobodo invejava-lhe o sucesso. Para que Hermann não se tornasse Rei supremo de todas
as nações germanas, o que era a sua ambição, Marobodo recusara dar-lhe qualquer ajuda na sua
campanha contra Germânico, até mesmo criando uma diversão noutra fronteira.
Tenho pensado muitas vezes em Hermann. À sua maneira, foi um homem notável; e, embora seja
difícil esquecer-lhe a traição contra Varo, este tinha feito muito para provocar a revolta e Hermann
e os seus homens estavam, sem dúvida, a lutar pela liberdade. Tinham um desprezo genuíno pelos
romanos. Não conseguiam entender em que medida a disciplina extremamente severa do exército
romano sob o comando de Varo, Tibério e quase todos os generais à excepção do meu pai e do meu
irmão, era diferente de uma verdadeira escravatura. Ficavam chocados com os açoites disciplinares
e consideravam o sistema de pagar aos soldados um tanto por dia, em vez de os contratar com
promessas de glória e saque, como extremamente baixo. Os germanos sempre foram castos na sua
moral e os oficiais romanos praticavam abertamente vícios que, na Germânia, se os mesmos
viessem à luz do dia - o que era muito raro -, seriam punidos afogando os dois culpados em lama.
Quanto à cobardia germana, todos os povos bárbaros são cobardes. Se os germanos alguma vez se
tornarem civilizados, então será a altura de ajuizar se eles são cobardes ou não. Parecem, no
entanto, ser um povo excepcionalmente nervoso e brigão e não consigo decidir se haverá alguma
probabilidade deles se tornarem verdadeiramente civilizados. Germânico pensava que não havia
nenhuma. Se a sua política de exterminação era justificada ou não (certamente não era a política
romana habitual com as tribos da fronteira), isso depende da resposta à primeira pergunta. Claro que
as Águias capturadas tinham que ser reconquistadas e Hermann não se mostrara misericordioso
depois da derrota de Varo, quando tinha assolado a província; e Germânico, que era o mais gentil e
humano dos homens, detestava tanto o massacre geral, que deve ter tido muito boas razões para o
ordenar.
Hermann não morreu em combate. Quando Marobodo foi forçado a fugir do país, Hermann pensou
que o seu caminho estava agora aberto para uma monarquia sobre todas as nações da Germânia.
Mas estava errado: não conseguiu sequer tornar-se monarca da sua própria tribo, que era uma tribo
livre, pois o chefe não tinha poder para comandar, apenas para guiar, aconselhar e persuadir. Um
dia, um ano ou dois mais tarde, tentou promulgar ordens como um rei. A família, que até ali lhe
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era altamente dedicada, ficou de tal forma escandalizada que, sem primeiro discutirem a questão em
conjunto, se precipitaram todos sobre ele com as suas armas e fizeram-no em pedaços. Tinha trinta
e sete anos quando morreu, tendo nascido um ano antes de meu irmão Germânico, o seu maior
inimigo.
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CAPÍTULO XX
Fiquei quase um ano em Cartago (foi no ano em que Lívio morreu, em Pádua, onde o seu coração
sempre estivera). A Velha Cartago tinha sido completamente arrasada e esta era uma nova cidade,
construída por Augusto no sudeste da península e destinada a tornar-se a primeira cidade de África.
Desde os meus tempos de bebé, era a primeira vez que estava fora de Itália. Achei o clima muito
duro, os nativos africanos selvagens, doentes e esgotados pelo trabalho; os residentes romanos
insípidos, brigões, mercenários e fora do tempo; os enxames de insectos desconhecidos rastejantes e
voadores eram absolutamente horríveis. Aquilo de que mais sentia a falta era da floresta. Em Trípoli
não há nada de intermédio entre a terra normalmente plantada
- pomares de figueiras e oliveiras ou campos de trigo - e o deserto nu, pedregoso, espinhoso. Estava
alojado em casa do Governador, que era aquele Fúrio Camilo, tio da minha querida Camila, sobre
quem já escrevi; era muito bondoso comigo. Quase que a primeira coisa que me disse foi como o
meu Sumário dos Balcãs lhe tinha sido útil nessa campanha e que eu devia certamente ter sido
publicamente recompensado por o ter compilado tão bem. Fez tudo o que podia para tornar a minha
cerimónia de consagração um sucesso e conseguir das figuras locais o respeito devido à minha
posição. Foi também muito assíduo em me fazer conhecer os sítios mais interessantes. A cidade
mantinha um comércio florescente com Roma, exportando não apenas vastas quantidades de trigo e
azeite, mas escravos, tintas púrpura, esponjas, ouro, marfim, ébano e animais selvagens para os
Jogos. Mas eu tinha pouco com que me ocupar e Fúrio sugeriu que seria bom para mim, enquanto lá
estava, reunir materiais para uma história completa de Cartago. Esse livro não existia nas
bibliotecas de Roma. Os arquivos da velha cidade tinham-lhe chegado recentemente às mãos,
descobertos por nativos que andavam a escavar as ruínas à procura de tesouros escondidos; se eu
quisesse usá-los, seriam meus. Disse-lhe que não tinha qualquer conhecimento da língua fenícia,
mas ele respondeu que se encarregava, se eu estivesse suficientemente interessado, de entregar a um
dos seus libertos a tarefa de traduzir os manuscritos mais importantes para grego.
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A ideia de escrever a história agradou-me muito: sentia que nunca tinha sido feita justiça histórica
aos Cartagineses. Passei o meu tempo livre a fazer um estudo das ruínas da Velha Cidade, com a
ajuda de uma planta contemporânea e, de uma maneira geral, familiarizando-me com a geografia do
país. Também aprendi suficientemente bem os rudimentos da língua para conseguir ler inscrições
simples e compreender as poucas palavras fenícias usadas pelos autores que escreveram sobre as
Guerras Púnicas do lado dos romanos. Quando regressei a Itália, simultaneamente com a minha
história etrusca, comecei a escrever o livro. Gosto de ter duas tarefas a decorrer ao mesmo tempo:
quando me canso de uma volto-me para a outra. Mas talvez seja um autor demasiado cuidadoso.
Não me satisfaço apenas em copiar das autoridades antigas enquanto existe algum meio possível de
verificar as suas afirmações consultando outras fontes de informação sobre o mesmo assunto,
particularmente relatos de escritores de partidos políticos rivais. Assim, estas duas histórias, cada
uma das quais eu podia ter escrito num ano ou dois se tivesse sido menos consciencioso,
mantiveram-me ocupado durante cerca de vinte e cinco anos. Por cada palavra que escrevi, devo ter
lido muitas centenas; no final, tornei-me um bom estudioso, tanto do etrusco como do fenício, tendo
adquirido um conhecimento de trabalho de várias outras linguas e dialectos, tais como o númida, o
egípcio, o oscense e o falisco. Conclui primeiro a História de Cartago.
Pouco depois de ter feito a consagração do templo, que decorreu sem incidentes, Fúrio teve
repentinamente que partir para a guerra contra Tacfarinas com os únicos exércitos disponíveis na
província - um regimento regular, o Terceiro, juntamente com alguns batalhões de auxiliares e dois
esquadrões de cavalaria. Tacfarinas era um chefe númida, originariamente um desertor das fileiras
dos auxiliares romanos e um bandido com um êxito notável. Nos últimos tempos, tinha reunido uma
espécie de exército segundo o modelo romano no interior do seu próprio país e aliara-se aos
sarracenos para uma evasão da província pelo Oeste. Os dois exércitos juntos eram mais numerosos
que o destacamento de Fúrio, numa proporção de, pelo menos, cinco para um. Encontraram-se em
campo aberto a cerca de cinquenta milhas da Cidade e Fúrio teve que decidir se iria atacar os dois
regimentos semi-disciplinados de Tacfarinas que estavam no centro das indisciplinadas forças
Árabes do flanco. Enviou a cavalaria e os auxiliares, na sua maioria arqueiros, para entreter os
Árabes e, com o seu regimento regular, marchou ao encontro dos númidas de Tacfarinas. Eu
observava a batalha de uma colina à distância de cerca de 350 metros - tinha cavalgado até lá de
mula - e nunca antes ou depois, acho eu, me senti tão orgulhoso de ser romano. O Terceiro
mantinha uma formação perfeita: podia tratar-se de uma parada cerimonial nos Campos de Marte.
Avançaram em três fileiras com trinta e cinco
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metros de distância. Cada uma era constituída por 150 filas, com oito homens de profundidade. Os númidas
detiveram-se numa posição defensiva. Estavam dispostos em seis filas, com uma frente igual à nossa. O
Terceiro não parou e marchou direito a eles sem se deter um momento e só quando estavam a setenta metros
de distância é que a fila da frente descarregou os seus dardos, qual aguaceiro reluzente. Depois, puxaram das
espadas e atacaram, escudo contra escudo. Fizeram recuar a primeira linha do inimigo, constituída por
homens armados com lanças, de encontro à segunda. Depois, romperam a nova linha com outra saraivada de
dardos - cada soldado estava armado com dois. Então, a linha de apoio romana passou pelo meio deles,
dando-lhes uma oportunidade para se reorganizarem. Não tardei a ver nova chuva de dardos, lançados ao
mesmo tempo e voando a brilhar sobre a terceira linha númida. Os sarracenos dos flancos, que estavam a ser
fortemente atacados pelas setas dos auxiliares, viram os romanos abrindo caminho até ao centro. Começaram
aos uivos como se a batalha estivesse perdida e dispersaram em todas as direcções. Tacfarinas teve que entrar
numa luta difícil de retaguarda para regressar ao acampamento. A única recordação desagradável que guardei
desta vitória foi o banquete com que ela foi celebrada: no seu decorrer, o filho de Fúrio, que se chamava
Escriboniano, fez referências satíricas ao apoio moral que eu tinha dado aos soldados. Fez isto sobretudo para
chamar a atenção para a própria bravura que, na sua opinião, não tinha sido suficientemente elogiada. Depois,
Fúrio fê-lo pedir-me desculpa. O Senado votou a Fúrio ornamentos triunfais - ele foi o primeiro membro da
família a receber uma distinção militar, desde que o seu antepassado Camilo salvou Roma, mais de 400 anos
antes.
Quando fui finalmente chamado de novo a Roma, Germânico já tinha partido para Leste, onde o Senado lhe
votara o comando supremo de todas as províncias. Com ele foram Agripina e Calígula, agora com oito anos
de idade. Os filhos mais velhos ficaram em Roma com a minha mãe. Embora Germânico ficasse muito
decepcionado por ter que deixar a Guerra da Germânia inacabada, decidiu tirar o melhor proveito possível
daquela oportunidade e melhorar a sua educação visitando lugares famosos na história ou na literatura.
Visitou a Baía de Áccio e viu aí o templo comemorativo dedicado a Apolo por Augusto, e o acampamento de
António.
Como neto de António, aquele lugar tinha uma fascinação melancólica para ele. Estava a explicar o plano da
batalha ao jovem Calígula, quando a criança o interrompeu com uma risada tola:
- Sim, pai, o meu avô Agripa e o meu bisavô Augusto deram ao vosso avô António uma boa tareia. Pergunto a
mim mesmo se não vos envergonhais de me contar a história.
Esta foi apenas uma de muitas ocasiões recentes em que Calígula tinha falado insolentemente com
Germânico; este, decidiu que não valia a pena
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tratá-lo da mesma maneira gentil e amigável com que tratava os outros filhos que o único
caminho a seguir com Calígula era a disciplina estrita e os castigos severos.
Visitou Tebas Beócia, para ver o quarto onde nascera Píndaro, e a ilha de Lesbos, para ver
o túmulo de Safo. Aqui nasceu outra das minhas sobrinhas, que recebeu o nome infeliz de
Júlia. No entanto, sempre a tratámos por Lésbia. Depois visitou Bizâncio, Tróia e as
famosas cidades gregas da Ásia Menor. De Mileto, escreveu-me uma longa carta
descrevendo a viagem em termos de um interesse tão maravilhado, que tornava nítido que
já não lamentava muito ter sido afastado da Germânia.
Entretanto, as coisas em Roma voltaram ao estado em que se encontravam antes do
Consulado de Germânico; e Sejano reavivou os antigos receios de Tibério em relação a
Germânico. Relatou um comentário de Germânico feito num jantar privado, no qual um dos
seus agentes estivera presente, no sentido de que os regimentos de Leste, provavelmente,
precisavam do mesmo tipo de revisão que ele dera aos do Reno. Este comentário tinha na
realidade sido feito, mas não significava mais do que a ideia de que estas tropas estavam
possivelmente a ser mal conduzidas por oficiais inferiores, de maneira muito semelhante ao
que acontecera com as outras: e que ele passaria em revista todas as nomeações na primeira
oportunidade. Sejano fez com que Tibério compreendesse essa observação como querendo
dizer que a razão porque Germânico demorara tanto a sua usurpação do poder, era o facto
de não poder contar com a afeição dos regimentos de Leste: afeição essa que ele ia agora
conquistar deixando os homens escolher os seus próprios capitães, dando-lhes presentes e
abrandando a severidade da sua disciplina tal como fizera no Reno.
Tibério ficou alarmado e achou mais prudente consultar Lívia: contava com a colaboração
dela. Ela soube imediatamente o que fazer. Nomearam um homem chamado Gneo Piso
para governador da província da Síria uma nomeação que lhe daria o comando, sob as
ordens de Germânico, da maior parte dos regimentos orientais e disseram-lhe em privado
que podia contar com o apoio de ambos se Germânico tentasse interferir com algumas das
suas decisões políticas ou militares. Foi uma escolha inteligente. Gneo Piso, um tio daquele
Lúcio Piso que tinha ofendido Lívia, era um velho altivo que, vinte e cinco anos antes,
tinha conquistado o ódio amargo dos iberos, quando enviado para eles por Augusto como
Governador, pela sua crueldade e avareza. Ele estava profundamente endividado e a
sugestão de que podia comportar-se como lhe aprouvesse na Síria, desde que provocasse
Germânico, parecia um convite para que fizesse uma nova fortuna para substituir aquela
que fizera na Hispânia e que há muito delapidara. Detestava Germânico pela sua seriedade
e
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piedade e costumava chamar-lhe velha supersticiosa; ao mesmo tempo, sentia-se


extremamente invejoso dele.
Germânico, quando visitara Atenas, tinha mostrado o seu respeito pelas antigas glórias,
aparecendo aos portões da cidade apenas com um criado como escolta. Fizera também um
discurso longo e sério a elogiar os poetas, soldados e filósofos atenienses, num festival
organizado em sua honra. Piso passou igualmente por Atenas a caminho da Síria e, como
não fazia parte da sua província e ele não fez qualquer esforço para ser delicado, os
atenienses também não fizeram qualquer esforço para serem delicados com ele. Um homem
chamado Teófilo, o irmão de um dos credores de Piso, acabava de ser condenado por
falsificação por um voto da Assembleia da Cidade. Piso pediu como um favor pessoal que o
homem fosse perdoado, mas recusaram o seu pedido, o que deixou Piso muito zangado: se
Teófilo tivesse sido perdoado, o irmão teria certamente cancelado o débito. Fez um
discurso violento, no qual disse que os atenienses dos tempos modernos não tinham o
direito de se identificar com os grandes atenienses dos tempos de Péricles, Demóstenes,
Esquilo, Platão. Os antigos atenienses tinham sido exterminados por guerras e massacres
repetidos e estes eram mestiços, degenerados e descendentes de escravos. Disse que
qualquer romano que os elogiasse, como se eles fossem os herdeiros legítimos desses
antigos heróis, estava a rebaixar a dignidade do nome romano, e que, pela sua parte, não
podia esquecer que, na última Guerra Civil, se tinham declarado contra o grande Augusto e
apoiado esse cobarde traidor de António.
Então, Piso deixou Atenas e navegou para Rodes, a caminho da Síria. Germânico estava
também em Rodes, visitando a Universidade, e a notícia do discurso, que lhe era
nitidamente dirigido, chegou até ele um pouco antes de se avistarem os navios de Piso.
Entretanto, levantou-se uma tempestade repentina com vento e chuva e viu-se que os navios
de Piso estavam em dificuldades. Duas embarcações mais pequenas afundaram-se diante
dos olhos de Germânico e a terceira, que era a de Piso, perdeu os mastros e estava a ser
arrastada para as rochas do promontório a norte. Quem, a não ser Germânico, não teria
abandonado Piso à sua sorte? Mas Germânico enviou duas galeras bem providas de homens
que, remando desesperadamente, conseguiram alcançar o barco antes do embate e rebocá-lo
em segurança para o porto. Ou quem, a não ser um homem tão depravado como Piso, não
teria recompensado o seu salvador com gratidão e devoção para o resto da vida? Mas a
verdade é que Piso ainda se queixou que Germânico tinha atrasado o salvamento até ao
último momento, na esperança de chegar tarde demais; sem parar um dia em Rodes,
afastou-se de novo enquanto o mar ainda estava tempestuoso, para chegar à Síria antes de
Germânico.
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Logo que chegou a Antióquia, começou a revisão dos regimentos exactamente no sentido
oposto ao que Germânico tencionava. Em vez de afastar os capitães descuidados e
tirânicos, deslocou para as fileiras todos os oficiais que tinham boas folhas de serviços e
nomeou para o lugar deles malandrins seus favoritos mediante acordo de que uma comissão
correspondente a metade daquilo que conseguissem ganhar com essas nomeações lhe seria
paga a ele e sem perguntas. Assim começou um ano mau para os sírios. Os negociantes nas
cidades e os agricultores no campo tinham que pagar secretamente o dinheiro de protecção
aos capitães locais: se recusassem pagar, haveria uma incursão nocturna de homens
mascarados, as suas casas seriam queimadas e as respectivas famílias assassinadas. A
princípio, foram feitos a Piso numerosos apelos contra este terrorismo pelas guildas da
cidade, associações de agricultores e outras entidades. Ele prometia sempre fazer um
inquérito imediato, mas isso nunca acontecia; e os queixosos eram geralmente encontrados
mortos por espancamento no caminho de casa. Uma delegação foi enviada a Roma, para se
informar em privado junto de Sejano se Tibério estava ao corrente do que se passava e, na
afirmativa, se ele o aprovava. Sejano disse aos emissários que Tibério não sabia de nada
oficialmente e que, embora ele lhes prometesse sem dúvida proceder a um inquérito, Piso já
fizera o mesmo, ou não? Talvez que o melhor caminho a tomar, disse, seria pagarem o
dinheiro de protecção que lhes era exigido sem fazer muito alarido. Entretanto, o padrão de
disciplina de acampamento nos regimentos da Síria tinha descido tão baixo, que o exército
de bandidos de Tacfarinas, em comparação, pareceria um modelo de eficiência e dedicação
ao dever. Uma delegação foi também procurar Germânico em Rodes e ele ficou revoltado e
espantado com as revelações. Na sua recente digressão pela Ásia Menor, fizera questão de
se inteirar pessoalmente de todas as queixas de má administração e afastar os magistrados
que tivessem agido de forma ilegal ou opressiva. Depois, escreveu a Tibério, falando-lhe
dos relatos que tinham chegado até ele sobre o comportamento de Piso, dizendo que ia
partir imediatamente para a Síria, pedindo permissão para afastá-lo e para pôr um indivíduo
melhor no lugar dele, mesmo que apenas algumas das queixas fossem justificadas. Tibério
respondeu que também ouvira algumas queixas, mas que pareciam ser infundadas e
maliciosas; ele tinha confiança em Piso como um Governador capaz e justo. Germânico não
suspeitava da desonestidade das palavras de Tibério; por isso, sentiu confirmada a opinião
que já fazia dele, como sendo uma pessoa simples e facilmente influenciável. Lamentou ter
escrito a pedir permissão para fazer aquilo que devia ter feito de imediato sob sua própria
responsabilidade. Entretanto, ouviu outra acusação grave contra Piso, designadamente, que
ele estava a conspirar com Vonones, o rei deposto da Arménia, que estava refugiado na
Síria, para
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reconquistar o trono. Vonones era imensamente rico, tendo fugido para a Síria com a maior
parte do conteúdo do tesouro arménio; portanto, Piso esperava dar-se bem com o negócio.
Germânico partiu imediatamente para a Arménia, convocou uma conferência de nobres e,
com as suas próprias mãos, mas em nome de Tibério, pôs o diadema na cabeça do homem
que eles tinham escolhido para rei. Depois, ordenou a Piso que visitasse a Arménia à frente
de dois regimentos para cumprimentar como vizinho o novo monarca. Ou, se fosse retido
por algum assunto de maior importância, que enviasse o filho. Piso não enviou o filho nem
foi pessoalmente. Germânico, tendo visitado outras províncias distantes e alguns reinos
aliados e tendo resolvido aí todos os assuntos a contento, dirigiu-se à Síria e foi procurar
Piso no quartel de Inverno do Décimo Regimento.
Estiveram vários oficiais presentes como testemunhas deste encontro, porque Germânico
não queria que Tibério fosse mal informado sobre aquilo que se disse. Começou, na voz
mais gentil que conseguiu, por pedir a Piso que explicasse a desobediência às ordens. Disse
que, se não houvesse qualquer explicação, a não ser a mesma animosidade pessoal e falta
de cortesia que mostrara no seu discurso em Atenas, nos seus comentários cheios de
ingratidão em Rodes e em várias ocasiões posteriores, um relatório violento teria que ser
enviado ao Imperador. Prosseguiu queixando-se que, para tropas que viviam em condições
de paz num aquartelamento saudável e popular, encontrava o Décimo Regimento numa
situação de indisciplina e sujidade chocantes.
Piso disse, sorrindo:
Sim, eles estão bem sujos, não estão? O que teria pensado o povo da Arménia se eu os
tivesse enviado para lá como representantes do poder e majestade de Roma? (O poder e
majestade de Roma era uma das frases favoritas do meu irmão.)
Germânico, controlando-se com dificuldade, disse que a deterioração parecia datar apenas
da chegada de Piso à província e que iria escrever a Tibério nesse sentido.
Piso fez um pedido irónico de perdão, aliado a um comentário insultuoso sobre os altos
ideais da juventude, que muitas vezes têm que ceder, neste mundo duro, a políticas menos
exaltadas mas mais práticas.
Com o olhar faiscante, Germânico interrompeu-o:
Muitas vezes, Piso, mas nem sempre. Amanhã, por exemplo, vou sentar-me contigo no
tribunal de apelação e veremos se os altos ideais da juventude são controlados por algum
obstáculo; e se a justiça devida aos habitantes das províncias lhes pode ser negada por
qualquer debochado sexagenário incompetente, avarento e sanguinário.
Assim terminou a entrevista. Piso escreveu imediatamente a Tibério e a Lívia, contando o sucedido.
Citou de tal forma a última frase de
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Germânico, que Tibério acreditou que o debochado sexagenário incompetente, avarento e


sanguinário era ele próprio. Tibério respondeu que tinha a maior confiança em Piso e que se
uma certa pessoa influente continuasse a falar e a agir daquela forma desleal, quaisquer
medidas, por mais ousadas, tomadas por um subordinado para controlar tal deslealdade,
seriam sem dúvida agradáveis ao Senado e ao povo de Roma. Entretanto, Germânico
sentou-se no tribunal e ouviu os apelos das gentes da província contra sentenças injustas
dos tribunais. A princípio, Piso fez tudo o que podia para o embaraçar com obstrucionismo
legal, mas como Germânico manteve a paciência e continuou a ouvir os casos sem qualquer
interrupção para comer ou descansar, desistiu dessa política e pretextou não poder
continuar a assistir por razões de saúde.
A mulher de Piso, Plancina, tinha inveja de Agripina, porque, como mulher de Germânico,
esta tinha precedência sobre ela em todas as funções oficiais. Engendrou vários insultos
mesquinhos para a aborrecer, principalmente faltas de cortesia por parte de subordinados,
que podiam ser explicadas como tendo sido causadas por acidente ou ignorância. Quando
Agripina retaliou, ignorando-a em público, ela foi ainda mais longe. Uma manhã, na
ausência de Piso e Germânico, apareceu na parada com a cavalaria e fê-la realizar uma série
de movimentos burlescos diante do quartel-general de Germânico. Fê-los rodopiar pelo
meio de um campo de trigo, atacou uma fila de tendas vazias, que foram feitas às tiras, fez
soar todos os toques, desde o Recolher ao alarme de incêndio, e provocou embates entre
esquadrões. Finalmente, fez galopar todo o regimento em círculos cada vez mais apertados
e depois, quando o espaço central não tinha mais de uns escassos metros, deu ordem de
Rodar para a direita, como que para inverter o movimento. Muitos cavalos caíram, atirando
ao chão os seus cavaleiros. Nunca se vira tal confusão em toda a história das manobras de
cavalaria. Os indivíduos mais desordeiros aumentaram-na, espetando punhais nos cavalos
dos vizinhos para os fazer empinar ou pondo-se a lutar em cima da sela. Vários homens
receberam coices violentos ou partiram as pernas, por os cavalos terem caído em cima
deles. Um homem foi levantado já morto. Agripina enviou um jovem oficial do estado-
maior para pedir a Plancina que parasse de fazer figuras ridículas à custa dela própria e do
Exército. Plancina ripostou, parodiando as palavras corajosas da própria Agripina na ponte
do Reno: ”Até que o meu marido regresse, eu assumo o comando da cavalaria. Estou a
prepará-los para a próxima invasão da Partia.” Alguns embaixadores partos acabavam na
realidade de chegar ao acampamento e observavam este espectáculo com espanto e
desprezo.
Vonones, antes de ser rei da Arménia, tinha sido rei da Partia, de onde fora expulso
rapidamente. O seu sucessor tinha enviado aqueles embaixadores a Germânico para propor
que a aliança entre Roma e a Partia fosse
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renovada e para dizer que, em honra de Germânico, ele iria até ao Rio Eufrates (a fronteira
entre a Síria e a Partia) para o saudar. Entretanto, solicitava que não fosse permitido a
Vonones continuar na Síria, onde lhe seria fácil manter uma correspondência traiçoeira com
certos nobres partos. Germânico replicou que, como representante de seu pai, o Imperador,
teria o maior prazer em se encontrar com o rei e renovar a aliança e que afastaria Vonones
para qualquer outra província. Assim, Vonones foi enviado para a Cilícia e as esperanças de
Piso de fazer fortuna desvaneceram-se. Plancina estava tão furiosa como o marido;
Vonones vinha-a presenteando quase diariamente com belas jóias.
No início do ano seguinte, Germânico recebeu notícias de grande escassez no Egipto. A
última colheita não tinha sido boa, mas ainda havia bastante trigo de dois anos antes
armazenado nos celeiros. Os grandes corretores de trigo mantinham o preço alto, pondo
apenas quantidades muito pequenas no mercado. Germânico navegou de imediato para
Alexandria e obrigou os corretores a vender por um preço razoável todo o trigo que era
necessário. Sentia-se satisfeito por ter aquela desculpa para visitar o Egipto, que o
interessava ainda mais que a Grécia. A cidade de Alexandria era então, tal como agora, o
verdadeiro centro cultural do mundo e ele mostrou o respeito que nutria pelas suas tradições
entrando na cidade com um trajo grego simples, descalço e sem guarda pessoal. De
Alexandria navegou Nilo acima, visitando as pirâmides e a Esfinge, as ruínas gigantescas
da Tebas egípcia, uma antiga capital, e a enorme estátua de Mémnon em pedra (cujo peito é
oco e que, pouco depois do sol nascer, começa a cantar, porque o ar nessa concavidade
aquece e sobe pela garganta em forma de tubo). Chegou até às ruínas de Elefantina,
mantendo um diário cuidadoso de todas as suas viagens. Em Mênfis, visitou a área de
recreio do grande Deus Ápis, encarnado como um touro com marcas peculiares; mas Ápis
não lhe deu qualquer sinal encorajador e afastou-se dele logo que se encontraram frente a
frente, entrando para o estábulo maléfico. Agripina estava com ele, mas Calígula tinha sido
deixado em Antióquia ao cuidado de um tutor, como castigo pela sua contínua
desobediência.
Germânico não podia agora fazer nada que não encorajasse as suspeitas de Tibério a seu
respeito; mas a ida ao Egipto foi o pior erro que alguma vez cometeu. Vou explicar porquê.
Augusto, compreendendo logo no início do seu reinado que Roma dependia agora
sobretudo do Egipto para o seu abastecimento de trigo e que o Egipto, se caísse nas mãos
de um aventureiro, podia ser defendido com êxito por um exército bem pequeno, tinha
decretado como um preceito do governo que nenhum cavaleiro ou senador romano podia, a
partir daí, ser autorizado a visitar a província sem uma autorização expressa dele próprio.
Era aceite, de uma maneira geral, que a mesma regra se mantinha sob a governação de
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Tibério. Mas Germânico, alarmado com os relatos da escassez de trigo no Egipto, não
perdera tempo à espera de obter permissão para ir até lá. Tibério tinha agora a certeza de
que Germânico se preparava para desferir o golpe que adiara por tanto tempo: certamente,
fora para o Egipto para conquistar a guarnição local para o seu lado; o passeio Nilo acima
tinha sido apenas uma desculpa para visitar a guarda da fronteira; de uma maneira geral
tinha sido um grande erro mandá-lo para Leste. Apresentou uma queixa pública no Senado
por aquela infracção tão ousada das recomendações estritas de Augusto.
Quando Germânico regressou à Síria, sentindo-se muito magoado com a reprimenda de
Tibério, descobriu que todas as ordens que dera aos regimentos e às cidades tinham sido ou
ignoradas ou ultrapassadas por outras, contraditórias, vindas de Piso. Repetiu as ordens
iniciais e agora, pela primeira vez, deu a conhecer publicamente o seu desagrado
Imediatamente executou uma proclamação, segundo a qual todas as ordens emanadas de
Piso durante a sua ausência no Egipto eram por aquele meio canceladas e que, até
informação em contrário, nenhuma ordem assinada por Piso seria válida na província, a
menos que endossada por ele próprio. Mal acabara de assinar esta proclamação, caía
doente. Tinha o estômago de tal forma desarranjado, que não conseguia conservar nada
nele. Suspeitou que a sua comida estivesse a ser envenenada e tomou todas as precauções
possíveis contra isso. Agripina preparava-lhe ela própria as refeições e ninguém do pessoal
da casa tinha qualquer possibilidade de manipular a comida antes ou depois de cozinhada.
Mas demorou algum tempo antes que estivesse suficientemente restabelecido para sair da
cama e sentar-se recostado numa cadeira. A fome tornou-lhe o sentido do olfacto
anormalmente agudo e ele disse que havia um cheiro a morte na casa. Ninguém mais o
sentia e Agripina, a princípio, considerou a queixa como uma fantasia de doente. Mas ele
insistiu. Dizia que o cheiro se tornava pior de dia para dia. Finalmente, a própria Agripina
apercebeu-se dele. Parecia estar em todos os quartos. Queimou incenso para limpar o ar,
mas o cheiro persistiu. O pessoal de casa ficou alarmado e sussurrava que havia bruxas em
acção.
Germânico sempre fora extremamente supersticioso, como todos os membros da nossa
família, excepto eu: sou só um pouco supersticioso. Germânico não só acreditava que
certos dias ou presságios traziam sorte ou azar, mas criara ele próprio uma rede completa de
superstições só suas. O número dezassete e o cantar dos galos à meia-noite eram as duas
coisas que mais o perturbavam. Considerava como um sinal altamente desafortunado o
facto de, tendo conseguido recuperar as Águias perdidas do Décimo Oitavo e Décimo Nono
Regimentos, o terem feito regressar da Germânia antes de conseguir recuperar a do Décimo
Sétimo. Aterrorizava-o a magia negra do tipo usado pelas bruxas tessalianas e dormia
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sempre com um
talismã, que delas o protegia, debaixo da almofada: uma figura de jaspe verde da deusa
Hécate (a única que tem poder sobre bruxas e fantasmas), representada com uma tocha
numa das mãos e as chaves do inferno na outra.
Suspeitando que Plancina estivesse a praticar bruxaria contra ele ela tinha fama de bruxa,
fez um sacrifício propiciatório de nove cachorrinhos negros a Hécate; essa era a atitude a
seguir, quando se era vítima de tais situações. No dia seguinte, um escravo relatou, com o
terror estampado na face, que, quando estava a lavar o chão no vestíbulo, tinha reparado
que havia um ladrilho solto e, ao levantá-lo, tinha encontrado por baixo o que parecia ser o
cadáver nu e em decomposição de um bebé, com a barriga pintada de vermelho e cornos
atados à testa. Foi feita uma busca imediata em todos os quartos, de onde resultou uma
dúzia de achados igualmente sinistros debaixo de ladrilhos ou em nichos escavados nas
paredes atrás das cortinas. Incluíam o cadáver de um gato com asas rudimentares a
crescerem-lhe nas costas e a cabeça de um negro com a mão de uma criança a sair-lhe da
boca. Com cada uma destas relíquias horrendas havia uma pequena placa de chumbo com o
nome de Germânico. A casa sofreu uma limpeza ritual e Germânico começou a recuperar a
alegria, embora o estômago continuasse a dar-lhe problemas.
Pouco tempo depois, começaram as assombrações na casa. Penas de galo sujas de sangue
foram encontradas no meio das almofadas e símbolos nefastos foram rabiscados a carvão
nas paredes, por vezes tão baixos que pareciam ter sido escritos por um anão, outras vezes
tão altos como se um gigante os tivesse escrito um homem enforcado, a palavra Roma de
pernas para o ar, uma doninha; e, embora só Agripina soubesse da sua superstição pessoal
com o número dezassete, este número aparecia constantemente. Depois, apareceu o nome
de Germânico de pernas para o ar, cada dia com uma letra a menos. Teria sido possível a
Plancina esconder amuletos na casa durante a sua ausência no Egipto, mas para estas
assombrações continuadas não havia explicação. Os criados não eram suspeitos, porque as
palavras e os sinais apareciam escritos em quartos aos quais eles não tinham acesso, e num
quarto fechado com uma janela demasiado pequena para que um homem conseguisse
passar por ele, cobriam as paredes desde o chão até ao tecto. A única consolação de
Germânico era a coragem com que Agripina e o pequeno Calígula se comportavam.
Agripina fazia todos os possíveis por aligeirar as assombrações e Calígula dizia que se
sentia seguro, porque um bisneto do Deus Augusto não podia ser afectado por bruxas, e
que, se se encontrasse com uma bruxa, a atravessaria com a sua espada. Mas Germânico
viu-se forçado a ficar novamente de cama. A meio da noite que se seguiu ao dia em que
apenas restavam três letras do seu nome, Germânico foi acordado pelo barulho do cantar de
um galo. Fraco como estava, saltou
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da cama, pegou na espada e correu para o quarto ao lado, onde Calígula e Lésbia dormiam. Aí, viu
um grande galo negro com um anel dourado em volta do pescoço, cantando como se quisesse
acordar os mortos. Tentou cortar-lhe a cabeça, mas ele saíu voando pela janela. Germânico
desmaiou. Agripina, de alguma forma, conseguiu levá-lo de volta para a cama, mas, quando
recuperou a consciência, ele disse-lhe que estava condenado.
- Não enquanto tiveres a tua Hécate contigo, - disse ela. Tacteou a figura debaixo da almofada e a
sua coragem voltou.
Quando chegou a manhã, escreveu uma carta a Piso, à velha maneira romana, declarando uma
guerra privada entre ambos; ordenando-lhe que abandonasse a província e desafiando-o a fazer o
pior que conseguisse. Piso, no entanto, já se tinha feito ao mar e estava agora em Quios,
aguardando notícias da morte de Germânico e pronto para regressar e governar a província logo que
a notícia chegasse até ele. O meu pobre irmão estava a ficar mais fraco de uma hora para a outra.
No dia seguinte, enquanto Agripina estava ausente do quarto e ele jazia meio insensível, sentiu um
movimento debaixo da almofada. Voltou-se e procurou o amuleto, aterrorizado. Tinha desaparecido
e não havia ninguém no quarto.
No dia seguinte, reuniu os seus amigos e disse-lhes que estava a morrer e que Piso e Plancina eram
os seus assassinos. Encarregou-os de dizer a Tibério e a Castor o que lhe tinham feito e implorou-
lhes que vingassem a sua morte cruel.
- E dizei ao povo de Roma, - acrescentou, - que confio à sua guarda a minha querida esposa e os
meus seis filhos e que não devem acreditar em Piso nem em Plancina, se eles fingirem que
receberam instruções para me matarem; ou, se nisso acreditarem, não devem por essa razão
perdoar-lhes.
Morreu no dia nove de Outubro, o dia em que apenas a letra C era visível na parede do quarto em
frente da cama, e ao décimo sétimo dia de doença. O seu corpo devastado foi exposto na praça do
mercado em Antióquia, para que toda a gente pudesse ver a borbulhagem vermelha na barriga e as
unhas azuladas. Os seus escravos foram submetidos a tortura. Também os libertos foram
interrogados à vez, cada um durante vinte e quatro horas seguidas e sempre por inquiridores
diferentes; no final, estavam de tal forma destruídos espiritualmente que, se soubessem alguma
coisa, certamente a teriam revelado, só para serem deixados em paz. O máximo que foi possível
descobrir, no entanto, quer pelos libertos quer pelos escravos, foi que uma bruxa notória, uma tal
Martina, tinha sido vista com frequência na companhia de Plancina e que tinha mesmo estado na
casa um dia com Plancina, quando ninguém lá estava a não ser Calígula. E que uma tarde, pouco
antes do regresso de Germânico, a casa
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tinha ficado guardada apenas por um velho porteiro surdo, porque todo o restante pessoal tinha ido
ver uma luta de gladiadores exibida por Piso no anfiteatro local. No entanto, não havia qualquer
explicação natural para o galo, para a escrita nas paredes ou para o desaparecimento do talismã.
Houve um encontro de comandantes de regimento e de todos os outros romanos de posição na
Província, para designar um Governador temporário. Foi escolhido o Comandante do Sexto
Regimento. Ele prendeu imediatamente Martina e mandou-a sob escolta para Roma. Se Piso fosse
levado a julgamento, ela seria uma das testemunhas mais importantes.
Quando soube que Germânico estava morto, Piso, em vez de esconder a sua alegria, ofereceu
sacrifícios de acção de graças nos templos. Plancina, que perdera recentemente uma irmã, foi ao
ponto de tirar o luto e voltar a pôr as suas roupas mais alegres. Piso escreveu a Tibério dizendo que
só tinha sido afastado do seu posto de Governador, para o qual fora pessoalmente designado por
Tibério, por causa da sua oposição destemida aos desígnios traiçoeiros de Germânico contra o
Estado; ia regressar agora à Síria para reassumir o comando. Também se referiu à luxúria e
insolência de Germânico. Na realidade, ele tentou regressar à Síria e conseguiu mesmo algumas
tropas que o apoiassem, mas o novo governador cercou a fortaleza na Cilícia, que ele tinha
transformado no seu baluarte, forçando-o a render-se e enviando-o para Roma para responder às
acusações que, certamente, ali seriam apresentadas contra ele.
Entretanto, Agripina navegara para Itália com os dois filhos e as cinzas do marido numa urna. Em
Roma, a notícia da sua morte causara um tal desgosto que era como se cada casa na cidade tivesse
perdido o seu membro mais amado. Três dias completos, embora não houvesse decreto do Senado
ou ordem dos magistrados nesse sentido, foram consagrados ao luto público: lojas fechadas,
tribunais desertos, não se realizou qualquer espécie de negócio, todos estavam de luto. Ouvi um
homem na rua dizer que era como se o sol se tivesse posto para não voltar a nascer. Sobre a minha
própria dor, não consigo escrever.
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CAPíTULO XXI
Lívia e Tibério fecharam-se nos seus palácios e fingiram estar tão abalados com o desgosto que não
podiam mostrar os rostos em público. Agripina deveria ter vindo por terra, porque o Inverno já tinha
começado e a época da navegação terminara. Mas, apesar das tempestades, fez-se ao mar; alguns
dias mais tarde alcançou Corfu, de onde se demora
apenas um dia, com uma brisa favorável, para alcançar o porto de Brindisi. Aqui ela descansou um
pouco, enviando mensageiros à frente para avisar que vinha colocar-se sob a protecção do povo de
Itália. Castor, que estava agora de regresso a Roma, os seus outros quatro filhos e eu próprio,
saímos de Roma para ir ao encontro dela. Tibério tinha enviado imediatamente dois batalhões da
Guarda para o porto, com instruções para que os magistrados dos distritos da província por onde as
cinzas passassem prestassem ao seu filho morto os últimos respeitos. Quando Agripina
desembarcou, recebida com um silêncio respeitoso por uma enorme multidão, a urna foi posta sobre
um carro fúnebre e transportada para Roma aos ombros dos oficiais da Guarda. Os estandartes do
batalhão não apresentavam condecorações, como sinal de calamidade pública, e os machados e
bastões eram transportados em posição invertida. Quando a procissão, composta por muitos
milhares, passou pela Calábria, Apúlia e Campânia, todos vieram em bando, a gente do campo
vestida de negro, os cavaleiros com mantos púrpura, com lágrimas e lamentos sonoros, queimando
ofertas de perfumes para o fantasma do seu herói morto.
Encontrámo-nos com a procissão em Terracina, cerca de sessenta milhas a sudeste de Roma, onde
Agripina, que tinha caminhado de olhos secos e rosto de mármore, sem dirigir palavra a ninguém
todo o caminho desde Brindisi, deixou que o seu desgosto jorrasse livremente ao ver os quatro
filhos sem pai. Gritou para Castor:
- Pelo amor que tinhas pelo meu querido marido, jura que defenderás as vidas dos seus filhos com a
tua própria e que vingarás a sua morte! Foi a sua última recomendação para ti.
Castor, chorando, talvez pela primeira vez desde a infância, jurou que aceitaria o encargo.
Se perguntardes porque razão Livila não nos acompanhou, a resposta é que ela acabava de dar à luz
gémeos: dos quais, a propósito, Sejano
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parece ter sido o pai. Se perguntardes porque razão a minha mãe não foi, a resposta é que
Tibério e Lívia não lhe permitiram sequer assistir ao funeral. Se o desgosto avassalador os
impedia a eles próprios de estarem presentes, como avó e pai adoptivo do falecido, era
nitidamente impossível para ela, como sua mãe, comparecer. E foram sensatos em não se
ter mostrado. Se o tivessem feito, mesmo fingindo-se desgostosos, teriam certamente sido
atacados pela populaça, e eu penso que a Guarda se teria deixado ficar, sem levantar um
dedo para os proteger. Tibério não se tinha dado ao trabalho de fazer sequer os preparativos
que eram habituais nos funerais de pessoas muito menos distintas: as máscaras de família
dos Claudianos e dos Julianos não apareceram, nem a habitual efígie do próprio morto,
deitado numa cama; não foi feito o discurso fúnebre da Plataforma de Oratória; não se
cantaram hinos fúnebres. A desculpa de Tibério foi que o funeral já tinha sido celebrado na
Síria e que os Deuses ficariam ofendidos se os rituais fossem repetidos. Mas nunca em
Roma houve uma demonstração de desgosto de tal forma unânime e sincera como nessa
noite. Os Campos de Marte estavam iluminados com todas as tochas e a multidão reunia-se
em volta do túmulo de Augusto, sobre o qual a urna foi reverentemente colocada por
Castor; era tão densa que muitas pessoas morreram esmagadas. Por toda a parte as pessoas
diziam que Roma estava perdida, que não restava mais esperança, pois Germânico fora o
seu último baluarte contra a opressão. Agora, tinha sido vilmente assassinado. Por toda a
parte Agripina foi louvada e lamentada, tendo sido feitas oferendas pela segurança dos seus
filhos.
Tibério fez uma proclamação alguns dias mais tarde, dizendo que, embora muitos romanos
ilustres tivessem morrido pelo bem comum, nenhum tinha sido tão universalmente e
veementemente lamentado como o seu querido filho. Mas era agora tempo do povo se
recompor e regressar aos seus trabalhos diários: os príncipes eram mortais, mas a pátria era
imortal. Apesar disso, o Festival do Dia dos Bobos, em finais de Dezembro, passou sem os
gracejos e as alegrias habituais e só por altura do Festival da Grande Mãe, em Abril, é que o
luto terminou e os assuntos públicos normais foram retomados. As suspeitas de Tibério
estavam agora concentradas em Agripina. Ela visitou-o no Palácio na manhã a seguir ao
funeral e disse-lhe, sem medo, que o consideraria responsável pela morte do marido até que
ele provasse a sua inocência e se vingasse em Piso e Plancina. Ele interrompeu
bruscamente a entrevista, citando-lhe versos gregos:
- se não fores rainha, minha querida, Sentir-te-ás injustiçada?
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Piso não regressou a Roma durante algum tempo. Enviou o filho à frente para interceder por ele
junto de Tibério, enquanto ele próprio foi visitar Castor, que estava agora de novo com as legiões
do Danúbio. Esperava que Castor se mostrasse grato para com ele por ter afastado um herdeiro rival
à monarquia e pronto a acreditar na história da traição de Germânico. Castor recusou-se a recebê-lo
e disse publicamente ao mensageiro de Piso que, se os rumores correntes fossem verdadeiros, era
sobre Piso que ele teria que infligir a vingança que jurara pela morte do seu querido irmão e que
seria aconselhável que Piso se mantivesse longe até ter estabelecido plenamente a sua inocência.
Tibério recebeu o filho de Piso sem nenhuma gentileza particular, mas também sem qualquer
desfavor, como que para mostrar que continuaria numa posição de imparcialidade até que tivesse
sido feito um inquérito público sobre a morte de Germânico. Por fim, Piso apareceu em Roma com
Plancina. Vieram navegando pelo Tibre e desembarcaram com uma série de apoiantes junto do
túmulo de Augusto, onde quase provocaram um motim, pavoneando-se com grandes sorrisos pelo
meio da multidão hostil que não tardou a reunir-se e instalando-se numa carruagem enfeitada
puxada por uma parelha de belos cavalos brancos franceses, que os aguardava na estrada Flamínia.
Piso tinha uma casa que dava para a Praça do Mercado e esta também estava enfeitada. Convidou
todos os seus amigos e parentes para um banquete celebrando o seu regresso e causou bastante
confusão: simplesmente para mostrar ao povo de Roma que não tinha medo e que contava com o
apoio de Tibério e Lívia. Tibério tinha planeado que Piso fosse acusado no tribunal Criminal
Ordinário por um certo senador em quem se podia confiar, para o fazer de um modo tão desajeitado,
contradizendo-se a si próprio e negligenciando a apresentação de provas consistentes para apoiar as
acusações, que o processo só podia terminar com a absolvição. Mas os amigos de Germânico,
especialmente os três senadores que o tinham acompanhado na Síria e regressado com Agripina,
opuseram-se à escolha de Tibério. Este, acabou por ser obrigado a julgar ele próprio o caso, e ainda
por cima no Senado, onde os amigos de Germânico podiam contar com todo o apoio de que
precisavam. O Senado tinha votado uma série de honras excepcionais à memória de Germânico -
cenotáfios, arcos memoriais, rituais semi-divinos -, que Tibério não tinha ousado vetar.
Castor regressara uma vez mais do Danúbio e, embora uma ovação (ou um triunfo menor) lhe
tivesse sido decretada pela forma como tratara do caso Marobodo, entrou na Cidade a pé como
qualquer cidadão privado e não a cavalo e com uma coroa na cabeça. Depois de visitar o pai, foi
directamente procurar Agripina e jurou-lhe que podia contar com ele para que se fizesse justiça.
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Piso pediu a quatro senadores que o defendessem; três deles desculparam-se, pretextando doença ou
incapacidade; o quarto, Caio, disse que nunca defendia ninguém de uma acusação de assassinato, a
menos que houvesse pelo menos uma probabilidade de agradar à família imperial. Calpúrnio Piso,
embora não tivesse estado presente no banquete do tio, ofereceu-se para o defender pela honra da
família e três outros juntaram-se posteriormente a ele, porque tinham a certeza que Tibério
absolveria Piso, fossem quais fossem as provas, e que seriam recompensados mais tarde pela sua
participação no julgamento. Piso sentiu-se satisfeito por ser julgado pelo próprio Tibério, porque
Sejano lhe garantira que seria tudo devidamente controlado; Tibério ia fingir ser muito severo mas,
no fim, adiaria o julgamento sine die, para aguardar novas provas. Martina, a principal testemunha,
já tinha sido afastada - estrangulada por agentes de Sejano - e a acusação tinha agora um caso pouco
consistente.
A acusação apenas dispôs de dois dias e o homem que tinha sido originariamente encarregado de
baralhar as coisas para bem de Piso adiantou-se e fez todos os possíveis para usar todo esse tempo
apresentando acusações vazias contra ele de mau governo e corrupção na Hispânia, no tempo de
Augusto. Tibério deixou-o continuar com aquelas acusações irrelevantes durante horas, até que os
elementos do Senado, arrastando os pés, tossindo e fazendo chocar as tabuinhas de escrever, o
preveniram de que as principais testemunhas tinham que ser ouvidas, senão haveria problemas. Os
quatro amigos de Germânico tinham o seu caso bem preparado e, cada um por sua vez, ergueram-se
e testemunharam sobre a corrupção que Piso imprimira à disciplina militar na Síria, o seu
comportamento insultuoso com Germânico, e com eles próprios, a sua desobediência às ordens, as
intrigas com Vonones, a opressão das gentes da província. Acusaram-no de assassinar Germânico
com veneno e bruxaria, de oferecer sacrifícios de acção de graças pela sua morte e, finalmente, de
ter feito um ataque armado à Província com tropas privadas ilegalmente recrutadas.
Piso não negou as acusações de corrupção da disciplina militar, de insultar e desobedecer a
Germânico ou de oprimir a população da província; disse apenas que elas eram exageradas. Mas
negou com indignação a acusação de usar venenos e bruxaria. Os acusadores não mencionaram os
acontecimentos sobrenaturais de Antióquia, com medo de encorajarem risos cépticos, como
também não podiam acusar Piso de interferir com os criados e escravos da casa de Germânico,
porque já tinha sido provado que eles não tinham nada a ver com o assassinato. Assim, Piso foi
acusado de envenenar a comida de Germânico enquanto estava sentado ao lado dele num banquete
na casa do próprio Germânico. Piso ridicularizou esta acusação: como podia ter feito uma coisa
dessas sem que alguém o
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notasse, quando todos os presentes, para não falar nos criados, observavam cada um dos seus
movimentos? Por meio de magia, talvez?
Ele tinha um maço de cartas na mão que todos sabiam, pelo tamanho, pela cor e pela maneira como
estavam atadas, que eram de Tibério. Os amigos de Germânico lançaram uma moção que quaisquer
instruções que Piso tivesse recebido de Roma deviam ser lidas. Piso recusou-se a ler as cartas,
alegando que estavam seladas com o selo da Esfinge (originariamente de Augusto), o que as tornava
secretas e confidenciais: lê-las seria uma traição. Tibério pronunciou-se contra a moção, dizendo
que seria perda de tempo ler as cartas, que nada continham de importância. O Senado não conseguiu
levar a sua avante. Piso entregou as cartas a Tibério, como sinal de que confiava nele para lhe salvar
a vida.
Lá fora, ouviram-se sons irados vindos da multidão, que ia sendo informada do progresso do
julgamento; um homem, com uma voz potente e roufenha, gritou através de uma janela:
- Ele pode escapar-vos a vós, senhores, mas a nós não escapará! Um mensageiro veio dizer a
Tibério que algumas estátuas de Piso tinham sido agarradas pela multidão e estavam a ser arrastadas
para a Escada das Lamentações, para serem feitas em pedaços. A Escada das Lamentações era um
lanço de escadas na base do Monte Capitolino, onde os cadáveres dos criminosos eram
normalmente expostos antes de serem arrastados por um gancho espetado na garganta até ao Tibre,
para onde eram atirados. Tibério ordenou que as estátuas fossem recolhidas e postas de novo nos
seus pedestais. Mas queixou-se que não podia continuar a julgar um caso em tais condições e adiou-
o para o fim da tarde. Piso foi levado dali sob escolta.
Plancina, que até então se gabava de que partilharia o destino do marido fosse ele qual fosse, e se
necessário morreria com ele, começou a ficar alarmada. Decidiu fazer a sua defesa separadamente e
contou com Lívia, com quem tivera uma relação estreita, para a livrar. Piso não sabia nada desta
traição. Quando o julgamento recomeçou, Tibério não lhe deu qualquer mostra de simpatia e,
embora dissesse aos acusadores que deviam ter apresentado provas de envenenamento mais
conclusivas, preveniu Piso de que a tentativa armada para recuperar a sua província nunca poderia
ser perdoada. Em casa, nessa noite, Piso fechou-se no quarto e foi encontrado na manhã seguinte
ferido de morte e com a espada ao lado. Não foi, na realidade, um suicídio.
Piso tinha guardado a carta mais incriminatória de todas, uma que lhe tinha sido escrita por Lívia
mas em nome de Tibério e dela própria, e sem estar selada com o selo da Esfinge (que Tibério
reservava para seu uso pessoal). Ele disse a Plancina que negociasse as suas vidas com essa carta.
Plancina foi procurar Lívia. Lívia disse-lhe que esperasse enquanto consultava Tibério. Lívia e
Tibério tiveram nessa altura o seu primeiro
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desentendimento declarado. Tibério ficou furioso com Lívia por ter escrito a carta e Lívia disse
que era culpa dele, por não a autorizar a usar o selo da Esfinge, queixando-se de que se vinha
comportando de forma muito insolente para com ela. Tibério perguntou quem era o Imperador, ele
ou ela? Lívia disse que, se era ele, era com a conivência dela e que era insensato tratá-la dessa
forma porque, da mesma forma que arranjara maneira de o fazer subir, também saberia arranjar
maneira de lhe causar a destruição. Tirou uma carta da bolsa e começou a lê-la: era uma velha carta
que Augusto lhe escrevera durante a ausência de Tibério em Rodes, acusando-o de traição,
crueldade e bestialidade e dizendo que, se não fosse filho dela, não teria nem mais um dia de vida.
- Isto é apenas uma cópia, - disse - tenho o original bem guardado. É apenas uma de muitas cartas
do mesmo teor. Não gostarias que circulassem pelo senado, pois não?
Tibério controlou-se e pediu desculpas pelo seu mau humor: disse que era claro que ela e ele eram
capazes de se arruinar um ao outro e que, portanto, era absurdo discutirem. Mas como poderia
poupar a vida de Piso, especialmente depois de ter dito que, se a acusação de organizar um exército
privado e tentar reconquistar a Síria com elas fosse provada, isso significaria pena de morte, sem
qualquer esperança de perdão?
- Plancina não organizou nenhum exército, pois não?
- Não vejo o que é que isso tem a ver com o caso. Não consigo recuperar a carta das mãos de Piso
apenas com a promessa de poupar Plancina.
- Se prometeres poupar Plancina, eu consigo tirar a carta a Piso; deixa isso comigo. Se Piso for
morto, isso irá satisfazer a opinião pública. E se tens medo de poupar Plancina à tua
responsabilidade, podes dizer que fui eu que intercedi por ela. É justo, porque admito que foi uma
carta que eu escrevi que provocou toda esta confusão.
Assim, Lívia foi ter com Plancina e disse-lhe que Tibério se recusava a dar ouvidos à razão e que
preferia sacrificar a própria mãe ao ódio popular, do que arriscar a pele ficando do lado dos amigos.
Tudo o que tinha conseguido dele, ainda que contrariado, disse, era uma promessa de perdão para
ela, se a carta lhe fosse entregue. Assim, Plancina foi ter com Piso com uma carta em nome de
Tibério, forjada por Lívia, dizendo que tinha arranjado tudo da melhor maneira e que ali estava a
promessa de absolvição. Quando Piso lhe entregou a outra carta, em troca, ela esfaqueou-o de
repente na garganta com um punhal. Enquanto ele jazia agonizante, mergulhou a ponta da espada
do marido no sangue, cerrou-lhe a mão em volta do punho e deixou-o. Levou a carta e a promessa
forjada de novo a Lívia, como combinado.
No Senado, no dia seguinte, Tibério leu uma declaração que disse ter sido feita por Piso antes de se
suicidar, proclamando a sua completa inocência dos crimes de que era acusado, protestando a sua
lealdade a
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Lívia e a ele próprio e implorando a sua protecção para os filhos, que não tinham de forma alguma
tomado parte nos acontecimentos que levaram à sua depreciação. Começou então o julgamento de
Plancina. Ficou provado que ela tinha sido vista na companhia de Martina, e a reputação de Martina
como envenenadora era facto jurado, tendo-se verificado, quando o corpo de Martina estava a ser
preparado para o funeral, que um frasco de veneno fora encontrado atado aos seus cabelos. O velho
Pompónio, ordenança de Germânico, testemunhou quanto às horríveis relíquias pútridas espalhadas
pela casa e quanto à visita de Plancina, acompanhada de Martina, na ausência de Germânico; e,
quando interrogado por Tibério, deu provas detalhadas dos assombramentos. Ninguém apareceu a
defender Plancina. Ela protestou inocência com lágrimas e juramentos e disse que não sabia da
reputação de Martina como envenenadora e que a sua única ligação com ela fora a compra de
perfumes. Disse que a mulher que tinha ido com ela a casa de Germânico não era Martina, mas sim
a mulher de um dos coronéis. E que certamente era um acto inocente ir fazer uma visita e não
encontrar ninguém em casa, a não ser um rapazinho. Quanto aos seus insultos a Agripina, estava
profundamente arrependida e pedia-lhe humildemente perdão, mas estava a obedecer a ordens do
marido, como é o dever de uma esposa. Ainda por cima, o marido dissera-lhe que Agripina andava
a conspirar com Germânico contra o Senado; por isso, fizera ainda com mais vontade aquilo que era
esperado dela.
Tibério fez o ponto de situação. Disse que parecia haver certas dúvidas quanto à culpabilidade de
Plancina. A sua ligação com Martina parecia provada e o mesmo acontecia com a reputação de
Martina como envenenadora. Mas, se se tratava de uma ligação culposa, era uma pergunta em
aberto. A acusação nem sequer apresentara em tribunal o frasco encontrado no cabelo de Martina ou
qualquer prova de que o conteúdo do mesmo era venenoso: podia ter sido uma poção sonífera ou
afrodisíaca. Sua mãe Lívia tinha boa opinião do carácter de Plancina e desejava que o Senado lhe
desse o benefício da dúvida, caso a prova de culpa não fosse conclusiva; o fantasma do seu amado
neto tinha-lhe aparecido num sonho, pedindo-lhe que não permitisse que os inocentes sofressem
pelos crimes de um marido ou pai.
Assim, Plancina foi absolvida e, dos filhos de Piso, um foi autorizado a herdar o espólio do pai e o
outro, que participara da luta na Cilícia, foi simplesmente exilado por alguns anos. Um senador
propôs que fossem apresentados agradecimentos públicos à família do herói morto - Tibério, Lívia,
minha mãe Antónia, Agripina e Castor -, por terem vingado a sua morte. Esta moção estava prestes
a ser votada quando um amigo meu, um ex-cônsul que tinha sido Governador de África antes de
Fúrio, se levantou para fazer uma correcção. A moção, objectou, não estava em
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ordem: tinha sido omitido um nome importante, o do irmão do herói morto, Cláudio, que tinha feito
mais do que qualquer outra pessoa para preparar o caso para a acusação e para proteger as
testemunhas de serem molestadas. Tibério encolheu os ombros e disse que estava surpreendido por
saber que me tinham pedido qualquer colaboração e que talvez, se isso não tivesse acontecido, as
acusações contra Piso tivessem sido apresentadas com maior clareza (era verdade que eu tinha
presidido a uma reunião dos amigos do meu irmão e decidido quais as provas que cada testemunha
deveria apresentar; tinha-os de facto aconselhado a não acusar Piso de ministrar veneno no banquete
com as suas próprias mãos, mas eles tinham recusado. E tinha mantido Pompónio, o neto deste e
três dos libertos do meu irmão escondidos em segurança numa herdade perto da minha villa em
Cápua, até ao dia do julgamento. Tinha tentado também esconder Martina na casa de um mercador
meu conhecido, em Brindisi, mas Sejano descobriu-a). Bom, Tibério deixou que o meu nome fosse
incluído no voto de agradecimento; mas isso pouco significou para mim, comparado com os
agradecimentos de Agripina: ela disse que agora compreendia o que Germânico queria dizer quando
declarou, pouco antes de morrer, que o amigo mais verdadeiro que alguma vez tivera era o seu
pobre irmão Cláudio.
Os sentimentos contra Lívia eram tão fortes, que Tibério fez disso uma desculpa perante ela para
mais uma vez, não pedir ao Senado que lhe votasse o título que lhe tinha prometido tantas vezes.
Todos queriam saber qual era o significado de uma avó conceder entrevistas benevolentes à
assassina do neto e salvá-la da vingança do Senado. A resposta só podia ser que a avó tinha
instigado ela mesma o assassinato e que estava de tal forma envergonhada de si mesma, que a
mulher e os filhos da vítima não lhe sobreviveriam por muito tempo.
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CAPÍTULO XXII
Germânico estava morto, mas Tibério não se sentia muito mais seguro do que antes. Sejano
veio procurá-lo com histórias sobre o que este ou aquele homem proeminente tinha
sussurrado contra ele durante o julgamento de Piso. Em vez de dizer, como dissera uma vez
dos seus soldados, ”que importa que tenham medo de mim, desde que me obedeçam”, disse
agora a Sejano: ”que me importa que me odeiem, desde que tenham medo de mim.” A três
cavaleiros e dois senadores, que tinham sido absolutamente sinceros nas suas críticas
recentes a seu respeito, condenou-os à morte sob a acusação absurda de terem mostrado
prazer ao ouvir dizer que Germânico estava morto.
Por esta altura, o filho mais velho de Germânico, Nero, atingiu a maioridade e, embora
mostrasse poucas promessas de vir a ser um soldado tão capaz ou um administrador tão
talentoso como o pai, tinha muito da sua beleza física e doçura de carácter e a Cidade
esperava muito dele. Houve grande regozijo popular quando ele casou com a filha de
Castor e Livila, a quem a princípio chamávamos Helena por causa da sua surpreendente
beleza (o seu nome verdadeiro era Júlia), mas depois Heluo, o que significa Glutona,
porque ela estragou a sua beleza comendo excessivamente. Nero era o favorito de Agripina.
A família estava dividida, sendo de origem claudiana, em bons e maus; ou, usando as
palavras da balada maçãs azedas e doces, as maçãs azedas eram mais numerosas que as
doces. Dos nove filhos que Agripina deu a Germânico, três morreram novos duas raparigas
e um rapaz e, por aquilo que vi deles, este rapaz e a rapariga mais velha eram os melhores
dos nove. O rapaz, que morreu no dia do seu oitavo aniversário, era de tal forma um
favorito de Augusto que o velho guardava um retrato dele, vestido de Cupido, no seu quarto
e costumava beijá-lo todas as manhãs logo que saía da cama. Mas dos filhos sobreviventes
só Nero tinha um carácter genuinamente bom. Druso era taciturno e nervoso e facilmente
inclinado para o mal. Drusila era como ele. Calígula, Agripinila e a mais nova, a quem
chamávamos Lésbia, eram totalmente maus, como a mais nova das raparigas que tinham
morrido também parecia ser. Mas a cidade julgava toda a família por Nero porque,
Nota: Este Nero não deve ser confundido com o Nero que se tornou Imperador. (N da T)
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até ali, ele era o único com idade suficiente para causar uma impressão pública forte. Calígula ainda
tinha apenas nove anos de idade.
Agripina visitou-me um dia numa grande aflição, quando eu me encontrava em Roma, e pediu-me
conselho. Disse que, para onde quer que fosse, sentia que estava a ser seguida e espiada, é que isso
começava a deixá-la doente. Perguntou-me se conhecia alguém, além de Sejano, que tivesse alguma
influência sobre Tibério. Tinha a certeza de que ele decidira matá-la ou exilá-la, se conseguisse
encontrar o mais leve pretexto. Disse-lhe que só conhecia duas pessoas que tinham alguma
influência no bom sentido sobre Tibério. Uma era Cocceio Nerva e a outra era Vipsânia. Tibério
nunca conseguira arrancar do seu coração o amor por Vipsânia. Quando ela e Caio tiveram uma
neta, que com a idade de quinze anos se assemelhava exactamente a Vipsânia tal como ela era
quando esposa de Tibério, este não podia suportar a ideia de alguém a desposar a não ser ele
próprio; e a única coisa que o impediu de o fazer foi o facto dela ser sobrinha de Castor, o que
tornaria o casamento tecnicamente incestuoso, Por isso, nomeou-a Chefe das Vestais, sucedendo à
velha Occia, que acabara de morrer. Disse a Agripina que, se estabelecesse relações de amizade
com Cocceio e Vipsânia faria tudo o que estivesse ao seu alcance para a ajudar, assim como aos
seus filhos. Ela seguiu o meu conselho. Vipsânia e Caio, que sentiam muita pena dela, permitiram-
lhe que usasse livremente a sua casa e as três villas que tinham no campo e preocuparam-se bastante
com as crianças. Caio, por exemplo, escolheu novos tutores para os rapazes, porque Agripina
suspeitava que os antigos fossem agentes de Sejano. Nerva não lhe serviu de grande coisa. Era um
jurista e a maior autoridade viva em leis do contrato, sobre as quais escrevera vários livros; mas, em
todos os outros assuntos, era tão distraído e negligente que quase parecia um simplório. Foi gentil
para com ela, como era para todos, mas não compreendeu aquilo que esperava dele.
Infelizmente, Vipsânia morreu pouco depois e o efeito sobre Tibério foi imediatamente visível. Não
fez mais qualquer esforço para disfarçar a sua depravação sexual, cujos rumores todos tinham
evitado tomar à letra. Na verdade, algumas das suas perversidades eram tão chocantes e horríveis
que ninguém podia com seriedade associá-las à dignidade de um Imperador de Roma, o sucessor
escolhido por Augusto. Nenhuma mulher e nenhum rapaz estava agora em segurança diante dele,
nem mesmo as mulheres e os filhos dos senadores; e, se prezavam as próprias vidas e as dos
maridos e pais, faziam de boa vontade o que era esperado deles. Mas uma mulher, esposa de um
Cônsul, suicidou-se depois na presença dos amigos, dizendo-lhes que tinha sido obrigada a salvar a
jovem filha da concupiscência de Tibério, consentindo em se prostituir ela própria, o que era
vergonha suficiente; mas nessa altura o Bode Velho aproveitara-se da
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sua complacência para com ele, obrigando-a a actos de tal forma abomináveis e sujos que ela
preferia morrer a continuar vivendo com tais recordações.
Nesta altura, puseram a circular uma canção popular que começava com as palavras: ”Porquê, oh,
porquê o Bode Velho...?” Eu teria vergonha de citar o resto da canção, mas ela tinha tanto de
espirituosa como de obscena e pensava-se que tivesse sido escrita pela própria Lívia. Lívia foi a
autora de várias sátiras semelhantes contra Tibério, que fazia circular anonimamente através de
Urgulanila. Sabia que, mais tarde ou mais cedo, chegariam até ele, que era extremamente sensível a
sátiras; pensava que, enquanto sentisse a sua posição insegura por causa disso, não ousaria romper
com ela. Fazia agora também todos os esforços para ser agradável a Agripina e disse-lhe mesmo em
confidência que Tibério sozinho é que tinha dado a Piso as instruções para apanhar Germânico.
Agripina não confiava nela, mas era evidente que Lívia e Tibério se tinham tornado inimigos e
sentia, disse-me, que, se tivesse que escolher entre a protecção de um ou de outro, preferiria estar
sob a protecção de Lívia. Eu, por mim, sentia-me inclinado a concordar com Agripina. Tinha
observado que nenhum favorito de Lívia tinha ainda sido feito vítima dos informadores de Tibério.
Mas tinha grandes apreensões sobre o que poderia acontecer quando Lívia morresse.
O que começara a impressionar-me como particularmente agourento, embora não soubesse explicar
totalmente os meus sentimentos, era o laço forte entre Lívia e Calígula. Calígula tinha em geral
apenas duas maneiras de se comportar: ou era insolente ou servil. Para Agripina, para minha mãe e
para mim, assim como para os irmãos e para Castor, por exemplo, era insolente. Para Sejano,
Tibério e Lívia era servil. Mas para Lívia ele era qualquer coisa mais, difícil de exprimir. Era quase
como seu amante. Não era o habitual laço de ternura que liga os rapazinhos às avós ou bisavós
indulgentes, embora seja verdade que ele, certa vez, se deu a grandes trabalhos para copiar uns
versos afectuosos para o seu septuagésimo quinto aniversário e que ela lhe estava sempre a dar
presentes. O que quero dizer é que se tinha a impressão forte de existir um segredo desagradável
entre ambos - não, não pretendo sugerir que houvesse qualquer relação indecente entre eles.
Agripina sentia isto também, disse-mo, mas não conseguia descobrir nada de definido.
Um dia, comecei a compreender porque Sejano tinha sido tão delicado comigo. Sugeriu-me o
noivado entre a filha dele e o meu filho Drusilo. O meu sentimento pessoal contra esse casamento
era que, para a rapariga, que me parecia uma jovem bastante agradável, seria uma infelicidade estar
ligada a Drusilo, que cada vez que via mais labrego me parecia. Mas não podia dizê-lo. Ainda
menos podia dizer que detestava a ideia de estar, ainda que remotamente, ligado por um casamento
a um patife
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como Sejano. Ele notou a minha hesitação em responder e quis saber se eu achava a ligação abaixo
da dignidade da minha família. Gaguejei e disse que não, certamente que não: o seu ramo da família
Aeliana era muito honroso. Sejano, ainda que filho de um simples cavaleiro da província, tinha sido
adoptado ainda jovem por um rico senador da família Aeliana, um Cônsul, que lhe deixara todo o
seu dinheiro; havia um escândalo ligado a esta adopção, mas o facto era que Sejano era um Aeliano.
Ele insistiu ansiosamente para que eu explicasse a minha hesitação e perguntou se tinha algum
sentimento contra essa união; pedia desculpa por ter falado nisso, mas que o fizera apenas por
sugestão de Tibério. Assim, disse-lhe que, se Tibério Propunha o casamento, eu teria muito prazer
em dar o meu consentimento:
que o meu sentimento principal era que a idade de quatro anos era demasiado prematura para uma
rapariga ficar noiva de um rapaz de treze, que teria vinte e um anos antes de poder consumar
legalmente o casamento e que, nessa altura, já poderia ter criado outras ligações. Sejano sorriu e
disse que confiava em mim para manter o rapaz fora de complicações graves. Houve grande alarme
na Cidade quando se soube que Sejano se iria ligar à família Imperial, mas todos se apressaram a
felicitá-lo, incluindo eu próprio. Alguns dias mais tarde, Drusilo estava morto. Foi encontrado atrás
de um arbusto no jardim de uma casa em Pompeia, para onde tinha sido convidado, de Herculano,
por alguns amigos de Urgulanila. Uma pequena pêra foi encontrada entalada na garganta dele. Foi
dito no inquérito que o tinham visto a atirar fruta ao ar e a tentar apanhá-la com a boca: a sua morte
fora, indubitavelmente, devida a um acidente. Mas ninguém acreditou nisto. Era evidente que Lívia,
não tendo sido consultada sobre o casamento de um dos seus bisnetos, arranjara maneira de ele ser
estrangulado e a pêra enfiada depois pela garganta abaixo. Como era costume em tais casos, a
pereira foi acusada de assassinato e sentenciada a ser arrancada e queimada.
Tibério pediu ao Senado que decretasse Castor Protector do Povo, o que equivalia a indicá-lo como
herdeiro da monarquia. O pedido causou alívio geral. Foi tomado como um sinal de que Tibério
estava consciente das ambições de Sejano e que tencionava controlá-las. Quando o decreto foi
promulgado, alguém propôs que ele fosse gravado nas paredes da Casa a letras de ouro. Ninguém
compreendeu que foi por sugestão do próprio Sejano que Castor foi honrado dessa forma: ele
sugerira a Tibério que Castor, Agripina, Lívia e Caio tinham formado uma aliança e propôs esta
como a melhor maneira de ver quem mais pertencia ao partido. Foi um amigo dele que fez a
proposta sobre a inscrição a ouro e os nomes dos senadores que apoiaram a extravagante moção
foram cuidadosamente anotados. Castor era mais popular agora entre os melhores cidadãos do que
fora antes. Abandonara os seus hábitos de bebida - a morte de Germânico parecia tê-lo chamado à
razão - e, embora tivesse uma
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paixão excessiva pelo derramamento de sangue nas lutas de gladiadores, era um magistrado
consciente e um amigo leal. Eu tinha pouca ligação com ele, mas, quando nos encontrávamos,
tratava-me com muito mais consideração do que antes da morte de Germânico.
O ódio amargo entre ele e Sejano ameaçava sempre deflagrar numa contenda, mas Sejano teve
sempre o cuidado de não provocar Castor enquanto não pudesse tirar proveito disso. A ocasião
chegara. Sejano foi ao Palácio felicitar Castor pelo seu protectorado e encontrou-o no estúdio com
Livila. Não havia nenhum escravo ou liberto presente; portanto, Sejano podia dizer o que lhe
apetecesse. Entretanto, Livila estava tão apaixonada por ele que podia contar com ela para trair
Castor da mesma forma que em tempos traíra Póstumo - de alguma forma, ele conhecia essa
história - e tinha mesmo havido uma conversa entre ambos, na qual tinham lamentado não serem
Imperador e Imperatriz para fazerem o que lhes apetecesse. Sejano disse:
- Bom, Castor, eu preparei-te bem as coisas! Parabéns?
Castor olhou-o irado. Só era Castor para alguns mais íntimos. Ganhara o nome, como penso que já
expliquei, por causa da sua semelhança com um gladiador bem conhecido, mas o nome ficara-lhe
porque um dia se tinha enfurecido numa discussão com um cavaleiro. O cavaleiro dissera-lhe sem
rodeios num banquete que ele estava bêbedo e incapaz, e Castor (gritando ”Estou bêbedo e incapaz,
estou? Eu mostro-te se estou bêbedo e incapaz”) inclinou-se no seu leito e deu um tal golpe na
barriga do cavaleiro que ele vomitou tudo o que comera. Agora, Castor disse para Sejano:
- Não permito a ninguém que se me dirija com uma alcunha, a não ser um amigo ou um igual, e tu
não és uma coisa nem outra. Para ti sou Tibério Druso César. E não sei o que pretendes ter
preparado para mim. Também não quero as tuas felicitações, seja pelo que for. Portanto sai. Livila
disse:
- Se me permites, acho uma cobardia insultares Sejano desta forma, para não falar da ingratidão de
o enxotares como um cão quando ele vem felicitar-te pelo teu protectorado. Sabes bem que teu pai
nunca to teria concedido, a não ser por recomendação de Sejano.
Castor respondeu:
- Estás a dizer disparates, Livila. Este espião sujo não teve mais a ver com a minha nomeação do
que o meu eunuco, Lygdus. Está só a fazer-se de importante. E diz-me, Sejano, que história é esta
de cobardia? Sejano disse:
- A tua mulher está certíssima. Tu és um cobarde. Não terias ousado falar comigo desta forma antes
de eu te ter feito nomear Protector, tornando-te uma pessoa sacrossanta. Sabes perfeitamente que te
teria dado uma sova.
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- E teria sido bem feito, - disse Livila.


Castor olhou de um para o outro e disse lentamente:
- Quer dizer que há qualquer coisa entre ambos, não é verdade? Livila sorriu desdenhosa:
- E se houver? Quem é o melhor dos dois? Castor gritou:
- Muito bem, minha menina, vamos ver. Esquece por um momento que eu sou o Protector do
Povo, Sejano, e levanta os punhos.
Sejano cruzou os braços.
- Eu disse que levantasses os punhos, cobarde.
Sejano não disse nada e Castor, abrindo a mão, bateu-lhe com força.
- Agora sai!
Sejano saíu com uma obediência irónica e Livila foi atrás dele.
Esta bofetada decidiu o destino de Castor. O relato que Tibério ouviu de Sejano, que foi procurá-lo
ainda com a marca da mão de Castor na face, foi que Castor estava embriagado quando Sejano o
felicitara pela nomeação e lhe batera na cara dizendo:
- Sim, é bom sentir que posso fazer isto sem receio de que me batas também. E podes dizer ao meu
pai que farei o mesmo a cada um dos seus espiões sujos.
Livila confirmou isto no dia seguinte, quando foi queixar-se de que Castor lhe tinha batido; disse
que ele lhe batera por ela ter afirmado que estava decepcionada com ele por ter batido num homem
que não podia ripostar e por ter insultado o pai. Tibério acreditou neles. Não disse nada a Castor,
mas colocou uma estátua de Sejano em bronze no teatro de Pompeia, uma honra extraordinária para
ser feita a um homem ainda em vida. Isto foi interpretado como querendo dizer que Castor não
estava nas boas graças de Tibério, apesar do protectorado (Sejano e Lívia tinham feito circular a sua
versão do confronto) e que Sejano era agora a única pessoa cujas boas graças valia a pena
conquistar. Foram portanto feitas numerosas réplicas da estátua, que os seus partidários puseram em
lugar de honra nas suas entradas, à direita da estátua de Tibério; estátuas de Castor raramente se
viam. O rosto de Castor mostrava agora tão claramente o seu ressentimento sempre que se
encontrava com o pai, que a tarefa de Sejano foi facilitada. Disse a Tibério que Castor andava a
sondar vários senadores quanto à sua disposição de o apoiarem se ele usurpasse a monarquia e que
alguns deles lhe tinham prometido ajuda. Aqueles que pareciam mais perigosos a Tibério foram
portanto detidos, sob a acusação familiar de blasfemarem contra Augusto. Um homem foi
condenado à morte por ter entrado numa latrina com uma moeda de ouro de Augusto na mão.
Outro, foi acusado de ter incluído uma estátua de Augusto numa lista de móveis para venda numa
villa no campo. Teria sido condenado à morte, se o Cônsul que estava a julgar o caso não tivesse
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pedido a Tibério que desse primeiro o seu voto. Tibério teve vergonha de votar a pena de morte e
o homem foi absolvido, mas condenado logo em seguida por outra razão.
Castor começou a ficar alarmado e pediu ajuda a Lívia contra Sejano. Lívia disse-lhe que não
tivesse medo: ela em breve chamaria Tibério à razão. Mas Lívia não tinha confiança em Castor
como aliado. Foi ter com Tibério e disse-lhe que Castor acusara Sejano de debochar Livila, de
abusar da sua posição de confiança chantageando homens ricos em nome de Tibério e de almejar à
monarquia, que ele dissera que, a menos que Tibério afastasse o patife, em breve tomaria o assunto
nas suas próprias mãos, tendo pedido a colaboração dela. Pondo o caso desta forma a Tibério,
esperava fazê-lo sentir tanta desconfiança de Sejano quanto de Castor e, assim, retomar o velho
hábito de dependência em relação a ela. Pelo menos durante algum tempo, conseguiu-o. Mas
depois, um acidente repentino convenceu Tibério de que Sejano lhe era tão dedicadamente leal
como afirmava e como todos os seus actos até ali tinham demonstrado. Estavam um dia juntos num
piquenique com três ou quatro amigos numa gruta natural à beira mar, quando se ouviu de repente
um chocalhar; num ápice, parte do tecto desabou, matando alguns dos presentes e enterrando
outros, ao mesmo tempo que bloqueava a entrada. Sejano agachou-se com as costas arqueadas por
cima de Tibério - nenhum dos dois se magoou -, para o proteger de outro possível desmoronamento.
Quando os soldados os retiraram, uma hora mais tarde, ele foi encontrado ainda na mesma posição.
Trasilo também fez subir a sua reputação nesse dia: ele tinha dito a Tibério que, por volta do meio-
dia haveria uma hora de escuridão. Tibério tinha a garantia de Trasilo de que sobreviveria a Trajano
por muitos anos e que Sejano não era perigoso para ele. Penso que Sejano tenha arranjado isto com
Trasilo, mas não tenho provas: Trasilo não era totalmente incorruptível, mas, quando fazia profecias
para satisfazer os desejos dos seus clientes, elas pareciam sair tão bem como as profecias normais.
Tibério sobreviveu a Sejano, na realidade, por vários anos.
Tibério deu mais um sinal público de que Castor perdera as boas graças, censurando-o no Senado
por causa de uma carta que escrevera. Castor escusara-se de atender o sacrifício quando a Casa
abriu depois da pausa do Verão, explicando que um outro assunto público o impedia de regressar à
Cidade a tempo. Tibério disse, desdenhoso, que qualquer pessoa pensaria que o jovem estava em
campanha na Germânia ou numa visita diplomática à Arménia: quando o único assunto público que
o detinha era andar de barco e tomar banho em Terracina. Disse que ele próprio, agora no declínio
da vida, poderia ser desculpado por uma ausência ocasional da cidade: poderia alegar que a sua
energia ficara exausta devido ao prolongado serviço público com a espada e com a pena. Mas que
outra coisa, a não ser a insolência, poderia deter o filho?
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Isto era extremamente injusto: Castor tinha sido encarregado de fazer um relatório sobre a defesa
costeira durante essa pausa e não conseguira ainda reunir todos os elementos. Em vez de perder
tempo numa viagem a Roma para depois voltar a Terracina, estava a terminar a sua tarefa.
Quando Castor regressou, adoeceu quase imediatamente. Os sintomas eram os de uma tuberculose
galopante. Perdeu a cor e o peso e começou a cuspir sangue. Escreveu ao pai e pediu-lhe que viesse
visitá-lo no seu - acreditava que quarto - ele vivia na outra extremidade do Palácio-,
estava a morrer e pedia-lhe que o perdoasse por qualquer ofensa que tivesse cometido. Sejano
advertiu Tibério contra essa visita: a doença podia ser real, mas, por outro lado, podia facilmente
tratar-se de uma armadilha para o assassinar. Assim, Tibério não o visitou e, poucos dias depois,
Castor morreu.
A morte de Castor não causou muita pena. A violência do seu temperamento e a reputação de
crueldade tinham deixado a Cidade muito apreensiva sobre o que aconteceria se sucedesse ao pai.
Poucos acreditavam na sua modificação recente. A maioria pensava que fora apenas um truque para
ganhar a afeição popular e que teria sido tão mau como o pai logo que se encontrasse no lugar deste.
Agora, os três filhos de Germânico estavam a crescer - Druso também
acabava de atingir a maioridade - e eram indubitavelmente os herdeiros de Tibério. Mas o Senado,
por respeito para Tibério, carpiu a morte de Castor o mais ruidosamente possível e votou as mesmas
honras em sua memória que tinha votado por Germânico. Tibério não fingiu qualquer desgosto
nesta ocasião e pronunciou o panegírico que tinha preparado para Castor numa voz firme e soante.
Quando viu lágrimas rolando pela face de alguns senadores, fez ouvir, num aparte sonoro para
Sejano, que estava a seu lado:
- Pffi! Isto aqui cheira a cebola!
Seguidamente, Caio levantou-se para cumprimentar Tibério pela forma como conseguira dominar o
desgosto. Recordou que mesmo o Deus Augusto, durante sua presença entre eles em forma mortal,
dera largas aos seus sentimentos quando da morte de Marcelo, seu filho adoptivo (nem mesmo filho
verdadeiro), que, quando estava a agradecer à Casa a sua simpatia, tivera que fazer uma pausa a
meio, incapaz de continuar com a emoção. Enquanto que o discurso que acabavam de ouvir era uma
obra-prima de contenção. Posso dizer aqui que, quando quatro ou cinco meses mais tarde delegados
chegaram de Tróia para dar a Tibério as condolências pela morte do seu filho único, Tibério
agradeceu-lhes desta forma:
- E eu dou-vos as minhas condolências, senhores, pela morte de Heitor.
Então, Tibério mandou chamar Nero e Druso e, quando estes chegaram à Casa, tomou-os pela mão
e apresentou-os:
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- Meus senhores, há três anos, entreguei estas crianças sem pai ao tio, meu querido
filho, que hoje todos nós choramos amargamente, desejando que ele os adoptasse como
filhos, embora já tivesse filhos dele e os criasse como dignos herdeiros da tradição familiar.
- ”Ouçam, ouçam!”, Gritou Caio, seguindo-se um aplauso geral - Mas agora, que ele foi
arrancado do meio de nós pelo destino cruel - gemidos e lamentos
- faço-vos o mesmo pedido. Na presença dos Deuses, diante do vosso amado País, suplico-
vos, recebei-os sob a vossa protecção, tomai-os sob a vossa orientação, a estes nobres
bisnetos de Augusto, descendentes de antepassados cujos nomes ressoam na história
romana: fazei com que o vosso dever e o meu para com eles sejam honrosamente
cumpridos. Netos, estes senadores estão agora no lugar de vossos pais, e o vosso
nascimento é tal que, seja qual for o bem ou mal que recaia sobre vós, ele significará o bem
ou o mal de todo o Estado - Aplausos ribombantes, lágrimas, bênçãos, brados de lealdade.
Mas, em vez de ficar por ali, estragou todo o efeito terminando no tom já familiar com as
velhas frases gastas sobre como se iria retirar em breve e restaurar a república - quando ”os
Cônsules ou qualquer outra pessoa tirassem o fardo do governo dos seus ombros idosos.”
Se não tencionava que Nero e Druso (ou um deles) fossem seus sucessores imperiais, o que
pretendia ao identificar o seu destino tão de perto com o do Estado?
O funeral de Castor foi menos impressionante que o de Germânico, tendo sido marcado por
muito poucas expressões de genuíno desgosto; por outro lado, foi muito mais magnífico.
Todas as máscaras de família dos Césares e Claudianos foram usadas na procissão,
começando com as de Eneias, o fundador da Família Juliana, e Rómulo, o fundador de
Roma, e terminando com as de Caio, Lúcio e Germânico. A máscara de Júlio César
apareceu porque, como Rómulo, ele era apenas um semi-deus, mas a de Augusto não,
porque ele era uma divindade maior.
Sejano e Livila tinham que considerar agora a maneira de concretizarem a sua ambição de
se tornarem Imperador e Imperatriz. Nero, Druso e Calígula eram empecilhos e teriam que
ser removidos. Três parecia um número demasiado elevado para fazer desaparecer com
segurança, mas, como Livila fez notar, a avó parecia ter conseguido livrar-se de Caio,
Lúcio e Póstumo quando quisera colocar Tibério no poder. E Sejano estava nitidamente em
muito melhor posição do que Lívia para levar por diante os seus planos. Para mostrar a
Livilla que tencionava realmente casar com ela, como prometera, Sejano divorciou-se da
mulher Apicata, com quem tivera três filhos. Acusou-a de adultério e afirmou que estava
prestes a tornar-se mãe de um filho que não era seu. Não nomeou publicamente o nome do
amante dela, mas disse particularmente a Tibério que suspeitava de Nero. Nero, disse,
estava a ficar com má reputação por causa das
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suas aventuras com as esposas de homens proeminentes e parecia pensar que, como presumível
herdeiro da monarquia, podia comportar-se agora como lhe aprouvesse. Livila, entretanto, fazia
todos os possíveis para afastar Agripina da protecção de Lívia, advertindo-a de que Lívia estava
apenas a usá-la como arma no seu conflito com Tibério - o que por acaso era verdade - e prevenindo
Lívia, por intermédio de uma das suas aias, de que Agripina estava apenas a usá-la pelas mesmas
razões
- o que também era verdade. Fez com que cada uma delas acreditasse que a outra jurara matá-la
logo que deixasse de lhe ser útil.
Os doze pontífices passaram agora a incluir Nero e Druso nas preces habituais que ofereciam pela
saúde e prosperidade do Imperador e os outros sacerdotes seguiram o seu exemplo. Tibério, como
Sumo Pontífice, enviou-lhes uma carta a queixar-se, dizendo que eles não tinham feito diferença
entre aqueles rapazes e a sua pessoa, um homem que detivera honrosamente a maior parte dos mais
altos cargos do Estado vinte anos antes deles nascerem, e tudo o resto depois disso: não era decente.
Chamou-os à sua presença e perguntou-lhes se Agripina os tinha pura e simplesmente convencido a
fazer esse acrescento à oração, ou se ela os coagira a fazê-lo por meio de ameaças. Eles negaram,
claro, que ela tivesse feito qualquer das coisas, mas ele não se convenceu; quatro dos doze,
incluindo Caio, estavam de alguma forma ligados a ela pelo casamento e cinco outros mantinham
relações de amizade com ela e com os filhos. Tibério repreendeu-os severamente. No seu discurso
seguinte, preveniu o Senado para ”não conceder mais distinções prematuras que possam encorajar
os espíritos estonteados de indivíduos jovens a entrever aspirações presunçosas.”
Agripina encontrou um aliado inesperado em Calpúrnio Piso. Ele disse-lhe que defendia o tio Gneo
Piso apenas por respeito para com as honras da família e que não devia ser considerado como seu
inimigo; faria tudo o que pudesse para a proteger e aos seus filhos. Mas Calpúrnio não viveu muito
tempo depois disto. Foi acusado no Senado de ”palavras traiçoeiras ditas em privado”, de guardar
veneno em casa e de ter ido ao Senado armado com um punhal. Estes dois últimos artigos eram tão
absurdos que foram abandonados, mas foi fixada uma data para julgamento sob a acusação de
palavras traiçoeiras. Suicidou-se antes de se realizar o julgamento,
Tibério acreditou na história de Sejano de que havia um partido secreto, chamado de Verde Claro,
que estava a ser formado por Agripina, a marca do qual era uma extravagante parceria com a
facção do Verde Claro das corridas de carros no Circo. Nestas corridas havia quatro cores escarlate,
branco, azul marinho e verde claro. A facção do Verde Claro era nessa altura a que gozava de maior
preferência e a escarlate a menos
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popular. Por isso, quando Tibério ia ver as corridas nos feriados públicos, como era obrigado a fazer
dada a sua posição oficial - embora até aí não estivesse de todo interessado nelas e desencorajasse
conversas vazias sobre corridas no Palácio ou nos banquetes para os quais era convidado -,
começou pela primeira vez a notar o tipo de apoio que as diferentes cores recebiam e ficou
altamente perturbado ao ouvir o Verde Claro ser tão aclamado. Fora-lhe igualmente dito por Sejano
que Escarlate era o símbolo secreto usado pelos Verdes Claros quando desejavam referir-se aos seus
próprios apoiantes e notou que, sempre que um carro Escarlate ganhava, o que era raro, ouviam-se
fortes gemidos e assobios. Sejano era esperto: sabia que Germânico sempre apoiara o Verde Claro e
que Agripina, Nero e Druso, por razões sentimentais, continuavam a preferir essa cor.
Havia um nobre chamado Sílio que fora durante muitos anos comandante de uma unidade no Reno.
Acho que já falei dele como sendo o General dos quatro Regimentos da Germânia que não tomou
parte no grande motim. Tinha sido o comandante mais capaz do meu irmão e foram-lhe concedidos
ornamentos triunfais pelos seus sucessos contra Hermann. Recentemente, à frente de tropas
combinadas das Províncias Superior e Inferior, debelara uma perigosa rebelião das tribos francesas
nas vizinhanças do lugar onde nasci, Lião. Ele não era um homem modesto, mas também não era
particularmente gabarola e talvez tenha realmente dito em público, como foi referido, que, se não
fosse a sua judiciosa orientação desses quatro regimentos durante o motim, eles se teriam juntado
aos amotinados e que, portanto, se não fosse ele, Tibério não teria qualquer Império para governar -
bom, o que não estava longe da verdade. Mas naturalmente Tibério não gostava da ideia, quanto
mais não fosse porque os regimentos amotinados eram, tal como expliquei, aqueles com os quais
ele próprio tinha maior ligação. A mulher de Sílio, Sósia, era a melhor amiga de Agripina.
Aconteceu que Sílio, nos grandes Jogos Romanos que tiveram lugar nos princípios de Setembro,
estava a apostar fortemente na cor Verde Claro. Sejano gritou-lhe:
- Aposto contigo o que quiseres. O meu dinheiro está no Escarlate. Sílio respondeu-lhe:
- Estás a apoiar a cor errada, meu caro. O condutor Escarlate não faz a menor ideia de como usar as
rédeas. Tenta fazer tudo com o chicote. Aposto mil contigo em como o Verde Claro vai ganhar.
Aqui o jovem Nero diz que vai até quinze mil; ele é um entusiasta do Verde Claro.
Sejano olhou de maneira significativa para Tibério, que ouvira toda a conversa e estava espantado
com a ousadia de Sílio. Pareceu-lhe um bom presságio que o condutor do carro Verde Claro tivesse
caído perto da marca na última volta e que o Escarlate tivesse ganhado sem dificuldade.
Dez dias mais tarde, Sílio foi acusado perante o Senado. A acusação era alta traição. Foi acusado de
ter conspirado na revolta francesa na sua
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fase inicial e de ter tomado um terço do saque como pagamento da sua não-intervenção, de ter
tornado a sua vitória numa desculpa para novo saque das províncias leais e de ter imposto depois
taxas de emergência excessivas sobre a província para pagar as despesas da campanha. Sósia foi
acusada de cumplicidade nos mesmos crimes. Sílio tornara-se impopular no Palácio depois da
rebelião francesa. Tibério incorrera em pesadas críticas por não ter entrado em campo contra os
rebeldes e por ter mostrado mais interesse nos julgamentos por traição que estavam a decorrer ao
tempo, do que na campanha. Desculpara-se perante o Senado invocando a sua idade - e Castor
estava ocupado com assuntos importantes
- e explicou que se mantivera durante todo o tempo em contacto com o quartel-general de Sílio,
dando-lhe conselhos valiosos. Tibério era muito sensível a toda a questão da revolta francesa.
Quando os franceses foram derrotados, ele tinha sido coberto de ridículo pela moção de um senador
jocoso, um imitador dos truques de Caio, defendendo que devia ser-lhe concedido um triunfo como
o homem realmente responsável pela vitória. Ficou tão descontente com isto - concluindo que, de
qualquer forma a vitória não merecia ser falada -, que ninguém ousou votar a Sílio os ornamentos
triunfais que ele bem merecia. Sílio ficara decepcionado e aquilo que dissera sobe o motim do Reno
fora devido ao ressentimento pela ingratidão de Tibério.
Sílio não se deu ao trabalho de responder às acusações de traição. Não era culpado de qualquer
entendimento com os rebeldes e se os soldados sob o seu comando tinham, em alguns casos,
ignorado a diferença entre os bens dos rebeldes e os bens dos partidários, isso já era de esperar:
muitos falsos partidários estavam a financiar secretamente a rebelião. Quanto aos impostos, a
verdade era que Tibério lhe prometera uma doação especial, do Tesouro, para cobrir as despesas da
campanha e para indemnizar os cidadãos romanos pela perda das suas casas, colheitas e gado.
Antecipando o pagamento desta doação, Sílio impusera uma taxa a certas tribos do norte,
prometendo reembolsar o dinheiro quando ele lhe fosse pago por Tibério: o que nunca aconteceu.
Sílio era mais pobre em 20.000 moedas de ouro depois da revolta do que antes, porque tinha
reunido um destacamento de voluntários a cavalo, que armou e pagou às suas custas. O seu
principal acusador, que era um dos Cônsules do ano, apresentou as acusações de extorsão com
grande malícia. Ele era amigo de Sejano e era também filho do governador militar da Província
Inferior, que desejara tomar o comando supremo das hostes romanas contra os franceses, tendo sido
forçado a afastar-se a favor de Sílio. Este não podia sequer apresentar prova da doação prometida
por Tibério, porque a carta na qual ela era referida estava selada com a Esfinge. E as acusações de
extorsão eram de qualquer forma irrelevantes, porque o julgamento dizia respeito a traição e não a
extorsão.
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Por fim, ele falou:


- Meus senhores, eu podia dizer muita coisa em minha defesa, mas não vou dizer nada, porque este
julgamento não está a ser conduzido de uma forma constitucional e o veredicto há muito que foi
decidido. Compreendi que o meu verdadeiro crime foi ter dito que, se não fosse pela minha
actuação em relação a eles, os regimentos da Germânia Superior ter-se-iam amotinado. Ponho
agora a minha culpabilidade nesta questão fora de qualquer dúvida. Direi que, se não fosse pela
forma como Tibério lidou com eles anteriormente, os soldados da Germânia Inferior não se teriam
amotinado. Meus senhores, eu sou vítima da avareza, inveja, crueldade, tirania de um...
O resto do discurso foi afogado por um brado de protesto horrorizado saído da Casa. Sílio saudou
Tibério e saíu com a cabeça erguida. Quando chegou a casa, abraçou Sósia e os filhos, transmitiu
uma afectuosa mensagem de despedida a Agripina, Nero, Caio e aos seus outros amigos e,
retirando-se para o seu quarto, atravessou a garganta com a espada.
A sua culpabilidade foi considerada como provada pelos insultos a Tibério. Todos os seus bens
foram confiscados, com a promessa de que os habitantes das província seriam reembolsados dos
impostos injustos através desses bens, e que os seus acusadores receberiam um quarto do que
ficasse, como a lei requeria, e que o dinheiro que lhe fora deixado segundo o testamento de Augusto
como penhor de lealdade devia ser restituído ao Tesouro como tendo sido pago por engano. Os
habitantes das províncias não ousaram insistir no reembolso do imposto e, assim, Tibério guardou
três quartos do espólio: na realidade, já não havia uma distinção nítida entre o Tesouro Militar, o
Tesouro Público e o Tesouro Privado. Esta foi a primeira vez que ele beneficiou directamente da
confiscação de um espólio ou que permitiu que um insulto proferido contra ele fosse transformado
em prova de traição.
Sósia tinha bens pessoais e, para lhe salvar a vida e impedir que os filhos ficassem na miséria, Caio
apresentou uma moção para que ela fosse exilada e metade dos bens entregues aos seus acusadores
e a outra metade deixada aos filhos. Mas um primo de Agripina pelo casamento, que era
confederado de Caio, propôs que os acusadores recebessem apenas um quarto, que era o mínimo
legal, dizendo que Caio era mais leal ao Imperador do que a Sósia; esta, era sabido, pelo menos
tinha censurado o marido, quando ele jazia moribundo, pelas suas declarações traiçoeiras e cheias
de ingratidão. Assim, Sósia foi apenas exilada - foi viver em Marselha; e como Sílio, logo que
soube que o julgamento lhe custaria a vida, dera em segredo a Caio e a alguns outros amigos a
maior parte do seu dinheiro para que o guardassem para os filhos, a família ficou em boa situação.
O filho mais velho viveu o tempo suficiente para me causar grandes aborrecimentos.
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A partir de agora, Tibério, que até ali fizera as suas acusações de traição ligadas a supostas
blasfémias contra Augusto, deu cada vez maior ênfase ao édito promulgado no primeiro ano da sua
monarquia, segundo o qual era traição da parte de quem quer que fosse atacar de alguma forma a
sua honra e reputação. Acusou um senador, que suspeitava de pertencer ao partido de Agripina, de
ter recitado um epigrama grosseiro visando a sua pessoa. O facto era que a mulher do senador uma
manhã reparou numa folha de papel que estava pregada a uma certa altura no portão da casa. Pediu
ao marido que lesse o que dizia o papel - ele era mais alto. O senador decifrou-o devagar:
Agora já não se embriaga com vinho Como se embriagava então: Aquece-se com uma taça mais
rica O sangue de homens assassinados.
Inocentemente, ela perguntou o que queriam dizer os versos, ao que ele respondeu:
- Não é seguro explicá-lo em público, minha querida.
Um informador profissional estava junto ao portão para a hipótese de, quando o senador lesse o
epigrama, que era obra de Lívia, dizer alguma coisa que valesse a pena relatar. O informador foi
direito a Sejano. O próprio Tibério interrogou o senador, perguntando-lhe o que queria dizer com
”não ser seguro”, e a quem, na sua opinião, se dirigia o epigrama. O senador procurou esquivar-se e
não deu nenhuma resposta directa. Tibério disse então que muitos libelos tinham sido postos a
circular quando era mais jovem, todos eles acusando-o de beberrão e que, nos últimos anos, os
médicos lhe tinham ordenado que se abstivesse de beber vinho por causa de uma tendência para a
gota, e que outros libelos tinham sido publicados ultimamente acusando-o de sanguinário.
Perguntou ao acusado se não tinha conhecimento destes factos e se pensava que o epigrama se
pudesse referir a alguém que não fosse o seu Imperador. O pobre homem concordou que tinha
ouvido os libelos sobre a embriaguez de Tibério, mas que sabia que, na verdade, não tinham
fundamento, e que não estabelecera qualquer ligação no seu espírito entre eles e o que estava
pregado no seu portão. Foi-lhe depois perguntado porque não informara o Senado sobre os
primeiros libelos, como era seu dever. Ele respondeu que, quando os ouvira, ainda não era crime
punível escutar ou repetir um epigrama, por mais grosseiro, escrito contra quem quer que fosse,
mesmo uma pessoa virtuosa; não era traição pronunciar ou repetir grosserias dirigidas mesmo
contra o próprio Augusto, desde que não fossem publicadas por escrito. Tibério perguntou a que
tempos ele se referia, pois
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Augusto, no fim da vida, também proclamara um édito contra as grosserias faladas. O senador
respondeu:
- Foi durante o teu terceiro ano em Rodes. Tibério gritou:
- Meus senhores, como permitis que este indivíduo me insulte desta forma?
Assim, o Senado condenou-o a ser atirado da rocha Tarpeia, um castigo geralmente reservado aos
piores traidores - generais que vendiam batalhas ao inimigo e coisas semelhantes.
Outro homem, um cavaleiro, foi condenado à morte por escrever uma tragédia sobre o Rei
Agamémnon, na qual a rainha de Agamémnon, que o matou no banho, gritava enquanto erguia o
machado:
Fica sabendo, tirano sanguinário, que não é crime Vingar assim o mal que mefoifeito.
Tibério disse que a figura de Agamémnon o visava a ele e que os versos citados eram um
incitamento para que o assassinassem. Assim, a tragédia, da qual todos se tinham rido por ter sido
composta de forma tão desajeitada e pobre, ganhou uma espécie de dignidade por ter tido todas as
suas cópias reunidas e queimadas e o seu autor executado. Este processo foi seguido, dois anos mais
tarde - mas estou a escrevê-lo agora porque a história de Agamémnon. me faz recordar -, por um
outro contra Cremúcio Cordo, um velho que entrara em colisão com Sejano algum tempo antes, por
uma ninharia. Sejano, ao entrar na Casa num dia de chuva, tinha pendurado a capa num cabide que
sempre fora o de Cremúcio e este, quando entrou, não sabendo que a capa pertencia a Sejano, tinha-
a mudado para outro cabide para pendurar a sua. A capa de Sejano tinha caído do novo cabide e
alguém com as sandálias enlameadas tinha-a pisado. Sejano retaliou de diversas maneiras cheias de
malícia e Cremúcio acabou por detestar a tal ponto a cara dele e o som do seu nome que, quando
ouviu dizer que a estátua de Sejano tinha sido colocada no Teatro de Pompeia, exclamou:
- Isso dá cabo do teatro.
Por isso, foi nomeado perante Tibério como um dos principais simpatizantes de Agripina. Mas
como ele era um velho venerável e brando, sem um inimigo no mundo além de Sejano e nunca dizia
uma palavra além do necessário, era difícil apoiar qualquer acusação contra ele com provas que
mesmo um Senado amedrontado pudesse aceitar decentemente. No final, Cremúcio foi acusado de
ter escrito em louvor de Brutus e Cássio, os assassinos de Júlio César. A prova apresentada era um
trabalho histórico que ele escrevera trinta anos antes e que se sabia que o próprio
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Augusto, filho adoptivo de Júlio, incluíra na sua biblioteca particular e consultava ocasionalmente.
Cremúcio fez uma defesa fogosa contra esta acusação absurda, dizendo que Brutus e Cássio
estavam mortos há tanto tempo e tinham sido louvados tantas vezes pelo seu feito por historiadores
subsequentes, que ele não podia acreditar que o julgamento não fosse uma brincadeira uma
brincadeira como a que um jovem viajante sofrera recentemente na cidade de Larissa. Este jovem
foi publicamente acusado de ter assassinado três homens, embora eles não passassem de odres com
vinho, suspensos no exterior de uma loja, que ele esquartejara na escuridão por os ter confundido
com ladrões. Mas este julgamento de Larissa tivera lugar no festival anual do Riso, o que deu certa
força aos acontecimentos e o jovem era um ébrio, demasiado pronto com a espada e que talvez
merecesse uma lição. Mas ele, Cremúcio Cordo, era demasiado velho e sóbrio para que o fizessem
de parvo daquela forma e aquele não era nenhum festival do Riso mas, pelo contrário, o
quadricentésimo septuagésimo sexto aniversário da promulgação solene das Leis das Doze Tábuas,
esse glorioso monumento ao génio legislativo e à rectidão moral dos nossos antepassados.
Cremúcio foi para casa e deixou-se morrer à fome. Todos os exemplares do seu livro foram
recolhidos e queimados, excepto dois ou três que a filha escondeu algures e voltou a publicar
muitos anos mais tarde, quando Tibério já estava morto. A escrita não era grande coisa: o livro teve
mais fama do que realmente merecia.
Durante todo este tempo, eu dizia para mim mesmo: ”Cláudio, tu és um pobre diabo e não serves de
grande coisa neste mundo; tens vivido uma vida bastante desgraçada, ora por uma coisa ora por
outra, mas, pelo menos, a tua vida está segura.” Assim, quando o velho Cremúcio, que eu conhecia
muito bem - tínhamo-nos encontrado e cavaqueado muitas vezes na Biblioteca -, perdeu a vida por
uma acusação como esta, o facto foi um grande choque para mim. Senti-me como um homem que
vivesse na encosta de um vulcão, quando este repentinamente vomita uma torrente avisadora de
cinzas e pedras incandescentes. Eu próprio tinha escrito coisas muito mais susceptíveis de serem
apodadas de traição do que Cremúcio. A minha história das reformas religiosas de Augusto
continha várias frases que podiam facilmente transformar-se na base de uma acusação. E embora o
meu património fosse tão diminuto que mal valia o trabalho do acusador em me denunciar por causa
de um quarto do mesmo, eu compreendia bem que todas as vítimas recentes dos julgamentos por
traição eram amigos de Agripina, a quem eu continuava a visitar sempre que ia a Roma. E não tinha
a certeza até que ponto o facto de ser cunhado de Sejano seria protecção suficiente para mim.
Sim; ultimamente, tornara-me cunhado de Sejano. Agora, vou contar-vos como isso aconteceu.
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CAPíTULO XXIII
Um dia, Sejano dissera-me que eu devia voltar a casar, pois parecia que não me entendia muito bem
com a minha esposa. Eu disse que Urgulanila tinha sido a escolha de minha avó Lívia e que não
podia divorciar-me dela sem a sua permissão.
- Oh não, claro que não, - disse ele -, eu compreendo isso, mas deve ser uma situação muito infeliz
para ti, sem uma mulher.
- Obrigado, - repliquei, - tenho passado muito bem.
Ele fingiu achar isto uma boa piada e soltou uma risada sonora, dizendo que eu era um homem
muito sensato, mas depois acrescentou que, se por algum acaso eu encontrasse uma possibilidade de
me divorciar, o procurasse. Tinha na ideia a mulher certa para mim - bem nascida, jovem e
inteligente. Agradeci-lhe, mas senti-me constrangido. Quando já me ia embora, ele disse:
- Meu amigo Cláudio, tenho um conselho a dar-te. Apoia o escarlate amanhã em todas as corridas e
não te importes de perder algum dinheiro a princípio; ao fim e ao cabo não perderás. E não apoies o
Verde Claro: hoje em dia é uma cor malfadada. Não digas a ninguém que te dei este conselho.
Senti-me muito aliviado por Sejano pensar que ainda valia a pena cultivar o relacionamento
comigo, mas não consegui encontrar qualquer sentido naquilo que me disse. No entanto, na corrida
de carros do dia seguinte - era o festival de Augusto -, Tibério víu-me ocupar o meu lugar no Circo
e, encontrando-se num estado de espírito afável, mandou-me chamar e perguntou-me:
- O que tens feito, meu sobrinho?
Gaguejei que estava a escrever uma história dos antigos etruscos, com sua licença.
Ele disse:
- Ah sim? Isso faz jus ao teu discernimento. Não resta nenhum etrusco antigo para protestar, nem
etruscos modernos para se preocuparem: portanto, podes escrever como te apetecer. Que mais estás
a fazer?
- Esc-c-c-crevo uma história dos antigos C-C-C-C-C-Cartigineses, com vossa licença.
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- Esplêndido! E que mais? Despacha-te com essa gaguez. Eu sou um homem ocupado.
- De momento estou a-a-a-a-a...
- A começar uma história do M-M-M-Mundo da F-F-F-Fantasia?
- N-não senhor, a a-a-apoiar o Escarlate.
Ele deitou-me um olhar perspicaz:
- Estou a ver, meu sobrinho, que não sois um tolo completo. O que te faz apoiar o Escarlate?
Fiquei em apuros, porque não podia dizer que Sejano me dera essa sugestão. Por isso disse:
- Sonhei que o Verde Claro era desclassificado por usar o chicote nos ad-ad-adversários e que o
Escarlate f-f-ficava em primeiro lugar. Ele deu-me uma bolsa com dinheiro e murmurou-me ao
ouvido:
- Não digas a ninguém que te dei dinheiro, mas põe isto no Escarlate e vejamos o que acontece.
Acabou por ser o dia do Escarlate e, apostando com o jovem Nero em todas as corridas, ganhei
perto de 2.000 moedas de ouro. Nessa noite, pareceu-me sensato visitar Tibério no Palácio e dizer-
lhe:
- Aqui está a bolsa da sorte, senhor, com uma família de pequenas bolsas que nasceram ao longo do
dia.
- Tudo meu? - exclamou. - Bom, estou com sorte. O Escarlate é a cor, einh?
Isto era típico do meu tio Tibério. Não deixara claro quem devia guardar os ganhos e eu tinha
pensado que seriam para mim. Mas se eu tivesse perdido todo o dinheiro, ele teria dito alguma coisa
para me fazer sentir em dívida para com ele por essa quantia. Podia pelo menos ter-me dado uma
comissão.
Na vez seguinte em que fui a Roma, encontrei a minha mãe de tal forma abstracta que a princípio,
não ousei dizer o que quer que fosse na sua presença, com medo que se irritasse e me batesse.
Soube que o seu desassossego estava relacionado com Calígula, então com doze anos, e Drusila,
então com treze, que estavam em casa dela. Drusila estava fechada no quarto sem comida e Calígula
andava em liberdade, mas parecia completamente apavorado. Ele visitou-me nessa noite e disse:
- Tio Cláudio. Pedi a vossa mãe que não conte ao Imperador. Nós não estávamos a fazer mal
nenhum, juro. Era apenas um jogo. Não podeis acreditar numa coisa vinda de nós. Dizei que não.
Quando ele explicou o que não queria que contassem ao Imperador, e jurou pela honra do pai que
ele e Drusila estavam completamente inocentes, senti-me obrigado a fazer o que pudesse pelos
pequenos. Fui procurar minha mãe e disse-lhe:
- Calígula jura que estais enganada. Jura pela honra do pai; se existe a mínima dúvida no vosso
espírito quanto à culpabilidade dele, devíeis
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respeitar esse juramento. Pela minha parte, não consigo acreditar que um rapaz de doze anos...
- Calígula é um monstro e Drusila não lhe fica atrás; e tu és um cabeça dura. Acredito mais nos
meus olhos do que nos juramentos deles ou nos teus disparates. Amanhã cedo vou procurar Tibério.
-Mas, Mãe, se disserdes ao Imperador, não são só esses dois que vão sofrer. Por uma vez, falemos
francamente e ao diabo os informadores! Eu posso ser um cabeça dura, mas sabeis tão bem como eu
que Tibério suspeita que Agripina tenha envenenado Castor para que os filhos mais velhos se
tornassem herdeiros da monarquia e que ele vive no terror de uma sublevação repentina a seu favor.
Se vós, como sua avó, acusardes estas crianças de incesto, achais que ele não irá arranjar uma
maneira de envolver os membros mais idosos da família nessa acusação?
- És um cabeça dura, é o que eu digo. Não posso suportar a maneira como a tua cabeça estremece e
a tua maçã-de-adão anda para cima e para baixo.
Mas compreendi que tinha causado alguma impressão nela e decidi que, se me mantivesse fora da
sua vista durante o resto da minha visita a Roma, para que a minha presença não lhe fizesse lembrar
o meu conselho, era provável que Tibério não tivesse notícias dela sobre o caso. Empacotei algumas
coisas e fui para casa de meu cunhado Pláucio, para lhe pedir que me arranjasse alojamento (nesta
altura, já Pláucio avançara bastante na sua carreira e, dentro de quatro anos, seria Cônsul). O jantar
já tinha acabado havia muito quando eu cheguei e ele estava a ler documentos legais no seu estúdio.
A mulher já tinha ido para a cama, disse. Perguntei-lhe:
- Como é que ela está? Pareceu-me bastante preocupada a última vez que a vi.
Ele riu-se.
- O quê, meu campónio, não soubeste de nada? Há um mês ou mais que me divorciei de Numantina.
Quando eu disse a minha mulher referia-me à minha nova esposa, Aprónia, filha do homem que deu
recentemente aquela tareia monumental a Tacfarinas.
Pedi desculpa e disse que me parecia que era o momento de lhe apresentar as minhas felicitações.
- Mas porque te divorciaste de Numantina? Julgava que ambos se entendiam muito bem.
- É verdade, não nos dávamos nada mal. Mas para dizer a verdade, ultimamente, tenho andado com
problemas por causa de dívidas. Tive pouca sorte há alguns anos como jovem magistrado. Sabes
quanto se espera que gastemos do nosso próprio bolso com os Jogos. Bom, para começar, gastei
mais do que podia e, além disso, tive muito pouca sorte, deves estar lembrado. Por duas vezes
ocorreu um erro nos procedimentos
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a meio dos Jogos e eu tive que recomeçar do princípio no dia seguinte. A primeira vez foi culpa
minha: usei uma forma de oração que tinha sido alterada por estatuto dois anos antes. Da vez
seguinte, um trombeteiro que estava a fazer ouvir um som prolongado não tinha enchido
suficientemente o peito de ar: interrompeu o toque e isso foi suficiente para fazer parar tudo pela
segunda vez. Assim, tive que pagar aos gladiadores e aos aurigas por três vezes. A partir daí, nunca
mais me vi livre das dívidas. Acabei por ter que fazer qualquer coisa quanto a isso, porque os meus
credores estavam a tornar-se difíceis. O dote de Numantina já fora gasto há muito, mas consegui
chegar a um acordo com o tio dela. Ele recebeu-a de volta sem o dote, com a condição de eu o
deixar adoptar o nosso filho mais novo. Deseja ter um herdeiro e engraçou com o rapaz. Aprónia,
por sua vez, é muito rica; por isso, agora estou bem. Claro que Numantina não gostou nada de me
deixar. Tive que lhe dizer que estava só a fazer isto porque recebera uma indicação de um Certo
Amigo de um Certo Personagem que, se não casasse com Aprónia, que está apaixonada por mim e
tem influência no Tribunal, seria acusado de blasfémia contra Augusto. No outro dia, um dos meus
escravos tropeçou e deixou cair no meio do vestíbulo uma taça de alabastro cheia de vinho. Tinha
comigo um chicote de montar e, quando ouvi o estrondo, corri para o escravo e comecei a bater-lhe.
Estava cego de fúria. Ele gritou:
- Parai, Senhor, vede onde estamos!
E o bruto tinha um pé dentro daquele quadrado sagrado de mármore branco que rodeava a estátua
de Augusto. Deixei cair imediatamente o chicote, mas devo ter sido visto por meia dúzia de libertos.
Estou confiante que eles não irão depor contra mim, mas Numantina ficou preocupada com o
incidente; por isso, usei-o para a reconciliar com a ideia do divórcio. A propósito, isto é
inteiramente confidencial. Confio que não irás falar disto a Urgulanila. Posso dizer-te que ela está
bastante aborrecida com a história de Numantina.
- Actualmente nunca a vejo.
- Bom, se a vires, não lhe vais contar que eu te disse? jura que não.
- Juro pela Cabeça Divina de Augusto.
- Assim está bem. Lembras-te do quarto onde ficaste da última vez que aqui estiveste?
- Sim, obrigado. Se estás ocupado, eu vou já para a cama. Foi um dia longo e também tenho
problemas em casa. A minha mãe pôs-me praticamente fora de casa.
Despedimo-nos e eu fui para cima. Um liberto deu-me um candeeiro, com um olhar um tanto
estranho, e eu fui para o quarto que ficava no corredor, quase em frente do de Pláucio. Depois de
fechar a porta, comecei a despir-me. A cama ficava atrás de uma cortina. Tirei a roupa e lavei as
mãos e os pés no pequeno lavatório do outro lado do quarto. De repente,
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ouvi um andar pesado atrás de mim e o meu candeeiro apagou-se. Disse para mim mesmo: ”Estás
perdido, Cláudio. Há aqui alguém com um punhal.” Mas disse em voz alta e o mais calmamente que
consegui:
- Por favor, acendei o candeeiro, quem quer que sois, e vede se podemos conversar tranquilamente.
Se decidirdes matar-me, vereis melhor com o candeeiro aceso.
Uma voz funda respondeu:
- Ficai onde estais.
Houve um arrastar de pés, um grunhido e o som de alguém a vestir-se e depois uma pederneira a
raspar no aço; finalmente, o candeeiro acendeu-se. Era Urgulanila. Não a via desde o funeral de
Drusilo e ela não tinha ficado minimamente mais bela nesses cinco anos. Estava mais espadaúda
que nunca, colossalmente espadaúda, e com a cara inchada; havia força suficiente naquele Hércules
feminino para dominar uma centena de Cláudios. Eu tenho bastante força nos braços; mas bastava
que ela se atirasse para cima de mim para me matar por esmagamento. Ela avançou para mim e
disse lentamente:
- O que estás a fazer no meu quarto?
Expliquei-me como pude e disse que era uma fraca piada de Pláucio ter-me mandado para ali sem
me dizer que ela estava lá. Eu tinha o maior respeito por ela, disse, e apresentei-lhe as minhas
desculpas sinceras pela intrusão, dizendo-lhe que a deixaria imediatamente e que dormiria num leito
nos Banhos.
- Não, meu querido, agora estás aqui para ficar! Não é muitas vezes que tenho o prazer da
companhia do meu marido. Por favor, compreende que, uma vez aqui, já não podes escapar. Mete-
te na cama e dorme; juntar-me-ei a ti mais tarde. Vou ler um livro até sentir sono. Há várias noites
que não consigo dormir como deve ser.
- Lamento muito ter-te acordado...
- Mete-te na cama.
- Lamento muito o divórcio de Numantina. Não sabia de nada até que o liberto me contou há
pouco.
- Mete-te na cama e pára de falar,
- Boa noite, Urgulanila. Estou na verdade muito...
- Cala-te. - Ela aproximou-se e fechou a cortina.
Embora estivesse morto de cansaço e mal pudesse ter os olhos abertos, fiz todos os possíveis por
ficar acordado. Estava convencido que Urgulanila iria esperar até eu adormecer para me
estrangular. Entretanto, ela pusera-se a ler muito devagar um livro muito aborrecido, uma história
de amor grega das mais idiotas, virando ruidosamente as folhas e soletrando cada sílaba lentamente
para si própria num sussurro meio rouco.
Oh sá-bio, dizia ela, pro-vas-te a-go-ra o mel e ofel, Tem cui-da-do não vá a do-çu-ra do teu pra-
zer tor-nar-se a-ma-nhã na a-mar-gu-ra do a-rre-pen-di-men-to!
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Pfff, repliquei, Mi-nha Que-ri-da, es-tou pron-to, se me de-res ou-tro bei-jo co-mo o an-te-ri-or,
pa-ra ser to-rra-do em fo-go len-to co-mo um fran-go ou um pa-to.
Ela soltou uma risada ao ler isto e depois disse em voz alta:
- Dorme, marido. Estou à espera que comeces a ressonar. Protestei:
- Então, não devias ler histórias tão excitantes. Passado um bocado, ouvi Pláucio ir para a cama.
- Oh céus, - pensei - Ele vai adormecer dentro de alguns minutos e, com duas portas a separar-nos,
não vai ouvir os meus gritos quando Urgulanila me estrangular.
Urgulanila parou de ler e deixei de ter o seu murmúrio e o roçar do papel para me ajudar a lutar
contra o sono. Senti-me adormecer, Adormeci. Sabia que estava a dormir e que tinha que acordar.
Lutei freneticamente para ficar acordado. Finalmente acordei. Houve uma pancada seca e um
restolhar de papel. O livro devia ter sido soprado de cima da mesa para o chão. A porta parecia estar
aberta. Escutei atentamente durante cerca de três minutos. Seguramente, Urgulanila não estava no
quarto.
Enquanto estava a tentar decidir-me sobre o que havia de fazer, ouvi o grito mais pavoroso - parecia
muito próximo. Uma mulher gritava:
- Não me façam mal! Não me façam mal! Isto é coisa de Numantina! Oh! Oh!
Depois ouviu-se o embate de um objecto de metal pesado a cair, seguido do estalar de vidros
partidos, outro grito, uma pancada distante, seguida de passos apressados no corredor. Alguém
estava de novo no meu quarto. A porta foi fechada devagar e trancada. Reconheci a respiração
ofegante de Urgulanila. Ouvia-a tirar a roupa e pô-la numa cadeira. Logo que a senti deitada a meu
lado, fingi que dormia. Ela tateou-me a garganta na escuridão. Eu disse, como se estivesse a
acordar:
- Não faças isso, querida. Faz-me cócegas. E eu tenho que ir a Roma amanhã e comprar-te uns
cosméticos. - Depois, numa voz mais desperta,
- Oh Urgulanila! És tu? O que é todo este barulho? Que horas são? já estamos a dormir há muito
tempo?
Ela disse:
- Não sei. Devo ter dormido umas três horas. Está quase a amanhecer. Parece que aconteceu alguma
coisa de terrível. Vamos ver.
Assim, levantámo-nos, vestimo-nos à pressa e abrimos a porta. Pláucio nu, apenas com uma coberta
enrolada à pressa em volta do corpo, encontrava-se no meio de uma multidão excitada, munida de
archotes. Ele mostrava-se perturbado e dizia repetidamente:
- Não fui eu que fiz isto. Eu estava a dormir. Senti que ma arrancavam dos braços e ouvi-a ser
levada pelos ares a gritar por socorro; depois, ouvi o barulho de qualquer coisa a cair e outro
estrondo, quando ela saíu
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pela janela. Estava escuro como breu. Ela gritava: ”Não me façam mal! Isto é coisa de Numantina.”
- Diz isso aos juízes, - atalhou a voz do irmão de Aprónia, aproximando-se, - e vais ver se eles te
acreditam. Foste tu que a mataste. Ela tem o crânio esmagado.
- Não fui eu, - disse Pláucio. - Como é que eu podia ter feito isso? Estava a dormir. Foi bruxaria.
Numantina é bruxa.
Ao romper do dia, ele foi levado diante do Imperador pelo pai de Aprónia. Tibério interrogou-o
severamente. Disse agora que, enquanto ele dormia profundamente, ela se arrancara dos seus braços
e se pusera aos saltos pelo quarto e aos gritos, atirando-se pela janela e estatelando-se no pátio.
Tibério obrigou Pláucio a acompanhá-lo imediatamente ao local do crime. A primeira coisa que ele
notou no quarto foi o seu presente de casamento a Pláucio, um belo candelabro egípcio em bronze e
ouro retirado do túmulo de uma rainha e que jazia agora quebrado no chão. Levantou os olhos e viu
que tinha sido arrancado do tecto. Disse:
- Ela agarrou-se a ele e fê-lo cair. Estava a ser transportada para a janela aos ombros de alguém.
Reparai como o buraco da janela está alto. Ela foi atirada, não saltou sozinha.
- Foi bruxaria, - disse Pláucio. - Ela foi arrastada pelos ares por um poder invisível. Gritou e culpou
a minha primeira mulher, Numantina, Tibério fez um riso de troça. Os amigos de Pláucio
compreenderam que ele ia ser acusado de assassinato e executado e os seus bens confiscados. A avó
Urgulanila enviou-lhe portanto um punhal, dizendo-lhe que pensasse nos seus herdeiros, que seriam
autorizados a conservar-lhe os bens caso ele se antecipasse ao veredicto com o suicídio imediato.
Ele era um cobarde e não conseguiu enterrar o punhal. Por fim, meteu-se num banho quente e
ordenou a um médico que lhe cortasse as veias; lentamente e sem dor esvaiu-se em sangue. Senti-
me muito mal com a morte dele, Não tinha acusado imediatamente Urgulanila do assassinato,
porque me teriam perguntado porque não tinha saltado da cama e salvado Aprónia quando ouvi os
primeiros gritos. Decidira esperar pelo julgamento e só me apresentar a depor se houvesse
indicações de que Pláucio ia ser condenado. Não soube nada sobre o punhal até ser tarde demais.
Consolei-me com o pensamento de que ele tinha tratado Numantina com grande crueldade e, além
do mais, tinha sido um mau amigo para mim. Para aclarar a memória de Pláucio, o irmão dele
acusou Numantina de ter perturbado o espírito de Pláucio com bruxarias. Mas Tibério interveio e
disse que constatara que Pláucio estava em pleno poder das suas faculdades na altura. Numantina
foi absolvida.
Não houve qualquer outra troca de palavras entre Urgulanila e eu próprio. Mas, um mês mais tarde,
quando passava por Cápua, Sejano visitou-me de surpresa. Estava na companhia de Tibério, a
caminho de
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266

Capri, uma ilha perto de Nápoles onde Tibério tinha doze villas e onde ia frequentemente para se
divertir. Sejano disse:
-Agora poderás divorciar-te de Urgulanila. Ela vai ter um filho dentro de cinco meses, segundo me
informaram os meus agentes. E é a mim que tens que agradecer. Eu sabia da obsessão de Urgulanila
por Numantina. Calhou eu ver um jovem escravo, um grego, que podia ter sido gémeo de
Numantina. Ofereci-o a Urgulanila e ela apaixonou-se imediatamente por ele. O seu nome é Boter.
O que podia eu fazer, a não ser agradecer-lhe?! Depois, perguntei:
- E quem vai ser a minha nova esposa?
- Quer dizer que te lembras da nossa conversa? Bom, a dama que tenho na ideia é a minha irmã
adoptiva: Élia. Conhece-la, claro. Conhecia, mas escondi o desapontamento e limitei-me a
perguntar se
alguém tão jovem, bela e inteligente, se contentaria em casar com um velho tolo, coxo, doente e
gago como eu.
- Ah, - respondeu ele brutalmente, - não se vai importar minimamente. Vai casar com o sobrinho de
Tibério e tio de Nero e é só nisso que ela pensa. Não imagines que está apaixonada por ti. Pode
mesmo chegar a ter um filho contigo por causa da sua linhagem, mas quanto a sentimentos...
- Na verdade, aparte a honra de me tornar teu cunhado, não valia a pena divorciar-me de Urgulanila,
pois não haverá grande melhoria na minha vida.
- Ah, tu arranjas-te bem, - riu. - Não levas uma vida muito solitária aqui, a julgar pelo que vejo
neste quarto. Dá para perceber que há por aí uma bela mulher. Luvas, um espelho de mão, um
bastidor, essa caixa de guloseimas, flores cuidadosamente arranjadas. E Élia não irá sentir ciúmes.
Provavelmente, também tem as suas amizades com homens, embora eu não me imiscua na sua vida.
- Está bem, - disse. -Eu caso,
- Não me pareces muito agradecido.
- Não se trata de ingratidão. Tiveste bastante incómodo por minha causa e não sei como agradecer-
te devidamente. Estava apenas a sentir-me um bocado nervoso. Por aquilo que sei de Élia, ela é um
tanto crítica, se percebes o que quero dizer.
Ele largou a rir.
- Ela tem uma língua que é como uma agulha de coser sacas. Mas certamente já estás couraçado
contra simples descomposturas. A tua mãe deu-te um bom treino, não é verdade?
- Ainda tenho a pele um bocado sensível, - repliquei, em certas áreas.
- Bom, não posso ficar aqui mais tempo, meu caro Cláudio. Tibério deve estar a pensar onde terei
ido. Está então combinado?
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- Sim, e agradeço-te muito.


- Oh, a propósito, foi Urgulanila quem matou a pobre Aprónia, não foi? Eu estava mais ou menos à
espera de uma tragédia. Urgulanila recebeu uma carta de Numantina, pedindo-lhe que a vingasse.
Numantina não foi propriamente quem escreveu a carta, entendes?
- Não sei de nada. Estava a dormir profundamente na altura.
- Como Pláucio?
- Ainda mais profundamente que Pláucio.
- Muito sensato! Bom, adeus, Cláudio. -Adeus, Élio Sejano.
Ele foi-se embora.
Divorciei-me de Urgulanila, depois de ter escrito primeiro à minha avó a pedir autorização. Lívia
escreveu que a criança devia ser abandonada logo que nascesse; era este o desejo dela, assim como
de Urgulanila.
Enviei um liberto de confiança a Urgulanila em Herculano, para a informar das ordens que eu
recebera, prevenindo-a que, se queria que a criança vivesse, a devia trocar, logo que nascesse, por
um bebé morto; eu tinha que ter um bebé qualquer para abandonar e, desde que não estivesse morto
há muito tempo, qualquer um servia. Assim, a criança foi salva dessa forma e, mais tarde,
Urgulanila retirou-a aos pais adoptivos, de quem recebera o bebé morto. Não sei o que aconteceu a
Boter, mas a criança, uma rapariga, cresceu, tornando-se o vivo retrato de Numantina, segundo
dizem. Urgulanila já morreu há vários anos. Quando ela morreu, tiveram que derrubar uma parede
para retirar da casa o corpo enorme e era todo ele maciço, nada de hidropisia. No seu testamento,
rendeu-me um curioso tributo: ”Não me interessa o que as pessoas dizem, mas Cláudio não é
nenhum tolo.” Deixou-me uma colecção de jóias gregas, alguns bordados persas e o seu retrato de
Numantina.
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CAPÍTULO XXIV
Actualmente, Tibério e Lívia nunca se encontravam. Lívia tinha ofendido Tibério ao consagrar uma
estátua a Augusto em nome de ambos pondo primeiro o nome dela. Ele retaliou fazendo a única
coisa que ela não podia sequer fingir que perdoava - quando embaixadores
da Hispânia o foram procurar, perguntando-lhe se podiam erigir um templo a ele e à mãe, Tibério
recusou em nome de ambos.
Disse ao Senado que tinha, talvez num momento de fraqueza, permitido a consagração de um
templo na Ásia ao senado e ao seu Chefe (ou seja, ele próprio) - simbolizando no seu conjunto o
governo paternal de Roma. O nome da mãe também apareceu na inscrição da dedicatória, como
Suma Sacerdotisa do culto de Augusto. Mas dar o seu assentimento à divinização dele próprio e da
mãe seria levar a indulgência demasiado longe.
- Pela minha parte, meus senhores, o facto de ser um homem mortal, de estar preso aos obstáculos
da natureza humana e de preencher a vosso contento o lugar principal entre vós, se é que o faço,
garanto-vos solenemente que é o bastante para mim: é assim que prefiro ser lembrado pela
posteridade. Se a posteridade considerar que fui digno da minha ancestralidade, vigilante dos vossos
interesses, inabalável no perigo e na defesa do bem comum, destemido perante os inimigos
privados, serei suficientemente lembrado. A gratitude carinhosa do Senado, do povo de Roma e dos
nossos aliados é o mais belo templo que eu poderia erigir; um templo não de mármore, mas mais
duradouro que o mármore, um templo do coração. Os templos de mármore, quando os seres
consagrados a quem são erigidos caem em desgraça, são desprezados como meros sepulcros.
Invoco portanto os Céus para que me concedam até ao fim da minha vida um espírito sereno e uma
capacidade de discernimento clara em todos os deveres humanos e sagrados. Portanto, imploro
também a todos os nossos cidadãos e aliados que, quando quer que a decomposição se apoderar
deste meu corpo mortal, eles celebrem a minha vida e os meus feitos (se disso forem merecedores),
com gratidão e louvores interiores, de preferência a pompas exteriores, à construção de templos ou
à execução de sacrifícios anuais. O verdadeiro amor que Roma sentia por meu pai Augusto quando
ele estava entre nós como homem já foi obscurecido, tanto pelo temor que a sua divindade excita
nas pessoas de
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espírito religioso, como pelo uso indiscriminado do seu nome como imprecação na praça do mercado.
Enquanto estamos a falar deste assunto, meus Senhores, proponho que, a partir de agora, tornemos uma
ofensiva criminosa o uso do nome sagrado de Augusto sem ser na mais solene das ocasiões e que
implementemos esta lei com todo o vigor.
Não houve qualquer referência aos sentimentos de Lívia a esse respeito. Na véspera, ele tinha-se recusado a
nomear um dos nomes indicados por ela para um juizado vago, a menos que lhe fosse permitido acrescentar à
nomeação: ”Esta pessoa é escolha de minha mãe, Lívia Augusta, a cuja insistência a favor da mesma fui
obrigado a ceder, contra tudo o que sei sobre o seu carácter e capacidades.”
Pouco depois, Lívia convidou todos os nobres de Roma para um espectáculo que iria durar todo o dia. Havia
malabaristas e acrobatas, declamação de poemas, bolos maravilhosos, doces e bebidas e uma bela jóia para
cada um dos convidados como lembrança da ocasião. A concluir a sessão, Lívia fez uma leitura das cartas de
Augusto. Estava agora com oitenta e três anos, a sua voz era fraca e fazia sibilar fortemente os ”s”, mas,
durante uma hora e meia, manteve a assistência fascinada. As primeiras cartas que leu continham
proclamações sobre a política de Estado e todas elas pareciam ter sido especialmente escritas contra o
presente estado de coisas em Roma. Havia alguns comentários muito adequados sobre julgamentos por
traição, incluindo o seguinte parágrafo:
Embora tenha sido obrigado a proteger-me legalmente contra toda a espécie de libelos, empenhar-me-ei ao
máximo, minha querida Lívia, para evitar pôr em andamento um espectáculo tão desagradável como um
julgamento por traição para benefício de qualquer historiador tolo, caricaturista ou autor de epigramas que
tenha feito de mim o alvo do seu humor ou eloquência. Meu pai Júlio César perdoou ao poeta Catulo os mais
vis libelos difamatórios que podeis imaginar: ele escreveu a Catulo que, se estava a tentar mostrar que não era
nenhum bajulador servil como a maior parte dos outros poetas, já tinha provado bem o que pretendia e podia
retomar outros assuntos mais poéticos, em vez das anormalidades sexuais de um estadista de meia idade; e
aceitaria um convite para jantar no dia seguinte, acompanhado por qualquer amigo que desejasse! Catulo veio
e, a partir daí, os dois foram grandes amigos. Usar a majestade da lei para vingar qualquer acto mesquinho de
raiva pessoal é fazer uma confissão pública de fraqueza e cobardia e revelar um espírito ignóbil.
Havia um parágrafo notável sobre informadores:
Excepto nos casos em que estou convencido de que um informador não espera beneficiar directa ou
indirectamente das suas acusações, mas
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270

que as mesmas se devem a um sentimento de verdadeiro patriotismo e decência pública, não só recuso a sua
importância como prova, como aponho uma marca negra ao nome desse informador e não volto a empregá-lo
em qualquer posição de confiança...
Para terminar, leu uma série de cartas muito esclarecedoras. Lívia tinha dezenas de milhar de cartas de
Augusto, escritas ao longo de cinquenta e dois anos, cuidadosamente cosidas em forma de livro e indexadas.
Escolheu entre estes milhares as quinze mais devastadoras que encontrou. A série começou com queixas
contra o comportamento inaceitável de Tibério quando rapazinho, a sua falta de popularidade entre os colegas
quando estudante, a sua avareza e altivez na juventude, e assim por diante, com sinais de irritação crescente e
a frase, muitas vezes repetida, ”e se não fosse por ele ser vosso filho, minha querida Lívia, eu diria... Depois,
vinham as queixas da sua severidade brutal com os soldados que estavam sob o seu comando - ”quase um
convite ao motim” - e a sua lentidão em atacar o inimigo, com comparações desfavoráveis entre os seus
métodos e os de meu pai. Depois, uma recusa irada em o considerar como genro e uma lista detalhada dos
seus defeitos morais. Seguiam-se mais cartas relacionadas com a triste história de Júlia, escritas na sua maior
parte em termos de uma aversão e uma repulsa quase doentias por Tibério. Lívia leu uma carta importante,
escrita na ocasião em que Tibério, foi chamado de Rodes:
Queridíssima Lívia,
Aproveito este quadragésimo segundo aniversário do nosso casamento para vos agradecer de todo o meu
coração os serviços extraordinários que prestastes ao Estado desde que unimos as nossas forças. Se eu sou
chamado o Pai da Pátria, parece-me absurdo que vós não sejais chamada a Mãe da Pátria: juro que fizestes
duas vezes aquilo que eu fiz durante a nossa grande obra de reconstrução pública. Porque me pedis para
esperar mais alguns anos, antes de pedir ao Senado para vos votar essa honra? A única forma que tenho de
mostrar a minha absoluta confiança na vossa lealdade desinteressada e julgamento profundo é aceder
finalmente às vossas súplicas repetidas para que faça regressar Tibério, um homem em relação a cujo carácter
confesso que continuo a sentir a maior repugnância e peço aos céus que, ao ceder-vos neste ponto, não esteja
a infligir danos duradouros no bem público.
A última escolha de Lívia foi uma carta escrita cerca de um ano antes da morte de Augusto:
Experimentei um sentimento repentino do mais profundo pesar e desespero, minha querida esposa, ao discutir
política estatal com Tibério
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ontem, ao pensar que o povo de Roma estava destinado a ser olhado com dureza por aqueles seus
olhos salientes, batido por aquele punho ossudo, mascado por aqueles maxilares terrivelmente
lentos e pisado por aqueles pés enormes. Mas, de momento, não estava a pensar em vós nem no
nosso querido Germânico. Se não acreditasse que, quando eu morrer, ele será guiado tanto por vós
em todas as questões de estado como envergonhado pelo exemplo de Germânico, seguindo algo que
se assemelhe pelo menos a uma vida decente, eu era capaz, mesmo agora, de o deserdar e pedir ao
Senado que lhe retirasse todos os títulos honoríficos. O homem é um animal e precisa que tomem
conta dele.
Quando terminou, levantou-se e disse:
Talvez, minhas senhoras, seja melhor não dizerdes nada aos vossos maridos sobre estas
cartas tão peculiares. Não me apercebi na realidade, quando comecei a ler, quão peculiares
elas eram. Não vos faço este pedido por causa de mim própria, mas pelo Império.
Tibério soube toda a história por Trajano, quando se preparava para ocupar o seu lugar no
Senado, tendo ficado cheio de vergonha, raiva e preocupação. Era o caso que o seu trabalho
nessa tarde consistia em ouvir uma acusação de traição levantada contra Lêntulo, um dos
pontífices sobre quem tinham recaído suspeitas na questão da prece por Nero e Druso e
também por ter votado a favor da mitigação da sentença de Sósia. Quando Lêntulo, um
velho simples, que se distinguia igualmente pelo nascimento, pelas suas vitórias em África
sob o comando de Augusto e pela sua brandura despretensiosa a alcunha dele era O
Carneiro Guia soube que era acusado de conspirar contra o Estado, largou a rir. Tibério, já
perturbado, perdeu completamente o controlo e disse, quase a chorar, para a Casa:
Se também Lêntulo me odeia, sou indigno de viver. Caio replicou:
Alegrai-vos, majestade peço perdão, tinha-me esquecido que odiais o título -, devia ter dito
Alegra-te, Tibério César! Lêntulo não estava a rir-se de ti, mas contigo. Estava a regozijar-
se contigo por finalmente ter aparecido perante o Senado uma acusação de traição
absolutamente infundada.
E assim a acusação contra Lêntulo foi posta de lado. Mas Tibério já tinha causado a morte
ao pai de Lêntulo. Ele era imensamente rico e tinha ficado de tal forma assustado com as
suspeitas de Tibério a seu respeito, que se suicidara; como prova de lealdade deixara toda a
sua fortuna a Tibério que, depois disso, não podia acreditar que Lêntulo, que entretanto
ficara pobre, não lhe guardasse ressentimento.
Tibério não voltou a entrar no Senado durante dois meses completos: não conseguia olhar
de frente para os senadores, sabendo que as mulheres
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deles tinham ouvido as cartas de Augusto a seu respeito. Sejano sugeriu que lhe faria bem à saúde
deixar Roma por algum tempo e ficar a algumas milhas de distância numa das suas villas, onde
escaparia à multidão diária de visitantes do Palácio e ao barulho e agitação da Cidade. Ele seguiu-
lhe o conselho. A atitude que tomou contra a mãe foi aposentá-la, omitir o seu nome de todos os
documentos públicos e acabar com as habituais honras de aniversário, deixando bem claro que
qualquer associação do nome dela com o seu ou qualquer louvor que lhe fosse dirigido no Senado
seria considerado como muito próximo da traição. Mas não ousou assumir uma vingança mais
activa, Sabia que ela ainda tinha a carta que ele escrevera de Rodes prometendo-lhe obediência para
toda a vida e também a sabia capaz de a ler, embora isso a pudesse incriminar como assassina de
Caio e Lúcio.
Mas esta velhinha maravilhosa ainda não estava derrotada, como ireis ler. Um dia, recebi um bilhete
dela: ”Dona Lívia Augusta espera a visita do seu querido neto Tibério Cláudio por ocasião do seu
aniversário para jantar com ela; espera também que ele esteja de boa saúde.” Não conseguia
perceber. Eu, o seu querido neto! Um interesse carinhoso pela minha saúde! Não sabia se devia rir-
me ou ter medo. Nunca em toda a minha vida eu fora autorizado a visitá-la no dia do seu
aniversário. Nunca tinha sequer jantado com ela. Havia dez anos que não falávamos, a não ser no
contexto cerimonial do festival Augustano. Qual podia ser o motivo do convite? Bom, dentro de
três dias saberia e, entretanto, tinha que lhe comprar um presente verdadeiramente magnífico.
Finalmente, comprei-lhe uma coisa que tinha a certeza que ela ia apreciar - um vaso para vinho, em
bronze, de forma graciosa, com cabeças de serpente no lugar das asas e um desenho complicado
embutido a ouro e prata. Era, na minha opinião, um trabalho muito mais requintado que qualquer
dos vasos coríntios pelos quais os coleccionadores pagam preços tão absurdos hoje em dia. Este
tinha vindo da China! No centro do desenho tinham incrustado um medalhão de Augusto em ouro
que, de alguma forma, fora parar àquela terra maravilhosamente distante. Aquele vaso custou-me
500 moedas de ouro, embora não tivesse mais de cinquenta e cinco centímetros de altura.
Mas antes de falar da minha visita e da minha longa entrevista com ela, tenho que esclarecer um
ponto sobre o qual talvez vos tenha criado uma ideia errónea. Das minhas descrições dos
julgamentos por traição e outras atrocidades semelhantes, poder-se-á talvez deduzir que, durante a
governação de Tibério, o Império foi intoleravelmente mal governado em todos os aspectos. Isto
está longe da verdade. Embora ele não tivesse realizado trabalhos públicos novos de que valha a
pena falar, contentando-se apenas em completar aqueles que tinham sido começados por Augusto,
manteve a Marinha e o Exército eficientes e com a força necessária, pagava
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regularmente aos seus funcionários e fazia-os apresentar relatórios detalhados quatro vezes por
ano; encorajou o comércio, garantiu à Itália um fornecimento regular de trigo, manteve as estradas e
os aquedutos em bom estado de conservação, limitou a extravagância pública e privada de diversas
maneiras, estabilizou os preços dos alimentos, fez diminuir a pirataria e o banditismo e constituiu
uma considerável reserva de dinheiro público para o caso de alguma emergência nacional.
Manteve ao serviço durante muitos anos os seus governadores provinciais, caso fossem bons, para
não criar insegurança, mantendo-os no entanto sob apertada vigilância. Um governador, para
mostrar a sua eficiência e lealdade, enviou a Tibério mais tributo que o que lhe era devido. Tibério
deu-lhe uma reprimenda: ”Eu quero os meus carneiros tosquiados, não rapados.” Como resultado,
houve poucas guerras de fronteira depois de resolvido o problema da Germânia, com o bom
acolhimento dado a Marobodo em Roma e com a morte de Hermann. Tacfarinas era o inimigo
principal. Foi conhecido durante muito tempo como o distribuidor de louros, porque três generais -
o meu amigo Fúrio, Aprónio (pai de Aprónia) e um terceiro, Blaeso, tio materno de Sejano - o
tinham derrotado, cada um por sua vez, recebendo por isso ornamentos triunfais. Blaeso, que
desbaratou o exército de Tacfarinas e capturou o irmão dele, recebeu a honra invulgar de ser feito
marechal de campo, uma honra geralmente reservada apenas à família imperial. Tibério disse ao
Senado que estava satisfeito por homenagear Blaeso daquela forma por causa do seu parentesco
com o seu fiel amigo Sejano; e quando, três anos mais tarde, um quarto general, Dolabela, pôs um
ponto final na Guerra Africana, que estalara de novo com força redobrada, não apenas derrotando
Tacfarinas, mas matando-o, apenas recebeu triunfos ornamentais, ”não fossem os louros de Blaeso,
tio do meu fiel amigo Sejano, perder o seu brilho.”
Mas eu estava a falar dos bons feitos de Tibério, não das suas fraquezas; e na verdade, do ponto de
vista do Império, de uma maneira geral, ele fora ao longo dos últimos doze anos um governante
sensato e justo. Isso ninguém pode negar. O cancro no âmago da maçã - se me perdoam a metáfora
- não era visível na pele nem prejudicava a saúde da pele. Dos 5.000.000 de cidadãos romanos,
apenas 200 ou 300 sofreram pelos
receios invejosos de Tibério. E eu não sei quantas dezenas de milhar de escravos, gentes da
província e aliados que eram súbditos
em tudo menos no nome, beneficiavam substancialmente com o sistema Imperial, tal como foi
aperfeiçoado por Augusto e Lívia e continuado dentro da mesma tradição por Tibério. Mas eu
estava a viver no âmago da maçã, por assim dizer, e posso ser perdoado se escrevo mais sobre esse
cancro central do que sobre a parte exterior, ainda intacta e perfumada.
Sempre que abres caminho a uma metáfora, Cláudio, o que é raro, leva-la longe demais. Deves
certamente lembrar-te das exortações de
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Atenodoro contra este tipo de coisa? Bom, chama a Sejano o verme e acaba com isso; depois, volta
ao teu estilo habitual, sem ornatos.
Sejano decidiu usar o sentido de vergonha de Tibério como meio para o manter afastado da cidade
por mais do que apenas dois meses. Encorajou um dos oficiais da Guarda a acusar um brincalhão
consagrado chamado Montano de denegrir o carácter privado de Tibério. Enquanto que até aí os
acusadores tinham sido impedidos de relatar outros abusos de Tibério, a não ser os de carácter mais
geral - como altivo, cruel ou dominador -, este soldado apresentou-se a acusar Montano de libelos
de um tipo muito particular e substancial. Sejano encarregou-se de que os libelos tivessem tanto de
verdadeiros como de repelentes; embora Montano, não tendo o conhecimento de Sejano sobre o que
se passava no Palácio, não os tivesse pronunciado. A testemunha, que era o melhor instrutor de
treinos da Guarda, apregoou em voz bem alta as alegadas obscenidades de Montano, não hesitando
nas palavras ou frases mais obscenas e não deixando que os protestos chocados dos senadores lhe
abafassem a voz.
- Jurei dizer toda a verdade, - berrou, - e, pela honra de Tibério César, não omitirei um único artigo
da repulsiva conversação do acusado, ouvido por mim na data indicada e nas circunstâncias
relatadas. O acusado declarou ainda que o nosso gracioso Imperador se está rapidamente a tornar
impotente por causa dos ditos alegados deboches e pelo abuso de medicamentos afrodisíacos, e que,
para revigorar os seus enfraquecidos poderes sexuais, organiza exibições privadas mais ou menos
de três em três dias, numa sala subterrânea do Palácio especialmente decorada. O acusado declarou
que os que actuavam nestas exibições, são chamados ”Spintrianos” e entram aos saltos, três de cada
vez, completamente nus ...”
Continuou daquela forma durante meia hora e Tibério não ousou fazê-lo parar - ou talvez quisesse
descobrir até onde a situação era conhecida -, até que a testemunha disse uma coisa mais (não
interessa o quê). Tibério, perdendo a cabeça, levantou-se num salto repentino, com a face vermelha,
e declarou que ia de imediato ilibar-se daquelas acusações monstruosas ou instaurar uma
investigação judicial. Sejano tentou acalmá-lo, mas ele continuou de pé, olhando em volta, furioso,
até que Caio se levantou e lhe fez lembrar que era Montano e não ele o acusado; que o seu carácter
privado estava fora de suspeita; e que, se a notícia de que tal investigação estava a ter lugar
chegasse às províncias fronteiriças e aos estados aliados, ela seria completamente pervertida.
Pouco depois, Tibério foi prevenido por Trasilo - se isto foi arranjado por Sejano não sei - de que
devia em breve deixar a Cidade e que, se voltasse a entrar nela, isso significaria a sua morte. Tibério
disse a Sejano que ia mudar-se para Capri e deixá-lo a tomar conta de tudo em Roma. Ainda assistiu
a mais um julgamento por traição - o da minha prima Cláudia Pulcra, viúva de Varo, que, agora que
Sósia tinha sido exilada,
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era a amiga mais íntima de Agripina. Foi acusada de adultério, de prostituir as filhas e de feitiçaria
contra Tibério. Estava, creio eu, totalmente inocente de todas estas acusações. Logo que Agripina
soube do que se estava a passar, acorreu ao Palácio e, por acaso, encontrou Tibério oferecendo um
sacrifício a Augusto. Pouco antes da cerimónia estar terminada, aproximou-se dele e disse:
- Tibério, este comportamento é ilógico. Sacrificas flamingos e pavões a Augusto e persegues os
seus netos.
Ele disse lentamente:
- Não entendo. Quais são os netos de Augusto que eu persigo que não tenham sido perseguidos por
ele próprio?
- Não estou a falar de Póstumo e Julila. Falo de mim própria. Exilaste Sósia porque era minha
amiga. Obrigaste Sílio a suicidar-se porque era meu amigo. E Calpúrnio porque era meu amigo. E
agora a minha querida Pulcra também está condenada, embora o seu único crime seja a sua tola
estima por mim. As pessoas estão a começar a evitar-me, dizendo que lhes trago má sorte.
Tibério agarrou-a pelos ombros e disse uma vez mais:
E se nãofores rainha, minha querida, Sentir-te-ás injustiçada?
Pulcra foi condenada e executada. O Promotor da Coroa era um homem chamado Afer, escolhido
por causa da sua eloquência. Alguns dias mais tarde, Agripina encontrou-o por acaso fora do teatro.
Parecia envergonhado de si próprio e evitava cruzar o olhar com o dela. Agripina aproximou-se e
disse-lhe:
- Não vale a pena esconderes-te de mim, Afer.
Depois citou Homero, mas com alterações adaptadas ao contexto, a resposta tranquilizadora de
Aquiles aos embaraçados arautos que foram procurá-lo com uma mensagem humilhante de
Agamérrmon. Disse-lhe:
Ele obrigou-te a isso. Emborafosses bem pago
A acção nãofoi tua, mas de Agamémnon.
Isto foi relatado a Tibério, (embora não por Afer); a palavra Agamémnon provocou-lhe novo
sobressalto.
Agripina adoeceu e pensou que estaria a ser envenenada. Fui na sua liteira ao Palácio para fazer um
último apelo de misericórdia a Tibério. Estava tão magra e pálida que Tibério ficou encantado:
talvez ela morresse em breve. Comentou:
- Minha pobre Agripina, pareces gravemente doente. O que se passa contigo?
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Ela respondeu com voz fraca:


- Pode ser que tenha sido injusta contigo ao pensar que persegues os meus amigos só por eles serem
meus amigos. Pode ser que eu seja pouco feliz na minha escolha ou que as minhas opiniões estejam
muitas vezes erradas. Mas juro que te enganaste igualmente a meu respeito ao pensar que tenho o
mais leve sentimento de deslealdade para contigo, ou que tenho qualquer ambição de governar, quer
directa quer indirectamente. Tudo aquilo que peço é que me deixem em paz e peço o teu perdão por
qualquer injúria que possa ter-te feito inadvertidamente e... e...
Terminou a soluçar.
- E que mais?
- Oh Tibério, sê bom para os meus filhos! E sê bom para mim! Deixa-me voltar a casar. Estou tão
só. Desde que Germânico morreu que não consigo esquecer os meus problemas. à noite, não
consigo dormir. Se me deixares casar eu assento e perco esta minha inquietação; serei uma pessoa
diferente. Talvez então deixes de suspeitar que conspiro contra ti. Tenho a certeza que é só por eu
parecer tão infeliz que pensas que tenho maus sentimentos a teu respeito.
- Quem é o homem com quem queres casar?
- Um homem bom, generoso, ambicioso, que já passou da meia-idade e que é um dos teus ministros
mais leais.
- Qual o nome dele?
- Caio. Ele diz que está pronto para casar comigo imediatamente. Tibério deu meia volta e saíu do
quarto sem dizer mais nada. Alguns dias mais tarde, convidou-a para um banquete. Era costume seu
convidar para jantar com ele as pessoas de quem desconfiava particularmente e ficar a olhá-las
durante a refeição, como se tentasse ler-lhes os pensamentos, o que abalava a presença de espírito
de todos, com raras excepções. Se eles se mostravam alarmados, ele interpretava isso como prova
da sua culpa. Se o encaravam sem vacilar, tomava-o como prova de culpa ainda mais forte,
acrescentando-lhe a insolência. Nesta ocasião, Agripina, ainda doente e incapaz de comer a não ser
os alimentos mais ligeiros sem uma sensação de náusea, ficou todo o tempo a olhar para Tibério e
sentiu-se profundamente infeliz. Ela não era uma pessoa faladora e a conversa, que era acerca dos
méritos relativos da música e da filosofia, não a interessava minimamente, deixando-a
impossibilitada de contribuir para a mesma. Fingiu que comia, mas Tibério, que a obser vava com
atenção, viu que ela deixava os pratos intactos, um a seguir ao outro. Pensou que suspeitava que a
estivessem a tentar envenenar e, para ter a certeza, pegou cuidadosamente numa maçã que tirou da
travessa que tinha diante dele e disse:
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- Minha querida Agripina, não comeste praticamente nada. Pelo menos, prova esta maçã. é
excelente. Tive um presente de árvores novas do Rei da Pártia há três anos e esta é a primeira vez
que dão fruto.
A verdade é que todas as pessoas têm um inimigo natural - se é que posso chamar-lhe assim. Para
algumas pessoas, o mel é um veneno poderoso. Outros, ficam doentes só por tocarem num cavalo,
entrarem num estábulo ou mesmo por se deitarem num canapé com crina de cavalo. Outros ainda
são desagradavelmente afectados pela presença de um gato e, quando entram numa sala, dizem por
vezes: ”Esteve aqui um gato, desculpem que me retire.” Eu próprio sinto uma repugnância
insuportável pelo cheiro do espinheiro em flor. O inimigo natural de Agripina era a maçã. Ela
recebeu a oferta da mão de Tibério e agradeceu-lhe, mas com um estremecimento mal disfarçado, e
disse que ia guardá-la, se ele lho permitia, para comer quando chegasse a casa.
- Só uma dentada agora, para veres como é boa.
- Desculpa-me, por favor, mas não consigo. - Entregou a maçã a um criado e disse-lhe que lha
embrulhasse cuidadosamente num guardanapo.
Porque é que Tibério não a julgou imediatamente sob acusação de traição, como Sejano insistia que
fizesse? Porque Agripina ainda estava sob a protecção de Lívia.
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CAPÍTULO XXV
E assim cheguei ao relato do meu jantar com Lívia. Ela saudou-me muito afavelmente, parecendo
genuinamente encantada com a minha oferta. Durante a refeição, à qual mais ninguém esteve
presente a não ser a velha Urgulanila e Calígula, agora com catorze anos de idade - um rapaz alto e
pálido, com os olhos encovados e o rosto manchado de pústulas -, ela surpreendeu-me com a sua
agudeza de espírito e clareza de memória. Perguntou-me sobre o meu trabalho e, quando comecei a
falar sobre a Primeira Guerra Púnica, depreciando certos pormenores apresentados pelo poeta Névio
(que tinha servido nesta guerra), ela concordou com as minhas conclusões, mas apanhou-me numa
citação errada. Disse:
- Agora estás-me grato, não estás, meu neto, por não te ter deixado escrever aquela biografia de teu
pai? Achas que estarias a jantar aqui hoje, se eu não tivesse intervido?
Cada vez que o escravo enchia a minha taça eu tinha-a despejado imediatamente e agora, à décima
ou décima segunda dose, sentia-me que nem um leão. Respondi desafrontadamente:
- Extremamente grato, minha Avó, por me encontrar em segurança entre os cartaginenses e os
etruscos. Mas quereríeis explicar-me porque estou eu a jantar hoje aqui?
Ela sorriu:
- Bom, admito que a tua presença à mesa ainda me causa uma certa dose de... Mas deixemos isso.
Se quebrei uma das minhas regras mais antigas, isso é problema meu, não teu. Tu detestas-me,
Cláudio? Sê franco.
- Provavelmente tanto como vós me detestais a mim, minha Avó.
- Seria possível que aquela fosse a minha própria voz que falava? Calígula fez um trejeito de troça,
Urgulanila riu em silêncio e Lívia riu-se abertamente:
- Suficientemente franco! A propósito, reparaste naquele monstro ali? Tem estado invulgarmente
sossegado durante a refeição.
- Quem, Avó?
- Aquele teu sobrinho.
- E ele é um monstro?
- Não finjas que não sabes. Tu és um monstro, não és, Calígula?
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-Se vós o dízeis, minha bisavó, - replicou Calígula, com os olhos baixos,
-Bom, Cláudio, aquele monstro ali, o teu sobrinho - vou falar-te dele. Vai ser o próximo Imperador.
Pensei que era uma brincadeira, Disse sorridente:
- Se o dizeis, minha Avó, é porque assim é. Mas quais são as suas recomendações? Ele é o mais
novo da família e, embora tenha dado provas de grande talento natural...
- Queres dizer que nenhum deles tem qualquer hipótese contra Sejano e a tua irmã Livila?
Fiquei espantado com a liberdade da conversa.
- Não queria dizer nada disso. Nunca me preocupo com altas políticas. Apenas queria dizer que ele
ainda é jovem, demasiado jovem para ser Imperador e que, como profecia, me parece um tanto
remota.
- Nada disso. Tibério vai fazê-lo seu sucessor. Quanto a isso não restam dúvidas. Porquê? Porque
Tibério é assim mesmo. Ele tem a mesma vaidade que tinha o pobre Augusto: não pode suportar a
ideia de um sucessor que seja mais popular do que ele. Mas, ao mesmo tempo, faz tudo o que pode
para se fazer odiar e temer. Assim, quando sentir que o seu tempo está a terminar, irá procurar
alguém que seja um pouco pior que ele para lhe suceder. E vai encontrar Calígula. Há um feito que
Calígula já realizou, que o coloca num nível de criminalidade superior ao que Tibério alguma vez
alcançará.
- Por favor, Bisavó... - suplicou Calígula.
- Muito bem, monstro, o teu segredo estará em segurança comigo desde que te portes bem.
- Urgulanila está ao corrente do segredo? - perguntei.
- Não. Ele está apenas entre mim e o monstro.
- Ele confessou voluntariamente?
- Claro que não. Não é do tipo de confessar. Eu é que o descobri por acaso. Estava a revistar o
quarto dele uma noite, para ver se estava a tentar alguma partídinha de estudante contra mim - se
andava a fazer magia negra como amador, por exemplo, a destilar venenos ou alguma coisa assim.
Então encontrei...
-Por favor, Bisavó.
- Um objecto verde que me contou uma história notável. Mas depois dei-lho de volta.
Urgulanila disse com um riso irónico:
- Trasilo diz que eu vou morrer este ano, portanto não terei o prazer de viver sob o teu reinado,
Calígula, a menos que te despaches a matar Tibério!
Voltei-me para Lívia,
- Ele vai fazer isso, Avó?
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Calígula disse:
- É seguro contar coisas ao Tio Cláudio? Ou ides envenená-lo? Ela respondeu:
- Oh, ele é perfeitamente seguro, mesmo sem veneno. Quero que os dois se conheçam melhor. Há
uma razão para este jantar. Ouve, Calígula. O teu tio Cláudio é um fenómeno. É tão antiquado que,
como fez o juramento de amar e proteger os filhos do irmão, enquanto viveres, poderás sempre
aproveitar-te dele, Escuta Cláudio. O teu sobrinho Calígula é um fenómeno. É traiçoeiro, cobarde,
lascivo, vaidoso, falso e há-de pregar-te algumas partidas muito sujas antes de chegar ao fim. Mas
lembra-te de uma coisa: ele nunca te há-de matar.
- Porquê isso? - perguntei, esvaziando de novo a minha taça. A conversa era do tipo daquelas que se
têm nos sonhos: louca mas interessante.
- Porque tu és o homem que irá vingar a sua morte.
- Eu? Quem o disse?
- Trasilo.
- Trasilo nunca comete erros?
- Não. Nunca. Calígula vai ser assassinado e tu vingarás a sua morte. Fez-se de repente um silêncio
sombrio que se estendeu até à sobremesa, quando Lívia declarou:
- Vem, Cláudio, o resto da nossa conversa será em privado. - Os outros dois levantaram-se e
deixaram-nos sós.
Eu disse:
- A conversa pareceu-me muito estranha, minha Avó. Seria culpa minha? Terei bebido demais? O
que quero dizer é que algumas piadas não são seguras hoje em dia. É perigoso fazer certas
brincadeiras. Espero que os criados...
- Ah, eles são surdos-mudos. Não, não ponhas as culpas no vinho; e, no que me diz respeito, a
conversa foi absolutamente séria.
- Mas... mas se o achais realmente um monstro, porque o encorajais? Porque não dais o vosso apoio
a Nero? Ele é um indivíduo como deve ser.
- Porque Calígula, e não Nero, é que vai ser o próximo Imperador.
- Mas, segundo aquilo que dizeis, ele vai ser maravilhosamente mau. E vós, que devotastes toda a
vossa vida ao serviço de Roma...
- Sim. Mas não se pode lutar contra o Destino. E agora que Roma foi suficientemente ingrata e
louca para permitir que o patife do meu filho me pusesse na prateleira e me insultasse... a mim,
consegues imaginar uma coisa dessas, talvez a maior governante que o mundo alguma vez
conheceu e ainda por cima, sua mãe - A voz dela tornou-se esganiçada.
Eu estava ansioso por mudar de assunto. Disse-lhe:
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- Por favor, acalmai-vos, Avó. Como dizeis, não se pode lutar contra o Destino. Mas não há alguma
coisa de especial que queirais dizer-me, ligada a tudo isto?
- Sim, é por causa de Trasilo. Consulto-o com frequência. Tibério não sabe que o faço e que ele já
esteve aqui muitas vezes. Há alguns anos atrás, disse-me o que iria acontecer entre Tibério e eu: que
ele acabaria por se rebelar contra a minha autoridade e tomar o Império inteiramente nas suas mãos.
Nessa altura não acreditei. Também me disse outra coisa: que, embora eu morresse como uma
mulher velha e decepcionada, seria reconhecida como Deusa muitos anos depois da minha morte. E
anteriormente ele tinha dito que alguém que tinha que morrer no ano que eu sei agora que é o ano
em que eu tenho que morrer, se tornará a maior Divindade que o mundo alguma vez conheceu e
que, finalmente, nenhum templo em Roma ou em qualquer outro lugar do Império será dedicado a
outro Deus. Nem mesmo a Augusto.
- Quando ides morrer?
- Daqui a três anos, na primavera. Sei exactamente em que dia,
- Mas estais assim tão ansiosa por vos tornardes uma Deusa? O meu tio Tibério não está nada
ansioso, ao que parece.
- É a única coisa em que penso, agora que o meu trabalho está terminado. E porque não? Se
Augusto é um Deus, é absurdo para mim ser unicamente sua sacerdotisa. Eu fiz todo o trabalho, ou
não fiz? Augusto também não tinha dentro dele a capacidade de se tornar um grande governante, tal
como Tibério.
- Sim, Avó. Mas não basta para vós saberdes o que fizestes, sem desejar ser adorada pela ralé
ignorante?
- Cláudio, deixa-me explicar. Concordo plenamente com a ralé ignorante. Não é tanto na minha
fama sobre a terra que eu penso, mas sim na posição que vou ocupar nos Céus. Fiz muitas coisas
ímpias; nenhum grande governante pode deixar de as fazer. Pus o bem do Império à frente de todas
as considerações humanas. Para manter o Império livre de facções tive que cometer muitos crimes.
Augusto fez todos os possíveis por destruir o Império com o seu ridículo favoritismo: Marcelo
contra Agripa, Caio contra Tibério. Quem salvou Roma de uma nova Guerra Civil? Eu. A tarefa
desagradável e difícil de afastar Marcelo e Caio caiu sobre mim. Sim, não finjas que nunca
desconfiaste que eu os tivesse envenenado. E qual é a recompensa adequada para um governante
que comete tais crimes para o bem dos seus súbditos? É evidente que a recompensa adequada é ser
deificado. Acreditas que as almas dos criminosos são eternamente atormentadas?
- Sempre me ensinaram a acreditar que sim.
- Mas os Deuses Imortais estão livres de qualquer receio do castigo, por mais crimes que
cometam?
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- Bom, Júpiter depôs o pai e matou um dos seus netos, casando incestuosamente com a irmã e...
sim, concordo... Nenhum deles tem boa reputação moral. E certamente que os juízes dos Mortos
Mortais não têm jurisdição sobre eles.
- Exactamente. Agora vês porque é tão importante para mim tornar-me uma Deusa. E esta, se
queres saber, é a razão porque tolero Calígula. Ele jurou que, se eu guardar o seu segredo, ele me
fará uma Deusa logo que se tornar Imperador. E eu quero que tu jures que farás tudo o que puderes
para que eu me torne uma Deusa o mais depressa possível, porque... não estás a ver? Até ele fazer
de mim uma Deusa eu estarei no Inferno, sofrendo os tormentos mais horríveis, os mais
extraordinários e inevitáveis tormentos.
A mudança repentina na voz dela, da fria arrogância Imperial à súplica aterrorizada, surpreendeu-
me mais do que qualquer outra coisa que tivesse ouvido até aí. Tinha que dizer alguma coisa. Por
isso, disse:
- Não vejo qual a influência que o pobre Tio Cláudio poderá vir a ter, quer sobre o Imperador, quer
sobre o Senado.
- Não te preocupes com o que vês e o que não vês, idiota! Juras fazer o que te peço? Juras pela tua
cabeça?
Respondi:
- Avó, jurarei pela minha cabeça e por aquilo que ela vale, com uma condição.
- Ousas pôr-me condições, a mim?
- Sim, depois da vigésima taça; e é uma condição bem simples. Depois de trinta e seis anos de
abandono e aversão, certamente não esperais que eu faça alguma coisa sem pôr condições, pois
não?
Ela sorriu:
- E qual é essa condição simples?
- Há uma série de coisas que gostava de saber. Em primeiro lugar, quero saber quem matou o meu
pai, quem matou Agripa, quem matou o meu irmão Germânico e quem matou meu filho Drusilo...
- Porque queres saber tudo isso? Alguma esperança imbecil de vingares em mim essas mortes?
- Não, nem mesmo que fôsseis vós a assassina. Nunca me vingo, a menos que seja obrigado a fazê-
lo por algum juramento ou em auto-defesa. Acredito que o mal tem o seu próprio castigo. Tudo o
que quero agora é apenas saber a verdade. Sou um historiador profissional e a única coisa que
realmente me interessa é descobrir como as coisas aconteceram e porquê. Por exemplo, escrevo
histórias mais para me informar a mim mesmo do que para informar os meus leitores,
- Vejo que o velho Atenodoro teve uma grande influência sobre ti.
- Ele foi bondoso para comigo e eu fiquei-lhe grato; por isso me tornei um Estóico. Nunca me
misturo em discussões filosóficas e isso
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nunca me atraiu; mas adoptei a maneira Estóica de olhar as coisas. Podeis confiar que não repetirei
uma palavra do que me disserdes.
Convenci-a da veracidade das minhas palavras e, assim, durante quatro horas ou mais, fiz-lhe as
perguntas mais minuciosas. A todas ela respondeu sem evasão e tão calmamente como se fosse o
administrador de uma propriedade rústica a relatar acontecimentos sem importância ao proprietário
que tivesse vindo de visita. Sim, ela tinha envenenado o meu avô, mas não envenenara o meu pai,
apesar das suspeitas de Tibério; tinha-se efectivamente tratado de uma gangrena natural. E sim,
tinha envenenado Augusto, espalhando veneno sobre os figos enquanto eles ainda estavam na
árvore; contou-me toda a história de Júlia tal como a relatei e toda a história de Póstumo, cujos
detalhes pude verificar; e sim, ela tinha envenenado Agripa e Lúcio, assim como Marcelo e Caio; e
sim, tinha interceptado as minhas cartas para Germânico; mas não o tinha envenenado; Plancina
fizera-o por iniciativa própria. Mas Lívia tinha-o, marcado para ser morto, tal como marcara o
meu pai, e pela mesma razão.
- Que razão era essa, Avó?
- Ele tinha decidido restabelecer a República. Não me interpretes mal: não de uma forma que
violasse o seu juramento de aliança com Tibério, embora isso significasse afastar-me. Ele ia fazer
com que Tibério desse ele mesmo esse passo voluntariamente, dando-lhe todo o crédito por isso e
mantendo-se na sombra. Quase persuadiu Tibério. Sabes como ele é cobarde. Tive que trabalhar
muito, forjar muitos documentos e contar muitas mentiras para impedir Tibério de fazer Sejano de
tolo. Este Republicanismo é uma mancha persistente nele. Tive mesmo que chegar a um acordo
com a família. O teu avô tinha-a.
- Eu tenho-a.
- Ainda. É engraçado. Nero também a tem, tanto quanto sei. Não lhe vai trazer muita sorte. E não
vale a pena discutir convosco, republicanos. Recusais-vos a ver que não é possível restabelecer um
governo republicano nesta altura, como também não se podem impor os primitivos sentimentos de
castidade nas esposas e maridos modernos. É como tentar fazer recuar a sombra num relógio de sol:
não há maneira de o conseguir.
Confessou ter mandado estrangular Drusilo. Disse-me como eu tinha estado perto da morte quando
escrevi pela primeira vez a Germânico sobre Póstumo. A única razão porque me tinha poupado era
por causa da possibilidade de eu lhe escrever dando informações sobre o paradeiro de Póstumo. O
relato mais interessante que me fez foi sobre os seus métodos de envenenamento. Fiz-lhe a pergunta
de Póstumo - se preferia os venenos lentos ou os rápidos - e ela respondeu sem o mais ligeiro
constrangimento que preferia doses repetidas de venenos lentos e sem sabor, que produziam um
efeito de tuberculose, Perguntei-lhe como conseguia disfarçar tão bem todos os vestígios e como
conseguia actuar a
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distâncias tão grandes, pois Caio tinha sido assassinado na Ásia Menor e Lúcio em Marselha.
Recordou-me que nunca perpetrara um assassinato que pudesse ser considerado como benefício
directo e imediato para ela. Não tinha, por exemplo, envenenado o meu avô senão algum tempo
depois de se ter divorciado dele, como também não envenenara nenhuma das suas rivais femininas -
Octávia, Júlia ou Escribónia. As suas vítimas eram, na maioria, pessoas através de cujo afastamento
os filhos e netos ficavam mais próximos da sucessão. Urgulanila tinha sido a sua única confidente e
era tão discreta, habilidosa e dedicada que, não só era altamente improvável que os crimes que
planeavam juntas viessem alguma vez a ser detectados, como, mesmo que o fossem, nunca
permitiriam que chegassem até ela. As confissões anuais feitas a Urgulanila, em preparação para o
festival da Boa Deusa, tinham sido uma maneira útil de afastar várias pessoas que obstruíam o
caminho dos seus planos. Explicou isto em detalhe. Acontecia por vezes que a confissão era feita
não apenas por adultério, mas por incesto com um irmão ou um filho. Urgulanila declarava então
que a única penitência possível era a morte do homem. A mulher suplicava. Haveria outra
penitência possível? Nessa altura, Urgulanila dizia que talvez houvesse uma alternativa, que seria
permitida pela Deusa. A mulher podia purificar-se ajudando a Deusa na sua vingança
- com a ajuda do homem que causara a vergonha. Urgulanila contava-lhe então que uma confissão
igualmente deplorável tinha sido feita algum tempo antes por outra mulher que, no entanto, se
abstivera de matar o seu violador e, portanto, o desgraçado continuava vivo, embora a mulher
tivesse sofrido. O desgraçado foi sucessivamente Agripa, Lúcio, Caio. Agripa foi acusado de
incesto com a filha Marcelina - cujo suicídio inexplicável deu cor à história; Caio e Lúcio de incesto
com a mãe, antes dela ser exilada - e a reputação de Júlia também emprestou cor a esta história. Em
cada um dos casos, a mulher ficava satisfeitíssima por planear o assassinato e o homem por o
executar. Urgulanila dava a sua assistência com aconselhamento e os venenos adequados. A
segurança de Lívia residia na distância a que se encontrava o agente, que, se se viesse a tornar
suspeito ou mesmo se fosse apanhado no acto, não poderia explicar o seu motivo naquele
assassinato sem se incriminar ainda mais a si próprio. Perguntei-lhe se ela não tinha tido escrúpulos
em assassinar Augusto e em assassinar ou exilar tantos dos seus descendentes. Ela disse:
- Nunca, nem por um momento, me esqueci de quem eu era filha.
- E isso explicava muita coisa. O pai de Lívia, um Claudiano, tinha sido proscrito por Augusto
depois da Batalha de Filipos e tinha cometido suicídio, de preferência a cair-lhe nas mãos.
Resumindo, ela contou-me tudo o que eu queria saber, excepto no que dizia respeito às
assombrações na casa de Germânico em Antióquia.
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Repetiu que não tinham sido ordens suas e que nem Plancina nem Piso lhe tinham dito nada sobre
o assunto e que eu estava em tão boa posição para esclarecer o mistério como ela própria. Vi que
era inútil insistir mais; por isso, agradeci-lhe a paciência que tivera comigo e, finalmente, jurei pela
minha cabeça recorrer a tudo o que estivesse no meu poder para fazer dela uma Deusa.
Quando me ia embora, entregou-me um pequeno volume e disse-me que o lesse quando estivesse
em Cápua. Era a colecção dos versos Sibilinos rejeitados sobre os quais escrevi nas primeiras
páginas desta história; quando cheguei à profecia chamada A Sucessão dos Cabeludos pensei que
sabia porque razão Lívia me tinha convidado para jantar e me obrigou a fazer aquele juramento. Se
é que o tinha feito. Tudo aquilo parecia um sonho de embriaguez.
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CAPíTULO XXVI
Sejano escreveu uma petição a Tibério, solicitando que se lembrasse dele se pensassem procurar um
marido para Livila; dizendo que não passava de um cavaleiro, tinha consciência disso, mas Augusto
falara uma vez em casar a sua única filha com um cavaleiro e, pelo menos, Tibério não tinha
súbdito mais leal que ele próprio. Não tinha ambições de ascender à posição de senador e
contentava-se em continuar na situação actual, como sentinela vigilante da segurança do seu nobre
Imperador. Acrescentava que esse casamento seria um golpe sério no partido de Agripina, que o
reconhecia como o seu mais activo opositor. Eles teriam receio de oferecer violência ao filho
sobrevivente de Castor e Livila - o jovem Tibério Gemelo. A morte recente do outro gémeo recaía
sobre Agripina. Tibério respondeu gentilmente que não podia ainda dar uma resposta favorável ao
pedido, apesar do seu forte sentido de obrigação para com Sejano. Parecia-lhe pouco provável que
Livila, cujos dois maridos anteriores tinham sido homens do mais alto nascimento, se contentasse
que ele continuasse cavaleiro; mas se ele subisse de posição e, ao mesmo tempo, casasse com um
membro da família imperial, isto causaria grandes invejas e serviria para fortalecer o partido de
Agripina. Disse que era precisamente para evitar essas invejas que Augusto tinha pensado em casar
a filha com um cavaleiro, um homem reformado que não estivesse de nenhuma maneira envolvido
com a política.
Mas concluiu com uma nota de esperança: ”Abstenho-me de te revelar por agora quais os planos
que tenho para te aproximar de mim por afinidade. Mas sempre te digo uma coisa: que nenhuma
recompensa que te pudesse pagar pela tua devoção seria demasiado alta e que, quando a
oportunidade se apresentar, terei o maior prazer em fazer o que pretendo.”
Sejano conhecia demasiado bem Tibério para não compreender que o pedido tinha sido prematuro -
ele só tinha escrito porque Livila insistira para que o fizesse - e que causara uma ofensa
considerável. Decidiu que Tibério tinha que ser persuadido a deixar Roma imediatamente,
nomeando-o Guardião da Cidade - um magistrado de cujas decisões só era possível apelar para o
Imperador. Como Comandante dos Guardas, era também encarregado do Corpo de Ordenanças e
dos correios imperiais; portanto, seria ele a encaminhar toda a correspondência de Tibério.
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Tibério dependeria também dele para decidir quais as pessoas que admitiria à sua presença; e
quanto menos pessoas ele tivesse que ver, melhor seria. Pouco a pouco, o Guardião da Cidade
tornar-se-ia o detentor de todo o poder real e poderia agir como lhe apetecesse, sem perigo de
interferência por parte do Imperador.
Finalmente, Tibério deixou Roma. O pretexto foi a consagração de um templo a Júpiter em Cápua e
outro a Augusto, em Nola. Mas ele não tencionava voltar nunca mais. Sabía-se que tomara esta
decisão por causa de uma advertência de Trasílo; e aquilo que Trasílo profetizava era aceite sem ser
questionado, como coisa que teria que acontecer. Era ponto assente que Tibério, agora com sessenta
e sete anos de idade - e um aspecto pouco agradável, magro, alquebrado, careca, entorpecido, com o
rosto ulcerado salpicado de emplastros - devia morrer dentro de muito pouco tempo. Ninguém
poderia ter adivinhado que ele estava destinado a viver mais onze anos. Isto pode ter sido porque, a
partir daí, ele nunca chegou mais perto da cidade que os subúrbios. De qualquer forma, foi assim
que aconteceu.
Tibério levou com ele para Capri: um grupo de doutos professores gregos; um destacamento de
soldados escolhidos, incluindo a sua guarda pessoal germana; Trasilo; umas quantas criaturas
pintadas de aspecto estranho e sexo duvidoso; e a escolha mais curiosa de todas, Cocceio Nerva.
Capri é uma ilha na Baía de Nápoles a cerca de três milhas da costa. O seu clima é brando no
Inverno e fresco no Verão. Há apenas um local possível para o desembarque e o resto da ilha é
protegido por penhascos em declive e matas impenetráveis. A forma como Tibério passava ali o seu
tempo livre - quando não estava a discutir poesia e mitologia com os gregos ou lei e política com
Nerva - é uma descrição demasiado revoltante, mesmo para a história. Não direi mais, a não ser que
ele trouxera consigo um conjunto completo dos famosos livros de Elefantina, a mais copiosa
enciclopédia de pornografia alguma vez compilada. Em Capri, ele podia fazer o que não conseguia
fazer em Roma - praticar obscenidades ao ar livre, no meio das árvores e das flores ou à beira de
água, e fazer todo o barulho que lhe apetecia. Como alguns dos seus desportos de ar livre eram
extremamente cruéis, sendo o sofrimento dos companheiros uma boa parte do seu prazer, era sua
opinião que as vantagens resultantes da distância a que se encontrava Caprí eram bem superiores às
desvantagens. Não vivia permanentemente ali: costumava sair a visitar Cápua, Baiae e Antium. Mas
Capri era o seu quartel-general.
Passado algum tempo, deu a Sejano autoridade para afastar
os chefes do partido de Agripina pelos meios que lhe parecessem mais convenientes. Estava em
contacto diário com Sejano e aprovava todos os seus actos em cartas ao Senado. Celebrou em
Cápua um Festival de Ano Novo pronunciando a habitual oração de benção, como
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Sumo Pontífice; depois, voltando-se de repente para um cavaleiro chamado Sabino, que estava
perto dele, acusou-o de tentar seduzir a lealdade dos seus libertos. Um dos homens de Sejano puxou
imediatamente para cima a túnica de Sabino, enrolou-lhe a cabeça nela e passou-lhe uma corda em
volta do pescoço, arrastando-o dali para fora. Sabino gritava numa voz sufocada: ”Socorro, amigos,
socorro!” Mas ninguém se mexeu e Sabino, cujo único crime era ter sido amigo de Germânico e que
tinha sido levado por um testa de ferro de Sejano a exprimir em privado a sua simpatia por
Agripina, foi sumariamente executado. Uma carta de Tibério foi lida no dia seguinte no Senado,
relatando a morte de Sabino e mencionando a descoberta de Sejano de uma perigosa conspiração:
”Meus senhores, tende piedade de um infeliz velho que leva uma existência de constante apreensão,
com membros da própria família a conspirarem vilmente contra a sua vida.” Era evidente que estas
palavras visavam Agripina e Nero. Caio levantou-se e apresentou uma moção, no sentido de que o
Imperador fosse convidado a explicar os seus receios ao Senado e a permitir que os mesmos fossem
tranquilizados: como, sem dúvida, seria fácil que fossem. Mas Tibério ainda não se sentia
suficientemente forte para se vingar de Caio.
No Verão daquele ano houve um encontro ocasional entre Lívia, numa liteira, e Tibério, a cavalo,
na rua principal de Nápoles. Tibério acabava de desembarcar de Capri e Lívia regressava de uma
visita a Herculano. Tibério tinha vontade de passar sem a saudar, mas a força do hábito obrigou-o a
puxar as rédeas e a dirigir-lhe algumas perguntas formais sobre a sua saúde. Ela replicou:
-Ainda me sinto melhor depois do teu amável interesse, meu rapaz. E como mãe, o conselho que te
dou é o seguinte: toma muito cuidado com o barbo que comes na tua ilha. Alguns dos que se
apanham por lá são altamente venenosos.
- Obrigado, Mãe, - disse ele. - Uma vez que a advertência vem da vossa parte, a partir de agora,
limitar-me-ei religiosamente ao atum e à mugem.
Lívia soltou uma risada e, voltando-se para Calígula, que estava com ela, disse em voz alta:
- Bom, como eu dizia, o meu marido (teu bisavô, meu querido) e eu viemos a toda a pressa por esta
rua numa noite escura há sessenta e cinco anos, creio, a caminho das docas, onde o nosso navio
aguardava em segredo. Esperávamos a qualquer momento ser detidos e mortos pelos homens de
Augusto... Como isso parece estranho! O meu filho mais velho (tínhamos tido só um filho até ali) ia
às costas do pai. De repente, o que é que aquele pequeno animal havia de fazer, a não ser soltar um
berro terrível: ”Oh pai, quero voltar para Perú-ú-ú-ú-sia.” Isso revelou a nossa presença. Dois
soldados saíram de uma taberna e interpelaram-nos. Metemo-nos num portal escuro para os deixar
passar. Mas Tibério continuava
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a berrar. ”Eu quero voltar para Perú-ú-ú-sia.” Eu disse: ”Mata-o! Mata o miúdo! É a nossa única
esperança.” Mas o meu marido era um tolo sentimental e recusou. Foi por um verdadeiro acaso que
escapámos.
Tibério, que parara para ouvir o final da história, enterrou as esporas na barriga do cavalo e afastou-
se num repente furioso. Não voltaram a ver-se.
A advertência de Lívia quanto ao peixe destinava-se apenas a deixá-lo desassossegado, a fazê-lo
pensar que ela tinha os seus pescadores ou os seus cozinheiros a soldo. Ela conhecia o apreço de
Tibério pelo barbo e sabia portanto que ele iria ter, a partir dali, um conflito constante entre o
apetite e o receio de envenenamento. Houve uma sequência dolorosa. Um dia, Tibério estava
sentado debaixo de uma árvore na vertente oeste da ilha, gozando a brisa e planeando um diálogo
versejado em grego entre a lebre e o faisão, no qual, cada um por sua vez, reclamava a
proeminência gastronómica. Não era uma ideia original: ele próprio tinha premiado recentemente
um dos poetas da sua corte com 2.000 moedas de ouro por um poema semelhante, no qual os rivais
eram um cogumelo, uma cotovia, uma ostra e um tordo. Na sua introdução, tinha afastado todas
estas pretensões como vãs, declarando que só a lebre e o faisão tinham direito a disputar a coroa de
salsa - só a carne de ambos tinha dignidade sem ser pesada, delicadeza sem ser insípida.
Procurava um adjectivo desagradável para qualificar a ostra, quando ouviu um restolhar repentino
vindo dos espinheiros que ficavam mais abaixo e um indivíduo de olhar feroz, desgrenhado,
apareceu. Tinha o fato molhado e em farrapos, o rosto a sangrar e uma navalha aberta na mão.
Avançou pelo maciço, gritando:
- Toma, César; não é uma beleza?
Do saco que trazia ao ombro tirou um barbo monstruoso e atirou-o, ainda a debater-se, para cima da
erva, aos pés de Tibério. Ele não passava de um pescador que acabava de fazer aquela pescaria
notável e, ao ver Tibério no alto da escarpa, decidira presenteá-lo. Tinha amarrado o barco a um
rochedo, nadara para o penhasco, subira com esforço por um caminho à beira do precipício até à
cintura de espinheiros e abrira caminho pelo meio deles com a sua navalha.
Mas Tibério ficara quase louco de pavor. Soprou num apito e gritou em germânico:
- Socorro, socorro! Venham imediatamente! Wolfgang! Siegfried! AdeIstn! Um assassino! Schnell!
- Aqui vamos, altíssimo Chefe, o de mais alto nascimento, o doador,
- replicaram de imediato os germanos. Estavam de sentinela à direita, à esquerda e atrás dele, mas
não havia ninguém à frente, como era natural. Vieram aos saltos, brandindo as suas azagaias.
302
290

O homem não percebia germano e, fechando a navalha, disse alegremente:


- Apanhei-o ao pé daquela gruta, ali adiante. Fazes ideia de quanto pesa? Uma verdadeira baleia,
einh? Quase me arrastou para fora do barco. Tibério, relativamente tranquilizado mas com a
imaginação cheia de peixes envenenados, gritou para os germanos:
- Não, não o ataquem. Cortem essa coisa ao meio e esfreguem-lho na cara.
O possante Wolfgang agarrou o pescador por trás em volta da cintura, de maneira que ele não
pudesse mexer os braços, enquanto os outros dois lhe esfregavam a cara com o peixe cru. O infeliz
gritava:
- Eh, parai com isso! Isto não é brincadeira! Que sorte eu não ter oferecido primeiro ao Imperador a
outra coisa que tenho no saco.
- Vede do que se trata, - ordenou Tibério.
Edelstein abriu o saco e encontrou nele uma enorme lagosta.
- Esfrega-lhe a cara com isso, - disse Tibério. - Esfrega-lha bem. O desgraçado perdeu os dois
olhos. Depois, Tibério disse:
- já chega. Deixai-o ir!
O pescador ficou para ali aos tombos, a gritar e a delirar com a dor e não havia mais nada a fazer a
não ser atirá-lo ao mar do penhasco mais próximo.
Alegra-me dizer que nunca fui convidado a visitar Tibério na sua ilha; tenho cuidadosamente
evitado cuidadosamente lá voltar, embora todos os vestígios das suas práticas vis tenham sido
retirados há muito e as suas doze villas sejam tidas como muito belas.
Tinha pedido permissão a Lívia para desposar Élia e ela dera-ma, com votos maliciosos de
felicidade. Foi mesmo assistir ao casamento. Foi uma cerimónia esplêndida - Sejano encarregou-se
disso - e um dos efeitos desse acto foi afastar-me de Agripina e Nero e dos seus amigos. Pensava-se
que eu não conseguiria guardar segredos de Élia e que esta contaria a Sejano tudo o que conseguisse
saber. Isto entristeceu-me bastante, mas compreendi que era inútil tentar tranquilizar Agripina (que
estava agora de luto pela irmã Julila, que acabava de morrer após um exílio de vinte anos naquela
maldita pequena ilha de Tremero). Assim, gradualmente, deixei de a visitar, para evitar
constrangimentos. Eu e Élia éramos marido e mulher apenas de nome. Assim que entrámos no
quarto nupcial, a primeira coisa que ela me disse foi:
- Tens que compreender, Cláudio, que não quero que me toques e que, se alguma vez tivermos que
voltar a dormir juntos na mesma cama, como esta noite, haverá uma coberta entre nós e, ao mais
ligeiro movimento que faças, empurro-te para fora. Mais uma coisa: trata da tua vida que eu trato da
minha...
Respondi:
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291

- Obrigado: tiraste-me um grande peso de cima.


Ela era uma mulher horrível. Tinha a eloquência sonora e persistente de um leiloeiro no mercado de
escravos. Em breve, desisti de tentar ripostar. Claro que eu continuava a viver em Cápua e Élia
nunca me foi lá visitar, mas Sejano insistia que, quando eu visitasse Roma, devia ser visto o mais
possível na sua companhia.
Nero não tinha qualquer hipótese contra Sejano e Livila. Embora Agripina o avisasse
constantemente de que devia pesar todas as palavras que dizia, ele era de uma natureza demasiado
aberta para esconder os seus pensamentos. Entre os jovens nobres em quem confiava como amigos,
havia vários agentes secretos de Sejano e estes mantinham um registo das opiniões que exprimia em
todas as ocasiões públicas. Pior ainda, a mulher, a quem chamávamos Helena ou Heluo, era filha de
Lívíla e contava a esta todas as confidências dele. Mas o pior de tudo era o próprio irmão, Druso, a
quem fazia ainda mais confidências do que à mulher e que tinha ciúmes por Nero ser o filho mais
velho e o favorito de Agripina. Druso foi procurar Sejano e disse que Nero lhe tinha pedido que
navegasse secretamente com ele para a Germânia na primeira noite escura e que aí se colocariam
sob a protecção dos regimentos, como filhos de Germânico, organizando depois uma marcha sobre
Roma; o que ele, claro, recusara com indignação. Sejano disse-lhe que esperasse um pouco mais,
até ser chamado a contar a história a Tibério: o momento certo ainda não chegara.
Entretanto, Sejano fez circular o boato de que Tibério estava prestes a acusar Nero de traição. Os
amigos de Nero começaram a abandoná-lo. Logo que dois ou três começaram a escusar-se de
participar nos seus jantares e a retribuir friamente as suas saudações quando o encontravam em
público, os restantes seguiram-lhes o exemplo. Passados poucos meses, apenas lhe restavam os
amigos verdadeiros. Entre eles estava Caio que, agora que o próprio Tibério já não visitava o
Senado, se concentrava em arreliar Sejano. O seu método com Sejano era propor constantemente
votos de agradecimento pelos seus serviços e a concessão de honras especiais - estátuas, arcos,
títulos, orações e a celebração pública do seu aniversário, O Senado não ousava opor-se a estas
moções e Sejano, não sendo Senador, não tinha voto na matéria; e Tibério não queria ir contra o
Senado vetando o seu voto, com receio de antagonizar Sejano e de parecer ter perdido toda a
confiança nele. Sempre que o Senado agora queria alguma coisa feita, mandava primeiro
representantes a Sejano, pedindo permissão para se dirigirem a Tibério sobre a questão. Se Sejano
os desencorajava, o assunto era abandonado. Um dia, Caio propôs que, tal como os descendentes de
Torquato tinham um torque (colar antigo) de ouro e os de Cincinato um caracol de cabelo,
concedidos pelo Senado como emblemas de família em comemoração dos serviços prestados pelos
seus antepassados ao Estado, também Sejano e os seus descendentes
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292

deviam receber como emblema uma chave de ouro, em reconhecimento dos seus fiéis serviços
como porteiro do Imperador. O Senado votou unanimemente esta moção e Sejano, começando a
ficar alarmado, escreveu a Tibério e queixou-se de que Caio propusera maliciosamente todas as
honras anteriores, na esperança de fazer com que o Senado sentisse ciúmes dele; talvez mesmo para
levar o Imperador a suspeitar de que tivesse ambições insolentes. A presente moção tinha sido ainda
mais maliciosa - uma sugestão para o Imperador de que o acesso à presença imperial estava nas
mãos de alguém que fizera uso disso para o seu enriquecimento pessoal. Pedia ao Imperador que
encontrasse uma razão técnica para vetar o decreto e uma forma de silenciar Caio. Tibério
respondeu que não podia vetar o decreto sem afectar a credibilidade de Sejano, mas que, em breve,
tomaria medidas para silenciar Caio: Sejano não precisava ficar ansioso com o assunto e a sua carta
mostrava verdadeira lealdade e um fino e delicado discernimento. Mas a sugestão de Caio produzira
o seu efeito. Repentinamente, Tibério apercebeu-se de que, enquanto as idas e vindas em Capri
fossem conhecidas de Sejano e pudessem em grande medida ser controladas pelo mesmo, ele
próprio só saberia aquilo que Sejano se dava ao trabalho de lhe contar.
E agora cheguei a um momento crucial da minha história - a morte de minha avó Lívia, com a idade
de oitenta e seis anos. Ela podia ter vivido muito mais, pois mantinha intactos a vista e o ouvido,
assim como o uso dos membros, para não falar do seu espírito e memória. Mas, recentemente, tinha
sofrido de resfriados repetidos por causa de uma infecção no nariz; por fim, um desses resfriados
atacou-lhe os pulmões. Chamou-me à sua cabeceira no Palácio. Calhou eu estar em Roma e fui de
imediato. Via-se que estava a morrer. Recordou-me novamente o meu juramento.
- Não descansarei enquanto ele não tiver sido cumprido, Avó,
- disse-lhe. Quando uma mulher muito velha está a morrer e ainda por cima é nossa avó, uma
pessoa diz tudo o que pode para lhe agradar.
- Mas eu julgava que Calígula ia tratar disso para vós!
Ela demorou algum tempo a responder. Depois disse, com uma raiva debilitada:
- Ele esteve aqui há dez minutos! Ficou a rir-se para mim. Disse que eu podia ir para o Inferno e
arder lá para sempre, que tanto lhe fazia. Disse que, agora que eu estava a morrer, já não precisava
de mim para nada e que não se considerava preso a nenhum juramento, porque fora coagido a fazê-
lo. Disse que ele é que ia ser o Deus Todo Poderoso que tinha sido profetizado, e não eu. Disse...
- Não faz mal, Avó. Ainda haveis de vos rir dele no fim. Quando fordes a Rainha do Céu e ele
estiver a ser lentamente desfeito na roda eterna pelos homens de Minos, no Inferno...
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- E pensar que te chamei tolo, - disse ela. - Agora vou partir, Cláudio. Fecha-me os olhos e põe-me
na boca a moeda que hás-de encontrar debaixo da almofada. O Barqueiro vai reconhecê-la e
mostrar-me o devido respeito ...
Depois, ela morreu e eu fechei-lhe os olhos, pondo-lhe a moeda na boca. Era uma moeda de ouro
como eu nunca vira antes, com a cabeça de Augusto e a dela de frente uma para a outra na parte de
cima e um carro triunfal no reverso.
Nada fora dito entre nós sobre Tibério. Em breve fiquei a saber que ele tinha sido prevenido quanto
ao seu estado com tempo suficiente para lhe prestar as últimas homenagens. Mas ele escreveu ao
Senado desculpando-se por não a ter visitado, dizendo que estivera extremamente ocupado e que,
sem falta, iria a Roma para o funeral. Entretanto, o Senado decretara várias honras extraordinárias
em sua memória, incluindo o título de Mãe da Pátria, e tinha mesmo proposto fazê-la semideusa.
Mas Tibério reverteu quase todos estes decretos, explicando numa carta que Lívia era uma mulher
de uma modéstia singular, avessa a todo o reconhecimento público dos seus serviços e com um
sentimento peculiar contra qualquer veneração religiosa que lhe fosse prestada depois de morta. A
carta terminava com reflexões sobre a inoportunidade das mulheres se intrometerem na política,
”para a qual não estavam preparadas e que suscitavam nelas todos esses piores sentimentos de
arrogância e petulância para os quais o sexo feminino tem uma inclinação natural.”
Claro que ele não foi à Cidade para o funeral, embora, unicamente com o objectivo de limitar a sua
magnificência, tivesse tomado todas as disposições necessárias. E levou tanto tempo a fazê-lo que o
Corpo, velho e mirrado como estava, atingira um adiantado estado de putrefacção antes de ser
colocado sobre a pira. Para surpresa de todos, Calígula fez a oração fúnebre, que devia ter sido feita
pelo próprio Tibério; e se não por Tibério, então por Nero, como seu herdeiro. O Senado decretara
um arco em memória de Lívia - a primeira vez na história de Roma que uma mulher recebia tal
honra. Tibério deixou passar o decreto, mas prometeu construir o arco às suas custas: e nunca
chegou a fazê-lo. Quanto ao testamento de Lívia, ele herdou a maior parte da fortuna, como seu
herdeiro natural, mas ela deixara tudo o que lhe era legalmente permitido a membros da sua casa e a
outros dependentes de confiança. Tibério não pagou a ninguém um único destes legados. Eu próprio
deveria ter beneficiado da importância de 20.000 moedas de ouro.
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294

CAPíTULO XXVII
Nunca teria pensado que seria possível sentir a falta de Lívia quando ela morresse. Em criança,
noite após noite, costumava rezar em segredo aos Deuses dos Infernos para que a levassem. E agora
teria oferecido os mais ricos sacrifícios que pudesse encontrar - touros brancos sem mancha,
antílopes do deserto e ibis e flamingos às dúzias - para voltar a tê-la de volta. Pois era claro que
havia muito tempo que só o medo da mãe fizera com que Tibério se mantivesse dentro dos limites.
Alguns dias após a morte dela, Tibério atacou Agripina e Nero. Entretanto, Agripina tinha
recuperado da sua doença. Ele não os acusou de traição. Escreveu ao Senado queixando-se da total
depravação sexual de Nero, do ”porte desdenhoso e língua maléfica” de Agripina, e sugeriu que
fossem tomadas medidas severas para os manter a ambos na ordem.
Quando a carta foi lida no Senado, ninguém disse palavra durante bastante tempo. Todos
perguntavam a si próprios até que ponto a família de Germânico podia contar com o apoio popular,
agora que Tibério se preparava para os sacrificar; e se não seria mais seguro ir contra Tibério do que
contra a populaça. Finalmente, um amigo de Sejano ergueu-se para sugerir que os desejos do
Imperador deviam ser respeitados e que algum decreto devia ser passado contra as pessoas
mencionadas. Havia um Senador que funcionava como escrivão oficial dos procedimentos do
Senado e o que ele dizia tinha muito peso. Até ali, ele tinha votado sem questionar tudo o que era
sugerido nas cartas de Tibério e Sejano afirmara que sempre se podia contar com ele para fazer o
que lhe diziam. No entanto, foi este indivíduo que se levantou para se opor à moção. Disse que a
questão da moral de Nero e da postura de Agripina não devia ser levantada naquele momento. Era
sua opinião que o Imperador tinha sido mal informado e tinha escrito precipitadamente e que,
portanto, no seu próprio interesse, assim como no de Nero e Agripina, não devia ser passado
nenhum decreto até que lhe tivesse sido dado tempo para reconsiderar acusações tão graves contra
os seus parentes próximos. As notícias da carta tinham-se entretanto espalhado por toda a Cidade,
embora os procedimentos do Senado devessem ser considerados secretos até serem oficialmente
publicados por ordem do Imperador; multidões imensas
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295

reuniram-se à volta da Casa do Senado, fazendo demonstrações a favor de Agripina e Nero e


gritando:
- Viva Tibério! A carta é forjada! Viva Tibério! Isto é coisa de Sejano! Sejano enviou um
mensageiro a toda a velocidade a Tibério, que nessa ocasião se deslocara para uma villa a poucas
milhas da Cidade, para o caso de haver problemas. O mensageiro relatou-lhe que o Senado recusara,
seguindo uma moção do Escrivão, tomar em conta a carta; que o povo estava à beira da revolta,
chamando a Agripina a verdadeira Mãe da Pátria e a Nero o seu Salvador; e que, a menos que
Tibério agisse com firmeza e decisão, haveria derramamento de sangue antes que o dia chegasse ao
fim.
Tibério ficou assustado, mas aceitou o conselho de Sejano e escreveu uma carta ameaçadora ao
Senado, pondo as culpas no Escrivão por aquele insulto sem paralelo à dignidade imperial, pedindo
também que a questão fosse deixada inteiramente nas suas mãos, uma vez que mostravam tão pouco
entusiasmo em defender os seus interesses. O Senado cedeu. Tibério, depois de ter feito marchar a
Guarda pela Cidade, com as espadas desembainhadas e fazendo soar as suas trombetas, ameaçou
reduzir para metade a distribuição gratuita de trigo se tivessem lugar novas demonstrações
sediciosas. Depois, exilou Agripina em Pandatária, a mesma ilha onde a mãe, júlia, ficara detida no
início, e Nero em Ponza, outra ilha minúscula e rochosa, a meio caminho entre Capri e Roma, mas
longe das vistas da costa. Disse ao Senado que os dois prisioneiros tinham estado à beira de fugir da
Cidade, na esperança de conquistarem a lealdade dos regimentos de Reno. Antes de Agripina ir para
a sua ilha, fê-la vir à sua presença e fez-lhe perguntas irónicas sobre a maneira como se propunha
governar o poderoso reino que acabava de herdar da mãe (a sua virtuosa falecida esposa) e se
tencionava enviar embaixadores ao filho, Nero, no seu novo reino, de modo a encetar uma poderosa
aliança militar com ele. Agripina não disse uma palavra. Ele irritou-se e berrou-lhe que respondesse
e, como ela continuasse em silêncio, disse a um capitão da guarda que lhe desse um golpe nos
ombros. Finalmente, ela falou:
- Lama Ensopada em Sangue é o teu nome. Foi isso que Teodoro de Gadarene te chamou, segundo
dizem, quando frequentaste as suas aulas de retórica em Rodes.
Tibério tirou a vergasta das mãos do capitão e fustigou-a no corpo e na cabeça, até a deixar
insensível. Como consequência desta terrível tareia, ela perdeu a visão de um dos olhos.
Em breve, Druso foi também acusado de conspirar com os regimentos do Reno. Sejano apresentou
cartas comprovativas (que disse que tinha interceptado, mas que eram realmente forjadas) e também
o testemunho escrito de Lépida, mulher de Druso (com quem ele tivera uma ligação secreta), em
como este lhe pedira que entrasse em contacto com os
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296

marinheiros de óstia que, segundo esperava, se lembrariam de que Nero e ele eram netos de Agripa.
Druso foi entregue pelo Senado a Tibério para que dispusesse dele e Tibério mandou-o encarcerar
numa água-furtada remota do Palácio, sob a vigilância de Sejano.
Caio foi a vítima seguinte. Tibério escreveu ao Senado que Caio tinha ciúmes de Sejano e fizera
tudo o que podia para o levar a cair em desgraça com o seu Imperador, através de louvores irónicos
e outros métodos cheios de malícia. Os membros do Senado ficaram tão desolados com a notícia do
suicídio do Escrivão, que receberam no mesmo dia, que enviaram imediatamente um magistrado
para prender Caio. Quando o magistrado chegou a casa de Caio, disseram-lhe que ele estava fora da
Cidade, em Baiae. Aí, encaminharam-no para a villa de Tibério, onde ambos foram encontrados a
jantar. Tibério brindava Caio com um copo de vinho e Caio respondia lealmente. Parecia haver uma
tal atmosfera de bom humor e alegria na sala de jantar, que o magistrado ficou embaraçado e sem
saber o que dizer. Tibério perguntou-lhe porque tinha vindo.
- Para prender um dos teus convivas, César, por ordem do Senado.
- Que conviva? - perguntou Tibério.
- Asínio Caio, - replicou o magistrado, - mas parece tratar-se de um erro.
Tibério tomou um ar grave.
- Se o Senado tem alguma coisa contra ti, Caio, e enviaram este magistrado para te prender, receio
que a nossa agradável sessão tenha que ser interrompida. Não posso ir contra o Senado, como sabes.
Mas digo-te o que vou fazer, agora que chegámos a um entendimento cordial: vou escrever ao
Senado a pedir, como um favor pessoal, que não tomem qualquer atitude sobre o teu caso até
receberem notícias minhas. Isso significa que estarás apenas detido, à guarda dos Cônsules - nada
de algemas ou qualquer coisa degradante. Tratarei de garantir a tua libertação logo que possa.
Caio sentiu-se obrigado a agradecer a Tibério a sua magnanimidade, mas tinha a certeza de que
havia uma armadilha em qualquer lado, que Tibério estava a retribuir ironia com ironia; e estava
certo. Foi levado para Roma e posto numa sala subterrânea do Senado. Não foi autorizado a ver
ninguém, nem mesmo um criado, ou a enviar quaisquer mensagens aos amigos ou à família. A
comida era-lhe dada todos os dias através das grades. A sala estava escura, recebendo apenas a luz
fraca que vinha através das grades e tendo como única mobília um colchão. Disseram-lhe que
aquelas instalações eram apenas temporárias e que Tibério, em breve, viria resolver o seu caso. Mas
os dias transformaram-se em meses, os meses em anos e ele continuava lá. A comida era escassa -
cuidadosamente calculada por Tibério para o manter sempre com fome, mas sem o deixar morrer.
Não lhe era permitido usar uma faca para a cortar, com
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297

medo que a usasse para se suicidar, nem qualquer outra arma afiada ou alguma coisa com que se
pudesse distrair, tal como material para escrever, livros ou dados. Davam-lhe muito pouca água
para beber e nenhuma para se lavar. Se alguma vez se falava dele na presença de Tibério, o velho
dizia sorrindo:
- Ainda não fiz as pazes com Caio.
Quando soube da detenção de Caio, lamentei ter tido recentemente um desentendimento com ele.
Foi apenas um desentendimento literário. Ele tinha escrito um livro tolo chamado: Comparação
entre meu Pai, Asínio Pólio, e o seu Amigo Marco Túlio Cícero, como Oradores. Se a base da
comparação fosse o carácter moral ou a habilidade política ou mesmo a sabedoria, Pólio teria
facilmente saído com a melhor posição. Mas Caio estava a tentar provar que o pai era o orador mais
polido. Isso era absurdo e eu escrevi um pequeno livro para dizer isso mesmo; livro esse que,
surgindo pouco depois da minha crítica aos comentários do próprio Pólio a respeito de Cícero,
aborreceu enormemente Caio. Teria de boa vontade impedido o meu livro de ser publicado, se com
isso pudesse ter aliviado a miserável vida de prisioneiro de Caio, por muito pouco que fosse. Acho
que foi tolice minha pensar desta forma.
Sejano conseguiu finalmente informar Tibério de que o poder do Partido Verde Claro estava
destruído e que ele não precisava de continuar a sentir qualquer ansiedade. Tibério recompensou-o
dizendo que tinha decidido casá-lo com a neta Helena (cujo casamento com Nero ele tinha
dissolvido) e insinuando ainda maiores favores. Foi nesta altura que minha mãe, que, como deveis
estar lembrados, era também mãe de Livila, interveio. Desde a morte de Castor que Livila estava a
viver com ela e tinha sido suficientemente descuidada para a deixar descobrir que andava a manter
uma correspondência secreta com Sejano. A minha mãe sempre fora muito poupada e, agora na
velhice, o seu maior prazer era guardar os coutos das velas e derretê-los para fazer velas novas,
vender os restos da cozinha aos criadores de porcos e misturar pó de carvão com um líquido
qualquer, para o amassar e fazer bolas que, depois de secas, ardiam quase tão bem como o carvão.
Livila, por outro lado, era muito extravagante e a minha mãe estava sempre a repreendê-la por isso.
Um dia, a minha mãe calhou passar pelo quarto de Livila e viu um escravo sair de lá com um cesto
de papéis velhos.
Onde vais, rapaz? - perguntou.
À fornalha, Senhora; ordens de Dona Livila. A minha mãe disse:
- É um enorme desperdício alimentar a fornalha com bocados de papel em perfeito estado; sabes
quanto custa o papel? Bom, três vezes o preço do pergaminho. Alguns destes papéis parece que nem
foram escritos.
310
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- Dona Livila ordenou expressamente...


- Dona Livila devia estar muito preocupada quando mandou destruir papel valioso. Dá-me o
cesto. As partes não utilizadas podem ser úteis para fazer listas para a casa, além de outras coisas.
Se não estragarmos, nada nos vai faltar.
Levou os papéis para o quarto dela e preparava-se para cortar as partes boas, quando lhe surgiu a
ideia de tentar tirar a tinta da folha toda. Até ali, abstivera-se honrosamente de ler o que estava
escrito; mas quando começou a esfregar a tinta, a leitura tornou-se impossível de evitar. De repente,
compreendeu que se tratavam de rascunhos ou começos não satisfatórios de uma carta para Sejano;
depois de começar a ler já não conseguiu parar e, antes de ter acabado, já sabia a história toda.
Livila estava nitidamente zangada e ciumenta por Sejano ter consentido em casar com outra pessoa
- ainda por cima, a sua própria filha! Mas estava a tentar esconder os seus sentimentos. - Cada
rascunho da carta era um pouco mais contido. Escrevia-lhe que tinha que agir rapidamente antes
que Tibério suspeitasse de que ele não tinha a intenção de se casar com Helena; e se ele ainda não
estava preparado para assassinar Tibério e usurpar a monarquia, não seria melhor que ela própria
envenenasse Helena?
A minha mãe mandou chamar Palas, que estava a trabalhar para mim na Biblioteca, à procura de
algum facto histórico relacionado com os etruscos, e disse-lhe que fosse ter com Sejano e, em meu
nome, como se tivesse sido enviado por mim, pedisse permissão para falar com Tibério em Capri, a
fim de o presentear com a minha História de Cartago. Eu acabara recentemente esta obra e enviara
uma cópia à minha mãe antes de o mandar publicar). Em Capri, ele devia pedir ao Imperador, uma
vez mais em meu nome, que aceitasse que lhe dedicasse a obra. Sejano deu prontamente a sua
permissão; sabia que Palas era um dos escravos da nossa família e não suspeitou de nada. Mas no
décimo segundo volume da História a minha mãe tinha colado as cartas de Livila e uma carta dela a
explicar, e disse a Palas que não deixasse ninguém mexer nos volumes (que estavam todos selados)
e que os desse a Tibério com as suas próprias mãos. Ele devia acrescentar às minhas supostas
saudações e ao meu pedido de permissão para dedicatória do livro a seguinte mensagem: ”Dona
Antónia também vos envia as suas saudações amistosas, mas é de opinião que estes livros do filho
não têm qualquer interesse para o Imperador, excepto o décimo segundo volume, que contém uma
digressão muito curiosa que, está confiante, vos interessará imediatamente.”
Palas parou em Cápua para me informar para onde ia. Disse que era estritamente contra as ordens
da minha mãe que me estava a pôr ao corrente daquela incumbência, mas, afinal, eu era o seu
verdadeiro senhor, não a minha mãe, embora ela agisse como se ele lhe pertencesse; e que
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ele não faria nada voluntariamente que me criasse problemas; e que tinha a certeza que eu,
pessoalmente, não tinha qualquer intenção de oferecer a dedicatória ao Imperador. A princípio
fiquei confuso, especialmente quando mencionou o décimo segundo volume; por isso, enquanto ele
se estava a lavar e a mudar de roupa, quebrei o selo. Quando vi o que tinha sido inserido fiquei tão
assustado que, por momentos, pensei em queimar tudo. Mas isso era tão perigoso como deixar que a
mensagem chegasse ao seu destino; por isso, acabei por selar de novo o livro. A minha mãe tinha
usado um duplicado do meu selo, que eu lhe dera para usar em questões de negócios; portanto,
ninguém saberia que eu tinha aberto aquele volume, nem mesmo Palas. Este apressou-se a tomar o
caminho de Capri e, na volta, disse-me que Tibério tinha pegado no décimo segundo volume e o
levara para fora, indo passear para a floresta. Se quisesse, dissera, mas devia abster-me de usar
frases extravagantes ao fazê-lo. Isto tranquilizou-me um pouco, mas nunca se podia confiar em
Tibério quando ele se mostrava cordial. Naturalmente eu estava na mais profunda ansiedade quanto
ao que iria acontecer e sentia uma grande amargura contra a minha mãe por ter posto a minha vida
em tão grande risco, ao misturar-me numa discórdia entre Tibério e Sejano. Pensei em fugir, mas
não tinha para onde.
A primeira coisa que aconteceu foi que Helena ficou inválida sabemos agora que não havia nada de
errado com ela, mas Livila dera-lhe a escolher entre ficar de cama como se estivesse doente ou ficar
de cama por estar doente. Foi levada de Roma para Nápoles, onde o clima era considerado mais
saudável. Tibério deu licença para que o casamento fosse adiado indefinidamente, mas dirigia-se a
Sejano como genro, como
se o casamento já tivesse tido lugar. Elevou-o à posição de
Senador e fê-lo seu colega no Consulado, além de pontífice. Mas depois fez alguma coisa que
cancelou estes favores: convidou Calígula para Capri por alguns dias e, em seguida, enviou-o de
volta armado com uma carta da maior importância para o Senado. Na carta, dizia que tinha
examinado o jovem, que era agora seu herdeiro, e achado que ele era de um temperamento e
carácter muito diferentes dos irmãos e que se recusaria a acreditar em quaisquer acusações que
pudessem ser apresentadas contra a sua moral ou lealdade. Agora punha Calígula sob os cuidados
de Élio Sejano, seu companheiro no Consulado, pedindo-lhe que guardasse o jovem de todo o mal.
Nomeava-o também pontífice e sacerdote de Augusto.
Quando a Cidade soube desta carta houve grande júbilo. Ao tornar Sejano responsável pela
segurança de Calígula, Tibério dava a entender que estava a preveni-lo de que a sua contenda com a
família de Germânico já tinha sido levada suficientemente longe. O Consulado de Sejano era
considerado como um mau augúrio para ele. Era a quinta vez que Tibério exercia o cargo e todos os
seus anteriores colegas tinham morrido em
312
300

circunstâncias pouco afortunadas: Varo, Gneo Piso, Germânico, Castor. Por isso, novas
esperanças nasceram de que os problemas da nação não tardariam a ter fim: um filho de Germânico
iria governá-los. Tibério podia talvez matar Nero, e Druso, mas era evidente que decidira salvar
Calígula: Sejano não seria o próximo Imperador. Todas as pessoas que Tibério auscultava sobre o
assunto pareciam tão genuinamente aliviadas com a sua escolha de um sucessor - de alguma forma,
eles tinham-se persuadido de que Calígula herdara todas as virtudes do pai -, que Tibério (que
reconhecia o verdadeiro mal quando ele se lhe deparava e tinha dito a Calígula, francamente, que
sabia que ele era uma cobra venenosa e que o tinha poupado por essa mesma razão) se sentia muito
divertido e inteiramente satisfeito. Podia usar a popularidade crescente de Calígula para controlar
Sejano e Livila.
Entretanto, abriu-se um pouco com Calígula e encarregou-o de uma missão: descobrir, através de
conversas íntimas com homens da Guarda, qual dos seus capitães tinha maior influência pessoal no
acampamento da Guarda, a seguir a Sejano. Depois, certificar-se de que ele era igualmente
sanguinário e destemido. Calígula envergou uma cabeleira e fato de mulher e, juntando-se a duas
jovens prostitutas, começou a frequentar as tabernas suburbanas onde os soldados bebiam à noite.
Com o rosto pesadamente maquilhado e o corpo enchumaçado, ele passava por mulher, uma mulher
alta e não muito atraente, mas ainda assim uma mulher. A descrição que fazia de si mesmo nas
tabernas era que estava a ser mantido por um rico comerciante que lhe dava bastante dinheiro - com
base no que costumava pagar rodadas de bebidas. Esta generosidade tornou-o muito popular. Em
breve, ficou por dentro de grande parte dos mexericos do acampamento e o nome que surgia sempre
no meio das conversas era o de um capitão chamado Macro. Macro era filho de um dos libertos de
Tibério e, segundo a opinião geral, era o indivíduo mais duro de Roma. Os soldados falavam todos
eles com admiração das suas festas com bebida e mulheres, do seu domínio sobre os outros capitães
e da sua presença de espírito em situações difíceis. O próprio Sejano tinha medo dele, diziam;
Macro era o único homem que alguma vez lhe fizera frente. Assim, uma noite, Calígula aproximou-
se de Macro e apresentou-se secretamente: foram dar um passeio juntos e tiveram uma longa
conversa.
Tibério começou então a escrever uma estranha série de cartas ao Senado: tão depressa dizia que
estava num péssimo estado de saúde e quase a morrer, como anunciava que se restabelecera de
repente e chegaria a Roma a qualquer instante. Escrevia de uma forma muito estranha sobre Sejano,
misturando elogios extravagantes com reprimendas cheias de petulância; e a impressão geral que
isto criava era que ele tinha ficado senil e estava a perder o juízo. Sejano ficou tão espantado com
estas cartas que não conseguia chegar a uma decisão quanto a tentar de imediato
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uma revolta ou manter a sua posição, que ainda era muito forte, até que Tibério morresse ou
pudesse ser afastado do poder com base na imbecilidade. Queria visitar Capri e verificar por si
mesmo como estavam as coisas com Tibério. Escreveu a pedir permissão para o visitar no seu
aniversário, mas Tibério respondeu que, como Cônsul, ele devia ficar em Roma; já era
suficientemente irregular ele próprio estar permanentemente ausente. Sejano escreveu então a
informar que Helena estava gravemente doente em Nápoles e lhe pedira que a visitasse: não seria
possível dar-lhe permissão para isso, apenas por um dia? Além disso, Nápoles distava de Capri
apenas uma hora, em barco a remos. Tibério respondeu que Helena tinha os melhores médicos e
devia ser paciente; e que ele próprio iria agora a Roma e desejava que Sejano lá estivesse para o
receber. Mais ou menos pela mesma altura, anulou uma acusação contra um ex-governador da
Hispânia, que Sejano estava a acusar de extorsão, baseando-se no facto das provas serem
contraditórias. Nunca antes ele deixara de apoiar Sejano num caso daqueles. Sejano começou a ficar
alarmado. O seu mandato como Cônsul expirou.
No dia fixado por Tibério para a sua chegada a Roma, Sejano estava à espera, à frente de um
batalhão de Guardas, no exterior do templo de Apolo, onde o Senado, por coincidência, estava
reunido por causa das reparações que nessa altura estavam em curso na Casa do Senado. De
repente, Macro adiantou-se e saudou-o. Sejano perguntou-lhe porque deixara o acampamento.
Macro replicou que Tibério lhe enviara uma carta para entregar ao Senado.
- Porquê vós? - inquiriu Sejano, desconfiado.
- Porque não?
- Mas porque não eu?
- Porque a carta é sobre vós! - Depois, Macro sussurrou-lhe ao ouvido. - As minhas mais calorosas
felicitações, General. Há uma surpresa para vós na carta. Ides ser nomeado Protector do Povo. Isso
quer dizer que sereis o próximo Imperador.
Na realidade, Sejano não esperava que Tibério aparecesse, mas tinha ficado muito ansioso com o
recente silêncio dele. Agora precipitou-se, exultante, para o interior do Senado.
Nessa altura, Macro mandou pôr os Guardas em sentido. Disse-lhes:
- O Imperador acaba de me nomear vosso General no lugar de Sejano. Estas são as minhas ordens.
Deveis regressar imediatamente ao acampamento, livres dos vossos deveres de guarda. Quando ali
chegardes, dizei aos outros indivíduos que Macro é quem manda agora e que haverá trinta moedas
de ouro para cada homem que saiba obedecer às ordens. Quem é o capitão mais antigo? TU? Leva
os homens. Mas não façam muito alarde da questão.
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Os Guardas partiram e Macro contactou o comandante dos Vigias, que já tinha sido alertado, para
que fornecesse uma guarda para o lugar deles. Depois, entrou atrás de Sejano, entregou a carta aos
Cônsules e saíu de imediato, antes que tivessem lido uma só palavra. Verificou se os Vigias
estavam devidamente posicionados e depois seguiu apressadamente os Guardas que regressavam ao
acampamento, para se certificar de que não haveria distúrbios.
Entretanto, a notícia do Protectorado de Sejano correra o Senado e todos começaram a aclamá-lo e a
apresentar-lhe as suas felicitações. O Cônsul mais velho fez uma chamada à ordem e passou a ler a
carta. Começava com as desculpas habituais de Tibério por não assistir à sessão - pressão de
trabalho e falta de saúde - e continuava discutindo tópicos de interesse geral, queixando-se depois
ligeiramente da pressa de Sejano em preparar a acusação do ex-Governador sem as necessárias
provas. Aqui, Sejano sorriu, porque esta petulância de Tibério fora sempre até ali um prelúdio à
concessão de uma nova honraria. Mas a carta continuava no mesmo tom de reprimenda, parágrafo
a seguir a parágrafo, com uma severidade que crescia gradualmente e o sorriso apagou-se
lentamente da cara de Sejano. Os senadores que o aclamavam ficaram silenciosos e perplexos e um
ou dois, que estavam sentados perto dele, apresentaram uma desculpa qualquer e dirigiram-se para o
outro lado da Casa. A carta terminava dizendo que Sejano tinha sido culpado de graves
irregularidades, que dois dos seus amigos, o seu tio Júnio Bleso que triunfara de Tacfarinas, e outro,
deviam, na sua opinião, ser punidos, e que o próprio Sejano devia ser detido, O Cônsul, que tinha
sido prevenido por Macro na noite anterior do que Tibério desejava que ele fizesse, gritou: ”Sejano,
vem aqui!”. Sejano não podia acreditar no que ouvia. Estava à espera do final da carta e da sua
nomeação para o Protectorado. O Cônsul teve que o chamar duas vezes antes que ele
compreendesse. Disse:
- Eu? Estás a falar para mim?
Logo que os seus inimigos compreenderam que Sejano caíra finalmente, começaram a vaiá-lo e a
assobiá-lo bem alto; e os seus amigos e parentes, preocupados com a própria segurança, juntaram-se
a eles. De repente, encontrou-se sem um único apoiante. O Cônsul perguntou se o conselho do
imperador devia ser seguido. ”Sim, sim!”, gritaram todos em coro. O Comandante dos Vigias foi
chamado e, quando Sejano viu que os seus próprios Guardas tinham desaparecido e que os Vigias
tinham tomado os seus lugares, percebeu que estava derrotado. Foi levado para a prisão e a
populaça, que soubera do que estava a acontecer, apinhou-se em volta dele e gritou, gemeu e
bombardeou-o com porcaria. Tapou a cara com a túnica, mas eles ameaçaram matá-lo se não a
descobrisse; quando ele obedeceu, alvejaram-no ainda mais. Nessa mesma tarde, o Senado, vendo
que não havia Guardas por ali e que a multidão ameaçava
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invadir a prisão para linchar Sejano, decidiram guardar o crédito para eles e condenaram-no à
morte.
Calígula enviou imediatamente a Tibério a notícia com sinais de farol. Tibério tinha uma frota
pronta preparada para o levar para o Egipto se os seus planos falhassem. Sejano foi executado e o
seu corpo atirado pela Escada das Lamentações, onde a populaça abusou dele durante três dias.
Quando chegou a altura de ser arrastado com um gancho atravessado na garganta até ao Tibre, o
crânio tinha sido levado para os Banhos Públicos e usado como bola e só restava metade do tronco.
As ruas de Roma estavam juncadas com os estilhaços dos membros partidos das suas numerosas
estátuas.
Os filhos que tivera com Apicata foram condenados à morte por decreto. Havia um rapaz que já
atingira a maioridade, outro menor, e a jovem que tinha estado noiva de meu filho Drusilo - ela
tinha agora catorze anos. O rapaz menor não podia legalmente ser executado; por isso, seguindo um
precedente da Guerra Civil, fizeram-no vestir a túnica varonil para a ocasião. A rapariga, sendo
virgem, era ainda mais fortemente protegida pela lei. Não havia precedente de se executar uma
virgem só por ser filha de quem era. Quando a levaram para a prisão, ela não entendeu o que estava
a acontecer e gritou: ”Não me leveis para a prisão! Chicoteai-me se quiserdes que eu não volto a
fazer o mesmo!” Ao que parecia, ela tinha uma qualquer maldade de rapariguinha na consciência.
Macro deu ordens para que, no sentido de evitar a má sorte que cairia sobre a Cidade se a
executassem enquanto virgem, o executor público a violasse. Logo que soube disto, disse para mim
próprio: ”Roma, estás perdida; não pode haver expiação para um crime tão horrível”. Invoquei os
Deuses para que testemunhassem que, embora parente do Imperador, eu não participara no governo
do meu país e detestava o crime tanto quanto eles, embora fosse impotente para o vingar.
Quando Apicata soube o que tinha acontecido aos filhos e viu a multidão insultando os corpos deles
na Escada, suicidou-se. Mas primeiro escreveu uma carta a Tibério dizendo-lhe que Castor tinha
sido envenenado por Livila e que esta e Sejano tinham a intenção de usurpar a monarquia. Culpava
Livila por tudo. A minha mãe não soubera do assassinato de Castor. Tibério chamou a minha mãe a
Capri, agradeceu-lhe os seus bons serviços e mostrou-lhe a carta de Apicata. Disse-lhe que qualquer
recompensa, dentro do razoável, estava à sua disposição. A minha mãe disse que a única
recompensa que pedia era que o nome da família não caísse em desgraça: que a filha não fosse
executada e o seu corpo atirado pela Escada.
- Então, como sugeris que ela seja punida? - perguntou Tibério com aspereza.
- Entrega-ma a mim, - disse a minha mãe. - Eu a punirei.
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Assim, Livila não sofreu qualquer procedimento público. A minha mãe fechou-a num quarto ao
lado do dela e deixou-a morrer à fome. Ouvia-lhe os gritos de desespero e as maldições, dia após
dia, noite após noite, enquanto enfraquecia gradualmente; mas conservou-a ali, não numa cave
qualquer onde não pudesse ouvi-la, até morrer. Fê-lo não por sentir prazer com a tortura, pois aquilo
foi um sofrimento inenarrável para ela, mas como castigo contra si própria por ter criado uma filha
tão abominável.
Seguiu-se toda uma série de execuções em resultado da morte de Sejano - todos os seus amigos, que
não tinham sido suficientemente rápidos a fazer a mudança, e muitos daqueles que a tinham feito.
Aqueles que não anteciparam a morte com o suicídio foram atirados da Rocha Tarpeia, no Monte
Capitolino. Os seus bens foram confiscados. Tibério pagou pouco aos acusadores; estava a tornar-se
económico. A conselho de Calígula, apresentou queixas contra os acusadores que tinham direito a
benefícios mais elevados e, assim, conseguiu confiscar também os seus bens. Cerca de sessenta
senadores, 200 cavaleiros e 1.000 ou mais cidadãos comuns morreram nesta altura. A minha aliança
pelo casamento com a família de Sejano podia facilmente ter-me custado a vida, se eu não fosse
filho de Antónia. Foi-me agora permitido divorciar-me de Élia e guardar um oitavo do seu dote. Na
realidade, devolvi-lho todo. Deve ter achado que eu era um tolo. Mas fi-lo como compensação por
ter afastado dela a nossa filha Antónia, logo que esta nasceu. Na verdade, Élia tinha aceitado
engravidar de mim logo que sentiu que a posição de Sejano se estava a tornar insegura. Pensou que
isto lhe traria alguma protecção se ele caísse do poder; Tibério não podia propriamente mandá-la
executar, estando grávida do sobrinho. Aceitei com prazer o divórcio de Élia, mas nunca lhe teria
roubado a criança se não fosse a insistência de minha mãe: ela queria Antónia para si, como coisa
sua e para tratar como mãe - chama-se a isso fome de avó.
O único membro da família de Sejano que escapou foi o irmão, pela estranha razão de ter
publicamente troçado da calvície de Tibério. No último festival anual em honra de Flora, ao qual ele
calhou presidir, utilizou apenas homens carecas para realizar as cerimónias, que se prolongaram até
à noite, e os espectadores foram iluminados à saída do teatro por 5.000 archotes, sustentados por
crianças cujas cabeças tinham sido rapadas. Tibério foi informado disto na presença de Nerva por
um senador que o visitou e, para criar boa impressão em Nerva, disse:
- Eu perdoo-lhe. Se Júlio César não levou a mal piadas à sua calvície, porque o faria eu?
Suponho que, após a queda de Sejano, Tibério decidiu, por um capricho semelhante, renovar a sua
magnanimidade.
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Mas Helena foi punida, unicamente por ter fingido estar doente, através do casamento com
Blando, um indivíduo ordinário cujo avô, um cavaleiro da província, tinha vindo para Roma como
professor de retórica. Este foi considerado um comportamento muito baixo por parte de Tibério,
porque Helena era sua neta e, com esta aliança, ele estava a desonrar a sua própria casa. Dizia-se
que não era preciso recuar muito na linhagem de Blando para chegar aos escravos.
Tibério compreendia agora que os Guardas, a quem pagou um bónus de cinquenta moedas de ouro
por cabeça (e não trinta, como Macro prometera), eram a sua única defesa certa contra o povo e o
Senado. Disse a Calígula:
- Não há um único homem em Roma que não gostasse de comer a minha carne.
Os Guardas, para mostrarem a sua lealdade a Tibério, queixaram-se de que tinham sido injustiçados
ao serem preteridos a favor dos Vigias para escoltar Sejano até à prisão; como protesto, marcharam
para fora do acampamento para saquear os subúrbios. Macro deixou-os gozar bem a noite, mas,
quando o toque de reunir soou na madrugada do dia seguinte, os homens que não estavam de
regresso ao fim de duas horas foram chicoteados quase até à morte.
Passado algum tempo, Tibério declarou uma amnistia. Mais ninguém podia ser julgado por ter
estado politicamente ligado a Sejano e, se alguém quisesse pôr luto por ele, recordando os seus
feitos nobres, agora que os maus tinham sido totalmente punidos, não seriam levantadas objecções.
Bastantes homens o fizeram, pensando que era isso que Tibério desejava, mas estavam enganados.
Em breve as suas vidas estavam em julgamento, sob acusações perfeitamente infundadas, sendo a
mais comum o incesto. Foram todos executados. Poderá perguntar-se como foi que ainda sobraram
senadores e cavaleiros, depois de toda esta mortandade: mas a resposta é que Tibério mantinha as
Ordens em força através de promoções constantes. Nascimento livre, um registo limpo e alguns
milhares de moedas de ouro eram as únicas qualificações necessárias para admissão na Nobre
Ordem dos Cavaleiros; e havia sempre bastantes candidatos, embora o pagamento da iniciação fosse
pesado. Tibério estava a tornar-se mais ávido que nunca; esperava que os homens ricos lhe
deixassem pelo menos metade dos seus bens em testamento e, se se descobria que não o tinham
feito, declarava os testamentos tecnicamente inválidos por causa de uma qualquer falha legal. Ele
próprio chamava a si todos os bens, enquanto os herdeiros nada recebiam. Praticamente, não
gastava dinheiro nenhum em obras públicas, nem mesmo para completar o Templo de Augusto, e
limitava os donativos de trigo e as verbas destinadas aos divertimentos públicos. Pagava
regularmente aos exércitos e era tudo. Quanto às províncias, já não fazia o que quer que fosse por
elas, desde que os impostos
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e os tributos chegassem regularmente; já nem sequer se incomodava em nomear novos


governadores, quando os anteriores morriam. Uma delegação da Hispânia veio uma vez queixar-se
de que havia quatro anos que estavam sem governador e que o pessoal que trabalhara com o último
deles andava a pilhar a província de maneira vergonhosa. Tibério disse:
- Não estais a pedir um novo governador, pois não? Mas um novo governador só traria pessoal novo
e ficaríeis ainda pior que antes. Vou contar-vos uma história. Houve em tempos um homem
gravemente ferido que estava estendido no campo de batalha, à espera que o médico viesse tratar-
lhe da ferida, que estava coberta de moscas. Um camarada, que estava ligeiramente ferido, viu as
moscas e ia enxotá-las. ”Oh não,” gritou o ferido, ”não faças isso. Estas moscas agora estão quase
empanturradas com o meu sangue e já não me magoam tanto como no início; se as enxotares, o seu
lugar será imediatamente ocupado por outras, esfomeadas, e isso acabará comigo.”
Deixou que os partos ocupassem a Arménia, que as tribos do Transélanúbio invadissem os Balcãs e
que os germanos fizessem incursões do outro lado do Reno, entrando em França. Confiscou os bens
de uma série de chefes aliados e pequenos reis de França, Hispânia, Síria e Grécia, usando os
pretextos mais triviais. Retirou a Vortones o seu tesouro - deveis estar recordados que Vonones era
o antigo rei da Arménia, por causa de quem o meu irmão Germânico teve um desentendimento com
Gneo Piso -, enviando agentes que o ajudaram a fugir da Cilícia (onde Germânico o pusera sob
guarda), mandando-o depois perseguir e matar.
Nesta altura, os informadores começaram a acusar os homens ricos de cobrarem mais do que o juro
legal nos empréstimos - um e meio por cento era tudo o que estavam autorizados a cobrar. O
estatuto que o regulamentava há muito que estava suspenso e, praticamente, nenhum senador estava
inocente de o ter infringido. Mas Tibério confirmou-lhe a validade. Uma delegação foi procurá-lo e
pediu que fosse concedido a todos o período de um ano e meio para ajustarem as suas finanças à
letra da lei e Tibério, como grande favor, acedeu ao pedido. O resultado foi que todas as dívidas
foram imediatamente reclamadas e isto provocou uma grande falta de liquidez. Para começar, as
imensas e inúteis quantidades de ouro e prata que Tibério guardava no Tesouro tinham sido
responsáveis pela subida das taxas de juro, o que gerou o pânico financeiro. Os valores da terra
baixaram para zero. Tibério acabou por ser forçado a minorar a situação emprestando aos
banqueiros 1.000.000 de moedas de ouro do dinheiro público, sem juros, para pagar a quem pedia
empréstimos, em troca por garantias em terras. Ele nem teria feito tudo isto, se não fossem os
conselhos de Cocceio Nerva. Por vezes, Tibério ainda consultava Nerva, que, vivendo em Capri,
onde era cuidadosamente mantido à distância da cena dos deboches de Tibério e a quem eram
permitidas poucas notícias
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de Roma, era talvez o único homem no mundo que ainda acreditava na bondade de Tibério. Perante
Nerva (foi Calígula quem mo disse, alguns anos mais tarde), Tibério explicava os seus favoritos
pintados como pobres órfãos de quem ele se apiedara, a maior parte deles um pouco tontos da
cabeça, o que justificava a maneira estranha como se vestiam e se comportavam. Mas seria que
Nerva era realmente tão simples e tão curto de vista, a ponto de ter acreditado nisto?
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CAPíTULO XXVIII
Dos últimos cinco anos do reinado de Tibério, quanto menos se falar melhor. Não suporto escrever
detalhadamente sobre Nero, morto à fome, lentamente; ou sobre Agripina, que se alegrou com a
notícia da queda de Sejano, mas, quando viu que isso em nada melhorava as coisas, se recusou a
comer e foi alimentada à força durante algum tempo (depois, finalmente, deixaram-na morrer, como
ela desejava); ou sobre Caio, que morreu de tuberculose; ou sobre Druso que, afastado por algum
tempo da água-furtada do Palácio para uma cave escura, foi encontrado morto com a boca cheia de
lã do colchão, que se pusera a mastigar por causa da fome. Mas, pelo menos, tenho que registar que
Tibério escreveu cartas ao Senado regozijando-se com a morte de Agripina e de Nero - acusava-a
agora de traição e adultério com Caio - e lamentando, no caso de Caio, que ”a pressão dos assuntos
públicos tivesse feito adiar constantemente o seu julgamento, de forma que ele tinha morrido antes
que se pudesse provar a sua culpa.” Quanto a Druso, escreveu que este jovem era o patife mais
lascivo e traiçoeiro que alguma vez encontrara. Ordenou que fosse feita a leitura pública, pelo
capitão da Guarda que estava encarregado dele, de todos os comentários traiçoeiros que Druso
proferira na prisão, Nunca antes um documento tão penoso tinha sido lido na Casa. Era nítido, pelos
comentários de Druso, que ele tinha sido espancado, torturado e insultado pelo próprio capitão,
pelos soldados comuns e mesmo por escravos e que recebera, de forma muito cruel, cada vez menos
alimento e bebida, migalha a migalha, gota a gota. Tibério ordenou mesmo ao capitão que lesse a
maldição de Druso moribundo. Era uma imprecação selvática mas bem construída, acusando
Tibério de avareza, traição, sordidez obscena, deleite na tortura, de ter assassinado Germânico e
Póstumo e de toda uma série de outros crimes (a maior parte dos quais ele cometera, mas nenhum
deles tinha sido publicamente mencionado antes); pedia a Deus que todo o incomensurável
sofrimento e desgosto que Tibério causara aos outros pesasse sobre ele com uma força cada vez
maior, na vigília ou no sono, noite e dia, enquanto vivesse, que o oprimisse na hora da sua morte e o
obrigasse a eterna tortura no dia do Julgamento infernal. Os senadores interromperam a leitura com
exclamações de pretenso horror perante a traição de Druso, mas estes ah’s e oh’s e gemidos
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encobriam o seu espanto por Tibério ter voluntariamente fornecido uma tal revelação da sua própria
maldade. Tibério sentiu muita pena de si mesmo na altura (soube-o depois por Calígula), sendo
atormentado por insónias e receios supersticiosos; e contava realmente com a simpatia do Senado.
Com as lágrimas nos olhos, disse a Calígula que o assassinato dos seus parentes lhe tinha sido
imposto pelas ambições deles e pela política que herdara de Augusto (ele disse Augusto, não Lívia),
de pôr a tranquilidade do reino acima do sentimento pessoal. Calígula, que nunca mostrara o mais
leve sinal de desgosto pelo tratamento dispensado por Tibério à mãe e aos irmãos, compadeceu-se
com o homem mais velho; depois, rapidamente, começou a falar-lhe de um novo tipo de vício de
que ouvira falar recentemente a uns sírios. Uma conversa desse tipo era a única forma de alegrar
Tibério, quando ele tinha crises de remorso. Lépida, que traíra Druso, não lhe sobreviveu muito
tempo. Foi acusada de adultério com um escravo e, não tendo como negar a acusação (uma vez que
foi encontrada na cama com ele), suicidou-se.
Calígula passava a maior parte do tempo em Capri, mas ocasionalmente ia a Roma por incumbência
de Tibério, para vigiar Macro. Macro fazia agora todo o trabalho de Sejano, e com muita eficiência,
mas era suficientemente sensato para dar a saber ao Senado que não queria que lhe votassem
quaisquer honrarias e que qualquer senador que as propusesse em breve seria julgado pela sua vida,
com base numa qualquer acusação de traição, incesto ou falsificação. Tibério indicara Calígula
como seu sucessor por diversas razões. A primeira, era que a popularidade de Calígula como filho
de Germânico obrigava as pessoas a comportar-se o melhor possível, com medo de que qualquer
perturbação da sua parte fosse punida com a morte dele. A seguinte, era que Calígula era um
excelente criado e um dos poucos que era suficientemente mau para fazer com que Tibério se
sentisse, por comparação, um homem virtuoso. A terceira, era que ele não acreditava que Calígula
viesse na realidade a ser Imperador. E que Trasilo, em quem confiava totalmente (uma vez que
nenhum acontecimento jamais sucedera contrariamente às suas predições) lhe dissera: - Calígula
não tem mais possibilidades de se tornar Imperador do que de atravessar a cavalo aquela baía, de
Baiae a Puteoli.
- Trasilo disse ainda, - Daqui a dez anos, Tibério César ainda será Imperador. - Isto era verdade,
como se veio a verificar, mas tratava-se de outro Tibério César.
Tibério sabia muita coisa, mas algumas Trasilo não lhas revelava. Ele c