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IV

O bunker

Era cedo, e fazia silêncio tanto no corredor do edifício baixo da Rua dos Tamarindos,
como na rua defronte à janela do escritor. Em contraste, Maggie surpreendentemente
entrara ruidosa. Nas mãos um pacote de compras, sua bolsa e o molho de chaves; Na fala
dizendo do lixo do vizinho atrapalhando a escada, comentando “que coisa o florista próximo
ao metrô mudou-se”... Só então percebeu o escritor enfiado no computador, lembrou-se do
porquê das chaves e tornou-se a quase muda eficiente de sempre. Logo a cozinha estava
em ponto de limpeza e o café estava sendo passado. Não importava o milagre de chegar
falante, o escritor não ouviu nada. Encontrava-se em algum tipo de abismo silencioso
surgido entre homem e máquina, naquele instante, o havia ensurdecido completamente.

Com o aroma quente e perfumado da bebida a invadir o ambiente, aquele hiato


mental do escritor começou a se desfazer, mas não antes de uma memória apreciável lhe
visitar. Era sobre quando o então novo café, duas esquinas para cima da rua, abriu, e ele lá
fora pela primeira vez. A decoração fazia lembrar os cafés americanos, que o escritor via
nos filmes de Hollywood e por tanto tempo o fez sonhar pedir ovos mexidos com torrada.
Não era o que serviam ali. Mas o café era bom, e quando a escrita o afugentava, parecia
um abrigo ideal para um escritor anti-social. No começo, era sempre servido por uma
senhora de braços roliços e sorriso caído - quando esta não atrasava e o dono, um
português baixo e calvo, servia ele mesmo a todos de um jeito sem jeito, mas convicto, de
que era isso o que um dono tinha de fazer. Naturalmente, a senhora (o escritor nunca
chegou a saber seu nome) não durou muitos meses como funcionária. Mas isso não
importava ao escritor: como bom clichê de escritores de outros tempos, para ele estava bem
quem ali estivesse a lhe servir, contanto que o café fosse quente e a janela lhe permitisse
soslaios à calçada. Sentia-se perfeitamente instalado, e nunca pensou em se mudar de seu
“bunker” das horas pouco inspiradas. Além disso, com a saída da tal senhora, o café lhe
trouxe Maggie.

Maggie. Café. Sim, o café.

- O senhor vai tomar agora? - perguntou Maggie, apenas ao perceber que o escritor
se voltara para ela.

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