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VI

Maggie Loira

Uma hora depois do processo de venda, o escritor recebeu a notificação da entrada


dos milhares de reais e outros tantos em moeda americana e europeia, como adiantamento
do aporte pela compra dos direitos. O leitor pode imaginar a confusão no escritor. Dormiria
hoje? Estava rico! Escreveu sem escrever! Isso era correto?
- Posso ir embora? - disse Maggie, com os olhos marejados e voz embargada.
- Hein?!
- Posso ir embora senhor? Já deixei tudo limpo.
Ele estava rico. Possivelmente ficaria famoso em pouco tempo. E Maggie ali,
marejada. Ele não poderia entender durante a catarse daquela manhã, mas a lágrima a
descer pelo lado esquerdo da face de Maggie rompera com tudo.
Rapidamente, lembrou de quando a conheceu, de seu comportamento um tanto
robótico, que lhe imputava uma ideia de eficiência sem perturbação… Lembranças em
choque com o choro da moça, finalmente, o escritor ouvia, em sua memória, a história do
florista cedo pela manhã, e que ela o havia lido e…tudo se combinou quando ele a olhou
dos pés até em cima: Maggie trabalhava descalça, mas já estava com seus sapatos -
simples e práticos. Suas roupas em estilo básico - jeans e camiseta - deixavam-lhe o
contorno de uma mulher cujos anos de trabalho físico constante trouxeram uma silhueta
absolutamente bela. À mostra, braços e rosto exibiam sua alvura; aliada a um longo
pescoço, suas marcas de expressão precocemente castigadas, contrastavam com uma
boca fina, de textura lisa, brilhante e rosada. De repente tudo nela era charme, e transmitia
uma personalidade nada passiva, oposta a que antes o escritor - e o mundo - enxergava. A
partir daquele momento, tudo mudou: ele a vira em seu brilho, afinal. A lágrima feminina,
certamente, tirou o homem da escuridão do escritor e, como dirão biógrafos eletrônicos da
década seguinte a tudo isso, “no momento em que deixara de ser um escritor derrotado em
busca de pagar minimamente suas contas, Maggie pôde surgir como mulher”.
- Viaje comigo, Maggie? O que acha?
- Hã?! - Maggie vedou sua emoção lacrimosa, desconcertada.
- Maggie… Maggie, me desculpe. Tanta coisa aconteceu! Me perdoe. Vamos viajar,
consegui algo, venha comigo e vamos aproveitar?
- Trabalho amanhã, senhor!
- Não me chame de senhor. Sou o Felipe, me… Me chame de Phil! - o escritor mudou
seu semblante para algo desarmado e totalmente amoroso, continuando:
- Peça demissão; Vou lhe adiantar 12 meses do que ganha lá imediatamente.
O coração de Maggie pululava. Seria um sonho? Ela olhou para baixo, baixo perguntou:
- Lembra quando resolveu deixar de me chamar pelo meu nome? Deixou de me
chamar de Margarete e passou a me chamar de Maggie?
- Combina com Phil.
- É, combina, - concordou Maggie, com um sorriso. - Vamos! Como vai ser?
- Vá, se apronte, amanhã chegando vamos para o aeroporto e decidimos. O mundo
nos aguarda.
- O rosto de Maggie, que já não era branco mas avermelhado com tudo aquilo, disse
sim em gesto, e seu corpo se encaminhou até a porta. Voltando-se uma última vez
para o escritor, disse: “até amanhã!”.
O dia seguinte encontrou o escritor ainda desarrumado, com a mala pela metade,
quando Maggie entrou no apartamento. Já passava das 10H. O escritor mal podia acreditar.
Como um conto de Cinderela, da noite para o dia Maggie deixara sua condição de
faxineira-faz-tudo para a de uma verdadeira lady. Chegara em um vestido marrom tabaco
de bolinhas brancas, sem manga e com a barra à altura das panturrilhas torneadas.
Luvinhas de renda nas mãos. Seus olhos, de um tom sem-cor melancólico passaram a
olhos confiantes de castanho quase rubro. O escritor achava-a inclusive mais alta que nos
dias costumazes; e o mais surpreendente Maggie estava loira. Seus cabelos agora emitiam
uma luz dourada que parecia refletir o sol da janela. Não fosse pela maleta de rodinhas,
prática como se esperaria de Maggie, a transformação teria sido total.
- Vamos?
Mesmo sua voz adquirira um tom quente e aveludado.

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