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XVII

Violeta

Depois de muito tempo, o escritor resolveu visitar seu café bunker, agora tão
distante. Já queria tê-lo feito, mas em parte a preguiça nunca permitiu, e de outra parte, tem
uma certa parcimônia, pois seu gosto era de reviver os velhos tempos, em que se sentava
solitário, quase sempre no mesmo lugar, e tomar seu café olhando para a rua. Como faria
isso, se agora estava com Maggie? Certamente ela iria estranhar, se dissesse querer ir
sozinho. Talvez fosse melhor primeiro ir com ela… Mas certamente quebraria uma certa
“magia”. O escritor queria mesmo era ir sozinho.

A indecisão já o desanimava quando, justo na tarde em que Maggie para seu pilates,
o interfone toca.

- Seu Felipe, aquela moça. Deixou de novo uma carta. Melhor pegar, da outra vez
dona Maggie não… - “Já estou indo!”, interrompeu o escritor, que correu para o
elevador. Passando na portaria, pegou o envelope, pediu sigilo, foi ao portão.
Olhando para os dois lados, e não vendo ninguém de imediato, olhou então para
trás. O porteiro apenas apontou com a mão para o lado esquerdo, e ele correu. Era
o mesmo lado para onde a moça do sobretudo havia virado quando ele a viu pela
janela. Totalmente fora de forma, o escritor mal aguentou correr 50m, e quando
alcançou a esquina, já não havia sinal de moça parecida com aquela. Aliás, sinal de
moça nenhuma.

Abriu a carta, ali mesmo.

- “Talvez você só precise estar onde possa ter seus defeitos”. Sabe quem disse isso?

Penny para Peter, no último livro que você escreveu com a própria mão. Devia

voltar a visitar o café.

Mal terminou de ler e o dispositivo móvel do escritor vibrou, Maggie ligando:

- Oi, onde você está?


- Na rua, pensei em ir ao café. Já terminou seu pilates?
- Já. Credo, você ainda pensa naquele lugar?!
- Duvido que seu António tenha esquecido de seu melhor cliente e sua melhor
funcionária - disse o escritor, procurando criar algum clima favorável.
- Bobo… Se isso é um convite, eu não vou não. Não demora, tá?

Melhor do que a encomenda. Pegou o primeiro CNT (carro não tripulado) de


passagem e em 37,2 minutos cruzou a cidade, alcançando seu bunker. Lá estava, um
pouco mais envelhecido pelo lado de fora. Abriu a porta de vidro, e mirou antes de mais
nada, para o que considera ser seu lugar: vazio. O horário era propício. Então viu que na
parede atrás de sua cadeira, havia fotos, e uma pequena placa, onde leu: “este é o lugar
preferido de Felipe Mascarenhas, o escritor”. Uma moça de óculos e cabelos castanhos
ondulados, na altura dos ombros, vestindo um uniforme moderno (diferente do que a velha
senhora e depois Maggie vestiam) foi até ele:
- Gostaria de alguma coisa?
- Não, não… - e foi se sentando.
- Este é o lugar de Felipe Mascarenhas, o escritor. Cobramos um pequeno couvert,
mas você pode deixar uma foto com um livro dele na mão. Também pode fazer
selfies a vontade. - explicou a moça, com aparente jeito simples e boa vontade. O
escritor acenou um “ok” com a cabeça e sentou-se.
- Um café por favor. O António está? - perguntou por perguntar, a curiosidade não era
tão grande. De frente para a parede decorada, fotos em volta da placa exibiam fãs
com diferentes livros, inclusive as versões que havia descoberto no computador.
Pareciam não se incomodar. Há décadas o importante é manter a pose e
compartilhar pelas redes.
- Seu António já saiu.

O escritor já nem ouviu a moça, pois seu olhar bateu em uma das fotos, colada bem
próxima a placa: ERA VIOLETA! O café não custou a chegar, e o escritor inquiriu a
funcionária sobre aquela foto, se a conhecia… Foi assim que confirmou que era mesmo
Violeta, que “o VBlog havia sido mas ela parou, ela vinha com muita frequência no café,
porque “ali era onde ele se inspirava para escrever pra valer”, disse a moça em tom próximo
ao deboxe. “Quem se importa, os livros dele hoje vendem muito mais, então certamente são
melhores, eu não li, o seu António nem gosta porque ele nunca veio depois que ficou
famoso; mas pelo menos criou um atrativo pro café né”.

Não pôde sossegar e olhar para a rua, como era sua intenção… Engoliu o café, deu
uma bela gorjeta para a moça, e foi embora com o coração disparado.

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