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XXII

Entrevista em Palo Alto

Não se pode dizer que as coisas não estavam esquisitas. Agora o escritor começou
um romance e avançava à moda antiga, mesmo sob os riscos ditos e re-ditos pelo
assistente pessoal, e depois por seguidos e-mails da editora. No seu desejo de ser ele
mesmo, o escritor começou a achar que as cartas e convites filtrados fosse pela empresa,
fosse por Maggie, eram homogêneos demais. Seu grupo de fãs certamente não seria
assim. Como burlar as filtragens? Interceptar as correspondências físicas gerenciadas por
Maggie certamente seria mais difícil que enfrentar os filtros virtuais, até porque uma
mensagem vinda diretamente a ele não teria chance de ser contestada.

Foram vários dias matutando, até que teve uma ideia. Foi ao computador e
introduziu a sequência de comandos que o fez, da outra vez, visualizar todas as atividades
sem filtros. Acessou diretamente o servidor de e-mails, sem usar o aplicativo que baixava as
mensagens. Já se sentia um “Ivan”: lá estavam, centenas dos e-mails da pouco mais de
meia dúzia que lhe chegava. Olhou muito rápido os cabeçalhos, e resolveu abrir um dos
mais recentes, um que por acaso chamou atenção: Invitación - Señor Felipe
Mascarenhas, enviado por Radio Palo Alto, Sucre, Colômbia. Um convite para uma
entrevista no local! Mas por que uma rádio precisaria de sua presença? Interessou-se,
copiou a mensagem rapidamente para sua caixa postal, trocando o servidor para o seu
próprio. Levantou a barreira de filtragem, e ao acessar seu aplicativo, lá estava a
mensagem, intacta. Leu com calma. A ideia é que a prefeitura de Sucre estava
comemorando a reabertura de sua biblioteca pública, e a obra do editor fazia sucesso entre
os leitores. A Rádio Palo Alto intermediava o convite e com isso ganharia uma entrevista
exclusiva. A estratégia do povoado fazia sentido, até porque não pesava tanto no bolso,
como no caso de levar um autor mais premiado. Para o escritor, alguns dias longe de tudo
fariam bem. Ficou claro, desde o pesadelo passado, que a gravidez andava em uma
velocidade que não estava boa para ele. É verdade, talvez nenhuma estivesse.

Esperou um momento em que Maggie estivesse por perto, e simulando surpresa,


exclamou:

- Maggie, recebi um e-mail da Colômbia, de uma cidade cheia de leitores meus!


Querem que eu vá dar uma entrevista, e bem que eu estava precisando, faz tempo
que não falo ao vivo, e depois que o bebê nascer certamente não poderei sair por
um tempo.

Maggie não escondeu um estranhamento em relação chegada da mensagem, mas


quanto a isso, não entrou no assunto:

- Na verdade Phil, foram insistentes e inconvenientes, porque eu até tinha recebido


duas correspondências deles e filtrado para você. Aquilo é o fim do mundo querido,
e você agora tem que pensar no seu bebê.
- Maggie… desde que tudo começou não estive tão próximo dos fãs… as vezes me
sinto como um prisioneiro de luxo, em uma vida estranha. Talvez… Talvez até pelo
bebê eu tenho sentido vontade de me aproximar. Pode parecer estranho começar
por um lugar tão distante, mas acho que me fará bem.
- Eu NÃO VOU.
- Mag… Não posso voltar atrás. É importante para mim e já me comprometi com
aquelas pessoas. Será uma viagem rápida.

Foi a primeira vez em que Maggie entortou a cara para o escritor. Virou-se de
costas, não sem antes deixar claro o escorrer de lágrimas no canto de seus olhos. E em
seguida saiu do estúdio.

A partir dali a semana seguiria com o escritor em um pequeno inferno. Meg não saía
de perto, e usava a barriga contra ele em um jogo de culpas, como se pudesse fazer a
viagem ser cancelada. Nada adiantou, e assim, o escritor partiu à sua revelia.

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