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XXI

O bebê de rosemaggie

A gravidez de Maggie avançava como deve ser; já a coragem do escritor, recuava.


Mas ainda fazia "a coisa certa", e ela se resumia a rotina de levantar, saber das cartas
filtradas por Maggie, ir ao PDA caminhar (mas sabemos,mão só), e a tarde esperar Maggie
voltar do Pilates e agora também da Yoga gestante. Nesse período lia, rabiscava coisas,
resolvia tarefas passadas por Maggie - como ver um instalador de cortinas ou um
carpinteiro para fazer o berço do bebê. Por vezes, também falava no telefone com a mãe ou
algum amigo. Com Maggie, via filmes, conversava sobre o bebê, passeios e ouvia fofocas
sobre os cotidianos vividos por ela, o que de vez em quando lhe fazia brincar: "isso dá uma
história", e ela "sim, escreva sobre isso!".
Quanto ao amor da carne, havia porque grávida ou não, Maggie era uma máquina,
sempre disposta, embora ante a uma clara indisposição do escritor, mudava sua
programação e tudo bem. O que mudou aliás, nesse período, foi que ela adquiriu o estranho
costume de manter a barriga coberta "para proteção", dizia, mesmo que o tecido fosse um
tule leve e semi-transparente. “Coisas de mulher”, pensava o escritor.
Pois o amor aconteceu naquela noite, e quando acontece, o comum é o sono do
escritor ser mais pesado. Mas dessa vez, Morfeu o levaria a um sonho apavorante. Sonhou
que passava pelo corredor do apartamento, na direção do quarto do bebê, (no sonho quarto
e bebê já existiam). Ele ouvia uma voz feminina, cantando como se estivesse tentando ninar
o bebê, mas um pouco distorcida e abafada. Quando entrou porta adentro, o escritor a
avistou duas mesinhas com rodinhas, com telas de computador em cima, e ganchos de
metal utilizados como braços se dispunham em volta do berço, como se olhassem para o
bebê lá dentro. O som da voz feminina ficou ainda mais distorcido. Ele saia de caixas de
som dos computadores. Com a entrada do escritor, as mesas/computadores voltaram
rapidamente, mirando-o sinistramente, com luzes vermelhas fixas ao lado dos pontos de
câmara. Um susto! Ansioso, o escritor aterrorizado se aproxima do berço, que revela um
bebê que não chora,... Mas tem olhos vermelhos e brilhantes como fogo. A cena
demoníaca, os robôs, o som da voz de ninar com alta distorção… Angústia extrema que o
fez acordar, resfolegante. Maggie não estava lá.

- Phil? O que houve? - Maggie entrou correndo no quarto, demonstrando


preocupação.
- Um sonho… um sonho ruim.

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