Você está na página 1de 1

XXII

Entrevista em Palo Alto - III

A biblioteca era simples, mas estava muito bem equipada, com mais telas e mesas
de leitura virtual do que o escritor podia calcular serem necessárias para uma cidade que
embora não fosse tão pequena ainda parecia pacata e com baixa concentração de pessoas
por metro quadrado. Havia uma área de impressoras, prontas para em minutos oferecerem
qualquer livro pronto que fosse adquirido por um leitor, um pequeno café, e três ou quatro
tipos de ambientes. Seu pé direito alto garantia frescor e boa iluminação.

A chegada do escritor transcorria tranquilamente, como o esperado. O locutor foi o


mestre de cerimônias, e o prefeito discursou lindamente, para uma plateia repleta, de
oitenta sucreanos sentados e mais uns tantos que se escoravam em pilastras ou próximos à
entrada. O escritor fôra recepcionado como gostaria que fosse: intelectual, curioso, astuto,
que transformava em palavras as histórias incríveis “de fazer sueñar”, nas palavras do
prefeito, quando lhe apresentou ao público. Apesar disso, estranhou a ausência de Orozco,
o tal representante de Palo Alto do olhar misterioso. Contou um pouco de como começou,
respondeu de forma “branca” às perguntas do público. Em algum momento, olhou em
profundidade para o final do salão, onde havia a porta de entrada, e pensou ter visto
Orozco. Mas não, não estava lá, até a noite fechar e o levarem de volta para o hotel.

- Mañana a la tarde será su entrevista, en la Radio Palo Alto - o portunhol do


locutor era mesmo ótimo. - Orozco vá buscar-lo.
- Gracias, buenas noches, disse o escritor no “clima” de seu anfitrião. E entrou
para o hotel.

Suas memórias eram dos sorrisos admirados… Gostava disso. Assinou livros que
não eram exatamente seus, é verdade… Alguns que nem tinha lido - pelo menos naquela
“versão pop”, “mangá” e ainda na infanto-juvenil. Mas, estava lá no contrato, o padrão de
escrita dele era o protagonista em todos os meios. Tudo era uma questão de ajuste. Tomou
banho pensando nisso. É verdade que antes, olhou o dispositivo e viu várias mensagens de
Maggie, das mal humoradas às práticas “à moda antiga”. “Gravidez!”, pensou, e apenas
escreveu “saudades”, jogando o dispositivo pro lado e indo para o chuveiro.

Semi-nu, e apenas enrolado na toalha, não completamente seco, examinou pequeno


bar ao lado da cama, uma espécie de cubo dividido em quatro: a parte de bebidas geladas
oferecia água, jugo de guanábana (graviola) e água de panela (refresco de rapadura, com
ou sem limão), e na “caliente”, café e capuccino. Na de petiscos doces, natillas de chocolate
ou baunilha; e na de “calientes”, arepitas de queijo, mini-tamales, e nachos mexicanos (o
que causou estranhamento no escritor). Abriu uma guanábana, tomou dois goles e achou
muito doce. Água por cima, escovar os dentes e cama (“Sabe-se lá que horas virão me
acordar, melhor descansar”). E então, a noite lhe abraçou… por cerca de duas horas.

- Acorda-te, hombre!

Na penumbra, a silhueta padrão de um homem colombiano confundiria o escritor,


não fossem os olhos agudos de Orozco a vencer a noite, como refletissem o próprio luar.

Você também pode gostar