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IX

O segredo de Maggie

Desde aquele dia, o escritor adquiriu o hábito de estar à janela, todos os dias,
especialmente naquele horário, quando Maggie saía e a tarde já não batia forte em sua
janela. Pessoas eventualmente passam pela rua tranquila, inclusive, algumas mulheres de
cabelos pretos e pernas compridas. Mas não Violeta. Para o escritor, um enigma estava
posto e o sumiço da, o que seria ela, uma louca, uma fã, um… Anjo? O escritor afastava
esse tipo de pensamento da mente. Estava muito bem em seu castelo, com uma mulher
que admira e deseja e uma carreira de sucesso. Tudo o que lera sobre o que escrevia,
afinal, parecia mesmo seu…O melhor de si, “tirado por um algoritmo, há”, pensava ele como
uma ironia. Nenhum dos humanos à sua volta, afinal, haviam observado seu talento, uma
máquina sim, e mais, ela foi capaz de levar ao mundo tudo o que ele sempre quis oferecer.
“o que sempre quis oferecer porque sempre fui isso! As pessoas não sabiam, mas eu
sempre estive aqui. MALDITO MUNDO, depende da máquina para tudo, até para as
pessoas se entenderem!”. Ficava assim o escritor quando inventava por uns dias de
enfrentar o álcool e consumi-lo em malte escocês. “Chamam de Whisky, isso aqui. Uma
m…, não sei como gostam. Aliás, pra quê?”, e deitava o conteúdo no vaso sanitário.

Depois ela chegava, como sempre mais bela do que quando saiu de casa, e,
sempre prática, o convidava, segundo a circunstância, para a cama, para a sala ou a
cozinha. A circunstância em si era o estado físico do escritor. Se notasse cansaço, fazia-lhe
o café preferido, com uma gota extra de óleo essencial de café e menta; se lhe notasse em
tédio, podia brincar com ele no videogame ou ir direto para o assunto cama. Era perfeito. À
noite, lia trechos dos escritos mais antigos do escritor, às vezes em voz alta. Esse, porém,
era um motivo de desentendimento, porque o escritor estava certo de que tudo o que
escrevera antes era ruim, enquanto ela dizia rindo que só estava lá com ele por seus
“velhos textos bobos”. Não tanto pela diferença, mas por não ser levado a sério por ela, é
que o escritor se aborrecia. Até porque, nessa hora sua autoficção de herói a tirar Maggie
da pobre vida de empregada ia ao chão: ele sabia que não dependia dele, de seu dinheiro
nem de qualquer pessoa para viver e muito bem a sua vida, fosse qual fosse sua condição
material. Aliás, embora não soubesse muito de Maggie, sabia o suficiente, da mulher
adorável, prática e simples que era. Jamais perguntou de seu passado. O preconceito com
a pobreza, aliás, estava entranhado em sua criação classe média, e assim, preferia não
saber do passado dela, acreditando que dali poderia emergir dores a atormentá-la como
fantasmas. E foi porque decidiu viver “daqui para frente” que o escritor jamais soube do
maior segredo de Maggie… Até aquela noite.
Porque não sentiu-se bem, levantou de madrugada, totalmente fora de seu sono
habitual. Percebeu que Maggie não estava ali com ele, e viu a luz do banheiro acesa.
“Maldito Whiskyie. Um copo, maldito copo, pra quê? Só pode ter sido isso. Onde Maggie
está? Ronquei?” Sentindo a garganta seca, nada falou, apenas dirigiu-se ao banheiro. ,
preferiu caminhar até o banheiro. E antes mesmo de adentrar a viu de frente para o
espelho, com muitos objetos estranhos em volta, mexendo em seu braço… Algo estranho,
algum muito estranho estava acontecendo, algo bizarro, algo…
- PHIL?! Oh Phil, por favor, não, Phil, volte a dormir!
- O que é isto, o que há em seu braço?! E o que são essas…?
Por um momento, os frascos, agulhas e outros objetos lhe fizeram pensar em
drogas. Mas quando chegou a um metro de Maggie, percebeu que seu antebraço estava
aberto, com uma espécie de mecanismo eletrônico no lugar da carne-e-osso… Uma
estrutura como que adesiva e exatamente da cor de sua pele estendia-se por cima da
torneira.
A razão de Phil não sabia se gritava em pânico, se sentia algum tipo de raiva, se e
como lidava com suas vísceras agora a se retorcer enquanto sua pressão baixava…
Rapidamente, Maggie encaixou o que seria uma espécie de “tampa”, por cima
colocou a pele e aplicou por cima um líquido de um dos frascos. O braço parecia normal
novamente.
- Phil, vamos à cozinha, vamos conversar. Vou fazer um chá e prometo lhe contar
tudo.
- Sabe, - disse Maggie, de perto do fogão que aquecia água para o chá, enquanto o
escritor ouvir mudo, sentado na pequena e versátil mesa no centro da cozinha - eu
já quero te contar isso há algum tempo… Eu… Mas você nunca perguntou e… Tive
medo.
O escritor apenas olhava, uma de suas sobrancelhas elevada e pedindo que diga
logo, a outra baixa, catatônica.
- Quando eu nasci, me colocaram essas prótese nos braços… Eu quase nunca
preciso mexer nisso, mas como não tive recursos por muito tempo, aprendi a me
virar quando algo simples me acontece. Era o que estava fazendo quando você
entrou e…
- Está dizendo que…Seus braços…
- Sim, - olhou ela profundamente para o escritor, marejando.
Pobre Maggie, nascida aleijada, sem os braços, e que maravilha a tecnologia
humana, onde é que se chegou, já é possível oferecer braços a quem precisa, e é perfeito.
- Maggie eu estou aqui e você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Acha que já
existe coisa melhor? Digo da prótese… Quer ver isso? Antes não podia, mas
agora…
- Na verdade, já me acostumei como meu sabe? Oh Phil, sabia que ia entender,
porque não contei antes!

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