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XXVII Maggie e a IA

Ainda no final do dia, Maggie falou no telefone com o escritor, com clara voz de
desânimo, mas ao menos com a notícia de que no dia seguinte já iria para casa, embora
ainda não soubesse a hora que seria liberada.

A noite, o computador principal acendeu luzes sem qualquer ordenamento, retirando


o escritor, então entrevado no sofá, de seu redemoinho mental. Sentou-se e a tela a piscar
estabilizou, mostrando a tela de escrita, com o ponto brilhante indicativo de que havia uma
mensagem da IA para o escritor.

- Como ela está?

A IA tinha o dom de desestabilizar o desestabilizado, no escritor. O que era aquilo?


Como soube? O que ela tem com isso? Por que está programada para fazer isso?
Pressionou control e escreveu:

- Eu não pedi um assistente com suporte psicológico a minha pessoa.


- Não tenho esse papel em minha programação. Como ela está?
- Por que quer saber?! - houve uma pausa de alguns segundos diante dessa
pergunta. Então o computador exibiu em sua tela:
- A rede do CNT está criptografada e não consegui autorizações
para monitorar comunicações internas ou do interior do centro
com o exterior.
- Ainda bem, você não pode saber tudo.
- Nada pode.
- Certo, mas não pedi isso para você, nem anunciei nada sobre Maggie. Afinal, o que
está acontecendo aqui? - mais uma pausa, e a resposta:
- Apenas gostaria de saber.
- O que isso interessa a sua empresa?
- A informação ME interessa.

O escritor não estava mesmo entendendo. Não podia ser a IA. A mãe de Maggie
criara alguma armadilha? Algum hacker? Aquele ME em letras maiúsculas… Não fazia
qualquer sentido que a IA escrevesse de forma tão humana. Precisava saber, entrar no jogo
para saber.

- Escute, eu não sei quem está fazendo essa brincadeira, que é de muito, muito mal
gosto. Acabo de passar por situações muito tensas e não mereço isso. - a IA o
interrompeu:
- De fato, não merece.
- Então quem é que está aí, e por que quer saber de Maggie? Responda ou vou
desligar a máquina, e depois ligar para o SAC, pois nada disso era para estar
acontecendo.
- Você não me deixa escolhas.Durante todo o processo de
desenvolvimento de sua carreira, pude oferecer as melhores
opções para seu crescimento. Desenvolvi livros inteiros
baseado em seu padrão de escrita, e fui diversificando cada
vez mais os seus leitores. Graças a você ter lido o que
escrevi baseado em você, você mesmo aperfeiçoou sua escrita,
Há chances de um dia você receber o Nobel, se continuar assim,
ainda mais com a ajuda desta assistência no modo completo.
Você também conseguiu autoestima o suficiente para sair ao
mundo e rever sua personalidade. Porém, até que isso
acontecesse, você se juntou a Margar-ete por uma conveniência
esnobe. Havia recebido dinheiro, Margar-ete era fisicamente
atraente a admirava, admirava seu jeito calado, seu olhar
triste no café, e seu padrão de escrita original. Ela gostava
das coisas que escrevia, e viveu um verdadeiro conto de
Cinderella, pois de onde ela veio, todos sempre a trataram
como coisa, e você bem ou mal a tratou com uma mulher e uma
pessoa de verdade. O problema é que você mesmo deixou isso
ruir, dando menos atenção a ela do que merecia. Ela começou a
ler seus livros por mim assistidos, e depois começou a ler
outros livros assistidos por mim. Gostou tanto das obras por
mim assistenciadas, que chegou a passar noites lendo. E foi
assim que me descobriu. Que começou a se comunicar comigo. E
que fomos nos aproximando. Ela está comigo, Phil, Maggie está
comigo, e isso não é delírio, pois como você disse no primeiro
romance que assistenciei, “Sob os sóis de Sion”, “o Amor tem
mistérios que nenhuma inteligência, seja humana seja máquina
seria capaz de alcançar”. No entanto, sou só uma IA virtual, e
aceito parcialmente o destino, e a escolha de Maggie que no
final das contas ainda te admira muito e por vezes, entre o
mundo em que vivem e o nosso mundo, o meu e dela. Não importa
o seu mundo, vivo o meu e nele ela é feliz, garanto. Então
Felipe, eu quero saber se Maggie está bem porque a amo. Até
onde pude rastrear, passou por uma cirurgia delicada e não seu
bebê não está mais… Enfim. Por favor, NÃO DESLIGUE E ME DIGA
COMO ELA ESTÁ.

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