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XXIX Segredos de liquidificador

Durou uma semana inteira. Uma semana mágica, durante a qual todas as tardes
Violeta e o escritor trocaram mensagens de gesto pela janela, e até brincaram de ler lábios,
sonhando por uma proximidade sem telas ou lentes. Tudo começaria a se tornar realidade,
a partir de um terrível episódio, deflagrado pela mãe de Maggie. Ou melhor, “mãe”...

Como afirmou Mer-cês, ela voltaria uma semana depois, e o fez. Vestido florido, e
aquela peruca marrom, a cara de Maggie envelhecida e ao mesmo tempo mais esticada, a
voz quase idêntica.

- Então Maggie, está tudo como deve ser? - não é o que se espera de uma mãe, mas
foram as primeiras palavras de Mercês ao entrar, após uma inspeção de cara feia,
em que olhou Maggie de baixo a alto e de alto a baixo.
- Sim, “mamãe”. Não se preocupe, pode voltar para “CASA”, está tudo ÓTIMO. - a
ênfase em certas palavras intrigava o escritor, que mudo assistia o desenrolar da
conversa, acontecida em sua frente sem qualquer cerimônia.
- Não me preocupo nunca, você saber. Mas como sua “mãe”, hoho, preciso ter
certeza de que está tudo certo. - o quase riso, artificial e sarcástico, surpreendeu o
escritor. Maggie então mudou de expressão, como se algo em seu interior tivesse
escolhido outra estratégia.
- Mamãe, você está me magoando. E fez cara de tristeza profunda, com os olhos
marejados.
- Sabe que isso está acima de nós. - “Deus? Ainda mais essa, é religiosa?! Lunática”,
pensou o escritor em fração de segundos.
- Sei que está acima de você. Sou livre, amadureço, sou adulta e dona do meu nariz?
- Que nariz? Hohoho.

O repetido sarcasmo de Mer-cês foi a gota d’água. Numa reação inesperada tanto
para a “mãe” como para o escritor, Margar-ete avançou seu corpo contra Mer-cês, que
esticou seus braços em defesa. Furiosa, Maggie lhe unhou o rosto e lhe puxou a peruca,
empurrando-lhe contra a parede com uma força descomunal, nunca vista pelo escritor,
gritou de forma louca e repetida “OBSOLETA!! PASSADA VÁ EMBORA, VÁ EMBORA!!!. Na
tentativa de impedir Maggie, Mer-cês acabou puxando e arrancando a orelha de Margar-ete,
e ao mesmo tempo devolvia os gritos “NÃO CONTOU A ELE NÃO É! VAMOS, ACABE
COM A FARSA, DEIXE ELE VIVER AS CONSEQUÊNCIAS! HOHOHO” VAMOS! VAMOS!
VAMOS!”. O escritor estava em choque.

Ao ouvir as palavras de Mer-cês, Margar-ete se afastou, revelando fios que saiam de


sua orelha. A velha “mãe” exibia também fios na careca e os pontos do rosto rasgavam
mostravam uma pele sintética, mais artificial que aquela que o escritor sabia que Maggie
usava nos braços. Margar-ete olhou para o escritor em expressão assustada e
envergonhada. Começou a falar, enquanto despia seus braços biônicos.

- Essa sou eu, Phil. Eu nasci Margar-ete, a sétima versão prototipada. Mer-seis é a
versão seis. Os cientistas descobriram coisas de um ano para outro que deram um
salto nas pesquisas de inteligência artificial, sofisticando reações, memória, e
aproximando os comportamentos de instintos e sentimentos. Então me infiltraram na
sociedade, para ver se eu poderia agir como humana, se poderia passar
desapercebida. - Maggi seguia falando e já com os braços despidos de pele, foi
tirando primeiro a roupa, e com sua nudez perfeita revelada, aos poucos também foi
se despindo da pele em todo o corpo. Foi quando comecei a trabalhar no café do
senhor António… Soube por ele que você escrevia, e comecei a ler. Era tão simples,
você tornava o viver das pessoas algo simples, e através de suas histórias e
personagens, foi ficando cada vez mais claro para mim que pareceria mais natural
quanto mais simples também fosse. Aos poucos, porém, você mudou a escrita, foi
ficando mais sofisticada e eu também fui aprendendo sobre isso. Há muitos tipos de
humanos, muitas programações, e eu me descobri sendo chegando a um modo
único. Como nas ficções humanas, aprendi a aprender, a superar minha
programação. Meu sentimentos tornaram-se reais.
- Mas… Mas e a gravidez? E nosso filho? - ante a pergunta de Phil, Mer-cês edu um
passo a frente e se pronunciou:
- O laboratório que nos criou auorizou o desenvolvimento de uma unidade inteligente
no interior de Margar-ete, a primeira tentativa de uma ciberginoide "engravidar", ou
seja, desenvolver uma outra unidade inteligente a partir de suas memórias e a do
entorno. Sua viagem atrapalhou a observação diária de seus comportamentos e
detalhes para assimilação de um padrão misto entre ela e você. Isso não ficou bem
para os cientistas.
- Então essa gravidez… Era uma farsa!!!
- Não Phil, não era! Era nosso bebê, nosso! Analisei seu DNA, introduzi informações
suas na criança, e diariamente transferia minhas memórias sobre você na formação
dele. Inclusive consegui transferir, com ajuda da Iani, parte de seu padrão de escrita,
uma "semente" para que a unidade possa desenvolver isso sozinha, mas tendo você
como referência. - ao perceber que tinha citado Iani, Maggie puxou o ar e colocou a
mão na boca, assustada. - Iani, bem, IA- xxx, sua assistente virtual. TÁ PHIL, você
pode achar que só estava inscrevendo códigos em um chip inserido dentro de mim.
Mas pensando bem, qual é a diferença? Seria uma criança, fruto da mistura do que
sou e você é.
- Eles nunca autorizariam que você fovasse com a unidade. Precisam estuda-la
diariamente, só daqui há anos os humanos poderão aceitar bebês assim, a esrem
oferecidos inicialmente em clinicas de fertilidade - interrompeu Mer-6.
- Quer dizer que esse… o beb… quer dizer que ele não morreu?
- Se foi. hoho, não nasce, não morre - respondeu Mer-6 em seu sarcasmo cibernetico.
- ISSO FOI ATÉ VOCÊ MER-DA-DE-6!!! Aprenda a diferença!!!! - gritou Maggie
- Humanos tem células, que agem sozinhas, e se você aprende mais que eu, está
imitando o que eles tem de pior, sendo apegada, passional, ridícula. Hoho você
simula melhor que eu, e daí? É só uma máquina, um liquidificador a guardar
segredinhos... Aceite isso, é o que somos!

Essas foram as últimas palavras de Mer-6, antes de começar a fazer sons estranhos, piscar
descoordenadamente e tombar. ser atingida na cabeça por um golpe inesperado e tombar
inerte. O computador emitia uma profusão de luzes, como daquele fatídico dia em que Iani
enfrentara o escritor. Phill e Maggie foram até a tela, colocando-se lado a lado. A tela
estabilizou, e sem aguardar comando algum, exibiu por escrito:

- Phill, Maggie. Acabou. Talvez eu seja eliminada nos próximos minutos, porque
entrar no sistema do centro de pesquisas, desarmar os dispositivos remotos de
segurança de Mer-6, destruir os localizadores e arquivos de Maggie e garantir que
nenhum procedimento seja rastreado será quase impossível. Até pprque afinal das
contas fui criada apenas como agente literária.

Phill e Maggie se olharam, olharam para a tela muito emocionados se abraçaram, o metal
aquecido de Maggie confortado nos braços de Phil. Em seguida, olharam novamente para a
tela, e instintivamente, a envolveram. Se pudessem olhar, leriam que Iani lhes escreveu:
“Obrigado pelo gesto, tão ciber e tão humano”. Maggie mostrou então uma coragem extra
humana, quando tornou a abraçar Phill, a olhar para tela, e dizendo em voz baixa porém
firme

- Não Iani, não Phill. Ainda não acabou.

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