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XXVIII Violetas na janela

Sem avisar, Maggie entrou em casa na parte da manhã, em companhia de sua mãe.

- Voltarei semana que vem ou se ela precisar de mim novamente. - Disse a mãe de
Maggie como que para “a casa”, olhando para ninguém em específico. Fechou a
porta e saiu.

Ela não tinha ideia do que se passara, do que o escritor agora sabia, do que a IA lhe
contara, do que acordaram entre si. No começo, então, os dois mundos continuaram
aparentemente separados, as rotinas foram se restabelecendo. E ninguém, humano ou
máquina, tocava no assunto do bebê, e nem o corpo de Maggie, fora uma espécie de cinta,
que passou a usar permanentemente no ventre, podiam mostrar que um dia ela havia
estado grávida..

Foram semanas estranhas, em que o escritor recrudescera de volta a seu


comportamento quase anti-social. Quase, porque uma certa importância a mais as pessoas
de carne e osso de fato permaneceram. Assim, Severino não era mais pensado como “o
porteiro”, e mesmo no pedir de uma pizza, o escritor pedia identificação e agradecia
nominalmente: “obrigado, Heloíza”, “obrigado, Jorge”, “obrigado, Rubens”.

As rotinas estabelecidas anteriormente à gravidez, foram todavia plenamente


retomadas. Como à tarde, pilates para ela, olhar a janela para ele; ou as caminhadas no
PDA, solitárias e com escrita, para o escritor, e pelo menos uma a dois, nos finais de
semana. Por sinal, foi numa caminhada durante o PDA que Ivan apareceu e, juntando-se ao
amigo, contou-lhe que tinha dois presentes a oferecer:

- Experimente isso, Phil. Nem precisa parar de caminhar, só aproxime do seu


óculos, assim. - e fez o gesto de posicionamento, na direção do óculos. O
escritor pegou as peças de vidro, que pareciam pares de lentes comuns, e ao
aproximar do óculos, elas se grudaram a ele, por alguma espécie de efeito
magnético. Foi impossível não parar, o que gerou risadas em Ivan.
- Ih, caramba, wow, o que é isso! - de repente, ele via as folhas do gramado
distante quase um quilômetro como se estivesse deitado sobre ele.
- Hehehe sim, são cinco camadas e uma sexta de nanoeletrônica para ajustar
a nitidez. Super lentes, a venda anda controladíssima!
- Certo, - disse o escritor, removendo as lentes de seu óculos e retomando a
caminhada, em movimento acompanhado pot Ivan - para que você acha que
quero isso?
- Para ver Violeta.
- Ivan, cismou com isso!
- Ela se mudou recentemente para um apartamento há 1,5 km de você. Da
altura do seu apêzão você vai encontrá-la.
- Ahhh para com isso. Ok, vou ficar com a lente. Mas não sei se vou usar ok.
- São suas.

Se despediram após a caminhada. É claro que o escritor usou as lentes, já no


mesmo dia. Assim que Maggie saiu para o pilates, percorreu janela por janela, checando os
edifícios que estariam a uma distância mínima de um quilômetro. Era impressionante. Com
as lentes, viu um casal de obesos assistindo um show de prêmios numa tela imensa. Uma
idosa jogava paciência, e acabou de baixar um às de paus na mesa. A janela de uma
cozinha mostrava um cozinheiro empolgado a salpicar temperos de diversas cores em uma
smartfrig, uma frigideira tecnológica, igual a que de vez em quando Maggie usa. No mais,
via os detalhes das fachadas, os olhos dos pombos, a fuligem cinzenta encardindo o azul
do céu. Uma sacada com flores. Pequenas violetinhas, várias. Violetas? Violetas na janela!
Deteu-se ali por muito tempo, eventualmente trocando de janela, para ver por mais de um
ângulo. Vinte minutos depois do esforço, já naquele horário em que Maggie já poderia estar
de volta, e através da janela do estúdio, ela apareceu, cuidando das flores. Cabelos pretos,
agora de franja. Olhou ao longe. Então pegou aparentemente no bolso (só dava para vê-la à
altura do busto para cima) um par de óculos, e colocou no rosto. Então olhou diretamente
para a janela de Phil, sorriu e ele se assustou, tirando a lente.

Maggie chegou.

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