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D QUADRANTE

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Título original Sumar'io
Ãrztlíclve Seelrorge

Copyright © 2003 herdeiros de Víktor Frankl

Capa Preâmbuloz Viktor Frankl - o homem


José Luis Bomñm Prefácio à 7a cdição
Introduçáo

I - DA PSICOTERAPIA À LOGOTERAPIA
Psicanálise e psicologia índívidual
O vácuo existencial e a neurosc noogêníca
A superação do psicologismo
O reducionismo genétíco c o pandeterminismo analítico

__g_$,a__;Dados
Intemacionaís de Cataloa'o na Publicaão (CIP) Imago hominis
A psicogênese do psicologismo
FranLJ', Vikxor
Psícotcrapia c semído da vidaz fundamcntos da Iogoterapía c análíse existencíal / II - DA PSICANÁLISE A ANAL'ISE EXISTENCIAL
Viktor Frankl; Iradução dc Alípio Maia dc Castro ~ 6-" cd. - São Paulo '. Quadrantc, 2016.
A) Análísc existencial geral ..

Tírulo originalz Aurztlírbe Sfflwrgf 1. O sentido da vida


ISBNz 978-85-7465-056-2 A DISCUSSÃO DO SENTIDO DA EXISTÊNCIA
O SUPRASSENTIDO
1. Psicotcrapía 2. Psicanaqise 3. Humanismo 4. Logoterapia 5. Psicoterapia cxistencid
I. Título. PRINCÍPIO DO PRAZER E PRlNCÍPIO DO EQUILÍBRIO

CDD-616.8914 SUBJETIWSMO E RELATIVISMO


NLM-\X/M 420 TRÊS CATEGORIAS DE VALORES

EUTANÁSIA
1. Logoterapia : Mcdicina 616.8914 SUICÍDIO
2. Psicoterapia cxistcncial : Medicina 616.89l4 A VIDA NO SEU CARÁTER DE MISSÃO
0 PRINCÍPIO DA HOMEOSTASE E A DINÂMICA EXISTENCIAL
o SENTIDO DA MORTE
COMUNIDADE E MASSA

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
Todos os direitos reservados a O PODER DE RESISTÊNCIA DO ESPÍRITO
QUADRANTE, Socíedade dc Publicaçóes Culturaís O dextíno biolágico
Rua Bernardo da Vciga, 47 - 'Ie'l.: 3873-2270 O dextino psimlógico
CEP 01252-020 - São Paulo - SP › O destino soriolágiw
www.quadrantc.com.br / inf0@quadrantc.com.br A PSICOLOGIA DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
2. O scntido do sofrimcnto ............................................................
3. O sentído do trabalho ...............................................
A NEUROSE DE DESEMPREGO
A NEUROSE DOMINICAL ............................................... Pream^bulo
4. O sentido do amor ...................................................
SEXUALIDADE. EROTICIDADE E AMOR .........................
IRREPETIBILIDADE E «CARÁTER DE ALGO U'NICO» ........
Viktor Frankl - o homem
0 HORIZONTE DO «TER» .......................................
VALOR E PRAZER ..................................................
DISTÚRBIOS NEURÓTICOS SEXUAIS .............
o AMADURECIMENTO SEXUAL .......
DIRETRIZES DE PEDAGOGIA SEXUAL
B) Análise existencial especial
1. Psicologia da ncurosc de angústia ..
2. Psícología da neurose compulsiva ............................................... 291
ANÁLISE FENOMENOLÓGICA DAS VIVÊNCIASI O que impressiona desde o início na obra, bastantc consi-
DE TIPO NEURÓTICO-COMPULSIVO ............................. . . 298
dcrável já, de Viktor E. Frankl é a profundeza de humanídade
A TÉCNICA LOGOTERÁPICA DA INTENÇÃO PARADOXAL . . 312
que cla reHetc, a íntensídade de vida que dela se desprendez estas
3. Psicologia da melancolia ...................................... . 339
qualidades não lhe diminuem nada o valor propriamentc cien-
4. Psicologia da esquizofrenia .. . 349
tíñco, antes o realçam. esta uma obra que talvez represente
III - DA CONFISSÃO SECULAR hoje em día 0 último grande sistema de psicopatologia (à parte
A DlREÇÀO DE ALMAS MÉDICA
o de Szondi, se bem que Szondi nâo passe de um especialísta);
Direção de almas médica e pastoral
e os esforços de Frankl para claborar uma doutrina psicológica
A relaçào manipulada e a entrcvista de acareação .............................. 373
A técnica analítico-existencial do denominador comum e psicoterápica que permita ultrapassar qualquer psicologismo
Último auxílio .................................................................................. 389 sem espírito, sem «logos», valeram-lhc um prestígio mundial in-
Epílogo ............................................................................................. 395 discutido.
Observaçóes Não se imagine, porém, que a sua obstinação em descobrír
Seleção bibliográñca do Autor no homcm a «vontade de sentido» (ao contrário do «princípio
Índicc de matérias do prazer», de Freud, e da «v0ntade de podcr», de Adlcr); a sua
ínsistência sobre os «valores», a sua concepçâo das «neuroses
noogênicas», que (ao contrário de Freud, que vê na religião uma
neurose obsessiva) supócm uma «religiosidade recalcada»..., es-
tejam a denunciar nelc 0 filósofo ou 0 moralista que se houvesse
introduzido sub~repticiamente na clínicat Frankl é médico, lida
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA PRFÀMBULO

com doentcs, sarou muítos sofrimcntos, elaborou um método de esboçar a carvão uma caricatura dívcrtída ou dc compor um
terapêutico aplicado com êxito da Espanha ao Japa'o, da Rússia tango endiabrado. Leu Tomás de Aquino, mas compulsou tam-
à África do Sul. bém os últimos artigos ou obras de sociologim é um apaixonado
Entretanto, para melhor comprecndermos a obra, travemos por pastéis e náo bebe nunca uma gota dc al'cool; continua ñcl
conhecimento com o homcm. à fé dos seus pais, mas utiliza-se de um brcviário romano para
Tipícamente vienense, expansivo e joviaL acolhe os doentes rezar os salmos («a mais bela versão é a da Vulgata latina»). Sua
com uma grande cord1'alidade, que nada tem de proñssionah tha cstuda psicologia, mas nunca leu «as obras dc papai». É um
gosta de conversar, quer na universidade quer em família, à amigo exigente, mas que nínguém podc csquecer jamais.
mcsa; polemista 6no, sabe manejar o humor, a fantasia e o gra- Nos scus 16 anos, sendo ainda estudante dc Colégio, cstc
cej0. Os seus Cursos e conferências fascinam e enlcvam porquc homem polifacético carteava-se com Sigmund Freudz cnviou-
são expressão de uma convícção intcríor, dc experiências vívi- -lhe um ensaío sobre a origem da expressão mímica da añrma-
das, de sofrimentos suportados, de um idealismo renitente, mas ção e da ncgação, e teve a grande surpresa de o ver publicado
jamaís dcscncarnado. A sua conversação inesgotáveL salpicada pelo Mestrc no seu ]ourmzl íntematíonal de Psyclmnalym Muito
de historietas, de tiradas espirituosas, de guinadas imprevisívcís, mais tarde, Frankl poderá escrever: «Ao lado dc Frcud, eu não
de voos especulativos e de mergulhos incessantes na mais trí- sou mais que um anão, mas se um anão trepa aos ombros dum
vial experiência cotidiana - nâo tem nada de espetáculo que sc gigantc, vê até muito mais longe do que cle».
contemple de foraz é antes uma contradança extraordínáría que
A sua carreira universitária foi a breve trecho truncada pcla
incíta à participação. Os «sisudos professores» inquietam-se, os
perseguíção nazista; fez a experiência trágica dos campos de
ingênuos defensores das ciêncías exatas evitam-no, os seus pró-
Theresienstadt (Boêmia), dc Auschwítz, de Kaufering e de
prios compatriotas preferem por vezes ignorá-lo... TaJ foi a sorte
Türkheim (dependência de Dachau): e quase que só por m¡-
de outros célebres psiquiatras austríacos (Freud, Allers, Spítz).
lagre é que escapou. Aos quarenta anos, alguns días depois de
Pouco importa. Se o querem ouvir - sempre acompanhado da
ter sido libcrtado pelos americanos, vcm a saber, em Chegando
esposa encantadora, com quem casou em segundas núpcías -,
a Viena, da morte do pai, da mãe, do írmâo e da sua querida
podem fazê-lo hoje em Harvard, amanhã em Oslo, depois em
esposa - com qucm se havia casado durantc a guerra; e é cntão
Leípzig, Londres, Pamplona, em Ceilão, em Praga ou em Syd-
que ele dita, dum fôlego, em nove dias, embargada a voz c
ney. Por toda a parte desperta ou entusiasmo ou despeíto, mas
debulhado em lágrimas, o lívro que é conhecido em português
nunca indíferença.
sob o título de «Um psicólogo no campo de concentraçâo»1.
Não conhece o repouso. Uma das suas «distraçóes» prcferidas
Não falarci aquí destc livro, pois muitos outros, mais quali-
é meter-sc em escaladas difíceis nos dedives abruptos dos Alpes.
Alias', tcm o diploma de guia da «Associaçáo Alpina»; e há mas-
(1) Traduçáo portuguesa, Editorial Astcn Lisboa. No originnl alcmão Ein Psycholog
mo certos itinerários no Peilstein e no Raxalpe que tomaram o crlebt das Konzcntmtionslagcr, Vcrlag Fúr Jugcnd und Volk, l-" edição, V1'cna. 1946
nome dele! Mas não é só isso: num abrir e Fechar dc olhos é capaz (N.T.). 9
M
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA PREAMABULO

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ñcados do que eu, o fízcram já, para prcstar homenagem ao scu partir das suas experiências nas classcs sociais mais desfavorcci-
alto valor, à grandc originalidade que ostenta no seu gênero, das, que lutavam por uma melhoria dc situação - assim também
à riqueza imcríor deste informc sem artifícios, aos Claróes psi- Frankl elaborou a sua doutrina c o scu método em contato com
cológicos quc ncle se contêm e podem scrvír de introduçâo ao homens do nosso tempo, sobretudo com aquclcs quc vívcram
pensamento cientíñco do autor. Mas, acostando-me cm Gabricl as mais terríficas cxperiêncías do totalitarismo, do racismo, da
Marcei, eu gostaria de falar a todos os que porventura sintam segunda gucrra mund1'al.
algum constrangimento em folhear ainda um livro sobre os hor- Não é possíveL nem seria oportuno resumir agora o scu pcn-
rores desscs morticíniosz este livro, não o deixcm cair das mãos; samento. Contudo, pelo que diz rcspcito à obra aqui apresenta~
retomem-no c não o larguem antes de o terem lido até o fím, da, direi que a poderíamos defínir como a «Summa Logothera-
dum fôlcgo só taJvez - tal como foi criado -, e como o grande peutica» até 1942, enríquecida pelo «experimentum crucis» dos
psiquíatra americano Allport confessa tê-lo feíto, levado de um campos de concentração, e ampliada ultimamente, na edíção de
ímpulso espontâneo e irrcprimíveL 1967, com as experiéncias da teoria e prátíca da Logotcrapia, di-
A análíse exixtmcíal e a logotempia, a doutrína e a terapéutica ñmdida já no mundo todo. O médíco, o pedagogo, o assistentc
de FrankL não se encontram aí ínteiramcntez já escrevcu dezes- social, o sacerdote e todos os leitores avisados, ainda quc não
seis livros'. Mas o homem Viktor E. Frankl está todo ínteiro nes- especialistas em alguma das chamadas ciências do homem, en-
se testemunho. Vemo~lo crescer, amadurecer, expandir-se: em contrarão aqui uma mina inesgotávcl de Hníssímas observaçõcs
comentários sevcros e írônícos, em voos líricos comoventes e ob- sobre a existéncia humana, em seus aspectos mais quotidianos c
scrvaçóes clínicas objetivas, em astúcias espiriruais e transportes também mais profundos, sobre o sentido indcstrutível do vivcr
generosos duma bondade sem artifícios. É uma obra que é uma na terra, se se vive como ser livre e responsáveL no empenho de
joia e que conseguiu transformar~se em besHeller na América trabalhar e amar, em submissão inexorável à prova da dor c do
(913.000 exemplares, declarada quatro vezes «livro do ano» das lance da morte.
universídadcs dos Estados Unidos). Prímeiro, Frankl fazía ten- A sua exposição, a um tempo scvera e amabilíssima. toca a
ção de a publícar no anonimato; só no último momento, quan- chaga da problemática das geraçóes quc assomam ao Hnal do
do começava já a ser impressa, é que os amigos o persuadiram nosso século XX, salvando do naufrágio gcral de estruturas
de que devia assína'-13. passadaS, não propriamcnte o instimo que certa p51'canal'ise e
O pensamento de FrankL embora se apoie em bases ñlo- certo espírito revoluciomirio quiseram pór no ccntro da fe.l|°ci-
sóficas sólidas - depois da guerra quis estudar Hlosofia, e aos 44 dadc utópica futura - praticamente infra-hun1ana -. mas sim
anos apresentou a sua tese de doutoramento, que é a obra sobre aqucle sentido imperecível da existência dc cada um. em cada
«o Deus inconsciente» -, brota diretamente da.sua experiência particular situação histo'rica. indívídual e Colet1'va. que só uma
humana e médíca. Assím como Freud elaborou a sua doutrína a maturação da consciência conscguc descobrin A Logoterapia
partir das neuroses que lhe foí dado obscrvar e curar na socíeda- pretcnde justamcnte dirigír-se a tantos daquelcs quc hoje cm
10 de burguesa, vitoríana e tradicionalísta do seu tempo; e Adler, a dia se sentcm asñxiados na atmosfbm rarefeâita do «vácuo exis- H
PSICUIERAPIA E SENTIDO DA VIDA PRFÀM BU l ,()

tenciaL para os ajudar a añnar a consciência, levando-os a des- à porta do seu mosteiro movídos por «motivaçóes ncuróticas»,
cobrir em si mesmos o profundo signiñcado da sua vída sin- Frankl respondeu, conforme contaria mais tarde, um pouco por
gular, única e irrepetích até nas circunstâncias mais trágicas e ironia, um pouco por desabafo dc quem quer sobrcvivcrz «Sc
aparentemente desprovídas de valor; para os ajudar a encontra- todos os quc estudam psiquiatria por motivações ncurótícas ti-
rcm a valentia de aceitar a responsabilidade de um víver huma- vcssem que ser eliminados, as nossas cIínícas perderiam talvez
no entre os homens». os terapeutas mais comprecnsivos e mais entusiastas. Não sabe,
A parte dedicada à «Análise existencial cspecíal» tem parti- Padre, quc Deus escreve dircíto por linhas tortas?». Frankl é um
cular interesse para psícólogos e psiquíatras, mas todos a podem psiquiatra excelente, precisamente por nâo ser um fanático da
ler com proveito. psiquiatria, porquc crê no homcm e no seu espírito, maís do quc
É uma obra que destrói uma infinidade de «tabus» e de luga- na pretensiosa cíência psicológica.
res~comuns, que a divulgação psicológica c as atuais ideologías
«dcsmitizantes» têm levantado na mentalidade supcrsticiosa do Prof. JOHANNES B. TORELLÓ
homem da era da técnica; e oferece, numa linguagem brilhante
e briosa, a afírmação louçã e esperançosa do que é vivo, dia'rio,
simples e especíñco do ser humano enquanto tal, semprc capaz
de recuperaçâo, de novos entusiasmos, de amor e de autotrans-
cendência.
Viktor E. Frankl Hcará, na história da psiquiatria, como o
médíco da «doença do século XX»; como defensor corajoso da
liberdade humana contra todo e qualquer determinismo cíen~
tíñcomaruralista cego; como 0 admirável fenomenólogo do
amor; como aquele que, cheio de otimismo, desvenda no ho-
mem uma abertura para a transcendênciaz com efeito, quem
chega a compreender a existência humana como uma «missão»
encontrará, maís cedo ou mais tarde, «Aquele quc conña ao ho-
mem tal missão».
O seu bom senso, o seu senso de humor _ que ele emprega
como meío terapêutico, por permitír ao «Eu» o dístanciar-se dos
seus sintomas ncuróticos - pode servir de remédio e de con-
trapeso a certa idolatria psicológica assaz difundida na nossa
cultura de m45'sas. A Lemercier, que preconízava a psicanálise
de todos os religiosos, no intuito de afastar aqueleskque batiam
13
Euntes ezmt etplorant, semen
spargendum portantex
Vmimtex uenient cum
exultatione, portantex
manpiulos .ma5.2

Prefácío à 7a edição

Já que nos aventuramos a corresponder, com uma nova edi-


ção, ao intercssc por um livro que continua a ser procurado
vinte anos dcpois que vcio a lume pela primeíra vez, impóc-se-
-nos íntroduzir capítulos adicionaís quc atualizem o ideário nclc
consígnado, sem entretanto adulterar demasiado 0 «primeiro
lance» - que era uma obra unita'ria, de uma só peça. É claro que
isto náo se faz senão à custa da homogeneidade do conteúdo.
Por isso nos parece oportuno enumerar aqui, dentre os adíta-
mentos feitos, aqueles quc ocupam os tópicos mais extcnsos da
prescntc edíção. Ei-los:
- Introdução (extrat0 da comunicaçâo apresentada pelo Au-
tor no encerramento do 5.° Congresso Intemacíonal de Psícote-
rapia, na qualidade de Vice~Presidente);

(2) Trccho do Salmo 125 da Bíblia, quc é prcccdido pcla fmsc «Qui xrmimml in
lacrimz'5, in exmlmtione metnm e. incluída esm, s1'gniñca: «Os quc scmeiam com
lágrimas cxultarão dc alegria na colhcim. Na ida. vão chomndo os quc levam a scmentc
a espargir; mas, ao voltarcm. trazendo na mão os molhos da ceífa, vírão chcios de
alegria». (N.T.) 15

Ur
PSICOÍERAPIA E SENTIDO DA VlDA

~ O vácuo c~xistencial c a neurose noogênica (extraído de uma


entrevista conccdida pelo Autor a Huston C. Smith, profcssor
do Massacbwetts Imtítute ofTeclmology, conforme consta de um Introdução
filme a cores preparado por iniciatíva da Calfzo"rm'a College As-
socizztion);
- O reducíonismo genético e o pandeterminismo analítico
(baseado na dissertaçâo proferida a convite do Conselho Aca-
dêmico, quando do 6.° Centenário da Uníversidade de Viena);
- Imago bomínis (como acima);
- Subjctívismo e relativísmo (7716 First Howard Chamíler R0-
bbim Lecture, dada na Americrzn Uníverszfy em Washington);
- O princípio da homcostase e a dinâmica existcncial (extraído
Schelsky, no título de um dos seus livros, classíñca a juven-
da conferência proferida a convite do Instituto de Psicologia da
tude de hoje como «a geraçâo cética». Uma coisa semelhantc se
Unívcrsidade de Melbourne);
pode dizer também dos psicoterapeutas atuais. Dizemo-lo espe-
- A técníca logoterápíca da intenção paradoxal (C0nforme 0
cíalmente pelo que se rcfcre a nós própriosz tomamo-nos caute-
Openíng Paper do Symposium on Logothempy, a convitc do 6.°
losos e até desconñados das nossas conclusóes c conhecimentos;
Congresso Intemacional de Psicoterapia); mas esta modéstia e moderação, pode dizer-se que cxprimc a
- Díreção de almas médica e pastoral (Peyton Lecture do ano impressâo vital de toda uma gcração de psicoterapeutas.
de 1965, dada na Soutlaem Metbodist Uníuersíty em Dallas);
Há muito deixou de ser segrcdo que - independentemente
- A relação manipulada e a entrevista de acareação (extraído
da técnica ou método aplícado -, entre dois terços e três quartos
do Seminar on Logotherapy realizado na Harvard University
dos casos sc registrou cura ou pelo menos uma melhoria essen-
Summer School);
cial. Só que eu queria percatar-me contra qualquer conclusào
- Últímo auxílio (da coleção Modem Psyclaotbmzpeutíc Practim
demagógica. Porque ainda se não deu uma resposta à pergunta
Innowztiom in Tecbnique», editada por Arthur Burton, Science and
de Pílatos da psicoterapiaz o que é a saúde? O que é dar saúdc, -
Bcbavíor Books, PaJo Alt0, Califórnia, 1965);
0 que é a cura? Uma coisa, entretanto, é indiscutívelz se, seguin-
- Epílogo (traduçâo do texto de um fílme prcparado pelo do muito embora os mais variados métodos, os altos conselhos
Departmmt ofoycÍaiatry Neurology and Bebazzíoml Srienres da ñnais que se apontam são mais ou menos os mesmos, então não
University ofOklaboma). é à técnica aplicada em cada caso quc temos de atríbuir em pri~
VIKTOR E. FRANKL meira linha os resultados rcspcctívosx Franz Alexander sustcn-
tou uma vcz esta añrmaçãm «In all forms ofq psychothcrapvn the
1-7
16 personality of the therapíst is his primary instrumcnt». Mas, dc-
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
I NTRODUÇÁO

vcrá isto signíñcar que nos é lícito tomarmo~nos dexprezadores com qualquer técnica. E o que tento explicar aos mcus alunos
da témica? Quanto a mím, prcferiria concordar com Hacker, servindo-me desta igualdadc:
quc tcve o cuidado de náo ver na psicoterapia uma simples arte
comparável ao charlatanismo, a que se abrcm de par em par <y>=X+y
todas as portas. O certo é que a psicoterapia é ambas as coisas:
arte c técnica. Sem dúvida, gostaria de ir mais longe e arriscar
Quer dizer: o método de psicotcrapia a cscolher em cada caso
a añrmação de que o extremo da psicotempía, musiml ou témico (y) é dado por uma igualdade com duas incógnítas, não se po-
conforme o num é, enquanto taL enquanto extremo, mero arte- dendo construir sem se tomar em conta, por um lado, a irrcpe-
fat0. Os extremos só existem propriamente na teoria. A prátíca
tibilidade e o «caráter de algo único»4 do paciente c, por outro, a
dcsenvolve-se numa esfera intermédía, numa csfera que se si-
irrepetibilidade e o «caráter de algo único» do médico.
tua entre os extremos de uma psícoterapia concebida musícal ou Qucrerá isto signíficar que podemos cntrar e cair num eclc-
tecnícamente. Entre estes extremos estende-se todo um espcc-
ticismo ambíguo e pobre? Deverão ser dissimuladas as contra-
tro; e neste espcctro cada método e télcnica adquire um deter- diçóes existentes entre os vários métodos de psicoterapia? Não é
minado valor de posição. No ponto maís próximo do extrcmo
possívcl ocuparmo-nos aqui de todas estas questóes. Mas, tanto
musícal estaria o autêntíco cncontro existencial (a «comunica- quanto no-lo permitem os nossos exames e reHexões, importa
ção existenciaJ» no scntido de Jaspers e Bínswanger), ao passo dizer que a nenhuma psicoterapia é lícito impor a pretensão de
que no extremo técnico se locaJizaria a transferência em sentido exclusiv1'dade. Enquanto náo pudermos depamr com uma verda-
psicanalítico, e que, como observa Boss num dos seus trabalhos de absoluta, devemos contentar-nos com que as verdades relatiuas se
mais recentes, se «manuseia» em cada caso, para não dizermos corr]i'am umm as' oumm e também adotar a comgem da unilatera-
que se «manípula» (Dreikurs). Aproximar-se-ía bastante do ex- lz'dade, dc uma unilatcralidade que seja consciente de si mesma.
tremo técnico o mziníng autógeno segundo Schultz, e do polo Suponha-se que o Hautista de uma orquestra não quer tocar
musícaJ podería dístanciar-se ao max'imo algo do tipo da hipno- «unilateral» e exclusivamcnte Hauta, mas ter à mâo outro instru-
se por música gravada (Scba/pllatrmbypnose). mentoz scria inconcebíveU Com efeito, ele tem não só o direíto,
Quamo a saber com que esfcra de frequência Hltramos as mas precisamente o dever de tocar «unilateral» e exclusívamcn-
coisas, por assim dizcr, através do espectro, isto é, quanto ao te na orquestra a sua Hauta. Bem entendido, só na orquestraz
método e técnica que julgamos indicado, - ísso dcpcnde não porquc, logo que chega a casa, terá a prudente cautela de não
apenas dos pacientes, mas também do médico, pois, além de
que nem todos os casos reagem ígualmente bem a cada métodoí
(4) A cxpressão quc pusemos cntre aspas é a tradução de um só vocábulo dcmãoz
também nem todos os médícos se podem saír igualmente bem EinzigartzgkeiL Já se sabe que outra tmdução possívcl é o Icrmo unicidadu No entanto.
pareceu-mc mclhor a solução adotada, muito mais rigorosamemc exprcssiva do que o
Autor qucr dizer. Já que a palavra alemã qucstionada nâo ñgura cntrc aspas no oríginaL
(3) Bcard. o críador do conccilo de neurastcnia, já añrmavaz se um médico rrara do queria ainda ta.'Lê-lo constaL No resto do texto, scgu1'remos. por via dc regra, idéntico
18 mesmo modo dois casos de neurasrenia, é porque com certcza tratou mal um dos doís. critério. (N. T.) 19
PSl(IO'I'L-'RAPIA E SENTIDO DA VIDA
lNFRODUçAvO

enervar os seus vizínhos com um concerto unílateral e exclusivo condiçóes. Assim, o homcm também só se rcvela como verda-
de Hauta. Seja como for, na orquestra polífônica da psicoterapia deiro homem quando se elcva à dimensão da 11'bcrdadc.
é-nos não só lcgítimo mas também obrigatório cscolher uma
O que acabamos de dizer ilustra a razão pela quaL na teoría,
unz'lateralz'daa'e, quepermaneça mnscimte de si mesma.
o príncípio ethológíco é exatamentc tão legítimo com0, na pra'-
A arte foi uma vez deñnida como unidade rla pluralidade. tica, o princípio farmacológica Gostaria que isto mc permitis-
Analogamente, penso eu, pode-se defínir 0 lyomem como mulri- se dilucidar a questão dc sabcr se uma psicofarmacologia podc
plicidade na unz'dade. A despeito de toda a unidade e totalidade
substituir uma p51'coterapia, ou apenas simplifícáJa ou compli-
da essência do homem, há uma multíplicidade de dimensóes em ca'-la. E, neste sentido, h'm1'tar-me-ei a uma obscrvaçâoz recente-
que ele se estende interiormente, devendo a psicoterapía segui- mcnte salientou-se o receio de que a terapia psícofarmacológica,
-lo no interíor de todas elas. Nada se pode deixar de tomar aí em tanto Como o tratamento por eletrochoquc, poderia fazer com
consideração: - nem a dimensâo somática, nem a psíquica, nem que a prática psiquiátrica se mecanizassc e o pacientc já não fosse
a noética. A pxicoterapia deve-se mcver, portanto, numa esazda considerado como uma pessoa; entretanto, cu sinto-me na obrí-
dejtzcá subir C descer por uma escada de Jacó. Nâo lhe é líci- gação de dizer que não se entcnde o motivo de tal receio, poís
to descurar a problemática metaclínica que lhe é própria, nem
o que aquí está em causa não é uma técnica, mas sim e sempre
espezinhar o terreno seguro do empírico clínico. Se a psicotera- aquele que manuseia a técnica, o espírito com que a técnica é
pia se «extravia» em esotéricas alturas, logo devemos chama'-la à manuseadaÍ Assim, há de fato um espírito com base no qual
terra, pondo-a de novo no seu lugar. certa técnica psícoterzzp'im é manuseada de modo que «desperso-
Com 0 animaJ partilha o homem as dimensóes biológica e naliza» os pacientes c que, por trás da doença, já nâo dcixa vcr a
psicológich Por mais que o seu ser animal seja dimensíonalmente pessoa, limitando-se antes a ver, na psyc/Je, meros mecanismosz o
encímado e caracterizado pelo seu ser humano, o homem não homem é refíicadoó - transforma-se numa coísa - ou é manzp'u-
deíxa de ser também um anímal. E, no cntanto, é algo maís do lado a bel-prazer: passa a ser meio para um HmÍ
que isso. Um avião não deixa de poder dar voltas no aeródromo, Aliás, há, a mcu vcr, casos mais graves, de depressào endóge-
em terra, exatamente como um automóvel; embora só se mostre na por cxemplo, em que o tratamento por eletrochoque é muitas
verdadeiro avião quando levanta voo, isto é, quando se eleva ao vezes inteiramente indicado. A argumentação segundo a qual em
espaço tridimensionaL Da mesma forma, o homem é também
um animal; contudo, em última anáh'sc, é também maís do que (5) Uma coisa é que eu aplique um aparelho, outm muito díchcme é que eu romiderr
um animal e, na verdade, em nada menos do que toda uma dí- como aparclho c mecanismo 0 p.'¡cicntc.
mensão, a dímensão da liberdade. A libcrdadc do homem não ((›) Lutinismo usado pclo auton (N.T.)
(7) CÍ W. v. Bacycr ((¡e'x¡mrz'/›('iI›/'ünarge - Grsundbtitxpolilik 7. l97. l958): «Um
é, evídentemente, uma liberdade em relação a condíço'es, quer pacicmc não sc scntc mcnosprando no scu scr humano unicamemc quando nos
elas sejam bíolo'gícas, psicológicas ou sociolo'gicas; e, sobretud0, intcrcswnos só pclas suus flmçócs corp(›'rcas. mas mmbém quando clc sc sabc obicro
de estudos psíC()l(›'gicos, dc con1paraçóes c nmnípulaçóes. Ao lado do frio obictivismo
não é uma liberdade de algo, mas sim uma liberdade pam alg0, da medicim cicntíhwcmnamruL luí lambém 0 Frio objctivismo du psicologia c dc uma
20 a saberz a liberdade para uma tomzzdzz deposiçáo perante todas as mcdicina imprcgnada dc p51'cologia».
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
INTRODUÇÁO

tajs casos os scntímentos de culpa não deveriam ser «eliminados


turno, representaría uma pseudoterapia, mcra dissimuladora da
por choquc», por estar ncles latcntc uma culpa reaJ, nâo a tcnho
ctiologia: tal qual a morñna no caso de uma apcndicítc. Isto valc
cu por rccomendáveL Num certo sentido, num sentido existen-
analogícamcnte para a psicoterapia: também o médico podc pas~
ciaL cada um de nós é culpado; mas este ser-culpado scnsibiliza
sar por alto a etiologia ncsta matéría. E este perigo é tanto maís
os dcpressívos endógenos de um modo tão desproporcionado,
atuaJ quanto é certo vivermos numa época em quc a psíquiatria
tâo híper~dimensionado, que os impele para o desespero, para
c, afinal, a mcdicina, estão conhccendo uma mudança de funçâo.
o suícídio. Quando na mare'-baixa aparece um recfze', ninguém se Aínda não há muito, o professor Farnsworth, da Universidade de
arrism a afrmar que 0 recfze' é a sua causzL Semelhantemente se
Harvard, numa cxposiçâo à American Mediml Assocz'atz'on, sus-
passam as coisas numa fase endógeno-depressiva: torna~se visí-
tentava: «Mcdicine is now confronted with the task ofcnlarging
vel - visíveL mas dcsñguradamente - aquela culpa que está no
írs functiorL In a pcriod ofcrisis such as we arc now cxpcríencing,
fundo de todo scr humano; ist0, contud0, ainda não signiñca physicians must of necessity indulge in ph1'losophy. The grcat
que taJ ser-culpado exístencial também se encontra agora «n0
sickness of our age ís aimlessness, boredom, and lack of mcaning
fundo» da depressáo endógcna, no sentido de que esteja «no and purpose». Dcsta maneira, põem-se hojc ao médíco proble-
fundo» da psicogêncse ou até da noogénese. Seja como for, é mas que não sâo propriamente de natureza médica, mas antes dc
já bastante digno de nota - cíto um caso concrcto - o fato de naturcza Hlosóñca, c para os quais ele não sc acha preparado.
esta culpa existencíal ser patogênica precisamente de Fevereiro a
Os pacientes dirigem-se ao psiquiatra porquc duvídam do
Abril de 1951 e, poster1'ormente, só de Março aJunho de 1956,
sentido da sua vida ou porque perdcram mcsmo toda a cspe-
não o scndo cm geral depois, durante longo tcmpo.
rança de o achar. A este respeít0, eu costumo falar de uma frus~
Mas ainda há uma coisa sobre a qual eu gostaría de fazer
traçâo cxistcnciaL Bem vístas as coisas, não se trata aqui de nada
refletir: nâo será descabido confrontar um homem com a sua
patológico; na medída em que especíalmcnte se pode falar de
culpa existenciaL prccisamente durante as fases endógeno-de-
neurosc, o quc temos de encarar é um novo tipo de neurosc,
pressivas? Uma conduta destas facilmente tería por única conse-
que eu denominei neurose noogênz'm. Por toda a parte ela preen-
quêncía uma tentatíva de suicídio: seria atirar água ao moinho
che, conforme o atestam estatísticas gritantemcnte coincidentes
de autocensura do paciente. Eu nâo creio que nos seja lícito, em como as que constam em Londres, Würzburg e Tubinga, cerca
casos deste tipo, prívar o doentc daquele alívio que o tratamcnto
de 20% do movímento dos hospítaís respectivos, e nos Estados
por eletrochoque, e sobretudo a terapía com o auxílio da psi- Unidos, tanto na Universidade de Harvard como no Bradlcy
Cofarmacolog1'a, já costuma proporcionar às suas dores. Center ofColumbía, (Gcórgia), já sc começaram a elaborar testes
O mcsmo nâo se pode dizer quando temos de lidar, não com que permitam díferençar em diagnóstico a neurose noogênica
uma depressáo endógena, mas com uma depressão psícógcna; de uma neurose psicógena (e de uma pseudoneurose somatóge-
não com uma psicose deprcssíva, mas sím com uma neurose de- na). Um médico que não estivesse em condiçóes de estabelecer
pressivaz neste caso, um elctrochoque represéntaria, conforme esta diagnose díferencial corrcria o rísco dc renunciar à arma mais
as circunstâncias, um defeito de técníca. Defeito que, por seu importante que jamais se pôde dar no arsenal psicotcrapêutícoz 23
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VI DA
INTRODUÇÁO

a orientaçâo do homem para o sentido e os wzlores (obs. 1)3. Eu não algo como o scntido e os valores, a título de «meros mccanismos
consigo imaginar quc a defícieme dedicaçáo a uma missão possa de defesa ou racionalízaçóes secundárias». Pelo que me diz respei-
constituir alguma veZ a única e cxclusiva azusa de uma enfer- tO ~ e talvez me seja permitido falar aqui cm nome pessoal -, cu
midade física. Mas estou convencido dc que uma oricntação de nâo gostaría de vivcr Cm funçâo dos mcus mecanísmos de dcfcsa
sentido (Sinnorientíerung) é um meio de cum ou por causa das mínhas racionalizações sccunda'rías, ou arriscar
Já estou prcparado para o caso de me objetarem que des- inteiramente à toa a minha vida. Decerto, em casos isolados c ex-
te modo se estaria exigindo demais ao pacientez porque, o que cepcionais, deve haver, por tras' da preocupação do homem com
nós hoje em dia devemos temer, numa época de frustração exis- o sentido da sua existência, alguma outra coisa; mas cm todos os
tenciaL não é o exigir demais ao homem, mas sim o exigir-lhe outros casos há apenas uma pura predisposíçâo do homem, que
dc menos. Já nâo temos apenas uma patologia do esgotamen- nós tcmos de tomar a sério, não nos sendo lícito comprimi-la
to (strm); mas temos também uma patología do desafoga Em dentro de um esqucma perceptivo proñssionaL tomado como
1946 foi-mc dado descrever a psicoãpatologia do desafogo por um lcito de Procusto. O esquema perceptivo proñssional facil-
morbidez em antigos prisioneiros de guerra. Mais tarde, alguns mente nos induzíría a analisar ou a tranquílizar parcíalmentc a
trabalhos de W. Schulte bateram na mesma tecla, conceituando preocupação do homem com o scntido da existência, preocupa-
o desafogo como um «ângulo vegetativo do tempo». ção essa tão humana quc só 0 bomem pade levantar a questáo do
sentido e pór em questáo o smtído da sua exístêncial Fosse como
Finalmente, as minhas observaçóes foram conñrmadas por
fosse, cstaríamos envcredando por uma pscudotcrapía.
Manfred PHanz e Thure von UexkülL Portant0, já náo vale evitar
A noodinâmíca não é relcvante unicamcnte para a psícotcra-
a todo o custo as tensóes. Inclino-mc antcs a pensar que o bomem
pia; também o é para a psíco-higíene. Nos Estados Unidos, ba-
precím de uma certa medída de temáo, de uma medida saudável
seando~se em pesquisa de testcs, Kotchen conseguiu provar que
e doseada de temâa Nâo se trata de homeostase a qualquer pre-
o conceito de orientaçâo de sentido (Sínnorimtíerung), funda~
ço, mas sim de noodz'námz'ca, conforme a terminologia por mím
mental em logoterapía, - quer dizer, o ser orientado e o ser-orde-
adotada para designar o campo de tensão polar que se abre entre
nado de um homem, em funçáo de um mundo do sentido e dos
o homem e o sentido - inintcrrupta e irrevogavelmente nele ex-
valores - é proporcíonal à sua saúde espirituaL Davis, McCourt
pectante - da sua realizaçãa Nos Estados Unidos, já se Hzeram c Solomon também conñrmaram, no decurso das experiêncías
ouvir opiníóes segundo as quais mz psicotempia emí cbegando aa dc semory deprivatiom que, para cvitar as alucinaçócs ocorrentes,
fm uma em epz'curz'5ta, subxtituínd0-a uma em estoz'cz'sta. Quer não basta proporcionar simples dados de scntido (Sinnesdaten),
dizer que, daqui em diante, já podemos pelo menos dar-nos ao antes se tornando indispensável restabelecer uma correta refe-
luxo de dcspachar a orientação e ordenação de um homem para rência de sentído (Sz'nnbezug).
Ora, esta exclusão da referêncía de sentido é precisamente
(8) No Hnal do volume, 0 Autor acrcsccnm um acervo de notas como csta a que aqui o que esta', não apenas no fundo de uma psicose experimen-
0 tcxto sc refcrc. Para as disrínguírmos das notas que acompanham o texto no rodapé,
24 dcsignamo-las. na tradução, por obscrvaço'es. (N.T.) tal, mas no Fundo também de uma neurose coletiva. Reñro-me 25
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA
INTRODUÇAO

àquele scntímento dc pcrda do sentido (Sinn/osigkeitsgfàe'/)/),


dio. Em todo caso, nós, os psiquiatras, observamos quc o extrc-
que pelo visto sc apodera cada vez mais do homem de hoje, e
mo do tédio dá mais que fazcn
que dcfini como wícua existencial Atualmente, o homem nâo
Entretanto, estará a psicoterapia preparada para tudo? Eu
sofre apenas de um depauperamento dos instintos, mas de uma
creio que ela tem que aprofundar mais ou mcnos o seu novo pa-
perda da tradiçâo. Doravante, nem os instintos lhe dizem o que
ch Pelo menos ainda maJ sc descnvcncilhou daquela fasc que -
tem que fazer, nem a tradição lhe diz o que devc fazcn Em breve
para usarmos a expressão de Franz Alcxander - estava dominada
dcixará de saber o que qucr, para começar a imitar os outros
pela mentalidade mecanícista. Sc bem que Franz Alexander tcm
pura e 51'mplesmente. E, assim, caírá no conformismo. Nos Es-
também toda a razão cm dizer que é precisamcnte à oríentação
tados Unidos, os psicanalistas queixam-se de terem comcçado mecanicista e materialista da antiga medicina que nós dcvcmos
a lidar com um novo tipo de neurose, cuja característica mais prodigíosos frutos. Eu, por mim, prcferiría dízerz Náa temos
marcante consiste numa cmorpecentc perda da iniciatíva. O mzda de que arrepender-nos, mas muito que subxanan
tratamcnto tradicional - queixam-se os colegas - deíxa-os de- Uma das primciras tentativas neste sentido foi a que Freud
samparados e não dá resultado em tais casos. Vê-se, assim, que emprcendeu. A críação da sua psicanálise foi o nascimcnto da
o brado dos pacientes, a rcclamar um* sentido da vida, produz moderna psicotcrapia. Mas Freud teve que emigrar, e com clc
entre os médicos o seu eco, isto é, faz-lhes formular um apelo a psicoterapiaL Na realidadc, já tinha cmigrado no dia cm que
a novas diretrizcs psicoterápicas. Este apelo soa com tanto mais a sua conferência na respeitável sociedade dc médícos de Viena
urgência quanto é certo que, no caso do vácuo existenciaL trata- foi recebída com um sorríso dc cscárnio. Hoje, parcce-mc tcr
se de uma manifestaçâo coletíva. Cerca de 40/°o dos estudantes chegado o momemo de atentar naquilo que eu caracterizcí, no
alcmães, suíços e austríacos, que assistiram às minhas preleçóes título de uma conferência apresentada na Sociedade Médíca de
em língua alemã, confessaram que haviam tido a vivência e a Mainz, como «O regresso dapsicotempía ao lar da medicina». Que
experiência do sentímento de uma profundíssima perda do sen- já chegamos ao momento de fazê-lo, é o que se deduz do fato dc
tido; entre os estudantes dos Estados Unidos que assistiram as\ toda uma séríe de tarefas relativas à medícína da alma estarem
liçóes em língua inglesa, a percentagem subia a 80%. Natural- esperando por um médico de cabeceira. Seja como for, 0 esforço
mente, isto não quer dizer que o vácuo cxistencial domine es- médíco aínda está a muitos títulos mecanízado, «despcrsona-
magadoramente os americanos, nem que, enñm, tenhamos que lizando-sc» com Cle 0 pacienm Com efeit0, o esforço clínico
atribuír o fato à chamada americanização; apenas signifíca que, de muitos modos amcaça cristalizar em rotina, para não dízer
pelo vísto, estamos em face dc uma característica das formas em burocracia. E se agora a própria psícoterapia sc contaminas-
de sociedade superindustrializadas. E, já que Boss mencionou se nesta medicina ultramecanizada, prestando homenagem ao
o tédío como a neurose do futuro, estou em acrescentar que «o ideal tecnológíco do engcnhciro da alma, tão ccnsurado por
futuro já começou». Mais aindaz foí já profetizado no século Franz Alexander, o erro seria tanto maior. No entanto, eu penso
passado por Schopenhauer, que via o homem destinado a osci- poder aHrmar que estamos em vias de conjurar este perígo.
26 lar para sempre entre os dois extremos da ncccssrdade e do té- A psicoterapia acha-se, assim, com efeito, no caminho de 27
PSICOTERAPIA E SENTIDQ DA VIDA

toda a arte médica. Mas cste re-


ao seío m aterno de
íregresso como o da
modiñcara tan tO o aspecto da psicoterapia
gresso preço
p sicoterapia terá de pagar um
med1'cina. Realmentc, a
medi cina, e este preço scrá a desmz'-
pelo scu regresso ao lar da
tfiazçáo da psz'cotempz'a.
como se efetivará, cm última
Entrementes, é de perg untarz DA PSICOTERAPIA
Conduzirá
ao lar da medicina?
anaJ'isc, o regresso da psicoterapla
«psicolog1c1zaçâo da medlcma»?
\

cle realmente a uma ilimitada


não para .u4ma psic0-
A LOGOTERAPIA
Julgo que não é bem assim, Camínhar-se-á
reumanízaçáo da medzczna.
logicização, mas sim para uma
convém considerar que, por
Como quer que seja, sempre
a relaçáo humana en-
mais cssencíal que seja para a psicoterapia
Iícito tornarmo-nos dcspre-
tre médico e doente, nunca nos será
os pacientes nào
zadores da técnica. É quc, o quc desumaniza
o método é usado; e
é um método mas sim o espírito com que
pacientes está pelo menos
a tentaçâo de rejíimr e manipular os
no tratamento
tão latentc na psicoterapia como por exemplo
do eletrocho-
psicofarmacológíco ou no que se faz Com ajuda
quc. Pelo que diz respeito partícularmente à neurose noogênica,
ter
a psicoterapia, não menos do que a somatotcrapia, deveria
em conta a verdadeira etiologia durantc 0 tratamento; e 0 vácuo
exístenciaL que cada vez mais se propaga, requer novos princí-
pios (logo)terápicos. O certo é que a psicoterapia só pode dar
vasão à multidimensionalidadc das suas tarefas se se inserir de
novo no conjunto da medicina donde ela emigrou com Freud.
Esse regresso modiñcará tanto o seu próprio rosto como o da
medícina, trazendo Consigo, por um Iado, uma desmitiñcação
da psicoterapia e, por outro, uma reumanização da medicina.

28
Psicanal'ise e psicologia
individual

Qucm poderia falar de psicoterapia scm mencíonar Frcud c


Adler? E, em sc tratando da psicorerapia, quem poderia deixar
de partír da psicanal'1'sc e da psicologia individuaL para dcpois
e sempre se lhes referír? Não resta dúvida alguma de quc ambas
rcpresentam os dois únícos grandes sistcmas no âmbito psicote-
ra'píco. A obra dos seus criadores impóe-se ao nosso pcnsamemo
na história da psicoterapia, sem que dela possamos prescindin
Ainda que se trate de ultrapassar os princípios da psicanal'ise e da
psícologia individuaL continua válida a sua doutrina como base
das investigaçôes. Stekel exprimiu uma vez belamente os termos
do problema, quando, ao refcrír-se à sua posição a respeito de
Frcud, imaginou um anão que, encarrapítado aos ombros de um
gigante, podía ver maís e mais longc do que o próprío gígante
(obs. 2).
O íntuíto das páginas que se seguem é ultrapassar os límites
de toda a psicoterapia que se fez até agora. Por isso, é prcciso 31
E SENTIDO DA VIDA ()Gl/\ INDIVÍDUAL
PSICOTERAPIA PSICANÁLISE E PSKÍUI

antes de nos tornar 0 neurótico responsável pclo scu s¡'ntoma, inscrindo-o na


delimitar com precisão csses limitcs:
antes dc I se é necessário e em esfera pessoal da rcsponsab1'lidadc, alargando a csfcra do Ego
rmais
mos sobre o problema de saber
perguntar . determinar (Ich) mediante um incrcmento da responsabilidade.
é possível ultrapassá-l.os,l cumpre-nos
que mcdída
realmente tals hmltes. chos, assím, que a ncurose rcprcscnta, para a psicanáll'sc,
que a psicotera pia tem drena-
cssencial da psicanal'ise à em última instância, uma limitação do Ego (Ich) cnquanto
Freud compara o trabalho as\ águas pr¡m¡_ do
como , nessaFreg1ão,
teis consciência e, para a psicologia individuaL uma limitaçâo
' -Sec: assim
gem do Zulder
l
terrenos er , assim também a Ego (Ich) enquanto ser-rcsponsávcl (Verantwortlíchsein). Ambas
tivas se foram conqulstando pelo «Eg0» (Ich); lsto e,
o «Id» as teorias incorrcm numa limitaçâo concêntrica do scu campo
p51'canal'ise vaí substituindo obque se
a ocupar o lugar do mconsaente; cicntíñco de visãoz uma, convergindo para a conscientidadc
o consciente passará
'
consc1ente, mediantc
I a a oliç ão (Bewusstbeit) do homem; a outra, para a sua rcsponsabilidadc.
' deve-se tomar
fez mconsaentc
' é de origi-
do que se trata na psicanálise Contudo, uma reHexão imparcial sobre os fundamcntos
dos «recalques». Portanto,
como processo de m- nários do ser humano leva-nos a concluir quc o ser-conscícntc
anular o re sultado dos atos de repressão
em todo caso, que dentro da psicanáli- (Bewusxtsein) e 0 scr-responsável (Verantwortlícbsein) constituem
conscientízação. Ja se ve,
de rep ressâo um signiñcado ccntraL precisamente os dois fatos fundamentais da existência. Expri~
se correspondc ao conceito
do Ego (Ich) conscxente por mindo esta realidade numa fórmula antropológica fundamcntaL
aliás no sentido de uma limitação no
Nestes termos, a psicanálisc vê poderíamos dizerz ser-homcm signiñca scr-conscicnte e ser-res-
parte do Id (Es) inconscienta
privação de poder do Ego ponsáveL É bem verdade que tanto a psicanálise como a psicolo-
sintoma neurótico uma ameaça, uma
e, por consegu1'nte, csforça~se a te- gia individual consideram um dos aspcctos do ser-homem, um
(Ich) enquanto consciência;
do inconsciente o conteúdo dos momentos da existência humana; mas só os dois aspcctos to-
rapia analítica no sentido de extrair
à consciência e, assim, mados conjuntamcnte é que evidenciam um verdadeiro retrato
das vivências reprimidas, para restituí-las
de poder. do homem. No seu ponto dc partida amropolo'gico, a psicaná-
prover o Ego (Ich) de um incremento
com o lise e a psicologia individual encontram-se cm posiçôes opostas;
De um modo análogo ao que ocorre na psicanálisc
um mas sua oposição demonstra, já de si, uma complemcntaridade
conceito de repressão, desempenha na psicologia individual
o recíproca. Patenteia-se, assim, com base nesta anal'ise teoréti-
papel principal o conccito de amzngemmL No arrangement,
co-cientíñca, que as duas escolas de psicoterapia não nasceram
neurótico tenta eximir-se de culpa; não há aqui, portanto, uma
como produto de um acaso histórico-cultural, devendo-se antes
tentativa de tornar algo inC0nsciente, mas sim a tentativa de se
tornar irrcsponsável; o sintoma arca, por assim dizer, com a res- a uma nccessidade sistemática.

ponsabill'dade, eximindo-se dela o doente. Isto signiñca, eviden- Na sua un1°lateralidade, é claro que a psicanal'ise e a psicolo-
temente, no campo de visão da psicologia individuaL uma tcn- gia individual descortinam um dos lados do ser-homem. Toda-
tativa (como armngement) do paciente para§ se justiñcar perante Via, o fato de que 0 ser-consciente e o scr-responsável se interpe-
a comunidade ou perante si próprio (a chamada lcgitimação da netram tem a sua contraprova na circunstância dc a linguagem
doença). A terapia da psícologia individual propóe-se, por isso, humana dispor, por exemplo em francês e inglês, de cxpressóes 33
t_›
PSICOFERAPIA E SENTIDO DA VIDA
PSlCANÁLISE E PSICOLOGLA lNDlVlDUAL

scmelhantcs (com a mesma raiz etimológica) para se referir ao mudar (Ana'ers-werden tornar-se outra coisa difcrcnte). em
«ser-conscieme» (Bewmxtseín) e à «c0nscíência» (Gewi.rsen); por- que a vontade, como sujcito da responsabilidada sc csforça por
tanto, para se referir a um conceito que toca de perto a «resp0n- conduzir de um estado a outro. A intcrpcnetração ontológica
sab1'lidadc». É a unidade da palavra a remetcr-nos para a unida- dos dois COnceitos ~ «ser-consciemc» c «ser-rcsponsa'vcl» - tem
dc do ser. a sua origem, por conseguinte, no primciro dcsdobramento do
Que o ser-consciente e o ser-rcsponsávcl se entrclaçam numa ser, como ser-diferentcmentc, nas duas dimensócs das relaçócs
unidade, numa totalidadc do ser humano, é coisa que se entende de vizinhança c sucessã0. Das duas possibilidades dc visão antro-
ontologicamente. Para atingirmos a comprccnsão destc ponto, pológica que assentam na realidade ontológica aprescmada, é
podemos começar por atentar em que todo ser é, em cada caso, claro que a psícanaüise e a psicologia individual escolhem uma
c cm substan^cia, um scr~diferentemcnte (Anders-sein). Explica- apenas.
mos: aquílo que nós no ente (Sez'md)9 cscolhemos, isoland0-0 da Nós bem sabemos quc se deve a Frcud nada mais e nada
restante série de seres, só sc pode delimitar na medída em quc é menos que a descoberta de toda uma dimensão do ser psíqui-
suscetível de dífercnciaçãa Afinal de contas, só em se referindo co'°. Mas Freud entendcu tão pouco a sua dcscoberta como Co-
a um ente (Seíend), a um diferentemcntc-ente A(nders-seimd), lombo que, quando descobriu a América. julgava ter chegado
é que ambos sc constitucm. Scja como fon a relaçâo entre ente à Índia. Também Freud pensava que o essencial na psicanálise
(Seíend) e difercntcmcnte-ente (Ana'er5-seíend) está aí. Ser = Ser cram mecanísmos como o rccalque e a trzmsfcrênchH quando na
dfze'rentemente, isto é, «ser-difcrentemente em relação a» A(nders- realidade se tratava da consecução de um mais profundo conhe-
sein aÁs): - portanto, relaçâw propr1'amente, só a relaçáo «é» (obs. cimento de si mesmo, mediante um encontro existenciaL
3). Podcríamos, por conseguinte, usar esta fórmulaz todo xer é E, no entanto, devemos ser bastante generosos para de-
ser-referída (Bezogen_-sein). fender Freud do seu ermdo ronberímmm de si mexma Añnal
Mas o ser-difercntemente (AnderJ-sein) tanto pode representar de contas, o que é que nos diz a p51'canálise, se nós a ísolamos
um ser-difercntcmcntc numa relação de vízinhança (um Nebe- de todo condicionamento tcmporaL se a separamos de todas
neinandeü como numa relação de sucessão (um szclaeínander). as cascas de ovo que o século XIX lhe possa tcr pegado? O
Ora, 0 ser-consciente pressupõe uma relação de vízínhança pelo edifício da psicanálise assenta em dois conceitos essenciaísz o
menos entre o sujcíto e o objeto - portanto um ser-diferente- do recalque e o da transferência. Pelo quc diz respeito ao re-
mente na dimensâo espacíal; em contrapartida, 0 ser-respon- calque, nos quadros da psícanálise, é através da Conscientíza-
sável tem por pressuposto uma relação de sucessâo de diversos ção (Bewusstwerdung) quc se elabora a atuação consciente (Be-
estados, a separação entre um ser futuro e um ser presente -, wusstmacbung). Todos nós conhecemos a orgulhosa frase de
portanto, um ser-diferentemente na dím_ensão tcmporalz um Freud, ~ eu diria mesmo a sua frase prometeícaz «Onde está o

(10) Viktor E. FrankL Dax Memchenbild dtr Seelenbeilkunda HippokratcsVerlag.


(9) O Ser (D¡1x Sein) não é nenhuma exccçãoz «E», em todo caso, udifcrcntcmentc em
./-

Smttgart l959, pág. 13. 55


relaçãm ao NadaE
›.'-\

. _r. ~_,
l'SlÇO'I'ERAPI/\ E SENTIDO DA VlDA
PSKMNÁLISE ií PSK IOLOGIA INDIVIDUAL

Id (Es), tornar-mc-eí Ego (Ich)». Mas, pelo que sc rcfcrc ao se- existencialmentc primária e originár1'a. a solicitude originária do
gundo princípío, o da transferência, bem vistas as coísas, esta-
homem pelo amor. Em sumaz sá o Egv (ch) que tende pam o Tu
mos, quanto a mim, perantc um vezc'ulo de um entontro existem pode integmr 0 Id (Es) verdadeiro e prápria
a'al. Tanto assim é que a quinta-essêncía da psicanal'1'se, añnal
Scheler refcriu-se à psicologia individual com uma obser-
scmprc aceitáveL admite uma formulação que abrange os doís
vação desrespel'tosa, dizendo quc ela só valia propriamcntc para
princípíos da atuação consciente (Bewusstmachung) e da trans-
um tipo de homem determinado, o do ambicioso. Talvcz não sc
ferência: «Onde cstá o Id (Es), tornar-me-ei Ego (Ich)»; ora, o
dcva ir tão longe na crítíca. Em todo caso, pensamos quc o quc
Ego 50' 56 torna Ego pcmnte o Tu.
a psicologia individual passou por alto em toda a tendência para
Paradoxalmente, a massificação da socícdade industrial traz
fazer-se valer (Geltungs:treben), que imaginava cncontrar sempre
consigo um isolamento que acentüa a nccessidade de comunica-
e cm toda a parte, foi que muitos homens podem cstar anima-
çã0. A mudança de funçâo da psicoterapia, nos Estados Unidos,
dos por uma ambíção muito mais radical do que a ambiçâo pura
o país da loneyl rrowd, jogou a cartada forte da p51'canal'1'se. Mas
e simples, a saberz por uma ambição que, por assim dizer, não sc
os Estados Unidos sáo também o país da tradição puritana e
satisfaria de maneira nenhuma com uma honra tcrrcna, estcn-
calvinistzL O scxual tinha sido reprímido no plano coletiv0, e
dendo-se, ao contrário, até muito mais longe, em um etemizar-
agora uma psicanálise equivocadamente pansexualista relaxava a
-se, de qualquer forma que seja.
repressão coletiva. Embora, mz rezzlídada seja euídmte que a psi-
mnálise náo em de modo aglum pamexualístzL mas sim e apenas Já se consagrou a expressão psicologia profundau onde Hca,
pandeterminista. porém, a psicologia das alturas, quc ínclui no seu campo de visáo,
não só a vontade de prazer, mas também a vontade de scntido?"
Para falarmos com propr1'edade, a psicanálise nunca foí pan-
Cumpre perguntarmo-nos se náo terá soado a hora de vermos,
sexualista. E hoje cm dia muito menos. O que ocorria é que
no âmbito da psicoterapía, a exístência humana, não só na sua
Frcud concebia o amor como um mero epifenômeno, sendo
profundeza, mas também nas suas alturas, - pam se ultrapassar
ele, na realidade umfenômmo orzg'i7za'rio da exístência Ímmamz e
deliberadamente, não apenas o nível do físico, mas também 0 do
não precisamente um mero epifenômeno, qucr no sentído das
psíquico, abarcand0, por princípio, a esfera do espíríto.
chamadas tcndências inibida5, quer no sentído da sublímação.
Fenomenologicamente veríñcowse que, em se tratando de qual- A psicoterapia feita até à data bem pouco nos deixou ver da
quer coísa como a sublimação, é scmpre o amor quc precede
esta mesma sublimação como condição da sua possibilidade; e (11) CE V. FrankL Zmlrzzlblattfiir Pysrlwtberzzpie 10, 33, 19382 «Onde cstá nquela
psicologia tcrapcuticamcmc intercssadm quc inclua cm scu csqucma csms camadns
que, por esta razão, a capacidade de amar -. 0 pressuposto da su- mais alms da exisréncia humana c, ncstc sentido c cm contrasxc com u nomc dc
psicologia profunda, mcrcça dcnominar-sc psicologia dab alturas?» É vcrdndc quc um
blimaçâo - nâo podia ser por si só o rexultado de um processo
represcntantc dn psicologin das alturas dissc cerm vczz Ídmls arr !/)t' u(ry_ smjiof
de sublimação. Por outras palavrasz a sublimação, quer dizer, a mruiual - o homem só podc sobrcvivcr sc vivcr por um idcnlz c. no faur scmclhantc
añrmaçãm pcnsuvn quc cla valc não npcnas paru o homem individuaL mas mmbém parn
íntegração da sexualidade no todo da pessoa, só sc toma com-
a humanidadc como um [0d0. Sabcm qucm é cssc psicólogo das altumsP 0 primcim
36 prcensível a partir de um Fundo que é a capacidadc de amar, dos astronaums :1mericanos, John H. Glcnn, - um psicólogo das alluraa rcaln1cmc...
Tw*

PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA


IISICANÁLISE E PSlCOLOGIA INDIVIDUAL

[_Írcalidadc cspírirud do homcm. Como se sabe, ainda existe, por


homens como eles são. Fazemo-los pior-cs. Se os tratamOS como
cxcmplo, uma ampla oposição entre a psicanzüise c a psícologia
se eles fossem o quc deveríam sen Conduzimo-Ios aondc cumprc
índívidual2 ao passo que aquela contempla a realídade anímica13
conduzi-Ios».
sob a catcgoria da causalidade, o que domina no campo de vi-
Para além dos seus aspectos anrropológicos e das suas catc-
sâo da psicologia indívidual é a categoría da ñnalidade. A cste
gorías psicopatológicas, podemos agora añrmar quc a psicaná-
respeiro não se pode nega1'que, como qucr quc seja, a Hnalidade
lise e a psicologia individual tém, quanto ao respcctívo cscopo
rcprcsenta a Categoria mais clevada, c neste sentído a psícologia
psicoterápico, uma visualização perfcitamcnte diFercnçách Mas
individual sign1'6ca, em confromo com a psícanálíse, um maior
também aqui, mais uma vcz, cncontramos. não uma simplcs
desenvolvímento da psícoterapia, um progresso na sua hístóría.
0posição, deparando-se-nos antcs uma espécie dc gradação; -
Ora, este progrcsso, na minha opiníão, ainda continua em aber- maís ainda, uma escala que nos parece não ter sído pcrcorrida
to, na mcdida em que se lhc pode acrescentar mais outra fase. aínda até ao ñm. Observcmos, a estc propósito. a cosmovísão
Porquc, dc fato, o que se impóe indagar é se com as duas catc-
que a psicanálise se propóc e que, conscíente ou inconscientc-
gorías aduzidas já se esgotou a esfera dos possíveis pontos de mente, poucas vczes declarada, mas sempre ímplícitamcntc c0n-
vísta categoriais, ou se pelo Contrário não se devería íntroduzir tida, está nela latente. Afinal de contas, onde é quc a psicanzüisc
a nova categoria do «dever ser», para associa'-la à do «ter que» quer chegar quando sc refcre ao homem neurótíco? O scu objc-
(em fuãnção da causalidade) e à do «querer» (em função de uma tívo predetermínado cstá em provocar um compromisso cntre a
ñnalidadc anímica). pretensão do scu 1'nconscientc, por um lad0, c. por outro, as exi-
Semelhantes consideraçóes podem pareccr, à primcíra vista, géncias da realidade A psícanálise procura adaptar 0 indivíduo,
afasradas da vída. Mas nâo o sãoz cspecialmente, não o são para a sua disposição instintiva (Trieb/)zzflzg'keit), ao mundo cxteríor;
0 médico, ncm muito mcnos para quem se dedíque à prátíca tenta harmonizá-la com a reall'dade, sendo quc esta, muitas ve-
p51'c0tera'pica. Tudo está, añnal dc contas, em que se queíra que zes - em consonâncía com um «princípio de rcalidadc» - exigc
0 doente dê de si o max'ímo possíveL Não propriamente o ma'- inexoravelmente a chamada ncgação dos instintos (Triebuersa-
xímo possível de segrcdos, mas sim de valor humano, recordan- gung). Em contrapartida, 0 objctivo da psicologia indívídual vai
do aquclas palavras de Gocthe, que talvez sc pudessem apontar muito mais longc. Para além da mera adaptação, cxigc do docn-
como princípío supremo de toda a psicoterapiaz «Sc tomamos os te uma corajosa confíguração da realidade; ao ter-que por parte
do Id (Es), contrapôe o quercr por partc do Ego (Ic/;1).

(12) Esta palavrm embora pouco corremc nos lívros da espcuhlidade escricos cm
Ora bem. Perguntamos a nós próprios scr esta séríe dc objc-
língua portugucsa. éa única que nos pcrmite conscrvar rigorosamcnte a Lcrminología tivos não estará incomplcta. se não será permitído ou mesmo
do Aulor. Pnra sc rcfcrír às várías dimcnsócs do Scr hum.-mo, Franld usa, afora outros
exigido o avanço para uma dimensão mais ampla; se, por ou-
xcrmns dc sígniñcado o'bvío. os scguíntesz pllyxixrb (ñ”síco); psyrljixrb (ps¡'quic0); grislig
(espirírual): C. ñnalmcnre, JMÍÍJCÍJ quc é o quc tmduzimos por mmnim (dc alma, Die tras palavras, não se deveria acrescentar às categorias da adap-
See/r). Vci;l-sc. .¡*Il".i5. a sccção III do Iivro ondc se Íãla dc udircção dclümms médican
taçáo e da conñguração uma tcrccira categoria, para chegarmos
((írulo do original austríaco). Ao longo dc lodn a tradução, u pnlavra nnimico
38 corrcsponde ínvaríwclmcntc a JeelixtÍL (N.T.) a uma imagcm adequada da total realidadc somático-.1ním1'c0-
_---'_--_-___-__

PSICOTERAPIA E SENTIDO DA va PSICANÁUSE LÍ PSICOLOGIA


lNDlVIDUAL

às riquczas cx~
Í
«ho mem», - a úníca que, cnñm, nos poria com a ngra de outro homem quc, renunciando
-espirítual que é o tcmas c a muitas oportunídadcs da vida, sc mantcvc ñcl ao scu
a csta realidade tâo sua o homcm
em condiçõcs de condu21r seu turno, se nos conña. deStino próprio, tcrá que rcfcrir-sc a sua vída com as
\
palavras
Sofrcdor que nos é conñado e que, por aqucle que cu po~
em mente, denomlna-la-emos
categona de Hebbelz «Quem eu sou saúda tristemcntc
A categoria quc tcmos muito bem imaginar
cntre a conñguraçao da v1da ex- deria ser». Em contrapartida, poderíamos
da consumaçâo. Com efeito, carrcira
consumação de um homem, ha que este homem do nosso exemplo, renunciando a uma
terna e a mais íntima e plena da
confíguração da vida é por aSSÍm externamcnte brilhante e, conscqucntcxmnte, a muitos bcns
uma diferença essc ncíaJ. A pcla sua
grandeza extensiva, ao passo
' f
quc a rcalização consu- vida, e retirado a um estreito sctor proñssional ditado
dizer uma ínti-
vetorialz trata-se de uma dlreçao, aptidão, encontra o xmtido da sua w'da c a sua consumação
mada da vidaé uma grandcza
de valor que a cada pessoa ma fazendo aquilo que cle, e porvcntura só clc exclu51'vamcntc,
uma direçâo para a possíbílidadc
Cm Vísta de cuja reali- podc fazcr melhor. A esta luz, muitos «pequcnos» médicos de
humana está reservada, cncomcndada, C
aldcia que permanecem e criam raízes no seu mcio ambientc
zaçâo efetiva se vive a vida.
estas dis- parecem-nos «maiores» do que muitos clos seus colcgas chcga-
Imaginemos, para esclarecer._com um exemplo todas
dos às grandes cidadcs. Do mesmo modo, muitos teóricos, quc
tinçóes, um rapaz novo que cresceu na pobreza e - cm vez de se
vivem em postos retirados da ciência, podem estar mm's al'to do
comemar com «adaptar-SC» à estrciteza e à pressâo das circuns-
que muítos dos práticos quc, «mergulhados na vida», se lançam
tâncias - impóe ao meio ambiente o seu querer pcssoaL «conñ-
a dirigir a luta contra a morte. É que, na frente de luta da ciên-
gurando» a sua vida de tal maneira que, por hip0'tese, consegue
cía, lá onde o combate com 0 desconhecido se inicía ou progri-
estudar para chegar ao exercícío de uma proñssão de relevo. Su-
de, o teórico conserva um setor de combatc realmente peque-
ponhamos ainda que, seguindo a sua aptidão e inclinação, estu-
no, ~ mas é aí que ele pode contribuir com algo dc insubstituível
da medícina e chega a ser médico; tem então oportunidade de
e único, sendo insubstituível no caráter único desta tarefa pes-
aceitar uma proposta sedutora dc uma posição ñnanceiramente
soaL Encontrou o seu posto, desempenha-o e, assim, consuma-
lucrativa, que lhe garante ao mesmo tempo uma boa prática;
se, realimae plenamente a sí mesma
vence na vida e consegue conñgurar uma existência externamen-
te ríca. Mas admitamos também que o talento deste homem Desta maneira, teríamos conseguid0, como que por um pro-
se refere a um especíal setor da sua carreira, para o qual aquela cesso puramente dedutiv0, o que se poderia classíñcar como uma
posição nâo oferece nenhuma 5aída: sendo assim, a despeito da vaga no quadro cientíñco da psicoterapia; teríamos conseguido
feliz conñguraçáo extema da vída, contínuaria sendo negada a provar a existência de uma lacuna que espera o respectivo preen-
esta vida a consumaçâo íntima. Ainda quc bem acomodado, por chimento. Quer dizer: mostramos que a psicoterapía feíta até à
muito feliz que pareça, no seio de um lar instalado a bel-pra- data se caracteriza por uma neccssidade de complementaçâo, a
zer, numa Casa própria, com automóvel de luxo e urn rico par- necessídade de ser completada por um processo psicoterápico
que, - este homem, logo que reHita mais profundamente, por que, digamos assim, se move do lado de lá do complexo de Édi-
40 força tem que achar errada a sua vída; e, aoxcomparapse talvez po e do sentimento de inferioridade - 0u, em termos gerais, do 41
à
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
PSIUWNÁL ISE E PSICUU XJlA lNDlVIDUAI

M
lado dc lá dc toda a dinâmica dos afetos (Afektdynamik). Nesna

NAi
ainda falarcmos mais adiante; c além do problcma dc sabcr sc tal
ordcm dc idcias, o quc está ainda por fazer é uma psicotcrapia
imposição sc pode cfctivamcntc cvilan tcrá quc scr rcsolvido o
quc retroccda para trás desta dinâmica dos afetos; que, obser-
problema de sabcr sc. cm princípio, é possívcl a complcmcnta-
vando por tras' dos sofrimentos anímicos o homem neurótíco, se
çáo da psicotcrapia por nós rcqucrida. Enquanto cstc problcma
aperceba da sua luta cspirituaL Trata-se, assim, de uma psicote-
estivcr em aberto. 0 postulado de uma «psicotcrapía a partir do
rapia «a partir do espírito».
espírito» náo passará dc um desidmtmn A sortc dcsta mcsma
A hora do parto da psicoterapia soou quando se começaram psicoterapia dcpende dc nós conscguírmos também, para além
a ver, por tras' dos sintomas somáticos, as causas anímicas; isto é, da deduçáo da sua nccessidadc teorétíca, mostrar a sua possibi-
quando sc começou a dcscobrir a sua p51'cogênese. Mas agora, o lídade; e de provarmos por princípío a legitimidadc da inscrçáo
quc importa é dar ainda um passo último c, ultrapassando, para do espirítual (e não apcnas do anímic0) no tratamcnto médico.
além do psicógcno, a dinâmíca dos afetos da neurose, contem- Sc nào nos quisermos tornar culpados de quanuer cxtr.1'limita-
plar o homem na sua necessidade espirituaL - para o ajudarmos ção no quadro da nossa crítica à usimplcs» psicotcrapia, tcmos
daí em d1'ante. Com isto, nâo nos passa despcrcebido, nem de quc demonstrar a possibílidadc do valoran dentro da psicotera-
longc, quc o médico, ao situar-se assim perante o doente, ocupa pia. Entretanto, antes dc mctcrmos ombros a csta tarefa - o quc
uma posiçáo quc está onerada por uma problcmáticzaL Referi- farcmos no capítulo Hnal destc livro -, e depoís de nos tcrmos
mo-nos àquela problemática quc resulta da atítudc valorativa, rcferido já à ínevítávcl presença do valorar cm todo o agir mc'di-
neccssariamente assumida pelo médicoz com efeito, no momen~ co, queríamos ocupar-nos com a sua ncccssidadcz nào com a sua
to em quc se entra no terreno de uma necessária «psicoterapia necessídadc teorética - com a qual já nos ocupamos antcrior-
a partir do espírito», apenas se toma explícita toda a conduta mente - mas precisamentc com a sua neccssidadc prática.
espiritual do médico, a sua cosmovisáo concreta, - cxatamente
aquela cosmovisão quc até esse momento se achava oculta no Dc fato, a observação empírica conñrma o quc nós pro-
simplcs tratamento médico, na forma de añrmação do valor da curamos antes concluir dedutivamemez a falta quc faz uma
saúdc, quc afinal se contén1, de antcmâo e tacitamente, no fundo psicotcrapia a partir do cspírito. Na rcalidada o psicoterapcuta
de todo agir médico como tal. Scja como fon o reconhecimento depara dia a dia, hora a hora, no excrcício quotídiano da pro-
dcste valor enquanto príncípio último da arte médica está li- ñssão e nas situaçóes concretas das suas horas de consulm, com
vre de qualquer problcma'tica, pois o médíco pode reportar-se, problemas relativos à concepção do mund0. E perame tais pro-
blemas mostram-sc insuñcientes todos os rccursos postos à sua
a todo moment0, ao mandato da socíedade humana, quc o in-
disposiçáo pela «simples» ps1'coterapia, tal como ela até agora se
cumbiu exclusivamente dc velar pclos intercsses sanítários.
tem praticado.
No entant0, a ampliaçâo da psicoterapia quc nós postu-
lamos, incluíndo o cspirítual no tratamento anímico do doen-
te, encerra díñculdades e perigos. Destes perígos, sobretudo do
42 perígo de o médico impor ao doente sua cosmovisâo pessoaL
O vácuo existencial
e a neurose noogênica

rA missáo do médico, de ajudar 0 pacicme a alcançar uma


conccpção de valor c uma cosmovisão ~ a própria do pacícntd -
é, numa época como a atuaL tanto mais urgcntc quanto é ccrto
que 20% das neuroscs aproximadamcntc são condicionadas e
provocadas por aquele scntimemo de nusôncia dc sentido que eu
deñni como vácuo existenciaL O homem nào dispóe de um ins-
tinto que, Como sucede aos animais, lhe dite o que tcm quc fa-
zcr, e hojc em dia não há uma tradiçào que lhc diga o quc dcvc
fazer; em brevc, também nâo sabcrá o quc qucr propriamcntc e
tcrá que estar prcparado, quanto antcs, para fazcr o que outros
quiserem dcle; por outras palavras: tornar-se-á um joguctc nas
mâos dc chefcs e sedutores autoritários e totalitár1'os.
Atualmente, há pacicntcs que sc dirigem ao psíquiatra por-
que duvídam do scntido da sua vida ou porquc já dcscspcraram
até de cncontrar, em geraL um sentido para a vida. Em logo-
terapia, falamos, neste contcxt0, de uma frustraçáo existencíaL
Isto não constitui, em si e por si só, nada de patológíco. Foi-me 45
"'.'

PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA

1
o VÁCUO EXISTENCJAL E A NEUROSE N()OGÉNIC^

dado conheccr um caso dc um pacíente - de proñssâm profes- camos como neurose noogênica. Nos Estados Unidos, tanto na
sor unívcrsitário - que foi enviado à mínha clínica cm vírtude Univcrsidadc dc Harvard como no Bmdlqy Cemer dc Colúmbia
do scu dcscspero quanto ao sentido da cxisrência. Da convcrsa (Geórgia), clwgaran1~se a elaborar testcs quc pcrmitcm d1'fc'rcn-
infcria-sc quc. no caso dele, se tratava propriamente de um es- gr por diagnóstico a ncurosc noogénica dc uma ncurosc psicó-
tado deprcssivo endógeno. Pôs-se a limpo que as elucubraçóes gena. James C. Crumbaugh e Leonhard T. Maholick resumcm
sobre o scntído da vida nào o assaltavam, como podcríamos ter os resultados das suas pesquisas nestcs termosz «The rcsults of
suposto, ao tempo das fases depressívas; pelo contrárío, nessas 225 subjccts consistcntly support anklk hypothesis that a ncw
fascs, estava tâo hipocondriacamente preocupado que nâo com- typc of neurosis ~ wich he tcrms noogenic neurosis ~ is prcscnt
seguía pcnsar absolutamente em nada. E só nos intervalos sadios in thC clinics alongside thc convcntional formsz Íhcrc is eví-
é que conseguia pôr-se a elucubrar! Por outras palavrasz entre dence that we are in truth dealing with a ncw syndrome»“.
a necessidade cspirituaL por um 'lado, e a doença anímica por
Perantc uma neurose noogênl'ca, a Lcmpia cspccíñca que sc
outro, havía mesmo, no caso concrcto, uma relaçâo de exclusáo.
oferccc é a Iogoterapia; mas sc, apcsar dc índ1'cada, um ou outro
Freud via as coísas de ourra maneira, quando escrevia a Maria
médíco a recusa, é de suspeítar quc o faz por mcdo dc cnfrentar
Bonapartcz «se se pergunta pelo sentido c vaJor da vida, é porque
o próprio vácuo cxistencíaL
se está doente...» 13
A Rolf von Eckartsberg, do Depzzrtment fo Somzl Relatiom Diantc da problemátíca cxístcncial quc sc abrc nos cusos por
da Universídade de Harvard, devemos uma pesquísa detalhada, nós chamados dc neurosc noogênic.1', a psicotcrapia aplicada e
de grande envergadura, quc se prolongou ao longo de 20 anos, orientada por uma psícodinâmica c analítica unilateral procu-
c que muito esclarece o nosso ponto. Tratava-se de 100 antigos raria consolar os pacícmcs fazend0-05 csqucccr a sua utrágica
estudantes de Harvard e - conforme depreendi de uma comuni- exístência» (AJfred Dclp). Em contraparn'da, a logoterapia, o
cação pessoal de Rolf von Eckartsberg - «25% explícaram com que faz é prccismncntc ocupar-sc dcla c tomá~|a tão a sério quc
toda a cspontancídade que passavam por uma “críse” rclatíva ao recusa, como «nothing but defensc mechanisms and rcaction
problcma do sentido da vída. Se bem que, cm parte alcançaram formations», as suas falsas interpretaçócs psicologísticas c pato-
êxito na sua profíssáo (metade são ativos nos negócios) e ganham logísticas. Acaso nâo é consolar - com uma consolaçâo bcm ba-
rata, aliás - 0 reduzír o médico a angústía da mortc do pacícn-
bem, queixam-se de sentir a falta de uma míssâo vítal especíaL a
te, como muítas vezes acontcce - cito o psicanalista americano
falta de uma atívidade em que pudessem prestar um contributo
Burtonlã -, a um medo de castraçáo, tcntando-se resolver desta
único c insubstituíveL Andam à procura de uma “v0caçã0” e de
maneira exisrcncialmcntc as suas amargura5? Qucm me dcra a
valorcs pessoais que os sustcntem».
Na medida em que sc pode falar dc neurosc, temos que lidar
(l4) J. H. Crumbaugh c L. 'I'. Maholick, 7be Px rlwmetrirApprmzrb to Franklk Canctpl
hoje com um novo tipo de neurose, que em logoterapía classiñ- afNoogmic Neura:1'x, joumal of Clinical Psychology 20. 200. 19(›4.
( 1 S) Arthur Burwn. Dmtb ax a Comzterrmmfermm nyclmzzndlysis andtbr P›y(/marm/ytir
Reuiew 49, 3, 1962/63› 47
(13) Sígmund FrCULL Briefê (Cart0m) 1873-1939. Frankfurt am Main 1960.
¡,SK»O-¡~Em1›¡A E SENTIDO DA VIDA

castraçâo em vez de me
pclo medo da
mim estar prc
problema, a dúvída pungente sobre se
rocupado an gustiante ~
aHigir com o
a minha vida
um día, na hora
l l sentidol
da morte, virá a ter
se noogen1ca, nao se am-
A superação
arecimento da neuro
modiñcou-se também
onte da psicoterapla;
do psicologismo
pliou apenas o honz num posm
A co nsulta médica transformowse
a sua clícntela. da v1da, pafa tOdOS 05 que
os desespcrados
todos da
_d dPOaraSemido
de escuta . , '
Sua VIdEL Ja que «a hlumamdade '
oc1den -
duw am mas para oI médlco da alma», , como
'
al \ P_
' d o p astor de
tal cmlgrou especle de
a p51cotera1a uma
coube em sorte
d'IS se v. GcbsatteL

função dc lugar-tenente.
teria hojel razôes de quei-
E, no Cntant0, parece qulc nmgueml
da vida; poxs basta a argar um pouco
xa, por lhe faltar o sentido
nos regozijamos com
o horizonte para se notar que, na verdade,
vivem na escasscz. Sim, regozija_
o bem~estar, enquanto outros Qualquer psicoterapeuta sabc com quanta frequéncia sc lhe
onde ñca a responsablhdade pelos
mo-nos com a ll'berdade; mas apresenta, no decorrer de um tratamcnto médico-anímico, o
a humanidade lutou pela fe num
outros> Milhares de anos atra's, problema do sentído da vida. Entrctant0, 0 sabermos que a dú-
mas onde Hca o Sabcr de urna
Deus único: pelo monotcísmo; - vída de um doentc sobrc 0 scntido da sua vida, o seu descspcro
.
dC chamar momm-
humanidade única, um saber qUC CU gostaria quanto à cosmovisão respectiva, sc dcscnvolvcu psicologicamcn-
da humanldade, uma
zropismd O saber em torno da unidade te de um modo ou de outro, pouca scrventía tcm. Quer este-
da
unídade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor jamos em condiçócs de lhe dcmonstrar que os sentimentos dc
pele, quer as da cor dos partidos. inferioridadc são a origem anímica da sua carência cspírituaL
quer acredítemos poder «reduzir» a sua Concepção da vida pes-
simista, digamos, a urn complexo qualqucr, fazendo-o acreditar
nisso, - na realidade, apenas cstaremos cmretcndo o doente com
palavreado inútíL Com tudo ist0, não tocamos o cernc dos seus
problemas. Fazemos exatamcntc o mesmo que um médico que,
em vez de proceder psicoterap1'camente, se contentassc com me-
didas de tratamento físico ou prescriçóes medicamcntosas. Vem
a propósito aplicar-lhe 0 sábio ditado que diz: «Aíediaz mmte,
mm mediazmentíwl
48 O que aqui nos interessa é mostrar que estcs procedimentos 49
E SENTIDO DA VIDA
FPSICOTEWM

sígnificando por igual um


na mcsma linha,
médícos estáo todos palavreado se afígure,
para 0 doex1tc, ainda quc tal
upalavrcadm
a ímagem» de med ícina
c ciência.
ou noutro, «sob
num caso doentes, pala-
é nós termos, para os nossos
O quc importa na díscussão
quc ap rendamos a entrar
vra c resposta sólidas; adcquados, ísto é, com
preendcrmos a luta com meios
r
para em
nós necessita mos,
ou melhor, o quc
armas espirí tuais. O quc '
I . _

e uma crmca uma-


' '

o direíto de ex1g1r,
o homcm neurótico tem
nos argumentos ligados
nentc dc tudo o qu e tende a apresentar
a uma cosmovisão. Te mos quc arriscar, com argumentos con-
os seus argumentosz rcnuncían-
rráríos a luta honrada Contra
heterologa, que extral
7

do a uma argumentação Comodamente


a s-suas razões do reíno
do biológíco ou até, quem sabe, do
contrários signi-
rcíno do socíológico; porque tais argumentos
- em que um
Ecariam abandonar o plano - o plano espirltual
e arriscar e
problema foi colocado, em vez de permanecer nele
espi-
sustentar a luta espirítuaL a luta por um equacionamento
rítuaL Com armas espirituais. Até por uma questâo de decência
na nossa maneira de ver as coisas, deveríarnos bater-nos com
armas iguais.
É claro quc ocasionalmentc, em se tratando de casos em quc
os pacíenres, além de duvídarem do sentído da sua vida, se en-
contram já desesperados, correndo o pcrigo de se suicídarem,
torna~se aconselhável proceder a uma espécie de prestaçâo de
socorro ínícíaL
Nestes termos, a título de socorro sempre dá bom resultado
aquilo quc se podería caracterizar como academízação da pro-
blemáticac mal os pacíentes se apercebem de que o que os oprí-
me se insere no tema centraJ da ñlosoña da existência contem-
porânea, as suas necessídades anímicas tomam-se transparentes.
Coincídíndo com a necessídade espiritual da Human_idade, os
pacientes passam a toma'-las, nâo como uma neurose de quc te-
f

PbKÍUYERAPlA F SILN HDO DA VIDA A $Up¡.;¡\›,xg;\u DO rs1(;01.()(;ISM(›

mostra-sc agora incompctcnte pcrantc a autonomia da realídade bre um homcm nunca nos podcrá poupar c substituir a an.'\l'¡-
espirituaL sc ñlosóñca dc uma cosn1ovisão. no scntido dc cxaminar a sua
Contud0. csta incompctência nâo sc revcla só ao tcntar-se correçáo ou incorrcção. A saúdc .'1nímica nu dncnça do titular
uma psicotcrapia das cosmovisócs; podemos vê-la já na chama- dc uma cosmovisão não podc ncm dcmonstrar ncm rcpulsnr a
da «psícop;1tologizl da cosmovisão», pressuposta por toda aquela correção ou incorrcção espirítual dcsta cosmovísâoc pnrquc duas
psicoterapia. É quc, de fato, nào cxiste nenhuma psicopatologia wzar dois sâo quarrm mwmo qmmrio é um przmlüim a ¡_1h“rmzi-lo.
da cosmovisão. ncm podc existír. Com efcítm uma criaçâo espi- Os erros de cálculo rcvelam-sc vcrificando as comasx náo atra-
ritual cnquanto tal é psicologicamentc irredutích mesmo por- vés da atividadc psiquiátricaz nâo é da prcscnça duma paralisia
que o espiritual e o anímico são incomensuráveis. Quer dizerz que concluímos o erro de cálculo; pclo contrário, da vcrificação
nunm o conteúdo de uma imagcm cosmovidcnte é suscetívcl do crro de cálculo é quc deduzimos a paralisia. Dcsta mancira,
dc scr derivado, no seu tod0, a partir das raízes anímicas do também contínua a scr por princípio 1'rrclcvanu:. para a aprccia-
scu criador. Tanto mais que nunca estamos autorizados a c0n- çáo dos contcúdos espirituais, o sabcr-sc dc que modo cstcs sc
cluir, partindo do fato dc estar doente na sua visão o homem oríginaram animicamente ou sc sào o produto dc um proccsso
que produz determinada cosmov15'a'o, quc a sua cosmovísão anímico enfcrmiça
enquanto taJ seja falsa. Na rcalidada o conhccermos como sc Ora bcm. ÍÍoda esta digressão sc prcndc, cm última análisc,
originou psicologicamente o pessimismo ou 0 ceticismo ou 0 com a questão do psicologismo. Por psicologismo cnrcndc-sc
Fatalismo dc um neurótico, de pouco nos serve c cm nada ajuda aqucle proccsso pseudocienrííícn quc. pnrtindn da origcm nní-
o docntc. O quc tcmos que fazcr é rcfutar a sua Cosmovisão, - e mica dc um ato, tcma concluir a v.1'lidadc ou a invalidadc do
só então passarcmos a ocupar-nos com a «psicogc^nese» da sua scu contcúdo cspírithL É uma rcntativa quc cstá condcnada dc
«ídeologia», para a cntendcrmos na pcrspectiva da sua história antemão ao fracassa Objet1'vamcnre, com cfbítm as criaçócs cs~
.3_,. . :_. _
de vida pessoaL Não há, portanto, qualquer psicopatología ou pirítuais subtraen1-se a tal 1'ntcrprctaç.1"0 hcrcrólogm Nâo é lícito
mesmo psicoterapia da cosmovisâo; podc havcr, quando muito, ignorar jamais a lcgalidade própria dc todo o cspirítuaL inad~
uma psicopatologia ou psicoterapia do homem concrcto que vê missích por cxempl(). quc, só pcln circunstância dc o conccito
.-ÀW_.W.
_

o mundo, c cujo cérebro produziu a respectiva cosmovisão. Seja dc Dcus do homcm primitivo dcvcr a sua (›rigcm à angústia dclc
._
A.

como fon cxclui-se de antemáo a possibílidadc dc uma taJ psi- perantc a violência prcpotcnrc dn nnturczxL sc discura a cxís-
copatologia dccídir sobre a correçâo ou incorrcçáo duma cos- tôncia de um scr divino; ou quc. dado o Íato dc um artism ter
movisâo (c.f Allers). Nem de modo algum essa psícopatologia Críado uma obra numa sítuação anímíca cnfcrmiçu - digamOS,
podería pronunciar-se a respeito dc um determinado Hlósofm as numa fasc da vída psícótica ~, sc conclua logo pclo valor ou não
suas assertívas só valem, dc antemão e ñmdamcmalmcmq para valor dcssa criaça'o. Embom uma vcz ou omra. ocaLsionalmcntc,
a pessoa do ñlósofo em questãa As categorias «sã0» c «clocn~ uma obra espiritual ou manifcstação Cultural originariamcnte
te», por crla aferidas, só são aplícáveis, caso por caso. ao homem: pura possa pôr-sc a scrviço dc motivos ou intcrcsscs ¡1lhciosàsu.1'
nunca, porém, à sua obra. Uma assertiva psícopatológica so- natureza, ~ náo é só por isso quc já sc póc cm qucstáo 0 valor
E SENTIDO DA VIDA A SUPERAQÁO DO I'SICOLOGISMO

íPSKDTLRMWA
ínterna e o larídade de cada perspectiva, o caráter de rccorte quc todas as
quadro l Esquecer a validade
espiritu al.
do rcspcctivo vivência religiosa, em ímagens do mundo têm, é claro quc pressupõe a objetividadc do
origínário da criaçâo ams tica ou da
valor seria ir demasia- mundo. Assim, também 0 fato de cxistir uma fonte dc crros c
da sua cvcntual aplícação a ñns neuróticos,
vista a alguém que, condicionalidades na observaçáo astronômica, como sc podc ver
pensasse as semelhar-se-ia
do longe. Quem assim «Mas eu pensava na conhecida «equaçâ0 pessoal» dos .15'tro^nomos, náo autoriza
cxclamassc, m aravilhadoz
30 VC r uma cegonha, pelo
nenh'u.ma cegonha!» Será que, nínguém a duvidar de que Sírio, por cxemplo, cxisre realmcn-
que realmente nâo existia I na co- te, índependentementc dessas subjetividades. Por conseguinte,
ser utlllzada secundariamente
fato de a ñgura da cegonha pelo menos por razóes heurísticas, teremos que adotar o crité-
será que so por isso já não existe
nhccida história da carochinha, rio segundo o qual a psicoterapía, enquanto tal, náo é compe-
essa ave na real1'dade? tente em todos os problcmas relativos à Cosmovisá0, poís já a
negar, com tudo ísto, que as
Naturalmente, nâo queremos psícopatologia, com as suas categorias de «são» e «doentc», tem
CStâO condICIOnadas p51co-
imagens cspirituai s dc algum modo
e sociologícamente; estão, que renunciar ao problema do conteúdo de vcrdade e da valida-
logl'camentc, e mai s ainda biológica
não neste sentido «produzi- de de uma imagem espirituaL Consentisse a mcra psicoterapia
neste sentido, «c0ndi cionadas», mas
ao fato de que todas estas con- em ajuizar do que quer que fosse a este respeito, e incorreria no
das». Walcler referiu-se com raúo
culturais mesmo instante no erro do psicologismo.
dicionalidades das imagens espirituais e manifestaçóes t
«Fonte de erros» donde Assim como na história da ñlosoña o psicologismo fbi venci-
foram representando pouco a pouco a
14

cxageros, mas sem E do, assim também agora tem que ser vencido no scio da psicote-
sem dúvida brotam doutrinarismos parciais e
permítir jamais a explicaçâo positiva do contcúdo
essenciaL da íz rapia, graças àquilo que nos compraz chamar logoterapia. A csta
des- logoterapia caberia precisamente a missâo que nós atribuímos à
atividade espirituaL (Qualquer tentativa de «explicação»
com o «psicoterapia a partir do espírito»: a missão de completar a psico-
te gênero confunde 0 campo de expressão duma pessoa
terapia no mais estrito sentido da palavra e de prcencher aquela
campo de representação duma coisa).
lacuna que começamos por tentar dcduzir teoreticamente, para
Alias', quanto à conñguração da imagem pcssoal do mundo,
depois a verificarmos em contato com a prática médico-anímica.
já Scheller observou que as diferenças caracterológicas - toda a
Só a logotcrapia está metodologicamente lcgitimada para, rcnun-
individualidade de um homem - só atuam sobre a sua imagem
do mundo na exata mcdida em que inHuenciam a escolha dcs- ciando à tentação psicologística de resvalar em crítica 1'nadequa-
ta última, nào entrando, contudo, no seu conteúdo. Daí quc da, íntroduzir-se num debate objctivo da necessídadc espiritual
Scheller denomine estcs clementos conclicionantes «eletivos» e do homem animicamente perturbado (obs. 4).
não «constiCutivos». Sào elementos que apenas permítem enten- Naturalmcnte, uma logoterapia podc e deve, não substituir
der por que razão o homcm em questáo tem prccisamcnte esta a psícotcrapia, mas sim completá-la, - e, mesmo isto, só em
sua maneira pessoal de contemplar o mundo; mas jamais podem determinados casos. Defam isto, que é o que ela pretende, é o

“eXP_1¡C3r” 0 que é que, nesta vísão úníca, quando não também que vem acomecendo há muito tempo e cada vez majsz a maío-
54 parc1al. se oferece da plenitude do mundo. AñnaL a particu- ria das vezes inconscíentemente; algumas vczes, mas menos, 55
*_1

_
E SENTIDO DA VIDA

›-.-›~m
rmcmemm
quc
a pena inquirir se e em
c. No entanto, vale
conscicntemcnt a tal escla-
pia se dá de z'ure. Para chegarmos
mcdida a logotcra
rccimento, devem os separar, num exam
e metodologicamente
as, O componen-
O reducionísmo genético
a vez por razões heurístic
oricntado, mais um
do com ponente psicotcrápico.
Entretanto, não e o pandeterminísmo analítico
te logoterápico se in-
de que ambos os componentes
nos csqucçamos nunca de que, por
vivamcnte na prática médíc0-anímica;
terpcnetmm da unidadc da ação
um no outro dentro
assim dizcr, se fundem os objetos da
Além do mais, é patcnte quc também
médica.
isto c,v o anímico e o espiritual do
psicoterapia e da logotcrapia,
zIÍ ,

hCurÍStÍCO se separam um do outro,


homem, só num sentido
da existéncia humana em sua totalidade,
pois na uni dade rcal
entrelaçam~se rnum liame indíssolúveL
a distinguir o CS-
Em princípio, irnpóe~se portanto continuar
duas esferas cssencial-
pirítual do anímico; ambos reprcsentam
psicologismo cifra-se precisamente
mente dist1'ntas“1 O erro do H0)e.v1vemos numa época dc espec1'alístas, e o que eles nos
de uma esfera para a 0utra.
em andar mudando arbitrariamente proiporcmnam são simples perspectivas partículares e aspectos da
nos casos concretos, as leis
Assim, náo toma em consideraçâo, reahdada Dfieonte de árvores dos resulmdos da pesquisa o e '
tem que conduzir natural-
próprias do espiritua l, e este descuido saidorjzí náo Uê 0 bosque da realídada Mas os rcsultadoys dpasqeusl:
eis Líllo génos. EvitáJo no
mente à consumação de uma metábasís qulsha não são apcnas particulares; sáo também dispcrsos ur inpdo
venccr o psicologismo
campo da ação psicoterapêutica e, assim, fun.dl-los numa imagem una do mundo e do homem Oy cegrto '
e a incumbência da
no scio da psicoterap1'a, - eis o propósito qu-e Já nâo se pode desandar o quc se and0u. Numa é. oca 'e
logoterapía que nós postulamos. esulo de pesquisa se caracteriza pelo trabdho em equip,eP é atceunJ-O
te qu'e nã_o podemos passar sem os especialistas. Seja compo for
o perzgo mzlo estzí em ospesquimdom se esperíalizarem, mas sim em,
dque 05 eslpeczallismx gmeralizem Todos nós conhecemos os chama-
agoosraterrazblels szmpljíimteurx Mas, ao iseu lad0, podem-se colocar
Ique es que me apraz denommar terribles génémliszzteurs
Os rerrzbles simpljíimteurs simpliñcam tudo; medem tudo elai
mesma bitola. Os terríbles ge'rzéralz'szzteurs, porém, nâo se contPen-
' ' m '
' Logotbepte
m tam com a sua bitolaz generalizam os resultados da sua pcsquísa
(16) CE V. E. FrankL 7btaríe und 77mn 'ed ssfr Neuroxm Ezrfzubrung
56 Pág 161p¡e Como neurólogo, convenho em que é absolutamcnte legítimol
und B"'-'tf'lzll7ldylse, Viena 1956, 57
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA 0 REDUCIONlSMO GENÉTICO E o PANDETERMINISMO ANAI 1 I'l(,'()

considerar o romputer como um modelo, digamos, para o sis- corresponde o niilismo vivido. já que como tal sc podc intcrprc-
tema nervoso centraL O crro está apenas na asserção segundo a tar o vácuo cxistenciaL Efet1'vamentc, com o vácuo cxistcncial
qual o homem nâo é mzda mais quc um computer, pois é ao mes- colabora o rcducionismo, dada a sua tcndéncia pnra manuscar
mo tempo inñnitamentc mais do quc um computen O m'ilzs'mo, o homem. rcíñcando-o, Coísifícando-o c dcspcrsonalimndo-o.
nâo é que zire a mas'cara falando do nada; o quefaz é mascarame 'Ie'm visos de ouerstatement, nâo o único ccrtamcnte, a cxpli-
rom a locuçáo «naa'a mais que». caçáo do jovcm sociólogo amcricano William Irving Thompsom
Sob a influência da psicanálísc, foi alastrando na psicotcra- «Humans are not objects that exist as chairs or tablcs; thcy livc,
pia a tendêncía para «pcrsoniñcar instâncias» intrapsíquicas. Na and if they ñnd that their lives are redured to thc mcrc cxístcncc
cstcira desta tendência, cstigmatizada por Boss, adquiriu foros of chairs and tables, they commit suicidc» (Main Currmn in
dc cidadania a propcnsão para farejar em toda a partc truques Modern Ybougbt I9, 1962). E, dadas certu circunstâncias, fa-
c artimanhas, a ñm de em scguida os desmascarar e pôr a claro. zem-no realmentcz uma vez, enquanto dava uma confcréncia na
O fato dc estc fízror analisandi como lhe chama Ramon Sarro Universidade de Ann Arbor (Michigan), disscrtando sobre 0 vá-
(Quinto Congresso Intcrnacional de Psicotcrapia, Viena 1961), cuo cxistcnciaL 0 Dam ofStudent5, o asscssor dos estudantes, en-
não se deter perante o sentido e os valores, ameaça e faz pcricli- trou na discussão para ahñrmar quc 0 vácuo existcncial cra 0 quc
tar a psicoterapia nas suas raízes. Os amerícanos falam, a este lhe aparecia diariamcntc no consultório, c quc cstava prcparado
respeito, num reductíonísm O reductíonixm podcria eu deñni-lo para me rcunir toda uma lista dc cstudantes quc, prccisamcnte
como um proccsso pseudocientíñco mediante 0 qual os fenôme- em virtude das suas dúvidas sobre o sentido da vida, acabaram
nos espcciñcamente humanos são rcduzídos a fenômenos sub- por desesperar, tendo tcntado o suícídio.
-humanos ou destes se deduzem. Quer dizer, por Conseguínte, Os autorcs americanos foram os primeiros a adotar uma po-
que, cm termos gerais, o reducionismo se poderia definir como siçâo de autocrítica, fíxando a sua atenção no dito reducionis-
um memmzmísma Por trás do amor não haveria, pois, senão os mo: os primeiros que, atendo-sc ao postulado de rcconhcccr o
chamados impulsos inibidos; c a conscíência não seria mais do verdadeiro tal qual é - admitindo-o, como clcs dizcm, «at facc
que o supcr-cgo (Úber-Ícb) (a psicanálíse realmente modcma já value» -, ñzcram coro com a investigação fenomcnológica euro-
há muito quc não continua a sustentar como Correta a ídcntíñ- pcia. Isto não aconteceu scm que, cm todo caso, rcconhecesscm
cação da conscíência com o super-Ego, admitíndo e propondo, o contributo de Sigmund Freud; simplcsmentc, viram nclc um
pelo contra'rio, a difcrença entre uma c outro). Numa palavra, especíalista em motivos que prccisamemc não podiam rcconhc-
fenômenos especiñcamente humanos, como consciência e amor, ccr como verdadeiros. Assim, Gordon W. Allport. o psicólogo
transformam-se em meros epifenômenos. Como se o espírito maís representativo da Universidadc de Harvard. deñnc Freud
fosse apenas a maís alta atividade nervosa, conforme a designa- Como «a specialist in preciscly those motives that cannot bc
ção de um bem conhecído trabalho de um invéstigador famosoz taken at their face value» (Personaliz§y rznd Social Encoumen Bca-
uma cspécie de epfze'n0meno/ogia do espz'rz'to... con Press, Boston 1960, pág. 103). A título dc excmplo, toma
Ao niilismo cientíñco Allport a posição de Freud a respeito da rcligiàoz «To him religion
Lãfê tal como 0 exprime o reducionísmo,

k
PSICUIERAPIA E SENHDO DA VIDA
\::) REDULIlONlSMO (]L'*Nl-;"I'l(."0 E 0 PANDHITxRMlNISMO ANMÍYKÍU

is esscntially a neurosis in thc individuaL a formula for perso_ pensa no problcma dc sabcr sc a ncurosc não scrá antcs a consc-
nal cscapc. Thc father image lies at the root of the matten One quência dc sc tcr posto cm prática uma mosofm crrôncal
cannot thercforc take the religíous scnt1'ment, whcn it exists in a Mas o rcducionismo ncm scqucr tcm rawáo quando sc \1'm\'ta
personality, at its face value» (1. c., pág. 104). a uma interprctaçào gcnética e analítica, nâo já dos cmprccndi-
Allport tem bastante razão ao añrmar ao mesmo tempo que mcntos humanos, mas até das perturbaçócs dcstcs cmptcn-
um proccsso interprctativo deste tipo é realmente antiquadoz «In dimcntos; por cxemplo, dignmos. quando rcdux a pcrda dc fé dc
a communication to the American Psychoanalytic Association, um homcm à sua cducação c ambicntc. Assim, añrma-sc quasc
Kris points out that the attempt to restrict interpretations of mo- semprc, em tcrmos gerais, quc é à inHuência da imago do pai
tivation to the id aspect only “represcnts the older procedure”. que, no caso concrct0, se dcvc atribuir a dcformação da imagcm
Modcrn concem with the ego does not conñne itself to an analy- dc Dcus, bcm como a rencgação de Deus.
sis of defensc mechanisms alone. Rathcr, it givcs more respect to A estc propósito, pcrmito-me aduzir alguns dados. Os mcus
what he calls the “psychic surface”» (1. c., pág. 1Á03). colaboradores deram-se ao trabalho de acompanhar uma séric
A questão é que, na problemática aqui abordada não há ape- de casos, tirados à sorte cntre os quc se aprcscntaram no cspaço
nas um aspecto material a considerar; há também um aspecto de 24 horas, para obscrvarcm nclcs as corrclaçôcs que dcixavam
humano. Cumprc pcrgumarmo-nos, portanto, para ondc ire- entrevcr entre a imago do pai e a vida rcligiosa. No dccurso da
mos, se no âmbito da psicoterapia deixam de scr considerados sua pesquisa estatística, pôs-sc a claro que 23 pcssoas possuíam
como verdadciros o scmido e os valores, em função dos quais uma imago do pai dotada dc traços absolutamcnte posin'vos, ao
víve o pacicntcz o próprio pacicme já nâo é tomado a sério como passo que 13 não sabiam declarar nada de favoráveL E, coisa
homem Podemos exprimir cstc estado de coisas recorrendo à digna de notaz das 23 quc haviam crcscido sob uma boa estrcla
fórmula seguintcz já se não acredita na sua fé. Ou então, para pedagógica, só 16 sc encontraram mais tarde cm boas rclaçócs
falarmos outra vcz com as palavras de Allportz «The individual com Deus, tendo abandonado a fé as 7 rcstantcs; por outro lado,
loses his right to be belicvcd» (1. c., pág. 96). difícil imaginar dentrc as 13 quc haviam sido criadas sob os auspícios dc uma
como é que, em tais circunstâncias, ainda se pode construir uma imago do pai negativa, apenas havia 2 quc se podcriam qualiñcar
conduta conñada. como irreligíosas, enquamo nada mcnos do que 11 tinham sido
A ñarmomos no tcstemunho de Ludwig Binswanger, Freud lcvadas a uma vida crente. Portamo, as 27 quc sc mantêm reh'-
considerava a ñlosoña como «nada mais» que «uma sexualida- giosas mais tardc nâo sc rccrutam .1'pcnas, dc modo algum, cntre
de rcprimida pclas formas mais deccntcs da sublimação» (Erin- o círculo daquclas pcssoas quc crcsceram num mcio favorávcl
e aquelas 9 que sc tomaram irreligiosas também não pudcrar
nerungen an Sigmund Freud, Berna 1956, pág. 19). Quanto nào
deve parecer suspeita a um epígono psicanalítico a cosmovisáo atribuir a sua irrcligiosidadc cxclusivamcnte a uma imago do p '

privada e pcssoal de um pacicme neurótic0.| Dcntro desmóticm negativa. Mcsmo quc, nos casos cm quc sc aprcscmou uma ccz
nâo é de csperar da ñlosoña nada mais do quc a teorização ou relaçâo emre a imago do pai c a imagcm de Dcus, pudéssenn
60 até a teologicizaçáo de uma neurosc disfarçada. E nem scquer se entrever um rcsultado da cducnçâ0, teríamos que admitir u,-
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA 0 RIÉDUCIONISMO
GENÉTICO E O PANDETERMINISMO ANALÍTICO

de
que a imago do paí e a imagem aPcnas CSpecialism cm duas ma_
Capaz de discernímento acomeccl Porérm quc não Sou
O homcm
d térias, sou também sobrcvivcnte dc quatro campos dc Conccn_
náo são congruentcs. resistência a determi-
rüzus em condlçocs e opor
d
SCÍ Pcrfeitamcnre até ondc vai a liber-
cstá prccisamentc l
- não a menos traçâo' e Por isso mmbém
conduta. E uma as missócs é CaPaz dc se clcvar acíma dc toda a sua
nativos falsos da sua este ser-11vre. peramc
. dade do hommm que resistir
al" -da sicoterapl'a é evocar
1'mportante, COHdÍCÍOHalÍdadC e de às mais rigorosas e duras condíçócs
mJuríada dcno_
las tpe todo-poderosas. A ñlosoña, e circunstâncias, escorando-se naquela Força que Cosmmo
as condiçóes falsamen reprimída»
blimação da scxualidade minar o poder de resistência do espírito.
como «nada mais» que «su o cam.inho para
ao pacx'e,nte
(veja-se acíma), é que pode mostrar
E nâo fanamos mals do que
uma dilucidaçâo desta liberdad6.
Sc nos propuséssemos aplicar a ñ-
scguir u m Conselho dc Kant,
Condenar isto a Íímine é inadmís-
losofía como uma rncdicina!
é perfeitamente val'ido
síveL Lembremos, dc resto, que também
da medxcma.
aplicar a química, por excmplo, no âmbito
nada
Contra um sadio determinismo, é claro que não haveria
é aquilo que eu
a dizer; mas o quc nós temos que contraminar
o
tentei deñnir como «pandetermínismo»17. Evídentemente,
homcm está determinado, ísto é, sujeito a Condiçóes, quer se
trate de condíçóes biológicas e psicológicas, quer de condíçóes
sociolo'gicas; e, ncste semído, de modo algum é livrez o homem
não está livre de condiçóes e, em geraL não está livre de algo,
mas Iívre para algo, quer dizer, livre para uma tomada deposiçáo
perante todas as condiçóes; c é precisamente esta possibilidadc
propriamente humana que 0 pandeterminismo de todo em todo
esquece e desconhece.
Não preciso de que ninguém me Chame a atenção para a con-
dicíonalidade do homemz - añnal de contas, cu sou especialista
em duas matérias, neurologia e psiquiatria, e nessa qualidade
sei muito bem da condicionalidade biopsicológíca do homem;

(l7) lDe braço dado com o pandcterminisn10, portanto com um detcrminismo


exorbftanta andam, cm geraL cerro subjedvismo e ccrto relatívísmo
não menos
CxÀorblrlantes. O prímeiro traduz-se especíalmente nas tcorias da motivação,
c tanto
LÓZ
assxm e que segue a oríentação da homeo'stase, em termos unilatcrais
e cxclusivistas.
63
Imago hominis

Para salvar o humano, cm vista das aspiraçócs rcducionistas


a uma ciência plurall'st.1', náo pouparam esfo.rços, entrc outros,
Nicolai Hartmann, com a sua ontologia, c Max Schelcr, com a
sua antropologia. Distinguiram estcs autores divcrsos graus ou
camadu como o corporaL o anímico c o espirituaL Corresponde
a cada qual uma ciênciaz ao corporaL a biolog1'a; ao anímíco. a
psicologia, etc. Assim, à divcrsidade dos graus ou camadas cor-
responde precisamentc 0 pluralismo das cíências. Mas é dc pcr-
guntar2 onde fica a unidadc do homcm? Quc ó quc ñzcram do
ser-homem, que o destroçaram, pondo-o como uma ccrâmica
dc cacos e rachaduras, de «ñssuras qualitativas» (Hcgcl)? Como
é sabido, deñniu-se a arte como unidadc na plur;llídadc. Pois cu
gostaria de dcñnir agora o homcm como unidadc apesar da plu-
ralidadez porque há uma unidade antropológica apcsar das dife-
renças ontolo'gícas, apcsar das dífcrenças cntrc as cspécics dc scr
difercnçávcis. O sínctc da cxisténc1'.1' humana é a cocxistência da
unidade antropológica com as difcrcnçm~ 0ntológicas. dos modos
de ser humanos unos com as cspécies dc scr difcrcnçávcis, cm ()5
7

DA VlDA
PSICOTERAPIA E SENTIDO quo HuMINIs

humana é «unitas
a cxistência
aqu ma afm Em Suma ' .
Esta
.
umda-
que Cla to P Palavras do Aqumate.
multiplcxm dequadamentc, nem o pluralismo
de, porém, na «Benedicti de
como o qu e encontramos . . l
ncm um monismo . Não obstante,
demomtmta'. seja-
' ome
rd ' ge omemfo
SPI' nozxz ttbzaz bomzms uordlne
0 csboçar em seguida uma zmago
mc pcrmitid
de monstrata», T imagcm do homem que opera
uma
gcométrico rata-se de uma ontologm dimensio-
com analogias geométr1cas.
Psychologie und Pvcbotmeie
nal (ank1, jabrzmb fir duas 1› 186›
lcis. A primeira destas lcis repre_ Como sc vê pclo quadro acima, tomamos agora várias coisas,
1953) caractcrmda por
SC SCgUCZ em lugar de uma só. Projctamo-las, náo em várias, mas numa
l SCHt3-SC como
mcsma e única dimensão, que é também infêrior àqucla quc lhcs
é própria. O resultado obtido aprcscnta-se de tal modo quc as
ñguras rcspect1'vas, em vez dc se oporem claramcntc, são suscctí-
vcis dc vários scntidos. No exemplo acima, tomamos um cilin-
dr0, um cone c uma esfera, num cspaço tridimcnsionaL c projc-
tamo~los no plano horizontaL resultando, como sc vc^, cm
qualquer dos três casos, um círculo. Convcnhamos cm quc se
Jéo trata das sombras que o cilindro, o conc c a csfcra projetam; c,
realmente, as sombras são suscctíveis dc vários scntidos (equívo-
Se tomamos uma e a mesma coisa numa dada dimensão c a cas), pois eu nâo posso conclu1'r, partindo das três sombras cer-
projetamos cm várias dimensóes inferiores àquela quc lhc é pró- tamente iguais, se 0 que as projeta é um cilindro. um cone ou
pria, a coisa em questão rcpresenta-se de tal modo que as ñguras uma esfera.
obtidas se opócm umas as\ outras. Tomemos por exemplo, um Como aplicar ao homem tudo ist0? É quc mmbém 0 ho-
copo, representado gcometricamente sob a forma de cilindro, mem, tomado na dimensão do especiñcamentc humano c pro-
cm um espaço tridimensional. Projetcmo-lo em seguida nos pla- jetado nos planos da biologia e da psícolog1'a, sc rcprcsenta de
nos horizontal e longitudinah c teremosz num caso, um círculo; tal modo que as ngras obtidas sc opóem umas às outra. Com
no outro, um retângulo. Observe~sc, entretanto, que as ngras efeito, a projeção no plano biológico tcm por rcsultado fenô-
obtidas só sc opôcm cnquanto se trata de um quadro fechad0, menos somáticos, ao passo que a projeção no plano psicológico
ao passo quc o copo é um recimo aberto. tem por resultado fenômenos psíquicos. Mas, à luz da ontologia
A segunda das leis mencionadas exprime-se no quadro se- dimensionaL a oposição não sc faz à unidadc do homcmz faz-se
66 guintcz Ião pouco como a oposição entre 0 círculo c o retângulo se faz à
pSKÍOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA
lMAGO HOMINIS

um mesmo e único sc lhe importassc a conscrvação ou 0 rcstabclccimcnlo da ho-


sao, as projeções de
rcalidadc, scndo, como
não percamos dc v15ta uma consaz a umdadc meosma O monadologismo ignora quc, como demonstmram
cilíndro. Contudo,
que líga a pluralldade das espec1es Von BcrtalanEy, Goldstcim Allport c Charlortc Bühlcr. o prin-
dos modos dc scr humanos,
ela sc refcrc portanto, a llgação dos Cípio da homeostase náo vale gcralmcntc na biolog¡'a, c muito
dc scr dífcrcnçávcís a que
3 c a Pjyfbf, a coincídmtia opposítorum no IIIenos
na psicologia. Mas, à luz da ontologia dimcnsionaL o ca-
opostos como o som
ano, debaldc a procuraremos nos planos ráter fcchado do sistema de rcHexos ñsiológicos c dc rcaçõcs psi-
scntido dc Nícolau Cus
mcm. Encontrá-la-cmos antes e unica- Cológicas náo está em contradição ncnhuma com a humanidadc
cm que projctamos o ho
mente na dimensão imediat
amcnte mais clcvada, na dimensão do homcm. Podc-se dízcr que ml contradição cstá tãO longc de
do especiñcamentc humano. se vcriñcar como a que sc imaginassc existir cntrc o carátcr Íc-
c 0
resolver o problema psi- chado do cilindro do plano longitudinal ou do horizontal
Não é q uc deste modo pretendamos
omologia dimensional projete sobre caráter aberto que tem dc per si.
cofísica Mas podc ser que a
por que é quc é insolúveL Parece-nos agora igualmemc claro quc os rcsulmdos obtidos
0 problema ccrta luz, mos_trand0-nos
problcma do livre-arbítrio. Com
Coisa anal'oga se passa com o nas dimensóes infcriorcs continuam a tcr a mcsma validadc quc
homem exatamcnte 0 mesmo quc no
efeíto, sucede no caso do dantes, dcntro dcssas dimenso'cs; e isto nplicmsc na mcsma mc-
caso do recinto aberto, ao ser projetado nos planos longitudínal dida a orientaçócs de pcsquísa táo unihtcrnis como a rcHexo-
e horizontal dc um quadro fechado. O homcm é representado logia de Pawlow, o bchaviorismo dc \X/atson, a psicanálise dc
no plano biológico como um sistema fechado de rcHexos BSio- Freud e a psicologia individual dc Adlcr. Frcud crn suñcicntc-
lógicos, e no plano psicológíco como um sístema fcchado de
mente genial para sabcr da cstrcitcza dimensional da sua teoria.
reaçóes psicológícas. Mais uma ch, portant0, a projcçâo tem
Alias', são dele estas palavras quc escrcveu a Ludwig Binswangen
por rcsultado uma oposiçâo. Mas, porque pertencc à cssência do
«Sempre me detivc no rés do chào c na cripta do cdifício».
homem 0 ser ele, em todo caso, aberto, 0 ser «abert0 ao mundo»
tentativa do rcducionismo na forma dc psicologismo - cu dirin
(Schelcr, Gehlen e Portmann), - ser homem sígniñca, já de si, ser
mesmo de patologismo - Frcud só ccdcu nu momcnm cm quc
para além de si mcsmo. A cssência da exístência humana, díria
chegou à scguinte conclusâoz «Pam a rcligiãu já cncontrci um
eu, radica na sua autotransccndênc1'a. Ser homem significa, dc cômodo na minha modcsta casinh.1', dcsdc quc tropccci com a
per si c sempre, dírigir~se e ordcnar~se a algo ou a alguém: entre-
catcgoria dc “ncurosc da humanidadc”» (l.c.). Aqui é quc Frcud
gar-se o homem a uma obra a que se dedica, a um homem quc SC cnganou.
ama, ou a Dcus, a quem serve. Esta autotranscendência qucbra
os quadros de todas as imagens do homcm que, no sentido de Mas a sua exprcssão «m0dcsta'” casinha» é uma exprcssão
algum monadologismo (Frankl, Der Nervenarzt 31, 385, 1960), programática, um lema. Seja como for, cumprc csclarccer quc.
rcpresentem o homem como um ser que não atingc o sentido
e os valores, para além de si mesmo, oríentando-se, assím, para (18) A palavm m'ea'rig. quc ñgura nn frasc dc Frcud cimda pclo Auton c quc ncm
frasc traduzimos por «madexta». é a mcsma quc. linhas abaixm aparccc tmduzida por
o mundo, intercssando-sc exclusivamentc por si mesmo, como
mós
inferian (N. T.)
lS
DA VIDA IMAGO HOMIN
PSICOTERAPIA E SENTIDO

pre- gatória. O Cientista tem que continuar a Hngir quc opcra com
fala de dimensócs inferiores ou supcrlores, naol se
quando s e .
. 1mpllc1tamen- uma realidade unidímensionaL Mas tem quc saber também o
nem se mc nciona ainda
judica uma hicrarquia 0 que está fazendm e isto sígnifica quc tcm dc sc apcrccbcr das
No sentido da ontologla dlmcnsmnaL
tC um JulZO dc valor se fontes de crro que a invcstígação perlustra.
falar de uma dimensão superíor, é que
quc se quer dizer, ao Assim chegaríamos ao ponto cm quc se aplica ao homcm a
mais compreemzm, que mclu1 e
cstá lidando com uma dimensâo chunda leí da ontologia dimensionalz sc cu, cm vez de projctar
A dimensão inferíor c portanto
abarca uma di mensão infcrior. ñguras tridimensionais num plano dc duas dimcnso'cs, projcto
cxatamente no sentído plúri-
«clevada»” à dimensão super10r, l figuras como Fiodor Dostoievskí ou Bemardcttc Soubirous no
. E é assim que o homcm,
mo que Hegel confere a estc termo plano psíquiátrico, para mim, enquanto psiquiatra, Dostoievski
a ser de algum modo ammal
uma vez tomado homcm, continua não passa de um epilético como qualqucr outro c Bcrnardettc
do qluc ocorre no caso do
'e planta. Isto em nada se dlstmguc não é senão uma histérica com alucinaçóes Visionárias. 0 que
não perde a capacndade de se
avião, que, em qualqucr hipo'tcsc, sáo para além disso não se reHete no plano psiquiátrico. Com
Ev1'dentemente, só pro-
deslocar no chão, como um automóch
no espaço. Embora efeito, tanto a criação artística de um como a entrcvista religiosa
va 0 seu scr de avião quando decola c sc eleva
comprovar logo desde o da outra ficam fora do plano psiquiátrico. Mas dentro do plano
scja indiscutível quc um técníco pode psiquiátríco tudo pcrmanece equívoco cnquanto não transpare-
antes de ter voa-
momento em quc o fabrica, se o avíâo, mesmo
aludir a cer cssc algo que possa estar por tras' ou acima do plano mencio-
do efetivamcnte, é capaz de fazê-lo. Com isto queria
até nado; e isto, à semelhança do quc acontecia com a sombra, que
Portmann, que pôde veriñcar que a humanidade do homem
cra cquívoca enquanto cu não podia assegurar se se tratava do
na anatomia se pode rastrear. Com efeito, 0 próprio Corpo do
cilindro, do Cubo ou da esfera.
homem está já marcado pelo scu espírito.
Toda patologia precísa da diagnosc, de uma diagnose, dc
A ciência, porém, não só tem o direito, mas inclusive o de- um olhar através de, o olhar para o logos quc cstá por detras' do
ver de pôr entre parênteses a multídimensionalidade da reali- pathos, para 0 sentido que a afccção tcm. Toda sintomatologia
dade, de Fechar o diafragma da objetiva com que contempla a precisa ainda da d1'agnose, do olhar para uma etiologia; e. prcci-
realidade, de ñltrar uma determinada frequência do espectro samente na medida em que a etiologia é multidimensionaL é a
da realidade. A projeção é, portant0, mais que legítima: é obri- sintomatologia equívoca.

(l9) O termo aJcmão quc traduzimos por «clcvadan é aufgehobem particípio dO VCrbO
aufbtbem quc signiñca. por exemplo, lcvamar uma coísa do cháo para pÔ-la mais acima,
mas cngloba ainda 0 sentido dc riran eliminar (tal/ere, em larim), Para compreender
bcm o Autor ímporta lcmbmr o papel do termo na linguagem de HegeL Este. como
se sabc. toma o conccito (um'umal concreto) como unidade xuperior na qual a tese e
fzmítfse são comervadm e xupemdaL scm se excluírem: o processo da realidada
quc SC
ldcnnñca com o do pensmcntm evolve ncsses três momentos - tesc, antítese, sínrcse.
HA passagem_ dos dms primeiros momcntos,
contraposros, para a síntCSC, CXPFÍmÔa
rúm
egcl precxsamente com a palavra
atfhleben. (N.T.)

à
A psicogênese
do psicologismo
~«,

Ao concluir este capítulo. náo deixarcmos dc voltar o psi-


ícologismo contra si mesmo, usando-0 como arma contra clc.
batendo-o com as suas próprias armas. Basta. para mnto. volmr
o feitíço contra o feiticeíro, digamos assim. c, cm ccrto scntido.
aplicar 0 psicologismo a si mesmo, cxaminand(›-o na pcrspccti-
va da sua própria p51'cogênesc, isto c', a partir dos motivos que
porventura cstcjam na sua base. Pcrguntemo-nos poisz qual é
a sua posíção oculta fundamentaL a sua tcndência sccrcta? E
logo rcsponderemosz é uma tcndência dcsvalori7.ador.'1. manti-
da, aliás, cm relação aos contcúdos csçpiriuhqisy cvcntu;1|n1cntc
discutidos, dos aros anímícos quc o próprío psícologismo quali-
Hca dc consumados. Partindo dcsta tcndência dcsvnlorizadora, 0
psicologismo póc-sc C()nu'nu.1'muw:a dcsn1.1'scar;1r: nuncn pcrdc
a energia disposta a arrancar os disfarccs: anda consmntcmcmc à
procura das motivaçócs impr0'pr¡a$. isto á, ncurótic.1's. Sc sc lhc
apresenta qualquer problcma sobrc a validadc - por cxcmplo,
no âmbíto religioso ou aru'stíco, mas também no cicmíñco -. o
psicologísmo declina-o dc si,f24gina'o da esferd dos contzzídos pzmz 73
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VI DA A PSICOGÊNESE DO PSlCOLOGISMO

11 cfxtra dos atos. Assim, em última análise, o psicologismo está problema da vaJidadc no âmbito cicntíñco e no rclativo à con-
cm Fuga diantc da poderosa riqueza dos dados do conhecimento cepção do mundo.
e das tarcfas decisivas; cm fuga, portanto, perantc as realídades c O psicologismo pode-sc cntender, portamo, como meio dc
as possibílidades da existência. uma tendência desvalorizadora. Assim, qualqucr oricntaçâo dc
Só vé mas'caras por toda a partc; c por tras' delas, pretendc pesquisa dominada por ele deixa de ser expressão da entrcga
nada mais havcr que motivos ncurótícos. Tudo lhe parece inau- cognoscitiva a uma coisa. Mas o psicologismo, na nossa opinião.
têntico, postiço. Quer-nos fazer crer quc a artc, «em última ana'- é ainda a manifestação parciaJ de um fenômeno mais amplo. O
lisc, nâo seria nada mais que» fuga da vída e do amor; que a ñnal do século XIX e o comcço do século XX dcformaram com-
rcligiâo não passaria de mcdo do homem primitivo as\ forças pletamcnte a imagem do homcm. vcndo-o prcdominantementc
cósmicas. E os grandcs criadores do cspírito, logo os dcspacha no seu várío estado de sujeiçãoz quer dizcr. na sua hipotética
como ncurótícos c psicopatas. Na cstcira de um «desmascara- impotência em face dos líames quc o atam; assím. 0 biológíco,
mento» deste jaez, mediame cste psicologismo «arrancador de o psicológico, o sociológico. E a liberdade verdadeíramentc hu-
disfarces», podcrcmos finalmente añrmar, com um suspiro de mana. a libcrdadc perante todas estas vinculaço'cs. a liberdade
alívio, quc, por exemplo, um Gocthe, «também, propriamen- do espíríto cm face da natureza ~ a única, aliás, quc constitui
te faJando, apenas» era um neurótico. Semelhante orientação a essência do homem -, foí esquec1'da. Como se vê, surgiram,
do pensamcnto náo vê nada de genuíno, de verdadeiro; isto é, junto do psicologismo, um biologismo c um sociologismo (obs.
verdadeíramente nada vê. Só porque algo uma vez por outra foí 6) que inculcaram simultancamente e na mesma medida uma
mas'cara ou, em algum momento, meio para um ñm, - scrá quc, imagem desñgurada do homem. Náo é dc estranhar quc, na
só por isso, scmprc c exclusivamente tem que ser mas'cara e meío história do cspíríto, sc tenha registrado uma rcaçào contra esta
para um fimP Não havcrá cntão nada de imediat0, autêntico, visão naturalística. De fato, não sc fez cspcrar essa rcação, convi-
origina'r1'o? A psicologia individual prega a valentia; mas, pclo dand0-nos a rcconsiderar os fatos fundamemais do ser humano:
visto, esqueceu a submissão: a submissâo ao que no mundo há o humano ser-livre perante os dados da vinculação naturaL Não
de espiritualmente criador, ao espirítual como um mundo de é de admirar que cnñm 0 ser-rcsponsável, como estado dc c0i-
sas primordiaL tenha sido trazído outm vez ao centro do nosso
per sí, cuja essêncía e valores não admitcm o serem projetados,
sem mais, no plano psicológíco (obs. 5). Ora a submissão, se au- campo de visão; cstc estado de coisas, dig0, porque 0 0utro, pelo
têntica, é, pclo mcnos tanto como a valentia, um sínal dc força menos o do ser-consciente, nâo o pôdc negar o psicologismo.
ínterí0r.
A ñlosoña da existência nomcadamente teve o mérito de apre-
sentar a existência (Dasein) do homcm como uma forma de ser
O que interessa, em última anal'ise, à psicoterapia «arranca-
sui generz'5. Assim, Jaspers denomina 0 ser do homem como um
dora de disfarces» não é um juízo, mas uma condenação sumária
ser «que decide», um ser quc não «é», sem mais, mas quc só cm
c deñnitívm Basta fazcrmos com que olhe para si mesma à sua
cada caso decide «0 que ele é».
própría luzz coloqucmos díante dela um espclho comvo se fosse o
Esclarecida desta maneira uma situação que, embora nem 75
basilisco; e logo se verá que - como todo psicologismo - evita 0

L
E SENTIDO DA wDA
FTPSCOTEMMA
psicoterapia
do cixo dc uma logOtcrapl'a, a
girando cm tomo aná
se voltar para uma anaJ'isc da cxistênciazo cnquanto
tem quc
lisc do ser humano
com o scr responsáveL II

,DA PSICANAL'ISE
~ ANALISE EXISTENCIAL
A

2 Wr J
( V. E. Frankl fquf gtvtzgm
. l Pr dfr pljlfll0íb8r », chímlblatt Í
t «Zur Grundlegurzg einer Ermmmyh
' U938 ) C têlmbem
PSYChotheraPlc S h
e”› C WClZl.
78 mcd. Wschn (l939)
.
íA)
Anal'ise existencial geral

l. O sentido da vida

Especíñcada como psican.1"lisc, a psicorcrapía csforç.'1-se por


chcgar à Conscicncializaçâo do .'mímico. A log(›rcr;1pía, pclo c0n-
trário, procura a conscicncializmgão do c.s'piritu.1'l. Com isto, na
sua especiñcação como análisc cxistcnciaL a logotcrapia csfor-
ça-se Cspecialmcntc por trazcr 0 homcm à consciôncia do scu
scr-responsa'vel, - enquanto fundamcnto usscncíal da cxístêncm
humana.
Mas responsabílidadc sígniñca scmprc rcsponsabilidadc pc-
rante um scntido. Foi por isso quc o problcma do scntido da
vida humana se pôs à cabeça dcstc capítul(›; c é por isso quc tcrá
de permanecer no seu núclco ccntraL Na realidada é cste pro-
blema um dos mais frcquentcs cntrc aquclcs com quc o docntc
da alma, na sua luta espirituaL assalta o médico. E nâo é cste
quem o levanta; é prccisamcme o pacicnte quc, na sua ncccssi-
dade espirituaL insta com o médico para quc lho rcsolsz 81
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PSICOIERAPIA E SENTIDO DA VIDA
M ANÁLISE PXISTENCIAI (;l-.RAl

A DISCUSSÀO DO SENTIDO DA EXlSTÊNClA crct0, uma relaçáo de cxclusã0. Freud era dc outro parcccn quan-
do cscrcvia a Maria Bonapartcz «Sc sc pcrgunta pclo scntido c
O problema do scntido da vida, qucr se apresentc quer não
valor da vida, é porque sc está docntc...» ((,a“rtas 1873-1939.
cxprcssamente, cumpre defini-lo como um problcma caracte- Francforte do Mcno 1960).
risticamente humano. Por consegu1'nte, o pôr~se cm qucstão o O problcma do sentido. posto cm toda a sua mdicall'dadc.
sentido da vida não pode ser, nunca, dc pcr si, expressão do que
podc francamcmc abatcr um homcm. É cstc o caso corrcntc,
porvcntura o homem tenha de doentio; é antes e sem maís, para
sobretudo na puberdadc. portanto na época cm quc n pr(›blc-
falarmos com propricdadc, cxpressão do scr humano, - expres_
mátíca essencial da existência humuna sc abrc ao homcm jovcm.
são precisamcnte do que dc maís humano há no homem. Com que vaí amadurecendo e lutando espirítualmcnte. Uma vcz. um
efeito, podcmos perfcitamente imaginar animais altamente cvo- profcssor de história natural explanava, numa aula dum colc'gio.
luídos quc - como as abelhas ou as formigas, por exemplo - em
a tese dc que a vida dos organísmos, incluindo o do homcm.
certos aspectos dc organização soc1'al, em alguns dispositivos se-
«em última análise, nada mais é quc “um processo dc oxidação.
melhantes as\ cstruturas humanas do Estadlo, cheguem a supe-
um processo de combustão”». Imediatamcntc saltou um aluno.
rar a socicdade humana; mas jamais poderemos imaginar que
lançando-lhe em rosto esta pergunta apaixonadaz «Sim. mas cn-
um animaJ seja capaz de suscitar o problcma do sentido da sua
tão o que é quc dá sentido a toda uma vida?» Esse jovcm tinha
própria existência, conseguindo assim pô-la em questão. Só ao
compreendido exatamentc que o homcm cxíste num modo dc
homem, como taL é dado - a ele exclusivamente - ter a vivência
ser difercnte do de uma vela, por excmplo, quc cstá diantc de
da sua cxistência como algo problemático; só ele é capaz de ex-
nós a arder, cm cima duma mesa. O ser da vela (Heidcggcr di-
perimentar a problematicidade do ser.
riaz «ser-presente», Vorbanden-m'n) podc-sc interpretar como
Valc a pcna repetir aqui o que dissemos acima, relatando um processo de combustâo; ao homem, contudo, ao homem como
caso cxempliñcativo, a propósito do conceíto dc vácuo existen- tal, pertcnce uma forma de scr essencialmente diferentc O ser
cial. Reñro-me àquele professor universitário que tinha cstado humano é antes de mais um scr cssencíalmente histórico, cs-
na minha clínica por causa do seu desespcro quanto ao sentido tá ínserto num espaço históríco concreto, a cujo sistcma dc
da existência. No decorrer da consulta, pôs-se de manifesto que coordenadas não logra arrancar-se. E este sistema de relaçócs
se tratava de um estado endógcno-depressivo. Veriñcou-se ainda está determinado, cm cada caso, por um sentído, se nào incon-
quc as elucubraçóes sobrc o scntido da vida não o assaltavam, fessado, talvcz em geral inexprimích O movimento de um fo.r-
como seríamos tentados a supor, ao tempo das fases depressí- migueiro bem se pode dcñnír, portanto, como tendente a um
vas; pelo contrário, ncssas fases, estava tâo hipocondriacamente ñm; o que náo se pode é aHrmar que tem um scntid0. Desaparc-
preocupado, quc não conseguia pensar no que quer que fos- cendo, porém, a categoria de sentido, desaparecc também o que
se. Só nos intervalos saudáveis cntrava cm tais cogitaçóes! Por sc pode chamar «histórico»: um «Estad0-formigueiro» nâo tem
outras palavrasz entrc a neccssidadc cspirituaL por um lado, e a «hístória» alguma.
82 cnfcrmidade anímica, por outro, havia inclusive, no caso con- Em seu livro «Acontecimento e vivência», Erwin Straus mos- 85
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA EXJSTENCIAL GERAL
A) ANÁLISE

trou que no homem - e não apenas no caso do homem doente dor, Com isto não se pretende certamente negar a possib1'lida-
de neurose - o fator histórico do tempo não sc pode ísolar con- de de alguém se narcotizar, embriagando-sc com as suas obras
ccitualmente da sua realidade de vida, daquilo que o mesmo Criadoras. É o que ocorre aos homcns daqucle tipo quc Schclcr,
Straus chama «realidade-cambiante». Menos ainda se pode fazcr no seu estudo sobre o «burguês», caracterizou dizendo que, por
tal separação quando o homem (assim especialmentc no caso da causa dos meios de realízaçâo dos valores, esqueccm o fím últi-
neurose) «deforma» essa realidade~cambíantc. Uma das formas mo (os próprios valores). Estão neste caso os que passam toda a
que esta deformação podc assumir é aquela tentativa de aversão, semana a trabalhar intensamente c no domingo - em vista do
aquela tentativa de abandonar o modo de ser humano originário, Vazio, da solídâo e da falta de conteúdo da sua vida, que cntão
que Straus classiñcou Como cxistêncía «prcsentista», entcndendo írrompe à tona da consciência - sc tornam deprímidos («neurosc
por tal um ajustamento à vida, que crê poder renunciar a toda e dominical») ou, scmíndo um borror vzzcui (em scntido espiri-
qualqucr orientaçãa Trata-se, portant0, de um comportamento wal), mergulham em qualquer situação dc embriaguez.
quc ncm se funda no passado nem se orientà para 0 futuro, apli- Mas não é só nos anos de maturação quc o problema do sen-
cando-se antes ao puro presente sem história. Encontramo-lo, tidO da vida se póe de modo típíco; pôe-se também sempre que,
aJia's, na evasão neurótíca para certa Cspécíe de esteticismo, para ocasionalmente, como se o destino a trouxesse, sobrevêm ao ho-
uma dissipação artístíca ou para um exccssivo êxtase em saborear mcm uma vívência perturbadora. E, assim como no período dc
a natureza. O homem em questão está, assim, em Certo sentido, amadurecímento, nada há de propriamente doentio em questio-
csquecído de si mesm0; mas poderíamos também dizerz esqueci- nar sobre 0 sentido da vida, assim também nada rcprescnta de
do dos seus devcres, na medida em que, nesses momentos, vive patológico a necessidade anímica do homem que luta por um
do lado de lá de qualquer dever que resultc do caráter de sentido conteúdo da vida, ou a própria luta espiritual em que se empe-
histórico-individual da sua existência. nha. Sendo assím, não se pode esqueccr que a psicoterapia, uma
O homcm «normal» (tanto no sentido de uma norma-média vez alargado 0 seu horizonte pela logoterapia e, paralelamentc,
como no da norma ética), só cm certas ocasióes pode c, mes- pela análise da existência (Exz'stenzanaylse), como forma que é
mo então só em ccrto grau, legitimamente tomar uma atitude desta logoterapía, - tem que lidar, dadas certas circunstâncias,
presentistaL Rcñr0-rne àquelas ocasióes, as «festas» por exemplo, com homens que padecem animicamente, e que, em sentido
em que adrede e temporariamentc se afasta da vida determinada clínico, não é lícito consídcrar propriamente doentes. AfinaL
por um sentido, para se entregar à embriaguez; à cmbriaguez, esse sofrimento, nascido dentro da problemática absolutamente
quer dizer, àquele estado de esquecimento de si mesmo que o humana, constitui prccisamente o objeto de uma «psicoterapia
homem provoca intcncional e arti6c1'almente, para se desone~ a partir do espírito». Mas, mesmo quando houver de fato sin-
Í
rar, de tempos a tempos, da impressáo da sua responsabilidade |v tomas clínicos, pode scr conveniente proporcionar ao doente,

essencial que, de quando em vez, lhe parece demasiado pesada. através da logoterapia, aquele apoio espiritual especialmente se-
Mas, na verdade, o homcm ocídentaL pclo menos, está sempre guro de que o homem sáo e corrente precisa menos, mas que o
84 sob 0 ditado de vaJores que lhe compete efetivar de modo cria- homem animicamente inseguro necessíta com urgência, precisa- 85
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
N ANAIISE EXISTENCIAL GERAL

mente para compensar a sua inscgurança. Em nenhuma hipóte-


que nunca a consegucm «dissimular» intciramente. Utilizando
se é lícito tomar a problemática cspíritual de um homem como
o método correspondeme da exploração psiquiátrica, o tédio
um «síntoma», pois sempre ela é «rcalízação» (para usarmos a
da vída oculto rcvcla-se sem mais. Suponhamos um docntc quc
antítese de Oswald Schwarz): ~ nuns casos, realização que 0 pa-
suspeitamos cstar dissímulando intcnções suicidas. O proccsso
cicnte já cfctivou; noutros, uma rcalização em que nós temos dc
que se recomenda para o exame é 0 seguinte: em primciro lugar,
ajuda'-lo. Isto vaJc nomeadamentc para aqueles homens que por
intcrroguemos o doente a respeito dos pensamentos de suícídío,
razôcs puramente cxternas perdcram a equanímidadc. Entre eles
isto é, perguntemos-lhe se pensa cm suicidar-sc ou, conforme
podc-sc contar quem, depois de tcr perdido um ser especialmen-
o caso, se persiste nas ideias suicidas que antcs manifcstou Em
te querido, a cujo serviço havia dedicado a vida intcira, levanta,
qualquer hipo'tese, sempre responderá que não a esta pergunta -
inseguro, o problema de saber se a sua vída ainda conserva aJ-
sobretudo, alias', na hipótesc de pura dissímulaçâo. Em scguida,
gum sentida Pobrc do homem quc, em tais momcntos, sente
façamos-lhe outra pergunta que nos permíta estabelecer uma
vacilar a sua fé no caráter de sentido da sua existêncial Encon-
díagnose diferencíal entre o estar realmentc livre do taedium vi-
trar-se-á sem reservasz aquelas forças, que só lhe pode dar uma
tae, por um lado, e, por outro, a mera dissimulaçâo do mesmoz
cosmovisão quc añrme a vida incondicionalmente - ainda que
pcrguntemos-lhc - por mais brutal que a pergunta lhe pareça -
náo sc trate necessariamente de chegar a uma clara consciência
«por quc» (já) náo tcm nenhum pensamento dc suicídio. Ncssa
dela ou a uma formulação conceitual -, faltam-lhc ncsse instan-
altura, o doente que estíver livre dc tais propósitos ou quc já
te difícih e já nâo lhe ñca a possíbilidade dc «encaixar» o golpe
estiver curado logo responderá que, ev1'dentemente, por ter de
do destino compensando por si mesmo o seu «poder». E assim,
cuidar dos seus ou por tcr de pensar no seu trabalho, ou moti-
nascerá nele uma espécie de descompcnsação anímica.
vos semelhantes. O doente dissimulador, no entanto, ñcará en-
Gostaríamos que se compreendessc 0 melhor possível o sig- calhado subitamente na nossa pergunta, com uma perplexidade
nifícado central que correspondc a uma atitude derivada dc típica. Scntirá a nccessidade de responder à nossa pcrgunta com
uma cosmovisáo que añrme a vida, esclarecendo-se também argumentos em prol de uma afirmação (simu1ada) da vida, sem
com quc profundidade ela pode chegar a atingír até o bioló- saber como satisfazê-la. No caso de sc tratar de um paciente
gico. E talvez isto salte à vista nas linhas que se seguem. Fez-se já intemado, 0 mais típíco é começar cntão a ínsistir em ir-se
uma vez um estudo estatístico de grande cnvergadura sobrc as embora ou a protestar solenemente que não há nesse desejo
prováveis razóes da longevídad6. Poís bemz pôde-se comprovar quaisqucr intcnçóes de suícídi0. Logo se vê que o homcm está
que, ern todos os casos examinados, a razáo era uma conccpçào psicologicamente incapacitado para Hngir sequer argumentos a
da vida «alegre». portanto uma concepção añrmativa da vida. favor da añrmaçâo da vida. ou argumentos para continuar a ví-
Na esfera psícológica, a atitude derivada da cosmovisão vê-se ver; argumentos, enñm, que depóem contra os seus prcmcntes
que ocupa uma posição central de tal valor que semxpre «trans- pensamentos de suicídioz se realmente os houvessc, se os tívesse
parece»; assim, por exemplo, no caso de doentes que tentam já no pensamento, não mais estaria, eo zp'50, domínado por in-
86 ocultar a sua atitude básica ncgatívista em relação à vida, vê-sc tençóes de suicídio, nada tendo portanto que ñngiL 87
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE hXI'STENCIAL GERAL

O SUPRASSENTIDO dante mostrou quc todo ser vivo se cncontra cnccrrado no mun-
do circundante próprío da respectiva espécic, scm podcr quebrá-
O problema do scntido da vida pode ser conñgurado de di- -lo. Ora, por muito excepcional quc scia a posição do homcm a
ferentcs maneiras. Por isso, desde já queremos separar da sua ul- cste respeito, por muito quc elc scja «aberto ao mundo», tcndo
terior discussâo a qucstào de averiguar qual o problemático scm- mais do quc um mundo cira1ndantc, mesmo quc o homcm «tc-
tido de todo o acontecer; e, assim por exemplo, a problemática nha mundo» (Max Scheler) - ainda quc tenha «o» mundo -,
«finalidade e fim» do mundo como um todo, ou o sentído do quem nos díz que, para além deste seu mundo, algum supra-
dcstino quc vem ao nosso encontro, das coisas quc nos sucedem. mundo não exíste? Ou mclhorz o quc é de supor não é só quc a
Porque as possíveis respostas positivas a todos estes problemas colocação ñnal do homcm no mundo scja apcnas aparentc, um
pertencem propriamente ao domínio reservaclo da fé. Ê por isso, simples estar-mais-acima dentro da naturcza, em confronto com
alia's, que, para o homcm religioso, que crê numa Providéncia, 0 animaL mas sim quc para 0 «scr~no-mund0» (Heídcgger) vale,
nâo há por via de rcgra, a este respeit_o, nenhuma problemática. em últíma análíse, analogicamente, o quc sc diz dos mundos cir-
Quanto aos restantcs, a discussâo de tais indagaçóes teria que ser cundantes dos animais. Quer dízerz assím como um animal não
cxaminada, antes de mais, em termos de crítica gnoseológica. pode cntender, para além do seu mundo c1'rcundantc, 0 mundo
Tcríamos quc examinar, scm dúvida, se em geral é permitido do homcm quc 0 ultrapassa, assim também o homcm não po-
perguntarmos pelo sentido do todo; se portanto esta pergunta, deria apreendcr o supramundo; para alcançá-lo, portant0, teria
de per si, tem plena razão de scr. Isto é, o que nós podemos pro- quc ir mais longe, vislumbrando-o, - na fé. Um animal dome's-
priamente fazer cm cada caso é perguntar apenas pelo sentido tico náo sabe pam que fm o Íaomem se serue dele. Como poderia
de um acontecer parcial e nâo pelo «fim» do acontecer universaL cbegzzr o bomem a saber quc <jí<m últímm tem a xud z/1'a'a, qzml o
A categoria de fim é transcendente na medida em quc em cada «5upmssmtido" que tem o munda como um todo?
caso o ñm está fora daquilo quc o «tem». Por isso, quando mui-
Bem sci quc N. Hartmann afirma quc a libcrdadc e a rcs-
to, poderíamos conccber o sentido do mundo como um todo
ponsabilidade do homcm estão em contradição com uma fi~
na forma de um conceito-limite, como se costuma dízer. Assím,
nalídade para ele oculta, mas que lhe é imposta de cima. En-
talvez pudéssemos caracterizar este sentido como suprassentido,
tendemos, porém, que csta vísualização nào concorda com os
exprímíndo, numa só palavra, que o sentido do todo já não é
fatos. Vejamos. O próprio Hartmann admite quc a libcrdadc
apreensível e quc é mais do quc apreensível. Nestes termos o
do homcm é uma «libcrdade apcsar da dcpcndênc1'a». na mcdí-
conceíto seria análogo aos postulados kantianos da razão; repre-
da em que a liberdade espíritual também sc constrói por sobrc
sentaría ao mesmo tempo uma necessidade do pensamcnto e, ;
í a legalidade21 da natureza, numa «camada dc scm pro'pría, mais
apesar disso, uma impossibilidade do pensamento, - uma anti- Ê elevada, quc, malgrado a sua «dependência» da camada dc scr
.

nomia quc só a fé logra contornar.


ã
Já Pascal dizia quc nunca o ramo pode abarcar o sentido da Í21) E cxammcntc ism 0 que o Aumr dízz Gexrtzlirhkrin c não Gesttz (a lci). 0 originnl
1 alude à normalidadc não à norma. (N.T.)
88 árvore toda. E a mais recente teoria bíológica do mundo circun- t 89

k
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
N ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

em relação a esta. Pois bemz a meu Ver)


inferion é «autônoma» , , . esscncml esteJa. com cfeit0, cm ser tão clcvada a intcligência do
conceblvel u ma rclaçao analoga entre o remo homem que - e nlsto em decisivo contrastc com a capacidade
é perfcitamente de tal
humana e um reino quc se lhe sobreponha, do animal - pode aperceber-sc inclusivc de quc tcm uc havc
da líberdade
homem continue a gozar duma vontade livre, a uma sabedoria, decerto de um nível ñlndamcntalmenth supcriorr
modo quc o
uma Providência projete fazer com ele; cxata_ ao da sua - uma sabedoria sobre-humana -, quc nclc enxertou
dcspeito do que a
em que o animal doméstico vive em
mentc nos m esmos termos homem
mzão e .nos animaís os ínstintosz uma sabedoria que críou toda a
o seu instinto, apesar de servir ao
conformidade com sabedorla, tanto a sabedoria humana como os «sa'bios» instintos
anímais se serve para seus ñns.
que precisamente dos instintos dos animais, sintonízando-os, alia's, com o seu mundo.
constru1r uma maquma cuja
Suponhamos que eu quero nguém como Schleich exprimiu com tanta bcleza c con-
determinada mercadoria de de- Cisáo a relação quc medcia entre o mundo humano e um su-
função consista em embalar
termi nada maneira; salta
logo à vista lque, para realizar esta tarefa pramundoz uma relação que, por conscgu1'nte, nos cumprc
construtiva, prccisarci
de uma certa inteligência; uma inte11'gên- represcntar como análoga àquela que se dá entre o «mundo cír-
sem receio de erro, que ela tcm de cundante» (v. UexkülD do animal e o do homem. «Dcus - diz
cia dc que se pode añrmar,
cssencialmente mais elevado
ser, em qualquer caso, de um grau Schleich - sentou-se ao órgão das possibílidades e improvisou
eu me encarregar de fazer, por
do que o que me faria falta para o mundo. Nós, os pobres dos homens, nunca ouvimos mais do
em questâo! Nada mais na- que a vox bumamL Se esta é já tâo bela, Como não será espléndi-
mim, a embalagcm da mcrcadoria
ao problema
tural do que aplicar agora esta escala comparativa do o todo!»
sabedoria dos ins-
dos instintos; pois, no que se refere à chamada Sc a qucremos definír de algum modo, a relação entrc 0
para Concluir que
timos, nâo temos que fazer longos raciocínios mundo circundante dos animais (estreito) c o mundo do ho-
uma espé-
aquela sabedoria que dotou de determinado instinto mem (mais amplo) e entre este e um supramundo (que abranja
que,
cie ou um gênero de animais, aquela sabedoria portanto a todos), teremos uma espécie de alegoria da sccção áurea. Con-
aquela
por assim dizer, tem que ter fundado este instinto, que sequentemente, a parte menor está para a maior assim como a
sabedoria, digo, estando por tms' dc todos os instintos, terá que maior para o todo. Tomemos o excmplo de um macaco a que
própria
ser de um nível incomparavelmente mais alto do que a sc tenham aplicado injeçóes dolorosas destinadas à obtenção de
«sabedoria» dos instintos com base nos quais o dito animal rea- um soro. Conscguiria o macaco porvcntura imaginar por que
ge táo «sabiamente». Alia's, talvez a diferença especíñca entre o razâo tem que sofrer? Limitado pelo seu mundo c1'rcundante,
homem e o animal não csteja tanto, em última anal'ise, no fato não está em Condiçóes de acompanhar as rechóes do homem
de o animal ter instintos e o homem inteligência (añnal, toda que 0 submete às suas experiências, pois nâo lhe é acessível 0
a inteligência humana se pode conceber como um simples ins› mundo humano, o mundo do sentido e dos valores. Até lá não
tinto «mais alto», especialmente se pomos diante dos olhos 0 ü chega, não consegue atingir as suas dimensóes. Ora, nâo tcre-
priori latente no fundo de toda a razão humana, mas que já não mos nós que admitir que, acima do mundo humano, existe por
é explicáveL em si mesmo, através da razão); talvez a difercnça sua Vez um outro mundo, inacessívcl ao homem, e cujo sentido, 91
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

cujo suprassentido seja 0 úníco capaz de dar sentido aos seus «conservare»32. Assim, 0 tempo, a caducidadc da vída, cm nada
sofrimentos.> poderão afetar o seu sentido e valor. Ter~5ido é também um modo
A entrada na dimcnsâo supra-humana, cfetivada na fé, fun- de ser, tzzlvez o mzzís segura E, sob cste prisma, todas as açócs na
da-sc no amor. Dc per si, é isto coisa sabída. O que talvez seja, vida se nos podem apresemar como um pôr o possível a salvo na
contudo, menos sabid0, é que há disto uma préfo-rmaçâo in- reaJídada A despeito de screm ações passadas; mais ainda, preci-
frmhumanm Quem nâo terá notado já como um cão, ao ter de samentc no passado é que cstão seguras para toda a eternidadc,
sofrer uma dor - causada no seu interesse, digamos, por um a salvo de qualqucr posterior golpc do tempo.
vcterinário -, levanta os olhos para o seu dono, todo cheío de Já se sabc que o tempo decorrido é irrcvcrsíveh mas o quc no
confiança? Sem poder «saber» qual o sentido da dor que lhe pro- decurso dele aconteceu é íntocávcl e invioláveL Assim, o tempo
vocam, o animal «crê», precísamenlte na medida em que conña que corre mostra-sc nâo apenas como um ladráo, mas também
no seu dono e precisamente, aliás, porque o «ama», - xít venía como Hel depositário. E uma cosmovisão quc tcnha em vista a
antbropormorpbísma caducídade da exístência nem por ísso tem que ser, de modo al-
É de si evidente que a fé num suprassentido - quer o enten- gum, pessimista. Se quisésscmos exprcssá-lo numa imagem, po-
damos como conceit0-limite quer, em termos religiosos, como deríamos dízer2 o pessimista assemelha-se a um homem quc está
Providêncía - tem uma imensa importância psicoterápica e psi- diante de um calendárío de parede c vê, com medo e tristeza,
co-higiênica. Esta fé é criadora. Como fé pura que brota duma como o calendário - a que arranca diariamentc uma folha - Hca
força ínterior, torna o homem mais forte. Para um crente as- cada vez mais Hno; ao passo que quem conceber a vida no sen-
sim, não há, em última instância, nada sem sentido. Nada se tido do que acima se disse, parecc~se com um homem quc cui-
lhe pode añgurar «inútil», «não ñca por asscntar no livro fato dadosamcnte toma a folha que acabou dc separar do calendário,
algum» (Wildgans). Neste aspecto, nenhuma grande ideía pode para juntá~la às restantcs, já arrancadas, sem deixar dc inscre-
vir a perecer, mesmo que jamais venha a scr conhecida, mes- ver no verso uma notícia a modo dc diário, a fim de sc lem-
mo que alguém «a tcnha levado consígo para o túmulo». Assim, brar, cheio de orgulho e alegría, de tudo o que nessas notícias
a história interior da vida de um homem nunca acontece «em assentou, - de tudo o que na sua vida foi «realmcnte vivido».
vão» em todo 0 seu drama e inclusivamente na sua tragédia; e Mesmo que este homem repare ter envelhccido. que importa?
isto, ainda que nunca a tenham observado, ainda que nenhum Deveria, poderia, só por isso, olhar com coração invejoso para a
juventude de outros homcns ou lembrar melancolicamentc sua
romance a tenha sabido contar. Seja comofon 0 «romance» vivído
própria juventude? Porque, afinal - pois é isso 0 quc antes deve
por um bomem é sempre uma mzlizaçáo crz'adora z'ncompamvel-
perguntar-se -, o que é que tem a invejar num homem moç0?
mente maíor do que o que agluém porventum tenba escríta De
Aspossz'bz'/idadex, talvez, que um homem jovem ainda tem, o scu
um modo ou de outro, todos sabemos que o' conteúdo duma
fúturM «Muito obrigado» - pensará entre si -, «no mcu pamzdo
vida, o seu acabamento, ñca guardado, por assim dizer, nalgum
lugar, sendo «elevado», naquele scntido duplo com que Hegel
(22) cha-se a nota que apuscmos à página 46 (N .T.) 93
inclui no tcrmo simultaneamcnte as conotaçóes de «tollere» C
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL

tenho eu realz'a'ades, cm vez dc possibilidades: não apenas a rea- uma possíb1'lídade, a possibilidade dcstc momcnto prcciso c úni-
lídadc das obras realizadas, mas a do amor amado e a das dores ca Cada momento cnccrra milharcs dc possibilidadcs, mas cu
sofridas. E por cstas* é que mais orgulho eu sinto, muito embora Só posso cscolher uma delas para rcalíza'-la, condcnando todas as
sejam elas as que menos ínveja despertam...» outras simultaneamcntc ao não-scr, e isto também «para toda a
Tudo o que no passado há de bom e de belo, no passado cternidade».' Não obstante, é sublime o saber quc 0 Futuro, tanto
está bem seguro e bem guardado. Por outro lado, enquanto a o meu próprio futuro como o das coisas c o dos homcns quc mc
vida dura, todas as culpas, todos os pccados são ainda «redi_ rodciam, em certa mcdida, por pcqucna quc scja, dcpcndc da
míveis» (Scheler, «Wz'edergeburt und Reue»). Por conscguinte, as decísâo que eu tomo em cada 1'nstante. O que cu rcalimr com
coisas náo se passam, nem de longe, Como se fossem um Hlme essa dccisão, o quc com ela «críar no mundo», é qualquer coísa
que acabou, que simplesmente chegou ao fim do últímo rolo que ponho a salvo na realídade, preservando-a da caducidadc.
(é mais ou mcnos assím que a tcolria da relatividade representa
o processo cósmico, na totalidade das «linhas cósmicas» tetra-
dimcnsionais); pelo contrárioz o filme destc mundo maJ co- PRINCÍPIO DO PRAZER
E PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO
meçou a ser rodado! Isto, porém, não significa senão que 0 pas-
sado - «felizmente» - está fíxado, sendo, portanto, seguro, ao Até aquí tratamos do problema do sentido na mcdida em quc
passo quc o futuro - «fclizmentc» - está em abert0, deparando- tal problema se póe quanto ao scntido do universo como um
-se por conseguínte à responsabilídade do homem. todo; rccons¡'deremo-lo agora nos termos cm que o entendcm o
Ora bemz o que é responsab1'lidade.> Responsabilidade é aqui- mais das vezes os doentes que 0 lcvantam; isto é, o problema do
lo por que somos «atraídos» e a que «nos subtraímos». Assim, a sentído do indivíduo, da sua vida pcssoaL
sabedoria da linguagem já indica que no homem tem que havcr A este propósíto, impÕe-se-nos abordar antes de mais certa
como quc forças antagônicas, que tentam impedi-lo dc arcar viragem que muitos pacientes tentam dar à discussão deste pro-
Com a sua responsabilidade essenciaL Realmente, na responsabi- blema, e que por força tem que desembocar num niilismo étíco.
lidade há qualquer Coisa de abismo. E quanto mais e com mais Reñro-me com isto à aHrmação simplista que se costuma fazer
profundidade pensamos nela, maís descobrimos o abismo, até de que, falando com propriedade, o sentido da vida sc reduz ao
quc, Hnalmente, nos envolve uma espécíe de vertigem. Com prazer; no seu arrazoado, csta añrmação reporta-se ao suposto
efeito, basta mcrgulharmos a fundo na essência da responsabili- Fato de quc todo o agir humano é dítado, em última análise, por
dade humana para logo sentirmos um estrcmecimentoz há nela uma aspiração à felíc1'dadc, scndo todos os proccssos anímicos
qualquer coísa de temíwL se bem que haja nela também qual- determinados única c Cxclusivamente por um princípio do pra-
quer coísa de sublímd Temíuel é: saber que a cada momento arco zcr. Como é sabído, esta teoria do predomínío do príncípio do
com a responsabilidade pelo momento seguinte; que todas as prazer no conjunto da vida an1'mica, defende-a também a psi-
decisóes, as de menor e as de maíor monta, são decisóes «para Canálise; perante 0 princípio do prazer, 0 príncípio da realidade
Á v l r'

94 toda a etemidade»; que em cada momento realizo ou desperdiço nâo representa, a rigor, nada dc Contraposto, constituindo an- 95

PSICOTERAPIA E SENTIDO íA
VIDA A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

tes um simplcs alargamento daquele primeiro, achando-se a seu Provoca compaixãm é perfeitamentc conccbível quc outro sínta
serviço, cxatamcnte na medida em que se apresenta como mera uma maldadc sádica, se sacic com a desdíta que contempla e
«modiñcaçâo» dele, «também no fundo pretendendo alcançar inclusive expcrimente desse modo seu prazcn
prazer»35. Bem vistas as coisas, muito pouco na vida depende do prazcr
Ora bem: a meu ver, o princ1p'i0 do prazer é um artefato psi- ou desprazer. Realmente, muito poucas vezes na vida é a questâo
cológica Na verdadc, o prazer não é em geral a meta das nossas do prazer ou desprazcr que está em causa. É como no caso do
aspiraço'es, mas sim a consequência da sua realização. Já Kant espectador num teatroz o que é essencíal para o cspcctador não
aludiu a estc fato. E Scheler, referindo~se ao eudemonismo, dis- é o fato de assistír a uma comédia ou a uma tragédia; o impor-
se que o que ocorre nâo é que o prazer se depare como meta à tante, para cle, é o conteúdo, a substância do que lhc oferecc a
açáo moral, mas antes que a" ação moraL digamos assim, traz representação. E ninguém com certeza sc lembrará de añrmar
às costas 0 prazen Decerto que em sítuaçócs ou circunstâncias que ccrtos sentimcntos de desprazcr provocados na alma dos
especiais o prazer podc rcpresentar efetivamente a meta dum ato cspcctadores por um aconteccr triste visto no palco são a verda-
da vontade. Mas, prcscindíndo dos casos especiais deste tipo, deira ñnalidade da sua ida ao teatro; se assim fosse, teríamos que
a teoria do princípio do prazer passa por aJto o caráter essen~ considerar como masoquístas disfarçados todos os que pagaram
cialmcnte intencional de toda a atividade psíquíca. Em geraL o entrada. De rcsto, a afirmação de que o prazcr é o ñm últímo de
que o homem quer não é o prazer; quer o que quer, sem mais. todos os csforços humanos ~ c náo apcnas mcro cfeito Hnal dc
Os objetos do qucrer humano são entre si diversos, ao passo alguns deles -, pode-se refutar de plano, sendo para tanto sufi-
que o prazer sempre será o mesmo, tanto no caso de um com- ciente ínverter-lhe os termos. Assim, se por exemplo fosse exato
portamento valioso, como no de um comportamento contrário que Napoleão deHagrou as suas batalhas só para sentir 0 prazer
aos valores. Daí que, como logo se entrevê, o reconhecimcnto do seu dcsfecho vitorioso - 0 mesmo prazer que qualquer outro
do princípío do prazer conduza ínevitavelmente ao nivelamento soldado poderia vir a scntir muito simplesmcnte em comezai-
de todas as possíveis ñnalidadcs humanas. Com efeito, sob estc nas, na embriaguez ou no prostíbulo -, então também o «ñm
aspecto, seria completamente indifercnte que o homem ñzesse último» das derradeiras batalhas napolcônícas por foqrça tinha
uma ou outra coísa. Ê claro que o dar esmolas serviria para eli- que estar nas sensaçóes de desprazer que se chuem às derrotas,
minar sensaçóes desagradáveís; mas nem mais nem menos que tanto como as sensaçóes de prazer acompanham as vitórias.
0 gastar esse dinheiro em delícias culinárias. Na realidade, um Se realmente víssemos no prazer todo o sentido da vida, cm
impulso de compaixão, digamos, encerra já um caráter de scn- última análise a vida parecer-nos-ía sem scntido. Se o prazer
tido, mcsmo antes dc ser eliminado por_um ato correspondcnte fosse o sentido da vida, a vida não teria propriamente sentido
que, pelo visto, apenas teria o sentido de elíminação do despra- algum. Porque, añnaL o que é 0 prazer? Um estado. O matcr1'al¡'s«
zer; añnaL perantc o mesmo estado de fato que a um indivíduo ta - e o hedonismo costuma andar à mistura com o mater¡a-
lismo - poderia dizer inclusivamente: o prazcr não é mais do que
96 (23) S. Frcud. Gesammeltt Werlze (Obras Completas), voL VIL pág. 370. um processo qualquer que se opera nas células ganglionares do 97
Ir
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
ANÁLISE LXJ'S'1'ENCIAL GERAL
íi

cérebro. E cu perguntoz só por causa desse processo valerá a pena na teor1'a. Assim, se pcrguntamos a um homcm por quc nâo
vivcr, cxperimentar, sofrer, ou fazer o que quer quc seja? Imagine~ faz isto ou aquilo quc a nós nos parcce tcr scntido c clc nos dá
mos um condcnado à morte quc, poucas horas antes de morrer, como «razáo»: uNáo tcnho nisso pramr ncnhum», - logo to-
sc puscsse a cscolher os manjarcs da refeição dc dcspcdida. Esse mamos esta resposta por insatisfatória. Imcdiatamcntc nos salta
condenado podcria pcrguntarz scrá quc ainda tem anum scntído, à vista quc cssa rcsposta não é propriamentc rcsposta alguma,
à vista da morte, abandonar-se às delícias culinárias? Não será pela simples razão dc quc nunca podcmos fazcr valcr o prazcr
indíferente que o tornar-sc o organísmo um cada'ver, duas horas ou o dcsprazcr como vcrdadciro argumento a Favor ou contra o
mais tarde, ocorra antes ou depoís de nele se haver veríñcado sentido de uma açáo.
rapidamente aquele processo das Células ganglionares a que cha- De modo quc, o príncípio do prazer como máxima scria
mamos prazer? Ora, toda a vida está à vista da morte e todo o igualmente insustenrável, mesmo quc se vcriñcasse o quc Frcud
prazer de qualquer homem carcceria igualmente de sentido. afírma num dos scus trabalhos _ «Para além do princípio do
Esta dcsolada concepção dla vida, conscqucntemcnte, tcria prazer» -: a tendência gcral do orgânico para rctornar à paz do
quc fazepnos duvidar do scntido da própria vida, mcsmo cn- inorgânico. Frcud julgava poder provar com isso a añnídadc cn-
quanto a estamos vivendo. Com toda a razâo podcría anteci- trc toda tendêncía para o prazcr c 0 quc clc dcnomína instínto
par e generalízar aqui a conclusão a quc chcgou certo pacientc. da morte. Só que, a mcu ver, scria pcrfcitamcnte concebívcl quc
Uma vez internado, após uma tcntatíva de suicídi0, o paciente todas cssas tendências originárias, psicológicas c biológicas, pu~
a que me refiro, relatando a sua vivência, disse que, para efeti- dessem continuar a scr reduzidas mais ainda. porvcntura até um
var o suicídio projetado, quisera deslocar-se a um lugar afastado princípio dc equilíbrio univcrsaL quc coopcrasse pam cuncclar
da Cidade; mas, nâo encontrando nenhuma companhia de bon- qualqucr tensão em todas as rcgiócs do scr. Na vcrdadc, a física
des quc o levasse, rcsolvera tomar um tax'i. «Então - concluiu conhece algo dc semelhantc na sua tcoria da cntropia; o cstado
ele - pus-me a pensar sc náo seria melhor poupar os dois centa- cósmico ñnaL quc há quc espcrar. Assim, à «mortc térmica»
vos; e não pude deixar de sorrír involumar1'amente, reparando poderíamos contrapor, como correlato psicológíco, o Nírvana;
na soviníce de qucrer poupar dois centavos imcdiatamcnte an- em suma, 0 cquilíbrio de todas as tcnsócs anímicas. mcdiantc
tes da morte». a libertação de todas as scnsaçócs de dcspmcn seria o equí-
Se alguém há a quem a própria vida aínda nâo tenha su- valente microcósmico da cntropía macrocósnúca. consídcram
Hcientcmente convencido de quc não se vive para «gozar a ví- d0-se 0 Nirvana como a entropízz «uixta de dentro». Mas o próprio
da», consulte a estatística de um psicólogo experimental russo princípio do equilíbrio reprcsentaria 0 contrário, frontalmente
que, ccrta vez, mostrou como o homem normal expcrimcnta, incompatíveL do «princípio de indívíduaçâ0», tendente a con-
em média, nos seus dias, incomparavelmcnte mais sensaçóes de servar todos os seres como seres individualizados, como scrcs
desprazer quc dc prazen AJia's, a experiência cotidiana põe Ja
- r
que são-diferentemente (Ander5-sein)“. Basta o existír esta com-
/ .
de manifesto quâo insatísfatório e o prmxcípio do prazcr, náo
98 só enquanto visâo da vida, e portanto na prática, mas também (24) A tcoria de Schroudingcn análoga a csta. n.1-'o é sobrc o scr, mas sim sohrc a VÍdíL 99
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA ,\) ANÁLISE EXISTENCIAL G ERA L

traposição para se concluir que, do ponto de vista ético, nada ceoria sobre a «natureza» ñsiológica de certas vivências, ncm a
colhe o achado dessc princípio tão universaL a añrmação geral tcse de que o gozo não é senão uma dança organizada, intcíra-
de quaisquer tendêncías cósmicas; pois é claro que o acontecer mentc dcterminada, de moléculas, átomos ou elétrons no in-
objctivo de modo algum é subjetivamente obrigatório (ist0 é, terior das células ganglionares do córtex cercbraL - nenhuma
para o sujeito). Quem nos afirma que, por assim dizer, temos delas é tão irrefutável e convincente como a experiência dc um
que identiñcar-nos com todas estas tendências e princípios? A homem que, pela vivência do mais alto prazer estético ou da
questáo começa precisamente com o problema de saber se nós mais pura felicidadc do amor, tem a certeza dc que a sua vida
devemos submetcr-nos a tais tendências, - mesmo que porven- possui pleno sentido.
tura as descubramos no nosso próprio acontecer anímico. Sem
dúvida, é perfcitamente concebível que a nossa missão própria No entanto, a alegría só pode dar sentido à vida sc a vida,
consista precisamente em resistir ao domínío dos poderes desse de per si, o tivcr já. Aliás, o sentido mais rigoroso da alcgria,
tipo, externos ou intemos. não é ncla que res¡'de. Bem vistas as coisas, reside sempre fora
W

delaz porque, cm cada caso, a alegria ínrendr"' para um objeta


É provável que todos nós, em virtude de uma educação uni- Já Scheler nos indica que a alegria é um sentimento intencíonaL
lateralmente naturalista, tenhamos um respeito desmesurado, ao contrárío do mero prazcr, que conta entre os sentimentos
excessivo, pelos resultados da pesquisa das ciências naturaís e não intencionais, os sentimcntos «de estado». «estados afctivos».
das ciéncias exatas, pelos conteúdos da imagem física do uni- Salienta, a este propósito, o referido autor o fato de os usos da
verso. Mas, teremos que temer realmente uma morte térmica linguagcm cotídiana acusarem já esta diferençaz tem-se prazer
ou um «perecíment0 do mund0», como se uma catástrofe Hnal «p0r causa de» alguma coisa, mas é «a propósito» de alguma coi-
de proporçóes Cósmicas pudesse prívar de todo o seu scntido os sa que a alegria se sentelÍ Isto dá-nos a lembrar também o con-
nossos esforços e os das geraçóes que nos seguirem? A «experiên- ccito do modus uivendí «presenüsta», nos tcrmos cm que Erwin
cia interna» duma vivência simples c isenta de preconceitos teó- Straus o consagrou. Neste modo de viver, o homem aferra-se
ricos não nos estará antes a ensinar que, por exemplo, a alegria precisamente ao estado de prazer (a embr1'aguez, por exemplo),
evidente de ver um pôr de sol tem não sei quê de «mais real» do
que, digamos, um cálculo astronômico sobre 0 suposto momen- (26) Do latim intmdere, tcnder para. No intuito dc scrmos Héis ao scntido exaro que 0
A. tem em mente, conscrvarcmos o latinismo ao longo dc toda a obra. (N .T.)
to cm que a terra virá a chocar comra o sol? Poderá ser-nos dado
(27) A difcrenciação linguística a que o tcxro alude é diñcilmentc traduzívcl cm todo o
algo dc mais ímediato do que a experiência de nós mesmos, ~ a seu rígor. Pam mclhor conscrvar o argumcntm mantivc na tradunráo o sentido litcral^ das
autowmpreemâo do nosso m=b0mem mquanw ser-re›'p0ma'vd? Al- prcposíçóes alcmãs, prcscindindo da adaptação cxígida pclo contcxto, em portugués.
uWegcnn cquivalc a upor causa dcnç uübcrn equivalc a ua propósito dc». «sobrc». TalveL
guém disse já que «0 mais certo é a consciência»~“; e nenhuma contribua para o esclarecimemo da leitura o observar-se que a preposição r<übcr»
1'mplic;1, no caso cm aprcç0. uma rcfkréncia ao temd para o qual tcndc o sujcito c quc
cstá à vista dtlc. ao passo quc a preposiçào «wcgen» parecc cxprimir mais dctcrminada
(25) Em .1-lcmã0. u frase é um rrucadilho mais exprcssivoz «Das Gewisscstcn ((› mais conscquêncim 0 pruzer serim pois, um rcsulmdo acontecido em cmmquéutizz dc Jlgm c
certo) é «<das Gcwissenn (a consdéncia). Para conscrvar 0 trocadilho. poderia dizcr-sc, .1' alcgth um scnrimcmo quc 0 sujcitofàz, por assim dizen ao zmderpam detcrminado
100 quando muitoz uo maís consciemízado é a consciéncia». (N.T.) obieto ou tema. (N .T.) 101
pSlCOTERAPIA E SENTIDO DA leA M ANÁLISE EXISTENCIAL (.'ERAI.

, o reíno dos 0
bjetos, - que seria, neste cundar1a,\1sto e, reHexa; qu.e, por consegu1'me. se adapta muitíssí-
ematiwz para os valores mo bem a postura cognosativa da psicologia cient1'ñca, mas não
' só a íntentío
Assim se Compreende dc modo algum, à postura puramente natural do conhccimentá
em si; não
náo pode ser nuníca um ñm Oira, umfa teoria do conhecimento não tem primariamente nem'
«realidade de
ria como taL E uma a mtenvxçao n_em a m.15830 de ser teoria psicológica do conheci-
enas na execução de atos Cognos_ ment0' , p015 a sua mtenção e missâo é antes a de ser, sem mais
(
execuçáo» ortanto, dos atos intencionais teoria do conheciment0. ›
de valo res; na realização, p ex_
cítivos (obs. 8). É o que Kíerkegaard Poderiamos ir mais longc até e dizer que se cngzmaría quem
capt a os valores
daquele que felicidade abre
bela frase, ao dizer que a porta da Porventura aHrmasse que, com os óculos postos, apenas se veem
prímía numa a
porta Fec ha-se para qucm, tentando abri-la, em_ as lcntes, mas não (através delas) as próprias coisas. Com efeito,
para foraz essa a todo o
o caminho para a felicidade aquele que não há dúvida de que nos podemos fixar nas impurczas, nas
purrar. Barra se conclui que toda
em tornar-s c fcliL Dohde nódoas ou partículas de pó que tenham aderido às lcntes; mas
rranse se empenha
vida humana - é, já
à fe'licídade - ao suposto «Hnal» da nem por isso seria lícito esquecer que com essa atitude apenas
aspíraçâo estaríamos atentando nos defeitos das lentes. Pois bem: a crítíca
dc sí, coísa ímpossweL
t mnscendente em face do ato que do conhecimento é também uma atitude com que nos fixamos
O vaJor é necessariamente nas fontes de erro do conhecimento; mas de um conhecimento
o ato cognoscítívo de valores (wert.
para ele inlenda Transcende que, em sí, é certo! Quer dizer: trata-sc de uma postura que
a ele, de modo análogo ao que
-k0gm'tiz/) qu e sc diríge em díreção atenta nas fontes de erro dum conhecimento cuja exatidâo po-
ato cognoscítivo (n0 sentido eStrito
ocorre com o objet o de um tencial sempre se pressupõe, precisamente ao aceitarcm-sc pos-
de estar fora deste. A fenome-
da palavra), que nâo pod e deixar síveis fontes de erro.'
transcendente do objeto
nología pôs de manifcsto que o carátcr
parte do conteúdo deste ato. Se me No conhecimento de um objcto como real, já cstá implícito
de cada aro intencional faz já o reconhecer-se a realidade deste último, independentcmente de
ao mesmo tempo o
é dado ver uma lâmpada acesa, é-me dado
os olhos ou lhe volte as quc o cognoscente ou quem quer quc seja o conheça de fato. O
fato de que cla está aí, aínda que eu feche
Coísa que está fora mesmo se aplica aos objetos do Conhecímento de valores. Se é
costas. «Ver» já sígnífica também ver alguma
insísta na tesc de que 0 que ainda se faz mister, podemos esclarecer ísto com o seguin-
dos olhos. Náo obstante, talvez alguém
acham no mundo, te exemploz um homem observa que os atrativos estéticos da
que vemos não sã o realmente as coísas que sc
reHetidas
fora de nós, mas simplesmente as imagens das coisas, 0 típo dE
falsa - (28) An11.'ogo ao conhecimento psicológico seria - para Continuarmos com
na nossa retinaL Como se sabe, esta tese - absolutamcnte cxcmpliñcação adotado - aquclc caso particular em quc alguém só visse rcalmenle as
Mach,
corresponde ao erro fundamental da escola positívísta de lcntasse estudar num olho arrancado a
imagcm reHctidas na rctina, sc, por cxcmplo.
râmam nhígira, imitados por aquelc. Rcalmenlc. é
atítudc um Cadzíver os processos físicos da
que parte metodicamente dos dados scnsíveis. Ora; uma pcrantc os processos anímicos não encerrará em
de pergunmz a atitudc psicológica
que se atém às sensaçóes como tais, enquanto sensaçÕeS, é uma sí uma espécie dc udcsmembramento quc dissolvc a íntima c coerente
cnntextura do
105
antude totalmenre determinada e, na verdade, meramente sc-
todo vivo»?
102
. 4._
-_. v-,«-
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE hX'ISTENCIAL GERAL

sua companheira erótica apenas lhc são «dados» enquanto ele devcr-ser concreto, jamaís se torne visível para o indivíduo vin-
se acha numa determínada disposição, ou seja, cnquanto se en- culado à perspecríva do concreto (obs. 9).
contra num estado dc tensào sexuaL sentindo que, ao cessar esta Toda pessoa humana rcpresenta algo de único e cada uma
excítaçâo, é como se todos os valores estéticos de anum modo das sítuações da sua Vida algo que não se repete. Cada missão
desaparecessem Daí o concluir que tais atrativos nada têm de concreta de um homem depende relativameme deste «carátcr de
reaL correspondendo antcs ao ofuscamento dos seus sentidos, alg0-úníc0», desta írrepet1'bílidade. É por isso que um homem
resultante da sensualidade; c que, por consegu1'nte, não repre- só pode ter, em cada momento, uma missão única; c é assim
sentam nada de objetivo, antes são qualquer coisa dc relativo ao precisamente que esta peculiaridade do que é único comuni-
estado concreto do seu organismo, que se funda na subjetividade ca a tal missão o caráter dc absoluta Pode-se dizer, portanto,
dos scus insrintos. Mas esta conclusão é falsa. Não há dúvida de que o mundo29 dos valores se contempla em perspectiva, corres-
que determinado estado subjetivo foi a condiçâo adequada para pondendo, porém, a cada situação uma única perspcctiva, que
que ccrtos valores se tornassem perceptíveis; também nâo há dú- é precisamente a exata. Ha', por conseguinte, uma exatidão ab-
vída de que determinada dísposíçáo do sujeito constituí o meio soluta, nâo apesar, mas justamente por causa da relatividade da
ou órgão neccssárío à captação dos valores. Contudo, isto não perspectiva.
exclui a objetivídade dos valores; pelo contrário, pressupÕe-na.
Por conseguínte, tanto os valores éticos quanto os estéticos re-
SUBJ ETIVISMO E RELATIVISMO
quercm, assim como os objetos do conhecimento, atos adequa-
dos à respectiva captação; entretant0, sempre tais atos implicam Permita-se-me fazer ainda uma observação a respeito da obje-
a transcendência dos referidos objetos; quer dizcrz estes objetos tividade daquilo a que Chamo sentidm a objetividade não exclui a
sâo transcendentes em relaçâo aos atos que para eles intmdem sua subjet1'vidade. Explico-me: 0 sentido é subjetivo na medida
veriñcando-se, portanto, a sua objetiv1'dade. em que não há um sentido para todos, mas sim um sentído para
E isto em nada se altera pelo fato, já mencionado, de que a cada um dos outros; entretant0, no caso Concreto de que se tra-
nossa imagem dos valores, tal como a nossa imagem do mundo, tar, o sentido não pode ser pummente subjetiv0502 não pode ser
apenas nos permite ver, em cada Caso, como que um setor do a mera expressão, o puro reHexo do meu ser, nos termos em que
mund0, um simples corte do mundo, vinculando-nos, assim, o subjetivismdl o relativismo o entendem e n0-lo pretendcm
à perspectiva. O que porventura ocorre é que todo dever-ser é fazer crer.
dado ao homem com caráter concret0, na concrctizaçâo do que Assim, quando dizemos que o sentido é não só subjetivo,
«dcve» fazer, «aqui c agora». Os valores redundam, assim, em
exigências do dia e em míssões pessoais; ao que parece, só atra- (29) No origínal lé-sc o mundo (Die Wc/t). scm mais (N .T.)
(30) No scntído dc um undermzmnmL podemos deñm'-lo. com RudolfAllers, como
vés destas missóes é que se pode ímmder para os valores que por
tran.s*-sub|'ctiv0.
trás delas se escondem E não sería de excluir a possibilidade de (3l) A rigon o subictivismo ncga que lmja um sentido. pois sustenm que não «0» há.
104 que aquela totalidade para a qual se abre, por assím dizer, todo scndo no's. pclo contrário, que damos c atribuímos um scntido a uma situaçâ0. 105
F"""'* p5¡COTERAPIA E SENTIDO DA VIDA EXJSTENCIAL GERAL
NA NÁLISE

salientar que está numa


apenas quere mos homem a enganar-se. Mais ainda: até o últímo momemo, até o
mas também relat1vo, m a pessoaw _ e com a situação em que
co últímo suspiro, não sabe o homem se realmente tcrá realízado 0
determinada relaçao e sc insere. Sob este pnsma, é
pcssoa .
se realiza sentido cla sua vida ou sc apenas se tcrá iludido: z'gnoramm, igno-
precísamcnte cssa rclativo; é-o, as_
de uma sn tuaçâo é realmente mbimm Desde Peter Wust, porém, «incerteza e risco» implicam-
claro quc o sentido no caso concrcto, como
tomada, .5e mutuamente e - por mais que a conscíéncia o dcixe scm saber
sim, e m rclaçáo a uma situaçao
.d Se afinal encontrou, atingiu e captou o scntído da sua vída - tal
irrepetível e única.
e captar 0 sentl o, tem quc apreeIL «incerteza» não dispensa o homem do «risco» de obedecer à sua
A pessoa tem que atingir sentildo, por-
isto é, rea.liza'-l,o. consciência, começando por escutar, antes de tudo, a sua voz.
dê.lo, percebê-lo e efetivá-lo,
relaçáo com a SItuaçao, e tambcm, por E nem só cste «rísco» faz parte da «íncerteza»; faz parte dela
tanto, em virtu de da sua
e único; e esta unicidade do «único que se também a hum1'ldade. O fato de nem sequer no leito de mortc
seu turno, irrepet ível
extraídwo da sua trans-subjetivida_ virmos a saber se o órgão-scntido, a nossa consciência, nâo cs-
impóe» faz com qu c o sentid0,
nós, seja para nós um dad0, por tevc añnal submetido a um sentído ilusório, signiñca, já dc si,
de, em vez de ser algo dado por
dcste dependa da subjetívídm que a consciência dc outrem bem podc tcr razáo. Humildade,
muito que a percepção e realização
A falíbilidade do saber e da portant0, signiñca tolerâncía; mas tolerância não qucr dizer in-
de do saber e da comcíéncia bumanos.
do ente azptado diferença, poís o respcitar a fé de quem de outro modo crê, nem
consciêncía nâo prejudica zz tmns-subjetz'vz'dade
peld Comciéncía bu-
pelo mber lmmwzo nem a do dewmer mptzzdo de longe requer que nos identiñquemos com a fé alheia.
logo
mamL E qucm estiver convencído desta trans-subjetividade Ninguém nega que, em certas circunstan^cias, o homem não
equivocada po-
se convence tambérn de que só uma consciência pode entender o sentido, tendo antes que interpretá-lo“. Mas
deria advogar qualquer coísa de semelhante ao homícídio ou isso não signiñca, ncm de longc, que tal interpretaçáo se efe-
ao suicídio. Esta convícçáo legitima por ísso que o médíco, em tue arbitrariamente. Com efeito, possuíndo o homem liberdadc
casos excepc1'onais, se responsabilize por uma ímposiçâo da sua para adotar qualquer interpretação, - náo terá ele de arcar com a
concepçáo do mundo e da sua concepçâo valoratíva; sem esque- responsabilídade pela interpretação exata? Porque decerto só há
cer, mesmo entáo, a falibilídade tanto da sua conscíência como uma resposta para cada pergunta, isto é, a resposta exata; para
da do pac1'ente. cada problema há apenas uma soluçáo, a solução válída; e, em
A consciência Faz parte dos fenômenos especíñcamente hu- cada vida, cm Cada condíção de vida, só um sentido, o verdadei-
manos. Poderíamos defini-la como a capacidade intuitiva para ro. A um quadro de Rorschach dá-se um sentidoz c o sujeito a
seguir o rasto do sentido írrepetível e único que se csconde em quem se aplica o teste de Rorschach (pr0jetivo) «desmascara-sc»
cada situação. Numa palavraz a conscíêncía é um ózgámsmtida precisamente em razào da subjetividade do ato mediante o qual
Mas nâo basta dizer que é um fenômeno humano; diríamos lhe atribui um sentido. Contud0, na vida não se trata de uma
amda que e exmmameme human0, p0iS, na verdade, partici- atríbuição de sentido, senão de um achado de sentido; o que sc
Pando da Condlção humana. está sujeito ao seu cunho carac-
106 terlstico, a sua fimtude. E claro que a consciência 107
pode levar o (32) V. E. ankL emz Die Kmfi zu lebem Bekenntnixse umerer Zeit. Gütersloh l963.
PSICOTÉRAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE EXIsSrENCIAL GERAL

faz não é dar um sentido, mas cncontra'-lo: encontrar, dízemos, pela palavra «Dcus». E por mais que esteja obrigado a scguir
e nâo inventar, já que o sentido dzz Uida mio pode ser irwentadm a sua co“nscíência, dcla dcpcndendo quanto ao scntido duma
zmm tem que ser dexmberm situação concrcta, c por muito quc duvíde (mesm0 quc scja até
O seguinte episódio talvez nos possa esclarecer até que pon- o último suspiro) sobre sc a sua consciência sc engana ou nâo
to, malgrado toda a subjetividade que porventura afete uma in- na situaçâo concrcta, - o homcm tem quc arcar com o risco
terpretaça'o, nunca falta, ao sentído para o qual ela intendc, um dessa possibilidadc e conformar-se com a sua humanidadc, com
mínimo de trans-subjetivídade. Um día, estando eu nos Estados a sua ñn1'tude. É o quc diz, aliás, Gordon W. Allportz «We can
Unidos, por ocasíão de uma discussão que se seguiu a uma das be at one and the same time half-sure and wholc-hcartcd»”.
minhas conferências, tíve que havemne com uma pergunta que Assim como o ser~livre do homcm c, añnaL o próprio ho-
me fora apresentada por escrito e estava vasada nestes termosz mem, não tcm nada de onipotentc, - assim também o seu scr-
«Na sua tcoria, como se deñne 600?›.› Mal passou a vista por -responsável está conñgurado dc tal Forma quc, nào scndo o ho-
este text0, 0 moderador da discussào dispunha-sc a pôr de lado mem oniscicnte, tem que decidir tão somentc «como soubcr c a
0 papel donde constava a pergunta, enquanto me comentavaz consciência lho permitir».
«É absurdo! Como se define 600 na sua tcoria!...» Nist0, peguei Sempre que se acha o sentido único de uma situaçâo ou se
no papeL dei-lhe uma vista de olhos c dísse categoricamente añrma a sua concordância ou discordância com um valor uni-
quc o moderador - um teólogo proñssionaL note-sc dc passa- vcrsaL o papcl da consciência parecc dcscmbocar numa captação
gem - tinha-se enganado; com efeito, no origínal inglês, a pala- de conñguraçóes (Gestaltefrasxen); e isto em virtude do que nós
vra «GOD», escrita em caracteres de imprensa, náo era nada fá- chamamos vontade dc scntido e James C. Crumbaugh e Leo-
cil de distinguir de 600. Graças a este equívoco, cfetivowsc um nard T. Maholick deñnem como a capacidadc especiñcamcme
teste projetivo ínvoluntário cujos resultados, no caso do teólogo humana para descobrir a conñguraçâo do sentído (Sinngesml-
e no meu próprio, como psiquiatra, acabaram por ser comple- tm), não apcnas no real mas também no possíveVÍ
x
tamente paradoxais. Fosse como fosse, tendo rcgressado a
Em certa ocasião, Wcrtheimer sustcntou o scguintez «The si-
Universidade de Viena, onde leciono, não perdi a oportunidade tuati0n, sevcn plus seven cquals... ís a Systcm with a lacuna, a
de que os meus alunos americanos observassem o texto origi-
gap (um lugar vago). It is possíble to ñll the gap in various ways.
nal em inglês. O resultado foi que nove estudantes leram «600»
The one complction - fourtcen ~ corrcsponds to the situati0n,
e outros nove leram «GOD», havendo entretanto 4 a hesitar fíts in the gap, is what is structurally demandcd in this system,
entre estas duas interpretaçóes. O fato é que - e aqui é que eu ín this place, with its Function in the wholc. It docs justice to the
queria chegar ~ estas interpretaçõcs nào tinham o mesmo valor; situati0n. Other completions, such as Hfteem do not HL They
pelo contrári0, só uma delas se pcdia c exigía, e cra estaz o autor
da pergunta pensara única e exclusivamente em «1Deus» e tinha
(33) Í›)_*Vr/IU/ugim/ Aludvlsjíar Cutidmmç Hnrvard Edumtionnl Rcvicw 32, 573. l962.
entendido a pergunta aquele que, ao lê-la (e precisamente sem (34) ). (Í. Crumbuugh c L T. Maholick. 17'Je CIIJf quthnÍelcÍ «Wi// to 1V1m›1ing»,
108 _]0urn;1l ofExisrcnnlal Psychiatry 4. 42. l96.'›. 109
nada se pôr a decifrar), a rivessc ínterpretado no sentido aludido

' um-
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
,-\\ ANÁLISE DUSTENCIAL GERAL

are not Lhe rivhot ones. Wc have here the concepts of tbe demands csta liberdade consiste única e exclusivamente na escolha cntrc
_afrbe situdriom tbt '“rtquirrdnc$s'. “Requirementx” ofsucb an or- duas possíbilidades: ouvir a consciéncia ou fazer-lhe orelhas de
dzr arz abjtmw qualiñeyÊÍ mercadon Reprima-sc e sufoque-se sístematicamente. meto-
\."ore-se, alias'. que, para além do sentido vinculado a uma dicamenta a Conscíência, e logo se cairá ou no conformismo
simac2_'o irrcpcúvel e un'ica, há ainda un1'\›'ersajs de sentido, que ocídental ou no totalítarismo orientaL - conforme os «valores»,
sc prendem à tondilíon lmmaine enquanto taL e é a estas pos- cxorbitantemente generalizados pcla socicdade, scjam propostos
sibilidades gcrais de sentido quc se chama valores. É verdade ou impostos pela força.
que o homcm uperimenta uma degradação de valores, prin- Dissemos que o caráter de conHito dc que aqui sc trata é
cípíos éticos e morais, de validade mais ou menos geralz com
inerente aos valorcs. Mas nem sequer ísto é assim tão garantido,
o decurso da história, esses valores degradam-se efet1'vamente, porque as possíveis ínterferências entre as csferas de validade dos
cns'tzhzan'do nos quadros da socíedade humana. Esta degrada-
valorcs podem ser simplesmcnte aparentes, por se veríñcarem
ca›'o._ porém, vcm a ser para o homcm o preço pago por declinar mediante uma projeção e, por conseguinte, mediante uma per-
dc si 05 conHjtos. Nâo se trata aqui propriamente de conHitos da da sua dimensão. Quer dizerz só quando pomos entre pa-
dc consdénc1'a;de rcsro._ tajs conHitos náo existem na realídade, rênteses a diferença dc nível hierárquico de dois valores, é que
poís é incquívoco o que a consciéncia dita a cada um. O caráter cles paIecem intcrferir um no outr0, colidindo entre si: é o que
de conflito é antes ineremc aos valorcs: na verdade, ao contra'n'o sucede com duas csferas, se as proietamos num plano; as ñguras
do :\entuí0' das situaçocs' irrepetíveis c únicas de cada caso, que é resultantes da projeção colídem entre si, muito embora as esferas
comveto (e, como costumo dizen o sentído sempre é sentido não tenham sído tomadas por scparado no espaç0.
só adpmomnz. mas também zzdsitzmzionmz), os valorcs são, por
deñniçáo. abstmtos zmz'vmaz's-de-:entido; como tajs, não valem
pura e simplesmeme para pcssoas inconfundíveis, ínseridas em TRÊS CATEGORIAS DE VALORES
situaçóes irrepeu'vcis. estendendo-sc a sua validade a uma área
ampla de situaçócs repetíveis, t1'picas, que interferem umas nas Tentamos dcsenvolvcr os argumcntos nccesszüios para rebater
outras. Ha', portanto, situaçóes em quc o homem sc acha de- o ceticismo de princípíos que com tanta frequência manifestam
frontc de uma alternativa dc valorcs, pcrante a necessidade de os nossos doentes, fazendo frente, assim, ao niilismo. Mas, mui-
escolher dentre princípios entre si comrar'ios; e, como cssa esco- tas vezcs, faz-se ainda mister tornar visível a ríqueza do mundo
lha não deve ser fcita arb1'tran'amente, ei-lo de novo a reportar-se dos valores, o rcino dos valores em toda a sua plen1'tude. Real'-
à consciência e na dependêncía da consciéncia, que apenas lhe mente, de quando Cm quando convém que o homem não se fixe,
ímpóe decidir lz'wemente, - náo arbz'rmrz'ammte, mas com respon- por assim dízer, perantc um determinado grupo de valoresz quc
sabilidada Sem dúvida, ainda é livre em face da cohnsciência; mas não se aferre à sua rcalização, sendo, pclo contrário, suñcientc-
mentc «dócil» paIa sc deslocar a um outro grupo de valores que
HO (3)'› Emz Dommmtí nchde stcbology Un1'versin_' of Califomia Prcss, 1961 . cstcja mais aJém, se é que aí, e só aí, se dá a possibilidade de uma 111
rf VIDA
PSlCOTERAPlA E SENTIDO DA N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL

pede\ ao homem_ uma Conduta, de qualquer realização de valores através de ativida-


valores. A este respeitm a vida
realizaçâo de as oportumdades de_ A quem assim duvidar, talvez valha a pena referir a seguin-
declarada, uma adaptaçáo elástlca
elasticidade te experiência mentalz imaginc-se que um homcm, amante da
ce urn dos nossos pacientes a música, está sentado na sala de concertos e que, precisamente
algu.m, p0r Carecer de no instante em que lhe soam aos ouvidos os compassos maís
vida nâo tem sentido
añrmar que a sua de mals, temos que cha- tocantcs da sua sinfonía predileta, sentc aquela forte comoção
super 10r a sua atividadel Antes
um valor última análise, lé ind¡- que só se cxperimenta perante a beleza mais pura. Suponha-se
a atençao para o fato de que, em _
mar-lhc se 51tua ou agora que, nessc momento, alguém lhe pergunta se a sua vida
o lugar cm q uc um homem proñssmnalmente
ferente o que importa fundamen~ tem um sentidog a pessoa assim interrogada nâo poderá delx'ar
all ue faz; dizcndo~lhe que l
e, ~além I disso, o preencher de responder que valeria a pena viver, mesrno que fosse só para
c o mo trabalha
mcnte10e' qo
0a Uab modo f 1m-
.O que tem experimentar a vivência dessc doce instante (obs. 10). Com cfei-
1nser1d0.
deveras
tl o lugar cm qu e , añ naL se acha
a grandaza do seu ralo de açao, mas tO, embora sc tratc de um só momento, pela gnmdeza de um
po rtância nâo é, portanto, obrigações_ momentojá sepode medír d grandeza de uma vidaz a altura duma
do círculo das suas
apenas o fato de se desempenhar serrania não nos é dada pcla altura de um valc qualqucr, mas sirn
cumpre .as tarefas c.oncretas
Um homem simples que realmentIC
e, a despelto da sua v1da «pe- e exclusívamente pela aJtura do mais alto cume das montanhas.
impostas pela família e a profissão
altamente Colocado do que, por Assim também, o que na vida decidc do seu carátcr de scntido
quena», bem «maior» e mais
que, com uma penada, .p,ode sâo os pontos altos; e um simples momento pode dar sentido,
exemplo, um «grande» estadista
toma as suas dec1$oes retrospect1'vamente, à vída inteira. Senão, imagínemos ainda um
dispor da sorte de milhóes de pessoas, mas
. . homem que, empreendendo uma escalada de alta montanha,
sem prestar atenção à consciência.
Ida v,1da, m.- saboreia o arrebol dos Alpes nas alturas e a tal ponto o domina
Ora, o que nos permite compreender o valio^so
toda a majestade da natureza que se sente transido de emoção; e
dependentemente da e_streíteza das suas c1'rcunstanc1as, e prec1-
perguntemos-lhc se, depois dcssa vivência, ainda se podc consi-
samente a apreensão de toda a riqueza do reino dos valores. A
derar totalmente scm sentido a sua vida...
este propósito, importa frisar que nem todos os valores se cifram
numa realização mediante um ato criador. Ao lado daqueles que Ma5, a meu ver, há ainda uma terceira catcgoría de possíveis
poderíamos denomínar valores «críadores», há outros que se rea- valores. Com efeito, a vida também se revela, em princípio, ple-
lizam na experiência vitaL e que denominaremos «vivenciais». na de sentido quando náo é fecunda em criaçóes ncm ríca em vi-
Sâo os que se realizam, por exemplo, ao acolher o mundo, na vências. Quer dizer: há uma vasta série de Valores fundamcntaís
entrega à beleza da natureza ou da arte. Não é lícito desdenhar Cuja realizaçâo se cifra no modo como o homem se insere numa
a plenitude dc sentido que também podem confcrír à vida hu- limitaçâo da sua vida. Precisamente no modo de se comportar
mana. Talvez haja quem duvíde de que o sentiâdo atual de deter- perante este estreitamento das suas possibilidades, abre-se um
minado momento da existência humana possa ser preenchido novo e especíñco reino de valores, que sem dúvida algurna se
112 numa simples vivência, isto é, para além de qualquer fazer e conta entre os mais altos. Assim, urna existência, por muito em- 113
_Í.
E SENTIDO DA VIDA
l)\'ILD'l^EPu\PI.-\

só o será em valores ora o poderemos satisfazer por meio de um ato. ora por meio da
re'1]Íd1dc. porém.
ça ~ na
pobrccida que p.1re. ainda uma última oportu- nossa entrega a uma possibilidade de vivência. Scndo assinn até
vívcncmls - , pode ofe recer
criadorcs e de tudo, r'ealiznr valores_ à alcgria pode o homem estar «obrígado». Neste scntido, alguém
. d ,rto a majon p;1ra. apesar
de atitude (Ezmtellzmgswer_ que. encontrando-se sentado num ônibus e, ao prescncíar um
mdadcv C ecg Hes valorcs, valorcs
depcnde da atitlu.d.e qdue dollonAl'1.en'1 adote pôr de sol soberbo ou ao notar o aroma dc acácias cm Hor, em
imutách hAâpOSSlblllda C e rcd lzar ehstes Vez de se entregar a esta possívcl vivência da natureza. continua
pCrIHHIC um dcstino um 0_
se vcrxhca, portantm quan 0 a ler 0 Seu ÍomaL de CCHO m0d0. poderia ser classiñcado, nessc
valores de atitude sempre pode fazer
l perante o qual nada mals momento, como «esquecido do seu dcver».
mem 1rmsta um destino i Como o suporta, T1
Í " supc)rta- 0; tudo está no lmodo Para Compreendermos a possibílidade de realízar as três ca-
c'
LUC .'1c1ta-Io. rata_
mrreguc sobre sx çomo uma cruz. tegorias de valores mencionadas, numa sucessão unita'ria. quase
tludo dcpende de que o
no sofrimento, a dignidade
-se de atitudes tais comoz a valentia dramática, podemos referir aqui a história da vida de um docn-
desde quc os valores de atltudc se ¡e, cujos últimos capítulos passamos a esboçan Tram-se dc um
na ruína e no malogro. Ora,
categorías de valores. ñca pa-
incluam n a estkra das possívcis homem novo que, em consequência de um tumor nào operá-
nunca nla realidade e propria-
teme que a c.\'istênci;l humana veL localizado na parte superior da coluna vertebraL estava in-
a wda do Ímmem tonserua
mentc sc podc considcrar sem sentido: ternado num hospítal. A atividade profissional tínha-lhe sido
Enquanto cstá
0 M scurida até uas últimas», aré o úÍrimo suspira proibida há muíto tempo; manifestaçóes de paralisia haviam-lhe
perante os va-
consc1'entc. o homcm tem uma responsabilidade cerceado a capacidade de trabalho. Assim. iá não tinha qualquer
lores, ainda que apenas se trate de val'ores de atltude. Enqumto acesso à real-izaçào de vdores criadorcs. Mas. nesse cstado. ainda
sua
tem um ser-conscicnte. tem tmlbéln um ser-responsa'vel. A continuava aberto para ele o reino dos valorcs vivcnciaisz man-
obrígaçào cle realízar vdores náo o deixa em png até o ul'timo tinha conversaçóes estimulantes com os outros pacicntcs (scm.
instmre da eñstência Por muíto limitadas quc venham a ser as ao mesmo temp0. deixar de os entreter. encoraiando-os c conso-
possíbilidades da real-ização dc valores, a realizaçáo de valores de lando-os): ocupava-se com a leitura de bons livros e. sobrctudo.
atitudc sempre cominua a scr possível. Assim se demonstra, por ouvindo boa música no rádio. Até que. um dia, não podia mais
outro lado, a validade da afirmaçío de que partimosz ser-homem segurar os auriculares; c as mâos, Cada vez mais parah'sadas. nào
signiñca ser-consciente e ser-responsável. podiam já Compulsar livro nenhum. Entâo imprimiu à vida a
De hora a hora. muda na vida a oportunidade de uma orien- segunda viragem; dcpois de tcr tido que deixar os valores criado-
taçào pam estc ou para aquele grupo de valores. Umas vezes, a res para se debruçar sobre os valorcs vivenciais. viu-se foirçado a
vida cxigemos que rcalizemos valores criadorcs; outras, que nos orientar-se pura os valores dc at1'tude. Acuso poderemos interpre-
oricntcmos para a categorm dos valores vivençiais. No primeiro tar de outro modo o seu comportamcntm tendo em conta que.
caso. tcrcmos. por assim dizen que enriquecer o mundo com 0 a partir desse rnomento. se pôs a servir de conselheiro e modelo
nosso agin no segund0, teremos que enr1'quecer-nos a nós mes- aos companheiros de hosp1'tal'? .E. de Eltm suportou com vdcmia
lH mos atrnvcs das nossas vívências. O ímperatívo
do momentm as suas dores. No dia da morte - que ele conhecia dc antemão - llí
!x

PSICOTERAPIA E SENTIDO DA \'ID.-\ N .\__\'ÁLISE L'\I'STE\.'CIAL GEML

ficou sabendo que o médico de plantão tinha sido cncarregado Em primeiro lugar, e contcstando mis tcntativas, forçoso é
de lhe aplicaL a seu tempo, uma injeçâo de morñna. Poís bem: reconhccer quc o médico não foi chamado a julgar do valor ou
quc fez o nosso doente? Quando 0 médico apareceu para a visita não vaJor duma vida humamL A sociedadc humana apcnas o dcs-
da tarde, pcdiu~lhe que lhe desse a ínjeção mcsmo antes de sc u'nou a prcstar ajuda, onde pudcr, c a aliviar as dores, onde tiver
dcitar, para não ter dc acordar de noíte por causa dele. que fazé-lo; a curar os homens, na medida cm que 15$'o estiver ao
seu alcancc, e a cuídar delcs, quando tal já não lhc for possíveL
Não cstívessem os pacíentcs c scus familiarcs convcncidos dc quc
EUTANASIA o médico toma a sério e à letra essc mandato, c logo desaparcce-
ria, duma vcz para sempre, a conñança que ncle deposiLam. O
Posto ist0, impóc-se pcrguntar se em alguma circunstamcía doentc em nenhum momemo saberia sc o médico, ao aproxímar-
estamos autorizados a privar um dloente, já votado à morte, da -se dele, vem para ajuda'-lo ou para mata'-lo, como carrasco.
oportunidade dc se entregar à «sua morte»; da oportunidade de Esta posicafo de princípios também náo autorím nenhuma
cncher de sentido a sua existência até 0 scu último instante, ain- excccafo quando, em vcz dc sc tratar de doenças físicas incura'vels',
da que, no caso, se trate apenas de realizar valores de atitude. sc trata de doenças mcntais, ígualmentc incuráveis. Com cfeito,
Isto é, temos diante dos olhos o problema de saber como o pa- quem se atreveria a profetizar por quanto tempo se tem de con-
cientc, o «sofreme», se comportará perantc os seus sofrimentos siderar incurável ajnda uma psicose rida como tal? E, antcs de
quando estes chegarem ao max'¡mo e ao ñnaL O morrer do pa- mais, não nos é lícito esquecer que o diagnósrico duma psícose
ciente, contamo que se trate real e exclusivamente do seu mor- tída por incurávcl pode muíto bem ser algo de subjetivamentc
rcr, faz parte, a rigor, da sua vida e encerraJha numa totalidade certo, mas sem quc as manifestaçócs objetívas da mesma nos
de sentido. O problcma com que aqui dcparamos é o problema permítam ajuizar do ser e nâo-ser do paciente. Foi-nos dado
da eutanas'ia; não no sentido de alívio prestado ao moribun- conheccr o caso de um homem que, tcndo dc ñcax entrevado
do, mas no sentido mais amplo de «golpc de misericórdia». A na cama cínco anos inteiros, a ponto de sc lhe atroñarem os
cutanas'ía, no sentído mais estríto da palavra, nunca constituíu mus'culos das pcmas, precisava também de que o alimcntassem
problema para o médico; a mítigação das an'sia$ da morte me- artiñc1'almente. Se se tivesse moscrado cste caso a certos médicos
díame medicamentos é coisa evidente, sendo igualmente uma que costuma haver pelos hospitais, com certeza que algum deles
quesrão de fato o momento indicado para cfet1'va'-la, de modo teria formulado a pergunta típicaz não seria melhor acabar com
que é supérHuo discuti-la no plano dos princípios. Mas, afora a vida dc um homem assim? Pois bemz o Futuro tinha preparado
este tipo de alívio ao moríbundo, para além da eutanas'1'a no a melhor rcsposta a essa pergunta Um dia, o nosso pacientc pe-
sentído cstrito da palavra, têm-se feito tenta_t1'vas, e em var'íos diu quc lhe consentissem tomar uma rcfeicafo normal e mostrou
lugares, para consentir legalmente na livre elíminaçáo das cha- vontade de se levantaL Fez exercícios até conscguir suster-se ou-
madas vidas ínúteís. A cste propósito, cumpre alinhar as seguín- tra vcz nas pernas, cujos mus'culos se haviam atroñada Poucas
116 tcs consideraçóes. semanas depois, deram-lhe alta e em brcve proferia conferéncias 11'
mxwmw m ›\ Y ssmuw m\_~.D\ _\\ k_\'_-\USE E\'L'=S I'E\.'L^L&L GER\¡

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¡_\..xgm da mmwíbilxlhdc ds algmns enrêb n'd.¡dc de cspírito. mprcsennuem uma bma monómia pm a

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nmkmx quc em púbíiax mm mda \_› Wn x mmun1'dade. Todnim quc dizer desra aroumt›cnta~g.1“'03
jmmsna \ ir J cxpfw
aut meàu mx~z Ôã tõ.
\_'.x rtxxlidadà os idíoms. que pelo menos guzãllm um carrínho de
mào u du~=
. he stvaiyem ~

vr;.1m'vc:¡\ V.u
nu'o. ml~vez até seiml mús -produtivmv do que. por excmpla
. _ l ..
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mr qus aluzcm
- .'LQllmànliíñÇe
§
Ou 2\~"...*._ É ÀS MÍ ' 1 . 1 1 05 velhinhos scnis que \^cotbmm dcntro dum asilo: e. no cnmnm
~ ã , NFM ,~.~'_d*[\“r:\'°.
Ií L * * ~ “ pt
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mL um ámñnã psmtam 90 Rm 05 mcsmos que .~e“ JIÊ^_'1'F&II1 ao critério de utilidade pam a comu-
- ~ r yr ~;m_-x mxxx m müimx mmo que em
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-u< tn r « .'\.n"i~\tx~.
_ T~.\..< a ~ §
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vonv....\à enàmm rsmm~ ~
de dccidir pda nidadc cermmeme mh*aç.m'.1m a ideia de mcrmináJos com
__-. su
mprmrn:..x_á.a'u~ d
, x pom rermü Eusx na mem mzâo de impmduúxid;1de. É quc todos tcmos de
' imitir uue o pmprm dosmc
w mowm mdo uâ -'.'
o mpirim 0 mfo imçediw dg mnhslxxwr que um homem que esri mdmdo pclo amor dos seus
à vkia xP 2 noirs qzze ãne cnmâw
y

Mnr nui mlmimmmos num mpmxnm o obiem de todo em todu insubstimíveL de\.~“e amon
§ Lwrvcààut áa sua dàTÂ ..vum.'¡á.m“e.
diívmmsz o mcdxco rcm quõ bajmndo i\.\*0 p.Lm que a sua xida tenlm um sentidm mhda que
L~|L:~Lk:0
Á dc xixum con~:m"'emulmte u
e do direim de viver punmzsme pasiva Pelo visnm ncm toda a cmue mbe que xafo
imü _«*\ gnxlm ~ no ~..:-»'1.n'..ío a..› mnmde
a

mi mnmde c d1m'm_ 1ñnal n crimçgs mcntalmcntc atrmdu as que. mx geml pre-


dn uxlmnrec nm:c.¡. sxxxmmx pua Êne timr
de um mchco novo~ dmlcnte no Ru Carátcr de dcsmlidauz mads tema e cuidadoauw
É mufro :"L.xt«m-n'vo. s ôiíô mswim o caso
mcntc sào amadu e Jmpamdas por seus púsz
úúzmdo mr um manmxmmnm _mr ek íá mrremmeme diag-
thÃCidà Qx m~.-.;:§ tcnurmx snsmzlão mm rmçoex_:' nqmúus
r
Qumto a mim. a obrioabção incondicional de ›.11*\ar*. que o
de urim. 9m°~1§mi3do 3 deis De_.i3 ée ourrm docmesz mu tbi medim tem sempre quc pxmL nào o ahmdona nem tqyuer
m'ut3ã: o àxmm mm no:'te. m“°hou-“.\ no Iabomtóño c efenmom qumdo ›e" lhe depar~a um pademe quc tenha tcnmdo matam
por gn mnu n megãa Em pmgrddndo a doençL rcmiaxxu c cuia xída se adwc agom prexm por um ño. .\'esm situasâm o
uma tçanrañu àis mçcidh TmhxiL q_uc tczs o medico dorntef n1td1"'co enmm o pmblcm;1 de mbcr se dcve ou nâo entrgcsxr o
Camsçou ~; àuxiàar csda wz msis do primcim dz'.1-gn.,m'tim - suicida à morte liutmente ñcolhidaz sc lhe é lícito opopsc à sua
ai-ux^" mm - qm m7mz e. ao ~cn:tir mcrismews no Hgada entmu mnmde dc x suicidar~. mmifesmda iá na prÂtiGL ou x tem quc
1 diLyamácar àkurbfios bepátims inotênsixmz Qucr dizcrz sem resp6im>hn Talvez se pudmw dizer que 0 med'ico que intcném
s
"\.,'*?.à4.\'°f. P~...-:\'1n'-; e mga1-;\;=-$: 3 sí m°~..:mo. pmkuneme ms tcmpeuticsmente penmte uma tentatim dc suicídio mz' o papd
dc nWrer x cbelmxí Osz é exa~ de dcsu'no. cm vez dc dM ao desrino lims curso. Mas a ism obie~
wncms àxa vomzzde tamm nos' 0 sthm se o adestmou u'\'cx.\“e sido deLm morrer 0
mkwhms mlwr :i...m3 mmdo da vida aqui em quesr.ío. ese xxdcsúnm tcria têito o pos-
cíuús rbrem mm Íhmüí sível c o imposível pan quc a intcntnçào med1"ta Lh'cg.1:m** mrdc

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PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA N ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

OpOITLlHâITlCHÍQ mamà que só nesse azxo, apemr de tudo, se encontrasse mais tardc
o «destino», muito _ ,d'
Seja como for, mal este .me, 1lco uma outm sazd'a, - mesmo que assz'mfosse, digo, qualquer tentativa
alguém ainda com v1da,
dcmaís.
, - S do médico
poc nas ma.0 mo médico e em nenhum caso lhe serla hc1to dg suz'czd'z'o mreceria dejustficaçáa Com cfeíto, a convicção sub-
tem quc aglr C°_Z ara decidir sobre o ser ou nâo ser, quer por jetiva é añnal a mesma ñrme convicçâo cm todos aqueles que
arvorar-se em Jul a›CP05m0visâo pessoaL qucr por puro arbítrio. se decidem pelo suicídio, e nenhum deles pode saber de ante-
razões ligadas a su máo se precisamente a sua convicção é objetiva e fundamemada
0u, pelo contrário, não Virá a scr desmentida pclo acontecer das
próximas horas, aquelas horas que, dadas certas circunstâncias...
SUICÍDIO
não mals v1vera.
as
. problema do suicídio discutindo Num plano puramente teórico, scria perfeitamcnte con-
Até aqui, abordamos o
que o observa de fora. Tentemos cebível que um suicídio se just1'ñcasse, uma vcz ou outra, como
possíveís posições do médlco d hdizer, de den-
l assim
vendo-o, por sacrifício conscientemente oferccida Contudo, bem sabemos
esclarecer agora este problema,
sob o prlsma o omem. que se pela experiência que os motivos de um suicídio desse tipo tam-
tro, procurando compreendê-lo
ao mesmo tempo os mOthOS da bém brotam muitas vezes dum ressentimento ou que, mesmo
cansou de viver, examinando
sua justiñcaçâo interi0r. em tais casos, se acaba por divisar ainda outra qualquer saída
suicídioíbalanlçoz Com isto para a situação aparentementc sem perspectiva. Assim, prati-
Já se tem falado do chamado
poderla dec1d1r por u.ma camente, pode dizer-se que o suicídio nunca tem justiñcaçâa
quer-se dizer que um homem só se
que faz da sua v1da Nem sequer 0 suicídio expiatórioz porque, assim como torna
morte voluntária baseando-se num balanço
balanço do lpra- impossível - no sentido da realização dos valores de atitude - o
inteira. Até que ponto este balanço, enquanto
o vimos ao examlmar crescer e amadurecer pela dor genuína, assim também impossi-
zer, tería que ser forçosamente ncgativ0, já
aqu1 nos bilita o reparar, dum modo ou doutro, a dor inHigida a outrem.
o problema do «prazer como sentido da vida». O que
o O que 0 suicídio faz, isso sim, é perpetuar o passado e, em VCZ de
ocupa, portanto, é apenas o problema de saber se alguma vez
balanço do vaJor da vída pode ser tão negativo que o continuar arrancar do mundo uma infelicidade ocorrida ou uma injustiça
a viver chcgue necessariamente a añgurar-se sem valor. Ora cometida, arranca o eu, e nada mais.
bemz nós temos por duvidoso que o homem esteja em condi- Detenhamo-nos agora naqueles casos cm que os motivos de-
çóes de fazer um balanço da vida com a objetividade suñcientc pendem de estados enfermiços da alma. Dcixaremos em aberto
Isto vale designadamente para a añrmaçáo de que uma determi- o problema de saber se, numa sondagem psiquiátrica estrita e
nada situação nâo tem saída ou tcm por única xsaída o suicídio. profunda, poderia vir a descobr1'r-se alguma tentativa de suicí-
Por muito que essa añrmação corresponda a uma convicção, tal dio que não tivesse a menor base psicopatológica. O quc aqui
convicção continua a ser algo de subjetiv0. Mesmo que apenas nos interessa é antes estabelecer que, em todos os casos, estamos
um dentre os muitos que tenmm o suz'czd'z'0, por extarem convenci- obrígados a demonstrar aos cansados da vida o contrassentido
120 dos de mío Iuwer mzd'a panz a sua situaçâo, náo tivesse tido mzá0; dO suicídio, o incondicional caráter de sentido que a vida sempre 121
rr

PSICOTERAPIA E SENTIDO
DA V1DA M ANÁLISE EXISTENCIAL GERM

e uma argumenta- Sempre tem um sentid0, se estivermos em condições dc lhes dar


um a crítica imanente
e isto, mediante à vida um contcudo, de os levar a encontrar na sua existência
tCm, ~ quer d1"Zer› recorrendo aOs
em elementos objetivos,
çáo baseada haverla que Chamar-l.hes) uma meta, uma ñnalidadc; por outras palavras: sc os sabemos
erapia. A este pr0pósít0,
mcios da logot to de que o cansaço de vwer Pôr diante de uma missão. «Quando se tem na vida algum "por-
antcs de maís, representars qué”» - diz Nietzsche - «qualquer “como” se pode suportar»
nunca um sentimento podendo
é um sentimento, não lhes cabe em sorte (obs. 12). De fato, o saber-se incumbído duma missão na vida
um argume nto. O certo é que
porém, Sim, o que tem um valor psicoterápíco e psico-higíêníco extraordinário. Es-
1
a solução dum problema.
o que procuram, suícídame é tamos em dizer que nâo há nada de mais apropriado para quc
fazer com alguém que esteja decídido zz
que
tcmos
repetidamente quc um su1c1d10 nao pode um homcm vcnça ou suporte diñculdadcs objctivas ou transtor~
mostrar-lhe T
50 bretudo lhe fazer ver Como ele se nos subjetivos do que a Consciência de ter na vida uma missão
problema algum emos que
resolver um pm a cumprir. Contanto que ela seja talhada, por assim dizer, com
de xadrez quwa colomdo pemnte
assemelba zz um jogador ax pedw do caráter pessoal, representando o que efctivamente se pode dcno-
dfiitiL joga fonz
blemzz que Zbe parece extremamente problema de xadrez. Com
l a minar uma míssáo; e scndo tanto mais eñcaz, de resto, quanto
com z'sso remluer qualquer
'o o, sem mais pcssoal for. Tal missão torna o scu titular insubstituível e
nenbum problema se resolve deztando
sucede também a55ím:
esse jogador de Xadrez não se atém às conferc-lhe à vida o valor dc algo único. A frase de Nietzschc
fora zz vz'da. E, assim como
viola as regras do Jogo da v1da um que citamos dá a cntender também que 0 «como» da vida, e
regras do jog0, assim também portanto quaisquer circunstâncias penosas que a acompanhem,
voluntária. Estas regras, e claro que
homem que escolhe a morte
preço de tudo; mas com certeza que passa para segundo plano no momento e na mcdida em que
não nos exigem vcncer a
luta (obs. 11), para o primeiro plano passar o «porquê». Mas há maís: uma vez
nos impóem 0 nâo abandonar Jamals a
atingida, a Lompreensão do caráter de missão da vida tem como
tirar do mundo todas as cau-
Ev1'dentemente, não precisamos consequenaa que, a rigor, a vida se torna tanto mais plena de
seu propósito aqucle que
sas de infelicidade para afastarmos do sentido quanto mais difícíl se tomar.
faZê-lo. Não neces-
está decidido a suicídar-se; nem poderíamos
ao enamorado infeliz, c
sitamos proporcíonar a mulher amada
indigência, um
também náo se trata de arranjar, a quem sofre
A VIDA NO SEU CARÁTER DE MISSÀO
ordenado. O que importa conseguir é convencer estes homens
de que, não só são capazcs de continuar a viver sem aquilo que,
Além disso, se qucremos ajudar os nossos doentes a ativar o
por uma razâo ou por outra, não podem ter; mas também de
mais possível a sua vida, se os quercmos tírar, digamos assim,
que têm de ver uma boa parte do sentído da sua vida precisa-
da sua situação de «patiem» para conduzí-los à situação de um
mente em superar interíormente a sua 1'nfelicidade, em crescer
com eIa, mostrand0-se à altura do seu dest1'n~o, muito embora «agem», não nos poderemos contentar em levá-los à vivéncia da
lhes seja negada anuma coisa. Contudo, só poderemos levar os sua existência como ser-rcsponsa'vel perante as possibílídades de
122 nossos doentes a tomar a vida como um valor, como algo que realizaçâo dos valores; temos que mostrar-lhcs também que a

LJ
UJ
PSICOTERAPM E SENTIDO DA vmA N Asta EXISTENCLAL GERAL
na
e sem p re um Sím também cada homem, em todas as situaçoe$' da vidaa conta
' f
Í

' rcsponsavexs,
sao
cump nmento
'
missãoz por cujo ñ com um caminho único c írrepetíveL pelo quzl pode chegar à
. . ' a, .
Issao 65 eCI C . . er duPl°' C ' rajização das suas majs peculiarcs possibüidades.
desta mlssao om efelto” a m”'
m O car at'per especíñco m _ ' ' Pois bem. Se um pacíente vem ter conosco e nos d12' que
âmeLr dz bomem Pa bomem em Comommaa
- ' muda de hom rz bora,
ma mw › - de mdll P eJSOtZ muda tzzmbem ignora o sentído da sua vida, que as possíbilidadcs únicas da
rzr umco _ C_
com o mrlí de azda 5ztua,ao. Bastc-nos Sua existência lhe estão vedadas, podemos reph'car-lhe que a sua
do azrzífer irrepetível
em tÍeronên cia situaçãm (c0n- primeíra c mais imedíata missão cstá precisamcntc em dcscobrír
ue Scheler denominou uv alores de
recordar O q
, que valcm sempre c para tod05)_ a própria míssão e em avançar resolutamcntc ao cncontro do
uapostos aos valores «ctcrnos» l hora
de que a sua sentido da vida, no que ele tem de único c irrepetíveL E, para
sc escivessem à cspcra
Esres valores, é como ocla51ao 1r.¡-e_ mnto, no que sc refere especialmente as“ suas possib1h"dadcs in-
que um homcm a'prove1te a
chegasse, à espcra de
que se _delxa fpassar sera ocaslao teriores, no quc diz respeito, por consegm'nte, ao problcma de
pctível de reaJiza'-los; a ocasião sempre
e o valor de 51rtuaçaAo ñca Para sabcr como poderia decifran digamos assim, no seu ser a d1r'e-
perdida irremediavelmente
Ja se ve, port'anto: ciomo çáo do seu dever-ser, - nada melhor do que ater-$e à rcsposta
irreaJízado, - o homem desperdiçou-o.
humanaf o seu ca.rater rumcwo e de Goethez «Como pode uma pcssoa conheccr-se a si mcsmaf
cstcs dois aspectos da CXÍStÉnCÍa
Nunca pcla reHexão, mas sím pcla ação. Tcnta cumprir o teu
do seu caratcr delsentlda E, ahas,
írrepetível - são constítutivos
dcver e logo saberas' o que há cm ti. Mas, o que é o teu devcrÉ A
tempo quc nos devcmos o ter-
à ñlosoña existcncialista do nosso
algo cssencialmente exjgêncía do dia».
-se realçado a cxisréncía do hornem como
do vago conceito de Pode ser que alguns homens, não obstantc reconheccrcm o
concreto, que é «só mcu», - ao contrar'í0
So a551m, com esta caráter un'ico, dc missão, da sua vida, e apcsar de estarem tam-
vida da ñlosoña da vida de Outros tempos.
obrígatoríedadc. bém decididos a realízar os scus valores de situaçâo concrctos,
forma concreta, é que a vida humana adquiriu
como ñ- un'icos, considerem «desesperada» a sua situação pessoaL Ncstes
Não é em vão que sc dcsibnoa a ñlosoña existencialista
cxís- casos, o que temos que perguntaL antes de mais nada._ é i5toz que
losoña «vocativa» («appe/Íierende»). Realmente, a explicada
téncia humana, como algo de único e irrepetíveL encerra urna sígniñca «desctsl:›osrado».> É claro que o homem náo pode predi-
zer o seu futuro. Alías', nunca o poderá, precisamentc potque o
vocação (Appell apelo, chamada) para realíw as suas possíbüi-
dades únicas, que não se repetem. seu conhecímcnto do Futuro imediatamcnte inñucncíaña o seu
futuro comportamento, ao sabor da sua atítude mais ou mcnos
Sc. no sentido duma anal'ise da existência e ao scrviço duma
tenaz ou sugestionável; e, sendo assun', já estaria conñtrubrando
logoterapia, queremos Ievar os pacientes a conccntrar-sc o maís
possível na sua vidag basta mostrar-lhcs como a vida de cada ho- o futuro de outro modo, e a pr1m'itiv:1 preñsão deLmà de ser
mem tem um fím úníco, a que conduz um único caminho. Ncs- cxata. Mas enquanto o homem não puder profetizaL também
tc caminho, o homcm assemelha-se ao aviadog que, numa noite nunca poderá pronunciar-se sobre se o seu futuro encerra ou
nevocma e voando as' cegas, é «p11'otado» até o aeroporto. O não a possibilidade de realízação de valores. Uma vcz, um nbeoro
caminho indicado é o único a conduzir o piloto à sua meta. As-
TIM que tínha sido condcnado a trabalhos Íorçados por toda a vida.
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

embarcou cm Marselha, rumo à ilha do Diabo. No alto-mar, car por analogia à generalização do desespero, à dúvida que se
sobreveio um incêndio no barco que o levava: era o «Leviathan», Vê na humanidade. Vêm-nos dizer que «o homem é mau» no
que ñcou destruído na ocasiáo. O condenado, um homem ex- fundo de si mcsmo (0bs. 13). Em todo o caso, este pessímismo
traordinariamente forte, tend0-se libertado dos grilhões, salvou não autoriza ninguém a paralisar o seu agír. Se alguém pretender
a vida de dez pessoas. O feito vaJeu-lhe, mais tarde, um indulto. convencer-nos de que «todos os homens, em última anal'ise, são
Sc, estando ainda no cais dc Marsclha, tivesscm perguntado a egoístas», como se os aJtruístas só aparentemente o fossem, nada
essc homem se, na sua opinião, podcria ter para cle algum senti- mais pretendendo que libertarem-se dum eventual scntimento
do 0 resto da vida, com certeza que logo tcria dito quc não com dc compaixão, bem sabemos o quc lhe havemos dc responder:
a cabeça. Ê que, afmal de contas, nenhum homem pode saber em primeiro lugar, a climinação dum impulso de compaixão nâo
se tem aínda alguma coisa a esperar da vida e se algum grande é um Hm, mas uma consequência; em segundo lugar, o modo
momento por ele ainda espera. de manífestar-se esse impulso pressupóe já um autêntico altruís-
Nínguém tem 0 direito de apelarl para a sua própria insu- mo. Mas, além disso, poderemos objetar que valc para a vida
ñciência; portanto, ninguém tcm o direito de menosprezar as da humanidade o que acíma dissemos sobre o sentido da vida
suas próprias possíbilidades interiores. Por muito que um ho- indívíduaL Quer dizcr: o que decide sâo os pontos culminantes,
mem duvidc dc si mesmo, por muito que a sí mesmo qucira tanto na históría dos tempos como por entre as serranias. Bas-
fazcr justiça, metend0-se a magicar escrupulosamente a sós com tariam algumas existências exemplares ou mesmo cste ou aquele
a consciência, csse simples fato já, de certo modo, justíñca a homem concreto, a quem votamos um amor verdadeiro, para
sua vida. Com efcito, sucede aqui o mesmo que com 25 afliçóes justiñcar a humanídade como um todo. E se, ñnalmcnte, nos
em torno da relatividade e subjetividade de todo o conhecimen- fazem ver que os grandes e eternos ideais da humanídade são por
to (bem como com a Captaçâo dos valores): assim como tais toda a parte fementídos e aproveitados para distorcidamente sa-
aHiçóes pressupõem já a objetividade do conheciment0, assim tisfazer ñnalidades da política, dos negócios, do erotísmo pessoal
também o autojulgamento de um homem prcssupõc um ídeal ou da vaidade privada, também poderemos responder quc tudo
da personal1'dade, um dcvcr-ser pessoaL Um homem destcs já isso depóe a favor da obrigatoriedade geral e do poder impere-
tem em vísta algo de valor e, por isso, participa no mundo dos cível dcsses ideaisz com cfeito, se para tornar eñciente qualqucr
vaJores; desdc que esteja em condiçóes de aplicar a sí mesmo a coisa, é necessário revesti-la duma roupagem moraL isso apcnas
pauta dum ideaL é porque nâo podc estar totalmente privado demonstra, ao Hm e ao cab0, que a moralidade é eñciente; c isto
de valor. Efetivamente, atinge com isso já um nível quc o salva; sígnifica que ela é capaz de atuar sobre os homens precisamente
tendo conseguido elevar-se acima de si mesmo, entrou numa em virtude da moralidade que lhes é própria.
regiâo do espírito e conñrmou a sua cidadania num mundo do Por conscguintc, a missão que um homem tem que cumprir
espírito, cujos valores passam a ser-lhe inerentes. uNão tívcssem na vida, sempre na base da vida está presente, nunca, em príncí-
qualquer coisa de solar os nossos olhos, e nunca o sol podería- pio, sendo impossível de cumprir. Nestes termos, o que em geral
126 mos contemplar...» este um pensamento que se poderia apli- interessa à anal'ise existencial é fazer com que 0 homem cxpe- 127
E SENTIDO DA V¡DA
ñPSICÚTERAPIA

pelo cumprimento
a resp onsabílídadc
rímente vi vencíalmcntcm aís 0 h' omcm apreender 0 caráter de
quanto
da sua míssão; lhe parcccrá carregada de sen_
que a v1d a tem. tanto maxs
missáo que o homen1 sem
consciência da sua
vida. Ao passo
tido a sua símplesmenre dado
a vida como algo
responsabilídade cncara elv -la . com 0 cará_.
-ogea vê
' gf
a an '
aJ<'lse ' ensma
cxxtencml
's
'
e ebenImt), 1\/Ias aqul
(Gdg
é cncomcndado (Aufb7/Jezt).
ter c 131go que lhe ainda o segumt6: ha homenS
demos dcixm de observar .

assun. numa
. a

a' O
vivcndo a wda, dlgamos
noque ao mais um passo. a. mlssão,
quem
-
d imensao ue WJ maís longa _ Sáo homens . para
_ x
qualquer coisa dc transmva Epenmentam
por assim qdízen é
a vivéncía de uma insnância donde a míssão
juntamente com ela, l ~
sua vivênc1a, váo ao encontro da instância que 05
Ihes vem. Na
a missáo como mmdara A Vlda de¡-
íncumbc da missão. Vivem
dc um mandante transcendente.
xa transpareccr neles a prcsença DOS
' desenh ar um dos raso
E é com Isto,
' a meu ver. que se podena
homem em cuyo ser-cons-
essencíais do lwmo ze'/zg'ío›'m': aquele
a mlssão vnal e o
cíentc e set-responsávcl se dâo conjuntamente
mandante que lha confere (obs. 14).
Este
Aprcsentamos o ser do homcm como SCr-resp0nsavel.
reahzaçáo de
scr~responsável é sempre um ser responsável pela
vaJores. Pois bem: ao fal.armos destcs vaJ'ores, díssemos que cum-
pria ter também em conta aqueles quc são irrepetlveis, os «valores
de síruaçáo» (Scheler). As oportunídades de reahzaçao de valores
adquírcm assím um cunho concreto. Convém salientar, porém,
que náo se vinculam apenas à sítuaçào, pois se Iígam também à
pessoa, varíando não só de hora a hora, mas igualrnente de pes-
soa para pessoa. As possíbílidadcs quc cada homcm tem para sí, e
exclusívamentc para sí, são tão especíñcas como as possibilidades
quc a sítuação hístórica ofêreca no scu carátef irrepctíveL
Numa visualízaçáo analítico-existcncíal rigorosa, não pode
128 de|x'ar de se nos añgurar ímpossível uma missáo vital vzüida
psICOTERAPIA E SENTIDO DA v1DA A) ANÁLISE
EXISTENCIAL GERAL

ção do seu objctivo, Sempre ínterrogado. Ora, 0 instinto que, como vímos, conduz
a rcnunciar a uma consecu
estar disposto o homem às míssóes da vida que lhc são mais peculiarcs, guia-o
assintótica.
que náo seja apenas 0 também na resposta as\ pcrguntas da vida, na responsabilidadc
a resumir tudo o que dlssemos sobre
S a g ora passamos do pcla sua vida. Este instinto é a consciência. A consciência tcrm a
.

chegamos a uma crmca radlcal


I -

sentido da vida,
probl ema do da vida, sem mais,
sua «Voz», «fala-nos», - eis um fato fenomenicamente indíscu-
pr oblema do sentido
e

problema como tal. O posto, se nos seus termos


tíveL Acontcce, entretanto, que o falar da consciêncía é sempre
porquanto está mal
carece de sentido, e em cada caso um responder. E aqui, considerado psicologica-
vagament e «a» vída e nâo, em concreto, «a
apen as se considera mente, o homem religioso é aquele que, ao atender ao falado,
sc nos remo ntamos a uma reHexão sobre
mính a» cxistênc1'a. E, cXperimenta a vivência de alguém que lhe fala, sendo portanto,
nossa vivênaa do mund0, tcremos quc
a estrutu ra originária da Por assim dizer, homem - de ouvido mais agudo do que 0 náo
vimgem copemíazna: é
da vida uma
dar ao pro blema do sentido religiosoz no Colóquio com a sua Consciência - essa conversação
perguntm ao bomem 0 que o bomem tem
a própríd uida quefaz mais íntima quc se dá a sós consigo mesmo - o seu Deus é o
mas ser inlterragzldo pela vida e à vida
quefzzzer mío é ínterrogan interlocutor que o acompanha (obs. 15).
responder à w'da, tornanda-se «re_pson_
mpondm o bomem tem que
que o homem dá s'ó podem ser
szíwbyí Entretanto, as respostas
ntas vitais» concretas. E na respon-
respostas concretas a «pergu / n o PRINCÍPIO DA HOMEOSTASE
dá a sua resposta; e na proprla
,

sabilidade da existênaa que se E A DINÂMICA EXISTENCIAL


'
existência que o homem «efet1va» o respon der- lh e \as questoes
'

quc lhe são próprias. Na pra'tica, a logoterapia acaba por estabelccer um confronto
entre a existência e o ZogoL Em teoria, não faz mais do que tomar
Talvcz não dcixe de ser oportuno referir aqui o fato de que a
o logos por motivaçâo da existência.
psícologia evolutiva também salienta que o «extrair um sentido»
Entretanto, salta à vista uma objeçãoz confrontando a exis-
se veriñca numa fase der desenvolvimento maís elevada do que
tência com o Zogos, numa ordenação da pessoa ao mundo do
o simples «dar sentido» (Charlotte Bu"hler). Assim, o que tenta-
sentido e dos valores, não se estará exigindo demais ao homem?
mos «desenvolver» logicamente mais acíma - isto é, o prímado,
Prescindindo de que hoje em dia há menos razóes para temer
aparentcmente paradoxaL da resposta em relação à pergunta -
semelhante coisa, cumpre observar que tais receios são radi-
cortesponde perfcitamente ao desenvolvímento psícológico; e
funda-se no experimentar-se o homem a si mesmo como alguém calmente descabidos, na medida em que ainda se apoiam no
príncípio da homeostase, ultrapassado já desde v. BertalanEyMÍ
(36) Esta expressão - «[ornando-se responsávcl» - é traduçâo incomplcta, se bcm quc
No âmbito da neurologia e da psiquiatria, foi Kurt Goldstein38
íncvitáveL do original alemão. O Auror diz que o homem utcm quc responder à (0U
plela) 'vida» rcíterando a ideía com o vcrbo urr~antwarlm (antwortm = responder), que
da ongcm ao adjetivo uerzmtwortlicb (responsável). Assím, em lnLgua alemã, pode-se (37) Problemx oszfe', Nova Iorque, 1952.
dizcr que o homem repsomzíuel é aquele que, na ordem de ideias dcsenvolvidas pelo A., (38) Human Ntzture in tbe Líglyt ofPsyrhopathology, Harvard University Prcss Cam-
130 rexpondt à vida. (N . T.) bridge, 1940. 131
rf 1151ÇOTEIMPIA E SENTIDO DA VII)A m ANAIISE l-.'XI.S"I'ENCIAL GERAL

qu c o princípio da «temion reduc_ other hand, tOO hlgh a satisfacríon indícatcs pathology»-“' A cm_
uiu demonstrar
quem conseg amente as hipóteses psicana. relaçao normal cntre a imagcm rcal de sí mcsmo c a ídcal
COlltlnLl díz
a quc 5 C rcportam
tion», a rigor, um princípio pa_
.. c

Cle, podeua caractc-rlzar-se pclo cocñcícntc de + 58 , l

nâmicas, TCPYCSCH[9.,
líticas e psícodí s c ajusta ao homem é o
patcntez o quc normalmente O Por 155°› ÊPÊrfeltamemÊ ComPrecnsívcl que os autores amc-
IOlÓgÍCO
ientar-se cm direção aos Valores, e não ricanos - e llm1t0-me a c1tar aqui Íheodorc A_ Korchcnm _,
o or
suportar tensócs e
custo. bascando-se em estudos cstatístícos, tcnham dado crédito à lo-
csquíva'-los a todo atributos essencíais do
a mim, entendo que um dos goterapia por cla havcr tomado a orientação do homcm para o
Quanto de tensão, entre
consiste em acha r-se num campo sentído como pedra de toque da saúde an1'mica_
ser hu mwo valorcs,
e dever-scr, em visar o sentido e os Nos Estados Unidos, a psícologia está domínada por duas
os dois polos do ser , .
Aliás, tendo em conta que a fuga corrcntesz uma mecanícista, a outra - cm reação contra ela -,
abrindo-se às suas exigência5.
constitui um traço caraicterlstlco da ex¡S- humanística. Ao passo que a primeira se conduz pelo princípio
pemnte estas exigências opor a
neurótica, logo se vê quanto a psicoterapla se deve da homeostase, a segunda guia-se pelo ideal da realização de si
tência , .
lhe ser lícito c00pe_
tipícamente ncurot1co, sem mesmo (Goldstein, Horney e Maslow).
estc «escapism o»
o afastar os pacicntes de qualquer tensão e
rar com ele, tentand Gordon W. Aleort acentua que 0 costume de entender a
onto com 0 sentido e os valores, por um
poupando-lhes o confr motivação como uma tentativa de quebrar o estado de tensão
a homeostase.
medo excessivo de prcjudicar através da homeostasc não atínge a essência da aspiração pro-
se estabelece no campo de
Em logoterapia, a dínâmica que príamente dita/“. De fato, Freud caracterizou «o aparelho aními-
e dever-ser denomma-se n00-
tensão entre os dois polos do ser co» Como algo cuja «intenção» Consístiria «em domar e eliminar
psícodinâmica; e distin_
dinâmica, em contraposição a toda a toda uma gama de estímulos e excítações que lhc chcgam dc
gue-se desta precisamente por cntrar
nela um elemento
' de li-
fora e de dentro»42; e os arquétipos de Jung, antes ou depoís,
sou atraldo para os
berdadez em sendo movido por 1mpulsos, sáo concebídos homcostasicamentez antes ou depois, o homem
dos va-
valores, ísto é, posso dizer sim ou não a uma exigêncía é-nos, assim, apresentado como alguém cuja aspiração acaba na
doutro. Quer
lorcs, posso portanto decid1'r-me dum modo ou realização de possibilídades que precisamcnte são pré-formadas,
dízerz o elemento da liberdade não se veriñca apenas em facc mas que tcm na base, única e exclu51'vamente, a intenção de apa-
da instante imposição, aliás meramente aparente, das condíçóes zíguar o acicate ou até 0 descjo de vingança contra arquétipos
biológícas, psicológicas ou sociolo'gícas, mas também em face de não desfrutados e de evitar as tensócs por cles provocadas.
uma possibilidade de realizar valores. Charlotte Bühlcr tem razão quando añrma que «desde as
Quanto mais se reduz a tensão que mana da noodínâmica,
tanto mais se ameaça e prejudica o homem. Apoiando-se nos
(39) Persomzliçy and Sarial Entounten Beacon Press, Boston l960.
resultados da investigação inspírada por Carl _Rogers, Allport (40) jourmzl oflndiuidual Psydwlagy 16, 174, 1960.
esclarece: «Therc ís always a wholesome gap between self and (41) Bewming, New Haven 1955, p. 48 c s.
132 ideaJ-sclf, betwecn prescnt existence and aspiration. On the (42) S. Frcud, Gesammelte Werke (Obras Completas), vol. XL p. 370. 133
ññ__ñ
PSICOTERAPLA E SENTIDO DA VIDA A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

do prazer até à
freudianas do princípfio Já se vê quc, no sistema fechado dc um «aparelho anímico»
primeiras formulaçóes
versão do princípio da abreaçao («Sptznn.un.gm_ dominado pelo princípio do prazer, não cabe aquilo a que nós
últíma c atual
e homegstasa 0 .C0nstante gbletwo chamamos vontade de scntido c que ordena c orienta o homem
bfillírm purga de tensóes)
da v1da t.e,m OSIdo Cionice,b1do Para o mundo. Não se entenda, porém, este conceito, num scn-
de toda a atividadc ao longo
do equlllbrlo no mdmduml _ tido voluntarista. Se falamos de uma «vontade de sentido» e não,
sentido dc um rcstabelccimento
ao criticar a Concenpção Por exemplo, dc um «z'mtz'nto dc scntido», não é porquc nos cur-
Mas ¡a' a própría Charlotte Bu"hler,
dc ajustament_0 ,(Alnptmungsuorg.ange) vcmos ao Voluntarismo; o que com isso queremos saliemar é que
freudiana dos processos
quem se flJusta nâo Se pode perder de vista o fato da díreta (prímária) intenção
añrma que «no seu impulso para o equlhbrlo,
ao passo que «qluem cr1.a_co- de scntido, isto é, o fato de que o que o homem pôe cm jogo é,
t oma a realidade ncgat1'vamente»,
realidadc conceblda posmva_ ao fim e ao cabo, o sentido e mzda mais que o sentída Porque, se
loca o seu produto e obra numa
realidade, na dependência desta, realmcnte se tratassc dc um ínstinto, o homem realízaria o scn-
menteW Assim, o princípio da
do prinCIpio do prazer, na tido apenas para apaziguar o acicate do instinto e rcadquirir 0
também por sua vez ñca ao serviçó
«modiñcaçâo» do prin- seu equilíbrio. Se assirn fosse, contudo, o homem teria d61x'ado
medida em que representa uma simples
tende ao .
, prazer»“*5_
. dc agir por causa do sentido em si, e a nossa teoria da motivaçâo
cípio do prazer, «pois, no fundo, também
víria a redundar no princípio da homeostase.
Ora, bem vistas as coísas, podemos añrmar que o proprlo prmc1-
pio do prazer representa, por seu turn0, uma mera modlñcaçâ0, A crítica europeia ainda zomba da logoterapia. As obser-
enquanto se subordina a um princípio superior, da homcostase, vações que lhe faz ainda têm seu ar de troça; dizemz ora... ora'.,
isto é, à tendência para manter ou restabelecer o mais baixo mvel «apelar para a vontade»! Entretanto, a psíquiatria americana foi
dc tcnsáo possíveL muito mais longe e deu a devida atenção a esta «vontade» táo
Assím como a p51'canah"se póe em relevo a vontade de prazer ultrajada na sua pátria. O renomado psicólogo existencial de
na forma de princípío do prazer, assim a psicologia individual Nova York, Rollo May chega a añrmar que a psicanálise se torna
accntua a vontade de poder, sob a forma do chamado impulso cúmplice da tendência do paciente para a pa531'vidade, levando-o
para fazer-se valer (Geltungsstreben). Contudo, no caso do im- a considerar-se privado dc um podcr dc decisão, scm sc achar já
pulso para fazcr-se valer, de Adlcr, já nem de longe se trata de responsável nas suas diñculdades. Vale a pena transcrever aqui
uma impulsividade do homem em direção a algo que, tomado a sua mordaz observaçãoz «The existential approach puts deci-
como agressividade daquela sexualidade salientada por Freud, sc sion and will back into the center of the pícture»; e notar como
tivesse posto de lado; trata~se antes de um querer que brota do depois termina, tão oportunamente, com as palavras de um Sal-
«centro dos atos» (Scheler) («A/etzentrum») da pessoa. mo: «The very stone which thc builders rejccted has become the
head of the corner»4°47. Por outro lad0, James C. Crumbaugh
(43) Bmir Ihnlencies in Hzmzrm sze', cmz Scin und Wisscn, 'Iu\binga, 1960.
(44) PsychoL RdsclL 8, 1956. (46) Revicw ofExistmtítzl Pyxdmlogy and Pglrlriatry 1, 249, 1961.
134 (/IS) S. Frcud. Gcsammeltc \Vcrkc. vol. VII, p. 370. 135
(47) Salmo 117, 22. (N.T.)
T
pSICOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL

thmter dle Cos Ser que esta ordenado para algo, que se dirige a algo, quer csse
T. Maholiclg os diretores do Bmdlabcjl
c Leonard okrpubWihCado 21lgo seja alguém, quer seja uma ideia ou uma pessoa4°.
(U.S.A.), escllareccm, num tr
lúmbia. Geórgía « dlto
PchbzatrjI Úbe Caslefodr dmn X
nojozmml 0fExzs'tentíal expe_ Ora bem, Charlotte Bühler observa com todo o acerto que
entender deles, o reisu^ta io as Suas
no «\X/hat the representatives of the self-rcalization principle rcal-
Mmm'ng»). que. duma vontade
nossa hipótese da exxstenaa
ríências conñrma a ly meant was the pursuit of potentíalities». De fato, qualquer
ido. rcalização de si mesmo redunda, añnal de contas, na realização
a ideia de Vontade de sentido a
de Sscernita um erro interpretar das possibilidades próprías. A cste propósit0, depara-se-nos hoje
vontade. A fé, 0 amor, a espcrança não
modo de apclo para a uma série de teorias em cujos termos 0 homem apenas deveria
fabrican Nínguém lhes pode dar ordens_
se deixam manipular e tentar gozar as suas possibilidades interiores ou, como se costu-
se subtraem. Eu não posso quõ
Até à intervençâo da vontade e) ma dizer, exprímir-se a si mesmo. Mas, 0 que é que está por trás
não posso querer esperaL _
rer crcr, não posso querer amar, de todas essas teorías? Na minha opinião, o motivo que nelas sc
que seja inutil exigir a
sobretudo. não posso querer queren Daí oculta é añnal uma tendência para minorar a tensáo provocada
Apelar para a vontade de
um homem «que queira o sentido». pela ñssura existente entre o que o homem é e o que ele tem
desponte o bnlho do
sentido sígniñca antes o fazer com qua quc vir a ser; a tcnsão que, bem poderíamos dizer, existe cntre
querê-lo ou na'o_
sentid0› - pondo à disposição da vontade o a realidade, por um lado, e, por outro, os ideais que cumpre
psi-
«Atualmente - diz Charlotte Bühler -, no campo da realízar; ou ainda, por outras palavras, a tensáo entre cxístência e
coterapia, há essencialmcnte duas conccpçócs fundamentais a essêmz'a, entre ser e sentida De fato, se, ao dizer-se que o homem
respeito das tendências básicas da vida. Uma é a da tcoria psi- náo precisa de se preocupar com quaisquer ideais e valores, se
canalítica, segundo a qual o restabelccimento do equilíbrio ho- quer inculcar que os ditos ideais e valores nada mais são do que
meostásico é a única tendência básica da vida; a outra é a teoria a expressão de si mesm0, podendo o homem limitar-se a reali-
da realizaçào de si mesmo como meta ñnal da vida»48. Na síntcse zar tranquilamente a sua mesmidade e possibilidades, - então,
que faz, contrapo'c, como se vê, a teoria da libertaçâo dos ins- convenhamos em tirar o Chapéu à boa nova.' É claro que, sendo
tintos à teoria da realízação de si mesmo. Mas só na medida em assim, 0 homem veriñca não precisar de mover um dedo para
que o homem atínge o sentido é que ele se realiza também a si alcançar a plenitude de sentido ou a realização de valores, uma
mesmo: a realização de si mesmo, portanto, signiñca de per sí vez que tudo está já em ordcm há muito tempo, pelo menos na
como que um efeito da consecução do sentido, mas não 0 obje- forma de cada possibilidadc própria e concreta que cumpre re-
tivo desta. Só a exístência que a si mesma se transcende se realiza alizar. Desta forma, o imperativo de Píndaro, segundo o qual o
a si mesma; entretanto, aquela que íntende tão só para si mesma, homem deve vir a scr o que é, ñca privado do seu carátcr de im-
ísto e', aquela que unícamente tende à rcalizaçâo de sí mesma, perativo, para se transformar numa tese meramente indicativa,
decerto que fracassa. 0 ser do homem é, po_r sua essência, um

(49) uOs homens sâo fortcs enquanto defendem uma ideia fortc; Hcam sem podcr, se
136 (48) Z. exp angczu Psydwl 6, 1959. se lhe 0póem» (S. Frcud, Gesammelte Werlee vol. XVII p. 113). 137
VIDA
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

.
traduzir dizendo que
daqui em diante, se poderia mo. Senão, imaginemos o que teria acontecido se a majestade
cujo conteúdo, já
sem pre deve vir a ser e aquxlo que ele sempre de DCUS› Cm VCZ de ir à frente de IsraeL tivesse permanecido
o que o homem que se preocu_
prec1s P por isso que não tem
amente n° meio deste P°V°3 logo SC
entrevê o que sucederiaz a nuvem
tem sido.l E é metaforicamentg nunca mais estaria em condiçóes de conduzir Israel pelo dcser-
nenhum I ara nos exprimirmos
par com ideal o brialço par'a Clo_ pelo Contrário, teria envol-
precisa o homem de levantar ÍO até 0 ñm” até 0 lugar de deStin°;
diríamosz nâo mais a propna vido tudo em brumas, ninguém poderia já orientar-se, e Israel
à terra, porque, añnaL repara1.,
lher estrelas e traze-las
ter-se-ia extraviado.
terrEa ' " uma estrcla...
alívio nas Hleirals daqueles quq Uma vcz analisada esta dinâmica existenCiaL já estamos em
scelnate-sc um suspiro de
tinham expcrlmentado certo condíções dc dístinguir perfeítamente dois tipos de homens,
cúmpl ices duma pseudomoral,
que poderíamos denominar guía e paciñcador (ou, para tran5_
n

e semldo
r

sabcmos que a t^ens.ao entre se


'

mal-estarl Mas nos bem


f

l
na essenaa do homem. A ten_ crevermos a dcnominação inglesa original, «pacemakers versm
tcm um fundamento inamovível
parte, pyeusamentq do Ser-h0mem, em face dos valores e do sen-
são entre ser e dever-ser faz peacemakers»)' OS gmas PÕCITHIOS
inalienável da saúd.e anímica. de Sentídm Os pacíñcadores, em
constituíndo por isso condíção tidOJ Oferecemmmlos à vomade
estudos que se reallzaram nos compensação, tentam aliviar-nos da mrga de qualquer acareação
Demais, a aplicação de testes em
que 0 conceito logoterápico com o sentido.
Estados Unidos pôs de manifesto
representa inclusivamen- Um guia, na acepção em quc aqui tomamos o tcrmo, se-
fundamental da orientação de sentido
te o melhor critério de saúde física. ria, por exemplo, Moises'. Moisés, com efcito, dc modo algum
e sentido, procurou tranquilizar a consciência do scu povo; antes a desa-
Afora isto, o hiato entre ser e dever-ser, entre ser
acepção mais ñou. E, ao descer do monte Sinai, entregou ao seu povo os dez
éessencial para todo o scr-homem, mesmo numa
profunda. É que, numa natureza ñnita Como a do homem, não mandamcntos, sem lhe poupar o confronto com os ideais nem o
podemos nem devemlos fazer coincidir e concordar a existência conhecimento da real1'dade, que lhes ñcava muito aquém.
com a essêncía§ pelo contrário, o sentido tem que ir sempre à Com o paciñcador, nada disto acontece. Para ele, o que in-
frente do ser, - pois só assim o sentido pode ser o que propria- teressa é 0 equilíbrio interior que nada deve perturbar. Daí que,
mente é: o guia do sen Em contrapartida, toda a existência se para proteger esse equilíbrio, náo só todos os meios sejam per-
afunda em si mesma, sc a sí mcsma se não transcende, levantan- mitidos, mas também o mundo inteiro degenere e se degrade,
do-se acima de sí, para alcançar algo que estcja mais além. nada mais sendo que um meioz um meio que tanto se pode des-
É como se diz na Bíbliaz durante o êxodo de Israel através tinar à libertação dos instintos como à realização de sí mesmo,
do dcserto, Deus caminha em forma de nuvcm à frente do seu ou à satisfação de necessidades, ao alívio de um super-ego ou à
povo. E não de1x'aria de vir a propósito interpretar esta pas- suavizaçâo de um arquétipo. Seja como for, o homem faz as pa-
sagem, afirmando que o sentido (último; o suprassentido, na zes consigo mesmo, - cai no «sossego». Só os fatos têrn validade.
nossa formulação) caminha à frente do ser,§ seguindo cste u'l- Ora, 0 que nos mostram os fatos é que apcnas uma imperceptí-
138 timo ao primeiro, arrastando consigo o primeiro a este últi- vel minoria entcsta com os idcais. Portanto, por que é quc nos 139
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

dcvcmos prcocupar com eles, em vez de Hcarmos simplesmente entanto, a sua aplicação prática, digamos, à higienc física. Tal
no termo médio? Para que sermos 1'dealistas?... Permaneçamos aplicação decerto que será radicalmente errônea se a construír-
normais! Compreendemos agora em que sentido Kinsey merece mos Com base num fundamento errôneo, o que sucederá quando
ser chamado paciñcador de espírítos... a dominar e possuir o princípio segundo o qual importa evitar
Segundo Charlotte Bühler, parece que o funcionamento que no homem apareça qualquer tensão; ou, em suma, quando
do organismo são depende de uma alternância entre duas ten- essa explícação for complacentc com o princípio da homeostase.
dênciasz a tendência para a descarga de tensóes e a tendência para para não falarmos do «princípio do Nírvana» (Sigmund Frcud).
a sua conscrvaçãoiq Ora bem, o quc nos pcrguntamos é se não O certo é que aquilo de que 0 Íaomem retzlmenteprecim náo é de
haverá, ao lado destc ritmo, digamos, ontogenético, um ritmo um estado isento de toda e qualquer tensão, senão de uma certa
análog0, Hlogenéticol Aliás, não foi Schopenhauer quem cha- te725á0, uma sadía dose de temáo, - aquela doseada tensão que lhe
mou a atenção para o predomínio intermitente da necessidade e provoca no ser as exigêncías c solicitações dc um scntid0.
do tédío, à luz da escala históríca e social? É claro que os períodos O problema é que na afuent sacz'ety, a socíedade do bcm-
dc necessídade e as épocas de tédio Ásão de uma altcrnância que -cstar, há muito pouca tensão; a época atuaL ao contrárío das
se veriñca por sucessão, e não por justaposição, como no Caso do épocas de carestia do passado, poupa ao ser humano muitos so-
«orgam'smo sáo». O certo é que poderíamos chegar a arriscar a frimentos e tensóes, a tal ponto que ele já não sabe como su-
añrmação de que o homem, em épocas «homeostásicas» (com0 portá-las. A sua tolerância às frustraçóes se reduz, e o homem
a duma mñumt sorz'ety»), assume expontaneammte o contrapeso desaprende a capacidade de rcnunciar. Mas, quando a socicdade
da necmídczda A este propósito, e sustentando muito embora nâo Ihe oferece suñcientcs situaçóes de tensa'o, o homem acaba
a opínião de que «a pressão da necessidade tem provavelmentís por crízíJax de maneíra artjíícíalz inventa as tensóes de que pre-
uma importância extraordínária sob o prisma antropológico», cisa. E o faz exigindo dcterminadas coisas de sí próprio, como
Gehlen explica que, «se alguma saída se pudesse ímaginar, essa por exemplu um desempenho externo, e não raramente o «de-
saída, a rigor, não poderia ser senão a da ascese». Só que não o scmpenho da renúncia». Assim pode ocorrcr que, no meio do
podemos acompanhar quando dcfende a ideia de que «a ascesc consumísmo re¡'nante, as pessoas comecem a ncgar-sc livremcm
nào foí sccular1'zada, prendcndo-se ainda a quase todos os ele- te algumas coísas, a criar situaçóes artiñciais mas deliberadas de
mentos da relígiâo crista'»“; com efeit0, quer-nos parecer que foi pobreza. No meio da sociedade do desperdício, o homem cria
o desporto que sc incumbiu de expor o organismo a um stress por assim dizcr «ilhas de ascese»; e esta é, na minha opíníão, a
periódico e dc proporcionar ao homcm, em meio do bem-estar, função do esportez ele é a ascese modema, secular.
situaçóes de um estado de necessidade artiñcial e passageiro. Os professores dos Estados Unídos queixam-se de que os es-
Mais delícada do quc as teorias da motivação em voga, é, no tudantes de hoje se caracterízam por estarem mergulhados num
abismo de apatia: «On almost evcry campus from Califomia to
New England, student apathy was a topic of conversatiorL It
(50) Pn_'rÍJo/. qu 10, 1962.
140 (51) Anthropologischr Fbrschung Hamburgo 1961, p. 65 e s. Was the one subject mentioned most often in our discussions 1~H
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA AJ ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

with faculty mcmbers and studcnts»52. Esses profcssorcs tém cm vê, até no fundamcnto bíológico da cxísténcna' do homem sc
alta estima o ideal da liberdade; mas a libcrdade cm que cles pode ir cncontrar a sua elemcntar neoessidadc dc sentido. Ora
pensam é negativa, e prccisa dc scr completada por uma idcia bcmz ao fazermos uma transposição desta projcção no plano fi-
positivaz a da responsabilidade, bem cntendido. Quando se rc_ siológico para o cspaço do fenômcno cspecíñcamcnte humano,
solverão a lcvantar, na costa ocidentaL uma cstátua da Respon_ escutamos, por assim dizcr, o Zeítmotizz da logoterapia; é como sc
sab1'lidade, a fazer pendant com a estátua da L1'bcrdade, da COSta se estendcssc uma ponte cntrc os sígniñcados de logos - espíríto
orientaLm e sentido -, a modo de fuga musical: o cspírito precisa do senti-
E também nos Estados Unidos que os psicanalistas se quci- do - do naus, do logos -, assim como a enfermídade noogénica
xam dc tercm de lidar com um novo típo dc neurosc, Cuja nota precisa de um tratamcnto logoterápico.
mais marcante está na carência de iníciativa e de z'nteresse. Mas, ao lado das neuroses noogc"n1'cas, temos ainda as pscu-
Ao que parece, é tão difícil para o homem suportar por longo doneuroses: não apenas as pseudoncuroscs psico'genas, mas
tempo a absoluta despreocupaçáo no scntido psicológico, como também aquelas quc denominci somatógcna5. Baste-nos citar as
a absoluta ausêncía de obstzímlos no scntído físico; e também se agorafobias, por tras' das quais se cncontra uma hipcrtireose; as
pode dízcr quc lhe é tão impossívcl existir num cspaço sem sen- claustrofobias cm que se inserc uma tetania latentc; e os sinto-
tido como num espaço sem ar. mas de despersonalizaçáo, ou síndromas psícoadinàmicos, que
Como é sabido, pelas experiências realizadas para preparar escondem uma insuñcíéncia no córtex das suprarrenais. Não sc
viagens à volta do mundo, a privação total de impressões senso- pode dizer, portanto, que a logoterapía é, em teoria, espir1'tualz'5ta,
riais produz aluc1'naço'es. Contudo, conforme os cstudos feitos e, na przítím, momlista. Antcs se podería dizer xs'so da medici-
nas Universidades de Yale e Harvard, chegou-se à conclusão de na psioossomática. Dc fato, 0 acontecer Corporal da doença cm
que uo que produz os efeitos da privação de ímpressóes senso- geral cstá muito longe de tcr na história da vida a importan^cia
riais não é a ausência dc estímulos sensitivos, mas sim a ausên- que a mcdicina psicossomática com tanto destaque lhe atribui, o
cia de cstímulo portadar de sentído». Para arrcmatar, os autores mcsmo podendo añrmar-sc quanto ao valor dc cxpressão do cs-
cxplicam que o que faz falta ao cérebro é o sentido. Como se pírito, que ela lhe concede. O corpo do homem não é de modo
algum o cspelho ñel do seu cspírito, - a não scr que se tratc do
(52) E D. Eddy, Thc Collcgc InHucncc on Student Character, p. 16.
corpo «glorioso»; mas, no caso do homem «decaído», se o qucrc-
()'3) Adiferença que há entrc scr responsável c scr livre, pode-se exemplíñcar facílmemc mos tomar como cspclho, será, quando muito, um espelho quc-
comparando a culpa com o puro arbítrio. Assim, sc é certo quc podcmos deFmir o puro brado, distorcido. Decerto que toda doença tem o seu usenúdo»;
arbíxrio como liberdadc scm rcsponsabilídadc, também podcmos dizcr que, dc ccrto
modo, a culpa é o scr-responsável sem o ser-lívre; evídentemente, qucm se tornou mas o scntido real dc uma doença não está no quê do ser doente,
culpado suporta a rcsponsabílídade por anuma coisa, mas sem possuir a líbcrdadc scnão no como do sofren na atitude assumida pelo doente, na
de eliminar o quc já feL Nessa altura, tudo depende do comportamento Justo, da
atitude correta; e o comportamento justo cm face dc uma culpa vcrdadcira c própriaé
postura que ele adota pcrantc a doença.
o arrcpcndimema Al¡'a.s', Max Schcler, num trabalho rcferentc a csta matéria, pôs-nos Será a logoterapia, na prática, moralista? Não o é, pcla SLm'-
de manifesto até que ponto o arrcpcndimento pode. se não anulaL sim, pelo mcnos,
142 rcparar no plano moral o que acomcceu e se tomou culposo (cf. p. 153). plcs razão dc que o sentido não se pode receitaL O médjco não 143
pSICOTERAPlA E 55\.'~'rmo DA v1DA M ANÁLISE DUSTENCLÀL GERAL

o sen_ sug vida - o fato da morte -, é ou não suscctível dc fazer da vida


vida do paciente. Em última anal'íse,
pode dar sentido à E, na verdadel uma coisa sem semido.
dado; te m que ser encontrad0.
tido nâo podc ser Conta. Nâo Quantas vezcs nos não vêm dizer que a morte poe' em dúvida
paciente quem te m que o achar, por Sua
é o próprío
que competc de cidír sobrc o sentido c não-sen_ O scntído da vida inteira.' Quantas vczcs nos d116m' que, cm ul'ti-
éà logotcrapia
e na'o-valor; é à serpente, que no Paraíso ma anal'isc, tudo caxece de scntido, já que a morte, no Em. tudo
tido, ou sobre o valor
«íguais a Deus, conhecedoreS destró1'.' Ora bemz poderá a mortc realmente corroer csse sentido
prometeu aos homens torná-los
que caracteriza a vida? De maneira nenhuma.l Pelo conuan"o:
do bem e do mal».
Porque, que acontecería se a nossa vida não fosse ñnita no tem~
po, mas antcs temporalmente ílimitadzL> Se fósscmos 1'monals',
poderíamos, com razão, adiar cada uma das nossas ações até o in-
O SENTIDO DA MORTE
ñnito; nunca tcria a menor importan'c1'a o rcahza"-las agora,. ncstc
sentido da vida - a mais momento preciso, podendo muito bern reah'22_r-se amanhã ou
Ao tentar responder à questâo do
é remetido para si
humana de todas as questo'es-, o homem depois de amanhã, ou daqui a um ano ou dez. Em compensaçao',
vida interroga, alguém
mesmo, tornando-se alguém a quem a tendo cm vista a morte como fronteira ínfranquaível do nosso
assim, por sua
quc a esta tem de responder, sendo responsáveL futuro e limite das nossas possibilidadcs, vemo-nos obngados a
de que a exis-
vidaít Vê-se portanto remetido ao fato primordial aprovcítar o tempo de vida de que dispomos e a nâo dcmar" passaI
da existência
têncía humana é ser-responsável. Ora, pela anal'ise em vão as ocasiões irrepetíveis que se nos oferecenL ocasiõcs essas
no ca-
foi-nos dado observar quc a responsabilidade tem origem cuja soma «ñnita» rcprcsenta precmente a vida todzL
di550,
ráter concreto da pessoa e da situaçã0, e que cresce, além A ñnitudc. a temporalidade, não é apenas. por conmnv"ntc,
juntamente com esse caráter concreto. Como vimos, a respon- uma nota esscncial da vida humana; é também constimtiva do
sabilidade acompanha, no seu desenvolvimento, o «caráter de seu sentido. O sentido da existéncía humana tuAnda-se no seu C2-
algo únicon da pessoa e a irrepetibilídade da situacafa aCaráter rátcr írreversível. Daí que só se possa entender a rcspoÀnsablhudade
de algo único» e irrepetibílidade são, conforme dissemos, ele- que o homem tem pela vida quando a refenm'os à temporalida-
mentos constitutivos do sentido da vida humana. dc, quando a compreendemos como responsab1h"dade por uma
Mas, nestes doís aspectos essenciais da sua existêncía mani- vida que só se vive urna veL Portantad se, na perspectiva duma
fcsta-se simultaneamente a Hnitude do homem. Sendo assim, anaüise da e.x1"sténcia. quisermos levar os nossos pacientes a toma-
esta ñnítude tem de representar algo que, de qualqucr forma, dê rem consciéncia do seu ser-responsável; se realmente quísermos
sentido à existência humana, e não algo que lho tire. ísto o que fazer com que sc compenetrem da sua responsabíh'dade, - então
agora cumpre cxplicar, resolvendo antes dc mais o problema dc teremos quc rcpresentar-lhes, por mcio de metzübrax o caráter
saber se a finítude do homem no tempo, a ñnitude tkemporal da históríco da vida e, a paI disso, a responsabílidade que o homãm
nela tem. A um homem simplcs que porventura ÊSEÍYüaÍ scntado
144 (54) Veja-se a nota da página 96 (N.T.) diantc de nós durante a consulca, recomendan'amos._ por exemplm

J..
*I|
PSKKII ERAPIA ln ShNTIDO DAímm
N ANÁLISlz rxm lcNfLIAL GEKAL

quc Hzesse de coma que, no ocaso da vidaa cstava a folhcar a sua ciaJidadc orignária Pois bcmz o mcsmo vale aproxmmdamcn'-
bíograña, tendo-a abcrto prccisamentc por aquclc Capítulo quc w para a vida, justamemc na mcdida cm quc o scu on'g1mn"'0
trata do momento prcsentc; e quc imaginassc quc, por milagrc, carátcr dc matéria vaí rctroccdcndo cada vcz maLs', até acabar
lhc cra dado ainda dccidir sobrc o contcúdo do capítulo scgu¡'ntc, em pura forma. O homcm, cfctivamcmc, asscmclha-sc a um
cstando, ass¡m, cm 5cu podcr introduzír corrcçócs num capítulo escultor quc trabalha com cinml c martclo a pcdra informc, dc
dec15'ivo da história intcrior da sua vida, ainda inédita. A max'ima modo quc a faz adquirir forma pouco a pouco. Ê como sc o
da análisc da existéncía, podcríamos cntão revcstHa da scguintc homcm fossc modelando o matcríal com quc o dcstino o brín-
forma imperativaz Vive camo se uíumes pela Jegunda ZIEZ e wmo se daz ora críando, ora cxpcrimcmando vivéncias ou sofrcndm o
da primeira vez tiuesses feito tudo tcza' faluzmente mmo agom estzís homcm procura ~arrancarn valorcs da vída, ua golpes~, para a
quzzse afazen Quem conscguir compcnctrar-sc dcsta rcprcscntaçâo transformar quanto possívcl cm valorcs cn'adorcs, vivenc¡'315' ou
fantas't1'ca aperccber-sc-a' ímcdíaramentc de toda a grandaa da rcs- dc au'tudc. Dcmais, ncsta comparação com a atívidadc do cs-
ponsabilidade quc o homem em cada momcnto tem por sua vida: cultor, podemos introduzir o clcmento tempo; basta ímagínar
a rcsponsabilidadc pelo quc ocorrerá na hora scguintc, pclo modo que, para tcrmínar a sua obra de arte, o cscultor dispoe' apenas
como conñgurará o dia dc amanhã. dc um tcmpo Iimítado, desconhcccndo contudo o momcnto
Também se pode sugcrir aos pacicntcs que imagincm a sua cm quc a tcm dc acabar c cmrcgan Assim, nunca sabc quando
vída como um fílme que estáo a 4I.ñlmarn, mas quc não admítc scrá wxoncradom ignorando mesmo se a cxoncraçb ocorrerá
ucortcsn, ísto é, um Hlme em que já não sc pode voltar atras' para no momento segu1'ntc. Dcsta maneira, também ele se vé for-
dcsfazcr o que foi utomado». Dcsta mancira também sc consc~ çado, cm todo o caso, a aproveítar o tempo, Considerando 0
guc, uma vez ou outra, fazcr vcr o carátcr irreversível da vída risco de deixar a sua obra cm cmbríão, cm fragmenta Díga-
humana, a historícídadc da cxísténcía. -se, entremnto, que, caso a não pudesse terminar, nem dc longe
No começo, a vída é ainda substância na sua totall'dadc, fícaría sem valor a sua obrzL O ucarátcr fragmentárion da vida
substância ajnda não consumída; ma_s, à medida quc transcorrc, (Simmc|) não prcjudica dc modo algum o scu scntída Mnm
pcrde cada vcz mais como substància, convcrtendo-se cm fun- paderza'mos avalíar a plenitude de sentida duma uida Ímmamz tom
ção cada va mais, para se rcduzir, ñnalmcnte, aos fatos, vivén- base mz sua duraçâa AfínaL mmbém não avaliamos uma biogra-
cías e sofrímentos, que o seu portador, o homem concrcto, foi ña pela sua uextcnsãon, pelo número de pag'ínas, mas sím pela
acumulanda Assim, a vida humana faz lembrar o rádio quc, riqueza do seu conteúdo. Dccerto quc a vida heroica de um
como é sabido, tem também um utcmpo de vidap límitado, já homcm que morra na juvcntudc tem mais contcúdo e scmído
quc os seus átomos se dcsintcgram c a sua matéría sc vai trans- do que a de um burgues' qualqucr quc víveu muíto. Quantas
formando em energia que irradia, nunca mais rctornando ncm sinfonías uincompletasn náo há entrc as maLs' belas.'
voltando a transformar-sc em matéría. Com cfeito, o processo O homcm está na vida como que submetído a um exame de
de dcsintegração do átomo é irrevcrsíveL uinapelávcln; no rádio aptidãoz mais do que um trabalho terminado, interessa aí quc o
146 vcriñca-se também um dcpcrccimento progressivo da substan- trabalho seja valioso. Assim como o cxaminado tem que estar à H
PSlCOTERÀPIA E
SE\.71DO D_-\ ubà N Astg E\]'STF_\'CIAL GERAL

painha que lhc anuncia ter-se CSgOtado 0 as línhagens acabarão por morrer e decerto que um dia tam~
cscuta do sínal de cam na vlda à bém toda a humanidade terá que desapareccr pela morta ainda
'cã0 , assim
d também temos que csrar
' sua '
dlsposL
tempo a 1nstante. que tal suceda apenas numa catas'trofe cósmica do planeta Tcrra.
uchama osu'“" a qualqucr
espê ra de sermos E, se uma vida ñnita carecesse dc sentido, sería completamente
- no tempo e na Hnitude- lcvar alguma coisa
O homcm dcve ' h l
consc1'en- indiferente a data do HnaL bem como o poder-se ou não pre-
é, arcar com a ñn1m.de e contemar-se \›é,la_ Quem fechar os olhos à irrelevan^cia deste fator temporal
até o ñmÍ isto
tem que ser el-01_
' . atitudc amda nao
ñm Esra assemclha-se àquela senhora que, ao saber da profecia dc um
temcnrc com u m entrevéJa
. .já na conduta
pois, rnuíto ao contrano, podemos astrônomo, segundo a qual se esperava o desaparecimento do
ca, é claro
rmédio. Quando sc val ao cmema,
cotidiana do homem Alñmjfeja elle qlesual
mundo para dcntro dc um bilhão de anos, estacou horrorizada
é que Ío ñlme tenha undm e, ao garantirem-lhe, mais uma vez, quc «só daqui a um bilháo
que o que mais importa
que seja bapp)'-6_d d d|3$› 0 Slmp'
for, pouco 1m'portando de anos», exclamou, com um suspiro de alívio: «Ajnda bem, eu
_ e um,a c01sa
comum smta n.e'ce551 a e
faro dc quc o homem tinha cntcndido quc cra daqui a um milhão!» De duas umaz ou 11
demonstra )a, de p_er 51, o Icarater de
como o cínema ou o tcatr0, vida tem um sentída e nesxe mxo come7'va'-lo-á independenremente
não csrivesse em questao, prec1$amente,
scntido do hisróricoz se da sua duraça'o, quer sepropague quer mí0; ou nâo tem sentido ne-
' ' C pO r conse
- inte
, I s o de-
o cxpl1c2xem-›h'e o que lhe mteressay nlmm e nesse azso também nâo o ganlm, por muito longa que ela
representaçao hlstonca, com
senvolverem-lho no tempo, numa stjzl e por mazs' que ilimitadamente se propague. Se a vida duma
lhe contassem em poucas
ccrteza que ele se contentaria com q ue mulher scm ñlhos Hcassc realmeme sem sentido por essa única
de fícar sentado no tcatro
paJavras a umoral da histo'ría», em vez razâo, isso signifícaria que o homem vive apenas para os seus
ou IlO cínema hOIQS C hor25. thos e que o sentido da sua existência estaria exclusivamente
seja de
Nâo é necessário, portanto, scpaxar a morte da vida, na dcscendência que deixasse. Mas assim nào se faz mais do que
faz
que modo for; porque, a rigor, o que sucede é que a mort.e adiar o problema, deslocando-o cada geração para a geração se-
parte dela.' Mas também não é possívcl «dominá-la», como Julgla guinm sem o rcsolver. Náo seria isso o mesmo que dizer que o
fazer o homem que quer uetemizapsen pela procriaçâo, pois e sentido de cada geraçáo está em criar a gcração que se lhe segue?
falsa a tcse de que o sentido da vida se radica na descendência. Contudo, perpetuar uma coisa que, em si, não tem sentido é
Essa tese facümeme se pode rcduzir ad zzbsurdmn Em primeiro coisa quc, de per si, tampouco o temz porque, o quc carece de
lugar, a nossa vida nâo se pode prolongar in infnitumz também sentido nào passa a tê~lo pelo simples fato de se eternizar.
Mesmo que se apague, não se pode dizer que uma tocha não
()')') No on'giml nio é Ls'to Iíteralmcmc o quc se dth mas sun' uabberufen». Ls'(o tcve sentído no scu resplendor, enquanto iluminou; em com-
-cxonerzdos~. dcmiúdos do argu O autor usa o mesmo termo quc emprega mals
ac¡m¡, na comparaçáo do esculton modiñcamos o texto, porém_, aproximandwo da pensação, o quc não tcm sentido ncnhum é tomar uma tocha
Iinguagem comum, a propósim do ñm da vida. ('\.~'.T.) apagada e desatar a correr com ela, mesmo que a corrida nunca
(56J O tato akmâo gíra em wmo de um uocaddh'o: uollendtn (levar até 0 ñm) -
acabc. «O que deve ilumínar tem que suportar o seu arder», diz
lcrmo que o Aumr dccomptk propo<.imd21nente, cscrcvendo uoll-mden; Endlichletit
148 íñnimdck e Endz (Em, fin31)_ (\__Y_TI¡\ Wirdgangs; e o que tcm em mente ao dizê-lo não podc ser scnão 149
PSICOTERAPIA E SE\¡'TIDO DA \"1D,\ ív,-\\.'ÁLISE E\I'STE\¡'“CIAI. GERAL

istoz tem que sofren Bem poderíamos dizer também que tcm de faz mais do que dar scntído à sua vida. Se todos os Íwmemfossem
suportar o queimar-se, isto é, o arder uaté o ñm». pg_rfàz'tos, seriam todos iguais uns aos ourros, qualquer um podzria
Anim cÍJegamos ao pmudoxo de que uma vida cujo úniro sen- rppresentar a bel-prazer outro qualquen e para quem quer quefos-
tido cmzsistisse em propagame t0rnar-xe-¡(z, eo ipso. tão mrente de _-.¡›, portzmto, seria azda qual um substimra Mas é precisamcnte
sentido wmo a sua propagzzçáa Em contrapart1'da. a propagação da imperfeição do homem que deríva o Carátcr indíspensável e
da vida tem sentido só e quando a vida, de per si, representa iá insubstituívcl de cada indívíduo. pois ainda quc o indivíduo seia
alguma coisa cheia de sentido. Por isso, quem vé na maternidade na verdade imperfeita cada qual o é a seu modo. O indívíduo
o sentido exclusivo e último da vida da mulhcr náo é que negue, náo é onifacético (zI/l›'eitig), mas unitàcético (eim'eitig), tendo
na redídadc o sentido à vida da mulher sem fílhos: ncga-o. sim, precisamente por isso um «caráter de al'go único». peculian
precisamente à vida da mulher que se fez mãe. Por conscgu1'nte, a Vem aqui a propósito recorrer a uma comparaçâo tirada da
falta de descendência nào pode tomar sem senrido a existéncia de biologia. Como é sabido, o ser vivo unicelulm paoaD a sua trans-
um homem de peso. Mais aindaz a série de antepassados que nele toqrmação em organismo pluricelular com o preço da sua «imor-
termina só teria adquirido retroatívamente a Coroação do seu mJ-idade». - e com o sacrifício da om'poténcía. Em vez destas,
sentido através do signiñcado desta existência que ela fez nascer. porém, tem a célula dentro dc si a sua especíñc1'dade. A célula
De tudo isto deduzimos maís uma vez que rz vida mmm pode ser da retina, por cxemplo, aJtamente diferenc1'ada, não pode ser
umfím em 5i, que 11 xzm propagaçziojanmis pode comriruir o mzrido substítuída na sua funçáo por nenhum outro típo de células.
que ÍIJe éprápría Muito pelo contrar'ío. a vida só reccbe o seu sen- Pois bem: o que isto mostra é quc o princípio da divisáo do tra-
tído de outras referências nâo biológicas. que representanL por balho das células as priva do caráter fhnciond onifacéríca mas
ísso, um momento transcendente. A vida não se transcende a si dá-lhes. precisamente por isso. um caráter fhncíonal uniñlcético,
mesma em ulongitudew - no sentido da sua própria propagação -, que é o que lhes confcre a sua relativa insubstituíbilidade.
mas sim «em alturam - enquanto intmde para um sentída Num mosaic0, cada um dos fragmentos, cada pcdra, é. na
fbrma e na cor, dgo incompleto c ao mesmo tempo imperfeitm
só no todo e para o todo signiñca cada uma alguma coisa. Se
COMUNIDADE E MASSA cada pcdra - a modo de ml'niatura. digamos- contivesse já o
todo, então poderia ser subsrituída por qualquer outra: ml' como
O correlato da irrepctíbilidade da existéncía humana - no acontece com um cristaL que de algum modo pode ser perfeito
tempo, na succssáo - é esse «caráter de algo único» que se ver1'ñ- na sua forma, mas precisamente por isso é substítuível por qual-
ca em Cada homemz não já na ordem linear da succssão, senão na quer outro exemplar da mesma formzu aHnal de contas, todos os
da vízinhança e confronto com os indivíduos que _o circundanL octaedros sào igum"s.
Mas, assím como a morte, enqumto limitação temporaL cxter- Quanto maís um homcm é dítcarencíada tanto mcnos cor-
na, não príva a vida de sentido, antes lhe confere o seu caráter responde à norma _ quer no sentido de médiaq quer no de ideaJ;
150 dc sentid0, assim também a limitação interior do homem não mas é pelo preço desta normalidade ou idealídadc que adquire a 151
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA íDA
›À\) ANÁUSE EXISTENCIAL (il-.'RA1.

sua indív1'dualidadc. No entanto, o signíñcado desta 1'ndividuali_ agora com aquela que se veriñca cntre um paralclipípcdo cor-
dade, o sentido da personalidade humana, é sempre orientado e tadO em série e a rua pavimentada com paralclcpípedos, na sua
referido à comunidada Com efeito, assím como o Caráter único grisácea uniformidadcz cada paralelepípedo pode aqui ser subs-
e peculiar só confere valor ao pequeno fragmento do mosaico tituído por qualquer 0utr0, já quc todos são talhados do mcsmo
em relação ao todo respectiv0, assim também o sentido do «ca- modo; de resto, não tem qualquer signiñcado qualitativo para o
ráter dc algo único» de qualquer personalidade humana reside todo - que, no caso, nâo é propriamcnte um todo, mas apenas
cxclusivamente no que ela signiñca em ordem a um todo supe_ uma Coísa grande; além disso, o pavimento de paralclepípedos,
rior. Desta maneira, o sentido da existência pessoaL cnquanto no seu tom um'forme, nâo tem tampouco o valor cstético de
pessoaJ, o sentido da pessoa humana enquanto personalidade, um mosaico, mas unicamente o valor do útil - tal qual como a
cstá numa referência que lhe ultrapassa os limites, apontando massa, que apenas sabe da utílidade dos homens, não tomando
para a comunidade; na sua orientaçào para a comunidada trans- conhecimento do seu valor ou da sua dignidade.
cende-se a si mesmo o sentido do indivíduo. O sentido da indívidualidade só se atinge plenamente na
Para aJém do carátcr de dado meramentc afetivo - e portanto comunidade. Nesta medida, o valor do índivíduo depende da
«situacional», de estado - que se revela na socialidade do ho- comunidade. De modo que, se a comunidade, por si, tíver sen-
mem, a comunidade ostcnta ainda o caráter de algo que é enro- xido, não podcrá prescindir da individualídade dos índivíduos
mendadoí A sua pura facticidade psicológica ou biológica - o que a formam; na massa, em contrapartida, desaparece o sentido
homem é, evídentemente, um «zoon politíleom - transforma-sc da existência única e individual de cada homem, e náo podc
num postulado ético. Mas não é só a existência indivídual a pre- deixar de desaparecer, que tudo quanto tiver a pecu11'arida-
cisar da comunídade para vir a ser portadora de sentido; pode- de de algo único atua nela como fator dc pcrturbação. Pode
-sc dizer também o contrário: a comun1'dade, por seu turno, dízcr-se ainda que a individualidade intervém na constituíçâo
precísa da existência individual para ter algum sentido. É isto o do sentido da comunidade e que, por outro lado, intervém esta
que essencialmente a distingue da massa pura e simples. A mas- também na constituição do sentido da prímeira; ao passo que
sa, com efeito, não tolera individualidade nenhuma, e menos o «sentido» da massa é perturbado pela índívídualidade dos in-
ainda que a existência indivídual possa achar em seu seio uma divíduos que a compõem (obs. 16) e, por outro lad0, o sentido
plenitude de sentido. Vimos mais acima que a rclação do indiví- da individualidade (que na comunidade se destaca), desaparece
duo para com a comunidade se podia comparar com a que se dá nela 1'nteíramente.
entre uma pequena pedra de um mosaico e o mosaico inteiro. Dissemos que o «caráter de algo único» de cada homem e a
A relação do indivíduo com a massa, poderíamos compará-la irrcpetíbilidadc da vida são elementos constitutivos do sentido
da existência; convém, no entretanto, distínguí-Ios perfeitamem
(57) É csxa a versão quc nos parece maís ñcL poi5, mantcndo o trocadilho do original te da símples singularidade numérica. Toda singularidade nu-
alcmão - Gegeberzbeir [al-go d.1'do) e Aufgfgtbenheit (qualidade do rclativo ao quc é
mérica é, em si, carente dc vaIOL O simplesfato de cada bomem
cncomendado ou exigido como encarg0) -, é tamhém adequada sufícicntememc à
152 ídcia quc lhc corresponde. (N .T. ) se distinguír dactiloscopimmente de todos os outros nâo é sufciente
l'$l('0'l'FRAPIAIÊ\.'IÊN'1'ID()DA Vll)A ,\¡,\NÁ|.1$Elí\¡'l§"l'liN(Íl/\L(;ERAI.

pdmfàzrr dele umu prrxanulidade. Por ísso, quando se fala dcsse únicon dc cada homem não signiñca senáo que elc é prccísamcn-
mmircr dc algu únicm como clcmcmo do scntido da cxistên- tc difkrente dc todos os outros homcns.
cía humanm náu ó quc sc csrcia pcnsamdo cm algo quc é úníco Portanto. 0 scr do homcm acaba por pcrdcr a sua dignidndc
thlilnscupicamcntw. AssinL socorrcnd0-nos, por analogia,
scmprc que sc vê absorvido por um ser dc ordem superion na
d.1 distinçiu hcgcliana cntrc uiníinitudc mán c «inñnítude boa»,
massa quc isto sc podc obscrvar mais claramcnte. Na mcdida cm
podcrímmm lhhr Jqui dc um bom c um mnu «caráter dc algo
quc atua - podcndo nestc scntido dizcr-sc quc é «real»-. nunca
u'nícm; c. ncstcs lcr1nos. scria xxbunw zlquclc quc sc Oricnta para
a massa atua dc pcr si. As leix xoriológims nâo zmmm paxmndo por
unm conmnidudc paru u qunl um homcm tcm a signiñcação va-
cimzz das 1'ndiwd'uos, mm sim passzmdo atmuâ dcles. Ea sutz uzzlida-
liusa dc Jlgu u'nico.
dr › sr de zrzzlidazíe xe podefalnr rzqui - só se zlerzfm ml medida em
0 rc*k"rido canírcr da mistêlmh humana tem. a meu ven um que srío zlrílidox os aílrulos de probzzbilidnde referentes à psimlogia
ümdamcmo unmlógicm porqucx cvidcnrememcn a existência zlax nzzzssrzs; e, mesmo assim, só na proporção em que for suscctí-
pcssml rcprcscnra umu Íbrma c.s'pccial do scr. Se tomamos uma vel dc Cálculo um tipo psicológico médi0. Ora, estc tipo médío
cas.1. por cxcmplm não succdc o mesmo. Uma Casa compÕe-se não passa duma ñcçâo da ciência, não é uma pessoa real - nem
dc andarcs c os andarcs compóem-se dc quartos. Assim, a casa podería sê-lo, precisamente por ser suscctível dc ca'lculo.
podc-sc concclwcr como soma dc andares c um quarto como di-
Em scndo absorvido pcla massa, pcrde 0 homcm 0 que lhc é
visâo dc um nndan Qucr dizerz neste caso, podcmos traçar os
maís próprío c pcculian a responsabílidadc. Em Contrapartida,
limítcs do scr mais ou mcnos arbitrariamente, delimitando o
cntregando-sc àquclas missócs de que a comunidadc o incumbe,
cntc arbitrariumcntc c separand0-o da totalídade do ser. Só o
por as assumir ou com elas ter nascido, ganha o homem algo
ser-pcswa. n Ln\'ístêncíu pcssoaL sc subtrai a esm arbitrar1'edadc,
mais, uma responsabilidadc adicionaL É por isso quc 0 fugir
pois é Jlgo complcto em sí. subsistente por s¡, que não se podc
para a massa represcnta uma fuga à responsabilidadc índíviduaL
somur ncm dividir.
Scmprc quc alguém atua como sc apcnas Fosse a partc dc um
Posto isto. c rcmontando-nos à tese que apresentamos mais todo, tomando por propriedadc sua cste todo tâo somcntc, de-
acinnL em cujos tcrmos «ser=ser-diferentementc». também po-
certo pode ter a sensaçào de se libcrtar do Eqrdo da sua rcspon-
dcríamos prccisar agora a sobre-excclêncía do homem no campo sabilidada Mas esta tendência para Fugír da responsabílidade é
do sen oferecendo uma nova proposição: ser~pessoa (memr/7/i-
vljes DereirL Ew'stw¡z) signifíca um absoluto ser-diferentemente Immnnaz ncsm ñnítudc da cxistênchn quc sc mcdc pch succssào c pclo cnnfronm na
(Anzlersx-.ve¡'n)”'s. Com efeáíta 0 essencial e valíoso «carátcr de algo sl'mulmneidndc. no tcmpo c no c.sp.1ç0. Mas n csm dupla Hnimdc ncrcscc um tcrcciro
elemcnro constitutivo que logo 21 quebra: a transcendência da cxístêncim esse modo
dc scr do homcxm quc é «scr-cm-urdcm-.1'-.1'Ig0», puis cssc ucarálcr dc algo únicm c
(\'S) Tonmdu cm cnnñouto com todos ns ourros. como unbsolmo ser-difbrcntcmcw irrcpctívcl. tcm-no o homcm cm si. mns náo pnra si. Nào é. porénL nas minlms pobres
tcn. u human no quc conccrnc .'\0 scu scr-assim (Sosrin). tcm o ucnráter dc algo úniconç c Iimimdas palavms quc cuc thw cncontm a su.1 cxprcssào mais penrlmntm é dcceno
.10 mcsmo tcn1po. no quc díL rcspcíto 21 sua L\\'isrônci;1 (D¡1:('in = scr .'u'), cada homcm nnquclus Irêh pcrgunms cm quc Hillcl condcmn a ›u.| ñlosoñm aponnmdn os scus
é irrcpcdch dc modo quc 0 scmído dc cadu cxistência é mmbém irrcpctívcl c lcm cnsinamcntos pam n vidaz Sc cu nño o l.17ç0, qucm u fuãr.í? ~ E sc cu 0 nào faço agora.
154 o ncuálcr dc Jlgo único». E é prcdsnmcntc nisto quc sc thndzl a rcsponsnbilidndc qunndo sc Elrá? - Fn sc só para mim 0 Elçm o quc é que eu sou añnalÉ HS
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA Vlljí
,\) AN.'ÁLIS.1' tXISI E.'\1'(,'IALGL"RAL

o motivo dc todos os colctivismos. Umzz uerdadeim camunídade ¡0; mas 0 homem qmmta maix Jf ajustar ao seu típo - de raçm de
é mmridlmmte romzmidade de pexsoas responsáuez's, ao pzmo que a çlasm 0u de mra'ter- ou a uma norma me'dia, tanta mzzís se desvía-
pura mzma é zzpenas umzz mmrz de sem dexpersonalizadox ní dzz norma étiaL
No juízo que faz dos homens, o coletivismo vê neles, em ch No âmbíto moraL o julgamento ou a condcnação colctivis-
de pcssoas responsa'veis, apenas um tipo e, em vez da responsa_ [a dos homens acaba por fazé-los «coletivamentc rcsponsáveis~.
bilidade pessoaL a mcra sujeiçáo do homem a essc tipo único_ Acaba-se por responsab1'lízá-los por alguma coisa pela qual não
Mas a perda da responsabilidade nâo sc dá só por parte do ob- sáo rcalmente responsávcis; o que equivale a tenrar fugir à rcs-
jeto do iuízo; chega-se a ela também por parte do sujeit0, pois ponsabilidadc pelo juízo. Não há dúvida dc que é muito mais
nâo há dúvida de que a valoraçâo dos homens em função de um cómodo valorar «raças» intcíras em bloco, prczando-as ou dcs-
ripo facilíta a quem valora o seu juízo, tirando-lhc parcialmen- prezando-as, conforme o indivíduo em aprcço pertcncer ou náo
tc a responsabílídadc quc tcm ao emiti-10. De fato, quando sc a uma das duas únicas «raças» rclcvamcs do ponto dc visra mo-
avalia um homem tomando-o como tipo, não é preciso analisar ralz a «raça» dos decentes e a «raça» dos indecente5.
as características do caso concreto; e isto é muito cômodo. Tão
cômodo como, por exemplo, julgar dc um motor atendo-nos
apenas à marca da fábrica respcctíva ou ao tipo dc fabrica Sc LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
guiamos um determínado tipo dc automóveL sabemos a que
ater-nos. Conhecendo a marca duma máquina dc escrever, sabe- A rcsponsabílidade do homem, conscienc1'alizada, assím, pcla
mos também o que dcla podcmos esperan Até das raças de cães análísc da existência, é uma responsabilidade em vista da írrcpe-
nos podemos Harz tratando-sc de um pudeL são de pressupor tibilidade c do referido «caráter de algo único» da sua ex15'tén-
certas inclinaçóes e propriedades características; se de um lobo- cia; a existência humana é um ser-rcsponsável em vista da sua
-de-Alsácia se tratar, outras o scrão. Só não é assim quando se fin1'tude. Já vimos, contud0, que esta ñnitude da vida, cnquamo
trata dc homcns. Só o homem se não pode detcrminar ou cal- ñnitude temporaL não a toma sem sentido; pelo contrário, e
cular pelo fato de pertcncer a um certo tipo. Tal cálculo nunca como vímos já, é a morte que dá sentido à vída. Dissemos que
seria cxato; sempre um resto fícaria por contarz é o resto que à irrepetíbílidade da vida pertencc a irrepetibilídade de cada si-
corresponde àqucla liberdade que o homem tem para se subtrair tuação; agora, podemos dizer que 0 «Caráter de algo único» de
às condicionalidadcs próprias dc um tipo. Como objeto dc juízo cada destino faz parte do «cara'ter de algo único» da vída. Em
moral, o homem como tal só aparece no cxato momento cm quc termos gerais, pode-se afirmar que o destino - por analogia com
tem líberdade para defrontar a sujeiçâo a um tipo determinado; a morte - faz parte da vida, de algum modo. O homem não
porque apenas nessa aJtura é que 0 homem é o seu ser - ser-res- pode sair do seu cspaço dc dcstino concreto, que tem também
ponsável -; só nessa altura se pode dízer que «é» propríamenta um «caráter de algo único». Se se rcbcla contra o dcstino, 1s'to
ou que é «propriamcnte» homcm. Uma máquína é tanto melbor é, em face daquilo contra que nada pode, em face daquilo em
156 quanto mais regulada estiuer de tzcordo com o modelo de fabri~ que nâo tem nenhuma responsabilidade ou culpa, é porque não
T
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA V1D^ m ANÁLISE P.'XI.S"I'L<1NCIAI, GERAL

do dcsu'no, pois dade. A líbcrdadc pressupõc vínculos, rcfcre-sc a vínculos. Mas


o scntido do destíno. E há um slentido
viu bem do hseLE eS_ tal referência não signiñca submissáo ncnhuma. O chão cm quc
com o a mortc, dá à vída um sent1d0. D,en'tro
este, tal 1ns.u.bst1tu1vel.
que exclusivo, o homem e 0 homem caminha, transccnde-o cle a cada passo c, cm última
dc destino, como
paço
que gcra a sua responlsabllndade Wa ana'11'se, tomando-o como chão unícamentc na medida cm que
E é csta insubstitLu'bi1idadc
Com o destino aSSIm Caracterlza_ 1he serve de ponto de apoío para saltar. Assim, sc quisésscmos
configuração do sc u destino. 0
assim dizer, só no meio do uníversQ dcñnir o homem, teríamos quc caractcri2á-lo como 0 scr quc sc
do, o homem está, po r '
tem as mesmas possibilida_ Vai libertando daquílo que o determina (enquanto tipo dctcr-
'
d ' .' S
C fepete Ninguém
l
SCU CSUIIO nào

nem Cle prÓprlO


aS Volta a
Íe r. AS 0 C aS1 Oes Com que
minado b1'ologícamente, psícologicamcnte c soc1'ologicamcnte);
dCS que Cle ›
crladores ou v1venc1aus, aqullo que e quer dizer, como o ser quc transcende todas estas detcrm1'na-
d CP ara para realizar valores nao
- ou sqa, o que çócs, domínando-as ou conñgurando-as, sc bcm quc dcpcnda
pró río do destino e vem ao seu encontro
dos valores de atltu-
p tcrar c tem que suportar no senfido também delas.
c irrepetíveL
dpeo_d,e tauldo isso tem o «caráter de algo único» Este paradoxo aponta 0 caráter dialético do homcm, entrc
c.om'0 se pode ver cla-
A revolta contra o destino é paradoxaL cujos traços essenciais ñguram o achar~se scmpre aberto e 0 es-
o que Éerla 51do dcle se o seu
ramente quando alguém pergunta tar sempre encomendado a si mesmo (Sic/J-selbst-Aufgegebenbez't):
realme'nte e, mas outro qualquer:
verdadeíro pai não fosse quem a sua realidade é uma possibi11'dade, e o seu ser é um poder-scr.
pois, se alguém formula tal pergumaa C Porque esquece _que› nc.5' Nunca o homem se confunde com a sua facticidade. Scr ho-
do destmo .sler1a
se caso, nâo se trataria «dele»; que o portador mcm - poderíamos dizer - não signiñca ser fact1'camente, mas
de modo qlue .n.em Ja se
outra pessoa completamente díferente, antcs facultat1'vamente.
da pOSSlbllldade de
poderia falar do «seu» destino. O problcma
si impossweL contra_ O existír humano é ser-responsável, porque é ser-livre. E um
um outro destino é, por consegu1'nte, em ser que - como diz Jaspers - de cada vez decidc o que ele é:
ditório e sem scntido.
«ser que decide». E precisamente «ser-aí» (Daxeín) c não, pura
0 destíno pertence ao bomem como o Claáo tl que 0 flgarm afor-
Temfos e 51'mplesmente, «achar-se presentc»s° (Heideggc-r). A mesa que
ça da gmvidzzde, sem a qual lbe seria impossível mmmêan
ao CÍa-zzo
que comportzzrmox em relzzçáo ao destíno como em relaçao
(59) Na terminología de Heidegger, Dmeíu (em alcmãoz da = aí, e sein = scr) é o modo
que nós pisamoss extando em pe'; sabendo, entretanfm que essefbao dc scr quc sc caractcrim pcla usolicitudw própria do uinstrumcntm (Zu/mnderze) quc,
e' 0 tmmpolim donde nos cumpre salmr pam zz lzberdade. leer- por cssência, é ualguma coisa para», que sc encontra num cstado reFerido a um pnm qué
(Wozu); um estado quc é, por sua vcz, uma vontade~pam-quê (Worum-Wíllcu). hkte
dade sem destino é ímpossível; liberdade só pode ser liberdade cstado do Zulmndmt (Zu/umden/m't) é intciramcnte difcrentc do cstado Cm quc sc
em face de um destin0, um livre comportar~se perante o des- acham as símples «c0isas»: esms apcnas estão presemcs. Varlmndmdein é prccisamcntc
a cxpressão quc traduzimos por «achar-sc prcscmc». Notc-sc ainda que aquilo quc
tino. Sem dúvida, o homem é livre; mas ísto nâo signíñca que Hcidcgger dcñnc como Daxein é 0 quc, na termínologia de Jaspcrs, currcspondc à
esteja Hutuando, por assim dizer, num espaço sem ar, pois, ao Ewktmz Convém Frisar, por outro |ado. quc o Autor emprega estes dois termos com
um critério pessoaL Tendo cm consideraçào cstc critéri0, bcm Como a dihkuldadc dc
contrário, acha-se envolvido por uma séríe de vínculos. Estes forjar, em português, uma nomcnclatum cspccíñca que lhe quadrm dcíxarcmos uma
158 vínculos, contudo, são os pontos de arranque para a sua hber- vez por outra cntre parêntescs as palavras alemás (N .T.) 159
PSICOTERAPIA E TÀW
DO DA \1D_:._ _x. _-\\.'›\L.'ISE hM"b”I'E\.'CL-\L GERAL

cstá diante dc mim é c cominua a ser tal como agora e, ao me_ no caso? Prects°amente o fato de que alguém fala da sua própria
nos por si só, quer dizer, se um homem a não modiñcan mas o imomlidade como se não fosse responsável por cla; o homcm
homcm que sc póe à minha frente, sentando-se a essa mcsa, de- em quesrão procedc como sc tivcsse quc aceítaL sem maxs', como
cide de cada vez o que ele «é» no segundo seguinte, aquilo quea Eato dado, a sua própria imoralidade. como se se tivesse que acei-
um momento depois, por exemplo, me dirá ou ocultara'. O que tar a imoralidade dos outros precisamente na sua facdcidadc.
caracteriza o seu existir (Dzzsein) como tal é a multiplicidade de Também elc se comporta como sc não fosse livre, como se náo
distintas possibilidades. dentre as quais apenas uma única rcaliza Ihe fosse possível dccidir conservar a caneira em scu poder ou ir
no seu ser. (O ser peculiar do homem, a que se Chama existéncia entregá-Ia ao departamento respectiva
(Er1›"tmz), também sc poderia deñnír como uo ser quc eu sou»)_ Já uma vez nos refcrímos àquele professor de Secundar'i0 quc
Em ncnhum instantc da sua vida podc o homcm csqu1'var-se à deñnia a acsséncía» da vida como um proccsso de oxidaçào ou
forçosa neccssidade dc escolher entre as possibilidades. Só Ihc de combustão. Uma vela que - para nos atcrmos à termmologia
rcsta fazer «como se» não tivcsse nenhuma escolha e nenhuma da ñlosoña exístencial - apcnas use acha prcsente»"" , arde até o
líberdade de decidir. Mas isto de «fazer como se» constitui boa ñm, sem de modo algum poder dirigir o rcspectivo proccsso dc
parte da tragicomédia do homem. combustã0; o homem, em comrapartida. rem um -ser aín - tem._
Talvez nos sírva de exemplo ilustrativo um episódío da vida em cada Caso concreto, a possibilídade de decidír liwemente so-
do Imperador Francisco I da Áustria. Conta-se que alguém se bre 0 scu serz este decidir vai tão longe nas suas possíbilídades
apresentou repetidas vezes ao Imperador, insistindo sempre no que o homem pode chegar até à decisâo de se aniquilar a sí mcs-
mesmo requerimento, que sempre de novo era indeferida Por mo: o homem pode «apagar-se a si mcsmo».
ñm. e referindo-se ao rcquerente, o imperador dirigiu-se a um A liberdade de decid1'r, o chamado livre-arbím'o, é coisa óbvia
dos scus a]'udantes, para lhe dizerz «Verá como csse pobre diabo para o homem sem preconceitos, que tem a cxperiéncia \'ívcn-
acaba por se sajr com a sua». Talvez me perguntem qual a graça cial e imediata de si, como ser livra Para se poder pór seriamente
que se pode achar no caso. Pois esta', 51'mplesmente, em se falar em dúvida o livre-arbítrio, é preciso estar-se tolhido por uma
aí de 414guém que faz de conta que nâo é livre, aruando como se teoria filosóñca determinista ou sofrer de uma esquizofrenia pa-
nào pudesse decidir sobre se o «pobre diabo», da próxima vez, ranoica, numa vivéncia da própria vontade como algo nâo livre,
«acaba por se sajr com a sua» ou não. como algo «feito». Mas, no fatalismo neurótic0, o que há é um
O cómico do homem que não se apercebe da sua cssencial livre-arbítrio encobertoz o homem neurótico barra a si próprio
liberdade dc dccidir transparece em muitas anedotas. Urna des- o caminho paIa as suas próprias possíbüidades: atravessa-se a si
sas anedotas fala de um homem que explica à mulher como a próprio no caminho que 0 levaria ao scu ~<poder-ser›-. .-\551m'._
humanidadc dos nossos dias é imoral c, para ccrtiñca'-la, acres- deforma a sua vida e Furta-se à <~realídade do dex1r'», em vez dc
ccnta o seguintcz «Hoje, por exemplo, cncontrcí uma caneira de a exccutar (porque também o ser humano como um todo pode
documentos; você acha que me passou pcla cabeça ir entregá-1a
l60 no dcputamento dc objctos perdidos?». O que há de cômíco (60) CÍÍ a ul'tima nota que apuscmos. (\.". TJ 161
N ANAIZISE EXISTENCIAL
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA Vím GERAL

ser tomado por «rcalidadc dc cxecuçâo»). De modo quc, se de aperceber disto assemelha-se àquele bêbado quc, tendo sido imcr-
início dissemos que todo ser é ser-díferentemcnte (Ander5-sein)) Pelado por alguém quc o aconselhava a dar dc mão à embr1'aguez,
tcmos que acrescentar agora esta outra fórmulaz xer bomem mio entendia que já era demasíado tarde para isso; quando lhe objcta-
signfim apenm ser-dfze”rentemente, max também poder-dfze'rente_ ram que nunca é tarde, deu esta rcspostaz «Enta'o, náo há mocivo
mmte (Anders-ko"mzen). para prcssasl»

À liberdade da vontade contrapõe-se o que há de fatalól_ A inalterabilidade do passado que, como taL se transformou
Com efe'1'to, Chamamos destino prccisamente a tudo aquilo que em destino, é precisamente o que mobíliza a liberdade humanaz
escapa essencialmente à liberdade do homem e que não Hca sob o destíno sempre tem que ser um íncentívo para o agír cíentc
o seu poder nem sob a sua responsab1°lidade. No entanto, cm nc- da rcsponsabilídad6. Conforme vímos, o homcm está na vida
nhum momento se deve esquecer que toda a liberdadc humana como alguém que nela colhe em cada instante uma única possi-
depende do que há dc fataL na exakta medida em que só neste bilidade, dentre uma série de possibilidades e que, realízando-a,
elemento e a ele aderindo pode desenvolver-se. de certo modo a póe a salvo no rcíno do passado e, por assim
Pois bcm. No fatal inclui~se antes dc mais tudo o que é pas- dizer, a assegura. No rcíno do passado «Hca» o passado - por
sado, precísamente na sua inalterab1'lidade. Ofactumú2 (o feito, o mais paradoxal que pareça -, e «ñca», não apcsar de ter passa-
que já veio a scr, o passado) é exatamente ofada Não obstante, o do, mas precisamente porque passou. Já nos referimos, noutro
homcm é livre também em face do passado e, nessa medida, em lugar, à realídade do passado, dizendo que ela é «elevada»63 no du-
facc do que é FataL Ê verdade que o passado torna compreensível plo sentido hegeliano dc eliminar (Aufbebung) para guardar
o presente, mas não se justiñca que o futuro seja por elc cxclusí- (Aufbewabrung); e acrescentamosz ter-sido é a forma «mais segu-
vamente determínado, - como sucedc no fataJismo típicamente ra» do ser. Com efeito, é 0paxsado que o salua de serpasmgeiro“; só
sáo pangeims aspossibílidades (cf. o que sc disse sobre os Valores
neurótíco, cujo erro Característico está em reclamar, para o futuro,
o pcrdáo dos mesmos erros que se cometeram no passado, ao mes- de situação irrepetíveis c sobre a 0casíão, irreversivelmente tran-
sitória, para a sua realização); - 0 que sepreserwz da azducidade (de
mo tempo que se tem compreensão deles. Entretanto, os erros do
ser pzmageíro) é o quefíaz guardado no pzmador aquela rezzlidzzde
passado deveríam ser tomados como fecundo materiaL útíl para
que no 55r~pzmado se ímere epâe a salua O instante transforma-se
conñgurar um futuro «mclhor», já que com eles se «aprendeu».
em cternidade se conseguimos converter as possibilidades que
Portanto, o homem tem líberdade para tomar perante o passado
0 presentc enccrra naquclas realidadcs que no passado Hcaram
uma atitude meramente fatalísta ou para aprender as suas liçóes.
encerradas «para toda a eternidade». É este o sentido de todo e
Nunca é tarde demais para aprender, mas também nunca é de-
masiado cedo; semprc se esta', enñm, «na hora H». Quem nâo se
(63) Revcja-se a nota que inscrevcmos na página 46, confronmndma com o tcxto do
Autor à pág. 65.
((›I) Tr.-1duzimos SdJirÁmIÍÍMfit por «o que haí dc fatal»; e Srljirksal por dcstino. Como (64) O tcrmo do original é, a rigor, mduridade (Verga"ng/ir/7Á›a't): mas escolhemos
sc vê. a palavm destíno entm na composíção daqucla. (N.T.) a tradução aqui posta para mantermos o jogo de palavms do Autor (o passado. em
(62) 0 gríEldo não ñgura no oríginaL (N. T.) aJemâo, é díe Vergangmbeit) (N . T. ) 163
P51(Jk)'lT:IL^\PlA E Sl-ÊN'I'll)() I)A \'Il)_-\ M A\'Ál l.\L L'u\'lb l l*N( '|Al (›'ER1\1,

qualqucr rcalizan Scndo 2Ls5ím, o homem nào «rcaliza» apenas m..


cspécie de mudança dc posíção basta, para tanto, incluirmos
quando ctêtua uma ação ou cria uma obra «duma vez para scm- 3 dimcnsão temporal no nosso csqucma, já que uma mudan-
pre», mas também quando se póe a experimcntar uma vivência_ ça de posiçâo significa uma modificação da atitudc no rcmpo e
E, tomando o termo no estríto scntido que nós aqui lhe damos., com o tempo. Faz partc da mudança de posição ncstc scntid0,
e em conscquência desta espécie de 0bjctivism0, pode-sc chegar Por cxemp10, tudo aquilo a que chamamos cducação, cduca-
21 afírmar quc o realizado numa experíência vívencial não é sus- çáo complcmcntar, autocducação, mas tàn'1bém a psicolcrapia
cetível dc ser destruído rcalmentc, mesmo quando porventura na accpção mais ampla da palavra, c bem assim 0 fcnómcno da
caia no esquccimcnto; ou até fícando excluída a possibilidade de conversâo.
rccordá-lo, pela morte do sujcito da vívência°Í As disposiçóes reprcsentam o destino biológico do homem,
Dc ordinári0, 0 que o homcmlvê é apenas 0 restolho do pas~ c a condição o seu destino sociológíca Acresce a isro, porém,
sado, passando por alto os celeiros do passado bem fornidos. E, o dcstino psicológico, do qual faz partc aquela atitudc anímica
na verdade, não há nada dcñnitivamcnte perdido no passado, que. por nâo ser livre, nâo constitui ainda uma livrc tomada clc
antes tudo aí ñca a bom recado, para não mais se perder. Do que posição espirituaL Pois bem; o que farcmos cm scguida scrzí cxa-
uma vez aconteceu, nada se pode apagar ou deítar fora; e não minar, passo a passo, cm que medida 0 biológíc0, o psicológico
haverá maís razão ainda para dizer que tudo depende do que c o sociológico, enquanto reprcscntam algo dc faátaL intcrfcrcm,
ncste mundo se criou? digamos assim, na liberdade humana.

O destíno bíolágíco
O PODER DE RESISTÊNCIA DO ESPÍRITO
Se repararmos naqueles casos ou situaçóes em que o homem
O que há de fatal na vida apresenta-se ao homem prin- defronta o destino biológico, logo nos surgirá o problema de
cipdmenre sob três formasz 1. sob a forma das suas disposíçó<35, saber até onde chega a liberdade do homcm cm facc do acon-
aquilo quc Tandler denominou «fado somático»; 2. sob a forma tecer orgânico; e, paralelamente, o problema de saber qual a
da sua Condíção, ou seja, a totalidade das suas concretas situa- profundidade com que o poder da sua vontadc livre penetra
çócs cxternas. Disposiçócs e condíção íntegram a posíçâo de um no campo do ñsíológico. Desta maneira, aproximamo-nos da
homem. E, perante esta, tem o homem uma atitude; atítudc problemática psicofísica, mas scm nos introduzirmos na intcr-
que, ao contrário da «posição» essencialmente fatal do destino, é minável discussâo sobre a qucstáo de saber em que mcdida o
1ivre, conforme se pode provar vcriñcando que há na vida uma organismo físico do homem depende do anímico-cspirituaL c

(›(5) cha-se, aliás_ o quc. em corrclnçáo com isto, sc díz mais adiantc (pa'g. 1 5 5) n (66) Àquh a hidclidadc au pensamcnm do Autor não nos pnrccc pcrmiür a conserv.1-
rcspcito do subjetívismo ou upsicologísmm do homem que Hca aturdido diame duma çâo do jogo dc palavms que. mais uma vc¡,'. cle utili.7.'1. Assim. traduzl'mnsz Anlnga por
infblicidade c foge para a «inconsciéncian da infelícidadc - pela cmbriaguez - ou para disposiço'e5: Lage, por condiçãm Stellung, por posiçãoz Eimtellung, por atitude (cm vcz
164 a inconsciência absolula - pclo SUÍCÍdiÍL dc postura); Umsttlltmg, por mudança dc posiça'0. (N .T.) 165
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

vice-versa. Baste-nos acarear duas cruas realidades, dcixando-as a título de experiência, produzirem nelas uma espécie dc afc~
a comentar-se por si mesmas. tOS puramente cristalizados (rez'n/zrístal/isíerte Affekte). Ora lhes
Uma vcz, 0 psíquiatra Lange informou-nos do seguinte eram sugeridas vivências gozosas, ora tristes. Poís bemz veriñcou-
casoz havia dois gêmeos seus conhccídos, que procediam de um -se nas referidas experiêncías que o título de aglutinação relatívo
único óvulo c há muitos anos viviam completamcnte scparados aos bacilos do tífo, se 0 soro sanguíneo sc extraía ao tempo da
um do outro. Pois bem, a ccrta altura recebeu uma carta de excitação alegre, era incomparavelmente maíor do que quando
um deles que vivia noutra c1'dade. Ncssa carta, rcvelava-se, pela obtido ao tempo do estado de ânímo triste. Alia's, estes exames
primeira vez, uma ideia quimérica do mesmo conteúdo que o permitíram ver a uma nova luz a reduzida capacídade de resis-
da paranoía do outro irmã0, sob os cuidados de Lange para têncía às infeçóes do organismo de um homem hipocondriaca-
tratamcnto psiquiátrico da mesma. Assim, as disposiçóes enfer- mente medroso, e bem assim o que costuma sucedcr com as en-
miças comuns manifestavam-se cyomo algo de fatal nestes doís fermeiras possuídas do senso do dever moraL Estas enfermeiras,
irmáos que, como gêmeos de um só óvulo, se tinham formado trabalhando muito embora em hospitais de doenças ínfecciosas
a partir da mesma célula germinaL tendo portanto as mesmas ou até em leprosários, a tal ponto se acham preservadas de infec-
disposiçóes. çóes que, quando se fala nisso, chcga-sc a dizcr que se trata de
Ora bemz tcremos que cruzar os braços perante esta força «mílagre» ou de «fábula».
biológica do destino? Deveremos negar aos poderes orgânícos a A meu ver, é ocioso andar sempre a trazer à baila, para com-
consideração devida, uma vez vistos fatos como estes, que tanto frontá-los entre si, o «poder do espírito» e o «poder da nature-
clizcm da sua eñcácia? Estará porventura o destino dos portado~ za». Já nos referimos ao fato de que ambos fazem parte do ho-
res de certas disposiçóes inevitavelmcnte conñgurado pelo bio- mem, dependendo sempre um do outro. Nâo há dúvida de que
lógico? E, sendo assim, terá aínda alguma coisa a fazer, quanto à homem é cídadão dc vários reínos, estando, essencialmente, na
conñguraçáo do destino, a liberdade do espírito humano? Dos sua vida, numa tensáo, num campo de forças bipolar. Se qui-
resultados obtidos pela investigação no campo da patologia he- séssemos comparar entre si os dois poderes, pondo-os a medír
reditária dos gêmeos, brota uma sugestão fatalista que é perig0- forças, tudo redundaria numa espécie de «corrida morta». Mas,
sa, porque paralisa a vontadc de resistir ao destino ínterior. Com como se sabe, é nas corridas mortas que se chega ao cúmulo da
efeito, quem comidem mamzdo 0 seu destino torna-se mazpzzz de violência. E, añnaL o que propríamente faz a vida do homem
UEnCê-/0 67 é a eterna luta que nele se dá entre a sua liberdade e o seu des-
Isto, quanto ao primeiro caso. Vejamos agora o segundo. Na tino tanto interior como exterior. Sem desprezarmos o que há
clínica ncurológica de Viena, Hon e os seus colaboradores pu- de fataL c cspccialmente o destino biológico, o que nos cumpre
seram em estado hipnótico algumas pessoas, para deste modo, obscrvar a nós, na qualidade de médicos psicoterapeutas, em
tudo isto, são, em última análise, as provas que garantcm a li-
berdade humana. Pelo menos por razóes heurísticas, tcríamos
(67) Notc-se que l1.1', aqui tnmbém, um trocad1'lho, desta vcz íntraduzívclz bmegell
166 signiñca marcado (dccídíd0, selad0); besiegen signiñca dominar (venccr). (N .T.) que fazer de conta que os limites do livre poder-ser (Ko"mzen) 167
A) ANÁLlSE I:X“lSTENClAL GERAL
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA Vllí

rcm facc do ter~quc-ser (Mu5"sen) fatal cstão infinitamente longe; nós, os homcns de hoje, já conseguimos rcaJizar todas as pos-
nessa altura, podercmos pclo menos ir táo longe quanto possí- sibilídades quc corrcspondcm ao atual grau dc organízaçáo do
vel (RudolfAllers). cérebro humano? É perfeitamentc conccbích rcalmentc, quc
Mesmo nos casos em quc o ñsiológico está em íntima relação o desenvolvimento das funçóes do cérebro ainda csteja muito
com o psíquico, na patología cerebraL uma alteração física pato- aquém das possibílídades max'imas do órgáo, muito aquém da
lógica ainda não signiñca, de per si, nenhum destino defínitivq sua capacidadc dc rendimemo.
mas sim um mero ponto de arranque para uma confíguração li- O destino biológico é, para a líberdadc humana, puro matc-
vre. É neste sentido quc se diz que o cérebro tcm «plasticidade»: rial a conñgurar. Tal é, na perspcctiva do homem, o scu último
assím, sabc-se que, no caso de serem atingidas por ferimento sentido. De fato, obscrvamos constantemente como o homem
partes cxtemas do cércbro, passam a substituí-las «vicariamente» lhe dá sentido ao integrá-lo na estrutum históríca e biográñca
outras partes dcstc órgão, de modo que, mais cedo ou maís tarde, da sua vida. A cada passo encontramos homens quc, de modo
a função afetada pode chegar a' restabeleccr-se. Dandy, o cirur- excmplar, conseguiram superar as rcstriçóes e limitaçócs iniciais,
gião norte-americano espccíalista em círurgia do cérebro, con- postas à liberdade pelo fator biológico, isto é, as diñculdadcs
seguíu elíminar opcracionalmente toda a parte direita do córtex quc, a príncípío. se opunham ao descnvolvímento do seu es-
cerebral (nos destros), sem quc daí tivessem resultado perturba- pírito. Assim, a sua forma de vida deñnítíva faz lcmbrar uma
çóes anímicas duradouras dignas de nota. Um problema à parte realização artística ou desportiva: uma 1'ealizm;ão artístíca, na
está em sabcr se o padecimento físico permanentc quc se segue medida em quc a rcbclde matéria bíológica sc foi dcixando mo-
a uma operação dcsse tipo, e que consiste numa paralisia da me- delar; uma realização desportiva, no scntido em quc a naçâo
tade esquerda do corpo, será ou náo bem recebido pelos doentes dos dcsportistas por excelência, os anglo-saxóes, usa a expressáo
em questão ou pelos respectivos parentes, - problcma perante o idiomática to do orzei best ~ dar o max'imo de sí, dando-se às
quaL maís uma vez, se póe de manifcsto a concepção do mundo, coisas, entregando-se-lhcs de corpo e alma -, tomand0-a como
como fundamento último da atuaçáo médica. uma das mais correntes c quotidianas cntrc 05 ditos usuais. Conv
Hoje em dia, ainda não sabemos se não Hcam, por assím tudo, fazer cada qual 0 melhor «que puder», fàzer em cada caso o
dizer, ímprodutivas, partes inteiras do cércbro humano. Nem max'imo possíveL signihâca tcr em conta, ao ajuizar duma reali-
sequer se sabe ao certo se sâo efetivamente aprovcitadas todas as zaçâo, a sua relatividade; apreciá-la em rclaçâo ao seu «start», em
células ganglionares (aliás, o fato de os centros lesados poderem rclação à sítuaçâo concreta, com todas as suas dificuldadcs, isto
ser substituídos por Outros na sua função persuade o contrá- é, os impedimcntos extcrnos ou inibiçóes intcrnas.
rio). Sobretud0, conclui~se das investigaçóes mais recentes quc Uma vida humana bem podc estar íntciramente marcada,
o descnvolvimento filogenétíco do cérebro se dá aos saltos, ísto desde o seu começo, pela resisrência contra um bandimp do des-
é, de tal modo quc o número das células 'ganglionarcs, em vez tino, no quc cstc tem de fatalidade biolo'gicn, rcprcsentando,
de aumentar paulat1'namente, antes duplíca de rcpente, em cada añnaL dado essc difícil «start» a quc aludimos, uma única grandc
168 caso. Sendo assim, qucm poderia añrmar com segurança quc realização. Conhecemos um homem que, cm conscquência dc 169
E SENTIDO DA VIDA
TPSICOTEMHA
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

scío matcrno, era pa_ 16 elemento anímíco quc contramina a líberdade humana. Os
cerebral contr aída já no
uma enfermídade
, e tínha táo atrofiadas as pemas
'dades doentes neuróticos pendem, no aspecto psícológíco, para uma
ralítico das quatro extrcml
so se podía mexer com o auxílio de fé cega no dcstino e, ao rcferírem-sc ao destino, ncste sentido,
que, durante a vida ínteira,
Até os finais da juventude foí considera_ mvocam constantementc a inexorabílidadc das suas tendências
uma cade ira de rodas.
mcntaL tendo ñcado anajfabetQ instintivas, da força dos ímpulsos ou, digamos, da fraqucza da
do, geralmente, como atrasado
um homem de letras resolveu tomar vontadc, das fraquezas do cara'ter. No seu fatalísmo típico, o
A certa aJtura, ñnalmente,
O ccrto é que, num período de tem- neurótíCO parece como que dominado pcla fórmula «A vida é
conta delc e ensiná-10.
seria de prever,o nosso paciente não só assim» - aí está o seu «ser-assim»!oR - c «assim tinha quc ser»;
po maís curto do que
etc., mas também adquiriu uma cultura e com esta lsegunda parte da fórmula posta-se precisamente na
aprendeu a ler, escrever,
pelas quaís se havía interessado parti- sem-razão.
superíor em cspe cíalidades
de renomados homens _de ciência e pr0_ O ego «qucr». O íd69 «impulsa» (obs. l7). Mas nunca o ego é
cularmcntc. Uma séríe
entre sí a honta dc serem seu absolutamente «impulsado»7°. Velejar náo é simplesmente dcixar
fcssores unívcrsírários dísputavam
reuma vanas vezes por semana o botc corrcr ao sabor do vento que o «impulsa»; a artc de velcjar
mestre particular. Em sua casa,
admiraçáo era ele começa, antes pelo contra'rio, precísamente quando se está em
uma tertúha hrerarla c arust1ca, cujo centro de
pelas mostras de amor condições de imprímir à força do vento a dircçâo desejada, po-
próprio. Belas mulheres encíumavam-se
escândalos, suicídios.
que nele víam, o que deu motivo a cenas, dendo-se inclusíve dirigir a embarcação contra o vent0.
que nem sequer
E, não obstante, o que ali havia era um homem Fraqueza de vontade por nascímento é coisa que nâo existe. Ê
a articulaçáo
estava em condiçóes de falar normalmentez Como verdade que os neuróticos hipostasiam a força da vontade; esta,
0 rosto
tinha sido afetada por uma atetose geral grave, era com contudo, não é nada dc cstático, algo dado de uma vez só, antes
lutar
convulsíonado e banhado em suor pela fadiga que tinha dIC é algo que, de certo modo, se apresenta cm cada caso como fun-
ostcnsívamente na conformaçáo motora de cada palavra. E bem ção de váríos fatores, a saberz conhccimcnto claro dos objctivos,
de ver que este homem, se apenas tivesse seguido o seu «desti- decisâo honrada e um certo treino. Enquanto um homem c0-
no», aínda hoje estaria num asílo a vcgetar, até às últimas. E, no meter o erro de, mesmo antes de tentar o quc quer quc seja, cis-
entanto, que rcalízação não representa a formação da sua vida.' mar constantemente no inevitávcl malogro das suas tentatívas, é
Quc de força convíncente ela nâo possui, como exemplo para os claro que nâo lhe poderão surtir efeito as tentativas em questão;
nossos doentes que, por via de regra, têm de haver-se com um além do mais, porque ninguém de bom grado se retrata, mes-
«start» bem mais fácil do que o destc caso.' mo perante sí mesm0. Daí a ímportâncía que tem o excluir de

0 destino psicolágico (68) No oríginaL Soseinz So -assim-, e xein -ser-. CE Nora do Autor à pa'g. 1 l7. (N .T.)
(69) Nn original não figuram os pronomes latinos, mas os alcmãcs correspondcmes.
ItlzeEL (N,T.)
Analisemos agora aquilo a que demos 0 nome de dCStÍDO
(70) Traduzímos utreibw por impulsaz e ugetricbcnm por impulsado, para mantcrmos
170 psxcologico do homem, querendo com isto referírmos àque- a corrclação tcrmínológica do alcmão. (N .T.) 171
PSICOTERAPLA E SENTIDO DA VIDA ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
ím

antemão, na formulação interior dc qualqucr propósito, tudo cologia individual deveria exigir ao homem é quc clc sc libertc
o que possivelmcnte tenha visos de contra-argumento. Assim, dos crros c fraquezas de caráter típicos que porventura ainda lhc
por exemplo, se alguém diz, de si para síz «não vou beber», logo adcrem, em decorrência da respectiva sítuação educacionalz dc
deve contar com que sc lhc háo de apresentar as mais variadas modo que, enfim, já ninguém repare quc está a lidar com um
objeçóes, mais ou menos como estas: «mas... nâo tcm jeito»; «ñlho únic0» ou coísa semelhante.
«apesar de tud0, náo poderei resistír», etc. Mas, se o interessado A «lei» (da psicología individuaD a que «sc amoldava» (como
rcsolve pôr um ponto ñnal na discussão e diz repetidamente a filho úníco) a nossa paciente acíma citada, só vale, caso por caso,
si mesmoz «Aqui náo há bebidas e nâo se fala mais no assunto», teorícamente, para quem está de fora; na prática, cxistencial-
cntão já entrou por bom caminho. mente, só cstá em vigor prccísamente cnquanto a «deixamos vi-
Quão sábia era - ev1'dentemente, scm cla 0 Ísaber e querer ~ a gorar». Os erros de educação não são nenhuma desculpa; são
rcsposta de uma pacíente esquízofrêníca, quando lhe pergunta- para acertar por meio da autocducaçáo. Por outro lado, o fata-
vam se tinha força de vontade.l «Quando quero, tenho; e quando lismo neurótico signiñca uma Fuga à responsabílidade com que
não quero, também nâo tenho», - dizia ela. Esta paciente psicó- oneram os homens a sua própria irrepetibilidade c 0 seu «caráter
tica teria podido dar, portanto, uma boa liçâo a muitos docntcs dc algo único», - uma fuga para o típico, para o que parece
neurótícos, fazendthes ver que o homem propende a dissimu- haver de fatal no dcstino da típicidada E, neste ponto, não é
lar a seus olhos o seu próprio 1ivre-arbítrio, escondendo-o por essencial que o típo a cuja regularidade se julga estarmos sujeí-
trás duma suposta fraqueza de vontade. tos, se conceba como tipo de caráter ou como típo dc raça ou de
O fatalismo neurótic0, ímpressíonado sobretudo pelas tescs classc; não é essenciaL portanto, que sc entenda no scntido de
da psícologia índívidual - entendendo-as mal e tergivcrsan- uma Condicionalidade psícológíca, pois a fuga pode também ve-
do-as - apela muítas vezes também para 0 que «Hzeram dele, na riñcar-se com base numa condicionalidade bíológica (coletiva)
infância, as inHuências de educação e do meio ambiente», como ou sociológíca.
se esses elcmentos e quejandos se tivesscm transformado em A atitude espíritual de um homem tem, portanto, certa mar-
destino. O que os homens querem com isto é, no entant0, des- gcm dc líberdade de movimentos cm facc do quc nele hzí, não
Culpar-sc das suas fraquezas de caráter. Tomam estas fraquezas apenas de físíco, mas também dc anímico.' e nem de longc ele
como simplesmente dadas, em vez de nelas verem uma tarefa de tem que se submeter cegamente ao seu destino psicológico. Mas
complementação educacional ou de autoeducação. Uma doente a expressão porventura mais inequívoca c impressíonante do
que, após uma tcntativa de suicídio, fora íntemada numa clínica que acabamos de dizer, temo-la nos casos em que se trata dc
ncurológica explicava, recusando as índicaçóes de um psícotera- uma conduta humana de Iivre escolha perante estados anímicos
peutaz «Mas que querem dc mim? O que cu sou, precisamfntc é patológicos. Vejamos o caso de uma pacicnte que estava interna-
uma “filha única” típica, segundo Alfrcd Adler'.» Como se o quc da numa clínica para tratamento dc depressóes endógenas que
interessa não fosse precisamente libertar-se daquilo que numa se repctiam period1'camente. À vista das componentcs endóge-
pessoa há de típico. Bem vistas as coisas, o que o ethox da psi- nas da sua doença, foi-lhe prescrita uma terapia medicamentosa, IW
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA ím
ANAlISE EX1*STENCIAL GERAL

iniciando-sc portanto um tratamento aplicado a fatorcs somáti- no fatal (Straus diría «criatural»), são apropríados para incitar
cos. Um dia, o médico que a tratava surpreendcu-a em estado cle o homem (livrc, em todo caso, para tomar atitudes cspirituais
grandc excitaçã0, debulhada cm lágrimas. Uma breve conversa Pcrante os processos anímicos) - para íncitar o homcm, digo, a
pcrmítiu veriñcar que, nesse instante, o que havia não era pro~ adotar perame os ditos processos a única conduta corretaz aque-
priamente uma dcpressão endógcna, mas antes uma depressão la que Consiste em rcalizar o que nós denominamos valorcs dc
psicógena que tinha, assim, no conjunto, um componente psi- atítud6. Com o tempo, a paciente aprcndeu, não apenas a cn-
cógeno. Com efeito, a doente chorava, nessa ocasía'o, por ser de carar, apesar dos scus estados de desgosto, uma vida chcía dc ta-
choro fáciL A dcpressão, por assim dizcr, tinha-se potencializa~ rcfas pessoais, mas também a ver, nesses mcsmos estados, mais
do. Ao componcnte cndógeno acrescia um componente psicó- uma tarefaz a tarefa de acabar com eles fosse como fosse e, como
geno adicional. A depressáo atual tinha por objcto a dcpressão qucr que fosse, sobrelevá-los. Feita csta anal'ise existencial - poís
endo'gcna; era, nestes termos, uma rcação ao estado endógeno. nâo foí senão isso 0 quc se fez -, c a dcspcito de subsequentcs
Dado este desgosto reativo, prcscreveu-sc cntão uma terapia adi- fases endógeno-dcpressivas e mesmo no scu decurso, conseguiu
cionaL isto é, a psicotcrapia correspondente aos componentes levar uma vida que era mais cheia de sentido do que antes do
psicógenos. Por isso, a docnte foi aconselhada a quc evitasse, tratamentm mais inclusíve do quc possivclmcnte teria sido se
quanto possíveL o cstar a magicar c a dar voltas à sua depressão, jamaís tivesse adoecido e prccisasse dc um tratamento. Isto lcm-
já que isso, compreensích mas 1'njustiñcadamente, a fazía vcr bra-nos dc novo aquela frase dc Goethe que citamos, para
tudo negro. Foi admoestada a que deixasse passar a depressáo íncuICá-la como a melhor das max'imas dc qualquer psicotera-
como uma nuvem que corre diante do sol, tirando-o da nossa pia: «Se tomamos os homens como eles são, fazcmo-los piorcs;
vista; fazendo-a compreender que, assim como o sol não dei- mas se os tomamos como eles devem ser, faremos deles o quc
xa de existir, embora momentaneamente o não vcjamos, assim podem ser».
também os valores continuam a existir, mesmo quando não os Em muítos dos casos de doença mentaL a melhor Forma dc
enxerga um homcm que momentaneamente, ao atravessar uma produzir, na mcdída do possíveL a atitude espíritual livre é levaI
depressão, Hcou cego para os valores. o doente à reconciliação com o destino da sua doença. Não há
No entanto, uma vez posta a Claro a situaçâo da docnte pelo dúvida de quc é precisamente a luta constante e inútil contra
tratamcnto psicoterápico, descobriu-se toda a sua carêncía espi- esses estados «criaturaís» que leva a uma depressâo ad1'cional; ao
ritualz ela própria revelou a suposta pobreza de conteúdo e fal- passo que quem simplesmente e sem convulsões se abandona
ta dc scntido da sua exístência - cxistência dc uma pessoa quc aos estados em qucstâo, acaba por supcrá-los mais depressa.
sente o bandicap próprio do destíno das suas dcpressões recidi- Havia uma paciente que, há dezenas de anos, sofria de
vas. Posto ísto, era indicado ír mais além do tratamento psico- gravíssimas alucinaçõcs auditivasz ouvia constantemente vo-
terápíco, no scntido mais cstrito do termo, atendendo a doentc zes horríveís, que acompanhavam com observaçóes sarcas'ticas
pelo processo logoterapêutico. Sendo assim, tratava-se de lhe tudo quanto fazia ou dcixava de fazen Um dia perguntaram-lhe
174 mostrar como precisamente esses cstados de dcsgosto, em retort Como, apcsar disso, cstava de tão bom humor e o que tinha que 175
PSICOTERAPIA E SENTTDO
DA VIDA m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

dizer ao quc escutava. Ao que ela rcspondeuz «Eu, cá por mim, condiciona-o; por outro lad0, e 51'multaneamcnte, o índivíduo
penso que, ao ñm e ao cab0, sempre é muito melhor ouvir o quc é orientado para se ajustar ao referido organismo. Assim, vcriñ-
ouço do quc estar surda como uma porta». Que arte dc viver não ca-se tanto uma causalidade social quc sc excrcc no indivíduo,
há e que grandc rcalização (no sentido dos valores de atitude), como uma ñnalídade socíal deste último. Pelo que diz respeito à
por tras' deste comportamcnto de uma pessoa simples em face causalidadc social, seria dc notar, mais uma vcz, que as chamadas
do tcrrível destino dc um sintoma esquizofrênico pcnoso! Mas, leis sociológicas nunca determinam intciramente 0 indivíduo,
não sc encerra porventura nesta observação, a um tempo jocosa de modo algum o despojando, portanto, do seu livre-arbítrio. O
e scnsata, uma certa liberdade dc espírito em relação à docnça quc sucede, ao contrário, é que, antcs de inHucnciarem o índiví-
mental? duo no seu comportamento, têm quc passar, digamos assim, por
Qualquer psiquiatra sabe Como pode variar - em funçâo das uma zona de liberdade individual. Quer dizerz o homem con-
diversas atitudes de espírito - o comportwamento de homens psi- serva também em face do destino social certa margcm de livre
cóticos em face da mesma e úníca psicose. Assim, um paralítico possibilidade dc decisão, tal Como perante o destino biológico
irrita-se c adota uma atitude dc hostilidade para com os que o ou psicológíco.
rodciam, ao passo que outro - com a mesmíssima doença! - é No que conceme à ñnalidade sociaL gostaríamos de rcferir-
amável, chcio dc bonomia, e até, porventura, encantad0r. Sabe- -nos ao crro em que incorre sobretudo a psicologia individuaL
mos de um caso que passamos a narrar. Numa barraca de um no âmbito da psicoterapia. O que tcmos aqui em mente é aque-
campo de concentraçáo, havia duas dúzias de doentes com tifo la errônea concepção segundo a qual toda a conduta valiosa de
exantemático. Todos deliravam, exceto um.' E que fazia? Esfor- um homem não é senão, cm última análise, uma conduta so-
çava-se por cvitar os delírios da noite, ñcando acordado de pro- cialmente correta. O ponto de vista segundo o qual só é valíoso
pósito; o caso é que aproveitou a excitação febríl e a animaçâo de o que acarreta algum proveito à comunidade é insustentáveL
cspírito para reconstruir, no decurso de 16 noites de febre, rabis- Conduziria a existência humana a um cmpobrccímento dc va-
cando às escuras, e numas diminutas folhas, algumas frases este- lores. Com efeito, é fácil demonstrar que, no reino dos valores,
nográñcas básicas - um manuscrito duma obra cientíñca ainda há reservas individuais, ou seja, valores cuja realizaçâo podc e
inédita que lhe tinham subtraído no campo de concentração. até deve lcvar-se a cabo além e independentemente de toda e
qualquer comunidade humana. Nomeadamente, sempre que sc
trata do que nós classiñcamos como valores vivenciais, nenhuma
validade pode reclamar o padrão do útil para a comum'dade. A
O destíno sociológíco plenitude de valores que sc oferecem ao indivíduo que, mesmo
em soledade, vive uma expcríéncia artística ou experimcnta vi-
Por toda a parte o indivíduo nos surge incrustado na cs- vências da natureza é fundamental e essencialmente indepen-
trutura sociaL Com efeíto, a comunídade determina-o sob dois dente do proveito quc a comunidadc porvcntura disso possa au~
pontos de vistaz por um lado, o organismo social como um todo _,_./
ferir, num caso Concreto - 0 que, de resto, diñcilmente se pode
PSICOTERAPIA E SETÍDO
DA VIDA A) ANÁLISE EXlSTENClAL GERAL

ímaginar. Contud0, não nos passa despcrccbido que também há A PSICOLOGIA DO CAMPO DE CONCENTRAÇÀO
uma série de valores vivencíais que estão reservados neccssária e
esscncialmente à vivência comunitáriaz quer se trate de uma base No campo de concentração, a existência humana sofrcu uma
comunitária mais ampla, como succde na camaradagcm, na so- deformaçáo. Esta adquiriu taís proporçóes quc se impunha per-
l|'daricdadc, ctc.; quer dessa outra que é própria da comunidade guntar se o observador, achand0-sc ncle também prisioneiro,
amorosa, apenas entre duas pessoas. ainda poderia conservar a suñciente objctividade nos seus juí-
Com tudo isto, não ñzemos mais do que indicar o momento zo$. Ev1'dentemente, a sua capacidadc para ajuizar dc si c dos
social da existência humana, na medida cm que o podemos con- outros por força tinha que ser também afetada do polnto dc vista
ccber como base ou meta da vida. Temos que atentar agora no pSicoIógiCQ Ao passo que quem estava dc fora ñcava a dema-
socíal cnquanto desrino propriamentc dito, isto é, cnquamo ele- siada dístância c diñcilmeme podia entrar nos scntimentos dos
mento imutách ininHuenciáveL quc sc contrapóe à vontade bu- prísíoneiros, quem «estava bem por dentro», tcndo já vivido,
mana, desañando-a para a luta. Cumprc-nos cstudar, portanto, por si, o sofrimento, carecia do mínimo de distância para julgar.
o sociológico, tomando-0 como aquclc terceíro campo em que Por outras palavras, o problcma fundamental residia em que se
o quc há de fatal na vida vem ao encontro do homcm. Ncssc impunha admitir quc o critério a aplicar à rcalidade dc vida de-
sentído, não deixaremos de considerar os problemas da conñ- formada cra, já de si, um critério dcsñgurada
guraçâo da vida proñssionah o problema, digamos, daquela luta A despeito destes rcparos, os especialistas em psicopatologia e
ativa em que 0 homem se debate com o meio ambiente soc1'al. psicoterapia coligiram, a este propósito, um matcrial de obscrva-
É o quc farcmos, no próximo capítulo. Aqui, entretanto, apcnas çóes próprias c alhcias, tendo-sc chegado a condcnsar em teorias
nos ocuparcmos com este meío ambíente como fator que, em a suma das suas expcriências e vivências; e, considcrando a sua
dadas circunstâncias, o indivíduo tem que sofren suficientc concordância no cssenciaL podc-sc dizer que é muito
Os últimos tempos prodigalízaram abundante material à psi- pouco o subjetivísmo que há que polir nclas.
cologia destc possível sofrcr sob a pressão das circunstâncias so- Nas reaçóes do prisionciro do campo de concentraçáo são vi-
ciais. A primeira guerra mundiaL permitindo compor o quadro síveis três fascs distintas: a fase da entrada no campo, a da vida no
patológico da chamada docnça do arame farpadol («barbed wire campo propriamente dita, e a quc sc segue ao ñm da detençâo,
disease») com basc nas observaçóes e experíências dos campos de isto é, a fase da libertação. A primeira caracteriza-se pelo chama-
reclusã0, já tinha cnriquecido a psicología da prisão; posteri0r- do Choque dc cntrada. Esta forma de reação perante um meio
mente, a segunda guerra mundial deu-nos a conhecer os fenô- ambicnte desacostumado, anormaL não ofcrece nada de novo
menos resultantes da «guerra de nervos». Mas estava reservado a sob o prisma psicológico. O prisionciro que acaba de ingressar
um passado mais recente o enriquecimento da in_vestigação no no campo traça um risco por sobrc a sua vida anterior. Tiram-lhc
sentido de uma psicopatologia das massas, pois foi o estudo da tudo o que traz consígo; nada mais lhe ñca que represente um
vida das massas nos campos de concentraçâo 0 que mais contrí- laço de união extemo com a sua vida anterior, a não ser, talveL
178 buiu nesse sentido. os óculos, se é que lhc permitem conserva'-los. As impressóes 179
PSICOTERAPIA E SENTIDO l)A Vll)A ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
ím

quc desabam sobre elc, ou o scnsibilizam profundamentc ou o Comuns, ev1'dentemcntc, e, coísa digna dc nota, cventuais in-
cxaltam. Vísta a ameaça que constantemente pcsa sobre a vida› tercsses religiosos. Afora ísto, o prisioncíro vai mergulhando
um ou outro decide-se a «atirar-se às farpas» (a cerca de arame numa híbernação cultural.
farpado do campo, carregada de alta tensão), ou a tentar quaL O prímitivismo da vida interior no campo de concentração
quer outro suicídio. Esta fase, contudo, logo depois de alguns tem uma expressão caractcrístíca nos sonhos típicos dos prisio-
dias ou semanas da scgunda fase, costuma ccder a uma profunda nciros. A maioria sonha com pã0, bolos, cígarros c um banho
apatia, que é um mecanismo de autoproteção da alma. O que quente. Fala-se também constantcmente de comidaz se se jun-
até então sensibílizava ou amargurava o prisíoneir0, o quc ele tam nos «comandos de trabalho» e a scntinela não está pcrto, os
tinha que contemplar à sua volta ou aquilo em que tinha que prisioneiros trocam entre si rcccitas de cozinha e descrevem uns
participar, ricochetcía, daí em diante, numa espécie de arma- aos outros os pratos favoritos quc hão de ofcrcccr-sc quando,
dura que 0 envolve. Trata-se aqui de um fenômeno anímico de uma veZ livres do campo, se convidarem uns aos outros a almo-
adaptação ao meio ambícnte peculiar cm que sc vê obrigado a çar. Os mclhorcs dcntrc elcs esperam ansiosamente o día cm que
viver; o que nele se passa chcga-lhc já amortccido à Consciência. já nâo tenham quc sentir fomc, não por amor à boa comida, mas
A vida afetiva vaí dccaindo até um nível baixíssimo. Veriñca-se pelo desejo dc que acabe ñnalmente aquela situação humana-
aquilo quc os observadores oricntados sob um prisma psicanalí- mente indigna em que não sc podc pensar senão cm comen As-
tico conccítuam como regressâo ao primitivismo. Os interesses sim, o Campo de conccntração (salvas as exceçóes mencionadas)
Cingem-se às neccssidadcs imediatas e mais prementes. Todas as conduz ao primitivismo, e a subalimentação faz precisamente do
aspiraçóes parecem concentrar-se num único pontoz sobreviver instinto nutritivo o contcúdo maís importante em torno do qual
dia a dia. À noite, quando os prisioneiros, exaustos, chcios de se fccham os pensamentos e dcsejos; de modo quc, sobrctudo,
frio e de fome, eram outra vez arrastados para as barracas pe- provavelmente por causa da subalimentação, nota-se também
los «comandos de trabalho», aos tropeçóes pelos campos neva~ um surpreendente desinteresse pelos tcmas de conversa sexualz
dos, sempre se lhes ouvia soltar um profundo suspiro: «En6m, nos campos de concentração não se dizem «porcarias».
aguentamos mais um dia!» A interpretação das reaçóes anímicas pcrante a vida do cam-
Tudo o que ultrapassa os problcmas mais atuaís da pura po de concentração, nos tcrmos que acabamos dc ver, como re-
e vital autoconservaçáo, 0 que está mais além da salvação da gressão à primítiva cstrutura da instínt1°vidade, não é a única
vida - da própria e da alheia -, da vida atuaL dia a dia, mo- que sc conhecc. E. Utitz explicou as alteraçóes dc caráter típicas,
mento a moment0, por força tem que scr considerado como observávcis, a seu vcr, nos prcsidiários dos campos de Concentra-
um luxo. Chega a ser coisa sem valor. Esta tendência crescen- ção, como um deslocamcnto do tipo de caráter Ciclotímico para
te para a desvalorização nota~se nas palavras dedesabafo que 0 esquizotímica O que lhe chamou a atençáo foi que, além da
mais se ouvem nos campos de concentraçáoz «É tudo uma apatia, podia obsc-rvar-se nos presidiários uma grande írritabi-
merda'.». Todos os intercsses superiores Hcam postcrgados du- h'dade. Ora, ambos os estados afctivos correspondcm perfe1'ta-
ISU rante a prísão no campo, ~ a nâo ser os intcrcsscs políticos mente à proporção psicostética do temperamento esquizotími- 181
PSICOTERAPIA E STWIDO
DA Vl DA A) ANÁLISE EMSTENCLAL GERAL

co, no sentido que Kretschmcr lhe atribui. Mas, prescindindo destino do seu ambientc social? A nossa rcsposta éz nâo! Ondc
de toda a problematicidade destas mudanças ou instabilidadc de ñca entáo a liberdade intcrior do homcm? Que dízer cntão da sua
carátcr, na nossa opinião, este esquízoidismo - aparente - pode- conduta? Espir1'tualmente, arca cle ainda com a rcsponsabilidadc
-se explicar duma maneira muito mais simplcsz a grande massa pelo que lhe acontece sob o ponto de vista psíquico, por aquilo
dos presos sofría, por um lado, a escasscz de alimentos c, por quc «delc faz» o campo de concentraçâo? A nossa resposta é: sim!
outr0, a falta dc sono - em consequência da praga dc inset05, É que, mesmo num mcio ambiente socialmcnte tão estreito como
provocada pcla cxcessiva concentração das moradias. Ao passo este, a dcspeíto destas limitaçóes sociaís impostas à sua liberdadc
que a subalímcntação tornava as pessoas apáticas, a deficiência pcssoaL ainda resta ao homem aqucla derradcira liberdade com
crônica de sono tornava~as irritávcis. Mas a estes dois motivos que, dum modo ou de 0utr0, conseguc conñgurar a sua exis-
acrcsciam ainda outros doisz a falta daqueles dois vcncnos da tênciaL Há exemplos bastantes - frequememente hcroicos - quc
civilização quc, na vida normaL costumam mítigar respectiva- demonStram como o homem, mesmo em campos deste tipo,
mentc a apatia c a irritabilidadez a cafweína e a nicotina. Real- «também pode ser-diferentcmente», não tendo que sucumbir às
mente, as autoridades do campo proíbiam a posse de café e de leis, à primeira vista onipotentes, do campo de concentraçáo,
tabaco. Só que, com tudo isto, apcnas teríamos tentado explicar que lhc impóem uma deformação anímica. Antes pelo contrário,
as bases fisiológicas das «mudanças de caráter» em questão. Ora, está dcmonstrado que, quando alguém assume as propriedadcs
há um fator psíquico que sc lhcs associa. A maioria cstava ator- caracterológicas típicas do presidiário dos campos, nos termos
mentada por scntimentos de inferioridadez gcntc que tinha sido em quc as sublinhamos - e, portanto, sempre que alguém su-
«alguém» cra agora tratada pior que um «zé-ninguém». E, no cumbe às forças do seu meio ambiente social que lhe modelam
entanto, uma minoria, que se jumava para formar camarilha, o caráter, - é precisamente porque antes se deixou dccair no as-
representada nomcadameme pelos capos (ñscajs do trabalho), pecto esp1'ritual. Não se perde a liberdade de atitude perante uma
produzia a pouco e pouco um delírio de cesarismo cm miniatu- situaçâo concreta; o que sucede, 51'mplesmcnte, é que o homem
ra; ainda por címa, estes homens, formados em grupos selecio- se lhe entrega, numa atitude de desistência (obs. 18). Por muito
nados com um critério caracterológico «negativo», tinham nas que lhe tivesscm tirado nas primciras horas de presídio, ninguém
mãos um poder totalmente desproporcíonado para a sua irres- Comeguiria arrebatar ao bomem a liberdade que ele tem para, de
ponsab1'|idade. Como aquela maioria dc desclassiñcados cntrava um modo ou de outra, e até o último suspiro, assumir uma atitude
constantememe em atríto com esta minoria de arrivistas - c para para com o seu destína E sempre Íoá um «a'e um modo ou de outro».
choques assim nunca faltava nos campos ocasião -, a irritabi- Precisamente nos campos de concentração, havia indivíduos que
lidadc dos prísioneiros, potenciada, aliás, pelos motivos antes conseguiam dominar a sua apatia e subjugar a sua irritabilidadc.
indicados, por força tinha que chegar a explodir. Eram aqucles homens admiráveis que ~ esquecendo-se de sua
Ora bemz será que isto não nos está a dizcr quke um tipo de pessoa até à renúncia e sacrifício de si mesmos ~ passavam pelas
caráter é modelado em função do meio amb1'ente? Nâo vem ísto barracas c praças de revista militar dizendo aqui uma boa palavra.
182 porventura demonstrar que o homem nâo se pode subtrair ao dando além o último pedaço dc pão. 183
PSlCOThRAPIA E SENTIDO DA Vllí
A) ANÁUSE l-L)\'IS/I'ENCIA1. GERAL

Assim, toda a síntomatologia do campo de concentraçáq Caracterização pedc, contudo. a mcu ver, um complcmcnto es-
que acima tentamos explicar com base cm causas físicas e aní- senciaL Referimomos com ísto ao fato dc quc. ncsta forma dc
micas, no seu desenvolvimento aparentcmente fatal e inelutáveL exístênCia humana, não se tratava apenas da mcra provisoric-
apresenta-sc como algo suscetível de ser configurado a partir do dade, mas sím dc uma provisoriedadc «sem prazo». Antcs de
espírito. E também valc, na esfera da psicopatología do campo entrarem no camp0, os futuros prisioneiros cncontravam-se
de concentraçâo, o que, num dos capítulos seguintes, diremog muitas vezes num estado de espírito quc só se podia compa-
em tcrmos muito gcrais, a respeito dos sintomas neuróticosz que rar àquelc em que se sente o homem cm face do Além, dondc
não constituem mera conscquência de algo somático e expressão nínguém regressaz de muitos campos de concentraçáo, também
do psíquico, mas também um modo da existência - scndo este o ainda ninguém havia regressado ou, pelo menos, não se sabia dc
fator decisiv0, em última anal'1'se. isto também 0 que se passa
quaisqucr ínformações vindas a público. Uma vez quc sc entrava
com as mudanças de caráter do homem no campo de concen_
no campo, ofím da incerteza (quanto às condíçócs locais) trazizz
traçãoz trata-se sem dúvida de uma consequência das alteraçóes mngo a inrerteza do Realmente, ncnhum dos prisioneíros
do estado ñsiológico (fome, insônias, etc.) e de uma cxpressão Podia saber por quanto tempo ñcaría ali detido. Os boatos que,
de dados psicológicos (sentimento de inferioridade, etc.); mas, de día em dia e de hora em hora, circulavam por cntre aquelas
añnal de contas, e essencialmentc, trata-se de uma posição espi-
massas de homens amontoados, referindo-se de cada vcz a um
ritual que se adotou. Com efeito, e seja qual for o caso, o ho- «ñm» próximo, iminente, scmprc levavam a um dcsengano cada
mcm conserva a liberdade c a possibilidade de decidir a favor ou vez mais proñmdo e até deñnítiva A indcterminabilidadc do
Contra a inHuéncia do mcio ambicnte (obs. 19). Mesmo que, em momento de libertação cria no prisioneiro a sensaçâo de um
geraL só raramente faça uso dela, esta liberdade e possibilidade encarceramenro praticamente ilimitado, por não ser dclimítáveL
estão scmpre ao seu dispor. Quer dízerz dc um modo ou de ou- Com o tempo, toma-o a sensação dc ser estranho ao mundo que
tr0, está inclusive ao dispor daqueles homens que sucumbiram cstá do lado de lá do arame farpado; através do arame farpado,
ao meio ambicnte do campo de concentração, Como se este lhes vé os homcns e as coísas que estâo lá fora, como se não fosscm
tivesse imprimido um cunho anímico, poís, seja como for, aínda deste seu mundo, ou melhor, como se ele já não pertencesse ao
têm forças e responsabilidadc para se subtraírem às suas inHuên- mundo, como se para o rnundo fora já «pcrdido». O mundo dos
cias. Ora bem: se agora perguntamos quais eram as razócs que náo cncarcerados añgura-se-lhe tal como o veria porventura um
levavam cstes homens a decair tanto esp1'ritualmente, fazendo morto, do Alémz irreaL inacessíveL ímpossível de alcançar - Fan~
com que sucumbissem as\ inHuências físico-anímicas do meio tasmaL
ambieme, teremos que responder istoz abatiam-se porque e só
A carência de um Hm, própria do modo de existir no cam-
quando tinham já pcrdido o apoío espirituaL Mas isto requer
po de concentraçã0, traz consigo a vivência da falta dc futura
uma explanação mais detalhada. $
Um dos prisioneiros que marchavam, cm colunas interminá-
Já Utitz caracterízou o modo de existír dos presidiários dos veis, para o seu futuro campo de concentraçáo, dízía-nos uma
184 campos de concentração como uma «existência provísória». Esta vez que havia tido a scnsaçâo de se ir arrastando atrás do seu 185
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA M ANÁLISE EM'STF.,N(.'1AL GERAL

próprio cadávcn Era uma explicaçâo precisa: era a sensação de da capitulação pcrantc as forças do meio socíaL modcladoras do
que a sua vida não tinha futuro, dc que cra puro passado, tendo caráter e típiñcadora$ o único. portanto, quc o podc livrar dc
passado já, Como a de um morto. A vida destes «cadáveres vivos» sucumbin Havia um prisioneiro, por cxcmplo, que com um ins-
vem a ser predominantemente uma existência retrospectiva. Os tinto certeiro, tentava supcrar as situaçócs mais duras da vida do
pensamentos gíram-lhes continuamente cm torno dos mesmos campo de concentração, imaginando-sc sentado numa cátcdra,
detalhes da vida experimcntada no passado; uma transñguração perante um numeroso audítório, a falaplhes prccisamcntc das
famasmagórica banha-lhes na sua luz as mais insigniñcantes ni- coisas que ele, no momento, vivía e expcrímentava. Com csta
nharias cotidianas. artimanha, conseguía ele viver a experiência das Coisas «quadam
Ora, sem um ponto ñxo no futuro, nâo consegue o homem sub specie aeterm'taris», e suportá-las7'.
propriamente existir. É em ordem ao futuro que normalmente A decadência anímica proveniente da falta de um apoío cspí-
todo 0 seu presente é conñgurado, orientando-se para ele como rituaL o completo abandono de sí à apatia totaL era entre todos
a límalha de ferro se orienta para um polo magnético. Pelo c0n- os prisíoneiros do campo um fcnômcno tão conhecido como
trário, o tcmpo interior, o tempo vivencial perde toda a sua es- temido, e efetivava-se tão rapídamentc quc cm poucos días con-
trutura sempre que o homem perde o «seu futuro». Já não se duzia à catástrofc A certa altura, os presidíários quc se achavam
vivez vai-se vívendo, num viver presentista, sem rumo; chega-se neste estado ñcavam pura e simplesmemc no scu lugar, nas bar-
a uma situação semelhante àquela que nos pinta Íhomas Mann racas, recusando-se a responder à chamada ou a ocupar 0 seu
na «Montanha Mágica», onde se fala precisamente de tubercu- posto nos «comandos de trabalh0»; não se prcocupavam com t0-
losos incuráveis que desconhecem por completo o término, 0 mar refeiçóes, deixavam de ir aos quartos dc asscio; c ncnhuma
dia da líbertação. Ou entâo cai-se naquela sensaçâo de vazio e de proposta, nenhuma ameaça era já capaz de arrancá-los da apatía;
falta dc sentido da existêncía, que domina tantos trabalhadorcs nada os intimidava já, nem sequcr os castigos, que suportavam
desempregados, que experimentam também uma desintegração r651'gnadamentc, embotados e indíferentes, «ínarimbando-se» de
da estrutura da vivência temporaL conforme se deduz dos exa- tudo. E o hábito de se deixarem fícar para ali deitados - às vezes
mes psicológícos feitos em série entre mineiros sem trabalho. em cima das próprias fezes e urina - signiñcava uma amcaça à
A palavra latina «ñnis» tanto signifíca o fínal ou término como vida, não apenas no aspecto d1'sciplinar, mas também no aspec-
0 ñm ou objetiv0. No momento em que o homem não consegue to diretamente vital. Era o que sc vía claramente nos casos em
entrever o Hnal de uma sítuação provisória na sua vida, também que a vivência do «interminável» se apossava subítamentc dos
não consegue propor-se nenhum ñm, nenhuma míssão; a vida prisioneiros.
por força tcm que perder, a seus olhos, qualquer contcúdo e Vejamos, a este propósíto, um exemplo. Um dia, um dclcs
sentido. Pclo contrárío, 0 olhar em direçâo ao «final» e a um contou aos companhciros que tinha tido um sonho esquísi-
objetivo marcado no Futuro forma precisamente aquele apoio
espiritud de que o prisioneiro dos campos tanto precisava, por- (7I) V. E. ankL Mmú 5mrtbfor Meaning. Prrfrlre by Gordan W. Allpom 43 cdiç1'o.
186 que esse apoío cspiritual é 0 único capaz de preservar o homem Washington Square Press, Nova York, 1964 187
PSIC()'l"l-ZRAPIA E SENTIDO DA VIDA M ANÁLISE FXISTIÊNCIAL GERAL

a ha_
série dc livros dc ge'ograña, mas scm 1umbra e entrevê em sonhos se tornará verdadcíra rcah'dade. O
tinha publícado uma dele
tinha no cstrangelro uma ñlha que certo é quc o prisioneiro líbertado sc cncontra oprcsso por uma
vcr termínado; o outro
A um, esperava-o luma obra; ao outro, espécie de sentimento de despersonalüaçãa Não conscguc a¡n-
dcpcndia e 0 idolatrava.
ambos estavam Igualmente segums da ,1]-egrar-se com a vida, - tcm que aprcnder Outra vcz a alegrar-
um ser humano. Portamo,
naquela ínsubsrituibilidade que ,Se, pois já o desaprendeu. No primeiro dia, añgura-se-lhc a l¡-
naqucle «cará ter de algo único»,
incondicionad0, a dcspeito do sofri_ berdadc um bclo sonho; mas a certa altura vê que progrediu tan-
logra dar à vida um sentido
tão insubstituível para o respectivo to que o passado chega a parecer-lhe apenas sonho ruim. Ncm
mento. AHnaL u m deles era
da sua ñlha.
trabalho cíentíñco como o outro para o amor ele próprio conseguc compreender como foi capaz dc sobreviver
do já posto em 11'berdade, pre_ à prisão. E daí em diante apossa-se dclc a dcliciosa sensação dc
O prisioncir0, mesmo quan
anímicos. Prccisamentc a llbertaçãm a que, depois de tudo o que vivcu e sofrcm nada no mundo tcm a
cisa de certos cuidados
da pOressao ammlca, acarre- recear - a não ser o seu Deus. E são muitos os quc, nos campos
desopressáo súbita, zzqzwle dmzfogo
ta, por seu tumo
~ no aspecto p51colog1co - um perzgo. O que de concentração e graças aos campos de Conccntração, voltaram
psicologico, representa, nem a crcr nEIe.
aquí ameaça o indivíduo, no plano
da doençzz de CaixsorL Mas
mais ncm menos, o <p«endant» zznímíco
esboço da
com ist o chegamos já à terceira fase que, dentro deste
proposto
psicología do campo de conccntração, nos tínhamos
tratar.
Pois bemz pelo quc díz respeito à reaçáo do prisioneiro em
que se
face da libertação, pode-se añrmar, em poucas palavras, o
seguc. A princípío, tudo lhe plarece um sonho lind0; nem sequer
sc atreve ainda a acreditar. E claro quc muitos outros sonhos
belos lhe haviam trazido já seus desenganos. Quantas vezes não
sonhara já com a sua libertaçâo! Quanto não sonhara estar vol-
tando ao 1ar, a envolver num abraço a sua esposa, a cumprimen-
tar seus amigos, a sentar-se à mesa para começar a contar as suas
experíências vividas e explicar como se havia ímaginado neste
instante do recncontro, tão esperançosamente sonhado e agora,
por f1'm, feíto realidade! Mas era justamcntc cnquanto sonhava
que lhe soavam aos ouvidos aqueles três apitos esrrídulos, que
o vínham despertar ímpcrativamente de madrugadha, arrancan-
do~o do sonho que lhe pintava enganosamente a 11'berdade, para
zombar dele, tão somente. Enñm, dia Virá em que 0 que se vis-
Two 191
N ANÁLISE hM"'s.“l'l'-N(Íl/\l. (§l'^.RAI.

vés daqucla visão quc a artc tcnde a proporcx'onar-nos. Basta


lcmbrar certos rclatos do gênero da história da «Mortc dc Ivan
11¡Ch», de TolstoL
Pinta-se aí a existência burguesa dc um homcm quc só des~
cortína a sua radical falta de sentido quando está à bcira da mor-
[c. Mas eís que, ao penetrar nesta falta de scntido, cssc homcm,
nas últimas horas da vida, aínda conscguc supcrar~sc a si mcsmo,
atingindo uma grandeza interior que, retrospcctivamcntc. con-
fere a toda a vida passada - não obstantc a sua aparemc inutilí-
2. O sentido do sofrimento
dade - uma plenitudc de sentido. É quc a vida podc adquirir o
Scu último sentido, náo apcnas - como no caso do herói - atra-
Ao analisarmos o problema do sentido da vida, distinguimí vés da mortc, mas também na própría mortc. Portanto, não é
em termos muito gcraís três categorias de valores. Falamos de que só o sacrífício da própría vida possa dar scntido à vida; 0 que
valores criadorcs, de valorcs vívenciais e de valores de atitude, ocorre é que a vída até no malogro se pode consumar.
Conforme vimos, ao passo que os da primeira categoria se real¡_ Faltzz de êxito nâo signzfm frzlta de Jenrida Isto torna-se cvi-
zam mediante um fazer, os valores vivenciais já se realizam no eu dent-c, por exemplo, quando se considcra o próprío passado no
medíante uma passiva acolhida dada pelo eu ao mundo (natu- que concerne à vida amorosa. Se alguém honcstamcmc se in-
reza, arte). Em compensação - e como tivemos também ocasião tcrroga sobre se estaria dísposto a passar sem as vivências amo-
de advertír - os valores de atitude só se realizam quando algo rosas malsucedídas, a saber que estavam riscadas na sua vída as
de inelutáveL qualquer coisa de fatal se tcm que aceitar precisa- vivências desvcnturadas e dolorosas, - decerto diria que não; a
meme tal qual é. No modo como cada um assume estas coisas plenitudc da dor não foí uma não plcnitudc dc rcnlizaç.1^'o. Antes
veriñca-se uma séríe incalculável de possibilidades de valor. Mas pelo contrário, foí na dor quc amadurcccm foí ncla quc crcsccm
isto signiñca quc a vída humana pode atingir a sua plen1°tudc, a dor dcu-lhe muito mais do quc podcriam ter-lhc dado êxitos
não apcna5' no criar e gozar, senâo também no sofrimenta amorosos sem conta.
Estas consideraçóes, é claro que não se cingem a uma trivial Em geraL o homem pende a exagerar respectivamente o lado
ética do êxito. É suñciente reHetirmos um pouco sobre o quc positívo ou negativo do tom de prazer ou desprazer d:15 suas vi-
há de primordial no nosso juízo cotídiano acerca do valor e da vências. A importância que atribui a estes aspcctos torna-o scm
dignidade da existência humana, para logo se nos dcparar aquela razão queixumeiro contra o destino. Já dissemos os vários senti-
proñmdidade dc vivência em que as Coisas, para além do êxito dos cm que o homcm «não está no mundo para se divertír». já
ou do malogro, independentemente de tudo quanto seja efeito, vimos também que 0 prazer de modo algum é suscctível dc dar
conscrvam a sua validade. Este reino das plenitudes interiorcs à vicla do homem um sentido. Pois bemz sc o prazcr não é capaz
192 a despeito dos malogros cxternos só se nos torna acessívcl atra- de dar sentido à vida humana, também a ausência dc prazer não 193
PSICUTERAPIA E SENTIDO DA VíA
M ANÁLISEID(1$I'ENC[A1.GlíRAL

é capaz de lho tíran E mais uma vez veriñcamos que a erte nos rrid uo Íyomem, por consegu1'nte, uma Icnsão Fccunda - cstamos
indica com que justeza a vivência simples, sem preconceítos e em dizer mesmo uma temáo rcuolutiomíria ~, Fazcndcrlhc scn-
dírcta, vê a realídade das coisas. Basta pensar, por exemplo, em ¡¡r, como tal, 0 que não dcrve scr. Na mcdida cm quc, dígamos
como é indifercnte, quanto ao conteúdo artístíco, o problema assinL se identiñca com o que lhc é dado, o homcm climina a
dc sabcr sc uma melodia está composta em tom maíor ou mc_ distância quc cxiste entrc clc c o dado c cxclui afeczmda tcnsáo
n0r. Náo sào só as sinfonías incompletas que - conformc apon_ emre o xer e o dezler-ser.
tamos noutra ocasião - se contam entre as peças musicais mais É, assim, evídente, que há nas emoçóes do homem uma pro-
valiosas; são também as «patéticas». funda sabcdoria, antcrior a qualquer racionalidade, c quc chc-
Dissemos que o homem realíza, criando, os valores criado- ga a contradizer o que se podcria considcrar racionalmcntc útiL
res; cxpcrimcntando vívências, os valores vivencíais; e, sofren- Consíderemos, por exemplo, os afctos doloridos do luto c do
do, os vdorcs de atitudc. Sucede, aléml disso, que o sofrimento arrcpendimento: do ponto de vista utilitarísm, dccerto que am-
tcm um scntido 1'manente. a língua que, paradoxalmente, nos bos parecem sem sentid0. Com cfeíto, chorar o que sc perdeu
leva a descobrir me sentídoz sc sofremos por causa de alguma irremediavelmente parcce ao «são scnso comum» coisa tâo ínútil
coisa, é precisamcme porque não «a podcmos sofrer», isto é, c carente de sentido como o arrcpender~se duma culpa indeléveL
porque não queremos permitir-lhe que vígore. A discussão com E, no entanto, tanto o luto como o arrcpcndimcntn tém 0 seu
os dados fatais do destíno é a missão ultima e rumo gcnuíno do scntÍdO na história interior do homem. O luto por um ÍJammm
sofrimenta Se uma coisa nos faz sofren é porque interiormente qur amamos e perdemm fzí-lo de rzgzlmz modo sobrezliuen e o arre-
lhe voltamos as costas; é porque criamos distâncía entre a nossa pendimento da mlpado, é como xe o fzme rmusciran Íibertado da
pessoa e essa coisa. Se ainda sofremos perante um estado de coi- sua cupltL O ubjeto do nosso amor ou da nossa enlutada tristeza
sas quc não deveria ser assim, é precísamente porque ainda esta- perdeu-se objet1'vamente, no tcmpo empíríco, mas fícou a salvo
mos na tensão entre o ser fático, por um lado, e o que as coisas subjetl'vamentc. no tempo interiorz a mágoa do luto mantém-
dcvcríam ser, por outro lado. Isto vale, como já vimos, para o -no presente. E o arrependiment0, conforme Scheler salientou,
homem que desespera de si mesmoz um homem assim deixa de pode apagar uma culpaz nâo, cvídentcmente, no scntido dc que
ter quzzlquer mzzía pzmz o dexespero precisrzmente pclo fato de estar ela deixe de ser imputada ao respcctivo sujeito; mas sim no scn-
desespemd0, pois tal desespero signiñca, já de si, que ele avalia tido em que este. por assim dízcr, se socrguc, ao renascer moral-
a própria rcalídade em função duma idealídade, que lhe serve n1e11t<3.Tal possibilidade de convertcr o já acontecido em algo de
para a valorar; o fato de essc homem, em gcraL se apercebcr dos fecundo para a história intcrior do homem nem dc longe cstá em
valores (quc permaneceram irrealizados), ímplica já um ccrto contradiçâo com a sua rcsponsabilidade, mas antcs numa rclação
valor da sua vida. É claro que não poderia arvorar-sc em juiz de dialética. Com efeit0, o tornar-sc culpávcl prcssupóe responsa-
sí mcsmo, se de antemão não possuísse 0 poder e a dignidade bi11'dadc. E esta, por sua vez, mede-se consíderando o fato de o
de juiz - como homem que sc dzí conta do que deveria ser, em homem não poder derrogar ncnhum dos passos que dcu na vída;
194 confronto com o que é simplesmente (obs. 20). O sfroÉtho todas as decisóes que tomou, da menor à maior, permanccem 195
PSKÍOÍ ERAPIA Ií SENHDO DA \'Il)A .\› /,\NÁI ISE l~lX|\."I'lÍ-N(Jll\l. GERAI

dcñnirivamcnto Nada do quc o homem faz ou deíxa de fazer gem 0 passado. O ccrto é quc, ao contrárío da simplcs dívcrsáo
se pode cancclar. Só pnra um obscrvador superñcial é quc isto ou do narcotísmo, resolvcm um problcma. 0 lmmem quc para
csrá cm contradíçào com o Elto de que, não obstante, o homem esqueccr uma ínfelicidadc sc divcrtc ou tmm mmtrxiarw pela
podc, no ato dc sc arrepcndcn afastar--sc interiormcntc dc uma mzrmtizzzçáo não rcsolve ncnhum problcma, nâo ambzz mm mmz
ação e. ao cfetivar csse ato - num acontecer ínterior, portanto _, ¡';fzr/ia'zíade; amba, xim, r simplcsmmug mm mnrz mmrquênrid da
fazer com que dc algum modo, no plano moraL passe a scr nào i;fze/iridade: 0 mcro estado aFctivo do deypmzmz Quando apcnas
acontccído o que externamcme acontcceu. se diverte ou narcot1'za. o homem «náo quer sabcr dc nada». rlbn-
Como é sabido, Schopenhauer pcnsava e deplorava que a ta fhgir à realidade. Vai-se rcfugian por cxcmplo, na embriaguez.
vida humana cra um contínuo vaivém entre nccessidade e té- E com isso comete um crro '.subjctivísta c até psicologistaz o crro
dio. Mas, añnaL tanto a neccssidade Como 0 tédio tém o seu de supor que, silcnciando-se. pcla narcotizaçáo. o ato cmocio-
scntido profunda O tédio é um constante lembrete. O que é naL também se acaba com o objeto da cmoção; como sc o quc sc
que Conduz ao tédi0? A ociosidadc. Nâo sepeme, contud0, que o desterra para a inconsciência já Hcassc também dcstcrrado para o
agir se destinm digamos, a lizzrar-n05 do téditx é este, pelo co71tm"rz'o, domínío da írreahdadc. Mas 0 ato dc olhar para um objeto não
que zzprzrcce pam fzgírmox da inatiuídade e compreendermw bem o produz, nem o ato de apartar dcle os olhos o dcsfaz; assim,
o xentido da nomz UÍdtL A luta pela vida conscrva-nos em «ten- rambém a repressáo duma emoção dc tristcza nâo anula o cstado
são» porque o sentido da vida prcnde-se intímamente com a de Coisas quc se lamentaL E, rcalmente, a sensibilidadc sadía dc
nccessidade dc cumprir as suas missóes; esta «tensão» é portanto um homem que chora costuma rcbclar~se, por cxemplo, contra
csscncíalmcnte díferentc daqucla quc buscam os neuróticos no a idcia dc tomar hipnóticos. «para não passar noitcs intciras a
scnsacionalismo ou os histérícos na excitaçãa chorar»; quem fíca enlutado scmprc se opóc à banal prescrição
O sentído da «necessidade» cstá igualmente em ser um lem~ dc hipnóticos, poís não é por sc dormir melhor que sc rcssusci-
breta Mesmo no plano biológico, a dor rcpresenta o papel de ta o morto táo chorado. Quer dizerz a morte - csse paradígma
um guardíão c monitor pleno de sentíd0. Pois bcmz na esfcra do acontecer irrevcrsível - dc modo algum se podc Converter
anímico~espirítual, tem uma função anal'oga. O que o sofrimen- em algo nâo acontccido só por sc expulsar pam o domínio da
to faz é salvar o homem da aparía, da rigidez mortal da alma. inconsciêncía; mas nâo é menos certa esta afirmação no caso de
Enqumto sofremos, continuamos a viver da alma. É claro que quem chora um morto qucrido sc refhgíar na absoluta incons-
no sofrimento amadurecemos e crescemos: o sofrimento torna- ciência ~ na ignorância da própria mortdí
-nos mais ricos e poderosos. O arrepcndimento, conforme vi-
A sensibilidade que 0 homem tem para 0 sentido do cmo-
mos, tem o sentido e a força de fazer com quc um acontecimen-
to externo se converta cm algo não acontcçidm quanto à história
(73) A cn1bríagucz. cm comparmgão com n nzlrculizmp0. é quulqucr coisn dc posiu'vo.
ínteríor (n0 sentido moral); e a tristeza do luto tem o sentido e a A cssCulcia da cmbriagucz é 0 alhcnmcmo do mundn objclivo do scn com quc o humcm
foãrça dc fazcr Com que continue a existir dc algum modo aquilo >c voha para uma vivôncm usituacional», pam uma vida num mundo dc .1parénci;¡5.
Em contrapardda. a narcotiLaçin apcn;1.s lcva à inconsciência dd 1'níblicíd.1dc, n umn
196 que já passou. Quer dizer: ambos, de alguma maneira, Corri- «lklicidadc» no scntido ncgntivo que ll1c Llá Schupcnhaucn a um camdo dc Nirvauax 197
PSICOTERAPIA Ii SENTIDO DA \'llrí
VM ANÁI lSli l-.'XIH."I'1:'I\'(ÍIA1 (ilílU\l

rcalízaçóes dos cscoteiros inglcses, os condecorados foram três Pcrder no caso dc havcr ocasião para um pum sofrimcnto c, por
rapazcs que, em consequência de docnças incuráveis, estavam consch11'ntc, no caso dc uma possibilidadc dc rcalizar valorcs dc
1'ntcrnados num hospital e que, apesar disso, mostrando valemia atítude. De modo que, aqui clmgados, já podcmos comprccndcr
e coragcm, tinham suportado ñrmcmcnte o sofrimenta Assim, Por que razâo dízía Dostoícvski quc só uma coí.sa tinha quc tc-
o seu sofrimemo foi rcconhccido como «realizaçâo» mais alta do mcrz o não scr dígno das suas pcnas. E c'-nos dado avalíar tam~
quc a rcalízaçâo, no mais estrito sentido da palavra, de muitos bém a grandeza da realízaçâo quc há no sofrimcmo dos docnrcs
outros escoteiros. quc pareccm lutar por scrcm dígnos das suas grandcs pcnas.
«A vida não é alguma coisa, mas sim, e semprc, mera ocasíão Vejamos outro caso. Havin um homcm extraOrdinariamcnte
para alguma coísa». Para conñrmarmos esta sentença de HebbeL dotado, espiritualmcntc Fal:mdo, quc, nn suu juvcntudc, fora ar-
basta Considerarmos a seguintc alternatíva de possibilidadesz ou rancado de repente da sua ativa vida proñssional logo quc sc lhc
se pode Conñgurar, no sentido de uma realização Criadora de notaram sintomas de paralísía nas pernas. Era ísto conscquência
valorcs, 0 destino fatal (portanto, o que é originariamentc e cm dc um Corte transversal da medula espínal (motivado por uma
si imutávcl): 0u, sendo isso realmente ímpossíveL e no sentido tuberculosc da coluna vertcbral). quc se dcscnvolvera bastantc
dos valores de an'tude, adota-se perante o destino um compor_ rapidamentc. Avcntou-sc a possibilidadc dc uma lamincctomía.
tamcnto tal que, num autêntico sofrimento, ainda haja uma re- Um dos maís renomados cntre os novos cirurgiócs da Europa,
alizaçâo humana. Ora bcmz tem todo o ar de uma tautologia consultado pelos amigos do pacientc, mosrrou-sc pcssímista do
o dizermos que as doenças oferecem ao homem a «ocasião» de ponto dc vísta do prognóstico, C rccusou-sc a opcrar. Um dclcs
«padcccr». No entanto, se usamos as palavras «ocasião» e «sofrer» escreveu uma carta a uma amiga do docnte, cm cuja faãzenda
no sentido acima apontado. já a frase nos não parecerá assim tão Cstc se achava, informando-a do ocorrid0. A empregadm scm
ev1'dente. E náo o é, solbretudo porque há que fazer uma distin- a mcnor ideia do que fazia, cntrcgou a carta à dona da casa no
ção fundamental entre as doenças - incluindo as mentais ~ e 0 momento em que esta tomava o café da manhã com o hóspede
sofrimenta Assím. por um lado, 0 homem pode estar doente docnte. O que então aconteceu é o próprio pacicntc qucm o des-
scm «sofrer» no sentido verdadeíro e próprio da palavra; por crcve a um amigo seu, numa carta ondc respigamos as passagens
outro lad0, há um sofrimento que está para além de todo o ser- seguintes: «A Eva não pôdc evítar quc eu lessc a carta. Dc modo
-doente: o sofrímcnto pura c simplesmente humano, aquelc que que tomei conhecimento da minha scntcnça dc Inorte, contida
sc insere na essência e sentido da própria vida humana. Nestes nas explanaçóes do professon Meu Caro, sabcs o quc ísto mc
termos, pode-se dar o caso de a zzmílise exixtencíal ter que tornar faz lembrar? Aqucle Hlmc do “'l"itanic”, quc ví há tantos .1-nos.
o homcm mpaz de sofen ao passo que apsimnálísa por cxemplo, Lcmbro-me especialmcnte da cena em quc o paralítico alciia-
apenas pretendc torná-lo mpaz de gozar ou reàlízan Quer dízen do, represcntado por Fritz Kormcr, rczando o Pai-Nosso, opóc à
há sítuaçóes em que o homcm se podc realizar plenamentc a si morte uma pequena comunídadc de destino, enquanto o nuvio
mcsmo no puro sofrimento e só no puro sofrimenta A «0casião vai ao fundo e a água lhes sobe peIo corpo acima. Saí do cíncma
00 para alguma coisa», que é o que a vida signiñca, também se pode impressionado. Julgava que era um prcsente do destíno ir assim 201
PSKÍOTEILÀPIA E ILNHDO
l)/\ VIDA ¡\1¡\NÁLISltI'.'.\'|.S'l'!~.'NCIAl GlARAl

conscientc ao encomro da morrcx Pois olhaz agora, foi~me dado_ de estranho «diálog0» era nquclcP O quc é quc a árvorc cm Hor
a mim'. essc prcscnte. Chcgou o momento de pôr à prova 0 com- «dizia» à moribunda? «0 que mc dissc foi istoz cu cstou aqui,
batenrc quc há dcntro dc mim. Contud0, o quc desdc já cstá em cstou ao teu lado, cu sou a vida, n vida ctcrna».
causa não é uma vitóría, mas sim uma últíma tensáo das forças Viktor von Wciuíicker añrmou ccrta vez quc 0 docntc. cn-
como taís, uma espécic de dcrradciro excrcício de gínástica... O quanro sofrcdon cstá dc algum modo .-1cima do médico qua o
quc cu queria era suportar as dores sem os narcóticos, enquanto rratzL E era isso exatamentc o quc nos vinha à mcntc c à cons-
puder... “Combate em posição perdída?” Nã0, isso, nem falar'. O ciéncía quando nos afastávamos daqucla docmc Um mádico
que importa, é lutar... Não pode haver quaisquer posíçóes perdL quc tenha a suñcíentc Hnura dc scnsíbilídadc para os impondc-
das... noite, ouvímos a “quar'ta” de Bruckner, a romântica. Era rávcis duma situaçâo scmprc rcra', diantc dc um doentc incurá-
como sc tivessc cá por dcntro de mím todo um mundo espaçoso vcl ou de um moribundo, a scnsação de não sc podcr aproximar
a deslizar em torrcntes reparadoras. De rcsto, trabalho todos os dele sem uma certa vergonha. É quc, re.1lmcnte, quando assim
dias na Matemática, e nem dc longe me sinto sentimental». sucede, o médico Hca impotenrc e incapaz dc arrancar a vítima
Outras vezcs, podc uma doença e a proxímidade da morte à mortc; aliás, enquanto 0 pacientc surge como um homem quc
fazer brotar do fundo de um homem as últimas reservas, depois cnfrenta com Hrmcza 0 seu dcstino e, ao assumHo num scrcno
de ter passado a vida numa «frivolidade metafísica» (Scheler), sofrimento, Ieva a cab0, no plano mctafísico, uma auténtica rca-
sem prestar atençáo às suas próprias possibilidades. Havia uma lização, o médíco, no mundo físico, na csfbra das rcalizaçóes
mulher, muito nova, quc tinha sido sempre mimada pela vida. médícas, não faz mais do quc falhan
Um dia, inop1'nadamente, foi transferida para um campo de
concentraçã0. Aí, adoeceu e, dc dia para dia, dcñnhasz Mas, cis
o quc dissc poucos dias antes de morrer: «Para falar a verdadc,
estou muito agradecida ao destino por me ter tratado tâo dura-
mente. Na minha vida anteríor, burguesa, não há dúvida que,
a bem dizer, fui muito relaxada. Quanto às minhas ambiçócs
artísticas, não havia nada de sérío nisso». E, vendo a morte quc
se aproximava, cncarou-a de frcntc Do lugar da enfermaria em
quc cla jazia podia-se ver, pela janela, um castanhciro em Hor;
e, se nos debruçávamos sobre a cabeça da doentc, divisávamos
precisamente um ramo com duas résteas de Hores. «Esta árvore
é o meu único amigo na soledadc cm que est0u›.›, dí2ia. «Ê Com
ela que eu converso». Estaria com alucinações, estaria a delirar?
Porque, de fato, acredítava quc a árvore lhe «respondía». No en-
tanto, faltavam todos os sinais do estado de dclírío. Que espécic 203
KxJ

lv
M ANÁLISE EMSTIZNCIAL (:ERAL

mancíra, se expõe ao perigo de perdcr a vida pclo cansaço. Bas-


ta, porém, que se desanuvie 0 horizonte, para que, lobrigando
go longe o refúgio salvador, logo se sinta revigorado c chcio de
cnergias.
Qualquer alpinista conhece perfeitamcnte essa vivência do
abatímento que lhe enerva as Forças quando «da' com uma pa-
rede» e Hca sem saber se estará ou nâo numa rota falsa. ou sc
terá ído parar à borda de um despenhadeiro; até quc, de súbito,
divisa a «chaminé» c cnta'o, sabendo que pouca corda o separa
3. O sentido do trabalho
já do cume, sente novas forças a rcvigorar-1he os braços frouxos
e enfraquecídos.
Conforme já dissemos, não se trata de perguntar pelo sentido Enquanto os valores críadores ou a sua rcalizaçâo ocupam o
da vida, mas sim de respondcr-lhe, dando à vida uma resposta. primeiro plano da missão da vida, a esfcra da sua consumaçâo
Daí que a resposta a dar cm cada caso nâo sc possa dar efctiva- concrcta costuma coincidir com o trabalho proñssionalm Em par-
mcnte com paJavras, mas antes com açõcs, através de um agir ticular, o trabalho pode representar o campo em quc o «cara'ter
(obs. 22). Além disso, essa rcsposta tem quc Corresponder a toda de algo u'nico» do indivíduo se relaciona com a comunidade, re-
a concretude da situação e da pessoa, assumindo-a em si, poí cebendo assim o seu sentido c o seu valor. Contudo, este sentido
assim dizcr. A rCSpOSta correta vem a ser, portanto, uma resposta e este valor são inerentes, em cada caso, à realização (à realização
ativa e uma resposta na concretude do dia a dia, enquanto espa- com que se contríbui para a comunidadc) e não à proñssão con-
ço concreto do humano ser-responsável. creta como ta1. Nâo é, por consegu1'ntc, um determinado tipo
Dentro deste espaço, não pode 0 homem ser por outrem de profíssâo o que oferece ao homem a possibilidade de atingir
substituído ou representado. Já deñnimos a importância quc a plen1'tude. Neste sentido, pode-se dizer que nenhuma proñs-
tem para o homem a consciência do seu «caráter de algo úni- são faz o homem feliz. E se há muitos, principalmente entre
c0» e da sua irrcpetib1'lidade. Vimos também por que razõcs a os neurótícos, que afirmam que sc teriam realizado plenamente
anal'ise da existência visa tomar o homem conscientc do seu ser- Caso tivessem escolhido outra proñssâo, 0 que se encerra nessa
-responsa'vcl, c como, a par e passo, a consciência da responsa- añrmação é uma dcturpação do sentido do trabalho proñssional
bílidade se desenvolve, sobretudo ao basear-sc na consciêncía ou a atitude de quem se engana a si mesmo. Nos casos cm que a
de uma tarcfa concrcta e pessoaL isto é, de uma «missã0»: Se profissão concreta nâo traz consigo nenhuma sensação de plena
não penetra no sentido único do seu ser singular, Q homem nâo satisfação, a culpa é do homem que a cxerce, nâo da proñssãa
pode deixar de se sentir paralisado nas sítuaçóes difíceis. Por A proñssâo, em si, nâo é ainda suñcíente para tornar 0 homem
força lhe sucederá como ao alpinista que, encontrando-se com insubstituível; o que a proñssão faz é simplesmcnte clar-lhe a
204 uma nuvem densa, deixa de ter a mcta diante dos olhos e, dessa oportunidade para vir a sê-lo. 205
I'\'l(.'()'l'[-Zlb\PlA li SENTIDO DA\'1I),\l ím ANÁLISE L-'x1s.T1-:N(:IA1. (;-L'RAL

Dissc-nos uma vez uma pacientc que, como considcrava sem trabalho verdadeiramentc pcssoal, quc só clc podc lcvar a cabo
scntido a sua vida, nâo tinha o mcnor interesse cm ñcar curadajv plcn.1n1cnte. E o quc é quc sc passa com o trabalho das cnfcr-
mas, como tudo scria difcrcnte e belo sc ela tivesse uma proñs- meiras, que a nossa pacíentc tzmto invejava? O quc fazcm as
sâo quc a .s'atisfízcsse!; se, por cxcmplo, fosse médica, ou enfer- cnfermeíras é ferver seringas, despejar urinóis, ajudar os docn-
meira, ou química, para poder fazer descobertas cicmíñcas. O tcs a deitar-se, tudo trabalhos certamcme útcis, mas quc dc pcr
¡ndicado, no caso, era fazer ver à doente que o que importa não si muito diñcílmente podcriam satisfazcr o homem; contud0,
é, de modo algum, a profíssâo cm quc algo sc cria, mas antes quando uma cnfermeírm para além das suas obrigaçóes mais ou
o modo como se cria; que não depende da profissão concreta menos regulamentares, faz adgo de pcssoal; quando, por excm-
como taL mas sim de nós, o fazermos valer no trabalho aquilo plo, acha uma palavra para dizer a um doentc gravc, - cntão,
quc em nós há de pcssoal e especíñco, Conferindo à nossa exis- sim, conseguirá encontrar no trabalho profissional uma opor-
tência o seu «caráter de algo único», fazendo-a adquirir, assim, tunidade para dar sentido à sua vida. Só quc esta oportun1'dadc,
pleno sentido. qualquer proñssão a da', desdc que 0 trabalho rcspectivo scja re~
Efetivamcnte, o que é que se passa, por exemplo, com o mé- tamente comprecndid0. Quer dizer: aqucle cnráter ínsubstituí-
dico.> O que é que confere um sentido ao seu agir? Será porven- vel da vída humana, aquela impossíbilidade de o homcm ser
tura o fato de se comportar de acordo com as regras da arte? O rcpresentado por outrem no quc só clc pode c devc fazcn o scu
fato de, num determinado caso, dar ao doente esta ou aquela «caráter de algo único» e írrepetích a que nos tcmos rcfcrido,
injeção ou receitar-lhc um medicamento? Nâo; a arte médica scmprc depende do homemz não do que ele faz, mas de quem
não consiste apenas em conduzir-se em conformidadc com as o faz e do modo como 0 fa7.. Além do mais, o que era preciso
regras da arte. A proñssâo médica dá à pcrsonalídadc médi- fazer vcr àquela doente que julgava de todo em todo impossível
ca, pura e simplesmentd o quadro de contínuas oportunida- satísfazer-se na sua proñssão era que ela podcria fazcr valcr 0
des para esta se realizar plenamente através do cunho pessoal «caráter de algo único» e a irrcpctibilidade - como Fatorcs quc
quc imprimir à respectiva obra profissionaL O que 0 médico dáo sentído à existência - para além da sua vida proñssionaL na
faz no seu trabalho - mas sem dúvida transccnde o que neste sua vida privadaz como amante e amada, como csposa c mãc,
há dc puramentc médico -, o que nele há, cnñm, dc pessoaL poís nisto está toda uma séríe de encargos vitais cm que uma
de humano, - eis 0 quc forma o sentido desse trabalho e nelc mulher é ínsubstituívcl para 0 marido c os ñlhos, nínguém a
toma o homem insubstituíveL De fato, tanto faz que seja ele podcndo propriamcntc representan
como qualqucr outro dos seus colegas a aplicar, «lege artis», in- A relação natural do homem com o seu trabalho proñssionaL
jeçóes, etc., - se e enquanto não Hzer mais do que proceder «ern considerado corno campo de possívcl rcalizaçâo criadora de va-
conformidade com as regras da artc». Só a partif do momcmo lores e da realização única e plena dc si mesmo, sofrc muítas
em que se move para além das frontciras dos prcceitos pura- vczcs um desvio em virtude das circunstância5' domínantcs do
mente proñssionais, para além do que está «rcgulado» pcla pr0- trabalho. Penso sobretudo nos homens que se queíxam dc traba-
206 ñssão, - só a partir desse momento é que o médico começa um lharem oíto ou maís horas por dia para um emprcsário. para os

N
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDAímANÁLISE l-.'.\'lS'l'L'-NCIAL GERAL

movimentes, acio- A NEUROSE Dli DESEMPREGO


cle, fazcndo em série o s mesmos
interesses d
a máquina - num trabalho
mesma alavanca dum
nando semprc a A l e ,estandar- O sígníñcado existcncíal da proñssâo torna~sc Claramcmc
O C Oportuno quanto nllals impessoal
tanto mais exat
so Se Pode visívcl quando desaparece totalmcntc o trabalho profíssionaL
quc, em tais c.1¡'cunstanc1as,
dizado. Evidentemente
Como símples melo ipalra um
ñmf o ñmIde isto é. no Caso do descmprego. As ohservaçóa fcítas sobrc os
conceber o trabadho descmpregados levaram-nos a Formar 0 conccito da ncurosc de
os meios neccssarIOS para v1ver a nvlda
oanhar a vida, de ganhar
no caso, só começa com o tempo 11vre, dcsemp1'cgo"'^'. O que é digno dc nota é que o que aparccc no
pDropriamentc dita. Esta, primeiro plano sintonmtológico não é, digamos, a dcpressão,
modo lívre c pessoal como o trabalhador
c o seu sentido está no a
scm nos ser lícito esquecer que há homcns mas sim a apatia. Os dcscmpregados rornam-se paulatínamcnte
0 conñgura. Isto,
tanto que, em Chegando a casa mortos desinteressados e a sua iniciativa vai dccaindo cada vez mais. É
quem o trabalho fatiga
para a cama, à to'a, sem já se atrcverem
a uma apatia não isenta de perigo. Assím, torna-os íncapazcs dc
de cansaço, atiram-se
seja; o único modo de conñgurarem
0 apertar a mâo que lhes csrcndcm, tcntando ajudá-los a sair dn
inicíar o que quer que
como tempo de rcpousoz a situaçâo em que sc meteranL O dcscmprcgado cxpcrimcnta a
tempo livrc con Sistc em tomarem-no
e a mais rac1'onal, é porem- vivência da dcsocupação da sua época como uma desocupação
única coisa que lhe s resta fazer entã0,
interior, um vazio da sua consc1'ência. Scnte«se ínútil por estar
-se a dormir.
desocupado. Por não ter nenhum trabalho, pcnsa quc náo tcm
também não está nenhum sentido a sua vida. Assím como ha', no campo biológí-
Mas o próprio empresário, o empregador, c0, as chamadas hipertroñas de vacânciag assim também sc vc-
também nem sempre está
sempre «livre» no seu tempo lívre; riñcam, no campo psicológico, fcnômcnos análogos. O desem-
das relações na-
dispensado de sofrer os mencionados desvios prego vem a ser, dcsta forma, terreno abonado para proccssos
que
turais de trabalho. Quem nâo conhece esse típo de homem
neuróticos. O vazio espiritual Conduz a uma nemwe dominiazl
anda sempre a acumular dínheiro e que, para além do lucro,
de «em permanêncz'a».
para além do dínheíro como meio de vivcr a vida, sc esquece
enxergar a vida em si? Nesses casos, o que não passa de um meío Mas a apatia, como sintoma dominantc da ncurosc dc dc-
de vída passou a constituir um Hm cm si. Um homem assim semprcg0, não é apcnas cxprcssão da frustração Lmímicm é
tcm muíto dínheiro e o xeu dínlaeíro tem aínda um qoam quê»; a também, como, na nossa opinião, o é todo síntoma ncurótico,
mrz vz'da. p0rém, deíxou de 0 ten A ganâncía que o possui sufoca- sequela dc um estado físico e, neste caso concreto do dcscm-
-lhe a vída verdadeira; ao lado do lucro, um homem destes não prego, sequcla da subalímentação quc o mais das vezcs acom-
conhece nada, nem a arte, nem sequer o desporto; e no jogo, panha o dcsemprego. De quando cm vez é ainda - tanto como
quando muito, o que conhece é a tensâo, bem co“mo a possível os sintomas neuróticos em geral - um meio para um Hm. De~
relação que o jogo tem com o dinheiro: nos cassinos, onde 0
que sc joga é ainda o dinheiro que «está em jogo», e onde o jogo (74) V. E. FrankL Wirtsthrlftxkrise und Seelmlebm uom Smndpunkr IÍBI jugmdbemtem
208 representa o último ñm. SoziaJãrztlinchc Rundschau 43, 1933. 209
PSKIOFERAPIA E SENTIDO DA VI[)A m ANÁLISE LX'-l$]'ENClAl GlzRAL

signadamente nos homcns quc já tinham uma neurosc, quC tmdL uma tomada dc atitudc cspirituaL uma dccísão cxistcnciaL
apcnas foí exaccrbada ou reitcrada por uma cspécíe de desem- O quc queremos dízcr com isto é quc a ncurosc do dcscmprcgo
prego intcrcorrente, o cstado de coisas próprio do dcscmprcgo náo é dc mancira ncnhuma aquclc dcstino incondicionado com
emm, por assim dizer, na ncurose, como matcrial; é tomado quc o ncurótico tcndc a idcntiñca'-la. O dcscmprcgado ncm dc
pela neurose como contcúdo c passa a ser «elaborado ncuro_ longe tem quc se cntrcgar à ncurose dc dcscmprcga Antcs pclo
ticmnente». Nestcs casos, 0 dcscmprego é rccebido pcrlo neu- contrário, também nestc comexto sc evidcncia quc o homcm
rótíco como um meío bem-vindo para se dcsculpar de todos upodc ser-difc'rentemente»; quc, seja como for, scmprc podc dc-
os malogros da vida (nâo apenas os da sua vida proñssional)_ cidír sc sc há dc submetcr ou não animicamcmc às foârças do
Serve como quc de bode expiatórío quc agucnta com todas destino sociaL
as culpas de uma vida «estragada». Os próprios erros passam Alias', nâo faltam exemplos a demonstrar-nos quc o caráter
a scr apresentados como resultados fataís do desemprego. «É, não é formado e cunhado de um modo unívoco c fatal pelo
se eu nâo estivcsse descmprcgado, outro gaJo cantaria, seria desemprego. É o quc se pode conclu1'r, scm du'vida, do fato
tudo fbrmidável». Os homens deste tipo neurótíco sempre nos de haver outro tipo de dcsempregados, além dos tipos neu~
garantem que fariam isto e aquilo; a vida de desemprego au- rótíCOS que acabamos de definin Refcrímomos àquelc quc se
toriza-os a levar a vida como coisa provisória, fazendo-os cair cnconrra entre os homens que, vendo-sc obrigados a vivcr nas
numa modalídade provisória da existência. Julgam que nin- mesmas condiçóes econômicas desfavorávcís dos quc pade-
guém lhes pode exígir nada. E eles, por scu turno, nada exi- cem a neurOSe do desemprego, apcsar disso, contínuam lívres
gem a si mesmos. O destino do descmprego parcce exími~los dela, sem darem impressâo nem dc apatía ncm de dcprcssâo,
de responsabilidade perante os outros c perante elcs próprios, conservando até uma certa seren1'dadc. A quc se dcverá isto?
de toda a responsabilidade pela vida. E qualquer falha, em Não é necessárío grande esforço para logo obscrvarmos quc es-
qualquer setor da existêncía, vem a ser reduzida a esse destino. tes homensse dedícam a ocupaçóes quc váo muíto além do
É como se se consolassem pensando quc o sapato só os apcrta seu campo estrítamente proñssionaL Ajudam cspontaneamem
num ponto. Tudo se explica partindo deste ponto c se, ainda te, por exemplo, esta ou aqucla organi/.'ação; são Funcionários
por címa, este ponto é, pelos vistos, um dado fatal do destino, honorários em instítuiçóes dc cducaçáo populan colaborado-
tem-se uma vantagemz a vantagem de se nâo estar incumbido res de associaçóes juvenis; vâo ouvír confüências e boa música;
de nenhuma tarcfa, nâo se precisando fazer coisíssíma nenhu- leem muito e discutem com os amigos sobrc 0 quc leram. Sa-
ma, afora 0 esperar o momento ímaginário em quc tudo se bem dar pleno sentido ao excesso de tempo livre e, desta ma-
poderá curar, uma vez quc se cure aquele ponto. neira, conferem uma plenitude de contcúdo à sua conscíência,
Por consegu1'nte, como qualquer sintoma neurótícqo, a ncuro- ao seu temp0, à sua Vida. Muitas vezes, também andam com
se do desemprego é também consequência, expressão e meio. É o estômago a dar horas, como os representames do outro tipo
dc esperar, assim, quc, numa vísâo última e decisiva, possamos de desempregados, que se tornaram ncurótícos; mas nem por
210 entrever nela. como em qualquer outra neurose, um modm exz'5- isso dcixam de añrmar a sua vida e nem por sombras se deixam
pslgo I'ERAPIA E SENTIDO DA va N ANÁLISE L~'X1$TL'~NC1AL GERAL

dar à vida um conteú_ quem a sofre. Ceteris parz'bus, um dcscmprcgado quc sc mantc-
- do deSC>P « cro. E que sou beram , _ e '
poss u1r C ê_h dc semida Apcrcebemm s de que o scntldo nha interiormente erguido na luta pcla concorrência tcrá maio-
do c guarnc - de qiue rcs oportunidades do quc o dcscmprcgado quc caiu na apatim
não se rcduz ao trabalho proñssionàh
da vidq h . humana quc por lsswo sc VFCJa c, cm confronto com clc, sempre levará a mclhor ao procurar
m ode cstar desempregado, sem
Para eles, Ja se nao colocaçáo. Mas as rcpcrcussócs da ncurosc de dCSCmpngO náo
Omc
frootrçqudeo ' Pr uma vida carcntc de sentido.
um proñs_
o mcro fat,o .da Codlocaçào são unicamcnte sociais; sáo também vitais. Para o comprccndcr-
oasvelnvtcido da vída com
torna apatlco 0 esempregado mos, basta-nos atentar em que rz romtrutum adquirida pela vida
siponaL O que vcrdadciramentc
no fundo da neurose de desempre_ g_.¡›~irífzml medimzte o sezz mrzíter de misszío repertute no biolágim
rótico o que añnal está a qual 0 úmco scn_ Por outro lado, a súbita pcrda da estrutura intcrí0r, que aparecc
ncu e/ or c, onsegum
oo_ ' re a falsa vísão scgundo
. Í
proñssnonaL Com efe¡to, a faJsa com a vivência da falta dc sentido e dc contcúdo da vida, con-
Êdo dap vida reside no trabalho
com a mlssao a que se e chamado na duz também a fcnômenos dc dccadêncía orgâníca. A psíquiatria
' /
n
l

identifícação da proñssâo
o desempregado a sofrer a 1m- conheCC, por exemplo, o típico dccaímcnto psicofísico dos ap0-
vida por fbrça tem que induzir
sentad05, manífesto em sinais dc envelhecímcnto quc surgcm
prcssáo dc ser inútil e superHua
na reaçâo anumca perante rapidamente. Até com os animais se veríñca um fenômeno se-
De tudo isto se deprecnde quc
fatalã 'qu'e também aqui resta melhantez sabe-se, por excmplo, que os animais amcstrados para
o desemprcgo há bem pouco de
Csplrltual do homem. No o circo, que reccbem as suas «missóes» no circo, vivcm muito
ainda muito espaço para a liberdadc
_de deñsemprego mais tempo do que os seus congêncres quc se conservam em
campo de visão da anal'ise exiStencial da nCUFOSC
sutuaçDao de de_ jardins Zoológicos e náo Hcam «ocupados».
que tentamos fazer, salta à vista que a mesma
d1f'erlent68;
semprego é diversamente conñgurada por homens Pois bem. Do fato dc a neurose de desemprcgo não se achar
passo que o neurotlco se fatalmente vinculada ao dcscmprego, segue-se a possibílídade de
ou melhorz vê-se claramente que, ao
- que o for_
deixa conñgurar animicamente pelo destíno social uma intervenção psicoterapêut1'ca. Qucm, não obstmte, sc scntir
ma e modela caracterologícamente -, o tipo não neurótico, ao inclinado a desdenhar esta Forma de obviar ao problcma psico-
de-
contrárío, configura o destino sociaL Por conseguinte, cada lógico do desemprego, tenha em conta o que náo raro dizem os
sempregado pode ainda decidír, caso por caso, digamos assim, desempregados, cspecialmente os jovens: «O que nós queremos
que tipo há de representarz se há dc ser um desempregado que nâo é dinheiro, o que queremos é que a nossa vida tenha um con-
permancce erguido interiormentc ou, pelo Contrário, há de dei- teúdo». Se bem que nisto se entreveja, por outro lado, o evcntual
xar-se abater pela apatia. despropósito de aplicar em taís casos um tratamento orícmado,
A neurose de desemprego não é, portanto, uma consequên- por exemplo, em termos de «psicologia profunda», uma psicote-
cía ímedíata do desemprego. Alia's, chegamos a observar que, rapia no sentido mais cstrito, c não no sentido da logorerapizL O
muito pclo contrário, o desemprcgo é uma consequência da que é índicado, nestcs casos, é apcnas uma análisc da existência
116urose. Não há dúvída, realmente, de que uma neurose tem que mostre ao descmpregado o caminho que leva à sua liberda-
a sua repercussào no destino social e na sítuação econômica
TEZ de de interior, mcsmo perante o seu destino sociaL conduzindo-o
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
A) ANÁUSE EXISTENCIAL GERAL

àquela consciêncía da responsabill'dade, a partir da qual elc possa A NEUROSE DOMINICAL


dar um conteúdo à vida c guarnecêvla de sentid0, a dcspeito das
suas diñculdades. A plenitude de trabalho proñssional nâo é ídêntica à plenitu-
O ccrto é quc, conforme vimos, tanto o desemprcgo como de de sentído da vida criadora. Dc quando cm quando, alias', o
o trabalho profissional podem scr usados abusivamente como íwuróüco tcnta fugir da vída pura c simples, da vida em toda a
meios pnra um Hm neurótíco. Mas desta utílização neurótíca sua grandeza, refugiando-se na vída proñssíonaL O ccrto é quc
cumprc dístinguir aquela atitude rcta quc se traduz na preocu_ o verdadeíro vazio e, aHnaL a pobrcza de scntido da sua cxístén-
paçâo de mamer o trabalho como mcio para o fim de uma vida cía, vém à luz do dia logo que a sua laboriosidadc proñssional
plena de sentido. Com efc”1'to, a dignidade do homem proíbe~o se paralisa por certo lapso de tempo: quando Chega o domingo!
de sc transformar num meio, um simples meio do proccsso de Quem não Conhece o desconsolo mal disfarçado quc transparc~
trabalho; denega-lhe a degradaçãowde vir a ser puro meio de pro- ce no rosto de alguns, quando, tendo posto de lado o trabalho
dução. A mprzcidade de trabzzlho nzio é tudo, mío camtituí mzâo para passarem o domingo, sc veem por sua vez postos dc lado se,
necemírizz nem szfítríente pam encber a uida de sentida Um ho- por excmplo, perdcm uma entrevista ou já nâo conscguem uma
mem pode pcrfeitamente ser capaz de trabalhar e, no entanto, entrada para o cinema! Já se não dispóc do «ópío» do «amor»;
lcvar uma vida sem sentid0; e pode dar-se também o caso de ñca-lhes vedado por uns instantes o entretenimento do ñm dc
um homem incapacitado para 0 trabalho ínfundir vcrdadeiro semana - aquelc entrctenimcnto quc tendc a abaafr o deserto
sentido à sua vida. O mesmo vale, em termos gcrais, quanto à interior. Mas é disso que prccisa o homcm quc nada mais é do
capacidade de gozan Quer dizer: justifica~se. sem mais, que um que homem de trabalho. Ê que, no domingo, cm sc detcndo o
homem procure predominantememe o sentido da sua vida num ritmo de trabalho dos dias úteis da scmana. pÕc-se a nu a pobre~
detcrminado campo e, nessa medida, de algum modo a limite; é za de sentido característíca da vida cotidíana nas gmndcs cida-
de perguntar, porém, se essa autolimitação se baseia na realidade des. E ñca-se Continuamentc com a ímpressão dc quc 0 homem,
das coisas ou se, para falar verdade, náo será desneccssária, como ignorando por completo o objetivo da vida, Corrc por ela com
no caso da neurose. O quc nesses casos costuma acontecer, pre- a maior velocidadc possíveL precisamente para nào rcparar quc
cisamente sem tal ser necessárío, é que se renuncia à capacidade essa vida carcce de objetivo. É como se tentasse, dcssa mancira,
de gozar, em beneHcio da capacidade de trabalho, ou vice-ver- fugír de si mesmo - inut1'lmente, é claro, porquc, em chegando
sa. A cstes neuróticos, haveria que ler-lhes aquela frase da mé- o domingo, detendo-se por 24 horas a afanosa corrida da sema-
dica que ngra entre os personagens de um romance de Alice na, posta-sc-lhc outra vez diante dos olhos a carência de 0bjcti-
Lyttkens - «Ich komme nicht zum Abendessen»75: «Se falm 0 v0, a falta de conteúdo e de sentído da sua existônc1'a.
amor, transforma-se o trabalho em sucedâneo; se o quc falta é Nâo há nada quc o homem não tente, para cscapar a esta
trabalho, transforma-se o amor em ópio». vivência. Primcira tentativaz corrcr para um salão dc baile. Aí
chegado, o barulho da músíca poupa-lhe a despesa da conversaz
214 (75) A Lmdução Iiterd destc título éz uNâo vou jantar». (N.T.) já não é como noutros tempos, já nem scqucr faz falta animar-se
PSILÍOFERAPIA E SENTIDO
DA \'IDA M ANÁLLHE -Lx1's."niNc1A1. G~LRA1_.

traba~ Mas, mesmo no malsào anscio pclos ret'0rd5, podc-sc vcriñcar


5 « conversas dc baílc». ÉJhC Poupado tambem 0
com na dança_ Mas um rasgo genuinamcntc humano, na mcdidn cm quc rcprcscn-
a sua atenção se concentra
lho dea pensar; toda ta, digamos assim, uma forma daqucla tcndência humana para
. dominic31» tambcm COSElea
«neurótíco
hzí outras tentativas. O para OS Chcgar ao «caráter dc algo únicm c à irrcpctibilidadc Dc rcsto,
dcsport1va, que é outro «asilo»
refugiar-sc n a atividade pOr ocorrc uma coisa scmelhantc com outros Fcnómcnos psicolo'gi-
s de ñm de semana. Resolvc fazer de coma,
cntretenimento do qUe cos das massas; com a moda, por excmploz 0 quc o homcm qucr
mundo coisa mais ímportante
cxcmplo, que na0 há no the e dois na moda. e a prcço de tudo, é a 0riginalidadc; só que, aqu¡, o
Sabcr qual das duas equipes vai ganhar a partlda.
e milharcs de pessoas contem- «caráter de algo único» e a írrepctibilídade ñcam cingidos ao quc
'o adores disputam o encontro
g o espctácul Ol Nas lums de pugilato, embora só atuem dois
Jplam há de mais cxterion
.
e à atenção -
do Entretanto, nem só do dcsporto se podc abusar neurotica-
é claro que a dxsputa é mais intensa;
.
homens,
pouco de sadxsma Com 1st0, nao mente; também da arte. Ao passo quc a vcrdadcíra artc ou a vida
espccrador inatívo unc-se um
nada contra qualquer atividade artística genuína cnriquece o homem e o conduz às suas maís ca-
qucremos dizer absolutamente
seria de perguntarTqual é o racterístícas possibílídades, a «arte» de quc se abusa não Faz mais
desportíva sadia. Só que, sempre
ao desporto. omcm05, que desviar o homcm de si mcsmoz cssa «artc» passa a ser. pum
valor intcrior relativo que corresponde
O alpinismo Fpressu.póe e simplesmente, mera possíbilídade c ocasião para o homem se
por exemplo, a atitude de um alpínístleL
pasâmL cmbriagar e aturdir. Se o homcm qucr fugir dc si mesmo, da vi-
sempre particípação ativa: não valc aqu1 a COHÍCmplãiçao
rlespelt_o à vência do vazio exístenciaL agarra-sc, por exemplo, a um roman-
O que aqui há sâo verdadeiras rcalizaçóesz no que dlZ
certas ,51.tuaçocs ce policial o mais possível tcnso. É claro quc o quc se procura,
capacídade de rcalização Física, o escalador, em
max1m0 dc em última ana'lisc, na tensã0, é conseguír dcsligar-se - aquelc
em que póe a vida em perigo, vê-se forçado a dar o
prazer negativo que se sente quando uma pcssoa sc libcrta, sol-
si; sob o ponto de vista anímico, também não temos aqui senão
tando-se de qualquer coisa desagradách e quc Schopenhaucr
verdadciras «rcalizaçôes», poís ó alpinista semprc tem quc apren_
considerava a única forma possível de prazcn Mas já díssemos
der a vencer fraquezas anímicas, como 0 medo ou as vertigens.
acima que o desprazer, a tensão, a luta, não nos servcm apenas
dc notar, aliás, que 0 alpinista, como salientou E. Straus, nâo
para experimentarmos o prazcr de nos vcrmos livres deles; na
«procura» o pcrigo (por si mesmo), mas apenas 0 «experimen-
realidade, nâo nos metcmos a lutar pela vida só para scntirmos
ta»7('. E a rivalídade, que nos outros desportos produz o anseio
sensações novas, pois a luta pela vida, antcs pelo contrário, c'
pelos remrd5, vcm a produzir no alpinismo a forma mais valiosa
qualquer coisa de intencional e só por ísso constítui algo pleno
e mais alta de uma «rivalidade consigo mesmo». F1'nalmente, a
de sentido.
vivência da camaradagem, que se experímenta no liame da mes-
Nâo há maior sensaçâo, para 0 homem sedcnto de tcnso'c-s,
ma corda, representa outro momento social, bem posi_tivo.
do que a sensação causada pela mortez tanto no âmbito da narte»
(7(›) Em alcn1.1'o, as duas palavras. quc o Autor também póc cntrc aspas, dão à Frasc
Como na vida real. O valentão que, enquanto toma o Café da
um sabor dc trocadilhoz «procura» é «:ur/77»: «experimenta» é «uersuchr». (N .T.)
TBÓ manhã, se põe a ler o jomal necessita de reportagens que narrcm
PSICOTERAPIA E SENHDO DA Vlíx
,\) ANÁLISE LX'ISTENCIAL GERAL

Náo lhe bastam, porém, desventuras das nlcançom para falar verdade, a vída. com as rcitcradw pcrguntasr
mortcs C desventuras.
ITIOITCS cm massa;
a massa anônima aínda lhc parece co¡_ quc nos faz, nunca nos deixa dcscansan Só aturd1'ndo-nos dc ilu-
massas,
. cste homem sima
sa rmuito abstrata. Assím, pode ac ontecer que Sóes conseguimos tornar-nos insensíveis àqucle ctcrno aguilhão
mcsmo d1a, ao c1nema, para ver uma quc a vvída nos crava na consciência com as suas cxigências sc-m~
a neces sidade de ir, no
o mesmo que a todos os viciad05¡ a Pre novas. Qucm se dctém é ultrapassadm c quem sc contcnta
fíta dc gzzngsters. Succde~lhe
um prurido nos nervos; o Prurido a si mesmo acaba por perdcr-se. Portanto, não devcmos ñcar
avidcz dc scnsaç óes precisa de
maior fome de excitaçóes e traz nunca satisfeitos com 0 quc já alcançamos, quer no tcrreno da
dos nervos produz u ma nova c
que se passa, no ñm de con_ criação, quer no terrcno das vivências; cada dia. cada hora torna
consígo 0 aumento da dosc. Mas o
pela lmpressao dc que Sâo nccessárías novas açóes e traz consigo a possibílidade dc novas
tas é o cfeito de contrastc produzido
Idesfe npo fogem
z

sempre os outros a morrer. E que os homens


,

vivências.
proprla morte, lsm
do que mais os horror1'7.a: a certeza da qua
0 vazio cxístcnciaL Com
é, aquüo que torna tão insuportável
cfcíro, a ccrteza da morte só representa um horror para aqueles a
quem pesa a consciência da vida. A morte, como Hnal do tempo
que se vivc, assusta apenas aqucles quc não 0cupam o tempo da
sua vida. Só esses nâo podem olhar a mortc cara a cara. Ern vez
de preencherem o tempo Hnal da sua vida, realízando-se então
plenamente a si mesmos, rcfugiam-se numa cspécie de pcrdão
ilusórío, como faria um condenado à morte que à última hora
comcçasse a julgar que ainda scria perdoad0. Os homens deste
tipo refugiam-se na ílusâo dc que a Cles nada acontece e de quc
a morte e as catástrofes são uma coisa que sempre acontece aos
«outros».
A fuga neurótíca para 0 mundo dos romances, para o mundo
dos seus uheróis», com os quais o neurótico de um modo ou de
outro se ídentíñca, fbrneceJhc ainda mais uma cbzmm Ao passo
que 0 desportista, possuído pela ílusâo dos recomíg aínda gosta-
ría de dormir sobre os louros alcançados, este tipo de leitores dc
romances contenta-se com que haja alguém, que, mujto cmbora
se trate de mera personagem Hctícia, cumpra com o seu dever.
Ora, em príncípio, o que vale na vida não é dormir sobre os 10u-
218 ros, sejam eles quaís Forem, nem o contentar~se com 0 que já se 219
¡\) ›\\'\,'/\ILIS_Í: L"\'l$'l'liNClAL (¡'¡."I\'Al

quc conquistar, em geraL mcdiantc um agir, lhc cai do céu, por


assim dizer. Esse caminho é o camínho do amm'. ou mclhorr
0 camínho do ser-amado. Sem ncccssidadc dc sc propor Fazer
propriamcnte seja o quc Fon scm um «múríto» propriamcntc
ditO - como quc por pura graça -, o quc aqui succdc ao ho-
mem é que Ihe cabe em sorte aqucla plenitudc quc reside na
rcalizaçâo do seu «caráter de algo único» c irrcpctích No amor,
o amado é cssencíalmentc captado como um ser irreprtíuel no
mz Xer-az' (Dasein), e «u'nim» no xcu ser-1Lss1'm (So-sein)“, quc é
4. O sentido do amor
o que ele é; concebido como Tu c, enquanto taL acolhido num
outro Eu. Como fígura humana, vem a sc~r, para qucm o ama,
Já vimos como o caráter de sentído da cxistência humana se insubstituíveL ninguém podendo Fazer as vczes dele, sem que
Funda no «caráter de algo u'nico» c na irrepetibilídade da pessoa_ por isso ou para isso tenha que fazcr seja o que fon A vcrdade é
Vimos também que os valores críadores se realizam sempre na csta: 0 homem que é amado «não tem culpa» de que, cm scndo
forma de realizaçócs quc sempre têm relação com a comunida- amad0, já se realize o que há dc irrepctível c dc único na sua
de. Ficou patcnte, assim, que só a comun1'dade, enquanto ponto pcssoa, isto é, o valor da sua personalídade. Não é «mérito» o
de referêncía em ordem ao quaJ se orienta a Criaçâo humana, amor, antes é graça.
confere o sentido cxístcncial àquele «caráter de algo único» e
Mas não é só graça, é também fcitiça Para qucm ama, 0 amor
irrepetívcl próprio da pessoa. Mas náo basta falan a este propósi-
enfeitiça 0 mundo, mergulha~o numa nova vali051'dade. O amor
to, da criaçã0. A comunidade também pode ser aquilo para quc
dá àquele que ama uma maíor altura no que diz respeíto à res~
se orienta a vivência humana. Especialmente a comunidade a
sonância humana em face da plcnitudc dos valorcs. Abre-lhe o
dois: a comunidade de um cu com um tu. Se prescindimos do
espírito ao mundo, na sua plenitude de valores, a toda a «gm13
amor num sentido mais ou menos metafórico, para nos ater-
dos valores». Assim, 0 amante, ao entregar-se ao Tu, cxperimcnta
mos ao amor no sentído dc eros, temos que 0 amor represcnta o
um enriquecimento ínterior quc transcende esse Tuz o cosmos
campo onde de um modo especial São realizávcis os vaJores de
inteiro toma-se para ele mais vasto e maís profundo na sua va-
vívência. O amor é, afinaL a vivência em que, pouco a pouco, se
líosidade; resplandece nos raios de luz daqueles valores que só o
vive a vída de outro ser humano, em todo o seu «caráter de algo
enamorado sabc Vcr, pois, añnaL nâo faz cegos o amor, mas sim
u'nico» e irrepetívell
videntes - dando aguda visão para os valores. Por Hm, ao lado da
AJém do caminho da realização dc valorcs cr'íadores cm graça de ser amado e do feítiço do amar, um terceiro momcnto
que, portanto, se dá algo de ativ0, para fazer valer 0 «cara'ter
dc ano único» e a irrepetibilidade da pcssoa, há um segundo (7.7) Veia-se o (cxto da pág. 178. Aí o Autor toca a mcsma idéia usando csm cxprcssão
caminho, como que passivo, onde tudo quanto o homem temí mudiñcadaz «scr-assim«e-náo-dc-ou¡r0-modo» (Sa-unzI'-ni(/)I-zmdemseinJ. (N. T. ) . 221
220
PSICOYERAPIA E SENTIDO DA \'lDA ¡\) ANÁLISE MSTENUAL GERAL

surge ainda no amorr o seu mílagre; porque, prccisamente através excitad0, poís há nela algo maís do que o mero dcscjo sexuaL
do amor. e dando um rodeio pelo biológico, consuma-se o que Trata-se de uma atitude que não é propriamentc ditada por um
é de al›gum modo inconcebível: uma pessoa nova entra na vida, impulso scxuaL não sendo tampouco provocada pcla outra partc
cheia, cla também, daquclc mistério do «caráter dc algo únic0» c da rclação amorosa, enquanto mera companhcira scxuaL Qucr
írrepetível da cxistência - e um tho é isto'. dizer: se consíderamos a corporalidadc da companheira como
o estrato mais extemo da sua pessoa, o homcm quc toma para
com ela uma atitude crótica nâo se ñxa apenas ncsse estratoç vaí
SEXUALIDADE, EROTICIDADE E AMOR mais a fundo, digamos assim, do quc aquelc quc tomou uma
atitude meramcnte sexuaL penetrando na camada ímcd1'ata-
Temos falado repetidas vezes da estrutura do ser humano, mente mais profunda, que é o tecído anímico. aquela Forma
disposta em camadas e escalócs. Rcferimanos repetidas vezes de atitude que, como fase da relação entre dois sercs humanos,
à visáo que temos do ser humano. como totalidadc de corpo, se costuma identiñcar pelo nome de paixão dc namorados. As
alma e cspírito. E, no que concerne à psicoterapia, partimos qualidades físicas excítam-nos sexualmentc; mas as qualidades
do postulado de que cumprc ter em consídcração essa totali- anímicas são as que nos tornam «enamorados». O namorado,
dade, de modo que a terapêutíca, além de ver o que há de físico portant0, já não está excitado na sua própría c01'poralidade, mas
no homem, deve tomar como ponto de partida, não apenas 0 sim comovido na sua emocionalídade anímica; comovido, dígo,
anímico, mas também o espiritual pela psíque própria da outra parte (nào a do seu «caráter de algo
Pois bcm. Vejamos agora, precísamente cm face da cstrutura úníco»): assim, por detcrminados rasgos do scu caráter.
estratiñcada da pessoa, as diferentes atitudes quc podem tomar o Portanto, a atitude meramente sexual tcm por meta a C0r-
homem Como sujeito que ama e experimenta a vivência do amor poralídadc e, como 1'ntmçá078, detém-se, por assim dízcr, ncssa
e a vivência do outro, nesse amor com que ama. Efetívamente, camada. Pelo contrário, a atitude crótica, aquela que corrcspon~
às três dímensóes da pessoa humana correspondem também três de à paixão dos namorados, or1'enta-se para 0 psíquico; ainda
possíveis formas de atitud6. que nâo cheguc a avançar até o ceme da outra pessoa, pois isto
A maís prímítiva dcstas atitudes é a atítude sexual. Neste só 0 faz a terceira das atitudes mencionadasc a do amor propría-
caso, da aparência física de uma pcssoa emana um atrativo se- mente dito.
xual que dcsencadeia cm outra, sexualmente predisposta, o ím- Amor (n0 sentido mais cstrito da palavra) é a forma maís
pulso sexuaL afetando-a, portanto, na sua corporalidade. A for- clevada possível do erótico (no sentido mais amplo do tcrmo),
ma imediatamcnte superíor de atitude é a eróticaL Mas convém porquanto representa a mais profunda penetração possível na
notar quc aqui, por razóes heurísticas, estabelecemós uma c0n- estrutura pessoal da outra partez 0 entrar em relaçõcs com cla,
traposição entre eroticidade e sexualídade. Queremos dizer com
isto que, no sentido mais estríto da palavra, a atitude erótica (78) Grifàdo por nós. dado o scntído especial confcrido pelo Autor u cste tcrn10. CÍ
222 não é aquela cm quc o homcm se sente, sem mais, scxualmentc a nossn nota da pág. 72 (N .T.)
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA leA N ANÁLISE EXAISTENCLAL GERAL

a relação díreta com o cxcite, ou de um caráter anímico que porventura o apaixonc; o


rítuaL Nestcs tcrmos,
como algo de espi a mais alta forma que está aqui em apreço é o próprio ser humano, a companheira
aJ naI outra parte signiñca
que há de espiritu sentido tam_ Ou o companheiro enquanto ser incomparável e insubstituích
rismo. Quem ama neste
possívcl dc companhm
por su a vez,
. excitado na sua corporalidadq Como é sabido, a psicanálisc deñne como tendências «inibi-
bém não se sente, acha tocado no d35» aquelas que se nos deparam na chamada paixão dc namora-
emoc1 onalidade; antes se
nem comovido na sua
rocado, sim, pelo portador espirítual dos c que não têm, por conseguinte, naturcza scxuaL Quer-nos
mais Fundo do scu espíritoz dñ
anímlco. da outra partlc, pelo seu ceme parccer que tem razão, mas precisamcnte no sentido contrário
da corporalidade e do
a atxtudc que relaaona 1retameImC àqucle cm quc a julga tcr. Porque a psicanal'ise consídera inibidas
pcssoaL Amor é, portanto, prCClsa_
do ser amlado, crom a sua pesâoâ as referidas tendências no sentído de quc não atingem a mcta do
com a pessoa espiritual
excluswo «carat\cr nde algo umco» e de impulso sexual-gem'tal por ela suposto. E, no nosso cntendcr,
mente no quc ela tcm de
rasgtos que a c,onst1tuem como pessoa mis tendências estão inibidas exatamentc no sentido inverso: no
irrepetibilidadc (os únicos
espirltuaL ela_c .a portadora daquclas sentído de que (quanto à paixâo de namorados) está interrom-
espiritual!). Como pcssoa
para as quals zntende quem toma a pida a sua orientação para a forma imediatamente mais clevada
qualidades anímicas e físicas
mais estrito do term0) ou a sexuah éy de atitudc, a forma de amor verdadeiro, quc visa à camada imc-
atitude crótíca (no sentido
sc acha por trás daquelas aparên_ diatamente mais profunda da pessoa da outra parte: o seu ceme
como pessoa espirituaL o que
pSLqmcas em que penetram, espirituaL
cias sexuais e mcsmo puramente
e a atitude do «namorado»; é 0
respectivamente, a atitude sexual
prec15amente transparece.
que nas aparências físicas e anímícas,
3 IRREPETIBILIDADE E «CARÁTER DE ALGO ÚNICO»
«r0upa», rcspecu'_
A aparêncía física e anímica sâo Como que a
Cspiritual «traz» vcstida. O amor é um fenômeno humano no sentido exato da pala~
vamentc exterior e interi0r, que a pcssoa
apenas é namora-
Qucm se posta numa atitude scxual ou quem vra. É um fenômeno especificamente humano, quer dizerz não se
nota
do ñxa-se numa atração que sobre ele exerce determinada podc reduzir, sem mais, a um fenômeno sub-humano, nem de
física ou determinada propriedade anímica. A quem está numa um fcnômeno sub-humano sc pode deduzir. Enquanto «fenôme~
atitude sexual' ou simplesmente é um namorado, agrada-lhe «na» no originário» que, como taL é impossível reduzir a alguma coisa
outra parte uma nota física ou uma propriedade anímica deter- que «a rigor» esteja por tras' dele, - o amor é um ato quc caracte-
minada, atingíndo-o, portanto, qualqucr coisa que o ser amado ríza a exístência humana no que ela tem de humano; por outras
«tem»; não assim o que ama com verdadeiro amorz porque este palavras, um ato existenciaL Mais ainda2 é o ato coexistencial por
não se límita a amar «no» ser amado o que qucr que seja, antes o excelência; porque o amor é aquela rclação entrc dois seres hu-
ama por si mesmo - precísamente o quc ele «é» e não 0 que cle manos, que os pôc cm condiçóes de descobrir o outro em todo o
«tem». Quem ama de verdade é como se visse através da «rou- seu «carátcr dc algo único» c irrepetíveL Numa palavra. o amor
pa» física e psíquica da pessoa espirítuaL para pôr os olhos nela caracteriza-se pelo seu caráter de encontro; e encontro signiñca
própria. Por isso, já se não trata aqui de um «tipo» físico que 0
TM sempre que se trata de uma relaçáo de pessoa para pessoa.
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA íN
:\NÁLISE EXISNÉNCML GERAL

O amor não é apcnas um fenômeno propriamente huma_ ritual do ser amado. Imaginemos quc uma dessas pcssoas sim-
no; é também um fcnômcno orzg'inariamente humano e, por ples ama urna outra determínada c que. cm seguida, a pcrdc,
conscglu'ntc, náo é um epífenômeno puro e simplcs. Sê-lo-ia, ou porquc morreu ou porque emprecndeu viagcm, ñcando dela
cerramcnte, se o pudéssemos ínterpretar no sentido cm que o scparada longo tempo. Apresentemos-lhc cntâo uma cspécíc de
dcñnem as doutrínas psicanalíticas e psicodinâmicasz como su- sósia da pessoa amada, alguém que scja, tal e quaL do ponto dc
blimaçâo da sexuah'dadc. Mas 0 amor não é mera sublimação vista psicofísíco, o objeto do scu prímeíro amor. Pois bcmz sc
da scxualidade, pela símples razâo dc que, muíto ao contrári0, lhe perguntarmos se poderia transfbrir para cste sósia. pura e
constitui condição e pressuposto de um processo sem o qual é simplcsmente, o amor com que amava o scr amado, nâo podcrá
de todo em todo inconcebível qualquer coisa que se assemelhe a deixar de confcssarmos que nào é capaz dc tanto. É quc semc-
uma sublimação. Referimomos com isto àquele processo que se lhante «transferéncia» de um auténtico amor é inconcebíveL
veriñca através do descnvolvimento e amadurccimcnto da pro- Quem deveras ama não «tcm em mcntc». quuanto ama. uma
gressiva inregração da scxualídade. peculíaridadc físíca ou psíquíca, qualqucr quc ela scjaL c quc sc
Explicamos. Desenvolvímento e amadurecímento da se- dá «na» pessoa amada; náo há dúvida dc quc não «tem cm mcn-
xualídade partem do mero z'mpeto sexual (Sexualdmng) que - para tc» esta ou aquela qualidadc que ela «tcm», mas nntcs 0 quc cla
nos atermos à terminologia introduzida por Freud - dcsconhece «é», no seu «cara'tcr dc algo único». Ora, cnquanto pessoa «úní-
qualquerfm imtíntívo e objeto imtintíw (Trz'ebzz'el e Trz'ebo/7je/et). ca», nenhum sósia a pode representar jamaís, por muito scme-
Só maís tarde é que sc chega à formação do instinto sexual no lhmtc que seja. Já o mesmo nâo succde com o «apaíxonado»,
sentido rigoroso do termo. O imtinto 5exual (Sexualt7'ieb) dispóe que decerto se contentaria com o sósiaz a sua mera paixão de
já de um ñm instintivo, poís rcalmcnte aponta para 0 comércio namorado aceitaria, sem mais, a transfcrénc1'a, pois na sua pai-
sexual (Ge:c/J/ec/mver/ee/)r). Mas faltaJhe aínda um objeto instin- xão toma uma atitudc que vísa simplesmcnte o carátcr anímico
tivo, no sentído de uma genuína companhia amorosa em que se que a outra parte «tem», e não a pessoa espiritual que ela «é».
possa centrar: tal dircção c orientação cm ordem a uma pessoa A pessoa espíritual como objeto da atitude dc gcnuíno amor é,
determinada, prccisamente a pessoa amada, é o que distingue portanto, para o homem que ama realmente, insubstituích nin-
a terceira fasc c 0 terceiro estádio do desenvolvímento e ama- guém a podendo represcntar, dado 0 seu «cnrátcr dc algo único»
durecimemo sexuaL a tmdénria Jexual (Sexualstrebm). O que c irreperíveL Dísto resulta, entretanto, que, símulraneamente, 0
acontecc, portanto, é que a capacidade de amar é condiçâo e verdadeiro amor garante, por si só, a sua duraçâo no tcmpo. Com
pressuposto da íntegração da scxuah'dadc. E o quc qucremos díz- efeito, um estado físico desaparecc c um detcrmínado estado de
er com ísto é que JÚ o Eg0, que intendepam um Tu, pode integmr ânímo tampouco se mantém; qualquer estado físíco que rcprc-
0 pr0p'ri0 Ítí ' sente a excitação sexual é igualmente passageiroz o impulso scxual
Qualquer pessoa simples se apercebe claramente de que o desaparece inclusívc em sendo satisfcitm e mesmo aquelc esrado
homem, enquanto realmente ama, toma pelo amor uma atitude de ânímo a que costumamos chamar paixão, a que chamamos
226 que de fato visa o que há de irrcpctível e único na pessoa espí- pa1x'ão de namorado, não costuma ser duradoura Em contrapar-
¡'\4I( .()l'liRA|'l/\ |'.' SlzNTIDU IM Vll )/\
m ANÁHSlí 1,'~x15'r|=N(;1AL uuw

tida. o ato cspiritual com quc cnvolvcmos uma pcssoa cspirinml nhuma Fclicidadc quc no Ííuluro nos pudcssc rcssarcir dc tudo
intcncionalmcntc sobrcvivc dc algum modo a si mcsmoz sc o scu quanto tínhamos passado na pris.170. Sc tivásscnms fcim um
contcúdo tcm vnlidadc, tal validadc mantc'n1-se dc umzl vcz pam balanço das fclicidadcs. 5ó ñcnríamos com um saldo fàvorávck
scn1prc. Ass.'im. o amor autênu'co, como um apcrccbcr-sc dc um “atirar-sc às fhrpasn isto c', dar cabn da vida. Havia cmrc nós
'IL'1 no scu scr-assim-c-não-dc-oulro-modo, scmprc fíca a salvo qucm o não Fazím mas cra pclo profundo scntimcnm dc uma
daqucla cnducidadc quc afcm os mcros cstados dc scxualidadc obrigaçâo qualqucr. Quamo a mim. scntimmc nbrigado a C(›n-
corporal ou dc croticidadc anímica. tinuar vivo para a mínha máu Nós nos amávamos um ao ourro
0 amor é mais do quc um csmdo dc sentimcntosz é um ato acima dc tudo. Assim. a minha vida tinha um scntido, apcsar
intcncionnL Aquilo para quc elc intende é o Jer-cmim dc outro dc tudo. Entrctanto, cu rinha que contar dia a dia, hora a h()m,
scr humano. Estc seHmim - a cssência dcstc outro scr huma- com a minha morrc. L¡, fossc Como fossu também a minha
no - é (c0mo todo scr-assim) índcpcndcntc, cm última ana'lisc, mortc não podia deixar dc tcr um scntido, c bcm assim mdos
da exísrência (Dasein): a cssência - a «cssentia» - não sc C0n- os sofrimcnros que sc mc dcparasscm aré chcgar junto cha. Foi
forma ncccssariamcntc com a «cxistcntia» e, ncsta medida, ñca cntáo quc sclci um pacto com o Céuz sc cu tívcssc quc m()r-
añnal acima dcla. Assím, c só assim, sc comprccnde quc 0 amor rcr, a mínha mortc dcvcría prcscntcar a minha mãc com uma
podc snbrcvívcr à mortc do amado; é csta a única mancira dc vida mais longa; c o quc cu tivcssc quc sofrcr antcs da mortc
entcndcr quc 0 amor é «maís Fortc» do quc a morrc, isto é, do faria também com quc a minha mãc rcccbcssc o ganho dc umu
que o aníquilamcnto do scr amado na sua existência. A existên- mortc fácíL quando lhc chcgassc a horzL Só ncsta pcrspccti-
cia do scr amado é rcalmcntc dcsfcita pcla mortc, mas 0 scu va do sacrifício mc parccia suportávcl toda a minha cxistêncía
ser-axsim não o podc a mortc arrcbatar. A sua cssência única é. atormcntada. Eu só podía vivcr a minha vida sc cla tívcssc um
como todas as naturezas genuinamcntc csscncíaís, algo desliga- scntido; mas também só podia sofrcr o quc sofnlq c morrcr da
do do tempo c, ncsta medída, ímperccích algo que não pas- mínha mortc, caso tívcsscm mmbém scmido a dor c a mortc».
sa. A «idcia» dc um ser humano - prccisamcntc a ídeía quc 0 Prosscguindo na sua narração autobiográHuL o prisionciro ín-
amantc Contcmpla - faz partc dc um rcíno mctatemporaL Con- forma-nos como cle, quando o tcmpo c a sua situação no Cam-
síderaçócs dcste gênero, como sc vê, obrigam-nos a remontar a po lho permitiam, semprc sc cntrcgava intcriormcntc à ngra
pcnsamemos escolásticos ou platônicos. Mas não se pensc quc cspiritual do scr por clc tão amado. Podcríamos dizcr aquí quc,
andam muito longe daquelas vivêncías simples, Cuja dígnidadc enquanto na sua concreta sítuação vital náo cra possívcl rcalizar
Cognoscitiva nos é também conhecida. Basta atcntarmos, para valores críadores, cssc homem tcvc a expcríência cxara do quc é
tanto, num relato dc um antigo prísioneiro de um_ Campo de realizar valores vivenciais, no enriquccímento c satisfaçáo intc-
concentraçãq que nos ínforma sobre as suas vivêncías e que rior dc uma exístência quc sc cntrcga pclo amor; dc uma vida de
passamos a transcrevcr. contemplaçâo amorosa c amorosa vivência.
«Para todos os do campo, para mím e para meus com- Mas parece-nos ainda digna dc nota a dcscrição de vívências
228 panheiros, uma coisa estava bcm claraz não havía na terra nc- com que prosseguc 0 relato. «O caso é que cu nâo sabia sc a ZZJL
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA A) ANÁLISE Dw'l$TENCIAL GERAL

mínha mãc continuava viva. Ficávamos o tempo todo sem non'- que sáo como «doís trapos scnsívcis» -: c é a ausência dclcs o
cías um do outro. Entáo, rcparei que o fato de eu nâo saber se que afínal notamos com a morte! Mas não sc qucr dizcr com
minha mãc ainda estava víva náo estorvava em nada os diálogos isco que a pessoa dcixe de cxistir; quando muíto, apcnas nos
habítuais quc eu rinha com ela, em espírito!» Este homem, p0r- scria Iícito afírmar que ela já não se podc dar a conhcccr, pois
tant0, cm nenhum momento sabia sc o ser por ele amado aínda para tanto carece de processos de cxpressão físicos ou ñsiológi-
cxistia fisicamcntc; c, nâo 0bstante, ísto perturbava-o tão pouco cos (línguagem, etc). E, assim, mais uma vcz sc póe a claro por
quc, mcsmo que posteriormente e de passagem vicsse a tropeçar que razão e cm que sentído a genuína imençâo amorosa, isto
com 0 problema da «existência», cra como se não chocasse com- é, o intender para ourra pessoa cnquanto taL é indcpcndcntc
tra ele. É que 0 amor em tal medida tem em mente ~ essencíaL da sua presença (Vor/sza'emein) corporah maís aínda, dc loda a
mente - o ser-tmim de outra pessoa que quase se não discute sua corporal1'dade.
a sua cx1'stêncía. Por outras palavrasz a eslsencialidadc do outro Naturalmente, não se añrma aqui que o amor nâo qucira
satísfaz tão plenamente o verdadeiro amante que a sua realídade «incarnar». O que se pretende dizer é simplesmente quc é in-
passm de certo modo, para segundo plano. dependente da corporall'dade, na medida cm quc náo se lhc
Prende-sc tão pouco o amor com a corporalidade do amado, subordina, na medida em quc não se conforma com ela. Mes-
que sobrevíve, sem maís, à sua morte, podendo perdurar até mo para o amor entre os sexos, o corporaL o sexuaL longe de
à morte de quem ama. Aliás, nunca é concebíveL para quem constituir um clemento prímárío, um ñm cm si, é antes um
ama realxnente, a morte do ser amado. É-lhe tão difícil «con- meio de expressão. O amor pode existir substancialmente mes-
cebê-la, como difícíl lhe é conccber a morte de sí próprio. Añ- mo sem neccssidadc disso. Quando tal elcmento for possíveL
nal, todos sabemos quc o fato da própria morte nunca pode decerto quc o buscará e quererá; mas sc fbr necessário renun-
chegar a ser objeto de uma vivência e que, da mesma forma, é cíar, nem por isso arrefecerá ou morrcrá. A pcssoa espiritual
em última análise tão ímpensável como o fato de ainda-não- adquire forma precisamente dando forma aos seus modos de
-ter-sido. anterior ao próprio nascimento. Quem realmentejulga expressão e manifestação anímica e corporaL Na totalidade
poder amreber zz morte de um homem engamHe a si mesmo de centrada em tomo do ccrne pessoaL as camadas extcriores ga-
aglum modo; porquc, añnaL é inconcebívcl o que ele tcm em nham, assim, um valor de cxpressào quanto às interiores. Scja
mente c pretende fazer crer, ou sejas o fato de um ser pessoaL como for, o corporal podc Chcgar a cxprimir num homcm o
só por se haver convertido em cadáver o organismo respectivo, scu caráter (enquant0 clemcnto anímico); e o scu caráter, por
desaparccer do mundo absolutamente, isto é, de modo que já sua vez, pode cxprímir a pessoa (cnquanto elemento cspíritual).
não mais lhe corresponda nenhuma forma de ser. Num estu- O espirirual cansegue - pede - umrz exprexsâo zztmzzés do cmporal e
do póstumo a respeito da questão da «sobrcvivênciá» da pessoa da arzímim Assim, a aparência física do scr amado vem a cons-
após a mortc (do corp0), aquí ventilada, Scheler referiwse ao tituir, para quem ama, o símbolo dc algo quc cstá por trás dcla
fato signiñcatívo de que, mesmo durantc o seu tempo corporaL e sc manifcsta pelo que é extcrno sem no extcrno sc esgotar. 0
230 nos é udad0» algo mais do que os dados aparentes do corpo, tzmor autêrztico, em si e pam si, nâo prerisrz do rmpomL nem pdm 231
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA A) ANÁLISE EXIS'I'ENCIAL GERAL

despertar nem parrz se mmuman mas serve-se do corpaml nox dois sua capacidadc de vir a ser amado. As notas Fácticas individuais
mommtoL Dizemos que se serve do corporal para despernm psicossomáticas só adquircm dígnidade crótíca a partir do amor,
porquc o homem de instinto seguro deixa-se ínHuencíar pelo só o amor as transforma em propriedndcs «dígnas dc scrcm ama-
corpo da outra pmte - mas sem que, apesar disso, o seu amor das». Isto não pode deixar dc nos pôr dc sobrcaviso c numa ati-
sc dirija ao corpo do ser amado; o que acontece é que o corpo tude crítíca em face do uso de cosméticos, porque, cfctivamcntc,
deste, conformc as círcunstâncias, e como expressão que é do mesmo aquilo a que chamamos dcfeãíto dc bcleza faz partc, dc
espíritual duma pcssoa, faz com que a pessoa cm questâo venha algum modo, do ser humano que sc ama. Semprc quc algo dc
a ser a eleita de alguém que a ama, e que, precisamente pela sua cxterno produz um efeit0, não o produz cle per sí, mas precisa-
segurança de instíntos, a prefcre entre outros seres humanos. mente em sendo amado 0 sujeito respcctívo. Uma vcz, por exem-
São sempre determínadas propriedades físicas ou rasgos aními- plo, uma paciente andava com a intenção de cmbclczar o busto,
cos de caráter dc determinado cunho 0 que conduz o amante um tanto desgracioso, altcrando a plástica dos seios com uma
pelo caminho que vaí até uma dcterminada pessoa, - «dctermi- operaçào plástica; julgava que, assim, garantiria o amor do scu
nada para ele». Mas, assim como o homem «superñcial» Hca na marido. Em dado momento, pediu ao médico um consclho. Este
«superfície» da outra parte sem conseguir abraçar o que nela há dcu-lhc a sua opinião, prevenindo-a de que, se o marido añnaJ
de profundo, assim para o homem «profundo» a «supcrfície» a amava realmcnte, amava o corpo dela tal como estava. Assim,
não passa de expressâo da profundidade e, como tal, se bem também não é um vestído de noite «em si» quc impressiona um
que importante, nada tem de essencial e decisivo. homem; é antes o vestido «na» mulhcr amada que o traz. O certo
/

E neste sentido quc o amor se serve do corporaL para nas- é que, Hnalmente, a paciente pediu ao marido a sua opiniâo. E,
cer. Mas também dissemos que se serve do corporal para con- de fato, o que o marido lhe deu a entendcr foi que 0 cfeito da
sumar-se. Efct1'vamente, o homem que ama e está fisicamente opcração não poderia deixar de o pcrturbar, pois acabaria por
amadurecído sente-se impulsionado, em geraL para uma relaçâo pensarz «Ist0, afinaL já não é a minha mulhcr».
de tipo físico com quem ama. Entretanto, para quem ama real- Psicolog1'camente, é compreensível que as pessoas menos
mentc, 0 corporaL a relação sexuaL contínua a ser um meio de favorecidas na aparência se sintam forçadas a procurar pre~
expressâo da relaçáo espiritual que é, essa sim, 0 amor propría- cisamente aquilo que a outras, por assim dizer, lhes caiu do céu,
mentc díto; e, como meio dc exprcssâo, só do amor reccbe a sua tornando-as mais graciosas. As pessoas feias tendcm a dar im-
consagraçâo humana ~ do amor que é, digamos, para a relação portância exagcrada à vida amorosa - e tanto mais quanto mais
Física, um suporte de atos espírítuaís. Por isso, podemos dizer o dificuldades tiveram nos amores. Ora, vístas as coísas como clas
seguínte: para quem ama, o corpo da amada vem a ser expressão sa'0, o amor é apenas uma das possívcis cljanres de precncher
da sua pessoa espirituah e, paralelamcnte, o ato sexual vem a ser plenamente a vida com um sentido, c nâo deccrto a maíor. Seria
mera expressão duma íntcnçáo do espíríto. triste para a nossa existência, seria decerto empobrecer a nos-
A impressão extcrna provocada pela aparência física de um sa vida, o fazcrmos depender o seu sentido do fato de termos
232 scr humano é, nestes termos, relativamente írrelevante quanto à ou não sorte no amor. AñnaL a vida é rica em oportunidadcs
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA M ANALIISE DUSTENCIAL GERAL

dc valor. Por isso, mesmo qucm não ama e não é amado podc o que faz é tcntar empurrar aqucla <rporta da Fclicidadm quc,
conñgurar a sua vida com a mais alta plenítude dc sentid0. O como já disscmos, na estcira de Kicrkcgaard, «abrc para Foram
úníco problcma a dilucidar é o problema de saber se essa recusa fechando-sc, por ísso mcsmo, ao impctuoso quc a quer abrir
de amor é realmentc fatalídade do destino ou uma recusa neu- pura dentro. Por outro lado. quem se fíxa na vida amorosa num
rótica; e, nestc últímo caso, será por culpa sua que alguém nâo scntído de certo modo negatívo, desvalorizando-a, pretcnden-
tem acesso à ventura do amor. Também aqui, quanto aos valores do, com a desvalorização do inalcançávcl e aparcntemcntc inal-
vivenciaís do a.mor, vale portanto - por analogia com a rcnúncia cançáveL compensar-se e cnganar-sc, também fccha a si próprio
à realização de valores críadores, cm bencfícío dos valores de o accsso à felícidade no amor. Assim, o íntimo ressentimento
atítude - 0 princípio de que nâo se deve cometcr uma rcnúncia por causa da renúncia aparentc ou rcalmcntc forçada conduz ao
desnecessária ou demasíado prematura. E, em geraL costuma mesmo rcsultado que a rebcldia e o protesto contra o dcstinoz
ser grave o perigo de uma resignaçâó precipitada. Com cfeito, tanto uns como outros se privam a si mesmos das respcctivas
os homens costuman1-sc esquecer de como é relativamcnte oportunidades. Em contrapart1'da, a atitude dc51'nibida, livrc de
pequena a importância da aparência externa e de que, na vida de ressentimentos, daquele quc renuncia honrad'.1n1cnte, maus não
am«or, ímporm muito mais a personalidade. De resto, todos co- de modo inapeláveL faz brilhar o valor duma pcrsonalidadc, pro-
nhecemos exemplos elucidativos - e consoladores - de pessoas porcionando aquela última clumce que semprc se dá ao homem
extcrnamcntc pouco atraentes e mesmo insigniñcantes que con- capaz de se ater à velha max'ima: abstinmdo 0btínerct
seguiram ter êxíto na vida amorosa em virtude da sua persona- Em geraL a acentuação da aparência cxterna faz com que se
lídadc e do scu encanto. Lembremos, por exemplo, o caso acima dê excessiva importâncía à «bcleza» física no campo do eróti~
citado, do paralítico que, nas circunstàncias mais desfavoráveís c0. Seja como for, também com isso se desvaloriza o homcm
da vida quc se possam imaginan mostrou a sua hombridadc, não como tal. Quando se diz, por exemplo, de uma mulher, que
apenas csp1'ritualmente, mas também ín erotíCiL ela é «uma mulher bonita», o que se faz, em rigor, é inHigir-
Por conscguinte, a resignação do homem extemamente pou- -lhe uma humílhação; porquc, añnaL 0 que signiñca, cm última
co atraente nâo tem, a rigor, razâo alguma. E, na mesma pro- ana'lise, uma apreciaçáo destas? Porventura não significará, pura
porção, acarreta um resultado incurávelz o ressentimento. Com e simplesmentc, que se prefere não falan por píedade, de outros
efeíto. o homem neurótico que nâo se satisfaz numa esfera de valores, os espirituais, por exemplo? A insistência na apreciação
valores, de duas uma: ou envereda pelo caminho da fuga para positiva desta esfera de valores relativamente baixos náo podc
a sobrevalorização, ou pelo da desvalorização da esfera vital em deixar dc lcvantar a suspeita de que se está silencíando um juízo
que se encontra. Em qualquer dos casos, incorre em injustíça, c negativo quanto a uma esfera de valores maís altos. Mas, na
precipíta-SC na 1'nfclicidade. Não há dúvida de~que a tendência acentuação dos juízos de valor crótico-cstéticos, não sc contém
neuroticamentc convulsiva para a «felicidade» no am0r, mesmo apenas uma dcsvalorização da pessoa quc é apreciada; contém-se
pela sua convulsívidade neurótica, conduz de per si à «infelici- também uma desvalorização dc qucm 05 emite. que, sc eu falo
dade». Quer dízer: quem se fíxa no erótico, sobrevalorizando-o, exclusivamente da beleza de uma pessoa, é simplesmente porque 35
PSICUIERAPIA E STNTIDO
DA VIDA
m ANÁLISE LXJISTENCIAL GERAL

nâo sci hllar da sua espiritualidade; c, além disso, porque não me pcla quantidadc dos prazcrcs scxuais; pois, na vcrdadc, qunnto
imercsso nada por ela, pois nela nào encontro valor algum. menos «feliz» se faz um homcm, tanto mais tcm quc scr «ap.-1-
/,'igu:1do» o seu instinto.
O «Hirt» representa uma Formn mcsquinha do amor. ch sa-
O HORJZONTF DO uTERn bcmos que na linguagcm corrente figuram cxprcssócs como cstaz
essa mulhen já eu a utivc-» comig0. Expressócs dcstc jacz dcixam
O «Hirt», todas as Formas do erótico médio de ontem e dc entrcver qual o Fundo dcsta forma do erótico. O quc sc «tcm»
hojc. encerram também a intençào inconsciente de passar de pode-se substituir; o que sc possui, podc-se trocan Um homcm
largo pela pessoa espíritual do namorado. Nessas relaçóes su- que «possuiu» uma mulher também a podc trocan podc inclu-
perñciais não se vé o ucarátcr dc algo único» e a írrepetibilidadc sivc Chegar a «c0mprá-la». Mas a catcgoria do «ter», sob a forma
do outro, simplcsmente porquc não swe quer aprecíar. São umas dc erótico a quc nos rcferim05, aparccc também do lado da partc
relaçóes erótícas em que se foge dos laços do amor propriamente felninina. Sim, este erótíco «supcrñcial» no ma1"5 estrcme scnti-
díto. do sentímento de verdadeira vinculação à outra parte - da do da palavra - pois se atém à «superfícien da outra parte, à sua
responsabilidadc que scmpre se encerra nessa vinculação. Foge- aparência extema, corporal, sem passar daí - vcr1'ñca-sc também
-se para o coletívoz para o «típ0» que em cada caso se preferc e do lado da mulher, sob o horizonte do «tcr». 0 quc valc sob cstc
quc uma pcssoa rcprescnta mais ou menos fortuitamentc. Não horizontc não é o quc um homcm «é», mns sim c cxclusivamcnte
se escolhc uma pessoa determinada, prefcre-se apenas um dc- o fato de ele ter, dígamos, sex appml (com0 possível companhia
termínado tipo. A intenção amorosa afcrra-se a uma aparência scxual). O que se tem podc-se modiñcan e o aspecto «cxterno»
externa, ccrtamente típica, mas também impessoaL Os vários que uma mulher tem, também cla añnal o pode modiñcan com
tipos físícos quc o mais das vezes são preferídos vêm a constitu1'r, a maquillaga Ao cncontro da atitudc do homcm, quc acabamos
assím, 0 tipo da mulher ímpessoal: a «não-pessoa» com um cor- de caracterizar, vem portanto uma atitude correspondcntc, por
po, com quem nâo é preciso tcr nenhuma relação pcssoal; com partc da mulhcn A mulher banaL média, vê-sc impclida a ocul-
quem se pode ter uma relação sem compromísso; exatamente tar tudo 0 que nela há de pcssoaL para não agravar 0 homem, in-
a mulhcr quc se pode utcr» c quc por isso não é necessário «ter culcando-se unicamcntc o quc cle procuraz o tipo por elc prefe-
que amar»: é uma propriedade - sem nada de próprio - e sem rido. A mulher banal anda semprc cheia de cuidados com o scu
ncnhum valor. Ora, o amor só existe para com uma pessoa en- aspccto «cxterno»; quer scr «conquistada»7” - quer ser «t0mada».
quanto tal; em relação a uma «não-pessoa» com um corpo, não ainda que não queira scr tomada a sério, isto é, tal como ela é, no
existe amor algum. Também não se verifíca, ern relaçâo a cla, a quc cla tem dc vcrdadciro c próprioz um scr humano dotado de
Hdelídade: à não-pessoa corrcsponde a ínñdclídade. Esta inH- um «caráter de algo únic0» e irrepetích Quer, añnaL ser toma-
dell'dade, nas referidas relaçóes eróticas, nâo é apenas possívch da como ser genérico, de modo quc 0 que ncla sobressai é a sua
é ainda neccssária. Efet1'vamente, onde a quantidade da felici-
dade amorosa faltm há aí uma falta que tem de ser compensada (79) No original diz-se apcnas «lonmdan (N.›l'.)
PthOTERAPIA E SENTIDO DA Vll)›_\ m ANÁLISE hX*ISTENClAL GERAL

corporal1'dadc, com o seu caráter nâo especíñca É por isso qucc, nâo obstantc, é assim quc se faz valcr a pcrsonalidadc dc cada
quaL Quer dizer, portanto. que a autêntica inrençáo amorosa
sc descntranha para ser impcssoal e, ssja como for, representar
qualqucr tipo, desde que estcja em moda e tcnha boa aceitação penetra naquela camada do ser cm quc cada indivíduo, longc dc
reprcsentar um «tipo», seja qual foãn sc aprcscnta exclusivamentc
no mcrcado das vaidadcs eróticas. Todo o seu afã está em imitar
cssc tipo o mais Helmente possíveL o que a leva forçosamemc a como exemplar úníc0, dotado dc toda a dignidadc do «carátcr dc
scr inñel ao seu próprio eu. dgo únic0» a que aludímos. incomparávcl e ínsubstiruích Esta
E aonde vai buscar o tipo em questã0? No mundo do cinemaí dignidade é a dígnidade daquclcs anjos dc quc ccrtos cscolas'ticos
por exemplo. com esse tipo - quc rcpresenta ou o ideal de mu- añrmam quc nâo estão sujeitos ao «principium individuationis»,
lher que ela tcm ou o do seu companheiro - que ela se compara nâo represcntando uma cspécic, antes cstando cada cspécic re-
constantcmcnte, tentando identiñcar-sc com clc quanto possí- pxesentada por um excmplar único.
veL Já há muito que ela nâo tcm a nlobre ambição dc professar A única garantia da Hdelídade cstá prccísamcnte no Fato dc
csse prcdicado de ser incomparáveL que é tão próprio do ser a autêntica atitude amorosa reprcscntar a oricnmçáo do scr dc
humano. Já nem scquer tem a ambição de criar um novo tipo de uma pessoa cspiritual para uma outra. Quando assim é, é do
mulher. de «fazer» uma moda, por assim dizer. Em vez de criar próprio amor como tal quc rcsulta a sua dumção no tcmpo cm-
um típo, contenta-se com representá-lo. E é com prazer e espon- pírico. Mas quanto ao tempo vivcnciaL algo maís rcsulta dcssc
taneídade que aprescnta ao homem aqucle «tipo» que ele preferc. am0r: a vívência da «eternidadc» dc um amor. A vivêncía do
Nunca se dá a si mcsma. nunca dá por amor o seu próprio eu. amor só se podc experimentar sub specíc zzerer711'tdtz's. Qucm dc-
Por este caminho, por este descaminho, afasta-se cada vez mais veras ama nâo pode sequer imag1'nar, no momcnto do seu amor,
daqucla vivência do amor autêntico quc a víría a satisfazer ple- enquanto sc cntrega a cssc momcmo, ao obicto do seu nmor,
namente. Com certeza quc não se lembra jamais dc que, quando que o seu sentimento virá a alterar-sc alguma vcz. O quc logo sc
o homem a procura, só aparentemente a procura, pois. na rcali- comprende, se se pondcra quc mis scntímcntos são intencionais
dade, anda à procura do seu tip0. Entregando-se aos descjos do c nâo «situacíonais». Os quc se amam imrndem para a cssência
homem, dá-lhe complaccntementc aquilo de que ele sente pre- do ser amado c seu valor; c o quc sc aprccndc m› amon como
cisâo, aquílo que ele pretendc «tcr». E assim Hcam ambos com em qualqucr ato espirituaL por excmplo no ato dc reconhcci-
as mãos vazias. Ist0, crn vez de se procurarem um ao outro para mento ou cogniçâo de valorcs, é exatamcntc uma cssêncía ou
assim se encontrarem a si mesmos, enwntmndo-se com o «azm'ter um valor. Se eu compreendi uma vez quc- 2x2 = 4, o val'or dessa
de algo zinicm a zz írrepetibz'/idade, que sáo os únitos raxgos Ímmanos igualdade Hca captado dc uma vcz para scn1pre. - c pronto'..
mpzzza de tormzr o ourro digno de ser zzmado e digmz de xer zzmzzda «Hca combinad0». Pois bcm. sc sc caprou dcvcras a essência dc
a prápria ZlídtL que, ao criar, o homem dá de si o seu «caráter outrem, ao contemplá-lo amorosamentc. também sc permanccc
dc algo úníco» e irrepetível; mas no amor acolhe em si mesmo ncssa verdade, também «sc ñca nisso» quc «Hca combínado»:
0 «Caráter de algo úníco» e a irrepetibilidade da sua companhia. tenho quc Hcar eu nesse amor, e cssc amor Hcar em mím. Quan-
No amor há uma emrega recíproca, um recíproco dar e rcccbcn do experimentamos a vivência do autêmico amor, tcmos uma 239
r-"' P\.'1C( )'I'ERAPIA E SENTIDO
DA V|[)A.\ ,›\) ANÁLISE l-_XIÀS'1'L'-NCIAL GERÀL

sempre, para sempre, exataménte


comO mcnos fugaz por nature7.a, tcm quc ser considcrada como con-
ara valcr
vivêncía quc é p sendo reconheadas como traindicada para o casamcm0. O quc não qucr dI'/.'cr, cvidcntc-
o das verdades que,
sucede na cogniçã etema5»; é rcaL mente. que o autêntico amor rcpresentc, já dc si. uma indicação
tomadas por «vcrdadcs
t.11's, são efctivamcme no tempo em_ P051'tiva. O casamcnt0, não há dúvida de que é dgo mais do quc
verdacleiroz enquanto dura
mcn te assím o amor .
questáo exclusivamente privada. Trata-sc de uma hàgura com-
é vivido como «amor thmo». Comu_
píríco, necessariamente ass¡m,
rar a vcrdadc, o homem podc-sc Cnga'nar. E, plexa: é uma instituição da vída sociaL Icgnlizada pclo Estado c,
do, ao procu
pode iludir 0 indivíduo. Evldentemcnm paralelamente, sancionada pcla Igrcja; c com isto já sc diz quc
mmbém no amo r se entra a fazer parte do sociaL Dc mancira quc, considcrando-sc
se concebe de antemão como «me-
nunca uma verdadc s ubjetiva I
possível erro; só depois se dcmonstra este aspecto, é claro que sc dcvcm prccnchcr ccrras condiçócs.
ramente subjetiva», como t , quel 0
cra tal. O mesmo ocorrc com owamlorz e impossível antes de se pensar cm celebrá-lo. Acrcsccm a isto as condíçócs
quc
tempo», provlsorlamente; nao le posswd biológicas e circunstâncias que, num caso concrcto. podcm dar
homem amc «por certo
enquanto tal e quc efctlvamemc por aconselhável ou desaconselhável a celebração do matrímô-
que intendd para o provísório
scu amor; pode, quando muito, nio. Vem depois o quc se denominn contraindícaçócs eugên1'c.15'.
«queira» a Hnitude temporal do
o objeto do seu amor se mosrre Decerto que não é por Causa delas quc o amor vai pcrigan cm
amar «correndo o risc o» de que
amor «morra», mal o valor da todo caso, o casamento só sc devc aconsclhar quando as partcs
mais tardc indigno dele; de que o
a ama. sc propóem constitu1'r, através dclc. Como quc uma Comunidadc
pessoa amada desapareça da vista de quem
possc se p0d'6 mod16caL espírituaL e na'o, por assim dízcr. procriar uma comum «dcs-
Já se vê, cnñm, que qualquer pura
não mtende pam cendêncía» de dois índivíduos biológicos. Sc, pclo contrário, os
Mas vejamosz se a autêntica intcnçâo amorosa
«possuído» ou, dígamos, motivos aduzidos para a cclcbraç.1"o do matrimônío sc inscrem
aquilo quc pelo outro é porventura
conrrário, a autênti- de antemão fora da esfcra da autémica vivênciu amorosa. tal cc-
para aquilo que o outro «tem»; se, pelo
lebração só será possível nos quadros daquclc crótico quc nós
ca intenção amorosa é aquela que z'ntende para o que 0 outro
incluímos dcntro da catcgoria dominantc do utcrn c possuir. É
«é», - é claro que o amor autêntico, c só elc, conduz à atÍtLl-
o que succde sobretudo quando na cclcbraçáo do m.-1trimônío
de monogâmica. Com efeito, a atitude monogâmica pressupóc
predominam motivos Cconôn1icos, na linha dc um matcrialismo
que se apreende a outra parte no seu «caráter de algo único»,
qualquer, de um quercr-«tcr». O momcnm social do casamcmo
que se náo podc trocar, C na sua 1'rrcpetíbilidadc, que é insubs-
v1'sualiza-se aqui 1'soladamcme, cíngindo~se, alias', ao cconômic0.
tituível; ou sejaz na sua essêncía e no seu valor CSpiritual c, por
c011scguinte, para além de quaisquer propriedadcs físicas ou para não dizer mesmo ao ñnancciro.
anímicas, a respeito das quais, cv1'dentemente, qualqucr ser hu- O certo é quc o amor autêntíco constitui já um elcmcmo dc-
mano pode scr reprcsentado ou substituído por 0utro, que das terminantc do carátcr definitivo das rclaçócs monogâmícas. Mas
mesmas propriedades seja portad0r. há ainda, nestas relaçóes, um outro clemcnto, o da exclusividade
Isto bastaria para nos ser Iícito concluir que a mem paixáo de (Oswald Schwarz). O amor significa 0 sentímento dc uma vin-
240 namorados, enquanto «estado de sentimentos», que é mais ou culação íntima; a rclação nwnogâmica, na foirma dc matr1'mônio,
PSICOTERAPIA E íENTIDO
DA VIDA m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

represenm o seu vínculo exrerna Mantcr este vínculo cm pé, no de valor, só porque temem o compromísso e descjam fugir da
seu caráter definítivo, é o que se chama ser fíeL Entretanto, a responsab1'lidade; ou se, no caso inverso, náo esrarâo a afcrrap
exclusívidade do vínculo pede ao homem que ele contraia o vín- sc convulsivamcntc a uma relação quebradig, só por causa do
culo «correto»; que não se límíte a vincular-se, mas que saiba medo de terem de ñcar sozinhos meia dúzia dc scmanas ou dc
também a quem se vincula. Isto pressupóe a capacidade de sc mcses. Quem sc interrogar dcstc m0d0, compulsando os motivos
decidir por uma determinada pessoa como cônjuge. Nestes ter- náo objetivos do caso, com ccrteza que facilmente chcgará a uma
mos, a maturídade Crótica, no sentido de maturidade interíor em dccisâo objetiva.
ordcm à relação monogâmica, enccrra uma dupla exigência: pri-
mciro, a da capacidade de se decidir por uma pessoa (excluindo
rodas as outras); segundo, a da capacidade de lhe prestar ñdclída- VALOR E PRAZER
de (deñnitivamente). Assim, sc considerarmos a juvcntudc como
tempo dc preparação. no sentido erótico rambém, isto é, como Scheler deñne o amor como um movimcnto espiritual cm
tcmpo de prcparação para a vida amorosa, conclui-se que aos dircçáo ao maís alto valor da pcssoa amada, um ato espíritual
jovens se dcvc exigirz por um lado, que procurem e encontrem em quc esse valor - a quc elc chama a usalvaçâm do homcm ~ é
0 par adequad0; mas, por 0utr0, que «aprcndam» a ser-lhe ñéis, captad0. Náo anda longe disto 0 que diz Spramgcrz o amor, para
a seu temp0. Ora bem: esta dupla cxigência não evita uma certa este autor, rcconhece as possibilidadcs de valor do ser amado.
antinomia. Por um lad0, e no sentído da cxigência de capacidade o que v. Hattíngberg exprime por outras palavrasz o amor vé o
de decisâ0, o jovem tem que procurar adquirir um certo conhe- homcm tal como Dcus o «pensou».
cimento erótíco das pessoas e uma rotina erótich Mas, por outro O am0r, diríamos, faz~nos contemplar a imagem de valor de
lado, no sentido da exigência da fídelidade, tern que se esforçar um scr humano. Assim, leva a cabo uma rcalização francamentc
por superar os meros esrados de ânimo, fixando-se numa pessoa metafísica. Com efcito, a imagem de valor dc quc nos apercc-
úníca e mantendo em pé a relação com ela. Desta maneira, pode bemos na execução do ato cspiritual do amor, em cada caso, é
dar-se o caso de ele nâo saber se deve romper uma relaçáo concre- essencialmente a «imagcm» de algo ínvísíveL irreal e nâo rcali-
ta, para expcrimentar todas as possíveis e mais variadas relaçóes zado. No ato espirítual do amor, portanto, não captamos apc-
e, assim, fínalnlente, podcr decídir-se pela relação adcquada; ou nas 0 que a pessoa «é» no scu «caráter de algo único» e na sua
sc, pelo contra'r1'o, não scrá melhor manter em pé a relação já 1'rrepetibilidadc, isto é, a «/Jaecceitzzs» da terminologia escolástí~
contraída, para aprcnder o mais ccdo possível o que vem a ser Ca, mas também, e simultaneamente, 0 que ela pode vir a ser,
Hdclídade. Pois bcmz na prática, é de aconsclhar aos jovens que precisamente nesse seu «caráter dc algo único» e írrepetích ou
se cncontram neste dilema que, cm caso de dúvida, Formulem seja, a «enteléquia». Lembremo-nos da pamdoxal deñnição que
o problema numa forma, digamos, negativa. O que queremos se dá da realidade do homem, como possibilidadez possibi11'd:1-
dizer é que devem perguntar-se se porventura não estão queren- de de realízação de vaJores possibilidadc de autorrealízaçáo. Pois
do «ver-se livres» de uma relação concreta, em todo caso plcna bem, aquilo de que o amor se apercebe é, ncm mais ncm menos,
Q
tq
PthOl ERAPIA E SENTIDO I)/\
\,íjA
m ANÁHSE r~.x1s."1'1~;N(tw GFRAL

n deixaremos de anOtar Crevermos os valores vivcnciais. Ê por ísso que o amor nunca
. . dc u 1 homem. Náo
CSE a «poss¡b111dade»

.
medida Podc deixar de enriqucccr a qucm ama, em qualqucr caso. Não
que também a psicotcrapia, na
aquL entrc parêntescs, (Prinzh0m), tem que
ínspirada pelo eros paiddgogos l há, por Conseguintc, nenhum amor «infeliz», nem pode havê-
cm que cstá d ncle precisamente ,10; «amor infeliz» é uma contradição in terminiL Realmcntc,
quc se lhe dc para. vendo .
Iidar com 0 homem l o, l por consegmmq de duas uma: ou eu amo deveras, e cntão não posso dcixar de
. próprias, antcapan
su as possibilidades essenclal
dc valor. Partmdo da lmagem mc sentír Cnriquecido, independentemente dc que a outra partc
as suas Pposs ibilidades é ¡St0
decifra~se no amor a sua imagem de Valor; Corresponda ao mcu amor ou não; ou eu não amo propr1'amcntc,
do scr amado,
parte do caráter de milstério metafísico não «tenho cm mcnte» propriamentc a pessoa dc um outro scr
qualquer coisa que faz
chamamos amor. EfCÍlVamfântq tOmar humano, apcnas me apcrcebendo de qualquer coisa de corporal
dessc ato cspiritual a que CSSCn_
à possibilidade de valor Com baseS lna rca11'dade que «nela» cstá prcscntc ou dc algum rasgo (anímíco) dc carátcr
a díanteira
de cálculo. o as realldadcs são que cla «tcm», e entã0, cv1'dentcmentc, bem mc- posso dar por
cial náo é nenhuma operação
Calculadas; as Possibilidades, enquanto tais, infeliL mas é precisamente porque não amo. Não há dúvidaz
suscetíveis de serem -
0
calculo. ambem Ja dlssemos que a mera paixão de namorado, de algum m0d0, cega; mas 0 au-
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escapam a todo e qualquer


começa a ser homem, no scntido exato da palavra, têntÍCO amor abre-nos os olhos. Faz-nos reparar bem na pessoa
homem só
calcnlar pela reahdade dada espíritual do comparsa erótico, tanto na sua rcalidade essencial
precisameme quando já se nâo deixa
reprcse/ntando, para si pró_ como na sua possibilidade de valor. O amor fazmos experimen-
e pela sua vinculaçâo naturaL antes
Dal que, neste aspecto, tar vivencialmente o outro como um mundo para si, alargan-
prio, uma possibilidadc encomendada.
a afirmação corrente de d0-nos assim também 0 nosso próprio mundo. E do mesmo
náo possa deixar de parecer descabida
que um homem levado pelos ínstintos é imprevisíveL no senti-
.
passo que, deste modo, nos enriquece c nos faz felizes, estimula
- _
- se pode «calcular». Parcce bem mals vexdadelra o outro, à proporção que 0 conduz àquela possibilidade de valor
do de que nao
natureza que no amor, e só ncle, se consegue prelibar. Qucr dizerz o amor
a añrmação contrária: é precisamentc a partír da sua
instintiva que se pode calcular o homeml E também o homcm ajuda o ser amado a realizar aquilo quc 0 amante já vê, antcs
puramente abstrato, a mera construção de uma matureza racio- que Cxista. Em suma: o quc o amado quer é ser cada vez mais
nal» a que chamamos homcm, ou o tipo psicológico do homem digno do amante e do scu amor. assemelhand0-se à imagem que
«calculista», que é, por seu turno, um homem que calcula tudo o amante dele faz, fazendo-se cada vez mais tal «como Deus o
quanto faz, tudo isto e só isto se podc perfeitamente calcular. pensou e quis». Portanto, se mesmo 0 amor «infeliz», aquele
Mas o homcm «Verdadeiro e próprio», esse é que, eo zp'so, não se que não é correspondid0, já nos enríquece e nos faz Felizes, 0
pode calcular: a existência nâo consente que a re_duzam a uma amor «feliz», correspondido, é manifestamcnte criador. Assim,
fact1'cidade, nem desta se deíxa derívar. no amor recípr0co, em que cada um é digno do outro c quer
O aperceber-se dos valores não pode senão cnriquecer o ho- Vir a ser tal como o outro o vê, produ7.,-se, de ccrta maneira, um
mem. Este enriquecimento ínterior Chega a precncher, em parrc, processo dialético, no qual, como que à compita, se esforçam os
o sentido da sua vida, como tivemos ocasião de ver. ao circuns- amantes por realizar as possibilidades um do outro.
'___7 7

m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL


PSKKÍFERAPIA E SENTIDO DA íDA

Comprccnde-se agora o sígniñcado da seguinte gradaçãoz a mcnos se justifica. Na vida reaL passa-se com o ator uma coisa
mcra satísfação do ímpulso sexual proporciona prazer; o erótíco parecida com o quc ocorre ao espectador no tcatro: os dramas
da paixâo dc namorados depara alegria; o amor ofcrcce felicída- sáo em geral vivências mais profundas do que as comédías. Com
de. Como se vê, há aqui uma intencíonalidade crescente. O pra_ as vivências «infelizes» da vida amorosa, não só nos cnriquccc-
zer é apenas uma sensação situacionaL um estado afetivo; a ale- mos, mas também nos tornamos mais profundos e, o mais das
gria é já intencionaL visa-sc nela qualquer coisa; mas a felícidade vezes, chegamos até a crescer nclas e a nelas amadurccer.
tem a sua direçáo determínada, que é a dircção para a plenitude Evidentemente, o enriquecimento ínterior quc 0 homem ex-
vcrdadeira e própria. Assim, a fclicídade adquirc urn caráter de pcrimenta no amor não está ísento dc íntímas tcnsócs. Ê delas
realizaçío («beatitudo zpm w'rtus», Spinoza). A felicidade não é que se arreceia; é delas que foge 0 adulto neurótíca E o que
mcramcnte intencionaL é ainda «produtiva». Só neste semido se nele surgc, por assím dízer, Como caso patológico, é o que se
compreende que um homem se possa «realizar plenamente» na dá no homem jovem de um modo maís ou menos Hsíológíca
sua felíc1'dadc.Também só assím se pode entender a analogia en- Em qualqucr dos casos, a vivência de um «amor ínfeliu vem
tre a felicidade e o sofrimenta Com efeito, ao circunscrevcrmos a transformar-se num meio para um ñm: o fím de proteger do
o «sentido» do sofrimento, já dissemos que também nele 0 ho- fogo de Eros a criança qurc nclc se queím0u. As pcssoas deste
mem pode atíngir a sua plenitude. Logramos ver também no tipo metem-se detrás da primeira ou única experiêncía desfavo-
sofrimento uma verdadeira realização. Sendo assim, impóe-se ráveL tcntando assim evitar outras piores. Portanto, os «amores
distínguir, em tcrmos geraís, entre sentímentos intencionaís e infelizes» não são apenas expressão de um estado de queixoso
afetos «produtivos», por um Iado, e, por outro, mcros estados despeito; são também um mcío dc salvar o sofrimenta De um
afetivos «improdutivos». Dcsta forma, pode-se contrapor à tris- modo quase masoquista, os pensamentos do apaíxonado infeliz
teza do luto, a cujo sentído intencíonal e realização criadora já giram em torno da sua 1'nfclicidadc. Entrincheira-se atrás do seu
aludimos, o desgosto rebelde, improdutivo (pcrantc uma perda), primeiro - ou último ~ malogro, para não ter que queimar os
que é mero estado de sentimentos reativ0. Aliás, até a línguagem dedos outra vez. Esconde-se por tras' da sua desditosa experiência
distingue com toda a sutíleza cntre a «justa» Cólera, como senti- no amor; vaí-sc refugiar na infelicidade do passado, fugindo das
mento intenc1'onal, e o ódio «cego», enquanto sentimento mera- possibilidades felizes do futuro. Em vez de continuar a procurar
menre sítuacional ou estado afetivo sem valor. até «achar», desiste de toda c qualqucr busca. Em lugar de se
É certo, conforme salíentamos, que a expressão «amor infe- abrir à riqueza de oportunidades da vida amorosa, resolve reves-
hz'» revela, sob 0 prisma da lógica, uma contradição; mas, vista tir-se com antolhos, e olhar as coísas «por um canudo». PÕc-sc
sob o prisma psicológico, traduz aínda uma espécie de queixoso a ñtar, como um proscrito, a sua vivência, para não ter que ver
despcito. Exagcra-se a tônica do prazer ou do dcsprazer de uma a vida. O que lhe ímporta é a segurança, não a dispon1'bilídade.
vivência, os seus «sinais» de prazer ou desprazer, quanto ao res- Se não consegue livrar-sc de uma vivêncía ínfeliL é porque não
pectivo signiñcado no que se refere ao Conteúdo da vivência. Só quer arriscar~se a outra. Faz-se mister reeducá-lo para a contínua
246 que é precisamente in eroricis que o ponto de mira do hedonismo dispon1'bilidade, incutindo-lhe uma disposição dc abertura para

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E SENTIDO DA Vlbí
N ANÁLISE EXJSTENCIAL (.T-.RA1À
rPSICOTERAPIA

para quem ama, nunca devendo ser Vivêncía experímentada. Enñm, podc havcr qucm sc dcsliguc
só é possxvel
quc. como tal, o tempo, Se 5implesmente da outra parte: havcrá qucm. não rcnunciando à
exigénaa a o ser amado. E que, com
m como
ímpos
sem pre vem a rcdundar num desaño_ outra partc, antcs lhe perdoe o quc fez. logrando uma rcconci-
sc pÕC como exigência. protcsto e, uma VÊZ
uma atitude de liaçáoç e ainda qucm tcnte reconqu1'st.1"-la. trazcndo-a dc novo
Impcle o scr amado para infieL mais ccdo Para junto de si.
atitud6› o ser amado torna~se realmentc
nesta a fé em si mcsmo, toma
fé no outro, tal como Posto isto, interessa observar que 0 materialismo crótico nâo
ou mais tard e. A
si, de tal manenra quc, cm geraL essa fé Se límíta a converter a outra parte num objeto dc possc; chcga
uma pessoa segura de
em contrapartida, sucedc geralmente a fqzncr da relação crótica uma mcrcad()ría. Ê 0 quc sc patcntcía
acaba por ter razã o. Mas, esta, com cfeíto, torna uma pe5_ na prostituíção. Como problcma psicológico, logo sc intui quc
o mesmo com a dcs conñançaz por ter razáo. Pois bcmz ísro
a prostítuiçáo, maís do que coísa das prostituídns. é coisa dos
soa insegura, acaband o também do ser amado..
E «consumíd0rcs» da prostítuição. Qucr dizcrr a psicologia das
vale, pomo por ponto, para a fé na fidelidade
rcta lealdade. Contudo, assun prostítutas está Iivre de problcmas, na mcdída cm quc sc reduz
o reverso desta fé no outro é a
d1'aJ'ética, faz daquilo em que crê uma a uma psicopatologia de um tipo de pcrsonnlidadc mais ou me-
como a fé, Seguindo a sua
ou honradez tem o seu quê de para- nos psicopático. A análise sociológica dos vários casos quc sc
vc~rdade, assím a Iealdade
0 homem/ment1r e, ao 1nv.es, apresentam nâo nos leva muito maís 10ngc. Com cfcito, tcm
doxalz porque com a verdade pode
verdadc e ate «fazer da mentlra aqui plena vaJidade o que já dissemos noutra ocasíãoz a carcstia
pode com uma mentira dizer a
dos médicos todos, ser- econômica, por si só, náo Força ninguém a zldotar um compor-
verdade». Um exemplo, bem conhecído
a pressão a um doente,
vir-nos-a' dc ilustração. Se, ao tomarmos tamento determinado e, por consegu1'nte, também náo força a
o desejo dele, lhe
a achamos muito alta e, p ara satísfazermos nada uma mulher normaL Pelo contrário, o quc nos cspanta
assusta~sez a sua é quc frequcntemente a mulher comum rcsista à tentaçâo dc
participamos o resultado verdadeiro, o doante
de fato, mais ele-
prcssão subirá mais aínda, acabando por ser, recorrer à prostituição, a despcito das cnormcs diñculdades ec0-
não lhe di-
vada do que quando lha tomamos; se, no entanto, nômicas que atravessa. Essa saída, para rcsolvcr o problcma da
baixo
zemos a verdade, comun1'cando-lhe apenas um nível mais escassez, simplesmente não lhc passa pcla cabeç.1'; c isto parece-
do que o que foí veriñcado, então conseguiremos acalmá-lo, de -lhe tão evidentc como cvidentc parccc às pmstitums típicas a
modo que a pressão desccrá realmente. Assim, com esta nossa cscolha do camínho que seguiram.
aparente mentira (nâo uma mentira convencional), acabamos Pelo que diz respeito ao consumídor da prostituição, o que se
por ter razão. passa com ele é quc anda à procura dc uma forma dc «vída amo-
As consequências nascidas da inñdelidade _da outra par- rosa» impessoal c scm comprom1'ssos, que Corrcspondc ponto
te podem variar. Não se esqueça, entretanto, que a varíedade por ponto à relação havida entre uma pessoa e uma mcrcadoria
das possíveís «atítudes» para com a cfetiva quebra de Hdelidade ou uma coisa. O que interessa víncar a cstc respeito é quc a
traz consigo também uma cbance de realizar «valores de atítu- prostituição, sob 0 prisma da higienc psíquica, é pclo mcnos tão
250 de». Neste sentido, a realizaçâo do valor residirá em superar a pcrlgosa como sob o prisma da higicuc fw151ca: c quc, como quer
PSKÍO ITíRAPlA l- bliNTIDU DA Vllm _A\) ANÁÍ ISL l:.\'lS'I'lx-L'\J('I¡\I. (.'l-.RAI

que scj;1, os scus pcrígos psíquícos sáo mcnos favceis de prevenir_ çóes scxuaís com ele, rccusava-:Is. simplcsmcntc porque náo
O maís imporrantc de todos cstá em que 0 rapaz se habitua a sentía impulsos que lhas pcdísscm No cntanto. 0 mpaz insisria
adotar pcrantc a sexualidadc uma atitude quc qualqucr peda_ cada vez mais. até quc um dia dcixou-lhc cair ao ouvido cstc
gogia sexual racional dcsaconselha totalmente. Rcferimomos à çomentárim «Achu quc você é frígídam Então, cla comcçou a
atitude quc consiste cm encarar a sexualidade como um simples tcr medo quc ele cstivcssc com razáo: quc, qucm sahc. talvcz cla
meio a que se recorre no intuíto dc conseguír um prazer. náo fowsse «n1ulher dc vcrdade» c assin1. um dia, rcsolvcu cntrc-
O perigo dcsta saída - que é saída do camínho, descami- gar-sc-lhe - para dcmonstran a si própria c a clc, a scm-ra7áo
nho ~ da prostituição, ou seja, o perigo da dcgradaçâo da sexuali- daquclc comcmária O rcsultado desm cxpcriência só podcria
dade, que assím vem a ser simples meío de satisfazer os instint05_ ser o que fbiz a incapacídadc toral para 0 gozo. E quc o impuL
reduzíndo-sc a outra parte à condição de mcro objeto dos impuL so ainda não tinha gcrmínado nclaz ncm surgíra cspontanea-
sos, salta à vista, com a max'ima cllareza, sc se pondera que barra 0 mente nem havia sído despcrtado; c. cm vez de cspcrar pelo
caminho àquela vida amorosa reta que encontra no scxual nada scu desenvolvimento gradual c espontânco, a moça cm qucstão
mais do que a sua expressão e nada menos que 0 seu coroamenm entng0u-se ao primeiro ato scxual com o dcscjo convulsivo dc
A ñxação de um rapaz novo no gozo scxual como ñm em si - ñxa- pôr à prova a sua capacídadc dc gozar, tcndo do mcsmo passo
ção por ele experimcntada através da prostituíção - acarreta-lhe 0 secrcto rcceío dc quc com isso Hcassc a dctscobcrm a sua in-
um sombrio Futuro na vida matrimoniaL Quando, um dia, en~ cnpacidade para tanto. A f(')rçada autoobscrvaçáo (obs. 23) pm-
fim, resolve amar realmentc, já não pode, dígamos, voltar atrás; duzia já, neccssariamcnte, sobrc uma evcntual cxcítaçáo scxuaL
ou melhor: já não pode ir em frenta nào pode mais avançar para um efeito reprcssívo. EanL dadas cstas circun_s't.1^'ncias, a moça
a atitude normal do amante cm face da sexualidade. Para qucm não tínha motivo para cstranhar quc cla - 0bscrvzmdo-sc assim
ama. o ato scxual é expressão física de uma lígação anímico-es- ansiosamentc - náo pudcssc satisfàzcr-se nada 110 cntrcgar-se.
pir1'tual; não assim, porém, se a sexualídade se converteu num E o cfcito dc dcsenganos dcstc tipo na fuitura vídal amoroszL na
Hm em síz nâo constítuindo esta um meio de cxpressão, chega-sc vída conjugaL podc muito bcm vír a scr uma ngídcz psicógc-
àquela incurável separação entre os chamados tipo de rameira e na do tipo da ncurosc sexual denominada .'1ngústía cxpcctantc
típo de vírgem, tâo conhecidos dos psicoterapeutas e que há tan- (Erwartungmngstneurose).
to tempo tanto lhes tem dado que fazen
Diga-sc adcmais, para terminar, que também há por parte da
DISTÚRBIOS N1:«UR()"J*I(:(›$ .S'h'XUAIS.'
mulher situaçócs típicas que a tolhcm naquele dcscnvolvimento
normal em que culmina a vivência da scxualidade como exprcs-
são do amor. E note-se ainda que os prejuízos delas rcsultantcs Como é sabido, o psícotcrapcuta encontra~sc a cada passo
mmbém só muito a custo costumam scr saxnados pela psicotcra~ com o «mccanism0» da Chamada angústia cxpccmntc. A (›bscr-
pia. Assim sucedeu, por exemplo, num Caso de uma moça qua vzlção de qualqucr ato quc sc efctivc normalmcntc numa rcgu-
a princípi0, tinha relaçóes «platônicas» com um amigo. Rela- Íação automática c quc scja ímpcrceptívcl para a consciência

Jl
Iv
PSICOTERAPIA E SENTlDO DA VIDA
ANÁLISE F.XlS'l'¡-LN(ÍIAL GERAL
ím

pmduz, já dc si, um efcíto perturbadon Quem tendc a scr tar- xuaL elimínnndo toda e qualqucr intençáo quc visc o ato scxual
tamudo observa as suas palavras, em vez dc atcntar no que qucr como taL O éxito desta tarcfà scrá garantido sc sc dcmonstra
dizen observa o como, em lugar de prestar atcnção ao quê. A5- ao pacícnte que nunca dcve arriscar-sc a rcalizar o atn scxual
sim, paralisa-sc a si mesmo, como sc fossc um motor em quc como sc se sentíssc obrigado a isso. dígamos assim. Para tanto,
tentasse meter os dedos, cm vez de o «d61x'ar» funcionar por si cumpre evitar tudo o que para o pacientc possa signiñcar uma
só. Para curar um tartamudo, muítas vezes, é suñciente con- espécie de «sexualídade sob coação». tha coação podc scr uma
vencê-lo a adotar a atitude de quem simplesmente pensa em coação exercida pela companhcira (como no caso das mulhcres
voz alta, poís a boca, digamos assim, fala por si ~ e tanto mais «tcmperamentaís», sexualmcnte muito exígentcs); ou pclo pró-
Huentcmenre quanto menos a Hcar observando. Se sc consegue prio eu (quando se faz um «pr0grama». decidindo-sc praticar
quc se aperceba díst0, pode-se dizer quc o trabalho psicoterápi- um ato sexual num dia c hora dctcrminados); ou, ñnalmcntc,
co mais importantc já está feito. A psicoterapia dos distúrbios por uma situação (como quando sc vai para uma pousada. ho-
que ímpedem concilíar o sono segue, como se sabe, um rotei- tcL etc.). Além da elimilmção dc rodas estas formas dc coação.
ro anal'ogo. Basta quc, falsarnente, se faça tenção de entrar no quc poderíam imprcssíonar o ncurótico sexuaL conforme os ca»
sono - intendendo para ele -, bmta que o sono Convulsivamente sos, faz-se neccssário cducá~lo para a ímprovisaçâo; c. com csta
scja «querído», para quc se produza imediatamcnte um estado improvisaçâo é qucv se tcrm dc ir cncaminhando discrctamentc
de tensão interíor que por Força tornará o sono ímpossíveL O o neurótic0, dc modo que clc. pouco a pouco, volte a consu-
medo da insônia, enquanto angústía cxpectantc, impedc, cm mar atos sexuais com a naturalidadc dc qucm Faz qualquer coisa
tais casos, a concíliaçâo do sono; c o distúrbio do sono que desta de evidentc c Com espontancidade. No entanto, uma psicotc-
forma sc provoca conñrma e rcforça a angústia expcctante, dan- rapia destc tipo deve ser precedida pela tcntatíva de mostrar ao
do-se origem, añnaL a um círculo vícioso. paciente que o scu comportamento origínariamentc «doentío»
Ora, é bem semelhante o que se passa com todos os índivíduos é, apesar de tudo, humanamcnte compreensíveL libertando-o,
que se começaram a sentir inseguros na sua sexualidad6. A sua assim, da sensaçáo de estar sofrendo dc um disrúrbio patoló-
autoobservaçâo exacerba-se e é a própria angústía expcctante, gico fataL Por outras palavrasz faz-se mister levá-lo a entcnder
em face de um eventual malogro, que o leva à frustração sexual. a inHuência maldita da angústia de expcctativa e o círculo em
O neurótico sexual nem de longe intende para a outra parte da que ela o encerra como algo que sc rcduz a um modo gcral do
relaçâo que estabelcce (com0 faz o verdadeiro amantc); apcnas comportamento humano.

intmde para o ato sexual que como tal é visado por ele. Assim, Certa ocasião, um homcm ainda novo fbi procurar um mc'-
fracassa esse ato, e por força tem que fracassan pois não se efe- díco por causa dc um distúrbio clc 1'mpotência. Verificowse que,
tua «com simph'cidade»: não se leva a cabo como coisa natural dccorridos vários anos dc porña, por Hm tinha convcncido a
c óbvia. mas antes como coisa que foí «querida» de propósito. namorada a «Cntrcgar-se-lhc». A moça prometeu-lhc que, «la'
Nestes casos, a missâo Cssencial da psícoterapía cifra-se cm que- para a Páscoa», se lhe cntrcgaría. Era uma promessa que lhc fa-
354 brar 0 círculo diabólico e maldíto da angústia expectante sc- zia quatorze dias antes da Páscoa. Durante essas duas scmanas
I'SICOTERAP1A E TENTIDO
DA VI DA ,-\) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

ínteiras, o rapaz quase nâo dormiu de tcnsão e expectativa. Em que o prazer realmente se converte em mnteúdo da sua intençáo e
chegando a Páscoa, ñzeram ambos uma excursão de dois dias euentualmente também em objero da xua rfleexáo. a bomem pcrde
e passaram uma noite num refúgio de montanha. Quando o de vísta o jÊmdammto do pmzen ambando por fazer com que 0
pacícnte, à noite, subia as escadas para o quarto de casaL cstava pmzer em si mesmo se desvaneçm E, sc Kant pcnsava quc o ho-
tão excitado - no sentido da angústia dc expectativa, não no mcm qucr ser feliz, mas isso signiñcava que ele dcve é scr «dign0
sentido de uma excitação sexual - que, como depois cont0u, da felícidade», - já nós pensamos de outro modo: originaria-
com as trcmuras que sentia e o martelar do coraçâo, mal podia menta o que o homcm qucr não é. nem dc longc, scr feliu o quc
andar. Assim, como é que havia de scr potente? Pois bem: o qucr é tcr um fundamcnto, uma razão para scr felizl Explicamosz
médico apenas teve que lhe fazer ver que o contrário do oc0r- quando o seu esforço se desvia do respcctivo objcto da intenção
rido era impossích dadas as condiçóes interiores e externas da para esta intcnçâo considerada em si mcsma, da mcta para a qual
sítuação e que, nessa situaçâo, a reàçâo do paciente era perfci- tende (d0 «fundamento» da Felicidadc) para o prazer (rcsultado
tamcnte compreensível - compreensível como comportamcnto da consecução da mcta) ~ pode-se añrmar que tal esforço rc-
humano, que não chegava ainda a ser doentio! Desta maneira, o prcsenta como que um modus degencrado do esforço humano,
paciente acabou por se convenccr de que não havia motivo para ao qual falta o carátcr direto, imcdiato.
falar dc impotência, tal como elc a temia (e que só por um triz Ora, esta falta de caráter dircto, imediato, é precisamente o
não se convertera em conteúdo de uma angústia de expectativa, que caracteriza toda e qualquer vivência neurótíca. Já vímos até
desembocando no círculo ñmesto correspondente). Isto, por si que ponto esta falta de imediatidade pode conduzir a distúrbios
so', foi suñcíente para dcvolver a scgurança nccessária a quem ncuróticos e, em especial, a distúrbios sexuais. A ímediatidade
se havia tornado sexualmente inseguro. Já era patente para ele e, portant0, a autenticidadc da intcnção sexual é, especíalmcnte
que um homem não está necessariamente doente só porque não no que sc rcfere à potêncía mascull'na, um pressuposto imprete-
consegue ao mesmo tempo entregar-se à companheira (pressu- ríveL Prende-se com a patologia sexual a expressâo consagrada
posto da capacidade de gozo c realização sexuaD c obscrvar-se a por Oswald Schwarz para designar a autenticidadc de intençáo.
si mesmo numa angustiosa cxpectativa. aqui discutidaz reñro-me à expressâo «cxemplaridade». O seu
Mais uma vez se póe de manifesto, também aqui, no âmbito significado, podcríamos nós circunscrevê~lo Como combina-
da vída sexuaL na sua psicologia e patologia, de que modo se ção dc autcnticidade e consequênc1'a, de modo que a primeira
falseia a aspiração do homem à felicidadez como é precisamente representasse a exemplar1'dade, digamos assim, num corte trans-
a procura convulsiva da felicidade, do gozo como taL que está versaL e a segunda 0 mesmo estado de coisas (correspondente à
condenada ao fracasso. Já dissemos, a outro propósito, que, a ri- «exemplaridade») mas, por assim dizer, num corte longitudínaL
gor, o que o homem procura nâo é a felicidadc isto é, em geraL Poís bemz é típico do homem «cxemplar» não cair facílmcntc na
cstá muito longe de andar à procura do prazen O que se vê no «pcrplexídade»: com uma segurança de instintos caractcrística.
fundo do homem não é a busca do prazer em si c por si mesmo, evita todas as situaçóes que não pode «arrostar» e recusa qualquer
mas de umfimdammto para o prazer. Contudo, na medida em ambiente que não lhe «Convém» ou em que náo «convém» a sua 257
Iu
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PSICOTERAPIA E SENTI DO DA VIDA A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL

prescnçzL Tipicamente «não exemplar» seria, em contrapartida, campo dos distúrbios scxuais c da respectiva tcmpia a frasc dc
o homem de ñna sensibilidade que, por exemplo, sc lcmbra de Paracelsoz «O amor é a basc da mcdicina».
procurar uma prostituta c diante dela se revela 1'mpotente. Este Mas a Frustmção scxual não é a única; hzi lambém uma Frus-
comportamento, em si, ainda nâo tem nada de doentio nem tmção existenciaL Sim, podc muito bcm acontcccr quc 0 pa-
há motivo para tacha'-lo de neurótico. Numa situaçáo destas, ciente procure iludir a frustraçáo cxistcncial por mcio dc uma
o dístúrbio da potência sexual seria de esperar, em se tratando compensação sexuaL E afzgd à Frustmção cxístcnciaL com a cor-
de um homem de certo nívcl cultural; e podcríamos dizer até re5pondentc procura de uma compensação scxuaL lcva a uma
que é pouco menos de dcsejáveL Todavia, o fato de o indivíduo espéCÍC de mça ao prazen Entrctandtm quanto mais alguém anda
referido se tcr deixado arrastar a scmelhante situaçâo; o fato de à caça do prazcr, mais o recbrzçamk E como se aquela scnsação dc
tcr entrado numa situaçâo em que o «fracasso» constitui a única vazio, quc deñnimos como vácuo existcnciaL conduzisse a uma
saída possível para se lívrar do afairzx tudo isto mostra precisa- inHação de sexualidade. AñnaL sá no urícuo cxistencial é que a
mente quc o homcm em questão nâo é «exemplar». A modo de
libido xexzmlpode medrarl
conclusão, poderíamos portanto condcnsar o estado da questão
na scguinte fórmulaz cumpre denominar exemplar um compor-
tamento em quc o espiritual está em ímima harmonia com o O AMADURECIMENIU SEXUAL
psicológico e o biológico. Como se vê, o conceito de «exemplar»
exprime, no plano existenciaL o mesmo que o conceito de «náo Uma vez tratados os problemas da naturcza c valor do amor,
neurótico» no plano psicológíco. vejamos agora o scu proccsso dc formaçâo. No pcríodo de ama-
Como quer que seja, os distúrbios psicossexuais náo se po- durecimento, 0 sexual (no mais cstríto scntido do tcrmo) rcvc-
dem compreender sc nâo partimos de um fato fundamental da la-se de modo tão súbito à consciéncia do homcm quc poderí-
exístência humana, que é estez a vida scxual Ímmana é semprc, amos falar ~ por analogia com as HSrmulas dc Schildcr rclativas
de per si, dgo maís do que mem vida sexuaL justamente na me- ao psicótico - de uma «irrupçáo do orgânico» no psíquico.
dida em que constitui expressão de uma aspiração amorosa. É Quando da sua irrupção na csfcra pcssoaL o scxual aínda nada
por isso que, se a scxualidade deixar de ser, neste sentido, um tem que se asscmelhe ao psicológico propriamentc dito. O quc
mcio de expressáo, para sepôr a seruiço do práprioprestzgia ou até aí há é uma sexualidadc dctcrminada a partir do ñsiológico,
a xeruiço exclusivo do gozo, logo se manifestam os distúrbios se- originariamcnte amorfa, ainda não conñgumda pela pcrsonali-
dadc. Ou, por outras palavrasz uma scxualidadc quc ainda não
xuais. Efet1'vamente, quanto maís z'ntere.w1 ao paciente, nâo a 0u-
tra parte, mas unímmenre oprazen tzznto mais este se lhe dissipm e foi inregradal Só no dccorrcr do amadurmimcnto psicosscxual
progressivo é que 0 sexual vem a scr organízado pclo quc há
as consequências que disto resultam são distúrbios da potência e
do orgasmo. Assim, a prevenção de distúrbíos neurótico~sexuais
(80) A paluvrn cxala scria 1f1itgcunz (unjagt). 'lr“;1duzi ml como se lé pur mc parcccr
baseia-se numa educaçâo na capacidade de amar e na capacidade Conscrvar assinu dc algum mo_do, o iogo dc palnvms do origimlz jagd (c.u;.1');¡.1gm
de cntrega de si mcsmo. Por isso, também tem plena validade no (cnçar, pcrscguir); c uwjagcn (afugcntar, cxpulsañ (N. l .) 259
PSKX )Tl:RAPIA F SEN HDO l)/\ \'II)A Ah ,-\NAYIV|SE IiXISlIÊNClAL (.'ERA1.

dc pcssoal no indivíduo, scndo-lhe paulatinamcntc assim1'lado_ tinto csse elcmcnto. O caso é quc o instinm, bcm como a scxua~
Dc inícío. porém, não rcpresenta ncnhuma tendéncía pcsso- lidadc em geraL rccebe a sua intcncionalidadc dc uma tcndéncia
aL ames constitui mcro impulso, sem ñnalídade e direção. No csscncialmente dx'versa, dc origcm autónoma (c pormnto nãu
transcurso da evoluçâo ulterior e da maturação que a acompa_ dcriva da mcra sublimação): dc uma tcndência cróticu imancm
nha. adquire uma direçào cada vez mais deñnída, passando a m E Falamos aqui dc tcndência «ímancntc» porquc. muito cm-
rcvcstir-sc gradualmentc dc uma intencíonalidad6, dc modo bora se trate dc uma tcndência oculta, semprc a podcmos pôr a
que a sexuall'dade, em se aproxímando mais c mais do eu, entra clar0; mesmo nos casos em que já sc náo tcm consciência dela,
pouco a pouco no campo de forças das tcndências pcssoaís ou podem-sc descobrir os scus gcrmes no passada Falamos, por
propríamentc psíquicas (porquc intencionaís). Mas inicialmen- outrO lado, dc tendêncía uerótican porquc cstá numa rclativa
te o impulso scxual encerra apcnas uma meta: a descarga («de- contraposiçâo com todas as tendências sexuaisz no adolcsccntc,
sintumescência») do estado de tenlsão mediante «contrectaçãm por cxemplo, aparece sob a fbrma dc um anclo dc 'camnradagem,
(A. MolD Com um indivíduo (qualquer um.') do sexo oposto. ternura, conñança íntíma e mútua coxnprccm*.1"o. E o dcsejo quc
Assím, do impulso sexual ainda sem meta nascc o instinto se- o adolcscente tem dc convivcr c estar acon1panhado, o anclo
xual propriamentc dito que, como taL já sc dírige a uma meta de convívio no sentído anímico-espiritual: a tcndência crótica
instintiva. Mais tarde, acresce a este outro fator que lhe deñne é aqui, portanto, «erótíca» no sentido mais cstrito da palavra.
melhor a direçãoz o ínstínto sexual cndereça-se a uma pessoa Trata-se dc algo primário e que de modo algum se podc deduzir
dcterminada, a um representantc específíco do sexo oposto; e, do sexual.
desta maneíra, o ínstinto adquire um objcto cspecíñca Portan~
Mesmo o homcm que parece ter-se votado cxclusívamcnte
to, o instínto endereçado a uma meta, que nascera do mero im-
ao gozo sexual experimemou algumas vezes aquelas cmoçóes
pulso sem meta, converte-se em tendência que visa uma pessoa.
que Freud deñniu como tendêncías inibidas, mas que, como já
À meta instímiva não específica (de tipo genítal-scxual) recrescc
dissemos, e na qualidadc dc tcndências propriamcntc erótícas.
agora o objeto cspecíñco do instíntoz a pessoa ~ amada - do acabam por proporcionar uma satisfação bem mais vcrdadeira
índivíduo de sexo oposto. Impulso sexuaL instínto sexuaL ten- do que o puro ínstinto scxual. Com certeza quc até qucm sc
déncía sexual - marcam, assim, os degraus do caminho em que entregou à mera satisfação sexuaJ dos instintos sustentou uma
se processa o amadurecimento psicossexual e traduzem aquela vez por outra pretensóes mais elevadas em relação à outra parte.
intencíonalidade crescente (ínicíalmente dírígida ao coito, sem E todas cstas emoçóes e pretensóes se dcnunciam mesmo nos
mais; dcpois, a uma pessoa determinada), em virtude da qual cscombros da dcpravação sexual burgucsa. Só assim se entcnde
a scxualidadc, no decurso do amadurecímento do indivíduo, o que uma prostituta contava certa ocasião: quc cra muito típico
assume cada vez mais o caráter de expressâo “da personalídade. o fato dc os homens embriagados lhe proporcm semprc faz'cr as
Ora bem. Donde provém o elemento que marca a direção coisas como se ambos fossem casados e felizes; como sc ele fossc
nestc processo? O que é que dita ao instimo a direção para uma 0 homem que volta do trabalho para casa c ela a mulher à sua
pessoa determinada? Não é possível que resida no próprío ins-
TZÓO espera, para o abraçar amorosamentc. Há aqui qualquer coisa lúl
PSICOTERAPIA E SENTIDO l)A \'ní
y ANÁleh LYISFtNClAL uuw

quc irrompe e quc, por assím dizen estava conñnada c rcpr¡_ xu.11'.' idcal da ética scxuaL É claro quc, como ídcaL só rammcmc
midac é o amor quc havia sído rcprímido. a tendéncia crótica Sc atinge, c a maioria das vczcs por aproximação; mas. como
quc tinha sido relcgada para scgundo plano pclo instinto sexuall todo ideaL tem uma vall'dade, sc bcm quc apcnas normau'va:
Qucr dízcrz até nestas formas tâo mcsquinhas e miseráveis de ué como que n mosca do alvo, quc scmprc sc lcm quc tcr cm
vída erótica, como são as quc estão na base das relaçócs entre mira, ainda quc ncm scmprc ncla sc accrtc» (Gocthc). Mas a
uma prostituta e scu companheiro, arrepia camínho aquelc anc- razâo dcsta raridadc cstá inqucstionavclmcntc na falta dc amor
lo congênito dc uma forma erótica mais elevada. verdadeira Com cfeitm sc é tão raro quc o homcm médio consi-
Pode añrmar-se, portanto, quc a tcndéncia crótica imanentc ga chegar ao mais alto grau dc dcscnvolvimcnto da vida amorosa
se rcvela como aquilo que encaminha a sexualídade, desde o pu_ madura, é exatamcnte por scr raro o homcm médio quc é capaz
ramente físico de um impulso até ao espiritual dc uma tendên- dc amar deveras. Como qucr quc sc'j.1'. qualqucr missão humana
cia quc brota da própria pcssoa e sc diríge a uma outra pessoa continuará a scr «cterna»: todo o uvanço humano é um avanço
dífercnm passando pclo anímico de um instinto. Assim, o quc indeñnido, um avanço para o inñn1'to, um avançar cm dircção
se veriñca no decurso normal e ideaJ do amadurecimento psicos- a uma mcta quc cstá no inñn1'to. Dou dc bamto a dúvida sobre
sexual é uma convergência progressíva das tendências sexuais e se cxiste ou náo vcrdadciro «progrcsso» no âmbito da história da
cróticas, até que, fínaJmente, a sexualidade se funde com a eroti- humanidade; conccdo quc scja problcmático o scntido cm quc.
cidade, chegando-se a uma congruêncía do contcúdo da tendên- ncssa esfera, sc pode falar dc vcrdadciro progrcsso: o mais quc sc
cia erótica com o das tendências sexuais. O quc se produz aqui é, pode neste ponto registrar é o progrcsso técnico - o qual talvcz
enñm, uma síntese feliz da sexualidade e do erótico. O instinto, sc nos imponha, añnaL pcla simplcs razâo dc estarmos vivcndo
quc recebc a sua meta, ísto é, a sua orientação para uma pcssoa numa época de técnica. Mas o quc aqui cstá cm causn é outra
dcrerminada, a partir da tendência erótic21, vincula-se depois a coisaz s¡'mplesmentc, o progrcsso do indivíduo na sua esfcra pcs-
essa pessoa, a quc «se sentc vínculado» aquele quc ama. soal; e da possibilidadc dcste náo sc podc duvidar.
É assim quc cstc processo de maturaçáo conduz automa- É de reconhecer que, no caminho quc lcva à mcta ideal do
ticamente à atitude monogâmica. A tendéncia sexual dirige-se processo normal de maturação, tal como nós a dcñnimos. tem
exclusívamentc àquela companheira única que a tendência eró- a mulher mais facilídades do quc o homcm. A virgindade até
tica lhc ditou. Por consegu1'nte, 0 homcm realmente amadure- à uníão físíca com o homcm real c dcfinitivamcntc amado fa-
cido, a rig0r, só podc desejar scxualmente a pessoa quc ama; cilita-Ihc a atitude monogâmica. na mcdida cm quc - dcpois
para ele, só se pcnsa numa relaçâo sexual quando a sexualidade de entrar em relação sexual com cle ~ tanto o erótico como o
pode ser expressão dc amor. Neste aspecto, _a íntíma capacida- sexual se vinculam quase autonmticamentc à pcssoa do amado,
de para contrair uma relaçáo monogam^ica tem quc impor-se de modo quc a scxualidadc da mulhcr dcsprendc-se quasc como
como o verdadeiro critério da maturidade erótico-sexual dc um um reHexo condícionado pclo «scu» marido. Scja como fon a
indivíduo. A atitude monogâmíca é, nestes termos, a um tem- possíbilidade do progrcsso não sc csconde ao homem só por scr
262 po: a última fase da evolução sexual; meta ñnaJ da pedagogia sc- mais difíciL 263
l'S.I(I()'I'ERAPIA h SENTIDO DA Vlíx,-\) ANAÃISP L\'l.\"l'FNClAl. GlíRAL

Entrctantm o proccsso normal de amadurccimento psicossc- meta ñnal do proccsso dc amadurccimcnto psicosscxuaL c cada
xual podc sofrucr vários distúrbios. Dcntrc as várias formas de5_ vcz se lhcs torna mais dífícil dominar a síntcsc do crótico com
tc proccsso em perturbaça'0, cumpre distinguir trés bem típicas o scxuaL A vivência da deccpção atira-os outra vcz para o plano
quc, ao mcsmo tempo, corrcspondem a três tipos de homem mais baixo da mcra scxualidadc, faqzcndoms rctroccdcr para a
neurótico~scxuaL O primciro tipo representa-o o adolescente, tàse primitiva do descnvolvimcnto percorrido. Pois bcmz iá quc
que já tinha envcredado pelo melhor dos caminhosz partindo cstc tipo dc disrúrbío no proccsso dc amadurccimcnto psicoszsv
do impulso sexual ainda informc, havia atingido formas eróticas xual tem a sua origcm numa vivência da dcccpção. dcnonu'na-
cada vcz mais clcvadas numa atitude cada vez mais profunda mo-lo «tipo-resscntiment0».
para com a outra parte, uma vez ultrapassada a fase do instímo Conhecemos o diário de um jovem gangsten onde sc contém
scxual cndereçado a uma mcta e a tcndência erótica centrada em uma descríçâo pcnetramc do quc ocorre no íntimo dc um dcstcs
outra pessoa, acabando por encontrar, além de tudo, 0 objcto homcns que representa o «tip0-rcsscntímcnto». Trata-sc dc um
ínsubstituívcl da sua tendência erótica - ísto é, a pessoa amada; rapu moço arrastado às orgias na primcira juventudc. Atolado
mas. ao chegar a esta última fasc, sobrevcio-lhc um retroccs- cm orgias, tinham abusado dele também em rclaçócs homossc-
so, provocado, digamos, por um desengano. Realmente, uma xuais. (A essencíal falta dc mcta ou objctivo do impulso scxual
vivência amorosa que se traduz numa deccpção pode desenco- explica, cm princípio, quc. ncsta Fasc da evolução psicosscxuaL
rajar um homem do típo indicado, de modo que ele se sinta, sc aceitem também mctas e objcrivos instintivos pcrvcrsos). O
por assim dizcr, cmpurrado para trás. no scu normal desenvol- rapaz costumava andar inclusivc com as piorcs companhia15, mc-
vimento em ordem a uma vída amorosa ideaL Daí em diante, tido em grupos de delinqucntcs, quc nào sc limítavam a perpe-
já não consegue acreditar na possibilidade de encontrar uma trar crimes sexuais; até que. um bclo dia. por acaso, se acabou
pessoa que ao mesmo tempo possa respeitar espiritualmente e introduzindo numa associaçáo dc rapazcs animados de idcais
dcsejar scxualmente. Então, atira-se ao gozo meramente sexual; políticos c entusiastas do alpinismo. Aí conhcccu uma moça c
e, na bebedeira sexual, tenta esquecer a sua infelícidade erótica. apaixonou-se por ela. A partir dessc instantc mudou inteiramen-
A quantidadc de gozo sexual c dc satísfação dos instintos entra te de vida, mas cspecialmcmc a vida sexuaL O quc comcçou a
a substítuir a qualidade de uma profunda e plena realização na sentir para com a moça amada nada tinha quc vcr com hãna-
felicidadc amorosa. A sexualídade converte-se, assim, em «mei0 lidades sexuais. Produziu-sc uma brusca mudança dc tônic.¡'. do
de gozar», cm puro meio que se emprega para conseguir prazcr. sexual para o erótico. Não tinha rclaçócs scxuais com o scu pan
Verifíca-sc uma mudança de tônicaz do erótíco para o sexuaL O nem de rcsto as reclamava. A despcito dc uma scxualidadc tcm-
instinto sexual que nestes casos, frequentemente pelo menos, porâ, tinha-se descnvolvido agora até alcançar 0 crótico não $e-
nunca tinha sído satisfcíto, e ncm sequer, por outro lado, havia xuaL Todavia, quando um dia a moça o dcccpcionou, atirou-se
rcclamado satísfaçáo íncondicionaL exigc subitamente satísfãção de novo à vida antiga, chcia de ânsias dc gozo sexuaL e regrcdiu
e arrasta cstes homens em cata das maíores satisfaçóes possíveis. por complet0, não apcnas do ponto dc vista scxual', mas tam-
264 Dcsta maneira, porém, afastam-sc de novo c cada vez mais da bém soc1'almentc. Comoventcs, as palavras quc no diário dirige 2(›5
PSICUFIERAPIA E SENTIDO DA VlímM ANÁLISE l~.'th"l'EN(IlAl, GERAL

inmginariamcnte àquela moça soam como um grito de horr0r; quc amam rcalmcnte, c mais inacabada a sua vida do quc a vida
«Então, queres que eu volte a ser o mcsmo que era dantes, quc deles.
eu voltc àqucla vida, para andar sempre de noite em cabarés, cm F1'nal'mente, 0 tcrcciro típo a apomar aquí é aquclc a quc nos
bcbedeiras, e mctido em bordéis?.'» apraz chamar «u'po-inatívo». Tanto o tipo-rcsscntimcnto como
O scgundo típo a quc nos referimos acima caractcriza-se o tipo-resignação ficam aquém de tudo quanto scja «mais do quc
pclo fato dc os indivíduos que o rcprcsentam não terem Chc- sexualidade»; o tipo inativ0. porém, ncm scqucr chcga à mcra
gado scquer a uma atitude ou relação propriamentc crótica_ sexualidadc. no sentido dc conmto scxual com outra pcssoa. Ao
Este típo dc homem ñca logo desde o inícío debruçado sobre passo quc o tipo-ressentimento, pclo mcnos ao princípio, chcga
o mcramentc scxuaL Nem sequcr se aproxima da união das a experimentar a vivência dc um companhcirismo crótíco. c o
prctensóes sexuaís com as eróticas (no sentido mais estrito da u'po-resignação, por seu turno, um companhcirismo scxual ~ já
palavra e, portanto, enquanto se contrapóem àquelas). Dcclina o tipo-inativo dcsconhecc toda c qualqucr vivência scmcllmntc,
também a possibilidade dc respeitar a companheira sexuaL bem poís recusa-as todas. Não é nem eroticamente nem scxualmcnte
como a possibilidade dc amá-Ia. Considera impossívcl quc um ativo. Está, portanto, isolado, dígamos assim, com o scu instín-
dia lhe possa caber cm sortc uma autêntica vivência ao amor e to sexual, e a expressão de ml isolamcnto é o onanismo. Num
nâo confia em quc possa vir a expcrimcntar ou despertar um homem destes, a sexualidade é vivida dcv um modo puramcnte
vcrdadeíro amor. Quanto à tarefa de realizar a síntese da sexua- «situacional», como simplcs cstado; no ato dc onanismo, cssa
lidade com o crótico, renuncia igualmente, resignado. Em con- sexualidade carece dc toda e qualquer intencíonalidadc c oricn-
traposíção com o tipo-ressemimento, denominamos este, por tação que, transcendendo-a, vise o ser dc outra pessoa. Pam falar
isso, o «tipo-resignação». Tais homens, porque não creem na verdade, o onanismo não é ncrm uma doença ncm uma causa
possibilidade do amor quanto à sua pessoa, também não acrc- de doenças; o quc é, e sempre, é um sinal dc um distúrbio no
dítam no amor em gcraL e duvídam da realídadc do amor mes- dcscnvolvimento da Vida do amor c bem assim dc uma atítudc
mo fora da sua vida pessoal. Tiram-lhe o valor, supond0-o uma errônea e falhada relativamcntc a cssa vidn; carecem, portanto,
ilusão. Na realidade - assim julgam eles - tudo é mera sexuali- de justiñcação as idcias hipocondríacas nccrca das suas consc-
dade. O amor - costumam dizer - só aparecc nos romances c quências patológicas. Mas a modorra desnlcntada quc costuma
não passa de um idcal irrealizáveL scguir-se ao ato dc onanísmo tcm, para além c indcpendcntc-
Entre os homens deste tipo conta-se também o Chamado mentc dcssas idcías hipocondríacas, o scu fundamento naquelc
típo Don Juan, quc sc inculca aos ingênuos como hcrói ero'tic0. sentimento dc culpa quc náo pode dcixar dc invadir 0 homem,
Mas na verdade 0 que ele é é um débil que~ nem scquer sc sentc sempre quc clc foge da vivência intcnciond para a vivência si~
com forças para levar a cabo uma verdadcira e plena vida amo- tuacional ou dc cstad0. Este típo de comportamento impróprio
rosa. Apesar da quantidade de gozo sexual e dc amantes quc do homcm é añnal o mesmo quc demos a conhcccr já, ao cs-
consumiu, ao ñm e ao cabo, a sua vida nâo pode deixar de ser tudarmos a Cmbr1'aguez. salientando-o como esséncia dcstc fc-
vazia. Assim, fica o seu mundo mais vazio do quc 0 daqueles nómeno. Tanto assim é que, exatamcntc como succde com a 267
l'SlC()Tl-LRAPIA E SENTIDO DA VIDAím
ANÁLISE hX'lS"I'ENCIAL GERAL

embriagucz, salta aqui à vista essc estado de modorra - de re5_ numa espécic de propaganda sexuaL scgundo a quaL ao abri-
saca ~ quc se scgue à prática do onanism0. go de uma concepção equívoca e dc uma intcrprctação vulgar
Entre os indivíduos do «tip0-ínativo», contam-se, mesmo in- da psic.1'na1'ise, 0 instinto scxud insatisfcito - não o quc fbi in-
dcpcndentemente da válvula da masturbaçâo, todos aqucles j0_ felizmentc reprimido - conduziria nccessariamcntc à ncuro.s*c.
vens quc sofrem da chamada «nccessídade sexual». «Necessidade Assim, prega-se à juventude a nocividadc da abstinéncia scxuaL
scxual» é scmpre a expressâo de uma indigência ou escasscz geraL quando na realidade o quc realmcnte é nocivo é o resultado dcs-
de natureza decididamcnte an1'mica. Cumpre entendê-la, por sa pregaçâo, a sabcn a angústia dc expcctativa quc cla cria. Dcssa
isso, como indigéncia ou necessidade dc um homem quc «ñca fo'rma, apregoa-se o comércio scxual «a todo o custo», mcsmo
só» com o seu instinto, tomando-0 por isso, mas só por isso pre- cntre os mais moços - cm vcz dc os deixar amadurccer c pro-
c1'samcnte, como uma necessidadc miseranda. Na mcdida em gredir pelo camínho quc lcva àquela erotícidade sadia, a única
quc - como nos casos de desenvlolvimento normal - 0 erótico digna de um ser humano, cm quc o scxual é mera cxprcssão
prcdomina, a sua relativa contraposiçâo com a sexualidade nào é e coroamento da rclaçào dc amor. Com isto dizcmos também
sentida a modo de conHíto interior. O conHito e tensâo anímica quc o erótico dcve ser preccdido de uma rclaçâo amorosa. E,
quc produzem a «necessidade sexual» só se manifestam quando, em contrapart1'da, o jovem quc cmra numa vida cxclusivamcnte
havendo distúrbios no decurso da evolução, se veriñca uma espé- sexual antes do tempo verá barrado o caminho quc conduz à
cie de mudança de tom, por excmplo aquela mudança de tônica síntese da sexualidade e do crótico.
já refcrída em quc se acentua o sexual com prejuízo do erótico.
A expressão «necessidade sexual», entrctanto, pode levar-nos a
um equívoco, por nos fazer crer quc o momento da necessidade DIRETRIZES DE PEDAGOGIA SEXUAL
radica, já de si, no próprío instinto sexual insatisfeito, como se
cstivesse portanto faÇtalmente vinculado ao fato da abstinência Interroguemo~nos agora acerca das possibilidades tera-
sexual'. Na realidade, contud0, o fato da abstinência nem de lon- pêuticas quc se nos oferecem em relação a um Fenômeno como
ge signiñca 0 mesmo quc uma vívência da necessidade. Evidcn- este da chamada necessidade sexual da juventude. O problema
temente - e ainda voltaremos ao assunto -, isto só vale para o h0- nào deixa de ter a sua importância uma vcz quc uma cventual
mem novo, em processo de maturaçâo, e nâo para 0 adulto. Por psicoterapia da (<nCCCSSÍdadC sexua1» ex iuwzntibus pcrmite for-
consegu1'nte, se um rapaz novo padece da referida necessidadc mular conclusóes retrospcctivas quanto à psicogênesc. Basta,
sexuaL tal necessidade é unicamentc um sinal de quc o seu «ins- para tanto, proporcionar aos jovcns cm qucstão a companhia
tinto sexual» ainda não se subordinou a uma tendência erótica, de pessoas da mesma idade, de ambos os sexos. Feito isto, 0
não se tendo inserido nas tendências propríamente pessoais, ou rapaz, mais cedo ou mais tarde, Hcará «apaix0nado», isto é, en-
de quc já deixou dc estar assim subordinado e inserid0. contrará uma companheira e, claro esta', no sentido crótico e
Esta Frase feita quc vimos manuseando - «necessidade se- nào no sentido sexual da palavra. Em acontecendo isto, logo
268 xual» - tem sido empregada abusivamente de vez em quando a nccessidade sexual dcsaparccc como quc por cncant0. Estcs 269
l'Sl(2()›I'líRAPlA E SlíINVFIDU [)^ yllí
MANALIsEL'~\'Is."1'L'«N('IA1,nHw

rapazcs admitcm com frcquênc¡'a, por cxemplo, quc literalmen_ já em cxprcssão da scgundzL Não obstantc, tnmpouco a absti-
te «sc csqueccramn dc sc masturbarcm. Scntcm-sc atraídos pcla nêncía scxual do adulto conduz l1cccssarl'amcnte, dc modo al-
companhia da moça quc escolhcram, para além dc qualquer gum, a sintomas ncuróticos. Sc dc fato. num adulto quc pratica
atitudc scxuaL Quer dizcrz aquílo quc é grosseiramente sexual a abstinência scxuaL cncontrarmos sintomas ncuróticos, ncm dc
nos jovcns passa automaticamente para scgundo plano, no cxato longc nos scrá lícito consídcrá-los. cm gcral, como conscquôncia
momcnto em quc sc apaixonam - com as suas cxigéncias insatis- dircta da continência scxuaL mas apcnas como algo quc com cla
fcitas. ou apcsar dclas. E, em contrapart1'da, passa para pr1'me¡- está coordenado. Ncsscs casos, alias', obscrva-sc habitualmcntc
ro plano o erótica Assim, bruscamcntc, a tônica desloca-se do quc a própria abstinência é um sintoma, cntrc outros muitos, dc
sexual para o crótíco, veriñcando-se uma abrupta mudança de uma neurose comum quc cstá no Fundo dc todos clcs.
tom cntrc as tendéncias sexuais e cróticas, quc se apresentam, O ccrto é que, mcsmo nos jovcns quc, cm virtudc daqucla
nos jovcns, cm ccrto antagonisma Pois bemz a proporcíona-
mudança dc tônica quc sc desloca do scxual para o crótico, sc
lidadc rccíproca entre sexualidadc c eroticidade é prccisamente
viram livres da sua <tnecessidade sexual»; mesmo ncsscs, digo, o
aquilo dc quc nos devemos servir para tratar os rapazes novos instinto scxual volta a manifestar-se, mais ccdo ou mais tardc,
quc sofrcm de «necessidade sexual». No caso dc rapazes novosa
fazendo valer as suas exigêncías, sc bcm quc já dc acordo com
podemos consíderar fenômeno normal esta recíproc1'dade, c, em a natureza - e prccisamcnte à proporçáo quc sc cfctiva a sínte-
consequência dcla, a diminuiçâo c dcsaparecimcnto do mal-es. sc de scxualidade e croticidadc no dccurso do scu progrcssivo
tar quc acompanha o instinto sexual insatisfeiro, não obstante
amadurecimcnto. Isto signiñca quc o quc sc FCL ao rclcgar para
a abstínêncía scxual prolongada. Experiências muito extensas segundo plano - transitoriamente apcnas - o instinto scxuaL Foi
e contundentcs, efeituadas com base no material fornecido por
adiar 0 problema da sua satisfaçãa Com cstc adiamcnto. con-
estabelecimcntos de orientação sobrc as nccessidades anímícas
tud0, conscguiu-sc algo dc esscnciaL a sabcrz quc, neste meio
da juventude, vieram confirmar a normalidade dcstc fato, em tempo, o rapaz em qucstão amadurcccu tanto quc ~ prcdomí-
perfcita concordância com as discussóes havidas com inúmeros nando nele a tcndêncía erótica - sc- tornou capaz de estabclc-
jovens, por ocasião de confcrências sobrc tcmas de pedagogia cer uma relação crótica, cm cujo âmbito uma rclaçáo scxual já
sexuaL na sede das suas associaçóes juvcnis. Dcntre os muitos é, pelo menos, digamos assím, discutích EfcÃívaxncntm 0 quc
milharcs dc casos analisados, náo houve um único scquer quc agora temos é uma rclação amorosa cm quc a cvcntual rclação
não conñrmasse plcnamente o efeito refcrido, ísto é, a mudança sexual dcsempenha valiosa funçâo dc mcio dc cxprcssão (c tam-
de tônica quc se desloca do sexual para o erótico. bém não pretcndíamos mais do quc isso). Mas não sc ficou por
Mas, como dissemos, nào sc passam assim as coisas com o aqui; algo mais aconteccu cntrctantoz à mcdida quc foi amadu-
adulto, com o homem já maduro. No homem adulto, as ten- rcccndo, 0 senso dc rcsponsabilidadc do jovcm dcscnvolvcu-sc
déncias eróticas acompanham lado a lado as tendências sexuais. o suñciente para podcr dccidir, com basc na sua própría rcspon-
poís, dada a síntese do sexual e do erótico, levada a cabo no pro- sabilidade c na da pcssoa a qucm ama, sc c quando dcvc com-
70 cesso de amadurccímento psicosscxuaL a primeira converteu-se trair com cla uma rclação scxual sérizL Podcmos já cncarrcgá~lo 271
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE EYJSTENCIAL GERAL

cducá-lo. se aquele o consulta para aconselhar-se, nâo envolve matrimônio por força tem que sofrcr menoscabo, pois a Fc|ic¡-
apenas a pcssoa da companhcira, pois atinge, para além dela, o dade c a duraçáo do matrimônio só cstáo garantidas pcla consc-
sociaL o econômico, compreendendo ainda, ñnalmentc, o Mí cução da meta ideal da evoluçáo normaL ísto é. pcla maluridadc
po do eugênico. Isto vale sobretudo cm relação ao problema de que habilita a contrair uma rclaçâo monogâm1'ca, pcla símcsc
sabcr se uma rclação monogâmica se deve ou não converter em feliz e a congruência do sexual com o crótico.
matrimônio. Já tivemos ocasiâo de comprovar, a outro propó_ A existência humana de per si e como um todo já sc fun-
sito, quc o matrimônio constitui uma ñgura categorial que se da essencialmente no ser-responsa'vel. Quanto ao consclheirm o
inscre cm vária5' csferas autônomas ao mcsmo tempo, transcen- médic0, esse tem uma responsabilidadc que, por assím dízcr, foi
dendo, por isso, o purameme psíquico. De qualquer forma, o potencializada: é corresponsável pelo paciente, pelo indivíduo
psicoterapeuta apenas tem que lidar com a esfera do psíquico, quc o consulta pedindo-lhe conselho. Mas a sun rcsponsabilida-
de modo que só lhe resta fomentar e exigir a capacidadc ime- dc aumenta ainda mais cm sc tratando dc consclhos sobrc maté-
rior para contrair uma relação monogam^ica e para adotar uma ria sexuaL poís evidentemente esta responsabilidadc transccndc
atitude monogâmica correspondentc. No que diz respeito es- o presente, para sc estender também ao dcstíno de uma gcração
pccialmente à gcnte moça, é necessário encorajar os indivíduos vindoura. Ora, a pedagogia sexual do período dc amadureci-
a enfrcntar todas as dífículdades que a juventude depara como mento também não pode deixar de Hcar Cicntc desta plenítude
tempo de preparação eróticaL O rapaz novo tem que ter a valentia de responsabilidade. A este respcito, nâo podcrá subtrair-sc aos
dc se apaixonar e desprender-se da paixão, de «fazer a corte», de pontos de vista gerais de uma pcdagogia da pubcrdade. E para
estar só, etc. Mas, quando o sexual tentar antcpor-se ao erótico satisfazer as exigências de tais pontos dc vista, terá quc tentar
e amcaçar tornar-se dcspótico, a psicoterapia e, paralelamentc, obtcr uma tríplícc confiança. sob o signo da sua tríplice resp0n-
a pedagogia sexual, levantarâo a sua voz de aviso. Vem aqui a sabilidade. Referimomos com ist0, em primeiro lugar, à con-
propósito salientar que uma estatístíca psicológica de grandes fiança do jovem no seu educador, nos pais ou professores, no
proporçóes, organizada pela Escola de Charlotte Bu"hler, revelou líder de juventude ou no médico da família ou num conselheiro
que as rclaçócs estritamente sexuais de rnoças muito jovens - nas cm geraL Todos elcs devem tentar conquistar c conscrvar a con-
quais, portanto, não nos é lícito pressupor quaisquer rclaçóes dc Hança do jovcm. Isto é cspecialmcntc importante no que diz
amor propriamente eróticas - conduzem a uma clara limitação respeíto ao tão discutido complcxo de problemas da chamada
do círculo geral de interesscs, do horizonte espirítuaL porquanto inicíaçâo sexuaL Quanto a estes problemas, uma única coisa po-
o instinto scxual dessas moças, postas assim à prova sem terem demos dizer aqui: a informação e csclarecimemo sexual nunca
atingido a acabada compleíção da sua personalidade, Hadas na se devem dar coletivamcnta É quc, ao passo que para uns scrá
promessa do lucro fácil de um prazer e movidas pelo veemente dcmasiado prematura, desconsermndo-os, para outros scrá já
desejo de se satisfazerem, absorve todo e qualquer outro afã. É tardia, tornando-se ridícula, para simplcsmente mover ao riso.
claro que pela própria natureza das coisas, em se veriñcando esta Daí que o único caminho razoável seja o individuaL Ora, estc
274 evoluçâo desencamínhada, a prcparação interior para o ideal do caminho apoia-se precisamentc na conñança que o jovem sente 75
DA VIDA
PSICUIERAPIA lí SliNTlDO

fará com que


conh ança, uma vez gcrada,
no seu educadorz csta
scu cd ucador qualquer problema SCXuaj
o jovcm aprcsentc ao
logo quc clc surja , nem
antcs ncm dcpois. Mas ha amda uma B) Anal'ise existencial
a pcdagogia da puberdade deve proP0r_
scgunda con fiança quc
do jovem em sí mesmo, que 1mpe-
especial
-se alcanç.-u': é a confiança ' C *
qUC l Va a perso
na cncosta empmada
dirá qualquer dcsâ nimo
. a ÍCFCCÍFZI conñança estara Cm
nalídadc madura. E1 finalmente,
no Jovem a nossa conñança - o que
dcpositarmos nós próprios
adequado de cimcntar a conñança
constítui, aliás, o meio mais
nós concech Dlga-se enfím, Para
d cle cm si mesmo c a quc a
conñança - a Conñança que ncle
tcrmínar que com esta tercexra
falta de mdependcnaa no
7

deposímmos - evitamos-lhe qualquer


I c no agir, e estimulamo-lo
a scguir o seu cammho para a
pensar
Iibcrdade.

Nos capítulos precedentes, tívcmos iá rcitcradas ocasiócs dc


cxplicar, à luz dc alguns casos ncuróticos. o método dc cxame e
tratamento analític0-exístencíal. Scm a preocupação dc formar-
mos um sistema, no sentido, digamos, dc uma tcoría da ncu-
rose, demos a conhecer, por excmplo, com as obscrvaçóes que
fizemos sobre a chamada ncurosc dominical ou alguma formas
da ncurose sexuaL a possíbilidadc dc sc aplicar a análisc existen-
cial como logoterap1'a. Pois bcmz embora também não nos pro-
ponhamos fazcr agora, nas páginas quc sc segucn1, uma exposi-
ção sistemática, nào dcíxaremos dc ochccer 0 nosso contributo
coerente para uma análise existencial cspccífíca das ncuroscs e
psicoscs, analisando espec1'almente, aliás, o matcrial czwuístico
de que dispomos. Veremos em quc mcdida sc vcriñca a possí-
bílidade de encontrar aqui alguns pontos de partida para uma
logotcrapia das ncuroscs, tal como a postulamos ínicialmcntcu
e tal como depois a delineamos, na forma de uma análísc da
cxistência. Entretanto, e a modo dc íntrodução, gostaríamos dc
TNÓ 277
I'SICOTERAP1A E SENTIDO DA VlDA
m ANÁLISE FXISTENCIAIV ESPPCIAL

apontar algumas consideraçóes psicológicas e patogênicas de ín- assim, nunca a chamada Hnalidadc dc um simoma ncurótico
dolc muito geraL explica a orígem cle uma neurose, mas apcnas a ñxação do sinto-
Já nos rcferimos, em várias ocasiócs, ao fato dc que todo sín- ma em questâo, conforme 0 caso. Por conscgu1'mc, nunca com
toma ncurótico tcm quatro raízes, cada uma das quais brota de esta ñnalídade sc pode explicar de quc modo o pacicntc con-
uma das quatro dimensócs essenciais do ser humano. Assim, a traiu a sua neurose; essa finalidadc podcrá explicar-nos, quando
neurosc apresentabseanos simultaneamente como consequência muito, de que modo 0 pacíentc não conscguíu dcscnvcncilhar-
dc algo físico, como expressão de algo psíquico, como meio den- -se do sintoma. Logo se vê que isto sc opóc à visualização da
tro do campo de forças sociais e, Hnalmente, como um modus da pSicología índivíduaL Para esta, a ncurosc tcria primariamentc
cxístência. Pois bemz só cste \último momento nos fornece um a «missa'o» de desviar o homcm da sua missão vitaL Em con-
ponto de partida para o proccsso analítico~existencial. trapartida, a análise exístencial não acredita ncsta Funçâo ñnal
Os fundamentos ñsiológicos da neurosc são de dífercntcs ti- da neurose e, apesar dísso. considera sua missão terapéutíca o
pos e, no caso concreto, sobressai ora um ora outro. São de con- aproxímar 0 homem do cumprímento da sua missão na vida,
siderar sobretudo os Fundamentos constitucionais (disposição pois, além do mais, é assim que ele se verá livrc da sua ncurosc,
heredítária) e os condícíonais. Entre os fundamentos constitu- mais cedo e mais facílmente. O quc sc qucr aHrn1ar, portan-
cionais, contam~se a inestabilidade (labilidade) vegetativa e a to, é que esta «liberdade de» (da neurose) tcm quc scr precc-
estigmatização endócrína. Por outro lado, como fundamentos dida, quanto possível, pela «libcrdade para», pela «decisão a
condicionais da orígem da neurose, poderíamos cntrevcr, por fav0r» da missâo vítal; quanto mais de antemão vincularmos
exemplo, a convalescença após uma doença corporal grave ou a cste momento positívo (logotcrapêutico) ao momento nega-
prolongada ressonância afetiva do organismo após uma intensa tívo (psícoterapêutic0), tanto mais dcprcssa c com mais scgu-
vivência do susto ou medo. Mas, ao passo que os momentos rança chegaremos ao nosso objctivo terapêutico. Qucm tcve a
condicionais só raramente se veriñcam e a sua signífícação é a de coragem dc explícar isto foi, mais uma vez, o tão conhecido
meros fatores dc desencadeamento, o mesmo não sucede com os psicólogo americano da atualidade, Gordon W. Allport, da
fundamentos constitucionaís, já que o mais provávcl é que ne- Universidade dc Harvardz «True neuroses, we know, are best
nhuma autêntica neurose, no sentido clínico, possa nascer sem deñned as stubbom selfcenteredncss. No therapist can curc a
um concreto fundamento constitucional e, por consegu1'nte, em phobía, obscssi0n, prejudíce or hostility by subtraction. He
última anal'ise, sem uma base biolo'gica. can assist thc patient to achicve a valuesystem and outlook that
Se um sintoma neurótico for SUSCCIWCÍ de ser interpretado will blanket or absorb the troublcsome factom (Per50nalíty and
como «expressão» e «meio», é porquc primária e diretamentc é Socíal Entounter, Beacon Press, Boston l960). Isto éz «C0mo
expressâo e só sccundariamentc é meío para um ñm“. Sendo sabemos, a melhor maneira de dcñnir as vcrdadciras neuroses
é cntendê-las como teimosa ñxação em si mesmo. Ncnhum
(81) CE \'.' E, FrankL Díe Neuraxe ab Auxdruck wzd Mittel Terceiro Congrcsso tcrapeuta podc curar uma fobia, uma 0bscssão, preconccíto ou
278 lmcrnacíonal dc Psicologia IndividuaL Düsscldorf 1926 hostílidade, límítando-se a cxtirpar o que quer que scja. O que
PSICOTEKAPH E SENTIDO DA VHM

l
o pacnentc a aproximar-se de uma vísão
clc pod c Fazer é ajudar
'
conccpção do mundo capaz de cobnr c
dos valorcs c dc uma
absorver 0 fator de perturbaçao».

1. Psicología da neurose de angústía

Baseando-nos em casos escolhidos, explanaremos scguida-


mente a estrutura psicológica da neurosc dc angústia, dctcndo-
-nos em alguns exemplos que nos pcrmitam vcr quc a ncurosc
também mergulha as suas raízes cm cumadas quc não sáo pro-
priamente psíquicas. Para tanto, partíremos dc um caso c0n-
creto dc Critrofobia. A basc físíológica dcsm ncurosc csrá num
disrúrbio dc regulação vasovcgetatíva. M.15'* ml distúrbio, por si
só, não rcpresenta aínda nenhuma ncurosc no sentido rigoroso
da palavra; tem que acrcscentar-se, como momcnto patogênico
no mais estrito sentido do termo, o elemcnto psicógena Este
elemento psíquico aprcsenta-sc-nos, dcntro do quadro da etio-
logia da neurose, na ímensa maioria dos casos. como utrauma»
psíquico, seja ele qual fon No Caso da angústia dc rubor (Erro"-
temangst) que temos diante dos olhos, tudo decorreu como na
vivência que passamos a descrcver. Num día dc invcmo, o rapaz
em qucstâo, vindo do frío da rua, cntrou no ambíemc cálido
de um café Isto era já 0 bastante para explicar quc lhc comc-
çassc a ñcar vermelha a cara ao avançar para a mcsa rcservada
do café, onde costumava rcunir-sc com os amigos, quc agora
Cncontrava outra vez. A primeíra coisa de quc um dcles sc lcm-
brou foi chamar a atençào do rccém-chegado e dos quc 0 21c0m-
TZSO
PSICUTPZRAPIA E SENTÍDO DA VIDA m ANÁl ISP l'-Xl§"l'l¡N(llAl liRPHÍlAl

panhavam para o rubor do scu rosto, começando a caçoar deleí gic0, logo ccdcrá também aqucla convulsividadc quc crava a
Poís bemz nesse mesmo 1'nstante, estava asscnte o fundamento _-¡tcnçã0 do pacicntc no símoma, ñxando-a nclc, c quc c', alias'. o
de uma auténtíca neurose. É que, daí em d1'ante, vinha acres- vcrdadciro motivo da ñxação do próprio sintomm
centar-sc a angústia dc expectatíva à simples disposição neurót¡_ Noutros casos ~ cm conformidadc com 0 csqucma. acima
co-vegetativa quc náo tinha mais importância do que a de uma apontadq sobrc os possívcis momentos patogénicos -, o que
«complacêncía somática»: na próxima ocasiâo, numa Situação como fímdamcnto ñsiológico dc uma ncurosc
cncontramos
análoga, o nosso paciente já começava a rccear 0 cnrubcscimem de angústia é um distúrbio dc rcgulaçáo cndo'cr¡no. Nos casos
to, dc modo que elc próprio o tinha que provocar diretamentc, de agorafobia d051'gnadamente, semprc nos chamou a atcnção
mesmo sem a interferência de uma mudança brusca de tempe_ o fato de se encontmrem também sinais claros dc hipcrtirco-
rarura, ísto é, sem a prescnça de um fator de desencadeamento_ sc. Seja Como For, semprc a hipcrtircosc 0u, paralclamcntc, a
Este «mecanismo» da angústia de expectativa, uma vcz posto «simpaticotonia» traz consigo já uma ccrta «predisposíção para
em j0g0, progridc continuamente de um modo inexorávclz a a angústia» (\X/exberg). Om, sobre esta basc disposicionaL podc
angústia provoca o síntoma, e o sintoma volta a estimular a an_ construir-se uma neurosc de angústia. Pclo que sc rcfcrc cspc-
gústia por seu turno. Assím se fccha o círculo, até o quebrar a cialmente à agorafbbim deixam-se entrcver também vivéncias
terapía. Em princípio, também sería possível aplicar ao caso um «traumátícas». a modo de fatores causais que dcsencadciam a
tratamento medicamentosoxl (não decerto no sentido de uma avalanche da angústia dc cxpcctat1'va. Ma$, ao lado das agorafo-
sugestâo larvada); mas cm geraL o tratamento mais simples e o bias, por trás das quais sc cscondc uma hipcrtircosc, há também
que maís resultado dá é o que se faz cm forma de psicoterapia claustrofobias, quc ocultam uma tctania latente, c sintomas de
verdadeira e própria. despersonalízação - a síndroma psicoadinânimo - que enco-
Assim, 0 que antes de maís nada importa é isto: fazer com brcm uma insufíciéncía das cápsulas suprarrcnaís.
que o docnte comprcenda «humanamente» a angústia de ex- É 1'mportante, além de cxplicar c solucionar a angústia de
pectativa, de modo que esta nâo se lhe ímponha como algo de cxpectativa, fazer com quc 0 pacicntc se distancie da angústia.
propriamente «enfermiço» e, por consegu1'nte, como qualquer O modo mais simples dc o conscguirmos consístc cm lcvar o
coisa de fataL Mal o paciente se aperceba cle que essa angústia paciente a objetivar 0 sintoma, por assim dízcr. Só o consegu1'rá,
de expcctativa, tão compreensíveL não pode deixar dc cultivar o porém, sc chegar a rir-se de si, a fazcr uma cspécic de paródía
sintoma, deixará de dar-lhe importância e dc temê-la, até que, dc si mcsm0, pois 0 distancimncnto c a objctiwaçio do sintoma
Hnalmente, desaparecerá 0 sintoma, quebrando-se 0 círculo. Se tém realmcnte por ñnalídadc possibilitar ao doentc o colocar-
tiramos a essc rapaz o respeito pelo sintoma, a ímportância que -se, por assim di7.cr, «ao lado» ou «:1cima» da scnsação dc nngús-
lhc concede como uma espécie de despótico acontecer patoló- tía. E nada mclhor quc o humor para Criar csta distâncía. Não
há dúvida de que precisamos clc arriscar-nos a aprovcitar cstc
fato; é Como se tentássemos tirar à angústía neurótica o vento
(82) Cf. V. FrankL Zur mcdíkamcmõsen Untcrstützung dcr Psychotherapic bei
282 Ncuroscn. Schweiur Archiv für Psychíatrie 43, 1, l939. ' quc lhc sopra nas velas. Assim, por cxcmplo, sc um docntc dc
PSlCOTERAPIA E SENTíDO
DA V]l),~\ m ANÁLISE hX'lS'l'F.NCl/\L FSQPECIAL

agorafobia sc nos queixa de quc ao sair de casa se angust1'a, com nal, nào passa de uma rcação dc alarmc biológica quc. por as-
medo dc quc «lhc dê um ataque» na rua, podemos aconselhá- sim dizcr. qucr sabomr toda c qualqucr ação ou cvitar qualqucr
-lo a tcntar upr0p0r-Se», logo ao sair, desmaiar na rua, em com- 5ituação quc, «aos olhos da angústizvn constitua situaçâo pcri~
sequêncía de um ataque85. Mas, para reduzirmos por completo gostL Aprenda o docntc a agir «sem lhc ligar 1'mportância», c
ad absurdum a sua angústia, ainda é preciso sugcrir-lhe que logo verá como a angústia vai pouco a pouco ccdcndo como sc
diga, de si para si, o seguinte: «Añnal de conta$, já me acontc- tivcsse sído vítima de uma atroña por inan'v¡dadc. Isto de «vivcr
ccu muitas vezes cair ao chão no mcio da rua com um ataque; scm ligar importância à angústia» c', portamo, digamos assim, o
pois bem, hoje voltará a acontecer-me outra vez». O doente objetivo ncgativo da nossa psícotcrapia no mais cstrito scntido
logo sc aperceberá de que a sua angústia está muito longe de do termo - um objctivo quc cla tcm atingido não poucas vezcs,
ser angústia reaL tomando conscíência de quc é angústia per~ mesmo antes de alcançado o objetivo positivo de «vivcr com
feitamcnte neurótica; e com ísto tker-se-á dado mais um passo uma ñnalidadc», que é o cscopo colimado pcla logotcrapia e
no distanciamento. Assim, 0 doente aprenderá paulatinamente análisc existenciaL
a colocar-se cada vez mais «acima» do síntoma, c este tipo de Mas, ao lado dM pseudoncuroscs somatógenas. c além das
humorismo cm quc o introduzimos e cm quc, para dizcr toda psicógenas, temos ainda aquclas quc dcñni como noogênicas.
a verdade, o ensaiamos, simpliñca-lhe o problema tanto como É deste tipo 0 caso dc um rapaz novo quc sofria com o medo
toda a espécie de humor, que añnal facilita ao homem o pôr-se constante dc ter de morrcr dc um carcínomm Pela anüisc cxis-
«acima de uma situaçâo», para dominá-la. O leitor decerto esta- tencial do caso, vcr1'ñcou-sc quc 0 docntc sc ocupava conti-
rá sorrindo... Podcmos rir-nos à Vontade dcstc sistema com que nuadamentc no seu íntimo com o problcma de saber de que
levamos o doente a contomar o seu sintoma; 0 próprio doente tipo seria a mortc quc um dia o cspcrava e, por outro lado, se
não deixará de sorrir. O ccrto é que com isto já conseguimos dcsintercssava do problcma dc sabcr como vivcr 0 seu «tipo dc
ganhar o jogo ~ 0 jogo dcle.'8* vida» presentc. A sua angústia da morte era, cm última análi-
Mas o paciente quc sofrc dc neurose dc angústia não tem se, angústia dc consciêncim aqucla angústia quc o homem sen-
que aprender simplesmente a agir apcsar da angústia que senre; tc perantc a mortc c ncccssariamcntc tcm quc scntir, quando
tem que aprcnder precisamente a fazer aquilo que lhe dá an- despreza as possibilidades da sua vida, cm vez dc rea11'l.'á-las,
gústia ou medo e, por conseguinte, a procurar as situaçôes em não podcndo dcixar dcr añgurar-sc-lhc scm scntído toda a cxís-
que costuma experimentar a vivêncía da angústia. A angústia tôncia antcrion Àquclc dcsintcrcssc com quc o nosso pacicnte
«desístirá» sem nada ter conseguido, «com as mãos vazias»; añ- passava de largo pclas suas próprias possibilidadcs, correspon-
día como cquivalente neurótico o seu vivo c exclusivo intcrcssc
pela mortc. Com a sua carcinofobia jusu'ñcava, por assim dizcr.
(83) Allcrs dissa uma vcz quc «qucm renuncia à vitória cstá tâo pouco amcaçado c
tão longc du scntir angústia como aqucle que considcra cxcluída a possibilidade da a sua «frivolidadc metafísiczw (Scheler). Por trás dumu angústia
dcrrom». ncurótica dcstc tipo está, portanto, uma angústia cxistcnciaL
(84) CE Gordon W. Allponz uThc neurotic who lcams lO laugh at himself may be on
284 the way to sclf-m.1nagcmcnt. pcrhaps to curcm
É como se o sintoma da fobia se limitasse a especiñcar esta 285
PSlCOTERAPlA E TENTIDO
DA Vll),›\ m ANÁHSE LÀ'~'I.\'TENCIAL ESPECIAL

angu'stia. A angústia existenrial condema-se nafobia bzpocondrzí mes - tudo mc perseguc -. tenho medo dc perdcr a vida». Uma
zzm quando a angústía originária perante a morte (= angústia outra doente descrevía a sua vívéncia dc agorafobia. aliás scm
dc consciéncía) sc conccntra numa determinada docnça mor- estar inHucnciada por ninguém, desta mancírm «Assim como,
tal. Na ncurose hípocondríaca não podemos deixar de ver, por no espírítuaL vejo muitas vezes diantc dc mim um vazio, assim 0
conscgu1'ntc, um desdobramento da angústía existcncial que vejo cu, exatamentc assim, um vazio no espaç0... Não sci scqucr
deriva para um órgão concreto. Póe-se de lado a morte que é para onde vou, nem para onde quero ir».
rcceada por uma consciência pesada, c passa-sc a temer, em seu
Quanto aos casos concretos cm quc a angústia ncuróu'ca,
lugar, a doença de um órgão concreto.
além dc mera cxpressão anímica dírcta da angústia da vída, ch
A condensaçáo da angústia ewxistenciaL a angústia em face da a scr também um mcío para um HnL cumprc obscrvar quc só
mortc e ao mesmo tempo em face da vida como um todo, sur- secundariamente o veio a scrxÍ Ainda que a psícologia semprc
gc-nos consrantcmente no processo neurótico. A angústia totaL tenha envidado os seus csforços para demonstrar o contrário, a
orig1'nária, parece andar à cata de um conteúdo concreto, de angústia ncurótíca nem semprc cstá cfetivamcnte - c. sc o cstá,
um representante objetivo da «morte» ou da «vida», de um re- é em plano secundário - ao servíço dcr tendôncias tirânicas cm
prcscntante da «sítuação-limite» Oaspers), de uma representação face de um ou outro membro da famí1ia; e nem semprc scrvc dc
simbólica (E. Straus). Esta «Função representat1'va», assume-a, «lcgitimaçâo da docnça», cm vista de uma autojustiñcaçâo pc-
por exemplo, «a rua», no caso de uma agorafobia, ou, no caso rante os outros ou pcrante si mcsmo. Qucr dizcrz antcs e a par
da feâbre do palco (Lampeifzeber), «o cenário». Muitas vezes, as dcsta utilização «mcdiata» - mediata no duplo scntido dc utilí-
próprias palavras com que os docntes pintam os seus síntomas zação «secundária» c utilízação como «mcí0»-; portamo. antcs c
e mágoas c quc eles pareccm julgar mcramente ñgurados, meta- a par deste eventual caráter de tzrrangemenn ~ a angúsria neuró-
fórícos, indicam-nos as pegadas da razâo verdadeira e existencíal tica tem sempre primariamcntc o carátcr ímcdiato de expressã0.
da neurose. Assim. uma paciente que sofría de agorafobia des- Por isso Freud tem toda a razão ao falar do «lucro da docnçan
crevia a sua sensaçáo dc angústia nestcs termosz «é a sensaçâo como umotivo secundário (!) da docnça». Mas, mesmo nos ca-
de cstar suspcnsa no ar». Na realidade, isto era a expressão mais sos em que este motívo sccundário da docnça se apresenta de
exata que achara para explicar toda a situação espiritual em que fato, não é de aconsclhar que sc diga ao docntc, «de chofrcm
se encontrava. Com efeito, a neurose era nela, em últíma anal'i- que o que elc p“retcnde com os seus sintomas é. por exemplo,
se, esscnc1'almente, a expressão anímica do seu cstado espirituaL reter a sua mulher ou dominar a irmã, ou coisa quc o valha.
A sensação dc angústía e de vertígem que costumava acometer O que se conscgue com semelhante proccder é, habitualmcn-
como um paroxísmo. na rua, a nossa pacicnãte é, portanto, p0- te, um protesto. Quando não, comctcmos para com o doente
deríamos dizer, em termos de anal'ise existenciaL exprcssão «ves- uma cspécie de extorsão, desentranhando-nos longo tempo a
tíbular» da sua sítuação exístenciaL Muito semelhante é o caso
dc uma atriz que tinha a febre do palco e. para nos explicar a (85) CtÍ V. F.› ankL Die Neumse ulx Auydrurk und llrIitItL Tercciro Congrcsso
380 sua vivéncia dc angústia, nos diziaz «Tudo tcm dimensóes cn0r- lmcrnacional dc psicolugia individuaL Düsscldorf 1926.
PSICOTERAPIAT
SENTIDO DA VIDA m .›\N:\Vl lbll L\"I§ l'l~.'N(ÍlAI l~'§l'l<( JlAl

pcrsuadi-lo de quc o scu sintoma é uma arma com que ele, por frcntar aquele período da vida em quc já nâo cstaria cm qucstáo
cxcmplo, anda a aterrorizar os seus, - até que, por ñm, para nâo a valia crótica; só lhc rcstava «agucntar», cm vista da formo-
ter de continuar a «engolir» aquelas recr1'minaço'es, arranca de Si sura cm declínio. Erot1'camcntc, csta mulhcr scntia-sc fora dc
todas as cnergías quc lhe restam e consegue dominar, scja como ¡ogo; achava-sc numa vida scm objctivo c scm Hml|'dadc, scm
fon o scu sintoma. A esres processos, que añnal são sujos, devem contcúdo - a existência parecia-lhc scm scntido. Eis o quc nos
talvez o scu êxito alguns tratamentos psicotcrápícos. Quanto a dizia cla, letra por lctraz «Dc manhâ, lcvanto-mc c pcrgunto-
nós, parece-nos bem majs aconselhávcl - cm vez de forçar com -me a mim própríaz quc tcmos para h0jc? Para hojc, nada...»
essa extorsão o «sacrifício» do síntoma e a cura - esperar que começou a havcr-se com a angústia. Como não tinha ncnhum
o docme, animicamentc alquebrado, rcparc que cstá utilizando conteúdo vitaL como não podia dispor dc uma vida Lh'cia dc
um sintoma como mcio para um Hm, o fím da sua vontadc de conteúdo, a sua angústia ncccssariamcntc cntrava a cntrctcccr-
domínio sobre o ambiente social ou familíar, apercebendo-se, -sc-lhe Com a vida.
portanto, de que cstá a cometer um abuso. E é precisamente a O quc sc ímpunha era procurar um contcúdo de vida, cncon-
espontaneidadc do conhccimcnto de si mesmo c do reconhcci- trar 0 sentido da vida dela; cncontrá-lo agora para além do êxito
mcnto das coisas como clas são, o quc indica o vcrdadciro cfeito erótico e da valia social - e ao mesmo tcmpo cncontrá-la a cla,
tcrapêutíc0%. o scu eu, as suas íntimas possíbilidadcs. 'lr~atava-sc, cm suma, dc
Quando a anal'isc existcncial de um caso de ncurose de an- fazer com que a pacicnte sc apartassc da suu ungústia c se apli-
gústia chega à conclusão de que tal neurose é, em última anal'ise, cassc as\ suas missõcs. Já disscmos que csta última c positiva h~-
um modus da existêncía, concebendo-a como modo de existir, nalidade de uma logotcrapia analítico-cxistcncial sc podc atingir
de situar-se humanamente e de tomar decisóes cspirituaís, logo mesmo antcs da ñnalidadc ncgativa dc qualqucr psicotcmpia no
temos também o ponto de partida para uma logoterapia, co- scntido mais estrito do tcrmo; mais m°nda, confbrmc as circuns-
mo terapêutica adequada e cspccíñca. Tomemos como cxemplo tâncias, a consecuçào destc objctivo positivo podc scr o bastante
o caso concreto de uma neurose clímatérica de angústía. Pres- para Iibertar o docntc da sua angústia ncuro'tica, exatamcnte na
cindindo do dcsequilíbrio cndócrino como infraestrutura so- medida cm que priva a angústia da sua basc existenciaL quc,
matógena da doença, havia que enconrrar a sua autêntica raiz aHnaL cm sc dcscobrindo dc novo a plcnitudc dc scntido da
vida, a angústia ncurótica ñca scm objcto, dc modo quc é Como
na dimensão exístenciaL espiritualz na vivência da Crise da vida,
enquanto crise exístenciaL na ameaça quc para um indívíduo sc não houvessc lugar para tal angústia; c, como nos Comcntava
representa um balanço espirítualmente nyegativa Como mulhcr mais tarde a nossa pac1'ente, com toda a cspontancn'dade, mâo há
formosa que era, a paciente fora mal-acostumada com mimos tCmp0» para isso. O que havía que fazer no caso era. portanto,
istoz conduzir o indívíduo concrcto, quc se encontmva numa
pela socíedade; mas agora não tinha outro remédio senão an-
situação concrcta, àquela missão quc dcvía dcscmpcnhar na vida
e que, conformc dissemos, tinha também para ela o «caraítcr de
(86) CE V. E. FrankL Zur medikanwntõsm Unltrsrützng der Psydmtbempie bei
288 Ncuroscm Schwciur Archiv für Psychiatrie 43. 1. l93_9. algo único» e irrepetíveL A solução válida residia, digamOS, em 289
PSlCOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA

Fazê-la «comprcender o que ela era», pois também ela se apercc_


bia da «imagem do quc dcvia vir a scr» c, para o dizcrmos com
as paJavras de Ru"ckert, «na'o seria completa a sua paz» enquanto
0 não viessc a ser.
Fazia-sc mistcr transformar a crise climatéríca num rc-
nascimento crítico conñgurado «a partir do cspírito» - c, no
caso, cra csta a missrio da lagoterapz'a. Dc modo que sem dúvida
veio a caber aos terapeutas desempenharem o papel de parteiros
no sentido sorrzítim Alias', como vercmos adiante, cometer-se-ia
2. Psicologia da neurose compquiva
um crro tátíco se se quisessc impor ao pacícnte detcrminadas ta-
refas, fossem quaís fosscm. Pelo cOntrário, e conformc já vimos,
o quc compete à anzüisc existencial é precisamcntc conduzir o Até Wexberg e outros investigadores, oricntados, dc si, mais
paciente à sua espontânea responsabíll'dade. para a psícogênese c, relat1'vamcntc, para a psicoterapia, admiti~
Pois bem, no caso que cstamos considerando, também a pa- ram que, añnaL semprc há na basc da ncurosc compulsiva uma
ciente conseguiu encontrar «a sua» missão na vida. Tendo-se de- subcstrutura somática. Com cfeitm tivcmos ocasião de conhcccr
votado inteiramente ao novo contcúdo da vida, entrcgando-se quadros morbosos em quc se maníltxstam proccs.°sos patológicos
ao scntido da existêncía que havía recuperado c à vivência da pós-encefalíticos c ao mesmo tempo sc dcstaca uma analogia
própria e plcna realizaçá0, não só voltou a nascer nessa paciente com síndromas de neurosc compulsísz Entrcranro, cometeu-sc
um novo ser humano, mas também desapareceram quaisquer o erro de confundir semelhança formal com identidade subs-
sintomas neuróticos. E dc fato, apesar de subsístir naturalmente tanciaL Depoís foi-sc mais longc ainda. chcgando-se a admitír
a base climatérica da neurose, dcsapareceram todas as sensaçóes como base da neurosc compulsiva. não só um Fator constitucio-
ñmcionajs do coração, tais como a sensação de desassossego na nal, mas também um fator proccssuaL A suposíção dc que esta
zona cardíaca c as palpitações de que a doente sofria. Pôs-se as- base existia vinha sendo corroborada pclo conhecimento dnque-
sim dc manifesto até que ponto a vivência neurótico-cardíaca les casos em quc o curso da ncurosc se revcstia absolutamcntc
do «desassossego» era, em últíma anal'ise, a cxpressâo do desas~ do caráter de um proccsso progrcssivo ou, cm todo 0 caso, tinha
sossego, da ínquíetação esp1'ritual, da catividade total em que a 0 caráter dc um xdcsenvolvimcnto marcado por Fascs. Contudo,
pessoa se achava prísioneira, à espera de übertaçãa «Inquz'etum não sc exclui a possibilidade dc quc, nos prímciros casos, se tra-
est cor noxtrum...», diz Agostinho; é exatoz inquieto esteve tam- tasse de esquizofrenias camuHadas c, nos últimos, dc mclanco-
bém o Coraçáo da nossa pacicnte, cnquanto não pôdc descansar lias larvadas. Mas, mcsmo quando não sc tomavam os processos
c sossegar, e encontrar a paz na consciência da sua míssâo de psicóticos por base ñsiológica dos sintomas neurótico-compul-
«cara'tcr úníco» e írrepctíveL na consciêncía da responsabilidade sivos, punha-sc em primeiro plano o momcnto FataL o clcmcnto
290 c do dcver perante a sua missão na vída. da fatalidada se bem que num outro scntidoz no sentido de uma 291
IXSICOITzRAPlA E SENTIDO DA Vllí
B) ANÁLISE FXISTENCIAL liSPEClAL

psicopatia constitucionaL Falava-se de uma «síndroma ananca's_ minações de contcúdo que, por seu turno, são cvidcntcmcntc
tica» como exprcssão dc uma psicopatia anancas'tíca. Vía-se nela psico'gcnas.
o elemcnto hcrcditzírio da neurosc compulsiva; atribuía-se-lhe Com isto, é claro quc nem dc longe se quer dizcr quc a dcs-
também um radical biológico-hercditário próprio, quc devía ter coberta da psícogcnia dos conteúdos concrctos seja cñcaz do
uma função hcrcditária cspeciaL ísto é, d0m1'nantc. Finalmcntq ponto de vista terapêutico. ou simplesmcmc indicada. Pclo con-
propôs-sc quc sc falasse de «doença compulsiva» em vez dc neu- trárío, sabemos dcmasiado bem do pcrigo quc sc encerra cm nos
rose compulsiva, accntuando-se assim o seu caráter fataL adentrarmos no conreúdo concrcto dos sintomas. Na neurose
Do ponto de vista terapêutico, entendemos que têm re- compulsiva, aliás, o tratamento dc cada sintoma parccc-nos con-
lativamcnte pouca ímportânciawtodas estas varíadas concepçóes; traindicad0. Passa-se aqui uma coisa scmclhamc ao quc ocorrc
julgamos cspecialmente que a psicoterapia, mesmo quc accntue com os casos de esquizofrenizL Qualquer tentativa dc tratamento
o momento de fatalidade entre as bases da neurose compulsiva, hipnótíco é capaz dc provocar nos csquizofrênicos a scnsação dc
não se exime do scu dcver nem sc priva das suas oportunída- os cstarem a inHuenciar; outro tanto sc veriñca com os mclan-
dcs. Com efeíto, a psicopatia anancas't1'ca nâo rcpresenta senão cólicos2 o tratamento psicológico-individual, prcvcnindo-os de
a mera predisposição para certas propriedades caracterológicas, quc se estão a servir dos afetos como instrumcntos dc domínio
tais como o pedantísmo, e especialmente o amor pela ordem, 0 sobre os parcntes, é o mesmo que lcvar água ao moinho de au-
fanatismo da limpeza ou a idiossincrasia escrupulosa. Não é por tocensura desses pacicntes. Com cfcít0, tratar a fundo os sinto-
causa destas propriedades quc o sujeito sofrc. Tais propriedadcs mas, no caso dos neurótícos compulsiv05. só scrve para fomcn~
náo prejudícam nem o sujeito quc as tem nem os circunstantes. tar-Ihes a tendência obsessiva para excogitan Dcstc tratamcnto
São apenas o terreno em quc pode medrar a neurose compul- sintomático ou dos sintomas cumpre dístinguir acuradamcnte
siva propriamente dita, mas não nccessaríamente. Quando no 0 tratamento palíatívo por mcio da logotcrapia. Rcalmentc, o
terreno de uma constituição desse tipo efetívamente sc verifica quc se faz com a logoterapia nâo é tratar o simoma concrcto ou
uma neurosc compulsiva, então é quc se chegou já ao terreno a doença enquanto taL pois o quc cferivamcntc importa tratar é
da liberdade humanaz aí é que a atitude do homem, o seu com- 0 Eu do pacíente quc sofre dc ncurosc compulsiva, a sua atitude
portamento para com a disposição psicopátíca, é essencialmcme para com a ncurosc compulsiva. Esta atitude, aliás, foi 0 quc
livre, deixando de ser fatal - como o são as disposiçóes -, ou, converteu o ~distúrbio básico constitucional no sintoma clínico
para usarmos a expressão de Erwin Straus, «criatural». Nestes da doença; e é uma atítude quc sc pode corrigir pcrfeitamcme,
tcrmos, se a causa primária de uma neurose compulsiva não é pelo menos nos casos mais simples ou que estão na fase incipien-
nada de psíquico, não sendo psicógena poitanto a neurose com- te. Por consegu1'nte, se a atitudc cm si ainda nâo tcm aquela ri-
pulsiva, trata-se pura e simplesmente de uma disposição e náo gidez tipícamente neurótico~compulsiva; sc ainda portanto nâo
de uma doença no sentido rigoroso da palavra. Esta disposiçáo, se deixou inñltrar, digamos assim, pclo distúrbio básic0, - por
em si, é puramente formaJ; e no caso de ncurosc compulsíva força tem que ser ainda possívcl também uma mudança.
292 manifcsta, o quc sucede é que se lhe acrescentam aquelas deter- Quando se trata de neurose compulsiva, já a psicoterapia tem 295
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA Vll)Aím ANÁLISE EXISTENCIAL LSPECIAL

a míssão dc imprimir uma mudança à atítudc do paciente para nm neurótico-obscssivos, vendo nclcs o pródromo. quando não
com a ncurosc como um todo. Esta mudança tem quc proce5- os própríos sinais. dc umn cnfcrmídadc psicopática. Dcsta For~
sar-sc de um modo semelhante ao quc vimos quanto à neurosc ma, é Claro quc têm quc semir medo dos pcnsamcntos obscssi-
de angústia. Tal como no caso desta última, é preciso críar aqui, vos. É por isso quc o que sc impóc. antcs de mais nada, é afastar
cm primcira linh2, um «distanciamento do sintoma». O pro- estc rcceío da psícosc :1meaçadora; um reccio quc. uma vcz por
ccsso tcrapêutico em vista da neurose compulsíva, tal como no outra, pode convertcr-5e numa psicoticofobia manifcstzL Aquclc
tratamento das fobias, devc amolecer, digamos assim, o paciente dístanciamcnto, aqucla objctívização ráo 1'mportantc, e dc per si
e, por assim dízer, relaxar a sua atitude global para com a ncu- já tão frutífcra e cñcaL de quc falamos acima, só a podcrcmos
rose. É bcm sabido, dc resto, que a luta tcnsa destcs paciemcs conseguir se tirarmos ao pacicmc o cxcessivo rcspcito - quc ali~
contra as suas idcías obsessivas nÀão servc scnão para aumentar menta pela sua ncurosc compulsiva. Só quando conscguirmos,
a ~<prcssão» dcssas idcias. Pressão provoca contrapressão; quanto ncste scntído, trívidízar a sua ncurosc, só cntâo o docntc que a
maís o paciente arremete, digamos, contra as suas ideias obses- sofre estará em condíçócs de a ignorar como qucr quc scja, c dc
sivas, tanto mais cstas sc revigoram e majs dominador as têm agír sem lhe prestar atcnção. Em casos destc tipo, isto é, quando
que pareccr-lhc. Conforme disse já Erwin Straus, o que mais se trata de um medo à psicose, é aconsclhávcl lcvar o pacientc
falta faz a um pacicnte dcstcs é sossego c humor. Ora, ambos a estudar a fundo a sua própria ncurosc; não há 1'nconveniente,
estes momentos se acham presentes nas aplicaçócs do nosso pro- por exemplo, cm remcté-lo para trabalhos como os dc Pilcz ou
cesso psicoterápico. O neurótico compulsívo tem que enfrentar de Stengel, dos quais se dcduz até um ccrto antagonismo cntre
os seus temores obsessívos rindo-sc de sí mesmo, exatamente as neuroses compulsivas e as docnças psicóticas: sendo assim, o
como aconselhávamos ao neurótico de angústia, estímulando-o. próprio neurótíco compulsivo, a dcspeito dos scus rcccios com-
Conhcccmos, por exemplo, um doente quc andava sempre com pulsivos pclas psicoscs, ou mclhor, graças a clcs, tcrá quc scn-
rcccio de tcr prejudicado nuns ccntavos o cobrador do bondc tír-sc necessariamcntc 1'munc. Posto isto. podcmos cdmamcntc
ou um balconista duma loja, sem reparan Em breve este docntc Chamar a sua atcnção para o scguinte fato: a «passagcm da neu-
aprendeu a voltar-se para o seu receío, dizendo entre si: «Ora rose compulsiva para uma psicose», tão temida por cle, ngrou
essa.' Com que então, enganei o homem só por causa dc um apenas uma vez como título dc uma cpígrafe numa cstatística
par de centavos?.' Não senhorz enganei-o, mas foí em milhares sobre a evoluçáp das autênticas ncuroscs compulsiv1ls, aprescn-
dc centavos; e daqui em diante é assím que 0 quero enganar; e tada numa comunicaçáo a um congrcsso de psicotcrapcutas; c,
vocês vâo ver como vou cnganar muito mais gente e em dínheiro sob a cpígrafe referida, ngrava um zcro rcconfortantc.
grau'do.'» Pergumemos ao pacientc sc clc não tcm o hábito dc con-
Dcve notar-se, contudo, quc só sc conseguc que o doentc trolar rcpetídas vezes a chavc de gás c a porta da cas.1, para se
deixe dc dcbater-se com as suas idcias obsessívas se se pressupóe certíficar de que estão bem fcchadas. Mal 0 pacicnte nos diga
nele o fato esscncíal de as não rccean E ísto não é fáciL porque o que sim, todo espantado, cxpliquemos-lhc com o ar mais gra-
294 mais das vezes os pacicntes tendem a cxagcrar o valor dos sint0- ve possíveL como se quiséssemos anunciar-lhe a sua scnrença 295
r__i7

PSIC( )TERAPIA E SENTIDO DA Vímm ANÁLISE l-.'XIS'I'ENCIAL l',b'P|-.'CIAL

de mortc espirituaL o seguinte: «Veja bem! Qualquer homem a aceitar a ncurosc compulsiva como qualqucr coisa dc fataL
podc Hcar doente mcntal; mas há um único grupo de homens pam cvitar, assim, quc se formc em torno do núclco psicopáti-
quc cstão absolutamcntc imunizados contra qualquer doença co-constitucional um padecimento psicógeno dcsncccssário. Em
mental; e esses homens, que constítuem a exceçâo, são os que suma: há um mínimo dc predisposição caractcrol<›'gica rcalmcm
têm caIátcr ncurótico-compulsivo, isto é, os que tendem para tc ininHuenciável pcla psicotcrapia; c o pacicntc dcvc aprcndcr a
diversos rcceios obscssivos ou já os sofrerrL Pois bem: isso que o dízer o scu «sim» a esse mínimo. E. cfcn'vamcnte. quanto maís o
senhor acaba de declarar - quero dizer, a obsessâo da repetição e cducarmos numa cspécic de rzmorfati, tanto mais insigniñcantc
do controle - são reccios obsessivos típicos. Portanto, não posso virá a ser csse resto de sintomas fatais, quc escapam a qualqucr
dcixar dc lhe roubar a ilusáoz o senhor jamais pode vír a scr um inHuênckL
doente mental; por mais quc téimc nisso, o senhor, nunca!» Se Conhecemos o caso de um paciente que, tendo sofrido du-
falarmos assím com o paciente, até nosparecerzí ouuír o baque da rante quinze anos de uma ncurose compulsiva grave, vcio lá da
pedra que lljefzemas azir do coraçâa sua terra passar uns mescs na capitaL para se tratar. Chcgado
No entanto, os pacienres neurótico-compulsivos náo temem à capitaL submetewse à psicanal'ise; mas o tratamento, prova-
apenas a possibilidade de que a sua ncurose se converta numa velmcnte em virtude da brcvidade do prazo dc que dispunha,
psicose; receiam também, por exemplo, a possibilidade de virem não deu resultado. Visto isto, dispunha-5e já a regressar à terra,
a cometcr um dia anuma ação, sob a pressâo dos seus impulsos mas com o único ñto de pôr cm ordcm os assuntos da famílía
obsessívos para o suicídio ou o homicídio - caso não estejam e os negócios e, logo a seguir, suicidar-sc, tão grande cra o seu
cm condiçóes de os dominar. Nestes casos, é imperíoso, porém, descspero por verificar quc, ao quc parcc1'a, se Hzcra incurávcl
abrir os olhos do paciente para a naturcza das coisas e, com um o seu sofrimenta Poucos dias antes de empreender a viagem,
sâo realismo, fazer retrocedcr os receios, para deslocar essas esca- prcssionado pelos amigos, resolveu-se a consultnr outro médico.
ramuças Contraproduccntes com os impulsos obsessivos. Este, mesmo porque tinha, no Caso, pouco tcmpo à disposiçào,
Basta o fato de tcrmos conseguido arrancar ao pacíente o teve que renunciar dc antcmâo a qualquer análise c limitnr-se,
medo injustiñcado a uma psicose, para termos já obtido uma por assim dizcn a uma rcvisão da atitudc do docnte em facc da
notávcl «descarga de pressão» anímica. Atíngido este resultado, doença Compulsiva. Tentou, pois, induzir o doente, digamos as-
já o Eu não exercerá aquela Contrapressâo, que era o que pro- sim, a fazer ~as pazes com a sua doença. E baseou csta tentativa
duzia, por outro lado, a pressão da compulsâo. Tendo em vista no fato de o pacientc ser um homem profundamcntc rcligioso.
esta descarga de pressão, no sentido de que deve preceder toda a Tendo isto em Conta, 0 médico apenas lhe pcdiu quc visse na
psícotcrapia ulterior e bcm assim toda e qúalqucr logoterapia, é doença qualquer coisa «qucrida por Dcus», algo dado a modo
importante frequentemente conduzir o paciente a uma mudan- de fatalidade, dcvendo portanto passá-la por aJto, em vuz de ñ-
ça radícal na sua atitude para com a docnça. O que queremos car a altercar com ela, para dessa maneira lcvar uma vida grata a
dizer com isto é que, tendo efctivamente a sua doença como Deus. A viragem que, nesse 1'nstante, se produziu no íntimo do
296 quc um núcleo dc fatalidada o paciente deve aprendcr também doente teve um cfeito surprecndcnte, que espamou 0 próprio 797
._ /
PSKIOTERAPIA E SENTI DO DA Vl DíIH ANÁLlSh L"\'IS'I'L-“N(ÍIAL LSPHJIAL

médicoz por ocasiáo da segunda sessáo psicoterápíca, o dOCntc uma logotcrapia cspeciaL quc sc ocupa da condum cspiritual cs-
já podia admitir que agora, pela primeim vez depois de dez anos, pccíñca do ncurótico compulsivo. tcnmndo corrigir aqucla con-
tinha passado uma hora intcíra lívre das suas ideias obscssivas; e cepçâo do mundo c.1'ractcrístíca a quc propcndcm tipicamcntc
depoís, logo após o rcgresso à sua terra, imcdiato à consulta por cstes neuróticos. É esta logoterapia quc cm scguída cstudarc-
não se podcr adiar a viagem, cscrevcu uma carta informando o mos. A anal'ísc existcnciaJ cspccial da ncurosc compulsiva prcs-
médico dc quc a situaçâo sc tinha mitigado tanto que se podia tar-nos-á prcciosa ajuda ao bom cntcndimcnto dcsnsa conccpção
considcrar-sc praticamente curado. do mundo, e tcm que partir dc uma análisc fcnomcnológica
A corrcção daquela equivocada atitudc anímica que consiste despreconcebida da vivéncia da rcfcrída ncurosc compulsiva.
cm os nossos pacicntcs ncurótiyco-convulsivos lutarem convulsi- O que é que sc pmsa com (› ncurótico compulsívo quando,
vameme contra as suas ideias ou representaçóes obsessívas visa por cxemplo, se sente atormentado pclo ceticismo? Ao fazer as
csclarecer-lhes duas coísas simultaneamentez primeiro, quc cles contas, diz, por exemploz 2 x 2 : 4. E, no caso concrcto, dc-
não são responsáveis pelos «acessos» ncuróticos obsessivos que monstra-se que o pac1'ente, antcs dc tcr tido qualquer dúvida,
os acometcm; segundo, que elcs são, no entanto, responsáveis sabia, como quer que fossc, que a conta cstava ccrm; agora, não
pela atitude com que encaram esses acessos. E, efet1'vamente, 0 obstamc, começa a repontar-lhc a dúvida. «Tcnho quc fazcr a
que faz com que esses penosos acessos vcnham a ser tão pcno- conta outra vez» - dizia um dcstcs docntcs - «cmbora cu saiba
sos para cles é essa atitudc dc se «ocuparem» interiormente com que cstá bem feita». É como se, afctivamcntc cxperimcntassc
os mcsmos, continuando a pensar neles ou a debater-se com a vivência de que ainda há uma c~spécie dc resto em suspensal
cles, talvcz até pclo medo que lhes causam. Também aqui há Ao passo quc o homcm normal sc apazigua com o rcsultado
quc acresccntar, às componentes ncgativas e psicoterapêuticas, concreto dos seus atos de pcnsamento, no scntido de que nâo
no sentido mais estrito da palavra, do tratamento, um compo- prossegue nas suas indagaço'cs. uma vcz obtido essc resultado,
nente logoterápico positivo. Queremos dízer, neste sentído, que o homem neurótico compulsivo sentc a falta dessc sentimcnto
o doente deve acabar por aprender a vivcr passando por alto a simples que se segue ao ato dc pcnsamcnto e quc, quanto ao
sua neurosc compulsiva e a levar, apesar dcla, uma vida plena de exemplo matemático - «2 x 2 = 4» -, podcria exprimir-sc dizcn-
sentido. De resto, é patente que o simples fato de se aplícar às do-sc: «e, com efeito, é assim mesm0». A vivôncia expcrl'mcnta-
suas tarefas vitaís concretas o ajudará a desembaraçar-se dos seus da pelo homem normaL nestes casos, é a da cvidência; c o que
pensamentos obscssivos. falta ao pcnsxamento do ncurótico compulsivo é prccisamentc a
sensação normal de evidência. Nestes termos, podcmos falar dc
uma insuñciência do sentimcnto de evidência nos ncuróticos
ANÁLISE FENOMENOLÓGICA DAS VIVÊNCIAS compulsivos. O homem normal tapa, por assim dizcr. Com 0
DE TIPO NEURÓTICO-COMPULSIVO
diafragma da sua ótica, esse rcsto irracional quc. dc um modo
A propósito da neurose cumpulsiva, há que considerar tam- ou de 0utro, sempre adere a todos os resultados do pensamento,
298 bém, afora a logoterapia dc tipo geraL de que estamos falando, mesmo nas operaçóes de cálculo mais difíccis ou cm outros atos 299
DA Vll)A
PSICOTERAPIA E SETNDO HI ANÁLISE I-_'XIS."I'L¡N(.'1M IÉSPECIAL

dc pcnsamcmo mais complicados; mas o ncurótico compulsivo anrüise tbnomcnológica ultcrior da vivéncia dc tipo ncurótico-
não conscguc libertar-se dcssc resto, e prosscgue para aJém de]e, -compulsivo indica quc. no docntc por cla afctada cstá trcmida
no seu pcnsamentoz à sua imuftiénria do sentimento de euidênria aquela segurança instintíva que guia, na vida quot1'diana. 0 ho-
correspondc uma intolerância para com aquele resto irracionaL mem são e quc, por assim dizcr, toma por clc as decisócs triviais.
Enfim, o neurótico Compulsivo não consegue tapá-lo com 0 dia- A segurança instintiua do lmmem normal merua a comciénria da
fragma da sua visão. md respomzzbilidade pam os gmndes mommtos das mcruzílÍmdzu
chamos então como reage o neurótico compulsivo ao rcsto dzl vida e, mexmo enta'o, atzm de uma forma de certo modo ir-
irracíonaL Quc faz ele? Tenta dominá-lo, abordando~o de novo racional: como Comciênria! Não assim 0 ncurótico compulsivo,
com o pcnsamento; mas, como é naturaL sem o conseguir de que tem de compcnsar os dois dcfcitos timopsíquicos quc 0 afc-
todo eliminan Assim, vê-se forlçado a continuar nas suas ten- tam - 0 distúrbío do scmimcmo dc cvidência c o da scgurança
tativas de pensar e repensar, para cancelar o resto irracionaL instintíva - mcdiante um especial -cstado de consciência c uma
mas sem conseguir sequer diminuí-lo. Este jogo assemelha-se especial escrupulosidadc. Os seus cxccssos dc cscrupulosidadc
à Funçâo dc uma bomba aspirante que, como se sabe, tcm um c conscientidadc cvidcnciam-se, assim, como hipcrcompcnsa-
«espaço morto», de modo que nunca produz um vácuo absolu- çóes noopsíquicas (para nos scrvirmos da conhccida antítcsc dc
ro, antes se limita a reduzir, numa percentagem determinada, Stransky, entrc «noopsiquc» c «timopsique»). O transtomo da
a quantidade de ar contida no recipicnte que se quer esvaziarz sensaçâo de segurança, quanto ao conhecimento c dccisão, lcva
0 primeiro movimento do êmbolo reduz o volume de ar à dé- os indivíduos neurótico-compulsivos a um fbrçado autocontro-
cima parte, o seguinte à centésima parte, e assim por d1'ante. le. Provoca neles, a modo dc compcnsação, a vontadc dc che-
Pois bem: a compulsáo reiterativa da neurose compulsiva corres- garcm a uma certeza absoluta dc conhecimcnto c dccisão; uma
ponde às repetiçócs dos movimentos do êmbolo, inúteis añnaL aspiração a um conhecimento absolutamcntc scguro c o csfor-
Com a revisâo de um resultado do seu pensamento, o ncurótíco çado desejo dc tomarem decisócs moralmentc absolutas. Com
compulsivo sentir-se-á mais seguro na matéria em questão; mas os mesmos conscicnciosos escrúpulos c conscientidade com que
sempre subsiste um resto de insegurança e não pode deixar de um homem normaL na mclhor das hipótcscs. rcsolvc cscolher a
subsistir, por mais que tente eliminá-lo, levado pela compulsão proñssáo ou a mulher para ca5'ar, o indivíduo afetado de ncurosc
da repetiçãa Prosseguírá nestes esforços até se esgotar, até ao compulsiva fecha a porta da sua casa ou mcte uma carta na caixa
momento em que, tirando forças da fraqucza, se rendcr por ñm do correio. Es~ta conscicntidadc exorbitantc e csta autoobservw
a um vago rredo e a uma absolvição geraL deixando de lado as ção cxacerbada neccssariamentc têm quc tcr, mcsmo dc per si,
suas elucubraçóes (até às próximas). efeitos perturbadoresz e é coisa sabida. O que falta ao ncurótico
Ao distúrbio do sentímento de evidência, tomado como um cornpulsivo, dada a hipcrtroña da consciência que o acompanha
dos momcntos da perturbação básica da neurosc Compulsiva, no constantememe, molestand0-o nos seus atos dc pensamento e
que diz respeito ao conhecimento, corresponde, no que se referc dc decisã0, é aquelc «estilo Huentc» com que 0 homem são vivc,
500 à capacidade de dccisâo, um distzírbio da yegumnça 1"mtz'ntz'va. A pcnsa e atua. O caminhantc tropcçará logo quc - cm vcz dc pôr 301
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE EXIbTENClAL ESPECIAL

os olhos na meta - centrar dcmasiado a atençâo nas pcdras do Straus, cntendcmos quc cste cscotoma cspíritual ainda sc podc
caminha Num estado de consciência cxorb1'tantc, pode o ho- iluminarz tcremos ocasiáo dc vcr aínda até quc ponto uma logo-
mcm, quando muito, iniciar um ato; mas não o podc cxccutar tcrapia cspccíñca está em condiçócs dc corrigir, com argumcmos
scm o prejudicar com a própria cxecuçâo. baseados na naturcza das coisas, cssn conrepçáo do mundo Ctm por
A consciemidadc exorbitante c a excessiva escrupulosidade cento exata, prápria do nmrático compulríua
do ncurótico compulsivo rcprescntam ncle, por consegu1'ntc. Straus também sc rcfErím Hnaln1cntc, ao fato dc quc o neuró-
traços dc caráter típicos, cuja raiz podcmos ír encontrar na in- tico compulsivo não conscguc vívcr ncssa cspécic dc «provisoric-
fracstrutura timopsíquica da sua personah'dadc. Disto se seguc dadc» que ao homcm quadra c sc impóc. E qucríamos acrcsccn-
que uma das tarcfas terapêuticas, nestes casos, consiste em fazer tar que nisto o caracreriza também uma impaciéncia cspccíñch
com que o neurótico compulsivo volte a encontran quz comafor, Caractcriza-o, enfím, uma 1'ntolerâncz'a, náo apcnas parn com o
asfontes estanmday da smtimento de evidência e segurança z'mtz'n- resto irracíonal que ñca no pcnsamcnto, mas também pam com
tíwz, que brotam dax azmadas emotíwzs mais profimdm da pessozz; a temáo entre ser e deuer-ser. Talvez seja isto 0 quc cstá latcntc
tarcfa essa que sc podc levar a efeito, por cxemplo, ensinando-0 naqucle «desejo de igualar-sc a Deus» de quc faálava Alfrcd Adlcr
a conñar naquclc rcsto de scntimcnto de cvidência e de seguran- e em que nós poderíamos entrevcr o rcvcrso do conhccímcnto
ça ínstintiva quc sempre sc dcscobre no homcm, mcsmo cm se que o homcm tcm do seu cstado dc impcrfciçâo ucriatural». É
tratando de um neurótico compulsivo. precisamente ao reparar nísto que o homem rcconhccc a tensão
O ncurótíco compulsivo, conforme disscmos, procura a ab- entrc ser e dever-ser, essa tensão em que se rzcba imeno o bomem
soluta certeza no conhecimento e na decisão. Aspira sempre ao como tal
cem por cento. Só quer o absoluto, o totaL A este propósito, dis- A tese de Straus, segundo a qual o ncurótico compulsivo náo
se Erwin Straus que o neurótico compulsivo se acha sempre em é capaz dc viver na provisoricdadc, parcce-nos que devc ser com-
frente do «mund0 como totalidade». E poderíamos acrescentarz pletada com csta outra: o ncurótíco compulsivo também não
sofre debaixo do peso do mundo imeiro, como Atlas. Sofre pro- consegue pensar por aproxímaçâo. Assim como, em vez do proui-
ñmdamente sob a parcialidade de qualquer conhecimento hu- so'rio, quer o dejínitiva assim também quer 0 defnido em vez do
mano, sob a problematicidade de todas as humanas decíso'es.' aproxímada Como sc vê, à sua pretensão totdítária da exatidão
Disse também Straus, ainda a este respeit0, que - ao com- cem por cento no aspccto pragmático, corrcspondc uma prctcn-
trário do neurótico compulsivo - o homem sâo vê o particu- são cquivalcnte no aspccto cognoscitiv0.
lar, vê 0 mundo em perspectiva. E também a isto gostaríamos Em últíma análise, a cssência da neurosc compulsiva rcve-
de acresccntar alguma coisa: os valores valem sempre, no caso la-se nesta análisc existencial como a caricatura dc uma aspiraçáo
concrcto, para uma pessoa apenas, mas é precisamente por isso fáustich Com toda a sua querença dc absoluto, com sua aspira-
quc são obrigatóríos. Para o neurótico compulsivo, no cntanto, ção a tender para a exatídão cem por ccnto em todos os sctores,
qualquer coísa de particular caí, dentro da sua imagem do mun- 0 neurótiro compulsivo surge como um fhustofwtrado - «trag'íco»
302 do, num ponto cego. Entretanto, ao contrar'ío do que opina na sua humanidade e «tríste» no seu estado docntio. 303
PSICUYERAPIA E bENl Il)() DA VIDA m ANÁI lSlt lzXISTFNClAl ESPLCIM

Ao tratarmos da ncurosc dc angústia, vimos que a angústia quc o homcm não afctado dc ncurosc compulsiva convcrtc cm
cósmica (\V'e/tangst) sc condcnsa no sintoma dc fobia. Ao anal'i- çrampolim da libcrdadc existcncial; amccipa, dc Forma ñctícia.
sarmos agora a ncurosc compulsiva, cncontramo-nos com uma o dcsenlace da missáo que tcm na vida.
certa anaJogia1 como é impossível satisfazer inteiramente a sua Tanto o neurótico compulsivo como o indivíduo quc padccc
prctensáo totall'tár1'.1', 0 neurótico compulsivo forçosamente tcm de ncurosc de angústia se podem cnractcrimr igualmcntc, dí-
quc concentrar-se numa esFera especial da vida. Como a refe- zendo quc o anseio dc scgurança cstá nclcs como quc torcído,
rida exatidâo cem por cento nào é realizável scmprc e em toda reHetid0, «retr0Hetido», tendo um ccrto cunho subjctivo. para
a parte, limita-se e desvia-se para um setor determínado, em não dizer p.s*ic0logístic0. Mas, para podcrmos entendcr mclhor
quc já parece poder alcançar-se plenamente (p0r excmplo, para tudo ist0, temos quc partir do anscio de scgurança do homem
a purcza das mãos, no caso da obscssão de límpeza). O campo normal. E desde já podcmos añrmar que no homcm normal o
em que o neurótico compulsivo consegue impor a meias a sua anseio de segurança tem por conteúdo, sem mrliL a scgurança;
qucrcnça do íncondicíonal varia conforme os casosz para a dona ao passo quc, no ncurótíco, não sc satisfaz de modo algum com
dc casa, pode ser a ordem doméstica; para o imelectuaL a ordcm tal segurança, com essa wzga scgurança, a vaga segurança dc todo
da escrivaninha; para 0 «h0mme à petit papier», o cuidado de o ser criaturaL É que o homcm neurótico cstá, como qucr quc
tomar nota dos seus programas e Hxar tudo o quc experimcntau seja, «sobressaltad0» e, ncssa mcdida, 0 scu anscio dc scgurança
para o indivíduo de tipo burocrático, a pontualidade absoluta; sempre é forçada É assim que nascc ncle a vontadc dc uma se-
c assim por d1'antc. O ncurótico compulsivo cinge-se, portanto, gurança absolum
conformc o caso, a um dctcrminado setor da existência; e nesse Pois bemz em qucm sofre de ncurosc dc angu'stia. csta vontnde
setor - como pzzrs pro toto _ tenta satisfazer plenamente a sua tem por objetivo a scgurança pcrantc catástrofes. Ma5' como náo
pretensão totalitária (obs. 25). Assim como na fobía, a angústia há uma segurança absoluta de cvítar catas'trofcs. 0 neurótico destc
(do homem de tipo passivo) perante 0 mundo in toto assume um tipo contenta-sc com o mcro scntimcnto de scguranÇzL limitan-
conteúdo concreto e se aplíca a um objeto singular, assim tam- do-se a isso, cfet1'vamcntc, o scu ansc1'o. Dcsta Forma, porém, já sc
bém no sintoma neurótico-compulsivo a vontade (do homem retira do mundo dos objftos e das mims 0bjetimL para sc aplicar ao
de tipo ativo) de conñgurar o mundo à sua própria imagem, se mbjetiv0, e ao quc é situaciomzÁ isto c', mcro csrado (me"nd/irb): o
concentra numa esfera isolada da vida. O certo é que, mesmo lugar da cxistôncia do ncurótíco quc soFrc dc angústía iaí cstzí muito
nessa esfera em que se concentra, o neurótico compulsivo não longe do mu\nd0, que ofeqrecc ao homem médio a sua tranquili-
logra ser bem-succdido: só fragmentária ou Hcticiamente com- dadc quotidíana, aqucla tranquilidadc quc sc contcma já com a
seguírá satísfazer a sua pretensão totalitária e, em qualquer caso rclativa improbabilidadc dc uma catástrofb - pois este ncurótíco, o
e sempre, à custa da sua naturalidade - da sua «criaturalidade». quc quer é a absoluta impossibilidadc dc uma cata'strofc. Entretam
É uma aspiração que, neste sentido, já se tem deñnido como to, uma coisa succdez csta sua vontadc dc uma scgurança absoluta
dc todo em todo inumana. Comportando-sc assim, o indiví- obriga-o a prestar uma cspécíc dc culto ao scntímcnto dc scguran-
duo furta-se à «realidade do devir» (Straus), despreza a reah'dade,
VTM ça; e, como quer quc seja. a Fuga do mundo, quc cstá Íatcnte nessa ÀLH
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA íuq
B) .›\NÁLISE EX~ISTINCIAL ESPECIAL

atitude, reprcscnta uma espécie de pecado originaL provocando_ meiro qucr sc cntrcgar ao Tu amado. ao passo quc o ncurótico
consequcntcmente, como que uma má consciência, a qual prcssio- sexual anela o orgasmo, intmdmdo para o orgasmo como taL
na em dircção a uma compensaçâo; compensação quc o neurótico com o que já sc acha perturbada a sua potência scxual; aquc-
angustiado só pode cxperimentar, por sua vcz, numa exacerbaçâo le qucr conhccer upor aproximaçâo» um pcdaço do mundo. ao
dcsumana do seu anscio dc segurança subjetivista, com que reHcre passo quc estc (o neurótico compulsivo) qucr tcr um scntimcn-
vergando-sc sobrc si mcsmo. to dc cvídêncía, intendmdo para cssa cvidéncia cnquanto tal c
Ora bem. Assim como para o indivíduo que padece de neu_ arrastando-se dcssa Forma num progressus in irfíznitum Enñm,
rosc dc angus'tia, a preocupação dominante é a segurança ab_ o homem normal qucr dar uma rcsposta cxistencial à cxistência
soluta perante uma catástrofe - prcocupação cssa que elc se vê concrcta; mas o cscrupuloso ncurótico-compulsivo gostaria dc
obrigado a retorcer, convertendo-a num forçado anseío pelo tcr apelm o sentimento dc uma consciência tmnquila - absolu-
mero smtímento de íegumnça -, o que está cm qucstão para o tamente, é clar0: algo que portanto, demasiado - sob o prisma
neurótico compulsivo é já a scgurança, a ccrteza do seu conheccr do humanamente dcscjávcl - e, ao mcsmo temp0, demasiado
e dccidir. Mas também aqui, no caso do neurótico compulsivo, pouco, - sob 0 prisma do humanamentc rcalizáveL
este anscio de scgurança não se aquieta, digamos, na aproxima- Assim, a neurose compulsiva surge-nos como qualqucr c01$'a
tividade c provisoricdade da existência ucriaturalm antcs sofrc de muito cxcmplar no que diz respcito à contraccnação da liber-
uma víragem subjetivística , redundando num convulsivo anclo dade com o constrangimento (Gebunde›z/Jeit), dcntro da ncurose
pelo mero sentimento dc segurança ou certeza «cem por cento». cm geraL Isto leva-nos a fazwcr alguns rcparos a Erwin Straus, quc,
Emrementes, surge aqui uma trag'ica frustraçãoz é que basta o no scu trabalho sobre a psicologia da ncurosc compulsíva. aprc-
anseio de segurança dirigir-se apcnas e diretamente ao absoluto sentou o caráter neurótico-compulsivo maís ou menos como algo
sentimmto de segurança para que. como aspiraçâo «fáustica» que de «críatural». Náo podcmos concordar com cle: pois nâo con-
é, esteja condenado ao malogro. Com efeito, no mesmo instante sideramos como inevitávcl c fatal a cvolução caractcrológica no
em que se intende para o sentimento como tal (em vcz dc se du sentido da ncurose compulsiva manifesuL Antes pclo comrário,
a esse sentimemo 0 lugar de mero resultado dc uma execuçâo tcmos por absolutamente possível uma espérie de ortopedia am'-
com comeúdo objctivo), nesse mesmo instante, dígo, dissipa-se miaL Já ñzcmos mcnçâo da ncccssidadc quc há dc tal< ortopcdiaz
o sentímento... Ora, nunca o homcm tcm uma segurança com- dígamos, no sentido dc uma psicologia que eduque o neurótico
pleta, nem num aspecto nem noutr0, embora, no mínimo, sem- compulsivo lhms qualidades caractcrológicas do humor e do sos-
pre lhe possa caír em sorte precisamcnte aquele smtímenm dc scgo, quc lhc faltam csscncialmcnm Straus tcm 0 mérito dc tcr
segurança que o neurótico compulsivo tão afanosamente tema sido o primeiro a acompanhar a evolução da ncurosc compulsiv21,
agarrar, sem 0 conseguir. seguindo~a até 0 cxistencial; mas passou por alto n possibilidade
Em suma, poderíamos dizer o scguintc: o homem normal de trata'-la a partir do espírito.l E não há dúvida dc quc o c0m-
qucr estar num mundo que é scguro a meia.r, ao passo que o portamento do docntc cm face dcla continua a ser lívrc, dc um
neurótico anseia por um Jentimento de segurança ab50luto; 0 pri~ modo ou de outro, tomando-sc aqui o tcrmo «comportamcmo», 307
l*S[L'()'|*LA-RAP1A lí TNHDO
I)A VlDA m :\NA| lSh h\'lb'l'líN( lAl l.\.l'lz('l/\l

contbrmc o CzlSO que sc apresenrej no sentido de um Comportar- lidade dc cxccução». Como mL subtrai-sc csscncialmcnlc à in-
sc da pcssoa cm rclaçâo ao patopsíquico. Ora, a atitude da pessoa tervenção intcncionaL Assim é. com cfcimz cxpcrimcmcmos. no
pam com a doença anímica é também 0 ponto de arranque da plano da tcoria do conhcc1'n1cnto, cnlrcgar-nos cxclusivamcntc
logotcrap1'a. ao nosso scmimcnto dc evídência. c logo caircmos num progm-
Até aqui. tentamos cxpor a logotcrapia geral da neurosc com- sm in infinitum lógico. A isto corrcspondc - no plano psicopato-
pulsiva (mudança radical da pessoa em face da doença anímica), lógico - a compulsão du rcpctiç;1'o do ncurótico compulsivo ou.
e bcm assim a anal'1'se da existência especial da mcsma (interpre- par.1'lclamente, a sua mania obscssiva dc cxcogimn E não nos é
tação dcssa docnça como caricatura do homem fáustico). O que lícito hcsitar cm submctcr csta mania a uma crítica imancmc.
sc nos impõe agora é abordar a sua logoterapia especiaL tomada Vejamos. O últímo 0u. se sc prcfbm 0 primciro problcmn do
como correçâo da conccpção do mundo própria dos neuróticos ceticismo radical reFere-se ao «scntid0 do scr». Mas perguntar
que a sofrem. pcrlo sentido do ser carccc dc scntido, porqunnto o «scr» antc-
A ncurosc compulsiva «conduz» àqucla concepção do mundo cedc 0 «sentido». Com cfcit0, o ser do scntido já sc prcssupõc
cem por ccnto cxata, de que já falamos. Pois bemz ao passo que no problema do sentído do scr. O scr é, digamos assim, aquclc
Straus vê ncsta concepção do mundo simplesmente um sintoma muro para trás do qual nâo podcmos ir nunca, por muito quc
psíquíco, nós lcvantamos aqui o problcma de saber da possibili- questionemos. Contudo, 0 nosso pacientc prctcndía provar o
dade dc convertcrmos a referida conccpçâo num instrumento te- ser, qucria dcmonstrar dados intuívcis, imcdiatos; in1punha-sc
rapêutico, num instrumento que, portanto, sc possa aplicar con- fazer-1he comprecnder que era impossívcl «dcmonstmr» tais da-
tra a neurose compulsiva e, por isso mesmo, contra a concepção dos, c que, além díssm era dcsneccssário. pois scndo dados in-
do mundo própria do doente que a sofre. Analisemos, pois, csta tuíveis, eram de pcr si evidentcs. Para dizermos toda a vcrdadc, a
possíbilidade à luz de um caso cm que a conccpção do mundo sua objeção de que, apesar de tudo, continuava a duvidar, carc-
neurótic0-compulsiva estava ín mztu mzscmdzl Tratava-se de um cia de objeto. Efetivamente, à ímpossibilidadc lógica da dúvídn
rapaz novo, na última fase da puberdadc. Sob a aura da maturi- antc 0 scr ímediatamcmc dad(›, intuívcl c cv1'dcntc, corrcspondc
dade, tornara-se visíveL no caso, 0 «nascimento» da concepção uma irrealidade psicológica, na medida cm que tal modo de du-
do mundo neurótíco-compulsiva; mas, ao mesmo tempo, via-se vidar nada mais é que um palavrcado vazio. E. no Hm de contas,
a possibilidadc dc uma contrarregulação logotcrápica. o mais radícal dos céticos comporta-sc, não só no seu agir mas
O rapaz em questão scntia-se animado por um impulso fáus- também no Seu pensar, cxatamente como os que reconhecem as
tico para conhcccr. «Quer0 remontar-me à orígcm das coisas», leis da realidadc c do pcnsamcmo.
dizia clc, «quero dcmonstrar tudo; tudo ,o que scja imed1'ata- No scu livro sobrc psicoterapia. Arthur Kronfeld opina quc
mcnte evidentc; eu quero dcmonstrar, por excmplo, que estou o ceticismo se neutraliza a sí mesmo”7, o que é, aliás, opiniâo
vivendo». Já sabemos que o sentímento de evidéncia do neuróti-
co compulsivo é ínsuficiente; mas, na nossa opiniã0, também 0 (87) A auroncutrah'7_nção do ccticismo corrcspondcrin a autofundamcnlação du rucio~
308 normal sentímento de evidência representa uma autêntica «rea- nalismo (vidc ¡nfra). 309
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA m ANÁLISE EXISTENCIAL FSPECML

incorreta. Com CFEL cional do quc não quercr raciocinar dcmais» (obs. 26). 0 nosso
corrcnte, mas que nós reputamos
II
ñlosóñca 0 termo
se añrmaz «Eu duvído dc tudo»., sob Pacientc tinha, pois, quc atcr-se, dadas todas as suas dúvidas c
que
t0, na tCSC cm cxceto prCClsaJncnte cSta elucubraçóes Hlosoñcamente arquitcradas, à conhccida añrma-
apen as isto: tudo, diZiaz «Eu
«tudo» entende-sc- s e volta contra siQuando de modo algurm e
mcsma, Sócrates çáo de Goethez «Um cctícísmo atuante é aquclc quc. scm ccssan
dizen
tcsc. Portanto, nao .
sc c ontra . sc empenha cm dominar-se a si mesmo». A logotcrapia espccial
cstá m ' o lon e de
quería dlZCf era cxatamentc lStoz «eu da sua concepção do mundo, cética c ncurótico-compulsiva. te-
ult nadagSCl», - o que
sci (.') que
o nada saber». ria que leva'-lo, por conscgu1'ntc, a accitar estc tipo dc ccticismo.
sei quc não sci nada, exceto
ceticismo epistemológico, também E foi assim, com as armas que a logotcrapia lhc pôs nas mãos,
Como todo c qu alquer
ompulsivo se esforça por encontrar um que o dito paciente conscguíu desenvcncilhar-sc da sua conccp-
o ceticismo neurouco-c . .
scgura donde
um a base absolutamente çáo do mund0, tipícamente neurótica. Utilízando mcios racío-
P onto de Arquimedes,
possa constru1r, para, com uma m- nais, foi lutando por rcconhcccr o carátcr, em última anal'ísc
possa pa rtir, sobre a qual \
de vcrdade . uma I coerência lógica,
c c om irracionaL da existência. E assim chegou, por fim, a uma mu-
con dicíonal vontadc
do mundo. leto, CSta o homem a pro_ dança complcta da problemática originária. A princípio, o pro-
atingir uma concepção
cura de um começo
radical. O ídeal dc uma pbílosophia primfz blema dc um ponto dc partida no pensamcnto punha-se para
sentmtía, uma tese que se leg1- o paciente como procura de um axíoma teorétíco; agora, tudo
deste teor seria, como sua príma
Logo se hcompreeílde estava mudado: já se tratava de procurar a solução noutra esfera
timasse a si mesma epiuemologicamentc
exigência uma tese quo contcudo essencíalmente anterior a todo e qualqucr pensamento científíco
que só poderia satisfazer esta
de utílizar 0 pensamento e mesmo Hlosófico; numa esfera em quc brotam origínariamen-
próprio fosse a in1'1ud1vel ncccssidade
cm e apcsar de toda a sua
problematicidad6; uma te 0 agir e sentir do homem - isto é, numa esfcra existenciaL
conceituaL
a 51 mesma cxatameme na aquilo quc Eucken denominou «fato axiomático».
ídeia , portanto, que se sustcntassc
de.pender dos c0.ncei,tos
mcdida em que o fato de o pensamento Mas à luta e vitóría contra o racionalismo próprio e tâo carac-
ev1dentes) constltmsse
(de algo que não sa'o, portanto, intuiçócs tcrístico do neurótico compulsivo, assím descnvolvida e acabada
o seu conteúdo. por meíos racionais, tem que seguir-se algo que sirva de contra-
cor-
A semelhantc autofundamcntaçâo do racionalismo peso pragmátíco. Além do mais, porque o neurótico compulsi-
neste sen-
responde a sua autoneutralizaçáo. Ora, exatamerfe vo, com a s_ua concepção do munclo ccm por ccnto exata, não
tido, o que se impunha no tratamento logoteraplco daquele pretende apenas a segurança absoluta no conhecer, mas também
paciente neurótico-compulsivo era fazer com que, por um pro- no dccídir. A sua escrupulosidade excessiva represema no agir,
cesso racionaL se neutralizasse a si mesmo o seu raCIOnallsmo precisamentc como o scu excesso de consc1'entídade, um bandi-
exacerbado, latente no seu ceticismo e, em geraL em todos os mp. Ao seu ceticismo teorético corrcspondc um ceticismo étíco;
tipos de ceticismo. O processo racional a que nos referimosé às suas dúvidas quanto à validade do scu pensamento correspon-
uma «ponte de ouro», que temos quc estender ao cético. Poderla de uma dúvida sobrc a validade moral dos scus atos. Daí resulta
310 servir-nos, para o efeito, a seguinte tesez «Nâo há nada mais m- precisamente a índecisão tão característica dos ncuróticos com- 311
PSK ÍO IERAPJA lt SENTIDO DA Vlllàm ANÁLISE LÀ"'|\."1'EN(21AL IíSPHIlAI

pulsívos. Havia, por exemplo, uma pacicme quc andava conti- cspírito cumpre entendcr a dimcnsão dos fcnômcnos cspcciñ-
nuamcntc atormcntada pclas dúvidas sobre o quc tinha quc fazcr camcnte humanos; e, ao contrário do quc Faz o rcducíonismo.
em cada caso. As dúvidas foram aumentando de tal mancira que, a logoterapia recusa-se precisamente a rcduzir cssa dimcnsáo a
por últim0, já não podía fazer absolutamente nada. Nunca c0n- fcnômcnos sub-humanos, scjam quais forem, ou a dcdqua a
scguia dccidir-sc por alguma coisa; nem sequer nos casos maís partir deles.
triviais sabia 0 quc é que devia prefcrin Não podia decidir, por Pois bem. Na dímcnsáo espcciñcamentc humana, tcríamos
cxcmplo, se devia ír a um conccrto ou a um parque; e, em geraL quc localizar agora, cntrc outros, o fcnômcno quc consistc cm
acabava por ñcar em casa - depois dc esgotado 0 tempo quc lhe a existéncia se transccnder a si mesma, cm ordcm ao logos. Dc
restava para ir a uma coisa ou a outra. Notc-se, cntretanto, quc fat0, a Cxisténcia humana scmpre vaí além dc si mcsm1H scm-
a incapacidade para dccidir quc caracteríza 0 neurótico compul- pre se refere a um sentido quc a ultrapassm O quc nestc aspcc-
sivo não é a quc se refere, digamos, as\ decisóes ímportantcs, mas tO está em questâo para o homem quc víve a sua exísténcia,
precisamcmc a quc entra em jogo nas nínharias. náo é o prazer ou 0 podcr; mas também não sc tram da rca-
M.15' a escrupulosidadc excessiva do neurótico compulsivo, lizaçâo de si mcsmoz trata-se antcs da plcnitudc dc scntido.
lançando-se máo de uma logotcrapia especiaL também é susce- Daí que, cm logoterapia, falcmos dc uma vontade dc scnrido
tívcl de scr Conduzida à mesma autoneutralização a quc se podc (Wil/m zum Simz). Desta maneira, 0 scntido c'. ao Iado do cs-
reduzir 0 racíonalismo exaccrbada Boa razáo tinha Goethe p1'rit0, um dos Focos quc a logotcrapia cnvolvc, como sc Fosse
para añrmar quc «quem tem consciência não é nunca aquele uma elipse.
quc atua, mas sim e exclusivamentc aqucle quc obscrva». O ccr- À capacidadc de 0 homem se tmmcmdrr zz si mesmo acrcscc,
to é que também podcmos cstendcr ao neurótíco compulsivo entrctanto, a sua capacídade dc se distancidr de si mwma E é
escrupuloso uma «ponte dc ouro». Será para tanto sufícientc justamente esta capacidadc quc Caracteríza e constituí 0 homcm
aprcsentarmos-lhe uma tese complementan sc, rcalnwnte. um como tal.
indivíduo pode scr inconsc1'ente, ao agír dcsta maneira ou da- A antropologia pandetcrminísta póc cntrc parêntcscs a cap;1-
qucla. nada seria mais inconscicnte do quc não agir de maneira Cidade cssencialmentc humana quc 0 homcm tcm dc sc afastar
nenhuma. O homem quc não se dccide por nada c nada resol- de si mesm0. Mas o método da intençâo paradomL por mim
vc, dccerto quc toma, com a sua passiv1'dade, a mais inconscien- dcsenvolvido, usa-a amplamcnte. Tmta-sc dc uma tócnica I()go-
tc das decisócs. tcrápica bascada na sadía inHuência cxcrcidn sohrc 05 pacicntcs
quc soFrem de fobías, quando cstcs tcnmm dcscjar prccisunwntc
aquilo quc tanto tcmem. E é dcsta Forma quc a angústia dcixa
A TÉCI\'1CA LOGOTERÁPICA DA
1N'1'ENÇA'0 PARADOXAL de soprar nas suas velas.
O mcdo rcali7,a, aHnaL 0 quc temc; 0 dcscjo demasiado inten-
Quando se fala de logos, no contexto da logoterapl'a, o quc sivo impassibilita o quc tanto com clc sc dCSCifL dislo quc
312 sc tcm cm mcntc é o espírito e, para além dcle, o sentída Por sc scrvc a logoterapia, acompanhando e oricntando os pacícntcs 315
PSICOTERAPIA E SETTIDO
DA VIDA B) ANÁLISE EXISTILNÇIAL ESPECIAL

no scntido dc emprcendcrem precisamcnte aquilo quc até en- siste a sua manipulaça'o. Primciro, o pac1'cnte. é claro quc comc-
tão rcccavam, ainda quc, ev1'dentemcnte, só por alguns instantcsz çará a sorrir; não obstante, 0 médico tcrá que fazcr com quc o
«Hoje vou sm'r um pouco, para tcr um ataquc» - cis 0 quc, a u'- pacíente aplíque a intenção paradoxal logo quc surja a situação
tulo dc exemplo, tem que dizer a si mesmo um paciente, quando concreta de um caso de angústia; c, Hnalmcnte, tcrá quc fazcr
sofre de agorafobia. com que o doentc aprenda a rir-se na cara da sua angústia, dis-
Vejamos agora, através da ilustraçâo casuística que passamos tanciandO-se dcla dcsta mancíra, cada vez mais. G. W. Allport,
a cxpor, como conñgurar as coisas concretamcntc. Comecemos o psicólogo de Harvard, foí quem, pronunciando-sc uma vcz
por mencionar o caso de uma colega. Um dia, depois de ter a este rcspeito, dcclarou que o neurótico, uma vcz quc consiga
aprcsentado o método da íntençáo paradoxal numa confcrência sorrir de si próprio desta forma tão adcquada, já se encontra a
clíníca, recebí a carta de umãa ouvinte, a contar-mc que tinha caminho da cura. Eu, por mím, estou em dizer que no método
sofrido de uma tremurafobia (Tremorpbobíe), quc sc manifestava da íntenção paradoxal temos a veríficaçáo clínica deste aperçus
semprc que o professor de anatomia cntrava na sala de autópsias. allportíano.
E de fato era assím mesmoz a jovem colega começava sempre a
Nada como o humor podería conñgurar de uma mancira
tremer. Entretanto, dcpois de me ter ouvido falar, na conferên-
tão sadia a mudança radical em Face da condicionalídade e dos
cia, a respeito do caso de tremurafobia, havia tentado aplicar a
dados da existência humana. Há uma anedota que nos podcria
si própria, por sua conta, a mesma tcrapiaz c, de cada vez que 0
ajudar a ilustrar o signiñcado da atitude, no aspccto especíal da
professor aparecia para examinar a dissecaçáo, propunha-se esta
problemática da angústia. Em certa ocasião, durante a prímeira
tarcfaz «ch, chcgou a oportunidade dc começar com os treme-
guerra mundial, encontraram-SC um ofícial de alta patente e um
liques; vocês vão ver como eu sei tremer bcm de vcrdadc!» Uma
médico mílitar judeu. Estavam os dois a convcrsar, quando sc
vez encetada esta engenhosa tarefa - diZia-me ela na caxta -, a
dcsencadeou um bombardeamento. O oñciaL entâo, começou
tremurafobia e a trcmura começaram a ceder.
a caçoar do judcu C a espicaçá-10: «Mais uma vez, veriñca-se a
O desejo, o desejo sadio, passou a ocupar o lugar do medo.
superíoridade da raça aríana em relação à raça semítica; e... já
Ev1°dentemente, um dcsejo dcstes não se pode tomar como coi-
arranjou uma boa angústia38 para sc entrcter, náo é doutor?» Ao
sa séria e deñnitisz Trata-sc apenas de alimentá-lo por alguns
que o médico judeu retorquiuz «Quc eu tcnho medo, é cviden-
instantes. Bastam uns instantes cm que o paciente se ri de si
te; mas... isso da superioridade - como assim? Bem vê. coroneL
próprio ínteriormente para estar ganho o jogo. Ê que este riso,
que se o scnhor tivesse o medo (angústia) que eu tenho, já se
todo humor, cria distância, faz com que 0 paciente se distancie
tinha posto a andar há muito tcmpo». Neste «caso», trata-sc, cvi-
da sua neurose. E nâo há nada de melhor para fazer com quc um
dentemente, de uma angústia cm facc de uma realidade; não é
homem possa criar distância entre si próprio e o quc quer que
0 mesmo que nos nossos casos, cm que tcmos de lídar com uma
seja do quc o humor.
O efeito terapêutico da intcnção paradoxal depende de que
(88) Em alemãm a palavm Angxn quc é a quc aparccc no tcxlo. signiñcu Kunto angústia
314 o médico tenha a coragem de explicar ao paciente em que con- como mcdo (N .T.) 315
PSICOTERAPIA E ~TBFÚDO
DA VIDA lH ANÁl lSli lL\'l$'I'l^N(ÍIAL HPHIIAL

prcdisposiçáo ncurótica para a angústia. Scja como for, o que tória. conforme o tinham demonstrado os rcsultados favorávcis
importa é a atitude ou a modiñcação terapêutica dessa atitude. por clc obscrvados nos últimos anos cm caso dc fobia'”.

A intcnção paradoxal precisa daquilo que nós definimos O Dr. Hans O. Gcrz°1, dirctor clínico do Hospítal do Estado
como podcr de resístência do espíritom. Mas a sua mobilização de Connecticut (U.S.A.), dispõe dc uma dctalhada casuística dc
não é válida apcnas no sentido Íleróicm é-o também no scntido 24 pacientes afetados dc fob1'a, angústia c ncurosc compulsiva,
irânim cuja doença durou dcsdc duas scmanas até mais dc 24 anos.
Já que o humor se prende claramcntc com o nosso tema, c quc foram tratados com a intcnção paradoxaL Bascando-sc
não será despropósito, senão coisa bem justiñcada e permitida nas suas expcriências clínicas dc tantos anos, o dr. GcrL vê na
metodolog1'camente, Citar aqui um episódio que, de um modo íntenção paradoxal uma técnica cñcaL quasc cspccífíca para os
bastante plástico, se bem que drástico, caracteriza a inuersáo da casos dc ncurose con1pulsiva, de angústia c dc fobia. Com cstc
intmçám tâo típica, aliás, para a intenção paradoxaL O episó- método, mesmo nos casos maís gmvcs dc ncurosc compulsiv3,
dio a que me refiro é o seguintez Uma vez, um estudante ainda conseguc-sc proporcionar aos pacicntcs pclo mcnos um alívío
moço, tcndo chegado atrasado à cscola, apresentou csta descul- consídcrách Nos casos agudos, seria mantistamente um trata-
paz «Apanhei uma nevada tão forte na rua, que a cada passo que mento reduzido. Eis as palavras do dr. Gem «O que me é dado
dava, resvalava dois passos para tras'». A ist0, o professon todo afírmar é quc a aplícação dcsta técnica logotcrápica é rica cm
tríunfante, respondeuz «Se assim foí rcalmente, como é que con- resultados, mesmo nos casos crônicos e mais difíceis da ncurosc
seguiu chcgar à escola?» Só quc o nosso pequeno impostor era dc fobíãL As hístórias clínicas quc sc scguem poderiam dcmons-
mentiroso, mas não apoucado; e logo reconveioz «Muito sim- trá-lo perfeitamente» (lor. rit.).
plesz dei meia volta e voltei para casa...»
A. V., 45 anos de idade, Casada, mâe dc um tho dc 16 anos,
Socorrcndo-se da intençáo paradoxaL os meus colabora-
acusa uma história clínica dc 24 (.') anos de duração. Durante
dorcs Eva Niebauer-Kozdcra c Kurt KocourekVU conseguiram
csse pcríodo, sofrcu dc uma das síndromas mais graves dc fowbim
melhorar, a curto prazo, pac1'entes, mesmo ídosos, af'etados por
concretamentcz dc claustrofob1'.1', agorafob1'a, vcrtigens (Ho"/Je-
neuroses compulsivas 1'nveteradas, e a tal ponto que chegaram
nangst, mcdo das Al'turas), angústia dc elevador (Angst varAufàul
a readquirir a sua capacidade de trabalho. E o professor Dr. D.
gen), angústia ao atravcssar pontes. e qucjandas. Em virtudc de
Müller-Hegemann, diretor da Clínica Neuropsiquiátrica da
todas estas moléstias, foi tratada por vários psiquiatras ao longo
Univcrsidade Karl Marx de Leípzig, considerou cstas medidas
de tratamento psicoterápico como uma técnica altamente meri-
(9I) MctbadologicApproachcsianyr/¡ot/1em'p)'. m PAyCÍWIÍJHL 17, 554. l96_3.
(92) Zur Bebandlwlg pbabistber und zwrlngmruroliyvbrr Symlromt mit der anmlwxm
(89) karli ankL Íheoríe undnwrapic dcr Neuroãem Einführung in Logothcrapic Inlent1'an», segundo Franng Z. Psychothcn mch PsychoL |2. 145. l*)(›2. Tmtmsc dc
und Fjiszcnmnalysa Urban õl Sduvamcnbcrgy Viena e Innsbruck 1956. uma traduçào abrcviada dc um artigo originalmcmc cscrito c publicado cm inglcalu
nos Eslados Unidos, sob o título dc Jhc Trcatmcm uf Ihc Phobic und Lhe ()hscsu"~
(90) Ergcbnísse der klinischen Anwcndung der Logothcr;¡píe, Handbuch dcr
Ncuruscnlchrc und Psychotherapie cditado por Víktor E. FrankL Victnr E. Frhr. v. vc-(Íompulsivc Palienr Using Paradoxical lnzcntion scc. Viktor E. ankl~›. Jourml olw
Gcbsaucl c_l. H. SChuIlL 5 vol.. Urban & Schwnnenberg, Muniquc c Bcrlim 1959. Neuropsychiatry 3. 375. 1962. 31
316
l'$lCOTERAPlA E SENTIDO DA VÊIA B) ANÁLISE EXJSTENCIAL ESPECIAL

de 24 anos e, além do mais, rcpctidas vezes no sentído de uma zed»). Cinco mtses mais tarde, a pacicntc estava já intciramcntc
análísc manifcsta dc longo curso. A título de medida suplemcn- livrc de quaisqucr sintomas. Quando pcla primcira vcz, depozk
tar, foi intcrnada várias vczes, tendo rccebído, na ocasião, ele_ da pequma brincadeira de 24 an0.c, voltou a casa para um fím dc
trochoques, até quc, por fím, foi proposta uma leucotomia. Os scmana, sentia-sc Iívre dc qualquer reccío. Sc bcm quc náo total-
últimos quatro anos tcvc quc passa'-los numa clínica c, por sinaL mcntcz com cfeito, o caminhar pclas pontcs ainda Ihc dava bas-
todo o tempo numa seção nada sossegada! Entrcmcntcs, tanto tantc quc fazen de modo que, na própria noítc em quc rcgrcssou
os clctrochoques como o tratamento intensívo com barbitúricos, à clínica, meteu-se no carro do dr. Gcrz para dar um passcío por
fcnotiazina, monoamidoxidase e preparados dc anfctamína ñca- uma pontc c ter ocasiâo dc a palmilhar. «Então, vamos!, cxpc-
ram sem efeíta Fora dc uma área detcrminada à volta da camal rimente sentir angústia. tanta angústía quanto possívcl!» Eram
não sc podia mantcr cm pé. A dcspcito dc todos os tranquilizan- csras as palavras do médico. «Não dá!, não sínto angústía ncnhu-
tcs quc tomou, estava constantemente cm grande cxcítação. Da ma, não da', doutor.'» Era assím quc cla exprímia a sua rcaçáo.
mesma forma, um tratamento psicanalítico íntensivo de meio Logo a seguir, deram-lhe alta. Dc entáo para ca', passaram quatro
ano, executado por um analista cxperimentado, quando da sua anos e meio c, no círculo da sua família. nunca dcixou dc Icvar
cstadia na clínica, ñcou sem qualquer resultado. No día 1 de Mar- uma vida normal e feliL Uma ou duas vczcs por ano procura o
ço de 1959, 0 dr. Gerz tomou conta do tratamcnt0, emprcgando dr. Gerz, mas é apenas para lhc exprimir o seu rcconhccimcnta
precisamente o método da intenção paradoxaL Todos os medica- D. F., 41 anos de idade, casado, paí dc duas moças, sofrcu dc
mentos foram suspensos imediatamcnte e, náo obstantc, conse~ um «vácuo existencial» típico. Além disso, nâo conscguia escrever
guiu-sc suprimír, pczlo método desta vez cscolhido, um sintoma em presença dc outras pessoas scm comcçar a ñcar com trcmorcs
após o outro, uma fobia e outra. Em primeiro lugar, indícou-sc à imed1'atamente. Isto converteu-se num gravc bandimp para a sua
paciente quc desejasse colaborar, quc sepropusesse ñcar táo angus- vida profissionaL tcndo cm conra sobretudo quc não cra capaz dc
tiada quanto possíveL Em poucas semanas, já a paciente chcgava realizar, em prcsença dc outras pessoas, o seu trabalho mccâníco
a fazer tudo o quc antes nâo estava cm condiçóes de fazen aban- dc precisão. Em soc1'edade, nem sequer em capaz, por exemplo,
donar a seção, andar de clcvador c assim por diante - e tudo isto dc levantar um copo cheio. Isto, para náo dizermos quc era inca-
com o propósito firme de desmaiar, de ñcar 1'nconsciente, e de paz de dar fogo a um fumadonTcrapcut1'calnente, floe índica-
«mostrar (ao dr. Gerz) como ela era perfeitamente capaz de Hcar do que «demonstrasse mais uma vcz (aos circunstantes) quc era
paralisada pclo pâníco da angústiam No clevador, por exemplo, cxímío nos trxemores». «Mostrc-lhcs até quc ponto é capaz de se
pensava assimz «Veja, doutor, faço o mais quc posso para perder enervar e quanto café está cm condiçóes dc cntornar.'» Pois bemz
os scntídos e para sentír angústia, mas tudo é ínútilz simples- decorrídas três consultas, quasc quc não podíaz «Não é assim
mente, já nâo consígo como dantes». E começ0u, pela primeira táo fácíL já não consigo trcmer.' Já ncm consígo tcr rcceio disso!
vez depois de longos anos, a sair da clínica, para dar uma vol- Por mais quc teime, nâo vai.'» Eram csms as suas palavras. Final-
ta, com a intenção dc sentír mcdo, mas sem 0 conscguir rcal- mcnte, também pôdc scr tratado com êxíto o vácuo cxistcncial
.318 mente («constantly trying hard to become panicky and paraly- quc, aliás, lhe tinha provocado a ncurose noogênich 319
PSKÍOTERAPIA T
SENTIDO DA \'ll)/\ BJ ANÁLlSlt ILXINÍFENCIAL FSPECIM

A.S., 30 anos de idadc, mâe de quatro crianças, sofrcu de pois, além do mais, vcio-Ihc ncssc momcnto à Iembrança quc
cstados dc angústia pànica gravíssimos, mas sobretudo dc uma a sua irmâ morrcra com 24 anos c a mãc com 50. c ambas cm
contínua angústia cm Facc da mortc. Neste quadro, não se pode conscquência dc padccimcntos cardíacos. E, pclo visto, cstava-
entrar nos dctalhes do caso; baste-nos dizer, entretanto, que a -lhe reservada a mcsma sortc. Sobrcvcio um accsso dc suor c o
instruçáo para a aplicaçáo da intenção paradoxal correspondia, paciente pensava quc o fim estava próximo. A partir dcssa noitc,
no caso, às seguintcs palavrasz uDaqui em diantc, morrc-se de comcçou a obscrvar o pulso. Evidcntcmcntc. a angus'tia Fazia
ataquc Cardíaco pclo mcnos três vezes por día.'» O que é de notar com que periodicamcntc o atormcnuuscm palpitaçócs cardíacas.
ncstc caso é que, no fundo da neurose, havia um agudo conHi- As añrmaçócs do médico da fàmílim quc lhc garantia cstar pcr-
to marrimoniaL Mas, depois que um tratamento reduzido com feitamente sa'o, do ponto de vista orgânico, ñcavam scm cfcita
base na intenção paradoxal produziu um alívio imediato, logo a O que rcalmentc aconteccra, pelo visto. fora uma distorção mus-
scnhora S. ñcou em condiçóes de acabar com o rcferido conHito, cular intercorrcntc na caixa t0r'.m'ica, provocada pcla inclinaçáo
no dccorrer do tratamcnto psicotcrápíco. «Náo se quer dízer com com que se debruçara na banhc1'ra. Era cstc o clcmcnto dccisivo
z';to, bem mtendido, que a apliazçâo da intençáo pamdoxal exrluzz que desencadeara o círculo mnldito da .1'ngL'¡stia de expecmu'va.
a anzílise e o trammmto sério de eumtuais conflitos neuróticoL An- No decurso do tratamento logotcrápico, tudo isto foi obictado
tcs pclo contrário, é dc todo evidcnte que scmelhantes conHitos, ao pac1'ente, cxigindo-sc-lhc quc Hzcssc o possívcl por ativar dc
mesmo nos casos em que a intenção paradoxal foi acompanhada novo o ataque cardíaco; «para morrcr, ali mcsmo, dc um ataquc
de êxito, têm que continuar a ser tratados no sentido da psicote- de coraçâo». A reação do pacicntc nào sc Fcz cspcran riu-sc c
rapia tradicional 0_u no sentido logotcrápic0» (loc. cit.). respondcuz «Mas, doutor, tcntci c náo conscguí nada!». Posto
W.S., 35 anos de idade, casad0, pai de três ñlhos, procurou isto, foi convidado a proccdcr da mcsma forma scmprc quc a an-
o dr. Gerz por indicação do médico da família porquc sofria do gústia cstivcssc a ponto de surprccndé-lo. Finalmcntm a consulta
receio dc poder morrer dc um ataque cardíaco, especialmcntc acabou com a indicaçâo dc quc «fizcssc o possívcl c 0 impossívcl
por oca5'ião e em consequência de relaçóes sexuais. O paciente para sucumbir a um ataquc cardíaco pclo mcnos três vczcs por
foi examinado a fundo do ponto de vista orgânico; e 0 seu es- dia». Três dias depois, rcaparcccm - scm qualqucr sint0ma. Ti-
tado (mesm0 0 EKG) revelowsc normaL Quando o dr. Gerz 0 nha tido a sortc dc surtir nclc L'ÍC'-Ít0 a aplicação da intcnçâo para-
viu pela primeira vcz, cstava angustiado, tcnso e extremamcnte doxal. Ao todo, só três vczcs tcvc quc aparcccr para tmtamcnta
deprimído. Explicou ao dr. Gerz que, embora scmpre tivesse O certo é que, tanto antes como agom - isto é, dcsdc há um ano
sido nervoso c preocupado, sem maís, com a sua angústía, jamais C mcio a csta partc -, cstá Iivrc dc moléstías.
tinha experimentado um estado como 0 que no momento expe- P.K., 38 anos de 1'dadc, Casad(›, pai dc dois adolcscentcs, so-
rimcntasz Fez então 0 seguime relatoz um_a noitc, imediatamen- frc, há mais de 21 (.') anos, dc uma séric dc sintomas ncuro'u'co-
te após as rclaçócs scxuais, foi ao quarto dc banho para sc lavar. -compulsívos c angústia gravcs. O quc sobrcssaía cra o mcdo dc
Debruçou-se na banheíra e, de repente, scntíu uma dor violcnta dcgencrar em homosscxual c dc sc lhc tornar impossích de uma
.20 na regíâo do coraçã0. Isto provocou-lhe uma sensação de pânic0, vez para scmprc, víver cm socicdadc, por tocar as partcs gcnitais JZI
DA VIDA
PSICOTERAPIA E SENTIDO B) ANÁLISE F.XlSTENCIAL ESPECIAL

dc qualqucr índivíduo do sexo masculino quc estivcsse junto a gozar dc uma licença de férias!), contava clc ao dr. Gcn como
delc. No plano psiquiátrico, tinha-lhe sido diagnosticada já uma «se havia csforçado dírctamcntc» no trcm, para vcr sc entrava
esquizofrenia. Durante anos, o senhor K. tinha sido tratado psi- no pânico da angústia c, sobrctudo, como «andava dc um lado
mnaliticamente. Além disso, fora submctido tanto a uma far- para outro no compartimcnto, com a idcía dc apalpar o pênis
macotcrapia intcnsíva como a tratamento dc elctrochoque. Não de todos, um por um». E... qual foi o rcsultado? Da angu'stia.
obstante, nada lhe trouxcra qualquer alívio sensích Quando da nem falarl Pclo contrário, viagem c liccnça ~ tudo uma cadcia
prímeira consulta ao dr. Gem estava tenso, manifestamente agi- de resultados agradáveis. O pacicntc está intciramcntc livrc dc
tado e debulhado em lágrimas. «Há mais de 20 anos quc ando achaques e a sua vida ~ inteiramcntc também normalizada -
num vcrdadeiro infernoÍ Nâo falei nada disto com ninguém, e transcorre em paz, a todos os respcítos.
só a minha mulhcr o sabc; mas posso-lhc garamir que o único A. A., 31 anos dc ídade, casada, sofrc há 9 anos dc divcrsas fo-
alívio que tenho é dormir». O receio de vir a tocar o pênis de al- bias, cntrc as quaís sobressai uma agorafobia gravc. Finalmentc,
guém atingia o max'ímo da violéncia quand0, por exemplo, tínha o estado tornou-sc tão virulento que a paciente ncm scqucr com-
que ir a uma barbcaria. E, scmprc quc lhc sucedía uma coisa des- seguia sair de casa. Tinha sido tratada assiduamentc em clínicas
tc tipo, logo começava a imaginar-se, não só socialmente banido psiquiátricas e cm policlínícas universitárias, utilizando-sc no
e liquidad0, mas também na contingêncía dc pcrder a colocaçáo tratamcnto tanto a psicanálíse como o eletrochoquc c a farmaco-
que tinha. Havía ainda uma dúzia de tcmores compulsivos quc terapía. Entretanto, além de que nenhuma ajuda lhc prestaram
lhc infernavam a vida, mas que não é aqui oportuno detalhan esses meios, o diagnóstico classiñcou o caso como desfavorávcl
Em todo o caso, o bandicap quc lhe acarrctavam era tão imenso e pouco promctedon «Pois bem, o tratamento logoterápico, ou
que o pac1'cnte, por' exemplo, sentia-se impossibilitado de ir à seja, a aplicação da intenção paradoxaL nestc caso, corrcu por
vontade aondc quer que fosse. Poís bem, durantc seis meses, rea- conta de um dos meus assistentes - depois de eu o tcr instruído
lízaram-se duas sessõcs logoterápicas por semana. E os sintomas, na técnica frankliana - e durou ao todo nâo mais quc 6 semanas.
um após o outro, foram-se climinando. Quando - isto, só para Vencido este prazo, a pacicntc podia abandonar a nossa clínica;
salientarmos o detalhe mais importante - lhe foi «aconselhado» cstava totalmentc livre de quaisquer sintomas e assim continuou
que aproveitasse todas as ocasióes favoráveís - na rua, no restau~ pclos 3 anos que transcorreram dc cntão para ca'» (/oc. cit.).
rante, onde quer que fosse - para apertar 0 pênis de alguém, o sr. S. H., 31 anos de idade, era um caso muito semelhame ao
K começou a rir-sc - a rir também dos seus temores compulsi- último dos mencionados. Só que a sua ncurose iá durava havia
vos; c não foi precíso esperar muíto tempo para quc tais temores 12 anos (.'). Repctidos intemamentos cm clínicas e sanatórios,
deíxassem de o ímportunar. Mas, o maís impressionante da sua bem como as mcdidas de tratamemo de toda a espécie aí cfetua-
história clínica, é o relato que o paciente faz da primeira viagem das, tudo foi cm vá0. Por ñm, no ano dc 1954, rcsolveram fazer-
de trcm da sua vida, que, logo a seguir ao tratamento, se sentiu -lhe uma leucotomia, - mas sem resultado. O certo é quc, uma
em condíçóes de fazen Regressando das suas férias na Flórida vez aplicada a íntenção paradoxal, 0 seu estado melhorou em 6
(era a primeira vez depois de longos anos quc se tínha animado semanas. «Deram aJta à paciente na nossa clínica e, no dccurso 323
PSICOFERAPIA E TÍNTIDO
DA VIDA m ANÁLISP l.1\'l.\'1'l:N(Ílz\l l¡\.l'Í'(flAl

dc três anos c meio quc passaram dc cntão até agora, continuou tinha tido sorte, havcndo conscguido tudo quanto sc propu5cra.
íntciramcntc livre dc sintomas c moléstias» (lor. cit.). Scis scmanas dcpois, o marido da pacicnrc achava quc a sua mu-
Durantc o simpósio dc logotcrapia que sc organizou no Sex- lhcr saía dcmaís. Pouco após, foi dc automóch so7.inha, à casa
to Congresso Intcrnacional de Psicoterapia, o dr. Gerz referiu-sc do dr. GerL o quc implicava uma viagcm de uns 80 quilômctros
às duu histórias clínicas quc passamos a cxpor. de ida e volm. «Já posso guiar sozinha por toda a partc». dizia
A scnhora R. W. tem 29 anos e é mãe de três thos. Em con- cla toda orgulhosa. Quarro mcscs dcpoís de algumas tcntati-
scquência da Fobia que a acomcte há 10 anos, já foi submetida vas de tratamento bascadas na imcnção paradoxaL pcrcorrcu
muitas vezes a tratamento psiqu1'átrico. Faz 5 anos, teve que ser de Carro 160 Km até Nova York. passou pcla pontc dc Gcor-
conduzida a um sanatório, onde lhe aplicaram tratamento de ge Washington, pejo lúncl dc Lincoln; andou dc óníbus c dc
cletrochoquc. Dois anos atra,s'*, 0 dr. Gerz cncarregou-se de tratá- mctrô, percorrendo dc lés a lés o colosso quc é Nova York, c,
-la; c ñnalmentc teve que ser intcmada no hospital do Estado de para concluir a sua obra dc mcstrc cm matéría dc autossupcmção
ConnccticuL Dcpois dc lhc tereml dado alta, a paciente foi con- c libertaçáo dc todas as fobias, rcsolvcu subir dc clcvador até o
sultar um outro Colega que continuou a tratá-Ia com ps¡'canal'1'sc pináculo do mais alto edifício do mundo, o Empire State Buil~
durante mais dois anos. O resultado foi que a paciente aprcndeu díng. «Foi simplesmcnte maravilhoso», cxplicava cla. O marido,
rcalmentc a interpretar psicodinamicamente a sua neurose, mas por seu turno, garantiu ao dr. Gcrz quc «:1 sua mulhcr já náo cra
sem que a neurose tivesse sido solucionada. Quando procurou o a mesma e até sc cntrcgava com pralxcr às rclaçócs scxuais». En-
dr. Gem sofria de múltiplas fobíasz vcrtigcns (Ho"/Jmangst), an- trcmentes, a pacíente tcvc o quarto ñlho e vivc uma vída normal
gústia perantc a solidáo, em face das rcfeíçócs em restaurantes e, com a família. Já passaram mais dc 2 anos. scm quc qualqucr dis-
na verdade, cra por càusa da angústia quc vomitava e entrava em túrbio a 1'ncomodassc. O tratamcnto psicotcrápico foi auxiliado
pânico. E outras: medo de ir ao supermcrcado, de andar no me- durante certo tempo com Valium, cm doscs dc 25 mg por dia.
trô, dc se mcter em aglomcrados de gentc, de viajar sozinha de E agora, vcjamos o caso dc um pacicntc quc sofria dc neurosc
automóch de ter que parar com semáforo vermelho; e medo dc compulsíva. O senhor M. l.) é um advogado dc 56 anos, casado,
gritar ou blasfbmar na igreja durante a missa. Então. o dr. Gerz pai dc um rapaz dc l8, quc cstuda os últímos anos do Colégio.
índicou à paciente que começasse a desejar fazer exatamcnte Há coisa de 17 anos, mctcu-sc-lhc na cabcça «dc rcpcntc, como
tudo 0 que tanto receava. Assim, por exemplo, dcvia propor-se um raio que estoura em céu sereno. uma idcia Compulsíva, es-
sair com o marido c os amigos, ir jantar fora com eles, simples- pantosa»: teria reduzido em cerca dc 300 dólares a importância
mente «para vomitar na cara» das pessoas que a acompanhavam, de imposto de rcnda a pagar; c, porranto. tcria deñaudado o
e para lhes servir à mesa «a maior porcaria que se pudesse imagi- Estado, cmbora tivessc preparado a dcclaração e tudo conscicn-
nar». De fato, a pacicntc começou imedíatamentc a ir de carro ciosamente e com 0 max'imo rigor. «Não consigo livrar-mc dcsta
210 supermercado, ao cabelcirciro, a dcslocane ao Banco, «a ñm ideia, por mais que me esforcc», dizía o pacicntc ao dr. GCFL E
dc temar scr assaltada o maís possível pcla angústia», dc modo se vía pcrseguido pelo procurador do Esrado por causa da frau-
quc pudcssc vir depois, toda ufana, informar o médico de quc de, metido na cadcia, os jornais chcios dc artígos a seu rcspcíto 525
PSlCUleRAPLÂ E SENTIÍO
DA VIDA B)ANÁ1|SE LKINCTEN('IAI. L'\.|'l:(.'l^l

c a sua posição proñssional perdida. Pois bemz começou por um reaver o mcu dinhciro, um bom dinhciro, quc ntirei às Íuças
sanatório, onde o trataram primeiro por método psicotcrápi- daqucles senhorcs dc Londrcsmn E, cnñm. no scntido da imcn-
co c, cm seguida, com 25 elctrochoques; rcsultadoz nulo. Neste çáo paradoxaL comcçou a dcscjar o tcr comctido prccisamcmc
mcio tempo, agrav0u-se tanto o scu cstado que tevc de fechar o o maior número dc erros possíveis e a propor-sc comctcr ainda
escrirório. Em noites de insônia, via-sc forçado a dcbater-se com mais, a revolvcr todo o seu trabalho c a dcmonstrar à sua sccrc-
ideías 0bsessivas, que aumcntavam de dia para dia. «Mal me vcjo tária quc «clc era o homcm quc mais crros comctia no mundo».
lívrc de uma - dizia cle ao médico - logo outra mc sobrevêm»_ E o dr. Gcrz não duvída dc que a Complcta auséncia dc qualqucr
Começou a revisar constantemente tudo, mcsmo as rodas do apreensão por sua parte - apreensão que. evidcntcmcntc, não po-
scu automóch O que o atormentava especialmente era a ideia dia deixar de haver por trás das suas instruçócs - dcscmpcnhava
obsessíva de que os seus vários contratos dc scguro podíam ter no jogo um papel 1'mportantc. pois o paciente cstava agora cm
vencido scm elc ter reparado. Examinava tudo constantemcnte condiçócs, não apcnas de intender paradoxalmcnte para os objc-
c depois voltava a fcchar tudo bem fcchado num armárío acou- tivos propostos, mas dc formular as íntenções da maneira maís
raçado de aço cspecial; atava n vezes cada contrato com uma cor- humorística possíveL Deve dizer-se, cntrctanto, que para isto
da; c, ñnalmente, fez no Lloyd de Londrcs um seguro especíaL contribuía indiscutivclmentc o dr. GcrL quand0, por cxcmplo,
elaborado cspecialmemc para clc, c que deveria protegê-lo das cumprimentava 0 pacicntc, por ocasíão da consulta. d1'zcndo-lhc
consequências de não se sabe que erro que poderia ter comctido coísas deste gênero: «Mas como?! Scrá possível? Aínda anda por
na esfera da sua prática forcnsc, ainda que sem a menor preme- aquí à solta? Eu pensava que o scnhor já há muito tempo estava
ditação c inconsc1'éntcmente. Mas também csta prática forcnse por trás das grades. Aliás, já estive a folhcar os jornais, para vcr
sc arruinou cm breve, pois a obscssão da repetição tanto sc agra- sc aínda nâo diziam nada do grandc cscândalo que o scnhor
vou que o paciente não teve outro rcmédio senão se recolher à provocou». Ouvindo ist0, o paciente costumava desmanchar-se
clínica psiquiátrica de Middlctown. Chegara a ocasião de o dr. a rir, e procurava adotar, por scu turno, em medída crescente,
Gerz, mais uma vez, dar 0 sinal de partida ao tratamento com a esta atitudc irônica, analisando-sc ironícamente a si próprio c à
intcnção paradoxaL Durantc quatro mcscs, três vezcs por sema- neurose. Assim, por cxemplo, diziaz «Para mím, tanto faz, tudo
na, sucederam-se as entrevistas para aplicação da logoterapia. As me é indiferentez na certa, vâ0-me prender..., mas, que pode
fórmulas dc intenção paradoxal cuja utilizaçáo lhe foi recomen- aconteccr? Nada! Quando muito, a companhia de scguros vai à
dada, eram as seguintesz «Estou-me nas tíntas para tudo, que vá bancarrota». Faz agora mais de um ano que acabou o tratamen-
tudo à faval O perfeccionísmo, que vá pro díabo que o Carregue.' to. E o pacíentc, convcrsando com o médico, confcssa o que
Eu, cá por mím, acho formidável que mc venham prender, scrá passo a transcrevcrz «Essas fórmulas, doutor, isso quc chama dc
ótimo. Quanto mais cedo melhor.' Ter medo, eu!, das conse- imençáo paradoxaL comigo accrtou em cheio; atuou como um
quências dc um erro que me podia ter escapado? Ora!, então milagre, é o que eu lhc digo.' Em 4 mcses, 0 senhor conseguíu
o que têm que fazer é virem meter-me na cadeia - três vezes fazer de mim outro homcm. É claro quc, uma vcz por outra,
por día, nem mais nem mcnos.| Pelo mcnos, sempre conseguirei ainda mc vêm à cabcça os vclhos temorcs disparamdos; mas,
li SlzNTIDO DA \'ID¡\
PSKX )'1“b.'m_ípm B) ANÁLISE EXWIFNCIAL lLSPlzCIAL

sabe?, agora já estou preparado, já sei perfeitamente como mc em Londres, o dr. Gcrz salicntou quc 0 ps¡'cotcrapcuta. quc tc-
hei dc tratar!» E, rindo-sc, acresccntouz «E, sobretudo, uma coi- nha decidído aplicar a intcnçâo paradoxaL tcm quc scr pacicn-
sa, doutorz náo há nada mais belo do quc scr encarccrado com te e tenaL se efetivamente prctcndc alcançar bons rcsultados
tanto acerto c habilidade ao mesmo tempo...» por este caminho. Mas o êxito do tratamento bascado na in-
Quca logoterapia se pode levara cabo num prazo relativamente tençáo paradoxal depende, añnal de contas, do vcrdadciro do-
curto, é o quc se deduz de um informc de Eva Niebaucr-Kozde- mínio da técnica respectiva, por parte do terapcutaz assim, um
ra'” acerca dos resultados estatístícos do ambulatório psicotcrá- colega seu conhccido cnviou-lhc certa vcz uma pacicntc quc clc
pico por ela dirigído segundo os princípios da logoterapia e da vinha tratando pelo rcferido método há um ano c mc¡o, mas
análise cxístencíalz conforme consta desse informc sobe a 75,7% sem éxito. Tratava-se de um caso de agorafobia e daustrofobia.
a perccntagem de curas e melhorias, com uma média de oíto Pois bem: com o dr. Gcrz bastaram quatro scssócs para lcvar a
sessóes, sendo que o grau de melhoria aí mencionado dispensa, mclhoria a tal ponto quc a pacientc já abandonava a casa para
por supérHuo, qualquer tratamcnto ulteríor. H. O. Gerz explicaz ir às compras e percorria uma distância dc 30 quilômetros para
«O número de sessóes necessárias depende muito de saber há o consultar.
quanto tempo o paciente já estava doente. Pelo quc me diz a E, para terminar, o dr. Gerz apresentou os rcsultados estatís-
experíência, os casos agudos quc rcmontam a algumas semanas ticos quc se segucmz
ou mcses apenas, podcm-se curar perfeitamente entre quatro e Durante os últimos 6 anos, foram por clc tratados, pclo mé-
doze sessóes. Os pacientes com uma anamnésia de vários anos todo da intençâo paradoxaL 29 pacíentcs afctados de fobía e
precisam, em média, de duas sessóes scmanaís C, ao tod0, de 6 quc sofriam de neurosc compulsiva. Dos casos dc fobia, 22
cerca de seis a doze meses para convalescença. A este propósito, foram curados, 5 substancialmcntc mclhorados c 2 fícaram na
de resto, nunca insistiremos dcmasiado na importância que tem mesma. Nestes dois últimos, tratava-se indubitavelmente dc um
o sabermos abrír uma espécie dc pista do tÍpO de conduta apren- cfeito secundário de uma docnça. Quanto aos 6 casos de ncuro-
dido de novo pelo pacientez isto é, a pista ou roteiro para aquela sc compulsiva, observou-sc quc 4 ñcaram íntciramcntc curados
mudança radical quc se trace no sentido da intençáo paradoxaL e os dois restantes acusaram tal mclhoria que, em 3 anos, os
AfinaL náo é vcrdade quc a teoria behaviorista da aprcndiza- pacientes readquiriram por completo a capacídade de trabalho.
gem já nos ensinou o bastante para sabcrmos quc essa mudança Por sinaL nâo podcmos dcixar de anotar aqui quc a maioria dos
radícaL destinada a fazer descarrilar os rechos condicionados, casos eram c”rônicos - um deles já há 24 anos quc sofria dc ncu-
prccisa por sua vez dc quc lhc instalwsmos uns carris? Ora, para rose.' - e que, além do mai5, tinham sido submetidos a toda a
tanto, é preciso um certo rreíno» (loc. rz't.).\ espécie de terapias.

Por ocasíâo do simpósio sobre logoterap1'a, quc se realízou Apesar de tudo, continua-se a duvidar dcsta técnica, no quc
diz respeito à duração dos scus rcsultados. Mas cstc ccticismo
(93) Ofñzielles Protokoll der Gcscllschaft der Ãrztc in Wicn (Prot0colo oñcial da
carece de fundamcntoz com cfcito, prcscindindo daqueles casos
528 Associ.n;ã0 médica dc Viena). Wicn KJín. Wschr. 67, 152, l955. que, tendo sido tratados pclo método da íntcnção paradoxaL
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDI B) ANÁLISE EXISTENCIAL ESPECIAL

foram observados ao longo de muitos anos, de dczcnas de anos plc who may be supposed to bc cndowcd gcnctícally with an
até, scm ncles se veríñcar qualqucr retrocesso, ñcou provado, em overreactive autonomic system» (loc. cz't., pág. 463). Ora, con-
concxâo com a psícotcrapia behavíorista rcccntemcnte diñmdí- síderando essa basc constítucionaL a psicotcrapia não podcria
da por H. J. Eysenck, quc a ideia de que à chamada psícotcrapia ser senão de natureza sintomáticaz «Treatmem on psychological
sintomática necessariamcntc sc teriam que seguír, mais ccdo ou grounds can only be symptomatíc, since treatment of the pre-
mais tarde, outros sintomas, por a neurose, añnaL não ter sido disposition must ultimatcly bc by gcnctic or chcmical means»
curada, - ficou provado, dígo, que tal ídeia nada mais é que um (/oc. cit., pág. 24). Mas isto é mais uma razâo para se dizer que
preconceíto. Eís as palavras do própro Eysenckz «Thc notion has a tcse logotcrápica scgundo a quaJ importa muito destruir os
bcen acceptcd without proof in the Hrst place, and been perpe- mecanismos circulares secundários encontra a sua conñrmação
tuated through indoctrination»°4. E prossegue: «The fact that nos trabalhos dos psicólogos de oríentaçâo experimentalista, pu-
so-callcd symptomatíc cures can be achieved which arc long-las- incados por Eysenck.
ting and do not producc altcrnatíve symptoms argues strongly Só que o fundo behaviorísta, tanto na teoria como na pra'-
agajnst the freudían hypothesis» (/ac. rít., pág. 82). tica, man1'festa-se, bem vistas as coisas, no scntido de uma li-
Também nâo é só a psicoterapia orientada pelo método da mítação. Com efeito, também se verifica que tanto o proccsso
psicanal'ise que tcm êxítos a apontar. Isto valc sobrctudo para como o método da praxe negativa (K. Dunlap) ou a técníca da
a escola reHexológica. É patente, de rcsto, quc cstcs êxitos se íníbição recíproca Uosef Wolpe), nos tetmos em quc seus au-
potencíam, logo quie se arrisque a entrada na dímensâo maís torcs os recomcndam, têm uma serventia rclatívamcnte peque-
própría e caractcrística do homem, que é a dimcnsão espirituaL na logo quc esteja cm causa a angústía, ao passo que a inten-
«Ha' ncsre ponto uma vantagcm imponderável em não tratar os ção paradoxal assinala com razão o seu tríunfo, precísamente
sintomas mórbídos e neurótícos no mesmo plano, mas sim no nos casos de fobia, mesmo em se tratando de casos crônícos e
plano superíor e mais elevado da pessoa»° s graves. Ora, não é assim tão difícil cxplicar a razão por quc as
coisas se passam desta maneira. É que a psicoterapia perñlhada
Não vale a pena falar aquí de certa atitude nada crítcriosa,
pela psicoterapia behavíorísta não vai além do plano do psíco-
que, em face dos resultados obtídos, tomaram os autores psicoló-
lógico, para se adentrar na dimensão especifícamente humana,
gico-cxperimentalistas lançados por Eyscnck. O próprio Eysenk,
no espaço do noológic0; aferra-sc àqucla ímagem do homem
bem como os seguídores da sua sensata orientaçâo de pesquisa,
proveniente da psicologia que unilatcralmente segue o processo
náo ignora ncm desmente o que é conhecído e signiñcativo, isto
cxperimcntal c a orientação behavíorista e que Allport conside-
é, a predísposição constítucional para enfermidades neuróticasz
ra uma paródia da verdadcira imagem do homcm, uma cspé-
«Neur0tic symptoms tcnd to appear mosxt frequently in peo-
Cie de «machine modcl» ou «rat model». Por outro lado, é fácíl
de ver que uma atitudc como o humor, que só ao homem é
(94) Behaviour Therapy and thc Neuroscs, Pergamon Prcss, Nova York 1960, pág. 82.
acessíveL quc só à disposição do homem se encontra - ncnhum
(95) N. Petrilowitsch, Logotherapie und Psychiatr1'e, «Symposium on Logothcrapym
330 aprcsentado no 6.° Congresso Intemacíonal dc Psicotcrapia de Londres animal é capaz de rir -, de modo algum se pode reHetir sobre o 331
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA B) ANÁLISE EXISTENCIAL ESPECIAL

plano sub-humano do psicológico, poís, muito pelo contrári0, nal, o passo decísivo ultrapassa a intcnção paradoxaL porquanto
só transparcce no espaço espiritual dos fenômenos cspecifica- culmina naquilo que em Logoterapia sc dcnomina deríeexâw
mentc humanos. quer dizerz só se conseguc domínar a neurosc na medida em que
Opondo-sc à «deconditioning therapy» proposta por Wolpe, se ílumimzm e elabomm analitiazmente possíbilidades de sentido
Bjarne Kvilhaug°° e N. Petrílowitsch97 observam que a logote- concretas, cuja plena realização compete pcssoalmente aos pa-
rapía transcende - e leva os pacientes a transcender ~ o plano cientes, ímpondo-se-Ihes também existcncialmente. Valc a pcna
dos processos de aprendizagem e dos reHexos condicionados, reHetir sobrc a sábia advertência de Ernst Kretschmerz «É mister
precisamente na medida em que ataca os sintomas da neuro- fazer brotar na vida uma torrcnte forte e positiva que corra em
se a partir da dimensão dos fenômenos especificamente huma- direção a objetivos conformes à lei da personalidade. na água
nos, c não no mcsmo plano cm que sc apresentam; e assim, por estagnada que melhor proliferam os complexos: o que os arranca
exemplo - no seguimcnto da intenção paradoxal - mobilizando é uma torrente forte de água fresca» 99
contra a neurose aquela capacidade que o homem tem de se
«É claro que, em gcraL nâo se dcve interromper o tratamento
distanciar de si mesmo e que lhe é tão esscnciaL Ora, o que se
psicoterápico, impond0-se sempre a continuídade no trabalho
mobiliza no quadro da intenção paradoxal é exatamente esta
sobre a história da vida do paciente e a sua concreta disposição
capacidade para o humor, característica do homem.
de conHito. AñnaL a intenção paradoxal e, em qualquer Caso, a
Seja como for, seja qual for a dircção tomada - praxe ne-
logoterapia, não têm a menor intençâo de desbancar a psicotcra-
gativa, inibíção rccíproca ou intenção paradoxal -, o efeito da
pia feíta até à data, antes pelo contrárío querem completá-la» 100
psicotcrapia sempre sc traduz no sentido de uma ruptura dos
«Nã0 reputo oportuno lcvantar uma oposição entre a psicanálise
chamados «feedback mechanisms». Com estes mecanismos,
e a logoterapia. De resto, os resultados obtidos com a técnica
alíás, já nós coordenamos determinados tipos de reação neu-
da intenção paradoxal também se podcm entcnder e interpre-
rótica, descrcvendo-os e caracterizando-os como modelos de
tar, sem mais, a partír da psicanálise. Foí, alias', Edith Joelson
conduta neur0'tz'co-sexual, neuro'tim-compulsíva e neur0'tz'co-an_gus-
qucm primeiro se abalançou a uma tematíva desse gênero. Em
tiante que primam pelafúga à angu'stz'a, pela luta conmz zz obsessáo
todo o caso, bcm se pode afírmar quc as fobias suscetíveis de
e pela lum pelo prazerg8. Mas também não nos esquecemos dc
serem interprctadas como produto de agressóes reprimidas, e
mencionar um fato que se prende Com istoz o fato de que, añ-
precisamente por isso, podcm ser eliminadas se o pacientc for
estimulado - pélo método da intençáo paradoxal - a fazer exa-
(96) Klinisthe Erfabrungen mil der pamdoxen Inntentiom confcrência profcrida na
Associação Médíca Austríaca de Psicoterapia (Osterreichische Ãrztegesellschafr fumr tamente aquílo quc, pela sua angústia, costuma evítar; por ou-
Psychorherapie) em 18 dc Julho de 1963. “ tras palavras, se é encorajado a entregar-se, pelo menos simbolí-
(97) Úber dít SIellung der Logatberapie in der klinixchen Psychorherapin Die medizíniscbe
Welt 2790-2794, 1964.
(98) V. E. FrankL Grundrixs der Existmzanaylxe und Logotberap1't, Hrmdbutb der (99) Hypnase zmd 1'1"feànpz›rson, Z. Ps.ych0rhcr. mcd. PsychoL 1 l, 207. 1961.
Neuramzldnr mld PJytÍJotÍJerapin cditado por Víklor E. FrankL Victor E. Frhn v. (100) Hans O. GcrL Zur Behandlungpbobixchcr Imd zwzmgsnmrotischer Syndrome mit
332 Gebsanel c H. Schultz, 3 vols. Urban ôc Schwarzcnberg, Munique c Bcrlim, l959. der «pamd0xm lntentiom natb F›a'›1/</, Z. Psychothcn med. PsychoL 12, l45. l962. 353
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA B) ANÁLISE EXISTENCIAL ESPECIAL

camentc, as\ suas agressóes» (loc rít.)l°1. «Não obstante, é muito próprio organismo, convencendo-se de quc o organismo sc cn-
fácil de entender quc aqueles psiquiatras que passaram longos carrega de provocar incondicionaJmente o sono de quc também
anos a formar-se no método psicanalítíco só muito raramente incondicionalmcnte carcce.
consegucm dominar a sua prevmçáo contra a técnica frankliana, O dr. Hans Joachím Vorbusch, da Clínica Psiquíátríca da
convencendo-sc por cxperiência própria da cñcácia do método Vanderbílt Univcrsity de Nashville, Tennessee (USA), numa scs-
logoterápic0. O certo é que o espírito acadêmico manda-nos são da Associação Médíca austríaca dc psicoterapía, aprescntou
examinar sem preconceitos todas as possibilidades terapêuticas um informe sobre as suas experiências com a intenção parado-
que se nos ofcrcçam Ora, isto vale também c sobretudo para o an, aplícada a casos graves e crônicos de ínsônia. Num só ano,
método da logoterapia, c especialmentc para a intenção parado- c no prazo médío dc uma semana, conscguiu normalizar o sono
xaL tanto mais quc foi concebida de antemão, não como uma de 33 dos 39 casos em que os pacientes já há 10 anos sofríam de
espécie de substituto, mas sim como complemcnto da psícote- distúrbios do sono. Os pacientes referídos no informe já tinham
rapia até hoje praticada» (/oc. cit.). sido tratados rcitcradamcnte sem êxíto, e em metade dos casos
Qucm se encontra numa angustiada expectativa durante tínha-se tentado a aplícação exprcssa de medícamentos. Vale a
uma noite de ínsônía, é perfeitamente comprecnsível que queira pena reproduzir aqui doís dcsses casos, extraídos da casuística do
adormcccr; mas é precisamente o fato de o querer o que não o dr. Vorbusch
deixa sossegar nem conciliar o sono, pois nada faz tanta falta O primeiro dos pacientes era um jornalista de 41 anos de
para adormccer como a distensão, prcssuposto do sono. Daí, idadc, alcoólico desdc os 20, ainda que não tivessc adquirido o
o malogr0. Assim, também aqui, no caso da psicoterapia dos vício por causa das insônias. Repetidas vezes teve que scr hos-
distúrbios do sono, 0 que se torna necessário é quebrar o circulus pitalizado por delírium tremenL Nos três últimos anos, já nâo
Uitiasus da angústia de expectativa. E, mais uma vez, a maneira podia exercer a sua proñssão. Uma vez íntcrnado, reagiu com
mais rápida e simples de o conseguirmos é rccorrer a uma inten- sonoras gargalhadas à primeira insinuação dc uma íntenção pa-
çâo paradoxaL dcsviando o vento que sopra nas velas da angústia radoxaL tachou dc doido o dr. Vorbusch («you are crazy»), che-
de expectativa especíñca dos distúrbios do sono. No caso em gando a mostrar-se-lhe agressívo. Perante a insistência do médi-
apreç0, o que é preciso é que 0 docnte se proponha diretamente co, la' se resolveu por ñm a experimcntar uma vez («to gíve it a
cfetuar um exercício de distensão, pura e simplesmenta em vez triaJ»), mas sem fazer qualquer segrcdo de cstar convencido de
de tentar dormír. Por isso, temos de fazer com que confie no quc, sem mcd1'came\ntos, não conseguíria nada. Posto isto, foi-
-lhc indícado quc durante a noite fosse passear pclos corredorcs
(101) O DL Glenn O. Golloway. da Clínica Psiquiátrica de Ypsilami Michigan, USA, e pelo jardim da clínica de Nashville ou entáo que trabalhasse,
disse uma vcz o seguin[e: «Parad0xical intention is aimed at manipulatíng the detknscs
and not at resolving the undcrlying conHicr. This is a perfectly honorable strarcgy and
isto é, que escrevcsse artigos. Após uma semana, se tanto, o pa-
exccllent psychotherapy. It is no insult to surgery that ít docs not cure rhc discased gall ciente conscguiu dormir três horas seguidas, pcla primcira vez
bladdcr Íl rcmoves. The patient ís bettcr off Similarly, thc various explanations ofwhy
paradoxical intention works do not dctract from paradoxical intcntion as a successful
em três anos, e, dccorridas mais duas semanas, pode-sc dizcr que
334 technique». tinha o sono normalizado. Mais tarde, no decurso do tratamen- 335
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA B) ANÁLISE EX'ISTENC1AL ESPECIAL

to subsequcntc de base psicoterápica, que penetrou mais fundo, do mais de um ano incapacitado para o trabalho, pôdc rctomar
ultrapassando os distúrbíos do sono, mcramente sintomáticos, o seu trabalho proñssional logo que lhe deram alta na clínica dc
do caso presente, o pacíente deu a entcnder ocasionalmente que Nashville; e contínuou desde então livre de quaisquer moléstías,
tinha duvídado tão seriamente da competéncia médíca do dn conforme o atestam os repetidos controles.
Vorbusch, quc chegara a pensar em jogar com as suas relaçócs Não queríamos deixar de mencionar também as experiéncias
políticas e usar de toda a sua inHuênCia para removê-lo do posto especiais colhidas por R. Volhard c D. LangenIUZ com a aplica-
de díreção que ocupava na clínica. Nestc meío tempo, a nor- çâo do método da intenção paradoxal: «A intenção paradoxal -
malização do sono tínha-o impressionado tanto quc durante dizem cles - tem sido aplicada com muíto êxíto sobretudo aos
a permanência na clíníca, indicada ulteriormente em atenção estados de fobía, à angústía de expectaríva c à ínsuHciência se-
ao tratamento do alcoolism0, transformowse no mais zeloso xuaJ». São interessantes igualmente as informaçócs do profcssor
propagandísta da intenção paradoxal entrc os pacíentes que o Dr. Hans Joachim Pr1'll“”, da clínica feminina da Universidade
acompanhavam e, no grupo de alcoólícos submetidos a trata- dc Wu"rzburg. É ele que nos informa quc, nos casos cspccíficos
mcnto psícotcrápíco, chegou a ser uma fígura-chave. da sua clínica para mulhcres, «tem sido útil a intenção para-
O scgundo dos casos aludidos é o de um trabalhador de 49 doxal». Uma pac1'entc, examinada pelo rcferído professor, não
anos que, em consequência de um laríngo-Cspasmo psicógeno, já abandonava a cama há já quatro meses, a ñm de engravidan
por duas vezes tínha sido submetido a traqueotomia. Logo que, O scu comportamento em matéría de concepção tínha-se tor-
após a prímeíra traqueotomia, foi retirada a cânula, o paciente nado, com o correr dos anos, tão obstinado e caprichoso, que
caíu numa angústia de expectatíva tâo cheia dc pânico perante a o professor Prill104 lhe disse, no sentido de uma intenção para-
asñx1'a, que teve que ser submetido realmente a outra interven- doxaL que nos próximos tempos fícaria estéríl e primcíro tinha
ção idéntica. Em vísta da depressão reativa e das consecutivas que adquirír melhor forma Hsica. Os descjos írrealizáveis que
ídeías de suicídio, íntemaram-no na clínica de Nashv1'lle. Aí, a tínha, de que lhc nasccsse uma criança viva, desvaneccram-se
cânula náo majs figurou entre os meios clínicos. Não obstante, e inteíramente. E, depoís de uma reaçâo afetíva grave, foí fazer
enquanto a cânula permanecia in Jz'tu, produziram-se uma série uma viagem para se distrair: dali a umas duas semanas, já anun-
de acessos dc asfíxía e 0 estado de angústía foí crescendo. Che- cíava que tinha fícado gra'vida».
gou, então, o momento da ofcnsíva com a íntençâo paradoxaL
Para terminar, gostaria dc aludír, a título de jocosidade, ao
Posta de lado a cânula, o dr. Vorbusch índicou ao paciente que
seguinte casoz na sua dissertação «Etiología e terapia do tartamu-
provocasse «um accsso perfcíto de asñxia», o que foi repetido um
do, especialmcnte com base no método da intcnçâo paradoxal
par de vezes. O resultado não sc Fcz esperar. Poucos días depois,
já se podia renunciar à cânula deñnítivamente. Posto isto, ata-
(102) Z Pyxrhotberzzp med. Pysrhol 3, l. l953.
cou-sc a ínsônia grave e crônica, desta vez também com a ajuda
(103) Z. Pysthotllemp medPsyrhoL 5, 215, 1953
da intençâo paradoxaL E também a este rcspeíto se obteve um (104) Psydwmmatishe Gyna"/eo/ogie, Urban ÕL Schwancnberg, Munique e Berlím.
336 bom rcsultado em poucos dias. O paciente, depoís de ter passa- 1964, pág. 160. 337
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA

segundo V. E. Frankl» (Clínica Neuropsiquiátrica da Univcr-


sidade de Friburgo em Breisgau, 1960), Manfred Eisenmann
cíta «um excmplo ímpressionante de aplicaçáo espontânea da
intenção paradoxal», proporcionado por Goeppert: «Um pa-
cícnte tartamudo ínforma que, uma ocasíão, numa reunião de
socicdadc, quis contar uma piada dc tarramudo; mas, quando
ia imítar a tartamudez, começou de repente a falar com toda
a Huência, a tal ponto que um dos convidados o interrompeu
bruscamentc com csta obscrvaçáoz “Desista, você não conscgue
3. Psicologia da melancolia
gaguejar nada!"»
Tenho ainda cm mcu podcr um memorando pcssoal que devo
ao dirctor da Clínica Neurológica da Universidade de Mainz, o As psicoses endógenas também podem ser objeto de tra-
proí dr. Heinrich Kranz. Não quería deixar de anota'-lo aqui, tamento logoterápico. Evidentemente, o que se submcte a trata-
pois mc parece nâo menos digno de atenção. Eis o texto em que mento nessa hipótese nâo são os componentes endógcnos, mas
o professor Kranz mc Comunica o casoz «Ha' anos, quando eu sim os componcntes reatívos, psícógcnos, que possam estar em
ainda trabalhava em Frankfum muito antcs dc conhccê-lo e sem jogo no caso concreto. Ao analisarmos a atítude espíritual do
fazcr aínda a mcnor idcia do que fossc a sua intenção paradoxaL homem cm facc do dcstino anímico que se lhe depara sob a for-
veio tcr comigo ao consultórío um cstudante de ginásio (creio ma de uma enfermidade psicótica, já nos referimos ao momento
quc do 3.° ano) quc gaguejava duma maneíra assustadora. Nis- patoplástico que, ao contrário do momento patogênico, cum-
to, nâo havia nada de especiaL O engraçado do Caso foi o que 0 pre conceber como resultado de uma Configuraçâo do acontc-
moço me declarou depois : d1'sse-mc quc a única ocasião da sua ccr psicótico da doença. A essc propósito, citávamos também o
vída cm quc não tínha conseguido gagucjar, por mais csforços exemplo de um estado de depressão originariamcnte endógeno
quc fizcssc, tinha sido numa festa escolar que os da aula delc em que, além de ser possível um tratamento psícoterápico bem
prepararam para um sarau dcdicado às famílias; num dos núme- como a aplicação de medicamentos, também 0 era, tendo cm
ros da fcsta, aparccia em cena um tartamudo e, cvidentemcnte, Conta 0 fator psico'geno, uma autêntíca Iogoterapia. E a ñnalida~
ninguém como elc poderia desempenhar o papeL O certo é que de desta logoterapia era a mudança total da atitude do pacientc
ufracassou”: todo o repertórío lhe saía da boca Huentemente, a para com a doença tomada como destin0, acompanhada de uma
dcspcito dc muitas tentativas e ensaíos; e tiveram que dar a ou- viragem radical na sua atitude pcrante a vida, que dcveria enca-
tro o seu papel!» rar COnIO uma missã0.

E claro que na «patoplástica», uma vez efetivada, já se encerra


uma tomada de posiçâo, mcsmo antcs de qualquer modifícação
338 logoterápica da posiçáo espirítual cm que o indivíduo se posta 339
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA B) ANÁLISE EXISFENCIAL ESPECIAL

diante do acontecer psicótico da sua enferm1'dade, - na medida como se me tivesscm atírado para o vazio: porquc há temporadas
cm quc, bem entendido, é possível tal modificaçã0. Neste semi- em quc me é ncgada a própria dor». Temos aquí, portanto, os ín-
do, a conduta manifesta do doente psicótico é também, cm cada dícios dc uma melancolia ancstésica. A pacicntc prosscgue com
caso concreto, mais do que mero rcsultado de uma afecção fataL a sua descrição: «Ncsta tortura, cu chamo por Dcus, que é nosso
«críatural»; é ao mesmo tempo a expressão da sua atítude espiri- Pai. Mas Ele Hca calado. Para falar verdadc, só queria uma coisaz
tual. Esta atitude é livre e, como tal, subordína-se à exigéncia de morrc-r, - hoje mesmo, se fossc possível». Segue-se, porém, uma
ser correta, ou, conforme o caso, à exigêncía de vir a sê-lo. Neste viragem brusca: «Sc eu, graças à minha fé, náo tivcsse consciên-
sentid0, a própria psícose é, afínaL de um modo ou de outro, a cia dc que náo sou dona da minha vida, com certcza quc já teria
prova que preserva o humano, que protege o que há de humano acabado com ela muitas vezcs». E depois, tr1'unfantc, continuaz
no psícótico. A patoplástica que o psícótico experimenta, a par- «Nesta fé, começa a dcsvanecer-se toda a amargura do sofrimen-
tir do que tem de humano, é um teste para o quc há de humano t0. Realmente, qucm pensa que uma vida humana tem que scr
nele. O resto de liberdade que continua presente na psicose, na semprc um andar de êxito em êxito, asscmelha-sc a um tolo que,
atitude lívre do doente em face dela, possibílita-lhe, em cada postando-se diantc duma obra arquitetônica e vendo cavar a fun-
caso, a realizaçâo de valores de at1'tude. O que a logoterapia faz é do os alícerces, começa a abanar a cabeça, maravilhado de que
chamar a atenção do paciente para essa liberdadc que lhe resta. dali precisamente vá emcrgir uma catcdraL Dcus constrói para
Enfím, mesmo na psicose e apesar dela, entreveem os doentes a elc um templo em cada alma humana. Em mim, começou agora
possibilidade de realizarem'valores, ainda que a realização, no a abrír os cavoucos para os alicerces. Portanto, a mínha missâo é
caso, seja mera realizaçâo de valores de atitude. apenas estaz oferecer-me voluntariamente às suas enxadadas».
Na minha opínião, há um certo grau de líberdade próprio da Ora bem. O que vamos tentar nas páginas que se segucm é
existência psicótica. Na reaJidade, o homcm que sofre de uma compreender, à luz da análíse existenciaL a depressão endógena,
depressão endógena pode ainda rcsístir a essa depressáo. Seja-me procurando conceituá-la como modus da existêncía. O prímeíro
permítido ílustrar o quc acabo de dízer com um extrato duma dos sintomas, o que aparece em prímciro plano, quando se faz a
história clínica, que considero um autêntico document Íaumaín anal'ise exístencial especial da prcssão endógena, é a angústia. Do
A paciente era uma carmelita que, no seu diário, descreve o curso ponto de vista somático, a depressão cndógena reprcsenta uma
da doença e 0 tratamento que, note-se bem, não era pura logo- baixa vitalz nada menos, mas também nada mais do que isso.
terapia, mas também tratamento farmacoterápica Limito~me a Com efeito, a baixà em que se encontra o organismo do pacien-
citar uma das passagens desse diário. «A tristeza - dizem as ano- te afetado de depressão endógena está muito longc dc explicar
taçóes da freíra - é 0 meu companheiro constante. Não me sai todos os sintomas da melancolia. Nem sequer explica a angústia
nunca da alma, como um peso de chumbo. Onde estão os meus melancólica. Esta é predomínantemente angústia da morte e da
ideais, toda a grandeza, toda a belcza, todo 0 Bem, que era o consciêncía. Todavía, só poderemos compreender o sentimento
único Hm de todas as minhas aspíraçóes? Tenho só tédío a pren- de angústía do melancólico e a sua vivência de culpa se os con-
340 der-me 0 coraçâ0, um tédio em que só me apetece bocejar. Vivo cebermos como um modo do ser-homem, como uma modali-
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dadc da existência humana. O certo é que a mera baixa vital nâo imaginarz portanto, é porque nclas toma parte csscncial o quc é
nos explica nada - c añnaL como se sabe, nunca foi explícada humano. Isto é: o acontccer organicameme condicionado, quc
até hoje sequer csta baixa vitaL O prímeiro clemento a tomar está latente na psicose, é sempre transposto para o propriamentc
possível a vivência da melancolia é um clcmcnto transmórbidoz humano, antcs de se convertcr em vívência psicóticaz tcm quc sc
só o humano transforma a baixa primariamente vital no modo transformar necessariamcnte em tcma humano.
melancólico da vivência que, precisamente, é um modo do ser- Ora bem, no caso da depressão endógena, a insuñcíência
-homcm. Ao passo quc o mero morbw de uma depressão endó- psicofísica é cxperimentada pelo homem dc um modo único
gcna produz cxclusivamentc simomas tais como a inibição psi- quc só ele pode cxperimcntar, por ser exclusivo da sua naturcza:
comotora ou secretória, a Vivência da melancolia é já o rcsultado como tensão entre o seu ser característico e o seu característico
de um debate do que no bomem hzí de bumano com o que nele bá dever-ser. O indivíduo que sofre de deprcssão endógena experi-
também depatológím É por isso quc, embora de algum modo se mcnta naturalmcnte, como supradimensionaL a dístância quc
possa falar de estados de depressão (mcsmo com excitação an- medeía entre a sua pessoa c o seu ideaL O que aí succdc é apc-
gustiantd nos animais, com base numa baixa orgânica, nem de nas istoz a baixa vital faz sobressair aqucla temáo da existêntia
longe poderíamos imaginar um animal com a autêntica depres- que é própría da existência humana enquanto tal; o mntraste
são endógena do homem, caracterizada por sintomas como sen- entre ser e dever~ser sofre aqui um aumento por mcio da vivência